A.K.A. Groupie
Autora: Annie Archer
Status: Em Andamento.
Revisada por: Rooxy.
Categoria: Hot Fic
Sub-Categoria: Romance, Comédia - Long Fic
Comentários:
Prologue
Just Another Girl That Wants to Rule the World at Any Time or Place
Eu não sei. Esta é a oração mais adequada para definir tudo o que eu penso sobre o meu estilo de vida. Eu ocupo minha vida com outras coisas além disso, não se vive só disso, claro (ok, talvez essa parte seja meio mentirosa), mas eu simplesmente não sei. Eu não sei por que sou assim, não sei como vim a ser assim, eu não pedi para ser esse tipo de garota. Não era meu sonho de infância, porque meu sonho de infância era ser como a Barbie, pelo menos até uns nove anos de idade. E veja só, de Barbie eu não tenho muito, a não ser algumas roupas sofisticadas guardadas em meu armário. Eu não ansiei por ser a garota que sou quando me tornei uma pré-adolescente (mas no meio da minha adolescência eu já estava no meio disso tudo), nem em nenhum momento da minha vida, nunquinha.
Okay, talvez haja algumas coisas que eu saiba: sei que sou assim; sei que cheguei a esse ponto - embora não saiba como, mas isso eu já disse -; sei que isso me causa a maior adrenalina do mundo; sei que me dáprazer; sei que faz com que eu me sinta viva e sei também que gosto, se não gostasse, não faria.
No entanto, eu tampouco sei quando vou parar, não sei o que vai me levar a parar. Tenho todos os requisitos físicos e persuasivos necessários para continuar. Não me pergunte como, mas eu consigo, sempre consigo. Tudo se resume, da forma mais simplificada, nessa ordem, interprete como quiser: ter contatos; conhecer pessoas novas sempre; ser boa de papo; ter um pouco de astúcia; saber seduzir; ter a sorte ao seu lado, estralar os dedos e voilà. E o resto, só para fixar isso na sua cabeça, serei redundante: não me pergunte sobre o resto, não me peça curiosamente por mais detalhes que venham antes do alvo. O que vem depois do alvo talvez eu possa te contar.
Tá, ta, tudo bem. Talvez eu deixe você saber coisas que vêm antes do ‘alvo’, vai!
E bem, você querendo saber, ou não, me lembrei que também sei de mais uma última coisa, e desta eu tenho certeza: eu não anseio nem um pouquinho por mudar ou parar. Você sabe e, se não sabia, agora vai saber que comigo as coisas funcionam sob o lema “I Just can’t get enough”.
First
How Typically me!
Uau, que lençol gostoso. E o colchão era muito bom também. Meu colchão não era gostoso assim, era? Devia ser, mas eu não sei, era diferente... Parecia até cama de hotel! Eu podia ficar o dia inteiro enrolada naquele lençol, cheirava a lavanderia. Uma mistura de sabão em pó com amaciante, sabe? Era tão bom. Será que a Carmelita havia lavado e trocado minha roupa de cama? Ai, caramba, será que ela colocara os lençóis de algodão egípcio? Eu sempre dizia a Carmelita para não usar os de algodão egípcio tão freqüentemente, porcaria. Ainda tinha minhas dúvidas quanto a Carmelita, minha empregada, me entender completamente. Na verdade, não sabia se era mais difícil ela me entender ou eu entendê-la, com todo aquele sotaque de gente que nascera falando espanhol e, embora tentasse, não sabia falar inglês direito. Ela parecia o Fez, do That’s 70 show, falando, sabe? Está bem, admito, era um pouco pior.
É, agora tinha certeza de que ela trocara os lençóis, eles não eram brancos na noite passada.
Não era possível, alguém devia ter descido o cacete na minha cabeça com um taco de baseball ou algo tão duro como. Estava sentindo meu coração nos ouvidos, minha cabeça estava prestes a explodir a qualquer momento, minha boca parecia o deserto do Saara e tinha um gosto horrível. Eu não sei no de vocês, mas no meu maravilhoso mundo de gente porra louca isso só tinha um nome: ressaca. Uma garota experiente no assunto como eu devia ter acertado de primeira, sabendo que aquilo era inconfundivelmente causado por excesso de bebida alcoólica e não acidentes com tacos de baseball. Uma garota experiente no assunto como eu nem deveria estar de ressaca, pra ser franca.
Virei-me para o outro lado na cama e quase levei um susto ao me deparar com a figura de um homem deitado de qualquer jeito ao meu lado. Como assim tinha um cara na minha cama? Quero dizer, o problema não era ter um cara deitado na minha cama, porque eu já estava acostumada a acordar com pessoas ao meu lado, o problema era que para minha cama eu não levava quase ninguém e dessa vez eu não me lembrava com quem dormira. Não que isso acontecesse freqüentemente, mesmo bêbada, eu costumava me lembrar com quem me deitava, porque na maioria das vezes eram caras notórios com desempenhos sexuais notórios. Okay, talvez nem todos. Mas é que às vezes... Bom, às vezes, você sabe do que o José e mais algumas doses de Absolut são capazes.
Droga de meio-escuro, droga de visão turva e remelenta. Quem era o cara deitado de bruços e com o cabelo em pé? Se ele ao menos não estivesse com a cara quase totalmente enfiada no travesseiro, eu poderia saber.
Talvez fosse melhor tentar me lembrar de onde e com quem havia estado na noite passada em ordem cronológica, isso se as infindáveis pauladas na minha cabeça permitissem que meu cérebro executasse alguma sinapse e se este não tivesse apagado tudo.
Muito bem, vamos lá, , tente enxergar os fatos na sua mente malditamente confusa. estava com você, para variar, e vocês foram a um show, para variar, e depois rolou uma extensão na after party, para variar mais ainda. Aí, para variar mais um pouquinho só, vocês beberam para caramba.
Ahá! Tudo parecia um pouco mais claro agora. E, observando melhor, aquele não era o meu quarto. Era um quarto de hotel (bem que eu estranhei a textura da cama familiar! Isso ficou confuso? Eu sei que sim, mas eu mesma entendo, então vale). Uma cena clichê na minha vida que eu, novamente, devia ter adivinhado na primeira tentativa.
Se meus neurônios não houvessem sido afetados pelo álcool mais gravemente do que o normal na noite anterior, o show que eu assistira fora do Kaiser Chiefs e o cara ao meu lado era Nick Hodgson.
Claro que era Nick, aquela magrelice e aqueles cabelos escuríssimos contrastando com uma pele super pálida eram inconfundíveis para mim até no meio de mil caras com cabelos iguais. Tudo bem, talvez não fosse assim. Se o colocassem no meio dos Beatles, quando estes ainda eram jovens, todos de costas, eu não saberia diferenciar. Porém, eu não o reconhecera imediatamente porque seus cabelos, sempre impecavelmente lisos e sem um fio fora do lugar, estavam mais bagunçados do que como minha visão costumava os visualizar. E talvez, também, por causa da minha ressaca.
Mentira, minha ressaca não tinha NADA a ver com isso. Mas, de qualquer maneira, como eu provavelmente tinha ajudado o cabelo dele a ficar bagunçado daquele jeito, eu tinha que saber, não é?
Os bateristas não eram lá meus favoritos, confesso. Eles estão sempre escondidinhos lá atrás e, por mais que se movam, a gente presta mais atenção mesmo nos caras da frente. É como quando você encontra uma pessoa pela primeira vez. A primeira coisa que você olha e na qual repara, quando está inconscientemente formando seu conceito sobre ela, é o rosto. Este representa os vocalistas e seus derivados. Depois você começa a reparar no resto do corpo dela e tira suas conclusões finais - e estes são os bateristas e qualquer outro tipo de pessoa coadjuvante que possa existir em uma banda. É só prestar mais atenção no número de Marias-Palheta e Marias-Baqueta que você encontra por aí.
É claro que há muito mais adoradoras de caras que usam as palhetas do que dos que usam baquetas e isso é algo que eu vejo como contraditório. Acompanhe meu raciocínio: palhetas são pequenas e triangulares e baquetas são compridas e, dependendo da baqueta... Ah, você sabe, não preciso explicar esse tipo de coisa. As pessoas costumam fazer assimilações assim, sabe?
A palavra ‘guitarrista’ é uma das mais poderosas do mundo entre as adolescentes teenies e groupies, você deve saber disso. Basta dizer ‘guitarrista’ e logo a imagem que se forma é como de um tipo de deus. Soa como ‘compras’ e ‘dinheiro’ nos ouvidos de Victoria Beckham. E se o cara vem com o adicional de ter uma voz complementando seus habilidosos dedos que o auxiliam a tocar um instrumento que é razão da criação da palheta, coisa que chamamos de guitarra, aí soa tão tentadoramente bem como ‘cocaína’ nos ouvidos de Amy Winehouse.
Conseqüentemente, como a maioria das garotas, eu desenvolvia paixão instantânea pelos vocalistas, pelos guitarristas, pelos vocalistas-guitarristas e, algumas vezes, pelos baixistas. E outras, por todos eles de uma vez. Sim. Isso não é estranho e eu não sou uma pervertida.
Okay, talvez eu seja um pouco tarada sim.
Ah, , seja honesta, não há problema. Admito, sou bem pervertida, sim. Uma taradona! E que se dane o que você vai achar porque eu tenho mais com o que me preocupar. Pervertido todo mundo é lá no fundo e não quer admitir, se quer saber o bem da verdade. Olha, uma coisa aqui é certa: eu adoro sexo. Eu amo sexo e tudo que tenha a ver, na real. E quem não ama?
Não precisam se preocupar, não dirjo nenhum site de pornografia nem faço poses de perna aberta para o mundo inteiro, na internet.
E voltando um pouquinho, não, não tenho nada contra baixos, eu os adoro, na verdade. São tão graves e sensuais. Mas meu ponto fraco se encontra mesmo nas vozes e nas guitarras porque, se você ainda não descobriu, um dia ainda vai descobrir que bons solos de guitarra e boas vozes cantando uma melodia igualmente boa fazem tão bem para a alma quanto um orgasmo intenso. Contudo, se o baixista tiver uma influente participação vocal, ele automaticamente ganha muitos pontos, como Mark Hoppus!
Falando em Mark, eu perdera a chance de testar sua fidelidade. Estava com laringite no dia e mal agüentava ficar em pé, quanto mais falar. Eu não conseguia nem tentar falar, imagine disfarçar minha disfonia persistente.
Voltando ao Nick, não se pergunte o que eu estava fazendo com tal. Ele era um baterista diferente, se você quer mesmo saber. Ele dizia a que vinha. Eu quero dizer, quantos bateristas você conhece que são os principais compositores de uma banda, tocam muito bem, fazem backing vocal, sempre estão em destaque por onde passam, costumam representar a banda nas entrevistas e ainda são sexy? Eu aposto que não são muitos.
Ai, quer saber? Se o cara me atrai e faz parte de uma banda que eu gosto, já é muito válido, manda para mim que eu avalio. Hahaha, tudo bem, estou ciente de que isso não foi tão engraçado.
Mistério de bêbada desvendado, eu precisava me levantar imediatamente da cama, porque havia um supermassive black hole no meu estômago (eu sei, eu sei, não foi bom o trocadilho, também. Juro que vou tentar parar com as piadinhas infames) e o sexto sentido faminto do meu sistema digestivo clamava desesperadamente pelas famosas iguarias da Starbucks. Cafeína e ressaca, uma combinação harmoniosa. Talvez fosse melhor tomar algo com base de creme.
Senti meus pés tocarem um dos tapetes que cobriam o brilhante assoalho daquele quarto e tive a impressão de ter uma pedra no lugar da cabeça, quase me fazendo tombá-la contra o travesseiro novamente. Quando fiquei de pé, minha visão ficou ainda mais embaçada e eu me apoiei na cama para não cair. Era impressão minha ou agora eu tinha a incrível capacidade de sentir a Terra girando em torno de seu próprio eixo?
Tudo ao meu redor rodava vagarosamente enquanto eu estava trancada no banheiro, envolta pelo vapor da água quente que dava a impressão de cair em forma de algum tipo de alívio sobre meu corpo. Eu bem que podia usar a banheira enorme que havia ali, já que ela era tão convidativa, mas eu não queria demorar tanto para ir embora. Sequei-me o mais rápido que pude e tirei o excesso de água do meu cabelo com a toalha branca e macia que indicava não estar usada. O secador faria barulho, eu não queria acordar Nick e havia um monte de toalhas felpudas, tanto de rosto como de corpo. Você sabe, mimos para gente famosa.
Limpei meus dentes com o auxílio de um dos meus indicadores coberto por essas pastas grátis de hotel que sempre têm um gosto horrível e saí do banheiro. Eu juro que procurei a escova de dente também grátis que sempre vem inclusa no pacote junto com as pantufas e a touca de banho, óbvio, mas não encontrei nenhumazinha. Nick comia escovas de dente?
Recolhi minhas roupas pelo quarto e as vesti o mais silenciosamente possível para não acordar o kaiser do Kaiser Chiefs que, incrivelmente, ainda permanecia adormecido. Não moveu um dedo! Coitadinho, devia ter bebido mais do que eu. E, ah,aprenda comigo: nada é melhor do que você ter o que quer e depois sair de fininho, deixando a outra pessoa na maior dúvida do planeta sobre o que aconteceu com você.
Peguei minha bolsa de pano que estava jogada em um canto aleatório do quarto, perto da mesa de cabeceira do lado de Nick (não me lembro como ela foi parar ali), abri o frigobar abaixo da TV de plasma e retirei dali uma garrafa de água. Beber água quando fazia pelo menos dez horas que uma coisa mastigável havia descido pela sua faringe não era uma boa idéia, mas minha necessidade de repor os meus líquidos corporais era maior.
Saí do quarto sem deixar bilhete e muito menos dinheiro para pagar o pouco que havia usufruído dali. Qual é, já viu alguma garota como eu pagar alguma coisa quando a parte boa termina?No way José.
A dor infernal em minha cabeça e minha tontura, que haviam melhorado um pouco após meu rápido banho, voltaram a me assolar assim que a claridade do saguão do hotel que, se não me engano, já havia “visitado” antes, invadiu meus olhos. É possível alguém morrer de dor de cabeça? Porque eu realmente achei que isso fosse acontecer comigo naquele momento. Ter uma morte súbita causada por dor de cabeça quando nem enxaqueca eu tinha seria fenomenal, talvez ganhasse até dinheiro depois de morta. É, certo, talvez não.
Por mais incrível que pareça, eu facilmente encontrei a cartela com minhas adoráveis aspirinas no meio da bagunça da minha bolsa e deixei que duas delas seguissem seu caminho goela abaixo junto com a água. Remédio em dose dupla e água de estômago vazio. Ma-ra-vi-lha.
Aquela região de Londres era conhecida por mim e enquanto eu caminhava até a estação de metrô mais próxima retirei um cigarro do meu maço de Lucky Strike juntamente com um dos meus isqueiros, um vermelho, coloquei o filtro entre meus lábios e acendi a ponta, sentindo a fumaça amarga percorrer o caminho até meus pulmões, me causando uma sensação de bem-estar prazerosa.
O primeiro cigarro do dia é sempre primoroso.
- Wow! Se te visse nua, eu ia morrer feliz, gata! – ouvi uma voz adolescente e masculina dizer e passei a caminhar mais devagar. Soltei a fumaça que havia tragado no ar e virei minha cabeça para olhá-lo. Vi alguns chavs com seus casacos Adidas, seus bonés de aba reta e seus blings exagerados dentro de um conversível parado no farol, olhando para mim. O garoto que provavelmente havia me cantado era o que dirigia e era até que bonitinho, mas uma criança.
Não sei por que esses caras que ainda nem atingiram a puberdade cismam tanto comigo, falo sério. Nem ao menos sabia como os deixavam dirigir carro caros como aquele. Ele piscou para mim de um jeito muito imbecil, mandou um beijinho no ar e logo arrancou com o veículo, cantando pneu e se achando o novo rei da Inglaterra.
Aplausos para mim. Eu provavelmente estava uma cagada-da-manhã-seguinte, não tinha nem passado das seis da tarde e já estavam me cantando. Não é para qualquer uma.
Juro que se ganhasse dinheiro por cada cantada que levo, eu seria mais rica do que já sou.
Voltei a caminhar na mesma velocidade de antes, rindo horrores, e sozinha, dos chavs, entre uma tragada e outra. Se eles ao menos soubessem que meu interesse estava nos rockstars e eu preferia The Strokes a Ja Rule... Mas eu gostava do Kanye West! Tá, gostava da Beyoncé também. Ora, eu gostava de algumas dessas músicas de chavs e ponto.
Saindo do metrô, caminhei até a Starbucks que ficava na rua de trás da minha casa e me dirigi ao balcão para fazer meu pedido, mas não precisei nem abrir a boca: Adam estava lá, cumprindo seu turno.
Adam, um dos atendentes dali, era um amor. Ele devia ter uns dezoito anos, era bem bonitinho e o melhor de tudo era que ele me adorava. Bastou que eu o olhasse para que dissesse:
- É pra já! Vai levar pra casa? - assenti. Estava louca para sentar na frente da TV e assistir a um seriado qualquer me empanturrando daquelas maravilhas starbuckianas. - Com base de creme hoje, tá?
- Foi o que supus. - sorriu.
Ele sempre tinha meu pedido anotado em sua cabeça e não importava se estava no caixa, ele fazia questão de sair dali e preparar o que eu pedia.
Algum tempo depois, Adam, que sempre levava broncas por se distrair e ser mais atencioso comigo do que com os outros clientes (ele até levava meu pedido na mesa às vezes!), me entregou um copo venti de frappuccino de caramelo e uma sacola parda com dois muffins, ambos timbrados.
- Você é o máximo. – eu disse e pisquei em agradecimento. Ele sorriu.
- Não tenho culpa se você é a minha musa – ele piscou de volta.- Quem você foi ver ontem? - perguntou. Ele também costumava saber quando eu estava voltando de alguma noitada que incluía festas e shows, a cara de acabada sensual (ai, que cafona) que eu carregava depois disso sempre me denunciava. E aquilo também era quase rotina, então não era muito difícil adivinhar.
A única coisa que Adam não sabia era que eu dormia com alguns dos caras pagos para estarem no palco e entreterem o público.
- Kaiser Chiefs, babe. - respondi.
- Oh my god, I can't believe it, Ruby, Ruby, Ruby! – ele cantarolou, brincalhão, misturando duas músicas dos caras e eu ri em réplica.
- Te conto depois, preciso ir para casa – falei e me estiquei sobre o balcão para beijar sua bochecha antes que eu saísse dali sob um último olhar admirado dele acompanhando meus movimentos.
Quando estava girando as chaves na minha porta vermelha, senti meu celular vibrar e ouvi o toque reconhecido por mim como o de mensagem de texto soar. Larguei a sacola com a comida na cozinha e me dirigi até a sala. Caí sentada no meu divã com minha bolsa ainda no ombro e meu Frappuccino, que agora estava na metade, na mão. Com a mão desocupada tirei-a do ombro e busquei meu celular ali dentro.
Então foi o Nick? Pensei que você gostasse do Ricky!
Era o que dizia a mensagem de texto que , minha melhor amiga, havia me mandado. Ricky e seu pandeirinho eram legais, mas entre um pandeiro e duas baquetas, eu fico com as duas baquetas. Sabe como é.
A tela do meu iPhone me mostrou que era uma da tarde e eu percebi que antes disso nem havia me preocupado em saber as horas. Estava mais a fim de me preocupar em ligar a televisão com o controle remoto que repousava em cima do estofado e foi o que fiz, ao mesmo tempo em que encostava minhas costas na parte feita para isso. Ainda me restavam muitas horas para me recompor para o show daquela noite, ao qual iria junto com , como de costume.
Eu amava a minha vida!
Second
It Was Not Only a Kiss!
-... Don't put words up in my mouth, I didn’t steal your boyfriend! – eu cantava alto, junto com Ashlee Simpson, enquanto passava uma camada de rímel nos meus próprios cílios antes de aplicar os postiços.
Não, Ashlee Simpson não estava ao meu lado, sua voz só estava fugindo do meu potente iSpeaker. E cantar enquanto se passa rímel é a única maneira de fazer isso sem permanecer com a boca aberta para mosca entrar como todas as mulheres que eu conheço fazem. Particularmente, creio que isso seja um dos maiores mistérios da humanidade; nem mesmo as próprias mulheres entendem por que têm de ficar de boca aberta enquanto aplicam rímel em si mesmas.
Logo depois que respondi a mensagem de naquele domingo, joguei minha bolsa no chão, tirei meus sapatos (se não mencionei antes, eram saltos realmente altos e meus pés estavam doendo horrores, não sei como não caíram em pedacinhos quando me descalcei, estavam praticamente moídos), deitei-me no divã (não o psicológico, acho que vocês já notaram) confortavelmente maravilhoso e desmaiei ali mesmo. Tive um sonho meio assustador no qual eu estava em um jardim, correndo desesperadamente atrás de um garotinho com os cabelos curtinhos, extremamente lisos e castanho-claros que fugia de mim e chorava copiosamente, mas eu nunca o alcançava. Acordei meio assustada e ligeiramente suada, confesso que até babei. Tinha sido um sonho meio agonizante, eu não costumava assistir a essas cenas na minha cabeça quando estava conscientemente inconsciente.
Ao me sentar, esfreguei meus olhos, que insistiam em querer permanecer grudados, passei os dedos entre meus cabelos ligeiramente embaraçados e percebi que já havia anoitecido, pois a luz que entrava da janela frontal pela fresta entre as cortinas havia ido embora. Eu havia adormecido em cima do meu celular e este acabou marcando uma das minhas coxas. Hype, tatuagem de iPhone na perna! Tudo bem, sei que não é hype. Apertei o único botão frontal daquela belezinha tecnológica e senti que ficaria cega com a luz que se acendeu na tela. A Apple tinha que começar a atenuar a intensidade da luz de suas bugigangas antes que a vista de alguém acabasse prejudicada e eles fossem processados, sério. A intensidade daquelas luzes malditas era absurda. E se você a alterava nas configurações, não enxergava bosta nenhuma no visor, era oito ou oitenta.
Quando chequei as horas, percebi que chegaria para me buscar e eu ainda estaria tentando escolher uma roupa adequada se não fosse para o banho naquele minuto. Eu precisava de outro banho, sempre me sinto terrivelmente nojenta depois de acordar, ainda mais quando acordo babada e suada.
Falando nisso, nunca mais acordei vomitada em algum antro desconhecido, ainda bem! Certo, em antros desconhecidos ainda acordo, às vezes, mas vomitada já faz muito tempo que não. Isso quer dizer que meu estômago e meu fígado já estabeleceram uma relação romântica e harmoniosa com o álcool, não?
Voltando ao assunto “ viria me buscar”, a preguiça era grande e pesava nas minhas costas e cabeça quando pensava em me arrumar, mas ainda assim a vontade que eu tinha me jogar na noite era maior.
Tudo que sabia era que eu e iríamos a algum show. Rá, rá, rá, cadê a novidade do dia? Quando eu não estou em um show, estou em uma festa ou casa noturna, quando não estou em uma casa noturna ou festa, estou em um show, acho que já deu pra sacar. E vocês ainda nem ‘presenciaram’ uma prova válida disso. A graça de tudo estava no fato de que não havia me dito a qual show compareceríamos, ela simplesmente conseguiu nossos lugares e disse que, em vez de irmos de táxi ou metrô e nos encontrarmos no local, viria me buscar.
é cheia dessas gracinhas quando quer, adora vir pra cima de mim com surpresinhas e novidades que nem sempre me empolgam. Mas ela é minha melhor amiga, afinal, então eu sigo a tendência dela, muitas vezes reclamando, mas eu faço de tudo para acompanhá-la sem perder a mim mesma. Eu me importo com ela, de verdade, eu me importo. Não há nada no mundo que me pareça mais doloroso do que magoar seriamente. é o amor!
Eu podia ter começado a supor um monte de shows, já que eu sempre sabia mais ou menos quais ocorreriam na cidade, mas eu preferi desviar a minha mente disso e entrar no clima excitante que qualquer expectativa, seja boa ou má, cria ao redor de qualquer ser humano, durante a semana. Não, não, pelo amor, eu dormi muito bem e minhas unhas continuaram intactas, bem feitas e vermelho maçã do amor, no caso de você estar se perguntando se me descabelei por isso, obrigada. Não sou ansiosa a esse ponto e sou muito agradecida por tal coisa. Let it go, just let it go...
Dificilmente perco o sono por causa de algo. Certamente, depois de muito exercício e de ficar pilhada por muito tempo, o que eu mais quero é me amarrar com meu sono em qualquer lugar, de preferência na minha cama, claro. Ou em alguma cama de hotel. Ou na cama de alguém interessante. Se bem que, quando o sono me algema, não há outro homem capaz de me prender no mundo, rá, rá.
Ah, e se você está imaginando qual a porra da diferença entre sair de carro, táxi ou metrô quando os três têm o mesmo propósito, eu te esclareço: todos os propósitos que você tem em mente para uma noite podem ser rapidamente substituídos por outros e até mesmo sumirem sem que você nem ao menos se dê conta. Sem mencionar que sua alma pode sair para dar uma voltinha ou também ser substituída no embalo da brincadeira. Nunca se sabe qual será seu estado mental e com quem você estará quando tudo estiver chegando ao fim. Muito menos onde você estará, por isso, é sempre bom poupar o peso insignificante das chaves do seu próprio automóvel colocando uma quantidade significante de libras esterlinas em seu lugar, justamente para que você possa pagar alguém para te deixar segura e na porta casa a qualquer hora, no caso, o taxista.
Entretanto, dependendo das condições, a lábia convincente de garota sedutoramente indefesa mais o bom uso da linguagem corporal podem acabar te dando essa regalia de brinde se alguma coisa der errada no meio do percurso, como esquecer a bolsa ao sair apressada de algum lugar ou dormir rica e acordar pobre na casa de algum desconhecido cheia de gente estranha e fedendo a álcool e erva, sem ao menos saber como você foi parar lá. Se você chegar ao final sem ser inteiramente molestada, lucky you!
Depois que terminei de me maquiar, saí do banheiro direto para o meu quarto e parei em frente à minha cama redonda, observando as duas combinações de roupa que havia escolhido, em dúvida, pausando meu olhar em uma de cada vez para analisar e decidir qual iria usar. Acabei decidindo pela combinação que estava do lado esquerdo, já que minha visão parecia estar simpatizando mais com ela.
Se você por um acaso já parou para se perguntar qual era minha ocupação na vida quando não estava me divertindo em Londres, quicando de lugar em lugar, eu respondo: nas horas vagas eu me divertia ao redor do país e do mundo! Imprevisivelmente e impulsivamente, fosse sozinha ou muito bem acompanhada. Isso sempre me abriu muitas fronteiras para experiências diversas e foi uma ótima ajuda para conhecer pessoas novas e muitas vezes absurdamente diferentes umas das outras, do mendigo banguela e bêbado da esquina a qualquer um dos caras mais ricos e incríveis de qualquer cidade.
Simplesmente me dava na telha e eu partia para qualquer lugar que me apetecesse, fosse de carro, avião, ou navio. Nunca duvidei que a qualquer hora eu pudesse até criar asas próprias, tocáveis, e chegar aos meus destinos voando por minha conta. Claro que eu também aquietava o rabo em casa de vez em quando.
Se você considerar comer, dormir, ver televisão com a companhia das minhas amigas ou não e outras ações ociosas do tipo como fazer nada, então, eu ficava sem fazer nada por alguns dias, afinal, não sou nenhum tipo de humana super desenvolvida. Às vezes eu ia até na academia!
Eu não tinha do que reclamar, a não ser das vezes em que batia o dedinho do pé em algum objeto impenetrável, perdia a lucidez por alguns segundos e xingava tudo que se encaixava no grupo de coisas possivelmente xingáveis nesse mundo. Sempre tive tudo que queria, com exceção de algumas irrelevâncias que não consigo me recordar porque, ora, são irrelevantes! Se eu não conseguisse da primeira vez, sempre criava mais uma chance para tentar. Desde minha tenra infância foi assim. Tive todas as festas de aniversário, todos os presentes que pedi aos meus pais, fui a todos os shows que quis ir, tive todos os amigos que quis ter um dia (alguns que jamais imaginei que teria), todos os garotos que quis ter (se algum deles não me quisesse, eu o fazia querer, acredite. Ainda é assim.), tudo, tudo, tudo! E sabe, por muito tempo não enxerguei isso como um exagero. Isso era felicidade para mim e, na minha cabeça, felicidade sempre foi o tipo de exagero que não faz mal a ninguém.
Era livre para fazer o que quisesse, não havia nada me prendendo a lugar algum e eu sempre gostei da sensação que isso me trazia. Casar, ter uma família perfeita e cozinhar tortas de maçã cheirosas para a sobremesa nunca me causou nenhum tipo de sensação além de pavor. Eu não consigo evitar fazer caretas a cada rara vez que isso me ocorre. Claro que eu consigo manter relacionamentos relativamente duradouros com um cara, é até gostoso de vez em quando. No entanto, essa história de subir em altar e fazer votos de amor e fidelidade já não me convencia mais quando cheguei à puberdade e comecei a ver que ‘casamento’ significava muito mais do que juntar todas as suas panelinhas com a sua cozinhazinha portátil, todos os seus mil bebês (que tinham um ‘chorador’ embutido) e brincar de casinha com a vizinha, tendo um marido imaginário, ou simular beijinhos entre a Barbie e o Ken, fazê-los serem perfeitos um para o outro e viverem felizes para sempre promovendo churrascos de fim de semana no seu bangalô de praia com piscina ou viajando pelo país da vida amável em seu trailer que emitia sons (eles eram inovadores na época, eu me lembro!) de tudo que fosse possível.
Essa baboseira toda, então, virou pesadelo quando meus pais entraram em um longo processo de separação. Eu tinha uns dezesseis anos e foi um inferno até que eles estivessem totalmente divorciados. Isso teve início quando meu pai simplesmente resolveu fugir com uma mulher chamada Judy sem maiores delongas além do bilhete que dizia que ele já não amava sua esposa mais da mesma maneira. Mamãe ficou desnorteadinha da vida, coitada, ela passou a não fazer nada direito, só chorava o dia inteiro, ia à terapia e tomava os seus remédios para dormir, acabou até desenvolvendo dependência a eles por um certo tempo. Arrasada não parecia o suficiente para descrever sua situação quando uma mulher cheia de vida, que ultrapassava os limites da adoração pelo Universo da Emperequetação Feminina como ela, apagou até o mágico elemento originário deste, chamado rímel, de seu rosto e passou a usar somente roupas largas e molengas da esportivas.
Ela até fez uma tentativa de reatar com papai e botá-lo de volta em nossa casa quando este resolveu aparecer um mês depois para resolver toda a burocracia e tempo que exige um divórcio. Acho que ela não queria acreditar que ele estava se divorciando dela para casar com a Vaca Judy, que era como ela chamava a destruidora de lares às vezes, quando tinha uns surtos súbitos nos quais xingava meu pai e esta, sua nova companheira de cama e lar. Ela mal falava com suas amigas peruonas, não tinha coragem de aparecer na frente delas destruída como sabia que estava, enquanto as peles destas permaneciam mais impecáveis que de bebê e seus casamentos mais perfeitos do que nunca. Isso era o que ela achava, coitadinha.
Embora eu fugisse às vezes, sofria junto com mamãe. De certa forma até entendia o lado de papai, porque mesmo que tivesse dezesseis anos sabia que minha tendência, na maior parte do tempo, era não ser de um cara só, monogâmica. Ainda assim, não era certo que ele estragasse a vida de mamãe e a desiludisse como fez, ele poderia ter sido mais sutil, por assim dizer.
Tudo isso me levou a uma só conclusão: para que perder tempo trocando votos de amor com uma pessoa, se tudo fosse virar uma meleca no final e todas as palavras intensas e verdadeiras no momento se tornariam hipócritas no futuro? Eu prefiro as outras alternativas que a vida oferece.
Com o tempo ela foi melhorando e as coisas foram se ajustando da maneira que foi possível. Já faz uns cinco anos que meus progenitores já não são mais marido e mulher, mas mamãe nunca mais se casou novamente, e se ocupou seu tempo com dois namorados já considero muito.
Como ainda me restava um ano como menor na época e eu continuei vivendo na casa da mamãe, papai tinha que pagar pensão, claro. E não era uma quantia nada mísera - talvez fosse até mais do que o necessário - já que nós éramos uma das famílias mais endinheiradas de Sheffield, minha cidade natal, e a Vaca Judy era o dobro de rica.
Acontece que, mesmo depois que atingi a maioridade, papai não interrompeu o pagamento da minha “mesada”. Acho que deu para sacar quem é o dono do pote de ouro que é despejado em minha conta corrente todo mês até hoje, mesmo que eu tenha vinte e dois. Papai é meu FMI, meu Fundo Monetário Interminável. Não tenho muita certeza se é interminável, já que um dia ele vai bater as botas e sabe-se lá quais serão minhas heranças de filha única, mas esses cinco anos sendo sustentada por ele e morando numa casa que é propriedade sua me foram bem confortáveis, eu não reclamaria se ele estendesse o prazo até o fim de sua vida. Até lá eu espero ter tempo suficiente para pensar claramente no que vou fazer com o que resta da minha própria.
Sabe, papai é muito legal comigo. Não surpreendentemente, qualquer outro tipo de pai já teria mandado sua filha pastar há muito, mas o meu não. Ele mal sabia do que eu fazia ou deixava de fazer, embora telefonasse ocasionalmente. Inclusive não sabia que eu mandava parte do meu dinheiro à minha mãe, fazendo-a acreditar que este não vinha dele. Ela não o aceitaria de jeito nenhum se tivesse conhecimento disso e eu sabia que ela precisava, já que não trabalhava entre outras coisas.
Não me importo se papai liga ou não desde que o dinheiro esteja na minha conta quando é para estar. Sei que isso soa como um estilo diferente de golpe do baú, mas não serei hipócrita dizendo que não gosto. Apesar de toda essa questão do dinheiro e mesmo que eu não veja meu pai tanto quanto antes - assim como não visitava minha mãe com a freqüência de uma filha decente e prestativa – eu o amo muito. Tivemos momentos ótimos, principalmente na infância, e não há maneira de mudar isso, ele sempre será meu pai vista-grossa no final da história.
Estava fechando o último botão da minha camisa branca de alfaiataria com manguinhas bufantes quando ouvi o som da buzina de adentrar meu quarto. Coloquei a barra da camisa para dentro da mini-saia balonê preta que também vestia e ia até o meio de minhas coxas, me perfumei e desci as escadas o mais depressa que meus Jimmy Choos mary jane com tirinhas triplas me permitiram. Não muito tempo depois já estava me acomodando no banco do passageiro do carro compacto, como o da maioria dos ingleses, de , e deixando meus ouvidos serem invadidos por Starstruckk do 3OH!3. Preciso explicar por que estava vestida daquela maneira um tanto desconfortável para ir a um show de rock, como eu previa que seria? Espero que não.
- Bonne nuit, mon amie! – saudei minha melhor amiga no idioma inimigo e inclinei-me para beijar sua bochecha.
- i Buenas noches, chavita! – ela me saudou de volta, em espanhol.
- Desde quando você fala espanhol? – perguntei, curiosa, e o carro começou sair do lugar.
- Não falo, mas aquele argentino turista com quem saímos me ensinou algumas besteirinhas na sua ausência. Se lembra dele? – ela respondeu, com os olhos fixos no trânsito.
- Não teria por que esquecer – afirmei com uma negativa e sorri de canto, arrancando uma risadinha dela e me lembrando da noite em que acabamos de besteirinha no apartamento onde o argentino de sotaque adorável (muito mais bem treinado que o da Carmelita, devo acrescentar, mas ela não é argentina, até onde sei) estava hospedado e que era de seu amigo que estava em alguma outra parte do mundo. Ele tinha prazer em nos chamar de chavitas, e quando abrimos os olhos na manhã seguinte estávamos as duas deitadas ao lado dele, nossas cabeças apoiadas uma em cada ombro seu.
- Babes, as outras garotas vão se encontrar com a gente? – perguntei, querendo saber se nossas outras amigas compartilhariam das aventuras noturnas conosco.
- Não, meu amor. Mas também não sei por que – ela me informou espirrou de forma aguda e engraçada. - Meu Deus, , você tomou banho de L'Eau Par Kenzo? – desviou o assunto para o cheiro do meu perfume enrugou o nariz. – Estou até espirrando!
- Olha, , digamos que eu passei L'Eau Par Kenzo suficiente pra marcar a pele de qualquer um que eu tocar hoje. – Sorri.
- Uuuui! – ela reagiu ao meu comentário, rindo depois. – Mas você nem sabe pra onde estamos indo, segura essa periquita! – Eu gargalhei com a brincadeira dela. Palhaça!
- Tá aí, eu não sei. Você não acha que já demorou demais pra me contar, chavita?
- Você não pode saber. Toma, coloca essa venda, quase que me esqueço! – ela ordenou quando paramos em um semáforo, entregando-me um lenço preto que estava em seu colo, mas eu não havia percebido antes. Ai, meu cacete, precisava de tudo aquilo? Abri a boca para protestar, mas ela não deixou – Ai, só faz o que eu to mandando, ok?
Quando é que não faço, , e quando é que não faço...
- Droga, estamos atrasadas! – berrou, batendo fortemente uma das mãos no volante, emitindo um baque. – E eu não acho uma porra de vaga pra parar! Não sei por que eles não tem uma porcaria de estacionamento próprio nesse lugar, saco!
- Para num outro estacionamento, oras! – eu sugeri o óbvio. Não sabia onde estávamos, mas se um show estava para acontecer e a casa não tinha um estacionamento, devia haver algum outro por perto, pessoas lucravam com isso, afinal.
- Porra nenhuma! Quero uma vaga na rua, não quero pagar um milhão pra parar o carro! – ela bufou. Pão-dura do cacete. – Já é a minha terceira volta, que bosta!
- Argh, , por que você tem que ser tão teimosa? Mas que saco, não dá pra ser prática? Eu tô curiosa, não agüento mais ficar com essa merda me impedindo de enxergar, não dá nem pra trapacear! – reclamei, gesticulando com as mãos. Aquela coisa de venda era demasiado ridícula, pelo amor. E eu queria fumar, merda. – Se eu fosse você...
- ACHEEEEI! Puta que pariu, achei uma vaga! – ela anunciou e senti que ela começara a manobrar o carro. – É um milagre!
- como você exagera... – Soltei um muxoxo.
- Deixa a sua bolsa aqui antes de sair e não discute – ela adivinhou minha atitude antes mesmo que eu pudesse tomá-la. Quer dizer, então, que se alguém roubasse o carro e minha bolsa fosse junto, tudo numa nice, né? Argh!
Minutos depois ela já estava me arrastando pelo braço desajeitadamente pela rua gelada e eu estava morrendo de medo de tropeçar em alguma coisa. Ainda por cima corria o risco de cair em cima dela ou humilhantemente de joelhos sobre a calçada, ferindo-os e estragando a noite toda, vai saber? Minha amiga era muito estabanada quando queria e nem dava ao menos para prever. Se alguém estivesse vendo a cena, o que provavelmente estava acontecendo, eu não tiraria a razão da pessoa em rir horrores, francamente.
- AH, CARAMBA! – eu a ouvi gritar. - Eu esqueci as entradas no carro, fica aí que eu vou buscar e... – Eba, isso significava que eu poderia trapacear, tirar aquela coisa exagerada e ridícula dos meus olhos e acender um cigarro! – Ah, não, você vem comigo, senão vai trapacear! – É, tá, não significava.
Eu esperei que ela houvesse se enganado e entradas significassem o mesmo que credenciais desde quando ela começara com essa história de surpresa. Estava sentindo meu sangue se enervar e eu poderia dar um chute na bunda dela se estivesse enxergando alguma coisa e não estivesse ocupada demais xingando-a das piores coisas enquanto ela me arrastava de volta ao carro.
- Você é uma vaca, garota!
- Cala a sua boca! – ela me deu um tapinha no braço e eu grunhi em protesto. - Você ainda vai ficar grata por isso.
Tempo depois, quando já havíamos voltado de onde o veículo estava parado, ouvi agradecendo alguém, provavelmente estávamos entrando pelos fundos ou nos dirigindo até alguma área V.I.P, camarote, sei lá, ela com certeza tinha conseguido uma credencial ou algo do tipo, eu ainda estava convicta disso. Pelo menos até ouvir um burburinho extremamente agitado que parecia vir de uma multidão e ela desfazer o nó atrás de minha cabeça, tirando minha venda e me permitindo enxergar de forma clara novamente.
Preferia ter ficado com a venda, juro. Como ficar grata por aquilo?
- , mas que porra... – comecei a indagar quando constatei um mar de pessoas à minha frente e depois virei minha cabeça para olhá-la.
- Nós estamos na pista, baby! – ela me informou, parecendo radiante.
- Mas você jura? - eu disse, cheia de sarcasmo barato, reconhecendo o lugar em que estávamos como o Hammersmith Apollo. Tudo era Apollo ou Hall naquela cidade, deplorável. Isso quando não tinha o nome da rainha Victoria.
Ao me dar conta de onde estávamos eu totalmente me esqueci de lembrar que queria saber de quem era o talento que estávamos prestes a apreciar. E ela nem havia me dado tempo de acender uma porcaria de um cigarro!
- , você enlouqueceu? Primeiro que chegamos aqui na hora do show, se você quisesse que alguma coisa acontecesse...
- Para de reclamar, , mas que cacete! – ela fez um bico e franziu o cenho, impaciente, para mim. Era ELA que tinha que ficar impaciente, então? HA, , HA, HA! – Nós estamos aqui e acabou, pelo menos dá pra enxergar o palco!
“Obrigada pela minha altura e pelo milagre dos saltos, áurea cósmica que me envolve”, pensei na hora. Claro que a estrutura repleta de degraus do chão que eu pisava também ajudava.
Estava detestando aquilo, era um péssimo começo. Não iria ficar ali, mas que porra absurda toda era aquela, havia tomado ácido antes da hora? Ela estava fazendo de propósito, estava constatado, estava fazendo aquilo porque era retardada e havia incrementado seus métodos na última semana. Fosse quem fosse subir no palco dali a algum tempo, ela tinha como conseguir lugares melhores, ela até botava a gente no palco para cantar se quisesse, porque eu sabia que ela era tão foda nesse quesito quanto eu, aquele monte de contatos nas nossas agendas do celular não estavam ali à toa!
