All I Need
Autora: Raissa Monteiro
Status: Em Andamento
Revisada por: Lui Caminada
Categoria: Mcfly Fics
Sub-Categoria: Romance/Drama - Long Fic
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CAPÍTULO 01
'I wanna know what love is
Eu quero saber o que é o amor,
I want you to show me'
Eu quero que você me mostre. - Mariah Carey
, o sonho de consumo de qualquer garota que tenha dois olhos. Um sonho de consumo totalmente inalcansável, já que ele tem vinte anos, faz faculdade de direito e nunca sequer olhou pra mim. Sua vizinha de quinze anos, sonhadora.
- , saia da janela e vá arrumar seu quarto - minha mãe colocou a cabeça pela porta do meu quarto, gritou e saiu, batendo a porta com toda a força.
Ela estava de mau humor, notável. Fechei a janela, não antes de dar uma última olhada no meu vizinho que estava tocando violão na varanda de sua casa.
Olhei para meu quarto e ele não estava bagunçado, muito pelo contrário, estava bem arrumadinho. Minha mãe estava com problemas, sério. Desci as escadas, procurando por ela em toda parte e não a encontrei.
Subi novamente as escadas, ouvindo barulhos estranhos vindo do quarto dos meus pais. Me aproximei da porta, pé ante pé, segurando a respiração e colei o ouvido na porta.
- Estou farta! - minha mãe falava com a voz trêmula - Você nunca tem tempo para mim e para sua filha, é sempre o trabalho em primeiro lugar.
- Se você quiser eu paro de trabalhar e morremos de fome, certo? - meu pai rebateu, com certeza muito bravo, porque o trabalho era a vida dele. Ninguém podia falar mal dele. - Ou você acha que seu trabalho na revista vai nos sustentar?
- Eu não pedi pra você parar de trabalhar, só trabalhar menos.
- Eu não quero continuar essa discussão, por favor. - Ouvi passos e me afastei da porta, correndo para o meu quarto.
Esse era sempre o motivo das brigas entre os dois, e estava ficando cada vez mais constante. Deitei na minha cama de barriga para cima, encarando o teto por algum tempo.
Se eles continuassem a brigar assim, talvez o casamento não suportasse mais. Eu tinha medo de que eles se separassem, claro. Nunca passei muito tempo longe deles e só de pensar nisso sofro. Fechei os olhos tentando esquecer as palavars que eu ouvi. Um barulho de violão me fez relaxar e sorrir comigo mesma.
Violão? Levantei num salto da cama e corri para a janela. Claro, só podia ser ele. estava ainda na sua varanda, e agora tocava e cantava. Sua voz chegava bem baixa aos meus ouvidos, e era quase uma canção de ninar.
Encostei a cabeça no vidro da janela, olhando aquele homem tocar e cantar e a voz dele me envolver, como mágica.
I wish I could Bubble Wrap my heart, (Gostaria de poder embrulhar meu coração em plástico bolha)
In case I fall and break apart, (Em caso de que cair e quebrar)
I'm not God I can't change the stars, (Eu não sou Deus, eu não posso mudar as estrelas)
And I don't know if there's life on Mars, (E eu não sei se há vida em Marte)
But I know you're hurt, (Mas eu sei que você está machucada)
Ele parou de cantar e olhou para a minha janela, abrindo o sorriso mais lindo que eu já vi em toda a minha existência. Corei e retribui o sorriso, logo em seguida fechei a cortina e me joguei na cama.
Agora ele pelo menos sabia que eu existia. Meu coração bombeava sangue com uma força incrível para o resto do meu corpo.
- Não vou poder te levar no colégio hoje, querida - minha mãe comentou, enquanto eu tomava meu café-da-manhã. - Tenho uma reunião no meu inútil trabalho.
Ela lançou um olhar matador na direção do mau pai, que revirou os olhos e voltou a ler o jornal do dia.
- Tudo bem, vou a pé - sorri - Estou precisando fazer atividades físicas mesmo.
Escovei meus dentes e peguei minha bolsa. Estava pronta para sair. Ao passar pela porta da cozinha ouvi uns gritos.
- Você não vai almoçar com a gente? Todo dia é isso agora! - minha mãe se exaltou e outra briga estava a caminho. Andei mais rápido, não queria ouvir mais nada, eu estava começando a ficar cansada dos dois.
Peguei o Ipod na bolsa, e coloquei os fones no ouvido, ligando no volume máximo. O estresse da minha casa estava afetando e muito a minha vida, eu estava tremendo. Algumas lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto, enquanto eu tentava andar mais rápido para chegar logo no colégio. Um vento forte bateu em mim e um dos meus fones saiu do lugar, então eu ouvi uma buzina. Virei para o lado, me deparando com um carro prata, modelo conversível e novo. Tirei o cabelo que estava no meu rosto por conta do vento, para poder enxergar direito. Minhas pernas tremeram ao ver quem estava dirigindo.
- Quer uma carona? - a voz de era ainda mais bonita assim, de perto. Neguei com a cabeça, meio sem saber o que estava fazendo. Eu tinha negado? Essa é a parte que eu me mato, certo? Ele sorriu para mim e parou o carro.
- É só uma carona, vamos lá. - Abriu a porta do lado do motorista e me fez entrar. Ótimo, eu não teria conseguido sozinha mesmo.
- Obrigada, err... - fingi que não sabia o seu nome. Ele não precisava saber que eu sabia da vida toda dele, ok?
- , - ele sorriu de novo e eu verifiquei se não estava babando. - Eu sei que o seu é .
- Sa-sabe?
- Claro, minha vizinha que fica me ouvindo cantar todos os dias - ele soltou um risada alta e eu o acompanhei, mesmo que com vergonha - Não sei como não reclamou ainda, eu canto mal.
- Não mesmo, sua voz me acalma. - falei merda e bati na minha própria testa, ele riu disso.
- Bom saber - piscou e voltou a encarar a rua - Nunca te vi andando a essa hora.
- Normalmente minha mãe me leva, mas hoje não deu.
- Sorte sua que eu saí na mesma hora, para a faculdade - ele parou o carro em frente ao meu colégio e se virou para mim - Boa aula.
- Obrigada. - fiquei meio confusa: como ele saia que eu estudava ali? O encarei e ele pareceu entender na hora.
- Graças ao seu uniforme eu não precisei perguntar onde ela era - sorriu de novo e deu partida com o carro - Até mais.
Certo, podemos dizer que uma parte do meu sonho estava se realizando? Não, claro que não. Era só uma carona, ele nunca pensaria em ter nada comigo. Eu não podia ficar pensando nisso agora, já estava em cima da hora de entrar. Olhei para a rua e o carro prata já havia sumido, então entrei no colégio.
Quando dei o primeiro passo ouvi uma voz gritando meu nome.
- ! ! ESPERA, ! - quando olhei era a . Óbvio que ela tinha percebido a diferença do carro que eu cheguei no colégio hoje, eu tinha até certeza de que ela ia me perguntar com quem eu peguei carona com uma cara de super curiosa, como sempre.
- Com quem voce pegou carona? - Nossa, como ela é previsível. - Ou, a sua mãe trocou de carro?
- Não, eu peguei carona com o meu vizinho! - Respondi sem pensar. Ninguém sabia do meu amor platônico pelo meu vizinho super gato. Eu não sabia exatamente como contar, principalmente por ser a pirralha da sala. Eu, com 15 anos, já cursava o terceiro ano do ensino médio. Ok, não é uma coisa que acontece todo o tempo, mas aconteceu comigo. Todas as minhas amigas tinham 17 anos, não que seja uma diferenca muito grande, mas elas podiam pensar que era idiotisse isso! Então, nunca tomei coragem para contar para alguém. A era a minha melhor amiga, desde que eu entrei no colégio. Ela nunca escondeu nada de mim e eu também nunca escondi nada dela. Tirando isso.
- Que vizinho? Você nunca me falou nada de vizinho nenhum. - ela começou a falar, enquanto andávamos pra sala. Sorri sem graça e dei de ombros.
- Depois a gente fala sobre isso, a professora chegou.
Não consegui prestar atenção na aula, como sempre. Eu só pensava em voltar para casa e ouvir o meu vizinho cantando. Bobo, eu sei, mas me fazia tão bem. Quando o sinal tocou meu material já estava arrumado. Peguei as minhas coisas e saí mais apressada do que de costume. Quando cheguei no portão percebi que a minha mãe nao tinha chegado. Peguei o celular e liguei para ela. Odiava ter que ficar esperando e ela sabia disso. Chamou três vezes e ela atendeu.
- Mãe, cadê você? A aula já acabou! Vem me buscar!? - falei tudo de uma vez, para ela entender minha aflição.
- Ah, filha, desculpa. Eu nao vou poder ir te buscar hoje! Tenho um compromisso. Volta andando, meu amor? - De novo isso? Tudo culpa das brigas dela com meu pai, aposto. Agora ela queria trabalhar tanto quanto ele, pra mostrar que eram iguais e eu me ferrava.
- Ok, mãe. - Respondi sem demonstrar nenhum sentimento.
Comecei a andar em direção à minha casa. Eu realmente não estava mais me importando pela minha mãe não poder me levar para casa, afinal, foi a primeira vez. Embora eu achasse que iria se tornar rotina.
Mas enfim, continuei andando, pensando no que o meu lindo vizinho poderia estar fazendo. Ou ele estava almoçando, ou tocando violão na varanda! Eu queria muito chegar logo em casa para poder vê-lo.
Continuei andando e como não era muito longe, logo estava na rua de casa. Mas infelizmente, não estava lá tocando seu violão, como sempre fazia. Fiz uma careta involuntária e entrei em casa, deixando minha mochila em cima do sofá e correndo para a cozinha. O almoço ia ser algo como miojo e ovo frito, já que minha mãe se recusava a estar em casa.
Depois que almocei e tomei um banho relaxante me joguei na cama, com os livros abertos, pronta para estudar. Terceiro ano exige muito da gente e eu tinha que manter minhas notas altas para a faculdade.
Fórmulas de física, química, álgebra e geometria passadas, eu fechei todos os livros e me espreguicei na cama. Olhei para o relógio de parede pendurado em cima da minha cama e constatei que eram cinco e trinta.
Ouvi conhecidas notas musicais e, sem pensar duas vezes, corri para a janela. Abri lentamete a cortina e sorri, vendo com o violão no colo. Ele sorriu de volta, colocando o violão no chão e se levantando.
- Hey, era você mesma que eu queria ver - Oi? Ele realmente disse isso ou fórmulas matemáticas me deixam drogada?
- Como? - minha cara deve ter sido a de maior interrogação do mundo. Ele passou a mão no cabelo, o jogando para trás e quase que eu me jogo da janela.
- Queria conversar com alguém, pode ser você? - ele falou de um jeito fofo e eu concordei com a cabeça.
- Já chego aí - dei um tchauzinho discreto e fui procurar minha sandália. Assim que a calcei, voei escada abaixo e abri a porta, saindo meio descabelada pra rua. Ele ainda estava na mesma posição, e o violão ao seu lado.
- Oi, - ele sorriu, me indicando um lugar ao seu lado, e eu me sentei - Desculpa atrapalhar alguma coisa, mas eu sou assim, egoísta mesmo. - ele riu e eu neguei com a cabeça - Eu precisava de alguém pra conversar.
- E eu estou aqui por vontade própria, seu bobo - dei língua e me xinguei por ter feito isso. Era para ele realmente achar que eu sou uma criança? - Ta com algum problema?
- É, cara, eu tô - ele fez uma voz fofa e pegou minha mão - A gente nem se conhece direito e eu vou te encher com meus problemas? Sou muito otário mesmo.
- Hey, deixa disso - apertei a mão dele entre as minhas, para passar confiança e ele olhou nos meus olhos. Já comentei que os olhos dele são lindos e brilham? - Posso ajudar?
- Eu vim morar aqui quando comecei a faculdade de direito e bom... Essa não é a minha áera, eu gosto é de música - ele apontou o violão e tinha um sorriso no rosto, mas logo ficou sério - Se meus pais um dia sonharem com isso, cortam tudo. Tudo bem, sou maior de idade, mas não trabalho, não tenho como me sustentar. E ainda tenho que estudar pra faculdade que eu não gosto, por que eles fazem questão, sabe?
- Deve ser complicado para você ter que agir assim - comentei, ainda apertando sua mão.
- E era mais porque eu não tinha ninguém pra compartilhar. Agora tenho você - ele passou a mão livre pelo meu rosto, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha - Obrigado por me ouvir e aceitar ser minha amiga.
- Obrigada por ter me dado essa honra - brinquei, corando, e ele gargalhou. Levantei batendo na bunda pra limpar e senti o olho dele sobre mim - Bem, vou pra casa.
Ele levantou também, pegando minha mão e me puxando pra perto. Beijou meu rosto demoradamente e eu esqueci meu nome.
- Tchau, e se precisar dou carona amanhã - piscou, pegou o violão e entrou em casa. Fiz o mesmo.
CAPÍTULO 02
'I do my best game
Eu faço o meu melhor jogo,
But I lose my luck when you're not here'
Mas eu perco minha sorte quando você não está aqui - John Mayer
- , não vou te levar no colégio de novo. Tenho outra reunião - minha mãe falou já saindo da mesa. Meu pai, porém, estava perto dela e a segurou pelo braço.
- Todo dia é isso? Trocando sua filha por trabalho? Esse não era o MEU defeito? - ele rosnou e ela piscou algumas vezes antes de fazer qualquer coisa - , vai já pro colégio.
Sem ouvir outra ordem, peguei minha bolsa e meu caderno e corri pra fora de casa. Lágrimas molhavam meu rosto e eu tremia.
- HEY, ! - a voz doce e suave que eu precisava ouvir me chamou e eu virei o rosto para ver se era verdade ou apenas um ilusão minha. Ele estava em pé, em frente ao seu carro esporte e pareceu meio chocado ao ver que eu estava chorando. Sem pensar em mais nada, eu corri ao seu encontro o abraçando com força. Ele envolveu meu corpo com seus braços fortes e beijou minha cabeça - Calma, calma... Shii...
- Aw, , eu não aguento mais - chorei na sua blusa - Não aguento.
- Quer conversar?
- Tenho aula.
- Falta a aula e eu falto a minha. Isso realmente deve ser mais importante.
Ele me fez entrar no carro e colocou o cinto de segurança ao redor do meu corpo. Beijou minha testa antes de ir ao seu lado do carro. Deu partida no carro e ficou rodando pela cidade. Permanecemos em silêncio.
- Quer um sorvete? - ele perguntou com jeito de criança e eu sorri de lado - Vamos nessa sorveteria, que está perto - Ele apontou uma grande casa verde-limão e estacionou o carro numa vaga qualquer.
- Chocolate, sou tradicional - respondi quando o garçom me perguntou sobre o sabor.
- Flocos, também sou - ele riu - Ta melhor?
- Tô, obrigada por se preocupar comigo - corei.
- Quer me contar?
- Meus pais... Estao brigando muito e isso cansa.
- Deve ser ruim, - ele falou, meigo, e deu de ombros - Na minha casa nunca vi briga dos meus pais. Até acho meio enjoado o jeito deles, é tão meloso.
Ele riu e eu fi o mesmo, lembrando da época em que lá em casa as coisas também eram assim.
- Obrigada, de novo.
- De novo, por que? - ele levantou uma sobrancelha, ficando extremamente sexy com esse ato e me fazendo pensar em um jeito de jogá-lo na parede e... Bom, que seja, nunca vai rolar nada mesmo.
- Por estar sendo tão legal comigo.
- Então eu também tenho que agradecer, você é um doce - ele falou sério e eu comecei a rir, muito alto, porque 'doce' realmente não era um adjetivo muito usado para me definir. Não sou lá muito simpática, não faço questão. Mas com ele era diferente, notei agora. - Ta rindo de quê, bobona?
- Deixa pra lá, feio. - Já acabou o sorvete aí? - ele apontou para meu pote vazio e eu confirmei com a cabeça - Quer outro?
- Você quer me animar ou me engordar? - ele riu e rolou os olhos - Não quero, obrigada.
- Então vamos - ele levantou, deixando uma quantia de dinheiro sobre a mesa, quando fiz menção de pegar minha carteira, ele me arrastou até o carro - Eu convidei, eu pago, ok ?
- Não gosto muito disso, mas hoje eu deixo - concordei, entrando no carro - Vamos pra casa?
- Pra minha casa, vou te mostrar algumas músicas - ele sorriu e eu também, claro. Eu ia pra casa dele? O lado pervetido da minha mente trabalhava a todo vapor, imaginando mil maneiras de tirar a roupa dele - E além do mais, está cedo para você chegar em casa.
Está mesmo, eu posso passar o resto do dia com você, fazendo coisas beeem interessantes. Eu não disse isso, claro. Mas pensei.
E como pensei.
Eu nunca tinha notado esse meu lado selvagem. que deve aflorá-lo, fato.
- Que casa... linda - abri a boca perplexa. Não parecia nem de longe a casa de um cara solteiro e jovem. Ele fez uma cara convencida e eu soquei seu braço.
- Outch, você é violenta é? - ele deu um sorriso safado que eu ignorei. Na verdade eu ignorei minha vontade de dizer que se ele quisesse eu até dava tapinha na bundinha. - Vamos lá pra cima, vou cantar e você vai dar a nota para as minhas composições.
- Eu queria ouvir uma que te ouvi cantando um dia, tão bonita. - eu sorri e ele me puxou escada acima.
- Qual? Lembra alguma parte?
- Algo com plástico-bolha, talvez.
- Ah, sim - ele gargalhou - Então eu canto pra você.
Ele pegou o violão em cima da sua cama, me fez sentar e sentou também. Pigarreou alto e sorriu, logo em seguida começando a cantar. A voz dele era linda, perfeita com a música, que era bem tristinha. Ele cantava com muita emoção, como se aquela história tivesse sido real. Será? Ele acabou de cantar, jogou o violão, e ficou me encarando.
- , agora seria uma boa hora de me dizer o que achou - ele estava corado me encarando e eu com cara de bunda, sem dizer nada.
- Sua voz é linda, você toca muito bem e... Transmite muita emoção. - falei tudo que eu estava pensando e ele sorriu, meio tímido - É uma história real?
- Sim, é - ele confirmou o que eu já disconfiava. Então ele tinha amado uma garota e a BURRA o fez sofrer? Não o amou? Que tipo de doença mental ela tinha?
- Ok, não precisa ficar com cara de ovos lembrando o passado, ! - pulei em cima dele, fazendo cosquinhas em sua barriga (bem definida) e ele se jogou pra trás, deitando na cama, me fazendo ficar por cima. Quando dei um tempo para ele respirar e voltar a cor normal (ele tinha adquirido um engraçado tom de rosa no rosto) percebi o quanto estávamos próximos. Tentei levantar, mas a mão dele segurou meu pulso, e a outra apertou minha cintura. A respiração quente dele batia contra minha boca fechada e um sorriso simples se formou nos lábios dele. Ele inclinou um pouco a cabeça pra frente, de modo à apenas roçar os lábios nos meus, me fazendo respirar profundamente e fechar os olhos. Entendendo isso como um sinal verde, ele tirou a mão do meu pulso e colocou nos meus cabelos, forçando minha cabeça na direção da dele, e chocando nossos lábios com certa precaução. Sua língua contornou minha boca e eu a abri, sem pensar muito para tomar essa decisão. Quando nossas línguas se tocaram, pude sentir cada célula do meu corpo festejando. Não é todo dia que uma pessoa realiza um sonho, não é mesmo? Nossas línguas continuavam a brincar, numa sincronia invejável. Minha mão segurava o rosto dele, enquanto a outra passava por cima da sua barriga, coberta pela blusa. A mão dele apertava cada vez com mais força minha cintura e num movimento rápido, ele estava por cima e eu por baixo. Ele separou nossos lábios e abriu os olhos, no mesmo instante que eu o fiz. Nos encaramos e sorrimos, feito dois idiotas.
- Acho melhor eu sair de cima de você - a voz rouca dele anunciou e eu queria gritar que ele podia ficar, mas apenas contraí os músculos. Ele não olharia mais na minha cara depois disso, não é mesmo? Ele levantou, sentando na cama. Fiz o mesmo, ainda meio sem saber o que falar, fazer ou como sair correndo dali. - Eu estava indo rápido demais não é? Fiquei com medo de te assustar...
Me assustar? Se ele soubesse tudo que eu penso dele e com ele, saberia que nunca me assustaria. Na verdade, ele sairia correndo, ligaria pra polícia para me denunciar ou algo do tipo. Devo ter vocação para tarada profissional.
- Está tudo bem, você não me assustou - cocei a cabeça e ele suspirou aliviado, talvez - Nós dois nos deixamos levar pela situação e...
Ele colocou a mão na minha boca, me pedindo para calar.
- Gosto de você, do seu jeito - ele sorriu e acabou com a distância que existia entre a gente, beijando minha bochecha e fazendo um atrilha de beijos até minha boca, onde começou a beijar com mais intensidade que antes, e bem mais vontade. Mas o beijo não durou muito, logo estávamos separados de novo, apenas com as mãos entrelaçadas.
- Tenho que ir - olhei no relógio, e já era hora de chegar em casa.
- Te levo até a porta, madame - sorriu e se despediu de mim, na porta, com um selinho demorado.
Preciso comentar que nem as brigas de meus pais conseguiram tirar o sorriso do meu rosto?
Três semanas haviam se passado desde aquele beijo na casa do . Não teve um dia em que não nos vimos/ficamos. Se para mim, ele já era perfeito sem eu nem ao menos conhecê-lo, ficando com ele a perfeição parecia ser maior. Mantinhamos nosso caso em segredo, e eu não sei ao certo o porquê. Bom, na verdade, eu tinha medo da reação dos meus pais afinal, era cinco anos mais velho que eu, estava na faculdade e morava sozinho. Algo que meu pai não julgava ser o melhor para mim. E com todo o problema que meus pais tinham em casa, eu não queria ser responsável por levar-lhes mais um. Para os meus amigos eu não contava pelos mesmos motivos que eu não contei que amava o . Todos achariam que eu era muito nova para ele, no estilo do meu pai. A única que ficou sabendo foi a , porque me conhecia tão bem que não tive como esconder. Ao contrário do que eu achava, a reação dela foi muito boa. Ela me deu o maior apoio e quando o conheceu, o achou a melhor pessoa do mundo. Claro, quem não acharia? Mas ela tinha um motivo a mais para ir com a cara do . Um certo amigo dele, . A garota pôs os olhos no menino e se apaixonou. Coisa de cinema.
- O é a coisa mais linda do mundo, você já viu o sorriso dele? - ela fazia gestos exagerados e seus olhos brilhavam. Rolei os olhos, me jogando na cama.
- Quer calar a boca e me ensinar geometria?
- Quer parar de pensar em números e prestar atenção no que eu digo? - ela gargalhou e se jogou ao meu lado - Eu o quero.
- Eu sei, e por que não chega junto? - dei um pedala sustento nela, que me olhou brava.
- Porque eu não quero parecer oferecida, querida. Ele que tem que chegar em mim - falou com ar de superior e eu dei de ombros.
- Posso falar com o se qui...
- QUERO, QUERO! CLARO QUE EU QUERO! - cortou a minha frase e ainda se jogou em cima de mim, me enchendo de beijos pelo rosto. A afastei com as duas mãos, jogando-a cama abaixo. O baque surdo dela caindo me fez gargalhar. - Vai ter volta, !
- Vou esperar sentada, Mrs. Apaixonada - zoei e ela se levantou, fazendo cócegas na minha barriga - Me solta, sua feia!
Rimos feito duas crianças e depois nos concentramos na geometria. tinha uma facilidade absurda com a matéria e eu sempre boiava no meio daquelas fórmulas. Quando acabamos, fomos fazer um lanche e como estavámos sozinhas, fomos na casa do meu .
- Oi, - ele me cumprimentou com um selinho, me puxando rápido para dentro de casa. entrou logo atrás, sorrindo - Oi, .
- Oi, - ela sentou no sofá e cruzou as pernas - Ta sozinho?
- Pergunta logo se o está aqui, boba! - dei um pedala nela, e ela corou, olhando para algum ponto atrás de mim. Virei o rosto assustada e me deparei com o , também corado, sorrindo sem graça. - Opa, oi, .
- Oi, - ele se virou para - Oi, .
Virei para minha amiga e ela mexeu a boca sem emitir som num perfeito 'Vou matar você, vadia'. Eu balbuciei 'Desculpa' e ela enfiou a cara nas mãos. começou a rir descontroladamente e acabou caindo no chão, segurando a barriga de tanto rir. Dei um delicado chute na perna dele, e só assim ele parou, se levantando e me puxando para a cozinha.
- Ela vai me matar, - acabei rindo também, já que estava longe dela. Ele me abraçou, enfiando o rosto no meu pescoço. Me arrepirei quando senti seus lábios tocarem minha pele.
- Eu não deixo, você é só minha - ele passou a língua delicadamente, chegando até a minha mandíbula.
- Fizemos o certo em deixar os dois sozinhos? - o empurrei, acabando com o clima. Ele fez bico e eu dei de ombros, porque estávamos na cozinha, e se ele continuasse me provocando, faríamos algo inapropriado. Ok, mentira, não faríamos, porque eu não estou preparada e não quero perder minha virgindade com um cara que não é nada meu. Tipo, só ficante.
- Eles vão se entender. está bem afim dela - ele deu um sorriso safado, voltando a colar nossos corpos e dessa vez foi direto ao ponto, vulgo: minha boca.
A beijou com tanta vontade que em pouco tempo eu estava sem ar. Ele apertava minha cintura contra a dele, de modo a tentar conter as nossas empolgações, mas não estava ajudando. Eu sentia o Jr. dar sinais de vida logo abaixo da cintura e aquilo me fazia perder ainda mais o ar. Que se dane tudo que eu tinha dito, eu não estava mais aguentando as provocações dele. Agarrei-o pelos cabelos, e separei nossas bocas, levando a minha até o seu pescoço e beijando, passando a língua e mordendo só para o ouvir gemer baixinho no meu ouvido.
- Ops - a voz de me vez pular longe do - Eu... Foi mal... Eu... Nós...
- A gente... Bom... - também se complicava com as palavras e eu olhei para o . Ele tinha virado de frente para a pia e eu entendi que era para esconder o quanto estava empolgado. Caminhei até os outros dois, os tirando da cozinha. A situação de estava ruim,eu tinha que ajudar. Sentamos os três no sofa, ligando a TV.
- Foi mal, a gente não fazia ideia - estava muito vermelho e eu bati de leve na perna dele, negando com a cabeça.
- Tudo bem, a gente não estava fazendo nada demais - dei de ombros, agradecendo mentalmente por eles terem aparecido. Sabe-se lá o que eu iria fazer.
- , vem cá - gritou da cozinha e eu levantei, sorrindo meigamente para o casal.
- Que foi? - perguntei passando a mão pelo rosto vermelho dele, seus lábios de abriram num sorriso trêmulo.
- Preciso, bem... Eu preciso te perguntar uma coisa - ele fez bico e ficou extrememente fofo - Não pense que vai ser fácil, tenho muito medo de qual vai ser a resposta, então não me deixe muito nervoso ok? Não ria de mim nem nada do tipo.
- , você está me deixando nervosa também - juntei as sobrancelhas, intrigada. Ele segurou minhas mãos e olhou no fundo dos meus olhos.
- Quer ser minha de verdade? Assim, quer namorar comigo?
Jesus crucificado, ressucitado. Devolvi o olhar dele, e um sorriso nada discreto apareceu me meu rosto, aperecendo logo em seguida no dele.
- Aw, - me joguei em seus braços, enchendo sua face de beijos, no olho, na testa, no nariz, na bochecha, na boca - Claro, seu idiota!
- MINHA, SÓ MINHA - ele começou a gritar feito um idiota mesmo, e me carregou, me girando pela cozinha até a sala. e levantaram do sofá, de tanto susto e começaram a rir da nossa cara - ELA É MINHA, OK? , pare de olhar para ela.
brincou, me colocou no chão e deu um pedala no amigo. fez bico e bateu em . Eu cruzei os braços e bati nela.
- Não defenda o , ! - ri e ela me bateu.
- , ela é sua o quê, finalmente? - , meio lerdinho, ainda não tinha entendido. abriu o sorriso maginífico dele e me puxou para um abraço.
- Minha namorada, caro - e selou nossos lábios. Os dois otários bateram palmas e eu ri, partindo o beijo.
- Só falta vocês agora - falei e saí correndo escada acima, antes que eles me batessem. correu atrás de mim, rindo.
Quando estávamos juntos toda a diferença de idade desaparecia. Não existia 15 e 20 anos. Existia e . Apenas.
- Você deve tomar cuidado com o que fala - ele ofegou ao parar de correr e se jogou na cama - A é bem violenta quando quer.
- Tenho que dar uma força, senão eles não se pegam nunca - dei risada, me jogando por cima dele, ainda cansada pela corrida. Ele alisou meus cabelos, beijado minha cabeça.
- Obrigada, por está aqui comigo. Você é tudo que eu preciso. - suspirei, segurando a mão dele, com vontade de dizer o quanto eu o amava e o quanto ele era fundamental para mim, mas perdi as palavras. Então fechei os olhos, aproveitando o carinho - Isso foi tão clichê, mas é o que eu sinto. Eu realmente não sei como um cara como você se interessou por mim, mas agradeço a Deus todos os dias - o abracei tão apertado que o ouvi reclamar e rimos.
- !? Sua mãe já deve estar chegando, vamos? - não entrou no quarto, de modo a falar através da porta. Talvez não quisesse atrapalhar nada como na cozinha. Me levantei, beijando a testa dele.
- Boa noite, meu amor - ele disse e eu sorri - Sonhe comigo pelado e dançando ula-ula pra você.
- Realmente vai ser meu sonho - rolei os olhos.
CAPÍTULO 03
'I can almost see it
Eu quase posso ver isso,
That dream I'm dreaming'
Esse sonho que estou sonhando. - Miley cyrus
- Filha, não vai jantar? - minha mãe bateu na porta do meu quarto, alguns minutos depois da ter ido embora.
- Não, estou sem fome. - respondi, saindo do banho. Coloquei minha camisola leve de algodão e me joguei sobre as almofadas do chão do meu quarto. Namorar o foi o que eu sempre quis, desde o momento que pus meus olhos nele. E assim, como se fosse predestinado, eu nem precisei lutar muito para conseguir o que queria. Eu não acreditava em destino, mas a partir desse dia eu resolvi que estava na hora de rever meus conceitos.
Por falar em conceitos, as brigas aqui em casa estavam piorando a cada dia. Eu procurava ficar o mais longe de casa possível, ou na casa da , ou escondida na casa do . Ou então nós dois saíamos para tomar sorvete.
Acordei com o despertador berrando no meu ouvido e rapidamente tratei de desligá-lo. Os raios de sol incidiam através da cortina mal fechada do quarto e eu me xinguei mentalmente por não ter fechado direito. Sentei na cama, passando a mão sobre os olhos, numa tentativa frustada de despertar. Fui para o banheiro, fiz toda a rotineira higiene matinal e pus a farda do colégio.
- Bom dia, queridos - cumprimentei meus pais, assim que sentei a mesa com eles. Os dois nem se olhavam e quem passasse por lá diria que eles nem se conheciam.
- Bom dia, filha - meu pai respondeu e minha mãe apenas fez um barulho estranho com a boca. - Eu vou te levar ao colégio hoje.
Minha mãe parou de tomar seu chá e o olhou por cima dos óculos. Eu me engasguei com a torrada, mas acabei abrindo um sorriso. Meu pai não me levava no colégio desde o jardim de infância. Eu estava surpresa, mas minha mãe estava mais. A cara de indignada dela foi impagável. Fiquei com um pouco de medo da reação que ela teria após ver suas bochechas adquirirem um tom avermelhado.
- Posso saber o porquê disso? - minha mãe perguntou entre os dentes. Meu pai virou o rosto para ela, lhe lançando um sorriso cínico.
- Se você não pode cumprir com suas obrigações de mãe, eu tenho que fazer, não é mesmo?
- Você só está fazendo isso para...
- CHEGA, VOCÊS DOIS - todo o meu esforço de 'Não me meter nas discussões idiotas deles' foi por água abaixo. Eles me encararam, levemente assustados - Já está ficando insuportavel isso, sabe? Eu odeio ter que vir pra casa, porque eu sei que vai ter pelo menos uma briguinha. Vocês podiam sentar e conversar como adultos uma vez na vida.
- Filha...
- Não, mãe. Agora não. - me levantei, pegando minha bolsa - Ainda vai me levar pai?
Ele levantou da mesa um pouco confuso, mas me levou.
- Miragem ou você chegou no carro do seu pai? - perguntou assim que pisei no pátio.
- Eu vim. Ele está tentando provocar a minha mãe de qualquer jeito - dei de ombros, me largando em um banco qualquer.
- Vai sair com o namorado hoje? - ela cutucou minha barriga, me fazendo rir.
- Não sei, não falei com ele ainda. E você e o ? Algum avanço?
- Talvez - ela sorriu marota e eu me sentei direito, pronta para ouvir a história - Ele me chamou para uma festa que vai ter da faculdade deles. Claro que o vai te chamar também.
- O te chamou? - apertei as bochechas rosadas dela - Que cuti-cuti.
- Ah, , me deixa - ela riu, segurando minhas mãos. - Depois nós vamos ter que escolher juntas a roupa, ok? Não sei o que usar.
- Minha criança quer impressionar o bonitão? - fiz voz fina e ela me bateu. , qualquer dia eu arranco suas mãos, dica.
- Eu quero meeesmo! Quero que o lamba o chão que eu pisar - nós duas rimos e ouvimos o sinal de início das aulas. Nos entreolhamos desanimadas. Aula de química ingorgânica não era algo que nos fazia saltitar exatamente, sabe?
- O PH de uma solução básica tem que ser maior que sete, então... - O professor tentava enfiar todas aquelas coisas complicadas nas nossas mentes bloqueadas, pela segunda vez. Eu já tinha desistido de tentar entender qualquer merda que ele falasse e a julgar pelas caras dos meus colegas de classe, eles tinham feito o mesmo. Olhei para , ela fazia desenhos abstratos em seu caderno. Peguei minha borracha e joguei nela, acertando sem querer, sua testa. Não sou boa de mira, beijos.
- Ta louca? - ela gritou sussurrando pra mim e eu abafei uma risada ao ver a marca vermelha em sua testa - Eu vou fazer pior na sua quando acabar a aula, .
- Hey, calma - sussurrei de volta - Eu estava querendo te ajudar, sua ingrata.
- Ajudar o que? A ter um traumatismo craniano? - Alguém já reparou como a garota é dramática? Ela tem que fazer teatro, fato. Rolei os olhos.
- Eu estava pensando em sair depois da aula para comprar a roupa pra festa, mas se você preferir a gente pode ir pro hospital, ver se seu único neurônio ainda tá vivo.
- Vamos pro shopping - ela deu um sorriso tão fofo que quase eu levanto da cadeira e aperto suas bochechas. Quase, porque o professor ia me fazer ver a diretora-vaca e eu não trouxe capim para acalmá-la hoje.
- , vamos pegar um táxi - me arrastava colégio afora, enquanto eu ligava para minha mãe para avisar que iria ao shopping.
- Ok, mãe... Ahan, eu sei... Beijos, até de noite - desliguei e tomei um susto quando ele começou a tocar em seguida. Olhei no visor '' - Oi, amor.
- ? Ah, amor, tudo bom?
- Tudo sim, lindo - sorri feito uma boba e me enfiou em um táxi que ela tinha parado.
- Então, sexta vai ter uma festa da faculdade, você vai comigo, não é? - ele fez um voz fofa e eu o imaginei fazendo bico.
- Claro, amor - suspirei e rolou os olhos. Ela tem inveja, eu nem ligo. - Mas me diz uma coisa? Que tipo de roupa usar?
- , qualquer tipo.
- Tudo bem, vou de biquíni. - ironizei. arregalou os olhos do meu lado e eu nao aguentei, tendo uma crise de riso.
- , nem pense nisso! - ele disse sério - Tem um bando de macho na minha faculdade e eu nao confio em nenhum deles, só no . Mas esse já vai acompanhado. - ele disse e nós dois rimos. ficou encarando o teto, sem saber de nada. - Tudo bem, vai ser num pub, festa fechada só para a gente. Nada chique, mas nada de biquíni, ok?
- Tudo bem, amor. Vou desligar. Te amo.
- Te amo mais, você sabe.
- Eu não sei não.
- Quando você chegar vem aqui em casa que eu te mostro - ele deu uma risada safada e eu o acompanhei.
- Qual tipo de roupa? - perguntou assim que eu guardei o celular na bolsa.
- Vai ser num pub, então jeans, ou um vestido.
- Obrigada, senhor - pagou o táxi e me puxou shopping adentro. Um dia vou contar a ela que apressado come cu. Digo, cru.
Rodamos o shopping todo mais de cinco vezes, e eu não estou exagerando. Eu podia ser bem má e dizer que a culpa foi toda da que não se decidia por uma roupa, ou então não achava um sapato que combinasse perfeitamente com aquela blusa linda. Mas eu sou sincera. Eu também estava nervosa e indecisa quanto as roupas. Cara, era a primeira vez que eu ia sair em público com o meu namorado. Até agora só quem sabia do nosso caso ero o e a , mas ele... Ele ia me levar numa festa CHEIA de amigos mais velhos dele. Eu tinha que, no mínimo, esbanjar charme e simpatia.
- , é sério, esse vestido ficou ma-ra-vi-lho-so - os olhinhos de brilharam ao me ver sair do provador da 103983938ª loja que entramos. Dei uma giradinha, me olhando no espelho.
- Sério?
- Leve esse e nem , nem amigo nenhum dele vai resistir - ela piscou, mas fez bico - Só não chegue muito perto do .
- Tudo bem, eu me contento com o - fingi tristeza e fui tirar o vestido. Já estava ficando tarde, eu estava cansada e se esse vestido estava bom, eu ia levar.
Pagamos e fomos sentar na praça de alimentação.
- Calça? OK. Blusa? OK. Sapato? OK. Colar? OK. Brinco? OK - ia mexendo nas sacolas e se perguntando se estava tudo lá, se ela não tinha esquecido nada. Eu apenas tomava calmamente meu milkshake. - ?
- Oi.
- Você vai contar aos seus pais sobre o ?
- Não - respondi sem nem precisar pensar - Por enquanto não. Meu pai é todo protetor, vai achar que o é muito velho, que me alicía e coisas do tipo. Minha mãe, do jeito que anda louca, vai querer me matar. Não, definitivamente, não.
- Acho isso meio errado, - ela me olhou, e a sinceridade estampou seus olhos. - Se eles descobrirem, vai ser pior.
- Eu vou contar, . Mas não agora.
CAPÍTULO 04
'I know that you are something special, to you I'd be always faithful
Eu sei que você é algo especial, a você eu serei sempre fiel
I want to be what you always needed, then I hope you'll see the heart in me'
Eu quero ser tudo que você sempre precisou, então eu espero que você veja o coração em mim. - Jesse McCartney
- Não vejo a hora de jogar tudo isso pro alto - peguei um bolo de fichass de revisão do colégio e mostrei pra . Ela estava sentada na outra ponta da minha cama, com um bolo de fichass bem maior que o meu.
- Cara, nem me fale - ela folheou algumas e retirou uma do bolo, me entregando - Pra que merda eu tenho que saber sobre o tectonismo de placas? Pra quando estiver acontecendo um terremoto eu falar: 'Pois é, é o magma se movimentando em baixo das placas continentais e oceânicas!?'
Eu ri, balançando a cabeça. Realmente, para o curso de moda que ela quer fazer, de nada importa. Peguei a fichas, e rolei os olhos.
- Não quero resolver isso, ! - devolvi e ela amassou, jogando pela janela do meu quarto. Abri a boca pra xingar até sua 278647ª geração, mas o sorriso sapeca que brincava no rosto dela me fez rir de novo. - Sua idiota!
- Fala sério, são as últimas provas do ano, nós passamos em quase tudo. Não vou ficar resolvendo fichas sobre essas merdas.
- É, você é doente mental, mas às vezes as coisas que você fala tem sentido.
- Falando em sentido, amanhã é sexta!
- E o que é que sexta tem a ver com sentido?
- O sexto sentido - ela deu de ombros e eu a olhei incredulamente - Eu só queria falar que amanhã é sexta e aproveitei - rimos - A festa, ! A festa.
Ela saltitava pelo meu quarto, ensaiando como falaria com o , como o provocaria dançando. Eu ria dos delírios dela, mas meu estômago revirava de nervosismo. Se os amigos dele me acharem uma criança? Se ninguém gostar de mim? Preciso ligar pro e dizer que eu não vou mais.
- ? - ela parou de se esfregar na parede e me olhou - Não quero ir pra essa festa.
- Como assim? - ela pôs as mãos na cintura.
- Eu sou uma criança, ninguém lá vai gostar de mim e o ...
- E o o quê, ? - ela bateu o pé no chão - Ele vai te deixar por causa disso? Nem se tudo que você falou fosse verdade! Você é simpática, meiga, bonita e todo mundo gosta de você. E o principalmente. Se ele souber que você pensa essas coisas vai ficar puto.
Ela tinha razão, eu sei que tinha. Mas então por que meu estômago não parava quieto?
Toc, toc.
- Entra! - gritei. Minha mãe entrou, trazendo uma bandeja com sanduíche e suco de morango.
- Lanchinho para as garotas mais estudiosas do mundo - ela sorriu, vendo a quantidade de fichas espalhadas pela cama. Coitada, se ela soubesse que a poucos minutos a estava era estudando uma maneira de dar pro .
- Valeu, mãe - ela deixou em cima da mesinha e saiu.
- Comida! - correu na direção da mesinha. Cara, ela veio da Etiópia. Só tenho essa explicação. Argh, olha o jeito como ela come os dois sanduiches. DOIS?
- Vadia, um é meu! - dei um tapa na sua mão e fiz o MEU sanduiche voar de voltar pro prato. Ela só tinha dado três mordidas nele, pra minha sorte. Enfiei tudo na boca, com medo de um contra-ataque da gulosa. Mas ela se comportou bem.
Sexta-feira, depois da última prova do ano. Tem como ser um dia mais feliz? Tem. Se não existisse recuperação. Sabe todo aquele papo da de 'Passamos em tudo, não vamos estudar, blá blá blá'?' Nos ferramos bonito. Mas isso me serviu de lição: nunca escutar o que a diz.
- Recuperação no terceiro ano é a coisa mais normal do mundo, - ela ainda se achava certa.
- Eu sei, mas eu queria ficar livre logo desse antro de futilidade que é o colegial. - olhei em volta para ilustrar a minha frase. As meninhas banais com todas as roupas iguaizinhas. Até o jeito/cor/corte do cabelo delas eram os mesmos. Os caras do futebol, fortes e bonitos. Sim, isso ninguém negaria. Mas ninguém negaria também que o cerébro deles é inferior ao de um sapo.
- Quer se ver livre de mim também, vaca? - ela me abraçou de lado, sempre carinhosa.
- Principalmente de você, vadia. - retribui o carinho.
- Hey, meninas! - Josh, um cara da nossa sala, chegou sorrindo perto da gente. Por que eu nunca tinha reparado no sorriso lindo que ele tem?
- Josh! - respondemos em coro.
- Como foram as provas? - ele perguntou, passando a mão no cabelo loiro, que caía sobre os olhos verdes. Por que eu nunca tinha reparado na incrível cor dos olhos dele? E no cabelo perfeitamente liso?
- Recuperação, claro - respondeu, enquanto eu babava.
- Normal - ele deu de ombros e me empurrou.
- Viu? Eu disse que era normal - ela deu língua.
- E eu não discordei - rolei os olhos, sentindo uma súbita necessidade de sair dali. Josh era muito bonito e estava me fazendo ter pensamentos inapropriados para uma garota comprometida, como eu. - , a festa... Temos que nos arrumar.
- Ah, é mesmo! - ela pulou - Bom, Josh, nos vemos por aí.
- É, nos vemos - balbuciei e ele se aproximou, beijando minha bochecha e me deixando imóvel por alguns segundos. Até me arrastar pelas ruas.
- O que foi aquilo? - ela falou de repente - Josh tava dando em cima de você, fato.
- Não viaja, . Ele só é simpático. - ou eu acreditava em minhas palavras, ou eu tava muito ferrada.
- Nunca tinha sido simpático comigo antes - ela deu de ombros mas voltou a me encarar - Ele quer te pegar.
- Ew, olha os termos que você usa, ainda mais se referindo a mim - eu ri e ela me deu um pedala - Ele não quer.
- , vamos lá, quem você quer enganar? Ele te deu mole, ele sorria feito um idiota para você.
- Eu tenho namorado - falei entre os dentes.
- Mas o Josh não sabe disso, .
É, ele não sabe. Logo, ele não tem culpa. Dá pra complicar só mais um pouco? Por que eu ainda não me fudi completamente? Rosnei e olhou estranha pra mim.
- Ele é bonito e mexe com meus pensamentos - revelei e ela riu.
- Se serve de consolo, mexe com os meus também.
- Vamos parar de pensar nisso?
- Se você acha que ignorar isso vai fazer ele deixar de querer te pegar...
- PAROU? - berrei e ela levantou os braços, na altura da cabeça.
CAPÍTULO 05
- Daqui a duas horas eu te espero em frente a minha casa, okay?
- Certo, amor - respondi, sorrindo pra mim mesma, e desliguei o celular, jogando em cima da mesinha desarrumada. - Duas horas, vamos nos arrumar?
- DUAS HORAS? , você é realmente doente - ela me empurrou pra dentro do banheiro, e foi tirando a roupa. Qual foi, ela quer tomar banho comigo?
- , não é por nada não, mas você não faz meu tipo - fui saindo do banheiro.
- Vai atrasar tudo, - ela fez voz de criança.
- Eu tomo banho no banheiro da minha mãe, okay?
Ela concordou, me fazendo prometer que não ia demorar.
Corri pro banheiro da suíte dos meus pais, tomando meu banho rápido e relaxante. Enrolei meus cabelos em uma toalha, e na outra envolvi meu corpo.
Fui andando calmamente pro meu quarto e me deparei com uma de calcinha e sutiã saltitando em frente ao espelho.
- Qual seu problema? - perguntei, fechando a porta atrás de mim.
- Meu problema é você. Você que demorou muito no banho - ela veio correndo e me abraçou. Essa menina é carente, aham, é sim.
- Me solta para eu poder me vestir!
Depois de estar com minhas roupas de baixo também, fui ajudar a minha amiga a se maquiar. Modéstia parte, eu sou muito boa maquiadora e ela ficou uma diva.
- Se eu fosse o , te comia de ladinho - pisquei e ela ficou vermelha. É, para algumas coisas ela é envergonhada, pra ficar se esfregando na parede do meu quarto e a chamando de , não.
