ABC Da Paixão V.2
Autora: Yumi
Status: Em Andamento
Revisada por: Juh
Categoria: McFly Fics
Sub-Categoria: Romance/Drama -
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Capítulo I - Love's starting.
e se encontravam na sala de televisão de , com seus dez anos de idade e roupas escolhidas pela mãe. pensava se deveria perguntar para o que tanto queria. Por que não?
- ? - chamou.
- Hrm... - murmurou sem tirar os olhos do video game.
esperou até que resolvesse dar uma pausa para falar com ela.
- Você já se apaixonou? - perguntou olhando nos olhos de , com certa inocência que só existe no olhar de uma criança.
- Não, por quê? - respondeu e pousou os olhos no controle de seu Super Nintendo.
- Não sei. Você nunca teve vontade? Quer dizer, como nos filmes... - disse observando o jardim através da grande janela da sala.
- Eu gostaria, mas... Garotas? A única menina com quem eu realmente converso é você! - disse fazendo cara de nojo.
- Quer se apaixonar por mim? - perguntou.
- Claro, mas como se apaixona? - perguntou confuso.
- Hrm, você sente borboletas no estômago, segundo minha mãe... - disse pensando.
saiu correndo da casa de . Por alguns segundos, se assustara, mas percebera que não gostaria de se apaixonar por ela. Olhou para o video game. Por que não jogar e esquecer a mágoa?
Dez minutos depois, ouviu a porta se abrindo, olhou assustadamente para trá e viu com algo na mão.
- Achei que você tivesse ido embora... - disse encarando os olhos de .
- Claro que não, pequena... - disse sorrindo e a tranquilizando. Embora fosse apenas alguns centímetros na época, os quais viriam a ser muitos com o passar dos anos, costumava chamá-la de pequena.
- O que você tem aí na mão? - perguntou desconfiada.
- Ainda quer as borboletas no estômago? - sorriu abrindo uma frestinha na mão para que pudesse ver as borboletas.
- Aonde que elas vão?
- Pro nosso estômago! - sorriu.
- Ah, sério? - teve nojo.
- Quer se apaixonar? Então come... - disse dando uma borboleta para .
- No três! - disse.
- 1, 2, 3! - Contaram juntos.
As borboletas entraram rapidamente na garganta de , porém na garganta entalou, podia sentí-la se debatendo. Não queria mais aquilo em sua boca, mas estava certa de que queria se apaixonar por . Engoliu violentamente a borboleta e, quando abriu os olhos, pôde ver a cara de nojo de .
- Próxima etapa? - sorriu.
- Se tiver que comer lagartas, eu desisto! - disse seguindo para fora de casa.
Capítulo 2 - Find the love.
andava alegremente pelo jardim, enquanto esperava que voltasse da cozinha com a limonada que sua mãe tinha feito.
- O próximo passo? - Ouviu a voz de .
- O coração tem que acelerar... - disse se jogando no chão de olhos fechados.
- Bom, nós podemos correr! - disse se sentando ao lado de .
- Não, eu vou ficar suada... - reclamou e abriu os olhos.
a olhou durante algum tempo.
- AHHHHHHH! - Ele gritou.
- Quê?! - levantou em um pulo.
- Nada, era só pra você se assustar e seu coração acelerar. - sorriu e começou a correr pelo jardim.
- As pernas bambas. - sorriu indo em direção a casinha na árvore.
A casinha na árvore tinha sido construída quando e tinham apenas três anos de idade. O pai de queria dar-lhes um lugar para brincar, mas que não atrapalhasse a mãe de no dia-a-dia. Eis que surgiu-lhe a idéia de uma casinha na árvore, não era muito alta, apenas um metro de altura do chão. Lá dentro não tinha muitas coisas, apenas o necessário para que eles não se chateassem rápido.
terminou de subir a escadinha e ajudou a entrar.
- Me ajuda a pular! - disse começando a pular.
começou a pular incessantemente, enquanto pulavam eles riam. observava a garota sorrir e sorria de volta.
Eles pararam de pular. O coração estava acelerado, a borboleta revirava no estômago e as pernas bambeavam.
- Agora é o beijo? - perguntou.
- É... - disse baixo.
Os dois se aproximaram lentamente e deram um selinho, que durou alguns segundos, e se separaram.
- Sentiu alguma coisa? - perguntou.
- Só que eu vou vomitar... - disse fracamente e saiu correndo para dentro de casa.
correu atrás, sua barriga revirava. Pôde ver lavando a boca na pia e, logo depois, se pôs a vomitar na privada.
- Que nojo. - reclamou ao lavar a boca na pia.
- Se apaixonar é muito nojento! - disse secando a boca.
- Eu nunca mais vou me apaixonar... - prometeu.
- Nem eu!
- Vamos fazer um pacto! - disse cuspindo na mão. - Sela aqui.
fez cara de nojo.
- Ah, esqueci que você não é um garoto. - disse sem jeito.
- Tudo bem... - sorriu.
- Que tal um beijo? - sugeriu. - Não é lá essas coisas, mas...
- Certo! - disse dando um selinho em . - Quer tomar limonada? - Sorriu.
- Eu deixei a jarra lá fora. - disse e foi em direção ao jardim.
- Video game? - perguntou e assentiu.
Capítulo 3 - Eleven.
Um ano havia se passado, e entraram no ginásio. A velha inocência perpetuava em seus corações. East Compton School era onde estudavam e, embora não parecesse, o inferno começaria ali.
e entraram no colégio de mãos dadas e iriam direto para a secretaria pegar seus horários, se não fosse pela loira asquerosa que parou diante deles.
- Vocês são novos aqui? – A loira perguntou e sorriu. – Meu nome é Britney, sejam bem-vindos ao East Compton!
- Obrigada, mas nós temos que buscar nossos horários, com licença! – disse rispidamente e empurrou a menina para o lado a fim de poder continuar a caminhada até a secretaria.
- Você não precisava ser tão grossa... – disse quando estavam um pouco mais distantes.
- Eu não gostei do jeito dela. – disse simples.
Ficariam juntos apenas na aula de português, pelo menos naquele dia, então se separaram e foram até suas respectivas salas.
se perdeu em meio as milhares de pessoas que circulavam nos corredores, teria que chegar a sala 14B, mas como a acharia seria um problema.
Sabia que a escola ficava dividida em três prédios, estava no primeiro prédio, o próximo deveria ser o B, então log...
- Ai! – gemeu ao cair.
- Desculpa, eu não deveria correr e... – Ouviu uma voz masculina e olhou para o rosto do menino.
Cabelos loiros, olhos azuis esverdeados...
- Jesse Spencer. – E estendeu a mão.
agarrou a mão do garoto e se levantou.
- ... – murmurou encantada com o garoto.
- Nova aqui? – Jesse perguntou. – Qual a sala?
- 14B.
- Geografia com o Mr. Hatcher. Bom, quer que eu te leve até lá? – Jesse perguntou enquanto começavam andar e Jesse pegava a mochila de .
- Uhum...
- Não seja tão monossilábica! – Jesse disse rindo. – Vamos lá, eu tenho doze anos e estou na sexta série!
- Onze, quinta.
- Gosta de Plain White T’s? – Jesse perguntou oferecendo o fone do walk-man para ela.
- Não conheço, obrigada. – respondeu olhando para os pés.
- É uma banda americana, tente ouvir Can’t Turn Away... – Jesse ofereceu novamente.
pegou o fone e começou a ouvir.
- É legal... – disse sorrindo. – Você não é daqui, é?
- Australiano, vim para cá quando tinha cinco anos... – Jesse respondeu.
- Você tem um sotaque engraçado... – riu.
Enquanto atravessavam a quadra que separava os dois prédios, conversavam e riam.
- Bem, é aqui a sua sala. – Jesse sorriu entregando a mochila de .
- Obrigada.
avistou em uma mesa do refeitório e logo correu ao seu encontro.
- Tudo bem? – perguntou sorrindo.
- Sim, e aí?
- Ótima! – respondeu alegre.
- O que você tem que está tão sorridente? – perguntou estranhando.
- Não é n... – começou e logo viu Jesse vindo em sua direção.
- Então, mocinha, conseguiu achar as outras salas? – Jesse perguntou enquanto a cumprimentava com um beijo na bochecha.
- Consegui. – riu. – , Jesse. Jesse, .
- Beleza? – Jesse cumprimentou .
- Beleza... – fechou a cara, o que indicava tempestade por vir.
tentou falar com assim que chegou em casa, mas ele não atendia o telefone ou a campainha. Ele estava estranho havia dois dias.
- Alô? – atendeu o telefone.
- É o , minha mãe falou que você ligou aqui em casa... – disse seco.
- Ou pelo menos tentava, porque você não atendia! – disse em tom de bronca.
- Ah, você vai me encher o saco? Encha o saco do seu amiguinho! – falou rispidamente.
- O que o Jesse tem a ver com a história? Você simplesmente parou de falar comigo! – disse chorosa.
- Bom, você que começou me ignorando quando estava com o Jesse!
- Ora, ! Você sabe que você é o meu único melhor amigo! Eu não te trocaria por ninguém! – respondeu enquanto mudava os canais de TV.
- Jura? – perguntou baixo.
- Juro! – sorriu.
- Okay, amanhã cedo eu passo na sua casa e nós iremos para a escola! – sorriu abertamente. – Tenho que desligar. Beijo!
- Outro! – disse colocando o telefone na base.
No outro dia, lá estavam eles, andando de mãos dadas em direção a escola, se cumprimentando com selinhos e conversando animadamente.
Capítulo 4 - Twelve.
Não que fosse uma pré-adolescente problemática ou depressiva, apenas não estava acostumada com os fatos que a vida lhe impunha. precisava pensar, mas não conseguia parar de chorar e a dor de cabeça não ia embora.
A chuva começava a cair, parecia clichê e, realmente, estar triste embaixo da chuva soava como se estivesse em um filme de drama. Cada gota d'água que caia parecia estar levando um pedaço de suas preocupações, sentou-se na guia da calçada e ficou contemplando o cachorro do outro lado da rua, desesperado para achar alguém para morder, mas parecia se solidariezar com ou a achava podre para morder, enfim, ele não a mordeu.
Minutos depois ela pôde sentir uma mão pusando em seu ombro.
- Eu soube da notícia, sinto muito. - Escutou a voz tão conhecida.
- Eu não sabia que seria tão difícil, . - fungou. - Eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, mas eu não consigo compreender...
- , não é melhor você ir pra minha casa ou para a casinha da árvore? - perguntou de forma doce. - Eu peguei alguns biscoitos e Yakult em casa!
não respondeu, apenas levantou-se e seguiu , para onde quer que ele estivesse indo. Subiu uma escada e, finalmente, pôde se sentar, o chão poeirento sujaria sua roupa, mas ela não ligava.
- Meu pais não podem se separar... - murmurava enquanto seus dentes batiam de frio.
- Eu não sei o que te dizer. - disse enquanto enrolava em uma toalha.
- Meu pai vai sair de casa, ! Eu nunca mais irei vê-lo! - deixava milhares de lágrimas rolarem pelo seu rosto. - Ele vai nos trocar por uma piranha peituda! - sentiu um gosto amargo e salgado ao mesmo tempo, mas não era de suas lágrimas. Ela chegava a sentir repulsa de seu próprio pai.
- , eu posso não saber o que dizer, nem mesmo sei o que você quer que aconteça, ou o que você está sentindo... - começou e segurou a mão de . - Mas eu prometo que sempre ficarei com você, haja o que houver, aconteça o que acontecer. - limpou algumas lágrimas do rosto de . - Porque é você quem me faz sorrir ou me levantar quando tudo dá errado e sou eu que posso fazer isso com você...
sorriu e abraçou . Um abraço apertado que, embora não estivessem pronunciando palavras, eles sabiam o que o outro queria, sentia. Sabiam que ali sempre encontrariam conforto e abrigo.
- Promete que sempre vai ficar comigo? - perguntou ainda abraçada com .
- Prometo!
- Você sela? - perguntou olhando nos olhos do garoto.
E seus lábios se encontraram, prometendo esperanças, felicidades ou qualquer sentimento que desse alegria e fé.
- E só uma dica construtiva: você precisa escovar os dentes que seu hálito tá um horror! - riu e abraçou .
chegou em casa cerca de duas horas depois, conversara com e, embora ainda estivesse triste, sabia que poderia contar com ele para qualquer coisa.
- . – Escutou sua mãe lhe chamando quando estava ao pé da escada.
fechou os olhos, xingando mentalmente a porta do hall por fazer tanto barulho. Deu meia-volta e seguiu para a cozinha.
- Diga. – disse sentando-se.
- Nós vamos para o Canadá. – Sua mãe lhe disse firmemente.
A Sra. era uma mulher bem cuidada para os seus 38 anos. Normalmente, usava um coque bem arrumado e maquiagem leve, mas não naquele dia. Sua personalidade amiga e amável se transformara em amarga e controladora, seus olhos não tinham mais o brilho usual e demonstravam certa fraqueza. nunca respondera para sua mãe... até então.
- Como? – perguntou incrédula, sua mãe não faria algo assim.
- Vá arrumar suas malas, não precisa de muita coisa... – Aquela mulher estranha lhe dizia friamente.
- Mãe, eu nã... – começou.
- ! Eu não quero saber o que você pensa ou deixa de pensar! Não se atreva a responder para mim! – A mulher cortara sua frase rispidamente. – Não hoje, ... – E desabou a chorar.
não respondeu mais, nunca tinha visto sua mãe chorar. Não importava o que acontecesse ou fizesse, sua mãe sempre estava sorrindo, mas não naquele dia.
encontrou seu pai em seu quarto, sentando em sua cama.
- O que você quer? – perguntou da forma mais fria que podia, mas não conseguiria manter a pose. Não com seu pai a olhando com aquele olhar. O olhar de culpa.
- , eu sinto tanto... – A barba mal-feita, os cabelos despenteados. Parecia um bêbado nojento. Mas o olhar era de seu pai. – Você não merece nada disso. Você é tão forte! – O Sr. desabava.
o abraçou.
- Por quê? – As lágrimas caíam rapidamente dos olhos de , numa velocidade imensa.
