Before The End
Autora: Tiemy
Status: Em Andamento
Revisada por: Isa
Categoria: Harry Fics
Sub-Categoria: Romance/Drama
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"Desde quando Harry Mark Christopher Judd me dá presentes, ainda mais no Natal?" - Arqueei uma sobrancelha, encarando-o duvidosa.
"Desde quando ele tem vontade" - Harry deu de ombros, estendendo uma caixinha avermelhada pra mim. - "Pra quê tanto drama? É só um presente".
Bufei impaciente, encarando-o seriamente. Semicerrei meus olhos, fazendo-o rir fraquinho.
"O que tem aí dentro Judd?" - Estiquei a cabeça um pouco para frente, como se aquele gesto fosse revelar o que havia dentro do embrulho. - "Eu realmente não estou com paciência para brincadeiras idiotas".
"Se eu quisesse que você visse, não teria tido o trabalho de embrulhar, você não acha?" - Ele arqueeou uma sobrancelha, rolando os olhos quando o fitei desconfiada. - "Olha, não há a possibilidade de ter algum inseto aqui dentro".
"E como eu posso saber?".
"Eu sentei em cima desse pacote umas duas vezes essa noite" - Ele deu de ombros, dando um passo na minha direção. - "Por que não vê você mesma?".
Eu ainda não me sentia segura. Não era drama. Ia muito além disso. Trauma, eu diria.
Começando pelo fato de que, Harry e eu não somos muito amigos. Nos conhecemos desde crianças, há muito e muito tempo. Sempre moramos em Londres e somos vizinhos desde sempre também. Estudamos na mesma escola, nós sentamos na mesma mesa e ele frequenta minha casa quase todos os 365 dias do ano. Mas isso não quer dizer que somos amigos.
Na verdade, ele é mais como meu inimigo mortal. Harry Judd é um garoto irritante que faz de tudo para me tirar do sério. Tudo mesmo.
Tom - meu irmão mais velho - é que se dá muito bem com ele, o que facilita sua presença na minha vida. Mas Tom, ao contrário de Judd - que tem a mesma idade que a sua - é muito mais maduro.
Bem, talvez nem tanto assim. Mas ele me irrita muito menos que o Harry, com certeza.
"Qual é, Fletcher? É Natal".
"É, e daí?"
"Aceita meu presente, por favor?"
Ponderei por alguns segundos, mordendo meu lábio inferior. Não poderia ser assim tão ruim. Quando éramos menor e não discutíamos tanto, Harry costumava me dar carrinhos de presente de aniversário. O mínimo que poderia acontecer era encontrar algo semelhante.
"Tá, tá bom. Me dá logo isso aí" - Estiquei minha mão a contra gosto sem jamais deixar de encará-lo com desconfiança.
Ele sorriu torto e depositou o pacote delicadamente em minha mão. Agitei-o próximo ao ouvido. Indecifrável. Leve demais para coisas de chumbo da coleção esquisita dele e nem som asqueroso de inseto.
"Vai ficar brincando de adivinha ou vai abrir de uma vez?"
"Hei! O presente é meu, eu faço o que bem entender com ele".
"Abra de uma vez" - Ele rolou os olhos, enfiando as mãos dentro de sua jaqueta.
"Você é um mandão muito chato, Judd"
Suspirei pesadamente, mostrando-lhe a língua, mas fazendo o que ele havia dito. Retirei a tampa do pequeno pacote, encontrando um embrulho de pano ali dentro. Olhei de soslaio para ele e peguei cuidadosamente o pano de camurça, entregando a caixa para que Harry segurasse.
"Até parece que você está esperando que ele exploda ou coisa do tipo" - Harry riu divertido e eu lhe lancei um olhar irritado. Mas sorri fraquinho quando ele fez um bico enorme.
"Vindo de você, eu posso esperar qualquer coisa".
"Obrigado pela parte que me toca". - Rolei os olhos quando ele fingiu secar uma lágrima.
Passei um dedo sobre a fita de cetim, desfazendo o laço com cuidado. Virei a extremidade aberta sobre minha mão, perdendo a respiração em seguida.
"Oh!" - Saiu de minha boca. E mais nada depois, além de minha respiração descompassada.