- , cale a boca e sente a sua bunda flácida aí. Agora é a minha vez de te maquiar - Flácida? A bunda da mãe dela era flácida, a minha estava em forma. Mas obedeci, claro. dá duas de mim e me bateria fácil se eu me negasse. Passei uns bons minutos sentada na mesma posição, apenas alternando que olho eu abria ou fechava. Às vezes me assustava com alguma expressão que a fazia, se achando realmente boa naquilo. Quando ela acabou, ainda fez um suspense, me segurando para que eu não olhasse no espelho, mas depois de rir, me liberou. Uma coisa eu tenho qua admitir: sabe valorizar meus pontos fortes e esconder os fracos. Eu estava me sentindo à altura do . Pela primeira vez.
- Obrigada, amiga. Eu estou bonita. - ela me bateu e eu a olhei sem entender.
- Que bonita o quê? Você está é linda. - ela me pegou pela mão, me levando até a cama. Opa, ta meio que afim de mim hoje. - Vamos vestir a roupa?
Ufa, pensei que ela ia querer tirar o pouco que eu vestia. Peguei o vestido verde-água e deslizei sobre meu corpo. Ele era tomara-que-caia com um cinto prata, logo abaixo dos seios. Chegava à metade das minha coxas e eu achei meio curto. Mas foi só eu pensar nisso que a se intrometeu.
- Ta na altura ideal. Ideal pra deixar qualquer cara aos seus pés.
- Eu não quero qualquer cara, eu quero .
- Esse já está aos seus pés faz tempo, então me ajuda aqui? - ela pediu segurando sua roupa - Que eu quero o aos meus pés.
Ela se vestiu e soltou os cabelos. Por um momento cogitei a ideia de agarrá-la ali mesmo. Okay, mentira. Mas minha amiga estava muito linda, tenho que falar. Sua calça skinny escura realçava cada curva das suas pernas, enquanto sua blusa lilás era justa no busto e solta logo após, contrastando mais com o apertado da calça. Ela usava uma sandália alta e preta, que dava um charme a mais.
- Fiu-fiu, contigo eu passava a noite toda na ativa - pisquei e ela gargalhou, jogando a cabeça pra trás.
- Você também está linda, amiga, mas tem um detalhe - ela olhou meus pés - Cadê a sandália prateada que compramos?
Se ela não me lembrasse, eu era capaz de ir descalça. Corri para procurar nas sacolas e a achei. A calcei. Era alta e amarrava no tornozelo.
Paramos as duas, agora prontas, na frente do espelho.
- Lindas - falamos juntas e rimos.
- Mãe, estamos indo - anunciei, assim que pisamos na sala. Minha mãe levantou os olhos do livro que lia e sorriu para nós, que retribuímos.
- Vão com o vizinho não é?
- Isso. - eu não estava mentindo, só omitindo o fato que o tal vizinho era meu namorado. Dei de ombros, puxando pela mão. Caminhamos até parar em frente a porta rústica de madeira da casa do meu namorado e eu suspirei. Eu tinha medo, fato. Medo de não ser aceita pelo 'grupo' dele. Medo que ele procurasse alguém mais velha.
, ao me ver hesitar, apertou a campanhia. Respirei fundo, tentando manter a calma, e tentando não tremer. Mas por que merda eu era tão fraca que estava tremendo? segurou minha mão, e eu agradeci mentalmente por ela saber tudo que eu penso.
- Meu Deus - foram as únicas palavras que saíram da boca do quando ele abriu a porta. Eu sorri sem graça, e bateu o pé, impaciente. - Hey, fica na sala que o já está chegando.
Ele olhou pra ela, que deu língua. Eu me aproximei, selando rapidamente nossos lábios, afinal estávamos na rua e meus pais podiam ver.
- Você está lindo - ele vestia uma calça jeans meio colada e uma blusa social roxa, com as mangas dobradas até o cotuvelo. O cabelo estava como sempre, lindo. Ele tinha um sorriso no rosto que dava uma toque final ao visual.
- Eu nem sei que adjetivo usar pra te definir. Posso usar um pronome? - ele perguntou, segurando minha mão. Dei de ombros e ele aproximou a boca no meu ouvido e sussurrou - Minha.
Me arrepiei pela voz rouca dele e pelo que ele disse. Me afastei um pouco, temendo não conseguir resistir e agarrá-lo ali, sem me importar com mãe, pai, cachorro, vizinho...
- Pronome mais que possessivo, - ralhou e lhe mostrou o dedo do meio.
- Você vai ter seu momento hoje, relaxa.
- Você está sabendo de alguma coisa? - ela o encarou.
- Eu não sei de nada. Hey, o chegou. Vamos.
Ele nos arrastou para o carro do . Enfiou na frente e nós fomos atrás, abraçados de lado.
- - sussurrei para ele, que me olhou - E se seus amigos não gostarem de mim?
- Como é que alguém nao vai gostar de você, minha pequena? - ele passou o nariz na minha bochecha e eu fechei os olhos - Você conquista todo mundo.
- Eu sou quase uma criança perto de você e do - resmunguei baixinho.
- Você é a minha criança, e se ninguém gostar de você, melhor ainda - abri os olhos, sem entender - O quê? Eu sou egoísta mesmo.
Rolei os olhos e senti a mão dele percorrer minha cintura e a apertar com força. Colamos nossos lábios com força e nossas línguas se encontraram no instante seguinte,me fazendo sentir calafrios.
- Ew, a gente ta no carro ainda - resmungou lá na frente estacionando o carro em uma vaga qualquer. - Chegamos, se quiserem podem ficar no carro.
Soquei seu ombro, me ajeitando. saiu do carro me dando a mão para me ajudar a descer.
Assim que pisamos na entrada do salão principal ( segurando firmemente a minha mão, e atrás de nós, indecisos quanto a segurar ou não na mão) muitos olhares se voltaram para nós. Claro, eu deveria ter imaginado que e faziam muito sucesso com as colegas de faculdade e que eu seria odiada até o fio do cabelo por estar com eles. Senti minhas bochechas arderem e meus pés darem involuntariamente um passo para trás. Mas percebeu e me incentivou, apenas com um olhar, a continuar andando. Pra frente, lógico.
nos guiou até uma mesa, num canto mais reservado, onde três caras estavam sentados. Olhei de lado para , que deu um sorriso cúmplice para mim. Claro, estávamos nos comunicando sem palavras sobre os tais três caras sentados na mesa. Uma palavra define os três: HOT. Quê? Sim, estou com o , mas nem por isso fiquei cega e deixo de apreciar o que deveras é bom.
- ! - o loiro, do sorriso grande, levantou - !
- James! - os dois responderam na mesma hora. O tal James olhou de cima a baixo e em seguida desviou o olhar para minhas pernas, permanecendo ali tempo demais antes de subir ao meu rosto. notou e tratou de me abraçar de lado, chegando mais perto da mesa.
- , esses são meus amigos - ele apontou cada um - James, e . Meninos, - ele olhou para eles - Essa é a minha namorada, .
Os três sorriram, até o James. Mesmo que tenha feito uma expressão incrédula quando definiu meu status.
- E essa é a minha... - apresentou, corando. Eu achei fofo. não, pela cara que ela fez. Ela queria o quê? Que ele falasse 'Minha namorada, aliás, , quer namorar comigo?' Há, ela está assistindo filmes-água-com-açucar demais.
Sentamos todos à mesa, com os outros três que já a ocupavam. O fantasminha da insegurança me rondava. Eu estava com medo de falar alguma merda com os amigos do e estava me policiando toda hora. Eu tive uma surpresa, os amigos do meu namorado não eram metidos a adultos (por mais que fossem, realmente adultos) e eram super divertidos, me fizeram sentir super a vontade e em certo momento eu já estava me sentindo do grupo. Nem mesmo quando o perguntou a minha idade e eu disse a verdade. Eles não fizeram os tipos de piadinha que eu achei que fariam, como: 'Vai criar, é ?' ou 'Ih, vai ter que trocar a fralda, .' Não. A única coisa que falaram foi 'Me diz onde você estuda que eu vou lá buscar uma pra mim. O nível está superior ao da faculdade.'
É, comentário infeliz do , já que deixou a mim e a vermelhas e ao e ao com bicos no rosto.
- É, vai lá. Mas essas aqui têm donos - resmungou, beijando minha bochecha.
- Donos? Pensei que só você e a namorassem - pôs as mãos na cintura, encarando minha amiga e o affair dela. Os dois fizeram uma competição de quem ficava da cor do tomate, e deu empate.
- Estou em fase de negociação - finalmente falou alguma coisa e deu uma piscadinha super sexy. o encarou com a maior cara de cu e levantou. Talvez fosse no banheiro, talvez fosse dançar, talvez fosse... Putamerda. O primeiro cara que passou na frente dela, a doida o pegou pela gola da camisa polo e o jogou na parede. Ela, LITERALMENTE, o jogou na parede e tascou o maior beijão no cara. Depois de me recuperar do susto, virei lentamente a cabeça pro lado para analisar a reação dos outros. tinha a boca meio aberta, os olhos totalmente arregalados e um tom vermelho-raiva nas bochechas. Quem se importava mesmo com a reação dos outros?! Levantei do meu lugar, chegando perto de e o tocando no ombro. Ele imediatamente virou o rosto para mim, mexeu a boca algumas vezes, sem emitir som algum.
- Vem comigo? - ofereci a mão e ele aceitou. Caminhamos um pouco rápido para longe dali e chegamos ao fundo do pub.
- Que foi que eu fiz de errado, ? - ele perguntou, meio em choque ainda.
- Não sei, vou conversar com ela e...
- Aquele cara é da minha sala na faculdade, eu não vou mais conseguir olhar na cara dele depois disso e não sentir inveja, raiva, sei lá.
- - chamei o nome dele e ele esfregou uma mão na outra. - Vamos voltar para lá, ok? Você já está mais calmo?
- Não.
- Vamos lá, - insisti.
- Ok, , ok.
- Depois que eu falar com ela, vocês conversam e aí tudo vai ficar bem. - Sorri e o peguei pela mão.
Entramos no salão e fomos diretamente para a mesa. Para minha surpresa, estava lá, sentada e com um copo contendo um líquido azul nas mãos. fez um careta e eu o cutuquei, insistente como sempre. Ao lado da minha amiga estava , com um copo igualzinho ao dela.
- Oi - atraí os olhares para mim e meu companheiro.
- Oi - respondeu, me puxando para sentar perto dele. Entrelacei minhas mãos no seu cabelo e o puxei para um beijo. Ok, meu plano era deixar os outros dois contrangidos a ponto de começarem uma conversa qualquer.
Mas não sabia do meu plano, claro, e foi se empolgando e ME empolgando com aquelas mãos grandes passeando pela lateral do meu corpo, descendo até minhas coxas, levantando meu vestido.
- - sussurrei entre o beijo e ele pareceu nem ouvir - , amor.
- Oi - apesar de ter respondido, desceu os beijos para meu pescoço. Eu ia bater nele, até ele entender que estávamos em público mas algo me fez sorrir. Ouvi um murmúrio de conversa da parte do outro casal e então relaxei.
- Nada não, continue - deixei se divertir por mais algum tempo com meu pescoço e coxas, mas o calor estava ficando forte demais para que eu mantivesse minha sanidade então o empurrei de leve. - Ta bom, bebê, estamos na festa ainda.
- Desculpa, hormônios masculinos - ele riu sem graça, encolhendo as pernas.
- Shiu, faz silêncio - o puxei, enfiando sua cabeça no meu pescoço - Deixa ver se os outros dois se resolvem.
- Eu não quero falar sobre isso agora, - falou baixo, mas não baixo o suficiente para que eu não a ouvisse.
- Mas, , eu só queria entender o que eu fiz de errado.
- Você... Merda, , eu disse que não queria conversar sobre isso.
- , olha aqui pra mim - estava inquieto e vou confessar que eu também estava. - Eu só quero saber pra concertar, porque eu gosto muito de você e te ver com raiva de mim é a pior coisa.
Não pude conter um suspiro que fez soltar o ar com força, em repreensão. Ri baixinho de como ele era bobo.
- Você disse que estava negociando, tipo, me senti uma mercadoria - ela falou com aquela vozinha de quem ia chorar e eu fiquei com vontade de bater e abraçá-la ao mesmo tempo. Como ela podia ser tão boba ao pensar isso do ? Como o pode fazê-la pensar isso? A machucou, droga.
- , para com isso... Está me iludindo e eu vou me machucar.
- Eu gosto de você e fiquei morrendo de cíumes em te ver com outro cara.
- Cíumes, ? Nem o tem cíumes da , e eles são namorados. Você nem é nada meu.
- O que eu sinto por você vai além de simples status, . Talvez um dia você entenda.
A cadeira arrastou e eu soube que tinha saído dali. aproximou a boca do meu ouvido.
- Eu tenho cíumes sim, provoca pra você ver.
Balancei a cabeça, rindo.
- Tô indo, - avisou, pegando a bolsa em cima da mesa - Depois a gente se fala.
- Hey, não - segurei o braço dela, levantando. - Vou contigo.
- Não, eu não quero que você perca a noite.
- Sem você aqui eu já perdi - fiz drama e ela apertou minhas bochechas.
- Ficam as duas paradas aqui que eu vou pegar o carro com alguém, já que a gente veio com o . - falou e correu pra pista de dança.
- Está tudo bem?
- Não, não está - ela deu de ombros e eu a abracei. Ela fungou no meus pescoço - Eu quero o .
- Você vai ter, boba. É só uma fase.
- Quem são minhas passageiras? - , já alto pela bebida chegou nos abraçando.
- Com todo esse teor alcóolico no sangue, ninguém. - resmunguei, mas chegou, tomando a chave da mão do amigo.
- Eu dirigo. Você não consegue nem fazer o quatro.
- Eu sei comer a mulher de quatro.
- Ew, tem damas aqui - socou o barço dele.
- Quando ele fica bêbado fica muito tarado - rolou os olhos.
CAPÍTULO 06
'But when you think of me
Mas quando você pensa em mim
Do you fill your head with schemes?'
você enche sua mente com planos? - Green Day
- Obrigada, amor - beijei de leve seus lábios, saindo do carro, em frente a minha casa. - Tchau, .
- Me leva pra sua cama, ? - ele fez bico, levando em seguida um soco do . realmente ficava tarado quando estava bêbado. acenou para os dois, saindo do carro comigo.
Fomos direto para o quarto, trocamos de roupa (é, sem tomar banho nem nada) e caímos na cama. Minha cama de casal tinha espaço para nós duas e sobrava.
- Deu piti feio com o hoje, boba - dei um peteleco no nariz dela.
- Eu sei, percebi isso depois.
- E agora?
- E agora o quê, ?
- Vai falar com ele? - ela arregalou os olhos como se eu tivesse propondo que ela saísse pelada com uma melancia enfiada no... na cabeça, por aí.
- Claro que não.
- Esse orgulho não vai te levar a lugar algum - rolei os olhos.
- Ok - ela suspirou - Eu sei disso.
- Então?
- Não vou falar com ele - bufei e virei e costas para ela dando a entender que, já que ele queria assim, não tocaria mais no assunto. Não demorou muito para que eu sentisse a mão dela no meu ombro. - ?
- Dormi.
- , é sério - ela foi menos delicada dessa vez, me puxando com força. Fitei os olhos dela - Tenho medo.
- PARA - berrei, me sentando e ela fez o mesmo - Medo de quê? Você devia ter medo de ficar com essas frescuras e perder o para outra que não fique de birra nem nada.
Percebi que tinha pegado pesado, quando a vi cobrir o rosto com as mãos e o seu corpo balançar pelo soluço. A envolvi num abraço apertado, pedindo desculpas por ter perdido a cabeça e explicando que eu só queria vê-la feliz.
- Você está certa, eu não posso me dar ao luxo de perder o , quando ele é o que eu mais quero.
E foi ali, vendo minha melhor amiga totalmente fragilizada, foi que eu percebi o quanto eu era feliz, como eu tinha uma coisa que muitas garotas desejam ter: um namorado que me ama, que me entende, com quem eu eu posso contar pra tudo, posso confidenciar a ele meus medos que ele vai estar ao meu lado, segurando firme a minha mão, me dando todo o apoio que eu precisar.
- Você vai fazer o que é certo, sei que vai - continuei a abraçando - Sabe, às vezes a gente devia escutar o que o coração fala, porque ele nunca mente. E ele sempre vai saber o que é o melhor para você.
- Eu nem sei como falar com o - ela sorriu fracamente - Talvez eu devesse escrever em alguma folha e levar comigo.
Ri junto com ela.
- Não precisa de nada disso, . É só falar o que sente, de verdade, para ele. Acaba saindo naturalmente, você vai ver.
- É, vou tentar - ela deitou na cama e eu fi o mesmo - Boa noite, . E obrigada por falar o que tenho que ouvir, às vezes, e não só o que eu quero ouvir.
- Amigos são para essas coisas, sua feia - dei línga - Boa noite.
- CALA A SUA BOCA! CALA A MERDA DA BOCA, AGORA! Abri os olhos assustada com a gritaria que estava acontecendo sei lá onde. já estava sentada também, com uma cara de espanto que devia ser igual a minha. Fechei um pouco os olhos para me recuperar do meu estado de sono profundo e comecei a reconhecer aquelas vozes.
- VAGABUNDA, ISSO QUE VOCÊ É - meu pai berrava com alguém, que certamente era minha mãe. Levantei da cama, sentindo uma enorme vontade de chorar, mas respirei fundo, contendo toda e qualquer emoção.
- Não, . Fica aqui - me disse com a voz suave - Talvez eles devam conversar a sós.
- Talvez eles se matem se ficarem a sós.
- FILHO DA PUTA, VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE FALAR ASSIM COMIGO. NÃO SOU SUAS PUTINHAS, NÃO.
- Eu vou lá, . Me espera aqui.
Desci as escadas correndo e com o sangue queimando dentro das veias. Os meus genitores estavam em pé, na sala, um na frente do outro, com os olhos cerrados e certamente cegos de raiva.
- PAREM, AGORA. - berrei, ao ver meu pai se preparar para dar uma resposta mal criada. Quatro olhos raivosos de fixaram em mim. Ok, nao era hora de ter medo deles. - Estão agindo que nem dois malucos.
- , não se meta nisso. - meu pai me cortou.
- Isso, suba para o seu quarto.
- Eu estou com visista em casa, vocês podiam ao menos fingir que são normais, por mim.
- Eu não tenho culpa se sua mãe me trai com o office-boy da empresa - meu pai soltou todo o ar do seu pulmão, enquanto a minha mãe prendeu a respiração. Uma ânsia de vômito, típica de quando eu estou enjoada, me veio. Office-boy? Traindo meu pai? Aquela nao era a minha mãe.
- E ele me trai com a secretária, com a faxineira, com o diabo a quatro. - minha mãe retrucou, já chorando.
- Eu... Eu estou... QUE RAIVA DE VOCÊS DOIS - explodi, correndo em seguida para o meu quarto e me trancando. Eu precisava ficar um momento sozinha e quase me esqueci de .
- ? - ela veio correndo e me abraçou. Era tudo que eu precisava. Chorei no ombro dela, sentindo me corpo todo doer de decepção. É, decepção com as duas pessoas que eu achava serem as melhores do mundo. Meu pai, que sempre foi meu herói. Minha mãe, que sempre foi um exemplo de fortaleza para mim. E agora os dois me davam nojo, me davam vontade de chorar. Nada, nada no mundo me acalmaria agora. E , de certa forma, sabia disso. Mas ela não cansava de tentar, hora me apertando com mais força, hora sussurrando palavras de incentivo no meu ouvido. Era bom saber que eu tinha uma amiga. - Calma, calma.
- Não consigo respirar - reclamei, chorando e me joguei na cama, de barriga para baixo. Eu chorava tanto que era realmente dificil respirar, e eu estava ficando irritada.
- Tem coisas que devem acontecer, sabe ? - brincava com umas mexas do meu cabelo, num misto de carinho e conforto - Talvez daqui a um tempo você olhe para trás e pense: se aquilo não tivesse acontecido eu não estaria aqui hoje. E você vai sentir que já estava tudo predestinado.
- Mas essa mudança pode ser ruim também, não pode? - perguntei, fungando alto.
- Ruim e boa. Tudo é muito vago. O que você acha que seja bom hoje pode ser ruim daqui há uns anos.
tinha esse poder de psicóloga extraordinário. Preciso dizer pra ela fazer esse curso na faculdade e que se dane a moda. Fiquei algum tempo refletindo sobre o que ela disse, até pegar no sono.
Quando acordei não estava mais lá, e tinha deixado um bilhetinho grudado no espelho do banheiro, dizendo que me ligava mais tarde.
Tomei um banho para ver se meus músculos relaxavam e coloquei o pijama. Já tinha escurecido e eu agradeci mentalmente por isso, finalmente aquele dia ia terminar.
Ouvi minha barriga roncar e fiquei alguns segundos decidindo se eu descia para procurar comida e corria o risco de encontrar meus pais ou ficava trancada no meu quarto e morria de fome. Como eu não estava fugindo de ninguém e eles que deviam estar se escondendo de vergonha, me levantei da cama e fui até a cozinha. Abri a geladeira e quase dei pulinhos ao ver o pudim que a havia feito. Peguei a travessa toda e sentei na pia, com ela no colo e uma colher em mãos.
Minha vida estava tão perfeita por um lado e um completo caos do outro. Tudo na vida da gente é assim, afinal? Nunca tudo está maravilhoso, e quando a gente acha que está tudo uma merda, a gente enxerga a luz no fim do túnel. Eu tinha o e a . Estavam sempre ao meu lado, e eu sentia no fundo do coração que nunca me deixariam sofrer sozinha. Mas eu tinha uma família sendo destruída. E o motivo era tão... Banal? O que é o trabalho comparado com a sua família? E por causa do trabalho dos meus pais, a família foi ficando em segundo lugar. Eu fui ficando em segundo, o amor foi ficando pra trás.
Olhei para a travessa no meu colo e eu tinha, sozinha, comido mais da metade do pudim. Uma imagem de uma mulher gorda passou na minha mente e eu levantei na hora, devolvendo o pudim para a geladeira.
- ? - dei um pulo pra trás com a mão sobre o peito. Aos poucos a silhueta que me olhava foi ganhando forma e cor e eu pude achar minha mãe ali. Suspirei aliviada e com raiva. Como alguém dá um susto desse no meio da noite?
- Mãe, droga, me assustou.
- Desculpe, filha. - ela se aproximou, me abraçando. Ficamos abraçadas e caladas por algum tempo, apenas sentindo a presença uma da outra. Eu tinha esquecido como era bom o calor materno.
Aquele pedido de desculpas foi pelo quê? Por ter me assustado ou pelas bobagens que veio fazendo?
- Mãe, tá tudo bem?
- Não, . Eu estou com medo.
- Medo de quê mãe? - afastei-me do abraço e a encarei nos olhos. Os olhos dela estavam marejados.
- De te perder.
- Como assim?
- Eu devia esperar até amanhã para te contar, mas... - ela pausou, limpando uma lágrima que escorreu pelo rosto. - Eu e seu pai conversamos hoje e vamos nos separar.
Ela parou de falar e soluçou, chorando muito no meu ombro. Não vou dizer que me pegou de surpresa, não mesmo. Eu já estava esperando por isso e, vou confessar, que já estava achando que seria a melhor opção para todos. Mas também não vou dizer que foi fácil. Ouvir a minha hipótese virar confirmação foi bem mais doloroso do que qualquer pensamento. A apertei contra meu corpo, num daqueles momentos em que mãe e filha trocam de papéis. Minha mãe precisava de mim.
- Mãe, está tudo bem - minha voz saiu embargada e eu fiquei com raiva de não conseguir ser forte. - Você vai ficar bem, ele também. Com todas essas brigas, foi a melhor opção. Ou talvez a única.
- E você, filhinha? Com quem vai ficar? Eu não quero te perder assim.
Não podia responder essa pergunta, porque eu não sabia a resposta. Era uma coisa que não tinha passado pela minha cabeça aindae e eu fiquei tonta de repente.
- Tu-tudo bem, mãe. Com qualquer um dos dois eu vou estar bem e vou... Vou poder ver o outro, não é mesmo? - forcei um sorriso e a soltei - Vou dormir, mãe.
Não devia ter saído correndo pro meu quarto daquele jeito, mas quando pensei nisso era tarde demais. Eu estava fraca por dentro, sem saber ao certo o que pensar. A decisão mais difícil da minha vida certamente seria escolher entre minha mãe e meu pai. Peguei o celular em cima da cama e disquei os números tão conhecidos.
- Amor?
- , eu tô muito mal. - murmurei com a voz chorosa.
- ? O que aconteceu? Você está bem? - a voz dele se elevou e eu me arrependi de ter dito daquele modo, agora ele ficaria preocupado.
- Eu tô, tô tentando.
- Me diz o que aconteceu, amor?!
- Minha mãe e meu pai vão se separar, - chorei baixinho, fungando.
- Awn, , eu não sei o que fazer. Só queria poder estar aí com você, pra te abraçar e cantar no seu ouvido.
- Faz isso, ! - minha voz se iluminou com a ideia.
- , tem seus pais, não posso ir aí...
- Não, não. Canta pra mim? - ele deu uma risada fofa e eu sorri sozinha.
- Tudo bem, alguma música em especial?
- Qualquer uma na sua voz é especia, amor. - brega, eu sei, mas é fato. Ele deu uma risada tímida e eu pude imaginar suas bochechas coradas.
- Don't mind you telling me, what's been on your mind lately. I don't mind you speaking up. I know sometimes I can be all wrapped up and into me.
(Eu não me importo que você me conte, o que está na sua cabeça ultimamente. Eu não me importo de você falar. Eu sei que às vezes posso ser muito devotado e egoísta)
A voz de chegou aos meus ouvidos, na música de Hilary Duff- With Love. Uma onda de alívio foi percorrendo meu corpo a cada palavra dita por ele. Impressionante como ele tinha infuência sobre mim.
- I can be in such a rush, just slow me down, slow me down. Tell me tomorrow everything will be around, just slow me down, slow me down. You're the one who keeps me on the ground.
(Eu posso estar com pressa, apenas reduza minha velocidade, reduza minha velocidade. Diga-me que amanhã tudo estará certo, apenas reduza minha velocidade, reduza minha velocidade. Você é a pessoa que me mantém com os pés no chão)
Era para eu estar cantando essa música para ele, era tão o meu ponto de vista da nossa relação. Era o dele também? Sorri boba com a possiblidade. Aliás, para quê tirar o sorriso da cara? Eu já estava pronta para sorrir de novo.
- Baby you can be tough sayin' enough is enough. You can even be blunt, just do it with love love love. You can tell me I'm wrong that I'm coming on way too strong. Don't think I'll be crushed, just do it with love love love love. Just do it with love love love love, just do it with love.
(Baby, você pode ser dura dizendo que já é o bastante. Você até pode ser brusca, apenas faça com amor, amor, amor. Diga-me que estou errado, que eu estou indo com muita força. Não pense que eu ficaria arrasado, apenas faça com amor, amor, amor. Apenas faça com amor, amor, amor. Apenas faça com amor)
CAPÍTULO 07
'I want to drive you into the corner, and kiss you without a sound
Eu quero lhe puxar no canto, e te beijar sem fazer barulho.
I want to stay this way forever, I'll say it loud'
Eu quero ficar assim pra sempre, eu vou dizer isso alto. - Avril Lavigne
- Se você me permite dizer, eu já sabia que isso ia acontecer.
- Eu sei, , eu também já imaginava. Mas está doendo - enfiei a cara no caderno aberto.
- Calma, amiga. - ela afagou meus cabelos - Agora, se não quiser chamar atenção, disfarça essa cara, porque o Josh tá chegando.
Ah, não. O Josh não. Não que eu não goste dele, pelo contrário, adoro. Ele é realmente legal, mas sabe o que é? Não tô com animo pra ninguém.
- Meninas - a voz rouca dele me fez levantar a cabeça e os olhos verdes me fizeram querer abaixar de volta. Por que diabos eu me sentia tão atraída por ele?
- Oi, Josh - sorri e fez o mesmo, completamente patética. Parecia um papagaio.
- Está tudo bem, ? Você ta com uma carinha tão triste.
me olhou como quem diz 'Viu? Eu disse pra disfarçar essa cara de ânus' e eu dei de ombros.
- Tô com uns probleminhas em casa, Josh.
- Se precisar de minha ajuda, estou aqui - ah, que sorriso lindo!
- Desculpa, mas ninguém pode ajudar nisso.
- Tudo bem, eu entendo. Mas se eu puder, não pense duas vezes e me chame. - ele beijou minha bochecha e saiu.
- Ele precisava me ignorar? - olhou incrédula. Eu gargalhei.
- Ele não te ignorou.
- Ah, claro que não. Só não me envolveu na conversa. Coisa de garoto apaixonado.
- Cala a boca - dei um pedala, enquanto o professor bigodudo de física entrava na sala. E com ele, aquele cheiro de mofo. Deve ser dessas roupas dele, fala sério, ninguém usa isso desde a segunda guerra mundial.
- Gerador e receptor! - ele berrou e começou a escrever freneticamente no quadro.
- Quem quer socar a cara do professor põe o dedo aqui - sussurrou para mim,cantando, com a mão aberta. Não controlei minha risada e fui posta pra fora de sala. disse que também tinha culpa e cá estamos as duas, na sala da diretora.
- Por favor, é fim de ano! Me poupem de problema!
- Tudo bem, Senhora Heisemberg. Nos desculpe - , com todo aquele poder de persuassão dela, sorriu. A nossa idosa diretora pôs a mão no queixo, como se pensasse em algo e depois ajeitou seu pequenos óculos na face enrugada.
- Quando é a última prova de vocês?
- Semana que vem - respondi, usando meu tom de voz meigo.
- Ah, então vão pra sala. Digam àquele velho rabujento, que é o professor de vocês, que eu lhes apliquei um castigo muito ruim. Só assim ele as deixarão em paz.
Sra. Heisemberg nunca subiu tanto no meu conceito. Sorri para , que bateu continência e saímos da sala, antes que ela mudasse de ideia.
- Cara, só mais uma semana de aula. Depois é faculdade! - deu um pulinho.
- Nem tinha pensado nisso ainda. Ainda bem que uma das melhores do país é na nossa cidade! E o melhor, o também é de lá.
- Vai ser perfeito.
- Não vejo a hora - abri um sorriso maior que a minha própria cara.
- , não é assim. - pegou a borracha da minha mão e apagou todos os malditos cálculos que eu tinha demorado tanto para fazer. O olhei brava, e ele me puxou, me dando um selinho - Estava errado, amor.
- Fiz o melhor que pude - bico. Ah, agora o estava me dando uma ajudinha com química, porque realmente é a pior matéria do mundo, beijos.
- É 0,1 molar, você colocou 0,01. - ele apontou meu erro e eu enfiei minha cabeça no livro. Eu estava viciada em fazer aquilo.
- Vou reprovar. - fiz drama e ele me abraçou de lado.
- Não enquanto eu estiver aqui, pra te ajudar.
- Nunca imaginei esse seu lado CDF - ralhei e ele arqueou uma sombracelha.
- Não sou CDF, só pretava atenção na aula, quando era preciso.
- Está dizendo que eu não presto atenção, ? - coloquei a mão na cintura e ele gargalhou.
- Deve ficar a aula toda conversando com a louca da , sobre os caras gatos da sua sala.
Rolei os olhos. Até parece, nem tem cara gato na minha sala. Só o Josh, mas eu não comento muito sobre ele com a , porque é realmente estranho.
- , eu te amo, mas você às vezes fala muita merda - soquei seu braço de leve e ele mordeu minha bochecha.
- Vamos voltar aos estudos? Afinal, é a sua última prova do ano. - ele estava mais empolgado do que eu, fato. Talvez porque nós teríamos bastante tempo de férias juntos. Não que eu não estivesse empolgada, só estava mais preocupada com a prova, antes de tudo.
- Vamos, vamos.
- O equilíbrio iônico, realmente, não é fácil. Então para de reparar na minha beleza e foque-se no livro.
- Quer parar de se achar? - perguntei gargalhando e percebendo, mentalmente, que se todo professor fosse lindo e perfeito como ele eu estava com sérios problemas. Quem em sã consciência prestaria atenção na aula?
Ficamos por mais três horas estudando. era um bom professor, ninguém vai negar. No fim do dia, tudo escuro, eu recolhi meus livros de cima da mesa e estiquei os braços, me alongando. fez o mesmo e quando percebemos, sorrimos.
- Obrigada, amor. Sem você eu não seria nada.
- Vem cá, minha exagerada, vem - ele me puxou para o seu colo, colando os lábios nos meus e apertando minha coxa, por cima da bermuda. Envolvi as mãos no seu cabelo e dei leves puxadinhas, afastando nossas bocas. Ele reclamava, resmungando e juntando nossas bocas novamente, me fazendo rir no meio do beijo. A mão dele subiu, da minha coxa para minha barriga, se posicionando de baixo da minha blusa, me fazendo ofegar. Ele sorriu vitorioso e desceu os beijos para o meu pescoço, alternando entre mordidas e lambidas. Com a respiração (bastante) falha, levantei a sua camisa, arranhando-lhe as costas com as minhas unhas, o ouvindo gemer baixinho. Minha vez de sorrir vitoriosa. Continuei subindo a camisa, até que ele terminou de tirá-la, jogando em um canto qualquer da sua sala.
Ele voltou os beijos para a minha boca, mordendo o meu lábio inferior e o puxando. Não sei bem como aconteceu, mas minha camisa estava junto a dele, no chão da sala. Instintivamente me encolhi, sentindo uma súbita vergonha.
- Hey, amor. Você é linda - ele sussurrou no meu ouvido, fazendo qualquer vestígio de vergonha ir embora, junto com a minha sanidade. Desci os lábios por sua mandíbula, chegando ao seu pescoço e descendo pelo seu toráx descoberto. ficou de pé e eu passei minhas pernas por volta da sua cintura, sendo carregada até ele me deitar no sofá, deitando por cima de mim. Nossos lábios voltaram a se chocar, dessa vez com muito mais vontade e desejo. Senti as mãos dele passando pela minha barriga e chegando ao cós da minha bermuda, chegando ao zíper. Quando abri os olhos, os olhos dele me encaravam como que por pedir permissão. Sorri, piscando e ele abriu um sorriso maior que a cara, tirando minha bermuda mais rápido que a luz e eu não soube onde ela parou. Suas mãos vieram procurar pelo feixo do meu sutiã. Após alguns segundos tentando (em vão) abri-lo ele xingou baixinho e eu ri. Com uma mão só o abri e ele ficou olhando maravilhado meu corpo coberto apenas pela minha calcinha. Outra onda de vergonha e eu soquei-lhe o braço.
- , para.
- Você fica linda vermelhinha, - ele riu e eu não pensei duas vezes antes de tirar sua calça. Observei o corpo do meu namorado, apenas com a boxer preta e dei um sorriso, digamos, saliente. - Hey, você pode e eu não?
Corei de novo, enfiando meu rosto na curva do seu pescoço. Voltamos a nos beijar, deixando as mãos passearam livremente pelos corpos. Minha calcinha e boxer dele não tardaram a voar, assim como as outras peças. Ele pegou o pacote de camisinha, no bolso da calça. Eu estava um pouco tensa, com medo de como seria. Normal, qualquer garota virgem se sentiria assim. Mas eu sentia que estava fazendo a coisa certa, só me passava segurança suficiente para isso. Ele era meu namorado, eu o amava e ele parecia sentir o mesmo por mim. O que poderia dar errado então? Me entreguei inteiramente àquele momento, e foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
Quando deitou ao meu lado, ofegante e suado, eu ainda estava meio tonta, mas não tirava o sorriso do rosto.
- - ele sussurrou e eu virei o rosto para encarar sua face avermelhada por causa do esforço feito, minutos atrás.
- - disse no mesmo tom.
- Eu... Fiz tudo certo? Eu estava com medo... Medo de errar com você. - ele falou tão fofamente que eu passei meus braços por seu pescoço, beijando sua bochecha.
- Você foi maravilhoso, amor. Você fez como eu sempre sonhei, sabe? Muito especial.
- Eu nem espalhei pétalas de rosa pelo chão, nem nada. Nem sequer planajei, para ser melhor. Me desculpa.
- Você sabe que os detalhes são importantes, com as tais pétalas de rosa, não sabe? - ele concordou com a cabeça - Mas você também deve saber que o que faz ser especial, primeiramente, é com quem estamos e o que sentimos. Foi perfeito, porque eu estava com você e porque eu te amo.
Ele abriu um sorriso singelo, beijando meus lábios de leve.
- Você sabe o que dizer, pra me fazer me sentir menos culpado.
- , eu já disse que...
- Shiu - ele pousou o dedo indicador na minha boca - Eu vou fazer isso certo, da próxima vez.
- Como foi a prova? - perguntou, assim que saímos da sala de aula. Foram duas horas e meia fazendo aquela merda, mas eu sentia que tinha ido bem.
- Acho que foi boa. E a sua?
- Ótima, nunca fiz prova melhor. Mesmo você tendo dispensado estudar comigo para estudar com o . - corei, relembrando a noite anterior e ela parou de andar, pondo a mão na cintura. Já comentei que odeio a por ela me conhecer tão bem? - O que aconteceu?
- Não é assunto para falar aqui no pátio. - sussurrei, me sentindo meio patética. Ok, a verdade é que eu estava com vergonha e não fazia ideia de como contar aquilo pra alguém.
- Foi tão grave assim? - ela continuou a andar, ao meu lado. Balancei a cabeça, confirmando e depois negando. Nem eu mesma sabia definir aquilo - Ok, estou ficando preocupada, você está estranha. Vamos lá pra casa.
Ela me arrastou até sua casa e eu sabia que não tinha como fugir, mas também não tinha nenhuma ideia de como falar. Almoçamos em silêncio, enquanto ela me fitava, tentando descobrir alguma coisa. Quando acabamos o almoço subimos para o quarto dela e nos jogamos ao mesmo tempo em sua cama.
- Estou esperando você começar, .
- Tudo bem - suspirei fundo e fechei os olhos. Talvez sem ver a cara que ela faria seria mais fácil. - me ensinou química e depois nós começamos a nos beijar e o clima foi... Bem, esquetando.
- , sintetize para mim.
- Ta legal, , nós transamos! - quase berrei, tamanho era o meu nervosismo e abri os olhos. Ela tinha um sorriso muito cachorra-do-funk na cara que me fez querer rir também.
- Então o te ensinou química na prática - ela começou a rir descontroladamente e eu tive que fazer o mesmo. Qualquer outra amiga perguntaria como foi, se ele era bom se a gente tinha usado camisinha ou coisas do tipo. não, ela tinha que fazer piadas.
- Eu estava realmente nervosa e com medo.
- É normal, eu já te contei. - era mais experiente que eu. Não muito, ela só tinha transado duas vezes e com o mesmo cara, seu ex-namorado. Mas ainda assim era mais experiente, e ela tinha me contado com fora tudo. - Foi bom?
Finalmente a pergunta que qualquer pessoa normal faria. Mas eu não estava ansiosa por ela, eu estava tensa. Era íntimo demais, mas eu nunca tive segredos com ela.
- Foi maravilhoso, nunca pensei que pudesse ser tão bom - suspirei, fazendo com certeza uma cara de boba apaixonada.
- AH, SUA SAFADA! - ela berrou se jogando em cima de mim e fazendo cócegas na minha barriga. Meu ponto fraco. Começamos a rir e quando menos esparávamos tinhamos caído no chão. - Aw, minha bunda.
- Doeu mais em mim. Sai de cima de mim, gorda!
Ela me bateu e eu a empurrei.
[triiiiiiim tiiiiiiiim]
correu, pegando o telefone que ficava no seu quarto.
- Alô? - ela sorriu meigamente e eu fiquei curiosa - Oi, - arregalei os olhos e ela segurou a risada - Estou bem e você? - sentei na cama, pronta pra prestar atenção a toda aquela conversa - Hoje a noite? Por mim tudo bem. - HOJE A NOITE O QUE? Comecei a pular, hiperativa - Ok, oito e meia estarei te esperando, beijos.
- COMO ASSIM? ME CONTA TUDO.
- Ele me chamou pra sair, chupa esse drops! - ela jogou o telefone no canto, rindo litros.
- O amor é realmente fofo - apertei as bochechas dela - Agora eu vou indo, que a madame vai passar milhões de horas de arrumando.
- Você nem vai me ajudar a escolher a roupa?
- Não, estou sem saco - ela me encarou indignada - Mentira. Vem, vamos ver seu guarda-roupa.
CAPÍTULO 08
'No matter what you feel, this love's gonna last
Não importa o que você sinta, esse amor durará,
The heart of the soul, it breathes inside of me'
O coração da alma respira dentro de mim - Beyoncé
- Me conta tudo, tudo! - sentei na cama do quarto de e cruzei as penas. Ela se jogou de barriga pra cima na própria cama e mirou o teto por alguns segundos, depois olhou pra mim.
- não é só um rostinho bonito, ele é legal, inteligente, simpático - ela bateu palminhas, suspirando.
- Ei, que cheiro é esse? - fingi cheirar algo - Amor? Cheiro de amor?
Ela começou a rir e bateu na minha perna.
- Talvez - ela riu de lado.
- , desenrola! Rolou?
- Ele me beijou, ! - ela veio pra cima de mim, me abraçando - Foi muito bom, eu senti aquelas famosas borboletas no estômago. - ela falou rindo de si mesma.
- Minha menininha está apaixonada - apertei seu nariz, rindo com ela.
- Ele disse que me quer sempre junto.
- Ele disse isso no primeiro encontro? - tapei a boca com a mão.
- Louco, não? Eu amei.
- Claro que amou, olha o sorriso idiota no seu rosto!
- Deixa de ser chata, ta? - ela bateu no meu braço - Você também fica com cara de bunda quando fala do !
- Claro, é diferente - dei língua, mesmo sem saber porque aquilo era diferente. Na verdade era tudo igual, nós duas estávamos apaixonadas.
- O natal é a época mais linda do ano - comentei, quando coloquei a estrela prateada no topo da nossa árvora de natal. Minha mãe deu um sorriso vago e meu pai confirmou com a cabeça. Clima nada natalino, eu sei. Mas pelo menos eles passariam o natal juntos. - Já compraram meus presentes?
Me sentei no colo da minha mãe e abri um sorriso muuuuito grande, que a fez rir. Meu pai sentou ao nosso lado, pegando na minha mão.
- Você nem me disse o que queria - mamãe sorriu marota.
- Eu te comprei algo - papai sorriu - Mas é surpresa!
- Não, pai! - apertei suas bochechas - Não me deixa curiosa! Vai, por favor, por favor!
- Não, não mesmo, ! - ele gargalhou se levantando - Você vai gostar.
- Mãe, você sabe o que é? - ela negou e eu fechei a cara - Pai, você vai me contar!
- Só faltam três dias pro natal, deixa de ser curiosa, pequena!
- Três dias para eu te convencer a me contar - levantei, beijando a bochecha do dois e saindo - Vou na casa do vizinho.
Era tão estranho falar 'casa do vizinho', mas estava mais perto do que longe de eu contar aos meus pais a verdade.
- , entra - me puxou pela mão, fechando a porta atrás da gente, e em seguida prensando meu corpo entre o seu e a parede, colando nossos lábios. Com urgência. Sua mãos estavam espalmadas nas laterias do meu corpo, exercendo força demais, onde ficariam, com cereteza, marcas.
- - sorri quando partimos o beijo - Controle seus impulsos.
- É bem complicado quando eu tenho você. - ele beijou meu queixo - Ah, tenho uma coisa para você, espero que goste.
Ele me pegou pela mão, correndo escada acima comigo. Entramos no seu quarto e ele me fez sentar na cama. Ele pegou o violão, sentou na minha frente e limpou a garganta, brincando. Ficamos algum tempo nos encarando sem dizer nada. Palavras não estavam sendo realmente necessárias naquele momento, onde eu o tinha e ele me tinha, completamente. Não pude controlar os músculos do meu rosto que insistiam em formar um sorriso e acabou fazendo o mesmo.
- Vai me mostrar a música ou não?
- Quem te disse que é uma música? - ele fez cara de esperto e eu abri os braços, como se fosse óbvio, apontando o violão posicionado em seu colo.
- Ok, esperta, é uma música. Mentira, é A música. Eu que fiz.
- E você ja está convencido assim com a sua composição?
- Escuta primeiro e depois a gente volta a esse assunto - ele piscou e começou a dedilhar nas cordas do violão. Sua voz suave enxeu o quarto e eu tive que sorrir novamente.
The world would be a lonely place, (O mundo seria um lugar solitário)
Without the one that puts a smile on your face. (Sem aquela que põe um sorriso no seu rosto)
So hold me 'til the sun burns out, (Então me abrace até o sol se apagar)
I won't be lonely when I'm down. (Eu não estarei solitário quando estiver para baixo)
fechou os olhos e aumentou o tom de voz, tocando uma nota acima. Eu me perguntei bobamente se eu merecia estar ali.
'Cause I've got you to make me feel stronger, (Porque eu tenho você pra me fazer sentir mais forte)
When the days are rough and an hour seems much longer. (Quando os dias são duros e uma hora parece muito mais longa)
Ele abriu os olhos, me encarando avidamente, e por alguns instantes eu me perdi em tanta emoção que ele me passava.
I never doubted you at all, (Eu nunca duvidei de você de forma alguma)
If stars collide, will you stand by and watch them fall? (Se as estrelas caírem você esperará para vê-las cair?)
So hold me ‘til the sky is clear, (Então, abrace-me até o céu ficar limpo)
And whisper words of love right into my ear. (E sussurre palavras de amor bem no meu ouvido)
Ele parou de tocar, jogando o violão do outro lado da cama.
- Boa?
- Linda, .
- Ainda não a acabei, mas estou quase. - ele passou o polegar pela minha bochecha - Agora que eu tenho em quem me inspirar fica muito mais fácil.
- Quem seria essa sua musa inspiradora? Muito sortuda ela - beijei a ponta do seu nariz e ele riu, jogando a cabeça para trás.
- Você não conhece, uma tal de . Muito chatinha ela.
- Já ouvi falar, mas me disseram que ela era muito gata e simpática - entrei na brincadeira, quase sem conseguir controlar a risada.
- Na verdade - ele aproximou nossos rostos tanto que nossos narizes se encontraram - Eu sou apaixonado - ele passou o nariz contra o meu, no beijo-de-esquimó - por essa . - beijou minha bochecha - Mas ela não gosta de mim.
se afastou me deixando com cara de nada eu eu senti vontade de socar a cara dele. Engatinhei na cama, o empurrando fazendo ele deitar e fiquei por cima, com uma perna de cada lado do seu corpo, mas sem tocar a sua barriga com a minha. Havia espaço entre nossos corpos. Levei minha boca até seu ouvido, dando um singelo beijo.
- Essa é louca por um tal de . Faria tudo por ele. - desci a boca para o seu pescoço, dando leves mordidas - Ele que é dramático e fica se fazendo de coitado.
- É verdade, é? - ele sorriu maroto - Então acho que esses dois já perderam tempo demais.