- , eu nunca quis... Você é tão forte, tão mais forte que eu! Eu só espero que você possa me perdoar, você tem que me perdoar! Eu não sinto por mim, eu sinto por você!
não conseguia falar, queria poder falar o quanto o amava, o quanto não queria que isso acontecesse, mas não conseguiu.
- Eu te amo, filha. – Seu pai beijou o topo de sua cabeça e saiu de seu quarto.
Foi como se aquele homem, o homem acabado, bêbado, asqueroso saísse de sua vida, mas ele não saía sozinho. Ele estava levando consigo seu pai.
sentou-se em sua cama, tentou segurar as lágrimas, mas não conseguia. Pegou o telefone de seu quarto e ligou para a única pessoa que poderia lhe ajudar.
Capítulo 5 – Thirteen
andava pelas ruas de Toronto, Yorkiville, para ser exata. A quantidade de mulheres passeando com seus cachorrinhos, entrando em boutiques e restaurantes caros com seus amantes era ridícula. Embora já estivesse morando há um ano no Canadá, pelas redondezas de Yorkville, não se acostumara. Era muito difícil sem . O ano de 2003 não estava sendo nada fácil para ela, as ruas lotadas de gente feliz a deprimia. O celular em seu bolso vibrou, demonstrando que alguém ligava para ela.
- Alô? – Atendeu sem olhar para o identificador de chamadas.
- ?! Finalmente! – pôde escutar a voz de . – Estou tentando te ligar faz meia hora!
- Nós não nos falamos há duas horas? – perguntou rindo.
- Sim, mas eu tenho algumas coisas para te contar! – disse empolgado.
- O quê?! Adoro fofoca! – riu com a empolgação de e percebeu que as pessoas a olhavam. – Espera um pouco, eu preciso sair daqui, as peruas acham que só elas podem ser histéricas! Te ligo daqui uns cinco minutos! – disse e desligou.
guardou o aparelho celular no bolso e chamou um táxi, sua casa não ficava muito longe de lá, mas um ônibus não era o que queria após andar tanto a procura de nada.
Chegou em casa e logo correu para o seu quarto, voando para cima da cama e pegando o telefone.
- Alô? Conta tudo! – disse empolgada.
- Desculpe? – Escutou a voz da mãe de pelo telefone.
- Hrm, desculpe! É a , tia. Eu achei que fosse o ! – disse sem graça.
- Não se preocupe, já chamo . E vê se liga para conversar comigo! Estou morrendo de saudades de você! – A senhora disse e gritou um: ‘, a está querendo saber das fofocas!’, fazendo rir.
- Ele já vem!
- Obrigada, tia!
- Alô? – atendeu.
- Desembucha!
- Vamos começar dizendo que a Britney passou mal durante os treinos de torcida e a nossa escola não foi classificada para as finais estadual. – disse empolgando com a notícia de que havia chances de Britney morrer.
- O que mais? – perguntou ansiosa.
- Estou com saudades... – murmurou.
- Eu também estou com muitas. – disse sentindo que poderia chorar a qualquer momento.
- Quando você volta? – perguntou com a voz embargada, sabendo que a resposta poderia ser ‘Nunca’.
- Não sei, mas enquanto minha mãe não tiver vendido a nossa casa aí, teremos esperanças que a sanidade mental dela volte ao completo! – disse tentando animá-lo.
- Eu acho que talvez consiga convencer minha mãe a me deixar passar uns dias no Canadá, só para te ver... – disse com um pouco de animação.
- Eu falo com a minha mãe hoje à noite, mas eu preciso terminar o trabalho de Geografia, tenho dois mapas para entregar! – disse fazendo uma careta que não podia enxergar, mas sabia que ela estava fazendo.
- Certo, eu vejo se posso te ligar mais tarde, minha cota de ligações para você vai estourar antes do fim do mês se continuar assim!
- Hrm, , você tinha duas horas por mês para conversar comigo, né? – perguntou.
- Sim, mas eu acho que ainda tenh... – começou.
- Hrm, sua cota acabou de acabar! – riu.
- Droga! – resmungou.
- Não esquenta, eu entro hoje à noite no ICQ. Minha mãe vai ficar no turno da noite lá no hospital. – disse animada com a possibilidade de virar a noite com no ICQ.
- Certo! Beijos, te amo muito! – disse desligando o telefone.
suspirou, teria que fazer os mapas de qualquer jeito.
Terminara os mapas há meia hora, mas precisaria comer um miojo antes de enfrentar uma madrugada com .
Ligou o computador e sorriu ao ver a foto dela e de no Desktop, balançou a cabeça e entrou no ICQ. Conferiu a lista e ainda não entrara. Fechou os olhos e, quando ia começar a dormir em cima do teclado, o barulhinho de alguém entrando no ICQ a acordou. Odiava aquele barulhinho, ele até podia ser legal, mas estava tão cansada do mesmo barulho que tinha vontade de quebrar o computador. Não era . Esperou mais algumas horas, checou os e-mails (milhares de propagandas!), mas nada.
olhou pela última vez para o computador, não entraria. Já passava das dez horas, ele não falaria com ela esta noite.
Lembrou-se da noite de despedida com ele.
Flashback
- Vem aqui pra casa, ? Por favor! – pediu desesperada.
- O que houve? Me dá dez minutos para eu poder trocar de roupa! – disse enquanto pulava da cama.
- Não precisa trocar de roupa, só venha aqui! – disse tentando não soluçar ou chorar.
- Certo, já estou indo! – E desligou o telefone.
Logo, batia em sua janela para entrar. foi abrir a janela e, logo que adentrou, o abraçou fortemente.
- O que aconteceu, pequena? – perguntou passando as mãos nos cabelos de .
- Minha mãe... – começou, mas não conseguia parar de soluçar.
- Aconteceu alguma coisa com ela? – perguntou com a preocupação aumentando.
- Ela... – não conseguia fazer mais nada além de chorar. – e meu pai... – Tentou falar em outra coisa.
- O que aconteceu, ? Por favor, me diga!
- Eu vou embora para o Canadá! – disse com a voz alterada.
- Você não... Como? – não conseguiu entender o que ela dizia, bem, ele entendeu, mas ela tinha que estar brincando!
- Eu vou para o Canadá! Onde tem aqueles cantores bonitinhos, o país embaixo ou em cima dos EUA, eu não lembro onde fica a merda do país, mas ele deve ficar em algum lugar perto dos EUA! – disse rapidamente, como sempre fazia ao ficar nervosa.
- Você ‘tá brincando, né? – perguntou encarando os olhos da menina.
- Não...
olhou para a menina a sua frente, o tamanho mediano (o qual sempre era motivo de discussão entre os dois quando ficava ao lado de ), os cabelos jogados em seu rosto, algumas lágrimas caíam e acabavam pousando nos lábios da menina. não conseguia acreditar que aquela garota iria embora, a garota que sempre ficava com ele, que sempre estava ao seu lado, que nunca ia embora e que sempre o consolava. Ela iria embora e ele jamais poderia cumprir a promessa de nunca sair de seu lado. a abraçou, tanto pela perda quanto pela saudade que já sentia, pelo medo e pelo amor. O abraço que há uma hora havia consolado a garota, que já chorava de novo.
- Desculpa, ... – sussurrou para .
apenas o abraçava com força, não fazia idéia pelo quê ele se desculpava, mas não importava.
- Desculpa por não poder te proteger... – continuava a falar. – Por ter falado que tudo ia ficar bem, mas não ficou...
- ... – chamou.
afrouxou o abraço e olhou para .
- Fica comigo hoje? – perguntou enquanto deixava mais lágrimas rolarem.
sorriu e deitou com na cama.
Flashback Off
acordou dos pensamentos e, quando olhou para o computador, avisava que recebera um e-mail.
Eu entrei no ICQ e você não ‘tava online. Tive que sair. Te amo, pequena!
xx
balançou a cabeça sorrindo e foi tomar banho. Precisava parar de sonhar acordada.
Capítulo 6 – Fourteen
olhou o relógio pela décima vez e suspirou. Não era a primeira vez que ele se atrasava e isso estava começando a irritar. Desde que chegara, não era o mesmo. Embora suas saudades fossem grandes e ele realmente se esforçasse para vê-la, sempre era impedido por Britney.
A brisa suave do Outono passou por e a fez desistir de esperar, pegou sua bolsa e tentou ligar uma última vez para . Ocupado, como sempre. Ajeitou os cabelos e começou a caminhar em direção à sua casa. Algumas pessoas ainda andavam na rua, eram oito horas e o céu continuava claro. caminhou durante alguns segundos e se lembrou de um parque que ficava perto de sua casa. Uma passada ali não a mataria.
- ? – A garota escutou alguém a chamando enquanto se sentava no balanço. Um sotaque suave e gostoso delineava a voz e pôde ver Jesse.
- Hey! – sorriu e acenou para o garoto que vinha em sua direção.
- Por que não me avisou que estava aqui? – Jesse perguntou ligeiramente surpreso por vê-la em Londres e a abraçou com força.
não queria responder que não o procurara porque perdera tempo discutindo com durante uma semana, não queria contar que não ligara nem ao menos para um oi porque estava ocupada demais chorando todas as vezes que a deixara esperando.
- Eu simplesmente não consegui te ligar. Semana cheia. – deu um leve sorriso e Jesse estranhou o sorriso falso de .
- O que houve, ? – Jesse perguntou franzindo o cenho e se sentando ao lado de .
- Ah, Jesse, ‘tá tudo tão diferente... – murmurou enquanto dava pequenos impulsos no balanço.
- O , não é? – Jesse perguntou e balançou a cabeça. – Logo que você foi embora, eu comecei a conversar com ele, mas de um mês para cá ele simplesmente esqueceu a existência dos outros. Acho que nós devemos isso à Britney. – Jesse disse ironicamente fazendo sorrir fracamente. – Se eu continuar irônico, acho que arranco um mais verdadeiro. – Jesse sorriu e segurou o balanço de para que ela parasse de balançar. – Senti sua falta, .
- Eu também senti a sua, Spencer. – disse sinceramente.
Jesse não era seu melhor amigo, mas ela o amava de forma incondicional e arrebatadora. Era como se quando estava com ele, tudo girasse em torno deles. Apenas deles. sempre sentira uma leve atração por Jesse e sempre tentara negar a si mesma, mas agora estavam tão próximos e ela podia enxergar os olhos do garoto com tanta clareza. Os olhos verdes estavam com um brilho excepcional e a boca a estava convidando tortuosamente. esperava que aquela espera não durasse muito mais, a proximidade, a tensão, a respiração conjunta, tudo isso levaria para o momento mais esperado por . Seu primeiro beijo.
Jesse observou os traços da garota e encarou os olhos dela, puxou a cabeça da garota e os lábios roçaram e logo estavam colados. parou subitamente e se lembrou de . As promessas que faziam quando crianças vieram à sua cabeça e a fizeram imaginar como seria beijá-lo realmente. E aquele na sua frente não era .
- Desculpa... – murmurou e se levantou do balanço. – Eu tenho que ir.
Jesse ficou paralisado, em choque pela proximidade e pela excitação que aquele momento causara. Nunca tinha ficado daquele jeito, não tão trêmulo e tão inseguro. Estava suando e não sabia o que pensar ou fazer e logo que acordou do transe, estava longe. Jesse correu para conseguir conversar com ela.
- , eu... – Jesse começou.
- Jesse, me desculpa, eu não sabia o que estav... – disse se virando para olhar para Jesse e, quando o fez, se viu colada com o garoto. A mesma proximidade, a mesma tensão. , que ainda respirava ofegante pelo momento de minutos atrás, teve seu coração mais acelerado. Tentou falar qualquer coisa, mas foi calada pelos lábios de Jesse. O desespero pelo beijo era mútuo, a repressão de quatro anos viera à tona e puxava Jesse com intensidade. As línguas se entrelaçavam e Jesse parecia querer mais a cada momento, cada segundo do beijo.
- Eu acho que... – começou a falar.
- Não foi um erro, . – Jesse disse como se imaginasse o que ela ia dizer.
- Eu não ia dizer isso. – sorriu. – Não foi tão mal assim, foi? – mordeu o lábio. Não sabia como era seu beijo e nem sabia se beijava mal ou qualquer coisa do tipo. Momentos antes não pensara se Jesse a acharia patética ou se não sabia beijar. Apenas queria aquilo.
- É, acho que não foi tããão ruim. – Jesse sorriu, brincando com os cabelos de . Com os corpos ainda colados, eles já não respiravam tão rapidamente. Algumas pessoas observavam aqueles jovens rindo e brincando um com outro no meio da rua. Inclusive um garoto chamado , que passou tão rápido pelo casal que eles nem se deram conta do descontrole do rapaz ao ver a cena.
- Quer ir para casa? – Jesse perguntou andando ao lado de , com sua mão na cintura da garota.
- É, acho melhor. – disse olhando o relógio.
Naquele momento, não pensava em , no atraso do garoto, nas noites chorando pela mudança do garoto ou qualquer coisa relacionada. Estava tão nas nuvens que nem percebeu quando o garoto entrou em sua casa e logo apareceu na sacada de seu quarto para observá-la. apenas brincava com Jesse e gargalhava a cada piada idiota que o garoto fazia.
- Eu esperei muito por isso. – Jesse disse se sentando na escada da soleira de , enquanto a observava gritar que já chegara à porta do Hall.
- Eu também, loirão. – sorriu e se sentou ao lado do rapaz, encostando a cabeça em seu peito.
Jesse a abraçou e ficaram assim durante alguns minutos, nem percebendo o olhar raivoso que caía sobre eles.
- , eu preciso falar com você – a puxou até a varanda. – Preciso falar isso logo e não vou mais enrolar.
- Calma, – riu. – Parece até que vai terminar comigo! – gargalhou. – Okay, fala, menino.
- Eu quero te mostrar um lugar antes – ele levantou e começou a andar.
- ? – ela tinha que correr para acompanhar os longos passos do garoto. – Onde estamos indo? Não posso ir para muito longe, minha mãe me mata.
- Só me segue. – disse sério e o acompanhou calada.
Ela observava o relógio de cinco em cinco minutos e ficou cada vez mais desesperada ao perceber que conhecia cada vez menos os lugares por onde passavam. Seu coração acelerou ao perceber que já estavam andando há uma hora e que sequer se importava com o sol se pondo no horizonte.
