À Francesa

Autora: Kitty
Status: Em Andamento
Revisada por: Pamela Leão
Categoria: Hot Fics
Sub-Categoria: LongFic + Comédia, Romance, Drama
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Capítulo I: Dúvidas e turbulência

Eram 06:30 da manhã e ainda estávamos em território francês. Mais precisamente em Paris, no aeroporto Charles de Gaulle, mais precisamente ainda, dentro do Airbus da Air France. Fazia pouco tempo que havíamos entrado no avião, eu Katty, Marine e Ana. Katty havia sentado ao meu lado, seguida de Marine e Ana, na janela; o que me fez ficar na ponta oposta da janela, não por acaso. Eu nunca fui fã de altura e aviões... bem, aviões me davam arrepios. Quando eu era menor, voos me deixavam bastante desconfortável, a ponto de me fazerem chorar antes da decolagem e precisar apertar firme a mão de minha mãe durante ela.
Velhos tempos... Na época, quando tinha meus 9 ou 10 anos, eu não podia imaginar a guinada que minha vida tomaria alguns anos depois. Não imaginaria que formaria uma banda e que essa banda faria sucesso, me obrigando a simplesmente não parar por mais de dois dias no mesmo lugar. Está certo que nossas viagens eram em sua maioria por terra e aliás, “por França”. Arriscávamos uma vez ou outra tocar em algum festival na Espanha, ou Inglaterra. Mas nossas turnês continuavam tímidas em sua maioria, afinal nós tínhamos e não tínhamos sucesso. Isso era engraçado, mas real. Por um lado tínhamos fãs obcecados, e por outro, uma multidão nos desconhecia. Era uma surpresa sair na rua sem pretensão, nunca sabíamos se teríamos de dar autógrafos e tirar fotos ou não; apesar de eu preferir passar totalmente invisível nesses casos. A situação das Plastiscines era de fato, engraçada. E a nossa reação a isso era um pouco aos trancos e barrancos, falando por mim (e posso garantir que as meninas compartilham esse mesmo pensamento comigo), eu não sabia ser famosa, eu não sabia me portar como um “ídolo”, o que muitos dos fãs talvez esperassem de nós. Isso me assustava o pouco, na realidade.
Era estranho, mas ultimamente eu andava tentando refrear algumas coisas na minha vida que me davam a leve sensação de já serem irrefreáveis. Estarem num ponto sem volta. Okay, eu que fui atrás delas, com meus 16 anos e muita timidez nas costas simplesmente dizer “quero ser a baixista da banda de vocês”. Eu nunca nem sequer tinha visto um baixo pessoalmente naquela ocasião! Aliás, até tinha. Mas ele no palco e eu no público. De longe, sabem? Porque de instrumento, a única coisa que eu tocava era harpa. Erudito, não? Pois é, a Louise de alguns anos atrás nem lembraria de perto o que me tornei. E eu só precisava decidir se isso era bom ou não.
Meus pensamentos foram interrompidos quando soou no avião uma voz feminina, anunciando a decolagem em cinco minutos, com a ordem para os passageiros colocarem os cintos. Meu coração deu uma batida estranha com isso e eu senti minhas mãos um pouco suadas repentinamente, mas isso não era nem de perto meus escândalos infantis. Coloquei meu cinto sem maiores problemas e olhei para o lado por reflexo, me deparando com uma Katty entediada, já de cinto.
–Você ficava bem mais nervosa do que isso antes, lembra? – ela comentou, abrindo um sorriso, um pouco tedioso também.
–Aprendi a controlar... ou melhor, a esconder – respondi, dando de ombros com um sorrisinho de volta. Katty era minha melhor amiga, mas eu sabia que viagens de avião eram quase como um retiro espiritual para ela. Ela não gostava muito de falar e eu soube que ela havia falado por ter notado algo estranho em mim. Provavelmente dessa vez, eu tenha aparentado um maior nervosismo. E um nervosismo real.
–Louise, está tudo bem? – Katty me perguntou com aquela expressão astuta que só ela tinha, com a sobrancelha levemente erguida.
–Por que não estaria, Katty? – eu rebati quase na mesma hora. Rápido demais para parecer sincero e lógico, Katty percebeu.
–Porque você não é tão tensa assim, nem dentro de um avião. Aconteceu alguma coisa com Jean, ou algo do gênero? – Katty insistiu e novamente a voz soou no avião, primeiro em francês e em seguida em inglês. O avião decolaria a qualquer momento.
–Não, nada a ver, estamos ótimos... – respondi, com sinceridade. Eu sabia que estava estranha, só não sabia como pôr isso em palavras. Eu nem sabia o porquê! A única explicação que me vinha a mente era “medo do novo” ou “passos do tamanho das pernas”. Talvez tocar nos bares de Paris fosse bem mais palpável do que essa nova etapa.
–Então o que é? Eu te conheço – e eu a conhecia. Enquanto eu não desse no mínimo uma ficha técnica de todas minhas sensações e as explicasse tópico por tópico, Katty continuaria a me olhar daquele jeito... Inexpressiva e de olhos esbugalhados. Nunca conheci no mundo alguém com tal poder de persuasão, fato!
Senti o avião trafegando na pista e sua velocidade ir aumentando pouco a pouco, até que meu corpo colou na poltrona e meu estômago deu um nó. Segurar nos braços da poltrona me fez agüentar melhor a subida, até que a sensação de estar com as costas prensadas na espalda por uma força invisível acabou, e eu novamente relaxei. Sério, decolagens me enjoavam de verdade, principalmente tão cedo da manhã. Voltamos a ouvir a voz feminina no avião e retiramos o cinto, Katty pacientemente aguardando pela minha resposta; dei um suspiro e tornei a olhá-la.
–Não sei, acordei assim hoje, acho que tem a ver com as gravações – expliquei, tentando realmente entender o porquê de estar tão blasé.
–Com o McFLY? Louise, já conversamos sobre isso, todas nós no fim cedemos, mas se soubesse que estava tão incomodada, não teríamos fechado contrato!
–Não, mas não estou incomodada! É só... – perto de uma pessoa tão forte e decidida como Katty, eu me sentia inferior por sentir insegurança ou “medo do novo” e falar sobre isso era ainda pior – eles são bem famosos, certo? Nosso estilo é um pouco diferente, as fãs deles... entende? Podemos ser apedrejadas.
Katty deu uma risadinha meio incrédula ao me ouvir. Marine se mexeu na poltrona e virou para nosso lado, ao ouvir a risada, mas os fones imensos nas orelhas e o sorriso lúdico de quem está totalmente boiando acusaram-na de não ter ouvido nada da conversa. Melhor. Marine era tão minha amiga quanto Katty, mas se é que me entendem, eu não estava muito a fim de compartilhar medos idiotas com muitas pessoas naquela hora.
–Louise, não seja besta! – Katty começou. Era besta, eu sei, mas inconsciente, vai explicar. Alguém consegue controlar reações de luta ou fuga quando fica nervoso?? Então, é mais ou menos assim – as fãs deles não precisam nos amar para não nos atirar pedras. Só gravaremos uma música, é um simples dueto!
–E faremos shows, abriremos os shows deles na França quando estiverem em turnê... Mas talvez nem sejam só as fãs – tentei me retificar para parecer menos idiota, se Marine tivesse ouvido eu passaria a ser “Louise, a baixista com medos de fãs” – é sobre estarmos realmente no olho do... furacão?
Katty franziu as sobrancelhas e me olhou mais profundamente.
–Explica.
–Ah... gravando com McFLY vamos ser projetadas e eu não sei se estou realmente preparada para isso, é só insegurança, Katty, vai passar – falei diretamente com intenção de encerrar o assunto. Ela pareceu entender, ficou alguns segundos em silêncio, pensativa.
–Também tenho medo da fama – ela disse, simplesmente, o que me pegou extremamente de surpresa – tenho medo de que possamos perder nossa identidade e sequer percebamos isso, medo de aceitar todas as propostas “irrecusáveis”, como esse dueto com McFLY, medo de estarmos sendo manipuladas e o nosso sonho de fazer a nossa música se perca pelo caminho. E medo de colocar em risco nossa amizade no meio de tudo isso.
Oui, oui,eu estava presenciando um desabafo de Katty Besnard, ao vivo, em tempo real e a cores. Incrível!! E é lógico que fiquei tão estupefata que nem soube o que responder de imediato, o que a fez retomar a fala:
–Mas em compensação, Louise, nunca tive tanta sede na vida de continuar com tudo isso. De zerar, chegar ao final do que nos espera esses anos todos buscando algo concreto como banda... As coisas estão cada vez menos dispersas e isso me atiça a ser melhor e mais objetiva no que faço, tenho certeza que esse encontro com McFLY vai mudar as nossas vidas. E te juro que vou fazer de tudo para mudar a deles também.
Sério, conversar papos-cabeças com a Katty era assinar atestado de incapacidade mental. Ela era apenas um ano mais velha que eu, mas a sensação era de como se ela fosse minha mãe. Por um segundo vi uma Katty mais humana, se referindo à carreira. Uma respiração e meia depois ela me vinha com uma facadas dessas, me fazendo ficar encarando-a meio abobadamente, mais uma vez sem resposta. Sem dúvidas, ela era superior.
Não bastasse isso, depois de todo o sermão, ela simplesmente virou o rosto pra frente e ficou assim mesmo, olhando o nada, inexpressiva e em silêncio. Ela havia falado tudo e sequer esperava resposta de minha parte... é. Me empoleirei melhor na poltrona e também olhei para frente, pensativa de um modo diferente.
Queria dizer então que medo e satisfação andavam juntos nessa questão? Pelo que Katty quis dizer, era inevitável não sentir medo, mas ao mesmo tempo vinha em contrapartida a sensação de querer mais e mais fama e reconhecimento; por nosso esforço e talento.
Suspirei e desisti de pensar no assunto.
O quanto eu estava insuportável nesse dia, mon Dieu; as longas uma hora e quinze minutos que separavam Paris de Londres por via aérea seriam praticamente insuportáveis comigo mesma. Eu precisava de um cigarro e de uma boa e velha Heineken, mas como não tinha nem um, nem outro, optei por colocar os fones e ligar meu iPod. Com uma novidade: era McFLY que estava tocando nele.