Antes que eu associasse as palavras ditas por ele, eu já estava deitada na cama e ele por cima de mim, invertendo os papéis. Os lábios dele procuraram os meus com pressa, chocando-os com um pouco mais de força que o normal. Nem cinco minutos depois minha camisa e a dele não estavam mais nos nossos corpos e ofegávamos. Adeus pra minha calça, adeus bermuda dele. Beijos no meu pescoço, mãos na minha perna descoberta. Unhas nas costas dele, boxer dele voando para o outro lado do quarto. Beijos, lambidas e afins no meu colo, meu sutiã já não estava mais lá. Apertões na minha cintura, calcinha no pé.
CAPÍTULO 09
'Assim como o oceano só é belo com luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você'
- Vinicius de Moraes
- Então é nataaaaaaaaaaaal, e o que você feeeez? O ano termina e nasce outra veeeez! (8)
- Legal, , agora você pode calar a boca e me deixar terminar os meus cartões de natal? - resmungou. Onde está mesmo, o espírito natalino dela?
- Falta quantos? - fui ser útil e me sentei ao lado dela.
- Só dois, de minha tia e meu primo que moram no sul.
- O Mark? - perguntei, piscando. Ela riu, me batendo.
- Você é comprometida, , quer se controlar?
- Que culpa eu tenho se seu primo é um pedaço de mau caminho? - fiz cara de santa e ela me bateu de novo. Minha perna ia ficar roxa.
- Nenhuma, você não tem culpa nenhuma. São os genes da minha família - ela passou a mão pelo corpo no estilo potranca do axé e eu rolei os olhos.
- Humm... Querido Mark, que o seu natal seja repleto de felicidades e que no ano que se proxima você seja muito feliz - ela lia o que escrevia.
- Você escreveu isso em todos os cartões.
- Eu sei, mas é o que eu desejo a todos - ela deu de ombros.
- O nome disso é falta de criatividade - abri os braços para demonstrar o quanto aquilo era preocupante.
- ?
- Oi?
- Vá se fuder.
- Cara, , é natal! Para de ser grossa comigo - Drama Queen. Mas ela levantou rindo e me abraçou.
- O natal é amanhã, fofinha. - dei de ombros.
- Hoje vou comprar o presente do - suspirei - Não faço ideia do que dar.
- Não vou poder te ajudar com isso, amiga. Me desculpe, mas estou indo hoje pra casa de praia com meus pais.
- Como assim? E você só me conta isso hoje?
- Só soube hoje, foi decisão de última hora. Natal com todos os parentes.
- Mark vem?
- Não, - ela rolou os olhos - O que foi? não dá conta do recado?
- Claro que dá - sorri maliciosamente - Só foi uma pergunta.
- Bom, vou indo colocar isso no correio - pegou os cartões de natal - E arrumar minha bolsa.
Ela saiu me deixando lá sozinha.
- MÃE, VEM CÁ - gritei, sugando a maior quantidade de ar que cabia no meu pulmão. E a coragem foi aos poucos chegando, porque eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu teria que fazer.
- Oi, - ela entrou no meu quarto e eu pedi para que ela sentasse ao meu lado - Algum problema?
- Mais ou menos, mãe. Eu te escondi uma coisa durante algum tempo, e foi por medo. - ela me olhou instigada, eu sabia que ela odiava quando eu escondia as coisas - Sabe o vizinho? O ?
- O que que tem?
- Ele não é só meu vizinho, mãe... O que eu quero dizer é que a gente tá namorando - fechei os olhos.
Eu estava esperando gritos e até tapas, mas estava demorando a acontecer, então abri os olhos. Ela estava com as bochechas levemente vermelhas, mas não tinha expressão de que iria me matar.
- Eu imaginava algo do tipo. Ele é bem bonito e você só vive com ele agora. Eu só queria que você tivesse me contado antes.
- Tive medo - sussurrei - Porque ele é mais velho.
- Seu pai realmente não vai gostar. Mas eu? Sempre fui sua amiga, .
- Me entenda, aqui em casa estava um caos, eu tinha medo. - ela me abraçou forte.
- Desculpa, eu entendo seu lado.
- Mãe, tem outra coisa - eu sorri, sem graça. - Me ajuda a escolher um presente de Natal para ele?
Ela riu e mandou eu me arrumar, para irmos ao shopping.
Chegamos do shopping muito cansadas e fomos logo nos jogando no sofá e largando as sacolas de compras pelo chão mesmo. Eu tinha esquecio como eram bons esses programas maternais. Acho que talvez pelo tempo que não fazíamos isso. Mas a nossa tarde foi bastante animada e eu pude sentir minha mãe um pouco mais feliz do que nas útimas semanas.
- Vou ar um banho e descansar- ela avisou, pegando suas sacolas - Comprar cansa!
Peguei minhas sacolas e fiz o mesmo, ando um banho relaxante e me jogando na cama. Amanhã seria Natal, e normalmente seria um dia feliz. Fechei os olhos tentando entender meus pais, mas nada fazia muito sentindo. Eles se amavam, isso era perceptível, mas eram implicantes e orgulhosos, e também infiéis. Era um amor bem doente, mas era.
O celular tocou e eu me virei preguiçosamente para atender, sem me dar ao trablho de ver o nome que piscava no visor.
- Alô?
- Amor?
- ! - me animei mais ao ouvir sua voz - Queria te ver hoje, mas tinha que ser antes de meu pai chegar.
- Vem aqui pra casa, os meninos estão aqui. Trás a .
- viajou, posso ir sozinha?
- Claro, meu amor - ele riu - Estou esperando.
- Estou indo.
Apesar do cansaço, troquei de roupa e passei no quarto de minha mãe antes, avisando aonde ia.
Cheguei na casa do e fui entrando sem bater, já que aquela porta só vivia aberta. Estavam sentados no sofá, comendo pizza e assistindo qualquer coisa na TV. Assim que entrei, o olhar dos quatro caíram sobre mim. Sorri sem graça e fui pra perto do meu , beijando sua bochecha.
- Oi, meninos! - saudei e eles retribuíram minha saudação animados. - nem pôde vir, .
- É, ela foi pra casa de praia com a família.
- Olha, sabe até pra onde ela foi - Harry caçoou.
- Eu tenho que saber, cara - , mesmo vermelho, não se abateu - Uma garota como ela nós não podemos deixar solta, não.
- Oh, não! Ele tá apaixonado! - Danny berrou e gargalhou em seguida, sendo seguido por nós. deu de ombros, nos ignorando.
- Comprei seu presente hoje - susssurrei a e ele estremeceu. Sorri satisfeita.
- E o que é? - ele perguntou, enquanto brincava com meu cabelo.
- Segredo.
- Então também não te conto o que eu comprei pra você - ele deu língua.
- Acho justo - controlei minha curiosidade, mas ele não se deu por satisfeito.
- Eu te conto - ele beijou meu pescoço e eu senti um arrepio pela espinha - Se você me contar.
- Desiste, eu vim preparada contra as suas artimanhas - passei a unha por sua nuca e ele resmungou algo incompreensível.
Os meninos se entreolharam e riram, saindo de fininho logo em seguida, provavelmente para a cozinha, para beber.
- , não fica me provocando assim que temos visitas - ele enfiou a cabeça na curva do meu pescoço, respirando fundo.
- Você quem começou, bobinho. - beijei sua testa e ele olhou pra mim.
- Se você soubesse o quanto estar aqui me faz feliz. Era como se eu estivesse congelado e você veio e me esquentou.
Encarei os olhos brilhantes dele por alguns segundos, querendo guardar aquele momento pra sempre. Eu tinha tanta sorte por tê-lo.
- O NOME DISSO É FOGO! - Danny gritou lá de dentro e eu corei. gargalhou e virou a cabeça na direção da cozinha.
- É tão feio ouvir a conversa dos adultos, crianças! - brincou.
- Desculpa, pai - fez voz de bebê e eu achei a coisa mais fofa.
- Mas é que a gente não tem culpa se o fogo da mamãe te esquentou! - Harry também imitou bebê e nós rimos.
- Parem de constranger minha namorada - fez bico, me abraçando mais forte pela cintura.
- Já chamou ela, ? - Danny perguntou do nada.
- Não, eu ia chamar, mas vocês nos interromperam.
- Chamar quem pra o quê? - perguntei, curiosa.
- Chamar você para a nossa festinha de Natal - explicou - Porque nós quatro moramos sozinhos aqui, sem família, sem nada. Então a gente se junta todo Natal, porque viajar para encontrar a família sai caro.
- E nós somos uma família! - sorriu e deu um abraço coletivo em todos.
- Aw, meninos. Obrigada por me chamarem, mas eu tenho que passar Natal com meus pais. Esse provavelmente é o último que eles vão passar juntos - falei baixo, sentindo um nó na minha garganta.
- Ei, ninguém aqui gosta de te ver triste não! - Harry me puxou pra um abraço apertado e em seguida senti outros três pares de braços fortes me envolverem. Outro abraço coletivo.
CAPÍTULO 10
'Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora,
pois tudo passa a acontecer dentro de nós.' - Clarice Lispector
As luzes do pisca-pisca brilhavam na decoração de natal da minha casa. O cheiro da ceia penetrava pelas minhas narinas fazendo meu estômago não se contentar mais com o copo de refrigerante que estava em minhas mãos. Minha mãe estava sentada perto da árvore de natal, fitando as próprias mãos, enquanto meu pai bebia seu vinho tinto, encostado na janela. Espírito Natalino? Não existia. Devia ter aceitado a proposta do e ter ido passar o natal com ele e os meninos. Bufei irritada e me larguei numa poltrona.
- Que horas são? - eu queria logo comer e ir pro meu quarto.
- Já quer abrir os presentes? - minha mãe me fitou. Claro, eu nem lembrava dos presentes. Estranhamente eu não queria saber de merda de presente nenhum. Eu estava irritada por estar passando o pior natal da minha vida.
- Claro - respondi cinicamente, me dirigindo até a árvore e pegando um embrulho dourado. Estava escrito 'Mamãe' e eu sabia que tinha sido comprado por meu pai afinal, eu não comprei nada. Estendi para ela, que pegou fazendo uma discreta careta. Ela também sabia quem tinha comprado.
O outro embrulho estava escrito 'Papai'. Ri melancolicamente, sabendo que minha mãe que tinha comprado. Entreguei a ele que não demonstrou nenhum sentimento.
- Esse é seu - minha mãe me estregou uma caixinha rosa. Ri baixinho, já sabendo o que era, afinal tinhámos comprado juntas no shopping. Abri, revelando um colar de prata, com um pingente em forma de borboleta. Nas asas havia escrito 'Sempre Juntas'. Ela tinha comprado um igual para si mesma.
- Seu presente - meu pai me estendeu um envelope. Peguei, franzindo a testa, sem entender que tipo de presente estaria num envelope. Era um envelope grande. Dinheiro? Olhei para minha mãe buscando alguma explicação, mas ela evitava me olhar nos olhos e eu senti que havia algo de muito errado ali. Abri lentamente o envelope e tinha outros dois envelopes dentro. Soltei o ar, ficando sem paciência e abri o primeiro envelope. Um sorriso muito grande se instalou no meu rosto assim que eu percebi que eram duas cartas de aceitação para universidades. Uma em Londres, onde a gente morava e uma em Nova York. Era esse o presente? Por mais que eu estivesse feliz, eu não entendia porque ele havia me dado aquilo. Poupando dinheiro?
- Pai?
- Abra o outro, querida.
Fiz o que ele pediu e vi duas passagens, uma de ida e uma de volta, para Nova York. A escritura de um apartamento lá. O que era aquilo?
- Eu não estou entendendo - sorri nervosamente.
- Eu vou explicar tudo - meu pai faou calmamente - Eu e sua mãe vamos nos separar, como você sabe. Você vai entrar na universidade. Nenhum de nós quer abrir mão de ficar com você, então para não ter briga, achamos melhor você ir morar nos Estados Unidos e fazer faculdade lá.
- Eu posso dar a minha opinião?
- No final, eu vou escolher.
- Eu não quero ir, eu fui aceita numa universidade daqui.
- A de lá é bem melhor, . Estou pensando no seu futuro.
- Eu não quero ir! - repeti, perdendo o controle. Meu pai segurou meu braço com força e eu pensei que ele ia me bater, mas ele me abraçou. Eu não queria sentimentalismo agora!
- Você vai. - ele sussurrou e eu queria mandá-lo pro inferno.
- Minha vida está muito boa aqui! Eu tenho amigos, tenho uma casa, tenho um namorado!
Tarde demais pra voltar atrás? Meu pai me soltou e ficou mudo por alguns minutos, absorvendo a informação. Eu sabia que ele era bem ciumento e não devia ter falado aquilo, mas minha raiva me impedia de tomar atitudes concientes.
- Namorando? - ele repetiu, devagar - Escondido?
- Na-não é escondido. A mamãe sabia - olhei para ela, pedindo clemência.
- Vadias - ele rosnou - Vadia você e vadia ela!
Meu olho ardia de vontade de chorar.
- Pai...
- Quem é? Qual o nome dele? Quem é?
- , 20 anos, estudante de direito - falei tudo de uma vez, temendo se aquilo ia melhorar ou piorar a situação. Pela cara que ele fez piorou tudo.
- ? ? - ele berrou avançando em minha direção. Eu corri e fiquei atrás do sofá. - Você tem alguma noção de quem são os ?
- 'Os' eu não sei, mas o é meu namorado!
- , é melhor você calar a boca e ouvir seu pai. - minha mãe falou alto. Balancei a cabeça negativamente, não acreditando naquilo.
- O papai está totalmente fora de controle e a senhora o defende?
- Não é questão de denfender.
- Então é questão de quê?
- CALA A BOCA E ME ESCUTA! - meu pai berrou e suas veias do pescoço pareciam que iam voar. Calei a boca, não porque ele mandou, mas por estar muito assustada com tudo. Que diabos era aquilo?
- Fale então. Eu quero saber o porquê disso tudo.
- Você por acaso se lembra da nossa antiga empresa? - o tom de voz do meu pai era algo que eu chamaria de 'falso controle'. Ele estava se esforçando para não perder a calma, mas não estava indo muito bem. Assenti com a cabeça, sem entender como aquilo ia revelar quem era o pai do - Você se lembra que nós sofremos um golpe e perdemos tudo? - eu era muito pequena, talvez uns cinco anos, mas eu me lembrava. Foram os dois piores anos das nossas vidas, morando com a vovó e sem dinheiro para nada. Novamente fiz que sim com a cabeça - Você não consegue se lembrar o nome do meu sócio?
Nomes? Eu nunca fui boa em lembrar nomes. Neguei, sentindo um peso no estômago. Onde aquilo ia parar, afinal?
- O nome pouco importa pra você. O sobrenome é mais importante. .
- O senhor que dizer que... Que o seu sócio que roubou nossa empresa era o pai do ? - franzi a testa, sem querer acreditar.
- É isso aí. Ele não é tão perfeito quanto parece, não é mesmo?
- Pode existir outro por aí, não pode? - meio que gritei, desesperada.
- , por favor. Ele tinha um filho, eu me lembro. Alguns anos mais velho que você. É o pai do seu namoradinho.
- Isso mesmo, é o pai dele. Não ele. Ele não tem nada a ver! - fechei os olhos, sentindo grossas lágrimas rolarem por minhas bochechas.
- Eu não me importo se foi o pai, o tio, o avô ou o diabo. Eu não quero você com esse cara. - meu pai falou com seu tom de ponto final.
- Não me importo. A vida é minha, eu quero o .
Meu pai não falou nada, caminhou até mim, arrancou os papéis da minha mão. Eu nem sequer lembrava de ainda estar com aqueles papéis em mãos. Ele me encarou firmemente, arrancou um papel do bolo e me mostrou. Era a minha passagem de volta, dos Estados Unidos.
- Você olhou a data da sua viagem?
- Não, porque eu não vou viajar - tentei me impor, mas o máximo que consegui foi deixar escapar um soluço baixo.
- Então eu te digo. Três dias. Você viaja daqui a três dias. - Ele pegou a passagem de volta e rasgou ao meio. Tentei gritar que não, mas minha garganta estava fechada pelo choro. - E não vai voltar.
Fechei as mãos em punho, sentindo minha pele se ferir por causa das minhas unhas e corri pra o meu quarto, ignorando os gritos dos meus genitores. Fechei a porta atrás de mim, mas não tranquei, não pensei nisso. Me joguei na cama, sentindo os soluços ficarem cada vez mais intensos e meus olhos arderem por força das lágrimas. Meu estômago estava pesado, dando voltas dentro de mim. A porta do quarto de abriu e eu fechei os olhos, me encolhendo na cama, como se pudesse afastar quem quer que fosse. Eu não queria ver ninguém.
- - a voz de meu pai tinha um tom, realmente, paterno. Ele queria dar uma de pai agora? Falhou, tarde demais. - Eu não quero que você ache que estou fazendo isso por mal. - minha resposta foi abafada pelo travesseiro que eu tinha colocado em cima do meu rosto - Eu estou fazendo isso pro seu bem. Esse não é um bom garoto. Ele nem sequer é um garoto, ele já é um homem.
- O senhor não o conhece, não fale dele - tirei o travesseiro da cara, me sentando na cama. Ele mantinha uma expressão séria, me fitando com amor. Pega esse amor e... Argh! Voltei a fechar os olhos, impedindo qualquer contato visual.
- O pai dele quase acabou com nossas vidas.
- só me falou do pai uma vez, e foi uma coisa boa. Disse que o pai e mãe viviam bem, se amavam e nunca brigavam - relembrei, sentindo outras lágrimas descerem pelo meu rosto - Ao contrário dos meus.
- , olhe para mim - ele segurou meu queixo e eu abri os olhos - Eu não quero você perto dele. E estou disposto a tomar atitudes drásticas.
- Drásticas como me mandar para outro país, completamente sozinha? - resmunguei.
- Drásticas como tirar o da sua vida de uma vez por todas.
- O que... O que foi que o senhor disse?
- Você só tem que escolher. Ou fica longe dele, e isso inclui você em outro país, ou ele... Hmm, ele vai sofrer as consequências - nunca o tinha ouvido usar aquele tom de voz. Era frio, calculável, ameaçador. Ele estava usando aquele tom de voz como uma ameaça a sua própria filha.
- O senhor não faria isso - tentei me convencer, jogando a cabeça pra trás.
- Eu sempre fui um bom pai, não fui? Então por que não me obedecer? Eu sei o que é melhor para você. - ele estava totalmente fora de si, essa era a única explicação.
- Pai, eu o amo - falei pausadamente.
- Na sua idade não se ama - que ideia era aquele de que tinha idade para amar? - Sabe, eu nunca fui ruim com você, não é? Eu sempre fui um bom pai, amoroso e atencioso. Mas eu tive que recomeçar, por culpa do pai do seu namoradinho, claro. Eu não subi na vida novamente com facilidade. Eu lutei pra isso, eu derrubei pessoas. Eu tirei quem estava no meu caminho. Eu queria o poder e não me importava como consegui-lo. Eu o tenho, hoje. Graças a minha...
- A sua o quê? A sua falta de escrúpulos?
- Chame do que quiser - ele disse simplesmente e eu não pude acreditar. Quem era aquele e que porra tinha feito com o meu pai? - Eu chamo de inteligência.
Levei as mãos até meus cabelos, os puxando para trás, sentindo o corpo todo fraquejar. Eu tinha que estar sonhando, eu tinha. Eu ia acordar e estaria tudo bem. Levantei e desci as escadas correndo, eu estava querendo fugir e ficar em casa era minha última opção. Me arrependi no momento em que coloquei o corpo fora de casa, pelo frio que me acertou com tudo. A neve caia devagar, mas já havia feito uma conseiderável camada sobre a grama. Neve ou pais? Aquilo era realmente uma disputa? Encarei a neve e frio e saí correndo pelo jardim, até alcançar o jardim do . Cheguei até a porta da casa dele e ouvi risadas altas, dele e dos meninos. Que direito eu tinha de estragar a festa de Natal deles? Passei a mão pelo rosto, limpando as lágrimas e prendi o cabelo num coque, sentindo meu corpo reclamar de dor e de frio. Voltei para o jardim da minha casa e cogitei a ideia de ir pra cama. Não, eu teria que ver meus pais. Sentei num banquinho e deitei.
CAPÍTULO 11
'Are you afraid of being alone?
Você está com medo de ficar sozinha?
Cause I am, I'm lost without you
Porque eu estou, estou perdido sem você. - Blink 192
Coloque para carregar 'Never gonna be alone' do Nickelback
Acordei na minha cama quentinha, totalmente o oposto de onde eu lembrava ter dormido, no banco do jardim, coberta de neve. Agradeci mentalmente a quem tinha me tirado de lá. O que eu tinha feito? Eu poderia ter morrido lá fora.
- Acordou? - Minha mãe entrou no quarto, com um bandeja de comida. Fiz cara feia, por não sentir vontade de comer nada.
- Como eu vim parar aqui? - ela suspirou, colocando a bandeja em cima da mesinha.
- Seu namorado, . Veio te procurar e dissemos que você tinha saído. Sabe, ele realmente queria passar o natal contigo. Seu pai o ameaçou e tudo, mas ele não se intimidou. O garoto gosta mesmo de você. - Eu sorri, e senti minhas bochachas doerem. Talvez o frio demais de ontem tivesse me afetado - Ele te achou no jardim e te trouxe para cá. estava muito preocupado.
- Onde ele está?
- Dormiu no quarto de hóspedes, não quis ir pra casa. Seu pai queria matá-lo, mas também estava preocupado com você, então foi dormir - ela me fez comer um pouco e eu senti meu estômago dar uma volta - Quer que eu chame o ?
Assenti com a cabeça, porque a boca estava ocupada tomando leite.
Ela saiu do quarto e poucos minutos depois entrou, se agachando ao meu lado, na cama, passando a mão pelo meu rosto.
- Como você está? - ele sussurrou - Fiquei muito preocupado, . Nunca mais faça isso.
- Obrigada por se importar comigo - minha voz falhou e eu fechei os olhos, com medo de chorar. Eu não podia chorar, eu tinha que ser forte para contar para ele.
Time, is going by, so much faster than I, (O tempo está passando muito mais rápido do que eu,)
And I'm starting to regret not spending all of it with you. (E eu estou começando a me arrepender de não gastar tudo isso com você.)
Now I'm wondering why, I've kept this bottled inside, (Agora estou querendo saber por que eu tenho mantido isso engarrafado aqui dentro,)
So I'm starting to regret not telling all of it to you. (Então, eu estou começando a me arrepender de não vender tudo isto para você.)
So if I haven't yet, I've gotta let you know... (Então se eu não o fiz ainda, quero que você saiba...)
- Eu te amo, pequena, você é muito importante para mim. Às vezes eu fico pensando que eu não sou o mesmo depois que te conheci - ele sorriu fracamente - E não consigo me imaginar longe de você, acho que eu não saberia viver.
Não diga isso! Era o que eu queria gritar, mas uma onda de choro chegou e eu já não me preocupada mais em ser forte, eu nunca conseguia mesmo. me olhou sem saber o que fazer e me abraçou, tentando me acalmar, mesmo sem saber o que era.
- , calma! Não faz assim, tô ficando muito preocupado, amor.
- Aw, , eu não quero. Eu não posso, não vou conseguir!
- Me diga o que aconteceu e eu resolvo pra você.
Never gonna be alone, (Você nunca vai estar sozinho,)
From this moment on! (Deste momento em diante!)
If you ever feel like letting go, (Sempre que você sentir que está partindo,)
I won't let you fall... (Não vou deixar você cair...)
- Você não pode, ninguém pode.
- Estou assustado, . - ouvi ele suspirar pesadamente.
- Eu vou mudar de cidade, fazer minha faculdade em outro lugar, morar sozinha. Única solução encontrada por meus pais para mim, não é ótimo? - ironizei, me entregando ao abraço dele com mais força.
O quarto ficou em silêncio, exceto pelos meus soluços altos. não tinha me soltado de seu abraço e eu agradecia muito por isso, caso contrário eu não sei como agiria. Não sei quanto tempo ficamos assim, abraçados e calados, mas deve ter sido um tempo realmente bom, porque eu estava cansada de chorar, meus olhos ardiam e eu queria morrer.
Never gonna be alone! (Você nunca vai estar sozinho!)
I'll hold you 'til the hurt is gone. (Vou te segurar até a dor passar.)
- Me diz que isso não é verdade, por favor - a voz estrangulada do meu garoto me fez perder o ar. Ele segurou meu rosto entre as mãos e eu pude ver que eu não era a única a chorar. Seu rosto estava vermelho e molhado, assim como seus olhos.
- Eu queria muito que alguém me dissesse isso.
- Meu Deus, eles não podem fazer isso!
And now, as long as I can, (E agora, enquanto posso,)
I'm holding on with both hands, (Tenho aguentado firme com ambas as mãos,)
'Cuz forever I believe that there's nothing I could need but you, (Porque sempre acredito que não há nada que eu precise além de você)
So if I haven't yet, I've gotta let you know... (Então se eu não o fiz ainda, quero que você saiba...)
- O pior é que podem - segurei seu rosto, exatamente como ele fazia com o meu.
- Você sabe que eu não vou aguentar sem você, não sabe?
- Não diz isso, . - limpei as lágrimas do meu rosto, para mostrar a ele como deveríamos ser fortes, mas o máximo que pareci foi uma garotinha assustada, com medo do escuro. Ele beijou meu rosto do modo mais carinhoso que alguém já fez e tomou minha mão entre as suas.
- Me tornei dependente de você, às vezes sinto como se fossemos um só.
Never gonna be alone, (Você nunca vai estar sozinho,)
From this moment on! (Deste momento em diante!)
If you ever feel like letting go, (Sempre que você sentir que está partindo,)
I won't let you fall... (Não vou deixar você cair...)
When all hope is gone, (Quando toda a esperança estiver desaparecido)
I know that you can carry on. (Eu sei que você poderá continuar,)
We're gonna see the world out, (Vamos ver o mundo,)
I'll hold you 'til the hurt is gone. (Vou te segurar até a dor passar)
- Passamos pouco tempo juntos e eu sinto como se tivesse sido a eternidade - falei. A sinceridade dele me fez querer falar também, falar tudo que eu estava pensando e que eu queria esconder, por medo de sofrer mais. Achei que quanto mais eu deixasse meus sentimentos expostos, mais eu sofria por ter que guardá-los depois.
- Para mim foi a eternidade. - ele voltou a me abraçar. Nossos corações batiam tão rápidos e descompassados que chegava a doer.
- Promete que nunca vai esquecer tudo que vivemos? - me senti infantil com aquela pergunta, mas não pude deixar de fazê-la. Ele me encarou por poucos segundos, até que outras lágrimas invadissem seu olhar.
- Eu nunca vou esquecer, nem que eu queira.
- Eu pensei que depois que encontrasse alguém como você, assim como eu sempre sonhei, tudo ia ser perfeito. Eu pensei que seria pra sempre.
- Eu não quero te deixar ir. Me deixa te roubar pra mim? - ele fechou os olhos e grossas lágrimas rolaram pelas suas bochechas rosadas.
- Na verdade eu tenho que ir - uma súbita lembrança da ameaça do meu pai veio a minha mente. Eu não podia colocar a vida do em risco, porque eu o amava muito. E eu tinha que ter a certeza de que ele estava bem, mesmo que longe de mim.
- Você quer ir?
- Querer eu não quero, mas eu preciso.
- Me explica, amor... - ele beijou meus lábios tão levemente que eu quase não os senti.
- Não posso, só me entenda. Eu te amo e eu nunca faria algo que fosse ruim pra você - sussurrei.
CAPÍTULO 12
'Eu vou aonde você for e a sua mão não vou soltar' - Fresno
tinha ido embora há algumas horas e eu não queria sair do quarto. Tinha medo de encontrar meu pai e querer socá-lo até a morte. Meu pai costumava ser meu herói, eu não podia acreditar que agora ele era o vilão da história. Estiquei meu braço, pegando meu celular em cima de mesinha e pensei na .
Liguei para ela contando tudo e foi uma das piores dores que já senti na vida. Ouvi-la chorando e dizendo que todos os nossos anos de amizade ficariam guardados para sempre foi dilacerador. Choramos por muito tempo no telefone, até eu não ter mais forças, perder o ar e desligar.
Minha mãe tentou conversar comigo, mas eu não queria e nem se eu quisesse eu teria forças.
- Eu não acredito que você vai sem nem lutar pra ficar - me ajudava a arrumar as malas. Suspirei pesadamente, jogando umas blusas mal dobradas dentro da mala. Eu não tinha contado para ela das ameaças de meu pai, de assustada já bastava eu.
- Eu lutei, mas não teve jeito. Vai ser melhor assim. - Não havia sido uma total mentira, porque sim, eu tinha lutado. Mas não achava que seria o melhor para mim. Seria melhor para o . Eu não tinha o direito de ser egoísta.
Não naquele momento.
- Melhor para quem? Não para mim, nem para o - ela fez bico e eu a abracei de lado, beijando sua testa.
- Não é como se fosse definitivo. E além do mais, você ainda pode receber sua carta de aceitação para lá também - sorri animada. Desde que eu me lembrei que tinha mandando sua carta para lá, um sentimento de esperança faiscava dentro de mim.
- É mesmo! - ela sorriu também - Mas eu não estou muito feliz com a possibilidade de mudar de cidade, ficar loge do .
E nem eu do , fato. Mas a vida dele era mais importante do que meus caprichos.
- Lá tem outros caras - doeu falar isso, porque eu sabia que não ia querer merda de outro cara nenhum.
- Não quero, só quero o .
- Shiu, cala a boca apaixonada e pega minhas calças jeans ali em cima - apontei para a parte mais alta do ármario, pondo fim àquela conversa que me embargava a voz.
Todas as minhas roupas estavam arrumadas nas malas. Eu tinha que aceitar que minha vida não pertencia mais àquele lugar, e tinha que ser rápido.
foi embora depois que acabamos tudo e eu fui tomar um banho. Troquei de roupa e ouvi minha barriga roncar. Desci as escadas correndo e entrei na cozinha. Fiz um hamburguer reforçado e um copo de suco de laranja e sentei na mesa, comendo tranquilamente, tentando desligar minha mente de tudo.
- ! - berrei na porta da casa dele, esperando-o aparecer na janela ou abrir a porta. A campanhia estava com defeito, então era na base do grito mesmo.
- Hey, pequena! - ele colocou a cabeça na janela do quarto e balançou a cabeça, fazendo com que algumas gotas de seu cabelo molhado chegassem até mim, me fazendo dar um gritinho.
- Desce!
- Sobe! Tá aberto.
Entrei com total facilidade e esperava me lembrar de bater nele por deixar a porta aberta. O mundo era perigoso e meu pai também. Mas assim que eu entrei no seu quarto e ele colou os lábios nos meus eu não consegui pensar em mais nada. Deslizei minhas mãos da sua nuca até o sem ombro e percebi que ele estava sem camisa. Ele desceu a boca pelo meu pescoço, depositando beijos carinhosos por ali que me fizeram tremer. Continuei descendo minha mão por sua barriga definida, passando minhas unhas com um pouco mais de força por lá, o fazendo contrair os músculos, soltando uma risada abafada pelo meu pescoço. Quando desci minhas mãos mais um pouco, pude perceber que ele não estava de bermuda, nem de boxer. Apenas uma toalha estava enrolada do seu quadril para baixo. Aquilo me deixou, digamos, muito empolgada. Sem pensar duas vezes puxei a toalha com força a fazendo parar no chão. Ele afastou o rosto, me olhando profundamnete nos olhos, com um sorriso muito meigo, totalmente o contrário do que eu esperava encontrar: um sorriso bem safado. E foi naquele momento, o vendo sorrir daquele jeito sincero e apaixonado para mim que eu soube que estava fazendo o certo, protegendo-o. Suspirei fundo, e eu mesma tirei a minha blusa, enquanto ele olhava para meu busto e acariava meu rosto.
- Obrigada por existir na minha vida. Eu faria tudo para te ver feliz - ele sussurou, colando nossos lábios de novo. Aos poucos nosso beijo foi ganhando velocidade e empolgação e em pouco tempo estávamos deitados na cama, ofegantes e suados, nos livrando das poucas roupas que ainda me cobriam.
Estávamos os dois deitados de barriga para cima, encarando o teto branco do seu quarto. Já fazia um bom tempo que estávamos nessa posição, apenas ouvindo as nossas respirações se acalmarem. Deslizei minha mão pela colcha da cama até tocar seus dedos e entrelaçar nossas mãos.
- Você me faz tão feliz - sussurrei. Ele virou o corpo para mim, colocando a mão na minha cintura. O brilho dos seus olhos me fez entender que tudo que eu faria valeria a pena. Ele estava ao meu lado agora, isso era o que importava.
- Eu estou quebrado por dentro. Se eu estou aqui agora, como se eu estivesse bem, é só por sua causa. Porque eu quero me manter de pé para te apoiar. - ele fechou os olhos e me puxou para um abraço - Sei que está sendo muito difícil para você, e não quero ser egoísta de pensar primeiro na minha dor. Sua dor é mais importante e eu vou fazer de tudo para tirá-la de você.
Eu queria sorrir com aquelas palavras. Eu poderia sorrir, afinal era tudo que eu sempre sonhei, alguém que me amasse e me colocasse em primeiro lugar sempre. Mas eu não estava feliz. Eu queria poder sumir e levar a dor de comigo, o mesmo que ele estava querendo fazer com a minha. Eu queria poder fazê-lo feliz e para que isso acontecesse ele precisava estar vivo. E comigo por perto isso não aconteceria. Ele certamente encontraria outra garota que o faria tão ou mais feliz que eu. Era essa minha esperança.
- .
- .
- Um dia a gente ainda vai se ver de novo. E vai ser o dia mais lindo da minha vida.
- Eu prefiro pensar que não vamos nos separar.
- , por favor... - gemi - Não fala essas coisas, você não sabe o quanto foi difícil para mim aceitar e te ouvir falar assim me faz querer desistir.
- Desista, por mim - ele beijou minha bochecha, carinhosamente.
- Eu não posso. E é exatamente por você.
me olhou, talvez esperando uma continuação para aquela frase, mas eu simplesmente não conseguia continuar. Tentei sorrir, mas o máximo que fiz foi uma careta de dor. Levantei da cama, sem encará-lo, porque tinha medo de não conter as lágrimas. Eu não devia ter vergonha de chorar na frente dele, não depois de tudo. Mas quando eu parava para pensar, não era vergonha. Era medo de que ele sentisse mais dor com a minha demonstração explícita de dor. Coloquei minha roupa de volta ao meu corpo e respirei fundo, criando coragem de me virar para ele.
- Olha pra mim - eu pedi, vendo que ele encarava o teto. Ele desviou o olhar para mim. - Nunca duvide nem um segundo, que eu estou fazendo isso por amor.
- Eu só queria entender, .
- É muito complexo. Mas é por amor. - caminhei até ele e selei nossos lábios - Tenho que ir.
CAPÍTULO 13
'I don't know if I like it without you,
Eu não sei se eu gosto disso sem você,
Tell me how I'm supposed to make it witout you
Diga-me como eu deveria fazer sem você. - Pixie Lott
Passei pelo corredor, vendo pela porta entreaberta o meu quarto. Quarto esse, aliás, que eu nem considerava mais meu. E eu me pegava pensando em como seria meu quarto no lugar novo. Como seria o banheiro, como seria a cozinha. Enfim, como seria a MINHA casa. Por mais que eu não estivesse feliz (lê-se: eu estava morrendo de tristeza) não vou negar que a ideia de ter uma casa só para mim era atrativa. Meu pai não me dirigia a palavra e nem eu à ele. Minha mãe, apesar de não saber do acontecido, não intervia para que o clima melhorasse. Melhor assim, não?
Eu deitei no sofá, com um pote de pipoca em cima da barriga, assistindo pelo 12813783ª vez 'Titanic'. É, TITANIC. Gosto do filme e sempre choro. Não tem uma vez que eu não chore ou fique imaginando o que eu teria feito no lugar da Rose. Eu teria segurado o Jack lá comigo, não o deixaria morrer daquele jeito. Mas a situação não era tão fácil, a teoria sempre é melhor do que a prática e eu não podia julgar ninguém.
- Boa noite - minha mãe entrou na sala, carregando suas dezenas de pastas.
- Boa. - respondi sem tirar os olhos da TV.
- Hoje seu pai resolveu tudo. Terminamos de acertar tudo para que você possa viajar com tranqulidade.
Eu ri incrédula. Tranquilidade? Levantei do sofá, tentando não perder a calma. Lembro que quando eu ia às sessões da psicóloga ela me disse que se eu perder a calma, perco a razão também.
- Que bom. Fico bem mais feliz agora - ', ser irônica não é bom'. A voz da psicóloga ecoava no meu subconsciente.
Foda-se.
- Eu não queria te ver sofrer.
- Claro que não, você só quer me afastar de tudo que eu gosto. Esse deve ser o melhor modo de fazer alguém feliz.
- !
- Vou pro meu quarto.
Meu telefone tocava e eu atendi, respirando fundo para que quem estivesse do outro lado da linha não ouvisse minha voz de choro.
- ?
- Oi.
- Não faz isso, por favor - sussurrou, numa súplica. Eu deixei que uma lágrima escorresse pelo meu rosto, fraca demais para lutar contra elas.
- Um dia você vai entender e vai me apoiar.
- Eu não consigo entender, ...
- Você deixaria que algo de ruim acontecesse ao por sua culpa?
- Não, por minha culpa não. Mas...
- É só isso que eu posso falar, eu estou tentando protejer o .
- É, talvez um dia eu entenda. Hoje eu não consigo.
- Eu tenho medo de te contar e algo de ruim aconteça a você. Eu só amo vocês demais pra me pôr em primeiro lugar.
Acordei no dia seguinte com muita dor de cabeça. Faltava um dia para a viagem. Tomei um banho rápido, coloquei uma regata azul e uma bermuda jeans, deixei os cabelos soltos e desci as escadas. Ia na casa do , eu queria sentir o abraço forte e quente dele, queria ouvir a voz dele no meu ouvido, queria sentir o toque dos seus lábios na minha pele.
Minha mãe e meu pai não estavam em casa, melhor assim. Abri a porta, sentindo o vento de inverno de dezembro bagunçar meus cabelos e me fazer arrepiar. Entrei na casa dele, porque como sempre a porta estava aberta. Dessa vez eu ia pedir pra ele trancar, sim, eu ia. A sala estava em silêncio, mas uma voz baixinha vinha da cozinha. Sorri só de ouvir a voz dele, que estava cantarolando algo. Cheguei na porta da cozinha e o observei de costas, mexendo algo na panela.
- Amor - o chamei, e ele virou para mim sorrindo.
Sorrindo aquele sorriso sincero e brilhante que me fazia querer pular no pescoço dele e nunca mais soltar.
- ! - ele parou de mexer seja lá o que fosse e se apressou em minha direção, me abraçando forte - Esperei você me ligar ontem, mas você me esqueceu.
Ele fez bico e eu apertei suas bochechas, num ímpeto. Beijei seus lábios levemente, acariciando sua face. Ele sorriu entre o beijo, apertando minha cintura contra seu corpo.
- Eu não estava muito bem ontem, então eu não quis... Incomodar.
- Por favor, não diga isso - ele me deu um selinho rápido - Você sabe que não me atrapalha em nada.
- Mesmo assim, eu...
- O que você tinha?
- Só nervosismo - mordi o lábio inferior.
- Vamos para a sala. - ele pegou minha mão e me puxou para a sala, nos sentando no sofá. Ele segurava firme as minhas mãos, como se soubesse que eu precisava de apoio naquele momento. Tentei sorrir para ele, mas não devo ter obtido muito sucesso. - Ainda há tempo de desistir.
- Amanhã - eu comecei a chorar só com a menção do dia. AMANHÃ? Eu não tinha me dado conta do que realmente iria acontecer. se assustou com a minha reação e me puxou para seu colo, fazendo carinho na minha cabeça, e me apertando contra ele. Eu enfiei minha cara na curva do seu pescoço, me entregando totalmente à vontade de chorar.
- Você não está feliz, desista disso - ele sussurrou.
- Só não posso fazer isso. - por mais que eu queira - Eu tenho de ir.
- Fica, , por favor! A gente pode fugir ou sei lá! Qualquer coisa, mas não me deixa.
Eu não podia ficar, eu não podia ser egoísta a ponto de ficar porque eu queria e deixar que as consequências caíssem sobre o . Eu faria qualquer coisa por ele, e era o que eu estava fazendo. Tirei as mãos dele de cima de mim, passei as costas das mãos pelo meus rosto, limpando as lágrimas, que estavam se tornando rotineiras por ali e segurei seu rosto entre minhas mãos.
- Eu tenho que ir. Eu te amo, mas eu tenho que fazer isso.
- Por que, ?
- Porque... Porque eu vou pra faculdade de medicina, sempre foi meu sonho - me enjoei só de mentir daquele jeito pra ele. Faculdade de medicina? Eu gostava, mas nunca trocaria o por aquilo. - E eu vou para a melhor faculdade, quero ser boa na minha profissão.
- Você se acostumou com a ideia, então? Está gostando de ir? Eu pensei que você quisesse ficar comigo acima de tudo mas, eu... Eu sou um idiota!
Vê-lo daquele jeito, descontrolado, quase gritando comigo, acreditando que eu não o amava o suficiente me fez querer desmentir tudo, contar a verdade e ficar na cidade. Mas eu tinha que provar para mim mesma que eu era forte o bastante. Nunca pensei ser capaz de sentir dor tão forte.
- Um dia você vai entender.
- NÃO DIGA ISSO! EU NUNCA VOU ENTENDER COMO UMA PESSOA QUE JUROU ME AMAR VAI ME DEIXAR!
Agora não era a hora de chorar, eu precisava manter o foco. Respirei fundo e virei de costas, andando em direção a porta de saída.
- Eu sei que um dia você vai entender. - Olhei para trás, e ele me encarava com o rosto coberto de lágrimas. - Eu te amo.
- Vamos, abra um sorriso! - meu pai, com aquela alegria maléfica dele, me pediu. Rolei os olhos, jogando minhas malas pro cara pesar e ver se eu ia ter que pagar por excesso. Claro, ultrapassou. Todas as minhas coisas estavam ali.
- , não é um enterro. É a sua viagem, é uma vida nova. - foi a vez da minha mãe tentar me animar. Não funcionou, sabe?
- Eu preferia estar morrendo - um sorriso iluminou meu rosto com a ideia de que o avião podia cair.
- Não diga bobagens, você vai pra faculdade! E com apenas 15 anos, não é maravilhoso?
- Pra quem? Eu preferia uma vida normal.
- E essa vida nomal inclui um namorado? Desista. - meu pai resmungou, pagando ao cara o excesso de bagagem. - Vamos lá, eu fiz tudo pra te ver feliz.
- Não abra sua boca pra falar merdas, querido pai - rosnei - Se tivesse pensado em mim em algum momento sequer, me deixaria viver em paz.
- Vou relevar, porque sei que está ansiosa para a viagem - Ele piscou pra mim? Que tipo de psicopata ele era, afinal? - Um dia você vai me entender.
Memórias do dia anterior vieram à tona com essa frase. chorando, gritando e, provavelmente, me odiando. Eu sabia que seria o certo no fim. Então talvez meu pai tivesse razão e fosse o certo para mim também, no fim.
- Claro, tirar toda uma vida que eu construí vai ser o melhor - gargalhei ironicamente.
- Caras como o tal do só querem se aproveitar de garotinhas como você, filha. Eles querem te usar, quem sabe te engravidar para ficar com seu dinheiro.
- Ora, cale a boca! - meio que berrei e minha mãe me repreendeu com o olhar. Abaixei o tom antes de continuar - Você não o conhece, ele não é um mercenário que só pensa em dinheiro, como você.
- Ou como o pai dele.
- Só um aviso, a partir de hoje eu sou orfã. E contarei isso à todos na minha nova cidade.
Virei, ajeitando minha bolsa por cima do ombro e batendo os pés firmemente, até chegar ao portão de embarque. Dei meia volta, olhando para aquele aeroporto e jurei para Deus que voltaria um dia, e voltaria feliz.
- ! - Algo se jogou em cima de mim e eu só soube que era pelo cheiro de morango que tinha os seus lindos cabelos. A abracei de volta, sentindo meu coração disparar. Ela tinha vindo, eu sabia que ela não me deixaria. Senti vontade de sorrir por tê-la comigo.
- . - outra voz bem conhecida sussurrou e eu afastei rapidamente, encarando aquele par de olhos azuis que eu tanto amava. tinha um sorriso triste no rosto, mas estava ali.
- - envolvi seu pescoço com meus braços, encostando nossas testas e olhando fixamente para ele. Meu coração apertou no meu peito e eu senti que não poderia viver sem ele. Por isso eu estava indo embora - Não tenho mais forças para chorar.
- Não quero que você chore, querida - ele beijou minha bochecha - Eu quero que você seja feliz, muito feliz. Porque você merece felicidade. Mas eu quero te pedir uma coisa, se for posível.
- Qualquer coisa - respirei seu perfume bem forte, anotando mentalmente que assim que eu chegasse lá ia comprar um daquele, só pra lembrar daquele cheiro que me deixava sem jeito, sem saber como agir.
- Não me esqueça. Porque eu não vou te esquecer, sabe? Pode parecer bem bobo, mas é verdade. Porque eu tinha jurado para mim mesmo que eu nunca mais ia me deixar envolver com ninguém, porque eu tinha sofrido demais. Mas você chegou com esse jeito espontâneo e lindo, sorrindo pra mim e desarmou todas as minhas defesas. Eu poderia estar arrependido agora por ter me envolvido contigo, pelo tanto que eu estou sofrendo com essa despedida, mas não consigo. Valeu muito a pena, eu realmente me apaixonei por você e isso foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Grudamos nossos lábios com urgência e um gosto salgado dominou o nosso beijo. Minhas lágrimas, as lágrimas dele, tudo misturado em nossas bocas, enquanto nossas mãos apertavam o corpo um do outro, com medo de se perder pra sempre. Aos poucos o beijo foi perdendo a intensidade e nós paramos, sustentando o olhar fixo um no outro.
- , última chamada - me avisou. Eu nem sequer tinha escutado. Ajeitei mais uma vez minha bolsa sobre o ombro e passei as mãos pelo cabelo e rosto.
- Então é isso - dei de ombros, sem saber mais o que fazer.
- Te amo - me abraçou e em seguida começou a chorar.
- Seja feliz, meu amor - segurou minhas mãos - E um dia, volte.
Ele sorriu e eu fiz o mesmo.
Não vou dizer que foi fácil entrar naquele avião. Todo momento eu queria virar as costas e voltar correndo para o saguão, no estilo filme água com açúcar, quando tem um final feliz. E eu sei que já repeti isso mil vezes, mas pro meu final ser feliz eu não podia carregar a culpa de algo de ruim ter acontecido ao por que eu não evitei.
Sentei no meu lugar marcado, na janela, abaixando a cabeça a colocando o fone de ouvido.
Belas horas que eu passei no avião. Sim, estou sendo irônica. O senhor que estava sentado ao meu lado perguntou para a aeromoça se tinha outro lugar vago e se mudou, talvez porque eu não parava de chorar ou xingar baixinho. Desculpa, cara, eu tinha meus motivos.