- , eu realmente acho que... – ela estava com medo. – nós devíamos voltar. Um dia a gente acorda mais cedo e vem porque...
- Cala a boca e anda, – ele disse grosso e sentiu as pernas pararem. – O que foi agora?
- , sério, eu estou com medo, está escurecendo e... – a puxou e ela começou a andar. – preciso avisar minha mãe porque talvez a gente não volte tão cedo!
- Anda – ele só falava isso e a garota permaneceu quieta até chegarem em um local onde se encontrava uma fábrica abandonada, então subiram as escadas do velho prédio e prendeu a respiração ao ver uma parte da cidade dali de cima. – É o lugar mais bonito de Londres, na minha opinião.
- Nós podíamos ter ido até a London Eye, nessa época nem e tão lotado – comentou e viu o olhar fuzilante de . – Mas esse lugar também é legal.
- É quieto, serve para pensar.
- Por que você me trouxe aqui? – viu o sol desaparecendo no horizonte. – Está realmente escuro.
- Você teria medo se ficasse presa aqui? – perguntou sombrio.
- Óbvio, o prédio está caindo aos pedaços, não é? – ela sentiu um calafrio com uma brisa que passou. – A gente pode ir embora?
- Não quero mais te ver... – disse baixo. – Era isso que eu precisava te falar.
- Tá, , pode parar de zoar e vamos embora – puxou , porém ele não se moveu. – Sério, minha mãe vai me matar, você tá com seu celular?
- A Britney queria que eu parasse de falar com você desde que você chegou, ela acha que a gente conversa demais – parecia pensativo. – Ela falou que você podia gostar de mim muito mais do que era necessário e que era você ou ela.
- Você me escolheu, no mínimo. Agora a gente pode ir? Essa conversa pode terminar lá em casa... – ela procurou uma blusa na bolsa, mas não tinha nada ali.
- Pode ficar – ele tirou sua blusa e entregou para a garota. – É o mínimo que eu posso fazer por você.
- , você está realmente estranho.
- Eu preciso te devolver algo – ele retirou uma sacola de cartas e fotos da mochila. – Isso aqui é seu – ele esperou pegar.
- São as cartas que eu te dei? Nossas fotos? , isso é seu!
- Britney acha que se eu ficar com isso, vou querer voltar a falar com você.
- Tá, o que você acha? – começou a ficar irritada. – Você realmente vai jogar tudo isso fora por causa dela?
- Você foi embora, , e muita coisa mudou...
- Não foi porque eu eu quis e você sabe muito bem disso! Tentei de todos os jeitos ficar com você, ficar aqui, ficar com o que mais me importa na vida: você!
- Então por que você não me contou que estava ficando com Jesse?
- Você sequer atende minhas ligações, o que quer que eu faça? Toda vez que eu ia na sua casa ou a Britney estava lá ou você estava na casa dela! Caramba, , não sou idiota! – sentiu os olhos arderem. – Eu saí no maior pau em casa porque eu saí de casa agora para falar com você. Fiz tudo por você e você acha que eu fui embora porque quis?
- Quando você foi embora, eu quis morrer, mas eu estou bem sem você agora. E eu estou feliz com a Britney, você quer entender isso? – abriu a carteira e pegou algumas libras. – Pegue um táxi, vou ficar por aqui.
- Você está sendo idiota, – ela arrancou a blusa de seu corpo e jogou para o garoto. – E eu não aceito esmola.
- , eu te trouxe aqui, pretendo dar um jeito de você ir embora.
- Eu posso ligar para Jesse – ela respondeu grossa e ele sentiu o coração apertar. – Porque ele faz as coisas por mim – ela disse abrindo a porta do terraço. – Realmente espero que você morra – ela deixou uma lágrima cair e desceu as escada correndo, parando no último degrau para sentar e chorar por alguns minutos até ver descendo e então ela foi embora.
Capítulo 7 – Fifteen.
coçou a cabeça e voltou seus olhos às parafernalhas espalhadas pelo chão. O cheiro de pó era quase insuportável, e ela pensava em desistir de organizar os armários.
- ? – escutou uma voz vindo da porta e batidas incessantes começaram. – Você tá aí?
- Entra logo, Jesse – disse voltando a limpar os armários.
- Tudo bom, amor? – ele entrou sorridente e começou a tossir. – Que pó é esse?
- Bom, como eu passei metade do ano na sua casa e minha mãe se recusou a limpar meu quarto, depois de um ano praticamente sozinho, os móveis costumam juntar pó, sabe? – ajoelhou-se à altura do hack e passou a limpar as gavetas. – O que veio fazer aqui, amor? Achei que você só viesse no final de semana, como combinamos.
- Não era pra eu vir, eu sei, mas... – ele arranhou a garganta e levantou os olhos para encarar o namorado. – acontece que, bom, você sabe, eu ainda converso com o , nada contra o garoto e...
- É perfeitamente normal que vocês conversem, ele foi um cretino comigo, não com você. Eu mesma te estimulei para continuar conversando com ele, não tem porquê eu te impedir de conversar com ele – sorriu. – Não se preocupe com isso, continue falando com o como sempre fez.
- Não é isso – ele desviou o olhar. – Ele me pediu um favor, e eu não sei se sou capaz de cumpri-lo.
- O que ele te pediu?
- Ele queria que você fosse se encontrar com ele, queria conversar com você, mas eu não quero que você vá. Ele sabe disso e é por isso que ele pediu que deixasse você escolher – Jesse passou a mão nos cabelos. – Mas eu sei o que vai acontecer se você for...
- Ei, o que é isso? – jogou o pano de lado e se levantou. – O que você acha que vai acontecer?
- , por anos vocês ficaram juntos, e eu, junto com todo mundo, sei que vocês eram apaixonados – Jesse a abraçou. – Não quero te perder, você não pode ir.
- Ele quer falar comigo? – afastou o corpo e olhou nos olhos de Jesse. – Por quê?
- Não faço a mínima idéia – Jesse deu os ombros. – Enfim, você pode ir, se quiser...
- Não sou apaixonada por ele, nunca fui, nunca serei – sorriu. – E eu acho que você não devia se preocupar, não vou.
- Sei que você vai fazer o melhor – Jesse sorriu e observou voltando para os armários, tão entretida que mal viu quando ele colocou um envelope em cima da escrivaninha.
- Finalmente – se levantou e sorriu ao ver os armários organizados e limpos. Então ela olhou o relógio e suspirou. Ela devia buscar a mãe no aeroporto, já estava atrasada. Muito atrasada.
- Que é isso? – observou um envelope sujo em cima da escrivaninha ao pegar sua jaqueta jogada na cadeira. – Depois eu abro... – jogou o envelope para o lado e desceu as escadas correndo.
O trânsito estava infernal e os táxis estavam impossíveis de serem conseguidos, foi um milagre ter conseguido um táxi aquela hora, mesmo que fosse com um colombiano falante que ficara impressionado com o fato de entender espanhol porque era descendente de brasileiros.
- É, minha mãe é brasileira – comentou sem prestar muita atenção. – Eu também sou, mas morei lá apenas por oito meses...
- Muy guapa – ele sorriu maliciosamente para .
- Pode me deixar aqui, vou andando – ela jogou uma nota de dez libras para o motorista e desceu com o carro ainda em “movimento”. O trânsito estava tão parado naquela região que era mais fácil ir andando até o aeroporto, já tinha uma visão boa do local.
começou a correr ansiosamente para ver a mãe, porém percebeu uma movimentação a uns duzentos metros distantes do aeroporto. Não era muito curiosa para esse tipo de coisa, mas algo a puxou para o meio da multidão, e ela já estava lá no meio vendo um carro tombado. Um táxi tombado com uma mulher jogada a um metro.
- Mãe! – berrou e correu junto ao corpo.
- Você é parente? – um policial se aproximou e encostou a mão no ombro de .
- Não, imbecil, eu gritei ‘mãe’ porque acho legal dar uma de louca – segurou a mão da mãe e percebeu o quão gelada ela estava. – O que houve aqui?
- O motorista estava bêbado e perdeu o controle do carro, deve ter tentado frear em alta velocidade, e o carro bateu no poste, tombando.
- Ele está vivo?
- Achamos que não vai sobreviver...
- Ótimo – disse com ódio e olhou para a mãe. – Cadê a merda da ambulância?
- Senhorita, eu não sei se você... – ele a encarou piedosamente. – Não tem pulso ou respira, entende?
- Foda-se, eu quero uma ambulância agora! – berrou. – Pra um bêbado filho-da-puta você consegue uma, não é? – ela aumentava o tom de voz e o policial a fitou, desconcertado. – Pare de me olhar desse jeito e ligue pra ambulância! Ah, deixa pra lá – pegou o celular do bolso e discou. – Alô? Uma ambulância pro Aeroporto da Cidade de Londres, ela ainda está respirando e tem pulso – mentiu. -, foi um acidente de carro. Rápido! – ela desligou e o policial a encarou.
- Ela não tem pulso...
- E logo, logo você também não terá se não calar a boca!
- Eu tenho que lhe dizer, senhorita, que não há a mínima chance de que ela sobreviva e...
- VOCÊ É O QUÊ?! MÉDICO, ENFERMEIRO, CIRURGIÃO, PEDIATRA, GERIATRA OU QUE PORRA?! ACHO QUE VOCÊ É UM POLICIAL DE MERDA, ENTÃO, POR FAVOR, NÃO ABRA MAIS SUA BOCA – se levantou e apontou o dedo para o policial. – Você vê as pessoas morrendo e nem se importa, então se afaste, não acabe comigo – ela derrubava as lágrimas sem se preocupar em ampará-las.
- Senhores, peço que se afastem – o policial caminhou para a multidão que observava interessada. – Eu podia lhe prender por desacato a autoridade – ele murmurou. -, mas vou te considerar exaltada – ele dizia calmo e isso irritava .
- Obrigada.
Três dias depois...
- Meu pêsames, – a garota escutou pela milésima vez aquela frase e sorriu fracamente, ela não desejava nenhuma daquelas pessoas, apenas uma.
- É assim que você sorri? – parou ao escutar aquela voz. – Oi, .
- Oi, – se virou e encarou o garoto que sorria. – Como vão as coisas?
- Tudo bem – ele disse e pausou antes de continuar. – Sinto muito, de verdade.
- Eu sei, – riu e quase deixou uma lágrima escapar.
- Não sobre isso, aliás, sobre isso também, mas o que houve um ano atrás, sabe? Queria ter conversado com você antes e...
- Poupe seu fôlego, , o Jesse me falou sobre isso, mas eu mesma não quero escutar suas desculpas – começou a se afastar. – Não quero te escutar...
- , venha – seu pai lhe puxou e ela o encarou. – Você vai morar comigo.
- Não, obrigada, eu vou morar com meus avós no Brasil, valeu a tentativa! – deu um sorriso falso e bateu palmas. – Desculpa, mas não vai rolar.
- Achei que não fosse funcionar desse jeito mesmo – ele suspirou. – Sou sei pai e tenho sua guarda, você vai, querendo ou não.
- Deram a guarda a um bêbado vagabundo? – desvencilhou-se dele e tentou se afastar.
- Eu mudei, , e vou te provar isso – ele a segurou. – As pessoas mudam.
- Não mudam, Frank, elas não mudam – ela sorriu tristemente. – Você pode tentar mudar, mas, no fundo, você sempre será um cachaceiro estúpido.
- E, no fundo, você sempre será uma garotinha assustada que dorme encolhida, que teme todo mundo e que não consegue viver feliz – ele disse e logo se arrependeu.
- Essa outra tática também não funciona.
Se afastando das pessoas e dos pêsames falsos, subiu as escadas correndo e se fechou no quarto, derrubando todas as lágrimas e olhando para todas as caixas fechadas e arquivadas devidamente.
- Achei que você fosse vir aqui – Jesse estava sentado na cama. – Seu pai veio falar comigo e pediu que eu conversasse com você, não vou porque sei que nada vai mudar sua opinão – ele falava e se levantou e foi até ele. – Muita coisa está embaralhada, e nem eu que estou fora da história entendo por que ele quer te levar, mas fico feliz porque você vai estar aqui comigo, e é tudo o que eu posso pedir. – ele sorriu e beijou a testa da garota.
- Por que as coisas acontecem desse jeito, Jesse? – perguntou.
- Não sei – Jesse respondeu, ela não queria escutar isso dele.
- Não quero morar com ele – murmurou e ele a abraçou.
- Não sei o que te dizer... – ele murmurou de volta e a apertou mais forte.
- Crianças, vocês podem descer? Parece que sua mãe deixou uma carta para ser lida e querem vocês lá embaixo – alguém abriu a porta repentinamente e eles seguiram a mulher – uma amiga da mãe de , provavelmente.
- Temos duas cartas aqui, uma é para a ler sozinha e a outra é para ser lida a todos – o pai de a encarou e ela pegou o envelope. – “Se vocês estão lendo isto, estou à sete palmos abaixo da terra e provavelmente mais feliz. Vocês devem saber o quanto eu lutei por tudo o que tenho e o quanto prezo tudo isso. Esta carta foi escrita no aniversário de doze anos da e espero que só seja lida muito tempo depois.
Não escrevi por medo de morrer jovem demais, mas porque li alguns livros e, como todos sabem, imito muitas coisas que leio. A leitura é fascinante, espero que esta esteja sendo também, e gostaria de deixar bem claro duas coisas – esta carta será muito breve.
A primeira é uma citação de uma escritora brasileira chamada Clarice Lispector – acho que vocês deviam ler literatura brasileira – e ela diz que ‘Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo o entendimento’. Entendem a frase? Vocês não deviam se preocupar tanto com tudo, apenas vivam sem tentar estar sempre em cima, sem tentar descobrir tudo. A graça da vida está nos mistérios, sério. Vivam!
A segunda coisa que quero dizer e deixar bem claro é sobre meu legado. Tudo o que fiz e deixei foi em nome de minha filha, , ela é a razão pela qual vivi tanto tempo e, se estiver lendo, querida, saiba que os filhos são as únicas razões pelas quais as mães suportam tanta dor. Espero que você entenda tudo o que eu entendi e viva muito mais feliz do que eu vivi.