Capítulo II – Primeiro encontro

Se eu fosse parar para pensar no quanto achei que a viagem seria cansativa, tinha de admitir que no fim das contas a coisa até que tinha corrido bem. No sentido de não ser tão massante passar à uma hora e pouco comigo mesma e tal... E isso eu devo a companhia do som de McFLY. Para ser bem sincera, eu nunca tinha parado para escutar a banda (sem pedras) e até que me surpreendi com as que pude escutar durante a viagem.
Eu havia comprado os cinco CDs no iTunes na noite anterior, meio que por obrigação de precisar conhecer o trabalho da banda com quem iria gravar; isso eu chamo de um mínimo de profissionalismo. As que pude escutar randomicamente me agradaram bastante, com a exceção de algumas românticas demais... tenho meio que um certo bloqueio com músicas muito melosas. Mas a real é que os rapazinhos tinham me surpreendido, porque dentre todas as meninas da banda, eu havia sido a que mais teve relutância de aceitar o convite do dueto.
Nada pessoal, realmente... mas é o que todos dizem: baixistas são estranhos. E eu me encaixo nesse quadro perfeitamente, nem faço questão de negar o fato para não ser hipócrita. Mas esse pensamento me fazia querer que o baixista deles fosse um pouco mais sociável e mais normal do que eu, para que tudo fluísse melhor, vocês me entendem...
Aliás, aí outra coisa que me dava medo. Não me dar bem com eles e principalmente, com o baixista deles. Quando duas bandas resolvem fazer um dueto, acho que deve existir um mínimo de afinidade entre elas, certo? E como esse fato se aplica quando você ao menos CONHECE as pessoas com quem vai tocar? Tipo, vai que sei lá... pelo fato de serem muito mais famosos que a gente eles sejam uns malas e fiquem se achando? Querendo que tudo seja como eles planejaram? Ah, mas se for assim, eu juro que...
–Louise! – senti que algo sacudia meu ombro – Hello, terra chamando!
Franzi as sobrancelhas e vi uma Marine me encarando um tanto impaciente, foi quando por falta de opções eu realmente deixei meus pensamentos de lado e me foquei na realidade. Estávamos nos encaminhando para o estúdio da Super Records, já em Londres. Tínhamos desembarcado tranquilamente no aeroporto Heathrow praticamente na hora prevista, há alguns minutos atrás. Tudo foi rápido e prático, nosso hotel, o Sofitel Heathrow (QUE hotel, diga-se de passagem! Pelos poucos minutos que fiquei no saguão de entrada apenas aguardando a confirmação das nossas reservas pude ter a certeza de que era o melhor eu já havia ficado na vida... e tinha sido cortesia deles!) ficava muito próximo ao aeroporto e chegamos lá em dois toques e, saímos praticamente na mesma velocidade, o que fora uma pena. Sempre amei observar cada detalhe dos hotéis em que ficávamos, a decoração e tudo mais.
Mas enfim, de volta ao agora.
Marine ainda me encarava e eu, como se despertando de um transe, dava uma checada pelo vidro do carro.
–O que foi? Já chegamos? – eu respondi simplesmente, enquanto observava a rua e pensava no quanto a paisagem londrina era característica e bem diferente da francesa. Eu preferia a francesa.
–Se já tivéssemos chegado, o carro não estaria em movimento – Marine respondeu e eu tive que concordar mentalmente que era verdade.
–Então o que foi? – eu tornei a perguntar, me virando e achando um pouco de graça da situação.
–Louise, sua safada... você andou tomando alguma coisa ontem de noite e não me chamou? Sério mesmo, dude... você está estranha! Olha só esse sorrisinho! Você está me dando medo!
Marine era definitivamente uma palhaça. E lógico, Ana se juntou a ela:
–Ela não te contou que estão com uma plantação de cogumelos, ela e o Jean?
Eu revirei os olhos e tive que rir mais. Aquelas duas juntas eram mais fumadas que qualquer um e ainda tinham a cara-de-pau de falar de cogumelos para mim.
–Se eu tivesse tomado algo ontem à noite, Rinema, com certeza você que teria me fornecido – respondi ainda rindo e a olhando com uma falsa censura. Rinema era o apelido dela, maluco assim mesmo, com as sílabas trocadas.
–Bem, é uma verdade – ela rebateu como se realmente estivesse pensando a sério no caso – mas então... conta aí.
–Eu, contar? Contar o quê? Quem me chamou foi você.
–Lógico, você é quieta normalmente, mas não muda. TPM, não conseguiu fazer aquela posição com o Jean ontem ou o quê?
Sério mesmo, a próxima vez que Rinema me falasse em cogumelos eu a chutaria.
–Mas que coisa vocês hoje, hein... primeiro a Katty me falando no avião que eu estava estranha...
–Porque você está – ela mesma me interrompeu, lá do banco da frente.
–Então era isso que vocês estavam fofocando no avião? – Marine perguntou animada.
Elas estavam extremamente elétricas ou era impressão minha?
–Sinceramente? Eu estou mais normal do que vocês! Olha só a Marine, quem diz que são oito da manhã no relógio biológico dela?
–Mas isso é só porque... VAMOS GRAVAR UM DUETO COM UMA DAS BANDAS MAIS FAMOSAS DA ATUALIDADE!
Tive que franzir meu nariz e me encolher com o berro que Marine deu, bem nos meus ouvidos.
–E desde quando você é fã de McFLY??? – eu perguntei indignada.
–Desde nunca! Isso faz deles menos famosos? Um dueto com Eagles of Death Metal me faria ter orgasmos, mas é satisfação pessoal! MCFLY É CARREIRA, É CARREIRA!
Nem sei porque havia perguntado, Marine era absurdamente previsível. Apenas revirei os olhos tentando pensar numa resposta, quando a velocidade do carro foi diminuindo até ele brecar por completo.
–Sem querer interromper o papo, meninas, mas chegamos – o motorista que estava nos guiando até o estúdio falou, num inglês inconfundivelmente britânico.
Ouvi Katty agradacer, em inglês também, enquanto todas nós já tirávamos os cintos e saíamos do carro, Marine praticamente saltitante.
Ajeitei meu Ray-ban wayfarer preto melhor no rosto e senti a brisa absurdamente fria e úmida das manhãs londrinas precedentes ao inverno enquanto observava a enorme construção a nossa frente. Senti um arrepio muito forte e desconfortável percorrer minha espinha assim que vi Katty se encaminhando na direção do que seria a entrada do estúdio.
É lógico, não era nenhuma novidade. Eu estava um poço de nervos. Segui as meninas, mais uma vez nos identificamos e aguardamos um pouco mais. E quanto a aguardar, hoje eu nem reclamaria, talvez eu quisesse mesmo era aguardar bastante tempo até me sentir segura o suficiente.
Mas logo vi que não seria o caso, no instante seguinte a nossa confirmação já estávamos entrando no elevador, chegando ao andar indicado e num piscar de olhos, Katty já batia na porta da sala do estúdio.
É, devia ser o que chamavam de pontualidade britânica. A porta a nossa frente se abria instantes depois e eu pude vislumbrar um certo loiro com um sorriso comedido nos lábios nos recebendo.
–Olá meninas, sejam bem-vindas – ele disse, com um belo sotaque britânico para variar, abrindo passagem para entrarmos. O loiro era bem mais alto do que qualquer uma de nós e o que mais se destacava em seu rosto era uma covinha única do lado esquerdo. Achei isso curioso, ainda mais pelo fato de comprovar que eu não sabia nada sobre McFLY, aquele rosto era totalmente desconhecido para mim.
Katty, nossa porta-voz (assim como ele aparentemente era o deles) agradecia enquanto nós entrávamos no estúdio, ele já indicando para andarmos na direção onde os outros três estavam acomodados.
–Eu sou Tom, não sei se vocês já nos conhecem ou não, enfim – ele continuou, me parecendo muito simpático, porém comedido.
Tom sentou num pufe ao lado de um sofá maior, vago, que aparentemente estava reservado para nós. Achei isso um tanto quanto gentil da parte deles e logo me encaminhei até ele, me sentando junto com as meninas educadamente.
–Eu sou Katty, prrazerr Tom – ela começou, em inglês. Por melhor que Katty falasse inglês, ela não conseguia desmascarar o forte sotaque. Já Ana, em compensação, passaria por uma nativa norte-americana sem dificuldade alguma. Dentre nós, Marine e eu éramos as piores em inglês. E lógico, eu era ainda um pouco pior que a Marine.
–Saudações de vocalista para vocalista então – ele brincou, dando a entender que nos conhecia melhor do que nós a eles, fazendo uma reverência que eu intitularia meio... nerd. Mas acima de tudo, sempre muito simpático – esses são Danny, o grande desperdício da banda, Harry, o único inteligente depois de mim e Dougie, o que esqueceu de crescer.
Enquanto Tom ia falando e apresentando seus parceiros de banda, finalmente me atrevia a olhá-los individualmente, com mais atenção. Danny era sardento e extremamente sorridente, quando ouviu seu “título” por Tom, não conteve um pedala na nuca no loiro, fazendo algumas risadas ecoarem no ambiente, a minha estando inclusa entre elas.
O segundo, Harry, realmente parecia ser inteligente, como Tom dissera e também aparentava ser mais velho que os outros, por algum motivo. Nos deu um sorrisinho de cumprimento e um abano de cabeça, mas como os três primeiros, ainda era um rosto que não me dizia nada.
Por fim, o último.
Quando pousei meu olhar sobre Dougie franzi as sobrancelhas imediatamente, como se lembrando de algo. Aquele não me era estranho! Tentei puxar pela memória o que me era familiar, se os cabelos extremamente loiros, ou os olhos azuis, ou os alargadores nas orelhas... mas não conseguia definir bem, era como um desconhecido conhecido, ainda. E eu devia estar realmente querendo achar algum familiar no meio dos quatro, como não aconteceu, devo ter posto mais expectativas no último do que nos outros, era uma possibilidade.
Dougie deu um sorriso meio atravessado ao ouvir o que Tom disse e rimos novamente. Ele havia esquecido de crescer? Para mim aparentava ser mais alto do que eu. E eu, a propósito, era a mais alta das Plastiscines.
Feitas as devidas apresentações deles, Katty percebeu que era a nossa vez:
Prrazerr então rapazes, essas são Ana, Marine e Louise.
Uau, a pronúncia de Katty estava ótima, praticamente me humilhando. Para mim até hoje era difícil falar “Marine” com a pronúncia inglesa e Katty o fez da maneira mais natural possível.
Todas nós sorrimos para eles assim que fomos nomeadas por Katty; até que as coisas estavam correndo bem. Eu estava me sentindo bem mais à vontade, menos nervosa e só um pouco tímida, como de praxe.
–Prazer, prazer! Acho sotaque francês tão lindo – Tom continuou, com o mesmo entusiasmo e pude comprovar que eu era a única que não estava super ansiosa por tudo.
–E nós aqui lutando justament parra perrdê-lo! – Marine falou, com o sotaque muito mais carregado do que o de Katty. Isso para ela caía muito bem, afinal sua voz era a mais grave de todas nós, a deixava sexy. Ao contrário de mim, lógico, que tinha a “voz de patinho” da banda.
–Não percam enquanto estivermos trabalhando juntos! – Harry colocou, com um sorriso e uma sobrancelha astutamente arqueada. Algo familiar detected. Essa expressão pertencia totalmente a Katty, como assim?!
Ao som de mais uma risada, daquelas que quem acabou de se conhecer sempre dá para amenizar o clima meio chato de um primeiro encontro, Tom mais uma vez tornou a falar:
–Sotaques à parte, nós estávamos conversando aqui enquanto vocês não chegavam e meio que fizemos uma agenda, claro, muito por cima, do que temos pela frente... Como já temos a música que vamos gravar composta, isso vai nos poupar bastante tempo e só precisamos decidir se vamos formar duplas de instrumentos com vocês, para vermos certo as notas e as tablaturas antes das gravações.
Peraí. Como assim música composta? Disso eu não estava sabendo MESMO. Olhei para Katty imediatamente e pude notar que pela expressão dela, ela também não sabia do que se tratava.
Pardon, mas a música já está composta? A que grravarremos? – perguntou Katty, com um ar desconfiado que eu bem conhecia.
–Sim, o Austin não falou para vocês? – Tom me pareceu ainda mais surpreso, questionando com as sobrancelhas erguidas.
Non, na rrelidade non chegamos a falarr dirretamente com ele, quem nos contatou foi Butch Walker, que prroduziu nosso último cd, ele disse que erra uma oporrtunidade única, mas que trrabalharríamos em equipe, achei que toda a feição do single do nosso dueto serria feito em pelas duas bandas...
Pelo modo que Katty falava, eu percebia que ela não havia gostado nem um pouco e eu já começava a me sentir desconfortável. Estava bom demais para ser verdade. Tom olhava para Danny e os outros extremamente confuso e surpreso com a reação não satisfatória de Katty.
–Bem, pensei que soubessem o porquê de resolvemos fazer o dueto e com vocês... foi justamente por causa da composição já pronta – Tom começou a explicar, me parecendo escolher muito bem as palavras. Foi então que por algum motivo não identificado eu percorri meus olhos por eles e me deparei com Dougie me encarando. Ambos desviamos os olhares meio que simultaneamente, eu detestava quando isso acontecia; era mais seguro me manter com os olhos fixos em Tom, que continuava falando.
–Eu mostrei para o Dallas a letra e ele disse que ela encaixaria perfeitamente com um dueto, feminino. Eu sempre tive vontade de fazer isso e todos nós ficamos animados com a possibilidade de gravar um novo single, Dougie até deu ideia de gravarmos com as Saturdays, vocês conhecem?
Nós meio que respondemos um “não” uníssono.
–É uma banda daqui também, uma das integrantes é muito chegada a nós e tal, mas como é um grupo mais pop do que a gente, Dallas disse que era melhor esperar... Foi quando ele encontrou com esse Butch, amigo dele e produtor de vocês, que disse que tinha o que nós precisávamos...
–Nós, no caso – Katty completou, com uma expressão que eu não soube decifrar bem. Ela me parecia pensativa demais.
–Sim, vocês – completou Danny, com um sorriso atravessado meio que dando de ombros. Me pareceu que até eles se sentiram decepcionados ao saber que nós havíamos sido enganadas em parte, a culpa realmente não parecida ser deles.
–Bem, eu acrredito que seja verrdade o que vocês estão nos dizendo, então não tenho porrque crriarr caso... Acho que as meninas concorrdam, não? – Katty falou, mas pouco deixando margem para discordarmos disso, voltando os olhos para nós. Marine e Ana concordaram e de repente senti todos os olhares da sala voltados para mim.
Sendo o mais sincera possível, eu não tinha gostado muito disso de descobrir tudo assim de última hora. A questão é que eu já havia sido chata todo esse tempo e realmente não queria ser a única a me negar a fazer a gravação só porque a letra não tinha nossa participação. Era uma pena, mas como Tom disse, as coisas iriam mais rápido graças a isso, então que o lado positivo fosse explorado, já estávamos a um passo a frente de tudo.
E eles ainda esperavam minha confirmação.
Porr mim sem prroblemas – eu respondi, com meu inglês tenso, parecendo aliviar o peso das costas dos quatro, mas principalmente de Tom.
–Desculpem por isso, mesmo, nunca pensei que ficariam sabendo de tudo assim, deveria fazer parte do contrato – Tom parecia realmente chateado com isso, o que me fez gostar mais dele subitamente. Ele parecia ser muito profissional e eu adorava pessoas assim, eram de confiança – bem, então acho que podemos finalmente dar início a tudo!
Todos concordaram e o clima voltou a ser o mais ameno e agradável de antes, ao menos. Talvez nem fosse tão ruim assim, eu precisava ser menos chata com as situações que não eram bem como eu planejava. Aliás, com o que vinha pela frente, eu tinha mais é que me acostumar com isso, algo me dizia que muitas coisas imprevistas iriam acontecer em torno dessas gravações.

Capítulo III: Inferno Astral
(opção de música para o fim do capítulo - Suddenly I See - KT Tunstall )

“Finalmente.”
Era tudo que eu conseguia pensar enquanto me jogava pesadamente na enorme cama king-size do Sofitel Heathrow. Não que a manhã tivesse acabado ou que eu fosse dormir naquela hora, mas a sensação de “dever cumprido até então” era bem satisfatória.
Tínhamos sido liberadas pelos meninos por hoje, para nos acostumarmos bem com as acomodações (oh Deus, teria como não se acostumar com um hotel desses?). Mas bem, mesmo meu stress sendo enorme, ele não seria suficiente para me prender em um quarto, por mais luxuoso que fosse, em plena Londres. Londres era Londres e lógico, nós quatro sairíamos para as compras sem muita demora.
Mas a porcaria toda para mim seria o fato de minha farra pela cidade ter de acabar mais cedo do que de costume acabaria. Sim, porque afinal, eu tendo a sorte que tenho, fiquei como primeira cobaia para o dia seguinte com McFLY. E o pior é que nem fora de propósito, os próprios meninos chegaram à conclusão de que as duplas de instrumentos poderiam começar pelos baixos. E por que pelos baixos? Simples.
Tom e Danny, que ficavam no vocal e na guitarra, trabalhariam com Katty e Marine, também vocais e guitarra. Uma diferença na formação de McFLY e Plastiscines era que na nossa banda, só a Katty era vocalista principal, de resto nós três fazíamos backing vocal; já na deles, Danny e Tom dividiam o vocal principal e os outros dois faziam backing vocal. Mas não era isso que eu queria explicar.
Tom e Danny, na verdade, disseram que gostariam de trabalhar primeiro uma espécie de “esqueleto” para a música, segundo eles, como haviam feito em seu último CD. Esse “esqueleto” seria um ritmo eletrônico, onde depois os instrumentos seriam trabalhados em cima; estranho, mas okay.
E, a princípio, Tom já havia trabalhado a prévia desse tal “esqueleto”. Oh yeah, novamente nos passaram a perna, mas como eu disse, estava tentando ser mais pacienciosa, pensando no Dalai Lama como a Sandra Bullock tinha me ensinado em Miss Simpatia, quando eu era criança.
Mas então. Tendo a prévia, Danny sugeriu que os quatro trabalhassem no micro estúdio que ele havia montado, em sua casa, visto que não precisariam ocupar o estúdio da Super Records com uma demo que possivelmente nem apareceria no resultado final da gravação. Só que amanhã Danny tinha um compromisso, o que impossibilitava os quatro de começarem com tudo.
O que não se aplicava aos baixistas, já que eles deveriam ir e ocupar o estúdio da Super Records e começar a compor o baixo tendo como base o esqueleto, sendo o primeiro instrumento a ser gravado, seguido das guitarras e por fim da bateria. E adivinhem quem era o baixista deles?!
O tal de Dougie.
Tinha que ser o mais estranho de todos, só para manter a forte tradição dos baixistas. Ainda lembrava a maneira tensa que desviamos nossos olhares mais cedo e de como isso fora extremamente desconfortável, somado ao fato de que eu e ele devíamos ter feito uma espécie de pacto mental e inconsciente para ver qual dos dois falava menos, porque só podia.
Amanhã o clima seria no mínimo delicado, estando só nós dois para compormos (ouviram bem? COMPORMOS. Tem noção da dificuldade?) juntos. Duas pessoas estranhas e desconhecidas tendo que criar uma melodia decente com dois baixos.
Suspirei e me virei de barriga para cima, olhando para teto, mas, sem vê-lo, no entanto.
–Por que esse tipo de coisa não acontece com a Rinema? – perguntei para o teto e por sorte, ele não me respondeu.
“What did you want to see, what did you want to be when you grew up…”
Quase dei um pulo com o susto ao ouvir a voz de Bradford Cox do Atlas Sound soar do meu celular chamando. Já fui sentando na cama e me norteando pelo som, alcançando a minha bolsa sem perder muito tempo ao catá-lo lá dentro dela, vibrando e tocando cada vez mais alto. Dei uma olhada no visor e um sorriso imenso se abriu no meu rosto enquanto eu atendia.
–Bateu o record... apenas uma manhã sem mim – eu disse, com um ar meio convencido mas inegavelmente derretido.
–Na verdade, só liguei porque sabia que você já estava sentindo a minha falta. Mas, orgulhosa como sei que é, você nunca ligaria primeiro – Jean me respondeu, daquele jeito que me fazia suspirar. Só de ouvir sua voz, eu já sabia exatamente como ele deveria estar: o sorriso meio esnobe de canto, moldado pelos lábios finos; a barba rala e morena que só de imaginar já me fazia arrepiar em lembrar todos os cantos do meu corpo que havia arranhado... e é claro, o olhos azuis mais frios que eu já havia conhecido na vida, levemente apertados. Ele ficava assim quando queria me provocar e, facilmente conseguia.
–Quer discutir sobre orgulho? Tenho a tarde toda livre – eu respondi, no mesmo tom de antes.
–Acho que tenho outros planos para hoje a tarde, mademoiselle Basilien. Um passeio à dois por Paris com Sophie soa muito melhor.
Oui, ele estava venenoso.
–Então por que me ligou, monsieur Napoleone?
–Por saber que minha namorada está à mercê de Backstreetboys que se passam por Beatles.
–Jean. Eles nem de longe lembram Backstreetboys e muito menos tentam se passar pelos Beatles.
–Está vendo só? Nem uma manhã e já está nos braços do inimigo. Você costumava ser mais confiável antigamente, Louise.
Jean particularmente não gostava de McFLY nem antes de fecharmos o contrato com eles e eu sequer sabia disso. Quando contei para ele sobre o dueto, ele largou coisas do tipo: “eles são um bando de babacas fazendo música para adolescentes burras na faixa etária dos 13. Dividiriam bem o palco com Justin Bieber e não com vocês”
Mas eu era a prova viva de que não era bem assim. Eu tinha conferido o trabalho deles, gostei da pegada do som que eles tinham e pessoalmente me pareceram extremamente simpáticos e bacanas; e posso dizer isso tranquilamente sem ser burra e sem estar na faixa etária dos 13. Podia até arriscar dizer que depois de tê-los conhecido pessoalmente, saber que Jean os desprezava me incomodava até certo ponto.
–Não estou nos braços de ninguém e continuo sendo a mesma que, tenho certeza, você ama, então hoje não vou cair nas suas provocações, Jean, porque sei que é o que quer – respondi um tanto zombeteira. Nossas conversas por telefone sempre eram basicamente inúteis e assim, provocativas, como se ambos estivéssemos em um jogo.
–As Plastiscines que eu conheci eram mulheres fortes, rebeldes que bebiam cerveja nos shows... as de agora me parecem tão... frágeis patricinhas. Aparecendo em seriados americanos e fazendo duetos românticos com boybands... Basilien, onde está sua honra? Não me faça terminar nosso namoro.
Desgraçado. Jean era uma pessoa de difícil convívio ao extremo... pontuava e alfinetava cada falha que identificava. Ele nunca fora meu puxa-saco e mon Dieu, eu adorava isso, mas de vez em quando ele passava seriamente dos limites. Desde setembro do ano passado, quando eu e as meninas gravamos uma participação especial no seriado Gossip Girl, Jean não hesitava em dizer que essa tinha sido a derrocada da banda. O que era um exagero absurdo, sendo que ter aparecido no seriado tinha nos projetado de uma maneira bem satisfatória, se o novo CD estava indo de vento em poupa, Gossip Girl só veio a ajudar.
Mas era o que Katty me dizia: “ninguém mandou se apaixonar por alguém mais complicado do que você mesma”; e ela estava totalmente certa. Ser apaixonada por Jean nem sempre me dava orgulho, até por saber que ele poderia muito bem viver sem mim, mas quando se tratava de eu viver sem ele...
–Você não terminaria por isso. E se terminasse, seria burro.
Escutei a risada de Jean do outro lado da linha e ri também, pelo visto dessa vez eu tinha ganho. Dessa vez.
–Espertinha... mas me fala, como estão os ares por aí? Chegou bem?
–Cheguei mais do que bem, Jean, só para você ter noção... estou em uma suíte individual do Sofitel Heathrow e te digo... é simplesmente um absurdo! É demais para mim!
–Pena que o objetivo final disso tudo seja tão sujo.
E de novo me irritei com a risada de escárnio que Jean deu ao terminar de falar. Não que eu fosse colocar uma camiseta escrita “I coração McFLY”, mas um mínimo de respeito e profissionalismo eu queria, eles eram oficialmente meus colegas de trabalho.
–Jean, chega? Sério mesmo, não tem graça e é complicado para mim saber que meu próprio namorado não consegue mais entender meu trabalho.
–É mais forte que eu, Louise, se quiser, manche sua imagem, mas eu vou ter feito minha parte.
–E eu faço minha parte ignorando essas coisas que você fala, estamos quites?
–Que seja, desde que não se esqueça de voltar para mim como a Louise de sempre.
–Isso eu não ignoro e muito menos esqueço.
–Quero só ver. Quando eu tiver uma pausa no estúdio aqui, quem sabe não dou um pulo para fotografar minha musa em Londres?
–Ela iria adorar...
–Ela que espere. Agora tenho que vazar aqui, Basilien, sabe como é... Sophie é exigente.
–Idiota, vai lá. Também tenho programas para minha tarde em Londres, Napoleone.
–Pensei em ter ouvido algo como “tarde livre” de você, enfim... vou nessa mesmo, só queria ouvir um pouco sua voz injuriada por minha causa, não há nada melhor no mundo. Aproveite por aí e cuidado para não se apaixonar pelo baixista, sei bem que surfistas loiros e burros fazem seu tipo.
E Jean desligou, como sempre, não dando tempo para que eu me despedisse. Hoje ele havia se superado no quesito “estar impossível”, mas não foi menos agradável poder ouvir e sentir em sua voz algo próximo a “ciúmes”. Porque era o que me parecia, toda aquela implicância com McFLY não tinha justificativa nenhuma senão ciúmes. E isso me divertia ao extremo.
Desliguei o celular e o larguei de qualquer jeito no colchão, enquanto me levantava e me esticava um pouco. Alonguei todos os músculos do meu corpo para me sentir um pouco mais ativa, mas não levei dois segundos fazendo isso para ouvir algo na porta do meu quarto.
–Loulou, está pronta? – a voz de Marine se fez soar abafada pela acústica das paredes do outro lado da porta. Caminhei sem muita pressa até lá para abri-la e logo ela e Ana entraram meu quarto adentro, já se jogando na enorme cama.
–Estou sim, onde está a Katty? – perguntei já tendo fechado a porta e já próxima à ponta da cama.
–Já vem. Está lá surtando porque não consegue arrumar a franja... já gastou quase todo o novo spray de cabelo – Ana me respondeu, fazendo uma imitação perfeita de Katty e seu spray de cabelo na frente do espelho, o que sempre me fazia rir.
–Normal então – respondi ainda rindo e mal tive tempo de sentar na cama que já ouvimos a voz de Katty do outro lado da porta, praticamente me mandando abrir. Pelo tom de voz todas nós percebemos (e lógico, nos entreolhamos) que ela não estava nada de bom humor. Novamente me levantei e fui sem muito entusiasmo até a porta, abrindo-a outra vez e dando passagem para Katty entrar.
–Seguinte, meninas... Maxime me ligou agora – ela começou, imediatamente.
Maxime era nosso manager e, bem... muita gente na França nos conhecia como “Maxime’s Angels” (isso mesmo, igual às Panteras, rawr), afinal ele era uma figura na faixa etária dos 60 anos e foi um produtor e empresário dos grandes antigamente, muito respeitado por lá. Então o fato dele ter resolvido apadrinhar do nada quatro adolescentes revoltadas que mal sabiam tocar causou uma certa polêmica, vocês imaginem só...
–E...? – respondeu Marine, de imediato, apertando um dos olhos. Normalmente ele ligava e sempre nos dava bronca.
–E... que ele marcou um show para nós no La Scala AMANHÃ.
SUCKS!
–Ah sim e alguém avisou a ele que amanhã mesmo eu começo a trabalhar com o baixista lá no estúdio? Para que ensaiar para um show, não é mesmo? Quem precisa de ensaio! – respondi imediatamente, indignada.
–Eu disse a ele que seria inviável para ensaiarmos assim na corrida, mas ordens são ordens... vocês o conhecem – respondeu Katty, num suspiro, se deixando cair pesadamente sentada na minha cama.
–Vou ligar para ele – eu disse, já pegando meu celular que estava perdido debaixo da bunda de Marine – ele sabe como eu sou insegura se não ensaio, não é justo.
–Louise, nem perde tempo. Quando que Maxime voltou atrás numa ordem, por mais absurda que fosse? – Ana começou, num tom extremamente desanimado – vai levar xingão ainda por cima.
E o pior é que ela estava totalmente certa. Cancelei a chamada antes mesmo de colocar o telefone na orelha e me joguei de barriga novamente na cama, no espacinho entre Katty e Marine.
–Tadinha da Louise... – Marine praticamente jogou o corpo sobre minhas costas e começou a afagar meus cabelos, rindo – ela está no inferno astral dela. Agora só falta o Jean ligar e...
–NÃO falta mais nada não, Marine – eu respondi, revirando os olhos ao lembrar da conversa inútil que havia tido com meu namorado minutos antes.
–Não está mais aqui quem falou... – ela devolveu, num tom não menos debochado.
–Eu acho que chega de ficar se lamentando. Não gastei praticamente meu spray todo ajeitando a franja para ficarmos sentadas numa cama reclamando feito velhas – respondeu Katty se levantando.
–Eu disse sobre o spray... e concordo, pelo menos hoje temos o dia livre, vamos aproveitar – Ana respondeu, extremamente satisfeita enquanto se levantava também, seguida de Marine que enchia a mão dando um tapa em minha bunda.
–Anda, levanta. Londres nos espera e você sabe, Londres não pode esperar em hipótese alguma – dito isso, elas já me puxavam, cada uma por uma parte de mim, até conseguirem me fazer virar de barriga para cima. Era impossível ficar séria com elas.
–Claro que eu vou, é a única notícia animadora do dia. E preciso fumar, beber... e antes de tudo isso, almoçar, estou zonza de fome – respondi já me levantando e ajeitando minha blusa, que de tanto rolar na cama já estava completamente amassada.
–Necessidades básicas de todas nós... almoço rápido no Mc, quem vota? – Marine já ia dizendo, enquanto saltitava para porta. Eu logo concordei direto, para mim um lanche totalmente americanizado bastava, sem contar que já havíamos identificado um Mc bem próximo ao hotel, o que facilitaria nossa vida.
Katty e Ana concordaram também, apesar de Katty não ser muito fã de lanches rápidos, nosso foco essa tarde definitivamente não era um almoço cheio de glamour. Coloquei meu casaco sem me demorar muito, já pegando minha bolsa e saindo com as meninas do quarto em seguida, guardando o cartão de acesso num lugar seguro dentro da carteira para não correr risco de perdê-lo.
–E vamos animar a Lou, plastocs, amanhã precisamos da nossa baixista candidata a presidente agitada no palco, como sempre – falou Ana me abraçando de lado e me apertando forte, enquanto caminhávamos as quatro pelo corredor imenso do Sofitel, em direção ao elevador.
Tive que sorrir com a sensação maravilhosa que surgiu de repente com as palavras dela. Realmente, quem poderia continuar reclamando de um dueto esquisito, um parceiro de trabalho estranho, um namorado arisco, um manager ditador e um show de última hora quando se tinha as três melhores amigas do mundo?
“God bless my Plastiscines.”