CAPÍTULO 14
It's not over tonight,
Não acabou hoje à noite,
Just give me one more chance to make it right
Apenas me dê mais uma chance para fazer isso certo. I may not make it through the night,
Eu não posso fazê-lo durante a noite,
I won't go home without you.
Eu não irei para casa sem você.
- Maroon 5
's POV
Eu e ficamos sentados na praça de alimentação do aeroporto, bebendo refrigerante em silêncio. Ela ainda chorava, estava vermelha e inchada. Eu queria poder dizer palavras de conforto, mas no estado que eu me encontrava só ia a deprimi-la ainda mais. Me mantive calado, recolhendo minha dor só para mim. Depois de ter sofrido tanto por amor, de ter prometido nunca mais me envolver seriamente com mulher nenhuma, eu estava ali, chorando que nem um idiota por uma garota. Uma garota de apenas quinze anos que me fez aprender muito mais que todas as outras mulheres que eu já tive.
A vida é realmente muito engraçada.
- ? - A voz chorosa de me chamou. Olhei para ela, tentando sorrir - A deve ter tido um bom motivo pra partir. Ela nos amava e eu sei que ela queria ficar, era notável em seus olhos. Mas ela foi embora, eu queria saber o porquê. Mas eu sei que deve ter tido um motivo muito forte pra ter nos deixado.
- Eu sei. Eu só queria saber o que era mais forte do que o que a gente sentia um pelo outro.
- Um dia ela vai poder te responder.
- Espero - dei o último gole no meu refrigerante, sentindo minha garganta arder. Era vontade de chorar, de novo.
- Me leva em casa?
- Vamos.
Depois que a deixei em casa, fui para a minha. Surpresa para mim, os meninos estavam lá, no meu sofá, me olhando com pena. Eu não vou dizer que não queria que ninguém sentisse pena de mim, eu queria sim. Eu queria sentir que alguém se importava comigo. Eu estava carente e precisava dos meus amigos.
- Senta aqui, cara - James foi o primeiro a se manifestar, indicando um lugar entre ele e o para que eu me sentasse.
- Tá mais calmo? - perguntou, receoso.
- Eu vou ficar bem.
- Estamos aqui pra isso, pra te ajudar.
- Obrigado, , mas você deveria estar com a . Ela não para de chorar.
- Eu vou pra lá daqui a pouco. Primeiro quero ter certeza de que você não vai se matar.
Sorri de lado. Eu tinha sorte por ter amigos iguais a eles.
- Eu nunca me apaixonei - falou o que todo mundo sabia - Não tenho nem ideia do que você pode estar sentindo.
- E eu não quero que você tenha. Dói demais, não indico a ninguém.
- Divida sua dor com a gente, cara. Amigos tem que carregar um pouco da dor que o outro leva. - filosofou.
- Tá doendo. Eu queria estar com ela em meus braços agora. Era tudo tão mais fácil quando ela sorria pra mim.
- Se eu tivesse alguém assim, eu não ia ficar de braços cruzados. Desculpa, , mas eu ia tomar uma atitude - James fez bico e eu fechei os olhos, pensando que tipo de atitude eu podia tomar.
O que me prendia a Londres? Eu não tinha família, eu odiava minha faculdade. Eu só tinha os meninos qe eu sabia que iriam me apoiar em qualquer decisão.
- PEGA O TELEFONE! - berrei, e todos me olharam sem entender - Vai, , liga pra companhia aérea e compra uma passagem em meu nome pra Nova York. A mais próxima que tiver.
- GOSTEI DA ATITUDE! - bateu no meu ombro, com um sorriso colgate estampado na cara. gargalhou, apoiando.
- ESSE É MEU GAROTO - James completou. já estava acertando tudo.
, eu não vou te perder assim.
's POV
fez uma mini-mala só com as roupas de primeira necessidade. Ele não esperava passar muito tempo na América. Só o tempo suficiente para trazer a bonequinha de volta.
- Desculpa, , eu e os meninos vamos ter que sair. Boa viagem, cara, eu queria te levar no aeroporto, mas não vai dar - James avisou, e confirmaram que iam com ele.
- Tuod bem, obrigado! Vocês foram demais! - eles se abraçaram, desejaram sorte e foram embora. me olhou, e o nervosismo transbordava no seu olhar.
- Vamos lá? - perguntei, segurando sua malinha.
- Vamos - ele sorriu, parecendo mais confiante.
Entramos no carro e eu fui dirigindo. Quem seria louco de deixar o dirigir naquele estado? Ele se batia no banco do carona, incapaz de se manter quieto. O aeroporto não era perto de casa. Estávamos em um pouco mais da metade do caminho quando um carro importado e preto surgiu do nosso lado, quase encostando no nosso. O vidro fumê me impediu de chamar a pessoa de FILHO OU FILHA da puta. tomou um susto com o carro preto que saltou no banco, tendo uma crise de riso em seguida.
- Tem cada louco na cidade - ele comentou, balançando a cabeça.
O carro preto continuava tentando fechar a gente e aquilo não me parecia normal. Na quinta curva, num trecho da avenida que não era muito movimentado, o carro preto se jogou contra o nosso, nos atingindo. Tentei frear, mas estávamos indo rápido demais, então nosso carro rodou na pista antes de parar. estava de olhos arregalados para mim.
- Que porra foi essa?
Foi a última coisa que o ouvi dizer. Um barulho de tiro, seguido de um vidro se partindo e da imagem do com os olhos bem abertos me encarando, com dor... Foi a última coisa que eu vi antes de desmaiar de choque.
CAPÍTULO 15
Near, far, wherever you are,
Perto, longe, onde quer que esteja,
I believe that the heart does go on
Creio que o coração continua - Sum 41
's POV
- Estou atrasada? - cochichei para minha auxiliar Lyah.
- Não, o Sr. Hansard acabou de entrar na sala de reuniões.
- Ótimo - sorri para ela - O trânsito dessa cidade é um inferno, achei que chegaria atrasada.
Cinco anos haviam se passado desde que eu fui obrigada a deixar minha cidade, rumo à um novo destino. E eu podia me considerar feliz.
Eu tinha um bom emprego, que eu amava, como médica em um dos melhores hospitais de lá. Tinha acabado de me formar e eu já era reconhecida. Minha bela casa, com meu carro novo na garagem também me faziam me sentir realizada, pelo menos no campo material. Eu podia me considerar uma pessoa feliz.
Mas quando eu pensava em tudo que eu perdi nos últimos cinco anos, 'feliz' não é bem a palavra que me definia.
Eu tinha perdido meus pais, mas aquela tinha sido uma perda escolhida por mim. Eu não podia aceitar o que meu pai tinha feito comigo, e não podia aceitar que minha mãe não tinha feito nada para impedir. Quando cheguei à nova cidade, a quem perguntava eu respondia que tinha perdido meus pais num acidente de carro. Macabro, eu sei. Mas eu tinha vergonha de contar o que eles tinham feito contra mim. Eu tinha perdido a , minha melhor amiga desde sempre, e por mais que eu tivesse feito novas amizades, nenhuma me passava a mesma confiança que ela.
Porque me conhecia como ninguém, sabia me decifrar apenas com um olhar. Eu sentia meu coração doer de tanta suadade dela. E eu também tinha perdido o , o cara que sabia me fazer feliz com um sorriso, que cantava e tocava como ninguém, que me beijava e o mundo parava de rodar por nós dois, que me abraçava e nenhum problema era grande demais. E era só por causa dele que eu estava ali, longe de tudo. Por eu ter pensado no bem estar dele e o ter protegido do doente do meu pai. Eu não me arrependia, de jeito algum. Eu só passava noites em claro, imaginando se teria tido outro jeito, se algo que eu tivesse feito poderia ter nos impedido de nos separar.
Mas agora não era realmente hora de me lamentar.
Eu estava prestes a entrar numa reunião do hospital e eu tinha que passar toda a confiança e profissionalidade possível. Ajeitei o jaleco sobre o corpo, girei a maçaneta e entrei no enorme salão de reunião do prédio.
- Bom dia, Srta. - o diretor-geral do hospital me cumprientou, indicando um lugar para que eu me sentasse. Estranhamente, só havia eu, ele e sua secretária bonitona na sala. Eu achei que era uma reunião com toda a equipe médica. Minha falta de compreensão deve ter transbordado no meu rosto porque ele sorriu e continou a falar - Eu pedi essa reunião a sós com a Srta., porque o assunto só nos diz respeito.
- Não estou entendendo muito bem, Sr. Hansard. - sorri sinceramente. Ele pegou uma pasta com a secretária, abrindo-a e pegando algumas folhas lá de dentro.
- Uma equipe do meu hospital será transferida para um outro país, onde estão precisando de médicos competentes - ele me estendeu uma folha onde eu pude ler o nome da minha cidade nele. Um sorriso se formou em meus lábios com algumas lembranças - E como é a cidade natal da Srta., pensei que estaria interessada em voltar para lá. Ou não?
Pisquei algumas vezes absorvendo a informação. Eu estava tendo, assim, tão facilmente, a chance de voltar para minha cidade? Para, talvez, voltar à minha vida? A ideia me pareceu muito tentadora e recusar nem me passou pela cabeça. Sorri abobalhadamente.
- É tudo que eu quero desde que eu vim pra cá - desabafei. Ele levantou uma sobrancelha, e isso me fez lembrar de uma pessoa que eu tinha deixado pra trás.
- Posso pedir para a Srta. Miller - ele apontou sua secretária - resolver tudo para você, desde passagens até uma casa lá. O mais perto possível do seu novo trabalho.
- Claro, seria muito bom. - concordei, sorrindo para a garota - Mas eu posso pedir uma coisa?
- Diga, Srta. - ele acentiu.
- Posso escolher a rua em que vou morar? Eu queria morar na mesma rua, sabe?
Ele concordou, como se entedesse o que eu estava sentindo. Acertamos os últimos detalhes, passei o nome da rua para a Srta. Miller e me senti feliz, como nunca tinha me sentido em anos.
Saí daquela sala direto para a minha, peguei o telefone e disquei o número da única pessoa que esteve comigo durante aqueles anos, que foi meu amigo e me apoiou. Ele que tinha me segurado quando eu achei que em outros caras eu ia achar o que me faltava, mas sempre quebrava a cara, por nenhum ser o . Ele era meu melhor amigo gay, e foi a única pessoa que eu fui capaz de amar naquela cidade estranha.
- Matthew?
- Srta. - ele brincou - A que devo a honra de sua ligação?
- Vem aqui na meu consultório, bobão.
Nem dois minutos depois ele abriu a porta, sem cerimônia nenhuma. Um sorriso brincava no seu lindo rosto e por alguns instantes eu senti que iria doer ter que deixá-lo ali.
- O que a princesinha do hospital quer com seu servo? - ele sentou-se na cadeira a minha frente e fitou-me com aqueles olhos verdes.
- Eu vou realizar o que eu mais queria - levantei, começando a saltitar pelo consultório. Ele abriu a boca e ficou me analisando assustado, até que abriu um sorriso sapeca.
- Vai posar pelada pra Playboy?
- Desde quando isso era o que eu mais queria? - gargalhei, parando de saltitar.
- Hum, então vai me pedir em casamento?
- Claro, claro - rolei os olhos e bati na perna dele - Você sabe o que é, deixa de bobagem!
Ele pareceu pensar por um tempo até que finalmente me encarou. Seu semblante estava sério e eu senti a dor vir.
- Você vai voltar para Londres?
- Vou, não é ótimo? - fingi empolgação. Fingi, porque naquele momento ela tinha ido embora. Ele negou com a cabeça, mas logo em seguida confirmou, ficando de pé e me abraçando.
- Me desculpa, princesinha - me apertou contra o seu corpo - Por um segundo eu deixei o meu lado egoísta me dominar e não quis pensar em te perder. Mas ser egoísta com você é o fim do mundo, depois do que você fez por amor. - ele piscou exageradamente os olhos. Ele era o único que sabia da história toda - Vá, minha borboletinha cintilante, voe para seu destino, seja feliz!
- Aw, Matt - o abracei com toda a minha força, sentindo lágrimas rolarem por meu rosto. Era uma mistura de felicidade e saudade antecipada.
- Me leva contigo? - ele quase berrou e eu juntei as sobrancelhas. Não tinha cogitado a ideia, mas era magnífica. Matt era um ótimo enfermeiro e poderia ser parte da minha equipe.
- Você quer mesmo ir?
- Borboletinha, eu sou como você, sozinho nessa cidade. E ainda por cima, só tenho a ti - ele apertou minhas bochechas, rindo - Não me deixa, vai?
- Claro que eu te levo, minha mariposa - gargalhei, indo em seguida falar com o Sr. Hansard. Se ele não fosse gay, talvez eu tivesse me casado com ele.
- Você não vai ligar pra ninguém de lá? Avisar que está voltando ou coisas desse tipo? - Matt sentou na minha cama, me ajudando a dobrar algumas roupas e colocar na mala.
- Eu tentei, mas o número da casa da não é o mesmo - murmurei, me sentindo meio decepcionada por não conseguir falar com ninguém. - Nem a do .
- Você está ansiosa pra se encontrar com ele? - Matt me lançou o olhar mais profundo que eu recebi na vida. Meu coração saltou no peito só em cogitar a ideia. Eu estava nervosa e queria aquilo mais que tudo. Mas e o ? Ele já podia estar casado e com filhos e querer ser apenas meu amigo, não podia? Eu aceitaria isso? Ele também podia nem se lembrar de mim ou não me reconhecer. Ele podia simplesmente dizer que me esqueceu.
- Eu penso em tantos modos desse encontro acontecer. Mas por incrível que pareça, não pensei em nenhum feliz.
- Borboleta cintilante, pare com isso! - ele sentou ao meu lado, me abraçando pelo ombro - Já ouviu falar que o pensamento tem poder? Então vamos lá, pensamento positivo!
- vai se lembrar de mim! Vai sim! - entrei na onda dele, rindo descontroladamente. Eu não me via feliz assim desde... Desde muito tempo.
- E você pretende contar a ele algum dia porque veio embora?
- Não - respondi rápido, sem precisar pensar. Matt me olhou de canto de olho, no maior estilo desafiador - Pra quê ele tem que saber, afinal?
- Pra saber o quanto você o amou e o que foi capaz de fazer por ele!? - repondeu, num tom cínico.
- Seria a mesma coisa se eu chegasse pra ele e dissesse 'Viu como eu sou foda? Fiz tudo por você, agora volte pra mim' - rolei os olhos, e quando ele ia abrir a boca pra retrucar eu levantei o indicador - Fim do assunto, Matt.
- Fim do assunto, Matt - ele me imitou, jogando umas blusas dentro da mala - Nojentinha.
Matt já havia ido embora há algumas horas e eu estava deitada na minha cama, encarando o teto.
Encarando mesmo.
Eu desconfiava que até o estava amedrontando com minha cara de mau. Peguei meu celular e tentei ligar para o antigo número da . Outra tentativa frustrada, mas também, o que eu esperava? Que tivesse o mesmo número de casa desde quando morava com os pais? Ou que o celular dela fosse o mesmo há cinco anos? Logo , que sempre perdia tudo.
Girei o corpo, ficando de barriga pra baixo na cama e dando uma olhada no meu quarto. Novamente estava tudo em caixas e malas. Eu odiava mudanças, mas dessa vez tinha sido a minha opção, então eu estava um pouco animada. Ok, a quem que queria enganar? Mesmo que mudança seja um saco, cansativa pra caramba e irritante, a felicidade transbordava dentro de mim. Eu estava voltando para a minha cidade, em busca das minhas antigas amizades.
Eu devia avisar aos meus pais que estava voltando? Sim. eu devia. Eu não era uma filha tão vaca assim. Embora eles merecessem que eu fosse.
Mas falar com eles depois de cinco anos, era meio estranho. Ok, completamente estranho. Eu ia mandar um e-mail, pronto. Decidido.
Não que meus pais fossem moderninhos e vivessem na internet, pelo menos não eram há cinco anos. Mas a secretária do meu pai abre os e-mails dele e repassa. Pulei da cama em direção ao notebook e abri a página pra mandar em e-mail.
O sentimentalismo passou longe daquele email, mas foi bem merecido aos meus genitores. Soltei o ar frustrada. Era sempre assim quando eu pensava neles, e em tudo que tinham feito. Nao gosto de remoer o passado e aquilo me irritava profundamente.
Família,
Só quero comunicar que estou voltando para londres.
Beijos, .
CAPÍTULO 16
I'd like to be,
Eu gostaria de ser,
The only thing on Earth that makes you cry.
A única coisa na terra que faz você chorar.
The only thing that makes you happy.
A única coisa que te faz sorrir. - Shakira
Não aguentava mais olhar para a televisãozinha do aeroporto, que indica os voôs. Estava atrasada, a merda do voô para Londres estava atrasado e eu estava inquieta demais para conseguir sentar na praça de alimentação com o Matt. Enquanto ele comia calmamente qualquer besteira, eu estava em pé, andando de um lado para o outro, fiscalizando se acontecia alguma mudança naquele visor maldito.
- Come alguma coisa, borboletinha - Matt falou entediado, talvez por ser a quarta vez que me dizia aquilo. Neguei com a cabeça - Quando você desmaiar de fome dentro do avião, eu vou te deixar lá. Vou sozinho aproveitar Londres.
Sentei na cadeira ao lado da dele e chamei a garçonete, pedindo um capuccino.
- Vou ter um colapso.
- Notei - ele rolou os olhos - Relaxa, . O que está te preocupando tanto?
- É como estar voltando no tempo - soltei o ar preso em meu pulmão - Voltar para Londres, mesmo que com uma vida completamente diferente de quando eu fui embora, sabe? É um regresso, de qualquer forma.
- Não foi o que você sempre quis? - ele passou o braço ao redor dos meus ombros e esperou a garçonete servir o meu capuccino, antes de continuar - Você devia estar feliz.
- Eu estou feliz, Matt - olhei para ele - Mas o nervosismo vem junto.
Olhei em volta, buscando algo para me distrair, e vi uma garota loira, com os cabelos ondulados abraçando um cara mais velho, provavelmente seu pai, e pegando sua malinha de mão. Ela falava algo, tipo para ele nao se preocupar, que eram só três meses de intercâmbio e que ela já era bem grandinha. Ri sozinha, imaginando quantas pessoas achariam um saco ter um pai superprotetor e carinhoso como aquele era com a filha. Eu teria dado tudo pra que meu pai tivesse sido assim até o fim. Porque afinal, ele era um pai bom, até saber do meu namoro e me mandar pra outro país. Suspirei, terminando de tomar meu capuccino. Eu sentia falta do meu antigo pai.
- Vamos, , já chamaram o nosso voô - Matt me arrastou pela mão, jogando o dinheiro em cima da mesa, para pagar a conta. Já tinham chamado nosso voô? Fiquei tão aérea com as lembranças do meu pai que perdi a noção de tudo.
Quando já estávamos sentadinhos e acomodados nas nossas cadeiras, a aeromoça começou a dar as explicações necessárias sobre segurança e essas coisas que todo mundo já está cansado de saber, mas eles sempre repetem. Encostei minha cabeça no ombro do Matt, e ele começou um carinho relaxante, mexendo em meus cabelos.
A viagem seria bastante cansativa, mas pelo menos eu teria o Matt pra me alegrar dessa vez. - Não seja imbecil - Matt gargalhou depois que eu disse que a aeromoça estava flertando com ele - Será que ela não notou que eu sou gay?
- Não é algo muito notável, sabe? A não ser quando você me chama de borboletinha - ri com ele. Matt não dava muita pinta, não era daqueles gays que adoram causar. Ele era tranquilo, discreto.
- Vou seduzi-la - fez uma voz sensual e rimos mais ainda - Credo - fez o sinal da cruz - Não falo isso nem brincando.
- Não vou perder meu amigo pra qualquer uma - fiz bico, brincando.
- Pra qualquer uma não, mas se for um qualquer um bem gatão, adeus - ele piscou e eu soquei seu braço.
- Ridículo.
- Ciumenta.
Mais alguns minutos conversando besteira e eu acabei sendo vencida pelo sono. Quando acordei, faltava pouco menos de uma hora pra chegarmos a Londres. Meu estômago deu algumas voltas dentro da minha barriga, me deixando mais nervosa do que eu estava.
Matt ainda tentou puxar algum assunto comigo, mas depois do olhar que lancei para ele, desistiu.
- Descansar - gemi quando colocamos o pé na minha casa nova. Depois eu a veria com calma, já que nem a fachada eu tinha analisado direito quando o taxi parou.
- Pode ir, eu vou fazer algo para a gente comer quando você acordar.
Matt ia morar comigo por enquanto, até ele se adaptar e conseguir alugar ou comprar um canto para ele. Subi as escadas correndo, entrando no quarto a direita, que eu sabia ser o meu, pelas recomendações da Srta. Miller, e dessa vez não pude deixar de notar como era lindo. Grande, com uma cama king size no meio. As peredes azul-claro me encataram, junto com as cortinas grandes e brancas que davam leveza ao lugar. Um sofá também azul claro, encostado a uma das paredes, perto da porta que dava para a varanda. Minha varanda. Sorri, batendo palminhas e indo até lá dar uma olhada na rua. Minha antiga rua. A casa dos meus pais estava lá, do mesmo jeito que há cinco anos atrás. Depois eu iria até lá falar com eles. E a casa do . Meu coração bateu acelerado contra o peito, chegando a doer, quando eu pus meu olhar naquela casa. Várias lembranças passaram como um filme, e eu senti os olhos marejados. A casa estava fechada.
[Flash Back]
- Preciso, bem... Eu preciso te perguntar uma coisa - ele fez bico e ficou extrememente fofo - Não pense que vai ser fácil, tenho muito medo de qual vai ser a resposta, então não me deixe muito nervoso, ok? Não ria de mim nem nada do tipo.
- , você está me deixando nervosa também - juntei as sobrancelhas, intrigada. Ele segurou minhas mãos e olhou no fundo dos meus olhos.
- Quer ser minha de verdade? Assim, quer namorar comigo?
Jesus crucificado, ressucitado. Devolvi o olhar dele, e um sorriso nada discreto apareceu me meu rosto, aperecendo logo em seguida no dele.
- Aw, - me joguei em seus braços, enchendo sua face de beijos, no olho, na testa, no nariz, na bochecha, na boca - Claro, seu idiota!
- MINHA, SÓ MINHA - ele começou a gritar feito um idiota mesmo, e me carregou, me girando pela cozinha até a sala. e levantaram do sofá, de tanto susto e começaram a rir da nossa cara - ELA É MINHA, OK? , pare de olhar para ela.
[End Flash Back]
Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos, me sentindo boba demais por estar chorando por lembranças tão antigas. Mas não pude evitar que minha mente vagasse, tentando em vão saber onde estaria o meu... o . Teorias e mais teorias se formavam em minha mente.
Deitei na cama, esperando o cansaço passar e o sono me vencer, sabendo que amanhã eu teria que comparecer cedo ao hospital em que eu ia trabalhar. Eu e o Matt. Graças a Deus ele tinha vindo comigo, eu realmente não sei se seria capaz de encarar tudo sozinha.
Finalmente o sono me venceu e eu sonhei. Não preciso realmente escrever sobre o dono do rosto que apareceu nos meus sonhos. Era ele, desde sempre. E para sempre.
Acordei com um barulho estranho de talheres batendo ou coisa do tipo, mas era tão perto de mim que não podia ser na cozinha. Abri os olhos, me acostumando a claridade e... claridade?
- Bom dia, borboleta - Matt sorriu para mim, colocando uma bandeja com comidas deliciosas em cima da minha cama.
- Que horas são, Matthew? - perguntei, enquanto comia uma torrada com Nutella.
- Sete, da manhã, claro - ele rolou os olhos e eu arregalei os meus. Vendo meu desespero, ele continuou - Você estava tão cansada que não te acordei ontem. Só te acordei hoje porque temos que ir ao hospital, senão te deixava dormir pra sempre.
Cara, eu tinha dormido quantas horas mesmo? Enfim, terminei de tomar aquele café-da-manhã digno de estrela de Hollywood e fui tomar um banho, mandando Matt ir fazer o mesmo.
Colquei uma calça jeans branca e skinnng, uma camisa pólo, também branca e peguei meu jaleco, colocando sobre o ombro, sem vestir. Deixei meu cabelo solto, secando naturalmente e na maquiagem, só o básico mesmo.
Matt já estava pronto me esperando e com cara de tédio, talvez pela minha demora habitual. Ele também estava todo de branco, e muito lindo, diga-se de passagem. Já falei que se ele não fosse gay, fazia ele me jogar na cama?
- Vamos? - um frio na barriga.
- Claro, e eu dirigo - ele tomou a chave do carro da minha mão e fomos, conversando bobagens para me distrair no caminho. Emprego novo deixa as pessoas nervosas.
- Então, está tudo certo, Doutora - a diretora do hospital, uma mulher de aparentemente 40 anos, apertou a minha mão. - Pode começar o seu trabalho agora mesmo. Chamarei o seu companheiro de equipe, para lhe mostrar o hospital.
Pegou o telefone e discou algum número, falando com alguém. Sim, eu não estava prestando atenção no que ela falava, eu estava ansiosa, querendo ocupar logo minha mente com trabalho, para ver se me desestressava um pouco. Matt, sentado ao meu lado, folheava lentamente uma revista e vez ou outra olhava para mim e sorria. Ele estava feliz de estar ali comigo, e eu estava feliz por ter um amigo tão bom quanto ele.
Cinco minutos depois, eu acho, um homem entrou na sala da diretora, sorrindo amigavelmente para mim. Eu conhecia aquele sorriso, sabia que sim.
- ? - ele também me conhecia, eu sabia - Não acredito!
Ainda fiquei algum tempo tentando me lembrar quem era ele, até que um flash invadiu minha cabeça. Sorri, me levantando e o abraçando.
- Josh! Nunca imaginei te encontar assim - rimos juntos.
- Minha nova companheira de equipe? - ele perguntou à diretora, que afirmou, etendiada. Matt também tinha uma cara sem expressão.
- Que bom que se conhecem, podem ir agora - ela falou por fim, nos expulsando educadamente da sua sala. Trocamos olhares e saímos em seguida.
- Estou feliz por você estar aqui - Josh passou o braço por meu ombro.
- Estou feliz por ter voltado.
- Estou feliz por estar aqui também - Matt falou pausadamente e revirando os olhos, me fazendo rir e levantar uma sombracelha - Que é? Não é ciúmes, ok?
- Josh, esse é o meu melhor amigo, Matt - apresentei - Matt, esse é um velho amigo, Josh.
CAPÍTULO 17
'You're the answer.
Você é a resposta.
All this time I've tried to find you.
Todo esse tempo eu tenho tentado encontrar você.
I've been yearnin' (I've been yearning inside)
Eu tenho desejado (Eu tenho desejado por dentro).
You're the answer to the question'
Você é a resposta para a questão - Britney Spears
A minha equipe médica, composta por mim, Josh e mais dois médicos um pouco mais velhos que nós, era a equipe responsável pela UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), onde estavam os casos mais graves do hospital. Na nossa equipe também tinha os enfermeiros, e claro, Matt estava entre eles.
Caminhávamos eu e Josh pelos leitos da UTI, enquanto ele me explicava superficialmente cada caso ali. Eu tentava forçar a minha mente a se lembrar de tudo que ele dizia.
- Naquela maca ali, está um caso realmente difícil para nós do hospital - ele pegou a minha mão e foi me levando até a maca mais afastada, porém parando a uma certa distância para continuar a falar - Está em coma, há alguns anos, e não conseguimos localizar a sua família. Tem três amigos que vem sempre ver como ele está, se acordou, esboçou alguma reação ou coisa do tipo, mas seu quadro não apresenta nenhuma alteração, como eu disse.
Senti compaixão daquela pessoa deitada na maca, a qual eu não podia ver o rosto, só pela sua história.
- Não conseguiram localizar ninguém da família?
- Não - Josh demonstrou tristeza - E a pedido dos amigos dele, não podemos anunciar que estamos procurando. É difícil entender, mas parece que ele sofreu um atentado, e tem medo de que quem começou o 'serviço', volte para terminá-lo. O mantemos aqui em segredo, por assim dizer.
- Não entendo muito bem, na verdade - entortei a boca, sincera.
- Vou pegar a ficha dele para você dar uma olhada - e se afastando, foi até a cabeceria da cama do paciente e pegou sua ficha, voltando e me entregando - Vou ali e já volto, não demoro.
Me deixou sozinha com a ficha na mão, indo para sei lá onde. Voltando minha atenção para o trabalho, desviei meu olhar para o papel que estava nas minhas mãos.
Senti um aperto no meu coração e minha pressão baixou rapidamente. A última coisa que vi antes de cair no chão foram aquelas letras pequeninas mostrando o nome do paciente: .
- O que será que deu nela?
- Será que vai demorar pra acordar?
- Acho melhor buscar um copo d'água.
Vozes distantes, distantes, perto. Abri os olhos com dificuldade, sentindo minha cabeça girar e sentei de vez, piorando tudo. Matt estava sentado bem a minha frente e ficou supreso com minha reação repentina, me abraçando forte.
- Você está bem? Posso saber o que aconteceu? Você tomou café direito hoje? Você quer alguma coisa?
- Calado - ri baixinho, colocando a mão na boca do meu amigo, fazendo ele revirar os olhinhos azuis. - Estou bem, quer dizer... Acho que tive uma alucinação, sabe? Li o nome na ficha do paciente e...
- Mas o paciente é , não é alucinação - Josh me interrompeu, fazendo minha cabeça girar mais uma vez. Matt arregalou os olhos, entendendo tudo dessa vez.
- O que esse paciente tem? - ele perguntou cautelosamente para Josh, que respirou fundo antes de falar.
- Levou um tiro na cabeça, uns cinco anos atrás. Desde então está em coma, mas não conseguimos localizar a família dele. Só alguns amigos que vem aqui de vez enquando, ver se ele acordou.
Matt balançou a cabeça negativamente, parecendo não saber o que falar. Eu estava na mesma situação, me sentindo inútil. esteve esse tempo todo em coma, preso naquela cama de hospital e eu nem sequer sabia disso? Minha pulsação entrava num ritmo frenético, fazendo minhas temporas latejarem.
- Vem, vem comigo, - Matt me arrastou para fora daquele lugar e fomos caminhando em silêncio pelos corredores quase vazios do hospital.
Estava bastante frio e o inverno se aproximava, eu não dava um mês pra começar a nevar.
- Quer conversar? O que você está sentindo com isso?
- Nada. Estou anestesiada agora. - respondi sinceramente, porque eu nao conseguia sentir nada no momento. Primeiro foi o choque, depois a dor e agora... Nada. Em resumo, eu devia estar sentindo uma dor tão forte que me anestesiou.
Matthew passou um braço por meu ombro, me dando um meio abraço e ficamos olhando por um janela que tinha no final do corredor. Muitas pessoas passando nas ruas lá embaixo, com certeza levando suas vidas normais e eu senti inveja de cada uma delas. Tenho vergonha de dizer isso, mas senti.
- Não gosto de te ver assim, você estava tão animada antes, por poder voltar para Londres.
- Você entende que o único cara que eu amei na minha vida, está em coma há cinco anos? - falei baixo, sentindo um nó realmente grande se alojar em minha garganta - Eu queria poder trocar de lugar com ele.
- Olhe para mim - ele segurou meu queixo, limpando uma lágrima que tinha rolado pela minha bochecha - Tudo na vida tem um propósito. Se o está naquela cama e você foi designada para cuidar dele, pensa pelo lado bom. Ele estará em boas mãos. Aliás, as melhores mãos que ele poderia estar. De alguém que o ama tanto, que foi capaz de tudo para salvá-lo.
- E não consegui, enfim - suspirei, embora as palavras dele tivessem me animado um pouco - O precisa de mim.
Saí correndo em direção a UTI, quando realmente entendi os valores daquelas palavras.
Puxei uma cadeira colocando ao lado da cama do e me sentei, com a sua ficha em mãos. Lia e relia aquele pequeno relatório sobre o que havia acontecido com ele, tentando ignorar a dor que latejava em meu peito. Olhei por cima do papel para , e se não fossem pelo aparelhos que o ajudavam a respirar, eu diria que ele estava dormindo, de tão sereno que era o seu rosto. Levantei, deixando a ficha dele em cima da mesinha, e toquei de leve em sua bochecha, sentindo o calor da sua pele contra a minha. Levei minha mão até seus cabelos, notando o quão embaraçado eles estavam. Na mesma hora, peguei a minha bolsa e tirei de dentro dela uma escova pequena, daquela que toda mulher leva pra qualquer lugar. Cuidadosamente passei a escova pelos fios finos do cabelo dele, desembarançando lentamente, e me sentindo útil por poder fazer algo por ele, mesmo que fosse algo tão pequeno.
Uns passos se aproximando me fizeram dar um pulinho para trás, guardando a escova novamente na minha bolsa e pegando a ficha novamente, fingindo ler interessadamente.
- Aí está você, garotão - o cara que chegou falou animado com , como se ele pudesse ouvir - Desculpa a demora de vim te ver esses dias, as semanas estão corridas lá na empresa. Sabia que os australianos fecharam contrato com a gente? Cada vez melhor, cara.
Ele parecia estar ignorando a minha presença, talvez acostumada pelo fato de sempre ter médicos e enfermeiras passando por ali. Mas eu não ignoraria aquela figura, não mesmo. Nem em quinhentos anos eu esqueceria dele. Meu sorriso se abriu ao mesmo tempo que meus olhos enxiam-se de lágrimas novamente. Rotina, já.
- ? - arrisquei e ele se virou para mim, me reconhecendo de primeira e ficando levemente assustado. Ok, altamente assustado, seria o termo melhor.
- ? Como assim? - ele se aproximou de mim, meio incerto ainda. Mas eu estava muito emocionada para saber de incerteza e me joguei nos braços dele, o abraçando tão forte para tentar acalmar meu coração. Ele retribuiu o abraço e por um bom tempo ficamos daquele jeito.
Quando nós dois nos acalmamos, fomos tomar um café na lanchonete do hospital.
- Quando você voltou? Por que?
- Ontem, na verdade - peguei minha xícara de café, colocando açúcar - Fui transferida para esse hospital.
- E eu que não acreditava em destino - ele bateu na própria cabeça, parecendo espantado - Logo no hospital onde o está, com milhões de hospitais pelo mundo.
- - falei séria - Por que eu nunca soube o que tinha acontecido com ele? Por que não me ligar para contar?
- Olha, , nós só estávamos zelando pela vida do - ele também ficou sério.
- Explique isso, não estou entendendo nada. - depois de exitar alguns minutos, ele se deu por vencido e suspirou.
- O cara que atirou no , sabe... Ele não atirou por livre e espontânea vontade - desviou o olhar do meu - Ele foi à mando, mando do teu pai. E então, resolvemos não te contar nada para não complicar ainda mais as coisas.
Agora tudo estava se encaixando. Meu pai.
Sempre ele.
Sempre ele pra estragar minha vida, para fazer as coisas erradas achando que estava me protegendo. A que ponto ele tinha chegado? Tentar matar o ? Recriminei as lágrimas que tentaram escapar pelos meus olhos, porque eu tinha jurado a mim mesma que jamais voltaria a chorar por aquele homem. Quando fui pegar a xícara, notei que minha mão tremia.
- Então, mesmo depois de todos os meus esforços para manter o bem, ele tentou matá-lo - resmunguei, mais para mim mesma do que para o , mas ele pareceu ter ouvido, já que tocou minha mão.
- O cara foi preso, assumiu toda a culpa sozinho - se endireitou na cadeira para continuar a me contar aquela história - Mas eu resolvi conversar com ele na cadeia. Ele assumiu só para mim quem tinha sido o mandante. E me contou tudo, . Contou que você foi para Nova York por um trato com teu pai. E ele teria cumprido a parte dele no trato, se o não tivesse tentado ir atrás de você.
O tinha tentando ir atrás de mim? Foda-se, eu já estava chorando novamente.
- idiota - funguei, porém achando linda a atitude idiota dele.
- Seu pai, com as fontes dele - rolou os olhos e eu fiz o mesmo - Descobriu isso e tratou de impedí-lo de um jeito, digamos... Radical.
Vi o Josh entrando na lanchonete e acenando para mim, apontando para o relógio. Eu estava no horário de trabalho ainda, droga. Fiz um 'ok' para ele com a mão e voltei a encarar o , que também tinha os olhos vermelhos.
- Deculpa, , tenho que voltar ao trabalho - remexi na minha bolsa e tirei meu cartão de lá - Me liga pra gente se econtrar, temos muito pra falar ainda.
No fim do dia eu estava exausta. Eu tinha consciência de que o cansaço era mais emocional do que físico e por isso sentei em uma cadeira vazia em um dos corredores do hospital, enterrando minha cabeça nas minha mãos. De olhos fechados comecei a fazer um balanço daquele dia. Tentei separar os fatos em positivos e negativos, mas eles eram tão entrelaçados que eu tive que suspirar, desistindo.
Que bom ter reencontrado o . Era tudo que eu queria.
Mas econtrá-lo naquela situação, nunca, nem em minhas imaginações mais macabras, se passou pela minha cabeça. Teria doído menos se eu o tivesse encontrado casado e com cinco filhos. Ridícula a minha comparação, nada se comparava a dor de ver o homem da minha vida em coma, e por minha culpa.
Minha culpa.
Culpa do pai que eu tenho.
- Vamos para casa - Matt parou na minha frente, estendendo uma mão para mim. A segurei, levantando preguiçosamente e ele me arrastou até o carro, que estava no estacionamento.
- Preciso tanto dormir - sentei no banco do passageiro, jogando as chaves para ele.
- Eu sei, você está com uma expressão acabada.
- Amanhã eu vou ver o de novo - sorri besta e fechei os olhos. Acho que dormi no carro mesmo, e Matt me carregou até meu quarto.
CAPÍTULO 18
Another day without you with me,
Outro dia sem você comigo,
Is like a blade that cuts right through me.
É como uma lança que me corta ao meio.
But I can wait, I can wait forever.
Mas eu posso esperar, eu posso esperar pra sempre. - Simple Plan
- E a ? - perguntei, enquanto jantávamos juntos três dias após o reencontro no hospital. suspirou e deu de ombros.
- Nós terminamos há dois anos e desde então temos nos visto raramente, e por acaso.
- Desculpa - entortei a boca, sentindo o destino ser malvado mais uma vez.
- Mas eu tenho o endereço dela, se você quiser ir lá.
Sorri largamente concordando com a cabeça. O garçom chegou com nossos pedidos, e eu agradeci mentalmente por isso, estava com muita fome. Fome de verdade, fome de quem passou o dia todo trabalhando preocupada.
- Estou com saudades daquela idiotinha - rimos, mas eu notei o olhar do ficar triste. Segurei sua mão, por cima da mesa, e apertei de leve.
- Eu também sinto falta dela.
- Por que vocês acabaram? - fui direta e indiscreta.
- Eu estava ocupado com as coisas da empresa, pedi um tempo. Ela disse que tempo era desculpa, e então acabamos - suspirou, passando a mão pelo cabelo - Fui um tonto.
Foi sim, foi até mais que isso. Perder uma garota como a era burrice no último grau. Mas o não precisava ouvir aquilo, não naquele momento, então me limitei a balançar a cabeça.
- Você não mudou nada, - analisou - Ainda parece uma garota de 15 anos.
- Qual é, - bati no braço dele - Cresci.
- O ia gostar de te ver assim.
- Eu quero que ele me veja, mais que tudo.
Ficamos em reflexão, jantando e engordando alguns (muitos) quilos, com nosso prato cheio de massas.
[Flash Back]
- Você está lindo - ele vestia uma calça jeans meio colada e uma blusa social roxa, com as mangas dobradas até o cotovelo. O cabelo estava lindo como sempre. Ele tinha um sorriso no rosto que dava uma toque final ao visual.
- Eu nem sei que adjetivo usar pra te definir. Posso usar um pronome? - ele perguntou, segurando minha mão. Dei de ombros e ele aproximou a boca do meu ouvido e sussurrou - Minha.
Me arrepiei pela voz rouca dele e pelo que ele disse. Me afastei um pouco, temendo não conseguir resistir e agarrá-lo ali, sem me importar com mãe, pai, cachorro, vizinho.
[End Flash Back]
Cheguei em casa feliz, apesar de cansada, e fui direto tomar um banho tranquilizante, tentando fazer o mínimo de barulho possível, já que Matt dormia feito um anjo. Só parecia mesmo, porque quando eu saí, ele ficou encapetado, dizendo que eu ia trocá-lo pelo agora, bobinho.
Saí do banho, vestindo um moletom bem quentinho e não me permiti dormir, sem dar uma olhada na ficha médica do . Aquilo estava virando minha rotina antes de dormir. Eu sempre lia aquele papel, buscando novas informações, tentando escontrar uma novidade, uma solução para o caso do meu garoto. Quanto mais eu lia, menos eu descobria e mais nervosa eu ficava. Odiava o fato de ser inútil, ainda mais para o .
Fui até a cozinha preparar um café bem forte, para despertar meu sono. Depois de bebê-lo, peguei o notebook e sentei no sofá, com ele no colo, começando uma pesquisa profunda de casos parecidos com o dele. Não era muito comum, mas existiam alguns. A maioria sem o final feliz, que eu estava esperando. A maioria ficava em coma até morrer, e não, isso era o que eu não aceitava de jeito nenhum.
Eu não tinha o que fazer pelo , entender isso doía muito, sufocava. O cara que eu amo perdeu cinco anos da vida dele, e provavelmente perderia muito mais, por minha culpa. Porque ele me amava. Como o amor, um sentimento tão nobre e puro, pode trazer consequências tão dramáticas? Enxugando algumas lágrimas com a manga da camisa, desliguei o notebook e fui deitar. Meu sono tinha passado graças ao café e eu fiquei rolando nela por um bom tempo.
- Não se preocupe, Sra. Petterson - tranquilizei uma senhora de aparentemente 50 anos, com um semblante triste e cabelos cacheados e brancos caindo sobre seus ombros - Seu marido ficará bem, ele está sendo transferido para a CTI agora.
- Ele já está fora de perigo, doutora?
- Sim, reagiu muito bem aos medicamentos - segurei em suas mãozinhas enrugadas, tentando passar segurança.
- Então porque ficar na CTI?
- Ele precisa ficar em observação, mas já disse para se tranqulizar - sorri - Ele estará em casa dentro de poucos dias.
Depois de me agradecer, vi aquela senhora tão agradável ir com seus passinhos lentos andar pelos corredores do hospital, até a perder de vista. Estava perto da minha hora de largar, e eu precisava ir ver o . Mas ainda tinha que ver outro paciente. Fui caminhando pela UTI, leito após leito, examinando com os olhos todos os pacientes e seus poucos acompanhates que o horário permitia. Duas semanas já haviam se passado, desde a minha chegada. Mas era como se fosse uma eternidade. Cada noite que eu dormia sem ver nenhuma melhora no , eu tinha certeza que envelhecia vinte anos.
Matt apereceu ao meu lado, rolando os olhos.
- O que aconteceu? - estranhei.
- , seu amigo do coração, está aí. - ri, tentando ser discreta no ambiente de trabalho - Fica rindo aí, depois não reclama quando eu te trocar por uma médica bonitona.
- Bobo - o abracei de lado, andando até a maca do , encontrando sentado na cadeira perto dele.
- - ele se levantou, beijando meu rosto e Matt se afastou de nós, me fazendo rolar os olhos dessa vez. Pude ver pelo canto de olho que ele foi verificar o . Ok, pelo menos isso. - Que horas acaba teu espediente?
- Daqui a 10 minutos - conferi no relógio.
- Vou te fazer uma surpresa hoje - sorri - Você vai vir com a gente, Matt.
Matt parou o que estava fazendo e nos olhou por cima dos ombros, desconfiado. Acenou afirmativamente com a cabeça e voltou a cuidar do . Ri baixinho com o , agradecendo em silêncio por ter feito isso. Eu não queria ter que escolher entre ele e o Matt.
Não estava feliz com a ideia de sair pra jantar fora com a calça branca e a pólo branca com listrinhas rosa bebê que eu passei o dia trabalhando, mas o disse que não dava tempo de passar em casa pra trocar de roupa e muito menos de tomar banho, então lá estávamos nós, entrando num restaurante bem arrumadinho num bairro típico da cidade.
O cheiro da comida, mais forte ainda por causa do aquecedor interno, me fez notar que eu realmente estava com fome. Caminhamos até a mesa mais afastada da entrada e meu coração começou a bater acalerado contra meu peito ao reconhecer a garota, agora mulher, sentada naquela mesa. Algumas lágrimas de intensa felicidade rolaram pelos meu rosto quando ela virou o rosto para mim e sorriu abertamente, levantando e vindo me abraçar. Não muito diferente de mim, ela começou a chorar baixinho no meu ombro.
- Senti tanto a sua falta esses anos todos, - sussurrou, me soltando e segurando meu rosto entre as mãos - Como você cresceu! Mudou, é uma mulher!
- Você está incrível! Linda! - a analisei também e olhei pro - Ela disse que eu sou uma mulher, ao contrário de você, que ainda acha que tenho 15 anos.
Rimos juntos. Fizemos as apresentações necessárias entre e Matt, e nos sentamos para jantar.
Depois de cinco anos, minhas conversas com a ainda fluiam naturalmente, e era tão bom poder recuperar mais uma coisa que eu tinha deixado para trás. De vez em quando eu tinha que segurar uma vontade de abraçá-la de novo, e perguntar se era real, se ela estava ali comigo mesmo. Podia parecer bobo, então eu me limitava a sorrir com ela.
Não podia deixar de notar o olhar hipnotizado do para ela, isso não havia mudado nada. Ela também lhe lançava alguns olhares, porém mais discretos, olhares magoados na maioria das vezes. Matt parecia feliz, conversava animado e talvez tinha colocado na cabeça que eu não o trocaria por ninguém. Ele e se deram muito bem, claro. Os dois eram loucos e estranhos.
- , muito obrigada por isso - agradeci muito sinceramente.
- Não agradeça, . Fiz isso por você e por mim - ele sorriu - Eu precisava disso tanto quanto você.
- Não força, - o censurou, mas acabou sorrindo um pouco. Enfim, ele lançou a indireta, ela rebateu de má vontade, mas tinha gostado. Que típico.
N/A: Estou ouvindo cine enquanto faço essa N/A, então não esperem que saia algo produtivo. Q ASUMHUAMHSAUSHUSAMHSA Bem, sério agora, eu estou fazendo o máximo pra não atrasar as atualizações e essa semana acho que consegui. Mas segunda-feira, cursinho intensivo aí vou eu. Pois é, já comentei o quanto odeio e amo estar no terceiro ano? Antíteses do meu último ano escolar G.G Eu queria muito que a Camila Miranda visse essa Fic, acho que vou falar com ela. Pra quem sabe, ela me ajudou nos primeiros capítulos, mas depois nos desencontramos na internet e continuei sozinha. Ela foi uma das primeiras pessoas a saber quando eu tive a ideia pra essa fic. Lá no group no McflyFacts . bons tempos. Enfim, é isso. Estou nostálgica. Espero que estejam gostando, estou fazendo de tudo por vocês, até escrever na hora da aula HAHAHA abafe the case. comentários *.*Volte ao topo para comentar!