"Valeu a pena abrir então, não?" - Ele riu de modo terno, sentando-se no sofá, apoiando seus cotovelos sobre seus joelhos com as mãos cruzadas diante de si.
Olhei estupefada de minha mão para Harry, sem conseguir pronunciar uma palavra coerente. Sentei-me na poltrona ao lado do sofá, boquiaberta. Pisquei diversas vezes, sentindo o ar voltar aos poucos.
"É... É lindo, Harry" - Assenti uma vez, passando um dedo sobre o pingente delicado em forma de coração. - "Mas agora eu me sinto péssima".
"Por que?"
"Porque eu não comprei nada pra você. Nem pensei em comprar, na verdade".
Harry se levantou do sofá, espreguiçando-se. Deu dois passos até mim, afagando desajeitadamente meus cabelos. Senti meu rosto queimar e uma pequena onda de eletricidade percorreu meu corpo inteiro, fazendo-me estremecer levemente. Olhei para o colar em minha mão, desviando-me de seus olhos azuis, que agora brilhavam exuberantes.
"Não diga bobagens, não comprei com próposito de ganhar outro em troca".
"Mas então por que me deu uma coisa tão legal assim?"
"Já disse, é Natal. Não posso dar presentes agora?"
Ele deu a volta, ficando atrás da poltrona. Inclinou seu corpo ao lado do meu, pegando o colar de minha mão. Virei meu rosto minimamente, ficando próxima demais ao seu, podendo sentir seu hálito refrescante soprando contra mim. Voltei minha atenção para frente, sentindo certa tensão pela proximidade de nossos corpos. E aquilo tudo era muito estranho. Eu tinha só dez anos e ele era dois anos mais velho. Eu sequer sabia por que estava sentindo tudo aquilo.
Harry afastou meus cabelos para o lado, passando o colar em volta de meu pescoço. Um clic e ele já estava na minha frente novamente, sorrindo torto.
"Espero que use-o para sempre".
Levei uma mão ao meu colo, mal sentindo seu peso ali. Olhei para baixo por alguns segundos, admirando o coração de cor rubra que cintilava graciosamente. Quando leventei minha cabeça, sem saber como agir, ele já caminhava em direção ao quintal, deixando-me com a visão de suas costas se afastando.
"01 de Outubro,
Querido diário.
Daqui quinze dias será meu aniversário de quinze anos. Bem, não estou nervosa por estar ficando mais velha. E, diferente de algumas amigas minhas, não quero completar dezoito logo. Eu gosto de viver minha vida desse jeito, do jeito que ela está. Tom tem uma banda - que ainda não tem nome, por enquato, a chamamos de untitled - e ele vai tocar no dia da minha festa. O que significa ter que ver Harry Judd se exibindo com sua bateria idiota. Well, bateria é um instrumento bacana, mas Harry não. Aquele cara me torra a paciência. Bem, isso não é mais novidade pra você e nem pra ninguém. Até mesmo Tom parou de me encher o saco (Ok, às vezes ele insiste em bancar o irmão mais velho irritante) mas Judd parece ter doze anos ainda. Parece que as coisas pioram com o passar dos anos e a cada dia parece mais impossível suportar suas idiotisses. Pra mim ele é isso, um idiota. E oh céus, por que ninguém diz a ele que a casa dele é aquela ali ao lado e não aqui? Vou parar de escrever porque ele acabou de chegar, gritando como um maluco. Não dou nem um minuto para que ele venha me pertubar..."
"O que a pirralha tanto escreve nesse pedaço de papel?" - Rolei os olhos quando ele entrou no meu quarto sem ao menos se pronunciar. O fitei incrédula quando ele se atirou sobre minha cama, cruzando os braços despreocupadamente atrás da cabeça. - "Histórinhas de amor?"
"Sai. Do. Meu. Quarto" - Disse entre dentes, assistindo-o negar com um dedo, fechando os olhos.
"Tô afim não"
"O que você quer aqui, garoto?".
"Vim procurar seu irmão, ele está?"
"Por que não vai procurar no quarto dele?"
"Já procurei e ele não está lá. Pensei que você pudesse me dizer aonde ele foi" - Ele deu de ombros e brincou com uma almofada girando-a na ponta do dedo.