Capítulo IV - Conhecendo Dougie

Não, ainda não, só mais um pouquinho...
Maman, hoje é domingo, só mais um pouquinho... ainda está muito cedo... e muito frio...
Por que você não pára de despertar no meu ouvido?
Despertar... Maman...
DESPERTAR?
Sentei na cama de um pulo só, sem enxergar absolutamente nada por estar com a minha máscara para dormir, ouvindo o barulho estridente e incessante do despertador debaixo do fofo travesseiro do hotel.
Hotel. Ah, não... Eu estava em Londres!
Praticamente arranquei a máscara do meu rosto e tive a sensação de ficar cega de repente pela claridade, nem franzir as sobrancelhas adiantou muito, mas era o máximo que eu podia fazer enquanto tateava aquela porcaria de aparelho que não parava de vibrar e apitar cada vez mais. Depois de jogar o travesseiro longe, consegui visualizar pela fresta aberta dos meus olhos o maldito celular e o fiz parar, quase o grudando no meu nariz para enxergar o horário.

08:47 da manhã.
“Okay, Louise, você está mais do que ferrada.”
Chutei imediatamente aquelas cobertas pesadas, deliciosas e aconchegantes para longe de mim e me levantei com uma agilidade que Marine deveria ter visto, ela nunca mais abriria a boca para falar do tombo que eu havia caído no palco na nossa última turnê. Fora da cama, só de pijama, a temperatura estava extremamente baixa, a ponto de me fazer tremer no trajeto curto até o banheiro da minha suíte. E o pior de tudo é que eu estava totalmente acabada, o dia anterior havia sido maçante e estressante e eu só consegui chegar ao hotel para finalmente poder dormir depois da meia-noite. E cheia de sacolas de compras, lógico.
Ótimo, afinal já era praticamente nove da manhã e minha hora marcada no estúdio da Super Records era nove e meia, sendo que eu estava acordando, destruída, não conseguiria tomar o café da manhã do hotel e teria que esperar o motorista que Dallas Austin tinha disponibilizado para nós. Só me arrumar levava em média duas horas, por isso que tinha colocado o relógio para despertar às seis horas; mas agora alguém me explica o por quê de aquele barulho insuportável só ter conseguido me acordar duas horas depois?! Talvez o que Marine dissera sobre “Inferno Astral” fazia algum sentido agora...
Mas pelo menos eu já conseguia enxergar. Do meu jeito capenga, sem óculos (Urgh, como eu odiava ter de usar óculos, então eu simplesmente não usava os meus), porém ainda assim melhor do que instantes atrás.
Abri a torneira da pia de porcelana e deixei a água jorrar dali, com aquecimento, colocando as mãos em forma de concha debaixo do fluxo; e dali fui com elas para meu rosto. Ah, ao menos isso era uma sensação confortável, talvez a única em acordar cedo.
Já com o rosto seco e com a macia toalha cor de âmbar do Sofitel em mãos, resolvi dar uma checada no espelho para ter ideia do estrago da manhã.
Tenso.
Eu precisava me arrumar urgentemente, era o mínimo. Meus cabelos estavam próximos ao horror porque havia dormido com eles molhados na noite anterior e minha franja... minha franja estava mais para ser classificada como um objeto não identificado do que qualquer outra coisa. Isso tudo sem contar o inchaço do rosto inteiro, e a palidez de minha boca... eu estava parecendo uma morta.
Queria que o pessoal que dizia em jornais, reportagens e sites que eu era a Anne Hathaway francesa e rebelde me visse acordando, acho que eles não ofenderiam mais a coitada... Okay, também não achem que sou um bicho de sete cabeças, uma aberração da natureza nem nada, é que meu humor anda oscilando muito e me ver acordando nesses dias bravos acaba gerando uma péssima auto-estima.
Eu não sou feia. Pelo menos ninguém nunca disse e nem eu nunca achei... nem nunca me achei linda, na verdade. A questão era estar bem produzida, no fim das contas. No geral, dizer que eu parecia com a Anne Hathaway, de fato, não era mentira. Eu lembrava realmente ela e nosso cabelo era igual, mesma cor e tudo mais, só que o meu eu usava mais comprido e um pouco bagunçado, com a franja na altura dos olhos que nunca se decidia para que lado ficava.
Meu rosto talvez fosse um pouco mais quadrado que o dela... e meu nariz era empinadinho. Aliás, meu nariz era a parte de mim que eu mais gostava. Meus olhos eram castanhos como os dela também, mas num tom mais escuro, meio pequenos. E minha boca talvez fosse o mais semelhante entre mim e Anne: o nosso lábio inferior era carnudo. Só que isso não pegava muito bem em mim porque ela tinha duas coisas que eu não sabia o que era no meu corpo. Mas eu as queria.
Queixo e peitos.
No caso, para quem leu, dizer que eu era a Mia Thermopolis do Diário da Princesa de Meg Cabot seria a escolha certa. Sem peito, magrela e alta. O alta seria só por ser a maior das Plastiscines, porque eu tinha por volta de 1,70cm, e, isso nem era tanta aberração. Sem salto o Jean ao menos ficava maior do que eu.
Quanto ao queixo, eu tenho bem pouco mesmo. Mas me incomodava mais não ter queixo do que não ter peitos, porque mulheres magras como eu e com muito peito fica falso. E algum peitinho eu até que tenho, sabe. Dá para o gasto. E mais, não vou negar. Meu corpo é legal, eu gosto de ser magra, ter ombros largos e ter porte de modelo. Afinal de contas, as Plastiscines eram uma banda diferenciada justamente pelo estilo de roupas, por tocarmos em desfiles e por estarmos mais em covers de revistas de moda do que em palcos. Não tinha como não sorrir lendo coisas do tipo: “Louise Basilien, a baixista modelo ou a modelo baixista?”
Sem contar que ser a única de pernas longas e finas das Plastiscines gerava um pouco de atenção à parte no mundo da moda, coisa que eu tentava ignorar praticamente sempre, para não perder o foco. Afinal, acertou quem respondeu com um “baixista baixista” na questão acima, era isso que eu era. E somente isso.
Na realidade, nesse exato momento não era somente isso não, para ser sincera. Eu era uma “baixista baixista” descabelada e MEGA atrasada que estava divagando enquanto se analisava no espelho.
Prazer, meu nome é Louise Desoblin Basilien, 22 anos, parisiense, harpista, baixista e a pessoa mais desorganizada e atrapalhada que você poderá conhecer em toda vida.

09:32 am.
Sorri ao conferir o horário no visor do meu celular, já no hall do Sofitel Heathrow, mastigando uma deliciosa rosquinha doce que havia roubado das mesas de café da manhã antes de descer totalmente pronta e com meu Rickenbacker 4003 vermelho nas costas.
Vamos ser sinceros, eu havia feito milagre. Consegui me arrumar decentemente (eu podia não estar um arraso, mas estava aceitável e lembrem-se sempre que em meia hora só não se faz verão), ligar para Norman (o motorista) e ainda conseguir filar um protótipo de café da manhã em pouquíssimos minutos, eu merecia palmas!
Tudo bem que eu já deveria estar na Super Records e que Norman nem havia chegado ao Sofitel, mas enfim né, a pontualidade costuma ser britânica e não francesa, o baixista que esperasse um pouco. Quando terminei minha rosquinha doce fiquei extremamente tentada em ir novamente para as mesas do café da manhã para conseguir mais uma, mas minha consciência não permitiu, caso Norman chegasse e eu não estivesse ali; mais atraso da minha parte não seria necessário.
E de certa forma fiz certo, pois minutos após esse pensamento, meu celular tocava com Norman avisando como combinado que já estava em frente à entrada do hotel. E lá fui eu para o carro, com passos rápidos e meio corridinhos, vencendo o trajeto que nos separava em poucos instantes.
Norman era legal. Me cumprimentou com a formalidade britânica de sempre, mas foi extremamente solícito ao me ajudar com meu baixo na hora de embarcar no carro; se certificou de que ele ficaria a salvo no banco detrás, depois do meu claro cuidado com o instrumento. Meu Rickenbacker vermelho era a minha preciosidade, sem dúvidas. Eu o cuidava como se fosse um filho, ele era um presente da minha avó e foi o primeiro baixo que tive, primeiro e sem dúvidas o melhor.
O percurso do Sofitel Heathrow até o estúdio da Super Records até que foi tranqüilo, mais ainda do que eu imaginava. O segundo dia em Londres, apesar da correria inicial da manhã, estava me parecendo menos tenso do que o do dia anterior. Eu estava mais segura, decerto, sabendo que em vez de encarar a infantaria toda, veria apenas um deles e que ele sendo o baixista, ao menos uma coisa deveria ter em comum comigo.
Além da esquisitice já comprovada no nosso primeiro encontro, claro.
Norman não falou nada durante a viagem e muito menos eu, mas novamente o motorista foi de uma dedicação extremamente bem-vinda ao me ajudar com o baixo no momento em que nos encontrávamos desembarcando do carro em frente ao estúdio. Agradeci ao Norman por tudo com um breve aceno e sorriso, já novamente com a capa do baixo nas costas e subindo rapidamente as escadarias da entrada da Super Records.
Passando pela porta de entrada, eu chequei mais uma vez o horário no visor do meu celular para saber se devia correr ou não, e vi que não seria nada mal caso fizesse realmente isso.