Eu não tinha que ficar toda linda no meio daquela gente suada, não tinha que passar por aquela merda completa para ver qualquer banda que fosse, qualquer cara que fosse porque eu poderia ver quem eu quisesse na hora que eu quisesse! Eu podia muito bem ir para o show com a banda, até, se esse fosse o meu desejo, aquilo não estava certo. Pode me chamar de desumilde, mal-acostumada e o caralho a quatro, mas nem fodendo que eu iria ficar ali, deslumbrante, no meio daquela gente fedida, nem que a banda valesse aquilo. Eu já tinha evoluído, essa fase era p-a-s-s-a-d-o!
- Eu quis fazer diferente hoje – Não diga, ! - Tenho um desafio pra te propor – ela prosseguiu, olhando fixamente nos meus olhos, falando por cima dos anúncios que vinham dos auto-falantes e eu ignorava.
Desafio, eu não acredito. Eu já estava puta o bastante, sério, já não bastava aquela história inútil de venda e agora eu estava na pista vestida do jeito que estava. Ela queria me deixar ainda mais maluca? Ainda assim, qualquer coisa que fosse, não seria desafio o suficiente, eu sabia disso no fundo. Que se fodesse o fato de que meu tempo seria curto e eu estava de mãos abanando se tratando de regalias.
- Que é que você vai inventar agora? – cruzei os braços, enfezada, e comecei a tamborilar minhas unhas em um deles.
- Não faria isso à toa, bobinha...
- Eu realmente espero que não! – ela bufou.
- ... Mas eu sei o quanto você adora o cara que vai entrar no palco daqui a pouco, que, aliás, está mais atrasado que a gente, então, sei que você vai fazer de tudo pra tê-lo em mãos no final da noite. – ela sorriu de canto, me olhando meio que diabolicamente, e eu ri, mandando-a desembuchar logo em seguida. – Não tenho credenciais, não falei com ninguém propositalmente. Sei o hotel em que a banda vai ficar, mas ainda assim, você vai ter que se virar pra ter o que quer. – ela apontava para mim. Estava carimbado na cara dela que ela estava se divertindo com o meu desgosto.- Sem ligar pro Jay nem ninguém! - ela se referiu a um dos caras que trabalhavam no Hammersmith e eu conhecia. - E nada de hotel, mocinha, você vai ter que se virar no backstage e eu quero ver isso acontecer.
- Você quer mesmo ficar assistindo a tudo? – Fui rápida e a provoquei, usando o que ela disse contra ela mesma, cutucando a ponta de seu nariz com a unha afiada de um dos meus indicadores.
- Se for pra me levar junto, você acha que eu vou mesmo ficar olhando, é? – ela riu, cheia de escárnio e eu fiz o mesmo, mas com um quê de diversão.– Ou eu vou atrás do meu ou eu faço a minha parte ali! – Ela sorriu, arqueando uma sobrancelha. – Tudo bem se eu não vir nada, vai, você pode prolongar e ir pra onde quiser com ele, mas vou querer uma prova.
Perversões à parte, ela esperava mesmo que eu provavelmente me desfizesse toda naquela pista de bosta e depois ainda tivesse condições de fazer negócios com algum integrante da banda? É, ela esperava, claro, era um desafio. Bem, pelo menos eu estava no fundo dos fundos, então o contato com as pessoas dali era menor.
- Eu topo – afirmei, sem ao menos saber no que estava me metendo, mas de qualquer jeito sabia que cumpriria a meta ou parte considerável dela. Só esperava que a coisa que fosse meter, literalmente, no final das contas, valesse à pena. – Mas quem é que eu vou querer?
Foi aí que percebi a luz diminuir, o burburinho aumentar cada vez mais e o cenário do palco, que incluía alguns coqueiros dispostos ao fundo de tudo, começou a ficar visível. Uma introdução sonora que começara com uma batidinha que me lembrava e de um metrônomo sei lá o porquê tomava conta do ambiente e milhares de mãos se levantaram à minha frente, batendo palmas ritmadas, envoltas por um jogo de fumaça e luzes negras, azuis e brancas, que piscavam ocasionalmente. Enquanto os gritos da multidão se misturavam com o som da música, eu começava a ter mais certeza de quem veria no palco dali a alguns segundos, aquele ‘K’ meio tortinho, que semi-escondia um teclado, órgão ou algo do tipo, não me deixava dúvida. Isso só parecia fazer meu sangue ferver cada vez mais de uma maneira insanamente ótima, e meu coração bombeava com ele uma dose de adrenalina cavalar que quase me paralisava.
E realmente me paralisou quando a banda toda entrou e se posicionou no palco, a introdução habitual da música substituiu a outra e eu perdi totalmente minha visão periférica, porque a minha principal estava ocupada demais em se focar no cara que começava a cantar vestindo por cima de uma camisa social preta uma espécie de jaqueta da mesma cor que me remetia a um paletó, cheia de penas de um tom bege quase dourado, estas provavelmente retiradas de alguma ave -ou falsificadas- que eu não fazia idéia qual era envolvendo seus ombros. Embaracei meus dedos aos meus cabelos e os puxei, até sentir um início de dor e mordi o lábio inferior. Juro que quase desmaiei ali mesmo quando o desejo me atingiu como uma granada.
Fazia muito tempo deveras, mais do que deveria, desde a última vez em que eu havia visto um show daqueles caras. E essa última vez tinha sido memorável demais para que eu não me sentisse tonta ao ver aquele monumento de homem com seus movimentos incrementados na minha frente de novo e não me lembrasse de seu cheiro, que pareceu tomar conta de todo o ar que eu respirava mesmo que ele estivesse distante demais para que pudesse senti-lo de forma pura, instantaneamente. Uma coisa tão etérea tomou conta do ambiente e de mim que eu podia senti-la pinicar minha pele, percorrendo-a de forma gostosa, quase me dopando, chegava a ser surreal. Ainda bem que esse tipo de coisa pinicante não te deixa toda empipocada, só vermelha, por assim dizer. Impossível não corar com todo aquele calor que me subia e vinha nem sei de onde, porque da platéia não era. Era um calor diferente, de excitação.
Os gritos das pessoas definitivamente se transformaram em parte da música, colaborando cada vez mais para aquela sensação sedativa que corria pelas minhas veias crescer numa velocidade insana, e de repente não sentia mais meus saltos fincados no chão.
Tudo que consegui fazer depois da minha estonteante constatação foi mover minimamente a cabeça para olhar e notar que esta sorria maliciosamente para mim enquanto deixava seu corpo ser guiado pela música e cantava junto com o vocalista. Voltei minha atenção para este, que segurava o microfone de forma possessiva e desejei instantaneamente que pudesse tê-lo me tocando da mesma forma, mas que minhas mãos fizessem isso de forma muito melhor com uma preciosidade que eu sabia que aquelas calças apertadas escondiam.
Toda energia que meu corpo armazenava estava fazendo uma revolução dentro de mim e gritava desesperadamente para ser liberada de uma vez só, mas queria ter controle o suficiente para gastá-la de forma adequada e dividida, então eu iria.
E antes que eu literalmente explodisse antes da hora, coloquei minhas mãos no ar como todos faziam e comecei a mover meu corpo no ritmo da música, extravasando todas as sensações que me dominavam em forma de refrão berrado:
-Are we human? Or are we dancer? My sign is vital, my hands are cold. And I’m on my knees, looking for the aaanswer…
Ah, meu Deus, ia me pagar por não ter facilitado para mim. Mas ela sabia que eu chegaria a qualquer ponto para consegui-lo novamente, não importavam as circunstâncias e alguns obstáculos que eu sabia que viriam pela frente, eles não haviam me dado tanta dor de cabeça antes e mesmo que tivessem se tornado mais fortes, não seria naquele dia que iriam dar. Muito menos me importava se isso iria acrescentar mais um certificado ao meu currículo de vadia sem consideração pelos outros, seria bom para mim e pronto.
Era Brandon Flowers, caramba! Mas nem me atropelando eu deixaria aquele cara me escapar! Se me esquartejassem, eu juntaria todos os pedacinhos sangrentos e moles e voltaria pra buscá-lo até a noite terminar, nem que estivesse como um zumbi de Thriller!
Então eu estava no show dos Killers e tinha que “me acertar” com Brandon depois do fim. Ai, ele estaria todo suado e... Cara, que delícia. Suor de Zé Povinho é uma coisa, suor de Brandon Flowers é mais sagrado que água benta. Eu poderia nadar nele! Tinha que admitir, Flowers estava no meu Top Five de Homens Mais Cobiçados Por Mim, inegavelmente.
Então The Killers estava na cidade e eu não soubera, ora essa, parecia até que eu estava perdendo o pique! Tinha que ser culpa da maluca da .
Ainda que tudo virasse um nó para aquilo acontecer, o que era idiota de minha parte pensar, porque não iria (eu era uma vaca sortuda), estava pronta para desenrolá-lo e ainda por cima estava vestida para matar. Por mais que isso soe idiota, devia servir para pelo menos atrair uma presa que era integrante do The Killers e já havia ganhado prêmios de homem mais bem vestido, mais sexy e mais estiloso, antes de matá-la.
Se bem que as roupas seriam itens dispensáveis se eu transformasse as intenções dele nas mesmas que as minhas, então...
Estava pirando com (você interpretou que eu estava pirando mais do que ela, espero) a cada vez que Brandon se revezava entre as teclas e o microfone, tirando-o do pedestal e caminhando pelo palco com seu poder altamente atrativo e bastante arrogância implícita em sua pose imponente, fazendo os outros integrantes virarem fumaça aos meus olhos. De alguma forma eu perdia a linha quando ele resolvia colocar o peso de seu corpo sobre alguma caixa de som, eu supus, cheia de luzes e passar sua função de cantar para a platéia ou quando ele batia os pés, mexia os ombros e gesticulava as mãos de sua maneira única ao interpretar cada música com veemência explícita. Não posso deixar de citar o momento em que ele se desfez de sua jaqueta-paletó empenada no meio de Jenny Was a Friend of Mine e jogou-a agressivamente no chão, deixando seus braços muito gostosos à mostra, me fazendo querer agarrá-los, cravar minhas unhas ali para deixar minhas marcas na hora como se aquilo fosse fazer dele meu. Juro que se meus órgãos internos tivessem pêlos, até estes se arrepiariam, ele era de outro planeta e eu estava sendo abduzida!
Brandon era perfeito, praticamente ultrapassava os requisitos que um vocalista precisava ter, falo sério. Ele era do tipo que matava todo mundo dando apenas cinco segundos do privilegiado ar de sua graça, não era à toa que estava em uma banda chamava The Killers, ele poderia matar todo mundo sozinho se quisesse.
Estávamos berrando Smile Like You Mean It já no meio do show e Brandon realmente sorria, me provocando um enjôo instantâneo, mas passageiro, talvez intensificado pela quantidade de álcool que eu já havia ingerido até o momento, quando um cara aparentemente mais alcoolizado do que eu desviou minha atenção para si ao chegar encoxando por trás, segurando sua cintura, mais do que deveria para um desconhecido, com uma mão e segurando um copo enorme de Stella Artois, como estava timbrado, na outra. E é claro que ele não deixou a oportunidade para uma cantadinha barata passar: a banda nem estava entoando Bones, mas eu pude ouvi-lo encostar os lábios em uma das orelhas de minha amiga e, já que a intenção de sussurro dele saiu mais para berro, dizer:
- Don’t you wanna feel my skin on your skin? It’s only natural…
, pega de surpresa, fechou a cara na hora, mas quase riu quando ele disse aquilo e apertou seus lábios um contra o outro para não fazê-lo. Porém, eu previ sua ação reprimida em seus olhos semi-escondidos pela penumbra. Pronta para mandar o cara tomar naquele lugar, ela tirou as mãos dele de sua cintura, jogou-as para trás e virou-se agilmente, desgrudando seus corpos, para xingá-lo:
- Mas que porra... Oi, tudo bem? – Ela substituiu sua expressão tempestuosa por um sorriso simpático o suficiente para qualquer um dizer que ela acabara de decidir dar bola para o rapaz. É, ela não o xingou, provavelmente porque sua visão infravermelha aprovara a paisagem de primeira. E pelas informações que meu cérebro recebia da minha, também infravermelha, visão, ele era bonito. Mesmo.
- Melhor agora, princesa! – O bonitinho respondeu, sorrindo mais simpaticamente que ela e caindo drasticamente não só no meu conceito, mas no dela também, porque eu a conhecia o suficiente para ter certeza daquilo.
Também não era para menos; não é para se ficar puta quando um cara desconhecido vem te chamando de ‘princesa’? Quer coisa mais pedreira do que ‘princesa’? Porra, princesa é a Diana! Aliás, era, né, coitadinha, está morta agora, goodbye England’s rose. De princesa eu tenho nada (a não ser a grana e as regalias), muito menos . Tá bem, talvez ela tenha um pouco mais que eu, mas naquele momento estava mais para biscate, tenho que dizer.
lhe deu um sorriso empolgado, mas eu sabia que era atuação porque por dentro ela havia ficado nada empolgada depois da última frase pronunciada por ele.
- Haha, deixa eu te perguntar, então... Qual o seu nome? – ela disse, inclinando a cabeça para cima para poder encará-lo propriamente, já que ele era mais alto, enquanto ele bebia um gole de sua cerveja e eu voltei minha atenção para os Killers (Brandon, na verdade) e os movimentos quase moles de meu próprio corpo. Não que eu não estivesse forçando meu ouvido a escutar também tudo que era possível da conversa entre os dois ao meu lado.
- É Ryan, gata. Sou o novo roadie dos Killers – eu o ouvi dizer quando Losing Touch começou, com um sotaque que eu reconhecera como americano no momento em que ele começara a falar levemente embriagado, denunciando que não éramos conterrâneos.
Espera aí, novo roadie dos Killers? Ele com certeza estava ciente de que aquilo era, de certo modo, impressionável (só seria mais se ele fosse um integrante da banda, óbvio. Francamente, ele devia usar aquele requisito para pegar várias garotas) e provavelmente atrairia minha amiga, mesmo que ela fingisse que não. Não somente a ela, querido Ryan! Olhei furtivamente e vi que ele tirara uma credencial de dentro da camisa pólo que usava, fazendo jus à sua afirmação propositalmente. Uuuh, senhor Ryan impressionante! Se você quisesse manter seu emprego, não deveria ter revelado-o tão perto de mim ou para .
E nem deveria ter saído de onde sua função lhe exigia estar, que era no backstage, ou até mesmo no palco, caso algum problema técnico acontecesse com a banda.
Meu trabalho havia se tornado 10 vezes mais fácil e eu ainda nem havia dirigido minha palavra a ele. Tenho tanta sorte que as coisas praticamente caem na minha mão! Hm, pelo menos nesse dia eu tive muita.
- E o seu nome, é tão sexy quanto você? – ele se referiu a e eu supus o tipo de olhar que ele derrubou sobre ela: tonto, mas cheio de intenções.
- Hey, espera aí, não é assim que funciona! – iniciou seu jogo de sedução enquanto eu ainda disfarçava minha atenção dividida. – Só te digo meu nome se você pagar umas bebidas pra mim e pra minha amiga ali. – ela propôs e acho que apontou para mim.
- Com todo o prazer do mundo! – ele respondeu, groguezinho. Será que estava me medindo também? – O que é que vocês bebem?
- Eu espero que você seja bom o suficiente para adivinhar – ela deu a cartada final daquela etapa e segundos depois apoiou seu maxilar em meu ombro e disse, vaidosa:
- Viu só, ? Agora vai ser tãão fácil pra você!
Quando voltou, Ryan trouxe para a gente duas garrafas de Smirnoff Ice. Provavelmente fez isso supondo que éramos muito ladies e só ingeríamos esse tipo de bebida fraquinha que parece não embriagar, mas depois de umas repetições de dose sua sanidade já está dando um rolê por várias dimensões alternativas. comentou que deu quatro estrelas para ele por aquele mérito porque gostava muito de Smirnoff Ice, mas preferia a velha cerveja como boa inglesa que era.
Ele continuou nos pagando bebidas - se fodeu o leva-e-traz, minha amiga estava abusando dele -, mas eu parei de beber no meio do caminho porque ainda tinha que ter algum controle sobre a minha devassidão para poder agir com Brandon e guardar um restinho dele para que ele me fizesse perder.
Adoro criar grandes expectativas quando sei que pelo menos metade delas será realizada.
Após quase ser atingida por um jato de vômito de uma garota que provavelmente vinha do centro caótico da multidão, suspirar de alívio antes de dar graças a Deus por ela vomitar em uma garota aleatória ao meu lado - que começou a gritar horrores para a vomitadora que estava em busca desesperada por um sanitário e tentava pedir desculpas antes de sair de perto de sua vítima – e gargalhar com da desgraça dos outros que por pouco não foi minha, eu tentava reconstituir minha aparência e deixá-la como antes de entrar no local apinhado de gente de todos os tipos.
Saímos dali quando Mr. Brightside terminou e eu senti muito por ter que perder Bones e When You Were Young, mas dando o fora naquele momento eu teria pelo menos uns 20 minutos para fumar e parecer mais atraente de novo antes que o show terminasse e eu adotasse minha missão. Antes ouvir Brandon gemer do que ouvi-lo cantar, convenhamos. Se bem que eu ficava em dúvida. Eu costumava já estar engajada com os caras (não que não estivesse com Brandon, no entanto) quando o show acabava então aquilo trazia um sentimento meio nostálgico, meio novo para mim.
Escolhi o espelho do pára-brisa do lado do motorista para retocar minha maquiagem após terminar meu cigarro porque era maior do que os dois que eu carregava na minha bolsa, e para ajudar havia uma luz em cima, facilitando meu trabalho, mesmo que houvesse preenchido os cantos do refletor com adesivinhos “indiemente” infantis. A propósito, esta última me dava uma visão privilegiada, porém não desejada, de seu amasso com “Roadie Ryan”. Ela sentava no capô e o tinha entre suas pernas enquanto eu reforçava a cor vermelha, que havia marcado alguns gargalos, nos meus lábios que passaram a se mover quando voltei a mastigar meu chiclete de menta grudado com outro de tutti-frutti. É, eu acho que juntos eles têm um gosto particular e muito bom. Além do mais, eu precisava estar com um hálito agradável depois de uma quantidade considerável de álcool passada pela minha boca, sem me esquecer do cigarro, e escovar os dentes era uma opção não muito favorecida.
Assim que eu coloquei tudo de volta na minha bolsa, saí do carro, pendurei-a em meu ombro e bati a porta, mas isso pareceu não atrapalhar em nada os dois seres humanos bêbados que estavam quase deitados sobre o capô no momento e que me agradeceram internamente por eu estar saindo de dentro do veículo, correndo para se apertarem lá dentro, no banco traseiro. Sinceramente, não sei por que já não estavam lá dentro, não seria a primeira vez que faria uma coisa dessas comigo dentro do carro, mas eu estava acompanhada também, geralmente. Ou quem sabe acompanhando?
Estava partindo para a porta do backstage, que eu sabia muito bem onde ficava, a propósito, e havia acabado de atravessar a rua quando olhei para trás e vi um caminhão de guincho que estava vindo em minha direção no momento em que deixei o veículo da minha amiga parar no meio da rua folgadamente. O motorista desceu para bater no vidro do carro dela.
Franzi o cenho e ao desviar minha visão um pouco mais para cima da parte traseira do caminhão enxerguei a placa que claramente instruía qualquer humano prudente que possuísse um automóvel a não estacionar ali. Porém, não era das mais prudentes. O caminhoneiro, que provavelmente havia visto o casal ali quando estava entrando no carro, mas não a mim, continuou a bater insistentemente enquanto e Roadie Ryan estavam tentando colocar suas roupas no lugar, supus. Achei que fosse querer se desaventurar dele para se aventurar no backstage comigo, mas creio que ela se esqueceu disso quando a coisa esquentou.
A constantemente distraída e apressada !... Acho que teria que voltar para casa de táxi se ela não saísse de dentro do carro e fosse guinchada junto com ele, me obrigando a ir buscá-la em algum lugar relacionado ao departamento de trânsito da cidade mais tarde, claro. Bom, me preocuparia com isso depois, eu tinha uma missão a cumprir!
Entrar no local pela entrada dos fundos não foi difícil, confesso. Como seria quando eu tinha uma credencial? Sim, eu havia roubado a credencial do Roadie Ryan e ele nem ao menos havia se dado conta. Ele a colocou no bolso traseiro, sei lá o porquê, quando voltou de uma de suas idas ao bar, e não foi difícil fazê-la parar nas minhas mãos enquanto ele beijava .
Juro que aquele cara estava sendo um roadie muito relapso ao se meter na pista, ficar bêbado horrores e sair para se amassar com uma mulher dentro de um carro. Em minha opinião, se dependesse dele, este não voltaria lá pra dentro nunca mais, ele preferia era ficar dentro da minha melhor amiga. E se dependesse de mim, nem se ele quisesse voltar a trabalhar voltaria, seria demitido. Como é que ele provaria que era roadie sem uma credencial? Hum, teria que fazer algumas ligações antes de dar boas explicações sobre isso e do por que beber durante o trabalho depois de conseguir seu “lugar” de volta.
Claro que os seguranças em frente à porta, contendo alguns poucos fãs que se aglomeravam ali, não acreditariam que eu me chamava Ryan, então tapei o nome quando fui mostrá-la a eles, deixando só o sobrenome visível e fazendo-os acreditar que eu era parte do staff da banda com o meu sorriso mais dissimulado. Que idiotas! Tudo bem, admito que também não me lembraria das centenas de fisionomias que entravam e saíam dali. Uma staffer de salto alto eu seria, então!
Subi alguns lances de escada e caminhei rapidamente pelos corredores dali, passando por pessoas que não se incomodaram com a minha presença. Constatei que eles estavam no fim de When You Were Young e isso me deu tempo o suficiente para me “esconder” atrás de uma parede de um corredor que fazia esquina com o principal, de onde eu poderia espiar quando eles saíssem do palco para o camarim, e nesse meio tempo descobri que aquele tinha sido um show especial promovido pela BBC Radio 1 e que na pista estavam só ganhadores de promoções, enquanto nos camarotes havia uma grande quantidade de famosos. A vadia da veria só, eu não quis acreditar, e o pior foi que ela fez de propósito! Por isso estranhei um show dos Killers no Hammersmith Apollo, parecia pequeno demais para eles.
Armei um plano muito babaca enquanto esperava os integrantes da banda aparecerem, mas teria que dar certo. Realmente acreditei que daria, estava sentindo que a sorte facilitaria para mim mais uma vez.
Batia ritmadamente a ponta do meu sapato que abrigava um de meus pés doloridos pelo esforço feito contra o chão durante o show, olhando para uma só direção à minha frente, impaciente, quando vi alguém da produção passar correndo pelo corredor principal à minha esquerda, tropeçar nos próprios pés e cair de joelhos, levantando-se rapidamente e subindo as calças, voltando a caminhar como se nada tivesse acontecido, depois. Eu não podia dar sinais de que estava parada como uma loser ali, sei lá por que - embora eu já tivesse sorrido casualmente para alguns outros pares de calças que haviam passado por mim sem grandes problemas-, mas obviamente me virei para o outro lado e espoquei em gargalhadas que eu quisera que fossem altas, mas foram o mais insonoras possível.
Lágrimas teimavam em cair dos meus olhos, eu já estava praticamente sufocando de tanto rir, minha barriga doía e minha coluna me pedia para ficar ereta novamente quando eu ouvi a voz dele dentre muitas outras, misturando-se em congratulações excitadas pelo o show. Fiquei séria no mesmo minuto.
PUTA QUE PARIU, sorte, para onde você foi? Ele estava abraçando um cara que devia ser empresário da banda ou alguma merda dessas, com uma toalha branca ao redor do pescoço, e voltando a vestir seu protótipo de paletó que alguém havia lhe entregado enquanto saía à frente dos outros caras por outra porta mais estratégica e escondida que ficava depois do camarim e, obviamente, de mim, sem nem dar uma passadinha pela sala que eu gostaria. Isso queria dizer que Brandon Flowers estava indo embora – provavelmente havia algum carro os esperando do lado de fora- e meu timing muito bem treinado fora incomodado pelas minhas próprias gargalhadas por causa de um puto qualquer que resolvera se acidentar na minha frente.
Mas que merda, cacete (que não era o de Brandon, ha)! Quando eu ouvi um estrondo de porta batendo e só o barulho abafado da platéia se retirando ao som de uma música qualquer do outro lado e um mais nítido do resto do staff da banda que havia sobrado para guardar os instrumentos se movimentando e berrando ocasionalmente, eu quis chorar.
E agora? Eu não iria deixá-lo sair da cidade sem que eu tivesse no mínimo relado em sua pele, ou pelo menos na pinta que ele tinha abaixo do olho direito, mas também não sabia para onde eles iriam se fossem comemorar algo, em que porra de hotel estavam hospedados, muito menos poderia contar para . Mas ela queria uma prova, então eu teria que me virar para achar alguma coisa dele.
Tipo, que bosta, será que estava perdendo o jeito?
Não totalmente.
Joguei meu chiclete em uma lata de lixo que estava próxima a mim e segundos depois eu estava trancando a porta do camarim, que também ficava meio escondida em outro corredor que fazia esquina com o principal, aproveitando que ninguém mais havia entrado ou estava passando por ali, e varri o local com meu olhar a procura de algo que pertencesse à Brandon. Minha primeira ação foi meio estática. Contraditório, eu sei, mas eu estava ligeiramente aturdida, então só consegui permanecer parada no meio da sala de decoração simples, típica de qualquer camarim, assim como a iluminação, com as palmas das mãos abertas para o nada abaixo de mim, passando os olhos pelo sofá e pela mesa repleta de junk food e poucas coisas saudáveis. Também havia algumas garrafas de água transpirando e alguns copos descartáveis, timbrados e enormes de cerveja, iguais aos que vendiam no bar dali, vazios ou pela metade. Me sentia meio desnorteada, tentando lembrar por qual razão eu me levara até ali.
Visualizei minha própria imagem, que surgiu diante dos meus olhos à minha esquerda por haver ali um espelho retangular que ocupava metade do comprimento da parede, onde me vi refletida juntamente com as luzes que ficavam acima dele. Abaixo deste havia um balcão de mesmo comprimento, formando uma espécie de penteadeira que devia estar cheia de parafernália dos caras antes do show e agora sustentava nada além de umas duas latas de Red Bull e Coca-Cola abertas e... Haha, quase não pude acreditar quando vi!
Creio que a sorte não suportava ficar muito tempo longe de mim. Quando eu achava que ela havia me abandonado, ela se revelava em forma de um smartphone pertencente a quem eu mais queria que pertencesse naquele momento. Que outro homem (além do pai ou qualquer irmão dela, talvez) teria uma foto “mimimimi” com Tana Mumblowsky no plano de fundo?
Tana Mumblowsky: eu sabia quem era ela porque, alou, eu sabia! Ela era meu maior obstáculo; mesmo que não estivesse presente no recinto e nem na mesma divisão geográfica que eu, era um tipo de inimiga. E se eu não conhecesse meus inimigos, pobre de mim! Não podia dizer muito sobre Tana, mas sabia o necessário: ela era cafona, tinha uma cara que ficava entre a de uma fuinha e um porquinho da índia, um corte de cabelo que pretendia ser hype, mas era uncool e uns chifres na cabeça. Não sabia de quantas além de mim, no entanto.
Não creio que Brandon fosse acostumado a traí-la ou algo assim, ele era boa pessoa, mas... A história era seguinte: Brandon e Tana estavam juntos há bastantes anos, incluindo o ano em que o encontrei pela primeira vez, em 2006. Não interessa como nem onde, mas os dois haviam brigado feio antes de ele viajar e Brandon estava putíssimo com ela, além de alto o suficiente para cometer a infração mais grave do livro dos relacionamentos sérios, isso significa me levar para cama. Admito que, nessa noite, o álcool em seu sangue colaborou para que minhas provocações surtissem efeito em sua mente enfraquecida. Claro que no outro dia a culpa pesou mais que a dor de cabeça da ressaca e ele reagiu como todos os homens do mundo reagem ao fazerem coisa errada, mas ficou tentando justificar seu ato dizendo a si mesmo que ela havia deixado-o puto ao brigar com ele por besteira e aquilo havia tirado-o de si, dando-se um pouco de razão enquanto esfregava os olhos inconscientemente, borrando ainda mais todo o preto adormecido do lápis que os contornava. ‘Tadinho.
Claro que ele cometeu o mesmo erro mais algumas vezes naquela manhã. Ele fazia esse tipo de coisa e depois queria me enganar escrevendo e entoando o discurso de Mr. Brightside? Numa boa, meio hipocritinha, né?
Passei os dois anos seguintes sem comparecer a um show dos Killers (não me pergunte o motivo, nem eu sei!), apesar de continuar achando Brandon O gostoso dos gostosos e acompanhando os lançamentos da banda. Nesse meio tempo ele havia se casado com Tana, o que tornava minha stiuação eu-tenho-o-celular-de-Brandon-Efe-em-mãos-e-já-sei-como-usar-isso-a-meu-favor no momento mais complicada e sem coração, mas nada que me fizesse temer ou realmente desistir, óbvio. E é lógico que não iria somente sair dali, mostrar o celular a e fingir que algo havia acontecido, claro que eu faria algo acontecer deveras, eu não estava nem maluca de não fazer aquele aparelho me levar até ele.
Quando tomei o telefone em minha mão, quase pude senti-la queimar, tamanha a preciosidade daquela coisinha. Quase alucinei que estava incandescente, mas não poderia tocar se estivesse e eu nem tinha fumado maconha nem nada para tanto. Enquanto ia pensando em alguma coisa boa o suficiente, aproveitei para transferir qualquer número que parecesse importante na agenda dele para a minha (eu quis dizer: todos, até o da mãe dele e de Tana Imbecilóvsky) depois de descobrir qual fazia aquele aparelho tocar, afinal, não era todo dia que você tinha um tesouro daquele em mãos.
Roubei umas barrinhas de Kit Kat e joguei-as junto com o aparelho celular dentro de minha bolsa. Estava quase certa do que fazer para obter mais um momento de glória com o vocalista do The Killers quando mais uma vez não precisei nem executar metade do meu plano embolado e incompleto ao destrancar a porta e...
- Mas que merda de-–
...ter minha camisa e parte da minha saia encharcadas pela cerveja do copo gigante - como todos naquele país- de ninguém mais, ninguém menos que Brandon Flowers! Por ironia do destino, assim que destranquei a porta e puxei a maçaneta para baixo ele pareceu fazer o mesmo do outro lado ao mesmo tempo que eu, e acabamos nos trombando ao querermos seguir direções contrárias.
- Ah, meu Deus! – berrei, assustada, e levantei minhas mãos como se alguém tivesse anunciado um assalto, só que numa altura menor. Quando quase caí com o baque, ele me segurou pela cintura, impedindo que isso acontecesse e me fazendo amolecer perceptivelmente em seus braços.
Que mulher é que consegue comandar seu próprio corpo quando tem o privilégio de ter a cintura segurada por ele, afinal? Nem a cunhada dele, se é que ele tinha uma.
- Oh, me desculpe! – ele balbuciou, enquanto rapidamente entrava, largava seu copo agora semicheio para fazer companhia às latas vazias de energético e refrigerante e voltava para me ajudar tão rápido quanto me impedira de cair. Ainda bem, porque senão era bem capaz de eu cair mesmo e acho que ele chegou a perceber. – Tá tudo bem? – perguntou, indeciso entre me tocar ou não, talvez com medo de me fragilizar novamente, mas logo decidiu-se por caminhar pela sala procurando algo que pudesse me secar, como disse depois.
Como assim ‘está tudo bem’? Se ele soubesse que pergunta imbecil fora aquela; com certeza não poderia ter ficado melhor! Enquanto ele estava de costas para mim, concentrado em achar algo que fosse útil para a situação, eu aproveitei para caminhar ao contrário até a porta para fechá-la e trancá-la novamente da forma mais cautelosa possível, jogando a chave em minha bolsa.
- Guardanapos? – ele disse, caminhando até mim e me oferecendo alguns que estavam na mesma mesa em que a comida antes, com um sorriso encabulado brincando em seus lábios enquanto ele franzia os ombros de uma maneira amável. E as toalhas, meu filho?
- Oh, não se preocupe, está tudo bem! – eu o assegurei, abaixando sua mão que segurava os guardanapos, rejeitando-os delicadamente, e ele inclinou a cabeça para o lado, franzindo os olhos, como se quisesse analisar melhor meus traços faciais.
- Eu... Nós já não nos vimos antes? –perguntou e senti um ímpeto de querer sair dançando pelo recinto em comemoração quando a presunção me atingiu em cheio, mas me contive. – Tenho a impressão de que te conheço de algum lugar... – comentou.
- Você está certo, nós nos conhecemos – eu confirmei sua teoria sem delongas e sorri da forma mais inocente e amistosa que pude, andando até o sofá e largando minha bolsa, que havia se safado do banho de cerveja, ali.
- Eu presumi, mesmo, você não me é estranha – ele disse e sentou-se no sofá, ficando novamente de frente para mim. Ora, mas ele estava até com tempo para sentar e bater um papinho? – Você é do nosso staff? – Arqueou uma sobrancelha, finalmente percebendo e estranhando o cordão da credencial pendurada no meu pescoço. – Engraçado, eu... Mas de onde... – continuou e de repente ficou mudo, com a boca entreaberta, e passou a piscar mais rápido do que o necessário, tentando assimilar alguma informação, supus, enquanto eu abria os dois primeiros botões da minha camisa. – Ah, meu Deus, você não é do staff coisa nenhuma, agora me lembro quem você é – ele afirmou, parecendo ligeiramente desesperado ao constatar. – Seu cabelo está diferente. – Quase gargalhei, que cara aleatório!
Também, ai dele se não lembrasse de mim! Mesmo que fizesse dois anos, eu acho que havia feito o suficiente para tornar nosso envolvimento memorável. E, cara, ele também fizera, deixa eu te falar!
Eu não tinha muito tempo para persuadi-lo, então tive que ser mais direta e apelativa do que gostaria. Coitado, eu mal lhe dei tempo de absorver as coisas.
- Ah, você gosta? – Afaguei meus próprios cabelos, fazendo charme, e levantei meu olhar ensaiadamente dócil dos pequenos e transparentes botões para a face aturdida dele. Brandon devia estar se perguntando como eu conseguira meu passe para os bastidores e que porra eu estava fazendo ao manusear meus botões, mas creio que já sabia muito bem a resposta, o que tornava sua pergunta relativamente recíproca.
Acho que estava hipnotizando-o ou deixando-o muito sem graça, ou os dois ao mesmo tempo, porque ele parecia não conseguir mexer o resto do corpo, diferentemente de sua cabeça, que se moveu para o lado e desviou a atenção de seu olhar para um lugar menos próximo dos perigos que as curvas de meu busto, que ficou mais à mostra assim que abri o terceiro botão, poderiam oferecer.
– Que adorável da sua parte! Porque, sabe, eu ficaria muito, muito magoada se você não se...
- Olha, eu preciso ir embora – ele levantou-se rapidamente, cambaleante, extremamente enrubescido e atordoado. Dali era um passo para ele começar a suar frio, pensei e esperei. Pff, ele achou mesmo que fosse escapar fácil assim? – Você viu algum BlackBerry perdido por aí?
Sem piadas, ele esperava o quê, que eu fosse ficar com a blusa úmida de cerveja? Pra que o constrangimento, docinho, eu não sou tão ruim assim, te garanto, eu pensava.
- Mas já? – eu fiz uma cara de surpresa muito falsa que não convenceria nem a mim mesma, confesso, ignorando a última pergunta dele. Espalmei uma de minhas mãos em seu tórax coberto pela camisa preta, empurrando-o com força o suficiente para fazê-lo cair sentado novamente, uma vez que tinha enfraquecido-o ao deixá-lo nervoso, aprofundando o meu jogo, agora muito claro, de sedução. – Você não disse que ia me ajudar a me secar? – eu o repreendi e ajoelhei-me no espaço entre suas pernas prontamente afastadas, fazendo com que a parte aberta de minha blusa ficasse exatamente na altura de seus olhos que se arregalaram ainda mais antes de piscarem, indicando que seu desconcerto passara a ser ainda maior. – Olha só, eu tô toda molhada! - Fui ambígua e fixei meu olhar no dele, que bloqueou-se para o meu rapidamente quando engoliu em seco, cerrando os punhos ao lado de seu tronco, creio que tentando reunir forças suficientes para me afastar. Agora ele estava mais corado ainda (que lindo!) e, convenhamos, se ele quisesse realmente, lá no fundo fundíssimo, me afastar, teria feito isso rapidinho.
- Olha, eu só quero saber se você viu meu celular – ele começou a dizer em um tom que pretendia ecoar firme mas não soou tanto quanto ele gostaria, eu acho, tentando me pôr longe e me fazendo ficar em pé por uns dois segundos ao colocar as duas mãos uma em cada lado do minha cintura e empurrar-me para trás, fechando suas pernas e tentando se levantar no mesmo momento. Porém fui mais rápida e o empurrei de volta, fazendo-o cair sentado novamente. – Aliás, por que diabos eu estou perdendo meu tempo perguntando se você viu meu celular? - Ele indignou-se consigo mesmo por não saber direito o que estava fazendo. Eu precisava responder que era exatamente porque ele queria ficar lá, só não havia admitido para si mesmo? Ele ainda não estava gaguejando, o que significava que ainda possuía controle o suficiente para recobrar quando quisesse e eu teria que apelar ainda mais. - Não quero nada com você, sou casado, saia de cima de mim! – ele ordenou, tentando me empurrar novamente, quando envolvi seus quadris estrategicamente entre minhas pernas dobradas e sentei-me sobre suas coxas.
- Também não sei por que você tá me perguntando do seu celular, não quero falar sobre ele agora - fiz pouco caso de sua última ordem. - Agora, me empresta esses guardanapos, por favor? - pedi e puxei a mão dele que ainda segurava os guardanapos e arrastei pela minha barriga, que ainda estava coberta, secando aquela região e provocando um tênue contato de seus dedos em minha pele. Quando arranquei os papéis da mão dele, amassei em uma bolinha e joguei-a para o lado, sentindo seu braço paralisado de tensão.
Falando sério, todos os singelos movimentos e reações que ele tinha denunciavam o que ele realmente queria fazer, porém estava com medo de deixar-se ir além e reprimia seus desejos porque sabia que não podia ir comigo até onde eu queria levá-lo por causa da Tana. Tana, isso é nome de gente? Prefiro me abster de maiores comentários.
Eu não gostava de agir daquele jeito apressado, apesar de gostar de ser direta. A pressa me fazia parecer uma puta, uma atriz pornô malpaga! Eu podia ser meio que vadia, mas eu não era uma biscate de beco que saía atacando homens desse jeito! Parecia até que eu estava desesperada! Não que eu não estivesse, mas... Argh, quando valia tudo, valia tudo mesmo, e pronto! Eu sabia que estava forçando a barra, mas ou era fazer isso, mesmo com a chance de acabar humilhada e de mãos sem pipi (esses eufemismos...!) no final, ou acabar sem nada por não tentar. E entre as duas opções, eu com certeza escolhia a primeira.
Assim que ele desistiu de me empurrar porque percebeu que eu não cederia, envolvi sua nuca vagarosamente com uma de minhas mãos e puxei sua cabeça fortememente em direção a minha, causando um tipo de tranco quando seu rosto parou o mais próximo o possível do meu sem que se encostassem. Então pude sentir sua respiração em processo de aceleração começar a pesar sobre meus lábios.
- Não que Tana tenha te impedido da última vez, não é? – Eu me atrevi a salientar o nome da esposa dele, encarando-o firmemente, e pude senti-lo estremecer quase que imperceptivelmente sob mim com meu olhar cheio de intenções, fechando os olhos como se deixando de ver fosse deixar de sentir. Não creio que tal ato servisse para aquela situação, no entanto.
Estava pouco me fodendo se ele era casado ou não e acho que já havia deixado isso mais do que esclarecido em sua mente. Aliás, quem tinha que foder alguma coisa ali era ele, numa boa. Ele até fechou sua expressão e tentou protestar, mas eu fui mais rápida e roubei-lhe um selinho demorado. Ele esqueceria que era casado num minutinho se eu lhe arrancasse o controle à força, porque quando a luxúria domina o pênis, o pênis domina a mente e chuta o controle no meio da rua pra ser atropelado, you know.
Passei meus dedos por baixo de seu paletó e camisa e apertei-me um pouco mais contra seu tronco, coberto pelo tecido preto ainda suado. Pressionei a ponta do meu nariz contra sua bochecha, descendo-a até sua nuca e voltando pelo mesmo caminho, deixando que minha língua entrasse em contato com sua pele - que eu pretendia esquentar ainda mais em alguns pontos- sentindo o gosto do suor dele que valia mais que ouro e começava a escorrer aos poucos novamente dominar meu paladar. Tive a impressão de estar continuamente girando ao fechar os olhos e sentir seu cheiro de desodorante masculino, que ele devia ter passado quando ficou fora da minha visão, e o silvo que ele emitiu arrepiou cada pêlo que restava em meu corpo, acendendo algo dentro de mim que não me deixaria parar com aquilo nem que fosse a vontade dele.
Ele começara a mudar de idéia, e me convenci disso ao sentir uma espécie de saliência um pouco abaixo do meu ventre. No entanto, ele ainda se recusava a me tocar e mantinha os punhos cerrados.
Mesmo assim, sério, estava sendo mais fácil do que imaginara. Ele não iria relutar nem com um pouquinho mais de esforço? Esses homens... Você mal coloca a mão neles e já ficam desnorteados, é incrível! Eu sequer havia o beijado propriamente!
- Por favor... – ele começou a implorar, com a respiração hesitante, me encarando cheio de súplica, tentando ignorar minha camisa parcialmente aberta na dúvida entre fazer o que diriam ser errado, mas que era certo para ele naquele instante, suando cada vez mais e me fazendo sorrir, desavergonhada, de canto. - Isso é jogo sujo!