À todas as pessoas estão lendo isso, obrigada.
‘Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam.’” –
ele terminou de ler e sorriu.
- Não vai ler? – Jesse perguntou ao ver fechando uma mala e guardando a carta junto com a outra que não abrira.
- Acho que posso guardar isso por mais um tempo – sorriu.
- Você parece melhor.
- Eu estou melhor – caminhou até Jesse. – Eu quero me sentir melhor. – o abraçou e se permitiu se sentir bem. Escutaram batidas na porta.
- Posso conversar com você? – viu entrar no quarto.
- ...
- É importante – ele disse sério.
- Por que eu deveria conversar?
- Por causa disso – ele caminhou até a mala de e pegou a carta suja e amarelada. – Você não abriu, não leu, então eu mesmo vou te dizer o que escrevi...
- Você não pode ir embora, ?
- Ele vai embora, – Jesse disse alterado. – Ela vai ler a carta, cara, vou me certificar disso, só vai embora, ok?
- Não, Spencer, não desta vez.
Capítulo 8 – Sixteen
sorriu antes de beijar o vidro gelado do retrato da mãe e guardá-lo no criado-mudo. Sabia que muita coisa mudara de alguns anos para cá e não queria que mais nada mudasse porque as coisas piorariam. Não era pessimista, mas aprendera que muita coisa não pode ganhar mudanças ou as coisas pioram e não voltam mais ao normal. Não voltam mais... Ela entendeu perfeitamente o significado disso no ano passado.
- , eu falo sério, acho melhor você ir embora – segurou o braço de e o puxou até a porta. – Não quero te escutar porque eu não acredito em você.
- O que você acha que eu vou te dizer? – ele perguntou e se recusou a responder. – Ótimo, , nós sabemos que você não faz a mínima idéia do que eu quero falar, então tenta me escutar!
- Não posso – ela murmurou e encarou Jesse. – Por favor, me respeite, . Se não a mim, respeite minha mãe...
- Você precisa entender porquê eu fiz aquilo, porquê eu tive que te deixar por conta própria e...
- Não – o interrompeu. – Você jamais me deixou sozinha, eu tinha o Jesse, tinha minha mãe, sempre tive muitas pessoas ao meu lado.
- Você precisa entender, ...
- Entender o quê, ? Entender sua cabeça confusa e burra? Entender que tudo sempre tem que ser do seu jeito? Não quero te entender e não vou te entender porque nem mesmo você se entende! Você é confuso até mesmo para Deus tentar te consertar, sabia? Você não se importa com as pessoas ou com as conseqüências, seu ego é o que importa, então, não, , não quero te entender, não preciso te entender!
- Só quero cinco minutos, é tudo o que eu preciso, – implorou e a encarou com olhos marejados. – Por favor!
- Jesse... – a garota perdeu a força nas pernas e se deixou cair na cama. – Você entende? – ela encarou o namorado. – Não vai acontecer coisa alguma, ok? Cinco minutos, é o que eu te peço – ela pediu e Jesse consentiu com a cabeça.
- É tudo o que terá – Jesse deu os ombros e encarou , então saiu do quarto e fechou a porta.
- Acha que pode me fazer mudar de idéia? – ela perguntou e o garoto sorriu fracamente.
- Você foi embora, eu fiquei muito confuso, não entendi muito bem porque crianças nunca entendem. Até hoje não entendo o porquê de ter agido tão infantilmente há um ano atrás, não entendo como eu pude me deixar levar pelas idéias da Britney...
- Ótimo, você não entende, por que acha que eu entenderei?
- Porque você é uma garota e vai entender o porquê eu fiquei tão desesperado ao descobrir que a Britney estava doente...
- Certo, , a garota tinha gripe, febre ou qualquer merda, então você acreditou que ela estivesse morrendo? Mas é ingênuo demais.
- Você tem visto a Britney na escola, na rua, igreja ou baladas? Então te direi o porquê, – ele engoliu seco. – Câncer não é uma doença muito legal, principalmente quando se remove um tumor e ele já se espalhara pelo corpo todo. Ela pediu que eu parasse de falar com você, não pude deixá-la morrer com raiva de mim ou algo do tipo...
- É isso, ? A garota está prestes a morrer, então você resolve que seu ego é fraco demais para agüentar o ódio de uma garota e resolve que eu posso agüentar qualquer coisa? Porque eu sou forte? Porque eu pude agüentar meu pai me deixando?
- Você tem que entender, ela estava morrendo, não podia acabar com a vida dela de uma vez... – deixou uma lágrima escapar. – Ela estava lá por mim, ela esteve lá quando você não pôde e ela nunca me deixou cair. Tinha que respeitar todos os seus desejos.
- E quando ela morreu?
- Semana passada, ninguém sabe. Morreu lá nos Estados Unidos, onde ela desejava morrer. Ela não queria que mais ninguém soubesse além de mim e da família dela.
- Claro, porque você é uma pessoa muito especial e amável!
- Eu faria o mesmo por você, jogaria qualquer pessoa fora se você me pedisse, mesmo sem estar doente, ainda faço isso... – baixou os olhos e encarou os próprios pés, ainda de pé, ele estava cansado da viagem de avião que acabara de fazer.
- Você não fez quando pôde, não faria agora.
- A situação era diferente, não podia deixá-la sozinha!
- ELA TINHA A FAMÍLIA DELA, NÃO ERA FICAR EXATAMENTE SOZINHA! – berrou e a encarou. – Você acha que eu fico muito feliz com tudo isso? Explica muita coisa, explica, eu realmente entendo, mas isso não significa que eu posso te perdoar!
- Você sabe o quanto eu te amo, caramba? Jamais teria feito se não fosse a situação.
- É engraçado, não? Como as coisas mudam – riu e deixou uma lágrima escapar. – Como eu mataria qualquer um por suas palavras, mas não posso acreditar em nenhuma palavra que você diz agora. Não só não acredito, mas também não desejo! E eu teria matado qualquer pessoa para poder estar com você até hoje, mataria qualquer pessoa para nunca ter te perdido...
- Você nunca me perdeu – disse baixo.
- Te perdi e... algumas coisas não voltam, sabe? Não devem voltar porque podem machucar demais...
- , por favor...
- Perdi meu pai, perdi minha mãe, perdi meu melhor amigo, não vou perder meu namorado por sua causa, .
- Você pode ter algumas coisas de volta, você tem a seu pai! Não pode tentar ter outra coisa de volta?
- Não é como se vocês fossem objetos – riu. – É diferente.
- Você acha que eu quero ser um objeto?
- Não sei o que você quer ser, mas sei o que você não pode ser...
- O que eu não posso ser? – se aproximou lentamente e se sentou ao lado de na cama.
- Meu melhor amigo, isso você jamais vai voltar ser – parou de falar ao perceber a proximidade de .
- E o que eu posso ser? – levou sua mão ao rosto de e puxou a cabeça da garota para que pudesse beijá-la e encostou seus lábios nos dela. – O mundo pode ser um lugar solitário sem a pessoa que te coloca um sorriso na cara, sabia?
- ... – ela murmurou. – O que você está fazendo? – ela perguntou sentindo um frio no estômago, como se borboletas voassem ali.
- Deixando as borboletas fazerem seu serviço – ele disse e a beijou.
- , seu pai pediu que você terminasse as malas logo – Jesse entrou de repente e jogou para o lado. – Acho que atrapalhei alguma coisa... – o garoto disse nervoso e fechou a porta.
- Obrigada, – agarrou a mala com força, fazendo com que batesse na perna de e o garoto fosse jogado no chão. – Quero que você morra! – ela berrou e saiu do quarto praticamente correndo. Com o coração acelerado, ela não entendeu o porquê do frio do estômago ou de mal conseguir andar, ela só desejou sair logo daquele quarto.
- , não desliga! – quase riu ao ver o número no identificador de chamadas. – Preciso falar com você.
- Sinto muito, , estou de saída – disse procurando as chaves.
- Não vai levar mais que cinco minutos – prometeu.
- Estou com muita pressa e já estou saindo, ok? Tchau – desligou o telefone, pegou sua bola e abriu a porta de sua casa para a rua. – Caramba! – berrou ao se deparar com . – , que saco, não avisei que estava de saída?
- Já sabia que você falaria isso, pensei que fosse verdade dessa vez, então trouxe cinqüenta libras no bolso e vou te acompanhar por onde for – sorriu. – A não ser que seja um lugar onde ônibus e táxis não chegam.
- Pois é, estou indo para a escola, não vai dar para eu falar com você.
- Posso conversar no caminho até lá.
- Acho que você devia cair fora porque estou atrasada demais – olhou para o relógio. – Ainda tenho muito a discutir com ele sobre o jornal da escola e, se você realmente quer voltar para a escola, devia se importar com o que anda acontecendo lá e... Olha a hora!
- Me escuta? – ele pediu com um tom de súplica, e ela rolou os olhos, jogou a bolsa no chão e o encarou.
- Então, ?
- Desculpa – ele disse baixo e encarou os próprios pés o que a fez rir baixo e encará-lo. – Estou muito arrependido.
- Desculpas não resolvem nada, ao menos para mim – se sentou na calçada. – Não devia te escutar, mas parece que eu devia estar aqui.
- Acho que é o certo a se fazer – sentou-se ao lado da garota. – Não quero continuar desse jeito, são praticamente três ou quatro anos sem nos falarmos, sinto muita falta de tudo o que fazíamos.
- Também sinto falta – sorriu ao se lembrar de sua infância. – Acreditava em você, e é isso o que eu estou fazendo agora. Parece tudo tão certo, .
- Quero te ter de volta, , como costumava ter. Você tem idéia de como quero poder passar o dia todo com você, como fazíamos quando crianças? – deixou um sorriso triste aparecer e nenhum dos dois quis quebrar o silêncio que apareceu de repente.
A brisa leve passou por seus corpos e tremeu de frio. Sem se importar se podia pegar uma gripe depois, tirou seu casaco e entregou a , que o aceitou e o encarou.
- Eu não posso mais confiar em você... – a garota disse com a voz fraca. – Sabe o quanto isso dói?
- Você não pode confiar em mim? – ele perguntou baixo ao se aproximar da garota lentamente e a encarar durante alguns segundos. – Só peço uma chance.
- Eu tento confiar, mas eu não consigo! Eu quero sentir que está tudo bem, mas não está!
- Eu consigo sentir borboletas e você? - ele riu baixo e ela sorriu. - Acho que elas estão alguns anos atrasadas...
- Por que você fez aquilo? Por que você está fazendo isso?
- Acho que eu gosto de você, , acho que realmente gosto de você.
- Nós não devíamos fazer isso, é errado – sentiu a respiração dele e começou a compassar a sua respiração. – E parece tão certo também.
- Sei que eu errei demais, mas você pode me desculpar? – perguntou. – E nós podemos começar desde o início, não como amigos, mas como...
- Acredito em você e você terá sua segunda chance, mas apenas como amigos – ela se afastou de repente, assustada. – Você precisa me ensinar a confiar em você ou eu não posso te ajudar em nada, . Preciso confiar em você como confiava antes...
- Você sabe que pode... – segurou a mão da garota e a abraçou.
- Sei que posso, mas não quero cair de novo – ela sentiu uma lágrima queimar nos olhos. – Preciso saber que posso ter alguém pra me segurar – afundou a cabeça no peito de .
- Vou te segurar, não importa mais ninguém. – Ele prometeu e deitou na grama. – Sei que você entenderá isso e vai me entender.
- Só quero os velhos tempos de volta – ela murmurou quase sem forças. – Quase consigo dormir aqui – disse e começou a sentir o sono a embalar junto às mãos de em seus cabelos.
- O sol está gostoso – ele falou baixo e sentiu o sono chamá-lo. – Ei, não durm... – não conseguiu terminar a frase, bocejou e adormeceu.
- Ei, , acorda! – chacoalhou o garoto e observou o céu escurecendo. – Acho que dormimos demais.
- Credo, já é noite? – ele perguntou assustado.
- Isso não é o pior, , levaram minha bolsa embora – observou ao redor. – Não a acho em lugar algum.
- Tinha dinheiro lá?
- Algumas libras e meu celular, mas nada muito importante, deixei meus documentos em casa mesmo – ela disse.
- Nove horas – olhou para o relógio. – Acho que era duas e meia quando adormecemos.
- Perdi a bosta da reunião do jornal – reclamou. – Vão me matar.
- Relaxa, não deve ter tido muita importância – deu os ombros. – Como consegui dormir tanto?
- Não me surpreendo, não dormi nada essa noite e, bom, você é bem fofo – riu.
- Não dormiu por quê? Também não dormi.
- Aniversário de um ano da morte da minha mãe – sorriu tristemente.
- Pensei nisso também – coçou a cabeça. – Pensamentos correram à mil por hora na sua cabeça, não é?
- É – limpou a garganta. – Acho melhor entrarmos, vai chover – puxou até estarem em casa.
- Demorei para chegar aqui, você está morando muito longe de Londres – disse e se deixou levar por até estarem no sofá.
- Meu pai não quis ficar com a casa, tinha que ir aonde ele fosse – suspirou. – Mesmo ele não sendo o melhor pai do mundo, é meu pai.
- Onde ele está? – perguntou descontraído.
- Ele trabalha como guarda noturno – deu os ombros. – Deve estar no trabalho, então de manhã ele é gerente de um fast-food qualquer e volta apenas de tarde para dormir.
- Ele está se esforçando, não?
- Não apaga tudo o que ele fez para mim.
- Você precisa aprender a perdoar, – disse. – Ou tentar escutar, não só ouvir.
- Você terá que me ensinar, não sei fazer muita coisa... Acho que desaprendi – abraçou as próprias pernas.
- Posso te ajudar a se lembrar, mas você tem que me perdoar.
- É cedo demais para lições – ela disse desviando do assunto e ligou a tv. – Vai passar Friends a madrugada toda, quer assistir?
- Posso fazer pipoca? – perguntou ao entender o medo da garota.
- Vai lá – ela sorriu ao vê-lo levantar. – Ei, com manteiga!
- Folgada! – ele riu.
- Amanhã nós vamos à escola! – berrou.