09:58 am.
“Corra, Lou, corra”
E sim, foi o que fiz. Toda errada e desengonçada passei correndo pela portaria (que já me conhecia) e fui para o elevador, por sorte de portas abertas e praticamente a minha espera. Momentos tensos e ofegantes com a sensação de estar presa num cubículo de aço se passaram até que cheguei ao andar da sala onde Dougie deveria estar me esperando há exatos trinta minutos. Mas ah... meia-hora nem é nada, convenhamos! Pelo menos na França acho que não deveria ser...
Dei uma batida rápida na porta da sala por educação e logo a abri, com as sobrancelhas erguidas e enfiando minha cabeça aos poucos, para ver se o encontrava de cara lá dentro ou deveria ir explorando os cômodos. A segunda opção logo foi descartada com a imagem de Dougie virando o rosto para mim, sentado no sofá com um baixo azul no colo.
–Hey! Pode entrar – ele disse, imediatamente, sem sorrir, mas sem estar sério também.
–Desculpe pelo atrraso, rrealment não foi de prropósito... – eu já fui me defendendo, em meio a lufadas de ar por estar ofegante, adentrando na sala.
Dougie se levantou, ainda me olhando e com o baixo apoiado no sofá, agora com um sorriso no rosto.
–Você veio correndo mesmo? – ele perguntou, meio incrédulo.
–É, foi... – eu respondi, meio que desviando os olhos por não saber se a incredulidade dele seria boa ou não.
–Mas não precisava! Eu mesmo sempre me atraso, cheguei aqui não faz cinco minutos...
Momento papel de idiota mode on. Como assim que eu tinha perdido meu café da manhã por isso? Okay, está certo que se eu fizesse tudo como estava no meu cronograma, eu iria chegar por volta do meio-dia, mas ele precisava acabar com todo meu esforço assim do nada? Que fingisse ao menos que tivesse gostado da minha responsabilidade (ou ao menos SENSO de responsabilidade, como quiserem classificar).
–Bem... – a resposta dele deveria ter feito minhas bochechas corarem, não é legal sentir que fez papel de trouxa diante de alguém que você nem conhece – talvez isso seja bom, porrque pelo menos não ficou esperrando porr mim porr muito tempo.
Foi o que deu para formular no nervoso.
–É verdade... mas nem teria problema em esperar, eu fico brincando com o baixo e nem vejo o tempo passar.
“Eu também!!” eu pensei, mas não falei, ia parecer muito entusiasmada e de certa forma eu estava aborrecida com ele por ter me feito me sentir idiota. Então seria o mais impessoal possível.
–Não vai acontecerr de novo, amanhã às nove e meia em ponto vou estarr aqui – eu disse, abrindo um amplo sorriso, meio amarelo e fixo.
E gostei da reação dele, que foi simplesmente erguer as sobrancelhas demonstrando uma certa surpresa pela minha resposta. Touché, Louise!
–Ah, tudo bem, amanhã vou ser bem pontual também então, para não termos problemas... ah... você deve saber, sou Douglas, mas prefiro que me chamem de Dougie... Tom nos apresentou ontem.
Ele preferia Dougie? Nossa, para mim Douglas era tão melhor, mas enfim né.
–Prrazer de novo então, Dougie, você também deve saberr que me chamo Louise.
–É, sei sim! – Dougie disse, ainda tentando ser simpático. Mas dava para perceber que estava tão desconfortável quanto eu, algo me dizia que ele era extremamente tímido - Foi o primeiro nome de vocês que gravei... é o nome da minha ex.
Ah! Que lindo! E mal o conhecia e agora ficava sabendo que a ex-namorada dele chamava-se Louise.
JUSTO LOUISE!
Mais uma vez eu fui pega de surpresa pelo que ele me disse, nunca haviam me dito algo do tipo e ficava tenso saber ao certo o que dizer. Então dei um suspiro e relaxei, tirando as alças da capa do meu baixo dos ombros e dando passos na direção ao sofá oposto ao que Dougie estava.
–Ah! Pois é, Louise é um nome bem comum né... – respondi simplesmente.
–Nem tanto, mas eu acho lindo e... ei, quer ajuda com o baixo? – Dougie disse e, mesmo de costas, pude sentir que ele se aproximava de mim pela maneira que sua voz aumentava sutilmente o tom.
–Não! Não prrecisa, tudo okay, me acerrto bem com ele há alguns anos... – eu respondi, ignorando terminantemente a parte dele achar meu nome lindo, de propósito, mas virando meu rosto para ele, para não parecer mal educada.
–Imagino... você toca muito bem, ontem olhei alguns vídeos de vocês no Youtube.
–Merci! Também gostei do baixo das músicas de vocês, vim escutando durante o vôo, parabéns – eu disse, já tendo tirado a capa do meu Rickenbacker e podendo me virar de frente para ele de novo, com o baixo em mãos.
–Valeu. E olhe só, você veio de Rickenbacker... eu vi nos vídeos e fiquei realmente impressionado, é um clássico!
Ponto para ele, depois dessa. Ele parecia estar querendo me agradar de todas as maneiras, mas só agora havia conseguido alguma coisa. Elogiar um Rickenbacker era ter classe, ele realmente podia ser reconhecido como um bom baixista tendo dito isso.
–Esse daqui é quase como um filho! – eu respondi, sorrindo entusiasmada, ele havia conseguido me desarmar – Eu tenho um Rickenbacker brranco também, mas esse verrmelho é especial...
–Mesmo? Nossa, eu nunca tive um Rickenbacker porque sempre o achei... clássico? – ele riu das próprias palavras – ele não fica bem com qualquer pessoa, mas ficou ideal em você! Eu estou sempre com Sterlings ultimamente.
E ele ergueu o baixo dele pelo braço, para que eu visse.
O instrumento era azul e ao que parecia tinha glitter, mas eu ergui as sobrancelhas ao me deparar com as demarcações das notas do braço dele. Eram iluminadas!
–Seu baixo tem luzes!
–Pedido especial feito por mim... – ele riu, parecendo orgulhoso, do mesmo jeito que eu ficava quando falava no meu instrumento.
–Eu nunca tinha visto com luzes, é lindo... – eu disse, meio hipnotizada e ousando levar uma das mãos até o braço do baixo dele, deslizando os dedos em uma das luzes entre as grossas cordas de aço.
–Se quiser experimentá-lo depois – Dougie disse e eu sorri mais ainda.
–Merci! – eu respondi e notei que o sobretudo que eu estava usando estava começando a me fazer sentir calor ali dentro, seria bom tirá-lo antes de começar a suar – e você também, se quiserr ver como fica com um Rickenbacker.
–Claro! Mas se você não se importa, vou pegar os fios ali do outro lado do vidro para plugarmos seu baixo também, só um instante.
E lá se foi Dougie, deixando o Sterling iluminado recostado no sofá onde antes ele se encontrava sentado. Aproveitei o momento para recostar o meu Rickenbacker no sofá onde o tinha desencapado, para poder me livrar do sobretudo.
Por baixo eu estava usando uma camisa larga de um xadrez azul, vermelho e branco de Jean (eu podia estar brava com ele, mas não dava para reclamar do cheirinho dele nas roupas que tinha conseguido trazer comigo na viagem), acompanhada de uma calça jeans skinny justíssima e meus all stars pretos tradicionais. Dougie voltou com os cabos pretos para plugar meu baixo no amplificador e enquanto ele se abaixava e os ligava ali, pude dar uma checada nele, pela primeira vez.
Ele podia não fazer meu tipo (eu não gosto muito de loiros), mas até que era bem bonito. O cabelo dele era estiloso, curto atrás e dos lados, como muitos franceses indie e até mesmo Jean já haviam usado, com o detalhe de Dougie ter deixado a franja um pouco maior do que eu era acostumada a ver nesse corte. E tinha caído muito bem para ele. Todo o rosto dele era agradável de olhar, os olhos azuis e pequenos, a barba rala e o tom de pele... Dougie era um conjunto só de coisas boas, dava para se dizer. Era de imaginar o quanto de sucesso ele faria com qualquer menina por aí...
Os alargadores que ele usava nas duas orelhas eram discretos e eu normalmente não curtia muito, mas mais uma vez nele esse detalhe havia caído bem. E acho que eram justamente os alargadores que tinham me marcado nele, eu continuava com a impressão de já tê-lo visto antes, pode ser que tenha visto a banda alguma vez na vida, mas não devo ter guardado na memória os outros integrantes de McFLY.
E minha checada por último chegava ao figurino... Uma camiseta simples, branca e com as mangas levemente mais curtas do que se veria num modelo mais tradicional (que deixava a mostra parte de uma tatuagem no braço direito, o que gostei bastante) em conjunto com uma calça jeans skinny preta e um Vans (acho eu) vermelho.
De fato, Dougie estava ótimo visualmente para meu gosto. Se Jean soubesse que eu estava pensando isso, ia querer me dar um tiro, mas enfim, era melhor ainda poder ver que Dougie se vestia de um jeito que poderia fazer Jean se sentir ameaçado (por mais que essa ideia soasse ridícula para mim). Jean andava precisando de castigos morais.
–Pronto aqui, só falta plugar no baixo – Dougie disse finalmente, enquanto se levantava e caminhava na direção do meu instrumento – você tem alguma ideia do que vamos fazer hoje? Porque Tom e Danny me deixaram totalmente disperso, só me deram a letra e disseram para tentarmos entrar num acordo do que faríamos...
–Na verrdade non... depois gostarria de lerr a letrra e fazerr uma cópia parra já levarr parra as meninas darrem uma olhada ainda hoje – eu falei, me sentando no sofá ao lado do Sterling observando Dougie plugar o meu Rickenbacker. Ele estava sendo bem gentil e pela primeira vez eu deixava que outra pessoa (principalmente um homem) ligasse tudo ao invés de mim – se bem que elas nem terrão tempo de verr, nós temos um show hoje à noite.
–O quê? – Dougie se virou imediatamente para mim ao ouvir isso – vocês vão tocar hoje à noite?
–Vamos sim, ontem nosso manager ligou avisando... vai serr no La Scala, conhece? É um show pequeno, não como os que você deve estarr acostumado a fazerr.
–Deixa eu entender... você tem um show hoje à noite e pretende ficar aqui comigo até às três da tarde? Que horas você vai ensaiar??
–Bem... – eu fiz uma careta com um sorriso pensando na resposta – antes do show e depois de sairr daqui!
–Você deve ser muito segura mesmo, porque eu preciso ensaiar muito antes dos shows, sempre...
–Na verrdade não sou; e estou bem nerrvosa com isso desde ontem, mas orrdens são orrdens...
Enquanto eu dava de ombros pude simplesmente acompanhar Dougie desplugar meu Rickenbacker.
–Ei, como assim? O que houve? – eu perguntei me levantando sem entender o porquê dele desligar o cabo, me aproximando dele.
–Você pode ir ensaiar! Nós podemos começar com tudo amanhã, dude, ou depois, não estamos correndo contra o tempo e tocar sem ensaiar é a pior coisa que existe, sei o que estou dizendo.
–Mas... não é assim, está tudo sob contrrole, vou terr umas trrês horras de ensaio!
–Você acabou de dizer que está nervosa, já disse, está tudo bem... encerramos por aqui hoje, serviu para nos apresentarmos. Amanhã vai ser mais tranqüilo para todo mundo.
Ele falou sorrindo, enquanto segurava meu baixo pelo braço, me oferecendo-o.
E o que eu fiz foi simplesmente aceitá-lo.
Dane-se que seria demonstração de fraqueza aceitar a colaboração de Dougie comigo, ele estava sendo legal demais e eu precisava REALMENTE desse tempo para ensaiar com as meninas. Eu sempre era a mais nervosa de todas antes dos shows e nunca havia entrado num palco tendo ensaiado menos do que uma tarde inteira.
Com ensaio, as coisas fluíam, nós sabíamos exatamente o que fazer e como fazer, isso em conjunto.
–Merci... mesmo – eu respondi simplesmente, com um sorriso meio tenso. Ele não precisava ter feito nada disso por mim e ainda assim o fez.
–Mas vou querer algo em troca.
Tranquei a respiração. Como assim “algo em troca”? Eu que estava achando que ele tinha feito tudo por simples vontade de ajudar já estava começando a mudar de ideia.
E ele deve ter notado isso em minha expressão, pois logo se apressou em falar:
–Não, não! Não é nada demais! Só queria saber se eu e os caras podemos ir assisti-las hoje à noite, então... La Scala, você disse?
Respirei aliviada. Ou eu estava com muito pé atrás com ele, ou Dougie que não parecia ser tão inocente assim quanto aparentava... provavelmente era eu que estava com os dois pés atrás mesmo, como sempre.
–Bem, clarro! La Scala sim, às oito da noite... como é um pub, depois começa a festa e aí não somos mais nós tocando. Lá é legal, já conhecemos.
–Vamos estar lá! E ah, você quer a letra agora ou pode ser amanhã?
–Acho que nem adianta hoje mesmo, vamos estarr em função... amanhã pode serr, aí já a estudamos juntos e vamos pensando numa melodia, okay?
–Okay! Quando quiser ir, à vontade, eu vou ficar por aqui mais um pouco para resolver umas coisas.
–Cerrto... então vou indo já, as meninas prrovavelmente já devem estarr se orrganizando parra o ensaio. Obrrigada mais uma vez.
Eu disse e ele apenas deu um aceno de cabeça e se virou, indo na direção do Sterling no sofá. Eu fiz isso também, mas para o outro lado, já ajeitando meu baixo na capa com certa rapidez, não por estar com tanta pressa, mas por saber que ainda nós não nos sentíamos totalmente à vontade ali naquela sala.
Encapei meu baixo rapidamente e vesti meu sobretudo, logo colocando as alças da capa nos ombros e ajeitando o instrumento em minhas costas, dando um último olhar para Dougie para me despedir. Ele me respondeu com um sorrisinho que me pareceu bem tímido para todo diálogo anterior e eu simplesmente desviei os olhos e fui em direção à porta, me afastando dele.
Graças a ele, talvez meu dia não fosse tão ruim quanto previ.

Capítulo V – Damien Wilde

Estava praticamente na hora de entrarmos no palco. Meu coração martelava em meu peito e meu sangue era bombeado com tanta avidez que eu podia sentir meu pescoço pulsando e minhas mãos extremamente frias, porém firmes no aperto ao meu baixo e à palheta. A respiração ficava cada vez mais difícil, as luzes estavam apagadas e eu simplesmente não conseguia parar quieta, de tanto nervosismo.
De tanta adrenalina.
Por mais que fazer shows fosse realmente a minha profissão, a coisa mais corriqueira da minha vida, havia algo que a gente não aprendia com a prática. E esse algo era definitivamente a apreensão dos minutos pré-palco. Os minutos se arrastavam, assim mesmo, parecendo que na provocação e era impossível pensar em alguma coisa concreta que não fosse o som dos gritos, ou simplesmente as vozes do público do outro lado.
Olhei de relance para Katty e na penumbra a vi de olhos fechados, concentrada, já com sua meia-lua em mãos. De Katty meu olhar foi até Marine, que saltitava com a guitarra já presa na correia e esta já pendurada no ombro. Ana já estava a postos, na bateria.
E foi justamente ao ouvir o som tão conhecido do contato das baquetas de Ana uma contra a outra que se encontrava o real ápice de toda a emoção de entrarmos no palco. Uma onda de gritos invadiu todo o local e meus ouvidos, era como ser amortecida por uma droga e o instante em que toda a apreensão se transformava em felicidade. Felicidade e certeza de estar fazendo a coisa certa.
As luzes se acenderam como num flash e nós três corremos para o palco, numa mistura de confusão, concentração e entusiasmo. Ana ainda incitava a platéia e nós mesmas com o “tac tac” incessante das baquetas, somado ao bumbo ritmado e agora, a mais e mais gritos. Aquilo era para matar!
Foi assim, totalmente entorpecida pela energia de tudo aquilo que Katty praticamente urrou “I’M BITCH!” no microfone e meu tão familiar solo de baixo começou.
(Caso queira conferir a música)