- Mas é claro que é jogo sujo – eu confirmei na cara dura, passando a distribuir beijos por seu pescoço conforme abria sua camisa lentamente. Ele estava permitindo que eu agisse de tal maneira e tinha a pachorra de me implorar?! - Se fosse jogo limpo, você acha que eu estaria fazendo? Quem consegue alguma coisa nesse mundo com joguinhos limpos? – finalizei com uma resposta afiadíssima que pareceu atingi-lo em cheio e o fez comprimir os lábios. Os músculos de seu abdome se retesaram por completo sob o contato dos meus dedos, vindos um pouco mais de cima, que deslizaram por aquela parte.
Admito que, apesar de a minha maior intenção ali ser excitá-lo, se ele pudesse visualizar o que estava encaixado nos bojos de meu sutiã - embora não mais devidamente - e deslizasse para além das fronteiras da minha calcinha naquele exato momento, notaria que eu provavelmente estava dez vezes mais além do que ele. Contudo, eu tinha que fingir que não, sabe como é. Nós dois estávamos afundados em nossas próprias contradições. Aquela situação estava tão irreal – até para mim - que eu não duvidava que fosse começar a enxergar tudo embaçado, como se estivesse vivendo um sonho, a qualquer segundo. Aliás, bom mesmo seria se eu começasse enxergar embaçado, se é que você me entende.
- Sabe, Brandon – eu me desgrudei um pouco, jogando minha cabeça para o lado, mas continuei sentada em cima dele. – Meu sutiã abriu quando a gente se esbarrou – eu disse, descontraída, e abri os últimos botões da minha camisa.
O que eu disse não foi de todo mentira e ele pôde constatar assim que a joguei para o lado e suas íris castanhas automaticamente congelaram no que se revelou no lugar que meu sutiã preto rendado, que tinha o fecho frontal completamente aberto, deveria cobrir inteiramente. Não duvidei que meus peitos pudessem ter pulado para fora sozinhos sem que ele houvesse aberto meu sutiã acidentalmente, se você quer saber. Eles estavam tão duros de tesão, assim como eu, evidenciando todo o meu desejo, que eu poderia compará-los com pedras e ele nem sequer havia ousado passar as mãos em mim como eu sabia que queria e podia fazer. Só o simples fato de tê-lo tão próximo como estava acontecendo já era o suficiente para que as reações corporais que eu só deixaria transparecer a ele por completo quando o fizesse perder a cabeça de vez fugissem das minhas rédeas.
– Já que você quer taaanto ir embora – ironizei, enquanto acariciava calmamente seu tórax descoberto, acompanhando o movimento de minhas próprias mãos e ele engoliu em seco novamente, sentindo os efeitos do meu toque. Percebi que ele começou a abandonar seu autocontrole, substituindo-o pela mesma luxúria que nascia em seu olhar e atingia os meus seios mais do que prontos para serem tocados, assim que uma das mãos quentes dele alisou minha coxa direita e começou a subir cada vez mais, calmamente deixando um rastro de fogo ali, como se ele estivesse com medo do que fazia. E bem, ele estava! Brandon mordeu o lábio inferior e soltou quase todo o ar de uma vez pelo nariz, extremamente tenso. Eu estava ga-nhan-do! Mas estava tão tensa quanto ele. – Será que poderia me ajudar a fechar?
- Não, eu não posso! – ele esbravejou, de repente, depois de uns três segundos em silêncio nos quais deixei meu olhar sem pudor cair no dele, esperando por uma resposta. Acho que finalmente ele estava assimilando o quanto estava perto de se afogar em tentação sem poder voltar atrás, isso antes de me tirar de cima dele de forma brusca e atirar-me de qualquer jeito no sofá.
Passou as costas de uma das mãos pela testa, secando a rala umidade que havia brotado ali – um gesto que ligeiramente me lembrou o clipe de Mr. Brightside -, e bufou enquanto tomava impulso para se levantar e caminhar a passos largos e pesados até a porta, sem se importar se havia algo o importunando entre suas pernas como eu tinha tomado ciência de haver, embora não tivesse chegado a tocar. Fechou a camisa apressadamente de qualquer jeito, puxando os ombros e o paletó para frente como se quisesse que este fizesse a vez do que ele não recobrira direito embaixo.
- Droga! - Brandon ficou fulo da vida quando forçou a maçaneta e viu que a porta estava trancada. – Você é maluca, cadê a chave dessa porra? Eu quero sair daqui!
Eu, maluca? Suas últimas palavras soaram totalmente inversas para mim. Se ele estava tentando me repelir, acabara de me atrair ainda mais, embora inconsciente disso.
Espantei todas as minhas indagações sobre como ainda não tinham ido procurar por ele para longe e, ignorando toda sua raiva, deslizei minhas mãos por seu abdome naturalmente definido no momento em que ele se virou de frente para mim e me encontrou prontamente atrás de si, sobressaltando-se. Porra, ele estava tenso mesmo! Agilmente escorreguei uma das mãos mais para baixo e apalpei o relevo entre suas pernas por cima da calça, que parecia estar mais apertada ainda naquela região, com uma cautela que quase não coube no ato.
Senti-lo pulsar em minha mão, mesmo que não diretamente, sabendo que eu havia causado tal coisa, me afetou mais do que eu estava preparada para agüentar e eu arfei por um breve segundo, quase perdendo toda a sustentabilidade em minhas pernas, mas consegui me segurar.
Provoquei uma série de calafrios rápidos nele ao tocá-lo naquele ponto, e este tornou a vidrar seus olhos em meus seios que haviam voltado a se abrigar dentro do sutiã que eu fechara segundos depois de ele me pôr de lado. Para que ele olharia meu rosto quando tinha peitos, muito bons, deixa eu dizer, para admirar? Homens serão sempre homens!
- Sei lá, será, então que você não poderia me ajudar... - eu passei o cordão da credencial que estava por cima de minha peça íntima pela minha cabeça com a outra mão e joguei-a para trás. - A tirar? – Provoquei-o ainda mais mordendo o lábio e em seguida ficando na ponta dos pés para sussurrar essas duas últimas palavras em seu ouvido, aumentando a força de meus dedos em sua ereção ainda escondida.
De repente, todos os meus sentidos pareceram se esvair num só segundo e minha boca já estava sendo tomada com voracidade pela sua enquanto ele habilmente manuseava o fecho (mais um prêmio para Brandon Flowers, por tal proeza!) e em seguida escorregava as mãos por debaixo das alças de meu sutiã, levando-o junto com elas e prensando-me consistentemente entre a porta e seus quadris enquanto jogava-o para o lado. Eu não teria as mínimas condições de permanecer em pé sentindo sua ereção ser pressionada contra meu baixo ventre se suas mãos não tivessem ido parar na minha cintura, me segurando com veemência antes de começarem a me explorar, enquanto eu tentava desesperadamente abrir a fivela de seu cinto para poder estimular ainda mais toda sua vontade de mim. Imagina a dificuldade que tive para fazer isso quando ele resolveu se aventurar por um dos meus mamilos, beliscando-o, e enterrou a outra mão em meus cabelos. Eu arfei, deixando que um breve gemido se perdesse no ar juntamente com o fôlego que eu inteiramente perdi.
Uma vez que eu havia aberto seu cinto e suas calças por completo e ele havia se livrado dela junto com os sapatos, as meias, a camisa e logo depois seu casaco cheio de penas, facilitando todo meu trabalho, muito obrigada, e tirando suas mãos experientes de mim para fazê-lo por tempo mais do que suficiente para que eu desesperadamente as quisesse passeando por minhas curvas e aumentando cada vez mais minha temperatura novamente. Conduzi-o para trás com sua língua quente e experiente provando meu pescoço sem mais nenhum vestígio daquela hesitação do princípio, até que ele estivesse sentado sobre o sofá de novo, sustentando meu peso sobre suas pernas.
Eu estava cometendo um grave pecado ao deixar aquele homem excepcionalmente gostoso, excitado e parcialmente encaixado ao meu corpo somente de boxers, como se estas ainda tivessem algum propósito ali. Até elas saberiam que já não eram mais bem vindas e que o volume que escondiam estava as expulsando raivosamente, se tivessem consciência para pensar. E eu, como tinha a capacidade de racionar, mesmo que não apropriadamente naquela hora, sabia que nos entenderíamos muito melhor sem elas nos atrapalhando. Ele pareceu pensar a mesma coisa, já que ao arranhar delicadamente a parte interna de sua virilha declarando minhas intenções, ele me ajudou a abaixá-las até onde a pressa nos permitiu, quase escorrendo entre minhas mãos e demorando a corresponder o beijo que iniciei quando meus dedos precisos e tão firmes quanto seu membro o envolveram por completo, levando-o a apertar ainda mais as mãos que pararam em meus seios.
Comecei a estimulá-lo lentamente, com a intenção de torturá-lo, e ele deitou a cabeça no encosto do sofá, indicando que eu estava atingindo meu objetivo ao gemer roucamente de uma maneira que parecia bambear entre a aprovação e a vontade de querer que eu o masturbasse mais rápido. As unhas da minha outra mão ocasionalmente roçavam sua pele por acidente, causando-lhe contrações musculares rapidíssimas. Culpa das pontas dos meus dedos por estarem massageando sua nuca suada enquanto eu me “indecidia” entre beijar e mordiscar seus mamilos e pescoço até que decidi por chupar esse último, sem que ele me impedisse. Hm, pelo jeito não veria sua esposa no dia seguinte e se achava capaz de esconder qualquer marca muito bem. Na verdade, acho que ele não tinha mais capacidade de pensar muito bem em impedir alguma coisa naquela altura do campeonato.
Toda a corrente de prazer que crescia dentro dele parecia me contagiar por osmose, (talvez fosse o contrário), e esta passou a se representar em forma de gemidos fortuitos, mas significativos, de sua parte enquanto sua respiração pesada se tornava cada vez mais rápida de acordo com o ritmo do sobe e desce de minha mão em seu membro.
O volume dos gemidos de Brandon aumentou, mas não o suficiente para que nos ouvissem do lado de fora, acho que propositalmente, porque ele com certeza não queria que alguém descobrisse nosso segredo. A força de suas mãos ao beliscar e apertar meus seios se intensificou, mostrando-me que estava ficando cada vez mais difícil para ele não explodir e isso me arrancou gemidos também, causando a concentração de todos os arrepios que era possível se ter de uma vez só em meu sexo, quase me fazendo parar de masturbá-lo para me concentrar somente no meu próprio prazer. Puxei sua cabeça de volta para mim e beijei-o com extrema voracidade marcada em minha língua, mostrando-lhe o quanto eu o queria, influenciando-o a reagir da mesma forma antes que eu finalizasse a ação segundos depois com um uma mordida em seu lábio inferior, sabendo que aquela era a hora certa para evoluir.
Não se preocupe, isso nada tinha a ver com Pokémons.
Evoluir mais precisamente significava me ajoelhar à sua frente e dar um sumiço temporário em suas boxers antes de ouvir um gemido comprimido de clara aprovação despertar meus tímpanos assim que voltei a segurar seu membro, dessa vez entre meu indicador e polegar, e deslizei minha língua por toda a extensão de seu sexo, sentindo seu gosto, para finalizar encaixando-o em minha boca. Encostei a pontinha de minha língua quente na extremidade de sua glande, maleando o prepúcio, e a lambi, observando suas expressões faciais se contorcerem em puro êxtase. Haha, no way de ele ficar mais em êxtase do que eu ao ver aquilo, eu estava sentindo meu coração pulsar loucamente lá embaixo!
Quando os movimentos dos meus dois dedos já estavam mais enérgicos e seus gemidos e arfadas sendo liberados em intervalos de tempo menores que os de antes, Brandon prendeu seus dedos nos meus cabelos, encorajando-me a continuar ao empurrar continuamente para baixo minha cabeça e deixando clara a necessidade de que eu o sugasse cada vez mais vigorosa e rapidamente. Foi o que fiz, sendo extremamente cautelosa para não deixar meus dentes entrarem em contato com seu membro, das mais variadas formas que consegui encontrar, até que meus movimentos tivessem sido o bastante para acumular tesão suficiente naquela região e ele deixasse o gemido mais repleto de prazer dentre todos os anteriores escapar ao tremer e finalmente explodir, derramando-se em minha boca.
Ao dizer que Brandon era muito boa pessoa, não menti. O espírito de reciprocidade dele era tão, mas tão encantador e impressionante que ele quis devolver todo o deleite com o qual lhe presenteei, depois de se recompor e recuperar o fôlego, me erguendo pela cintura, levando-me até o outro lado da sala e arrepiando-me inteira ao me pôr bruscamente sentada sobre a extremidade da gelada superfície onde repousavam as latas que foram arremessadas por um golpe certeiro de seu braço no chão, quase levando junto o copo de cerveja que fora nosso prefácio, antes que ele me colocasse ali, eu apertasse meu nó em volta de seu pescoço e ele sustentasse minha perna esquerda em seu braço direito.
Depois de provavelmente marcar meu pescoço - o que interpretei como uma espécie de vingança -, ele levantou minha saia, tirou minha calcinha e ao mesmo tempo em que apertava minhas coxas e bunda sem resquício algum de pudor ou receio, aumentou o nível de minha lubrificação natural friccionando seus dedos em círculos sobre meu clitóris enquanto mordia meus seios e fazia minha sanidade sair para um passeio bem longe dali. Prendi a respiração e fui atingida por uma leve pressão ao senti-lo penetrar dois dedos em mim, com cuidado para não me machucar (eu não disse que ele era um doce?), iniciando um movimento de vaivém de-li-ci-o-so que juro que arrepiou até os pêlos que nem haviam nascido em meu corpo, uma vez que já havia introduzido-os por completo em meu canal. Em nenhum momento ele deixou de me beijar, mordiscar, morder ou me apertar em todos os lugares apertáveis, mais que um adendo ao movimento de seus dedos dentro de mim, que quanto mais impetuosos se tornavam, mais alta e expressivamente descarregavam suas conseqüências nos meu gemidos, o que o levou a soltar minha perna para tapar minha boca com uma das mãos em algum momento com o intuito de abafá-los antes de calá-los completamente ao enrolar sua língua na minha e voltar a sustentá-la.
- Hey, Brandon, você está aí, cara? – Escutamos alguém bater na porta e em seguida forçar a maçaneta para baixo, o que causou o congelamento instantâneo de nossos músculos, nos fez descolar nossas bocas desesperadas com um estampido e ele parar de me penetrar por um instante. – Brandon?
- Shh – ele chiou, colocando seus olhos lascivos nos meus que não estavam nem um pouco diferentes, dando a entender que era para eu não fazer barulho.
Embora eu tivesse entendido seu recado, foi quase impossível executar tal ação quando seus dedos voltaram a entrar e sair de dentro de mim com uma agilidade que me abalava e arrancava qualquer vestígio de controle do meu corpo, então acabei pressionando minha testa suada contra seu tórax que estava da mesma maneira, soltando o ar a cada investida dele, engolindo todos os meus gemidos com dificuldade. Inúmeros frêmitos passaram a me acometer desgovernadamente, um atrás do outro e eu acabei por mordê-lo sem querer, fazendo-o grunhir em resposta.
Ouvimos a pessoa do outro lado da porta se afastar dizendo a alguém que esta estava trancada e provavelmente não havia ninguém lá dentro. Foi aí que eu mandei tudo se danar e gemi para valer, descendo minhas mãos para sua bunda. Não tinha mais controle algum sobre meus movimentos, meus cabelos estavam grudados em minha nuca e testa e meu quadril passou a dividir trabalho com os dedos de Brandon ao se mover praticamente sozinho, porque eu não sentia como se estivesse mesmo fazendo aquilo por estar completamente absorta nas ondas de calor e satisfação que se misturavam dentro de mim. Seguindo nesse passo, não demorou muito para que essas ondas virassem tsunamis avassaladores de prazer e eu mordesse meu lábio inferior com força, libertando-o de meus dentes um milésimo de segundo depois para gemer com mais vontade em seu ouvido. Cravei meus dedos com força em suas nádegas descobertas ao inclinar minha cabeça para trás e comecei a ofegar loucamente enquanto meu orgasmo se esvaía aos poucos, me fazendo relaxar os músculos. Meu peito subia e descia como se nunca mais fosse parar, abrigando um coração altamente descompassado, quando ele voltou a me beijar, mais calmamente dessa vez.
- Eu tenho que ir, estão procurando por mim e os caras devem ter ficado esperando lá fora esse tempo todo, se perguntando que porra eu estava fazendo! – ele partiu o beijo e disse mais a si mesmo do que para mim. Ué estava exatamente fazendo por...Okay, eu me calo. Brandon largou minha perna, forçou meu corpo completamente molenga para trás e eu me apoiei como pude onde estava sentada para não tombar, ainda arquejando, enquanto ele ia até o banheiro que havia ali e lavava as mãos e o rosto antes de recolher suas roupas espalhadas pelo recinto. Não tentei segurá-lo ou impedi-lo de qualquer outra forma, meus músculos não estavam providos de forças suficientes para isso depois serem tomados pelo cansaço.
Porra, imagina quais seriam minhas condições se ele tivesse usado algo além das mãos e da boca para me fazer chegar lá!
Enquanto ele se vestia, eu busquei a chave da porta e seu celular em minha bolsa. Entreguei o último a ele com um sorrisinho sacana despontando em meus lábios, dizendo que ele poderia me ligar quando estivesse na cidade e quisesse repetir a dose ou até mesmo aumentá-la, depois de ouvir uma série de reclamações dele por eu ter escondido seu telefone durante aquele tempo todo. Francamente! Ele não podia reclamar, eu nem havia chantageado-o com a porcaria do celular. Para você ver como a carne era mesmo fraca.
- Mas desde quando eu tenho seu número? – ele indagou, confuso, ajeitando a gola de sua camisa e segurando o aparelho.
- Desde que eu o anotei aí! – eu respondi, num tom de voz sapeca e satisfeito com minha própria façanha. – Fiquei triste em saber que ele não estava mais aí. E olha que legal, eu sou única na sua agenda! – concluí, como se aquilo realmente tivesse muita graça e sorri, radiante, enquanto vestia meu sutiã que havia acabado de pegar do chão com a mesma mão que segurava as chaves e voltava a me aproximar do monumento de homem que era Brandon Flowers.
- Você é mesmo maluca, eu não vou te ligar, eu sou casado, você não entendeu? – ele disse, acho que começando a recobrar sua consciência e retomando seu discurso de bom samaritano, dando um passo para trás e esbarrando as costas na porta ao fazê-lo.
- Desculpa, é que não me pareceu muito... – aticei-o e me aproximei de uma vez só, colando meus lábios nos dele com as mãos para trás, e iniciando um beijo afoito, mas sem muito contato corporal, que ele correspondeu por breves segundos antes de me empurrar.
- Onde estão as chaves? Vamos, me deixe sair daqui.
Se ele mesmo não sabia o que queria, não era que eu ia adivinhar, então mostrei-lhe o que pediu.
- À vontade! – eu disse e sacudi as chaves bem próximo de seus olhos. Que boazinha eu era, nem havia mandado-o pedir com educação. – Embora seja uma pena.
Num ímpeto ele arrancou as chaves de minha mão e em outro destrancou a porta e saiu, sem ao menos dizer tchau. Eu não me importei, tinha conseguido o que eu queria e isso era o suficiente para me fazer sorrir, extremamente realizada e feliz, até que sentisse o canto de meus lábios querendo rasgar.
Não sei como ele se virou, ou qual a mentira que inventou depois que foi embora, só penso que não deve ter soado muito convincente já que a região ao redor de sua boca estava quase toda marcada por meu batom vermelho, muahahaha! Que perigo, Brandon! Creio que a culpa tivesse começado a fazer efeito mais rápido do que eu previa e ele ficou tão afobado para dar o fora que saiu sem checar sua face no espelho. Isso porque ficou em frente a um o tempo todo enquanto me enlouquecia... Milagres como Brandon Flowers, um cara absurdamente vaidoso, não se olhar no espelho poderiam acontecer quando eu estava por perto, então!
Na sua pressa em ir embora, ele não notou um detalhe que eu notei, mas não fiz vir à tona propositalmente. Justamente porque eu teria que apresentá-lo como prova a no prédio ocupado por alguns guardas de trânsito, depois da meia-noite, quando ela já estava sem Ryan (que a propósito encontrei ao sair dali e me xingou horrores, me acusando de ter roubado sua credencial já que recobrara pelo menos metade dos sentidos por estar menos embriagado e não se amassando com , e menti, dizendo que não tinha roubado porra nenhuma, com a credencial metida dentro da bagunça de minha bolsa). E o tal detalhe era nada mais, nada menos do que o paletó de Brandon, que ele deixou para trás justamente porque havia ido parar atrás do sofá quando ele o arremessou e somente um pedaço dele, que minha visão perspicaz enxergou, sobrou à vista.
Claaaro que deu um faniquito profissional quando viu o que eu estava carregando e as pobres almas restantes naquele velho edifício ficaram nos olhando torto, como se fôssemos aliens. Quando consegui acalmá-la um pouco, ela tomou a peça de roupa das minhas mãos e enquanto a alisava e cheirava disse:
- Porra, isso deve valer um milhão no eBay!
Eu quase sufoquei de tanto rir falsamente. Como se eu fosse considerar vender aquilo no eBay, que piada! Ele podia ter levado o celular, mas o paletó dele era meu e eu não tinha a mínima intenção de devolver ou vendê-lo. Francamente, eu não havia roubado, aquele provavelmente não era o único e ele podia mandar fazer outro se quisesse. Enquanto isso, com certeza poderia sobreviver uns shows sem vesti-lo. Tipo todos.
Não fui para casa muito tarde (isso quer dizer antes de amanhecer) naquele dia, me distraí fumando uns e depois em um pub que ficava aberto durante a madrugada com , mas não permanecemos muito tempo lá e ela voltou junto comigo. Dividimos um táxi, já que fomos embora após sermos informadas de que ela só poderia resolver a situação de seu veículo mais tarde, de qualquer jeito, não importava o quanto insistisse. E, se por um acaso você está se perguntando, não, ela não foi guinchada junto com o carro, mas acompanhou o caminhoneiro em uma viagenzinha, deixando o americano para trás, porque seu carro era mais importante. Não, pelo amor de Deus, ela não se enroscou com o caminhoneiro, não era pra tanto! Será que ele havia chamado-a de 'princesa' também? HA!
No mesmo dia, enquanto eu alternava minha atenção entre observar as novas pontas duplas de meu cabelo - anotando em minha mente que ele tinha de ser hidratado urgentemente - e dar risadas de The Big Bang Theory que estava sendo exibido na TV, pensei no fato de Brandon nem me ligar ao menos para me dizer que eu havia arruinado sua vida, furtado sua roupa ou algo do tipo, e me perguntei se não deveria estar me sentindo insuportavelmente culpada por me envolver com ele sabendo que era casado. Eu me sentia deleitada, satisfeita, encantada e tinha muita vontade de comer chocolate e tomar suco de morango, mas não me sentia culpada nem forçando! A culpa se desintegrava inteiramente na memória do mar de coisas que ele havia me feito sentir na noite anterior.
Eu continuaria a ter meu estilo de vida em qualquer lugar Terra, no final das contas. Não havia por que tentar me enganar, seria ridículo eu me fazer de rogada. Tinha alguma dignidade, sim, se você me considera indigna, sabe, mas vamos dizer que ela não esteve muito presente nessa parte da minha vida, isso é, se você achar que eu era algum tipo de prostituta não paga e fosse julgar pelo que eu sentia ao agir. Se você quiser aglutinar tudo isso na palavra “groupie”, vá frente, mas é que detesto as definições erradas que dão a esse substantivo de vez em quando.
Eu sou uma garota como qualquer outra, mas que culpa eu tinha, e ainda tenho, se os homens "comuns" não me incitavam nem a metade do que os caras de banda incitavam? Não que não me incitassem, mas era algo ridiculamente diferente.
Que se fodesse a Tana (repito, isso é nome de gente?). Eu não me importava com os sentimentos dela, nem os dele, e muito menos os meus, que inexistiam, de certo modo. Eu era do tipo que sempre me importava com as sensações – quero dizer, sexo e qualidade musical - nos meus envolvimentos com os caras das bandas. Pobre de mim se me apaixonasse por eles, sério, era a última coisa que eu queria, fosse o fodão que fosse. Não valia a pena se o cara não sentisse o mesmo por você antes.
Além do mais, essa Tana não era nem insana de vir até mim se queixar se descobrisse, o errado era o marido dela e não eu, que tinha nada a ver com ela. Quem tinha era ele, os dois que se resolvessem entre si! Aliás, por que eu estava pensando nisso? Rapidamente substituí esses devaneios imbecis que rondavam minha mente por um único verso da letra de Boyfriend, da Ashlee Simpson, a mesma música que ironicamente cantei antes de sair de casa no dia anterior, mas a alterei, o que me fez rir um pouco de mim mesma, esquecendo que a graça devia estar no seriado que passava.
... Don't put words up in my mouth, I didn’t steal your husband!
Third - Part I
Come get fucked up! Gimme the alcohol!
ATENÇÃO! Esta parte do capítulo contém cenas homossexuais. NÃO PROSSIGA se não se sentir à vontade para ler esse tipo de coisa e tenha consciência de que a responsabilidade é toda sua se o fizer.
Mania de grandeza. Isso foi algo que eu sempre tive, desde criança. Pelo menos se tratando de aspirações. Eu mal devia ter dentes para triturar alimentos, meu vocabulário era escasso e eu precariamente conseguia balbuciar palavras, mas isso já era o suficiente para que eu praticamente invertesse os papéis e mandasse nos meus pais. Eles tentavam pôr regras, mas, no final, eu é que acabava ditando as ordens.
Creio que tenha sido assim a vida toda. Eles nunca tiveram coragem para me negar muitas coisas. E, se negavam, eu sempre batia o pé até que a vitória fosse minha. Sempre era. Afinal de contas, eu era a princesinha deles, ainda que fosse a rainha da casa. Eles gostavam de pensar que era o contrário, mas acho que, bem lá no fundo, eles sabiam que falhavam como pais quando o assunto era impor barreiras e limites ao meu livre arbítrio.
Não é tão difícil apossar-se do lugar mais disputado na hierarquia do lar de uma família bem afortunada quando não se tem irmãos e se é bom no drama. Eu atuo que é uma beleza, Hollywood rastejaria por mim se descobrisse meu inato dom. Falo sério!
Há alguns anos atrás nós havíamos tido a discussão mais tenebrosa desde que eu havia nascido, até onde eu me lembro. Tudo por causa de uma enrascada das grandes na qual eu havia me metido. Das grandes mesmo, aquelas gigantes, que te perseguem e habitam sua mente até o dia em que a morte chega e toma por direito sua consciência.
Não era algo que eu havia desejado, no entanto. Daquela vez, eu juro que não havia acontecido propositalmente, mas eles insistiram que havia sido culpa da minha falta de limites e do buraco imenso que a irresponsabilidade havia cavado no meu cérebro. Da minha errônea ilusão adolescente que sorrateiramente me fazia acreditar que eu era imortal, inatingível, invencível e que podia fazer tudo que eu quisesse, na hora em que eu quisesse. Culpa da minha tal mania de grandeza.
Depois de jogarem infinitas verdades – segundo o julgamento deles – na minha cara como nunca haviam feito antes, abusando da rudeza e do tom de voz mais severo que podiam pôr em prática, eles deram o berro final, dizendo que meu comportamento era absurdo e tinha de acabar. Eles colocariam um ponto final naquilo porque aquele meu descaso com o mundo ao meu redor, o fato de eu nunca me importar com as consequências dos meus atos, era inaceitável.
Acredito que eles queriam ter feito aquilo há muito, muito tempo. Guardar aquela diarréia verbal, que eles descontaram de uma só vez em mim, por quase 17 anos, não deve ter sido uma tarefa fácil. Com certeza foi preciso muito autocontrole. Ou medo. Talvez eles tivessem medo das minhas reações, mas se esqueceram disso naquela noite.
Acontece que eu os fiz lembrar, sabe. Botei a casa abaixo. Quebrei quase tudo que estava ao meu alcance e era “espatifável” como se fosse a líder de um grupo de rebeldes anarquistas antes que meu pai me contivesse ao me pegar brutalmente pelo braço, sacudir-me aos berros, arrastar-me até meu quarto, no segundo andar da nossa casa, e me trancar ali. Tudo bem, confesso que nesse momento quem ficou com medo fui eu.
Era mais mágoa do que medo, na verdade. A força dele ao me segurar fizera meu braço doer, mas era como se a dor física somente se manifestasse mais intensa por pura pressão da dor sentimental, que também se fazia presente. Um tanto estranho. Acho que o que o sentimento que tomou conta de mim naquela hora ainda não tenha um nome para que eu possa ser mais específica.
Isso tudo durou até o minuto em que tranquei a porta do meu refúgio, me sentei no parapeito da janela e ameacei encerrar minha curta passagem pela vida ali.
A vizinha fofoqueira da frente havia acabado de estacionar seu carro esportivo em frente a sua casa de grama e cercado impecáveis. O carro dela era bem feminino e cheio de coisas de bebê espalhadas em seu interior, como o aviso “Luke a bordo” em letras coloridas e garrafais no vidro de trás (Luke era o nome do filho dela), e também umas parafernálias da Betty Boop, como o adesivo na grande traseira prateada do veículo, ao lado de um dos faróis. Eu odeio a Betty Boop, e sabia de tudo isso porque quase vomitara no painel daquele carro na vez em que ela resolvera me dar uma carona e infelizmente eu decidi aceitar. Eu estava meio de ressaca e quase vomitei com o cheiro de leite azedo no meio do caminho já que o filho dela estava com o babador gorfado enquanto sorria inocentemente e babava para mim.
Pois bem, a intrometida saiu do carro, tirou Luke da cadeirinha e ver-me ali foi o bastante para que ela armasse um alarde que chamou a atenção dos meus pais para o lado de fora da casa e os fez parar debaixo da minha janela, desesperados. Isso depois de papai forçar a porta do meu quarto e não obter sucesso em destrancá-la. Ele nem ao menos tentou arrombá-la, que imbecil!
Os dois, do lado de fora, imploraram para que eu não pulasse. Disseram que me amavam mais que qualquer outra coisa no mundo, até usaram os apelidinhos de muito mau gosto que eles costumavam me dar em momentos familiares e, por algum motivo, eu fingia amar. Alegaram que haviam exagerado ao dizer aquelas coisas; que me apoiariam sempre no que eu decidisse fazer e no que eu achava que fosse ser o melhor para mim.
O que chegou a ser meio estranho e me fez olhá-los confusa porque, bem, pais têm mania de achar que sempre sabem o que será melhor para os filhos e a maioria deles serve como um tipo de guia para a vida. De alguma forma, eles tinham que me orientar, não?
Não. Pelo menos não totalmente.
Claro que eu não pularia, eu tinha muito medo da morte. E ainda tenho. Quase explodo de amor por estar viva e viver. A idéia de não poder mais fazer isso quase me faz chorar de aflição, então prefiro não dar muito espaço para a ceifadeira na minha mente.
Eu estava tão boa encarnando meu papel naquele dia que um montinho de vizinhos se aglomerou em frente à minha residência e até os bombeiros apareceram para tentar frustrar minha falsa tentativa. Só faltou a imprensa. Eu teria gostado dessa última parte, confesso.
Estava tão desesperada quanto meus pais, na verdade, e completamente perdida, por isso eu precisava da ajuda deles o suficiente para abrir mão do meu egoísmo. Mas nada era suficiente para me fazer querer interromper minha própria vida. Sem contar que eu vi Luke no colo da vizinha e quase pulei mesmo – não simpatizo muito com crianças - mas resolvi que ele era muito novinho para ver uma cena de morte sangrenta, temporã, e talvez crescesse com algum tipo de trauma. Esquisito foi eu ter me preocupado com o psicológico do menino.
Até que eu me diverti! Fiquei com dó do pessoal crente de que eu queria me desmontar no chão. Francamente, o máximo que aconteceria comigo ao pular dali seria quebrar alguns ossos!
Até hoje me pergunto como meus pais podem ter dito que eu tinha descaso com o mundo, só pode ter sido piada! O mundo é minha coisa favorita no mundo todo!
Certo, é quase impossível negar que minha mania de grandeza toma conta de mim na maior parte do tempo. Porém, de vez em quando, eu tenho meus momentos filosóficos e paro para refletir sobre como sou imbecil por pensar que eu sou a coisa mais importante do universo e me basto.
Mais difícil, eu diria inevitável, era manter essa opinião quando eu tinha o oceano à minha frente e o horizonte ludibriando minha visão ao se disfarçar de reta final, como se toda aquela vastidão de água e o mundo acabassem ali. Ou quando o céu estava tão cheio de estrelas que me fazia ter a impressão de estar vagando entre elas, flutuando no Espaço.
Às vezes nem é preciso ir muito longe em busca de algo extraordinário que te mesmerize e te faça perceber o quanto você pode ser insignificante embora signifique alguma coisa ao mesmo tempo (dá para entender?). O entardecer, por exemplo. De vez em quando, não é necessário sair de casa para apreciar uma performance estonteante de matizes enfeitando o céu. Dos mais claros aos mais escuros, compostas por aquele azul que no fim vira roxo, o laranja que se confunde com o amarelo, tropeça no vermelho e às vezes enfraquece até atingir aquele rosa adorável que torna tudo mais bonito ao contornar as nuvens branquinhas. Todos os tons disputando espaço como se o céu não fosse grande o suficiente para abrigá-los simultaneamente.
Eu adoro céus de baunilha. E adoro quando eles ficam inteiramente rosa, parecendo aquelas paisagens editadas que a gente acha pela internet eventualmente e que vêm de sample quando compramos porta-retratos. O entardecer é o momento mais bonito do dia. Só é uma merda para dirigir, porque a claridade não se define, minhas pupilas parecem não se ajustar e eu não enxergo nada direito, sério. Fico mais suscetível a bater o carro nesse horário, e isso quase se efetivou uma vez no centro de Londres.
Claro que eu sempre fui uma amante da noite. Acho que essa é a razão por trás da minha paixão pelos entardeceres. Sempre que eu me lembro de parar para admirá-los, eu os interpreto como um tipo de sinal. Se são extremamente belos, é porque a noite promete uma experiência ilustre para o meu acervo de memórias. Quase nunca falha.
Aleatório.
Esse treco todo de céus de baunilha e blá, blá, blá, eu quero dizer. Talvez, para você, seja um pouco impressionável, sabe, ter espaço na minha cabeça cheia de superficialidades para fazer essas análises relativamente profundas.
Mas eu não sou tão vazia quanto pareço. E não tinha como pensar em outra coisa quando eu estava mergulhada em uma das minhas visões favoritas, ainda que estivesse a observando através de uma enorme janela de vidro antes debaixo de persianas na cor creme. O vidro era tão devidamente limpo que enganava meus olhos e dava a impressão de que eu cairia se eu me inclinasse um pouco para frente, mas eu sabia que acreditar nisso seria um tanto trágico de minha parte, já que as pontas de meus dedos apoiadas ali me davam garantia de segurança.
Eu não conseguia tirar meus olhos das luzes pequeninas e amareladas acolhendo algumas mais coloridas que infringiam o padrão e pertenciam aos milhares de prédios dos mais variados tamanhos. Estes contornavam o desenho de um retângulo verde que parecia ser engolido por todo aquele concreto e indigesto em meio a tanto cinza. Dali a alguns meses todo aquele verde começaria a pegar fogo e empalideceria até ficar sem cor.
Eram tantas, mas tantas luzes formando desenhos abstratos, tortos e incompletos que, como eu já estava encarando a paisagem há muito tempo, minha visão corria o risco de turvar-se a qualquer momento e unir todas elas em uma só. Aquela iluminação artificial excessiva atrapalhava a naturalidade das estrelas e uma ou duas pareciam desinibidas o bastante para se exibirem, mas eu não me importava. Os milhares de pontinhos luminosos já eram como estrelas pra mim, e todo aquele dourado envolvendo alguns prédios, sendo refletido pelos que eram espelhados, pareciam não fazer questão delas. Engraçado como a gente sempre liga as luzes antes que a noite tenha caído totalmente.
Esparramei-me no estofado que estava atrás de mim e suspirei. O entardecer estava estonteantemente deslumbrante, mas eu não estava nem um pouco perto de casa, no entanto. Não era primeira vez que eu tinha o privilégio de presenciar aquilo que era uma das definições de perfeição para mim, mas toda vez era como se fosse a primeira. Era absolutamente hipnotizante.
Manhattan.
Hipnose não é um trabalho muito árduo para esse lugar, e creio que quase o mundo todo saiba disso. Tudo é absolutamente hipnotizante ali, incluindo os cenários mais deteriorados, sujos, com a pintura descascada e pichações poluindo todos os cantos. Aqueles que turistas, como eu, não conhecem muito. Mas eu conhecia alguns, juro que sim. Longas histórias. Não era minha estréia naquela metrópole. E eu não estava planejando morrer tão cedo, conclusivamente, com toda certeza, estava bem distante de ser a última.
Sinto que sou metade nova-iorquina, sabe, apesar de não gostar muito dos americanos. Não estou generalizando, há as exceções. Mas a maioria é muito chata e cheia de si, argh. Tá, eu também sou cheia de mim, mas é diferente. Não sei explicar, mas alguma coisa na essência deles me dá repulsa.
É bem engraçado e contraditório, isso, porque a Grande Maçã era como a minha segunda casa e de vez em quando eu morria de vontade de empacotar tudo, fazer as malas correndo antes de pegar o vôo mais próximo e nunca mais sair do meio daquela aglomeração de cimento. Mas isso era só um impulso. Por algum motivo, eu parecia ainda não estar tão pronta assim para abandonar minha clássica e congelante Londres.
Era como se a cidade precisasse de mim e eu também precisasse dela. Londres é muito mais legal quando me tem para perturbá-la em tempo quase integral.
Escutei a voz desafinada e cantarolante de decolar do banheiro e pousar diretamente em meus ouvidos e me perguntei quando ela iria desativar o repeat no iPod. Eu adorava aquela banda, adorava aquela música, mas se eu tivesse que escutá-la mais algumas vezes seguidas ela ficaria chata ainda que fosse muito boa. Digo isso porque, se eu não havia errado os cálculos, era a enésima vez que ela escutava tal música naquele dia, ou um número muito perto. Não vou nem considerar contar as execuções do dia anterior.
No entanto, ainda que já estivesse quase me cansando, a melodia envolvente que preenchia o ambiente minuciosamente decorado no qual eu me encontrava insistia em repuxar o canto dos meus lábios em um sorriso que quase não era um quando minha mente a coligava com a imagem do pôr-do-sol.
Acho que ela estava fazendo de propósito, a . Esse negócio todo de estar ali combinar com a música e tal. Quero dizer, nós estávamos rodeadas por cinza moderno e cinza arcaico em quase toda a parte dentro da ilha, que menos cabia no conceito de ilha na Terra, e ela estava aparentemente viciada em selecionar aquela música que tinha o nome do lugar quase o tempo todo desde que estávamos ali.
Manhattan, esse também era o nome da sequência de acordes.
e sua fissura por Kings of Leon. Juro, ela é louquinha pelo Caleb, o frontman. Sim, aquele gostoso dos cortes de cabelo irregulares que pareceriam cafonas em qualquer outra pessoa, mas até que se dão bem com os traços dele. Ela adorava quando o nome dele estava em pauta em alguma conversa entre nós e nossas amigas.
Gostava de imaginar que se ela visse esse cara de perto teria um faniquito dos grandes, sabe, daqueles de fanáticas platônicas que choram e tudo mais, como aquelas tietes das bandinhas adolescentes. No meu devaneio, ela era desacordada por uma sequência de AVCs e ia parar no hospital, transportada por uma ambulância. E quando acordava, ficava em estado de choque por um bom tempo.
Deixe-me dizer que muito mais provável seria ela acabar tendo uns AVCs na cama dele, é claro. Sem contar que ela sairia no lucro por ser uma situação mil vezes mais prazerosa para ela. Para os dois, aliás. Eu sei do que falo. não é do tipo que deixa a desejar, não mesmo.
Fantasiando uma versão mais real da história, se ela se estivesse na presença de Caleb Followill e ele a notasse, lançando-lhe um olhar a mais, suas pernas já estariam abertas como se fosse um reflexo corporal. Como quando batem em um ponto específico de um joelho que está sobre outro e metade da perna se levanta, sabe? Então, mas no caso seria: Caleb bem intenciona suas más intenções e escancara as pernas como se fosse uma piranha de marca maior, ou uma tapada que não tinha um orgasmo há mil anos e estava ávida por foder. Não que a gente não fosse um pouquinho piranha, mas, né... Pois é.
Não podia tirar a razão dela, era totalmente compreensível. Eu também não faria muita cerimônia, não, se ele quisesse ir além de me despir com os olhos e resolvesse que gostaria também me despir com as mãos. Eles são todos bem atraentes naquela banda, não é preciso muito esforço da parte deles para que garotas como eu cedam qualquer privilégio restrito escondido atrás de pedaços de pano que tenhamos a oferecer. Provavelmente isso tenha algo a ver com os quatro partilharem do mesmo sangue, sabe. Essas coisas de genética e segredos de família. Quem sabe eles tinham alguma receita, posição exclusiva, essas coisas, na hora de fazer filhos. Vai saber.
Se te interessa, olha só que curioso, nós já havíamos assistido a alguns poucos shows dos caras. Mas nós estávamos com outros caras e no fim das contas não rolou Kings gf Leon na intimidade pra nenhuma, ainda que houvesse rolado o adendo after party. Isso soa estranho para você? Para mim também, às vezes.
A primeira vez que os vimos tocar fora em um festival, num dia quente para a Inglaterra, eu me lembro. Mas nós nem demos tanta importância. A nem era tão doida pelo Caleb ainda e eu tinha uma grande diversidade de membros de banda para escolher, então não era como se eu me importasse muito.
Nesse dia, há anos atrás, nós nos penduramos nos pescoços dos caras do Razorlight, o que foi tipo um remember porque não foi a primeira vez. Não rolou nada de mais além de umas cervejas num pub no qual eu nunca havia estado até então, alucinógenos e uns dedos embrenhados nos cabelos em constante mudança, mas que sempre aparentavam estar precariamente lavados, de Johnny Borrell e aquela cara de mal acabado, recém-saído do hospício, presídio, rehab ou qualquer coisa que valha, dele. O costumeiro.