- Isso é só amanhã, se liga no hoje! – berrou de volta e riu. – Senti falta disso!
- Também senti...
Fechar a janela para voltar ao PoP
e se encontravam na sala de televisão de , com seus dez anos de idade e roupas escolhidas pela mãe. pensava se deveria perguntar para o que tanto queria. Por que não?
- ? - chamou.
- Hrm... - murmurou sem tirar os olhos do video game.
esperou até que resolvesse dar uma pausa para falar com ela.
- Você já se apaixonou? - perguntou olhando nos olhos de , com certa inocência que só existe no olhar de uma criança.
- Não, por quê? - respondeu e pousou os olhos no controle de seu Super Nintendo.
- Não sei. Você nunca teve vontade? Quer dizer, como nos filmes... - disse observando o jardim através da grande janela da sala.
- Eu gostaria, mas... Garotas? A única menina com quem eu realmente converso é você! - disse fazendo cara de nojo.
- Quer se apaixonar por mim? - perguntou.
- Claro, mas como se apaixona? - perguntou confuso.
- Hrm, você sente borboletas no estômago, segundo minha mãe... - disse pensando.
saiu correndo da casa de . Por alguns segundos, se assustara, mas percebera que não gostaria de se apaixonar por ela. Olhou para o video game. Por que não jogar e esquecer a mágoa?
Dez minutos depois, ouviu a porta se abrindo, olhou assustadamente para trá e viu com algo na mão.
- Achei que você tivesse ido embora... - disse encarando os olhos de .
- Claro que não, pequena... - disse sorrindo e a tranquilizando. Embora fosse apenas alguns centímetros na época, os quais viriam a ser muitos com o passar dos anos, costumava chamá-la de pequena.
- O que você tem aí na mão? - perguntou desconfiada.
- Ainda quer as borboletas no estômago? - sorriu abrindo uma frestinha na mão para que pudesse ver as borboletas.
- Aonde que elas vão?
- Pro nosso estômago! - sorriu.
- Ah, sério? - teve nojo.
- Quer se apaixonar? Então come... - disse dando uma borboleta para .
- No três! - disse.
- 1, 2, 3! - Contaram juntos.
As borboletas entraram rapidamente na garganta de , porém na garganta entalou, podia sentí-la se debatendo. Não queria mais aquilo em sua boca, mas estava certa de que queria se apaixonar por . Engoliu violentamente a borboleta e, quando abriu os olhos, pôde ver a cara de nojo de .
- Próxima etapa? - sorriu.
- Se tiver que comer lagartas, eu desisto! - disse seguindo para fora de casa.
Capítulo 2 - Find the love.
andava alegremente pelo jardim, enquanto esperava que voltasse da cozinha com a limonada que sua mãe tinha feito.
- O próximo passo? - Ouviu a voz de .
- O coração tem que acelerar... - disse se jogando no chão de olhos fechados.
- Bom, nós podemos correr! - disse se sentando ao lado de .
- Não, eu vou ficar suada... - reclamou e abriu os olhos.
a olhou durante algum tempo.
- AHHHHHHH! - Ele gritou.
- Quê?! - levantou em um pulo.
- Nada, era só pra você se assustar e seu coração acelerar. - sorriu e começou a correr pelo jardim.
- As pernas bambas. - sorriu indo em direção a casinha na árvore.
A casinha na árvore tinha sido construída quando e tinham apenas três anos de idade. O pai de queria dar-lhes um lugar para brincar, mas que não atrapalhasse a mãe de no dia-a-dia. Eis que surgiu-lhe a idéia de uma casinha na árvore, não era muito alta, apenas um metro de altura do chão. Lá dentro não tinha muitas coisas, apenas o necessário para que eles não se chateassem rápido.
terminou de subir a escadinha e ajudou a entrar.
- Me ajuda a pular! - disse começando a pular.
começou a pular incessantemente, enquanto pulavam eles riam. observava a garota sorrir e sorria de volta.
Eles pararam de pular. O coração estava acelerado, a borboleta revirava no estômago e as pernas bambeavam.
- Agora é o beijo? - perguntou.
- É... - disse baixo.
Os dois se aproximaram lentamente e deram um selinho, que durou alguns segundos, e se separaram.
- Sentiu alguma coisa? - perguntou.
- Só que eu vou vomitar... - disse fracamente e saiu correndo para dentro de casa.
correu atrás, sua barriga revirava. Pôde ver lavando a boca na pia e, logo depois, se pôs a vomitar na privada.
- Que nojo. - reclamou ao lavar a boca na pia.
- Se apaixonar é muito nojento! - disse secando a boca.
- Eu nunca mais vou me apaixonar... - prometeu.
- Nem eu!
- Vamos fazer um pacto! - disse cuspindo na mão. - Sela aqui.
fez cara de nojo.
- Ah, esqueci que você não é um garoto. - disse sem jeito.
- Tudo bem... - sorriu.
- Que tal um beijo? - sugeriu. - Não é lá essas coisas, mas...
- Certo! - disse dando um selinho em . - Quer tomar limonada? - Sorriu.
- Eu deixei a jarra lá fora. - disse e foi em direção ao jardim.
- Video game? - perguntou e assentiu.
Capítulo 3 - Eleven.
Um ano havia se passado, e entraram no ginásio. A velha inocência perpetuava em seus corações. East Compton School era onde estudavam e, embora não parecesse, o inferno começaria ali.
e entraram no colégio de mãos dadas e iriam direto para a secretaria pegar seus horários, se não fosse pela loira asquerosa que parou diante deles.
- Vocês são novos aqui? – A loira perguntou e sorriu. – Meu nome é Britney, sejam bem-vindos ao East Compton!
- Obrigada, mas nós temos que buscar nossos horários, com licença! – disse rispidamente e empurrou a menina para o lado a fim de poder continuar a caminhada até a secretaria.
- Você não precisava ser tão grossa... – disse quando estavam um pouco mais distantes.
- Eu não gostei do jeito dela. – disse simples.
Ficariam juntos apenas na aula de português, pelo menos naquele dia, então se separaram e foram até suas respectivas salas.
se perdeu em meio as milhares de pessoas que circulavam nos corredores, teria que chegar a sala 14B, mas como a acharia seria um problema.
Sabia que a escola ficava dividida em três prédios, estava no primeiro prédio, o próximo deveria ser o B, então log...
- Ai! – gemeu ao cair.
- Desculpa, eu não deveria correr e... – Ouviu uma voz masculina e olhou para o rosto do menino.
Cabelos loiros, olhos azuis esverdeados...
- Jesse Spencer. – E estendeu a mão.
agarrou a mão do garoto e se levantou.
- ... – murmurou encantada com o garoto.
- Nova aqui? – Jesse perguntou. – Qual a sala?
- 14B.
- Geografia com o Mr. Hatcher. Bom, quer que eu te leve até lá? – Jesse perguntou enquanto começavam andar e Jesse pegava a mochila de .
- Uhum...
- Não seja tão monossilábica! – Jesse disse rindo. – Vamos lá, eu tenho doze anos e estou na sexta série!
- Onze, quinta.
- Gosta de Plain White T’s? – Jesse perguntou oferecendo o fone do walk-man para ela.
- Não conheço, obrigada. – respondeu olhando para os pés.
- É uma banda americana, tente ouvir Can’t Turn Away... – Jesse ofereceu novamente.
pegou o fone e começou a ouvir.
- É legal... – disse sorrindo. – Você não é daqui, é?
- Australiano, vim para cá quando tinha cinco anos... – Jesse respondeu.
- Você tem um sotaque engraçado... – riu.
Enquanto atravessavam a quadra que separava os dois prédios, conversavam e riam.
- Bem, é aqui a sua sala. – Jesse sorriu entregando a mochila de .
- Obrigada.
avistou em uma mesa do refeitório e logo correu ao seu encontro.
- Tudo bem? – perguntou sorrindo.
- Sim, e aí?
- Ótima! – respondeu alegre.
- O que você tem que está tão sorridente? – perguntou estranhando.
- Não é n... – começou e logo viu Jesse vindo em sua direção.
- Então, mocinha, conseguiu achar as outras salas? – Jesse perguntou enquanto a cumprimentava com um beijo na bochecha.
- Consegui. – riu. – , Jesse. Jesse, .
- Beleza? – Jesse cumprimentou .
- Beleza... – fechou a cara, o que indicava tempestade por vir.
tentou falar com assim que chegou em casa, mas ele não atendia o telefone ou a campainha. Ele estava estranho havia dois dias.
- Alô? – atendeu o telefone.
- É o , minha mãe falou que você ligou aqui em casa... – disse seco.
- Ou pelo menos tentava, porque você não atendia! – disse em tom de bronca.
- Ah, você vai me encher o saco? Encha o saco do seu amiguinho! – falou rispidamente.
- O que o Jesse tem a ver com a história? Você simplesmente parou de falar comigo! – disse chorosa.
- Bom, você que começou me ignorando quando estava com o Jesse!
- Ora, ! Você sabe que você é o meu único melhor amigo! Eu não te trocaria por ninguém! – respondeu enquanto mudava os canais de TV.
- Jura? – perguntou baixo.
- Juro! – sorriu.
- Okay, amanhã cedo eu passo na sua casa e nós iremos para a escola! – sorriu abertamente. – Tenho que desligar. Beijo!
- Outro! – disse colocando o telefone na base.
No outro dia, lá estavam eles, andando de mãos dadas em direção a escola, se cumprimentando com selinhos e conversando animadamente.
Capítulo 4 - Twelve.
Não que fosse uma pré-adolescente problemática ou depressiva, apenas não estava acostumada com os fatos que a vida lhe impunha. precisava pensar, mas não conseguia parar de chorar e a dor de cabeça não ia embora.
A chuva começava a cair, parecia clichê e, realmente, estar triste embaixo da chuva soava como se estivesse em um filme de drama. Cada gota d'água que caia parecia estar levando um pedaço de suas preocupações, sentou-se na guia da calçada e ficou contemplando o cachorro do outro lado da rua, desesperado para achar alguém para morder, mas parecia se solidariezar com ou a achava podre para morder, enfim, ele não a mordeu.
Minutos depois ela pôde sentir uma mão pusando em seu ombro.
- Eu soube da notícia, sinto muito. - Escutou a voz tão conhecida.
- Eu não sabia que seria tão difícil, . - fungou. - Eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, mas eu não consigo compreender...
- , não é melhor você ir pra minha casa ou para a casinha da árvore? - perguntou de forma doce. - Eu peguei alguns biscoitos e Yakult em casa!
não respondeu, apenas levantou-se e seguiu , para onde quer que ele estivesse indo. Subiu uma escada e, finalmente, pôde se sentar, o chão poeirento sujaria sua roupa, mas ela não ligava.
- Meu pais não podem se separar... - murmurava enquanto seus dentes batiam de frio.
- Eu não sei o que te dizer. - disse enquanto enrolava em uma toalha.
- Meu pai vai sair de casa, ! Eu nunca mais irei vê-lo! - deixava milhares de lágrimas rolarem pelo seu rosto. - Ele vai nos trocar por uma piranha peituda! - sentiu um gosto amargo e salgado ao mesmo tempo, mas não era de suas lágrimas. Ela chegava a sentir repulsa de seu próprio pai.
- , eu posso não saber o que dizer, nem mesmo sei o que você quer que aconteça, ou o que você está sentindo... - começou e segurou a mão de . - Mas eu prometo que sempre ficarei com você, haja o que houver, aconteça o que acontecer. - limpou algumas lágrimas do rosto de . - Porque é você quem me faz sorrir ou me levantar quando tudo dá errado e sou eu que posso fazer isso com você...
sorriu e abraçou . Um abraço apertado que, embora não estivessem pronunciando palavras, eles sabiam o que o outro queria, sentia. Sabiam que ali sempre encontrariam conforto e abrigo.
- Promete que sempre vai ficar comigo? - perguntou ainda abraçada com .
- Prometo!
- Você sela? - perguntou olhando nos olhos do garoto.
E seus lábios se encontraram, prometendo esperanças, felicidades ou qualquer sentimento que desse alegria e fé.
- E só uma dica construtiva: você precisa escovar os dentes que seu hálito tá um horror! - riu e abraçou .
chegou em casa cerca de duas horas depois, conversara com e, embora ainda estivesse triste, sabia que poderia contar com ele para qualquer coisa.
- . – Escutou sua mãe lhe chamando quando estava ao pé da escada.
fechou os olhos, xingando mentalmente a porta do hall por fazer tanto barulho. Deu meia-volta e seguiu para a cozinha.
- Diga. – disse sentando-se.
- Nós vamos para o Canadá. – Sua mãe lhe disse firmemente.
A Sra. era uma mulher bem cuidada para os seus 38 anos. Normalmente, usava um coque bem arrumado e maquiagem leve, mas não naquele dia. Sua personalidade amiga e amável se transformara em amarga e controladora, seus olhos não tinham mais o brilho usual e demonstravam certa fraqueza. nunca respondera para sua mãe... até então.
- Como? – perguntou incrédula, sua mãe não faria algo assim.
- Vá arrumar suas malas, não precisa de muita coisa... – Aquela mulher estranha lhe dizia friamente.
- Mãe, eu nã... – começou.
- ! Eu não quero saber o que você pensa ou deixa de pensar! Não se atreva a responder para mim! – A mulher cortara sua frase rispidamente. – Não hoje, ... – E desabou a chorar.
não respondeu mais, nunca tinha visto sua mãe chorar. Não importava o que acontecesse ou fizesse, sua mãe sempre estava sorrindo, mas não naquele dia.
encontrou seu pai em seu quarto, sentando em sua cama.
- O que você quer? – perguntou da forma mais fria que podia, mas não conseguiria manter a pose. Não com seu pai a olhando com aquele olhar. O olhar de culpa.
- , eu sinto tanto... – A barba mal-feita, os cabelos despenteados. Parecia um bêbado nojento. Mas o olhar era de seu pai. – Você não merece nada disso. Você é tão forte! – O Sr. desabava.
o abraçou.
- Por quê? – As lágrimas caíam rapidamente dos olhos de , numa velocidade imensa.