–Foi foda – Marine disse simplesmente, bebendo um gole de uma Heineken enquanto se jogava sentada ao meu lado no sofá de um só lugar do camarim improvisado.
Improvisado, porque era assim por se dizer um cubículo, horrível, onde todo o nosso figurino, capas dos instrumentos, instrumentos e nós mesmas estávamos literalmente amontoados. Pois é, ainda nos faltava um pouco mais de reconhecimento para termos bastidores decentes... mas ninguém precisava saber disso por enquanto.
–Foi mesmo, a Katty nem precisou meter a boca no pessoal dessa vez – agora quem falava era Ana, com uma risada longa, lembrando de um fato que sempre evidenciávamos quando tocávamos em Londres.
Em um show do ano passado, em Londres, nós estávamos tocando com o mesmo entusiasmo de sempre, mas a platéia estava parada, ninguém se mexia e de fato, Katty sempre foi uma pessoa de fácil irritação... Foi então que ela deu um surto e parou de cantar e tocar e nos mandou parar também.
E do nada começou a xingar o público, que imaginem só, ficou boquiaberto! Não bastando só a Katty ser desequilibrada, a non sense da Marine ainda deu apoio e berrou “É isso aí! Vocês não estão em um show de jazz, porra, é rock!”
Eu não sabia onde enfiar a cara, mas no fim das contas, tivemos um dos nossos melhores shows, porque a platéia resolveu entrar no clima e até subir no palco para pular e cantar com a gente subiram.
Mas obviamente a atitude de Katty não só gerou um dos melhores shows, como também a maior bronca do Maxime em toda a nossa vida.
–Ai deles que não se mexessem hoje – Katty falou, daquele jeito que sempre me dava medo e provocou uma gargalhada geral.
Peguei então para mim a cerveja de Marine e tomei alguns goles, sentindo o líquido gelado descer pela minha garganta e me revitalizar rapidamente. Odiava ter um camarim tosco que não me deixava tomar um banho relaxante depois do show, ainda mais quando queria curtir uma festa em seguida. Mas né, nem sempre se podia ter tudo.
Marine estava pegando de volta da minha mão a garrafa de cerveja quando de repente ouvimos três batidas rápidas na porta e logo em seguida, um rosto sorridente e barbudo se fez aparecer na fresta agora aberta da porta.
–Hey, meninas...
–Damien! – eu berrei imediatamente, como uma criança que acabava de ganhar o presente de Natal antes da data, já dando um salto da poltrona e me livrando dos obstáculos entre nós dois. Não tive muito trabalho até me jogar nele, com um abraço mais do que apertado – surgiu de onde?!
–De Paris, de onde mais seria? – ele disse, com um riso rouco perto de meu ouvido enquanto me tirava do chão. Então ouvi sua voz novamente, mas dessa vez ressonando como se estivesse falando na direção das minhas costas, onde as meninas estavam – Louise sempre fica mais feliz ao me ver, vocês deveriam ao menos tentar fingir o mesmo.
–Já chega convencido – falei em resposta, fingindo uma certa marra e saindo dos braços dele, para voltar ao chão.
–Nós sabemos que ela é a sua preferida, Damien, então não se faça de vítima – Ana já falava com um riso, jogando nele uma tampinha de cerveja.
–Mas vocês sabem que tem Damien para todo mundo, meninas – ele foi caminhando na direção de cada uma, distribuindo um beijo e um afago um tanto quanto insinuante no cabelo delas.
Damien era meu melhor amigo, melhor amigo homem. Meu e de Jean. Tanto que fora através dele que eu havia conhecido meu namorado, em um encontro de fotografia há pouco mais de um ano atrás. Os dois se tornaram mais do que essenciais em minha vida e vê-lo chegar assim de surpresa em um show em outro país (esquecendo por um segundo o detalhe de Londres ser a segunda casa dele) era no mínimo incrível.
–Mas então, bonitão, como soube do show? – eu perguntei, enquanto ele sentava no lugar que antes eu ocupava, agora passando um braço pela cintura de Marine e pegando a Heineken que Ana lhe oferecia. Depois de um longo gole no gargalo, ele me respondeu com um sorriso atravessado:
–Rinema, no Facebook. Eu estava entediado... JB pediu para ficar de olho em você, ele realmente não pôde vir.
JB era como todos, exceto eu e as meninas, chamavam Jean. Seu nome era Jean-Baptiste.
–“Ficar de olho”, conte outra, Damien – eu respondi, revirando os olhos.
–Bem, ele tendo pedido ou não, sempre faço isso com prazer – ele disse, com uma piscadinha e um sorriso convencido, tomando mais um gole da cerveja.
–Mas então, a vida anda tão boa assim que “wow, estou entediado nessa noite, vou para Londres”, monsieur Wilde? – Marine interrompeu, passando dessa vez o braço dela sobre os ombros de Damien e dando leves palmadinhas em seu braço.
–E como. Me tornei um bom partido para você, agora? – ele disse, virando o rosto para Marine e se aproximando até ficar a centímetros do dela, até que ela o empurrou com o punho cerrado segurando o gargalo da cerveja, o fazendo desviar o rosto e ambos soltarem uma risada.
–Não! Sai para lá, Damien, vá cantar a Ana que está solteira.
–É verdade, Ana? Não ficou sério com o Manol?
Eu estava acompanhando a conversa dos três, de braços cruzados como quem assiste uma partida de tênis, não tão interessada no assunto, mas esperando surgir uma brecha para me entrosar novamente. Katty por sua vez, se encontrava empoleirada sobre uma de nossas malas, mexendo em seu Smartphone, alheia a conversa toda.
Mal pude acompanhar a resposta de Ana que todos ouvimos de novo mais batidas na porta. Eu já me virei esperando dessa vez Jean, mas me deparei com... Danny. Danny Jones, do McFLY, seguido de Harry e Dougie.
Franzi minhas sobrancelhas imediatamente e lembrei do que Dougie havia dito nessa manhã, quando me dispensou do estúdio da Super Records, sobre a banda dele vir assistir nosso show. Lembrei também que não havia mencionado isso às garotas, com a confusão toda do ensaio e passagem de som atrasados e na corrida.
Danny, que quando havia aberto a porta estava com um sorriso bem feliz no rosto, ao se deparar com a surpresa de todos ali naquele cubículo pareceu ficar extremamente confuso e sem saber o que dizer ao certo.
–Hey..! – ele começou – então, Dougie nos chamou, então... aqui estamos...
Nós nos entreolhamos imediatamente e Ana apressou-se a falar com seu inglês impecável:
–Hey meninos, que surpresa ver vocês aqui!
Aquilo não era uma coisa boa. Damien Wilde e McFLY, ou parte dele, num mesmo ambiente...
–Meio apertado aqui, não? – Danny comentou, dando uma olhada em volta, com as sobrancelhas erguidas. Eu ousei olhar para Dougie, que estava escondido atrás dos dois, praticamente, olhando para o chão. Talvez ele só falasse quando estivesse a sós, aparentemente.
–Brrilhante dedução – Damien respondeu debochado e eu disse um “merda” mentalmente. COM CERTEZA as coisas ficariam feias se alguém não fizesse algo, afinal Damien era quase Jean e Jean odiava McFLY. Logo... Damien também os odiava.
Danny pareceu surpreso com o corte gratuito que havia acabado de levar e olhou para Harry levemente incrédulo, aparentemente (e por sorte) ele havia levado na boa.
–É, tem razão, dude – Danny disse, tornando a olhá-lo, com um pouco mais de receio.
Era hora de eu me intrometer.
–Então, Damien, eles são o McFLY, ou parrte deles... Danny, Harry e Dougie – falei, olhando para Damien e apontando cada um dos meninos, numa rápida apresentação, já em seguida voltei meus olhos para Danny, com um sorriso nervoso – e este é Damien, um grande amigo da banda que nos fez uma grrande surrprresa vindo nos visitarr...
–Estou lisonjeado – Damien respondeu, tomando mais um gole de cerveja e dispensando um olhar bastante desprezível para Danny. Este apenas deu mais um sorriso incrédulo com toda aquela antipatia gratuita.
O clima estava próximo do péssimo e a situação eu não preciso nem dizer o quanto estava incômoda. Parte porque McFLY era bem desconhecido para mim, era a primeira vez que trocava algumas palavras diretamente com Danny e bem, eu realmente me sentia intimidada por pessoas desconhecidas. Outra parte porque as meninas não estavam entendendo nada do porquê de McFLY estar ali, então as coisas ficavam um pouco mais sob minha responsabilidade.
–É... porr que não vamos parra o pub? Aqui está meio... aperrtado... – eu disse, sem muita firmeza, olhando dos rapazes para as meninas, até que um segundo hesitante se passou e todos concordaram de uma maneira um pouco desajeitada.
Marine e Damien se levantaram enquanto Danny, Harry e Dougie já saíam. Eu aproveitei para lançar um olhar meio cético para Damien que deu uma risadinha de escárnio e logo se aproximou de mim enquanto saíamos do camarim, me abraçando de lado e se aproximando de meu ouvido. Então ele sussurrou, como se quisesse que só eu o escutasse:
–Vim por sua causa.
Aquilo fez minha espinha gelar. Como assim?
Está certo que eu e Damien tínhamos uma espécie de amizade colorida, que não acontecia entre ele e mais nenhuma das meninas. Mas ele nunca havia feito nada desse tipo e realmente não entendi o porquê de fazer agora; até porque ele era como um irmão de Jean, eles se conheciam desde a infância.
–Você bebeu antes de vir para cá, foi? – eu disse, tentando descontrair, mas logo senti que Damien me conduzia para a direção oposta que McFLY e as meninas haviam ido. Então eu apenas o acompanhei – o que foi, Damien?
–Eu realmente não vim aqui só para ver um show de vocês – ele precisou gritar, pois nós já estávamos onde a música estava absurdamente alta.
O que contribuía para aumentar ainda mais a minha confusão. Damien pareceu perceber isso pela minha expressão, pois logo colocou:
–Calma, Louise, eu vou explicar tudo, mas sem berrar.
Então eu resolvi esvaziar minha mente e apenas acompanhá-lo, sem revide. Uma porque essa era quase uma “nova face” de alguém que eu conhecia tão bem quanto Damien se revelando. E eu definitivamente estava querendo acima de tudo entender. Era algo que superava uma simples curiosidade, até porque Damien mexia de certa forma comigo. Nossos olhares muitas vezes continham um leve flerte silencioso, mas nunca passara daquilo.
Ele era quem me apoiava, acima de tudo, quando eu brigava com Jean. Eu me sentia mais a vontade de desabafar com ele do que com as próprias meninas, pelo fato dele ser homem. Não que isso explique alguma coisa, mas eu não me sentia tão bem quando as meninas viam minhas fraquezas sentimentais. Elas eram tão bem resolvidas na vida amorosa delas desde que eu as conhecia, o que nunca se aplicou a mim. Todos meus relacionamentos duravam pouco e eram extremamente conturbados.
Para ser bem direta: Eu sempre me fodia.
Depois de alguns instantes caminhando entre a multidão que dançava uma música eletrônica que repetia “She don't care for nobody else, she's in her own world”, nós chegamos a uma área mais vazia. As vozes da música eram estranhamente familiares, mas eu não estava nem um pouco a fim de pensar sobre isso assim que eu e Damien paramos no balcão do bar, mais afastado da pista de dança e onde a música não martelava mais tanto nos ouvidos. Eu sentei num daqueles bancos altos e esperei alguns segundos até ter coragem de virar o rosto e encará-lo.
Ele pedia duas Heinekens e parecia estar extremamente sereno, com a expressão lívida e um tanto decidida.
–Qual é, Damien, que mistério todo é esse? Não pôde nem esperar eu voltar para Paris no fim de semana?
–Não, porque foi na sua ausência que percebi, então eu vim o mais cedo que pude.
–Como se eu não vivesse viajando em turnê – eu disse como se fosse óbvio e realmente era. Eu não vivia colada em Damien para ouvir esse tipo de explicação!
–Dessa vez foi diferente – ele disse, pegando uma das cervejas e me oferecendo a outra, para finalmente me encarar.
O Jean realmente sabe que você está aqui? – eu perguntei, entendendo cada vez menos.
–Sabe.
Isso de certa forma me tranquilizou, ouvir uma resposta negativa a essa hora só ia me deixar com mais medo do que Damien teria para me dizer. Ao menos ele não estava me surpreendendo em todos os aspectos. Ou sim, vai saber o que vinha pela frente...
Eu soltei um riso nervoso, com um leve abano de cabeça enquanto fitava um Damien pensativo.
–Eu realmente não estou entendendo...
Damien levou a mão livre até o meu rosto. Eu pensei em recuar, mas o gesto foi demasiado cuidadoso para que eu me sentisse receosa a ele; cuidadoso e delicado. Os dedos dele percorreram da maçã do meu rosto até meu queixo, me fazendo arrepiar de um jeito bom. Com uma leve pressão ele elevou meu rosto mais alguns centímetros.
Ele estava me tocando como Jean jamais havia me tocado, com tanto carinho. De fato, a uma investida violenta eu teria resistido. Mas Damien havia me quebrado justamente na minha maior fraqueza:
A carência.
Eu o olhava com os olhos perdidos, enxergando o ombro amigo que sempre esteve disponível para mim, mas que nunca tinha deixado tão claro que estava interessado em mim. Os fatos dele ser o melhor amigo do meu namorado e que eu, atualmente, ainda amava Jean, apitavam fraquinho em algum lugar distante no meu cérebro como um alerta. Mas não alto o bastante para que eu me movesse dali ou tentasse impedir qualquer coisa.
Foi então que Damien me beijou.

Capítulo VI - Ajuda Inesperada

Eu estava ofegante e desconcertada no instante em que bati a porta do meu quarto de hotel e grudei minhas costas contra ela, como que para me certificar de que o que estava me perseguindo não conseguiria adentrar no recinto.
O que de fato, era uma grande de uma tolice.
Nada me perseguia além da minha própria consciência e bem, se algum dia algum de vocês conseguir despistá-la, por favor, me avise como agir diante disso. Mantive minhas mãos espalmadas tão firmemente na madeira da porta que era de se imaginar que minhas juntas estivessem esbranquiçadas, ao contrário do que meu cérebro mandava, continuar mantendo a porta fechada parecia ser a coisa certa a ser feita.
–LOUISE, SUA ESTÚPIDA! – eu urrei no segundo seguinte, em que descolava meu corpo da abertura e já levava as mãos à cabeça, segurando meus cabelos levemente úmidos pelo suor frio com certo desespero.
Eu havia traído Jean. EU HAVIA TRAÍDO JEAN COM SEU MELHOR AMIGO.
Fiquei dando passos a esmo pelo quarto, ainda com as mãos em meus cabelos, sentindo meus olhos marejarem à medida que os acontecimentos se remontavam em minha mente como se fosse em câmera lenta. Onde eu simplesmente estava com a cabeça?

Damien colou seus lábios nos meus, a princípio sem nenhuma exigência física; o gesto fez minha boca amortecer e foi como se minha mente realmente se esvaziasse. Era uma sensação confusa, aqueles segundos paralisada com Damien em contato comigo, nós dois apenas respirando juntos... tanto que não sei quando, nem como, percebi que meus olhos estavam fechados. A boca de Damien levemente se abriu e fez uma pressão mais forte sobre a minha, amolecida, então a resposta do meu corpo foi simplesmente ceder.
Ceder e entreabrir meus lábios para que ele encaixasse os seus melhor nos meus e em seguida entrasse com sua língua quente e estranhamente diferente do que eu estava acostumada para dentro de minha boca. Eu me sentia como se fosse meu primeiro beijo, ou como se tivesse simplesmente esquecido o que pessoas normais faziam enquanto se beijavam.
Eu retribuí de um jeito desastrado, meio trêmulo. Damien parecia estar gostando, apesar de tudo, pois logo senti sua mão sob meus cabelos em minha nuca, o contato quase como um choque elétrico em meu corpo. Aquilo estava sendo surreal, não um surreal bom, ou ruim, um surreal apenas surreal.
Enquanto eu e ele movíamos nossas cabeças, eu sentia sua barba espessa arranhar deliberadamente toda a região ao redor de minha boca, mas nem isso mais gerava arrepios; a região permanecia amortecida. Levei minha mão até a nuca de Damien, como se estivesse flutuando, e ali, quando meus dedos entraram em contato com a quantidade de cabelo que definitivamente Jean nunca tivera, meus olhos saltaram das orbitas. Foi o instante em que um balde de água fria metafórico jorrou sobre a minha cabeça.
JEAN!
Eu me arremessei para trás na direção do balcão e empurrei Damien com toda a (falta de) força que me restava para longe de mim. Minha visão estava turva e de repente notei o quão trêmula minhas mãos estavam, a realidade estava se desnudando na minha frente sem piedade alguma, como se uma luz forte fosse acesa de repente em meio à escuridão.
Porra, EU NÃO HAVIA GOSTADO DESSE BEIJO! Mas fui retardada o suficiente para deixar que tudo acontecesse ao invés de parar para pensar que realmente eu não queria trocar Jean por Damien.
Eu me sentia suja. Tudo que nós três sempre havíamos sido. As viagens, as fotos, as brincadeiras... esse beijo, quando Jean soubesse, acabaria com tudo que atualmente mais tinha valor na minha vida.
–Damien... POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? – eu verbalizei, afinal era uma forma de descontar a frustração que sentia pelo meu próprio erro. Culpar Damien iria drenar parte da minha culpa.
–Louise, calm...
Eu não o esperei terminar de falar. Saí de perto dele o mais rápido que pude, em busca da saída daquele lugar infernal, já estava me sentindo sufocada, como se a minha garganta estivesse fechando. Nem chorar eu estava conseguindo.
E se Jean não me perdoasse? Eu não conseguiria viver sem ele.
Saí do La Scala e quase caí dura no chão de frio, afinal eu estava com a blusa de manga curta do show, mas eu simplesmente não colocaria meus pés de volta naquele lugar. Fui na direção do primeiro táxi preto que vi estacionado, agradecendo mentalmente o ar quente tomando conta do meu corpo e da minha respiração descompassada ao entrar dentro do carro.
– Sofitel Heathrow, o mais rápido que conseguirr...