"Não sou a babá do meu irmão"
"Ah é, ele que é sua babá. Esqueci que você é uma criança ainda"
Semicerrei meus olhos, bufando pelo nariz. Fechei os olhos com força, contando até dez mentalmente. Ingeri uma grande quantidade de ar, fechando minha agenda bruscamente e me levantando para sair do meu próprio quarto.
"Ficou nervosinha?" - Ele riu as minhas costas e eu disse a mim mesma que não ia perder minha preciosa paciência com ele. - "Pirralha".
Minha tentativa de não pular em seu pescoço foi pro ar quando senti a almofada que há poucos minutos rodava em sua mão bater em minha cabeça. Voltei para a escrivaninha, deixando minha agenda ali. Virei-me lentamente em sua direção, apontando para a porta.
"Você tem dez segundos para sair do meu quarto antes que eu acabe com você"
Harry sentou-se na minha cama, arqueando uma sobrancelha de modo desafiador. Cruzei meus braços, batendo o pé no chão de modo frenetico, fazendo-o lançar a cabeça para trás, gargalhando.
"Você não me assusta nem um pouco".
"Um... Dois... Três..." - Comecei a contar de modo lento sobre o som de sua risada.
"Quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez" - Ele se levantou, ficando de frente para mim. - "Acabou o tempo. E aí, quer acabar comigo agora ou mais tarde?"
Impulsiva como sempre fora quando estava perto dele, o empurrei com toda minhas forças, fazendo-o cambalear minimamente para trás.
Num gesto rápido demais para distinguir quando aconteceu, Harry me segurara pelos dois braços, invertendo nossas posições. Depois, com um passo seu em minha direção, eu dei dois para trás, tropeçando em minha própria cama caindo com Harry por cima de mim.
"Saí de cima de mim, Judd!" - Esperneei quando ele prensou meus braços contra o colchão, um de cada lado de minha cabeça.
"É só isso que você saber fazer ?" - Ele riu e eu me contorci com todas minhas forças, me movendo minimamente sobre seu peso. - "Pára de gritar como uma louca que eu te solto".
O fitei furiosa, sentindo minhas bochechas queimarem de raiva. Forcei meus punhos contra sua mão, mas ele permanecia me segurando com força. Suas pernas espremeram as minhas uma contra a outra e eu me vi completamente imobilizada. Tentei estabilizar minha respiração, sentindo o peito subir e descer descontroladamente.
"Você está me machucando Judd!"
"Te solto se você dizer que eu sou o cara mais gostoso que você já conheceu na vida". - Ele riu e eu quis acertar seu rosto perfeito com um soco.
"Nunca"
"Diga ou ficaremos aqui para sempre"
"Nunca!"
"Tudo bem" - Harry praticamente sentou sobre mim, seus joelhos agora próximos a minha cintura. - "Eu estou confortável pela eternidade, e você ai embaixo?"
"Sai de cima de mim Harry Mark Chistopher Judd!"
"Só minha mãe me dá medo quando me chama pelo nome completo. Diga e eu te liberto"
"Você é o cara mais idiota que eu já conheci na vida!"
"Senha errada" - Ele agitou a cabeça para os lados, se aproximando de meu rosto para rir. - "Vamos lá, não é tão difícil assim".
"Eu não gosto de dizer mentiras tão deslavadas como essas, Judd. Uma hora você vai ter que descer dai"
"Parece que você não se importa de me ter sobre você" - Ele arqueou uma sobrancelha rindo de modo perverso e eu corei violentamente, sentindo o coração bater descompassado quando ele se aproximou um pouco mais, ficando a dois palmos de distância de meu rosto. - "Diga-me ou vou te beijar".
"Você não se atreveria!"
Ele riu de modo irônico, se aproximando lentamente sem jamais deixar de me encarar. Eu podia sentir sua respiração batendo em meu rosto, seu nariz roçando no meu. Ele inclinou a cabeça para o lado, seu hálito batendo em minha boca quando ele abriu um sorriso torto.
"Você é o cara mais idiota e...gostoso que já conheci na vida" - Disse de uma vez, fechando os olhos quando meus lábios roçaram levemente nos seus ao pronunciar aquela frase.
Ele se afastou lentamente, rindo satisfeito. Soltou meus braços e se afastou de uma vez rapidamente, caminhando em direção à porta.