- , eu nunca quis... Você é tão forte, tão mais forte que eu! Eu só espero que você possa me perdoar, você tem que me perdoar! Eu não sinto por mim, eu sinto por você!
não conseguia falar, queria poder falar o quanto o amava, o quanto não queria que isso acontecesse, mas não conseguiu.
- Eu te amo, filha. – Seu pai beijou o topo de sua cabeça e saiu de seu quarto.
Foi como se aquele homem, o homem acabado, bêbado, asqueroso saísse de sua vida, mas ele não saía sozinho. Ele estava levando consigo seu pai.
sentou-se em sua cama, tentou segurar as lágrimas, mas não conseguia. Pegou o telefone de seu quarto e ligou para a única pessoa que poderia lhe ajudar.
Capítulo 5 – Thirteen
andava pelas ruas de Toronto, Yorkiville, para ser exata. A quantidade de mulheres passeando com seus cachorrinhos, entrando em boutiques e restaurantes caros com seus amantes era ridícula. Embora já estivesse morando há um ano no Canadá, pelas redondezas de Yorkville, não se acostumara. Era muito difícil sem . O ano de 2003 não estava sendo nada fácil para ela, as ruas lotadas de gente feliz a deprimia. O celular em seu bolso vibrou, demonstrando que alguém ligava para ela.
- Alô? – Atendeu sem olhar para o identificador de chamadas.
- ?! Finalmente! – pôde escutar a voz de . – Estou tentando te ligar faz meia hora!
- Nós não nos falamos há duas horas? – perguntou rindo.
- Sim, mas eu tenho algumas coisas para te contar! – disse empolgado.
- O quê?! Adoro fofoca! – riu com a empolgação de e percebeu que as pessoas a olhavam. – Espera um pouco, eu preciso sair daqui, as peruas acham que só elas podem ser histéricas! Te ligo daqui uns cinco minutos! – disse e desligou.
guardou o aparelho celular no bolso e chamou um táxi, sua casa não ficava muito longe de lá, mas um ônibus não era o que queria após andar tanto a procura de nada.
Chegou em casa e logo correu para o seu quarto, voando para cima da cama e pegando o telefone.
- Alô? Conta tudo! – disse empolgada.
- Desculpe? – Escutou a voz da mãe de pelo telefone.
- Hrm, desculpe! É a , tia. Eu achei que fosse o ! – disse sem graça.
- Não se preocupe, já chamo . E vê se liga para conversar comigo! Estou morrendo de saudades de você! – A senhora disse e gritou um: ‘, a está querendo saber das fofocas!’, fazendo rir.
- Ele já vem!
- Obrigada, tia!
- Alô? – atendeu.
- Desembucha!
- Vamos começar dizendo que a Britney passou mal durante os treinos de torcida e a nossa escola não foi classificada para as finais estadual. – disse empolgando com a notícia de que havia chances de Britney morrer.
- O que mais? – perguntou ansiosa.
- Estou com saudades... – murmurou.
- Eu também estou com muitas. – disse sentindo que poderia chorar a qualquer momento.
- Quando você volta? – perguntou com a voz embargada, sabendo que a resposta poderia ser ‘Nunca’.
- Não sei, mas enquanto minha mãe não tiver vendido a nossa casa aí, teremos esperanças que a sanidade mental dela volte ao completo! – disse tentando animá-lo.
- Eu acho que talvez consiga convencer minha mãe a me deixar passar uns dias no Canadá, só para te ver... – disse com um pouco de animação.
- Eu falo com a minha mãe hoje à noite, mas eu preciso terminar o trabalho de Geografia, tenho dois mapas para entregar! – disse fazendo uma careta que não podia enxergar, mas sabia que ela estava fazendo.
- Certo, eu vejo se posso te ligar mais tarde, minha cota de ligações para você vai estourar antes do fim do mês se continuar assim!
- Hrm, , você tinha duas horas por mês para conversar comigo, né? – perguntou.
- Sim, mas eu acho que ainda tenh... – começou.
- Hrm, sua cota acabou de acabar! – riu.
- Droga! – resmungou.
- Não esquenta, eu entro hoje à noite no ICQ. Minha mãe vai ficar no turno da noite lá no hospital. – disse animada com a possibilidade de virar a noite com no ICQ.
- Certo! Beijos, te amo muito! – disse desligando o telefone.
suspirou, teria que fazer os mapas de qualquer jeito.
Terminara os mapas há meia hora, mas precisaria comer um miojo antes de enfrentar uma madrugada com .
Ligou o computador e sorriu ao ver a foto dela e de no Desktop, balançou a cabeça e entrou no ICQ. Conferiu a lista e ainda não entrara. Fechou os olhos e, quando ia começar a dormir em cima do teclado, o barulhinho de alguém entrando no ICQ a acordou. Odiava aquele barulhinho, ele até podia ser legal, mas estava tão cansada do mesmo barulho que tinha vontade de quebrar o computador. Não era . Esperou mais algumas horas, checou os e-mails (milhares de propagandas!), mas nada.
olhou pela última vez para o computador, não entraria. Já passava das dez horas, ele não falaria com ela esta noite.
Lembrou-se da noite de despedida com ele.
Flashback
- Vem aqui pra casa, ? Por favor! – pediu desesperada.
- O que houve? Me dá dez minutos para eu poder trocar de roupa! – disse enquanto pulava da cama.
- Não precisa trocar de roupa, só venha aqui! – disse tentando não soluçar ou chorar.
- Certo, já estou indo! – E desligou o telefone.
Logo, batia em sua janela para entrar. foi abrir a janela e, logo que adentrou, o abraçou fortemente.
- O que aconteceu, pequena? – perguntou passando as mãos nos cabelos de .
- Minha mãe... – começou, mas não conseguia parar de soluçar.
- Aconteceu alguma coisa com ela? – perguntou com a preocupação aumentando.
- Ela... – não conseguia fazer mais nada além de chorar. – e meu pai... – Tentou falar em outra coisa.
- O que aconteceu, ? Por favor, me diga!
- Eu vou embora para o Canadá! – disse com a voz alterada.
- Você não... Como? – não conseguiu entender o que ela dizia, bem, ele entendeu, mas ela tinha que estar brincando!
- Eu vou para o Canadá! Onde tem aqueles cantores bonitinhos, o país embaixo ou em cima dos EUA, eu não lembro onde fica a merda do país, mas ele deve ficar em algum lugar perto dos EUA! – disse rapidamente, como sempre fazia ao ficar nervosa.
- Você ‘tá brincando, né? – perguntou encarando os olhos da menina.
- Não...
olhou para a menina a sua frente, o tamanho mediano (o qual sempre era motivo de discussão entre os dois quando ficava ao lado de ), os cabelos jogados em seu rosto, algumas lágrimas caíam e acabavam pousando nos lábios da menina. não conseguia acreditar que aquela garota iria embora, a garota que sempre ficava com ele, que sempre estava ao seu lado, que nunca ia embora e que sempre o consolava. Ela iria embora e ele jamais poderia cumprir a promessa de nunca sair de seu lado. a abraçou, tanto pela perda quanto pela saudade que já sentia, pelo medo e pelo amor. O abraço que há uma hora havia consolado a garota, que já chorava de novo.
- Desculpa, ... – sussurrou para .
apenas o abraçava com força, não fazia idéia pelo quê ele se desculpava, mas não importava.
- Desculpa por não poder te proteger... – continuava a falar. – Por ter falado que tudo ia ficar bem, mas não ficou...
- ... – chamou.
afrouxou o abraço e olhou para .
- Fica comigo hoje? – perguntou enquanto deixava mais lágrimas rolarem.
sorriu e deitou com na cama.
Flashback Off
acordou dos pensamentos e, quando olhou para o computador, avisava que recebera um e-mail.
Eu entrei no ICQ e você não ‘tava online. Tive que sair. Te amo, pequena!
xx
balançou a cabeça sorrindo e foi tomar banho. Precisava parar de sonhar acordada.
Capítulo 6 – Fourteen
olhou o relógio pela décima vez e suspirou. Não era a primeira vez que ele se atrasava e isso estava começando a irritar. Desde que chegara, não era o mesmo. Embora suas saudades fossem grandes e ele realmente se esforçasse para vê-la, sempre era impedido por Britney.
A brisa suave do Outono passou por e a fez desistir de esperar, pegou sua bolsa e tentou ligar uma última vez para . Ocupado, como sempre. Ajeitou os cabelos e começou a caminhar em direção à sua casa. Algumas pessoas ainda andavam na rua, eram oito horas e o céu continuava claro. caminhou durante alguns segundos e se lembrou de um parque que ficava perto de sua casa. Uma passada ali não a mataria.
- ? – A garota escutou alguém a chamando enquanto se sentava no balanço. Um sotaque suave e gostoso delineava a voz e pôde ver Jesse.
- Hey! – sorriu e acenou para o garoto que vinha em sua direção.
- Por que não me avisou que estava aqui? – Jesse perguntou ligeiramente surpreso por vê-la em Londres e a abraçou com força.
não queria responder que não o procurara porque perdera tempo discutindo com durante uma semana, não queria contar que não ligara nem ao menos para um oi porque estava ocupada demais chorando todas as vezes que a deixara esperando.
- Eu simplesmente não consegui te ligar. Semana cheia. – deu um leve sorriso e Jesse estranhou o sorriso falso de .
- O que houve, ? – Jesse perguntou franzindo o cenho e se sentando ao lado de .
- Ah, Jesse, ‘tá tudo tão diferente... – murmurou enquanto dava pequenos impulsos no balanço.
- O , não é? – Jesse perguntou e balançou a cabeça. – Logo que você foi embora, eu comecei a conversar com ele, mas de um mês para cá ele simplesmente esqueceu a existência dos outros. Acho que nós devemos isso à Britney. – Jesse disse ironicamente fazendo sorrir fracamente. – Se eu continuar irônico, acho que arranco um mais verdadeiro. – Jesse sorriu e segurou o balanço de para que ela parasse de balançar. – Senti sua falta, .
- Eu também senti a sua, Spencer. – disse sinceramente.
Jesse não era seu melhor amigo, mas ela o amava de forma incondicional e arrebatadora. Era como se quando estava com ele, tudo girasse em torno deles. Apenas deles. sempre sentira uma leve atração por Jesse e sempre tentara negar a si mesma, mas agora estavam tão próximos e ela podia enxergar os olhos do garoto com tanta clareza. Os olhos verdes estavam com um brilho excepcional e a boca a estava convidando tortuosamente. esperava que aquela espera não durasse muito mais, a proximidade, a tensão, a respiração conjunta, tudo isso levaria para o momento mais esperado por . Seu primeiro beijo.
Jesse observou os traços da garota e encarou os olhos dela, puxou a cabeça da garota e os lábios roçaram e logo estavam colados. parou subitamente e se lembrou de . As promessas que faziam quando crianças vieram à sua cabeça e a fizeram imaginar como seria beijá-lo realmente. E aquele na sua frente não era .
- Desculpa... – murmurou e se levantou do balanço. – Eu tenho que ir.
Jesse ficou paralisado, em choque pela proximidade e pela excitação que aquele momento causara. Nunca tinha ficado daquele jeito, não tão trêmulo e tão inseguro. Estava suando e não sabia o que pensar ou fazer e logo que acordou do transe, estava longe. Jesse correu para conseguir conversar com ela.
- , eu... – Jesse começou.
- Jesse, me desculpa, eu não sabia o que estav... – disse se virando para olhar para Jesse e, quando o fez, se viu colada com o garoto. A mesma proximidade, a mesma tensão. , que ainda respirava ofegante pelo momento de minutos atrás, teve seu coração mais acelerado. Tentou falar qualquer coisa, mas foi calada pelos lábios de Jesse. O desespero pelo beijo era mútuo, a repressão de quatro anos viera à tona e puxava Jesse com intensidade. As línguas se entrelaçavam e Jesse parecia querer mais a cada momento, cada segundo do beijo.
- Eu acho que... – começou a falar.
- Não foi um erro, . – Jesse disse como se imaginasse o que ela ia dizer.
- Eu não ia dizer isso. – sorriu. – Não foi tão mal assim, foi? – mordeu o lábio. Não sabia como era seu beijo e nem sabia se beijava mal ou qualquer coisa do tipo. Momentos antes não pensara se Jesse a acharia patética ou se não sabia beijar. Apenas queria aquilo.
- É, acho que não foi tããão ruim. – Jesse sorriu, brincando com os cabelos de . Com os corpos ainda colados, eles já não respiravam tão rapidamente. Algumas pessoas observavam aqueles jovens rindo e brincando um com outro no meio da rua. Inclusive um garoto chamado , que passou tão rápido pelo casal que eles nem se deram conta do descontrole do rapaz ao ver a cena.
- Quer ir para casa? – Jesse perguntou andando ao lado de , com sua mão na cintura da garota.
- É, acho melhor. – disse olhando o relógio.
Naquele momento, não pensava em , no atraso do garoto, nas noites chorando pela mudança do garoto ou qualquer coisa relacionada. Estava tão nas nuvens que nem percebeu quando o garoto entrou em sua casa e logo apareceu na sacada de seu quarto para observá-la. apenas brincava com Jesse e gargalhava a cada piada idiota que o garoto fazia.
- Eu esperei muito por isso. – Jesse disse se sentando na escada da soleira de , enquanto a observava gritar que já chegara à porta do Hall.
- Eu também, loirão. – sorriu e se sentou ao lado do rapaz, encostando a cabeça em seu peito.
Jesse a abraçou e ficaram assim durante alguns minutos, nem percebendo o olhar raivoso que caía sobre eles.
- , eu preciso falar com você – a puxou até a varanda. – Preciso falar isso logo e não vou mais enrolar.
- Calma, – riu. – Parece até que vai terminar comigo! – gargalhou. – Okay, fala, menino.
- Eu quero te mostrar um lugar antes – ele levantou e começou a andar.
- ? – ela tinha que correr para acompanhar os longos passos do garoto. – Onde estamos indo? Não posso ir para muito longe, minha mãe me mata.
- Só me segue. – disse sério e o acompanhou calada.
Ela observava o relógio de cinco em cinco minutos e ficou cada vez mais desesperada ao perceber que conhecia cada vez menos os lugares por onde passavam. Seu coração acelerou ao perceber que já estavam andando há uma hora e que sequer se importava com o sol se pondo no horizonte.