Quando eles entraram em turnê, pouco tempo depois, e eu passamos metade dela percorrendo o Reino Unido ao seu lado. Ou seja, minha cota de shows do Razorlight já estourou faz tempo. Johnny é um merdinha que acha que é a salvação do pop britânico e insiste em ter seu próprio ônibus, camarim e essa porra cheia não-me-toques toda. Na ocasião em que e eu estivemos presentes, foi exatamente assim. Os Razorlighters se dividiram em dois ônibus – satisfazendo as vontades de Sir Johnny Borrell -, entre os que cheiravam pó e os que não. O ônibus “descocainado” era o do Johnny, e o resto da banda viajava no “cocainado”. Com exceção das noites em que dormimos juntos na estrada, mandei-o enfiar seu ônibus limpo de drogas no cu e me alojei no outro. Não disse assim diretamente, mas acho que ele entendeu o recado e, por incrível que pareça, respeitou minha escolha.
Johnny nem é lá aquelas coisas de rosto, reparando bem. Ele é lindo, mas de boca fechada. Os dentes dele não são dos mais alinhados; ele com certeza fez vista grossa para todos os tratamentos ortodônticos que lhe foram apresentados ao longo de sua vida. E, bom, parecer saudável naturalmente é algo meio difícil quando a bebida interfere de forma pesada constantemente. Claro, tem toda aquela história de ele ter largado as drogas e blá, blá, blá, mas ele ainda bebe bastante e queima uns de vez em quando. Com menos freqüência, creio eu, mas ainda queima. Só fica longe do pó. Ou ainda tenta. Acredite se quiser. Pelo amor de Deus, ele é um rockstar, faz parte de uma das bandas indie mais bem criticadas, aceitas e hype da história da Inglaterra.
Não há como ficar tão distante e tampouco totalmente limpo dessas coisas quando se está nesse meio. É como conseqüência. Não que todos se tornem viciados destruidores de suas próprias vidas, mas a grande maioria já se aventurou pela terra desgovernada e sinuosa das alucinações, euforias e depressões. E a maconha, perto do que Johnny já havia consumido, era como bombom nas mãos de uma criança obesa, não fazia lá tanta diferença. Fico feliz que, de certa forma, ele tenha se salvado.
Johnny é também meio arrogante, mas eu desconsiderei isso porque ele é super inteligente e culto, então isso meio que lhe dá direito a esse tíquete-arrogância-, compreende? Deixa esse aspecto bem instigante. O homem teve uma educação boa, até onde sei, e digamos que suas peripécias no tão falado cenário musical e underground londrino colaboraram bastante, eu diria quase completamente, para ele ser o que é hoje - apesar de ter se picado como louco e cheirado até o nariz quase cair durante grande parte de sua adolescência. É bem compreensível. Talvez fosse só aquela fase rebelde sem causa, meio Jim Stark, que todo mundo tem, com ou sem drogas provocando tropeços e arranhões no caminho. Ou talvez, como eu já disse, ele tenha se envolvido com as drogas por pura influência do tipo de pessoas com as quais andava e lugares nos quais tocava e frequentava.
Ele exerce as funções dele na banda otimamente bem com suas guitarrices, composições que fazem a cabeça dos críticos e sua voz com um quê de mongolice, meio pra dentro, um tanto característica de rock dos anos oitenta na minha concepção. Não sei definir muito bem, mas me lembra isso. Sempre que sintonizo nessas rádios de clássicos sinto que a voz dele poderia ressoar das caixas de som a qualquer momento, versando alguma melodia do Razorlight que faça mais o estilo da época, por pura confusão do locutor causada pelas vibrações das pregas vocais dele. Talvez eu seja a única pessoa a achar isso.
O lado fashionista dele é bem satisfatório, mas não é dos mais originais. Aquela mesma coisa das calças apertadas, os blazers e tal. Contudo, o físico compensa. De verdade. Borrell mantém um abdome que eu jamais recomendaria desperdiçar e sabe usar seus bens físicos muito bem.
, naquele mesmo dia do festival, acabou por se enroscar com o Carl, o sueco bonitão, e outras duas amigas nossas se encarregaram do outro sueco de nome estranho que parecia o da Bjork, e do baterista.
Nós damos o selo de aprovação ao Razorlight! Com direito a piscadela marota-cafona e tudo. A Kirsten Dunst, aquela que faz a Mary Jane na série de filmes do Homem-Aranha e parece fazer todos os filmes do mundo, aprovou o Johnny também. Depois de mim, claro.
Acho que já deu para ter uma noção das ocorrências Razorlighters, o que me leva a dar um chega pra lá no assunto, porque o enfoque inicial planejado por mim não estava no Razorlight, e sim, nos Kings of Leon.
Para começar, eles fazem um som bem identificável, que se a gente ouve uma ou duas músicas já consegue reconhecer quando alguma nova aparece. Bem daqueles que muita gente escuta pela primeira vez, acha estranho e algumas semanas depois está espalhando por aí que são “do caralho”, “foda” e todas essas expressões eloqüentes que tentam fazer jus ao que se sente e pensa. Se você disse isso uma vez, provavelmente dirá muitas outras a cada vez que eles te cativarem com algum detalhe diferente - seja nas músicas, trejeitos, clipes, enfim. Isso significa que as músicas desses americanos serão títulos constantes na sua playlist de recém-tocadas no iTunes por bastante tempo, entre outras coisas que fazem parte dos hábitos de quem escuta música quase vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
Não posso deixar de lado o efeito narcótico infiltrado em cada arranjo. Ainda tem muita gente por aí que gosta de ficar no barato ao som de Reggae, mas eu sempre achei uma bosta essa ligação toda aí, sinceramente. Nunca fui com a cara do Bob Marley. Não sou dessas. E Juro que se você puxa uns escutando Kings of Leon o barato é muito mais gostoso, pelo menos no caso de algumas músicas. Mas a erva só aumenta o efeito relaxante delas. Porque se tais canções possuem o efeito narcótico individualmente, por conseqüência elas conseguem desprender nossos pés do chão e levar a mente para um passeio por terras criadas por nossas próprias mentes temporariamente lesadas em sintonia com um beck.
E o efeito sexual. Cacete, o efeito sexual! Por experiência própria, eu te garanto: depois de uma daquelas ao som desses quatro homens de Nashville unidos pela mesma árvore genealógica sua vida nunca, nunca mais será a mesma e você desejará repetir a dose sempre que tiver a oportunidade. Leve isso a sério, por favor.
E não quando digo isso, não me refiro somente a Sex On Fire, que tem um nome sugestivo. Kings Of Leon é uma das bandas com o mais alto teor de sexualidade embutido que eu já escutei. A letra não precisa falar de sexo, necessariamente. Chega a ser ridículo eu ressaltar isso, não é preciso, sejamos francos. Basta reparar no elemento mais saliente das músicas e ali está o segredo, a beira do precipício. A banda não seria a mesma sem Caleb para entoar os versos. É como se a voz dele fosse feita para as músicas e as músicas fossem feitas para a voz dele. Seriam incompletas e perderiam a magia uma sem a outra, sem aquele aspecto desafinado. A voz dele é unicamente única e me causa arrepios, me arranha por dentro. E não só a voz; novamente concordo com a minha melhor amiga. Ele é um arrepio, daqueles bem deliciosos que faz a gente se tremer toda, ambulante. E o irmão dele, Jared, é mais. Muito mais. Garantidamente.
Juntando a família peculiar de músicos peculiares, as canções cheias de elementos peculiares - sendo assim completamente peculiares-, e os sintomas bem peculiares causados nos ouvintes, temos uma banda, obviamente, extremamente peculiar. Não vou tentar descrever mais porque posso estar estragando toda essa peculiaridade ao tentar externá-la em palavras.
O mais legal de tudo é que eu conseguira vips pro show deles dali a dois dias no Madison Square Garden com Nick, um amigo íntimo meu de alguns anos que trabalhava no show biz. Agora me perguntem se Juliette conseguia segurar a periquita de ansiedade...
Mudei minha posição ao deitar-me de costas no divã creme em frente à janela, onde eu antes repousava de bruços, com as mãos pendendo no encosto. Meu rosto refletido no vidro dava a ilusão de ser um fantasma que estava a assombrar a metrópole e se encontrava completamente inchado e amarrotado. Meus cabelos não estavam muito diferentes. E ainda tinham o adendo de estarem embaraçados e levemente armados para completar o meu look maravilhosamente inspirado nas últimas tendências da ressaca nova-iorquina ao compactuarem com meus olhos expressivos, decorados pelos grudentos vestígios borrados do rímel e do cajal que haviam enfeitado a área simetricamente e feito companhia a outros desenhos de maquiagem durante a madrugada.
Eu havia bebido bastante na noite anterior, embora não tivesse misturado muito, mas minha cabeça não doía. Eu só estava morrendo de fome e levemente cansada. As meninas e eu havíamos ido a uma festa maluca do CSS no The Studio @ Webster Hall e dançado como um bando de travestis sem controle as músicas que eles tocaram. Eles fizeram um show bem curtinho no começo e depois ficaram lá como DJs, foi divertido. Pelo menos até a parte da qual me lembro, que foi quando eu comecei a rir escandalosamente na cara de um homem do qual não recordo a fisionomia e estava tentando me ganhar no balcão do bar quando fui pedir outra Heineken, antes que me puxasse de volta à pista de dança. Eu quase sempre faço isso com os caras, acho que sou mais má (mas de um jeito divertido) quando estou bêbada. Daí pra frente, minha mente apagou tudo.
Qualquer criança dos anos noventa que me visse pensaria que eu era algum tipo de louca maquiada como o Tio Chico da Família Addams fugida de uma festa de Halloween atemporal.
A cigarreira prateada ao lado do abajur clássico sobre a mesinha de canto cor de madeira reluziu à minha visão periférica roubando minha atenção por um momento, e revelou uma pequena fileira horizontal de cigarros Vogue Bleue encurralando um isqueiro Cartier preto com detalhes dourados em um dos cantos.
Tirei dali um dos cigarros especialmente finíssimos e alongados e segurei o filtro entre meus lábios com a ajuda de meus dedos enquanto acionava o isqueiro e observava a chama amarela ligeiramente azul acender a ponta, puxando ar por tempo o suficiente para que isso acontecesse. Eu só gostava dos Vogue porque eles eram bonitinhos e sofisticados, porque de resto não tinham nada de especial.
Guardei o isqueiro, ouvi um clique ao fechar o receptáculo logo em seguida e o coloquei onde estava. Troquei o cigarro de mão e enquanto fazia isso deixei que o pouco de ar frio que entrou por entre meus dentes levasse a fumaça aos meus pulmões, sentindo a familiar sensação de que estava inalando calmaria, não nicotina e alcatrão comprimidos entre outras coisas, se espalhar em meu sangue.
Meus olhos novamente se prenderam ao Central Park contornado por um milhão de arranha-céus e eu dei minha segunda tragada, pensando por que diabos Nova York era a Big Apple e não a Cidade Luz, título dado a Paris. Francamente, eu sei que essa coisa toda de Paris ser a Cidade Luz nada tem a ver com lâmpadas e o esquema de iluminação que clareia a cidade. Tem a ver com aquela coisa toda de ideais iluministas e tudo mais. Mas, para que chamar Paris de cidade luz quando se tem Nova York, quinze mil vezes mais iluminada? Quer dizer, no fim das contas, aquela porra toda de grande maçã nem tinha muito a ver!
É meio estranho, porque aí acabo pensando nos cidadãos como se fossem milhões de larvinhas de maçã de todas as espécies dentro de uma maçã monstruosa que solta fumaça. Dá pra entender?
Olhei para meu cigarro e minha cabeça se desviou automaticamente para algo completamente diferente do que eu estava pensando antes e comecei a achar inadmissível o fato de ainda não possuir uma piteira daquelas lindas e sofisticadas como a de Holly Golightly em Bonequinha de Luxo quando irrompeu no dormitório de uma maneira nada suave:
- Finalmente Vossa Alteza Biscate despertou! – ela berrou e minhas linhas expressivas faciais responderam à agudeza de sua voz com uma careta antes mesmo que eu pudesse olhá-la. Por um momento, eu pensei que ela fosse pular sobre mim e estendi minhas duas mãos, inclusive a que segurava o cigarro à frente de meu corpo para repeli-la, mas ela somente sentou-se sobre mim, abrigando minhas coxas entre as suas junto com seus joelhos e ficando um pouco mais alta que eu.
roubou meu rolinho de tabaco após beijar minha bochecha e eu sorri forçadamente, com certo descaso, para ela.
– Que você tá fazendo jogada aqui, toda peladona? – ela perguntou-me, ignorando descaradamente o robe de seda preto que cobria meu corpo, displicentemente amarrado um pouco abaixo de meu busto - e por milímetros não mostrando um de meus mamilos por estar mais frouxo ali devido também à minha posição - após soltar a fumaça para cima pela boca, entortando os lábios na mesma direção. – Levanta essa bunda daí que alguém tem mais o que fazer com ela hoje à noite!
- Você que é uma adiantadinha de merda! Ainda nem anoiteceu direito, não fode! – ralhei, amarga. – E eu não estou peladona! – usei o mesmo tom invocado, pegando o cigarro que a mão dela me estendeu um pouco mais bruscamente do que o necessário e traguei novamente da mesma maneira, voltando a olhar para a paisagem de cartão-postal que se exibia para mim do outro lado do vidro entreaberto.
- Deixe-me ver – ela duvidou desnecessariamente, já que estava claro que não havia nada – ou quase nada - por baixo daquilo. Ela deslizou uma parte do pano fino, a que mais descobria do que cobria um dos meus seios, com suas unhas enormes e inclinou a cabeça como se não pudesse conter sua forjada curiosidade em ver o que havia debaixo antes que eu estapeasse sua mão ardidamente e ela reagisse com um “Ai!”, sacudindo-a.
- Cacete, , sem impulsos lésbicos agora, por favor! – repreendi-a em voz alta, descontando nela todo meu mau-humor pós-despertar do qual ela tinha pleno conhecimento (e por isso adorava me provocar quando eu estava sob seu efeito) através do meu tom de voz.
Ela parou de sacudir a mão e riu, mostrando a língua pra mim assim que apertou os cantos de meus lábios e parte de meu maxilar, modelando um biquinho de peixe provavelmente ridículo em mim.
- Tem razão, está usando uma calcinha. Que pena. – ela me encarou com tristeza dissimulada.
Ligeiramente cerrando os olhos, eu voltei a estapeá-la, desta vez em seu braço, um pouco abaixo de seu cotovelo. Isso pareceu ser suficiente para que ela parasse de me apertar como se eu fosse uma criança de cinco anos sendo estragada pela tia ridiculamente sem-noção e chata, que no caso era ela.
- Você usou meu rímel? – ela perguntou-me, repentinamente tornando-se mais séria e colocando seus olhos, um com a maquiagem não finalizada e o outro sem maquiagem alguma, diretamente nos meus. Que mudança brusca de assunto! - Aquele de volume, da Lancôme, sabe?
- Sei – assenti. – Não usei – neguei, e voltei a tragar o cigarro, repousando minha cabeça no encosto do estofado e fechando os olhos por um breve momento ao soltar a fumaça pelo nariz. – Você está parecendo uma palhaça de rua!
- Sua vaca – ela me xingou, semicerrando os olhos ao fingir estar enfezada. – Aposto que você usou meu rímel, perdeu-o em algum lugar e está me escondendo isso. Ou então o roubou porque era melhor que todos os seus e você ficou com inveja!
- Aham – concordei, cheia de desdém. – Como se eu precisasse disso! – Revirei minhas íris debochadamente, empurrei-a pelo peito, e com auxílio da mão que não fazia isso depositei as cinzas do cigarro em um cinzeiro já um pouco sujo na mesinha redonda ao lado. – Não fode! – repeti. - E sai de cima de mim!
- Foder? Só se for você, gostosa! – ela disse em um tom brincalhonamente sensual e lambeu o lábio superior antes de morder o inferior e baixar seu rosto em direção ao meu.
Troquei o cigarro de mão e inclinei-me um pouco para o lado para conseguir alcançar a almofada jogada no chão ao lado do estofado sobre o qual nos encontrávamos. Assim que ela se deu conta da finalidade dos movimentos que eu fazia, saiu correndo de cima de mim atrapalhadamente, aos tropeços, e quase caiu quando a almofada que eu consegui pegar e lançar atingiu a bunda dela, levando-a a dar um pulinho imbecil seguido de outro gritinho da mesma laia antes que alcançasse novamente o banheiro. Dali, ela voltou a me afrontar:
- Vagabunda!
- Cachorra! – devolvi e deixei que um sorrisinho fizesse uso dos meus lábios por breves segundos quando a escutei rir, divertida.
Que relação educada nós tínhamos. Exemplar, eu diria.
Voltei a fumar e espremi a bituca no cinzeiro para apagá-la quando terminei, liberando a última porção de fumaça de dentro do meu corpo. Levantei-me indo em direção ao banheiro já ocupado por minha melhor amiga.
Duas semanas haviam voado desde o episódio Brandon Flowers sem que ele me telefonasse, ou até mesmo Tana o fizesse, reclamando por eu ter roubado seu marido por uns minutos. De três coisas uma: ela não havia descoberto; ela havia descoberto e não dava a mínima em ser corna mansa; ela havia descoberto, mas o mínimo que pôde fazer fora entender o que seu marido compunha e não ficar com dor de corna para o meu lado. This is the world that we live in, I can’t take blame for two. Ele era o compromissado e eu a sem compromisso como já dito antes, então se alguém tinha que carregar culpa naquela história era ele.
Eu estava na cidade há mais ou menos cinco dias com Kitty, que de pura não tinha muito como ela fazia questão de ressaltar*, e Scarlett, duas das minhas outras melhores amigas. , - que me olhou pelo espelho quando eu entrei e então resolveu mudar de música, passando a cantarolar The Fratellis - chegara ali, no Four Seasons da Park Avenue, somente no dia anterior. Amber, sua irmã que estava quase sempre com a gente, chegou junto com ela e tratou de despachá-la para dormir com as outras meninas na suíte tripla ao lado enquanto ela se alojava na qual eu estava.
Tudo que havíamos feito até então fora comprar, comprar e comprar de novo, comer um monte de fast-food (com exceção de Kitty, que raramente comia alguma coisa), ir a dois shows, um musical, ficar muito bêbadas e trepar. Mas isto, por incrível que pareça, eu só havia feito uma vez, no meu segundo dia ali. Acordei na cama de um cara que eu não sabia quem era. Mas era bonito (pelo menos dormindo, o que conta muitos pontos, porque uma pessoa permanecer bonita dormindo é uma dádiva), e tinha um puta de um apartamento gigante, bem decorado e com uma vista de tirar o fôlego.
Foi tudo que eu pude constatar antes de me vestir rapidamente, pegar minhas coisas e sair de fininho dali, sem deixar rastro nenhum da minha vida na dele além da minha lembrança – se é que ele se recordou de algo depois -, e pegar um taxi até o Four Seasons que não era muito longe de onde eu estava na Quinta Avenida.
Na Quinta Avenida, era isso que importava! Nem quando eu estou bêbada meu faro para o bom gosto me abandona, eu me amo!
Não faltou oportunidade para que esse tipo de coisa acontecesse novamente. Eu só não estava assim tão interessada nelas.
Nenhuma de nós pensou em mudar os planos e fazer algo diferente. Os lugares e as pessoas mudavam, mas as ações não. Então, não achei que aquela noite fosse ser inovadora. E não foi.
- Pra onde é que a gente vai, hein? – perguntei à por cima da música enquanto fazia xixi e ela, à frente do espelho lateralmente iluminado, parecia testar uma maquiagem completamente destoante da do outro olho naquele que estava limpo há alguns minutos antes. – Não dá só pra ficar aqui, pedir um monte de batata frita no quarto e dormir?
- Que é que você tem hoje, mulher? – ela interrompeu o movimento do pincel manchado pela sombra púrpura em sua pálpebra e virou-se para mim, indignada, pegando seu copo suado de vodca com gelo e dois pedaços de limão sobre o mármore da pia e bebendo um gole. Se eu não soubesse que ela estava testando maquiagem, teria rido da cara de perua que não sabia se maquiar que ela apresentava. – Tem que ter acontecido alguma coisa muito grave pra você estar recusando diversão.
- Não aconteceu nada, só estou com preguiça de sair – eu dei de ombros, subindo minha calcinha e dando descarga após me secar e fui até a pia onde ela estava. Bati meu quadril no dela para que ela chegasse mais para o lado e ensaboei minhas mãos enquanto ela me encarava e repreendia:
- Mas que merda é essa agora? Vai sair sim! Larga de ser ridícula e vai escolher uma roupa – ela me deu um tapa forte na bunda e bebeu outro gole do que estava em seu copo. – AGORA!
- Aaaai! – eu gemi, enquanto enxugava minhas mãos. – Tá bom, tá bom, eu vou! Saco! Você e aquelas salafrárias não me dão nem o direito de ficar indisposta! Eu poderia arranjar um jeito de processar vocês, mas eu...
- Cala a boca e vai escolher uma roupa, porra – ela ordenou, voltando a dar atenção para sua pré-produção e eu a abracei por trás, pela cintura.
- Também te amo – declarei, contrariando-a, e bebi um gole de sua vodca antes de beijar sua bochecha e sair dali sob seu olhar forçadamente fulminante em direção à minha parte do armário que estávamos dividindo.
O Ritual do Tira-Põe, que se seguiu entre um cigarro e outro e um baseado ocasional no meio de alguns goles de uísque, já era muito conhecido por mim e eu provei pelo menos metade das peças de roupa que poderiam ilustrar mais uma noite minha em Nova York. Pedia a opinião de ocasionalmente após girar e posar quinhentas vezes em frente ao espelho para cada combinação e ela fazia o mesmo comigo, ainda com a maquiagem bagunçada e o cabelo preso em um coque malfeito no topo da cabeça.
De vez em quando a gente até se enfiava dentro de umas combinações assustadoramente cafonas e perguntava a opinião da outra com um sotaque de caipira só de sacanagem, o que nos rendeu boas risadas. Eu ri mais, porque as cores no rosto de da maneira irregular que estavam dispostas davam ainda mais vida a qualquer papel do tipo.
Não sei o que é pior, não ter opção alguma ou ter um monte. Os dois extremos só atrasam a vida. Tinha tanta roupa ali que eu já nem sabia mais o que havia provado e deixado de provar. Já havia até me esquecido das sugestões de sapatos que déramos uma a outra. As minhas malas, uma gigante e a outra média - sem contar a bagagem de mão - quase não fecharam com o tanto de roupas, sapatos e outros artefatos femininos que eu levara. Por pouco não paguei por excesso de bagagem. também havia levado bastantes coisas (a diferença é que ela só passaria cinco dias ali e eu dez), e as roupas dela já estavam misturando-se com as minhas, todas emboladas em cima da cama e algumas até no chão.
Afastei algumas delas para o lado e pus as duas combinações que haviam ido para a final após muita indecisão sobre a cama. , que se decidiu antes de mim, deu o seu veredicto final, escolhendo a legging preta de vinil por baixo de uma regata absurdamente larga que acabava na metade das minhas coxas e mostraria meus peitos se eu não colocasse o top dourado feito de algum material sintético por baixo dela.
Eu escolhi a outra opção, e disse a ela que definitivamente vestiria aquilo enquanto esta me observava com o cotovelo apoiado na mesa onde comíamos quando solicitávamos o serviço de quarto e no momento mais tinha a função de “bagunçódromo” por estar sendo ocupada por um monte de parafernália feminina, um cinzeiro cheio de bitucas apagadas que antes estava na mesinha ao lado do divã, e uns pacotes de M&M’S vazios espalhados aleatoriamente sobre sua superfície.
Optei por um vestido preto e largo como uma túnica preso na cintura por um cinto simples e por cima de uma meia calça fio quarenta, rendada e de mesma cor. Na hora pensei em usar os pumps vermelhos que havia levado para quebrarem um pouco preto.
- Ah, eu entendi porque você escolheu essa! – disse, olhando para o outfit que eu havia selecionado com um sorriso cheio de malícia no rosto. – Você tem razão.
- O quê?
- Você tem razão em escolher essa roupa, com a meia fina e tal – ela começou a explicar e seu rosto me disse que alguma besteira estava por vir. – Incrível como você se preocupa com os mínimos detalhes! A meia-calça é muito mais fácil de rasgar, se é que você me entende.
Não me enganei.
- Girlfriends, salt and lemon! Yeah, yeah, yeah, take me on a ride with you José! – berrei juntamente com minhas outras quatro amigas e unimos nossos caballitos cheios de José Cuervo Añejo no ar, produzindo um tilintar que se perderia entre as ondas sonoras da música acelerada e alta que envolvia o lugar escuro se minha audição não estivesse tão aguçada. Logo depois lambemos o sal em nossas mãos, antes de virarmos a dose de uma só vez. - Yeah, yeah, yeah, everbody loves to party with José! – berramos novamente após chuparmos os limões e batermos os fundos dos copinhos de vidro com força na nossa mesa.
Senti a bebida descer e arranhar minha garganta, levando a mesma sensação tanto gostosa quanto incômoda para o meu esôfago enquanto observava Scarlett fazer uma careta graciosa e espremida provavelmente por causa do gosto azedo que se apoderava de sua língua. Mais provável que fosse isso do que a tequila.
Repentinamente aproximei meu rosto do de Amber e selei meus lábios com os dela, que selou os seus com os de Kitty, que fez o mesmo com , que, por fim, beijou Scarlett. Esta, sem explicação alguma, deu um gritinho superagudo e passou a rir de forma estridente, instantaneamente causando o mesmo efeito nas outras quatro, sentadas uma ao lado da outra nos assentos de couro extremamente branco que formavam um ângulo de noventa graus bem acolhedor ao redor de duas mesas mais baixas do que o normal.
E assim terminava o ritual que havíamos criado juntas e se repetia toda vez que ingeríamos um shot de tequila.
E se parcela de capacidade de pensar claramente que havia sobrado em meu cérebro estava sendo precisa em suas suposições, já passava das três da manhã e aquele era a segunda boate na qual nos enfiávamos naquela madrugada. E eu nem sabia o nome. Ainda não estava retardadamente alterada, mas ainda assim, estava mais preocupada em escandalizar com as garotas, no banco traseiro do taxi no caminho para lá e também quando cheguei. Só me lembrava que ficava em Chelsea porque foi o que , a única ali até então com a habilidade de discernir e de dicção menos afetadas e mais inteligíveis por um condutor não bêbado e mexicano que mal falava inglês, disse depois de informar o nome do estabelecimento.
Mexicanos leigos em inglês mal entendem pessoas falando inglês, menos ainda pessoas bêbadas falando inglês. Imagine só se eles entendiam alguma coisa que quatro (não posso contar , já que ela estava melhor que nós, ainda) garotas bêbadas - ou semi-bêbadas, sei lá – falavam, ou melhor, gritavam em inglês com um puta sotaque mockney – pelo menos no meu caso, que ainda tinha grandes vestígios do sotaque de Sheffield ao falar. Entendiam porra nenhuma!
Pobrecito, o taxista. Faltou mencionar o fato de que a gente ficou tentando falar espanhol com o cara o caminho inteiro, só de curtição. Acho que ele agradeceu até Plutão quando saímos do carro dele entoando um “hasta la vista, baby!” em um uníssono engrolado e estridente.
Somente pessoas bêbadas ou alugadas para cuidar dos patifes bêbados que não se aguentam sozinhos no fim da noite e tem que ser assistidos para não morrerem tragicamente atropelados ou em qualquer outro tipo de tragédia é que entendem pessoas bêbadas. E além do mais, era quem tinha o itinerário, incluindo rotas de fuga, daquele dia na cabeça. Sem contar que nós estávamos ocupadas demais em rir da cara de Amber e imitá-la, zombando do episódio que ocorrera minutos antes de nos apertarmos num daqueles clássicos táxis amarelos com as tarifas e a sigla da cidade nas portas.
“Chelsea” foi uma palavra que meu cérebro parcialmente travado pelo etanol pôde compreender porque me era familiar, então ele reconheceu na hora. Mas se o aspecto das ruas nova-iorquinas não fosse tão diferente das de Londres, minha mente já teria me levado de volta para lá. Provavelmente foi o que aconteceu com Amber, que quando ouviu a irmã falar “Chelsea” perguntou “Por que a gente está em LDN de novo?”. Claro que todas nós quase explodimos o carro de tanto rir. Que tipo de banza aquela menina tinha fumado? Eu também queria!
Coitadinha. Não a culpo. Ela estava estupidamente atordoada, mais do que todas.
Além disso, francamente, o pessoal responsável por escolher nomes de divisões federais – ou qualquer merda que essas cidades, bairros, províncias, distritos e o caralho a quatro são - nos EUA e no UK, esse povo da antiga, com certeza não exercitava sua criatividade. Ainda que um tivesse um pouco da história do outro, sinceramente, cadê a inovação, meus amores?
Devaneios desnecessários à parte, eu e as meninas estávamos nos divertindo horrores no lugar em que estivéramos primeiro, a The Joker. Não sabia se fora culpa bebida e seus afins, mas a música que tremelicava meus ouvidos me agradava e não deixava meu corpo quieto um segundo. A aglomeração de despreocupados-por-agora que se chacoalhava ali, entre outras ações, também era bonita e agradável de um modo geral.
Porém, não para Amber.
Amber - dona de cabelos mais definidamente ondulados naturalmente do que qualquer outro que eu já havia visto e geralmente enfeitados por mechas californianas entre os fios castanhos claros; possuidora de olhos da mesma cor a qual seu nome remete - era a mais nova e também mais lunática de nós, as cinco notáveis (cafona). Toda fininha e quebrável, Amber, para mim, sempre foi a definição de “amável”.
É automático: você olha para Ambsy e não consegue pensar outra coisa além do quão amável ela aparenta ser, e realmente é. Seus traços são comparáveis aos de uma boneca de porcelana, daquelas que a gente tem medo de tocar porque pode se espatifar se ousarmos fazê-lo, mas são ao mesmo tempo firmes. Eu tinha medo de abraçá-la às vezes! E sempre que a encarava eu tinha vontade de comer seus olhos devido ao matiz doce e gostoso deles que me lembrava caramelos e contrastava de forma encantadora com a cor de seus cabelos, me devolvendo alguma sensação específica da minha infância.
Amber era a representação de Suddenly I See da KT Tunstall.
Pois bem, Amber ficou assustada com um cara que se sentiu atraído por ela e não parou de observá-la um minuto sequer. Ele aparentava estar sozinho e as íris dele pareciam ter grudado nela sem a menor intenção de deixá-la em paz. Nós o apelidamos de Norman Bates, por causa do penteado comportado dele e da implicância de Amber, ha.
Ela cismara que ele estava a encará-la com um elemento maníaco demais no brilho dos olhos, que possuía carga em excesso de energia do lado negro da força e que tínhamos que sair dali antes que ele resolvesse atacá-la e ela terminasse a noite “em um cativeiro no Bronx ou na delegacia, na melhor das hipóteses”.
Exageradinha, escandalosinha de merda. Só perdoei e aceitei sair dali porque sabia que ela não estava em seu estado Lady Lúcida e seu discurso amedrontado já estava espantando todo o nosso espírito de curtição rosa-shocking com bolotas verde-limão vibrantes.
Rosa-shocking com bolotas verde-limão porque foi essa minha combinação favorita de luzes naquela noite. Fiquei toda encantada e empolgada durante o breve tempo no qual a sintonia de cores iluminadas foi essa e comecei a dançar de um jeito flutuante, como se eu fosse algum tipo de luz também. Senti-me tão rosa e verde quanto elas!
Depois de nosso pequeno descontrole gargalhistíco, voltamos a conversar. Em volume elevado, obviamente, por causa da música que estava mais alta que nossas vozes e da alteração líquida que corria em nossas veias. Nossa gesticulação exagerada em prática desapareceu assim que colocamos os olhos num cara que passou por nós, indo em direção ao bar.
Ele mediu o quanto podia de Kitty antes de morder os lábios para ela e continuar seu caminho. Ele era bem alto, seu cabelo era castanho claro e ondulado, moldado em um corte que eu chutaria como repicado e alguns fios quase caindo em seus olhos. As feições de seu rosto alongado eram bem másculas e retas e supus que seus olhos eram claros por não puder enxergar mais detalhes por causa das luzes em constante mudança.
Tornamos a gritar e gesticular como loucas, dessa vez com o foco da conversa em Kitty e seu flerte, supondo que aquele cara era modelo, aspirante a ator ou algo do tipo. Apesar de o lugar estar lotado, nossa cabine ficava bem perto do bar e tinha uma vista privilegiada da vista de dança, isso permitiu que pudéssemos ver o flerte fatal sem muitas obstruções além de umas pessoas passando na nossa frente ocasionalmente.
Ela sorriu para o homem aparentemente saído de alguma campanha ou editorial de moda de revista conceituada, que apoiava parte do braço no balcão do bar e mantinha contato visual com ela. Ou com nós, porque todas estávamos olhando para ele. Sem essa babaquice de permanecermos discretas, you know.
- Ele é muito gostoso! – comentou, encarando Kitty novamente e movendo a cabeça de um jeito engraçado.
- Ele tem estilo. – Fiz uma pausa e minha visão embaçada e confundida pela luz mediu o bonitão de cima a baixo. Bebi um gole do Mojito em meu copo e voltei meu olhar para Kitty. - E não caminha, muito menos te olhou, igual a um otário cheio de si, mas, sim, como um cara que tem autoconfiança o suficiente pra dar conta do seu recado! – fui mais elaborada, falando de um jeito bem mole e as garotas concordaram comigo.
- Como você conseguiu falar chique desse jeito? – Scarlett me questionou, risonha. – Acho que a bebida te estimula a falar complicado!
- De ambas as maneiras! – Kitty complementou, e bebeu um pouco de seu Hi-Fi. Nós, exceto Amber, rimos novamente. Ela não estava prestando muita atenção no que dizíamos e piscava mais lentamente que o normal ao ingerir os dois últimos goles de sua Margarita On The Rocks.
- Ele é tão viril! – ela se pronunciou do seu jeito espontâneo, e no momento beberrão e sonhador, sacudindo-se de um modo alegre demais.
Ela se encontrou conosco já dentro da The Joker, mais ou menos uma hora depois de eu chegar com as outras meninas, no ponto, fumadinha pra dedéu. Atrasou-se por ter acordado mais cedo do que gostaria, dormido no fim da tarde e não acordado na hora em que Scarlett e Kitty chamaram-na. Com certeza devia ter fumado um baseado inteiro sozinha antes de sair.
Tá aí o enigma. Eu pensaria “cacete, essa menina fumou muita maconha!’’ novamente se não a conhecesse. O efeito do baseado havia passado faz tempo, com certeza, e não a vi acender nenhum outro depois. Era difícil descobrir se o que estava mexendo com Amber era a bebida, se ela havia tomado alguma coisa mais forte sem que eu visse, ou se era só ela sendo si mesma. Em algumas situações ficava complicado justificar suas atitudes porque aquela garota agia da mesma maneira bêbada, drogada ou limpa diante de algumas situações. Falo sério.
O disparate de Amber causou mais uma sessão de gargalhadas entre a gente. Ela não compreendeu o motivo e, perdida, perguntou:
- Que foi?
- Não creio que viril... seja uma palavra... que tenha cabido tanto assim no momento, Ambs - Scarlett disse em intervalos por estar quase sem ar e pendeu a cabeça para trás, gargalhando mais alto do que antes.
- Por quê? – Amber retorquiu.
- Porque soou engraçado! – fundamentou, esvaziando seu copo antes cheio de vodca com tônica, e voltou a rir.
- Vocês é que adoram rir da minha cara! Queriam que eu dissesse o quê, cacete? “NOSSA, ESSE CARA É UMA BICHONA! Melhor você providenciar uma cinta com um pau de borracha antes de a noite acabar, Kitty!” ?
- AMBER! – Kitty deu-lhe uma cotovelada em forma de advertência, fazendo-se de ofendida, antes de render-se aos escândalos – que incluíram a Senhorita Olhos de Mel desta vez. Ela tentou se reprimir, mas acabou rindo da própria piada que pareceu ter nos atingido mais intensamente do que todas até então naquela noite.
- Hello, Kitty? – eu chamei a atenção de minha amiga quando estávamos parando de rir e não muito tempo depois ela foi dada a mim, assim como a das outras meninas, que se concentraram em nós.
- Vaca! – Ela ficava puta quando fazíamos aquele trocadilho de merda com aquela “gatinha sem emoção e nhénhénhé”, como ela mesma dizia, porque a odiava por ter seu nome.
- Que você tá fazendo aqui ainda, querida? – eu perguntei, estalando os dedos bem em frente aos seus olhos. - Vai esperar ele se enroscar com outra meretriz ou vai atrás? – Apontei para a garota loira oxigenada e com cara de puta barata que também estava apoiada de lado no balcão com seu vestido curtíssimo, de costas, apenas a uma pessoa de distância e descaradamente secando o aspirante a famoso pretendente da minha amiga.
- Oh, meu Deus – aquilo foi o suficiente para atiçar os nervos e acender o espírito de disputa nela. – Com licença, Ambs – pediu e Amber levantou-se para que ela pudesse passar. Kitty olhou para sua caça como uma predadora faminta e ajeitou sua postura. – Vou mostrar pra’quela vadia quem é que manda! – finalizou com uma frase de efeito bem clichê, jogou os cabelos loiros quase brancos e absolutamente originais sob uma fita azul para trás e partiu para o ataque com uma mão na cintura finíssima, rebolando a bunda dentro da minissaia plissada na barra incumbida da missão impossível de não ficar roçando nas pessoas.
Os dois trocaram algumas palavras em frente ao bar, ele pagou uma bebida para ela e não demorou muito para se entrosassem mais, ele a segurasse pela cintura e a conduzisse para uma parte mais íntima, no andar superior do lugar, atrás das altas cortinas douradas sobre a escadaria dupla. A oxigenada somente saiu dali decepcionada e com o rabo entre as pernas sob o olhar vencedor e pretensioso de Kitty.
Perguntei-me se ela havia ido chorar no banheiro, mas cheguei à conclusão de que não. Não ouvi ninguém fungar dentro das cabines, a não ser eu mesma e Scarlett.
Quero dizer, depois que Kitty desapareceu na multidão Amber e rapidamente levantaram-se e começaram a dançar, esperando que fizéssemos o mesmo. Eu permaneci sentada por alguns segundos, observando Scar dizer algo no ouvido de e ouvi-la negar com a cabeça, fazendo com as mãos um gesto que parecia dizer “mais tarde”. Vi-a inclinar-se para Amber, acho que com o intuito de perguntar-lhe algo também, porém, hesitou e desviou-se de volta para as poltronas, indo sentar-se ao meu lado.
Scarlett abriu a boca para dizer algo, mas eu fui mais rápida e direta:
- Cadê o Charlie?
- É por isso que eu te amo – ela sorriu de canto para mim e fiz o mesmo. – Tá comigo.
- Eu sei que me ama, todos me amam – disse bebendo o último gole do meu amado Mojito.
- Vá se foder – Scar olhou para mim com falsa irritabilidade e eu apenas sorri solenemente.
- Vamos logo com essa porra – disse, impaciente, já me levantando.
- Pro banheiro? – ela perguntou em tom de proposta, como se realmente precisasse me propor algo, e eu revirei os olhos.
Scarlett apanhou sua bolsa-carteira sobre o banco e seguiu meus passos até o banheiro. Havia algumas poucas garotas desconhecidas e embriagadas retocando a maquiagem e fofocando ali, além da atendente do banheiro, por isso nos trancamos em uma das cabines para termos mais privacidade. Não porque estávamos com medo, é claro que não. Só não queríamos dividir o pó com alguma folgada mesmo.
Apoiei minhas costas em uma das paredes laterais da cabine, assim como fiz com um de meus pés, e coloquei as duas mãos na cintura, esperando Scarlett encontrar o tesouro dentro da bolsa.
Ouvimos uma garota vomitar as tripas e a amiga dizendo que era hora de elas irem para casa em uma das cabines ao lado. Rimos histericamente porque achamos a última moda do humor ouvir aquilo e imaginar a pobre alma segurando pelo cabelo e barriga a outra alma mais pobre ainda a se estripar. Teria algum outro motivo?
Só de pensar em quantas vezes eu já havia passado por aquilo...
No meio da graça, Scarlett quase deixou cair o frasquinho que havia retirado de um dos bolsinhos internos de sua bolsa e parei de rir imediatamente.
- Cacete, Scar, cuidado! – Ela continuou rindo.
- Vá se foder, tá tudo aqui ainda – ralhou, recobrando o controle e sacudindo o frasco que tinha forma de tubo de ensaio e continha mais ou menos uns dois gramas de cocaína.
Ela girou a tampinha negra que tinha uma minúscula pazinha anexada na parte de cima e mergulhou esta no pó branco dentro do frasco, preenchendo-a completamente. Com cautela, levou a pazinha até uma de suas narinas e aspirou o conteúdo, prendendo a outra com o dedo indicador da mesma mão que segurava o tubo.
- Abre aí, sou eu – ouvi duas batidas espalmadas e a voz de atravessar a porta da cabine. Girei o trinco e puxei-a para mim, para que ela pudesse se espremer entre nós.
- Sabia que você não ia agüentar, sua putinha fissurada – Scar disse, presunçosa, inalando mais do pó branco enquanto girava novamente o trinco.
Ninguém se importou com três garotas na mesma cabine do banheiro, se você está se perguntando. As garotas têm mais o que fazer, como retocar a maquiagem, falar dos caras que colocaram-nas contra a parede durante a noite, ajeitar o cabelo, cheirar cocaína como a gente ou vomitar o estômago como a decadente da cabine ao lado.
- Fissurada é o cacete, você nem sabe o que tá falando. Cala a boca e me dá essa merda – replicou, estendendo o braço para tomar a ampolinha preciosa com a tampa pendendo da mão de Scarlett.
- Ei, ei, ei! Primeiro eu! – repreendi e peguei o frasco da mão dela.
- Quem foi que comprou essa porra? – replicou. – Fui eu, portanto... – ela quis pegá-lo de volta, mas eu esquivei meus braços para impedi-la.
- Sai, , caralho!
- Argh! – ela grunhiu.