"Não leve à sério o que eu disse. Nunca diria isso se não fosse realmente necessário" - Cuspi com toda minha furia, massageando meus pulsos.
"Como se você tivesse sido obrigada. Aposto que desejou me beijar" - Ele me olhou por sobre o ombro, rindo abertamente. - "E como você mesma disse, você não gosta de mentiras".
E dizendo isso, saiu de meu quarto, deixando-me louca de vontade de quebrar alguma coisa.
Posso dizer que, quando brigo com Harry, passamos alguns dias sem discutir. Depois, quando fazemos as pazes, voltamos com todas aquelas brigas costumeiras. Não há tréguas. Aquilo já era mais normal pra mim do que para qualquer um.
No colégio eu evito de querer atirar as coisas nele porque, depois da primeira advertência que levamos, aprendi que jogar uma lixeira contra alguém pode resultar numa grande confusão. E numa sujeira bem grande para limpar.
Sinceramente eu poderia ignorar ele. Mas ele fica no meu pé até que consiga me arrancar de minha sanidade.
Parece que ele sente prazer em fazer aquilo.
Ouvi vozes vindo da cozinha e me dirigi para a varanda, levando comigo minha agenda, na qual eu colava um pequeno recorte de jornal.
Sentei-me na grande cadeira de balanço, apoiando minha agenda sobre as pernas cruzadas. Folheei até chegar numa das primeiras páginas.
"01 de Fevereiro.
DEZ COISAS QUE EU MAIS ODEIO EM HARRY JUDD
I - Ele me irrita, acima de tudo.
II - Ele é idiota o bastante para ficar acordado até tarde jogando pedrinhas em minha janela. Eu tentei trocar de quarto com o Tom. Eles são amigos, ele que fique com o quarto que é de frente para o do Judd, oras.
III - Ele sempre arranja um jeito de aparecer nas minhas aulas de educação fisica. Já comentei que fico extremamente nervosa e desorientada com sua presença? Pois é, isso já resultou em algumas boladas na cabeça durante os jogos de vôlei.
IV - E, falando em bolas na cabeça, Harry Judd sempre consegue me acertar com bolas de papel amassado na hora do almoço. E ele pegou essa mania irritante depois que parei de me sentar com ele e Tom.
V - Ele toca bateria muito bem. E é engraçado quando faz isso. E eu odeio que ele seja bom num instrumento que EU amo mas não sei tocar.
VI - Ele fica me chamando de pirralha quando é ele que tem atitudes de tal.
VII - Harry sempre rouba minhas panquecas quando toma café em casa. Já reparou que ele é abusado e ainda assim todos nessa casa parecem gostar dele? Eu odeio isso também.
VIII - Ele parece adorar a ideia de me acordar às sete da manhã em pleno sábado. Se ele acorda disposto, ótimo. Eu não preciso - nem quero - partilhar de sua disposição.
IX - Ele nunca fica nervoso quando eu o provoco. Ao invés disso, eu fico frustada quando ele sorri daquele jeito perfeito. Perfeito pra me irritar.
X - E, ultimamente tenho odiado o modo como meu coração dispara quando ele chega perto demais".
Alguns meses se passaram desde que fizera aquela lista e, se fosse agora, aposto que essa lista dobraria de tamanho.
Mas tudo que escevi ali permanecia exatamente igual. Bem, agora ele não rouba mais minhas panquecas porque eu parei de sentar perto dele. Mas se não fosse por isso, continuaria a mesma coisa.
Passei mais algumas folhas para frente, agora um pouco curiosa para reler as coisas que eu mesma escrevera.
"25 de março.
Tom apareceu hoje de manhã com dois garotos novos. Quero dizer, novos para mim. Nunca tinha visto eles em lugar nenhum, não me lembro se já os vi no colégio. Bem, tanto faz. Eles se chamam Daniel e Dougie. Ou Danny e Dougie, como Tom me apresentera agora há pouco. Danny se mostrou bastante falante e Dougie pareceu mais timido. Vão tocar com o Tom na banda. Os outros caras desistiram da untitled.