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'I wanna know what love is
Eu quero saber o que é o amor,
I want you to show me'
Eu quero que você me mostre. - Mariah Carey
, o sonho de consumo de qualquer garota que tenha dois olhos. Um sonho de consumo totalmente inalcansável, já que ele tem vinte anos, faz faculdade de direito e nunca sequer olhou pra mim. Sua vizinha de quinze anos, sonhadora.
- , saia da janela e vá arrumar seu quarto - minha mãe colocou a cabeça pela porta do meu quarto, gritou e saiu, batendo a porta com toda a força.
Ela estava de mau humor, notável. Fechei a janela, não antes de dar uma última olhada no meu vizinho que estava tocando violão na varanda de sua casa.
Olhei para meu quarto e ele não estava bagunçado, muito pelo contrário, estava bem arrumadinho. Minha mãe estava com problemas, sério. Desci as escadas, procurando por ela em toda parte e não a encontrei.
Subi novamente as escadas, ouvindo barulhos estranhos vindo do quarto dos meus pais. Me aproximei da porta, pé ante pé, segurando a respiração e colei o ouvido na porta.
- Estou farta! - minha mãe falava com a voz trêmula - Você nunca tem tempo para mim e para sua filha, é sempre o trabalho em primeiro lugar.
- Se você quiser eu paro de trabalhar e morremos de fome, certo? - meu pai rebateu, com certeza muito bravo, porque o trabalho era a vida dele. Ninguém podia falar mal dele. - Ou você acha que seu trabalho na revista vai nos sustentar?
- Eu não pedi pra você parar de trabalhar, só trabalhar menos.
- Eu não quero continuar essa discussão, por favor. - Ouvi passos e me afastei da porta, correndo para o meu quarto.
Esse era sempre o motivo das brigas entre os dois, e estava ficando cada vez mais constante. Deitei na minha cama de barriga para cima, encarando o teto por algum tempo.
Se eles continuassem a brigar assim, talvez o casamento não suportasse mais. Eu tinha medo de que eles se separassem, claro. Nunca passei muito tempo longe deles e só de pensar nisso sofro. Fechei os olhos tentando esquecer as palavars que eu ouvi. Um barulho de violão me fez relaxar e sorrir comigo mesma.
Violão? Levantei num salto da cama e corri para a janela. Claro, só podia ser ele. estava ainda na sua varanda, e agora tocava e cantava. Sua voz chegava bem baixa aos meus ouvidos, e era quase uma canção de ninar.
Encostei a cabeça no vidro da janela, olhando aquele homem tocar e cantar e a voz dele me envolver, como mágica.
I wish I could Bubble Wrap my heart, (Gostaria de poder embrulhar meu coração em plástico bolha)
In case I fall and break apart, (Em caso de que cair e quebrar)
I'm not God I can't change the stars, (Eu não sou Deus, eu não posso mudar as estrelas)
And I don't know if there's life on Mars, (E eu não sei se há vida em Marte)
But I know you're hurt, (Mas eu sei que você está machucada)
Ele parou de cantar e olhou para a minha janela, abrindo o sorriso mais lindo que eu já vi em toda a minha existência. Corei e retribui o sorriso, logo em seguida fechei a cortina e me joguei na cama.
Agora ele pelo menos sabia que eu existia. Meu coração bombeava sangue com uma força incrível para o resto do meu corpo.
- Não vou poder te levar no colégio hoje, querida - minha mãe comentou, enquanto eu tomava meu café-da-manhã. - Tenho uma reunião no meu inútil trabalho.
Ela lançou um olhar matador na direção do mau pai, que revirou os olhos e voltou a ler o jornal do dia.
- Tudo bem, vou a pé - sorri - Estou precisando fazer atividades físicas mesmo.
Escovei meus dentes e peguei minha bolsa. Estava pronta para sair. Ao passar pela porta da cozinha ouvi uns gritos.
- Você não vai almoçar com a gente? Todo dia é isso agora! - minha mãe se exaltou e outra briga estava a caminho. Andei mais rápido, não queria ouvir mais nada, eu estava começando a ficar cansada dos dois.
Peguei o Ipod na bolsa, e coloquei os fones no ouvido, ligando no volume máximo. O estresse da minha casa estava afetando e muito a minha vida, eu estava tremendo. Algumas lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto, enquanto eu tentava andar mais rápido para chegar logo no colégio. Um vento forte bateu em mim e um dos meus fones saiu do lugar, então eu ouvi uma buzina. Virei para o lado, me deparando com um carro prata, modelo conversível e novo. Tirei o cabelo que estava no meu rosto por conta do vento, para poder enxergar direito. Minhas pernas tremeram ao ver quem estava dirigindo.
- Quer uma carona? - a voz de era ainda mais bonita assim, de perto. Neguei com a cabeça, meio sem saber o que estava fazendo. Eu tinha negado? Essa é a parte que eu me mato, certo? Ele sorriu para mim e parou o carro.
- É só uma carona, vamos lá. - Abriu a porta do lado do motorista e me fez entrar. Ótimo, eu não teria conseguido sozinha mesmo.
- Obrigada, err... - fingi que não sabia o seu nome. Ele não precisava saber que eu sabia da vida toda dele, ok?
- , - ele sorriu de novo e eu verifiquei se não estava babando. - Eu sei que o seu é .
- Sa-sabe?
- Claro, minha vizinha que fica me ouvindo cantar todos os dias - ele soltou um risada alta e eu o acompanhei, mesmo que com vergonha - Não sei como não reclamou ainda, eu canto mal.
- Não mesmo, sua voz me acalma. - falei merda e bati na minha própria testa, ele riu disso.
- Bom saber - piscou e voltou a encarar a rua - Nunca te vi andando a essa hora.
- Normalmente minha mãe me leva, mas hoje não deu.
- Sorte sua que eu saí na mesma hora, para a faculdade - ele parou o carro em frente ao meu colégio e se virou para mim - Boa aula.
- Obrigada. - fiquei meio confusa: como ele saia que eu estudava ali? O encarei e ele pareceu entender na hora.
- Graças ao seu uniforme eu não precisei perguntar onde ela era - sorriu de novo e deu partida com o carro - Até mais.
Certo, podemos dizer que uma parte do meu sonho estava se realizando? Não, claro que não. Era só uma carona, ele nunca pensaria em ter nada comigo. Eu não podia ficar pensando nisso agora, já estava em cima da hora de entrar. Olhei para a rua e o carro prata já havia sumido, então entrei no colégio.
Quando dei o primeiro passo ouvi uma voz gritando meu nome.
- ! ! ESPERA, ! - quando olhei era a . Óbvio que ela tinha percebido a diferença do carro que eu cheguei no colégio hoje, eu tinha até certeza de que ela ia me perguntar com quem eu peguei carona com uma cara de super curiosa, como sempre.
- Com quem voce pegou carona? - Nossa, como ela é previsível. - Ou, a sua mãe trocou de carro?
- Não, eu peguei carona com o meu vizinho! - Respondi sem pensar. Ninguém sabia do meu amor platônico pelo meu vizinho super gato. Eu não sabia exatamente como contar, principalmente por ser a pirralha da sala. Eu, com 15 anos, já cursava o terceiro ano do ensino médio. Ok, não é uma coisa que acontece todo o tempo, mas aconteceu comigo. Todas as minhas amigas tinham 17 anos, não que seja uma diferenca muito grande, mas elas podiam pensar que era idiotisse isso! Então, nunca tomei coragem para contar para alguém. A era a minha melhor amiga, desde que eu entrei no colégio. Ela nunca escondeu nada de mim e eu também nunca escondi nada dela. Tirando isso.
- Que vizinho? Você nunca me falou nada de vizinho nenhum. - ela começou a falar, enquanto andávamos pra sala. Sorri sem graça e dei de ombros.
- Depois a gente fala sobre isso, a professora chegou.
Não consegui prestar atenção na aula, como sempre. Eu só pensava em voltar para casa e ouvir o meu vizinho cantando. Bobo, eu sei, mas me fazia tão bem. Quando o sinal tocou meu material já estava arrumado. Peguei as minhas coisas e saí mais apressada do que de costume. Quando cheguei no portão percebi que a minha mãe nao tinha chegado. Peguei o celular e liguei para ela. Odiava ter que ficar esperando e ela sabia disso. Chamou três vezes e ela atendeu.
- Mãe, cadê você? A aula já acabou! Vem me buscar!? - falei tudo de uma vez, para ela entender minha aflição.
- Ah, filha, desculpa. Eu nao vou poder ir te buscar hoje! Tenho um compromisso. Volta andando, meu amor? - De novo isso? Tudo culpa das brigas dela com meu pai, aposto. Agora ela queria trabalhar tanto quanto ele, pra mostrar que eram iguais e eu me ferrava.
- Ok, mãe. - Respondi sem demonstrar nenhum sentimento.
Comecei a andar em direção à minha casa. Eu realmente não estava mais me importando pela minha mãe não poder me levar para casa, afinal, foi a primeira vez. Embora eu achasse que iria se tornar rotina.
Mas enfim, continuei andando, pensando no que o meu lindo vizinho poderia estar fazendo. Ou ele estava almoçando, ou tocando violão na varanda! Eu queria muito chegar logo em casa para poder vê-lo.
Continuei andando e como não era muito longe, logo estava na rua de casa. Mas infelizmente, não estava lá tocando seu violão, como sempre fazia. Fiz uma careta involuntária e entrei em casa, deixando minha mochila em cima do sofá e correndo para a cozinha. O almoço ia ser algo como miojo e ovo frito, já que minha mãe se recusava a estar em casa.
Depois que almocei e tomei um banho relaxante me joguei na cama, com os livros abertos, pronta para estudar. Terceiro ano exige muito da gente e eu tinha que manter minhas notas altas para a faculdade.
Fórmulas de física, química, álgebra e geometria passadas, eu fechei todos os livros e me espreguicei na cama. Olhei para o relógio de parede pendurado em cima da minha cama e constatei que eram cinco e trinta.
Ouvi conhecidas notas musicais e, sem pensar duas vezes, corri para a janela. Abri lentamete a cortina e sorri, vendo com o violão no colo. Ele sorriu de volta, colocando o violão no chão e se levantando.
- Hey, era você mesma que eu queria ver - Oi? Ele realmente disse isso ou fórmulas matemáticas me deixam drogada?
- Como? - minha cara deve ter sido a de maior interrogação do mundo. Ele passou a mão no cabelo, o jogando para trás e quase que eu me jogo da janela.
- Queria conversar com alguém, pode ser você? - ele falou de um jeito fofo e eu concordei com a cabeça.
- Já chego aí - dei um tchauzinho discreto e fui procurar minha sandália. Assim que a calcei, voei escada abaixo e abri a porta, saindo meio descabelada pra rua. Ele ainda estava na mesma posição, e o violão ao seu lado.
- Oi, - ele sorriu, me indicando um lugar ao seu lado, e eu me sentei - Desculpa atrapalhar alguma coisa, mas eu sou assim, egoísta mesmo. - ele riu e eu neguei com a cabeça - Eu precisava de alguém pra conversar.
- E eu estou aqui por vontade própria, seu bobo - dei língua e me xinguei por ter feito isso. Era para ele realmente achar que eu sou uma criança? - Ta com algum problema?
- É, cara, eu tô - ele fez uma voz fofa e pegou minha mão - A gente nem se conhece direito e eu vou te encher com meus problemas? Sou muito otário mesmo.
- Hey, deixa disso - apertei a mão dele entre as minhas, para passar confiança e ele olhou nos meus olhos. Já comentei que os olhos dele são lindos e brilham? - Posso ajudar?
- Eu vim morar aqui quando comecei a faculdade de direito e bom... Essa não é a minha áera, eu gosto é de música - ele apontou o violão e tinha um sorriso no rosto, mas logo ficou sério - Se meus pais um dia sonharem com isso, cortam tudo. Tudo bem, sou maior de idade, mas não trabalho, não tenho como me sustentar. E ainda tenho que estudar pra faculdade que eu não gosto, por que eles fazem questão, sabe?
- Deve ser complicado para você ter que agir assim - comentei, ainda apertando sua mão.
- E era mais porque eu não tinha ninguém pra compartilhar. Agora tenho você - ele passou a mão livre pelo meu rosto, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha - Obrigado por me ouvir e aceitar ser minha amiga.
- Obrigada por ter me dado essa honra - brinquei, corando, e ele gargalhou. Levantei batendo na bunda pra limpar e senti o olho dele sobre mim - Bem, vou pra casa.
Ele levantou também, pegando minha mão e me puxando pra perto. Beijou meu rosto demoradamente e eu esqueci meu nome.
- Tchau, e se precisar dou carona amanhã - piscou, pegou o violão e entrou em casa. Fiz o mesmo.
CAPÍTULO 02
'I do my best game
Eu faço o meu melhor jogo,
But I lose my luck when you're not here'
Mas eu perco minha sorte quando você não está aqui - John Mayer
- , não vou te levar no colégio de novo. Tenho outra reunião - minha mãe falou já saindo da mesa. Meu pai, porém, estava perto dela e a segurou pelo braço.
- Todo dia é isso? Trocando sua filha por trabalho? Esse não era o MEU defeito? - ele rosnou e ela piscou algumas vezes antes de fazer qualquer coisa - , vai já pro colégio.
Sem ouvir outra ordem, peguei minha bolsa e meu caderno e corri pra fora de casa. Lágrimas molhavam meu rosto e eu tremia.
- HEY, ! - a voz doce e suave que eu precisava ouvir me chamou e eu virei o rosto para ver se era verdade ou apenas um ilusão minha. Ele estava em pé, em frente ao seu carro esporte e pareceu meio chocado ao ver que eu estava chorando. Sem pensar em mais nada, eu corri ao seu encontro o abraçando com força. Ele envolveu meu corpo com seus braços fortes e beijou minha cabeça - Calma, calma... Shii...
- Aw, , eu não aguento mais - chorei na sua blusa - Não aguento.
- Quer conversar?
- Tenho aula.
- Falta a aula e eu falto a minha. Isso realmente deve ser mais importante.
Ele me fez entrar no carro e colocou o cinto de segurança ao redor do meu corpo. Beijou minha testa antes de ir ao seu lado do carro. Deu partida no carro e ficou rodando pela cidade. Permanecemos em silêncio.
- Quer um sorvete? - ele perguntou com jeito de criança e eu sorri de lado - Vamos nessa sorveteria, que está perto - Ele apontou uma grande casa verde-limão e estacionou o carro numa vaga qualquer.
- Chocolate, sou tradicional - respondi quando o garçom me perguntou sobre o sabor.
- Flocos, também sou - ele riu - Ta melhor?
- Tô, obrigada por se preocupar comigo - corei.
- Quer me contar?
- Meus pais... Estao brigando muito e isso cansa.
- Deve ser ruim, - ele falou, meigo, e deu de ombros - Na minha casa nunca vi briga dos meus pais. Até acho meio enjoado o jeito deles, é tão meloso.
Ele riu e eu fi o mesmo, lembrando da época em que lá em casa as coisas também eram assim.
- Obrigada, de novo.
- De novo, por que? - ele levantou uma sobrancelha, ficando extremamente sexy com esse ato e me fazendo pensar em um jeito de jogá-lo na parede e... Bom, que seja, nunca vai rolar nada mesmo.
- Por estar sendo tão legal comigo.
- Então eu também tenho que agradecer, você é um doce - ele falou sério e eu comecei a rir, muito alto, porque 'doce' realmente não era um adjetivo muito usado para me definir. Não sou lá muito simpática, não faço questão. Mas com ele era diferente, notei agora. - Ta rindo de quê, bobona?
- Deixa pra lá, feio. - Já acabou o sorvete aí? - ele apontou para meu pote vazio e eu confirmei com a cabeça - Quer outro?
- Você quer me animar ou me engordar? - ele riu e rolou os olhos - Não quero, obrigada.
- Então vamos - ele levantou, deixando uma quantia de dinheiro sobre a mesa, quando fiz menção de pegar minha carteira, ele me arrastou até o carro - Eu convidei, eu pago, ok ?
- Não gosto muito disso, mas hoje eu deixo - concordei, entrando no carro - Vamos pra casa?
- Pra minha casa, vou te mostrar algumas músicas - ele sorriu e eu também, claro. Eu ia pra casa dele? O lado pervetido da minha mente trabalhava a todo vapor, imaginando mil maneiras de tirar a roupa dele - E além do mais, está cedo para você chegar em casa.
Está mesmo, eu posso passar o resto do dia com você, fazendo coisas beeem interessantes. Eu não disse isso, claro. Mas pensei.
E como pensei.
Eu nunca tinha notado esse meu lado selvagem. que deve aflorá-lo, fato.
- Que casa... linda - abri a boca perplexa. Não parecia nem de longe a casa de um cara solteiro e jovem. Ele fez uma cara convencida e eu soquei seu braço.
- Outch, você é violenta é? - ele deu um sorriso safado que eu ignorei. Na verdade eu ignorei minha vontade de dizer que se ele quisesse eu até dava tapinha na bundinha. - Vamos lá pra cima, vou cantar e você vai dar a nota para as minhas composições.
- Eu queria ouvir uma que te ouvi cantando um dia, tão bonita. - eu sorri e ele me puxou escada acima.
- Qual? Lembra alguma parte?
- Algo com plástico-bolha, talvez.
- Ah, sim - ele gargalhou - Então eu canto pra você.
Ele pegou o violão em cima da sua cama, me fez sentar e sentou também. Pigarreou alto e sorriu, logo em seguida começando a cantar. A voz dele era linda, perfeita com a música, que era bem tristinha. Ele cantava com muita emoção, como se aquela história tivesse sido real. Será? Ele acabou de cantar, jogou o violão, e ficou me encarando.
- , agora seria uma boa hora de me dizer o que achou - ele estava corado me encarando e eu com cara de bunda, sem dizer nada.
- Sua voz é linda, você toca muito bem e... Transmite muita emoção. - falei tudo que eu estava pensando e ele sorriu, meio tímido - É uma história real?
- Sim, é - ele confirmou o que eu já disconfiava. Então ele tinha amado uma garota e a BURRA o fez sofrer? Não o amou? Que tipo de doença mental ela tinha?
- Ok, não precisa ficar com cara de ovos lembrando o passado, ! - pulei em cima dele, fazendo cosquinhas em sua barriga (bem definida) e ele se jogou pra trás, deitando na cama, me fazendo ficar por cima. Quando dei um tempo para ele respirar e voltar a cor normal (ele tinha adquirido um engraçado tom de rosa no rosto) percebi o quanto estávamos próximos. Tentei levantar, mas a mão dele segurou meu pulso, e a outra apertou minha cintura. A respiração quente dele batia contra minha boca fechada e um sorriso simples se formou nos lábios dele. Ele inclinou um pouco a cabeça pra frente, de modo à apenas roçar os lábios nos meus, me fazendo respirar profundamente e fechar os olhos. Entendendo isso como um sinal verde, ele tirou a mão do meu pulso e colocou nos meus cabelos, forçando minha cabeça na direção da dele, e chocando nossos lábios com certa precaução. Sua língua contornou minha boca e eu a abri, sem pensar muito para tomar essa decisão. Quando nossas línguas se tocaram, pude sentir cada célula do meu corpo festejando. Não é todo dia que uma pessoa realiza um sonho, não é mesmo? Nossas línguas continuavam a brincar, numa sincronia invejável. Minha mão segurava o rosto dele, enquanto a outra passava por cima da sua barriga, coberta pela blusa. A mão dele apertava cada vez com mais força minha cintura e num movimento rápido, ele estava por cima e eu por baixo. Ele separou nossos lábios e abriu os olhos, no mesmo instante que eu o fiz. Nos encaramos e sorrimos, feito dois idiotas.
- Acho melhor eu sair de cima de você - a voz rouca dele anunciou e eu queria gritar que ele podia ficar, mas apenas contraí os músculos. Ele não olharia mais na minha cara depois disso, não é mesmo? Ele levantou, sentando na cama. Fiz o mesmo, ainda meio sem saber o que falar, fazer ou como sair correndo dali. - Eu estava indo rápido demais não é? Fiquei com medo de te assustar...
Me assustar? Se ele soubesse tudo que eu penso dele e com ele, saberia que nunca me assustaria. Na verdade, ele sairia correndo, ligaria pra polícia para me denunciar ou algo do tipo. Devo ter vocação para tarada profissional.
- Está tudo bem, você não me assustou - cocei a cabeça e ele suspirou aliviado, talvez - Nós dois nos deixamos levar pela situação e...
Ele colocou a mão na minha boca, me pedindo para calar.
- Gosto de você, do seu jeito - ele sorriu e acabou com a distância que existia entre a gente, beijando minha bochecha e fazendo um atrilha de beijos até minha boca, onde começou a beijar com mais intensidade que antes, e bem mais vontade. Mas o beijo não durou muito, logo estávamos separados de novo, apenas com as mãos entrelaçadas.
- Tenho que ir - olhei no relógio, e já era hora de chegar em casa.
- Te levo até a porta, madame - sorriu e se despediu de mim, na porta, com um selinho demorado.
Preciso comentar que nem as brigas de meus pais conseguiram tirar o sorriso do meu rosto?
Três semanas haviam se passado desde aquele beijo na casa do . Não teve um dia em que não nos vimos/ficamos. Se para mim, ele já era perfeito sem eu nem ao menos conhecê-lo, ficando com ele a perfeição parecia ser maior. Mantinhamos nosso caso em segredo, e eu não sei ao certo o porquê. Bom, na verdade, eu tinha medo da reação dos meus pais afinal, era cinco anos mais velho que eu, estava na faculdade e morava sozinho. Algo que meu pai não julgava ser o melhor para mim. E com todo o problema que meus pais tinham em casa, eu não queria ser responsável por levar-lhes mais um. Para os meus amigos eu não contava pelos mesmos motivos que eu não contei que amava o . Todos achariam que eu era muito nova para ele, no estilo do meu pai. A única que ficou sabendo foi a , porque me conhecia tão bem que não tive como esconder. Ao contrário do que eu achava, a reação dela foi muito boa. Ela me deu o maior apoio e quando o conheceu, o achou a melhor pessoa do mundo. Claro, quem não acharia? Mas ela tinha um motivo a mais para ir com a cara do . Um certo amigo dele, . A garota pôs os olhos no menino e se apaixonou. Coisa de cinema.
- O é a coisa mais linda do mundo, você já viu o sorriso dele? - ela fazia gestos exagerados e seus olhos brilhavam. Rolei os olhos, me jogando na cama.
- Quer calar a boca e me ensinar geometria?
- Quer parar de pensar em números e prestar atenção no que eu digo? - ela gargalhou e se jogou ao meu lado - Eu o quero.
- Eu sei, e por que não chega junto? - dei um pedala sustento nela, que me olhou brava.
- Porque eu não quero parecer oferecida, querida. Ele que tem que chegar em mim - falou com ar de superior e eu dei de ombros.
- Posso falar com o se qui...
- QUERO, QUERO! CLARO QUE EU QUERO! - cortou a minha frase e ainda se jogou em cima de mim, me enchendo de beijos pelo rosto. A afastei com as duas mãos, jogando-a cama abaixo. O baque surdo dela caindo me fez gargalhar. - Vai ter volta, !
- Vou esperar sentada, Mrs. Apaixonada - zoei e ela se levantou, fazendo cócegas na minha barriga - Me solta, sua feia!
Rimos feito duas crianças e depois nos concentramos na geometria. tinha uma facilidade absurda com a matéria e eu sempre boiava no meio daquelas fórmulas. Quando acabamos, fomos fazer um lanche e como estavámos sozinhas, fomos na casa do meu .
- Oi, - ele me cumprimentou com um selinho, me puxando rápido para dentro de casa. entrou logo atrás, sorrindo - Oi, .
- Oi, - ela sentou no sofá e cruzou as pernas - Ta sozinho?
- Pergunta logo se o está aqui, boba! - dei um pedala nela, e ela corou, olhando para algum ponto atrás de mim. Virei o rosto assustada e me deparei com o , também corado, sorrindo sem graça. - Opa, oi, .
- Oi, - ele se virou para - Oi, .
Virei para minha amiga e ela mexeu a boca sem emitir som num perfeito 'Vou matar você, vadia'. Eu balbuciei 'Desculpa' e ela enfiou a cara nas mãos. começou a rir descontroladamente e acabou caindo no chão, segurando a barriga de tanto rir. Dei um delicado chute na perna dele, e só assim ele parou, se levantando e me puxando para a cozinha.
- Ela vai me matar, - acabei rindo também, já que estava longe dela. Ele me abraçou, enfiando o rosto no meu pescoço. Me arrepirei quando senti seus lábios tocarem minha pele.
- Eu não deixo, você é só minha - ele passou a língua delicadamente, chegando até a minha mandíbula.
- Fizemos o certo em deixar os dois sozinhos? - o empurrei, acabando com o clima. Ele fez bico e eu dei de ombros, porque estávamos na cozinha, e se ele continuasse me provocando, faríamos algo inapropriado. Ok, mentira, não faríamos, porque eu não estou preparada e não quero perder minha virgindade com um cara que não é nada meu. Tipo, só ficante.
- Eles vão se entender. está bem afim dela - ele deu um sorriso safado, voltando a colar nossos corpos e dessa vez foi direto ao ponto, vulgo: minha boca.
A beijou com tanta vontade que em pouco tempo eu estava sem ar. Ele apertava minha cintura contra a dele, de modo a tentar conter as nossas empolgações, mas não estava ajudando. Eu sentia o Jr. dar sinais de vida logo abaixo da cintura e aquilo me fazia perder ainda mais o ar. Que se dane tudo que eu tinha dito, eu não estava mais aguentando as provocações dele. Agarrei-o pelos cabelos, e separei nossas bocas, levando a minha até o seu pescoço e beijando, passando a língua e mordendo só para o ouvir gemer baixinho no meu ouvido.
- Ops - a voz de me vez pular longe do - Eu... Foi mal... Eu... Nós...
- A gente... Bom... - também se complicava com as palavras e eu olhei para o . Ele tinha virado de frente para a pia e eu entendi que era para esconder o quanto estava empolgado. Caminhei até os outros dois, os tirando da cozinha. A situação de estava ruim,eu tinha que ajudar. Sentamos os três no sofa, ligando a TV.
- Foi mal, a gente não fazia ideia - estava muito vermelho e eu bati de leve na perna dele, negando com a cabeça.
- Tudo bem, a gente não estava fazendo nada demais - dei de ombros, agradecendo mentalmente por eles terem aparecido. Sabe-se lá o que eu iria fazer.
- , vem cá - gritou da cozinha e eu levantei, sorrindo meigamente para o casal.
- Que foi? - perguntei passando a mão pelo rosto vermelho dele, seus lábios de abriram num sorriso trêmulo.
- Preciso, bem... Eu preciso te perguntar uma coisa - ele fez bico e ficou extrememente fofo - Não pense que vai ser fácil, tenho muito medo de qual vai ser a resposta, então não me deixe muito nervoso ok? Não ria de mim nem nada do tipo.
- , você está me deixando nervosa também - juntei as sobrancelhas, intrigada. Ele segurou minhas mãos e olhou no fundo dos meus olhos.
- Quer ser minha de verdade? Assim, quer namorar comigo?
Jesus crucificado, ressucitado. Devolvi o olhar dele, e um sorriso nada discreto apareceu me meu rosto, aperecendo logo em seguida no dele.
- Aw, - me joguei em seus braços, enchendo sua face de beijos, no olho, na testa, no nariz, na bochecha, na boca - Claro, seu idiota!
- MINHA, SÓ MINHA - ele começou a gritar feito um idiota mesmo, e me carregou, me girando pela cozinha até a sala. e levantaram do sofá, de tanto susto e começaram a rir da nossa cara - ELA É MINHA, OK? , pare de olhar para ela.
brincou, me colocou no chão e deu um pedala no amigo. fez bico e bateu em . Eu cruzei os braços e bati nela.
- Não defenda o , ! - ri e ela me bateu.
- , ela é sua o quê, finalmente? - , meio lerdinho, ainda não tinha entendido. abriu o sorriso maginífico dele e me puxou para um abraço.
- Minha namorada, caro - e selou nossos lábios. Os dois otários bateram palmas e eu ri, partindo o beijo.
- Só falta vocês agora - falei e saí correndo escada acima, antes que eles me batessem. correu atrás de mim, rindo.
Quando estávamos juntos toda a diferença de idade desaparecia. Não existia 15 e 20 anos. Existia e . Apenas.
- Você deve tomar cuidado com o que fala - ele ofegou ao parar de correr e se jogou na cama - A é bem violenta quando quer.
- Tenho que dar uma força, senão eles não se pegam nunca - dei risada, me jogando por cima dele, ainda cansada pela corrida. Ele alisou meus cabelos, beijado minha cabeça.
- Obrigada, por está aqui comigo. Você é tudo que eu preciso. - suspirei, segurando a mão dele, com vontade de dizer o quanto eu o amava e o quanto ele era fundamental para mim, mas perdi as palavras. Então fechei os olhos, aproveitando o carinho - Isso foi tão clichê, mas é o que eu sinto. Eu realmente não sei como um cara como você se interessou por mim, mas agradeço a Deus todos os dias - o abracei tão apertado que o ouvi reclamar e rimos.
- !? Sua mãe já deve estar chegando, vamos? - não entrou no quarto, de modo a falar através da porta. Talvez não quisesse atrapalhar nada como na cozinha. Me levantei, beijando a testa dele.
- Boa noite, meu amor - ele disse e eu sorri - Sonhe comigo pelado e dançando ula-ula pra você.
- Realmente vai ser meu sonho - rolei os olhos.
CAPÍTULO 03
'I can almost see it
Eu quase posso ver isso,
That dream I'm dreaming'
Esse sonho que estou sonhando. - Miley cyrus
- Filha, não vai jantar? - minha mãe bateu na porta do meu quarto, alguns minutos depois da ter ido embora.
- Não, estou sem fome. - respondi, saindo do banho. Coloquei minha camisola leve de algodão e me joguei sobre as almofadas do chão do meu quarto. Namorar o foi o que eu sempre quis, desde o momento que pus meus olhos nele. E assim, como se fosse predestinado, eu nem precisei lutar muito para conseguir o que queria. Eu não acreditava em destino, mas a partir desse dia eu resolvi que estava na hora de rever meus conceitos.
Por falar em conceitos, as brigas aqui em casa estavam piorando a cada dia. Eu procurava ficar o mais longe de casa possível, ou na casa da , ou escondida na casa do . Ou então nós dois saíamos para tomar sorvete.
Acordei com o despertador berrando no meu ouvido e rapidamente tratei de desligá-lo. Os raios de sol incidiam através da cortina mal fechada do quarto e eu me xinguei mentalmente por não ter fechado direito. Sentei na cama, passando a mão sobre os olhos, numa tentativa frustada de despertar. Fui para o banheiro, fiz toda a rotineira higiene matinal e pus a farda do colégio.
- Bom dia, queridos - cumprimentei meus pais, assim que sentei a mesa com eles. Os dois nem se olhavam e quem passasse por lá diria que eles nem se conheciam.
- Bom dia, filha - meu pai respondeu e minha mãe apenas fez um barulho estranho com a boca. - Eu vou te levar ao colégio hoje.
Minha mãe parou de tomar seu chá e o olhou por cima dos óculos. Eu me engasguei com a torrada, mas acabei abrindo um sorriso. Meu pai não me levava no colégio desde o jardim de infância. Eu estava surpresa, mas minha mãe estava mais. A cara de indignada dela foi impagável. Fiquei com um pouco de medo da reação que ela teria após ver suas bochechas adquirirem um tom avermelhado.
- Posso saber o porquê disso? - minha mãe perguntou entre os dentes. Meu pai virou o rosto para ela, lhe lançando um sorriso cínico.
- Se você não pode cumprir com suas obrigações de mãe, eu tenho que fazer, não é mesmo?
- Você só está fazendo isso para...
- CHEGA, VOCÊS DOIS - todo o meu esforço de 'Não me meter nas discussões idiotas deles' foi por água abaixo. Eles me encararam, levemente assustados - Já está ficando insuportavel isso, sabe? Eu odeio ter que vir pra casa, porque eu sei que vai ter pelo menos uma briguinha. Vocês podiam sentar e conversar como adultos uma vez na vida.
- Filha...
- Não, mãe. Agora não. - me levantei, pegando minha bolsa - Ainda vai me levar pai?
Ele levantou da mesa um pouco confuso, mas me levou.
- Miragem ou você chegou no carro do seu pai? - perguntou assim que pisei no pátio.
- Eu vim. Ele está tentando provocar a minha mãe de qualquer jeito - dei de ombros, me largando em um banco qualquer.
- Vai sair com o namorado hoje? - ela cutucou minha barriga, me fazendo rir.
- Não sei, não falei com ele ainda. E você e o ? Algum avanço?
- Talvez - ela sorriu marota e eu me sentei direito, pronta para ouvir a história - Ele me chamou para uma festa que vai ter da faculdade deles. Claro que o vai te chamar também.
- O te chamou? - apertei as bochechas rosadas dela - Que cuti-cuti.
- Ah, , me deixa - ela riu, segurando minhas mãos. - Depois nós vamos ter que escolher juntas a roupa, ok? Não sei o que usar.
- Minha criança quer impressionar o bonitão? - fiz voz fina e ela me bateu. , qualquer dia eu arranco suas mãos, dica.
- Eu quero meeesmo! Quero que o lamba o chão que eu pisar - nós duas rimos e ouvimos o sinal de início das aulas. Nos entreolhamos desanimadas. Aula de química ingorgânica não era algo que nos fazia saltitar exatamente, sabe?
- O PH de uma solução básica tem que ser maior que sete, então... - O professor tentava enfiar todas aquelas coisas complicadas nas nossas mentes bloqueadas, pela segunda vez. Eu já tinha desistido de tentar entender qualquer merda que ele falasse e a julgar pelas caras dos meus colegas de classe, eles tinham feito o mesmo. Olhei para , ela fazia desenhos abstratos em seu caderno. Peguei minha borracha e joguei nela, acertando sem querer, sua testa. Não sou boa de mira, beijos.
- Ta louca? - ela gritou sussurrando pra mim e eu abafei uma risada ao ver a marca vermelha em sua testa - Eu vou fazer pior na sua quando acabar a aula, .
- Hey, calma - sussurrei de volta - Eu estava querendo te ajudar, sua ingrata.
- Ajudar o que? A ter um traumatismo craniano? - Alguém já reparou como a garota é dramática? Ela tem que fazer teatro, fato. Rolei os olhos.
- Eu estava pensando em sair depois da aula para comprar a roupa pra festa, mas se você preferir a gente pode ir pro hospital, ver se seu único neurônio ainda tá vivo.
- Vamos pro shopping - ela deu um sorriso tão fofo que quase eu levanto da cadeira e aperto suas bochechas. Quase, porque o professor ia me fazer ver a diretora-vaca e eu não trouxe capim para acalmá-la hoje.
- , vamos pegar um táxi - me arrastava colégio afora, enquanto eu ligava para minha mãe para avisar que iria ao shopping.
- Ok, mãe... Ahan, eu sei... Beijos, até de noite - desliguei e tomei um susto quando ele começou a tocar em seguida. Olhei no visor '' - Oi, amor.
- ? Ah, amor, tudo bom?
- Tudo sim, lindo - sorri feito uma boba e me enfiou em um táxi que ela tinha parado.
- Então, sexta vai ter uma festa da faculdade, você vai comigo, não é? - ele fez um voz fofa e eu o imaginei fazendo bico.
- Claro, amor - suspirei e rolou os olhos. Ela tem inveja, eu nem ligo. - Mas me diz uma coisa? Que tipo de roupa usar?
- , qualquer tipo.
- Tudo bem, vou de biquíni. - ironizei. arregalou os olhos do meu lado e eu nao aguentei, tendo uma crise de riso.
- , nem pense nisso! - ele disse sério - Tem um bando de macho na minha faculdade e eu nao confio em nenhum deles, só no . Mas esse já vai acompanhado. - ele disse e nós dois rimos. ficou encarando o teto, sem saber de nada. - Tudo bem, vai ser num pub, festa fechada só para a gente. Nada chique, mas nada de biquíni, ok?
- Tudo bem, amor. Vou desligar. Te amo.
- Te amo mais, você sabe.
- Eu não sei não.
- Quando você chegar vem aqui em casa que eu te mostro - ele deu uma risada safada e eu o acompanhei.
- Qual tipo de roupa? - perguntou assim que eu guardei o celular na bolsa.
- Vai ser num pub, então jeans, ou um vestido.
- Obrigada, senhor - pagou o táxi e me puxou shopping adentro. Um dia vou contar a ela que apressado come cu. Digo, cru.
Rodamos o shopping todo mais de cinco vezes, e eu não estou exagerando. Eu podia ser bem má e dizer que a culpa foi toda da que não se decidia por uma roupa, ou então não achava um sapato que combinasse perfeitamente com aquela blusa linda. Mas eu sou sincera. Eu também estava nervosa e indecisa quanto as roupas. Cara, era a primeira vez que eu ia sair em público com o meu namorado. Até agora só quem sabia do nosso caso ero o e a , mas ele... Ele ia me levar numa festa CHEIA de amigos mais velhos dele. Eu tinha que, no mínimo, esbanjar charme e simpatia.
- , é sério, esse vestido ficou ma-ra-vi-lho-so - os olhinhos de brilharam ao me ver sair do provador da 103983938ª loja que entramos. Dei uma giradinha, me olhando no espelho.
- Sério?
- Leve esse e nem , nem amigo nenhum dele vai resistir - ela piscou, mas fez bico - Só não chegue muito perto do .
- Tudo bem, eu me contento com o - fingi tristeza e fui tirar o vestido. Já estava ficando tarde, eu estava cansada e se esse vestido estava bom, eu ia levar.
Pagamos e fomos sentar na praça de alimentação.
- Calça? OK. Blusa? OK. Sapato? OK. Colar? OK. Brinco? OK - ia mexendo nas sacolas e se perguntando se estava tudo lá, se ela não tinha esquecido nada. Eu apenas tomava calmamente meu milkshake. - ?
- Oi.
- Você vai contar aos seus pais sobre o ?
- Não - respondi sem nem precisar pensar - Por enquanto não. Meu pai é todo protetor, vai achar que o é muito velho, que me alicía e coisas do tipo. Minha mãe, do jeito que anda louca, vai querer me matar. Não, definitivamente, não.
- Acho isso meio errado, - ela me olhou, e a sinceridade estampou seus olhos. - Se eles descobrirem, vai ser pior.
- Eu vou contar, . Mas não agora.
CAPÍTULO 04
'I know that you are something special, to you I'd be always faithful
Eu sei que você é algo especial, a você eu serei sempre fiel
I want to be what you always needed, then I hope you'll see the heart in me'
Eu quero ser tudo que você sempre precisou, então eu espero que você veja o coração em mim. - Jesse McCartney
- Não vejo a hora de jogar tudo isso pro alto - peguei um bolo de fichass de revisão do colégio e mostrei pra . Ela estava sentada na outra ponta da minha cama, com um bolo de fichass bem maior que o meu.
- Cara, nem me fale - ela folheou algumas e retirou uma do bolo, me entregando - Pra que merda eu tenho que saber sobre o tectonismo de placas? Pra quando estiver acontecendo um terremoto eu falar: 'Pois é, é o magma se movimentando em baixo das placas continentais e oceânicas!?'
Eu ri, balançando a cabeça. Realmente, para o curso de moda que ela quer fazer, de nada importa. Peguei a fichas, e rolei os olhos.
- Não quero resolver isso, ! - devolvi e ela amassou, jogando pela janela do meu quarto. Abri a boca pra xingar até sua 278647ª geração, mas o sorriso sapeca que brincava no rosto dela me fez rir de novo. - Sua idiota!
- Fala sério, são as últimas provas do ano, nós passamos em quase tudo. Não vou ficar resolvendo fichas sobre essas merdas.
- É, você é doente mental, mas às vezes as coisas que você fala tem sentido.
- Falando em sentido, amanhã é sexta!
- E o que é que sexta tem a ver com sentido?
- O sexto sentido - ela deu de ombros e eu a olhei incredulamente - Eu só queria falar que amanhã é sexta e aproveitei - rimos - A festa, ! A festa.
Ela saltitava pelo meu quarto, ensaiando como falaria com o , como o provocaria dançando. Eu ria dos delírios dela, mas meu estômago revirava de nervosismo. Se os amigos dele me acharem uma criança? Se ninguém gostar de mim? Preciso ligar pro e dizer que eu não vou mais.
- ? - ela parou de se esfregar na parede e me olhou - Não quero ir pra essa festa.
- Como assim? - ela pôs as mãos na cintura.
- Eu sou uma criança, ninguém lá vai gostar de mim e o ...
- E o o quê, ? - ela bateu o pé no chão - Ele vai te deixar por causa disso? Nem se tudo que você falou fosse verdade! Você é simpática, meiga, bonita e todo mundo gosta de você. E o principalmente. Se ele souber que você pensa essas coisas vai ficar puto.
Ela tinha razão, eu sei que tinha. Mas então por que meu estômago não parava quieto?
Toc, toc.
- Entra! - gritei. Minha mãe entrou, trazendo uma bandeja com sanduíche e suco de morango.
- Lanchinho para as garotas mais estudiosas do mundo - ela sorriu, vendo a quantidade de fichas espalhadas pela cama. Coitada, se ela soubesse que a poucos minutos a estava era estudando uma maneira de dar pro .
- Valeu, mãe - ela deixou em cima da mesinha e saiu.
- Comida! - correu na direção da mesinha. Cara, ela veio da Etiópia. Só tenho essa explicação. Argh, olha o jeito como ela come os dois sanduiches. DOIS?
- Vadia, um é meu! - dei um tapa na sua mão e fiz o MEU sanduiche voar de voltar pro prato. Ela só tinha dado três mordidas nele, pra minha sorte. Enfiei tudo na boca, com medo de um contra-ataque da gulosa. Mas ela se comportou bem.
Sexta-feira, depois da última prova do ano. Tem como ser um dia mais feliz? Tem. Se não existisse recuperação. Sabe todo aquele papo da de 'Passamos em tudo, não vamos estudar, blá blá blá'?' Nos ferramos bonito. Mas isso me serviu de lição: nunca escutar o que a diz.
- Recuperação no terceiro ano é a coisa mais normal do mundo, - ela ainda se achava certa.
- Eu sei, mas eu queria ficar livre logo desse antro de futilidade que é o colegial. - olhei em volta para ilustrar a minha frase. As meninhas banais com todas as roupas iguaizinhas. Até o jeito/cor/corte do cabelo delas eram os mesmos. Os caras do futebol, fortes e bonitos. Sim, isso ninguém negaria. Mas ninguém negaria também que o cerébro deles é inferior ao de um sapo.
- Quer se ver livre de mim também, vaca? - ela me abraçou de lado, sempre carinhosa.
- Principalmente de você, vadia. - retribui o carinho.
- Hey, meninas! - Josh, um cara da nossa sala, chegou sorrindo perto da gente. Por que eu nunca tinha reparado no sorriso lindo que ele tem?
- Josh! - respondemos em coro.
- Como foram as provas? - ele perguntou, passando a mão no cabelo loiro, que caía sobre os olhos verdes. Por que eu nunca tinha reparado na incrível cor dos olhos dele? E no cabelo perfeitamente liso?
- Recuperação, claro - respondeu, enquanto eu babava.
- Normal - ele deu de ombros e me empurrou.
- Viu? Eu disse que era normal - ela deu língua.
- E eu não discordei - rolei os olhos, sentindo uma súbita necessidade de sair dali. Josh era muito bonito e estava me fazendo ter pensamentos inapropriados para uma garota comprometida, como eu. - , a festa... Temos que nos arrumar.
- Ah, é mesmo! - ela pulou - Bom, Josh, nos vemos por aí.
- É, nos vemos - balbuciei e ele se aproximou, beijando minha bochecha e me deixando imóvel por alguns segundos. Até me arrastar pelas ruas.
- O que foi aquilo? - ela falou de repente - Josh tava dando em cima de você, fato.
- Não viaja, . Ele só é simpático. - ou eu acreditava em minhas palavras, ou eu tava muito ferrada.
- Nunca tinha sido simpático comigo antes - ela deu de ombros mas voltou a me encarar - Ele quer te pegar.
- Ew, olha os termos que você usa, ainda mais se referindo a mim - eu ri e ela me deu um pedala - Ele não quer.
- , vamos lá, quem você quer enganar? Ele te deu mole, ele sorria feito um idiota para você.
- Eu tenho namorado - falei entre os dentes.
- Mas o Josh não sabe disso, .
É, ele não sabe. Logo, ele não tem culpa. Dá pra complicar só mais um pouco? Por que eu ainda não me fudi completamente? Rosnei e olhou estranha pra mim.
- Ele é bonito e mexe com meus pensamentos - revelei e ela riu.
- Se serve de consolo, mexe com os meus também.
- Vamos parar de pensar nisso?
- Se você acha que ignorar isso vai fazer ele deixar de querer te pegar...
- PAROU? - berrei e ela levantou os braços, na altura da cabeça.
CAPÍTULO 05
- Daqui a duas horas eu te espero em frente a minha casa, okay?
- Certo, amor - respondi, sorrindo pra mim mesma, e desliguei o celular, jogando em cima da mesinha desarrumada. - Duas horas, vamos nos arrumar?
- DUAS HORAS? , você é realmente doente - ela me empurrou pra dentro do banheiro, e foi tirando a roupa. Qual foi, ela quer tomar banho comigo?
- , não é por nada não, mas você não faz meu tipo - fui saindo do banheiro.
- Vai atrasar tudo, - ela fez voz de criança.
- Eu tomo banho no banheiro da minha mãe, okay?
Ela concordou, me fazendo prometer que não ia demorar.
Corri pro banheiro da suíte dos meus pais, tomando meu banho rápido e relaxante. Enrolei meus cabelos em uma toalha, e na outra envolvi meu corpo.
Fui andando calmamente pro meu quarto e me deparei com uma de calcinha e sutiã saltitando em frente ao espelho.
- Qual seu problema? - perguntei, fechando a porta atrás de mim.
- Meu problema é você. Você que demorou muito no banho - ela veio correndo e me abraçou. Essa menina é carente, aham, é sim.
- Me solta para eu poder me vestir!
Depois de estar com minhas roupas de baixo também, fui ajudar a minha amiga a se maquiar. Modéstia parte, eu sou muito boa maquiadora e ela ficou uma diva.
- Se eu fosse o , te comia de ladinho - pisquei e ela ficou vermelha. É, para algumas coisas ela é envergonhada, pra ficar se esfregando na parede do meu quarto e a chamando de , não.
- , cale a boca e sente a sua bunda flácida aí. Agora é a minha vez de te maquiar - Flácida? A bunda da mãe dela era flácida, a minha estava em forma. Mas obedeci, claro. dá duas de mim e me bateria fácil se eu me negasse. Passei uns bons minutos sentada na mesma posição, apenas alternando que olho eu abria ou fechava. Às vezes me assustava com alguma expressão que a fazia, se achando realmente boa naquilo. Quando ela acabou, ainda fez um suspense, me segurando para que eu não olhasse no espelho, mas depois de rir, me liberou. Uma coisa eu tenho qua admitir: sabe valorizar meus pontos fortes e esconder os fracos. Eu estava me sentindo à altura do . Pela primeira vez.