- , eu realmente acho que... – ela estava com medo. – nós devíamos voltar. Um dia a gente acorda mais cedo e vem porque...
- Cala a boca e anda, – ele disse grosso e sentiu as pernas pararem. – O que foi agora?
- , sério, eu estou com medo, está escurecendo e... – a puxou e ela começou a andar. – preciso avisar minha mãe porque talvez a gente não volte tão cedo!
- Anda – ele só falava isso e a garota permaneceu quieta até chegarem em um local onde se encontrava uma fábrica abandonada, então subiram as escadas do velho prédio e prendeu a respiração ao ver uma parte da cidade dali de cima. – É o lugar mais bonito de Londres, na minha opinião.
- Nós podíamos ter ido até a London Eye, nessa época nem e tão lotado – comentou e viu o olhar fuzilante de . – Mas esse lugar também é legal.
- É quieto, serve para pensar.
- Por que você me trouxe aqui? – viu o sol desaparecendo no horizonte. – Está realmente escuro.
- Você teria medo se ficasse presa aqui? – perguntou sombrio.
- Óbvio, o prédio está caindo aos pedaços, não é? – ela sentiu um calafrio com uma brisa que passou. – A gente pode ir embora?
- Não quero mais te ver... – disse baixo. – Era isso que eu precisava te falar.
- Tá, , pode parar de zoar e vamos embora – puxou , porém ele não se moveu. – Sério, minha mãe vai me matar, você tá com seu celular?
- A Britney queria que eu parasse de falar com você desde que você chegou, ela acha que a gente conversa demais – parecia pensativo. – Ela falou que você podia gostar de mim muito mais do que era necessário e que era você ou ela.
- Você me escolheu, no mínimo. Agora a gente pode ir? Essa conversa pode terminar lá em casa... – ela procurou uma blusa na bolsa, mas não tinha nada ali.
- Pode ficar – ele tirou sua blusa e entregou para a garota. – É o mínimo que eu posso fazer por você.
- , você está realmente estranho.
- Eu preciso te devolver algo – ele retirou uma sacola de cartas e fotos da mochila. – Isso aqui é seu – ele esperou pegar.
- São as cartas que eu te dei? Nossas fotos? , isso é seu!
- Britney acha que se eu ficar com isso, vou querer voltar a falar com você.
- Tá, o que você acha? – começou a ficar irritada. – Você realmente vai jogar tudo isso fora por causa dela?
- Você foi embora, , e muita coisa mudou...
- Não foi porque eu eu quis e você sabe muito bem disso! Tentei de todos os jeitos ficar com você, ficar aqui, ficar com o que mais me importa na vida: você!
- Então por que você não me contou que estava ficando com Jesse?
- Você sequer atende minhas ligações, o que quer que eu faça? Toda vez que eu ia na sua casa ou a Britney estava lá ou você estava na casa dela! Caramba, , não sou idiota! – sentiu os olhos arderem. – Eu saí no maior pau em casa porque eu saí de casa agora para falar com você. Fiz tudo por você e você acha que eu fui embora porque quis?
- Quando você foi embora, eu quis morrer, mas eu estou bem sem você agora. E eu estou feliz com a Britney, você quer entender isso? – abriu a carteira e pegou algumas libras. – Pegue um táxi, vou ficar por aqui.
- Você está sendo idiota, – ela arrancou a blusa de seu corpo e jogou para o garoto. – E eu não aceito esmola.
- , eu te trouxe aqui, pretendo dar um jeito de você ir embora.
- Eu posso ligar para Jesse – ela respondeu grossa e ele sentiu o coração apertar. – Porque ele faz as coisas por mim – ela disse abrindo a porta do terraço. – Realmente espero que você morra – ela deixou uma lágrima cair e desceu as escada correndo, parando no último degrau para sentar e chorar por alguns minutos até ver descendo e então ela foi embora.
Capítulo 7 – Fifteen.
coçou a cabeça e voltou seus olhos às parafernalhas espalhadas pelo chão. O cheiro de pó era quase insuportável, e ela pensava em desistir de organizar os armários.
- ? – escutou uma voz vindo da porta e batidas incessantes começaram. – Você tá aí?
- Entra logo, Jesse – disse voltando a limpar os armários.
- Tudo bom, amor? – ele entrou sorridente e começou a tossir. – Que pó é esse?
- Bom, como eu passei metade do ano na sua casa e minha mãe se recusou a limpar meu quarto, depois de um ano praticamente sozinho, os móveis costumam juntar pó, sabe? – ajoelhou-se à altura do hack e passou a limpar as gavetas. – O que veio fazer aqui, amor? Achei que você só viesse no final de semana, como combinamos.
- Não era pra eu vir, eu sei, mas... – ele arranhou a garganta e levantou os olhos para encarar o namorado. – acontece que, bom, você sabe, eu ainda converso com o , nada contra o garoto e...
- É perfeitamente normal que vocês conversem, ele foi um cretino comigo, não com você. Eu mesma te estimulei para continuar conversando com ele, não tem porquê eu te impedir de conversar com ele – sorriu. – Não se preocupe com isso, continue falando com o como sempre fez.
- Não é isso – ele desviou o olhar. – Ele me pediu um favor, e eu não sei se sou capaz de cumpri-lo.
- O que ele te pediu?
- Ele queria que você fosse se encontrar com ele, queria conversar com você, mas eu não quero que você vá. Ele sabe disso e é por isso que ele pediu que deixasse você escolher – Jesse passou a mão nos cabelos. – Mas eu sei o que vai acontecer se você for...
- Ei, o que é isso? – jogou o pano de lado e se levantou. – O que você acha que vai acontecer?
- , por anos vocês ficaram juntos, e eu, junto com todo mundo, sei que vocês eram apaixonados – Jesse a abraçou. – Não quero te perder, você não pode ir.
- Ele quer falar comigo? – afastou o corpo e olhou nos olhos de Jesse. – Por quê?
- Não faço a mínima idéia – Jesse deu os ombros. – Enfim, você pode ir, se quiser...
- Não sou apaixonada por ele, nunca fui, nunca serei – sorriu. – E eu acho que você não devia se preocupar, não vou.
- Sei que você vai fazer o melhor – Jesse sorriu e observou voltando para os armários, tão entretida que mal viu quando ele colocou um envelope em cima da escrivaninha.
- Finalmente – se levantou e sorriu ao ver os armários organizados e limpos. Então ela olhou o relógio e suspirou. Ela devia buscar a mãe no aeroporto, já estava atrasada. Muito atrasada.
- Que é isso? – observou um envelope sujo em cima da escrivaninha ao pegar sua jaqueta jogada na cadeira. – Depois eu abro... – jogou o envelope para o lado e desceu as escadas correndo.
O trânsito estava infernal e os táxis estavam impossíveis de serem conseguidos, foi um milagre ter conseguido um táxi aquela hora, mesmo que fosse com um colombiano falante que ficara impressionado com o fato de entender espanhol porque era descendente de brasileiros.
- É, minha mãe é brasileira – comentou sem prestar muita atenção. – Eu também sou, mas morei lá apenas por oito meses...
- Muy guapa – ele sorriu maliciosamente para .
- Pode me deixar aqui, vou andando – ela jogou uma nota de dez libras para o motorista e desceu com o carro ainda em “movimento”. O trânsito estava tão parado naquela região que era mais fácil ir andando até o aeroporto, já tinha uma visão boa do local.
começou a correr ansiosamente para ver a mãe, porém percebeu uma movimentação a uns duzentos metros distantes do aeroporto. Não era muito curiosa para esse tipo de coisa, mas algo a puxou para o meio da multidão, e ela já estava lá no meio vendo um carro tombado. Um táxi tombado com uma mulher jogada a um metro.
- Mãe! – berrou e correu junto ao corpo.
- Você é parente? – um policial se aproximou e encostou a mão no ombro de .
- Não, imbecil, eu gritei ‘mãe’ porque acho legal dar uma de louca – segurou a mão da mãe e percebeu o quão gelada ela estava. – O que houve aqui?
- O motorista estava bêbado e perdeu o controle do carro, deve ter tentado frear em alta velocidade, e o carro bateu no poste, tombando.
- Ele está vivo?
- Achamos que não vai sobreviver...
- Ótimo – disse com ódio e olhou para a mãe. – Cadê a merda da ambulância?
- Senhorita, eu não sei se você... – ele a encarou piedosamente. – Não tem pulso ou respira, entende?
- Foda-se, eu quero uma ambulância agora! – berrou. – Pra um bêbado filho-da-puta você consegue uma, não é? – ela aumentava o tom de voz e o policial a fitou, desconcertado. – Pare de me olhar desse jeito e ligue pra ambulância! Ah, deixa pra lá – pegou o celular do bolso e discou. – Alô? Uma ambulância pro Aeroporto da Cidade de Londres, ela ainda está respirando e tem pulso – mentiu. -, foi um acidente de carro. Rápido! – ela desligou e o policial a encarou.
- Ela não tem pulso...
- E logo, logo você também não terá se não calar a boca!
- Eu tenho que lhe dizer, senhorita, que não há a mínima chance de que ela sobreviva e...
- VOCÊ É O QUÊ?! MÉDICO, ENFERMEIRO, CIRURGIÃO, PEDIATRA, GERIATRA OU QUE PORRA?! ACHO QUE VOCÊ É UM POLICIAL DE MERDA, ENTÃO, POR FAVOR, NÃO ABRA MAIS SUA BOCA – se levantou e apontou o dedo para o policial. – Você vê as pessoas morrendo e nem se importa, então se afaste, não acabe comigo – ela derrubava as lágrimas sem se preocupar em ampará-las.
- Senhores, peço que se afastem – o policial caminhou para a multidão que observava interessada. – Eu podia lhe prender por desacato a autoridade – ele murmurou. -, mas vou te considerar exaltada – ele dizia calmo e isso irritava .
- Obrigada.
Três dias depois...
- Meu pêsames, – a garota escutou pela milésima vez aquela frase e sorriu fracamente, ela não desejava nenhuma daquelas pessoas, apenas uma.
- É assim que você sorri? – parou ao escutar aquela voz. – Oi, .
- Oi, – se virou e encarou o garoto que sorria. – Como vão as coisas?
- Tudo bem – ele disse e pausou antes de continuar. – Sinto muito, de verdade.
- Eu sei, – riu e quase deixou uma lágrima escapar.
- Não sobre isso, aliás, sobre isso também, mas o que houve um ano atrás, sabe? Queria ter conversado com você antes e...
- Poupe seu fôlego, , o Jesse me falou sobre isso, mas eu mesma não quero escutar suas desculpas – começou a se afastar. – Não quero te escutar...
- , venha – seu pai lhe puxou e ela o encarou. – Você vai morar comigo.
- Não, obrigada, eu vou morar com meus avós no Brasil, valeu a tentativa! – deu um sorriso falso e bateu palmas. – Desculpa, mas não vai rolar.
- Achei que não fosse funcionar desse jeito mesmo – ele suspirou. – Sou sei pai e tenho sua guarda, você vai, querendo ou não.
- Deram a guarda a um bêbado vagabundo? – desvencilhou-se dele e tentou se afastar.
- Eu mudei, , e vou te provar isso – ele a segurou. – As pessoas mudam.
- Não mudam, Frank, elas não mudam – ela sorriu tristemente. – Você pode tentar mudar, mas, no fundo, você sempre será um cachaceiro estúpido.
- E, no fundo, você sempre será uma garotinha assustada que dorme encolhida, que teme todo mundo e que não consegue viver feliz – ele disse e logo se arrependeu.
- Essa outra tática também não funciona.
Se afastando das pessoas e dos pêsames falsos, subiu as escadas correndo e se fechou no quarto, derrubando todas as lágrimas e olhando para todas as caixas fechadas e arquivadas devidamente.
- Achei que você fosse vir aqui – Jesse estava sentado na cama. – Seu pai veio falar comigo e pediu que eu conversasse com você, não vou porque sei que nada vai mudar sua opinão – ele falava e se levantou e foi até ele. – Muita coisa está embaralhada, e nem eu que estou fora da história entendo por que ele quer te levar, mas fico feliz porque você vai estar aqui comigo, e é tudo o que eu posso pedir. – ele sorriu e beijou a testa da garota.
- Por que as coisas acontecem desse jeito, Jesse? – perguntou.
- Não sei – Jesse respondeu, ela não queria escutar isso dele.
- Não quero morar com ele – murmurou e ele a abraçou.
- Não sei o que te dizer... – ele murmurou de volta e a apertou mais forte.
- Crianças, vocês podem descer? Parece que sua mãe deixou uma carta para ser lida e querem vocês lá embaixo – alguém abriu a porta repentinamente e eles seguiram a mulher – uma amiga da mãe de , provavelmente.
- Temos duas cartas aqui, uma é para a ler sozinha e a outra é para ser lida a todos – o pai de a encarou e ela pegou o envelope. – “Se vocês estão lendo isto, estou à sete palmos abaixo da terra e provavelmente mais feliz. Vocês devem saber o quanto eu lutei por tudo o que tenho e o quanto prezo tudo isso. Esta carta foi escrita no aniversário de doze anos da e espero que só seja lida muito tempo depois.
Não escrevi por medo de morrer jovem demais, mas porque li alguns livros e, como todos sabem, imito muitas coisas que leio. A leitura é fascinante, espero que esta esteja sendo também, e gostaria de deixar bem claro duas coisas – esta carta será muito breve.
A primeira é uma citação de uma escritora brasileira chamada Clarice Lispector – acho que vocês deviam ler literatura brasileira – e ela diz que ‘Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo o entendimento’. Entendem a frase? Vocês não deviam se preocupar tanto com tudo, apenas vivam sem tentar estar sempre em cima, sem tentar descobrir tudo. A graça da vida está nos mistérios, sério. Vivam!
A segunda coisa que quero dizer e deixar bem claro é sobre meu legado. Tudo o que fiz e deixei foi em nome de minha filha, , ela é a razão pela qual vivi tanto tempo e, se estiver lendo, querida, saiba que os filhos são as únicas razões pelas quais as mães suportam tanta dor. Espero que você entenda tudo o que eu entendi e viva muito mais feliz do que eu vivi.
À todas as pessoas estão lendo isso, obrigada.