E eu nem gostava deles mesmo. Mas esses parecem ser gente boa. E são super talentosos. Danny tem a voz tão linda quanto a de Tom e Dougie também sabe cantar, embora prefira tocar o baixo. Espero que eles dêem certo. Tom parece bastante animado e feliz.
PS: Tom não poderia trocar o baterista também?"
Ri fraquinho quando me lembrei que falara aquilo para meu irmão, que me olhou com uma expressão um tanto chocada. 'Harry é muito talentoso, . Não posso expulsá-lo pelo simples fato de você não gostar dele'.
"Ora, e seu fiel escudeiro" - Assustei-me com a presença de Harry, que se sentara ao meu lado, agitando suas baguetas no ar.
"Judd, você não se cansa?"
"Não" - Ele disse rapidamente de modo divertido. - "Eu sou incansável".
"Eu diria que você é insuportável" - Semi cerrei os olhos para si vendo-o encarar a fina garoa que começara a cair.
"Eu posso fazer você dizer o contrário"
Senti o sangue se acumular sob a pele de minha bochecha e sabia que logo aquela área ficaria mais vermelha que tomates maduros.
"Você não vai ter tanta sorte como naquele dia, Harry".
"Quer tentar a sorte?" - Ele arqueou uma sobrancelha para mim e eu odiava que fizesse aquilo. Me deixava completamente desnorteada.
Eu nunca quis admitir, mas ele era realmente atraente. E, conforme o tempo foi passando, eu pude acompanhar suas mudanças todas de perto.
"Você tem é sorte de eu não ter contado para Tom"
"E você tem é sorte de eu não ter te beijado de verdade"
"Vai encher a paciência de quem não tem o que fazer, Judd" - Voltei minha atenção para meu diário, fingindo ler um recorte de jornal com uma letra de música.
Quando realmente comecei a prestar atenção nas letras, ele se fora.
Harry e suas chegadas e saídas triunfantes e eu, cada vez mais perto de me controlar ao seu lado. Ou não.
Bem, eu nunca saberei se isso realmente vai ser possível. Ambos somos imprevisíveis e isso faz toda a diferença.
Incrível como eu nunca percebera que Danny e Dougie estudavam no mesmo colégio que nós. Talvez porque eu nunca ficara reparando muito nos garotos como as outras garotas daquele colégio. Para mim, todos aqueles garotos eram irritantes como o Judd.
Naquela manhã, Dougie e Danny passaram em casa para que fossemos todos juntos para o colégio. Dougie não era tão tímido assim, descobri depois de algum tempo. Era bastante falante e hiperativo. Bem, acho que isso era mal daqueles garotos. Quando se juntavam era uma bagunça só. E Dougie sempre parecia levar a pior.
"Danny não me deixou dormir ontem a noite e hoje praticamente caiu da cama" - Dougie me respondeu quando eu lhe perguntei se estava bem, pois estava com uma cara péssima. - "Vou demiti-lo e mandá-lo embora de casa".
"Eu gostaria que fosse simples assim" - Lhe respondi rindo de seu comentário amargurado enquanto fechava a porta de casa para acompanhar os outros.
"Você se demitiria de quem?" - Dougie pareceu confuso, franzindo as sobrancelhas. - "Do seu irmão?"
"Não. Tom pode ser meio chato às vezes, mas eu o amo. Eu estava me referindo ao Judd".
Dougie rolou os olhos e pegou minha mochila, jogando-a sobre o ombro. Lembrei-me do primeiro dia em que eles presenciaram uma - das muitas - discussões em que coisas saem voando.
Naquele dia em especial eu quis realmente matar o idiota do Judd.
Era sábado e eu estava crente de que os meninos haviam saído para alguma festa qualquer. Era o primeiro sábado depois de cinco anos que me via sozinha em casa. Completamente livre do Judd e suas provocações idiotas. E era a primeira vez que poderia tomar banho no meu quarto com a porta destrancada. Eu me sentia sob constante ameaça de sabotagem pela parte dele. Harry tinha a péssima mania de esconder minhas coisas.
Liguei meu som no volume maximo permitido naquele horário e estupidamente, fiquei dançando pelo quarto enrolada na toalha. E, se a luz não tivesse acabado naquele exato momento, eu nunca ia descobrir que Harry Judd observava aquela cena toda escorado em minha porta, rindo espafalhatosamente.