- Vai, , cacete! – Scarlett vociferou em meio ao nosso festival de palavrões, me apressando, e eu repeti o que ela havia feito segundos antes, deixando que o pó branco aderisse à minha mucosa propositalmente.
Passei o frasco para e a vi fazer o mesmo antes de repassá-lo à Scarlett. Ela havia conseguido aquele recipiente em Amsterdã. Aquilo era muito tendência, e claro eu também tinha um. Esses holandeses são gênios quando o assunto é narcóticos, se é que tal utensílio foi inventado em sua terra natal. Dava muito menos trabalho usar aquilo e fazia muito menos bagunça do que esticar carreiras em cima da tampa da privada com o cartão de crédito e enrolar notas para cheirar. Era muito mais higiênico também, convenhamos.
- Sabem quem me ligou hoje? – Scar voltou a falar, esfregando o nariz com o indicador e o polegar, passando o pó de volta para mim.
- Quem? – perguntei e cheirei mais um pouco, fungando depois.
- Ricky – Scarlett respondeu e sorriu sem mostrar os dentes.
- Ricky Wilson? – redargüiu, arqueando as sobrancelhas e fazendo sua segunda vez com o Charlie, inalando uma pazinha a mais do que antes.
- O próprio – Scarlett afirmou.
- E aí, o que ele disse? – pedi por mais informações e me passou o pó de novo para que Scar pudesse contar.
- Nada de mais. Perguntou como eu estava e disse que queria me ver de novo.
- E você vai? – devolvi a coca à Scar e vi-a chupar o nariz antes de me dar uma resposta.
- Não sei. Talvez, quem sabe? - ela deu de ombros, entregando o tubinho à . – Não que eu não goste do Ricky, ele é legal, fode bem e tudo mais, mas deixo pra pensar nisso quando voltarmos pra casa.
- É isso aí – eu respondi e Scar pegou o frasco de volta, rosqueou-o e guardou-o na bolsa. – Você é só nossa hoje à noite. Vamos. – Destranquei a cabine ouvindo concordar comigo e saímos dali, parando na frente do enorme espelho na parede oposta a nós para checarmos nossas aparências.
- É mesmo, ? – vi o reflexo de Scarlett ao meu lado mover os lábios para me perguntar aquilo e arquear uma das sobrancelhas, sorrindo cheio de segundas intenções para mim enquanto eu jogava meus cabelos para trás.
Virei meu rosto para ela e encarei sua imagem real, que tinha os olhos - nadando em atrevimento - fixos em minha cópia. Um sorriso manifestou-se internamente em mim e por pouco não se externou.
Continuei a me analisar no espelho, me fazendo de surda, e ouvi um muxoxo vindo de , que aplicava em si mesma o balm labial retirado da bolsa de Scar.
Scarlett, Scarlett…
De volta à bagunça da nossa cabine em meio à multidão turbulenta, senti uma onda de agitação começar a crescer e arrebentar-se dentro de mim. Viramos mais dois shots de tequila – quanta tequila no sangue se contarmos as margaritas ingeridas em algum momento, viva Cuervito! -, eu bebi mais uma dose de vodca pura em dois goles e quando uma nova garrafa de champanhe Cristal solicitada por Amber enquanto estávamos fora chegou à nossa mesa, dançamos coladas umas às outras com nossas taças esticadas ao som de um remix satisfatório de Song 2 do Blur entre outras músicas. Bebíamos o Red Bull do frigobar exclusivo em nossa cabine e ríamos de qualquer coisa porque era vontade era incontrolável.
Na pista, uma nova batida passou a dominar as pessoas no ambiente e de repente senti uma a presença de duas mãos que pousarem uma em cada lado de minha cintura enquanto eu movia meu quadril de acordo com o novo ritmo, minimamente mais lento. Na hora tive certeza que elas não eram de nenhuma das minhas meninas, eram grosseiras demais para isso.
Deixei que aquelas mãos estranhas usufruíssem das minhas curvas por mais alguns segundos antes de virar-me para o dono delas. Ui, ele não era nada mal. Nada mal mesmo. O cabelo dele era bem liso, loiro e sua franja jogada para o lado quase escondia seus olhos verdes claríssimos. Bem americano. Meus olhos analisaram o que podiam do seu físico em conjunto com as minhas mãos que desceram para checar seu abdome.
Aprovado. E de quebra, ele parecia tão bêbado quanto eu.
Eu fazia questão de provocar. Por vezes, ultrapassando os limites de sua camisa com meus dedos finos e outras arranhando sua nuca, me aproximando lentamente, quase encostando nossos lábios e respirando contra os dele somente para, quando ele avançava, esquivá-los bruscamente, beber um gole do meu champanhe e continuar dançando moldada por suas mãos firmes.
O estranho perguntou meu nome umas duas vezes, arrastando as palavras em seu sotaque atropela-palavras tipicamente nova-iorquino, como notei, mas fingi não ter escutado.
- Você quer fazer mistério, entendi – ele concluiu.
Mistério porra nenhuma! Eu só não queria levar aquilo além das fronteiras provocativas, alou.
Grudei meu corpo ainda mais no dele e pendurei meu braço, o mesmo da mão que segurava o champanhe, por cima de seu ombro. Minha outra mão preferiu se deslizar pela gola de sua camisa e agarrá-la, puxando sua cabeça para mim. Mordi o lábio e fixei meu olhar no dele, que mudava de cor muito rápido devido às luzes aleatoriamente indecisas.
- Hm, mas assim você me deixa louco de tesão... – escutei aquelas palavras diretas saírem de sua boca que havia acabado de decidir parar a milímetros de meus ouvidos, numa tentativa de sussurro em meio a todo o barulho.
Não me arrepiei. Nem um pelinho restante em meu corpo se eriçou. Na verdade, achei até ridículo, mas aquilo me divertia. Bastante e de graça, ainda por cima.
Não me pronunciei sobre seu comentário tanto pervertido quanto mal sucedido, no entanto, sustentei um sorriso de mesma intenção em meus compactos lábios e continuei a atiçá-lo, como estava fazendo desde o começo.
- Não provoca assim, gata... Juro que isso me dá vontade de te rasgar em duas – ele continuou a sussurrar em meu ouvido e desceu suas mãos para minha bunda. – Porque você é muito gostosa...
Hm, estava demorando...
Não fiz nada para tirá-las dali, pelo contrário, fingi que estava adorando e fiz questão de estampar isso em meu rosto.
Claro que eu quase explodi em risos na cara dele. Para ser sincera, os menos enfáticos deles escaparam, mas acho que, pelo seu estado, ele achou que eu estava ficando engraçadinha, que estava me ganhando e que iria me comer.
Na próxima vida, quem sabe, querido. Ele era quente e tudo mais, mas eu não fazia nenhuma menção de tê-lo no meu currículo. Eu podia estar bêbada, mas ainda sabia o que queria e o que deixava de querer! E aquele cara, o qual eu ainda não sabia o nome e que muito menos sabia o meu, não estava na primeira das listas.
O resto dos risos – sei lá como, já que além de bêbada eu estava cheirada - eu engoli com um pouco de ar e um último gole suave que borbulhou em minha língua.
- Me partir em duuuuaaaasss? – boquiabri-me em falso espanto. – Ai, o que você quer dizer com issooo? – fiz-me de rogada, também falando ao pé do ouvido dele e usando meu melhor tom de patricinha breaca cheio de inocência dolosa.
Ele subiu uma das mãos para minha nuca, puxando meu rosto mais para perto do seu, deixou a outra mão lá embaixo e terminou seu discurso:
- Quero dizer, Milady – Milady? MILADY? Viagem no tempo eu dispenso, muito obrigada, a saída é logo ali, se você não for engolido pela multidão. Que ridículo. “Milady”, francamente! – que eu quero e posso fazer muito, muito mais do que te apertar assim – ele aumentou a força de seus dedos em um de meus glúteos e pude sentir em meu baixo ventre o que ele estava guardando para mim (isso estando no meio de um monte de gente, imagina se não) e eu tinha deleite em menosprezar.
Puta que pariu, o que foi que eu disse sobre os homens? Eles precisam aprender a utilizar seus instrumentos! Eu nem ao menos tinha deixado que ele me beijasse, se liga! Sem contar aquela sedução bêbada e barata! Porra, ele estava mamado, como conseguia ser tão rápido ainda assim?
- E te beijar assim – ele completou e, em mais uma tentativa de capturar meus lábios, inclinou-se bruscamente sobre mim, que me curvei para trás e virei o rosto pela enésima vez.
HA, HA, HA, que coisa mais má, deixar o homem cheio de saúde na vontade, você deve estar pensando. Má uma ova, era delicioso!
Olha, que ele queria eu já sabia, mas não tinha tanta certeza assim de que podia, não. Fiz questão de deixar isso claro, ainda que deturpadamente.
- Epa, epa, epaaaa! – eu disse, afastando-o sutilmente pelos ombros. – Vai com calma aí! – eu o adverti e derreti minhas feições maliciosas e divertidas em meigas. Comigo as coisas só acontecem sem delongas quando eu quero. – Você ainda nem sabe meu nome! Ririri – pus a mão em frente aos meus lábios ao rir quase igual ao Mutley. - É muita gentileza sua querer me comer, Lord Depravado. Mas sabe o que éééé? – Fiz uma cara manhosa.
- O que foi, princesa? – Princesa não. PRINCESA NÃO! Puta que pariu, que pedreiragem do cacete. – Você tá com vergonha ou com medo? Eu prometo que vou cuidar direitinho de você, gata!
Como se eu precisasse ter medo ou sentir vergonha de você, seu patife gostoso. Você quem deveria sentir de se aproximar mim! E, bem, pelo jeito ele não fazia mais tanta questão de saber meu nome.
Definitivamente, aquele cara não merecia nem cinco minutos de qualquer coisa comigo. Mesmo porque nem conseguiria chegar aos primeiros cinco minutos, pelo andar da carruagem. Seria capaz de ele gozar no exato momento em que eu botasse a boca no pau dele, eu não ia nem conseguir começar a chupá-lo. Ou não. Talvez ele já gozasse na cueca enquanto eu estivesse só tentando abrir a braguilha da sua calça. Se bem que, ele estava tão bêbado, que eu achava muito difícil o passarinho dele querer prosseguir vôo estável pra fazer um passeio por terras estrangeiras... Bem broxante assim.
Fiquei agradecida, me senti lisonjeada pelo fato de ele querer me conduzir por caminhos obscuros, mas não quis nada.
Minha mão ocupada pela taça dividiu espaço com seu ombro e encostei meus lábios em seu ouvido, do lado oposto, colocando cuidadosamente minha forjada circunstância ali:
- Não dá porque eu sou virgem.
Demorou menos de um segundo para que ele se afastasse de mim e seus olhos vermelhos ligeiramente arregalados me encarassem. Só não caí para trás porque segurei forte em seu braço. Que tesão de tríceps!
A surpresa e a empolgação disputavam espaço em seu rosto. Que é que eu falo? Cuidado para não sujar a roupa de baixo, meu amor! Acho que, nessa hora, a braguilha dele quase arrebentou.
Confesso que essa foi a parte mais difícil de toda a atuação, tamanha era a minha vontade de rolar de rir da cara dele. Creio que ele percebeu, porque pediu por uma afirmação:
- Você está brincando comigo, não está?
Eu comprimi os lábios em um biquinho quase imperceptível, recompondo-me em meu papel, e neguei, balançando a cabeça de um lado para o outro. Ele riu pelo nariz.
- Mentirosa.
- Por que você não acreditaaaa? – eu e minha mania de estender sílabas quando estava bêbada dissemos. – Eu sou muuuuuuito pura. Muito pura e virgem!
- É mesmo? – ele ainda duvidava, mas, em minha opinião, estava louco para acreditar.
Homens e seu tesão por desvirginar menininhas lindas e cândidas. Os padres que o digam.
- Ahaaaaam! Como um bebê!
- Bem, você poderia me provar, então... – ele disse, com um ar galanteador que quase me fez engasgar por não poder explodir, de tão engraçado, e começou a se aproximar novamente.
- E como poderia? – arqueei minha sobrancelha, indignada, querendo dar com a flûte que eu não sabia por que ainda segurava na cabeça dele. – Você por acaso tem um sensor de hímem na cabeça do seu pau? – ele soltou um “wow”, provavelmente surpreso com meu vocabulário espontaneamente chulo. - Não entendeu que não faço essas coisas feias?
- Duvido que nunca tenha feito. – O estranho voltou a me segurar pela cintura.
- Quer que eu desenhe pra você entender? – sacudi a cabeça parecendo aquelas negras americanas de filme. Ele forçou minha cabeça em direção à dele e mordeu o lóbulo da minha orelha.
- Não. Quero te ensinar a fazer, gostosa – ele puxou um pouco do meu cabelo para o lado e debilitadamente beijou meu pescoço.
- Nunca fixxx e não queeero! – eu tirei seus lábios de meu pescoço à minha própria maneira e pisquei debilmente, tonta de bêbada, para ele. – Você não pode me comer. Sou pura como... como... a nascente do rio Tâmisa.
- Hmm, se você insiste... – ele sorriu corrompidamente, com certeza considerando minha comparação esdrúxula como a coisa mais sensual que já havia escutado em sua vida, e alisou minha bochecha com as costas da mão. - Eu adoraria saber o quão virgem você é...
- Você quer sabeeeeer? – eu mordi o lábio e espremi meus olhos, aprofundando-me ainda mais no jogo de sedução pobre e o vi assentir, ávido por uma resposta que lhe conviesse em todas as maneiras possíveis e que finalmente lhe desse permissão para fazer comigo o que ele queria. - VIRGEM COMO A MÃE DE DEUS! – falei, em um só fôlego.
Presumi que ele não esperava por uma dessas. Exatamente por isso que disse! Empurrei-o em um único gesto indiferente e finalmente permiti que minhas tresloucadas gargalhadas viessem à tona, todas de uma vez. Até me dei o direito de colocar a mão na barriga e curvar-me para frente, atraindo a atenção de pessoas mais próximas à minha volta, e notando os olhares curiosos das minhas amigas que deviam estar observando minha cena desde o começo.
Juro que se tivesse uma câmera em mãos teria fotografado a expressão pasma e paspalhona no rosto dele. Sem preço. Realmente impagável. Nem por Mastercard, nem Visa, nem por meu American Express Platinum, muito menos um milhão de libras em barras de ouro. Ele mal conseguia se mover de tão atordoado!
As vozes internas em minha cabeça remetiam-me a jogos de videogame dos noventa ao gritarem “YOU WIN!” repetidamente.
- Alguém traz a MTV aqui, por favor? Esse cara tá esperando o Ashton Kutcher! – eu escandalizei, apontando-o completamente descontrolada e algumas das pessoas que já haviam parado de nos assistir tornaram a fazê-lo, reagindo a mim das mais diversas maneiras. – Desculpa, mas você tinha que ver sua cara agora e... – Não consegui concluir minha frase por ter voltado a rir ruidosamente, vendo, então, seus traços faciais tornando-se putos aos poucos. – YOU LOOOOOSE, LOSER!
Perdi a classe, mas não perdi a piada.
Estava prestes a sair dali, não dando a mínima para os melindres do ser à minha frente, quando escutei o timbre divertido de Scarlett chegar junto com ela, para pegar-me pelo pulso e dizer ao Patife Gostoso:
- Se eu fosse você, recolheria a rolinha que você surpreendentemente tem entre as pernas e sairia andando!
Juro que quase chamei a ambulância, porque havia me esquecido de como respirar, as risadas não me deixavam. Já estavam até ficando mudas. E convenhamos, esquecer-se de respirar quando se reconhece estar apaixonado é tendência muito da ultrapassada.
- Eu só não meto a mão na sua cara e na dessa... dessa... – o imbecil começou a dizer, mas nós não o esperamos chegar ao fim de sua afronta e nos retiramos.
- Vamos pra lá, - Scarlett disse, guiando-me de volta para onde minhas outras amigas estavam e não demorou muito para que já estivéssemos, de novo, vadiando desinibidamente ao rebolarmos umas grudadas às outras.
Afinal, de pura pra puta é uma letra só!
A boate parecia uma caldeira e as vozes das pessoas eram parte das batidas das músicas que por pouco não estouravam as paredes. Não sabia quem estava confusa na verdade, eu ou as luzes. Parecia o lugar mais feliz do mundo, eu poderia ficar sozinha ali e continuaria a me divertir, de tão alegre.
Em algum momento enquanto me sacudia, eu parei para refletir: quantas pessoas de diferentes partes do mundo não haviam ali? Quantas não ficariam grávidas no dia seguinte e quantas bateriam o carro no caminho para casa? Quantas sobreviveriam até o fim da semana?
Ninguém queria saber disso, porque era hora de virar uma bebida atrás da outra, disputar o pódio na competição de quem comprava mais garrafas de champagne, hora de barrar a mente para tudo que estivesse fora daquele ambiente.
O conteúdo da minha taça que fora enchida de novo já estava pela metade e eu imperceptivelmente suada quando a batida eletrônica deu lugar a um solo agudo e arranhado de guitarra no meio de Aerodynamic do Daft Punk. Eu adorava aquela música e quando avistei uma lambisgóia qualquer se mover desengonçadamente, tentando parecer sexy, no mini-palco redondo e com um pole no centro da pista, eventualmente pendurando-se neste, quase vomitei.
Estragou minha cena, figurante!
- Sinceramente, o que aquela... – fiz uma pausa para achar a palavra adequada - minhoca pensa que está fazendo? – perguntei, falando alto por causa da música, uma vez que com um aceno de cabeça já havia feito Amber, Scarlett e notarem-na também.
A minhoca trepadeira e sua falta de sincronia evidente – já que ela conseguia dançar menos direito ainda nos momentos em que o pole não fazia parte de sua coreografia improvisada e infame – continuavam a não saber o que estavam fazendo e conseguir mover os ombros e quadris em harmonia lhes parecia a coisa mais difícil do mundo. Ela era tão sem ritmo quanto os candidatos sem talento do Britain’s Got Talent.
Isso não impedia que os homens ali em volta babassem por ela, de modo algum. Qualquer baranga fácil é princesa num reino de bêbados.
- Puta merda, alguém precisa tirar aquele trambolho dali, sério – Amber disse. - Ela tá pagando peitinho ainda por cima, olha lá – Ambsy apontou.- SE FOR PRA PAGAR PEITINHO, PAGA DIREITO, QUERIDA! – ela berrou e todas nós quase cuspimos nossas bebidas, mas só as engolimos quase engasgando para depois rirmos sonoramente.
- Desde quando anelídeos dançam no pole? Vou espantar aquela minhoca dali – eu anunciei. Logo depois esvaziei minha taça, repousei-a ao lado do balde de gelo na mesa atrás de mim e joguei meus cabelos para trás, inspirando determinação. – Observem e aprendam – pisquei para as meninas que se entreolharam e quando iniciei minha trilha até o pole central, berraram para mim.
Havia alguns rostos famosos ali, tanto femininos quanto masculinos, que eu logo reconheci, afinal, aquela era uma das casas mais famosos da cidade mais famosa do mundo.
A música mudou para outra reconhecida por mim como Phantom Pt.I do Justice e os homens aproveitadores em volta do palco deram espaço para que eu e meu espírito superior de diva da sensualidade passássemos entre eles.
Confesso que me senti Moisés abrindo o Mar Vermelho para os fiéis passarem. A única diferença é que eu passei entre os fiéis, e não caminhei com eles no meio do mar. Confuso, mas compreensível.
Eu estava disposta a subir no palco subindo os estreitos e duplos degraus que me nivelariam até ele, mas não precisei fazer esforço algum nem correr o risco de levar um tombo ao tropeçar por tontura. Que tipo de diva ou rainha eu seria se precisasse fazer esforços que podem ser evitados? Os súditos fazem tudo por nós!
E foi isso que o cara alto e com um moicano ao lado de outro que parecia o Chace Crawford – achei que era o Chace sim, mas minha visão identificadora estava torporosa demais na hora para que eu pudesse ter certeza – fez por mim. Ele me suspendeu até que eu cravasse meus saltos no palco onde a minhoca ainda dançava, indomada.
Alguém deveria pagar aulas de dança para ela. Eu não estava ali para ensiná-la, nem gratuitamente, no entanto.
Ao longo da minha curta vida eu já dancei balé clássico por oito anos a fio, Jazz, e até Hip-Hop por um tempinho. Acreditem. Eu, entre um monte de little chavs. Dentre todas essas modalidades, eu não deixei de tentar a pole dance. Não prossegui depois do nível básico, acho que fiquei de saco cheio na época. Nunca fui nenhuma profissional, mas ei, eu sabia o que fazer, não eximiamente, mas muito melhor do que a travadona no palco.
Uma vez lá em cima, estava pronta para dar a todos ali uma amostra do melhor dos estilos no qual eu afirmava com a maior convicção do mundo ser profissional, o mais cool de todos os estilos de dança existentes: o meu!
Aproveitei o fato de ela ter soltado o pole para iniciar sua tentativa de sedução por toque nos caras sem noção de nada e iniciei minha performance com a missão de transformar uma música agitada em sexy com movimentos suaves. Minha roupa, que havia sido fruto de mais uma mudança de idéia antes que eu saísse e era então um shorts de jersey e cintura alta, preto e simples da American Apparel com uma regata larguinha listrada em branco e preto, não empacava meus movimentos.
Vesti uma das minhas inúmeras caras de puta: a de olhar baixo, quase tímido e quase pidão, e pronto. Só aquilo era suficiente para que a maioria de todos os olhares espalhados pelo recinto (temos que excluir os daqueles que estavam se engolindo), de ambos os sexos, me dessem toda a atenção do mundo. Porque é isso que pessoas fodas fazem.
Virei minha cabeça de lado e passei meu braço por cima dela, jogando parte do meu cabelo para a mesma direção enquanto deslizava meus pés pelo assoalho e meneava meus quadris exageradamente por cima das minhas pernas. Estas, unidas ao máximo, acompanhavam-nos em rumo ao chão, onde quase encostei meus glúteos. Minhas mãos, que antes percorriam a lateral do meu próprio corpo, apoiaram suas palmas nos meus joelhos e subi de uma vez só, empinando minha bunda o máximo que eu podia e escutando os primeiros urros de aprovação virem da selecionada platéia.
A breaca olhou para mim com o maior carão vermelho, ofendida, indignada e, quando deu passos em minha direção para me afrontar, pensei que o pessoal fosse pedir briga. Mas antes que isso pudesse acontecer, eu dei um passo para trás, e fiz com que ela caísse de bunda ao se desiquilibrar quando abri minha mão diante de seus olhos, que num instante se tornaram assustados.
E daí para ficarem cheios de lágrimas foi só preciso que eu fizesse uso da minha cara de vadia maléfica e sorrisse de canto. Ela levantou um pouco seu tomara-que-caia, já que parte de um de seus mamilos estava à vista. A tonta seguia cada movimento que minhas mãos faziam. Por exemplo, quando meu indicador apontou as escadas e meu punho se balançou de um lado para o outro, acenando em despedida ao mesmo tempo em que iniciei minha curta caminhada ao redor do pole. Ela não hesitou em dar o pé dali quando mais vibrações de aprovação explodiram no recinto e fizeram o chão trepidar ainda mais junto com a batida da música.
Climão.
Não era que eu não estivesse bêbada e não corresse o risco de cair dali de cima. Eu estava super bêbada, mas meu corpo já havia se habituado a tal sensação.
Minha mão direita agarrou a barra com força e, inclinada para a esquerda, eu dei uma volta inteira ao redor dela antes que os dedos da minha mão oposta apertassem-na também e, com a ajuda de meu abdome, me desse impulso para que meu joelho agilmente se dobrasse ao redor dela num movimento extremamente rápido, fazendo-me girar. Completando meia volta exatamente no segundo em que a música, apesar de entrar uma batida quatro vezes mais acelerada, estranhamente pareceu ter ficado mais calma, novamente cravei meus saltos no chão.
Continuei com meus passos e quando a batida da música transformou-se novamente, quase voltando a de antes, eu, que estava de quatro no chão porque se era pra dançar que eu dançasse direito, levantei-me com um dos meus olhares mais devassos e girando o pescoço atirei meus fios para trás. Desnecessário citar que a tempestade de palavras sórdidas que caíram sobre mim nesse momento, mas cito mesmo assim, em prol dos desatentos.
Até eu fiquei excitada comigo mesma. Todo mundo deveria tentar isso. É mais que possível, eu garanto. Não é preciso que você fique esfregando a si mesmo loucamente nem nada disso, por favor, claro que não. Você só precisa se amar demais. Em primeiro lugar. Funciona super bem, é tesão autossuficiente na certa.
Repeti meus movimentos iniciais, dessa vez incrementando o olhar pidão, prendendo o lábio inferior entre meus dentes, e, quando cheguei lá embaixo, sentei sobre meus próprios calcanhares antes de engatinhar demoradamente em direção a celebridade mais próxima de mim. Chace Crawford - que finalmente constatei ser Chace Crawford em carne, osso e divindade tão poderosa quanto a minha naquele segundo –, beirando o palco. Estiquei minimamente um dos meus braços e aproximei seu rosto do meu, parcialmente coberto por meu cabelo jogado para o lado, puxando-o pelo maxilar. Quando passei meu nariz por sua bochecha, contraditoriamente senti-me esquentar por dentro ao tornar-me suscetível ao frescor de seu perfume amadeirado que eu reconheci na hora como Azzaro.
Puta que pariu. Juro que quase comecei a tirar a roupa naquele instante. Álcool com Azzaro e homem gostoso não era uma combinação que geralmente terminava sem pelo menos um boquete na minha vida, porém, a situação não era propícia, porque aquilo ainda não era um prostíbulo, uma casa de swing ou de strip em ruínas, onde os homens podiam tocar as mulheres e vice-versa, apesar de eu estar apelando com meu sex appeal. Redundante, mas o que eu podia fazer? Estava para lá de Bagdá e sentir aquilo era tão inevitável, tão natural, tão meu!
Não seria tão errado se eu começasse a me despir ali, já que geralmente pole dances são feitas de lingerie, mas eu ainda conseguia pensar o mínimo para não começar por abaixar meu shorts e levar isso adiante. Aquela merda de perfume excitante era um abridor instantâneo de pernas fenomenal, top no mercado, mas fui obrigada a me controlar de alguma forma dentro de meu completo descontrole, e me contentar somente em beijar o canto de seus lábios, passando a ponta da língua ali depois.
Fui ovacionada, claro. Primeiro, porque era eu. E se todas as mulheres pudessem ver que era Chace C. ali, cada pedacinho delas teria me invejado. Com razão, porque aquele cara era um puta de um deus Grego, uma arte contemporânea, metaforicamente e eufemismicamente falando.
Chace ficou sem reação quando todos em volta começaram a gritar por eu ter feito aquilo, mas até que entrou no jogo. Meus joelhos me sustentaram durante o instante no qual afundei meus dedos nos cabelos macios dele, demorando-me em sua nuca levemente suada antes de puxá-lo bruscamente por ali em direção aos meus peitos, parando um pouco antes que seu nariz pudesse tocá-los. Ele ficou durinho de espanto, boquiaberto durante alguns segundos, mas isso fazia parte de todo o processo. Ação e reação, bem sabemos. Empurrei-o bruscamente pelo peito, fazendo com que ele tivesse que se segurar-se no ombro do amigo que tinha me colocado no palco para manter o equilíbrio.
Quem se importava em sair nas próximas edições da OK! Magazine e da People? Oh, Chace, você se importava? Eu não me importava, embora, sinceramente, não fosse minha pretensão.
Engatinhei de volta ao pole rebolando o máximo que eu podia e minhas mãos aderiram à superfície gelada novamente, escalando-a e auxiliando-me em minha ascensão torturadora que terminou comigo elevando ao máximo os braços e ficando completamente rente à barra. Resolvi dar uma visão privilegiada da minha bunda a quem estava atrás de mim ao empiná-la novamente num gesto rápido e dissimulando o sorriso mais inocente que pude, acreditando ser mais pin-up do que Bettie Page em sua época gloriosa.
A música já estava se tornando uma nova quando, para finalizar, eu fiz a Kate Moss no clipe dos White Stripes, coloquei-me em pé de novo e impulsionando-me para cima, abracei a barra, fechando-a entre as minhas pernas e deslizando com os joelhos rentes aos meus quadris, até sentir meus sapatos baterem no assoalho e me pararem. Deitei meu corpo no chão, ofegante.
Essa foi a melhor parte, confesso.
Melhor do que a série de berros, palmas, assovios, e tudo o mais que o pessoal faz quando ovaciona - que adorei escutar e me forçou a sorrir presunçosa, coisa que alguns não viram muito bem, já que eu estava deitada e o teto cheio de armações luminárias ilusoriamente rodava, colorido, sobre mim.
Está aí outro milagre da minha vida: girar, girar, girar, me jogar para lá e para cá, fazer a tigresa rainha do pole enquanto podre de bêbada. Não há como não se sentir a diva da sensualidade, do pau duro, sei lá do quê, depois disso; simplesmente fora de hipótese.
- Hey, gata do pole – eu ouvi uma voz que se sobressaiu à música do 50 Cent que se iniciara enquanto eu me levantava. Constatei que ela saíra da cabine do DJ e direcionei meus olhos para o local. – Não se esqueça de passar aqui pra gente trocar telefone e mais algumas experiências mais tarde!
Confesso que caí na gargalhada, mas minha sensação de poder chegou no ápice do ápice. Oh, céus, tem que ser muito gostosa e banhada a sedução para cativar os homens de tal maneira. Pela precária visão que pude ter, ele não me pareceu muito ruim. Mas que ele entrasse na fila. Assim como os outros à minha volta, que fizeram questão de começar um festival de “eu também quero” dentre alguns “mais um” antecedentes.
Estava prestes a descer dali me sentindo a Madonna em Like a Virgin - que no fim das contas copiava a Marilyn Monroe em Os Homens Preferem As Loiras-, mas com maior pressa porque eu conhecia a música que estava tocando e tinha urgência em dançá-la na companhia de minhas amigas quando ouvi um “eu também, gata!” de timbre um mais agudo do que todos os outros ali. Ele foi automaticamente reconhecido por mim entre os milhares de desconhecidos.
Meus olhos passaram a vasculhar a multidão de rostos másculos, mas minha visão giratória não me permitia ser mais precisa em minha busca à suposta dona da voz delicada em comparação com as outras. A procura não durou muito mais que alguns segundos. Um “ei!” de mesmo timbre travou minhas pupilas na direção certa, sobre a pessoa certa, e confirmou minha suspeita.
Lá estava ela, na penumbra, dentre mil caras que eram a maioria em volta daquele palco. Os olhos esmeralda mais fascinantes e valiosos aos meus do que qualquer pedra caríssima, repuxados, felinos, instigantes e únicos. Os fios ondulados cor de fogo derivados do vermelho de seu nome, longos e magnificamente cintilantes assim como os dentes impecáveis que eu sabia que aquele sorriso desajuizado escondia. A fisionomia inesquecível e o bandage dress simples e azul-marinho, sem mangas ou alças, realçando a cor natural de seus cabelos e as pouquíssimas sardas nas maçãs de seu rosto e em seu colo, marcando seus contornos ridiculamente definidos de cima a baixo.
Scarlett Steiner.
Às vezes eu admitia para mim mesma que ela me humilhava um pouco no quesito beleza. Só para mim, só às vezes, e só um pouco.
Ela sorriu para mim, apontou para cima e eu li em seus lábios “Groupie Love”, o título da música que estava tocando. Okay, eu não podia sair do palco. Precisava da companhia de Scar ali, e a necessidade era bem grande. Não só a minha como também a dos milhares de pervertidos que nos contornavam.
Quando a platéia pede bis, você precisa atendê-los. E o que vem tem que ser tão ou mais marcante do que o que veio antes.
Estendi minha mão, para que ela a pegasse e meu punho foi envolvido pela sua. Mais algum aproveitador ao redor sacou qual era a nossa e sustentou-a, colocando-a sentada na borda do palco. Ela girou-se, colocando os pés ali, e eu a ajudei a ficar de pé, de frente para mim.
Olhares fatais interligados, geradores de sensualidade ativados no mais alto nível, pernas entrelaçadas, corpos obedientes à música acompanhando o ritmo um do outro e lá estávamos nós, eu e a Srta. Steiner, em perfeita sintonia. Isso era a única coisa com a qual eu queria me importar no momento. Nossa conexão foi rápida e intensa o suficiente para que eu me desligasse de qualquer ação em andamento ao nosso redor.
A prioridade era dar total liberdade à minha resistência incansável, à minha mente desorientada e interagir exclusivamente com Scarlett – a qual eu empurrei, de passinho em passinho, até que suas costas se encostassem ao pole – como se nunca tivesse notado que havia umas duas mil pessoas para mais dentro daquele lugar. E eu tive certeza de que conseguiria ignorá-los igualmente sem qualquer resquício de álcool no corpo.
Virei-me de costas para ela e extingui qualquer distância entre nós ao pressionar minha bunda contra sua pelve e receber suas mãos delicadas e ao mesmo tempo instruídas para me provocar nas minhas coxas, quando essas se aderiram às dela. Com os joelhos sutilmente flexionados, eu rebolava suavemente sentindo-a se espremer contra mim, partilhando da mesma intenção ao deslizar minhas mãos para trás até que estivessem satisfeitas por estarem devidamente preenchidas por seus glúteos. Apertei-os com gosto.
Era gostoso, era tentador, e me excitava. Muito; de uma forma diferente de todas as outras. O volume avantajado dos seios dela pressionado em minhas costas combinado ao deslize mal intencionado de suas mãos pela minha cintura. O quanto eu esperara por aquilo, pelos dedos ousados que não hesitavam em me arrepiar ao apertarem e arranharem a parte interna de minha coxa, parando a um centímetro de distância de seu destino final: minha intimidade cada vez mais quente, cada vez mais impaciente, apertada e escondida dentro do shorts, o que só tornava tudo ainda pior. Eles escorregavam pelo meio das minhas pernas almejando tocá-la e de repente se desviavam para qualquer outra região próxima como se houvessem levado um choque, me deixando cada vez mais exasperada.
Eu e meu egocentrismo tínhamos certeza de que ela havia inventado aquelas sensações para mim.
Estava começando a suar novamente devido a repentina impressão que tive de que o local estava diminuindo e ficando abafado demais. Meus seios ficavam cada vez mais tensos, os meus braços formigavam e cada movimento sincronizado de nossa dança vagarosa e suja, o mais breve e simples toque, a sensação de saber que por baixo daquele vestido era o sexo dela que roçava em mim aliados à sua respiração ritmada e cálida batendo no meu ouvido integravam uma das experiências mais extasiantes que eu já havia encarado e não deixava que meus dentes se desprendessem do meu lábio.
Cada avanço era um novo motivo para minha intimidade insistir com mais veemência para que a dona das curvas perfeitas a se esfregar, me apertar e se apertar contra mim fosse alertada o mais rápido possível de que ela tinha de se apressar e que ela podia - como eu queria - que ela fosse muito mais além.
Não era qualquer uma ali. Era a mulher. Era Scarlett. E Scarlett era o ser humano desprovido de um aparelho reprodutor masculino mais sexy que eu já havia conhecido, no qual eu já havia botado minhas mãos e desejado isso de tão desnorteante maneira. Minha maior tara lésbica de todos os tempos. Ela era tão perfeita aos meus olhos que batia qualquer mulher com o biotipo de Angelina Jolie ou Penélope Cruz. Elas me pareciam tão whatever perto dela. Percebe-se que ela me fazia até ficar cafonamente piegas, como se ela fosse Deus e eu uma mera mortal.
- Sua safada! – ela disse em meu ouvido, sem nenhum tipo de dificuldade, já que mais um pouco seríamos comparáveis a siamesas, e eu sorri languidamente com seu comentário. Uma pena não ter podido ler sua expressão.
A sintonia que nos estimulava era surreal! E a mão dela firmemente presa à minha cintura, a sensação de escorregar pela perna dela ligeiramente flexionada entre as minhas e uma das minhas entre as suas também eram.
A música já estava perto de entrar em sua última parte e nos encontrávamos novamente uma de frente para outra, os olhares brutalmente carregados de tensão sexual atiçando-se naturalmente. Eu tinha uma das minhas mãos nas sardas do ombro dela e nessa posição nós descemos ritmicamente quase até o chão. Era delicioso sentir o que havia entre minhas pernas ser estimulado pela fricção macia da pele bem cuidada e lisa que revestia o músculo tonificado de sua coxa.
Ficamos eretas novamente e ela me puxou mais para perto com a mão que mantinha em minha cintura. A completa rigidez de meu corpo, inegavelmente dominado pelo dela, veio como conseqüência assim que senti nossos seios chocarem-se como dois pares de rocha se enfrentando. Era um pouco contraditório estar dura daquele jeito quando eu me sentia tão mole quanto água. Por pouco nossas testas não entraram no esquema e também se embateram.
- O que você tá fazendo? – eu perguntei enquanto ela me arranhava ternamente nas costas, querendo que ela me devolvesse uma resposta que exprimisse claramente o fato de as intenções dela serem exatamente iguais as minhas, como eu tinha certeza de que eram.
Não precisei de nada mais que um olhar completamente imoral e predador para ficar segura de que eu teria, pela enésima vez na vida, o que queria. Minha garganta secou e eu sabia que aquilo nada tinha a ver com ressaca antes da hora.
- O que eu quero fazer e o que você quer que eu faça, bitch – ela complementou nosso contato visual com palavras, alto o suficiente para que meus ouvidos e receptores nervosos captassem a tão bem-vinda mensagem que se transformou em pequenos impulsos e se dissipou dentro de mim, me fazendo engolir em seco. Esse tipo de sintonia nunca falhou comigo.
Eu me concentrei no sorriso arrogante que veio a seguir e semicerrei os olhos. Scarlett era quente como seu nome dizia. Scarlett despertava minha ambigüidade. Scarlett me fazia arder. E ela fez questão de me apresentar uma prévia do que estava por vir e deixar claro que, apesar das nossas altíssimas potências independentes, nós duas juntas tínhamos a capacidade nos tornarmos uma bomba de fusão nuclear quando nos uníamos.
No segundo em que a música se transformou em outra de mesmo gênero, a boca cálida e impetuosa de Scar cobriu a minha, incentivando a concretização do impulso que minha mão teve de fixar-se vigorosamente à sua nuca.
Uma das sensações mais inexplicáveis já sentidas por mim propagou-se por cada célula de meu corpo em ondas que arrastavam litros de sexualidade diluídos em meu sangue.
Ela era minha.
Queria poder afirmar que fui pega de surpresa, mas não conseguia nem fingir que não estava esperando por aquilo pronta para devolver o que ela me desse na mesma moeda ou com muito mais.
Não era minha primeira experiência com uma mulher, estava bem longe disso. Mas era a primeira vez que eu e Scar atingíamos um nível que ia além do selinho do ritual da tequila e dos apertões ocasionais que sempre significaram mais do que meros contatozinhos dolorosos. E todo mundo sabia disso.
Naquele momento, todas as minhas vivências íntimas com garotas passaram a ser desconsideradas.
Depois de tanta provocação de ambas as partes, depois de alguns poucos anos resistindo uma à outra (e eu não sei até hoje como obtivéramos tais proezas se formos contar o número de vezes em que, acompanhadas, ficamos mais altas que o Empire State. Não que precisássemos ficar alteradas para que aquilo acontecesse, mas quando se está, tudo na vida rola mais fácil.) o acúmulo de desejo lancinante comprimido dentro de nós resolveu vir a estourar da forma que sempre devera. Em um ambiente nada íntimo, em uma situação completamente não planejada e com a exata naturalidade que eu amava ele se tornou mais do que evidente, descaradamente explícito.
As coisas são muito mais prazerosas quando acontecem sem que se force. E foi no meio de toda essa ausência de privacidade, de palavrões e incentivos depravados que embalaram todos os nossos movimentos desde o início até o segundo em que a boca dela roubou a minha, e que se tornaram mais intensos quando nossas línguas se encontraram, que os dedos dela partiram sem rumo definido entre meus cabelos. Finalmente eu provava do gosto marcante, modificado pela vodca, que ela me entregava e eu deixava sua avidez provar do meu igualmente alterado.
- Para onde você está me levando? – perguntei, completamente desnorteada, quando ela deu sossego à minha boca, prendeu meu pulso em sua mão e apressadamente saiu me arrastando para fora do palco, deixando nossa platéia para trás, querendo mais.
Honestamente, seus otários, vocês já tinham tido demais, e de graça. Só quem eu quero leva todos os bônus sem pagar, o que no momento significava Scarlett e mais ninguém.
Aliás, pagar é o cacete. Não sou puta, já disse. Se vier querendo pagar, eu me ofendo, onde já se viu? Tenho cara de pobre, de necessitada? Dinheiro eu tenho mais que o suficiente, obrigada. Tenho cara de quem dá para qualquer um? Eu escolho quem mete aqui e não o contrário!
E, repito, no momento, Scarlett era a escolhida. Ela parecia menos bêbada do que eu, então eu supus que, consequentemente, ainda lhe restava um pouco de noção sobre o que estava fazendo.
Se bem que, contradizendo tudo que eu disse acima, ela podia resolver tirar minha roupa no meio de todo mundo em um daqueles estofados que eu não iria nem ligar. Eu estava em transe, eu era gostosa, Scarlett era mais e nós estávamos bêbadas e loucas para putear uma com a outra. Quem é que ligaria para alguma coisa nessas condições? Pouco me lembraria de me importar se estavam nos assistindo ou não, todos eles sumiriam num instante assim que ela colocasse a mão onde eu desejava.
Ninguém ficaria literalmente indignado, e se algum segurança tivesse que nos tirar dali, o faria por pura condolência com a porcaria da ética humana. Iria fazê-lo com dor no coração, porque no fundo, lá dentro, estaria louco para comer nós duas de uma vez só na maior orgia, de quatro, de frente, por trás, por cima, por baixo, de ponta cabeça... Seria pura hipocrisia!
Todo ser humano adora uma putaria, mas a maioria não se sente segura o bastante para admitir. Uma pena. Eu admito: adoro essa porra toda. No sentido mais literal que você quiser interpretar.