- Obrigada, amiga. Eu estou bonita. - ela me bateu e eu a olhei sem entender.
- Que bonita o quê? Você está é linda. - ela me pegou pela mão, me levando até a cama. Opa, ta meio que afim de mim hoje. - Vamos vestir a roupa?
Ufa, pensei que ela ia querer tirar o pouco que eu vestia. Peguei o vestido verde-água e deslizei sobre meu corpo. Ele era tomara-que-caia com um cinto prata, logo abaixo dos seios. Chegava à metade das minha coxas e eu achei meio curto. Mas foi só eu pensar nisso que a se intrometeu.
- Ta na altura ideal. Ideal pra deixar qualquer cara aos seus pés.
- Eu não quero qualquer cara, eu quero .
- Esse já está aos seus pés faz tempo, então me ajuda aqui? - ela pediu segurando sua roupa - Que eu quero o aos meus pés.
Ela se vestiu e soltou os cabelos. Por um momento cogitei a ideia de agarrá-la ali mesmo. Okay, mentira. Mas minha amiga estava muito linda, tenho que falar. Sua calça skinny escura realçava cada curva das suas pernas, enquanto sua blusa lilás era justa no busto e solta logo após, contrastando mais com o apertado da calça. Ela usava uma sandália alta e preta, que dava um charme a mais.
- Fiu-fiu, contigo eu passava a noite toda na ativa - pisquei e ela gargalhou, jogando a cabeça pra trás.
- Você também está linda, amiga, mas tem um detalhe - ela olhou meus pés - Cadê a sandália prateada que compramos?
Se ela não me lembrasse, eu era capaz de ir descalça. Corri para procurar nas sacolas e a achei. A calcei. Era alta e amarrava no tornozelo.
Paramos as duas, agora prontas, na frente do espelho.
- Lindas - falamos juntas e rimos.
- Mãe, estamos indo - anunciei, assim que pisamos na sala. Minha mãe levantou os olhos do livro que lia e sorriu para nós, que retribuímos.
- Vão com o vizinho não é?
- Isso. - eu não estava mentindo, só omitindo o fato que o tal vizinho era meu namorado. Dei de ombros, puxando pela mão. Caminhamos até parar em frente a porta rústica de madeira da casa do meu namorado e eu suspirei. Eu tinha medo, fato. Medo de não ser aceita pelo 'grupo' dele. Medo que ele procurasse alguém mais velha.
, ao me ver hesitar, apertou a campanhia. Respirei fundo, tentando manter a calma, e tentando não tremer. Mas por que merda eu era tão fraca que estava tremendo? segurou minha mão, e eu agradeci mentalmente por ela saber tudo que eu penso.
- Meu Deus - foram as únicas palavras que saíram da boca do quando ele abriu a porta. Eu sorri sem graça, e bateu o pé, impaciente. - Hey, fica na sala que o já está chegando.
Ele olhou pra ela, que deu língua. Eu me aproximei, selando rapidamente nossos lábios, afinal estávamos na rua e meus pais podiam ver.
- Você está lindo - ele vestia uma calça jeans meio colada e uma blusa social roxa, com as mangas dobradas até o cotuvelo. O cabelo estava como sempre, lindo. Ele tinha um sorriso no rosto que dava uma toque final ao visual.
- Eu nem sei que adjetivo usar pra te definir. Posso usar um pronome? - ele perguntou, segurando minha mão. Dei de ombros e ele aproximou a boca no meu ouvido e sussurrou - Minha.
Me arrepiei pela voz rouca dele e pelo que ele disse. Me afastei um pouco, temendo não conseguir resistir e agarrá-lo ali, sem me importar com mãe, pai, cachorro, vizinho...
- Pronome mais que possessivo, - ralhou e lhe mostrou o dedo do meio.
- Você vai ter seu momento hoje, relaxa.
- Você está sabendo de alguma coisa? - ela o encarou.
- Eu não sei de nada. Hey, o chegou. Vamos.
Ele nos arrastou para o carro do . Enfiou na frente e nós fomos atrás, abraçados de lado.
- - sussurrei para ele, que me olhou - E se seus amigos não gostarem de mim?
- Como é que alguém nao vai gostar de você, minha pequena? - ele passou o nariz na minha bochecha e eu fechei os olhos - Você conquista todo mundo.
- Eu sou quase uma criança perto de você e do - resmunguei baixinho.
- Você é a minha criança, e se ninguém gostar de você, melhor ainda - abri os olhos, sem entender - O quê? Eu sou egoísta mesmo.
Rolei os olhos e senti a mão dele percorrer minha cintura e a apertar com força. Colamos nossos lábios com força e nossas línguas se encontraram no instante seguinte,me fazendo sentir calafrios.
- Ew, a gente ta no carro ainda - resmungou lá na frente estacionando o carro em uma vaga qualquer. - Chegamos, se quiserem podem ficar no carro.
Soquei seu ombro, me ajeitando. saiu do carro me dando a mão para me ajudar a descer.
Assim que pisamos na entrada do salão principal ( segurando firmemente a minha mão, e atrás de nós, indecisos quanto a segurar ou não na mão) muitos olhares se voltaram para nós. Claro, eu deveria ter imaginado que e faziam muito sucesso com as colegas de faculdade e que eu seria odiada até o fio do cabelo por estar com eles. Senti minhas bochechas arderem e meus pés darem involuntariamente um passo para trás. Mas percebeu e me incentivou, apenas com um olhar, a continuar andando. Pra frente, lógico.
nos guiou até uma mesa, num canto mais reservado, onde três caras estavam sentados. Olhei de lado para , que deu um sorriso cúmplice para mim. Claro, estávamos nos comunicando sem palavras sobre os tais três caras sentados na mesa. Uma palavra define os três: HOT. Quê? Sim, estou com o , mas nem por isso fiquei cega e deixo de apreciar o que deveras é bom.
- ! - o loiro, do sorriso grande, levantou - !
- James! - os dois responderam na mesma hora. O tal James olhou de cima a baixo e em seguida desviou o olhar para minhas pernas, permanecendo ali tempo demais antes de subir ao meu rosto. notou e tratou de me abraçar de lado, chegando mais perto da mesa.
- , esses são meus amigos - ele apontou cada um - James, e . Meninos, - ele olhou para eles - Essa é a minha namorada, .
Os três sorriram, até o James. Mesmo que tenha feito uma expressão incrédula quando definiu meu status.
- E essa é a minha... - apresentou, corando. Eu achei fofo. não, pela cara que ela fez. Ela queria o quê? Que ele falasse 'Minha namorada, aliás, , quer namorar comigo?' Há, ela está assistindo filmes-água-com-açucar demais.
Sentamos todos à mesa, com os outros três que já a ocupavam. O fantasminha da insegurança me rondava. Eu estava com medo de falar alguma merda com os amigos do e estava me policiando toda hora. Eu tive uma surpresa, os amigos do meu namorado não eram metidos a adultos (por mais que fossem, realmente adultos) e eram super divertidos, me fizeram sentir super a vontade e em certo momento eu já estava me sentindo do grupo. Nem mesmo quando o perguntou a minha idade e eu disse a verdade. Eles não fizeram os tipos de piadinha que eu achei que fariam, como: 'Vai criar, é ?' ou 'Ih, vai ter que trocar a fralda, .' Não. A única coisa que falaram foi 'Me diz onde você estuda que eu vou lá buscar uma pra mim. O nível está superior ao da faculdade.'
É, comentário infeliz do , já que deixou a mim e a vermelhas e ao e ao com bicos no rosto.
- É, vai lá. Mas essas aqui têm donos - resmungou, beijando minha bochecha.
- Donos? Pensei que só você e a namorassem - pôs as mãos na cintura, encarando minha amiga e o affair dela. Os dois fizeram uma competição de quem ficava da cor do tomate, e deu empate.
- Estou em fase de negociação - finalmente falou alguma coisa e deu uma piscadinha super sexy. o encarou com a maior cara de cu e levantou. Talvez fosse no banheiro, talvez fosse dançar, talvez fosse... Putamerda. O primeiro cara que passou na frente dela, a doida o pegou pela gola da camisa polo e o jogou na parede. Ela, LITERALMENTE, o jogou na parede e tascou o maior beijão no cara. Depois de me recuperar do susto, virei lentamente a cabeça pro lado para analisar a reação dos outros. tinha a boca meio aberta, os olhos totalmente arregalados e um tom vermelho-raiva nas bochechas. Quem se importava mesmo com a reação dos outros?! Levantei do meu lugar, chegando perto de e o tocando no ombro. Ele imediatamente virou o rosto para mim, mexeu a boca algumas vezes, sem emitir som algum.
- Vem comigo? - ofereci a mão e ele aceitou. Caminhamos um pouco rápido para longe dali e chegamos ao fundo do pub.
- Que foi que eu fiz de errado, ? - ele perguntou, meio em choque ainda.
- Não sei, vou conversar com ela e...
- Aquele cara é da minha sala na faculdade, eu não vou mais conseguir olhar na cara dele depois disso e não sentir inveja, raiva, sei lá.
- - chamei o nome dele e ele esfregou uma mão na outra. - Vamos voltar para lá, ok? Você já está mais calmo?
- Não.
- Vamos lá, - insisti.
- Ok, , ok.
- Depois que eu falar com ela, vocês conversam e aí tudo vai ficar bem. - Sorri e o peguei pela mão.
Entramos no salão e fomos diretamente para a mesa. Para minha surpresa, estava lá, sentada e com um copo contendo um líquido azul nas mãos. fez um careta e eu o cutuquei, insistente como sempre. Ao lado da minha amiga estava , com um copo igualzinho ao dela.
- Oi - atraí os olhares para mim e meu companheiro.
- Oi - respondeu, me puxando para sentar perto dele. Entrelacei minhas mãos no seu cabelo e o puxei para um beijo. Ok, meu plano era deixar os outros dois contrangidos a ponto de começarem uma conversa qualquer.
Mas não sabia do meu plano, claro, e foi se empolgando e ME empolgando com aquelas mãos grandes passeando pela lateral do meu corpo, descendo até minhas coxas, levantando meu vestido.
- - sussurrei entre o beijo e ele pareceu nem ouvir - , amor.
- Oi - apesar de ter respondido, desceu os beijos para meu pescoço. Eu ia bater nele, até ele entender que estávamos em público mas algo me fez sorrir. Ouvi um murmúrio de conversa da parte do outro casal e então relaxei.
- Nada não, continue - deixei se divertir por mais algum tempo com meu pescoço e coxas, mas o calor estava ficando forte demais para que eu mantivesse minha sanidade então o empurrei de leve. - Ta bom, bebê, estamos na festa ainda.
- Desculpa, hormônios masculinos - ele riu sem graça, encolhendo as pernas.
- Shiu, faz silêncio - o puxei, enfiando sua cabeça no meu pescoço - Deixa ver se os outros dois se resolvem.
- Eu não quero falar sobre isso agora, - falou baixo, mas não baixo o suficiente para que eu não a ouvisse.
- Mas, , eu só queria entender o que eu fiz de errado.
- Você... Merda, , eu disse que não queria conversar sobre isso.
- , olha aqui pra mim - estava inquieto e vou confessar que eu também estava. - Eu só quero saber pra concertar, porque eu gosto muito de você e te ver com raiva de mim é a pior coisa.
Não pude conter um suspiro que fez soltar o ar com força, em repreensão. Ri baixinho de como ele era bobo.
- Você disse que estava negociando, tipo, me senti uma mercadoria - ela falou com aquela vozinha de quem ia chorar e eu fiquei com vontade de bater e abraçá-la ao mesmo tempo. Como ela podia ser tão boba ao pensar isso do ? Como o pode fazê-la pensar isso? A machucou, droga.
- , para com isso... Está me iludindo e eu vou me machucar.
- Eu gosto de você e fiquei morrendo de cíumes em te ver com outro cara.
- Cíumes, ? Nem o tem cíumes da , e eles são namorados. Você nem é nada meu.
- O que eu sinto por você vai além de simples status, . Talvez um dia você entenda.
A cadeira arrastou e eu soube que tinha saído dali. aproximou a boca do meu ouvido.
- Eu tenho cíumes sim, provoca pra você ver.
Balancei a cabeça, rindo.
- Tô indo, - avisou, pegando a bolsa em cima da mesa - Depois a gente se fala.
- Hey, não - segurei o braço dela, levantando. - Vou contigo.
- Não, eu não quero que você perca a noite.
- Sem você aqui eu já perdi - fiz drama e ela apertou minhas bochechas.
- Ficam as duas paradas aqui que eu vou pegar o carro com alguém, já que a gente veio com o . - falou e correu pra pista de dança.
- Está tudo bem?
- Não, não está - ela deu de ombros e eu a abracei. Ela fungou no meus pescoço - Eu quero o .
- Você vai ter, boba. É só uma fase.
- Quem são minhas passageiras? - , já alto pela bebida chegou nos abraçando.
- Com todo esse teor alcóolico no sangue, ninguém. - resmunguei, mas chegou, tomando a chave da mão do amigo.
- Eu dirigo. Você não consegue nem fazer o quatro.
- Eu sei comer a mulher de quatro.
- Ew, tem damas aqui - socou o barço dele.
- Quando ele fica bêbado fica muito tarado - rolou os olhos.
CAPÍTULO 06
'But when you think of me
Mas quando você pensa em mim
Do you fill your head with schemes?'
você enche sua mente com planos? - Green Day
- Obrigada, amor - beijei de leve seus lábios, saindo do carro, em frente a minha casa. - Tchau, .
- Me leva pra sua cama, ? - ele fez bico, levando em seguida um soco do . realmente ficava tarado quando estava bêbado. acenou para os dois, saindo do carro comigo.
Fomos direto para o quarto, trocamos de roupa (é, sem tomar banho nem nada) e caímos na cama. Minha cama de casal tinha espaço para nós duas e sobrava.
- Deu piti feio com o hoje, boba - dei um peteleco no nariz dela.
- Eu sei, percebi isso depois.
- E agora?
- E agora o quê, ?
- Vai falar com ele? - ela arregalou os olhos como se eu tivesse propondo que ela saísse pelada com uma melancia enfiada no... na cabeça, por aí.
- Claro que não.
- Esse orgulho não vai te levar a lugar algum - rolei os olhos.
- Ok - ela suspirou - Eu sei disso.
- Então?
- Não vou falar com ele - bufei e virei e costas para ela dando a entender que, já que ele queria assim, não tocaria mais no assunto. Não demorou muito para que eu sentisse a mão dela no meu ombro. - ?
- Dormi.
- , é sério - ela foi menos delicada dessa vez, me puxando com força. Fitei os olhos dela - Tenho medo.
- PARA - berrei, me sentando e ela fez o mesmo - Medo de quê? Você devia ter medo de ficar com essas frescuras e perder o para outra que não fique de birra nem nada.
Percebi que tinha pegado pesado, quando a vi cobrir o rosto com as mãos e o seu corpo balançar pelo soluço. A envolvi num abraço apertado, pedindo desculpas por ter perdido a cabeça e explicando que eu só queria vê-la feliz.
- Você está certa, eu não posso me dar ao luxo de perder o , quando ele é o que eu mais quero.
E foi ali, vendo minha melhor amiga totalmente fragilizada, foi que eu percebi o quanto eu era feliz, como eu tinha uma coisa que muitas garotas desejam ter: um namorado que me ama, que me entende, com quem eu eu posso contar pra tudo, posso confidenciar a ele meus medos que ele vai estar ao meu lado, segurando firme a minha mão, me dando todo o apoio que eu precisar.
- Você vai fazer o que é certo, sei que vai - continuei a abraçando - Sabe, às vezes a gente devia escutar o que o coração fala, porque ele nunca mente. E ele sempre vai saber o que é o melhor para você.
- Eu nem sei como falar com o - ela sorriu fracamente - Talvez eu devesse escrever em alguma folha e levar comigo.
Ri junto com ela.
- Não precisa de nada disso, . É só falar o que sente, de verdade, para ele. Acaba saindo naturalmente, você vai ver.
- É, vou tentar - ela deitou na cama e eu fi o mesmo - Boa noite, . E obrigada por falar o que tenho que ouvir, às vezes, e não só o que eu quero ouvir.
- Amigos são para essas coisas, sua feia - dei línga - Boa noite.
- CALA A SUA BOCA! CALA A MERDA DA BOCA, AGORA! Abri os olhos assustada com a gritaria que estava acontecendo sei lá onde. já estava sentada também, com uma cara de espanto que devia ser igual a minha. Fechei um pouco os olhos para me recuperar do meu estado de sono profundo e comecei a reconhecer aquelas vozes.
- VAGABUNDA, ISSO QUE VOCÊ É - meu pai berrava com alguém, que certamente era minha mãe. Levantei da cama, sentindo uma enorme vontade de chorar, mas respirei fundo, contendo toda e qualquer emoção.
- Não, . Fica aqui - me disse com a voz suave - Talvez eles devam conversar a sós.
- Talvez eles se matem se ficarem a sós.
- FILHO DA PUTA, VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE FALAR ASSIM COMIGO. NÃO SOU SUAS PUTINHAS, NÃO.
- Eu vou lá, . Me espera aqui.
Desci as escadas correndo e com o sangue queimando dentro das veias. Os meus genitores estavam em pé, na sala, um na frente do outro, com os olhos cerrados e certamente cegos de raiva.
- PAREM, AGORA. - berrei, ao ver meu pai se preparar para dar uma resposta mal criada. Quatro olhos raivosos de fixaram em mim. Ok, nao era hora de ter medo deles. - Estão agindo que nem dois malucos.
- , não se meta nisso. - meu pai me cortou.
- Isso, suba para o seu quarto.
- Eu estou com visista em casa, vocês podiam ao menos fingir que são normais, por mim.
- Eu não tenho culpa se sua mãe me trai com o office-boy da empresa - meu pai soltou todo o ar do seu pulmão, enquanto a minha mãe prendeu a respiração. Uma ânsia de vômito, típica de quando eu estou enjoada, me veio. Office-boy? Traindo meu pai? Aquela nao era a minha mãe.
- E ele me trai com a secretária, com a faxineira, com o diabo a quatro. - minha mãe retrucou, já chorando.
- Eu... Eu estou... QUE RAIVA DE VOCÊS DOIS - explodi, correndo em seguida para o meu quarto e me trancando. Eu precisava ficar um momento sozinha e quase me esqueci de .
- ? - ela veio correndo e me abraçou. Era tudo que eu precisava. Chorei no ombro dela, sentindo me corpo todo doer de decepção. É, decepção com as duas pessoas que eu achava serem as melhores do mundo. Meu pai, que sempre foi meu herói. Minha mãe, que sempre foi um exemplo de fortaleza para mim. E agora os dois me davam nojo, me davam vontade de chorar. Nada, nada no mundo me acalmaria agora. E , de certa forma, sabia disso. Mas ela não cansava de tentar, hora me apertando com mais força, hora sussurrando palavras de incentivo no meu ouvido. Era bom saber que eu tinha uma amiga. - Calma, calma.
- Não consigo respirar - reclamei, chorando e me joguei na cama, de barriga para baixo. Eu chorava tanto que era realmente dificil respirar, e eu estava ficando irritada.
- Tem coisas que devem acontecer, sabe ? - brincava com umas mexas do meu cabelo, num misto de carinho e conforto - Talvez daqui a um tempo você olhe para trás e pense: se aquilo não tivesse acontecido eu não estaria aqui hoje. E você vai sentir que já estava tudo predestinado.
- Mas essa mudança pode ser ruim também, não pode? - perguntei, fungando alto.
- Ruim e boa. Tudo é muito vago. O que você acha que seja bom hoje pode ser ruim daqui há uns anos.
tinha esse poder de psicóloga extraordinário. Preciso dizer pra ela fazer esse curso na faculdade e que se dane a moda. Fiquei algum tempo refletindo sobre o que ela disse, até pegar no sono.
Quando acordei não estava mais lá, e tinha deixado um bilhetinho grudado no espelho do banheiro, dizendo que me ligava mais tarde.
Tomei um banho para ver se meus músculos relaxavam e coloquei o pijama. Já tinha escurecido e eu agradeci mentalmente por isso, finalmente aquele dia ia terminar.
Ouvi minha barriga roncar e fiquei alguns segundos decidindo se eu descia para procurar comida e corria o risco de encontrar meus pais ou ficava trancada no meu quarto e morria de fome. Como eu não estava fugindo de ninguém e eles que deviam estar se escondendo de vergonha, me levantei da cama e fui até a cozinha. Abri a geladeira e quase dei pulinhos ao ver o pudim que a havia feito. Peguei a travessa toda e sentei na pia, com ela no colo e uma colher em mãos.
Minha vida estava tão perfeita por um lado e um completo caos do outro. Tudo na vida da gente é assim, afinal? Nunca tudo está maravilhoso, e quando a gente acha que está tudo uma merda, a gente enxerga a luz no fim do túnel. Eu tinha o e a . Estavam sempre ao meu lado, e eu sentia no fundo do coração que nunca me deixariam sofrer sozinha. Mas eu tinha uma família sendo destruída. E o motivo era tão... Banal? O que é o trabalho comparado com a sua família? E por causa do trabalho dos meus pais, a família foi ficando em segundo lugar. Eu fui ficando em segundo, o amor foi ficando pra trás.
Olhei para a travessa no meu colo e eu tinha, sozinha, comido mais da metade do pudim. Uma imagem de uma mulher gorda passou na minha mente e eu levantei na hora, devolvendo o pudim para a geladeira.
- ? - dei um pulo pra trás com a mão sobre o peito. Aos poucos a silhueta que me olhava foi ganhando forma e cor e eu pude achar minha mãe ali. Suspirei aliviada e com raiva. Como alguém dá um susto desse no meio da noite?
- Mãe, droga, me assustou.
- Desculpe, filha. - ela se aproximou, me abraçando. Ficamos abraçadas e caladas por algum tempo, apenas sentindo a presença uma da outra. Eu tinha esquecido como era bom o calor materno.
Aquele pedido de desculpas foi pelo quê? Por ter me assustado ou pelas bobagens que veio fazendo?
- Mãe, tá tudo bem?
- Não, . Eu estou com medo.
- Medo de quê mãe? - afastei-me do abraço e a encarei nos olhos. Os olhos dela estavam marejados.
- De te perder.
- Como assim?
- Eu devia esperar até amanhã para te contar, mas... - ela pausou, limpando uma lágrima que escorreu pelo rosto. - Eu e seu pai conversamos hoje e vamos nos separar.
Ela parou de falar e soluçou, chorando muito no meu ombro. Não vou dizer que me pegou de surpresa, não mesmo. Eu já estava esperando por isso e, vou confessar, que já estava achando que seria a melhor opção para todos. Mas também não vou dizer que foi fácil. Ouvir a minha hipótese virar confirmação foi bem mais doloroso do que qualquer pensamento. A apertei contra meu corpo, num daqueles momentos em que mãe e filha trocam de papéis. Minha mãe precisava de mim.
- Mãe, está tudo bem - minha voz saiu embargada e eu fiquei com raiva de não conseguir ser forte. - Você vai ficar bem, ele também. Com todas essas brigas, foi a melhor opção. Ou talvez a única.
- E você, filhinha? Com quem vai ficar? Eu não quero te perder assim.
Não podia responder essa pergunta, porque eu não sabia a resposta. Era uma coisa que não tinha passado pela minha cabeça aindae e eu fiquei tonta de repente.
- Tu-tudo bem, mãe. Com qualquer um dos dois eu vou estar bem e vou... Vou poder ver o outro, não é mesmo? - forcei um sorriso e a soltei - Vou dormir, mãe.
Não devia ter saído correndo pro meu quarto daquele jeito, mas quando pensei nisso era tarde demais. Eu estava fraca por dentro, sem saber ao certo o que pensar. A decisão mais difícil da minha vida certamente seria escolher entre minha mãe e meu pai. Peguei o celular em cima da cama e disquei os números tão conhecidos.
- Amor?
- , eu tô muito mal. - murmurei com a voz chorosa.
- ? O que aconteceu? Você está bem? - a voz dele se elevou e eu me arrependi de ter dito daquele modo, agora ele ficaria preocupado.
- Eu tô, tô tentando.
- Me diz o que aconteceu, amor?!
- Minha mãe e meu pai vão se separar, - chorei baixinho, fungando.
- Awn, , eu não sei o que fazer. Só queria poder estar aí com você, pra te abraçar e cantar no seu ouvido.
- Faz isso, ! - minha voz se iluminou com a ideia.
- , tem seus pais, não posso ir aí...
- Não, não. Canta pra mim? - ele deu uma risada fofa e eu sorri sozinha.
- Tudo bem, alguma música em especial?
- Qualquer uma na sua voz é especia, amor. - brega, eu sei, mas é fato. Ele deu uma risada tímida e eu pude imaginar suas bochechas coradas.
- Don't mind you telling me, what's been on your mind lately. I don't mind you speaking up. I know sometimes I can be all wrapped up and into me.
(Eu não me importo que você me conte, o que está na sua cabeça ultimamente. Eu não me importo de você falar. Eu sei que às vezes posso ser muito devotado e egoísta)
A voz de chegou aos meus ouvidos, na música de Hilary Duff- With Love. Uma onda de alívio foi percorrendo meu corpo a cada palavra dita por ele. Impressionante como ele tinha infuência sobre mim.
- I can be in such a rush, just slow me down, slow me down. Tell me tomorrow everything will be around, just slow me down, slow me down. You're the one who keeps me on the ground.
(Eu posso estar com pressa, apenas reduza minha velocidade, reduza minha velocidade. Diga-me que amanhã tudo estará certo, apenas reduza minha velocidade, reduza minha velocidade. Você é a pessoa que me mantém com os pés no chão)
Era para eu estar cantando essa música para ele, era tão o meu ponto de vista da nossa relação. Era o dele também? Sorri boba com a possiblidade. Aliás, para quê tirar o sorriso da cara? Eu já estava pronta para sorrir de novo.
- Baby you can be tough sayin' enough is enough. You can even be blunt, just do it with love love love. You can tell me I'm wrong that I'm coming on way too strong. Don't think I'll be crushed, just do it with love love love love. Just do it with love love love love, just do it with love.
(Baby, você pode ser dura dizendo que já é o bastante. Você até pode ser brusca, apenas faça com amor, amor, amor. Diga-me que estou errado, que eu estou indo com muita força. Não pense que eu ficaria arrasado, apenas faça com amor, amor, amor. Apenas faça com amor, amor, amor. Apenas faça com amor)
CAPÍTULO 07
'I want to drive you into the corner, and kiss you without a sound
Eu quero lhe puxar no canto, e te beijar sem fazer barulho.
I want to stay this way forever, I'll say it loud'
Eu quero ficar assim pra sempre, eu vou dizer isso alto. - Avril Lavigne
- Se você me permite dizer, eu já sabia que isso ia acontecer.
- Eu sei, , eu também já imaginava. Mas está doendo - enfiei a cara no caderno aberto.
- Calma, amiga. - ela afagou meus cabelos - Agora, se não quiser chamar atenção, disfarça essa cara, porque o Josh tá chegando.
Ah, não. O Josh não. Não que eu não goste dele, pelo contrário, adoro. Ele é realmente legal, mas sabe o que é? Não tô com animo pra ninguém.
- Meninas - a voz rouca dele me fez levantar a cabeça e os olhos verdes me fizeram querer abaixar de volta. Por que diabos eu me sentia tão atraída por ele?
- Oi, Josh - sorri e fez o mesmo, completamente patética. Parecia um papagaio.
- Está tudo bem, ? Você ta com uma carinha tão triste.
me olhou como quem diz 'Viu? Eu disse pra disfarçar essa cara de ânus' e eu dei de ombros.
- Tô com uns probleminhas em casa, Josh.
- Se precisar de minha ajuda, estou aqui - ah, que sorriso lindo!
- Desculpa, mas ninguém pode ajudar nisso.
- Tudo bem, eu entendo. Mas se eu puder, não pense duas vezes e me chame. - ele beijou minha bochecha e saiu.
- Ele precisava me ignorar? - olhou incrédula. Eu gargalhei.
- Ele não te ignorou.
- Ah, claro que não. Só não me envolveu na conversa. Coisa de garoto apaixonado.
- Cala a boca - dei um pedala, enquanto o professor bigodudo de física entrava na sala. E com ele, aquele cheiro de mofo. Deve ser dessas roupas dele, fala sério, ninguém usa isso desde a segunda guerra mundial.
- Gerador e receptor! - ele berrou e começou a escrever freneticamente no quadro.
- Quem quer socar a cara do professor põe o dedo aqui - sussurrou para mim,cantando, com a mão aberta. Não controlei minha risada e fui posta pra fora de sala. disse que também tinha culpa e cá estamos as duas, na sala da diretora.
- Por favor, é fim de ano! Me poupem de problema!
- Tudo bem, Senhora Heisemberg. Nos desculpe - , com todo aquele poder de persuassão dela, sorriu. A nossa idosa diretora pôs a mão no queixo, como se pensasse em algo e depois ajeitou seu pequenos óculos na face enrugada.
- Quando é a última prova de vocês?
- Semana que vem - respondi, usando meu tom de voz meigo.
- Ah, então vão pra sala. Digam àquele velho rabujento, que é o professor de vocês, que eu lhes apliquei um castigo muito ruim. Só assim ele as deixarão em paz.
Sra. Heisemberg nunca subiu tanto no meu conceito. Sorri para , que bateu continência e saímos da sala, antes que ela mudasse de ideia.
- Cara, só mais uma semana de aula. Depois é faculdade! - deu um pulinho.
- Nem tinha pensado nisso ainda. Ainda bem que uma das melhores do país é na nossa cidade! E o melhor, o também é de lá.
- Vai ser perfeito.
- Não vejo a hora - abri um sorriso maior que a minha própria cara.
- , não é assim. - pegou a borracha da minha mão e apagou todos os malditos cálculos que eu tinha demorado tanto para fazer. O olhei brava, e ele me puxou, me dando um selinho - Estava errado, amor.
- Fiz o melhor que pude - bico. Ah, agora o estava me dando uma ajudinha com química, porque realmente é a pior matéria do mundo, beijos.
- É 0,1 molar, você colocou 0,01. - ele apontou meu erro e eu enfiei minha cabeça no livro. Eu estava viciada em fazer aquilo.
- Vou reprovar. - fiz drama e ele me abraçou de lado.
- Não enquanto eu estiver aqui, pra te ajudar.
- Nunca imaginei esse seu lado CDF - ralhei e ele arqueou uma sombracelha.
- Não sou CDF, só pretava atenção na aula, quando era preciso.
- Está dizendo que eu não presto atenção, ? - coloquei a mão na cintura e ele gargalhou.
- Deve ficar a aula toda conversando com a louca da , sobre os caras gatos da sua sala.
Rolei os olhos. Até parece, nem tem cara gato na minha sala. Só o Josh, mas eu não comento muito sobre ele com a , porque é realmente estranho.
- , eu te amo, mas você às vezes fala muita merda - soquei seu braço de leve e ele mordeu minha bochecha.
- Vamos voltar aos estudos? Afinal, é a sua última prova do ano. - ele estava mais empolgado do que eu, fato. Talvez porque nós teríamos bastante tempo de férias juntos. Não que eu não estivesse empolgada, só estava mais preocupada com a prova, antes de tudo.
- Vamos, vamos.
- O equilíbrio iônico, realmente, não é fácil. Então para de reparar na minha beleza e foque-se no livro.
- Quer parar de se achar? - perguntei gargalhando e percebendo, mentalmente, que se todo professor fosse lindo e perfeito como ele eu estava com sérios problemas. Quem em sã consciência prestaria atenção na aula?
Ficamos por mais três horas estudando. era um bom professor, ninguém vai negar. No fim do dia, tudo escuro, eu recolhi meus livros de cima da mesa e estiquei os braços, me alongando. fez o mesmo e quando percebemos, sorrimos.
- Obrigada, amor. Sem você eu não seria nada.
- Vem cá, minha exagerada, vem - ele me puxou para o seu colo, colando os lábios nos meus e apertando minha coxa, por cima da bermuda. Envolvi as mãos no seu cabelo e dei leves puxadinhas, afastando nossas bocas. Ele reclamava, resmungando e juntando nossas bocas novamente, me fazendo rir no meio do beijo. A mão dele subiu, da minha coxa para minha barriga, se posicionando de baixo da minha blusa, me fazendo ofegar. Ele sorriu vitorioso e desceu os beijos para o meu pescoço, alternando entre mordidas e lambidas. Com a respiração (bastante) falha, levantei a sua camisa, arranhando-lhe as costas com as minhas unhas, o ouvindo gemer baixinho. Minha vez de sorrir vitoriosa. Continuei subindo a camisa, até que ele terminou de tirá-la, jogando em um canto qualquer da sua sala.
Ele voltou os beijos para a minha boca, mordendo o meu lábio inferior e o puxando. Não sei bem como aconteceu, mas minha camisa estava junto a dele, no chão da sala. Instintivamente me encolhi, sentindo uma súbita vergonha.
- Hey, amor. Você é linda - ele sussurrou no meu ouvido, fazendo qualquer vestígio de vergonha ir embora, junto com a minha sanidade. Desci os lábios por sua mandíbula, chegando ao seu pescoço e descendo pelo seu toráx descoberto. ficou de pé e eu passei minhas pernas por volta da sua cintura, sendo carregada até ele me deitar no sofá, deitando por cima de mim. Nossos lábios voltaram a se chocar, dessa vez com muito mais vontade e desejo. Senti as mãos dele passando pela minha barriga e chegando ao cós da minha bermuda, chegando ao zíper. Quando abri os olhos, os olhos dele me encaravam como que por pedir permissão. Sorri, piscando e ele abriu um sorriso maior que a cara, tirando minha bermuda mais rápido que a luz e eu não soube onde ela parou. Suas mãos vieram procurar pelo feixo do meu sutiã. Após alguns segundos tentando (em vão) abri-lo ele xingou baixinho e eu ri. Com uma mão só o abri e ele ficou olhando maravilhado meu corpo coberto apenas pela minha calcinha. Outra onda de vergonha e eu soquei-lhe o braço.
- , para.
- Você fica linda vermelhinha, - ele riu e eu não pensei duas vezes antes de tirar sua calça. Observei o corpo do meu namorado, apenas com a boxer preta e dei um sorriso, digamos, saliente. - Hey, você pode e eu não?
Corei de novo, enfiando meu rosto na curva do seu pescoço. Voltamos a nos beijar, deixando as mãos passearam livremente pelos corpos. Minha calcinha e boxer dele não tardaram a voar, assim como as outras peças. Ele pegou o pacote de camisinha, no bolso da calça. Eu estava um pouco tensa, com medo de como seria. Normal, qualquer garota virgem se sentiria assim. Mas eu sentia que estava fazendo a coisa certa, só me passava segurança suficiente para isso. Ele era meu namorado, eu o amava e ele parecia sentir o mesmo por mim. O que poderia dar errado então? Me entreguei inteiramente àquele momento, e foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
Quando deitou ao meu lado, ofegante e suado, eu ainda estava meio tonta, mas não tirava o sorriso do rosto.
- - ele sussurrou e eu virei o rosto para encarar sua face avermelhada por causa do esforço feito, minutos atrás.
- - disse no mesmo tom.
- Eu... Fiz tudo certo? Eu estava com medo... Medo de errar com você. - ele falou tão fofamente que eu passei meus braços por seu pescoço, beijando sua bochecha.
- Você foi maravilhoso, amor. Você fez como eu sempre sonhei, sabe? Muito especial.
- Eu nem espalhei pétalas de rosa pelo chão, nem nada. Nem sequer planajei, para ser melhor. Me desculpa.
- Você sabe que os detalhes são importantes, com as tais pétalas de rosa, não sabe? - ele concordou com a cabeça - Mas você também deve saber que o que faz ser especial, primeiramente, é com quem estamos e o que sentimos. Foi perfeito, porque eu estava com você e porque eu te amo.
Ele abriu um sorriso singelo, beijando meus lábios de leve.
- Você sabe o que dizer, pra me fazer me sentir menos culpado.
- , eu já disse que...
- Shiu - ele pousou o dedo indicador na minha boca - Eu vou fazer isso certo, da próxima vez.
- Como foi a prova? - perguntou, assim que saímos da sala de aula. Foram duas horas e meia fazendo aquela merda, mas eu sentia que tinha ido bem.
- Acho que foi boa. E a sua?
- Ótima, nunca fiz prova melhor. Mesmo você tendo dispensado estudar comigo para estudar com o . - corei, relembrando a noite anterior e ela parou de andar, pondo a mão na cintura. Já comentei que odeio a por ela me conhecer tão bem? - O que aconteceu?
- Não é assunto para falar aqui no pátio. - sussurrei, me sentindo meio patética. Ok, a verdade é que eu estava com vergonha e não fazia ideia de como contar aquilo pra alguém.
- Foi tão grave assim? - ela continuou a andar, ao meu lado. Balancei a cabeça, confirmando e depois negando. Nem eu mesma sabia definir aquilo - Ok, estou ficando preocupada, você está estranha. Vamos lá pra casa.
Ela me arrastou até sua casa e eu sabia que não tinha como fugir, mas também não tinha nenhuma ideia de como falar. Almoçamos em silêncio, enquanto ela me fitava, tentando descobrir alguma coisa. Quando acabamos o almoço subimos para o quarto dela e nos jogamos ao mesmo tempo em sua cama.
- Estou esperando você começar, .
- Tudo bem - suspirei fundo e fechei os olhos. Talvez sem ver a cara que ela faria seria mais fácil. - me ensinou química e depois nós começamos a nos beijar e o clima foi... Bem, esquetando.
- , sintetize para mim.
- Ta legal, , nós transamos! - quase berrei, tamanho era o meu nervosismo e abri os olhos. Ela tinha um sorriso muito cachorra-do-funk na cara que me fez querer rir também.
- Então o te ensinou química na prática - ela começou a rir descontroladamente e eu tive que fazer o mesmo. Qualquer outra amiga perguntaria como foi, se ele era bom se a gente tinha usado camisinha ou coisas do tipo. não, ela tinha que fazer piadas.
- Eu estava realmente nervosa e com medo.
- É normal, eu já te contei. - era mais experiente que eu. Não muito, ela só tinha transado duas vezes e com o mesmo cara, seu ex-namorado. Mas ainda assim era mais experiente, e ela tinha me contado com fora tudo. - Foi bom?
Finalmente a pergunta que qualquer pessoa normal faria. Mas eu não estava ansiosa por ela, eu estava tensa. Era íntimo demais, mas eu nunca tive segredos com ela.
- Foi maravilhoso, nunca pensei que pudesse ser tão bom - suspirei, fazendo com certeza uma cara de boba apaixonada.
- AH, SUA SAFADA! - ela berrou se jogando em cima de mim e fazendo cócegas na minha barriga. Meu ponto fraco. Começamos a rir e quando menos esparávamos tinhamos caído no chão. - Aw, minha bunda.
- Doeu mais em mim. Sai de cima de mim, gorda!
Ela me bateu e eu a empurrei.
[triiiiiiim tiiiiiiiim]
correu, pegando o telefone que ficava no seu quarto.
- Alô? - ela sorriu meigamente e eu fiquei curiosa - Oi, - arregalei os olhos e ela segurou a risada - Estou bem e você? - sentei na cama, pronta pra prestar atenção a toda aquela conversa - Hoje a noite? Por mim tudo bem. - HOJE A NOITE O QUE? Comecei a pular, hiperativa - Ok, oito e meia estarei te esperando, beijos.
- COMO ASSIM? ME CONTA TUDO.
- Ele me chamou pra sair, chupa esse drops! - ela jogou o telefone no canto, rindo litros.
- O amor é realmente fofo - apertei as bochechas dela - Agora eu vou indo, que a madame vai passar milhões de horas de arrumando.
- Você nem vai me ajudar a escolher a roupa?
- Não, estou sem saco - ela me encarou indignada - Mentira. Vem, vamos ver seu guarda-roupa.
CAPÍTULO 08
'No matter what you feel, this love's gonna last
Não importa o que você sinta, esse amor durará,
The heart of the soul, it breathes inside of me'
O coração da alma respira dentro de mim - Beyoncé
- Me conta tudo, tudo! - sentei na cama do quarto de e cruzei as penas. Ela se jogou de barriga pra cima na própria cama e mirou o teto por alguns segundos, depois olhou pra mim.
- não é só um rostinho bonito, ele é legal, inteligente, simpático - ela bateu palminhas, suspirando.
- Ei, que cheiro é esse? - fingi cheirar algo - Amor? Cheiro de amor?
Ela começou a rir e bateu na minha perna.
- Talvez - ela riu de lado.
- , desenrola! Rolou?
- Ele me beijou, ! - ela veio pra cima de mim, me abraçando - Foi muito bom, eu senti aquelas famosas borboletas no estômago. - ela falou rindo de si mesma.
- Minha menininha está apaixonada - apertei seu nariz, rindo com ela.
- Ele disse que me quer sempre junto.
- Ele disse isso no primeiro encontro? - tapei a boca com a mão.
- Louco, não? Eu amei.
- Claro que amou, olha o sorriso idiota no seu rosto!
- Deixa de ser chata, ta? - ela bateu no meu braço - Você também fica com cara de bunda quando fala do !
- Claro, é diferente - dei língua, mesmo sem saber porque aquilo era diferente. Na verdade era tudo igual, nós duas estávamos apaixonadas.
- O natal é a época mais linda do ano - comentei, quando coloquei a estrela prateada no topo da nossa árvora de natal. Minha mãe deu um sorriso vago e meu pai confirmou com a cabeça. Clima nada natalino, eu sei. Mas pelo menos eles passariam o natal juntos. - Já compraram meus presentes?
Me sentei no colo da minha mãe e abri um sorriso muuuuito grande, que a fez rir. Meu pai sentou ao nosso lado, pegando na minha mão.
- Você nem me disse o que queria - mamãe sorriu marota.
- Eu te comprei algo - papai sorriu - Mas é surpresa!
- Não, pai! - apertei suas bochechas - Não me deixa curiosa! Vai, por favor, por favor!
- Não, não mesmo, ! - ele gargalhou se levantando - Você vai gostar.
- Mãe, você sabe o que é? - ela negou e eu fechei a cara - Pai, você vai me contar!
- Só faltam três dias pro natal, deixa de ser curiosa, pequena!
- Três dias para eu te convencer a me contar - levantei, beijando a bochecha do dois e saindo - Vou na casa do vizinho.
Era tão estranho falar 'casa do vizinho', mas estava mais perto do que longe de eu contar aos meus pais a verdade.
- , entra - me puxou pela mão, fechando a porta atrás da gente, e em seguida prensando meu corpo entre o seu e a parede, colando nossos lábios. Com urgência. Sua mãos estavam espalmadas nas laterias do meu corpo, exercendo força demais, onde ficariam, com cereteza, marcas.
- - sorri quando partimos o beijo - Controle seus impulsos.
- É bem complicado quando eu tenho você. - ele beijou meu queixo - Ah, tenho uma coisa para você, espero que goste.
Ele me pegou pela mão, correndo escada acima comigo. Entramos no seu quarto e ele me fez sentar na cama. Ele pegou o violão, sentou na minha frente e limpou a garganta, brincando. Ficamos algum tempo nos encarando sem dizer nada. Palavras não estavam sendo realmente necessárias naquele momento, onde eu o tinha e ele me tinha, completamente. Não pude controlar os músculos do meu rosto que insistiam em formar um sorriso e acabou fazendo o mesmo.
- Vai me mostrar a música ou não?
- Quem te disse que é uma música? - ele fez cara de esperto e eu abri os braços, como se fosse óbvio, apontando o violão posicionado em seu colo.
- Ok, esperta, é uma música. Mentira, é A música. Eu que fiz.
- E você ja está convencido assim com a sua composição?
- Escuta primeiro e depois a gente volta a esse assunto - ele piscou e começou a dedilhar nas cordas do violão. Sua voz suave enxeu o quarto e eu tive que sorrir novamente.
The world would be a lonely place, (O mundo seria um lugar solitário)
Without the one that puts a smile on your face. (Sem aquela que põe um sorriso no seu rosto)
So hold me 'til the sun burns out, (Então me abrace até o sol se apagar)
I won't be lonely when I'm down. (Eu não estarei solitário quando estiver para baixo)
fechou os olhos e aumentou o tom de voz, tocando uma nota acima. Eu me perguntei bobamente se eu merecia estar ali.
'Cause I've got you to make me feel stronger, (Porque eu tenho você pra me fazer sentir mais forte)
When the days are rough and an hour seems much longer. (Quando os dias são duros e uma hora parece muito mais longa)
Ele abriu os olhos, me encarando avidamente, e por alguns instantes eu me perdi em tanta emoção que ele me passava.
I never doubted you at all, (Eu nunca duvidei de você de forma alguma)
If stars collide, will you stand by and watch them fall? (Se as estrelas caírem você esperará para vê-las cair?)
So hold me ‘til the sky is clear, (Então, abrace-me até o céu ficar limpo)
And whisper words of love right into my ear. (E sussurre palavras de amor bem no meu ouvido)
Ele parou de tocar, jogando o violão do outro lado da cama.
- Boa?
- Linda, .
- Ainda não a acabei, mas estou quase. - ele passou o polegar pela minha bochecha - Agora que eu tenho em quem me inspirar fica muito mais fácil.
- Quem seria essa sua musa inspiradora? Muito sortuda ela - beijei a ponta do seu nariz e ele riu, jogando a cabeça para trás.
- Você não conhece, uma tal de . Muito chatinha ela.
- Já ouvi falar, mas me disseram que ela era muito gata e simpática - entrei na brincadeira, quase sem conseguir controlar a risada.
- Na verdade - ele aproximou nossos rostos tanto que nossos narizes se encontraram - Eu sou apaixonado - ele passou o nariz contra o meu, no beijo-de-esquimó - por essa . - beijou minha bochecha - Mas ela não gosta de mim.
se afastou me deixando com cara de nada eu eu senti vontade de socar a cara dele. Engatinhei na cama, o empurrando fazendo ele deitar e fiquei por cima, com uma perna de cada lado do seu corpo, mas sem tocar a sua barriga com a minha. Havia espaço entre nossos corpos. Levei minha boca até seu ouvido, dando um singelo beijo.
- Essa é louca por um tal de . Faria tudo por ele. - desci a boca para o seu pescoço, dando leves mordidas - Ele que é dramático e fica se fazendo de coitado.
- É verdade, é? - ele sorriu maroto - Então acho que esses dois já perderam tempo demais.
Antes que eu associasse as palavras ditas por ele, eu já estava deitada na cama e ele por cima de mim, invertendo os papéis. Os lábios dele procuraram os meus com pressa, chocando-os com um pouco mais de força que o normal. Nem cinco minutos depois minha camisa e a dele não estavam mais nos nossos corpos e ofegávamos. Adeus pra minha calça, adeus bermuda dele. Beijos no meu pescoço, mãos na minha perna descoberta. Unhas nas costas dele, boxer dele voando para o outro lado do quarto. Beijos, lambidas e afins no meu colo, meu sutiã já não estava mais lá. Apertões na minha cintura, calcinha no pé.