"Aposto que esse vídeo será o mais acessado da semana!"
"Judd, você não teve a coragem..." - Ouvi minha voz sair abafada, trêmula de vergonha e raiva.
"Você duvida?"
Como sempre, fiz a primeira coisa que me surgiu na cabeça: saí correndo atrás de seu riso na escuridão. Com facilidade chegamos na sala, onde ficamos correndo ao redor da mesa da sala de jantar como duas crianças. Harry ria e eu gritava. E quanto mais aquele momento se prolongava, mais irritada eu ficava. Em dado momento, por conta da água que pingava de meu cabelo molhado, o chão de madeira polida ficara muito escorregadio. Harry descuidou-se e caiu, de barriga para cima. E eu, cega de raiva e pela falta de iluminação, caí sobre seu corpo. Apertei minha toalha para que ela não caísse e me sentei em cima de sua barriga gritando. Harry apenas ria. Estava tão absorta que mal percebera que uma de suas mãos estavam apoiadas em minha coxa. E eu queria muito que a luz não tivesse voltado nesse momento. Danny, Dougie e Tom estavam sentados no sofá, até então apenas escutando nossa discussão. Subitamente me dei conta de como aquela cena era estranha e me levantei, mais vermelha do que todos os tomates e pimentões do mundo juntos.
"Eu devia mesmo ter gravado aquela cena" - Ele levantou-se do chão, rindo muito mais alto quando abri minha boca, indignada. E então, ele nunca me filmara? - "Sua performance estava incrível!"
Toda aquela cena para nada. Sem pensar muito, movida pela minha vontade de lhe acertar alguma coisa, joguei em sua direção a primeira coisa que minha mão pode alcançar sobre a mesa. O azar do Judd é que, a primeira coisa que eu achei foi um prato de porcelana muito, muito pesado.
Claro que eu ainda queria matar aquele garoto, mas fiquei profundamente arrependida quando tivemos que correr com ele para o hospital para que pudesse levar alguns pontos na cabeça. Foi a primeira e última vez que lhe pedi desculpas.
"Vocês se amam, só pode"
"Quê??"
"É sério , das duas uma: Ou vocês se casam ou se matam" - Dougie fez uma careta. - "Se bem que se vocês se casassem iam se matar da mesma forma".
"Não diga bobagens, Poynter. Nem que Judd fosse o último homem na terra eu ficaria com ele".
"Cuidado... Nunca diga nunca!"
"Ah, deixe de bobagens! Vamos logo Dougie boy, não quero me atrasar!"
As primeiras aulas me deixaram com sono e eu sequer prestava atenção no que os professores diziam.
Eu quase perdera a hora pois estava acostumada a ter Judd como um despertador. O ruim era que eu não podia atirá-lo na parede quando ele estivesse me dando nos nervos.
A hora do almoço chegou como um milagre e eu me arrastei para fora da sala, carregando minha mochila pesada. Sentei-me na minha mesa com algumas amigas, avistando meu irmão e os outros chegando logo em seguida.
Uma das meninas, que começara a se sentar conosco há algumas semanas, não parava de falar no meu irmão e nos outros meninos. Será que ao menos ela sabia que o loiro lindo e gostoso que ela desejava ter na cama dela era o MEU irmão? E que aliás, ele não era pro bico dela?
"O Tom é muito fofo com aquele cabelo loiríssimo!" - Exclamou a novata que eu não me lembrava o nome. Duas das quatro meninas ali sabiam que ele era o meu irmão e lançava olhares para ela. - "Será que ele tem namorada?"
"Eu acho o Danny muito mais fofo. Já repararam como ele é estiloso?" - Stephany tentou mudar o foco, mas por poucos segundos.
"Ele é muito infantil. E Dougie quase não fala. Não gosto de garotos timidos. Já Harry e Tom parecem ser Hots"
"Ouvi dizer que Tom é o mais hot de todos" - Brittany falou e ela fazia parte daquela dupla que não sabia que Tom era o meu irmão. Ri pelo nariz. Como elas podiam achar que conheciam aqueles meninos? Tudo bem, elas tinham o direito de achá-los bonitos, mas que guardassem essas coisas para elas mesmas, oras.