Perdi a conta de quantas pessoas mais suadas que nós na aglomeração dançante trombaram na gente enquanto tentávamos cortá-la e agradeci Scar mentalmente por estar segurando minha mão e me guiando, porque aquela luz estroboscópica, estereoscópica, estetoscópica, estratosférica, qualquer coisa que fosse, quase me derrubava em um ataque de epilepsia com aquele apaga e acende retardado que deixava tudo em câmera lenta. Devia ser proibido acender aquela luz num recinto abarrotado de gente bêbada!
- Eu te deixo tão sem ar assim a ponto de faltar oxigênio no seu cérebro? – ela replicou, falando alto, e ainda assim eu quase não pude ouvir ou compreender. Demorei alguns segundos para captar a mensagem e não conseguir responder. Estava processando todas as informações numa velocidade de lesma. Bosta, Scarlett! Eu só vi os cabelos dela quase batendo no meu rosto e ela rindo da minha cara desantenada quando se virou para trás e riu de mim.
- Acho que é a luz – eu disse, completamente bocó, lentamente correndo o olhar ao redor como se fosse um alienígena num planeta novo, e ela riu mais ainda.
Quem era que estava mais ágil do que um flash antes de ela entrar em cena? Ah, pois sim, era eu.
- Você vai amar, eu te garanto!
- Já estou amando. Nunca amei tanto, estou vendendo amor! Pra você é de graça, vai querer? – minha língua bêbada enrolou sem mais nem menos, e ouvi a risada estrangulada dela vibrar junto das outras milhões de ondas sonoras no ar. Ri também, com a mão em frente à boca. Era impossível não rir.
- Cala a boca e escolhe uma porta – ela ordenou quando nós paramos, cheia de autoridade na ponta do nariz, e apontou o que estava à nossa frente com ele.
Feminino à esquerda, masculino à direita.
A fila do banheiro feminino estava gigante e ultrapassava a porta de entrada, cheia de meninas irritantes pra cacete com vozinhas chatas pra cacete, falando pra cacete. Argh, aquele cacete todo parecia inchar minha cabeça e ela iria se desfazer num boom de miolos se eu não saísse de perto daquelas putinhas futriqueiras naquele instante.
Prostitutinhas de merda, eu odiava todas elas. No momento, eu só gostava de Scarlett e de mim, mais ninguém.
No entanto, claro que a fila do banheiro dos homens era bem menor e começava do lado interno, pelo que visualizei quando um cara saiu dali de dentro, e não preciso explicar por quê. Eles não ficam falando da vida alheia, discutindo tamanho de pau e resolvendo o futuro sexual da noite enquanto retocam o pó e o batom durante eternos minutos em frente ao espelho. Não que eu não fizesse nada daquilo, mas eu não tinha saco para aguentar outras que não fossem eu e minhas amigas fazendo isso.
Obviamente, nenhuma de nós duas estava a fim de ficar aguardando nada em fila alguma. Não havíamos ido até o banheiro para mijar (“fazer xixi” é para fracos, tipo de coisa que eu falo pra parecer polida na frente da minha mãe. Supere isso, é ridículo, não suporto) e ninguém nesse mundo fica em fila, esperando para entrar em uma cabine vazia para bimbar. Isso viola a Declaração Stoller dos Direitos Humanos.
Vi a minhocona do pole saindo pela porta em que havia aquela mulherzinha padrão de todos os banheiros do mundo iluminada e pregada. Ela tinha os olhos inchadaços, vermelhos, e parecia uma ameixa seca com a maquiagem toda borrada, ao lado de uma amiga. Não sei o que é pior: parecer uma minhoca, parecer uma ameixa seca ou ir de minhoca para ameixa seca. Ela devia ter chorado demais e esfregado muito os olhos para ficar borrada daquele jeito. Ou a maquiagem dela não era à prova d’água, que pecado, menina burra.
Ela nem me percebeu, muito menos a cachorra ao lado dela, mas achei maravilhosa a sensação invasora do sadismo nas minhas veias por saber que ela estava toda escangalhada pelo que eu havia feito. Ri tanto quando as duas passaram que acabei não escolhendo merda nenhuma e Scarlett acabou por me puxar contra ela e me beijar novamente.
Ela me empurrava com seu corpo, agarrada à minha cintura para que eu não caísse, e meu rumo era aquele que ela tomava. Minhas costas empurraram uma das portas que antes eu observava. Só pude definir por qual delas eu havia passado quando escutei uma voz dizer:
- Ei! Esse é o banheiro masculi... Wow. Vocês acabaram de entrar no lugar certo. Fiquem à vontade, donzelas!
Enquanto Scar me empurrava contra a parede oposta à da porta, eu abri os olhos por tempo suficiente para fazer uma constituição o mais clara possível, na minha situação, da cena ao meu redor. Quem dissera aquilo fora o atendente próximo a porta, vestido com o uniforme da casa, tomando conta de uma prateleira cheia de quinquilharias como desodorantes, eaux de toilette, Mentos, Trident, maços de cigarro e toalhas brancas cuidadosamente para quem fosse horrendamente frescurento, tivesse TOC e quisesse pagar para secar as mãos nelas, esperando para receber uma gorjeta.
E se o atendente do banheiro, que estava ali para vender aquelas porcarias e manter a ordem, estava a nosso favor, quem estaria contra? Alguns caras nos olhavam estupefatos, os gays fingiam não nos ver e outros carregavam a expressão mais pervertida do mundo enquanto se aliviavam nos mictórios ou esperavam sua vez.
Rezei para que eles não começassem a bater uma punheta coletiva, porque seria meio estranho, sabem.
Que idéia inteligente a de Scarlett! Que genialidade, meu Deus. Aquela mulher era um cérebro das dirty things! Ela podia dar aulas de verdade de educação sexual. Esse era um dos motivos para que nos déssemos tão bem.
Mulheres não fariam bom proveito de qualquer teaser que saísse de alguma das cabines do banheiro! Havia um lado bom: elas estariam ocupadas demais tomando conta da vida alheia, vomitando e cheirando pó para perceber que nós havíamos entrado na mesma cabine para executar indecências ou nos escutar. Mas se dessem conta de alguma coisa com certeza ficariam indignadinhas, preocupadas com as “lésbicas no banheiro”. Simplesmente se incomodariam demais e iam foder completamente nosso clima. Nem foder na interpretação prazerosa da palavra era, e eu não queria gente empatando a minha foda. Scarlett tampouco, e ela deixou isso claro quando nos guiou para o banheiro não destinado ao nosso sexo.
Impossível não amar Scarlett, impossível! Pausa para a adivinha: que garota te leva para um canto escuro ou para um banheiro cheio de mulheres quando há um banheiro masculino cheio de testosterona doida para apreciar qualquer gemidinho ridículo se dissipar no ar? Uma garota que não é Scarlett S., claro.
Os homens têm esse besteirol de achar duas mulheres “sexualizando” a coisa mais excitante do planeta Terra, nunca iriam reclamar de nós, ali! Sem contar que as cabines nos banheiros masculinos, quando há, quase nunca são utilizadas, portanto são muito mais limpas. Eu acho. Afinal, não é em qualquer banheiro que se pode fazer isso. Alguns são impossíveis, por mais que o desespero seja imenso. Melhor fazer em público do que em um banheiro impossível de imundo, inquestionavelmente.
Creio que Scarlett havia se perdido em seu próprio mapa e não sabia muito para onde estava me empurrando, porque ela riu brevemente entre o beijo quando sentiu o impacto das minhas costas encontrando-se com a parede. Ou seja, se tivéssemos trombado em algum homem e o feito enfiar a cara em seu próprio mijo misturado ao de mil desconhecidos dentro do mictório, ou quem sabe meter a cabeça na parede e sair dali com um belo galo, all right, que problema haveria nisso?
- Vou fingir que não estou aqui, não se incomodem comigo – eu escutei a voz do atendente numa galáxia distante e fui obrigada a interromper o beijo para rir por alguns segundos, com a boca afundada no ombro descoberto da garota que me segurava, e ela fez o mesmo comigo.
Francamente, se estivéssemos nos incomodando com algo, nem ali estaríamos!
Eu a abracei forte e, acariciando seus cabelos, voltei a beijá-la. No mesmo instante, escutamos um dos caras presentes ali dizer:
- Nem comigo!
- Muito menos comigo! – algum outro disse e isso bastou para que todos os mijões fanfarrões loucos para entrar na nossa brincadeira manifestassem o quanto sua interessada indiferença perante a nós era absoluta.
- Eu me incomodo com isso! É um desrespeito com as outras pessoas que utilizam este sanitário! – alguém disse. Provavelmente um daqueles que havia evitado nos olhar. Instantaneamente ele foi atingido por raios de desaprovação vindos dos outros, que lhe berraram várias injúrias homossexualmente preconceituosas.
- Então dá o fora e vai queimar rosca fora daqui, veado! – Esta foi a última ofensa que meus ouvidos se deram o trabalho de escutar.
Engraçado, a maioria dos caras heterossexuais dá homofobia de graça quando se trata de um homem com outro homem. Por outro lado, quando duas garotas resolvem se enroscar, eles só faltam emoldurar a cena, pendurar no banheiro e se divertir com a imagem quantas vezes por dia queiram. Porém, eles compram filmes e pagam canais pornôs porque é mais fácil.
Achei engraçado, no mínimo, termos provocado uma intensa manifestação de barulho no banheiro masculino além de pigarros e escarradas nojentas, já que estes sempre são quase um santuário do silêncio onde ninguém nem se olha.
Scarlett apertou minha nuca e os fios dali sendo puxados estranhamente fizeram minha cabeça parecer pesar mais, o que me levou a pendê-la para o lado e pôr fim ao beijo novamente, dando liberdade para que ela pudesse experimentar pela primeira vez a textura frágil do meu pescoço. Tirando minha regata de dentro do shorts com uma só mão, ela entendeu o recado e não perdeu tempo em esquentar a pele delicada que o revestia com sua língua, exercitando toda a sensibilidade que havia ali.
Ela parecia estar achando o máximo se exibir para os caras, eu não ia estragar tudo ao reclamar. Não que eu achasse ruim, eu só queria que, naquele momento, ela fosse somente minha e não de um bando de delinqüentes sexuais querendo ter novas idéias sobre o que pensar na hora que fossem tocar uma.
E tudo que eu pudera fazer até esse ponto fora somente apertar e arranhar sua nuca molhada e suas coxas e bunda incrivelmente firmes. É isso que exercícios físicos fazem pelas mulheres, não é? Na hora perguntei-me se ela tinha voltado a praticar pilates e fiz uma nota mental de que deveria começar a malhar mais. Ela era absurda! Mas esse não era o ponto, o ponto era que Scarlett estava sendo uma puta folgada! Eu queria tocá-la mais afundo, eu queria subir, descer e amassar mais ainda o vestido dela antes de jogá-lo fora, queria dominar e lamber cada pedacinho da pele pintada dela. Eu queria engoli-la inteira de uma vez só e queira que ela fizesse o mesmo comigo.
Será que ela poderia tentar parar de me imobilizar e por um minuto? Ela me conhecia muito bem e sabia que eu já tinha notado seu jogo. Vaca!
As vozes no banheiro passaram a nos incentivar com uma quantidade imensa de sordidez e o mundo ao meu redor sumiu mais uma vez. Não precisávamos deles, nosso incentivo mútuo era suficiente para que chegássemos ao fim daquilo extremamente satisfeitas.
Eu dava valor pra idéia de audiência, mas nem tanto, como deixei claro.
Ela parou com tudo de novo e eu teria protestado se não acabássemos dentro de uma das quatro cabines púrpura que estavam antes à sua esquerda. Depois de girar o trinco - ato que quase passou despercebido por mim e não faria a menor diferença no futuro porque se alguém entrasse ali nem nos daríamos conta -, seu quadril imediatamente me prensou contra uma das paredes de forma arrebatadora e ela encostou um dos joelhos ali, aumentando a pressão entre nossas pélvis para que qualquer movimento que eu tentasse executar se tornasse mais difícil.
Scar me encarou, atrevidamente libidinosa, e enfiou as mãos mornas e irrestritas por baixo de minha blusa. Logo depois fingiu que meu sutiã não existia ao ultrapassar os bojos dele sem cerimônia alguma e tomar o que havia ali embaixo para si. Uma vez que meus seios estavam sob poder de suas mãos, ela juntou nossas bocas, entrando no jogo de tentar dominar minha língua com a sua. Minhas mãos afundadas em seus cabelos, aumentando a pressão entre nossos lábios, davam-me a impressão de que não seríamos capazes de nos separar nem se nossas cabeças fossem sugadas por qualquer invenção ultrassugadora.
Eu estava devorando-a pela boca e queria que aquilo não tivesse fim.
Scarlett não apertou meus mamilos. Scarlett não brincou com eles com as pontas de seus dedos. Ela era como eu, e quando queria uma coisa era por inteiro. E ela queria meus seios por inteiro, não pela metade. Eu gemi em alto e bom som, com vontade e quase acabei grunhindo, quando ela os apertou intensamente, com uma força proposital.
Doeu. Porra, como doeu. E foi delicioso. Ela riu abafadamente quando eu gemi num fôlego só. Porque era aquilo que ela queria. Queria que eu empurrasse meu quadril contra o dela como reação, demonstrando o quanto meu desejo tinha pressa em ser atendido; somente para ela ter o prazer de empurrá-lo e prendê-lo novamente entre si e a parede.
Não havia insegurança ali, ela sabia o que eu queria e minuciosamente como me dar. Ela vivia me estudando assim como eu a estudava. E isso só tornava as coisas ainda melhores. Mais um pouquinho de empenho e as unhas dela teriam me perfurado, eu juro. As minhas teriam feito o mesmo com sua pele se não houvesse tecido cobrindo as curvas de sua cintura para me atrapalhar.
Fiquei me perguntando se Chace Crawford não havia ficado interessado em mim e estava me procurando lá fora. Quem se importava? Eu tinha Scarlett Steiner!
Eu necessitava, tinha a obrigação de dar um fim, mesmo que temporário, naquele vestido (ele era bonito e resistente demais para eu rasgar ou jogar fora no fim das contas, sem contar que tínhamos que sair dali vestidas), de dar as minhas mãos o direito passearem por ela sem nenhum tipo de obstáculo.
Eu quase sufoquei quando eles pularam para fora, e meus olhos quase seguiram seu exemplo. Perfeitamente moldados e proporcionais, fartos na medida certa para mim, rijos, e os mamilos, ai, os mamilos... Impecavelmente redondos e rosados faiscando ansiosamente, apontando para os meus olhos, me chamando... Alguém tinha de pintar aqueles peitos, torna-los uma escultura, eternizá-los de qualquer forma, sério. Aliás, Scarlett por inteiro devia ser um quadro ou uma escultura.
Fiquei estupidamente sem reação, mesmerizada. Meus olhos prenderam-se aos peitos dela como se fossem a única coisa que pudessem enxergar entre todas as outras que ela tinha a me oferecer, como se eu fosse um garoto virgem de treze anos descobrindo a anatomia feminina, como se aquele fosse o primeiro par de seios que eu via na minha vida, me deixando ainda mais tonta. Eu estava tão a fim dela, eu queria tanto gemer pra ela!
Minha blusa foi agarrada. Ela puxou-a para cima e eu levantei os braços para que ela pudesse tirá-la com mais facilidade antes de jogá-la sobre uma espécie de prateleira que havia no canto atrás de nós provavelmente para que fossem colocados quaisquer itens com risco de cair dentro no vaso ou algo assim. Que linda, ela estava se preocupando em cuidar da minha roupa! Porque vocês sabem, ela poderia tê-la jogado no chão ou algo assim.
Minhas mãos praticamente voaram nos seios dela, tão convidativos quanto um travesseiro sobre a cama quando você chega em casa às sete da manhã fedendo a cigarro e bebida. Aleatório, mas ainda assim convidativo. Eram como pedra embrulhada em veludo. Minha boca era que provavelmente estaria ali se ela não tivesse sido mais rápida e se aproveitado de meu estupor para ganhar vantagem sobre mim.
Ela afastou os fios de cabelo grudados em meu pescoço, acolheu minha mandíbula em sua mão ossuda de forma nada delicada e trilhou um caminho por toda a extensão de meu pescoço com sua língua macia sem se importar com a fina camada do suor que ali escorria, apenas preocupando-se em deixá-lo mais molhado com sua saliva de divindade. Seus lábios retrocederam um pouco até alcançarem um de meus seios e ela cravou os dentes ali antes de sugá-lo. Espremi meus olhos e quase sufoquei com o grito que ficou abafado em minha garganta. Soltei o ar quando ela resolveu avançar, subir com eles até o lóbulo de minha orelha e fincar suas presas ali.
- Hm, você é uma delícia... – ela sussurrou em meu ouvido e logo após depositou um beijo um pouco abaixo da minha orelha. Um frêmito fez o caminho contrário em minha espinha, de cima para baixo, até que de uma forma desconhecida por mim acabasse estourando entre as minhas pernas. – Você é literalmente gostosa. Mesmo bêbada, cheirada e suada, você tem um gosto adorável.
- Vá pro inferno, Scarlett! – eu xinguei-a por causa da piadinha carregada de sarcasmo e ela riu brevemente.
- Eu estou falando sério pra porra, Stoller – ela me olhou, severa e eu tremi. - Então é melhor você calar essa boca e ficar agradecida.
Seria lógico que o calor começasse a se dissipar de meu corpo por eu ter ficado sem a blusa, mas a garota a me tocar não permitia que isso acontecesse ao dizer aquelas coisas e voltar a me provar. Ela fazia minha temperatura aumentar em todos os pontos debaixo da minha pele, absolutamente todos, sem exceções.
- Eu sei que você pode fazer melhor que isso... – desafiei, minha voz custando a sair, reprimida pela intrepidez dela.
Apertei um de seus peitos com força. Ela silvou e mordeu minha bochecha, provavelmente deixando ali uma marquinha de curta duração.
- Hum... E você quer que eu faça melhor que isso? – perguntou-me, enquanto eu a ajudava a se livrar de meu sutiã tirando meus braços de dentro das alças de qualquer jeito, e ela o abaixou até que estivesse no meio da minha cintura.
Agilmente ela jogou minha cabeça para o outro lado e por pouco meu pescoço não estralou. Eu adivinhei o sorriso estreito no canto dos seus lábios quando suas unhas afiadas alisaram meu ventre de baixo para cima e eu senti uma contração involuntária se dar automaticamente sob o toque cuidadoso deles. Cuidadoso?
Logo depois, Scarlett chupou a pele do lado da minha nuca até então inexplorado, e voltou a espremer um dos meus seios, quase o esmagando, aproveitando cada novo apertão e evidenciando cada vez mais minha dificuldade em respirar ao me fazer soltar o ar em intervalos irregulares. A junção de tudo isso fez com que eu demorasse mais tempo que o necessário para respondê-la.
- Mas que pergunta ridícula! – eu disse por fim e arranquei sua cabeça de meu pescoço com tanta violência que seus dentes poderiam ter ficado presos ali.
Segurei seu braço tentando apresentar uma postura austera, digna de mim, que costumava mandar, ao dirigir sua mão até onde ela já devia estar havia muito tempo. Eu não agüentava mais esperar.
Se ela queria abusar de mim, aquela folgada, e não me deixar retribuir na mesma moeda, ótimo, eu não estava achando tão ruim assim. Mas eu exigia que ela parasse com aquela enrolação toda e fizesse comigo o que tinha me levado para fazer ali dentro desde o começo. Não aceitaria nenhum tipo de contestação, mais um pouco e eu viraria uma estátua de tão dura que estava, daí me tornaria completamente apática aos toques dela, então a opção mais sábia me parecia ser acelerar o processo.
- Vamos ver o que eu posso fazer por você – ela falou num tom analítico e me olhou da mesma maneira, medindo-me de cima a baixo. Por mim ou comigo?
A mão que eu havia pousado categoricamente sobre minha intimidade encoberta iniciou uma sucessão de carícias brandas que me fizeram arfar, fecharam meus olhos, inclinaram minha cabeça para trás e a encostaram na parede às minhas costas sem que eu ao menos os acionasse.
Eu ergui a cabeça e quase a deixei cair novamente, mas Scarlett foi mais rápida e grudou nossas bocas antes que eu pudesse fazê-lo. Enquanto meus braços pendiam sobre seus ombros, minhas pernas se fechavam e abriam ao redor de sua mão a cada beliscão ou arranhão nas minhas coxas, e a cada mordida no lábio que eu recebia. Mal conseguia acompanhá-la na batalha entre nossas línguas por isso mesmo era um beijo quase sem língua, tamanha era exasperação exigente dentro de mim, ou de nós, que resultou em mais uma manifestação verbal de minha parte:
- Tira isso logo, Scarlett! – soei quase desesperada entre o beijo e engoli em seco pela bilionésima vez.
- O que você disse? – ela capturou o apelo dentro dos meus olhos, ainda acariciando minha intimidade.
- Eu mandei você parar de me enrolar, tirar a porra do meu shorts e enfiar essa mão aí dentro logo, sua meretriz inútil. – Talvez usar da agressividade moderada fizesse efeito.
Alguém do outro lado se manifestou com um “ô-ho-ho-ho-ho!” e eu revirei os olhos.
- Meretriz inútil? – ela lambeu meus lábios com a ponta da língua e beijou o pico do meu nariz. – Classudo! Acho que vou ter que te mostrar quem é a inútil aqui.
Que vaca filha da mãe! Eu não era inútil, ela sabia que não. Mas o que eu podia fazer se ela não me deixava ir adiante?
Eu desapoiei minha perna para ajudá-la e voltei a cravar o salto no chão. O shorts tinha somente um botão e o tecido era bem elástico, portanto não foi difícil para ela abaixá-lo até os meus tornozelos. Resolvi tirá-los de uma vez, para dispor de uma mobilidade maior e tive um pouco de dificuldade ao fazê-lo, mas não demorou muito para que já estivesse no mesmo lugar que minha blusa. A mão dela já se acomodara dentro de minha calcinha e meu pé se apoiou de novo onde estava anteriormente.
Gentil. O primeiro toque foi tão gentil que quase me desmanchou em um sorriso, mas me contentei em somente suspirar profundamente e voltar a apoiar minha cabeça na parede. Sua mão estava ligeiramente mais gelada do que minha intimidade, que fervia ali dentro. O calafrio que isso causou elevou um pouco meus quadris em sua direção, aumentando o ângulo de abertura entre minhas pernas. Puxei o ar de súbito, para soltá-lo lentamente pela boca quando minha bunda encostava-se à parede novamente.
Senti seu indicador afastar meus pequenos lábios com cuidado, umedecendo-se entre eles, e assim que se juntou ao médio, que descansava um pouco mais acima, ela deu início ao ponto que valeria minha noite. Seus dedos massageavam meu clitóris de uma maneira absolutamente sutil e vagarosa, ela tinha um tato incrível. Era como se ela quisesse o oposto do que eu queria, e eu não duvidava disso. Quanto mais velocidade eu quisesse, mais devagar ela faria, então preferi não dizer mais nada e deixar que ela prosseguisse em seu próprio ritmo.
Eu arranhei sua lombar e a puxei pela cintura para que ela ficasse mais próxima. Ela se empurrou ainda mais contra mim, forçando-me ainda mais contra a parede, e senti que minhas escápulas se partiriam em pedacinhos a qualquer momento. Não me importei, pois isso fez com que o antebraço dela prensasse um dos meus seios absolutamente túmidos enquanto ela me fazia o favor de beliscar o mamilo do outro.
Só uma pergunta pulou na minha cabeça: como ela ainda conseguia apertá-lo?
Os dentes dela estavam indecisos entre brincar com minha orelha, pescoço, ou morder meu lábio, puxando-o para si e escorregando neles antes de soltá-los. A agitação crescia e se espalhava gradativamente dentro de mim conforme os movimentos circulares de seus dedos entre minhas pernas se tornavam mais apressados e eventuais gemidos de minha parte começavam a escapar de minha garganta seca, ao contrário de minha intimidade em brasa que pulsava e se umedecia cada vez mais sob seu toque enlouquecedor. Eu tinha a impressão de estar mais bêbada do que quando eu entrara ali.
Meus quadris se desinibiram totalmente e passaram a seguir o ritmo circulatório das pontas de seus dedos experientes que continuavam a me masturbar, agravando meu nível de excitação e o elevando a um quase insuportável. Meus olhos e lábios exprimiam isso ao quase sumirem em minha face de tanto que eu os crispava, tentando estender cada segundo de prazer que me era proporcionado. E era eu quem, há minutos antes, queria apressar...
Scarlett inclinou um lado de seu corpo um pouquinho para baixo, soltando meu seio. O dedo médio juntamente com o anelar da mão dela encarregada de se aventurar em meu sexo escorregou com uma facilidade e determinação admiráveis para dentro de mim, me arrancando um gemido que chegou perto de ser penoso. Tenho certeza de que ele pôde ser ouvido através da porta. Por um momento, senti que meu coração se deslocaria do meu peito e eu morreria por deslocamento cardíaco ou algo assim por causa das batidas frenéticas que ele repentinamente impeliu quando ela fez isso.
O polegar ágil continuava a estimular diretamente meu clitóris enquanto ela deslizava os outros dedos para dentro e para fora de mim, me causando ainda mais tontura e me levando a contrair-me ao máximo em volta deles quando entravam sem dó, porém sem provocarem nenhum tipo de dor e todo tipo de arrepio na espinha que me estremeciam inteira.
Meus quadris simplesmente já estavam me desobedecendo por não conseguirem permanecer inertes a tal estímulo. Respondiam-no com breves impulsos involuntários que apareciam ainda mais violentos a cada vez que ela resolvia também girar os dedos acomodados em meu interior. Mal conseguia manter minha boca em sincronia com a dela, sem saber se era pela ação do crescente tesão em minhas veias, cada vez mais voraz, ou pela exasperação que o acompanhava, seguindo os mesmos caminhos.
- Puta que pariu! – eu xinguei em forma de aviso, afastando rudemente de mim parte de seu torso por um dos ombros. Virei minha cabeça de lado e senti meus pulmões inflarem e quase estourarem com o ar que eu puxei de uma vez só. Mordi meu lábio inferior até que não os sentisse mais e todas as linhas presentes em meu rosto se contorceram intensamente numa careta de dor quando a sensação mais prazerosa e genial já inventada começou a crescer e se acumular na região do meu clitóris.
Enlacei seu pescoço com um de meus braços e com a mesma violência puxei-a de volta, instantaneamente apoiando meu queixo em seu ombro e levando a mão à curva entre um de seus glúteos e coxa.
- Só mais... – eu disse, mas não consegui terminar a frase porque um gemido a engoliu. Sei lá por que eu resolvi falar, mas qualquer coisa era melhor que se reprimir. Revirei os olhos lentamente e soltei seu pescoço para puxar meus próprios cabelos ao sentir o ritmo lá embaixo acelerar. - ... um pouco.
- Como você quiser – Scarlett sussurou em meu ouvido e eu abri a boca para soltar o ar que saiu de uma vez só em um som afligido e prolongado quando ela impulsionou os dedos para dentro de minha intimidade pela última vez. Com um ímpeto tão veemente quanto o de uma bala de fuzil que penetra o corpo da vítima sem ter ciência das conseqüências; tão irracional quanto o prazer e o deleite indescritíveis que explodiram em sua mão e então se esparramaram gostosamente por todos os receptores nervosos do meu corpo, me comprimindo da cabeça aos pés. Tão sufocantes e vigorosos quanto o laço que voltei a amarrar em volta de seu pescoço, quanto o aperto de minhas unhas na curva formada por este e seu ombro.
Ela não interrompeu o movimento de seu polegar até que minhas unhas, que pareciam querer perfurar sua bunda e qualquer outro pedaço de carne que tocavam, afrouxassem-se ali, assim como fez meu braço que antes quase esmagava seu busto por causa do aperto. Não tirou seus dedos de dentro de mim até que eu estivesse me sentindo mais leve do que palavra leveza e a sensação violenta que me atingira segundos antes estivesse se esvaindo, acompanhando o calor que saía pelos meus poros.
Eu abri os olhos e encarei-a diretamente, procurando alguma coisa para dizer ou como agir, dentro da minha mente, mas eu não conseguia fazer nada além de ficar idiotamente em transe contínuo, profundamente submersa nas esferas verdes e felinas dela. Pus meu outro pé no chão. Meu peito subia e descia afobadamente por minha respiração e coração estarem tão descompassados quanto uma orquestra sem maestro.
Escorri uma mão por meu rosto suado e continuava a puxar o ar pela boca na tentativa de encontrar algum tipo de facilidade em absorver oxigênio quando Scarlett, que me encarava com um sorriso fechado e cordial, piscou lentamente antes de tirar a mão de dentro da minha calcinha e fazer o que você não está pensando.
Ela podia ter limpado seus dedos em sua roupa, na minha roupa, nos papéis higiênicos, ou em qualquer outro lugar. Ela podia ter lambido os próprios dedos e cuspido o meu líquido, que os lambuzava, não sei. Podia também ter gostado. Ela podia tê-los olhado e dito “Ew, que nojo!”, o que era o mais improvável vindo dela.
Mas não, ela não fez nada disso.
Como você e muito menos eu esperávamos, ela me ajudou a descobrir um pouco mais o meu gosto ao introduzir seus dedos em minha boca entreaberta sem mais nem menos e não me dar outra opção a não ser chupar o líquido transparente e um pouquinho viscoso que os besuntava enquanto os retirava dali.
Está aí um dos motivos para nós, mulheres, mantermos a depilação e as consultas ginecológicas sempre em dia. Siga meu exemplo. Você não pode prever quando vai ter que provar da própria lubrificação, you know.
Depois disso, ela não me deu tempo nem para recuperar uma maior quantidade de fôlego porque sem mais nem menos ainda embrenhou as duas mãos em meus cabelos e puxou-os com força ao me beijar, edaz, como se quisesse extrair da minha língua tudo que eu havia sugado de seus dedos.
Deus! Eu realmente acreditei na minha capacidade de chegar ao meu ápice novamente com a ação de algum orgasmo instantâneo e sobrenatural quando ela fez isso. E, como se não bastasse, a filha-da-mãe largou minha boca agressivamente antes de lamber ambos os lábios de uma só vez e com a cara mais depravada que eu já havia visto algum dia em sua face, achando que era uma vampirona depravada, acrescentou:
- Deliciosa. Mais deliciosa ainda...
Não me pergunte se eu achei nojento. Por favor, né? É claro que não achei nojento, OI! Nojento é 2 Girls 1 Cup! Nojento é black pudding! Nojento é haggis! Só de pensar meu estômago embrulha. Aquilo? Não era nojento de jeito nenhum.
Ela me deu um selinho demorado e molhado e meu cérebro instantaneamente me levou de volta há alguns minutos no passado, quando ela me dissera que eu era deliciosa pela primeira vez. Eu quase a mandei tomar naquele lugar ao ouvi-la dizer isso novamente, porém, como era mais que perceptível, eu simplesmente não conseguia reagir por estar ridiculamente estuporada e petrificada em frente a ela. Piscar era tão difícil quanto dormir e correr a maratona ao mesmo tempo e, além disso, se ela me pedisse para abrir a tampa da privada e afundar minha cabeça na água, provavelmente eu o faria sem hesitar.
- Eu te amo, sua cadela – Scar completou seu discurso repleto de carinho e castidade e me deu outro beijo tão simplório e sutil quanto suas palavras para selá-lo.
Se você é tão garota quanto eu, acaba de descobrir um dos maiores truques da vida humana. Se ainda não entendeu, responda às perguntas do teste abaixo que eu não retirei da Cosmopolitan com “certamente”, “absolutamente” ou “talvez”:
1.Você exige que a pessoa que coloca a mão dentro das suas calças, saia e derivados, te ame demais?
2.Você faz questão de que a pessoa para quem você vai entregar cada parte do seu corpo te ame indubitavelmente?
3.Você só aceita ser foder ou ser comida por alguém que te ame incontestavelmente?
Se você respondeu “certamente” a todas ou pelo menos duas das questões acima, eu te digo o que fazer: não perca tempo e dê-se de presente à sua melhor amiga. Até melhor amigo, quem sabe, desde que não haja compromisso implícito da sua parte se estiver claro que não há da dele.
Não pode haver compromisso algum, entenderam? Porque pode ocorrer de seu melhor amigo, ou melhor amiga, como vou exemplificar no meu caso, ajeite o vestido até que este cubra a maior parte de sua silhueta como no início da cena, ajeite os cabelos vermelhos e ligeiramente suados sobre os ombros e, com a mais invejável cara-de-pau já vista pelo satélite do Google que espia todos os seres humanos como se nossas vidas fossem um Big Brother indie, te diz:
- Você foi ótima! – E beija sua bochecha. - Te vejo lá fora?
- Scarlett, como assim, eu nem... Eu... – Você, o elemento mais fora de órbita da composição, o que impede o satélite de transmitir sua imagem claramente para os observadores atentos, tenta obter alguma explicação sobre o pronunciamento de despedida do ser que interage diretamente com você.
- Não se preocupa. A gente termina isso e faz muito mais num outro dia – O ser tenta te pôr dentro de órbita novamente sorri maliciosamente. – Acho melhor você se vestir agora, vão te expulsar se você sair daqui assim – ela me apontou e mediu de cima a baixo – depois de tudo o que você fez lá fora!
Eu permaneci calada. Que cacete eu ia falar, me auxilia?
E então, finalmente, o outro elemento interativo destranca a porta do compartimento 3D (foda-se se não era 3D, OK? Faz parte de toda essa explicação geek) e sai da cena na qual você está para fazer parte de alguma outra.
E quanto a mim, ? O que acontece comigo?
Bom, você não faz nada além de permanecer estática, ainda que meio zonza, com cara de nada e seminua na parte interna do compartimento 3D, procurando uma maneira de assimilar tudo que te aconteceu nos mais recentes instantes. Sim, completamente abandonada e desprovida da soberba que você está acostumada a carregar e espalhar por todo lugar, de graça. Você não está só bêbada, é mais que isso! Sim, sua soberba foi, sem dúvidas, roubada pelo ser de outro planeta que acabou de partir!
Eu sei, é muito difícil ser superado ou dominado por alguém. Entendo como mais ninguém no mundo a sua dor. É estupidamente mais prazeroso quando estamos acima de todos. Em todos os sentidos.
E suas roupas? Querida, suas roupas continuarão emboladas em um canto até que você consiga, por fim, se livrar da sua temporária tetraplegia vertical e esticar pelo menos um braço para recuperá-las e vesti-las, completamente alheia ao que está fazendo.
Deixando os satélites do Google e o guia de autoajuda para trás, eu só tinha duas palavras para descrever um dos meus Momentos Estou Em Transe mais transados da história da biosfera terrestre desde sempre: PORRA, SCARLETT!
No fim de tudo, eu bem que poderia relatar aqui o que eu vi assim que atravessei a porta da cabine na qual estava, mas prefiro poupar-lhe de tais detalhes. Acredito que não há o menor interesse em saber a dimensão na qual notícia de garotas se atracando no banheiro masculino havia se espalhado...
- I WANNA WAKE UP IN THE CITY THAT NEVER SLEEPS! AND FIND I’M A NUMBER ONE, TOP OF THE LIST, KING OF THE HILL! A-NUMBER-OOOOONE! – eu entoei o começo da última parte do clássico de Frank Sinatra quando Scarlett se cansara de me beijar, com a voz de minhas outras 4 amigas e o coro das pessoas que haviam sobrado dentro da boate ao fundo.
Não importa o quão embriagado ou à beira da morte se está, um verdadeiro nova-iorquino ou amante de Big Apple sempre saberá cantar New York, New York. Seja dublando, quase num sussurro, cantarolando, arrasando na Broadway ou gritando a plenos pulmões e fazendo uma dancinha vagabunda e zonza com copos na mão como eu e minhas companhias.
Na parte mais lenta da música - e também a mais fácil de acompanhar porque era tão lenta quanta nossa capacidade de dominar o cérebro no momento -, nos segurávamos pelos ombros, uma ao lado da outra. Sentíamo-nos não as queens of the hill, mas as rainhas do cancan de esquina ao dobrarmos e esticarmos nossas lindas pernas em um dos mais clássicos movimentos dançantes.
– And if I can make it there – , a primeira da fileira da direita para esquerda cantou e fez sinal com a cabeça para que Scarlett, ao seu lado, continuasse por ela, o que Scar entendeu imediatamente.
- I can make it anywhere!
- It’s up to you – foi a vez da minha língua enrolada e logo depois eu a passei para Kitty.
- New York! – ela olhou para Amber à sua esquerda.
- NEW YOOOOOOOOOOOOORK! – Amber berrou, inclinando a cabeça para trás e encolhendo as pálpebras.
Os incontáveis berreiros do último e mais enfático “New York” saíram da boca de nós cinco e de todos os outros ao nosso redor que explodimos em aplausos ecoantes quando a música parou, algumas luzes brancas se acenderam de vez, recuperamos nossos copos e um burburinho tomou conta do ambiente. Um burburinho e o grito agudo de Amber, que tropeçou nos próprios pés e caiu de bunda no chão quando nos soltamos. Choramos de rir – incluindo ela mesma e alguns estranhos. Até derrubamos bebida e nos apoiamos umas nas outras. Ela foi ajudada a ficar em pé outra vez por Kitty e quase levou essa última para o chão para que lhe fizesse companhia, mas não obteve sucesso e foi mandada para o inferno.
Fim de festa, pessoal, adeus! Voltem todos para casa e levem seus traseiros bêbados com vocês. Estejam em qualquer lugar, menos aqui dentro.
Era isso que as luzes brancas e a ausência de música significavam. Mas não para mim, Kitty, Scarlett, e Amber, que ficamos pelo menos uns vinte minutos, sozinhas em nossa cabine. No nosso estado, deveria significar alguma coisa? O olhar brutal dos seguranças que nos arrastaram até os caixas e nos seguiram até a porta para nos enxotar dali depois de tirarem a última garrafa de Cristal que passava de boca em boca entre nós dizia que sim. E como dizia.
- Que que você tá fazendooo? – eu protestei, enquanto eles nos tiravam dali quase quebrando os ossos dos nossos braços. – Me laaaarrrga, seu brutamontes fedido e mal pago! Me dá meu champagneee, cadê meu champaagneee? – eu disse ao que me arrastava sob os olhares curiosos das pouquíssimas almas que haviam sobrado na calçada do estabelecimento e entravam em táxis.
Isso foi algo que eu não devia ter dito, porque a força dele luxou meu tríceps, eu falo sério. Acho que ele me apertou mais para não ter de dizer nada. Tive certeza de que iria parar no ortopedista. Não só eu como minhas garotas. As cinco saindo do hospital com bracinhos engessados, tornozelos torcidos e óculos escuros de besouro. Foi essa a primeira idéia que me pulou à cabeça quando Amber foi praticamente jogada para fora e por estar tonta caiu na calçada com as pernas entreabertas, por pouco não recebendo na cabeça sua bolsa-carteira que o segurança arremessou em sua direção.
- SEU PUTINHO! – Xingamento um tanto contraditório se levássemos em conta o tamanho e a largura exagerada do homem a quem ela se dirigia.
Ambsy pegou a bolsa rosa-shocking do asfalto sujo, recuperou seu equilíbrio sobre os saltos trotando um pouco e segurou-a debaixo do braço para bater as mãos uma na outra, livrando-se da sujeira e das pedrinhas que se prenderam ali. Com o rosto em chamas, puxou a saia um pouco mais para baixo e empinou o nariz presunçosamente.
– VOCÊ SABE O QUE É ISSO AQUI? – ela empunhava o acessório, estendendo-o na direção do segurança que a encarava com puro tédio e pensando coisas como em qual takeaway 24 horas iria buscar comida, ou em como estava puto por a única privada de seu apartamentinho medíocre em qualquer vizinhança calamitosa estar entupida e por ele mesmo ter que desentupi-la por não poder pagar um encanador. Importando-se com tudo menos com o “isso aqui”. – ISSO AQUI É UMA MIU MIU! MIU MIU, ENTENDEU? ORIGINAL! NÃO AQUELA PODRE QUE SUA MÃE COMPRA NO CAMELÔ DA ESQUINA!
BAM! A porta branca e alta de metal bateu atrás de nós e de repente tudo que escutávamos era o silêncio cheio de ruídos que toda cidade grande tem, imagine as gigantes. Tudo que havia à nossa frente era a calçada úmida, suja e bem mal cuidada assim como as grades que circundavam um enorme depósito de materiais de construção do outro lado da rua.
Abracei a mim mesma, olhei para cima e pisquei para a madrugada amarela, nada estrelada e gelada. Olhei para o lado e sorri para minhas amigas safadas e mal acabadas. Você adivinhou, gargalhamos até perdemos o ar pela zilionésima vez. Era para estar ficando sem graça, mas tudo ainda continuava engraçadíssimo a nosso ver. Larguei-me e abracei . Pode apostar: chorar é que a gente não ia!
- Próximo destino – ouvi Kitty gritar. - Brooklyn Heights, por favor!
E banhadas pelas luzes douradas e ainda acesas do calçadão que também era um tipo de parque, em Brooklyn Heights, nós permanecemos encolhidas sobre os bancos de madeira gelados, admirando a visão privilegiada do horizonte da Lower Manhattan que tínhamos dali.
Fora difícil calar a boca de Amber enquanto éramos camaleões sob as luzes urbanas dentro do táxi durante nosso trajeto até ali.
- Se liga, eu tenho “New York, New York” no celular! – ela disse antes de Frank Sinatra começar a cantar pela segunda vez em uma hora no meu ouvido.
- Amber, desliga isso! – implicou. Sentada ao lado direito do motorista sueco (sueco! Nós perguntamos por não termos mais o que fazer, mas não sabíamos uma palavra em sueco para encher o saco dele), ela inclinou-se sobre o banco e tentou tomar o aparelho das mãos da irmã, que se esquivou no ato.
- Ai, que chatice, Sis! Olha só como essa voz do Sinatra é sexy e VIRIL – a mais nova repetiu a piadinha que fizera mais cedo e nós rimos. Com menos intensidade, mas ainda assim rimos.
- Não me chama de Sis! – olhou feio para ela. detestava quando Ambsy chamava-a de Sis e esta fazia isso com muita frequência, o que tornava tudo ainda mais hilário. – E já chega dessa história de viril! Desliga logo, Amber!
- Não, riri! – Amber pirraçou e abriu um sorriso de criança atentada muito gracinha.