E aqui estava eu. Em meio a nuvens e lufadas de vapor, causadas pela temperatura extremamente alta da água que caía do chuveiro diretamente sobre minha cabeça baixa, no banheiro da suíte do meu quarto no Sofitel. Não tinha como tirar da cabeça tudo que tinha acontecido, grande parte porque meu celular não parava de tocar lá da minha cama, indicando que provavelmente Damien estava realmente preocupado com meu sumiço repentino.
Mas o que menos eu queria agora era falar com ele e encarar os fatos. Meus pensamentos não se organizavam e eu queria de certa forma aliviar a angústia que eu estava sentindo, porém eu sabia que isso só aconteceria quando eu contasse tudo a Jean.
Porque eu não conseguiria omitir isso dele, jamais. Ainda mais porque havia sido com... Damien!
–Ah, merda, Louise, merda... você nem estava alta de bebida... nada justifica... – eu fui me auto-repreendendo, enquanto me agachava ainda sob o fluxo de água quente constante. Hoje mais do que nunca eu sentia na pele o que Carrie devia ter sentido após beijar Aidan em “Sexy and the City 2”. O flerte era bom, o clima... mas o peso da traição real era difícil demais de suportar. E isso que havia sido apenas um beijo.
Porque quem eu amava era Jean! Damien era apenas... uma incógnita... era, né. Agora já não era mais. E olhe que eu nem queria pensar o que se tornaria minha relação com ele daqui para frente. Pensar em Jean já era o suficiente para me deixar com altas doses de enxaqueca, pelo menos até resolver toda a situação.
Depois de quase duas horas debaixo da água quente para relaxar e murchar o suficiente, saí do banho me sentindo ao menos com um pouco mais de dignidade. Não sei de onde ela surgiu, se do chuveiro, do sabonete hidratante ou do meu shampoo, mas definitivamente eu não estava em posição de refutar essa sensação de leve melhora.
Sequei meu corpo sem emoção e quando ouvi novamente meu celular encher o saco e tocar outra vez, o desliguei. 24 chamadas não atendidas, dele, realmente Damien devia estar preocupado.
E sinceramente, ele que fosse para o inferno. Precisava ter me tentado tanto daquele jeito? Eu jamais o teria beijado por livre e espontânea vontade, por mais puta da cara que estivesse com Jean. Essa não era eu...
–Louise?
A voz de Katty soou do outro lado da porta do meu quarto, seguida a batidas educadas. Meu estômago fez um movimento desconfortável e meio enjoativo com isso, eu não sabia com que cara encará-la e também esperava que Damien não tivesse contado nada sobre o acontecido. Me ergui enrolada no roupão felpudo de um branco impecável e abri a porta, encostada na parede do marco da abertura.
–Hey, Katty... quer entrar?
Eu a encarei, ela estava vestida como antes e o cabelo estava levemente bagunçado, o que indicava que acabara de chegar da festa.
–Está tudo bem? Quer dizer... você e Damien sumiram... – ela perguntou com cautela, apertando os olhos. Se Damien tinha sumido, era porque não tinham se falado mais, o que me aliviou. Mas eu sabia que querer esconder algo de Katty era besteira, porque ninguém a enganava, ela era como um radar. Assimilava tudo que estava acontecendo, mesmo que de forma dispersa e então guardava a informação para si.
–Não muito, eu passei mal, não pude esperar... voltei de táxi... quer entrar? – eu falei em um tom xoxo, abrindo espaço para ela passar, caso quisesse.
–O que você tem? Não vou entrar, está tarde e eu acabei de chegar, vi na recepção que você havia chegado, mas resolvi passar para me certificar se estava tudo bem.
–Crise de enxaqueca, já tomei remédio, agora só preciso dormir...
Katty apenas me analisou. Mas eu sabia que ela não forçaria a barra de maneira alguma, mesmo tendo a certeza de que o que eu tinha era muito mais do que uma simples crise de enxaqueca. Então ela concordou, me deu um beijo de boa noite e se foi para o quarto em frente ao meu no corredor.

O dia seguinte chegou incrivelmente rápido, como num piscar de olhos. Dessa vez não me atrasei ao acordar, pelo simples fato de sequer ter adormecido. Fiz tudo que tinha para fazer no tempo certo, desde me arrumar a tomar o café da manhã no térreo, sem ao menos sentir cansaço físico.
Acho que minha apreensão era tanta que sequer estava ligando para as necessidades do meu corpo, ainda mais porque o tempo não parecia estar muito regular nessa manhã; ao mesmo tempo em que as situações pareciam correr em câmera lenta, os minutos pareciam passar mais rápido do que nunca.
E foi assim que cheguei a Super Records, pouco antes das nove e meia da manhã, com meu Rickenbacker branco. O meu vermelho deveria voltar para o hotel com os nossos outros instrumentos hoje, ainda pela manhã. Para minha surpresa, Dougie, como prometido, também já estava lá.
–Bom dia – ele me disse, meio desajeitado, levantando-se do mesmo sofá em que eu o encontrara sentado no dia anterior.
Eu tentei ensaiar um protótipo de sorriso em resposta, mas até isso se mostrava extremamente complicado.
–Bonjour... – eu disse simplesmente, mal o conseguindo encarar nos olhos. Eu esperava que ele não puxasse muito papo dessa vez, porque hoje eu não conseguiria ser simpática o suficiente para agradar quem quer que fosse.
Passei direto para o sofá em sua frente e fiz o mesmo que na manhã de ontem, desencapando meu baixo e ajeitando a correia preta (que eu não gostava) em meu ombro, já o pendurando. Então o fitei:
–Eu posso pegarr o cabo parra plugá-lo? Só me diga onde está.
–Eu... eu o pego para você – ele falou, parecendo confuso com a minha frieza e praticidade, mas não parecendo ter a intenção de se entrosar comigo ou nada do tipo.
Dougie foi buscar o cabo do outro lado do vidro e então eu o encarei. Parecia a melhor coisa a ser feita, analisá-lo enquanto ele não podia ver que eu estava fazendo isso. Ele vestia uma jaqueta surrada, de um jeans claro, juntamente com uma skinny azul marinho e novamente Vans. Seu cabelo parecia um pouco mais bagunçado do que das outras vezes que havia visto e eu percebi que preferia assim.
Ele voltou e se prontificou a plugar meu baixo e logo em seguida o ligou no amplificador. Eu testei e aquele som grave e arrebatador que o instrumento fez me deu uma leve sensação de entorpecimento momentâneo. Talvez aquilo me fizesse espairecer e era tudo que eu estava precisando.
–Está desafinado. Faz tempo que não toco com esse aqui – eu falei, apertando e soltando levemente as cordas que notava que precisavam disso e logo as dedilhava, o afinando por ouvido.
–Seu vermelho ainda não está com você? – ele perguntou, colocando as mãos no bolso e com os olhos no meu baixo.
–Pois é, eu prretendia tê-lo levado comigo parra o hotel ontem, mas... – eu comecei a fala e então, lembrando novamente do pesadelo todo, engoli em seco – mas acabou não dando, enfim.
–Você sumiu ontem – ele perguntou. Pareceu que suas palavras saíram como que movidas por uma certa coragem, o que surpreendeu até mesmo Dougie.
–Pardon... Sei que foi extrremamente mal-educado eu terr sumido sem avisar ninguém assim, mas foi... um imprevisto, foi...
E maravilha. Eu tinha até começado a entoar bem a frase, até que no final minha voz já estava totalmente embargada em sinal de choro. Meus olhos deviam estar vermelhos e com uma camada grossa de lágrimas ficando cada vez mais proeminentes, prestes a escorrer por meu rosto.
Bravo, Louise, você conseguiu.
Eu desviei o rosto para o lado oposto de Dougie com as bochechas ardendo de vergonha e já sentindo as lágrimas rolando, tarde demais para que ele não visse.
–O que foi?? Você... você está chorando?! – ele perguntou num tom que me pareceu um misto de surpresa com choque.
Ah, merda. Mil vezes merda.
Eu não sei quando, nem porquê, nem como, mas quando eu dei por mim, já estava soluçando e com o rosto virado para Dougie, vomitando palavras e não simplesmente as falando.
–Nonseicomoeutrraimonfianceontem – eu balbuciava entre os espasmos do choro, gesticulando e tentando explicar o inexplicável. Misturando o inglês com o francês e deixando um Dougie me observar cada vez mais confuso e mais pasmo.
–Louise...
– Eunonquerriaj’aimeJean! J’aime! – eu não conseguia calar a boca nem cessar o choro, aquilo não era como pagar um mico, e sim simplesmente desabafar (está certo que com alguém que eu sequer conhecia). Eu sabia que estava frágil, só não poderia imaginar o quanto, a ponto de permitir algo tão pessoal escapar assim.
–Está bem, Louise, mas eu não estou entendendo nada do que você está falando! – Dougie disse, num tom de voz calmo, se aproximando de mim e tomando meus pulsos trêmulos e descontrolados em mãos. Aquilo me fez brecar um pouco e tencionar todos meus músculos, como que preparando para me defender de qualquer coisa.
–Você pode... me contar tudo se quiser... Mas antes vamos tirar esse baixo e sentar, vou trazer um copo d’água para você, ok? Está tudo bem – Dougie continuou, comigo soluçando abobadamente enquanto apenas o olhava, ainda segurando meus pulsos de uma maneira serena.
Então ele os soltou e levou as mãos até meu baixo e o tirou de meu ombro cuidadosamente, o colocando no sofá onde eu o havia desencapado, voltou até mim e com uma mão em minhas costas e outra em um dos meus pulsos, me conduziu até o sofá em que ele antes estava sentado e me sentou ali.
–Vou pegar a água, um segundo, é um segundo mesmo!
Eu confirmei com a cabeça dando uma fungada molhada e extremamente desconfortável de se ouvir, imaginei, mas a essa altura já não me restava mais muita dignidade. Acompanhei Dougie com os olhos e vi que ele foi até uma mini-geladeira que se encontrava no canto da sala, a abriu e de lá pegou uma garrafinha de água mineral, voltando logo em seguida com ela em mãos, já a abrindo e entregando-a para mim.
–Sei que tem copos em algum lugar daqui, mas se eu os procurasse ia levar mais de um segundo, então... – ele disse com um leve sorriso, tentando me animar enquanto sentava ao meu lado e observava enquanto eu bebia a água levemente refrigerada e conseguia voltar a ter um pouco de controle sobre mim mesma.
–Melhor? – ele perguntou, ainda prestativo.
–Um pouco. Desculpa essa cena – foi o que eu disse, fechando os olhos e levando uma das mãos a minha testa, com a voz ainda falha de choro.
–Hey, está tudo bem... eu só não entendi o que aconteceu... – ele falou, apoiando a mão sobre meu joelho, me reconfortando. Aquele gesto de certa forma aqueceu algo dentro de mim e eu não sei o aconteceu, mas me fez ter a certeza cega de que eu podia confiar em Dougie.
–Não querria te aborrecerr com besteirras.
–Se te fez chorar, não é tão besteira assim, certo? Vamos lá, acho que você precisa conversar... o que aconteceu? Sei que não tem motivos para isso, mas mesmo assim vou te falar... você pode confiar em mim.
Eu apertei meus olhos e o olhei com atenção. Ficamos em silêncio por alguns longos instantes nos fitando, ele parecendo esperar qualquer resposta da minha parte. E foi quando eu senti uma vontade inexplicável de sorrir, que sequer se encaixava no meu contexto atual.
–Não me perrgunte como, mas eu sei disso – então eu disse e sorri, muito de leve, mas sorri.
Então Dougie sorriu também, parecendo mais aliviado ao me ver um pouco menos transtornada, mesmo que isso tenha durado apenas um segundo. No instante seguinte já voltei a ficar séria e a desviar meus olhos para baixo.
–Eu... beijei o melhorr amigo do meu namorrado ontem – eu disse fazendo uma careta, mas sem medo de ser julgada pela primeira vez na minha vida. Afinal eu não fazia parte da vida de Dougie e ele não teria porque achar coisas por simplesmente não me conhecer. Ele opinaria de acordo com o que soubesse da história e eu pretendia ser bem imparcial ao contá-la, sem jogar toda a culpa em Damien.
–Wow... bem... e você gosta dele? – aconselhar não parecia ser uma virtude de Dougie, mas eu apreciei sua boa vontade em me ajudar.
–Como amigo. Antes... eu não sabia dirreito, porrque nunca havia o beijado... mas não prretendia colocar em prrova isso, entende? Não prretendia... experrimentar para saber... eu deixava de canto isso... Nunca pensei em trrair Jean.
–Entendo. Mas e agora? Você disse isso ao amigo do seu namorado? Já contou para seu namorado?
Aquela conversa estava quase que funcionando como a maior válvula de escape de toda minha vida. Dividir com alguém todo aquele peso estava me fazendo conseguir organizar as ideias novamente e era como ter uma nova esperança de que tudo ficaria bem.
–Eu não sei o que fazerr... eu saí correndo depois do beijo, bem tosca... e não tive corragem de contar parra Jean ainda, nem sei como fazerr isso...
–Mas você... pretende traí-lo de novo? – Dougie me perguntou, parecendo um tanto quanto pensativo e eu sequer hesitei na resposta:
–Clarro que não! Nunca! Isso tudo só serrviu parra verr o quanto eu rrealmente amo Jean...
–Então será que vale à pena contar para ele? Foi apenas um beijo, certo? Um deslize, não uma real traição!
Eu franzi minhas sobrancelhas de imediato. Era, de fato, uma possibilidade a ser considerada. Não parecia das mais politicamente corretas a serem seguidas, mas né, eu havia descoberto que até mesmo eu não era tão correta quanto imaginava ser.
–Serrá? Acho que é algo grrande demais parra eu omitirr...
–Bem, ele vai ficar decepcionado com certeza se souber e eu não conheço seu namorado, mas pode ser que ele demore a voltar a confiar em você... talvez seja um risco desnecessário.
–Tenho medo da rreação dele... vai se sentirr duplamente trraído, porr mim e porr Damien...
–Então esqueça isso pelo menos por agora. Não adianta tentar resolver de cabeça quente.
–E como esquecerr? – eu suspirei, com um sorriso derrotado – eu esfolarria Jean vivo se fosse ao contrrárrio...
–Eu conheço uma... confeitaria aqui perto – antes mesmo de terminar, ele soltou uma risada meio tímida, que eu achei extremamente fofa – pensei que a gente pudesse dar um pulo lá para você espairecer, acho que não vai conseguir compor tablaturas assim.
–Confeitarria? – eu questionei franzindo as sobrancelhas, achando o convite dele meio absurdo, mas quando dei por mim estava sorrindo também. Dougie estava conseguindo me deixar melhor sem muito esforço e eu seria extremamente grata a isso – querr dizerr então que matarremos mais um ensaio?
–Eu não vou contar, você vai? – Dougie disse com um sorriso travesso e eu fingi ficar séria e pensativa, para criar um suspense. Já estava até me divertindo!
–Tem torrta de chocolate com morrangos?
–Tem o que você imaginar!
–Feito, Poynter.
–Feito, Basilien – ele me surpreendeu mostrando que também sabia meu sobrenome, no mesmo tom provocativo que eu disse o dele, somado a uma piscadinha.
E então comprovamos que ambos havíamos pesquisado sobre a identidade de cada um, pois ninguém havia dito seu sobrenome até então. Uma espécie de vínculo entre mim e Dougie parecia ter se formado após essa conversa, do jeito mais controverso que se pode imaginar. A parte mais engraçada disso tudo, é que eu não estava achando nada ruim e ao que parecia, nem ele. Levantamos do sofá com uma certa animação e eu fiz o que ele havia aconselhado.
Espaireci e saí daquela sala de gravação preparada para coisas boas...
Quem diria, ao lado de Dougie Lee Poynter, o baixista de McFLY.