"Se Tom tivesse uma irmã eu viraria amiga dela só pra poder frequentar a casa deles" - A novata riu de modo perverso e eu também, mas por um motivo completamente diferente. Stephany e Jolie lançaram olhar de alerta para ela, que não percebeu.
"Então, você assume que é uma interesseira?" - Eu disse, controlando meu tom de voz para que não saísse alterado demais. Eu queria ver até onde aquilo iria.
"Ora, nesse caso precisamos ser" - Ela arqueeou uma sobrancelha e Brittany assentiu, olhando sonhadora para a mesa dos meninos.
Eu já comentei que não gosto do modo como ela finge ser a tal? Bem, na verdade eu não gosto dela. Ri pelo nariz, balançando a cabeça negativamente.
"Começamos conquistando a família, depois mostramos para eles que somos meninas legais e depois, tudo acontece como mágica!"
"Isso é falsidade. Você estaria usando a irmã dele só com o próposito de conquistar o irmão" - As outras meninas assistiam nosso pequeno bate papo em silêncio.
"A coitadinha nem ia saber" - Ela deu de ombros, tomando seu refrigerante, fitando a mesa do meu irmão.
"E como você conquistaria a amizade da suposta irmã dele?" - Instiguei, cruzando meus braços sobre a mesa, fingindo curiosidade.
"Depois que eu descobrisse quem é a vadiazinha, me aproximaria e descobriria em qual matéria ela é boa. Ela deve ser bem nerd, aliás. Me fingiria com dificuldade na matéria e iria pedir ajuda dela. Seria a best dela por tempo o suficiente para que ela me adore e me chame para dormir na sua casa" - Ela parou para sorrir maliciosa, cruzando seus braços como eu sobre a mesa, ficando a alguns palmos de distância. Eu tive vontade de fazer todas aquelas coisas que nossas mães julgam ser falta de moral. - "Depois fingir que errou a porta do quarto dele com o banheiro é o começo de tudo"
"Simples assim?"
"Simples assim" - Repetiu a garota que eu me lembrei se chamar Lauren. - "A garota deve ser tão idiota que seria fácil de se manipular"
"É... Talvez" - Me levantei da cadeira, apoiando minhas mãos na mesa para encará-la, sorrindo de lado. - "Acontece que a irmã dele, no caso a vadiazinha aqui, não é nenhuma nerd e não é idiota o bastante para chamar pessoas como você para frequentar um lar de família. Mas é um bom plano. Mas não para cima do Tom ou de qualquer um daquela mesa ali".
Bebi um pouco de seu refrigerante, piscando para sua face atônita. Dei as costas e peguei minha mochila, indo em direção ao lado oposto do refeitório, sorrindo satisfeita.
No meio do caminho, ainda rindo da cara de tacho daquela idiota da Lauren, avistei um garoto me analisando. Ele ria e provavelmente tinha presenciado aquela cena toda, pois olhava de mim para Lauren. Fiquei poucos segundos perdida nas esferas achocolatadas que eram seus olhos, rumando em seguida na direção dos gritos de meu irmão.
"E então, o que vamos fazer hoje à noite?" - Tom se lançou contra Danny e Harry, fazendo com que Dougie se inclinasse sobre mim no sofá. - "É sexta-feira dudes, não quero ficar em casa!"
"Vamos ensaiar" - Danny deu de ombros e todos fizeram caretas. - "Qual o problema?"
"Não quero ensaiar" - Harry fez bico e Dougie assentiu.
"Você nunca quer nada, Harry" - Tom exclamou e lançou um travesseiro em sua direção.
Deu-se início a uma guerra de travesseiros. Me escondi atrás das costas de Dougie, já que eles eram meio agressivos e se esqueciam que eu não tinha a força e resistência para esses tipos de brincadeiras.
Rolei os olhos. Era tão comum vê-los agindo como crianças mimadas. E bagunceiras.
"Melhor a gente sair, tanta testosterona acumulada pode trazer a casa à baixo" - Gritei em meio às almofadas que pararam de voar. Levantei do sofá dando um tapa no joelho de Judd, que estava sobre a mesa de centro, no meu caminho. - "Minha mãe não gosta disso".