- Deixa ela, ! Não há nada melhor que ouvir uma música sobre Nova York em Nova York – soei convincente e puxa-saco, como se aquela realmente fosse a coisa mais hype a se fazer naquela cidade e tornassem torrar grana na Bloomingdale’s e na Barney’s a representação do tédio. - Frank Sinatra é cultura, eu adoro o Frank Sinatra! Quem mais aqui adora o Frank Sinatra? – lancei a pergunta no ar e todas - menos que, derrotada, rolou os olhos e bufou, voltando a olhar para frente - levantaram as mãos e gritaram “eu”. Inclusive o taxista!
me atingiu com suas pálpebras semicerradas e pupilas nervosinhas através do retrovisor e eu pisquei para ela. Então Amber e Kitty começaram a tagarelar sobre coisas nas quais eu não prestei atenção, além da piadinha ridícula e batida que Kitty soltou e as fez rir como duas hienas débeis mentais:
- Olha, Ambsy, o motorista tá dirigindo do lado errado!
Francamente. Foi a única coisa que consegui pensar antes de quase cair no sono ao lado de Scarlett, que permaneceu calada durante a maior parte do trajeto. Ela somente resolveu abrir a boca quando andávamos até os bancos para manifestar sua irritação perante a teimosia Amber:
- OK, agora eu OFICIALMENTE ODEIO o Frank Sinatra! E você me fez odiá-lo. Chega de Frank Sinatra, Amber! - ela berrou; os fios vermelhos voando com o vendo, assim como os meus e o das outras garotas.
Ela manteve a música no repeat durante todo o caminho sob os nossos inúmeros protestos incomodados, foi de enlouquecer. Isso me fez nunca mais querer escutar “New York, New York” na vida. Sigo isso à risca até hoje.
- Vocês são todas chatas e...
- Dá essa merda aqui! – interrompeu-a e arrancou o celular da mão dela.
- Nem ligo! – a caçula deu de ombros e saiu saltitando à nossa frente, comandando o barulho de seus saltos sobre o revestimento de pedra fria.
Para alívio nosso e dos odiadores de Frank Sinatra, alguns minutos depois, além de se calar, ela acabou adormecendo com sua cara de bebê no colo da primogênita, encolhida dentro do casaco desta e ao toque do cafuné de suas mãos leves, o que eu invejei durante o momento em que as observei. Que lindo era o amor de Sis! Por outro lado, era realmente uma pena que ela perdesse o amanhecer que estava para chegar.
, apesar de ser super liberal, era um tanto protetora com Amber, por isso, sempre procurava não ficar muito fora de si quando saía com ela. Alguém tinha que cuidar daquela espoleta, e ninguém melhor que a irmã dela para se encarregar de tal missão.
Entre , no banco à minha esquerda separado do meu somente por um arco de ferro, e Scarlett, eu fumava um cigarro, mandando a fumaça para fazer companhia às nuvens que deixavam a timidez de lado e aos poucos começavam a aparecer. Minha cabeça se apoiava ao ombro de , esta quase passava para a realidade alternativa de sua irmã, e minhas pernas descobertas formavam um triângulo por cima das também descobertas, mas fechadas, de Scar, que me acompanhava ao inalar gás letal legalizado à minha direita.
Kitty estava ocupando o espaço de um banco todo do outro lado de Scarlett, fazendo o casaco de travesseiro, ora olhando para cima, ora para o lado. Perguntei-me se ela não sentia frio, mas um segundo foi o bastante para que eu esquecesse isso.
Apesar de estarmos em Nova York, ninguém além das árvores primaveris, um casal atrás de nós, o East River e as cercas de metal, pretas e com pontas de lança, à nossa frente, nos rodeava. Eram cinco e meia da manhã ou algo para menos ou para mais disso, ninguém queria ficar esperando o sol nascer no frio, andar com o cachorro no frio, caminhar no frio, passar frio de qualquer maneira. Não que estivesse geando, mas ventava muito por ali. As pesquisas mundiais da minha mente diziam que os seres humanos preferiam contemplar o pôr-do-sol ao nascer dele. Meu cardigã até quebrava meu galho, mas logo não me esquentaria tanto quanto eu precisava.
Quanto eu precisava?
Ao leste do rio eu via a Ponte do Brooklyn e mais um pedaço de Manhattan, incluindo o Empire State, que se estendia até a linha irregular de arranha-céus sem padrões de altura a oeste que, na verdade, era mais meu norte. Do meu ponto de vista todos aqueles prédios pareciam ser feitos de lego, construídos por alguma criança muito paciente e de rápido raciocínio. Do meu lado da margem, alguns galpões que eu não sabia o que abrigavam se estendiam para o meio do rio como penínsulas. Mais a oeste, a cidade parecia sumir. Não havia nada além de água, a metrópole acabava ali. Como eu ainda sabia os pontos cardeais e tinha noções de direção?
Fora da minha visão, eu escutava carros passando eventualmente na via expressa abaixo do calçadão, compondo uma trilha sonora ótima com um som natural e ruidosamente fresco de cidade.
De repente, as luzes dos postes suntuosos às nossas costas se apagaram e tudo ficou tão azul quanto se poderia ficar. Um azul mágico, das fadas. Os prédios foram pintados de azul mágico, eu fui pintada de azul mágico, as garotas foram enfeitadas pelo mesmo azul, o mundo inteiro ficou azul-fada, e eu não estava contando os oceanos, que já eram azuis, num piscar de olhos. Era como se o encarregado de cuidar do parque estivesse colaborando para que tudo fosse perfeito para nós.
Eu estava vivendo um dos melhores momentos da minha vida e estava fazendo simplesmente nada. Nada além de me dar a oportunidade de reparar nas luzinhas se apagando e sumindo, ofuscadas pela claridade etérea que se fazia proeminente aos poucos, sorrateiramente, preguiçosa. Tão preguiçosa que, ironicamente, nossos olhos tão preguiçosos quanto não eram capazes de captá-la em sua exata mudança de cor. O jogo de matizes era totalmente contrário, uma antítese ao qual eu havia visto pela janela do hotel no dia anterior. As duas imagens eram meus cartões-postais favoritos no mundo inteiro. Meus.
Quando o laranja-ouro refletiu nos prédios e em nós formando um ponto em comum entre os dois cartões, meu cigarro já estava apagado, nós estávamos muito menos bêbadas e Amber já havia se movido no colo da irmã. Eu, fascinada, resolvi quebrar o silêncio que nos pareceu eterno, mas passou longe do constrangedor:
- É tão bonito que eu não consigo nem falar!
- Então por que falou? – Scarlett rebateu prontamente, com falso desdém. Prendi-o em meus olhos e os devolvi sem me importar. Não havia necessidade.
Pedi mais um cigarro a ela porque os meus haviam acabado e ela me atendeu tirando um do maço em sua bolsa, me fazendo também o favor de acendê-lo. Agradeci e liberei o primeiro trago no começo de um bocejo enquanto ela acendia o seu.
Vi Kitty esfregando o olho direito, pescando no sono e estranhamente, num súbito, fui atingida por um golpe de melancolia que não costumava nem se aproximar de mim. Desenterrei lembranças e fatos que estavam sempre lá no fundo da minha memória, lembranças as quais eu sempre evitava, omitia e só mencionava em casos extremos. Traguei mais uma vez, perguntando-me como estavam as coisas num lugar bem, bem longe de Nova York e sua euforia, e o quanto esse lugar o dobro de mais pacato e menos poluído estaria melhor sem mim.
Tudo aquilo que eu deixara para trás... Com que frequência se lembravam de mim? Será que sentiam falta da minha presença, será que eu fizera alguma diferença? Meu Deus, será que eu ainda existia pra qualquer um deles? Pra... ele?
Merda, eu não podia ser dominada por aquele tipo babaquice emocional, como diria a lendária Bridget J. Não precisava de nada daquilo, já se fora a época que sim. A época de uma vida que nem fora minha. Eu tinha que ocupar minha mente e coração com sentimentos melhores. Minha vida era muito mais que aquilo, minha vida era o meu presente. E meu presente era o cigarro que eu fumava, o vento frio que ultrapassava as linhas do meu cardigã, o horizonte de Manhattan e minhas amigas fazendo porra nenhuma comigo.
- – eu chamei de olhos fechados minha quase irmã que ainda me aguentava sobre seu ombro.
- Hm... –ela murmurou vagamente em resposta.
- Eu te amo.
Senti um sorriso tímido se formar em seus lábios antes de ela dizer, baixinho:
- Eu te amo também.
Ao focalizar Scarlett, notei que um olhar que-merda-é-essa-agora? dela recaía sobre nós.
- Não precisa ficar com ciúme. Eu também te amo, Steiner.
- Que bom pra você - ela não deu o braço a torcer e continuou fumando, assim como eu fiz, compreendendo que ela achava mais divertido daquela forma. Ela já havia dito que me amava mais cedo e aquilo já era mais do que eu podia esperar tratando-se dela.
- Eu quero amor também! – ouvimos a voz de Kitty reclamar. – Vocês estão me renegando, isso é preconceito, vou denunciar todas vocês!
- Nós te amamos também, Kitty! – nós três dissemos em uníssono.
- Aí, agora sim! Não vou mais denunciar ninguém porque eu amo todas, inclusive Amber, que não está ouvindo.
- Que conversinha de mendigo largado pela família se declarando pra um copo de bebida, hein – Scar disse em um tom entre o zombeteiro e o indignado. – Pensei que já estivéssemos sóbrias.
- Calem a boca, caralho! – Amber ralhou e nós cinco nos entreolhamos completamente surpresas antes de rirmos.
Muito bem, se Amber te manda calar a boca é porque já deu tudo que tinha que dar mesmo. Conclusivamente, nos restava somente uma escolha: dar o fora dali.
*Kitty é um dos nomes mais antigos da história, de origem grega, que significa 'pura'.
Third - Part II
Anglo-American Alliance
- Meu cérebro descolou! Simplesmente descolou, juro! – eu dizia a com uma voz de traveco, sentada com as pernas cruzadas debaixo do lençol amassado sobre a cama do nosso quarto.
- Pra você tá falando isso, só pode ter descolado mesmo – ela debochou, fechando os olhos. ) estava em pé com as mãos na cintura e girando seu pescoço lentamente à frente da TV, que exibia Lady GaGa com suas roupas loucas e dois minitelevisores de LCD na cara piscando “Pop Culture” enquanto ela cantava “Poker Face”. Aqueles óculos hipnotizavam de verdade, porque o mundo estava sofrendo de uma epidemia de Poker Face. Poker Face era o ringtone de todo mundo (exceto o meu) e tocava vinte e quatro horas por dia em todo lugar! Eu estava muito perto de mandar GaGa e a dança do maiô azul dela pro inferno.
– É sério! – teimei e balancei minha cabeça da forma menos brusca que pude, sentindo que a dor e o peso dentro dela me tombariam para qualquer lado a qualquer instante se eu fizesse aquilo parar rapidamente. - Consegue ouvir? – perguntei, cessando o movimento e gemendo em seguida.
- Ouvir o quê? – ela continuou a não me encarar e parou de girar o pescoço para arquear a coluna e tocar os pés com as pontas de seus dedos.
- Meu cérebro descolado batendo nas paredes da minha cabeça! Faz barulho!
- É claro que não, , pára de ser esquisita!
- Eu não sou esquisita, esquisita é a Lady Gaga! Desliga a TV e presta atenção em mim que você vai ouvir! – eu e meu complexo de atenção resmungamos.
- Poker face pra você e a sua voz de travesti – ela me ignorou usando o nome da maldita música e eu juro que se não estivesse podre teria me levantado num átimo, pulado nas costas dela, deixando-a paraplégica ao arrebentar sua coluna curvada.
Okay, eu jamais faria isso, eu amava aquela praga de garota com todas as minhas entranhas.
- Que é que você tá fazendo? – indaguei, irritada.
- O que parece? – ela voltou a ficar ereta e me encarou, desdenhosa. – Estou me alongando!
- Por quê?
- Porque eu sou saudável! – ela segurou o cotovelo acima da cabeça.
- HA! É pra eu rir agora ou depois? – caçoei, voltando a me deitar e me aconchegando sob o lençol tentando ignorar a sede que me acometia.
- Não é pra rir! Eu faço isso diariamente!
- Desde quando?
- Desde agora!
- Diariamente desde agora?
- É, tem um começo pra tudo, sabe? – ela replicou com um olhar intolerante.
- E escutando Lady Gaga? Você não deveria fazer essas coisas escutando, sei lá, Enya?
– Não, Enya me faz dormir. Lady Gaga me ajuda ficar disposta e é o que está passando na TV. E quanto à senhorita, é melhor se levantar, tomar um bom banho e começar a beber muita água pra curar essa ressaca se quiser sair desse quarto hoje.
- Eu não estou de ressaca! - revidei, virando-me de bruços.
- Pra cima de mim não, ! A primeira reação do alcoólatra é a negação. – ela me provocou num tom sério, cheio de escárnio implícito.
- Ah, vá se foder! – xinguei baixinho e ouvi-a rir pelo nariz.
- Pega as aspirinas na minha bolsa e me dá um copo d’água, por favor? – pedi com a garganta seca.
- Você foi da negação à admissão num pulo! Está se curando rápido! – ela continuou a brincar.
- Cala a boca, Julliete!
Eu odeio ressacas. Odeio do fundo da minha alma. Mas eu não penso nisso quando estou bebendo, claro. Eu sempre tenho a esperança de que meu corpo resolverá se comportar de acordo com as minhas vontades e eu acordarei no dia seguinte de uma bebedeira qualquer como se tivesse acabado de sair da barriga da minha mãe o quase isso. Acontecia bastantes vezes, até.
Eu nem tinha certeza se aquilo era ressaca. A fome e a sede provavelmente se deviam ao fato de eu ter dormido por meio dia a fio (exatamente por isso era para eu estar bem), e minha cabeça estava pesando e doendo porque estava e pronto, somente isso. Bom, era mais provável ser um acúmulo de ressaca daqueles que demoram dias para passar do que todo o resto, porque eu havia bebido demais e farreado demais nos últimos dias (e quando eu não bebia e farreava?), mas essa era só minha vida.
- A propósito, não tem mais aspirinas. – ela disse com a maior naturalidade do mundo, como se aquilo boa notícia fosse.
- Como assim? Você tá brincando ainda, né?
- Não, cachaceira! Eu tomei a última, acordei com dor de cabeça.
- Porra, ! – eu lamentei, brava. - E as suas?
- Acabaram.
Eu poderia tê-la xingado de um monte de coisas e ter expressado meu desgosto por ela ter tomado meu remédio sem me avisar, mas meu abatimento e minha desconfiança por ela ser hipocondríaca ou algo do tipo eram maiores que minha vontade de fazer isso, então preferi incutir tudo em uma só palavra:
- Vaca.
- Não se preocupa, eu disse pra Kitty te trazer uma cartela porque sabia que você ia ficar puta comigo. Ela aparece aqui daqui a pouco.
- Nah, que seja! É só beber mais que eu fico boa. Bebedeira se cura com mais bebedeira, é como o amor – eu a fiz rir e ficamos em silêncio por poucos segundos ao som de Use Somebody dos KOL que tinham acabado de chutar GaGa da TV.
Graças a Deus! Não que eu odiasse a GaGa, mas eu preferia os Kings – Hm, eu adoro essa música... – balbuciei, agarrando o travesseiro parcialmente borrado com manchas pretas da maquiagem que eu não havia removido antes de dormir, como eu fazia mais freqüentemente do que o saudável.
- Hm, eu adoro esse homem! Puta que pariu, que perdição! – fez sua própria versão – sexual - do meu comentário e eu soube no mesmo instante que ela estava se referindo a Caleb Followill. – Nós vamos vê-los todos amanhã, woohoo! Vou mudar a vida desse Caleb, ele nunca mais será o mesmo depois de mim!
Não respondi. Precisava?
Juro que meus olhos teriam se fechado novamente e eu teria voltado a dormir se não tivesse estragado a ambientalização propícia para isso.
- , não abre isso, ainda tá claro! – reclamei quando ela abriu as persianas e deixou que o restante de luz debilitada do sol adentrasse o cômodo, me causando incômodo na vista.
- São quase sete da noite, daqui a pouco escurece! – Eu havia dormido durante umas doze horas seguidas e ainda sentia um sono desgraçado. Chega a ser triste esse tipo de coisa. - Eu acordei séculos antes de você e essa merda ficou fechada o dia todo, preciso ver o sol!
- Argh! – grunhi em resposta e senti o impacto do pulo de costas que ela deu sobre a cama, ao meu lado. – Saísse na rua!
- Então, que você acha de me contar sobre você e a Scarlett sumindo ontem? Porque a parte do palco eu vi, sabe. – me ignorou e eu senti uma pontinha de falsa reprovação no tom dela.
- Acho que não quero falar nada agora porque quero dormir mais! – eu logo cortei o assunto porque realmente queria divagar um pouco mais com Morfeu.
Fui salva pela batida na porta e o berro de Kitty, que vieram assim que começou a me mandar tomar vergonha na cara – como se ela não me conhecesse -, parar de ser mulambenta e tomar um banho – novamente, porque ela não se cansava se querer cuidar de mim - já que não só a minha preguiça e cansaço, mas os dela também, haviam nos impedido de fazê-lo assim que chegamos no hotel naquela manhã.
- Boa noite, toupeiras – Kitty entrou no quarto e a porta deu um estralinho quando a fechou.
- Toupeiras? – ouvi esta última perguntar e abri um dos olhos para espreitar Kitty cheia de trejeitos enquanto ela colocava uma sacola parda, uma lata marrom e um copo da Starbucks na mesa redonda atrás do sofá próximo a uma das janelas e rebolava seu quadril avantajado até o este, caindo nele segurando uma almofada.
- Pois sim, ficaram trancadas nesse quarto o dia todo! Achei que fosse ter que chamar o rabecão porque vocês estavam mortas! – observou ela e eu rolei os olhos. falara com ela como? Do além, por acaso? Sério, que piadinha desnecessária. – Isso aqui é Nova York, minha gente!
- E? – eu disse, não muito interessada em qualquer resposta dela.- Larga mão de ser caipira!
- Não sou caipira, mas lugar de ficar trancado dentro de quarto, casa, que seja, é Londres, onde chove vinte e quatro horas por dia, 367 dias por ano! – riu e concordou.
- Pelo menos Londres não é Oslo. Qual dos dois é o meu? – referi-me aos recipientes que ela trouxera, mas sabendo que a lata era para mim por ser um tipo de energético que eu conhecia muito bem à base de café, ginseng e essas coisas que te deixam pilhada. Fiz um esforço que me pareceu tremendo para conseguir tirar a cabeça do travesseiro sem voltar como um joão-bobo e me sentar na cama novamente com uma cascata de cabelo deslizando por meu rosto e ajeitando-se do jeito mais desajeitado, eu supus, em volta dele e dos meus ombros depois.
- Jesus! Nenhum! – ela exclamou, com o rosto espantado e esquivando os ombros de mim que, sim, estava consideravelmente longe dela. – Eu trouxe um Doubleshot Mocha pra , não para você, seu monstro usurpador!
- Ha, ha e ha, Hello Kitty! – eu fingi achar graça nela e aproveitei para zombá-la também, provocação suficiente para que ela me exibisse seu dedo do meio.
- Cruzes, mulher! Você tá parecendo um defunto do Thriller com esse cabelo embaraçado, esse Kandinsky na cara e, eu ia dizer roupa esfarrapada, mas oi, não dá, você só tá de calcinha e sutiã...
- Desde quando você sabe algo sobre arte? – arqueei uma sobrancelha para ela, afrontando-a por sua citação sobre Kandinsky.
- Desde quando há um mundo onde você – ela apontou para mim – não me subestima! – sorriu cinicamente e com seu copo já na mão se manifestou com um “ohohoho” até que eu calasse a boca dela com meu olhar de desprezo. - Aliás, Kandinsky foi um elogio, se você quer saber. Porque, apesar de ele pintar um monte de borrões sem forma definida, a coisa é bonita. Na verdade, seu rosto tá parecendo aquela coisa derretida e gritante do Munch e...
- Tá bom, Kitty, cala a boca, já entendi que você é inteligente. – O que era “coisa gritante do Munch”? Eu sabia? Talvez sim, minha dor de cabeça que não. - Agora me dá meu Doubleshot e as aspirinas. – interrompi-a, nada educada, e ela me mandou para o inferno, mas ainda assim em vez de me mandar pegar o energético e o remédio ela levou-os até mim, digo, largou-os em cima de mim.
- , quando eu disse que era pra você beber líquidos, isso não incluía cafeína, sabe?! Você só se afunda! – implicou, quase se engasgando com seu café. Isso porque minutos antes ela havia dito que eu estava me recuperando rápido...
- É? Dane-se! Por que você tá achando que é a Sra. Middleton minha mãe e falando como se eu estivesse numa merda de vida? Eu, hein! – falei, tirando as duas aspirinas da cartela e abrindo a lata. – Foi a Kitty que me trouxe, não vou fazer a desfeita de não beber! – joguei a batata quente nas mãos de minha amiga.
- Kitty, não era pra ter trazido com café e essas coisas que dão fogo no rabo pra ela! Faz mal pro estômago, ela bebeu pra cacete ontem!
- Pára de merdaria, , não faz mal nada! Você também bebeu, sua tonta, e era você quem ‘tava falando que eu tinha que acordar pra vida até agora!
- Mas eu não estou de ressaca!
- Nem eu, porra! – defendi-me e me mandou calar a boca com os olhos. - Tem como eu beber isso sossegada agora? Obrigada!
- Vocês duas que são loucas, vocês duas que se entendam – Kitty disse e atirou a sacola parda que trouxera sobre mim também. – Tem dois sanduíches de peito de peru e queijo suíço, alguns bagels e multivitamínicos aí dentro.
- Oh, Kitty, eu te amo um milhão de vezes! – Eu estava faminta!
- Desculpa se eu me importo com você, seu lixo ambulante! – gritou comigo.
- Aprecio muito isso também, obrigada, . Mas eu vou beber o negócio, você querendo ou não – disse e engoli os comprimidos de aspirina, buscando os multivitamínicos na sacola de papel logo em seguida, me sentindo estranhamente hipocondríaca.
- Alimentem-se – Kitty abriu a porta -, vocês vão precisar, porque hoje tem maaaaais!
Mais, mais, sempre mais... Por que não?
A noite do mais daquela sexta-feira não teve nada de novo. Scarlett e eu não passamos da conversa – o quanto nós éramos estranhas? – e um francês gostoso apareceu na vida de Amber, mais louco do que ela, com pinta de intelectual descolado e um sotaque adorável, segundo ela mesma. Eles trocaram telefone e tudo, mas ela se despediu dele antes que vomitasse em sua camisa branca porque começara a passar mal. Nós tivemos que ir embora antes das três da madrugada por causa disso.
Apesar de ter dito que nós poderíamos ficar e ela cuidaria da irmã, não estávamos lá tão animadas quanto o normal. Então, voltamos com Ambsy expelindo até bílis pela boca pela janela do táxi enquanto fazia de tudo para manter a cabeça dela o mais dentro possível do veículo e nós ficávamos no maior climão por causa da cara furiosa do taxista que parecia vir de algum lugar da Ásia (eu encontro taxistas de mil países, difícil pra mim era encontrar um taxista americano nessa cidade). Ele devia ter que lidar com aquele tipo de situação mais do que gostaria. Não que realmente nos importássemos com o que ele pensava, mas mesmo assim ficamos em silêncio até chegarmos ao hotel.
Fui obrigada a trocar de quarto e dormir na mesma cama que Scarlett, no mesmo quarto que ela dividia com Kitty e Amber porque esta passaria o resto da madrugada vomitando as tripas no meu, sob a guarda da irmã mais velha.
Acordei muito antes do que gostaria pela manhã, morta de cansaço, mas não consegui voltar a dormir, ainda que estivesse pagando para isso. Vencida pela insônia, fiquei acompanhando os movimentos ocasionais de Scarlett ao meu lado na cama e assistindo Full House, pensando no quanto eu adorava aquele seriado, sorrindo idiotamente ao me lembrar do quanto eu amava o Tio Jesse aos sete anos de idade e vivia dizendo à mamãe que iria me casar com ele. Lembrei-me de quando vi o episódio no qual ele e Rebecca se casaram e chorei, chateada porque queria que fosse eu ali. Como a nossa cabeça muda! Porque nem casar mais eu queria, com ninguém. Nem com Tio Jesse se matando para comprar um anel caro para mim e cantando Forever na cerimônia.
Um pouco antes do meio dia, quando eu já estava sendo acolhida pelo sono novamente com a TV ligada, sobressaltei-me ao escutar meu celular vibrando tão intensamente sobre o vidro da mesa de cabeceira que teria acordado as outras duas no quarto se eu não tivesse o tirado dali antes disso. Era uma mensagem quilométrica de Amber. E eu pensando que ela fosse acordar só no domingo...! Aquela menina era um poço poderoso de energia, era incrível!
Pra dizer tudo aquilo ela poderia ter ligado ou batido na porta, sabe.
Respondi a mensagem dela dizendo que ia. Entre dormir e comprar, eu preferia comprar, lógico. Eu só não entendia como depois de acabar a noite daquele jeito ela estava sendo capaz de abrir o olho e querer sair da cama para praticar exercício físico. Porque comprar era um exercício físico! Dos cansativos, mas o único com efeitos e recompensas instantâneas. E quando eu estava em Nova York não parava de comprar, todas as sacolas amontoadas num canto do quarto eram um grande indício disso. Eu podia fazer a mesma coisa em Londres porque variedade era o que não me faltava e havia as mesmas lojas que eu freqüentava ali, mas NYC é um lugar que inspira consumismo e isso é uma boa justificativa para qualquer quantia que se gaste ali nunca ser absurda.
Acho que o governo de lá detinha uma força eletromagnética muito grande que tomava conta de todos os pontos da ilha, algo mais ou menos parecido com aquela doideira sem explicação de Lost, e exercia um poder de inspiração consumista muito grande no cérebro de cada cidadão ou turista ali.
Pedi para que Amber apanhasse algumas coisas minhas no outro quarto e levasse para mim, já que eu estava praticamente “desapropriada” no qual havia dormido. Ela me levou um jeans skinny bem escuro de cintura alta, meus óculos de sol e uma camisa azul clara de mangas compridas, as quais ergui até o meio dos meus braços, feita de um tecido que lembrava denim. Vesti-me, calcei a mesma sandália preta de salto doze que eu usara na noite anterior, prendi meu cabelo num rabo de cavalo mal ajeitado e recebi o espírito esbanjador dentro de mim.
Entre opiniões sobre cores e caimentos, muitos goles de água e soda italiana, muitas araras e alguns provadores, com os olhos brilhando Amber tagarelou sobre como seu ano sabático se tornaria um passado muito distante assim que seu curso de bacharelado em Fashion Design na LCF começasse, em Setembro, falou mais sobre o francês da noite anterior e rolou as íris, fazendo caretas que me provocaram risadas quando ligou para dar bronca nela. Por fim, no final da tarde, quando ela já estava agüentando olhar para comida sem querer vomitar, nós almoçamos e ela fez questão de nos fazer esperar um milênio na fila da Magnólia para comprarmos os cupcakes mais famosos e lindos do universo. Ela estava vivendo sua fantasia Sex and the City pela primeira vez, o que era surpreendente visto que ela estudaria moda, e deixar Nova York sem comer um daqueles bolinhos seria insultar a memória de sua viagem.
Eu me dava extremamente bem com Amber, era gostoso demais passar um tempo só com ela e sua inquietude. Ela era realmente a pessoa mais encantadora que eu conhecia e uma guerreira, porque ter disposição para ficar sassaricando por lojas de departamento quando se deveria estar morrendo o triplo do que ela estava depois de um PT não era para qualquer uma.
Um pouco antes das oito da noite eu e ela já estávamos de volta ao hotel com os pés ridiculamente moídos, um monte de sacolas dos Três B’s (Bendel’s, Barney’s e Bergdorf’s, pra você leigo no assunto). Só não compramos a cidade inteira porque havia de sobrar lojas e algumas coisas para comprarmos depois, you know. fez questão de dar-lhe mais uma bronca que me incluiu pelo fato de eu ter acompanhado sua pobre irmã que deveria ter passado o dia todo no hotel, recuperando as energias.
Será que depois de dezenove anos ainda não havia sacado que ela não precisava recuperar energia alguma, porque oi, ela era a própria energia em pessoa?
- Eu acabei de ser amputada, por acaso? Você é ridícula, , fica aí querendo ser a mãe de todo mundo. Era só um mal-estar imbecil! – Ambsy fez questão de se defender e completamente ignorá-la depois disso, calando-a assim que abriu a caixa com seis cupcakes mágicos e suas compras bem debaixo dos olhos da irmã. O discurso tomou o rumo contrário neste ponto, onde ela começou a nos culpar por não termos levado-a conosco.
Entre as dez e onze da noite, após termos jantado no restaurante do hotel, decidimos que não faríamos nada naquela noite além de assistir uma maratona da quinta temporada de Project Runway, falar merda, rir de qualquer coisa e nos entupirmos de M&M’s, tubinhos cítricos e guloseimas em forma de ursinhos, minhocas e mais uma infinidade de coisas que crianças que nós não éramos gostavam de comer.
Esse era o plano até uma mensagem de texto no celular de Amber despertar sua serelepice para fazer algo além de engordar entre mim e na cama e achar sua opinião mais importante que a de Tim Gunn e Heidi Klum.
Thierry, o francês, convidou-a para uma festa no TriBeca e ela só faltou pular da janela, dizer ‘vai, teia!’ e ir se pendurando de prédio em prédio até lá. Quando dissemos ‘Boa Sorte!’, ela quase nos mandou à merda e disse que tínhamos de ir junto. Todas discordamos, claro. Não tinha cabimento, não éramos grudadas por uma anomalia. E não era um encontro, pelo amor de Deus? Para que ela precisava da gente?
- Não tenho nada a ver com isso! Se você quer ir lá se esfregar na salsicha do gringo, o problema é todo seu! – Scarlett disse, intolerante.
Insistimos que se ela precisava de alguém, esse alguém era sua irmã, portanto era quem devia acompanhá-la. Mas não queria ir sem outra de nós, logicamente, porque não estava a fim de aguentar conversinha conquistadora de estranhos e muito menos ficar sozinha no bar assistindo à irmã beijar outro cara.
No final, ela e sua mania de gesticular e sua voz estridente discursando sobre seu desconhecimento do mapa da cidade – como se aquilo fosse realmente um grande problema quando se tinha um BlackBerry, um taxista e a capacidade habilidade de falar, ler e escrever - foram tão irritantes e petulantes que nos convenceram a ir. Exceto por Scarlett, que foi mais esperta e no meio da discussão fingiu estar no qüinquagésimo sono no sofá.
Mais ou menos uma hora depois estávamos prontas e maravilhosas dentro dos nossos vestidos sem muito pano, os quase inseparáveis saltos altos e os cardigãs e jaquetas para disfarçarem o frio razoável. Não exageramos muito na produção por causa da pressa e do desinteresse na situação, mas estávamos boas o suficiente para parar o trânsito porque, ora, éramos boas e lindas o suficiente para pararmos o trânsito sem muito esforço. Estaria mentindo se fosse mais modesta.
- Oh, meu Deus! Nós não vamos mais a lugar nenhum – parou de andar no meio do saguão quando o atravessávamos para entrar no táxi do lado de fora.
- Como é? É claro que vamos, agora que eu me arrumei? Para de ser imbecil – eu continuei andando, assim como Kitty e Amber.
- Não, não, não, parem, é sério! – deu uns passos mais ligeiros e parou à nossa frente, espalmando as mãos no ar para que nos impedir.
- Sis, você tá branca! O que aconteceu? – Ambsy perguntou e pôs a mão no ombro dela, levando a outra à sua testa para medir sua suposta febre. – Você tá bem?
- Estou pra ficar melhor – disse. – Nathan. Nathan, Nathan, Nathan!
- Que Nathan, minha filha? – Kitty indagou, não entendendo nada, assim como eu e Amber.
- Nathan Followill! – completou, num sussurro esganiçado.
- CADÊ? – Nós outras três quase berramos e por um momento achamos que ela fosse meter a mão na nossa cara já que as pessoas no saguão desviaram seus olhares para nós.
- O que aconteceu com a discrição de vocês? – ela pôs as mãos na cintura. – Que amador, parem de agir como meras tietes!
- Foi você quem começou com esse seu ‘oh, meu Deus!’ – eu reivindiquei.
- Fica quieta. Nathan Followill acabou de entrar no bar e eu vi isso pelo espelho com estes lindos olhos que a terra há de comer – ela quase furou os próprios olhos ao apontá-los com as unhas compridas e bem feitas dos seus indicadores. – Isso significa que...
- ... Que os Kings of Leon provavelmente estão a dez passos de nós no bar ali atrás. – concluí, ficando dura só de pensar em Jared em cima de mim naquela noite. Esse era o primeiro pensamento, porque eu já tinha certeza de que isso aconteceria se ele estivesse mesmo no bar.
- Hell yeah! Isso significa que eu vou conhecer Caleb Followill muito bem hoje – ela disse imersa em confiança. – Vocês sabem o que é isso? Sabem? Han? – disse, toda espivetada. – Isso é a lei da atração, meus amores! , nós escutamos e falamos tanto de Kings nesta semana que eles acabaram vindo até a gente!
- Blá, blá, blá, . Nós precisamos de Scarlett. – eu disse. – O dia de hoje vai poupar nosso trabalho de manhã.
- Por que precisamos dela? – Kitty perguntou. – Como se não pudéssemos fazer isso sozinhas!
- Kitty, você fala como se fosse uma missão! – ralhou.
- Ora, e não é?
- Vai ficar com os quatro de uma vez, por acaso?
- É uma idéia a se considerar!
- Scarlett conhece Nathan. – eu intervi na discussão das duas. – Isto é, se ele se lembra dela, o que tornaria as coisas mais fáceis.
- Olha garotas, eu estou indo – Amber, que até então só observara nossa discussão, se pronunciou.
- Pra onde? – perguntei.
- Encontrar o francês, oras!
- Você tá falando sério? – Kitty perguntou e Amber assentiu. – Meu Deus, ele deve ter uma puta rola gigante! Eu não sabia que franceses tinham essa fama! – Amber a fuzilou com um olhar de desprezo.
- Ele é um cara legal, ok? – defendeu-se. – E, sim, tem um equipamento muito satisfatório e pela prévia que eu tive, funciona muito bem. Sem contar que o conhecimento dele sobre moda para um homem é exímio.
- Deve ser viado! – Kitty rebateu.
- Vá se foder, Kitty! Viados não tem a pegada que ele tem.
- Ele não é dos Kings of Leon! – Kitty voltou a argumentar, tentando convencer Amber a ficar. Ela era a que sempre se deslumbrava mais fácil o que estava acontecendo?
- Foda-se. Só há quatro deles... – A piveta revidou.
- Isso nunca foi problema! E se o Nacho estiver aí? – ela disse, referindo-se ao primo deles que era também o técnico das guitarras. – Não acredito que você tá fazendo isso, sua vadia retardada!
- ... e vocês três, mais a Scarlett, já estão aqui. Você pode sobreviver sem mim, Kitty. Estou atrasada, usem camisinha e chequem o KY e o Balmex. – Amber deu uma piscadela.
- Ew! – Kitty se manifestou. – Como se eu fosse precisar, eu cuido bem das minhas partes! – eu ri e Kitty fez uma careta de desdém para ela.
- O mesmo pra você. Boa sorte, divirta-se! – eu desejei a Amber e ela girou sobre os calcanhares retribuindo os cumprimentos, acenando e dizendo ‘Au revoir!’.
- Essa menina – começou a dizer, observando com os olhos brilhantes de emoção a irmã sair pela porta do hotel de encontro a algum táxi. – Eu via minha mãe amamentá-la todos os dias, brigava com ela porque ela abria o meu pacote de bolacha, lambia todo o recheio e deixava só os biscoitos pra mim – ela continuou enquanto caminhávamos para o bar -, eu dava cobertura pra ela quando ela estava de castigo e eu a ensinei a usar o absorvente porque mamãe não estava em casa quando a primeira menstruação dela veio e agora... Agora ela está falando de KY e Balmex e saindo pra transar com um francês viadinho! Não posso acreditar! – finalizou com um tom nostalgicamente indignado, soando mais mãe de Amber do que nunca e eu a abracei de lado, rindo.
E lá estavam eles, os reis do vovô Leon, sentados ao balcão do bar metidos em algum papo efusivo entre si e entornando taças de vinho.
Nossa abordagem consistiu em simplesmente em sentar e esperar. Eu preferia ter sentado direto no colo de Jared, puxado-o pela gola da camisa e resolvido meu assunto com ele logo de uma vez, mas a vida pode ser ridícula às vezes, assim como podia ser linda e jogá-lo bem no mesmo hotel que eu, you know, então eu não fiz isso. No entanto, isso não significava que eu ficaria sentada por muito tempo, esperando que ele viesse falar comigo, e não faria uso de minhas técnicas de seducción. Eu era ousada demais para isso.
O primeiro passo para o gran finale foi dado assim que passamos por eles ao caminharmos até nossa mesa. Não somos do tipo que passa despercebido em algum lugar, ainda mais naquelas roupas, então foi extremamente fácil atrair os olhares azuis deles. A mesa escolhida por nós ficava bem em seu campo de visão e qualquer movimento nosso capturaria pelo menos a visão periférica deles, seria impossível que ocorresse o contrário, mesmo porque o The Bar estava só razoavelmente cheio e não tinha proporções gigantescas.
Uma vez acomodada, foram meus olhos nada tímidos que se prenderam a eles em busca de uma visão geral do que estava por vir.
Juro que se esses caras fossem leiloados, eu daria toda minha fortuna mais a minha família pra levá-los para casa. Meu Jesus, que genética extraordinária! Se Deus existe, havia feito justiça ao criar aqueles quatro homens, e não foi qualquer justiça não, foi a justiça mais justa ever.
Oi, eu gostaria de comer os quatro, por favor. Um de cada vez, todos de uma vez, não importava. Se eu levasse os quatro para cama eu teria uma morte sexual que provaria a existência do nirvana e faria fortuna até debaixo da tumba. Quero dizer, eu já tinha taquicardia só de olhar pra cara deles!
Eu sabia muito bem da fama que os Kings of Leon tinham com as garotas. E ela praticamente gritava “go for it, !” como uma cheerleader irritante que masca chiclete de forma irritante saída de um filme americano irritante. Tem coisa melhor do que ir para uma batalha sabendo que ela já está ganha? Se eles estavam na cidade, as tchecoslováquias entravam em ação, se é que você me entende.
Nós fazíamos parte do negócio deles e eles faziam parte do nosso negócio, bem simples assim. Eles eram predadores e nós a caça. Ou o contrário. Ou os dois lados eram as duas coisas ao mesmo tempo, não sei. Quando eles abriram os shows do U2, há alguns anos atrás, rolaram até piadinhas de que Bono havia trancafiado as filhas em casa com medo de alguma delas aparecer grávida de algum membro da banda.
Se você é uma moça atraente, mas de família, vista uma calcinha de chumbo, querida, porque a chance de ataque é grande. Se bem que, cá entre nós, só sendo muito burra para evitar uma oportunidade de noite da sua vida que tem grandes chances de ganhar uma colocação nos primeiros cinco lugares do top 5 de melhores noites da sua vida.
Eles tinham uma porção de músicas sobre groupies e, claro, eu gostaria muito de servir de inspiração para uma nova canção. Scarlett já devia fazer parte de alguma delas ainda não lançada...
Caleb vestia uma camisa xadrez vermelha e azul com os primeiros botões abertos e estava mais magro de que eu me lembrava. As pernas estavam cobertas por um jeans mais puxado pro azul marinho e apertado também, calçando botas surradas. A barba cobria seu rosto e, puta que pariu, o nome daquele cara deveria ser Caleb Me Coma Followill, porque ele é um orgasmo de visão. Há algo de muito másculo nele, não sei.
Jared vestia uma camiseta branca simples com algumas correntes de tamanhos diferentes no pescoço (não daquelas cafonas de chavs, correntes de gente com bom gosto!), um jeans bem apertado e escuro e Converse. Juro, ele estava usando All Stars. A franja caía no rosto e a barba não muito crescida cobrindo parte de sua mandíbula denotava puberdade. Porque sério, se fosse pela roupa e se lhe faltasse o ar angelicalmente másculo, mas ainda assim MÁSCULO, que ele possuía, poderíamos julgar que ele tinha uns 17 anos e frequentava showzinhos emo. Que nenê! Tirando o fato de que eu já estava até sentindo aquela barba irritar minha pele e nenês não tinham barba.
Nos outros eu não reparei porque assim que eu acabei de analisar os pormenores físicos de Jared enquanto tagarelava com ao meu lado, meus olhos ancoraram os dele. Inclua uma metáfora cafona de mergulhar no azul do mar e se afogar aqui. Porque essa cafonice foi mais ou menos o que aconteceu quando ele agarrou o meu olhar também. Já que estamos na onda brega e marinha, foi mais ou menos como se eu fosse um navio e os olhos dele fossem não somente o mar, aquela água azulzinha, sabem, mas também aquela areia toda lá do fundo. Porém, um tipo de areia do mar movediça que sugou minha âncora e fez meu navio naufragar, convidando-o a conhecer suas profundezas e toda a vida que havia lá embaixo, só que numa versão mais humana e mais sexy do que isso que eu acabei de descrever.
Adoro conhecer novas vidas! Você não acha excitante?
Era mais fácil eu ter falado de um redemoinho. Mas é que realmente foi intenso, entenda. Quero dizer, numa linguagem menos metafórica, foi como se aqueles olhos estivessem me chamando para fazer parte de qualquer crime que ele quisesse cometer. Isso também foi metafórico, mas que se dane, o que importa é que ele praticamente me chamou para a sacanagem.v Nacho, que ocupava um banco ao lado esquerdo dele, levantou-se e pôde-se ler um “boa noite’’ nos lábios dele assim que ele acenou para os outros caras e dirigiu-se à saída do bar, com cara de poucos amigos. Talvez ele estivesse sofrendo de disenteria, vai saber.
Matt, sentado entre Jared e Caleb, voltou a manifestar seu interesse em nossa presença ao correr os olhos por nós quatro enquanto conversava com o segundo. Caleb fez o mesmo, seguido pelo irmão mais velho, Nathan.