Capítulo VII - Cakes & Clouds

–Palheta?
–Com, na maiorria das vezes – respondi – e você?
–Com também.
–Quatrro ou seis corrdas?
–Quatro, me atrapalho com seis. E você?
–Já me atrrapalho com quatrro...
E então soltamos mais uma risada juntos. Achei que isso ia brecar o quiz interminável entre mim e Dougie Poynter, mas percebi que não no instante em que ele continuou a me olhar com a contínua curiosidade que ficava nítida em seu rosto a cada vez minha de perguntar.
Nós estávamos sentados um diante do outro, há algumas horas numa das mesas mais afastadas da confeitara “Cakes & Clouds”, a algumas quadras do prédio da gravadora. Como era uma manhã de uma quinta-feira, o lugar estava bem tranqüilo e pacato, a ponto de podermos fazer o caminho até lá com uma vagarosa e despreocupada caminhada.
O estilo do lugar era o mais aconchegante possível para uma manhã gelada de entrada de inverno, onde a madeira rústica e os tons terrosos se misturavam com um interior muito iluminado e doces multicoloridos no balcão, logo de entrada. Havia ali as mesas de cadeiras simples, mas Dougie me conduziu até a parte detrás do lugar, onde existiam espécies de “cabines” de quatro lugares, separadas por biombos, acho eu, de madeira na cor mogno. Os acentos eram estofados e os biombos davam um ar a mais de privacidade para essas mesas, além do conforto e maior espaço.
Pelo que Dougie me explicou durante o caminho, aquele lugar era muito desconhecido e ele e o resto de McFLY podiam ir ali sem se preocupar em ter que dar milhões de autógrafos ou ter que posar para outras milhões de fotos. Era uma confeitaria nova, porém a dona era uma idosa que os tratava como se fossem netos, pude acompanhar quando ela mesma se dirigiu a nossa mesa e anotou nossos pedidos com tremendo zelo.
Não demorou cinco minutos para que nossos pedidos chegassem, com direito a panquecas com geléia de damasco como cortesia da casa, o que me fez realmente comprovar o quanto Dougie era querido naquele lugar. Nós comemos e definitivamente, o lugar simples e escondido num canto qualquer de Londres me fez experimentar a melhor torta de chocolate com morangos de toda minha vida, sem dúvida alguma.
–Hum... eu não sei mais o que perrguntar... – eu disse, entortando a boca um tanto pensativa, tentando achar uma questão que fosse interessante de indagar, brincando com o garfinho contra o prato vazio, depois de termos acabado com toda comida da nossa mesa sem esforço algum.
–Eu tenho mais uma, posso? – Dougie disse, com um sorriso de canto.
–Clarro! – eu disse, deixando de tentar pensar em alguma pergunta e voltando a focar meus olhos e minha atenção nele.
–Por que... Plastiscines?
Então eu sorri. Essa eu adoraria responder e tive a certeza de que ele pegaria o espírito da coisa de primeira.
Picture yourself on a train in a station – eu comecei cantando um pouco baixo, sorrindo um pouco tímida para ele, mas tentando deixar o ritmo o mais claro possível para que Dougie sacasse a música. Ele estava apertando as sobrancelhas, me olhando como se achasse familiar, mas a princípio ainda sem identificar – With plasticine porters with looking glass ties...
Eu alonguei a parte de “Plasticine porters” para deixar bem grifado que era dali, mas não parei de cantar, sempre devagar e com um inglês não tão ruim; graças à familiaridade com a letra:
Suddenly someone is there at the turnstile, the girl with kaleidoscope eyes…
Foi então que continuei a olhar Dougie fixamente com um sorriso meio torto, alongando ao máximo as reticências do final da frase e a ficha dele caiu.
Lucy in the sky with diamonds!! – ele cantou mais animadamente do que poderia imaginar, e mais alto também – Lucy in the sky with diamonds!!
Eu fiquei rindo e abanando a cabeça enquanto ele ia repetindo o refrão cada vez mais alto, sorridente por ter conseguido passar a mensagem. Ia ser muito constrangedor caso eu cantasse e Dougie não conhecesse, ou não gostasse da música, mesmo a ideia me parecendo um tanto absurda. Imaginava que todos em Londres (e no mundo, eu tinha esperança) deveriam conhecer boa parte das músicas mais famosas dos Beatles.
–Ah, dude, muito bom! E o nome ficou sonoro... muito bom mesmo! – ele falou e concordei, mas de uma forma humilde, afinal eu realmente gostava do nome da minha banda.
–O nome quem deu foi Katty e Marine. Eu nem fazia parrte da banda ainda.
–Elas foram as formadoras?
–Forram sim, no ensino médio de um Liceu militarr em Parris – então eu ri das minhas próprias palavras, mesmo sendo piada interna. Só de relembrar o quanto seria absurdo ver Marine numa escola militar me fazia sempre ter vontade de rir – elas não sabiam tocarr nada, nem cantarr, nem tinham instrrumentos e enfim... nossa banda surrgiu do mais remoto nada.
–Wow – Dougie pareceu impressionado com essa informação – totalmente o contrário de nós. Eu e os caras sabíamos tocar antes de McFLY, o Jones por exemplo... se você der uma caixa de fósforos na mão dele, ele faz melodia. Jones e Fletcher tem música no sangue, eu sempre digo.
–Isso não se aplica a gente... – eu ri, meio que tendo que admitir que estávamos no mercado musical mais por persistência e teimosia do que por talento nato – nós enfiamos nossa música goela abaixo das pessoas. Não é nada fácil uma banda só de meninas darr cerrto... Prrincipalmente se elas empunham instrrumentos e começam carreirra na Frrança.
–O que tem isso de ter começado na França? – Dougie me perguntou, intrigado.
–Tem que, até hoje, nos olham com deboche lá. Somos “Les bebés rockers”, a forma mais pejorrativa de se rreferrir a novas bandas jovens forrmadas porr lá... É quase sinônimo de filhinhos de papai que não tem o que fazerr, cansarram de jogarr tennis e resolverram montarr uma banda porrque podem gastarr dinheiro com o que quiserrem. Mas nenhuma de nós erra rrica, tanto que nossos prrimeirros intrrumentos erram todos de segunda mão...
–Eles têm preconceito com novas bandas lá, então? Mas que coisa ultrapassada...
–A Frrança é um país muito fechado... muito voltado parra o clássico, desde moda à música. E nossa banda está nessas duas linhas... então continua complicado parra nós lá. Sem contarr que não gostamos de cantarr em frrancês, porrque é uma língua que exige cerrtas peculiarridades... como você pode notarr pelo meu sotaque horrível, fazerr rock em frrancês às vezes soa de um jeito tenebrroso.
–Horrível nada, sotaque francês em mulheres é sexy, dude – ele falou e deu uma risada tímida em seguida e eu logo senti minhas bochechas corarem.
Claro que não era a primeira vez que caras de outros países falavam sobre mulheres francesas para mim, mas eu não conseguia não ficar constrangida com isso. Até pelo fato de não entender todo esse fetichismo, porque eu, por exemplo, odiava ter o francês como língua vernácula.
–Bem... então... – eu meio que fiquei toda errada para voltar a seguir a linha de raciocínio, mas tentei disfarçar o máximo possível – a questão é que nosso prrimeirro cd, grravado na Frrança, porr lei, nos obrrigou a terr 70% porr cento da grravação em frrancês. O que acabou nos prrejudicando demais, já que nosso público não erra o frrancês!
–E vocês querendo gravar em inglês, entendi... – ele respondeu, agora cutucando o copo descartável do café que havia tomado, brincando com ele.
–Exato... e isso só foi acontecerr bons anos depois, porr um milagrre nós estávamos fazendo um festival nos EUA e Butch Walker nos assistiu e simplesmente se oferreceu parra serr nosso prrodutorr! Sabe quando terríamos dinheirro parra pagarr um dos maiorres prrodutorres amerricanos? Nunca.
Dougie ergueu as sobrancelhas, mas quando ergueu os olhos de volta para mim, algo na expressão dele mudou, como se ele tivesse ficado mais carrancudo de repente.
–Esses produtores americanos... agora deixe-me adivinhar. Vocês fizeram um cd totalmente diferente do som antigo de vocês e conseguiram vender na América.
O tom de Dougie foi meio sombrio e eu tentei disfarçar o mal estar repentino que senti com isso. Era como se ele estivesse me culpando por termos assinado contrato com um produtor americano, e eu não entendi o porquê disso assim.
–Bem... não. Não e sim. Nós cantamos a maiorria em inglês, músicas compostas porr nós. Butch não nos prroibiu de nada, o álbum saiu como esperrávamos há anos, completamente a nossa carra... mas sim, fizemos mais sucesso na Amérrica do que na Eurropa. Aparrecemos em Gossip Girl, essas coisas – eu falei com certa cautela e confusão pela mudança de humor dele, voltando a lembrar que estávamos acabando de nos conhecer de verdade.
–Ah, dude... eu já admirava vocês por serem mulheres tocando, agora depois dessa então... – Dougie falou, me surpreendendo e indo com o corpo pra trás no estofado, bagunçando a franja com uma das mãos – vou dar um conselho... nunca se vendam...
O rumo daquela conversa estava estranho, e eu realmente não estava com muita vontade de continuar com o clima pesado que havia surgido ali por causa disso. Estava tão bom e descontraído descobrirmos coisas um do outro, mas ao que parece havíamos chegado em uma parte delicada e não explicada ainda da situação.
–Não prretendemos, pensamos muito em até mesmo aceitarr o convite de vocês... Mas aqui estamos nós, em Londrres.
–Algo de bom na minha carreira depois de alguns anos – ele falou e deu um sorriso sincero, mas meio apagado. Definitivamente eu não estava entendendo mais nada nessa conversa – mas me fala... você toca outra coisa além de baixo?
Dougie e suas mudanças repentinas de humor e de contexto. Isso era algo que eu já poderia reconhecer em sua personalidade como algo bem característico.
– Bem, eu tocava harrpa antes das Plastiscines... aprrendi a tocarr baixo e violão depois de entrrarr parra a banda, mas só toco isso também.
–Harpa?? – Dougie nem pareceu ouvir o resto da frase e essa era reação padrão das pessoas ao ficar sabendo que eu sabia tocar harpa; para mim, no fundo, todo mundo pensava algo do tipo “WTF harpa, quem toca harpa?” e só não falavam isso por educação.
–Harrpa! É muito brrega, é muito lírrico, é muito esquisito, eu sei... mas o que imporrta é que agora eu sou baixista.
–Não é nada brega, dude! É tão... sei lá... feminino? – ele fez uma careta, parecendo não ser esse o adjetivo ideal para me passar o que queria, mas já com ar sereno e tranqüilo que tanto me fazia bem – delicado! Nosso segundo álbum foi gravado com uma orquestra e eu sempre achei muito lindo esses instrumentos assim, as pessoas que tocam parecem ser bem mais inteligentes do que eu.
–Não se prrecisa de mais inteligência para tocarr uma harrpa em comparação a um baixo, acho eu... – eu respondi, sorrindo com o jeito dele mais familiar para mim de falar.
Dougie seria o tipo de cara que menos me chamaria atenção na vida, daqueles que eu nunca teria me aproximado caso não tivesse um motivo maior, como estava justamente acontecendo. Nós podíamos ter o baixo e a carreira musical em comum, mas de resto, nossos mundos eram completamente diferentes e opostos. Ele não era galanteador, não era seguro de si, não parecia ser dos mais cultos... só que, aquele jeito sincero dele estava me deixando tão bem que eu com certeza não saberia explicar o que estava acontecendo. Mesmo com o momento mais desconfortável da conversa, eu podia sentir que ele era uma pessoa pura e eu tinha esse tipo de intuição com pouquíssimas pessoas. Era apenas divertido e suficiente ficar ali com ele, no meio de uma confeitaria desconhecida numa manhã que deveria ser de trabalho, jogando conversa fora.
–De qualquer forma, é só olhar para você para saber que você é mais inteligente do que eu.
–Eu não sou tão inteligente assim! E você não tem como dizerr isso só olhando parra mim – eu protestei, soltando uma risada.
–Claro que tenho! – Dougie insistiu – dude, olhe para você... sei lá, é um conjunto, entende? Você é francesa, de Paris... toca harpa, toca baixo e faz parte de uma banda só de meninas que fazem rock simplesmente porque querem... e vocês são muito mais guerreiras do que eu imaginava, depois de tudo que me contou. Fiquei impressionado, mesmo... É foda uma banda manter a identidade sem parar para pensar na grana e vocês são um exemplo. Isso que eu nem precisaria estar falando de todas. Você em si já é...
Então ele parou de falar e ficou me encarando, com os olhos apertados, parecendo extremamente pensativo.
–Estrranha – eu disse em seguida, imitando a mesma expressão pensativa dele e abaixando o tom de voz, só por deboche. Mas Dougie não se deixou cair na minha brincadeira, e apenas sorriu de volta para mim de um jeito comedido:
–Diferente.
–Bem, existe uma linha tênue separrando essas duas coisas – eu concluí e soltei uma risada, fazendo-o rir também.
–Não nesse caso, Lou... Um diferente bom, realmente bom. Nada estranho.
Então, o modo com que ele me chamou por um apelido pela primeira vez fez ficar impossível diminuir meu sorriso. Eu desviei o rosto por um instante e voltei a olhá-lo, tentada demais a perguntar o porquê de eu ser tão diferente assim para Dougie. Tentada demais MESMO para conseguir me conter.
–Por quê?
–Oras... pelo que disse antes. Francesa, baixista, harpista, decidida e...
Então ele parou e deu uma risada, voltando os olhos para baixo.
–E...?
–E ok, dude, linda como poucas. Minha namorada vai querer me matar quando souber que eu disse isso, mas bem, eu não sou cego – Dougie disse dando de ombros, contendo um sorriso meio culpado tão fofo que tive vontade de apertar as bochechas dele naquele instante.
Ao assimilar aos poucos sua resposta, eu ergui as sobrancelhas, extremamente surpresa, para logo em seguida novamente sentir que estava ficando vermelha. Aquilo não me pareceu nada como uma cantada com interesse, até mesmo porque ele falou na namorada (que eu nem sabia que existia) o mais rápido que pôde; algo como que para neutralizar o primeiro comentário e deixar claro que não era uma cantada.
E eu também não queria uma cantada dele assim, do nada, né... Nem sequer esperava. Quer dizer, ele era muito gato e tal, mas né... Jean e Damien já me causavam muitos problemas só os dois, outra pessoa para entrar no meio da bagunça era o que eu menos precisaria. Então simplesmente levei na boa, como um elogio daqueles bem gostosos de se ouvir.
–Relaxe... o fato de namorrarrmos não faz com que deixemos de acharr pessoas bonitas porr aí – eu disse, com os olhos meio baixos e um sorrisinho de canto, ocupando minhas mãos com o garfinho sobre a mesa novamente.
–Tem razão... – Dougie falou, cruzando os braços e acentuando a concordância com a cabeça.
E parecia que nosso assunto tinha encontrado o primeiro obstáculo. Ficamos os dois, num silêncio tenso por alguns instantes, até que Dougie olhou o horário em seu iPhone, em seguida colocando-o no bolso da calça novamente.
–Podemos dar uma volta pela cidade, almoçar e caminhar por aí, o que acha?
Eu considerei o convite, mais um convite, aliás, de Dougie.
–Bem, clarro. Podemos aprroveitar o tempo e irrmos falando sobrre a música, sobrre o que cada um prretende fazer com o baixo também.
Dougie concordou e ambos nos levantamos dos acentos da mesa e fomos na direção do balcão, onde ele simplesmente não me deixou pagar minha parte da conta. Aquilo também já era exagero, nem Jean pagava contas para mim, mas foi simplesmente impossível fazer Dougie entender que eu REALMENTE gostava de pagar minha parte quando saía com outras pessoas, então tive que aceitar a gentileza dele.
Nós estávamos colocando o pé para fora da “Cakes & Clouds”, quando ouvi do bolso de Dougie seu telefone chamar. Então enquanto ele atendia, fui caminhando ao lado dele em silêncio, na direção de volta a Super Records, simplesmente sem conseguir evitar de prestar atenção na conversa dele com quem quer que fosse.
–Hey.
Pausa.
–Não, eu estava no estúdio. Na verdade, estou voltando para lá, estava na Cakes & Clouds, não tive tempo de tomar o café da manhã hoje cedo.
Pausa. Enquanto eu andava e o ouvia falar, parei para analisar a voz de Dougie. Ela era fina, de um jeito engraçado até, não parecia vir de alguém da idade dele. Mas combinava bastante com o jeito dele, meio introspectivo assim e meio fofo, somado à maneira dele de falar, gerava um resultado agradável de observar e ouvir.
Aliás, algum dia eu descobriria porque gostava tanto de analisar Dougie quando ele não podia perceber, me sentia psicopata às vezes.
–Às onze? Bem, que bom que conseguiu esse horário vago, tudo certo então. Até daqui a pouco então, também te amo.
E desligou.
–Bem, Lou, acho que nosso passeio vai ter que ficar para outro dia, minha namorada me ligou e nós andamos com pouquíssimo tempo para nos ver e hoje ela conseguiu ter a tarde livre e me chamou para almoçarmos, sinto muito... – ele me explicou, com um certo pesar na voz enquanto voltava a colocar o iPhone no bolso.
Ah, droga.
Aquela notícia meio que me fez sentir um leve, muito leve aborrecimento. Afinal eu já estava quase acostumando aos convites repentinos de Dougie para espairecer e conversar por aí e tinha realmente gostado da ideia de passar o dia longe dos meus pensamentos ruins sobre a realidade da minha vida atualmente. Era quase como estar em um universo paralelo, já que tudo ali era novo para mim.
Mas bem, eu não podia de fato reclamar, também não pensaria duas vezes se Jean me ligasse. Era óbvio que nossos namorados tinham mil vezes mais prioridades do que novas amizades, por mais animadoras e promissoras que elas fossem.
–Ah, clarro, sem prroblemas! Fica parra prróxima!
–Desculpe mesmo, é uma exceção das grandes Frankie me ligar e me convidar para algo – ele disse rindo, com as mãos nos bolsos enquanto caminhávamos.
–Então esperro que aprroveitem! – eu disse, sorrindo de forma sincera.
–Vamos sim...
E assim fomos, já sem tanto assunto quanto antes, para o estúdio. Dougie se despediu de mim ali mesmo ao pé da escadaria de entrada, pois segundo ele, deixava seu baixo no estúdio para não precisar ficar levando de lá para cá. Mas bem, o estúdio era deles, então o mesmo não se aplicaria a mim, que fui até lá buscar meu instrumento. Saí de dentro da gravadora umas mil vezes menos animada do que estava minutos antes, porém com algumas coisas resolvidas e decididas de última hora: eu chegaria ao Sofitel Heathrow e ligaria para Jean.