‘Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam.’” –
ele terminou de ler e sorriu.
- Não vai ler? – Jesse perguntou ao ver fechando uma mala e guardando a carta junto com a outra que não abrira.
- Acho que posso guardar isso por mais um tempo – sorriu.
- Você parece melhor.
- Eu estou melhor – caminhou até Jesse. – Eu quero me sentir melhor. – o abraçou e se permitiu se sentir bem. Escutaram batidas na porta.
- Posso conversar com você? – viu entrar no quarto.
- ...
- É importante – ele disse sério.
- Por que eu deveria conversar?
- Por causa disso – ele caminhou até a mala de e pegou a carta suja e amarelada. – Você não abriu, não leu, então eu mesmo vou te dizer o que escrevi...
- Você não pode ir embora, ?
- Ele vai embora, – Jesse disse alterado. – Ela vai ler a carta, cara, vou me certificar disso, só vai embora, ok?
- Não, Spencer, não desta vez.
Capítulo 8 – Sixteen
sorriu antes de beijar o vidro gelado do retrato da mãe e guardá-lo no criado-mudo. Sabia que muita coisa mudara de alguns anos para cá e não queria que mais nada mudasse porque as coisas piorariam. Não era pessimista, mas aprendera que muita coisa não pode ganhar mudanças ou as coisas pioram e não voltam mais ao normal. Não voltam mais... Ela entendeu perfeitamente o significado disso no ano passado.
- , eu falo sério, acho melhor você ir embora – segurou o braço de e o puxou até a porta. – Não quero te escutar porque eu não acredito em você.
- O que você acha que eu vou te dizer? – ele perguntou e se recusou a responder. – Ótimo, , nós sabemos que você não faz a mínima idéia do que eu quero falar, então tenta me escutar!
- Não posso – ela murmurou e encarou Jesse. – Por favor, me respeite, . Se não a mim, respeite minha mãe...
- Você precisa entender porquê eu fiz aquilo, porquê eu tive que te deixar por conta própria e...
- Não – o interrompeu. – Você jamais me deixou sozinha, eu tinha o Jesse, tinha minha mãe, sempre tive muitas pessoas ao meu lado.
- Você precisa entender, ...
- Entender o quê, ? Entender sua cabeça confusa e burra? Entender que tudo sempre tem que ser do seu jeito? Não quero te entender e não vou te entender porque nem mesmo você se entende! Você é confuso até mesmo para Deus tentar te consertar, sabia? Você não se importa com as pessoas ou com as conseqüências, seu ego é o que importa, então, não, , não quero te entender, não preciso te entender!
- Só quero cinco minutos, é tudo o que eu preciso, – implorou e a encarou com olhos marejados. – Por favor!
- Jesse... – a garota perdeu a força nas pernas e se deixou cair na cama. – Você entende? – ela encarou o namorado. – Não vai acontecer coisa alguma, ok? Cinco minutos, é o que eu te peço – ela pediu e Jesse consentiu com a cabeça.
- É tudo o que terá – Jesse deu os ombros e encarou , então saiu do quarto e fechou a porta.
- Acha que pode me fazer mudar de idéia? – ela perguntou e o garoto sorriu fracamente.
- Você foi embora, eu fiquei muito confuso, não entendi muito bem porque crianças nunca entendem. Até hoje não entendo o porquê de ter agido tão infantilmente há um ano atrás, não entendo como eu pude me deixar levar pelas idéias da Britney...
- Ótimo, você não entende, por que acha que eu entenderei?
- Porque você é uma garota e vai entender o porquê eu fiquei tão desesperado ao descobrir que a Britney estava doente...
- Certo, , a garota tinha gripe, febre ou qualquer merda, então você acreditou que ela estivesse morrendo? Mas é ingênuo demais.
- Você tem visto a Britney na escola, na rua, igreja ou baladas? Então te direi o porquê, – ele engoliu seco. – Câncer não é uma doença muito legal, principalmente quando se remove um tumor e ele já se espalhara pelo corpo todo. Ela pediu que eu parasse de falar com você, não pude deixá-la morrer com raiva de mim ou algo do tipo...
- É isso, ? A garota está prestes a morrer, então você resolve que seu ego é fraco demais para agüentar o ódio de uma garota e resolve que eu posso agüentar qualquer coisa? Porque eu sou forte? Porque eu pude agüentar meu pai me deixando?
- Você tem que entender, ela estava morrendo, não podia acabar com a vida dela de uma vez... – deixou uma lágrima escapar. – Ela estava lá por mim, ela esteve lá quando você não pôde e ela nunca me deixou cair. Tinha que respeitar todos os seus desejos.
- E quando ela morreu?
- Semana passada, ninguém sabe. Morreu lá nos Estados Unidos, onde ela desejava morrer. Ela não queria que mais ninguém soubesse além de mim e da família dela.
- Claro, porque você é uma pessoa muito especial e amável!
- Eu faria o mesmo por você, jogaria qualquer pessoa fora se você me pedisse, mesmo sem estar doente, ainda faço isso... – baixou os olhos e encarou os próprios pés, ainda de pé, ele estava cansado da viagem de avião que acabara de fazer.
- Você não fez quando pôde, não faria agora.
- A situação era diferente, não podia deixá-la sozinha!
- ELA TINHA A FAMÍLIA DELA, NÃO ERA FICAR EXATAMENTE SOZINHA! – berrou e a encarou. – Você acha que eu fico muito feliz com tudo isso? Explica muita coisa, explica, eu realmente entendo, mas isso não significa que eu posso te perdoar!
- Você sabe o quanto eu te amo, caramba? Jamais teria feito se não fosse a situação.
- É engraçado, não? Como as coisas mudam – riu e deixou uma lágrima escapar. – Como eu mataria qualquer um por suas palavras, mas não posso acreditar em nenhuma palavra que você diz agora. Não só não acredito, mas também não desejo! E eu teria matado qualquer pessoa para poder estar com você até hoje, mataria qualquer pessoa para nunca ter te perdido...
- Você nunca me perdeu – disse baixo.
- Te perdi e... algumas coisas não voltam, sabe? Não devem voltar porque podem machucar demais...
- , por favor...
- Perdi meu pai, perdi minha mãe, perdi meu melhor amigo, não vou perder meu namorado por sua causa, .
- Você pode ter algumas coisas de volta, você tem a seu pai! Não pode tentar ter outra coisa de volta?
- Não é como se vocês fossem objetos – riu. – É diferente.
- Você acha que eu quero ser um objeto?
- Não sei o que você quer ser, mas sei o que você não pode ser...
- O que eu não posso ser? – se aproximou lentamente e se sentou ao lado de na cama.
- Meu melhor amigo, isso você jamais vai voltar ser – parou de falar ao perceber a proximidade de .
- E o que eu posso ser? – levou sua mão ao rosto de e puxou a cabeça da garota para que pudesse beijá-la e encostou seus lábios nos dela. – O mundo pode ser um lugar solitário sem a pessoa que te coloca um sorriso na cara, sabia?
- ... – ela murmurou. – O que você está fazendo? – ela perguntou sentindo um frio no estômago, como se borboletas voassem ali.
- Deixando as borboletas fazerem seu serviço – ele disse e a beijou.
- , seu pai pediu que você terminasse as malas logo – Jesse entrou de repente e jogou para o lado. – Acho que atrapalhei alguma coisa... – o garoto disse nervoso e fechou a porta.
- Obrigada, – agarrou a mala com força, fazendo com que batesse na perna de e o garoto fosse jogado no chão. – Quero que você morra! – ela berrou e saiu do quarto praticamente correndo. Com o coração acelerado, ela não entendeu o porquê do frio do estômago ou de mal conseguir andar, ela só desejou sair logo daquele quarto.
- , não desliga! – quase riu ao ver o número no identificador de chamadas. – Preciso falar com você.
- Sinto muito, , estou de saída – disse procurando as chaves.
- Não vai levar mais que cinco minutos – prometeu.
- Estou com muita pressa e já estou saindo, ok? Tchau – desligou o telefone, pegou sua bola e abriu a porta de sua casa para a rua. – Caramba! – berrou ao se deparar com . – , que saco, não avisei que estava de saída?
- Já sabia que você falaria isso, pensei que fosse verdade dessa vez, então trouxe cinqüenta libras no bolso e vou te acompanhar por onde for – sorriu. – A não ser que seja um lugar onde ônibus e táxis não chegam.
- Pois é, estou indo para a escola, não vai dar para eu falar com você.
- Posso conversar no caminho até lá.
- Acho que você devia cair fora porque estou atrasada demais – olhou para o relógio. – Ainda tenho muito a discutir com ele sobre o jornal da escola e, se você realmente quer voltar para a escola, devia se importar com o que anda acontecendo lá e... Olha a hora!
- Me escuta? – ele pediu com um tom de súplica, e ela rolou os olhos, jogou a bolsa no chão e o encarou.
- Então, ?
- Desculpa – ele disse baixo e encarou os próprios pés o que a fez rir baixo e encará-lo. – Estou muito arrependido.
- Desculpas não resolvem nada, ao menos para mim – se sentou na calçada. – Não devia te escutar, mas parece que eu devia estar aqui.
- Acho que é o certo a se fazer – sentou-se ao lado da garota. – Não quero continuar desse jeito, são praticamente três ou quatro anos sem nos falarmos, sinto muita falta de tudo o que fazíamos.
- Também sinto falta – sorriu ao se lembrar de sua infância. – Acreditava em você, e é isso o que eu estou fazendo agora. Parece tudo tão certo, .
- Quero te ter de volta, , como costumava ter. Você tem idéia de como quero poder passar o dia todo com você, como fazíamos quando crianças? – deixou um sorriso triste aparecer e nenhum dos dois quis quebrar o silêncio que apareceu de repente.
A brisa leve passou por seus corpos e tremeu de frio. Sem se importar se podia pegar uma gripe depois, tirou seu casaco e entregou a , que o aceitou e o encarou.
- Eu não posso mais confiar em você... – a garota disse com a voz fraca. – Sabe o quanto isso dói?
- Você não pode confiar em mim? – ele perguntou baixo ao se aproximar da garota lentamente e a encarar durante alguns segundos. – Só peço uma chance.
- Eu tento confiar, mas eu não consigo! Eu quero sentir que está tudo bem, mas não está!
- Eu consigo sentir borboletas e você? - ele riu baixo e ela sorriu. - Acho que elas estão alguns anos atrasadas...
- Por que você fez aquilo? Por que você está fazendo isso?
- Acho que eu gosto de você, , acho que realmente gosto de você.
- Nós não devíamos fazer isso, é errado – sentiu a respiração dele e começou a compassar a sua respiração. – E parece tão certo também.
- Sei que eu errei demais, mas você pode me desculpar? – perguntou. – E nós podemos começar desde o início, não como amigos, mas como...
- Acredito em você e você terá sua segunda chance, mas apenas como amigos – ela se afastou de repente, assustada. – Você precisa me ensinar a confiar em você ou eu não posso te ajudar em nada, . Preciso confiar em você como confiava antes...
- Você sabe que pode... – segurou a mão da garota e a abraçou.
- Sei que posso, mas não quero cair de novo – ela sentiu uma lágrima queimar nos olhos. – Preciso saber que posso ter alguém pra me segurar – afundou a cabeça no peito de .
- Vou te segurar, não importa mais ninguém. – Ele prometeu e deitou na grama. – Sei que você entenderá isso e vai me entender.
- Só quero os velhos tempos de volta – ela murmurou quase sem forças. – Quase consigo dormir aqui – disse e começou a sentir o sono a embalar junto às mãos de em seus cabelos.
- O sol está gostoso – ele falou baixo e sentiu o sono chamá-lo. – Ei, não durm... – não conseguiu terminar a frase, bocejou e adormeceu.
- Ei, , acorda! – chacoalhou o garoto e observou o céu escurecendo. – Acho que dormimos demais.
- Credo, já é noite? – ele perguntou assustado.
- Isso não é o pior, , levaram minha bolsa embora – observou ao redor. – Não a acho em lugar algum.
- Tinha dinheiro lá?
- Algumas libras e meu celular, mas nada muito importante, deixei meus documentos em casa mesmo – ela disse.
- Nove horas – olhou para o relógio. – Acho que era duas e meia quando adormecemos.
- Perdi a bosta da reunião do jornal – reclamou. – Vão me matar.
- Relaxa, não deve ter tido muita importância – deu os ombros. – Como consegui dormir tanto?
- Não me surpreendo, não dormi nada essa noite e, bom, você é bem fofo – riu.
- Não dormiu por quê? Também não dormi.
- Aniversário de um ano da morte da minha mãe – sorriu tristemente.
- Pensei nisso também – coçou a cabeça. – Pensamentos correram à mil por hora na sua cabeça, não é?
- É – limpou a garganta. – Acho melhor entrarmos, vai chover – puxou até estarem em casa.
- Demorei para chegar aqui, você está morando muito longe de Londres – disse e se deixou levar por até estarem no sofá.
- Meu pai não quis ficar com a casa, tinha que ir aonde ele fosse – suspirou. – Mesmo ele não sendo o melhor pai do mundo, é meu pai.
- Onde ele está? – perguntou descontraído.
- Ele trabalha como guarda noturno – deu os ombros. – Deve estar no trabalho, então de manhã ele é gerente de um fast-food qualquer e volta apenas de tarde para dormir.
- Ele está se esforçando, não?
- Não apaga tudo o que ele fez para mim.
- Você precisa aprender a perdoar, – disse. – Ou tentar escutar, não só ouvir.
- Você terá que me ensinar, não sei fazer muita coisa... Acho que desaprendi – abraçou as próprias pernas.
- Posso te ajudar a se lembrar, mas você tem que me perdoar.
- É cedo demais para lições – ela disse desviando do assunto e ligou a tv. – Vai passar Friends a madrugada toda, quer assistir?
- Posso fazer pipoca? – perguntou ao entender o medo da garota.
- Vai lá – ela sorriu ao vê-lo levantar. – Ei, com manteiga!
- Folgada! – ele riu.
- Amanhã nós vamos à escola! – berrou.
- Isso é só amanhã, se liga no hoje! – berrou de volta e riu. – Senti falta disso!
- Também senti...