CAPÍTULO 09
'Assim como o oceano só é belo com luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você'
- Vinicius de Moraes
- Então é nataaaaaaaaaaaal, e o que você feeeez? O ano termina e nasce outra veeeez! (8)
- Legal, , agora você pode calar a boca e me deixar terminar os meus cartões de natal? - resmungou. Onde está mesmo, o espírito natalino dela?
- Falta quantos? - fui ser útil e me sentei ao lado dela.
- Só dois, de minha tia e meu primo que moram no sul.
- O Mark? - perguntei, piscando. Ela riu, me batendo.
- Você é comprometida, , quer se controlar?
- Que culpa eu tenho se seu primo é um pedaço de mau caminho? - fiz cara de santa e ela me bateu de novo. Minha perna ia ficar roxa.
- Nenhuma, você não tem culpa nenhuma. São os genes da minha família - ela passou a mão pelo corpo no estilo potranca do axé e eu rolei os olhos.
- Humm... Querido Mark, que o seu natal seja repleto de felicidades e que no ano que se proxima você seja muito feliz - ela lia o que escrevia.
- Você escreveu isso em todos os cartões.
- Eu sei, mas é o que eu desejo a todos - ela deu de ombros.
- O nome disso é falta de criatividade - abri os braços para demonstrar o quanto aquilo era preocupante.
- ?
- Oi?
- Vá se fuder.
- Cara, , é natal! Para de ser grossa comigo - Drama Queen. Mas ela levantou rindo e me abraçou.
- O natal é amanhã, fofinha. - dei de ombros.
- Hoje vou comprar o presente do - suspirei - Não faço ideia do que dar.
- Não vou poder te ajudar com isso, amiga. Me desculpe, mas estou indo hoje pra casa de praia com meus pais.
- Como assim? E você só me conta isso hoje?
- Só soube hoje, foi decisão de última hora. Natal com todos os parentes.
- Mark vem?
- Não, - ela rolou os olhos - O que foi? não dá conta do recado?
- Claro que dá - sorri maliciosamente - Só foi uma pergunta.
- Bom, vou indo colocar isso no correio - pegou os cartões de natal - E arrumar minha bolsa.
Ela saiu me deixando lá sozinha.
- MÃE, VEM CÁ - gritei, sugando a maior quantidade de ar que cabia no meu pulmão. E a coragem foi aos poucos chegando, porque eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu teria que fazer.
- Oi, - ela entrou no meu quarto e eu pedi para que ela sentasse ao meu lado - Algum problema?
- Mais ou menos, mãe. Eu te escondi uma coisa durante algum tempo, e foi por medo. - ela me olhou instigada, eu sabia que ela odiava quando eu escondia as coisas - Sabe o vizinho? O ?
- O que que tem?
- Ele não é só meu vizinho, mãe... O que eu quero dizer é que a gente tá namorando - fechei os olhos.
Eu estava esperando gritos e até tapas, mas estava demorando a acontecer, então abri os olhos. Ela estava com as bochechas levemente vermelhas, mas não tinha expressão de que iria me matar.
- Eu imaginava algo do tipo. Ele é bem bonito e você só vive com ele agora. Eu só queria que você tivesse me contado antes.
- Tive medo - sussurrei - Porque ele é mais velho.
- Seu pai realmente não vai gostar. Mas eu? Sempre fui sua amiga, .
- Me entenda, aqui em casa estava um caos, eu tinha medo. - ela me abraçou forte.
- Desculpa, eu entendo seu lado.
- Mãe, tem outra coisa - eu sorri, sem graça. - Me ajuda a escolher um presente de Natal para ele?
Ela riu e mandou eu me arrumar, para irmos ao shopping.
Chegamos do shopping muito cansadas e fomos logo nos jogando no sofá e largando as sacolas de compras pelo chão mesmo. Eu tinha esquecio como eram bons esses programas maternais. Acho que talvez pelo tempo que não fazíamos isso. Mas a nossa tarde foi bastante animada e eu pude sentir minha mãe um pouco mais feliz do que nas útimas semanas.
- Vou ar um banho e descansar- ela avisou, pegando suas sacolas - Comprar cansa!
Peguei minhas sacolas e fiz o mesmo, ando um banho relaxante e me jogando na cama. Amanhã seria Natal, e normalmente seria um dia feliz. Fechei os olhos tentando entender meus pais, mas nada fazia muito sentindo. Eles se amavam, isso era perceptível, mas eram implicantes e orgulhosos, e também infiéis. Era um amor bem doente, mas era.
O celular tocou e eu me virei preguiçosamente para atender, sem me dar ao trablho de ver o nome que piscava no visor.
- Alô?
- Amor?
- ! - me animei mais ao ouvir sua voz - Queria te ver hoje, mas tinha que ser antes de meu pai chegar.
- Vem aqui pra casa, os meninos estão aqui. Trás a .
- viajou, posso ir sozinha?
- Claro, meu amor - ele riu - Estou esperando.
- Estou indo.
Apesar do cansaço, troquei de roupa e passei no quarto de minha mãe antes, avisando aonde ia.
Cheguei na casa do e fui entrando sem bater, já que aquela porta só vivia aberta. Estavam sentados no sofá, comendo pizza e assistindo qualquer coisa na TV. Assim que entrei, o olhar dos quatro caíram sobre mim. Sorri sem graça e fui pra perto do meu , beijando sua bochecha.
- Oi, meninos! - saudei e eles retribuíram minha saudação animados. - nem pôde vir, .
- É, ela foi pra casa de praia com a família.
- Olha, sabe até pra onde ela foi - Harry caçoou.
- Eu tenho que saber, cara - , mesmo vermelho, não se abateu - Uma garota como ela nós não podemos deixar solta, não.
- Oh, não! Ele tá apaixonado! - Danny berrou e gargalhou em seguida, sendo seguido por nós. deu de ombros, nos ignorando.
- Comprei seu presente hoje - susssurrei a e ele estremeceu. Sorri satisfeita.
- E o que é? - ele perguntou, enquanto brincava com meu cabelo.
- Segredo.
- Então também não te conto o que eu comprei pra você - ele deu língua.
- Acho justo - controlei minha curiosidade, mas ele não se deu por satisfeito.
- Eu te conto - ele beijou meu pescoço e eu senti um arrepio pela espinha - Se você me contar.
- Desiste, eu vim preparada contra as suas artimanhas - passei a unha por sua nuca e ele resmungou algo incompreensível.
Os meninos se entreolharam e riram, saindo de fininho logo em seguida, provavelmente para a cozinha, para beber.
- , não fica me provocando assim que temos visitas - ele enfiou a cabeça na curva do meu pescoço, respirando fundo.
- Você quem começou, bobinho. - beijei sua testa e ele olhou pra mim.
- Se você soubesse o quanto estar aqui me faz feliz. Era como se eu estivesse congelado e você veio e me esquentou.
Encarei os olhos brilhantes dele por alguns segundos, querendo guardar aquele momento pra sempre. Eu tinha tanta sorte por tê-lo.
- O NOME DISSO É FOGO! - Danny gritou lá de dentro e eu corei. gargalhou e virou a cabeça na direção da cozinha.
- É tão feio ouvir a conversa dos adultos, crianças! - brincou.
- Desculpa, pai - fez voz de bebê e eu achei a coisa mais fofa.
- Mas é que a gente não tem culpa se o fogo da mamãe te esquentou! - Harry também imitou bebê e nós rimos.
- Parem de constranger minha namorada - fez bico, me abraçando mais forte pela cintura.
- Já chamou ela, ? - Danny perguntou do nada.
- Não, eu ia chamar, mas vocês nos interromperam.
- Chamar quem pra o quê? - perguntei, curiosa.
- Chamar você para a nossa festinha de Natal - explicou - Porque nós quatro moramos sozinhos aqui, sem família, sem nada. Então a gente se junta todo Natal, porque viajar para encontrar a família sai caro.
- E nós somos uma família! - sorriu e deu um abraço coletivo em todos.
- Aw, meninos. Obrigada por me chamarem, mas eu tenho que passar Natal com meus pais. Esse provavelmente é o último que eles vão passar juntos - falei baixo, sentindo um nó na minha garganta.
- Ei, ninguém aqui gosta de te ver triste não! - Harry me puxou pra um abraço apertado e em seguida senti outros três pares de braços fortes me envolverem. Outro abraço coletivo.
CAPÍTULO 10
'Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora,
pois tudo passa a acontecer dentro de nós.' - Clarice Lispector
As luzes do pisca-pisca brilhavam na decoração de natal da minha casa. O cheiro da ceia penetrava pelas minhas narinas fazendo meu estômago não se contentar mais com o copo de refrigerante que estava em minhas mãos. Minha mãe estava sentada perto da árvore de natal, fitando as próprias mãos, enquanto meu pai bebia seu vinho tinto, encostado na janela. Espírito Natalino? Não existia. Devia ter aceitado a proposta do e ter ido passar o natal com ele e os meninos. Bufei irritada e me larguei numa poltrona.
- Que horas são? - eu queria logo comer e ir pro meu quarto.
- Já quer abrir os presentes? - minha mãe me fitou. Claro, eu nem lembrava dos presentes. Estranhamente eu não queria saber de merda de presente nenhum. Eu estava irritada por estar passando o pior natal da minha vida.
- Claro - respondi cinicamente, me dirigindo até a árvore e pegando um embrulho dourado. Estava escrito 'Mamãe' e eu sabia que tinha sido comprado por meu pai afinal, eu não comprei nada. Estendi para ela, que pegou fazendo uma discreta careta. Ela também sabia quem tinha comprado.
O outro embrulho estava escrito 'Papai'. Ri melancolicamente, sabendo que minha mãe que tinha comprado. Entreguei a ele que não demonstrou nenhum sentimento.
- Esse é seu - minha mãe me estregou uma caixinha rosa. Ri baixinho, já sabendo o que era, afinal tinhámos comprado juntas no shopping. Abri, revelando um colar de prata, com um pingente em forma de borboleta. Nas asas havia escrito 'Sempre Juntas'. Ela tinha comprado um igual para si mesma.
- Seu presente - meu pai me estendeu um envelope. Peguei, franzindo a testa, sem entender que tipo de presente estaria num envelope. Era um envelope grande. Dinheiro? Olhei para minha mãe buscando alguma explicação, mas ela evitava me olhar nos olhos e eu senti que havia algo de muito errado ali. Abri lentamente o envelope e tinha outros dois envelopes dentro. Soltei o ar, ficando sem paciência e abri o primeiro envelope. Um sorriso muito grande se instalou no meu rosto assim que eu percebi que eram duas cartas de aceitação para universidades. Uma em Londres, onde a gente morava e uma em Nova York. Era esse o presente? Por mais que eu estivesse feliz, eu não entendia porque ele havia me dado aquilo. Poupando dinheiro?
- Pai?
- Abra o outro, querida.
Fiz o que ele pediu e vi duas passagens, uma de ida e uma de volta, para Nova York. A escritura de um apartamento lá. O que era aquilo?
- Eu não estou entendendo - sorri nervosamente.
- Eu vou explicar tudo - meu pai faou calmamente - Eu e sua mãe vamos nos separar, como você sabe. Você vai entrar na universidade. Nenhum de nós quer abrir mão de ficar com você, então para não ter briga, achamos melhor você ir morar nos Estados Unidos e fazer faculdade lá.
- Eu posso dar a minha opinião?
- No final, eu vou escolher.
- Eu não quero ir, eu fui aceita numa universidade daqui.
- A de lá é bem melhor, . Estou pensando no seu futuro.
- Eu não quero ir! - repeti, perdendo o controle. Meu pai segurou meu braço com força e eu pensei que ele ia me bater, mas ele me abraçou. Eu não queria sentimentalismo agora!
- Você vai. - ele sussurrou e eu queria mandá-lo pro inferno.
- Minha vida está muito boa aqui! Eu tenho amigos, tenho uma casa, tenho um namorado!
Tarde demais pra voltar atrás? Meu pai me soltou e ficou mudo por alguns minutos, absorvendo a informação. Eu sabia que ele era bem ciumento e não devia ter falado aquilo, mas minha raiva me impedia de tomar atitudes concientes.
- Namorando? - ele repetiu, devagar - Escondido?
- Na-não é escondido. A mamãe sabia - olhei para ela, pedindo clemência.
- Vadias - ele rosnou - Vadia você e vadia ela!
Meu olho ardia de vontade de chorar.
- Pai...
- Quem é? Qual o nome dele? Quem é?
- , 20 anos, estudante de direito - falei tudo de uma vez, temendo se aquilo ia melhorar ou piorar a situação. Pela cara que ele fez piorou tudo.
- ? ? - ele berrou avançando em minha direção. Eu corri e fiquei atrás do sofá. - Você tem alguma noção de quem são os ?
- 'Os' eu não sei, mas o é meu namorado!
- , é melhor você calar a boca e ouvir seu pai. - minha mãe falou alto. Balancei a cabeça negativamente, não acreditando naquilo.
- O papai está totalmente fora de controle e a senhora o defende?
- Não é questão de denfender.
- Então é questão de quê?
- CALA A BOCA E ME ESCUTA! - meu pai berrou e suas veias do pescoço pareciam que iam voar. Calei a boca, não porque ele mandou, mas por estar muito assustada com tudo. Que diabos era aquilo?
- Fale então. Eu quero saber o porquê disso tudo.
- Você por acaso se lembra da nossa antiga empresa? - o tom de voz do meu pai era algo que eu chamaria de 'falso controle'. Ele estava se esforçando para não perder a calma, mas não estava indo muito bem. Assenti com a cabeça, sem entender como aquilo ia revelar quem era o pai do - Você se lembra que nós sofremos um golpe e perdemos tudo? - eu era muito pequena, talvez uns cinco anos, mas eu me lembrava. Foram os dois piores anos das nossas vidas, morando com a vovó e sem dinheiro para nada. Novamente fiz que sim com a cabeça - Você não consegue se lembrar o nome do meu sócio?
Nomes? Eu nunca fui boa em lembrar nomes. Neguei, sentindo um peso no estômago. Onde aquilo ia parar, afinal?
- O nome pouco importa pra você. O sobrenome é mais importante. .
- O senhor que dizer que... Que o seu sócio que roubou nossa empresa era o pai do ? - franzi a testa, sem querer acreditar.
- É isso aí. Ele não é tão perfeito quanto parece, não é mesmo?
- Pode existir outro por aí, não pode? - meio que gritei, desesperada.
- , por favor. Ele tinha um filho, eu me lembro. Alguns anos mais velho que você. É o pai do seu namoradinho.
- Isso mesmo, é o pai dele. Não ele. Ele não tem nada a ver! - fechei os olhos, sentindo grossas lágrimas rolarem por minhas bochechas.
- Eu não me importo se foi o pai, o tio, o avô ou o diabo. Eu não quero você com esse cara. - meu pai falou com seu tom de ponto final.
- Não me importo. A vida é minha, eu quero o .
Meu pai não falou nada, caminhou até mim, arrancou os papéis da minha mão. Eu nem sequer lembrava de ainda estar com aqueles papéis em mãos. Ele me encarou firmemente, arrancou um papel do bolo e me mostrou. Era a minha passagem de volta, dos Estados Unidos.
- Você olhou a data da sua viagem?
- Não, porque eu não vou viajar - tentei me impor, mas o máximo que consegui foi deixar escapar um soluço baixo.
- Então eu te digo. Três dias. Você viaja daqui a três dias. - Ele pegou a passagem de volta e rasgou ao meio. Tentei gritar que não, mas minha garganta estava fechada pelo choro. - E não vai voltar.
Fechei as mãos em punho, sentindo minha pele se ferir por causa das minhas unhas e corri pra o meu quarto, ignorando os gritos dos meus genitores. Fechei a porta atrás de mim, mas não tranquei, não pensei nisso. Me joguei na cama, sentindo os soluços ficarem cada vez mais intensos e meus olhos arderem por força das lágrimas. Meu estômago estava pesado, dando voltas dentro de mim. A porta do quarto de abriu e eu fechei os olhos, me encolhendo na cama, como se pudesse afastar quem quer que fosse. Eu não queria ver ninguém.
- - a voz de meu pai tinha um tom, realmente, paterno. Ele queria dar uma de pai agora? Falhou, tarde demais. - Eu não quero que você ache que estou fazendo isso por mal. - minha resposta foi abafada pelo travesseiro que eu tinha colocado em cima do meu rosto - Eu estou fazendo isso pro seu bem. Esse não é um bom garoto. Ele nem sequer é um garoto, ele já é um homem.
- O senhor não o conhece, não fale dele - tirei o travesseiro da cara, me sentando na cama. Ele mantinha uma expressão séria, me fitando com amor. Pega esse amor e... Argh! Voltei a fechar os olhos, impedindo qualquer contato visual.
- O pai dele quase acabou com nossas vidas.
- só me falou do pai uma vez, e foi uma coisa boa. Disse que o pai e mãe viviam bem, se amavam e nunca brigavam - relembrei, sentindo outras lágrimas descerem pelo meu rosto - Ao contrário dos meus.
- , olhe para mim - ele segurou meu queixo e eu abri os olhos - Eu não quero você perto dele. E estou disposto a tomar atitudes drásticas.
- Drásticas como me mandar para outro país, completamente sozinha? - resmunguei.
- Drásticas como tirar o da sua vida de uma vez por todas.
- O que... O que foi que o senhor disse?
- Você só tem que escolher. Ou fica longe dele, e isso inclui você em outro país, ou ele... Hmm, ele vai sofrer as consequências - nunca o tinha ouvido usar aquele tom de voz. Era frio, calculável, ameaçador. Ele estava usando aquele tom de voz como uma ameaça a sua própria filha.
- O senhor não faria isso - tentei me convencer, jogando a cabeça pra trás.
- Eu sempre fui um bom pai, não fui? Então por que não me obedecer? Eu sei o que é melhor para você. - ele estava totalmente fora de si, essa era a única explicação.
- Pai, eu o amo - falei pausadamente.
- Na sua idade não se ama - que ideia era aquele de que tinha idade para amar? - Sabe, eu nunca fui ruim com você, não é? Eu sempre fui um bom pai, amoroso e atencioso. Mas eu tive que recomeçar, por culpa do pai do seu namoradinho, claro. Eu não subi na vida novamente com facilidade. Eu lutei pra isso, eu derrubei pessoas. Eu tirei quem estava no meu caminho. Eu queria o poder e não me importava como consegui-lo. Eu o tenho, hoje. Graças a minha...
- A sua o quê? A sua falta de escrúpulos?
- Chame do que quiser - ele disse simplesmente e eu não pude acreditar. Quem era aquele e que porra tinha feito com o meu pai? - Eu chamo de inteligência.
Levei as mãos até meus cabelos, os puxando para trás, sentindo o corpo todo fraquejar. Eu tinha que estar sonhando, eu tinha. Eu ia acordar e estaria tudo bem. Levantei e desci as escadas correndo, eu estava querendo fugir e ficar em casa era minha última opção. Me arrependi no momento em que coloquei o corpo fora de casa, pelo frio que me acertou com tudo. A neve caia devagar, mas já havia feito uma conseiderável camada sobre a grama. Neve ou pais? Aquilo era realmente uma disputa? Encarei a neve e frio e saí correndo pelo jardim, até alcançar o jardim do . Cheguei até a porta da casa dele e ouvi risadas altas, dele e dos meninos. Que direito eu tinha de estragar a festa de Natal deles? Passei a mão pelo rosto, limpando as lágrimas e prendi o cabelo num coque, sentindo meu corpo reclamar de dor e de frio. Voltei para o jardim da minha casa e cogitei a ideia de ir pra cama. Não, eu teria que ver meus pais. Sentei num banquinho e deitei.
CAPÍTULO 11
'Are you afraid of being alone?
Você está com medo de ficar sozinha?
Cause I am, I'm lost without you
Porque eu estou, estou perdido sem você. - Blink 192
Coloque para carregar 'Never gonna be alone' do Nickelback
Acordei na minha cama quentinha, totalmente o oposto de onde eu lembrava ter dormido, no banco do jardim, coberta de neve. Agradeci mentalmente a quem tinha me tirado de lá. O que eu tinha feito? Eu poderia ter morrido lá fora.
- Acordou? - Minha mãe entrou no quarto, com um bandeja de comida. Fiz cara feia, por não sentir vontade de comer nada.
- Como eu vim parar aqui? - ela suspirou, colocando a bandeja em cima da mesinha.
- Seu namorado, . Veio te procurar e dissemos que você tinha saído. Sabe, ele realmente queria passar o natal contigo. Seu pai o ameaçou e tudo, mas ele não se intimidou. O garoto gosta mesmo de você. - Eu sorri, e senti minhas bochachas doerem. Talvez o frio demais de ontem tivesse me afetado - Ele te achou no jardim e te trouxe para cá. estava muito preocupado.
- Onde ele está?
- Dormiu no quarto de hóspedes, não quis ir pra casa. Seu pai queria matá-lo, mas também estava preocupado com você, então foi dormir - ela me fez comer um pouco e eu senti meu estômago dar uma volta - Quer que eu chame o ?
Assenti com a cabeça, porque a boca estava ocupada tomando leite.
Ela saiu do quarto e poucos minutos depois entrou, se agachando ao meu lado, na cama, passando a mão pelo meu rosto.
- Como você está? - ele sussurrou - Fiquei muito preocupado, . Nunca mais faça isso.
- Obrigada por se importar comigo - minha voz falhou e eu fechei os olhos, com medo de chorar. Eu não podia chorar, eu tinha que ser forte para contar para ele.
Time, is going by, so much faster than I, (O tempo está passando muito mais rápido do que eu,)
And I'm starting to regret not spending all of it with you. (E eu estou começando a me arrepender de não gastar tudo isso com você.)
Now I'm wondering why, I've kept this bottled inside, (Agora estou querendo saber por que eu tenho mantido isso engarrafado aqui dentro,)
So I'm starting to regret not telling all of it to you. (Então, eu estou começando a me arrepender de não vender tudo isto para você.)
So if I haven't yet, I've gotta let you know... (Então se eu não o fiz ainda, quero que você saiba...)
- Eu te amo, pequena, você é muito importante para mim. Às vezes eu fico pensando que eu não sou o mesmo depois que te conheci - ele sorriu fracamente - E não consigo me imaginar longe de você, acho que eu não saberia viver.
Não diga isso! Era o que eu queria gritar, mas uma onda de choro chegou e eu já não me preocupada mais em ser forte, eu nunca conseguia mesmo. me olhou sem saber o que fazer e me abraçou, tentando me acalmar, mesmo sem saber o que era.
- , calma! Não faz assim, tô ficando muito preocupado, amor.
- Aw, , eu não quero. Eu não posso, não vou conseguir!
- Me diga o que aconteceu e eu resolvo pra você.
Never gonna be alone, (Você nunca vai estar sozinho,)
From this moment on! (Deste momento em diante!)
If you ever feel like letting go, (Sempre que você sentir que está partindo,)
I won't let you fall... (Não vou deixar você cair...)
- Você não pode, ninguém pode.
- Estou assustado, . - ouvi ele suspirar pesadamente.
- Eu vou mudar de cidade, fazer minha faculdade em outro lugar, morar sozinha. Única solução encontrada por meus pais para mim, não é ótimo? - ironizei, me entregando ao abraço dele com mais força.
O quarto ficou em silêncio, exceto pelos meus soluços altos. não tinha me soltado de seu abraço e eu agradecia muito por isso, caso contrário eu não sei como agiria. Não sei quanto tempo ficamos assim, abraçados e calados, mas deve ter sido um tempo realmente bom, porque eu estava cansada de chorar, meus olhos ardiam e eu queria morrer.
Never gonna be alone! (Você nunca vai estar sozinho!)
I'll hold you 'til the hurt is gone. (Vou te segurar até a dor passar.)
- Me diz que isso não é verdade, por favor - a voz estrangulada do meu garoto me fez perder o ar. Ele segurou meu rosto entre as mãos e eu pude ver que eu não era a única a chorar. Seu rosto estava vermelho e molhado, assim como seus olhos.
- Eu queria muito que alguém me dissesse isso.
- Meu Deus, eles não podem fazer isso!
And now, as long as I can, (E agora, enquanto posso,)
I'm holding on with both hands, (Tenho aguentado firme com ambas as mãos,)
'Cuz forever I believe that there's nothing I could need but you, (Porque sempre acredito que não há nada que eu precise além de você)
So if I haven't yet, I've gotta let you know... (Então se eu não o fiz ainda, quero que você saiba...)
- O pior é que podem - segurei seu rosto, exatamente como ele fazia com o meu.
- Você sabe que eu não vou aguentar sem você, não sabe?
- Não diz isso, . - limpei as lágrimas do meu rosto, para mostrar a ele como deveríamos ser fortes, mas o máximo que pareci foi uma garotinha assustada, com medo do escuro. Ele beijou meu rosto do modo mais carinhoso que alguém já fez e tomou minha mão entre as suas.
- Me tornei dependente de você, às vezes sinto como se fossemos um só.
Never gonna be alone, (Você nunca vai estar sozinho,)
From this moment on! (Deste momento em diante!)
If you ever feel like letting go, (Sempre que você sentir que está partindo,)
I won't let you fall... (Não vou deixar você cair...)
When all hope is gone, (Quando toda a esperança estiver desaparecido)
I know that you can carry on. (Eu sei que você poderá continuar,)
We're gonna see the world out, (Vamos ver o mundo,)
I'll hold you 'til the hurt is gone. (Vou te segurar até a dor passar)
- Passamos pouco tempo juntos e eu sinto como se tivesse sido a eternidade - falei. A sinceridade dele me fez querer falar também, falar tudo que eu estava pensando e que eu queria esconder, por medo de sofrer mais. Achei que quanto mais eu deixasse meus sentimentos expostos, mais eu sofria por ter que guardá-los depois.
- Para mim foi a eternidade. - ele voltou a me abraçar. Nossos corações batiam tão rápidos e descompassados que chegava a doer.
- Promete que nunca vai esquecer tudo que vivemos? - me senti infantil com aquela pergunta, mas não pude deixar de fazê-la. Ele me encarou por poucos segundos, até que outras lágrimas invadissem seu olhar.
- Eu nunca vou esquecer, nem que eu queira.
- Eu pensei que depois que encontrasse alguém como você, assim como eu sempre sonhei, tudo ia ser perfeito. Eu pensei que seria pra sempre.
- Eu não quero te deixar ir. Me deixa te roubar pra mim? - ele fechou os olhos e grossas lágrimas rolaram pelas suas bochechas rosadas.
- Na verdade eu tenho que ir - uma súbita lembrança da ameaça do meu pai veio a minha mente. Eu não podia colocar a vida do em risco, porque eu o amava muito. E eu tinha que ter a certeza de que ele estava bem, mesmo que longe de mim.
- Você quer ir?
- Querer eu não quero, mas eu preciso.
- Me explica, amor... - ele beijou meus lábios tão levemente que eu quase não os senti.
- Não posso, só me entenda. Eu te amo e eu nunca faria algo que fosse ruim pra você - sussurrei.
CAPÍTULO 12
'Eu vou aonde você for e a sua mão não vou soltar' - Fresno
tinha ido embora há algumas horas e eu não queria sair do quarto. Tinha medo de encontrar meu pai e querer socá-lo até a morte. Meu pai costumava ser meu herói, eu não podia acreditar que agora ele era o vilão da história. Estiquei meu braço, pegando meu celular em cima de mesinha e pensei na .
Liguei para ela contando tudo e foi uma das piores dores que já senti na vida. Ouvi-la chorando e dizendo que todos os nossos anos de amizade ficariam guardados para sempre foi dilacerador. Choramos por muito tempo no telefone, até eu não ter mais forças, perder o ar e desligar.
Minha mãe tentou conversar comigo, mas eu não queria e nem se eu quisesse eu teria forças.
- Eu não acredito que você vai sem nem lutar pra ficar - me ajudava a arrumar as malas. Suspirei pesadamente, jogando umas blusas mal dobradas dentro da mala. Eu não tinha contado para ela das ameaças de meu pai, de assustada já bastava eu.
- Eu lutei, mas não teve jeito. Vai ser melhor assim. - Não havia sido uma total mentira, porque sim, eu tinha lutado. Mas não achava que seria o melhor para mim. Seria melhor para o . Eu não tinha o direito de ser egoísta.
Não naquele momento.
- Melhor para quem? Não para mim, nem para o - ela fez bico e eu a abracei de lado, beijando sua testa.
- Não é como se fosse definitivo. E além do mais, você ainda pode receber sua carta de aceitação para lá também - sorri animada. Desde que eu me lembrei que tinha mandando sua carta para lá, um sentimento de esperança faiscava dentro de mim.
- É mesmo! - ela sorriu também - Mas eu não estou muito feliz com a possibilidade de mudar de cidade, ficar loge do .
E nem eu do , fato. Mas a vida dele era mais importante do que meus caprichos.
- Lá tem outros caras - doeu falar isso, porque eu sabia que não ia querer merda de outro cara nenhum.
- Não quero, só quero o .
- Shiu, cala a boca apaixonada e pega minhas calças jeans ali em cima - apontei para a parte mais alta do ármario, pondo fim àquela conversa que me embargava a voz.
Todas as minhas roupas estavam arrumadas nas malas. Eu tinha que aceitar que minha vida não pertencia mais àquele lugar, e tinha que ser rápido.
foi embora depois que acabamos tudo e eu fui tomar um banho. Troquei de roupa e ouvi minha barriga roncar. Desci as escadas correndo e entrei na cozinha. Fiz um hamburguer reforçado e um copo de suco de laranja e sentei na mesa, comendo tranquilamente, tentando desligar minha mente de tudo.
- ! - berrei na porta da casa dele, esperando-o aparecer na janela ou abrir a porta. A campanhia estava com defeito, então era na base do grito mesmo.
- Hey, pequena! - ele colocou a cabeça na janela do quarto e balançou a cabeça, fazendo com que algumas gotas de seu cabelo molhado chegassem até mim, me fazendo dar um gritinho.
- Desce!
- Sobe! Tá aberto.
Entrei com total facilidade e esperava me lembrar de bater nele por deixar a porta aberta. O mundo era perigoso e meu pai também. Mas assim que eu entrei no seu quarto e ele colou os lábios nos meus eu não consegui pensar em mais nada. Deslizei minhas mãos da sua nuca até o sem ombro e percebi que ele estava sem camisa. Ele desceu a boca pelo meu pescoço, depositando beijos carinhosos por ali que me fizeram tremer. Continuei descendo minha mão por sua barriga definida, passando minhas unhas com um pouco mais de força por lá, o fazendo contrair os músculos, soltando uma risada abafada pelo meu pescoço. Quando desci minhas mãos mais um pouco, pude perceber que ele não estava de bermuda, nem de boxer. Apenas uma toalha estava enrolada do seu quadril para baixo. Aquilo me deixou, digamos, muito empolgada. Sem pensar duas vezes puxei a toalha com força a fazendo parar no chão. Ele afastou o rosto, me olhando profundamnete nos olhos, com um sorriso muito meigo, totalmente o contrário do que eu esperava encontrar: um sorriso bem safado. E foi naquele momento, o vendo sorrir daquele jeito sincero e apaixonado para mim que eu soube que estava fazendo o certo, protegendo-o. Suspirei fundo, e eu mesma tirei a minha blusa, enquanto ele olhava para meu busto e acariava meu rosto.
- Obrigada por existir na minha vida. Eu faria tudo para te ver feliz - ele sussurou, colando nossos lábios de novo. Aos poucos nosso beijo foi ganhando velocidade e empolgação e em pouco tempo estávamos deitados na cama, ofegantes e suados, nos livrando das poucas roupas que ainda me cobriam.
Estávamos os dois deitados de barriga para cima, encarando o teto branco do seu quarto. Já fazia um bom tempo que estávamos nessa posição, apenas ouvindo as nossas respirações se acalmarem. Deslizei minha mão pela colcha da cama até tocar seus dedos e entrelaçar nossas mãos.
- Você me faz tão feliz - sussurrei. Ele virou o corpo para mim, colocando a mão na minha cintura. O brilho dos seus olhos me fez entender que tudo que eu faria valeria a pena. Ele estava ao meu lado agora, isso era o que importava.
- Eu estou quebrado por dentro. Se eu estou aqui agora, como se eu estivesse bem, é só por sua causa. Porque eu quero me manter de pé para te apoiar. - ele fechou os olhos e me puxou para um abraço - Sei que está sendo muito difícil para você, e não quero ser egoísta de pensar primeiro na minha dor. Sua dor é mais importante e eu vou fazer de tudo para tirá-la de você.
Eu queria sorrir com aquelas palavras. Eu poderia sorrir, afinal era tudo que eu sempre sonhei, alguém que me amasse e me colocasse em primeiro lugar sempre. Mas eu não estava feliz. Eu queria poder sumir e levar a dor de comigo, o mesmo que ele estava querendo fazer com a minha. Eu queria poder fazê-lo feliz e para que isso acontecesse ele precisava estar vivo. E comigo por perto isso não aconteceria. Ele certamente encontraria outra garota que o faria tão ou mais feliz que eu. Era essa minha esperança.
- .
- .
- Um dia a gente ainda vai se ver de novo. E vai ser o dia mais lindo da minha vida.
- Eu prefiro pensar que não vamos nos separar.
- , por favor... - gemi - Não fala essas coisas, você não sabe o quanto foi difícil para mim aceitar e te ouvir falar assim me faz querer desistir.
- Desista, por mim - ele beijou minha bochecha, carinhosamente.
- Eu não posso. E é exatamente por você.
me olhou, talvez esperando uma continuação para aquela frase, mas eu simplesmente não conseguia continuar. Tentei sorrir, mas o máximo que fiz foi uma careta de dor. Levantei da cama, sem encará-lo, porque tinha medo de não conter as lágrimas. Eu não devia ter vergonha de chorar na frente dele, não depois de tudo. Mas quando eu parava para pensar, não era vergonha. Era medo de que ele sentisse mais dor com a minha demonstração explícita de dor. Coloquei minha roupa de volta ao meu corpo e respirei fundo, criando coragem de me virar para ele.
- Olha pra mim - eu pedi, vendo que ele encarava o teto. Ele desviou o olhar para mim. - Nunca duvide nem um segundo, que eu estou fazendo isso por amor.
- Eu só queria entender, .
- É muito complexo. Mas é por amor. - caminhei até ele e selei nossos lábios - Tenho que ir.
CAPÍTULO 13
'I don't know if I like it without you,
Eu não sei se eu gosto disso sem você,
Tell me how I'm supposed to make it witout you
Diga-me como eu deveria fazer sem você. - Pixie Lott
Passei pelo corredor, vendo pela porta entreaberta o meu quarto. Quarto esse, aliás, que eu nem considerava mais meu. E eu me pegava pensando em como seria meu quarto no lugar novo. Como seria o banheiro, como seria a cozinha. Enfim, como seria a MINHA casa. Por mais que eu não estivesse feliz (lê-se: eu estava morrendo de tristeza) não vou negar que a ideia de ter uma casa só para mim era atrativa. Meu pai não me dirigia a palavra e nem eu à ele. Minha mãe, apesar de não saber do acontecido, não intervia para que o clima melhorasse. Melhor assim, não?
Eu deitei no sofá, com um pote de pipoca em cima da barriga, assistindo pelo 12813783ª vez 'Titanic'. É, TITANIC. Gosto do filme e sempre choro. Não tem uma vez que eu não chore ou fique imaginando o que eu teria feito no lugar da Rose. Eu teria segurado o Jack lá comigo, não o deixaria morrer daquele jeito. Mas a situação não era tão fácil, a teoria sempre é melhor do que a prática e eu não podia julgar ninguém.
- Boa noite - minha mãe entrou na sala, carregando suas dezenas de pastas.
- Boa. - respondi sem tirar os olhos da TV.
- Hoje seu pai resolveu tudo. Terminamos de acertar tudo para que você possa viajar com tranqulidade.
Eu ri incrédula. Tranquilidade? Levantei do sofá, tentando não perder a calma. Lembro que quando eu ia às sessões da psicóloga ela me disse que se eu perder a calma, perco a razão também.
- Que bom. Fico bem mais feliz agora - ', ser irônica não é bom'. A voz da psicóloga ecoava no meu subconsciente.
Foda-se.
- Eu não queria te ver sofrer.
- Claro que não, você só quer me afastar de tudo que eu gosto. Esse deve ser o melhor modo de fazer alguém feliz.
- !
- Vou pro meu quarto.
Meu telefone tocava e eu atendi, respirando fundo para que quem estivesse do outro lado da linha não ouvisse minha voz de choro.
- ?
- Oi.
- Não faz isso, por favor - sussurrou, numa súplica. Eu deixei que uma lágrima escorresse pelo meu rosto, fraca demais para lutar contra elas.
- Um dia você vai entender e vai me apoiar.
- Eu não consigo entender, ...
- Você deixaria que algo de ruim acontecesse ao por sua culpa?
- Não, por minha culpa não. Mas...
- É só isso que eu posso falar, eu estou tentando protejer o .
- É, talvez um dia eu entenda. Hoje eu não consigo.
- Eu tenho medo de te contar e algo de ruim aconteça a você. Eu só amo vocês demais pra me pôr em primeiro lugar.
Acordei no dia seguinte com muita dor de cabeça. Faltava um dia para a viagem. Tomei um banho rápido, coloquei uma regata azul e uma bermuda jeans, deixei os cabelos soltos e desci as escadas. Ia na casa do , eu queria sentir o abraço forte e quente dele, queria ouvir a voz dele no meu ouvido, queria sentir o toque dos seus lábios na minha pele.
Minha mãe e meu pai não estavam em casa, melhor assim. Abri a porta, sentindo o vento de inverno de dezembro bagunçar meus cabelos e me fazer arrepiar. Entrei na casa dele, porque como sempre a porta estava aberta. Dessa vez eu ia pedir pra ele trancar, sim, eu ia. A sala estava em silêncio, mas uma voz baixinha vinha da cozinha. Sorri só de ouvir a voz dele, que estava cantarolando algo. Cheguei na porta da cozinha e o observei de costas, mexendo algo na panela.
- Amor - o chamei, e ele virou para mim sorrindo.
Sorrindo aquele sorriso sincero e brilhante que me fazia querer pular no pescoço dele e nunca mais soltar.
- ! - ele parou de mexer seja lá o que fosse e se apressou em minha direção, me abraçando forte - Esperei você me ligar ontem, mas você me esqueceu.
Ele fez bico e eu apertei suas bochechas, num ímpeto. Beijei seus lábios levemente, acariciando sua face. Ele sorriu entre o beijo, apertando minha cintura contra seu corpo.
- Eu não estava muito bem ontem, então eu não quis... Incomodar.
- Por favor, não diga isso - ele me deu um selinho rápido - Você sabe que não me atrapalha em nada.
- Mesmo assim, eu...
- O que você tinha?
- Só nervosismo - mordi o lábio inferior.
- Vamos para a sala. - ele pegou minha mão e me puxou para a sala, nos sentando no sofá. Ele segurava firme as minhas mãos, como se soubesse que eu precisava de apoio naquele momento. Tentei sorrir para ele, mas não devo ter obtido muito sucesso. - Ainda há tempo de desistir.
- Amanhã - eu comecei a chorar só com a menção do dia. AMANHÃ? Eu não tinha me dado conta do que realmente iria acontecer. se assustou com a minha reação e me puxou para seu colo, fazendo carinho na minha cabeça, e me apertando contra ele. Eu enfiei minha cara na curva do seu pescoço, me entregando totalmente à vontade de chorar.
- Você não está feliz, desista disso - ele sussurrou.
- Só não posso fazer isso. - por mais que eu queira - Eu tenho de ir.
- Fica, , por favor! A gente pode fugir ou sei lá! Qualquer coisa, mas não me deixa.
Eu não podia ficar, eu não podia ser egoísta a ponto de ficar porque eu queria e deixar que as consequências caíssem sobre o . Eu faria qualquer coisa por ele, e era o que eu estava fazendo. Tirei as mãos dele de cima de mim, passei as costas das mãos pelo meus rosto, limpando as lágrimas, que estavam se tornando rotineiras por ali e segurei seu rosto entre minhas mãos.
- Eu tenho que ir. Eu te amo, mas eu tenho que fazer isso.
- Por que, ?
- Porque... Porque eu vou pra faculdade de medicina, sempre foi meu sonho - me enjoei só de mentir daquele jeito pra ele. Faculdade de medicina? Eu gostava, mas nunca trocaria o por aquilo. - E eu vou para a melhor faculdade, quero ser boa na minha profissão.
- Você se acostumou com a ideia, então? Está gostando de ir? Eu pensei que você quisesse ficar comigo acima de tudo mas, eu... Eu sou um idiota!
Vê-lo daquele jeito, descontrolado, quase gritando comigo, acreditando que eu não o amava o suficiente me fez querer desmentir tudo, contar a verdade e ficar na cidade. Mas eu tinha que provar para mim mesma que eu era forte o bastante. Nunca pensei ser capaz de sentir dor tão forte.
- Um dia você vai entender.
- NÃO DIGA ISSO! EU NUNCA VOU ENTENDER COMO UMA PESSOA QUE JUROU ME AMAR VAI ME DEIXAR!
Agora não era a hora de chorar, eu precisava manter o foco. Respirei fundo e virei de costas, andando em direção a porta de saída.
- Eu sei que um dia você vai entender. - Olhei para trás, e ele me encarava com o rosto coberto de lágrimas. - Eu te amo.
- Vamos, abra um sorriso! - meu pai, com aquela alegria maléfica dele, me pediu. Rolei os olhos, jogando minhas malas pro cara pesar e ver se eu ia ter que pagar por excesso. Claro, ultrapassou. Todas as minhas coisas estavam ali.
- , não é um enterro. É a sua viagem, é uma vida nova. - foi a vez da minha mãe tentar me animar. Não funcionou, sabe?
- Eu preferia estar morrendo - um sorriso iluminou meu rosto com a ideia de que o avião podia cair.
- Não diga bobagens, você vai pra faculdade! E com apenas 15 anos, não é maravilhoso?
- Pra quem? Eu preferia uma vida normal.
- E essa vida nomal inclui um namorado? Desista. - meu pai resmungou, pagando ao cara o excesso de bagagem. - Vamos lá, eu fiz tudo pra te ver feliz.
- Não abra sua boca pra falar merdas, querido pai - rosnei - Se tivesse pensado em mim em algum momento sequer, me deixaria viver em paz.
- Vou relevar, porque sei que está ansiosa para a viagem - Ele piscou pra mim? Que tipo de psicopata ele era, afinal? - Um dia você vai me entender.
Memórias do dia anterior vieram à tona com essa frase. chorando, gritando e, provavelmente, me odiando. Eu sabia que seria o certo no fim. Então talvez meu pai tivesse razão e fosse o certo para mim também, no fim.
- Claro, tirar toda uma vida que eu construí vai ser o melhor - gargalhei ironicamente.
- Caras como o tal do só querem se aproveitar de garotinhas como você, filha. Eles querem te usar, quem sabe te engravidar para ficar com seu dinheiro.
- Ora, cale a boca! - meio que berrei e minha mãe me repreendeu com o olhar. Abaixei o tom antes de continuar - Você não o conhece, ele não é um mercenário que só pensa em dinheiro, como você.
- Ou como o pai dele.
- Só um aviso, a partir de hoje eu sou orfã. E contarei isso à todos na minha nova cidade.
Virei, ajeitando minha bolsa por cima do ombro e batendo os pés firmemente, até chegar ao portão de embarque. Dei meia volta, olhando para aquele aeroporto e jurei para Deus que voltaria um dia, e voltaria feliz.
- ! - Algo se jogou em cima de mim e eu só soube que era pelo cheiro de morango que tinha os seus lindos cabelos. A abracei de volta, sentindo meu coração disparar. Ela tinha vindo, eu sabia que ela não me deixaria. Senti vontade de sorrir por tê-la comigo.
- . - outra voz bem conhecida sussurrou e eu afastei rapidamente, encarando aquele par de olhos azuis que eu tanto amava. tinha um sorriso triste no rosto, mas estava ali.
- - envolvi seu pescoço com meus braços, encostando nossas testas e olhando fixamente para ele. Meu coração apertou no meu peito e eu senti que não poderia viver sem ele. Por isso eu estava indo embora - Não tenho mais forças para chorar.
- Não quero que você chore, querida - ele beijou minha bochecha - Eu quero que você seja feliz, muito feliz. Porque você merece felicidade. Mas eu quero te pedir uma coisa, se for posível.
- Qualquer coisa - respirei seu perfume bem forte, anotando mentalmente que assim que eu chegasse lá ia comprar um daquele, só pra lembrar daquele cheiro que me deixava sem jeito, sem saber como agir.
- Não me esqueça. Porque eu não vou te esquecer, sabe? Pode parecer bem bobo, mas é verdade. Porque eu tinha jurado para mim mesmo que eu nunca mais ia me deixar envolver com ninguém, porque eu tinha sofrido demais. Mas você chegou com esse jeito espontâneo e lindo, sorrindo pra mim e desarmou todas as minhas defesas. Eu poderia estar arrependido agora por ter me envolvido contigo, pelo tanto que eu estou sofrendo com essa despedida, mas não consigo. Valeu muito a pena, eu realmente me apaixonei por você e isso foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Grudamos nossos lábios com urgência e um gosto salgado dominou o nosso beijo. Minhas lágrimas, as lágrimas dele, tudo misturado em nossas bocas, enquanto nossas mãos apertavam o corpo um do outro, com medo de se perder pra sempre. Aos poucos o beijo foi perdendo a intensidade e nós paramos, sustentando o olhar fixo um no outro.
- , última chamada - me avisou. Eu nem sequer tinha escutado. Ajeitei mais uma vez minha bolsa sobre o ombro e passei as mãos pelo cabelo e rosto.
- Então é isso - dei de ombros, sem saber mais o que fazer.
- Te amo - me abraçou e em seguida começou a chorar.
- Seja feliz, meu amor - segurou minhas mãos - E um dia, volte.
Ele sorriu e eu fiz o mesmo.
Não vou dizer que foi fácil entrar naquele avião. Todo momento eu queria virar as costas e voltar correndo para o saguão, no estilo filme água com açúcar, quando tem um final feliz. E eu sei que já repeti isso mil vezes, mas pro meu final ser feliz eu não podia carregar a culpa de algo de ruim ter acontecido ao por que eu não evitei.
Sentei no meu lugar marcado, na janela, abaixando a cabeça a colocando o fone de ouvido.
Belas horas que eu passei no avião. Sim, estou sendo irônica. O senhor que estava sentado ao meu lado perguntou para a aeromoça se tinha outro lugar vago e se mudou, talvez porque eu não parava de chorar ou xingar baixinho. Desculpa, cara, eu tinha meus motivos.
CAPÍTULO 14
It's not over tonight,
Não acabou hoje à noite,
Just give me one more chance to make it right
Apenas me dê mais uma chance para fazer isso certo. I may not make it through the night,
Eu não posso fazê-lo durante a noite,
I won't go home without you.