Capítulo VIII - Sinceridades

Eu estava olhando fixamente para o meu BlackBerry, que se encontrava em uma das minhas mãos. Era como se fosse uma preparação para uma batalha, eu imaginava, estar sentada ali naquela cama fofa num quarto muito bem iluminado do hotel perto do meio-dia, somente esperando a hora certa de contar os últimos acontecimentos para Jean.
Bem, o discurso vinha sendo ensaiado desde o instante em que me desvencilhei de Damien na noite passada e a versão tinha sido adaptada e modificada umas milhares de vezes até o presente. Então eu precisava decidir qual seria a menos drástica para começar o assunto com meu namorado. Esse era o grande problema, já que nenhuma parecia ser menos pior vista de uma maneira geral... era como estar fodida em qualquer escolha.
Então, depois de uma parcela de tempo não identificada, eu dei o suspiro da decisão. E logo voltei atrás, obviamente. Fiquei nessas de suspiro de decisão até que minha respiração estava num estado tão elevado de sincronia que percebi realmente ter chegado a hora. Fazer exercício de diafragma acabava acalmando a pessoa, mesmo que o exercício não tenha sido proposital. Ao menos consegui fazer a chamada sem tremer mais os dedos.
Cada vez que o telefone chamava, eu sentia meu estômago despencar alguns metros imaginários, mas tentei com todas as minhas forças manter o celular firme na minha orelha, se eu tirasse dali, não saberia mais quanto tempo para reunir coragem eu precisaria.
–Estava esperando.
Sério, a voz de Jean, vinda tão repentina e profética assim quase me fez engasgar com a minha própria saliva de susto. E o pior que ouvi-la me fez sentir uma tonelada a mais de culpa sobre meus ombros, pelo visto tudo seria muito mais difícil do que imaginava. Não sei porque ele tinha que fazer essas coisas e destruir meu psicológico.
–Jean... oi... – eu comecei, depois de ter contado até quatro sem respirar e minha voz saiu absurdamente culpada e quase chorosa, logo assim de cara.
Como eu era fail, mon Dieu.
–Mesmo, eu estava esperando. Na verdade, era para você ter me ligado ontem, você sabe.
Ok, agora eu estava em pânico. Que papo era esse? Era minha imaginação ou a voz dele estava muito mais ríspida do que de costume? Era como se ele...
Já soubesse.
Bem, se eu sobrevivesse a esse telefonema talvez eu me surpreendesse comigo mesma, porque a situação estava periclitante. Eu sentia meu pescoço bombear o sangue numa pressão descontrolada e de novo eu estava trêmula e mal conseguia formular coisas para falar.
–Jean... – foi o que saiu, do jeito mais choroso possível – eu não queria... eu...
–Não tem desculpa. Por mais ocupada que estivesse, era seu dever ter me ligado ontem, já que eu liguei anteontem. Estou esperando uma explicação no mínimo aceitável.
–O quê..? – foi então que minha ficha caiu. Jean estava aborrecido porque eu não tinha ligado e não porque sabia que eu o havia traído!
Aquilo me embasbacou ainda mais, meu cérebro não era dos mais avançados para processar tanta informação ao mesmo tempo, adrenalina demais para alguém pacata como eu suportar.
–Estou esperando, já disse. Tenho tempo.
Tudo bem que contar tudo logo só iria piorar minha vida com ele, mas ficar nessa confusão de cada um estar falando num assunto sendo que eu estava a ponto de explodir não daria certo. Eu simplesmente não agüentava mais guardar aquilo, então que fosse o que Deus quiser...
–Jean... Jean, eu e o Damien... o Damien me beijou.
Fodeu. Fodeu. Fodeu. Fodeu.
Eu fechei os olhos esperando a linha ser desligada na minha cara, ou ouvir xingamentos xulos, ou ouvir um “o quê?” pasmo do Jean sempre tão seguro de si do outro lado. Mas ser surpreendida a essa altura da história não foi a coisa mais bem-vinda no momento.
–Louise, não seja tola. É lógico que eu sei disso – Jean falou, com certo tédio na voz e pude visualizá-lo revirando os olhos; só que essas duas coisas não encaixavam no contexto de jeito nenhum.
–Você sabe?? – eu perguntei com a voz esganiçada, precisando entender tudo aquilo como nunca na vida.
–Claro que eu sei. Até me admiro você pensar que Damien me esconderia alguma coisa, eu o conheço muito antes de você mesma.
–Mas... ele... contou? Quando? Jean, eu não estou te entendendo!
–Ele não contou... ele me pediu. Há tempos eu pude sacar que Damien tinha uma certa queda por você, todos já sacaram aliás. Então estávamos conversando e ele me disse que não conseguia te tirar da cabeça e você sabe, eu sempre dividi tudo com esse cara, desde sempre. Não iria me negar de dividir você também, se realmente fosse importante para ele. Você realmente ligou só para me contar isso?
Eu fui assimilando cada palavra de Jean como algo próximo a tiros. Nada ali fazia sentido, a reação dele, a frieza, a explicação mais absurda que eu já havia ouvido na vida, aquilo não poderia ser verdade, eu simplesmente me negaria acreditar que era. Na certa, Damien havia contado, Jean não aceitou e agora queria me torturar bancando o indiferente, ele sabia bem demais meus pontos fracos.
–Alô, Louise? – eu ouvi a voz dele distante, mas não conseguia me mover ou falar. Acho que eram o que chamavam de estado de choque.
–Louise, você está na linha?
–Isso é mentira...
–O que é mentira, Louise?
–Você quer se vingar de mim, né? Jean, eu te conheço... – e eu já estava soluçando novamente como uma criança sem controle. Era como se meu cérebro tivesse derretido e nada mais fizesse sentido, então eu não esperava formular frases com sentido.
–Por que você está chorando? Louise, eu não sou criança para querer me vingar. Até porque você não fez nada de errado, tirando não me ligar ontem, para que eu estivesse aborrecido.
–Eu beijei o Damien, Jean, porra! Beijei de verdade! – eu esbravejei, tentando fazê-lo acordar ou simplesmente demonstrar qualquer reação em relação a isso que não fosse a indiferença.
–Acalme-se, pare de chorar, eu sei disso. Um dia antes de Damien viajar para Londres eu já sabia. Louise, eu que permiti, Damien jamais teria feito nada escondido de mim, nós somos como irmãos! – então ele soltou uma risadinha no final da frase, como se fosse óbvio demais tudo isso.
–Permitiu...? – eu repeti a palavra que Jean havia empregado, como se eu fosse uma mercadoria barata a ser disponibilizada ou não, dependendo da situação.
Aquilo tinha de ser um engano, precisava ser. Jean não podia ter feito isso comigo. Ele não podia ter me negociado com Damien, como mais uma “coisa” ou “objeto” a ser divido entre os dois, por mais amizade que existisse ali. Eu tinha sentimentos, eu era uma pessoa, a namorada dele... Tudo que passei de sofrimento pós-beijo me culpando e chorando por ter errado com Jean e agora... ISSO?
–Duvido que não tenha gostado. Só não imaginei que questionasse minha confiança nele, nós três sempre fomos inseparáveis, não vi motivos para que só eu tivesse acesso a coisas que Damien também merece com você.
–Seu porco... – eu sibilei entre dentes e com as lágrimas escorrendo já sem esforço, sentindo apenas asco por Jean.
–Calma lá, Louise! Está tudo bem! – ele falou, demonstrando confusão pela minha reação – se você não gostou, não precisa ficar com ele, simples.
–Cala a boca, você é um filho da puta! Você não podia ter feito isso comigo!
–Basilien, qual é! Você está sendo sentimental demais!
–Que se foda, desgraçado... – e desliguei, me segurando com todas as minhas forças para não arremessar o aparelho na parede. Minha consciência e amor-próprio ordenavam terminantemente para que eu parasse de chorar e soluçar por um crápula feito Jean.
Nunca, em 23 anos, havia sido tão humilhada. Por alguém que eu confiava e me esforçava para ser a melhor, por alguém que eu amava e que pensava me amar tanto quanto... Pela porra do escroto que eu havia chorado e sofrido as últimas 12 horas me torturando por algo que ELE MESMO havia arquitetado.
Ele e meu melhor amigo.
Um pouco mais de um ano de namoro não parecia representar nada perto dessa atitude que ele havia tomado. Ele era estranho, diferente de qualquer cara que eu havia conhecido, mas uma coisa dessas não fazia sentido, era inacreditável demais saber que seu próprio namorado “permitia” outros caras tocarem em você... era como se sentir um lixo, sem valor nenhum. Sem sequer ser digna de alguém sentir ciúmes.
A essa altura eu só conseguia pensar no quanto precisava de Katty e das meninas imediatamente.
–Só não consigo entender como você contou tudo para um estranho antes da gente – Marine bufava de braços cruzados, ao meu lado, com as costas reclinadas na cabeceira da cama de Katty, no quarto do hotel.
–Marine, fique quieta – Katty falou num tom inquisitivo, enquanto acariciava meus cabelos delicadamente com os dedos.
Eu estava deitada em seu colo e abraçada no meu bichinho de pelúcia mais querido, Momo, me sentindo uma ameba humana. Meus olhos estavam inchados e extremamente vermelhos, mas ao menos o choro tinha cessado.
Graças a elas.
Katty e Marine, que estavam na casa de Danny pela primeira vez em reunião para decidirem sobre suas partes na composição da música, largaram tudo e voltaram para o hotel assim que eu liguei completamente histérica e mal conseguindo articular palavras como gente. O passo seguinte foi acordar Ana, que era a única que estava tendo regalias por ser a última a precisar gravar sua parte no estúdio. Então todas nos reunimos no quarto de Katty e eu contei tudo que havia acontecido nas últimas horas: beijo com Damien, vergonha de contar para elas, desabafo com Dougie, confeitaria e conversa com Jean. Lógico, tudo regado a muitas e muitas lágrimas.
–Eu nunca vi uma coisa dessas em toda a vida – Ana ia dizendo, pasma, deitada com a cabeça apoiada em minha barriga – isso é assinar atestado de corno manso, vocês perceberam?
–E logo o Jean e o Damien... talvez eles nem tenham noção do quão sério foi o que fizeram. Vocês sabem, os dois juntos parecem que diminuem a inteligência pela metade, nunca vi mais abobados – Katty continuava a me fazer cafuné, e eu mesmo não podendo ver sua expressão, podia saber que ela estava tensa, tentando descobrir os motivos daquilo tudo.
–Pode ter sido um tipo de brincadeira de mal-gosto, Lou. Mas por que você não nos contou no dia?? Não foi justo.
–Marine. Che-ga – dessa vez o tom de Katty intimidou até mesmo a mim.
–Aff, Katty, que coisa, parece a minha mãe – Marine retrucou – só que não dá para entender como Louise e o baixista mudo da noite para o dia viraram confidentes!
–Uma vez isso aconteceu comigo. Eu acordei do lado de um cara desconhecido, de ressaca, aparentemente nós havíamos transado bêbados e aí começamos a contar nossa vida, tipo assim, do nad...
–Ana, nós já sabemos dessa história – Marine pareceu revirar os olhos.
–Eu já contei?? – Ana ergueu a cabeça da minha barriga e encarou Marine e Katty, como que surpresa – nossa, nem lembrava.
Então eu ri de leve, tão de leve que nenhuma delas percebeu.
–Meninas, esse não é o foco... nós precisamos deixar a Louise bem, não vai ser cobrando coisas ou cortando umas as outras que vamos conseguir alguma coisa – Katty voltou a falar, agora afastando a franja da minha testa de um jeito gostoso.
–Eu gosto assim... – eu falei depois de muito tempo em silêncio só as ouvindo – vocês assim... Katty protetora, Rinema metida e Ana sem noção... vocês não sabem o que isso tudo significa para mim, obrigada meninas, eu amo vocês.
Elas meio que pararam tudo e me encararam, com aquela ternura meio desengonçada, porém sincera que sempre tivemos umas com as outras. Ana foi a mais rápida a falar:
–Sem noção é você, magrela sem queixo – e eu não fui rápida o suficiente para evitar a travesseira na cara que ela me deu.
Soltei um guincho fino em protesto, já agarrando o travesseiro e o arrancando das mãos impunes de Ana, o jogando nela de qualquer jeito e errando o alvo.
–Errou! – ela zombou.
–Ai, a bagunça vai começ... – Katty iniciou e ploft, foi atingida bem do lado do rosto por um travesseiro furioso jogado por Marine.
–Mãe, saia desse corpo que não te pertence – Marine urrou enquanto se jogava em cima de Katty, me obrigando a rolar para o lado e escapar da luta, já sem conseguir parar de rir e vislumbrando uma Ana armada com dois travesseiros, me olhando com uma expressão assassina.
–MARINE, O CABELO NÃO! – Katty berrou até fazer meus tímpanos doerem enquanto Marine bagunçava todo o penteado de Katty muito bem armado com o spray, mas foi só o que consegui ver até levar travesseiradas incessantes novamente.
Tentei jogar o Momo na direção de Ana, mas não obtive muito sucesso, ela sempre se possuía quando o quesito era tocar bateria ou guerra de travesseiros. Ninguém a superava.
Depois de muitos minutos de farra e de sufocamento por travesseiradas e risadas intermináveis, nós estávamos jogadas na cama, exaustas. Plumas sintéticas pairavam no ar ao redor de nós, e sobre os lençóis e tapetes se encontrávamos restos do que eram os travesseiros.
–Isso foi uma demonstração de amor coletiva – Katty arfou, ao meu lado na cama.
–Não, ainda não fizemos suruba, Katty – Ana corrigiu, fazendo Marine soltar uma gargalhada imediata e nós também, logo em seguida – Isso continua sendo uma guerra de travesseiros.
–Certo, certo – eu disse, dando um suspiro aliviado. Parecia que todo meu sofrimento e angustia tinham finalmente dado uma folga depois dessa sessão.
Lógico que estava magoada, mas novamente estava com o controle das coisas em minhas mãos. O que Jean e Damien haviam feito não ia passar batido, de jeito nenhum e enquanto eu tivesse as melhores pessoas do mundo ao meu lado, seria difícil me derrubar.
Afinal, eu sabia que nunca estava sozinha.
–Mas então, babado todo à parte, como foi com os meninos hoje? – Ana se virou e direcionou a pergunta para Katty, que olhou para Marine e simplesmente sorriu.
–Nada, só fomos comunicadas que na segunda-feira vamos ter um almoço com o manager deles, eles e Maxime. Parece que o empresário deles achou que o produtor estava metendo demais o dedo nessa história e que as coisas estão todas muito soltas... Então teremos que fazer uma reunião formal para discutir sobre o contrato e tudo mais... parece que o single vai ter um cover também, mas nem sei se nós estaremos incluídas...
–E teremos que tocar uma faixa deles em shows também, porque gravarão e estará no cd como bônus – Marine acrescentou.
–Isso. De resto ficamos combinando algumas coisas, Danny nos mostrou o mini-estúdio que para mim é um mega estúdio e parece que as coisas só vão andar realmente depois dessa reunião na segunda.
–Vocês pegaram a letra? – eu perguntei, mordendo o lábio, lembrando que havia esquecido de comentar sobre isso com Dougie mais cedo.
–Não, nem entramos em detalhes... outra coisa, nossa reserva aqui no Sofitel acaba amanhã. Nós ficaremos em um apartamento durante as gravações, até porque é rasgar dinheiro eles nos manterem por aqui tanto tempo. Mas o lugar é um pouco mais afastado... e Norman continuará disponível para nós sempre que quisermos – Katty continuava explicando.
–Ah não – Ana fez cara de choro e amontoou o pano do travesseiro murcho entre os braços – não quero deixar esse hotel, nunca tive tanto luxo na vida.
–Não seja fresca – Katty riu – depois desse dueto, acho que dinheiro é o que não vai nos faltar...
Então eu lembrei da parte tensa da conversa com Dougie mais cedo e por algum motivo aquilo me fez ter um mal-pressentimento. O mesmo mal-pressentimento que havia tido no avião... e duas vezes seguidas, isso não era normal, não comigo. Só que dessa vez eu preferi guardar para mim, ri com as meninas, mas logo fiquei pensativa.
Mas o que realmente me incomodou foi a vontade enorme de falar com Dougie sobre isso que eu senti. Esse garoto estava ficando presente demais na minha vida em tão pouco tempo, mais do que seria saudável para mim no momento. E eu ia acabar com isso de uma vez por todas.




CONTINUA



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