Jared, que havia desviado o foco da minha perfeição por alguns segundos, voltou a me olhar daquele jeito. É, a versão sexy da areia, âncora no mar, sei lá. Jared, meu amor, assim não dá! Eu mal havia me sentado e ele já queria me fazer levantar, argh. Porque esperá-lo vir até mim é que eu não iria, já falei. Isso é coisa do século passado em certos casos. Ele estava me chamando, que tipo de sonsa seria eu para não atender?! Tenho lá cara de Jane Bennett? Nesse aspecto estou mais para Lydia.
Além do mais, surpreendentemente não havia nenhum outro grupinho de vadias lamentáveis achando que podiam disputar vagas na cama deles com a gente, o que era uma regalia que nós talvez não tivéssemos no dia seguinte.
- Assistam e aprendam – eu disse uma das minhas frases favoritas em tom discreto para minhas garotas e levantei-me fazendo pose de boa moça Jane Bennet. Fazia parte do golpe, you know.
Fixei meu olhar no meu alvo e caminhei a passos pequenos, mas decididos, em direção a ele. Sem cerimônia alguma, apossei-me do lugar que antes era de Nacho, fechei um dos meus punhos sobre o balcão e delicadamente joguei parte do meu cabelo para trás sob o exame dos olhos de Jared.
Chamei o barman, que não demorou em me atender, sem virar-me para ele mesmo sabendo que me olhava.
- Um Cosmo, por favor, quarto 5005 – fui breve por já saber exatamente o que queria engolir além do cara ao meu lado e quando o barman assentiu, pronto para preparar minha bebida, eu pedi a ele que esperasse. Vagarosamente virei meu rosto de frente para o de Jared e com um sorrisinho entre o cortês e o sacana, perguntei: - E você, o que vai beber? - Ele ligeiramente arqueou uma sobrancelha para mim.
- Desculpe?
- Eu perguntei o que vai querer beber, visto que você já degustou todo o seu vinho – eu apontei a taça vazia à sua frente com uma mancha da bebida no fundo. Que vocabulário mais polido! – Achei que você fosse o tipo de cara que bebesse Stella ou qualquer outra porcaria de cerveja que vocês americanos bebem – comecei a perder os escrúpulos e ele riu. Eu o fiz rir, já comecei com vantagem!
- E como você sabe que eu sou americano? – ele retrucou, desafiante. Francamente, Jared, você ia querer ficar discutindo nacionalidade e patriotismo nessas horas da vida? Como se eu não soubesse quem você era e você não tivesse uma pista sobre o que eu era. Que tontice sem fim.
- Já que estamos nos Estados Unidos...
- Estamos em Nova York, a cidade mais cosmopolita do planeta... – ele não me esperou terminar.
- Sinto em lhe informar que o seu sotaque te denuncia. – sorri graciosamente.
- Sinto em lhe informar que o seu sotaque assina seu atestado de Britanidade – Jared sorriu da mesma maneira.
- Você até que é bom nisso.
- Não é questão de ser bom nisso, vocês que falam pra dentro. Parece que não têm língua!
- E vocês americanos têm língua até demais – eu retruquei, divertindo-me com a brincadeira de insultos típica entre pessoas do meu país e do dele. – Sem contar que vocês tem umas gírias muito chatas e não sabem xingar ninguém direito.
- Devo admitir que vocês britânicos ganham nesse aspecto.
– Você estuda línguas; é algum especialista nelas, por acaso?
- Eu diria que certa particularidade delas, sim. Isso é algo que eu posso te ensinar depois... – E lá estava ele, novamente insinuando sacanagem. De uma forma muito fraca, devo acrescentar.
- Essa foi horrível! Sério! Você tem mais outra tentativa restante.
- Eu sei! - ele gargalhou, todo bonitinho, e me levou a fazer o mesmo. - Ok, mas tem que ser natural. Vamos ver como me saio mais pra frente. Eu sou uma merda falando então você teria que me deixar te mostrar, sabe como é.
Ai, meu Deus. Quanto clichê.
- Está aí algo que podemos negociar - Como se eu fosse considerar perder tempo negociando alguma coisa.
- Pra falar a verdade, eu amo as britânicas. Conheço vocês como ninguém.
- Oh, é mesmo? – fiz uma cara surpresa. – Desculpa te subestimar, mas eu receio que não. Você conhece as outras britânicas, mas não conhece a mim. Posso afirmar que sou muito melhor do que qualquer outra britânica que você tenha conhecido.
- Bem, isso é algo que eu teria que comprovar...
- Então acho que temos um acordo. Você me apresentou sua proposta, eu te apresentei a minha e devo dizer que entregarei todas as provas que você precisar em suas mãos, com o maior prazer. O caso agora é: eu acho que o barman não tá muito interessado na nossa conversa, então é melhor você dizer a ele o que quer beber...
- Certo. E você vai pagar minha bebida, Miss Reino Unido? – eu assenti.- Inovador. Surpreendente, eu diria. Gosto de atitude.
- Somos dois. Aprecio-a tanto quanto você, acredite – dei minha pista e ele sorriu de canto, pedindo uma Heineken ao barman.
- Parece boa o suficiente pra você?
- Acho que ainda prefiro Stella. Mas esse assunto é algo que a gente pode deixar pra depois.
- Faço das suas palavras as minhas, bela dama. Jared Followill, Mount Juliet, Tennessee, Estados Unidos da América – ele me estendeu a mão e eu ri gostosamente de sua apresentação. De novo: como se eu não soubesse quem ele era!
- Stoller, Sheffield, Yorkshire, Inglaterra – estendi minha mão de volta e ele a beijou.
- Hm, pra um caipira, você é até que cavalheiro!
- Pra uma caipira, a sua língua é bem afiada e você não tem nada de acanhada!
Enquanto bebericávamos nossos pedidos entre uma palavra e risada e outra, Scarlett colocou suas asas de fora ao aparecer no bar achando que estava em uma passarela do NYFW com um minivestido preto de alças coladíssimo por baixo de outro minivestido de mesma cor, mais colado ainda, mas transparente e de mangas compridas. O cabelo ruivo trançado displicentemente para o lado lhe dava um ar de “olha como eu sou bonita sem nem tentar”, porque a maquiagem dela não passava do básico acrescido de um forte batom vermelho.
Desgraçada. Linda, mas de uma forma desgraçada.
Alguém, por favor, poderia avisá-la que ela não podia andar por aí com um ar de quem vivia constantemente nas páginas da Vogue ao redor do mundo? Argh!
Ela nunca me pareceu tão acordada para quem havia acabado de despertar do qüinquagésimo sono. Como quem não queria nada, ela se esgueirou até o bar com forma mais delicada de seu andar sensual e maldito e parou ao lado de Nathan como se sequer houvesse reparado que ele estava ali, a cretina. Pediu algo que eu não escutei ao barman e sorriu rápida e simpaticamente para Nathan, desviando os olhos dele logo em seguida enquanto esperava por sua bebida em pé mesmo.
Olhei para Kitty e querendo nos socar sentadas à mesa , os olhares exigentes pedindo para que os arrastássemos até lá nem que fosse pelas orelhas como um bando de pirralhos empesteados o mais rápido possível. Para vocês verem até que ponto aquele Caleb intimidava para ela ficar me olhando como uma mula sem fazer nada em relação a ele. Imagina se ela não tivesse ficado cantando sua glória antes de vê-lo...
Distraí-me um pouco do papo polido-descontraído que levava com Jared, passando a responder tudo que ele dizia automaticamente, sem prestar muita atenção por ter parte dela desviada para Scarlett e suas táticas de conquista. Não sei exatamente o porquê, mas comecei a torcer para que Nathan não se lembrasse dela ou não desse a mínima para o seu olhar de fatal de felina, mas isso chegava muito perto do impossível. Scarlett era um feitiço ambulante.
- Não nos conhecemos de algum lugar? – eu o ouvi perguntar a ela. PAUSEM O DIABO DA CENA! Porque se eu vivesse em um filme como Click, teria pausado com aquele controle azul descolado. COMO ASSIM? Ela nem havia feito nada, só olhado para a cara dele! Ridícula! Mal pude acreditar.
Scar só tinha duas escolhas agora: ir direto ao ponto e dizer que sim ou dar uma de esquecida e disfarçar a verdade. Pelo que eu a conhecia...
- É, eu acho que sim – ela confirmou com o rosto sereno, como quem dizia “Tenho dez dedos nas mãos e você?”.
- Reading and Leeds, agosto do ano passado, se não me falha a memória – ele se referiu ao festival no qual havia conhecido e traçado Scarlett (eu não fui por ter que resolver problemas pessoais da minha vida passada. Foi um dia infernal para mim, se te interessa).
Ele se lembrava dela. Ele realmente se lembrava dela! E eles só haviam passado duas porcarias de dias juntos! Eram dois dias, mas... Argh, não estava com inveja. Brandon Flowers também havia se lembrado de mim. Um monte de caras se lembrava de mim - um monte deles que virão à tona mais tarde pra você. Tudo bem que precisei dar um refresh na memória do Brandon, mas não havia problema, eu era tão marcante quanto ela.
Porém, eu não tirava a mim mesma do sério. A não ser quando e estava travadona por substâncias químicas não produzidas pelo meu corpo, mas isso era outros quinhentos. Já Scarlett, me tirava do sério de todas as maneiras possíveis só por ser Scarlett. Só por ela chamar Scarlett eu já queria dar na cara dela.
- É, eu já sabia que eu era tão boa assim – ela disse, irritantemente convencida.
- Você está me seguindo? – ele perguntou de um jeito debochado após rir da presunção dela.
- Confesso ter pensado que você estivesse me seguindo.
- Por que estaria? – Nathan disse e bebericou seu vinho.
- Ora, porque, como eu disse, sou boa demais para que me esquecesse e não o fizesse – ouvi-a encher as palavras de si mesma da mesma maneira convencida novamente.
Depois disso, fui obrigada a voltar a prestar íntegra atenção ao meu diálogo com Jared, já que ele notou meu interesse naquele que ocorria ao nosso lado e perguntou-me com seu sotaque de quem tinha sido criado em Nashville se seu irmão me parecia mais interessante do que ele por ter mais cabelo e mais barba, ou se era algo com os óculos, que lhe davam um ar mais intelectual.
Tive que rir dessa. Não que Nathan não me atraísse, todos eles me atraíam, mas se eu estava com Jared era porque ele era o escolhido (olha como isso soa importante!). Por aquele instante, pelo menos.
- Não é isso – comecei a me justificar após uma tentativa de rir no estilo Jane Bennett. É, no fundo não fiquei nada sem graça. - Só estava me perguntando: ele conhece as britânicas tanto quanto você?
- Eu diria que nem tanto. O perito da família sou eu. Mas por que isso te interessa?
Que merda, ele já devia estar achando que eu estava o rejeitando e era tudo culpa da Scar. Ou talvez ele estivesse pensando que eu estava interessada em um a três, uh!
No mesmo instante em que separei meus lábios para responder a pergunta dele, ela, que andava até nossa mesa com Nathan e os outros Kings em seu encalço sustentando uma pose de rainha e praticamente reduzindo-os a kings de nada, mas súditos dela (Deus, ela era desgraçada mesmo), parou ao nosso lado para educadamente nos convidar a sentarmos com eles. Do jeito que sou, tomei a liberdade de Jared em concordar e discordar e disse por nós dois que mais tarde faríamos isso.
Mas é claro que não faríamos, porque tínhamos conflitos intercontinentais mais importantes a resolver, e eu precisava mostrar a ele que as outras britânicas que ele conhecera eram as camponesas e eu a nobreza em uma comparação com a sociedade medieval. Para isso, a gente precisava tirar as roupas e fazer coisas que freiras e padres não deveriam fazer, mas de vez em quando fazem porque esse é o século XXI sem valores morais, diferentemente dos séculos anteriores quando eles até conseguiam fazer a sujeira não feder. O século da falta de vergonha na cara rolando solta. Eu que o diga, por sinal.
Punheteiro de merda!
Como ele havia ousado? Ele se arrependeria tanto daquilo que seu arrependimento o corroeria inteirinho até reduzi-lo a pó. Um pozinho menor que um átomo (sim!) sendo atropelado por duzentos milhões de carros por segundo na Times Square se o tráfego estivesse bom. Eu alugaria um carro e ficaria rodando o quarteirão ali da Broadway quantas vezes me apetecesse só para ter o prazer de atropelá-lo também. Eu compraria uma frota de táxis só para rodarem por ali o dia todo e passarem por cima dele. Daí, ele seria tão esmagado que desapareceria para sempre e seria nada! Não o nada alguma coisa, o nada nada! Caipira desgraçado!
Jared se arrependeria tanto que teria um orgasmo momentâneo e arrependido toda vez que eu aparecesse em sua cabeça dali para frente, o idiota.
Eu estava quase dando uma de louca e saindo atrás dele com a minha mala – vazia, claro -, um taco de baseball e uma motosserra com um silenciador, ainda que isso não existisse. Eu encontraria de qualquer jeito, até inventaria, só para exterminar a existência canalha dele. O taco serviria para estourar seus miolos e a mala pra jogar os pedacinhos de suas entranhas uma vez que ele tivesse sido esquartejado por mim com o auxílio da motosserra silenciosa. Depois disso, eu levaria a mala até o Rio Hudson, queimaria tudo e jogaria as cinzas na água. Se ele achava que podia fazer pouco caso de mim daquele jeito, muito bem. Então eu faria dele um mequetrefe.
Estou dizendo: você pode bagunçar à vontade com a Rainha Elizabeth. Você pode bagunçar à vontade com os agentes da Scotland Yard. Mas você não pode, em nenhuma instância, bagunçar com Stoller. Stoller faz você borrar as calças uma vez em cima da outra!
Vamos aos fatos: de certo que Jared Followill era algo (ainda). Muito algo. Algo muito. Muito atraente, muito baixista, muito tragador de olhos, muito bom garanhão, MUITO SACANA! Um sacaninha de bosta!
Todo mundo estava seguindo a trajetória, mas aquele merda, não, ele não. Ele tinha que ser o estrelinha, querer achar que era o bãbãbã era e sair pela tangente.
Após Scarlett nos devolver à conversa paralela que tínhamos antes de ela chegar, as coisas ocorreram da forma mais promissora possível. Jared bebeu uma dose de uísque depois da cerveja, eu bebi um negócio chamado Strawberry Smash e entre um riso e outro o papo verteu para sua banda e a fama absurda que eles tinham no meu país e como eram subestimados em seu próprio, nossos gostos musicais, os meus ofícios inventados e família. Mais a dele do que a minha, claro, porque se há uma coisa da qual evito ao máximo falar é família. Mas se ele tinha necessidade de expressar o quanto sua família significava mais que tudo em sua vida, vamos lá...
Eu poderia suportar isto em nome do deleite final. Vai ver ele estava achando que eu tinha cara de produtora de um daqueles programas de TV nos quais celebridades recebem homenagens dos familiares e tudo vira aquela choradeira desnecessária e ridícula que ninguém suporta assistir porque soa tudo falso. Ou vai ver ele achava que eu tinha cara do amor da vida dele, quem sabe.
Devia ser efeito da bebida que o deixara emotivo. Porque francamente, nós deveríamos estar exercitando nossas táticas de sedução e discutindo as posições que cada um gostava. Que cara começa a falar da família assim que te conhece? Eu não tinha a mínima intenção de me casar com ele para me interessar pelo fato de que sua mãe tocava piano e sei lá o quê. A parte que me interessava, segundo ele, era relativamente omitida de sua mamãe querida e santa.
Realmente, eu não pensei que ele fosse do tipo que conversasse muito, e ele mesmo me disse que não era assim com garotas desconhecidas. Imagina falar da família, hein Jared? Eu só podia ter cara de mulher da vida dele mesmo. Não que fosse má idéia, mas eu não estava preparada para ser mulher da vida de ninguém, obrigada.
E eu não era do tipo que ficava jogando conversa fora durante uma década antes de partir para o principal. Pra que fazer questão disso? Mas ele disse que não se importava de mudar de estratégia comigo e não sei mais o quê. Que amor!
Que amor o cacete. Pro inferno, aquele Jared Followill!
Em algum momento da noite, quando fazia quase uma hora que eu e ele conversávamos e um pouco menos que seus irmãos e primo haviam sentado a nossa mesa, eu olhei para o lado em busca de e ri internamente ao me dar conta de que duas peças faltavam para completar o círculo social que havia se formado ali, além de mim e Jared: ela e Caleb. Isso só poderia significar uma coisa que eu e você já sabemos. É, isso mesmo.
Que pena, eu estava pagando pra ver o faniquito de tiete e os AVCs! Mas como eu havia previsto, ela havia mesmo preferido ter AVCs na cama dele.
Aquela era a minha melhor amiga! Fui atingida por uma súbita onda de orgulho e excitação que fez minhas mãos passearem por um dos braços de Jared e minha boca acostar-se sutilmente ao seu ouvido para sugerir que terminássemos nossa conversa providos de mais privacidade entre quatro paredes (e em cima de uma cama, mas essa parte eu deixei subentendida).
Essa seria a parte da guerra na qual eu, já detentora de toda a Grã-Bretanha, finalmente conquistaria todo o território da América do Norte e usufruiria deste levando todo o meu exército para lá e declarando o cumprimento do meu objetivo. Fuck yeah!
Isso teria acontecido se Jared não tivesse se retirado da batalha e me deixado lutando sozinha. Isso teria acontecido se eu estivesse jogando War. Mas, bem, eu não estava jogando War nem atirando nele de dentro de uma trincheira. Eu não queria derrota-lo, eu só queria consolidar uma aliança anglo-americana!
Estava pronta para dizer: Followill, follow you I Will quando ele simplesmente esquartejou meu sorriso pervertido. Simples assim. Bem calhorda assim. Ele agiu como se não tivesse demonstrado nenhum tipo de intenção libidinosa em relação a mim durante as horas que passamos juntos, ou como se eu não houvesse feito o mesmo, alegando em defesa de seu sono.
Sono. SONO! Era para rir? Porque eu te juro que ele disse estar cansado, morrendo de sono, e que precisava descansar para o show do dia seguinte. O show era tipo às dez horas da noite, imbecil! Mas que porra, isso parecia uma versão solteira do caso esposa com dor de cabeça quando o marido não a excita mais! Ele não tinha direito de me tratar daquele jeito, eu não era uma baranga entediante! Eu era gostosa! Eu era linda e diva! Eu era uma garota de atitude, como ele disse que admirava, não fazia nenhum sentido me dispensar assim!
Que ele estava pensando, que era a porra daquele programa imbecil que passava na MTV quando eu tinha 15 anos e achava legal? Dismissed? Que era tipo falar ’you are dismissed!’ e me deixar plantada no bar do hotel com meu copo vazio e as bebidas dele na minha conta? Cultura estadunidense imbecil! Ele nem devia assistir aquele tipo de programa por causa da mãe santa quando tinha 15 anos, ele devia ficar rezando na hora do programa. Onde havia aprendido aquilo?
Ah, com os irmãos. Só podia. Canalhice de família. Com 15 anos ele estava entrando na banda ou algo assim, porque eu havia ouvido aquilo e um pouco mais antes de ele dar o fora. Não pensem que eu não prestei atenção, eu prestei, sim, mas só quando Scarlett ou minha ansiedade não me atrapalharam.
E quanto a mim, novamente, como eu deveria ter agido? Ele simplesmente represou todo o meu poder de atitude! Não consegui sequer balbuciar um ‘ok’ quando ele disse que iria subir para descansar, NÃO ME CHAMOU OU FEZ QUALQUER INSINUAÇÃO PARA QUE EU O SEGUISSE, deu um beijo na minha bochecha – enfatizo: bochecha. Nem pra ser no canto da minha boca ou diretamente ali! - disse que havia sido ótimo ter me conhecido e partiu para os elevadores.
ÓTIMO TER ME CONHECIDO? Ótimo ter me conhecido o caramba, e a sua parte no acordo, seu desprovido de caráter? Todas as minhas amigas nessa altura do campeonato já deviam estar a ponto de engatar a segunda e ele havia me deixado na mão antes da primeira! Cretino! Gastou de forma leviana minha saliva e minha paciência em aguentar papinho familiar. Tudo para nada! E a desgraça maior era nem saber o número do quarto dele!
Tudo bem, eu descobriria na marra. Estamos falando de Charlotte Stoller aqui – SUBLINHE! Eu mostraria a ele com quem ele havia mexido. Ele queria ser um golpista calhorda? Fabuloso! O que ele não sabia era que eu conseguia ser duas vezes mais calhorda que ele.
Porém, no momento, tudo que eu conseguia fazer era manter minhas costas apoiadas na porta e sentir uma fúria que não era típica de um período normal, era típica da TPM. E eu não estava na TPM, estava matando cachorro a grito mesmo.
Até mesmo a grande e inofensiva planta ao lado da janela em minha habitação, a qual eu encarava, me irritava profundamente e eu tinha vontade de dá-la para os hipopótamos do New York Zoo devorarem, ainda que não tivesse culpa de nada. Aliás, ela nem tinha que estar ali, que diabos. Para que colocar uma porcaria de uma planta em um quarto num meio de um hotel em Nova York, podem me dizer? Que esses decoradores têm na cabeça? Seria uma tentativa de aumentar o contato com a natureza? Francamente.
Caí de costas na cama e taquei um travesseiro do outro lado do quarto, que quase atingiu um vaso sobre um aparador atrás do sofá durante o trajeto. Se ele pensara que aquilo iria me afastar, estava redondamente enganado. Havia era me tentado muito mais. Quando eu digo que consigo o que quero, eu não estou brincando. Jamais brinco em serviço.
Acendi um cigarro na tentativa de relaxar. Eu não podia fumar em nenhum quarto daquele hotel porque todos os quartos eram para não-fumantes, mas quem se importava? Não, eu não devia ter escolhido outro hotel. Regras são feitas para serem quebradas.
resolveria tudo num estalar de dedos, tudo que ela tinha de fazer era respirar fundo e se livrar da sua vontade de protagonizar qualquer história de suspense policial, como Crime no Hotel. Quem sabe Assassinato no Four Seasons. Isso era nome de livro da Agatha Christie! Falo sério, se eu o matasse, teriam que acrescentar um hotel e Srta. Stoller em Detetive para fazer companhia a Dona Branca e ao Coronel Mostarda na lista de suspeitos.
Eu, , tinha um nome a honrar: o meu. Portanto, era chegada a hora de fazer algo. E eu já sabia o quê.
Levantei-me num pulo só, completamente preenchida por aquela audácia própria do meu ser, aquela que me motivava a viver um dia após o outro e rir na cara do perigo. Encarar Jared Followill não me representava nenhum perigo, era o contrário, na verdade, mas ainda assim. Fiquei andando de um lado para o outro enquanto terminava o meu cigarro, ansiosa. Estava prestes a dar o primeiro passo para descobrir o número do quarto dele quando duas batidas meio sinistras vindas da porta soaram quarto adentro.
Eu não estava esperando por ninguém, estava? Amber estava fora, as outras três com certeza estavam metidas em práticas sexuais, eu não havia marcado nada com alguém de Nova York e ainda não havia pedido uma garrafa de Black Label e um balde de gelo pra tacar tudo num copo e rir sozinha do meu infortúnio.
Deixe-me dizer: chocolate e sorvete são uma besteira inventada pelos filmes e livros de comédia romântica. É coisa da, mais uma vez, magnífica Bridget Jones, sabem, que todo mundo copiou e fez parecer muito cool. Eu amo a Bridget, amo mesmo, mas tem umas horas na vida que os lipídios e glicídios não servem para nada além de criar um pequeno monstrinho chamado pança, que nos obriga a gastar dinheiro com o Dr. Rey no futuro. Daí, o álcool se apresenta e fica tudo não sei como. Não que eu tenha precisado me embebedar por ter ficado super mal, se uma vez eu havia feito isso, já fora muito, porque eu raramente ficava na fossa. Mas ainda que houvesse feito outras, você ACHA que eu iria me lembrar? Eu estaria bêbada, oi!
Olha, não que esses doces não funcionem, mas são para os fracos, sabe. Não dá para encarar certas situações com sobriedade! O papel do Black Label, que reagiria quimicamente com as minhas emoções e deixaria tudo mais divertido, entrava aí. Porém, eu não apelaria para essa opção, não estava tão desesperada assim, pela cura das bebidas alcoólicas! Imagina se eu desperdiçaria uma dose sequer de Black Label com uma besteira dessas.
Além do mais, Nova York é a cidade das oportunidades, eu me daria muito melhor saísse dando a louca pela cidade e trombasse com alguém legal, esse tipo de coisa sempre me acontece. Não haveria por que se lamentar uma vez que minha raiva já havia passado.
Por isso mesmo que eu havia decidido retomar o controle da situação, uma vez que ela só se iniciara por que eu o detinha. Determinação é completamente diferente do desespero, tome nota. E eu estava determinada a ter Jared Followill porque não sentira firmeza suficiente em sua rejeição. Fajuta demais para que me convencesse a desistir.
Eu sempre estou dois passos à frente, aprenda.
- Pois não? – meu sorriso de moça íntegra e solícita atendeu o funcionário parado à porta em seu uniforme. Quem se importava se meu rosto estava, por suposição, parecendo a roupa do Homem-Aranha (além de eu estar vermelha de raiva, parte da minha maquiagem tinha detalhes em azul)?
- A senhorita é Stoller? – ele me perguntou, e eu percebi que ele segurava uma bandeja com uma taça de champagne (por que não a garrafa inteira?) e outro objeto ao lado que não deveria estar sobre uma bandeja.
A falha na minha capacidade de produzir pensamentos com algum tipo de senso quase me fez interrogá-lo sobre o fato de ele saber meu nome, por que queria saber quem eu era e deixava de ser. No entanto, seu uniforme de funcionário do hotel e o crachá prateado pregado à sua camisa levaram-me a fazer conexões cerebrais novamente e perceber que tal atitude não teria o menor sentido.
- De certo que sou – confirmei, mantendo a pose composta e desviando os olhos do objeto não compatível com a bandeja bem polida em sua mão por alguns segundos.
- Pois bem, srta. Stoller – o funcionário sorriu, simpático. – O hóspede do quarto 3906 solicitou a entrega destes dois itens diretamente nas mãos da senhorita. – ele me estendeu a bandeja com a taça e o livro. – Antes, poderia assinar aqui, por favor? – o homem pediu, indicando com a cabeça um recibo ao lado de uma caneta sobre o livro.
- Obrigado, senhorita, tenha uma boa noite. – ele respondeu assim que rabisquei minha assinatura no local solicitado e retirei os itens da bandeja um em cada mão.
Fechei a porta com a ajuda do meu cotovelo e das minhas costas e bebi um gole de champagne, sem me preocupar se este estava envenenado, enquanto lia as informações na capa do livro.
Mini-Dicionário de Gíria Britânica? Eu quase cuspi o champagne em minha boca. Mas que porra toda era aquela?
Engoli as bolhinhas com algum esforço e logo caí na gargalhada, deixando a taça de lado no aparador atrás do sofá para pegar o pequenino envelope azul que caiu no chão enquanto eu andava em direção a este. Sentei-me no braço e retirei ansiosamente de dentro do envelope o papel branco e timbrado com o logotipo do hotel em um canto, desigualmente preenchido por uma caligrafia desconhecida por mim. Ainda assim, eu tinha certeza da identidade do dono das mãos que a haviam riscado.
O hóspede do 3906,
Jared Followill de Mount Juliet, Tennessee, EUA.
HAHAHAHA, QUE PILANTRA! Eu mal podia acreditar nele! Filho de uma mãe pura! Perdi a conta de quantas vezes li aquele bilhete, olhei para o dicionário, li o bilhete de novo, olhei para o dicionário e me perguntando onde ele havia arranjado aquilo.
Sabia que ele não iria me decepcionar, estava bom demais para que tudo terminasse em um “preciso descansar”. You know, se já está bom, pode ficar ainda melhor e aquela havia sido uma das táticas mais criativas das quais eu já havia sido vítima, apesar do estresse desnecessário. Eu geralmente era a estrategista, então era uma sensação bem legal ser surpreendida.
Muito bem, era minha hora de pôr em teste a infra-estrutura anti-ruído do Four Seasons New York e se esta não fosse de qualidade, quem sabe, incomodar alguns hóspedes. Eu esperava que não, porque não há coisa pior que foda empatada por o que quer que seja.
O ventinho sem vergonha causado pela abertura das portas do armário que bateu em meu rosto pareceu tão inspirador quanto a brisa da liberdade, aquela que nos descabela por inteiro quando estamos viajando num conversível em um dia ensolarado pela Califórnia assim como você e 90% da população mundial só viram nos clipes e videoclipes e eu, afortunadamente, já vivi.
Se há uma coisa que minha mãe me ensinou no começo da minha adolescência e eu por um milagre aprendi e segui foi nunca usar lingeries quaisquer, ainda mais rasgadas. NUNCA. Você nunca sabe o que vai te acontecer nesse mundo iracundo, e se por acaso te assassinarem pelas costas no meio da rua, quando os legistas e peritos forem investigar sua morte através das pistas deixadas em seu corpo, você terá a sorte de não passar vergonha postumamente por ser identificada por uma plaquinha no dedão do pé como A Fulana do Rombo na Calcinha ou algo assim se roubarem sua identidade ou você estiver sem ela e for enterrada como indigente.
Uma boa e bem desenhada lingerie é fundamental na vida de uma mulher em vários aspectos. Pode salvar desde uma autoestima em ruínas até um relacionamento em crise. É realmente uma pena que haja um monte de tontas no mundo que não tenham descoberto o poder desse fundamentalismo ainda, por outro lado é um privilégio eu não ser uma delas.
Quase vinte minutos depois ou algo próximo disto eu estava pronta em meu conjunto de renda preto Agent Provocateur e nas meias finas de mesma cor que eu havia comprado na Wolford naquela semana e também terminavam em renda nas minhas coxas. Ele havia me feito esperar, não havia mal nenhum em retribuir o incômodo.
Valeria a pena, já que meus peitos ficavam lindos naquele sutiã tomara-que-caia semitransparente e eu tinha tipo uma das bundas mais lindas do mundo que ficava um amor naquela calcinha para não dizer outra coisa. Amarrei o robe de seda preto, do qual a barra não chegava nem nos meus joelhos, e deixei o quarto naqueles trajes não dando a mínima para quem eu encontraria no caminho.
Os fins justificam os meios, afinal.
- Boa noite! Como estão? - eu cumprimentei, animada, como se os conhecesse a vida inteira, um casal que cruzei no elevador. Eles deviam ter em média uns setenta anos, estavam metidos em umas roupas de gala de gente velha e rica e olhavam estarrecidos para minha vestimenta de quatro paredes. A cara da velha estava no ranking mundial de faces mais repuxadas por cirurgia plástica e eu só consegui estipular sua idade pelo pescoço e mãos. Como toda mulher, me mediu desde o meu salto alto até os meus olhos simpáticos, então ela resolveu fingir que não estávamos no mesmo cubículo. – A família vai bem? Os netos?
- Vamos todos muito bem, obrigado – o marido dela respondeu, quase inundando o elevador com sua baba de velho tarado. Achei super engraçado e ri silenciosamente quando a senhora lhe deu uma cotovelada e o encarou, indignada. – E a senhorita? – Que educação a dele! Adoro idosos! OK, nem todos.
- Estou ótima, obrigada! O senhor nem imagina o quanto! – respondi, radiante, e sorri largamente. – Estou prestes a trepar loucamente com Jared Followill, não poderia me sentir melhor!
A senhora me olhou aterrorizada e soltou uma exclamação audível até na Broadway com a Sétima enquanto eu mantive meu sorriso de Barbie.
- Ora, Candance, não seja tão antiquada! – escutei o senhor falar e respirei fundo para não me desfazer em uma risada escandalosa. Achei o máximo ele dizer aquilo, eu pelo menos não estava pelada cometendo algum tipo de atentado ao pudor. – E pare de olhar para a mocinha como se ela fosse uma prostituta, você costumava vestir menos que isso quando ainda era gostosa e sabia dar uma boa trepada.
- Rudolph, seu velho maldito! - eu a ouvi explodir em cólera enquanto começava a o estapeá-lo com sua bolsinha de mão peruíssima e não consegui mais conter a vontade de rir. Apoiei-me de costas na parede do elevador e encurvei-me um pouco, quase sem ar ao observar os dois. – Quando eu sabia dar uma boa trepada? O seu pinto não funciona mais nem com uma cartela inteira de Viagra, seu imprestável, que é que você está falando?
- Boa sorte para os dois e tenham uma boa noite! – desejei, saindo do elevador assim que ele abriu as portas para o trigésimo nono andar.
- Seja quem for esse Jared, minha querida, ele é um rapaz de muita sorte! – eu ouvi o senhor Rudolph dizer por cima da voz irada e tremelicante da esposa enquanto me esforçava para não cair de tanto rir. Lisonjeador!
A porta se fechou e eu ri mais um pouco antes de limpar as lagrimazinhas de diversão debaixo dos meus olhos, recompor minha pose sexy e sair impregnando o corredor com meu perfume.
3906.
Duas batidas na porta para anunciarem a Jared que era hora de eu ensiná-lo não gírias regionais britânicas, mas quem era Stoller de Sheffield, Yorkshire, Inglaterra, a melhor britânica que ele conheceria na história de sua vida.
Ouvi sua mão afundar a maçaneta prateada enquanto eu desamarrava o laço do robe em minha cintura vagarosamente e ajeitava minha pose flexionando ligeiramente um joelho na frente do outro. Coloquei minhas mãos na cintura, por baixo do tecido para que ele não voltasse a me cobrir e me deixei fascinar pela visão que me foi apresentada.
Oh, meu Deus. Lá estava ele. O cabelo mais bagunçado do que mais cedo, descalço, sem camisa, com a braguilha da calça aberta e com a cara mais imoral que podia expor. Pronto para meu corpo seminu descaradamente revelado diante do seu, pronto para a expressão de poderosa safada que eu exibia achando tudo o máximo.
Ah, a diplomacia e as coisas que ela me levava a fazer...
- Serviço de quarto?
Continua...
N/A-27-09-10:: NÃO, ISTO NÃO É UMA MIRAGEM! Se você chegou até aqui, provavelmente acabou de ler a atualização desta fic já dada como morta e eu finalmente acabei de escrevê-la. Mal posso acreditar! Sério, mesmo! Depois de um ano sem atualização, um ano de crises, um período de desistência durante o qual realmente considerei nunca mais atualizar isso daqui, está de volta A.K.A Groupie! CÊS ACREDITAM, MENINAS? 5 meses pra escrever essa atualização!
Pensem numa fic que dá trabalho, é essa. Mais trabalho do que todas as outras que já escrevi e escrevo. Eu adoro a trama dela, mas muitas vezes não gosto ou fico insegura com a forma da qual a escrevo e aí acabo querendo não escrever porcaria nenhuma. Mas bom, ela está de volta e eu queria prometer uma atualização rápida, mas não creio que eu deva já que minha vida de vestibulanda atrasada e meu humor em relação a ela estão em constante mudança. Quem quiser ficar com A.K.A, que fique, quem não quiser, que não fique.
E aí, o que acharam da cena femmeslash? Espero MESMO que tenham curtido, e muito, porque olhem, as vezes que eu quase quebrei meu computador com a minha cabeça por causa dela não foram poucas, perguntem às minhas amigas. Desculpa não ter tido nenhuma cena mais quente com um dos Kings aí, mas é que realmente vai ter que ficar pro capítulo 4 (que será o fim da aventura New Yorker). Falando em Kings, quem vai ao SWU para vê-los? EU VOOOU! Vou aproveitar e ver a Joss e a Regina lindas, aposto que vai ser um dia mara!
As duas (enormes! Eu sei que sou detalhista, sorry) partes deste capítulo foram o melhor que eu pude fazer, sinto bastante se não atendeu as expectativas de algumas das senhoritas depois de todo esse tempo. Como eu sempre digo, não vou escrever de novo não, riri! Talvez a fic esteja dando a impressão de ser um pouco apelativa e vulgar, mas o ponto de vista narrativo é da própria protagonista e eu não podia fazê-la pensar outras coisas de outras maneiras e dizer outras coisas de outras maneiras porque aí não seria a figura que eu gostaria de criar e talvez nem coubesse na trama da fic, a qual eu amo, amo, amo, como já disse, e espero que vocês que voltaram a acompanhar amem também. Ainda há muitas surpresas a serem reveladas e acho que seu McGuy só aparece lá pelo capítulo 5 pra fazer sentido. E, ah, o sentimento de vocês em relação a Scarlett está ficando claro? Espero que sim, viu?
Eu não acho essa fic extremamente pesada porque eu sou meio doidona, mas se você crê que não vai aguentar o tranco de ser uma personagem envolta por muitos palavrões, drogas e sexo, sexo, sexo a partir daqui, não leia a próxima atualização, seja lá quando ela vier. Estão avisadas.
Pra finalizar, gostaria de agradecer IMENSAMENTE, mas um imensamente muuito imensurável, se compreensível, minhas amigas que estiveram ao meu lado o tempo todo, insistindo para que eu continuasse a escrever isso de qualquer jeito, nem que eu demorasse uma década, que (algumas delas) lêem isso aqui enquanto eu escrevo e sabem de tudo que está por vir, que insistem em brigar comigo quando eu digo que tá tudo uma merda e que ficam puxando meu saco ao exagerarem em suas opiniões, tratando A.K.A Groupie como se fosse uma das maravilhas literárias do mundo. São elas: Vee (obrigada pela "tchecoslováquia"!), Vii, Ana Ferreira (obrigada pelo detalhe do fim!), Laah Luz, Mury, Kath, a Hata que às vezes me cobra no Twitter e até a Ayla que tem andado por fora desse mundo, mas sempre me apoiou. Eu não escreveria nada sem vocês e disso vocês já estão cansadas de saber.
Pra vocês que comentam e andaram sumidas porque eu também andei, um super obrigada liiiindo e encham essa caixinha aí abaixo, aproveitando que ela tá vazia, para que eu me sinta mais motivada ainda e possa saber o que vocês estão achando do que escrevo porque, oi, escrever "às cegas" pode atrapalhar muito uma escritora. COMENTEM, COMENTEM, COMENTEM, COMENTEM MUUUUUUUITO!
Pra quem lê NBL, espero conseguir atualizá-la em breve se a Fuvest e a Cásper deixarem (vida de vestibulanda é uma bosta) e, por favor, leiam minhas outras fics, principalmente a nova, Hello Goodbye (Valentine) que eu escrevi pro último dia dos namorados e virou meu xodózinho. Comentem lá também e realizem meu sonho de torná-la destaque do mês um dia, haha! Se alguma das minhas fics entrar em hiatus, isso será avisado. Mais uma coisa: fiquem atentas ao endereço de Twitter @MissStollersays pra quando ele for criado, okay?
Vocês todas que chegaram até aqui são umas divas maravilhosas que merecem tudo de bom nesse mundo!
Time to go now.
Stay tuned! Arrivederci,
Annie Archer
Traduzindo:
Capítulo 1:
- Chavs
- No Way, José = expressão idiomática; equivale ao "de jeito nenhum" no português. O 'José' entra só para rimar, na pronúncia inglesa, claro.
-...Don't put words up in my mouth, I didn’t steal your boyfriend!= Não ponha palavras na minha boca, eu não roubei seu namorado! (*husband= marido)
Capítulo 2
- Hype= Pronuncia-se 'raip'; algo extremamente comentado; na moda; que faz muito sucesso durante um determinado espaço de tempo.
- Uncool= careta; antiquado.
- Let it go = deixe estar.
-Bonne nuit, mon amie= Boa noite, minha amiga!
- iBuenas noches, chavita! = Boa noite, mocinha! (*chavita é diminutivo de chava uma palavra mais utilizada no México e que é usada para se referir a garotas jovens e solteiras).
- Human (tradução) - The Killers
- Bones (tradução) - The Killers
- Ladies = plural de lady; damas.
- Junk Food = Comida altamente calórica; não saudável.
- You know = você sabe (às vezes equivale ao nosso "sabe como é").
Capítulo 3 - Parte I:
- Sample = amostra.
- Frontman = se tratando de bandas, o vocalista principal.
- Remember = no contexto da fic, uma repetição.
- Rehab = Reabilitação (de drogas, bebidas, etc.)
- Underground = Algo conhecido por poucos, que não é amplamente divulgado pela mídia -"This is the world that we live in, I can’t take blame for two." = "Este é o mundo no qual vivemos, eu não posso levar a culpa por dois" (trecho retirado de The World We Live In, de The Killers. =
- Tequila song: Girlfriends, salt and lemon! Yeah, yeah, yeah, take me on a ride with you José! Yeah, yeah, yeah, everbody loves to party with José! = Amigas, sal e limão, yeah, yeah, yeah, me leve de carona com você, José! Yeah, yeah, yeah, todos amam festejar com José!
- Shot = dose de bebida (no contexto, e de tequila, no capítulo).
- Pobrecito = pobrezinho, no sentido de coitado.
- 'Hasta la vista, baby' = 'Até mais, baby'. Frase do filme O Exterminador do Futuro 2.
- Suddenly I See (tradução) - KT Tunstall
- Milady = dama.
- You Win = Você venceu.
- You Lose = Você perdeu.
- Loser = Perdedor
- Night club = casa noturna.
- Little chavs = "chavzinhos". Consultar "traduzindo" do capítulo 1.
- Whatever = Qualquer coisa; que seja.
- Bitch = Vadia.
- Dirty Things = coisas sujas (pervertidas).
- Teaser = demonstração.
- All right = tudo bem; tudo certo.
- 2 Girls, 1 Cup
- Black Pudding = prato tradicional britânico.
- Haggis = prato tradicional escocês.
- Geek
- New York, New York (tradução) - Frank Sinatra
Capítulo 3 - Parte II:
- Bagel
- Hell Yeah! = uma "afirmação" bem enfática; "pode crer!"; "isso aí!"
- Balmex = pomada para assaduras.
- Seducción = Sedução.
- Cheerleader = animadora/líder de torcida.
- "Go for it!" = vá em frente!
- "Followill, follow you I Will" = Followill, segui-lo eu irei (follow = seguir; will= auxiliar verbal do tempo futuro)
- "You are dismissed" = você está dispensada
- "Cool" = "descolado."