Eu não irei para casa sem você.
- Maroon 5
's POV
Eu e ficamos sentados na praça de alimentação do aeroporto, bebendo refrigerante em silêncio. Ela ainda chorava, estava vermelha e inchada. Eu queria poder dizer palavras de conforto, mas no estado que eu me encontrava só ia a deprimi-la ainda mais. Me mantive calado, recolhendo minha dor só para mim. Depois de ter sofrido tanto por amor, de ter prometido nunca mais me envolver seriamente com mulher nenhuma, eu estava ali, chorando que nem um idiota por uma garota. Uma garota de apenas quinze anos que me fez aprender muito mais que todas as outras mulheres que eu já tive.
A vida é realmente muito engraçada.
- ? - A voz chorosa de me chamou. Olhei para ela, tentando sorrir - A deve ter tido um bom motivo pra partir. Ela nos amava e eu sei que ela queria ficar, era notável em seus olhos. Mas ela foi embora, eu queria saber o porquê. Mas eu sei que deve ter tido um motivo muito forte pra ter nos deixado.
- Eu sei. Eu só queria saber o que era mais forte do que o que a gente sentia um pelo outro.
- Um dia ela vai poder te responder.
- Espero - dei o último gole no meu refrigerante, sentindo minha garganta arder. Era vontade de chorar, de novo.
- Me leva em casa?
- Vamos.
Depois que a deixei em casa, fui para a minha. Surpresa para mim, os meninos estavam lá, no meu sofá, me olhando com pena. Eu não vou dizer que não queria que ninguém sentisse pena de mim, eu queria sim. Eu queria sentir que alguém se importava comigo. Eu estava carente e precisava dos meus amigos.
- Senta aqui, cara - James foi o primeiro a se manifestar, indicando um lugar entre ele e o para que eu me sentasse.
- Tá mais calmo? - perguntou, receoso.
- Eu vou ficar bem.
- Estamos aqui pra isso, pra te ajudar.
- Obrigado, , mas você deveria estar com a . Ela não para de chorar.
- Eu vou pra lá daqui a pouco. Primeiro quero ter certeza de que você não vai se matar.
Sorri de lado. Eu tinha sorte por ter amigos iguais a eles.
- Eu nunca me apaixonei - falou o que todo mundo sabia - Não tenho nem ideia do que você pode estar sentindo.
- E eu não quero que você tenha. Dói demais, não indico a ninguém.
- Divida sua dor com a gente, cara. Amigos tem que carregar um pouco da dor que o outro leva. - filosofou.
- Tá doendo. Eu queria estar com ela em meus braços agora. Era tudo tão mais fácil quando ela sorria pra mim.
- Se eu tivesse alguém assim, eu não ia ficar de braços cruzados. Desculpa, , mas eu ia tomar uma atitude - James fez bico e eu fechei os olhos, pensando que tipo de atitude eu podia tomar.
O que me prendia a Londres? Eu não tinha família, eu odiava minha faculdade. Eu só tinha os meninos qe eu sabia que iriam me apoiar em qualquer decisão.
- PEGA O TELEFONE! - berrei, e todos me olharam sem entender - Vai, , liga pra companhia aérea e compra uma passagem em meu nome pra Nova York. A mais próxima que tiver.
- GOSTEI DA ATITUDE! - bateu no meu ombro, com um sorriso colgate estampado na cara. gargalhou, apoiando.
- ESSE É MEU GAROTO - James completou. já estava acertando tudo.
, eu não vou te perder assim.
's POV
fez uma mini-mala só com as roupas de primeira necessidade. Ele não esperava passar muito tempo na América. Só o tempo suficiente para trazer a bonequinha de volta.
- Desculpa, , eu e os meninos vamos ter que sair. Boa viagem, cara, eu queria te levar no aeroporto, mas não vai dar - James avisou, e confirmaram que iam com ele.
- Tuod bem, obrigado! Vocês foram demais! - eles se abraçaram, desejaram sorte e foram embora. me olhou, e o nervosismo transbordava no seu olhar.
- Vamos lá? - perguntei, segurando sua malinha.
- Vamos - ele sorriu, parecendo mais confiante.
Entramos no carro e eu fui dirigindo. Quem seria louco de deixar o dirigir naquele estado? Ele se batia no banco do carona, incapaz de se manter quieto. O aeroporto não era perto de casa. Estávamos em um pouco mais da metade do caminho quando um carro importado e preto surgiu do nosso lado, quase encostando no nosso. O vidro fumê me impediu de chamar a pessoa de FILHO OU FILHA da puta. tomou um susto com o carro preto que saltou no banco, tendo uma crise de riso em seguida.
- Tem cada louco na cidade - ele comentou, balançando a cabeça.
O carro preto continuava tentando fechar a gente e aquilo não me parecia normal. Na quinta curva, num trecho da avenida que não era muito movimentado, o carro preto se jogou contra o nosso, nos atingindo. Tentei frear, mas estávamos indo rápido demais, então nosso carro rodou na pista antes de parar. estava de olhos arregalados para mim.
- Que porra foi essa?
Foi a última coisa que o ouvi dizer. Um barulho de tiro, seguido de um vidro se partindo e da imagem do com os olhos bem abertos me encarando, com dor... Foi a última coisa que eu vi antes de desmaiar de choque.
CAPÍTULO 15
Near, far, wherever you are,
Perto, longe, onde quer que esteja,
I believe that the heart does go on
Creio que o coração continua - Sum 41
's POV
- Estou atrasada? - cochichei para minha auxiliar Lyah.
- Não, o Sr. Hansard acabou de entrar na sala de reuniões.
- Ótimo - sorri para ela - O trânsito dessa cidade é um inferno, achei que chegaria atrasada.
Cinco anos haviam se passado desde que eu fui obrigada a deixar minha cidade, rumo à um novo destino. E eu podia me considerar feliz.
Eu tinha um bom emprego, que eu amava, como médica em um dos melhores hospitais de lá. Tinha acabado de me formar e eu já era reconhecida. Minha bela casa, com meu carro novo na garagem também me faziam me sentir realizada, pelo menos no campo material. Eu podia me considerar uma pessoa feliz.
Mas quando eu pensava em tudo que eu perdi nos últimos cinco anos, 'feliz' não é bem a palavra que me definia.
Eu tinha perdido meus pais, mas aquela tinha sido uma perda escolhida por mim. Eu não podia aceitar o que meu pai tinha feito comigo, e não podia aceitar que minha mãe não tinha feito nada para impedir. Quando cheguei à nova cidade, a quem perguntava eu respondia que tinha perdido meus pais num acidente de carro. Macabro, eu sei. Mas eu tinha vergonha de contar o que eles tinham feito contra mim. Eu tinha perdido a , minha melhor amiga desde sempre, e por mais que eu tivesse feito novas amizades, nenhuma me passava a mesma confiança que ela.
Porque me conhecia como ninguém, sabia me decifrar apenas com um olhar. Eu sentia meu coração doer de tanta suadade dela. E eu também tinha perdido o , o cara que sabia me fazer feliz com um sorriso, que cantava e tocava como ninguém, que me beijava e o mundo parava de rodar por nós dois, que me abraçava e nenhum problema era grande demais. E era só por causa dele que eu estava ali, longe de tudo. Por eu ter pensado no bem estar dele e o ter protegido do doente do meu pai. Eu não me arrependia, de jeito algum. Eu só passava noites em claro, imaginando se teria tido outro jeito, se algo que eu tivesse feito poderia ter nos impedido de nos separar.
Mas agora não era realmente hora de me lamentar.
Eu estava prestes a entrar numa reunião do hospital e eu tinha que passar toda a confiança e profissionalidade possível. Ajeitei o jaleco sobre o corpo, girei a maçaneta e entrei no enorme salão de reunião do prédio.
- Bom dia, Srta. - o diretor-geral do hospital me cumprientou, indicando um lugar para que eu me sentasse. Estranhamente, só havia eu, ele e sua secretária bonitona na sala. Eu achei que era uma reunião com toda a equipe médica. Minha falta de compreensão deve ter transbordado no meu rosto porque ele sorriu e continou a falar - Eu pedi essa reunião a sós com a Srta., porque o assunto só nos diz respeito.
- Não estou entendendo muito bem, Sr. Hansard. - sorri sinceramente. Ele pegou uma pasta com a secretária, abrindo-a e pegando algumas folhas lá de dentro.
- Uma equipe do meu hospital será transferida para um outro país, onde estão precisando de médicos competentes - ele me estendeu uma folha onde eu pude ler o nome da minha cidade nele. Um sorriso se formou em meus lábios com algumas lembranças - E como é a cidade natal da Srta., pensei que estaria interessada em voltar para lá. Ou não?
Pisquei algumas vezes absorvendo a informação. Eu estava tendo, assim, tão facilmente, a chance de voltar para minha cidade? Para, talvez, voltar à minha vida? A ideia me pareceu muito tentadora e recusar nem me passou pela cabeça. Sorri abobalhadamente.
- É tudo que eu quero desde que eu vim pra cá - desabafei. Ele levantou uma sobrancelha, e isso me fez lembrar de uma pessoa que eu tinha deixado pra trás.
- Posso pedir para a Srta. Miller - ele apontou sua secretária - resolver tudo para você, desde passagens até uma casa lá. O mais perto possível do seu novo trabalho.
- Claro, seria muito bom. - concordei, sorrindo para a garota - Mas eu posso pedir uma coisa?
- Diga, Srta. - ele acentiu.
- Posso escolher a rua em que vou morar? Eu queria morar na mesma rua, sabe?
Ele concordou, como se entedesse o que eu estava sentindo. Acertamos os últimos detalhes, passei o nome da rua para a Srta. Miller e me senti feliz, como nunca tinha me sentido em anos.
Saí daquela sala direto para a minha, peguei o telefone e disquei o número da única pessoa que esteve comigo durante aqueles anos, que foi meu amigo e me apoiou. Ele que tinha me segurado quando eu achei que em outros caras eu ia achar o que me faltava, mas sempre quebrava a cara, por nenhum ser o . Ele era meu melhor amigo gay, e foi a única pessoa que eu fui capaz de amar naquela cidade estranha.
- Matthew?
- Srta. - ele brincou - A que devo a honra de sua ligação?
- Vem aqui na meu consultório, bobão.
Nem dois minutos depois ele abriu a porta, sem cerimônia nenhuma. Um sorriso brincava no seu lindo rosto e por alguns instantes eu senti que iria doer ter que deixá-lo ali.
- O que a princesinha do hospital quer com seu servo? - ele sentou-se na cadeira a minha frente e fitou-me com aqueles olhos verdes.
- Eu vou realizar o que eu mais queria - levantei, começando a saltitar pelo consultório. Ele abriu a boca e ficou me analisando assustado, até que abriu um sorriso sapeca.
- Vai posar pelada pra Playboy?
- Desde quando isso era o que eu mais queria? - gargalhei, parando de saltitar.
- Hum, então vai me pedir em casamento?
- Claro, claro - rolei os olhos e bati na perna dele - Você sabe o que é, deixa de bobagem!
Ele pareceu pensar por um tempo até que finalmente me encarou. Seu semblante estava sério e eu senti a dor vir.
- Você vai voltar para Londres?
- Vou, não é ótimo? - fingi empolgação. Fingi, porque naquele momento ela tinha ido embora. Ele negou com a cabeça, mas logo em seguida confirmou, ficando de pé e me abraçando.
- Me desculpa, princesinha - me apertou contra o seu corpo - Por um segundo eu deixei o meu lado egoísta me dominar e não quis pensar em te perder. Mas ser egoísta com você é o fim do mundo, depois do que você fez por amor. - ele piscou exageradamente os olhos. Ele era o único que sabia da história toda - Vá, minha borboletinha cintilante, voe para seu destino, seja feliz!
- Aw, Matt - o abracei com toda a minha força, sentindo lágrimas rolarem por meu rosto. Era uma mistura de felicidade e saudade antecipada.
- Me leva contigo? - ele quase berrou e eu juntei as sobrancelhas. Não tinha cogitado a ideia, mas era magnífica. Matt era um ótimo enfermeiro e poderia ser parte da minha equipe.
- Você quer mesmo ir?
- Borboletinha, eu sou como você, sozinho nessa cidade. E ainda por cima, só tenho a ti - ele apertou minhas bochechas, rindo - Não me deixa, vai?
- Claro que eu te levo, minha mariposa - gargalhei, indo em seguida falar com o Sr. Hansard. Se ele não fosse gay, talvez eu tivesse me casado com ele.
- Você não vai ligar pra ninguém de lá? Avisar que está voltando ou coisas desse tipo? - Matt sentou na minha cama, me ajudando a dobrar algumas roupas e colocar na mala.
- Eu tentei, mas o número da casa da não é o mesmo - murmurei, me sentindo meio decepcionada por não conseguir falar com ninguém. - Nem a do .
- Você está ansiosa pra se encontrar com ele? - Matt me lançou o olhar mais profundo que eu recebi na vida. Meu coração saltou no peito só em cogitar a ideia. Eu estava nervosa e queria aquilo mais que tudo. Mas e o ? Ele já podia estar casado e com filhos e querer ser apenas meu amigo, não podia? Eu aceitaria isso? Ele também podia nem se lembrar de mim ou não me reconhecer. Ele podia simplesmente dizer que me esqueceu.
- Eu penso em tantos modos desse encontro acontecer. Mas por incrível que pareça, não pensei em nenhum feliz.
- Borboleta cintilante, pare com isso! - ele sentou ao meu lado, me abraçando pelo ombro - Já ouviu falar que o pensamento tem poder? Então vamos lá, pensamento positivo!
- vai se lembrar de mim! Vai sim! - entrei na onda dele, rindo descontroladamente. Eu não me via feliz assim desde... Desde muito tempo.
- E você pretende contar a ele algum dia porque veio embora?
- Não - respondi rápido, sem precisar pensar. Matt me olhou de canto de olho, no maior estilo desafiador - Pra quê ele tem que saber, afinal?
- Pra saber o quanto você o amou e o que foi capaz de fazer por ele!? - repondeu, num tom cínico.
- Seria a mesma coisa se eu chegasse pra ele e dissesse 'Viu como eu sou foda? Fiz tudo por você, agora volte pra mim' - rolei os olhos, e quando ele ia abrir a boca pra retrucar eu levantei o indicador - Fim do assunto, Matt.
- Fim do assunto, Matt - ele me imitou, jogando umas blusas dentro da mala - Nojentinha.
Matt já havia ido embora há algumas horas e eu estava deitada na minha cama, encarando o teto.
Encarando mesmo.
Eu desconfiava que até o estava amedrontando com minha cara de mau. Peguei meu celular e tentei ligar para o antigo número da . Outra tentativa frustrada, mas também, o que eu esperava? Que tivesse o mesmo número de casa desde quando morava com os pais? Ou que o celular dela fosse o mesmo há cinco anos? Logo , que sempre perdia tudo.
Girei o corpo, ficando de barriga pra baixo na cama e dando uma olhada no meu quarto. Novamente estava tudo em caixas e malas. Eu odiava mudanças, mas dessa vez tinha sido a minha opção, então eu estava um pouco animada. Ok, a quem que queria enganar? Mesmo que mudança seja um saco, cansativa pra caramba e irritante, a felicidade transbordava dentro de mim. Eu estava voltando para a minha cidade, em busca das minhas antigas amizades.
Eu devia avisar aos meus pais que estava voltando? Sim. eu devia. Eu não era uma filha tão vaca assim. Embora eles merecessem que eu fosse.
Mas falar com eles depois de cinco anos, era meio estranho. Ok, completamente estranho. Eu ia mandar um e-mail, pronto. Decidido.
Não que meus pais fossem moderninhos e vivessem na internet, pelo menos não eram há cinco anos. Mas a secretária do meu pai abre os e-mails dele e repassa. Pulei da cama em direção ao notebook e abri a página pra mandar em e-mail.
O sentimentalismo passou longe daquele email, mas foi bem merecido aos meus genitores. Soltei o ar frustrada. Era sempre assim quando eu pensava neles, e em tudo que tinham feito. Nao gosto de remoer o passado e aquilo me irritava profundamente.
Família,
Só quero comunicar que estou voltando para londres.
Beijos, .
CAPÍTULO 16
I'd like to be,
Eu gostaria de ser,
The only thing on Earth that makes you cry.
A única coisa na terra que faz você chorar.
The only thing that makes you happy.
A única coisa que te faz sorrir. - Shakira
Não aguentava mais olhar para a televisãozinha do aeroporto, que indica os voôs. Estava atrasada, a merda do voô para Londres estava atrasado e eu estava inquieta demais para conseguir sentar na praça de alimentação com o Matt. Enquanto ele comia calmamente qualquer besteira, eu estava em pé, andando de um lado para o outro, fiscalizando se acontecia alguma mudança naquele visor maldito.
- Come alguma coisa, borboletinha - Matt falou entediado, talvez por ser a quarta vez que me dizia aquilo. Neguei com a cabeça - Quando você desmaiar de fome dentro do avião, eu vou te deixar lá. Vou sozinho aproveitar Londres.
Sentei na cadeira ao lado da dele e chamei a garçonete, pedindo um capuccino.
- Vou ter um colapso.
- Notei - ele rolou os olhos - Relaxa, . O que está te preocupando tanto?
- É como estar voltando no tempo - soltei o ar preso em meu pulmão - Voltar para Londres, mesmo que com uma vida completamente diferente de quando eu fui embora, sabe? É um regresso, de qualquer forma.
- Não foi o que você sempre quis? - ele passou o braço ao redor dos meus ombros e esperou a garçonete servir o meu capuccino, antes de continuar - Você devia estar feliz.
- Eu estou feliz, Matt - olhei para ele - Mas o nervosismo vem junto.
Olhei em volta, buscando algo para me distrair, e vi uma garota loira, com os cabelos ondulados abraçando um cara mais velho, provavelmente seu pai, e pegando sua malinha de mão. Ela falava algo, tipo para ele nao se preocupar, que eram só três meses de intercâmbio e que ela já era bem grandinha. Ri sozinha, imaginando quantas pessoas achariam um saco ter um pai superprotetor e carinhoso como aquele era com a filha. Eu teria dado tudo pra que meu pai tivesse sido assim até o fim. Porque afinal, ele era um pai bom, até saber do meu namoro e me mandar pra outro país. Suspirei, terminando de tomar meu capuccino. Eu sentia falta do meu antigo pai.
- Vamos, , já chamaram o nosso voô - Matt me arrastou pela mão, jogando o dinheiro em cima da mesa, para pagar a conta. Já tinham chamado nosso voô? Fiquei tão aérea com as lembranças do meu pai que perdi a noção de tudo.
Quando já estávamos sentadinhos e acomodados nas nossas cadeiras, a aeromoça começou a dar as explicações necessárias sobre segurança e essas coisas que todo mundo já está cansado de saber, mas eles sempre repetem. Encostei minha cabeça no ombro do Matt, e ele começou um carinho relaxante, mexendo em meus cabelos.
A viagem seria bastante cansativa, mas pelo menos eu teria o Matt pra me alegrar dessa vez. - Não seja imbecil - Matt gargalhou depois que eu disse que a aeromoça estava flertando com ele - Será que ela não notou que eu sou gay?
- Não é algo muito notável, sabe? A não ser quando você me chama de borboletinha - ri com ele. Matt não dava muita pinta, não era daqueles gays que adoram causar. Ele era tranquilo, discreto.
- Vou seduzi-la - fez uma voz sensual e rimos mais ainda - Credo - fez o sinal da cruz - Não falo isso nem brincando.
- Não vou perder meu amigo pra qualquer uma - fiz bico, brincando.
- Pra qualquer uma não, mas se for um qualquer um bem gatão, adeus - ele piscou e eu soquei seu braço.
- Ridículo.
- Ciumenta.
Mais alguns minutos conversando besteira e eu acabei sendo vencida pelo sono. Quando acordei, faltava pouco menos de uma hora pra chegarmos a Londres. Meu estômago deu algumas voltas dentro da minha barriga, me deixando mais nervosa do que eu estava.
Matt ainda tentou puxar algum assunto comigo, mas depois do olhar que lancei para ele, desistiu.
- Descansar - gemi quando colocamos o pé na minha casa nova. Depois eu a veria com calma, já que nem a fachada eu tinha analisado direito quando o taxi parou.
- Pode ir, eu vou fazer algo para a gente comer quando você acordar.
Matt ia morar comigo por enquanto, até ele se adaptar e conseguir alugar ou comprar um canto para ele. Subi as escadas correndo, entrando no quarto a direita, que eu sabia ser o meu, pelas recomendações da Srta. Miller, e dessa vez não pude deixar de notar como era lindo. Grande, com uma cama king size no meio. As peredes azul-claro me encataram, junto com as cortinas grandes e brancas que davam leveza ao lugar. Um sofá também azul claro, encostado a uma das paredes, perto da porta que dava para a varanda. Minha varanda. Sorri, batendo palminhas e indo até lá dar uma olhada na rua. Minha antiga rua. A casa dos meus pais estava lá, do mesmo jeito que há cinco anos atrás. Depois eu iria até lá falar com eles. E a casa do . Meu coração bateu acelerado contra o peito, chegando a doer, quando eu pus meu olhar naquela casa. Várias lembranças passaram como um filme, e eu senti os olhos marejados. A casa estava fechada.
[Flash Back]
- Preciso, bem... Eu preciso te perguntar uma coisa - ele fez bico e ficou extrememente fofo - Não pense que vai ser fácil, tenho muito medo de qual vai ser a resposta, então não me deixe muito nervoso, ok? Não ria de mim nem nada do tipo.
- , você está me deixando nervosa também - juntei as sobrancelhas, intrigada. Ele segurou minhas mãos e olhou no fundo dos meus olhos.
- Quer ser minha de verdade? Assim, quer namorar comigo?
Jesus crucificado, ressucitado. Devolvi o olhar dele, e um sorriso nada discreto apareceu me meu rosto, aperecendo logo em seguida no dele.
- Aw, - me joguei em seus braços, enchendo sua face de beijos, no olho, na testa, no nariz, na bochecha, na boca - Claro, seu idiota!
- MINHA, SÓ MINHA - ele começou a gritar feito um idiota mesmo, e me carregou, me girando pela cozinha até a sala. e levantaram do sofá, de tanto susto e começaram a rir da nossa cara - ELA É MINHA, OK? , pare de olhar para ela.
[End Flash Back]
Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos, me sentindo boba demais por estar chorando por lembranças tão antigas. Mas não pude evitar que minha mente vagasse, tentando em vão saber onde estaria o meu... o . Teorias e mais teorias se formavam em minha mente.
Deitei na cama, esperando o cansaço passar e o sono me vencer, sabendo que amanhã eu teria que comparecer cedo ao hospital em que eu ia trabalhar. Eu e o Matt. Graças a Deus ele tinha vindo comigo, eu realmente não sei se seria capaz de encarar tudo sozinha.
Finalmente o sono me venceu e eu sonhei. Não preciso realmente escrever sobre o dono do rosto que apareceu nos meus sonhos. Era ele, desde sempre. E para sempre.
Acordei com um barulho estranho de talheres batendo ou coisa do tipo, mas era tão perto de mim que não podia ser na cozinha. Abri os olhos, me acostumando a claridade e... claridade?
- Bom dia, borboleta - Matt sorriu para mim, colocando uma bandeja com comidas deliciosas em cima da minha cama.
- Que horas são, Matthew? - perguntei, enquanto comia uma torrada com Nutella.
- Sete, da manhã, claro - ele rolou os olhos e eu arregalei os meus. Vendo meu desespero, ele continuou - Você estava tão cansada que não te acordei ontem. Só te acordei hoje porque temos que ir ao hospital, senão te deixava dormir pra sempre.
Cara, eu tinha dormido quantas horas mesmo? Enfim, terminei de tomar aquele café-da-manhã digno de estrela de Hollywood e fui tomar um banho, mandando Matt ir fazer o mesmo.
Colquei uma calça jeans branca e skinnng, uma camisa pólo, também branca e peguei meu jaleco, colocando sobre o ombro, sem vestir. Deixei meu cabelo solto, secando naturalmente e na maquiagem, só o básico mesmo.
Matt já estava pronto me esperando e com cara de tédio, talvez pela minha demora habitual. Ele também estava todo de branco, e muito lindo, diga-se de passagem. Já falei que se ele não fosse gay, fazia ele me jogar na cama?
- Vamos? - um frio na barriga.
- Claro, e eu dirigo - ele tomou a chave do carro da minha mão e fomos, conversando bobagens para me distrair no caminho. Emprego novo deixa as pessoas nervosas.
- Então, está tudo certo, Doutora - a diretora do hospital, uma mulher de aparentemente 40 anos, apertou a minha mão. - Pode começar o seu trabalho agora mesmo. Chamarei o seu companheiro de equipe, para lhe mostrar o hospital.
Pegou o telefone e discou algum número, falando com alguém. Sim, eu não estava prestando atenção no que ela falava, eu estava ansiosa, querendo ocupar logo minha mente com trabalho, para ver se me desestressava um pouco. Matt, sentado ao meu lado, folheava lentamente uma revista e vez ou outra olhava para mim e sorria. Ele estava feliz de estar ali comigo, e eu estava feliz por ter um amigo tão bom quanto ele.
Cinco minutos depois, eu acho, um homem entrou na sala da diretora, sorrindo amigavelmente para mim. Eu conhecia aquele sorriso, sabia que sim.
- ? - ele também me conhecia, eu sabia - Não acredito!
Ainda fiquei algum tempo tentando me lembrar quem era ele, até que um flash invadiu minha cabeça. Sorri, me levantando e o abraçando.
- Josh! Nunca imaginei te encontar assim - rimos juntos.
- Minha nova companheira de equipe? - ele perguntou à diretora, que afirmou, etendiada. Matt também tinha uma cara sem expressão.
- Que bom que se conhecem, podem ir agora - ela falou por fim, nos expulsando educadamente da sua sala. Trocamos olhares e saímos em seguida.
- Estou feliz por você estar aqui - Josh passou o braço por meu ombro.
- Estou feliz por ter voltado.
- Estou feliz por estar aqui também - Matt falou pausadamente e revirando os olhos, me fazendo rir e levantar uma sombracelha - Que é? Não é ciúmes, ok?
- Josh, esse é o meu melhor amigo, Matt - apresentei - Matt, esse é um velho amigo, Josh.
CAPÍTULO 17
'You're the answer.
Você é a resposta.
All this time I've tried to find you.
Todo esse tempo eu tenho tentado encontrar você.
I've been yearnin' (I've been yearning inside)
Eu tenho desejado (Eu tenho desejado por dentro).
You're the answer to the question'
Você é a resposta para a questão - Britney Spears
A minha equipe médica, composta por mim, Josh e mais dois médicos um pouco mais velhos que nós, era a equipe responsável pela UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), onde estavam os casos mais graves do hospital. Na nossa equipe também tinha os enfermeiros, e claro, Matt estava entre eles.
Caminhávamos eu e Josh pelos leitos da UTI, enquanto ele me explicava superficialmente cada caso ali. Eu tentava forçar a minha mente a se lembrar de tudo que ele dizia.
- Naquela maca ali, está um caso realmente difícil para nós do hospital - ele pegou a minha mão e foi me levando até a maca mais afastada, porém parando a uma certa distância para continuar a falar - Está em coma, há alguns anos, e não conseguimos localizar a sua família. Tem três amigos que vem sempre ver como ele está, se acordou, esboçou alguma reação ou coisa do tipo, mas seu quadro não apresenta nenhuma alteração, como eu disse.
Senti compaixão daquela pessoa deitada na maca, a qual eu não podia ver o rosto, só pela sua história.
- Não conseguiram localizar ninguém da família?
- Não - Josh demonstrou tristeza - E a pedido dos amigos dele, não podemos anunciar que estamos procurando. É difícil entender, mas parece que ele sofreu um atentado, e tem medo de que quem começou o 'serviço', volte para terminá-lo. O mantemos aqui em segredo, por assim dizer.
- Não entendo muito bem, na verdade - entortei a boca, sincera.
- Vou pegar a ficha dele para você dar uma olhada - e se afastando, foi até a cabeceria da cama do paciente e pegou sua ficha, voltando e me entregando - Vou ali e já volto, não demoro.
Me deixou sozinha com a ficha na mão, indo para sei lá onde. Voltando minha atenção para o trabalho, desviei meu olhar para o papel que estava nas minhas mãos.
Senti um aperto no meu coração e minha pressão baixou rapidamente. A última coisa que vi antes de cair no chão foram aquelas letras pequeninas mostrando o nome do paciente: .
- O que será que deu nela?
- Será que vai demorar pra acordar?
- Acho melhor buscar um copo d'água.
Vozes distantes, distantes, perto. Abri os olhos com dificuldade, sentindo minha cabeça girar e sentei de vez, piorando tudo. Matt estava sentado bem a minha frente e ficou supreso com minha reação repentina, me abraçando forte.
- Você está bem? Posso saber o que aconteceu? Você tomou café direito hoje? Você quer alguma coisa?
- Calado - ri baixinho, colocando a mão na boca do meu amigo, fazendo ele revirar os olhinhos azuis. - Estou bem, quer dizer... Acho que tive uma alucinação, sabe? Li o nome na ficha do paciente e...
- Mas o paciente é , não é alucinação - Josh me interrompeu, fazendo minha cabeça girar mais uma vez. Matt arregalou os olhos, entendendo tudo dessa vez.
- O que esse paciente tem? - ele perguntou cautelosamente para Josh, que respirou fundo antes de falar.
- Levou um tiro na cabeça, uns cinco anos atrás. Desde então está em coma, mas não conseguimos localizar a família dele. Só alguns amigos que vem aqui de vez enquando, ver se ele acordou.
Matt balançou a cabeça negativamente, parecendo não saber o que falar. Eu estava na mesma situação, me sentindo inútil. esteve esse tempo todo em coma, preso naquela cama de hospital e eu nem sequer sabia disso? Minha pulsação entrava num ritmo frenético, fazendo minhas temporas latejarem.
- Vem, vem comigo, - Matt me arrastou para fora daquele lugar e fomos caminhando em silêncio pelos corredores quase vazios do hospital.
Estava bastante frio e o inverno se aproximava, eu não dava um mês pra começar a nevar.
- Quer conversar? O que você está sentindo com isso?
- Nada. Estou anestesiada agora. - respondi sinceramente, porque eu nao conseguia sentir nada no momento. Primeiro foi o choque, depois a dor e agora... Nada. Em resumo, eu devia estar sentindo uma dor tão forte que me anestesiou.
Matthew passou um braço por meu ombro, me dando um meio abraço e ficamos olhando por um janela que tinha no final do corredor. Muitas pessoas passando nas ruas lá embaixo, com certeza levando suas vidas normais e eu senti inveja de cada uma delas. Tenho vergonha de dizer isso, mas senti.
- Não gosto de te ver assim, você estava tão animada antes, por poder voltar para Londres.
- Você entende que o único cara que eu amei na minha vida, está em coma há cinco anos? - falei baixo, sentindo um nó realmente grande se alojar em minha garganta - Eu queria poder trocar de lugar com ele.
- Olhe para mim - ele segurou meu queixo, limpando uma lágrima que tinha rolado pela minha bochecha - Tudo na vida tem um propósito. Se o está naquela cama e você foi designada para cuidar dele, pensa pelo lado bom. Ele estará em boas mãos. Aliás, as melhores mãos que ele poderia estar. De alguém que o ama tanto, que foi capaz de tudo para salvá-lo.
- E não consegui, enfim - suspirei, embora as palavras dele tivessem me animado um pouco - O precisa de mim.
Saí correndo em direção a UTI, quando realmente entendi os valores daquelas palavras.
Puxei uma cadeira colocando ao lado da cama do e me sentei, com a sua ficha em mãos. Lia e relia aquele pequeno relatório sobre o que havia acontecido com ele, tentando ignorar a dor que latejava em meu peito. Olhei por cima do papel para , e se não fossem pelo aparelhos que o ajudavam a respirar, eu diria que ele estava dormindo, de tão sereno que era o seu rosto. Levantei, deixando a ficha dele em cima da mesinha, e toquei de leve em sua bochecha, sentindo o calor da sua pele contra a minha. Levei minha mão até seus cabelos, notando o quão embaraçado eles estavam. Na mesma hora, peguei a minha bolsa e tirei de dentro dela uma escova pequena, daquela que toda mulher leva pra qualquer lugar. Cuidadosamente passei a escova pelos fios finos do cabelo dele, desembarançando lentamente, e me sentindo útil por poder fazer algo por ele, mesmo que fosse algo tão pequeno.
Uns passos se aproximando me fizeram dar um pulinho para trás, guardando a escova novamente na minha bolsa e pegando a ficha novamente, fingindo ler interessadamente.
- Aí está você, garotão - o cara que chegou falou animado com , como se ele pudesse ouvir - Desculpa a demora de vim te ver esses dias, as semanas estão corridas lá na empresa. Sabia que os australianos fecharam contrato com a gente? Cada vez melhor, cara.
Ele parecia estar ignorando a minha presença, talvez acostumada pelo fato de sempre ter médicos e enfermeiras passando por ali. Mas eu não ignoraria aquela figura, não mesmo. Nem em quinhentos anos eu esqueceria dele. Meu sorriso se abriu ao mesmo tempo que meus olhos enxiam-se de lágrimas novamente. Rotina, já.
- ? - arrisquei e ele se virou para mim, me reconhecendo de primeira e ficando levemente assustado. Ok, altamente assustado, seria o termo melhor.
- ? Como assim? - ele se aproximou de mim, meio incerto ainda. Mas eu estava muito emocionada para saber de incerteza e me joguei nos braços dele, o abraçando tão forte para tentar acalmar meu coração. Ele retribuiu o abraço e por um bom tempo ficamos daquele jeito.
Quando nós dois nos acalmamos, fomos tomar um café na lanchonete do hospital.
- Quando você voltou? Por que?
- Ontem, na verdade - peguei minha xícara de café, colocando açúcar - Fui transferida para esse hospital.
- E eu que não acreditava em destino - ele bateu na própria cabeça, parecendo espantado - Logo no hospital onde o está, com milhões de hospitais pelo mundo.
- - falei séria - Por que eu nunca soube o que tinha acontecido com ele? Por que não me ligar para contar?
- Olha, , nós só estávamos zelando pela vida do - ele também ficou sério.
- Explique isso, não estou entendendo nada. - depois de exitar alguns minutos, ele se deu por vencido e suspirou.
- O cara que atirou no , sabe... Ele não atirou por livre e espontânea vontade - desviou o olhar do meu - Ele foi à mando, mando do teu pai. E então, resolvemos não te contar nada para não complicar ainda mais as coisas.
Agora tudo estava se encaixando. Meu pai.
Sempre ele.
Sempre ele pra estragar minha vida, para fazer as coisas erradas achando que estava me protegendo. A que ponto ele tinha chegado? Tentar matar o ? Recriminei as lágrimas que tentaram escapar pelos meus olhos, porque eu tinha jurado a mim mesma que jamais voltaria a chorar por aquele homem. Quando fui pegar a xícara, notei que minha mão tremia.
- Então, mesmo depois de todos os meus esforços para manter o bem, ele tentou matá-lo - resmunguei, mais para mim mesma do que para o , mas ele pareceu ter ouvido, já que tocou minha mão.
- O cara foi preso, assumiu toda a culpa sozinho - se endireitou na cadeira para continuar a me contar aquela história - Mas eu resolvi conversar com ele na cadeia. Ele assumiu só para mim quem tinha sido o mandante. E me contou tudo, . Contou que você foi para Nova York por um trato com teu pai. E ele teria cumprido a parte dele no trato, se o não tivesse tentado ir atrás de você.
O tinha tentando ir atrás de mim? Foda-se, eu já estava chorando novamente.
- idiota - funguei, porém achando linda a atitude idiota dele.
- Seu pai, com as fontes dele - rolou os olhos e eu fiz o mesmo - Descobriu isso e tratou de impedí-lo de um jeito, digamos... Radical.
Vi o Josh entrando na lanchonete e acenando para mim, apontando para o relógio. Eu estava no horário de trabalho ainda, droga. Fiz um 'ok' para ele com a mão e voltei a encarar o , que também tinha os olhos vermelhos.
- Deculpa, , tenho que voltar ao trabalho - remexi na minha bolsa e tirei meu cartão de lá - Me liga pra gente se econtrar, temos muito pra falar ainda.
No fim do dia eu estava exausta. Eu tinha consciência de que o cansaço era mais emocional do que físico e por isso sentei em uma cadeira vazia em um dos corredores do hospital, enterrando minha cabeça nas minha mãos. De olhos fechados comecei a fazer um balanço daquele dia. Tentei separar os fatos em positivos e negativos, mas eles eram tão entrelaçados que eu tive que suspirar, desistindo.
Que bom ter reencontrado o . Era tudo que eu queria.
Mas econtrá-lo naquela situação, nunca, nem em minhas imaginações mais macabras, se passou pela minha cabeça. Teria doído menos se eu o tivesse encontrado casado e com cinco filhos. Ridícula a minha comparação, nada se comparava a dor de ver o homem da minha vida em coma, e por minha culpa.
Minha culpa.
Culpa do pai que eu tenho.
- Vamos para casa - Matt parou na minha frente, estendendo uma mão para mim. A segurei, levantando preguiçosamente e ele me arrastou até o carro, que estava no estacionamento.
- Preciso tanto dormir - sentei no banco do passageiro, jogando as chaves para ele.
- Eu sei, você está com uma expressão acabada.
- Amanhã eu vou ver o de novo - sorri besta e fechei os olhos. Acho que dormi no carro mesmo, e Matt me carregou até meu quarto.
CAPÍTULO 18
Another day without you with me,
Outro dia sem você comigo,
Is like a blade that cuts right through me.
É como uma lança que me corta ao meio.
But I can wait, I can wait forever.
Mas eu posso esperar, eu posso esperar pra sempre. - Simple Plan
- E a ? - perguntei, enquanto jantávamos juntos três dias após o reencontro no hospital. suspirou e deu de ombros.
- Nós terminamos há dois anos e desde então temos nos visto raramente, e por acaso.
- Desculpa - entortei a boca, sentindo o destino ser malvado mais uma vez.
- Mas eu tenho o endereço dela, se você quiser ir lá.
Sorri largamente concordando com a cabeça. O garçom chegou com nossos pedidos, e eu agradeci mentalmente por isso, estava com muita fome. Fome de verdade, fome de quem passou o dia todo trabalhando preocupada.
- Estou com saudades daquela idiotinha - rimos, mas eu notei o olhar do ficar triste. Segurei sua mão, por cima da mesa, e apertei de leve.
- Eu também sinto falta dela.
- Por que vocês acabaram? - fui direta e indiscreta.
- Eu estava ocupado com as coisas da empresa, pedi um tempo. Ela disse que tempo era desculpa, e então acabamos - suspirou, passando a mão pelo cabelo - Fui um tonto.
Foi sim, foi até mais que isso. Perder uma garota como a era burrice no último grau. Mas o não precisava ouvir aquilo, não naquele momento, então me limitei a balançar a cabeça.
- Você não mudou nada, - analisou - Ainda parece uma garota de 15 anos.
- Qual é, - bati no braço dele - Cresci.
- O ia gostar de te ver assim.
- Eu quero que ele me veja, mais que tudo.
Ficamos em reflexão, jantando e engordando alguns (muitos) quilos, com nosso prato cheio de massas.
[Flash Back]
- Você está lindo - ele vestia uma calça jeans meio colada e uma blusa social roxa, com as mangas dobradas até o cotovelo. O cabelo estava lindo como sempre. Ele tinha um sorriso no rosto que dava uma toque final ao visual.
- Eu nem sei que adjetivo usar pra te definir. Posso usar um pronome? - ele perguntou, segurando minha mão. Dei de ombros e ele aproximou a boca do meu ouvido e sussurrou - Minha.
Me arrepiei pela voz rouca dele e pelo que ele disse. Me afastei um pouco, temendo não conseguir resistir e agarrá-lo ali, sem me importar com mãe, pai, cachorro, vizinho.
[End Flash Back]
Cheguei em casa feliz, apesar de cansada, e fui direto tomar um banho tranquilizante, tentando fazer o mínimo de barulho possível, já que Matt dormia feito um anjo. Só parecia mesmo, porque quando eu saí, ele ficou encapetado, dizendo que eu ia trocá-lo pelo agora, bobinho.
Saí do banho, vestindo um moletom bem quentinho e não me permiti dormir, sem dar uma olhada na ficha médica do . Aquilo estava virando minha rotina antes de dormir. Eu sempre lia aquele papel, buscando novas informações, tentando escontrar uma novidade, uma solução para o caso do meu garoto. Quanto mais eu lia, menos eu descobria e mais nervosa eu ficava. Odiava o fato de ser inútil, ainda mais para o .
Fui até a cozinha preparar um café bem forte, para despertar meu sono. Depois de bebê-lo, peguei o notebook e sentei no sofá, com ele no colo, começando uma pesquisa profunda de casos parecidos com o dele. Não era muito comum, mas existiam alguns. A maioria sem o final feliz, que eu estava esperando. A maioria ficava em coma até morrer, e não, isso era o que eu não aceitava de jeito nenhum.
Eu não tinha o que fazer pelo , entender isso doía muito, sufocava. O cara que eu amo perdeu cinco anos da vida dele, e provavelmente perderia muito mais, por minha culpa. Porque ele me amava. Como o amor, um sentimento tão nobre e puro, pode trazer consequências tão dramáticas? Enxugando algumas lágrimas com a manga da camisa, desliguei o notebook e fui deitar. Meu sono tinha passado graças ao café e eu fiquei rolando nela por um bom tempo.
- Não se preocupe, Sra. Petterson - tranquilizei uma senhora de aparentemente 50 anos, com um semblante triste e cabelos cacheados e brancos caindo sobre seus ombros - Seu marido ficará bem, ele está sendo transferido para a CTI agora.
- Ele já está fora de perigo, doutora?
- Sim, reagiu muito bem aos medicamentos - segurei em suas mãozinhas enrugadas, tentando passar segurança.
- Então porque ficar na CTI?
- Ele precisa ficar em observação, mas já disse para se tranqulizar - sorri - Ele estará em casa dentro de poucos dias.
Depois de me agradecer, vi aquela senhora tão agradável ir com seus passinhos lentos andar pelos corredores do hospital, até a perder de vista. Estava perto da minha hora de largar, e eu precisava ir ver o . Mas ainda tinha que ver outro paciente. Fui caminhando pela UTI, leito após leito, examinando com os olhos todos os pacientes e seus poucos acompanhates que o horário permitia. Duas semanas já haviam se passado, desde a minha chegada. Mas era como se fosse uma eternidade. Cada noite que eu dormia sem ver nenhuma melhora no , eu tinha certeza que envelhecia vinte anos.
Matt apereceu ao meu lado, rolando os olhos.
- O que aconteceu? - estranhei.
- , seu amigo do coração, está aí. - ri, tentando ser discreta no ambiente de trabalho - Fica rindo aí, depois não reclama quando eu te trocar por uma médica bonitona.
- Bobo - o abracei de lado, andando até a maca do , encontrando sentado na cadeira perto dele.
- - ele se levantou, beijando meu rosto e Matt se afastou de nós, me fazendo rolar os olhos dessa vez. Pude ver pelo canto de olho que ele foi verificar o . Ok, pelo menos isso. - Que horas acaba teu espediente?
- Daqui a 10 minutos - conferi no relógio.
- Vou te fazer uma surpresa hoje - sorri - Você vai vir com a gente, Matt.
Matt parou o que estava fazendo e nos olhou por cima dos ombros, desconfiado. Acenou afirmativamente com a cabeça e voltou a cuidar do . Ri baixinho com o , agradecendo em silêncio por ter feito isso. Eu não queria ter que escolher entre ele e o Matt.
Não estava feliz com a ideia de sair pra jantar fora com a calça branca e a pólo branca com listrinhas rosa bebê que eu passei o dia trabalhando, mas o disse que não dava tempo de passar em casa pra trocar de roupa e muito menos de tomar banho, então lá estávamos nós, entrando num restaurante bem arrumadinho num bairro típico da cidade.
O cheiro da comida, mais forte ainda por causa do aquecedor interno, me fez notar que eu realmente estava com fome. Caminhamos até a mesa mais afastada da entrada e meu coração começou a bater acalerado contra meu peito ao reconhecer a garota, agora mulher, sentada naquela mesa. Algumas lágrimas de intensa felicidade rolaram pelos meu rosto quando ela virou o rosto para mim e sorriu abertamente, levantando e vindo me abraçar. Não muito diferente de mim, ela começou a chorar baixinho no meu ombro.
- Senti tanto a sua falta esses anos todos, - sussurrou, me soltando e segurando meu rosto entre as mãos - Como você cresceu! Mudou, é uma mulher!
- Você está incrível! Linda! - a analisei também e olhei pro - Ela disse que eu sou uma mulher, ao contrário de você, que ainda acha que tenho 15 anos.
Rimos juntos. Fizemos as apresentações necessárias entre e Matt, e nos sentamos para jantar.
Depois de cinco anos, minhas conversas com a ainda fluiam naturalmente, e era tão bom poder recuperar mais uma coisa que eu tinha deixado para trás. De vez em quando eu tinha que segurar uma vontade de abraçá-la de novo, e perguntar se era real, se ela estava ali comigo mesmo. Podia parecer bobo, então eu me limitava a sorrir com ela.
Não podia deixar de notar o olhar hipnotizado do para ela, isso não havia mudado nada. Ela também lhe lançava alguns olhares, porém mais discretos, olhares magoados na maioria das vezes. Matt parecia feliz, conversava animado e talvez tinha colocado na cabeça que eu não o trocaria por ninguém. Ele e se deram muito bem, claro. Os dois eram loucos e estranhos.
- , muito obrigada por isso - agradeci muito sinceramente.
- Não agradeça, . Fiz isso por você e por mim - ele sorriu - Eu precisava disso tanto quanto você.
- Não força, - o censurou, mas acabou sorrindo um pouco. Enfim, ele lançou a indireta, ela rebateu de má vontade, mas tinha gostado. Que típico.
CONTINUA
N/A: Estou ouvindo cine enquanto faço essa N/A, então não esperem que saia algo produtivo. Q ASUMHUAMHSAUSHUSAMHSA Bem, sério agora, eu estou fazendo o máximo pra não atrasar as atualizações e essa semana acho que consegui. Mas segunda-feira, cursinho intensivo aí vou eu. Pois é, já comentei o quanto odeio e amo estar no terceiro ano? Antíteses do meu último ano escolar G.G Eu queria muito que a Camila Miranda visse essa Fic, acho que vou falar com ela. Pra quem sabe, ela me ajudou nos primeiros capítulos, mas depois nos desencontramos na internet e continuei sozinha. Ela foi uma das primeiras pessoas a saber quando eu tive a ideia pra essa fic. Lá no group no McflyFacts . bons tempos. Enfim, é isso. Estou nostálgica. Espero que estejam gostando, estou fazendo de tudo por vocês, até escrever na hora da aula HAHAHA abafe the case. comentários *.*