Harry deu a língua, jogando uma almofada pra cima de mim. Semicerrei meus olhos em sua direção, em alerta. Almofadas voadoras não me traziam lembranças muito agradáveis.
"Judd... Se comporte melhor ou..."
"Ou o quê? Vai me bater?" - Harry sorriu sarcasticamente e aquela sensação tão conhecida de dormência na ponta dos meus dedos me fez cerrar os punhos.
"Quer apostar?"
"Vamos ver se hoje você consegue. Ou não" - Harry riu malicioso, mandando um beijo pra me irritar.
Inspirei uma grande quantidade de ar, sentindo meu rosto queimar. Eu estava pronta para partir pra cima dele, de qualquer maneira.
"Tudo bem, tudo bem vamos sair antes que eles se matem!" - Danny se levantou depressa, me empurrando gentilmente pelos ombros.
Mas meus olhos ainda faiscavam sobre o Judd, que continuava exibindo seu sorriso idiota.
Fomos para a Starbucks no centro da cidade divididos em dois carros. Obviamente, por obra do destino - ou de amigos muito sacanas - eu tive que ir no carro de Danny com o Judd. Tom e Dougie iam passar na casa de Ant, um amigo nosso, e nos encontrariam lá.
Danny dirigia e por ordem dele, eu me sentei na frente. E claro que eu fazia questão de permanecer o mais longe possível de Harry. Não que isso significasse que ele iria me deixar em paz o caminho todo.
Nem cinco minutos haviam se passado e Danny e Harry conversavam entusiasmados sobre qualquer coisa sobre as líderes de torcida.
Garotos.
Parecem que vivem pensando nisso o tempo todo e todo o tempo. Fiquei emersa em minha bolha particular, desfrutando de uma música alegre que soava no interior do carro.
Conviver 24 horas por dia com garotos me fazia sentir uma estranha familiaridade com seus atos. Era tão comum como andar com garotas. Pelo menos, pra mim.
Depois de um tempo você se acostuma com arrotos no meio de uma conversa. E vê-los arrancando as calças uns dos outros já é natural. Claro que, em determinados assuntos, eu me mantinha alheia. E em outras eu simplesmente não sabia o que dizer. Ora, como é que eu ia saber qual era o melhor jogador de futebol americano?
Tirando algumas esquisitices e babaquices, éramos uma família grande e feliz. E de certa forma, eu não era a irmã mais nova só de Tom. Isso soa realmente estranho, mas até mesmo com o Judd existia laços de amizade. Laços meio violentos, mas de alguma forma éramos alguma coisa. Mas ainda assim, como eu disse certa vez, não éramos amigos.
Harry estava absorto e muito empolgado com algum assunto que Danny iniciara e, só assim, pudemos chegar na lanchonete sem uma discussão sequer. Harry parecia muito legal quando não estava me irritando.
Quem via de fora achava que era implicância da minha parte. Porque com os outros Harry era simplesmente um doce de pessoa.
A verdade era que Harry e eu éramos tão parecidos que mal suportávamos a presença um do outro.
Harry é um tanto perfeccionista. Não gosta de cometer erros nem mesmo no ensaio. Não gosta do Natal porque diz que ninguém lhe dá presentes e até o apelidamos de Grinch por conta de seu mau humor nessa época do ano. Quando criança ele cortava os pêlos dos bichinhos de pelúcia porque achava que eles iam crescer de novo. Eu lembro do dia em que ele deformou meu ursinho preferido, Teddy. Eu chorei durante uma semana. Ele adora hóquei. Não queria ser baterista até tocar em uma. Sofre de tendinite. Tem medo de voar. Sua sobremesa preferida é o pudim de morango e creme que minha mãe faz.
É, nem me diga. Isso é assustador. Eu conhecia Harry tão bem quanto, aposto eu, ele me conhecia. Talvez por isso brigávamos tanto.
"? ! Você tá fazendo isso de novo!"
"Quê?" - Olhei assustada para Danny, que me encarava. - "O que aconteceu?"
"Em que planeta você estava? Chegamos".
Ouvi Harry rir e esperei que fizesse qualquer comentário estúpido, mas ele simplesmente me mandou descer para que pudesse sair também, já que Danny iria estacionar o carro.
"Não abra sua boca para ser irônico, Judd" - Ergui uma mão olhando-o de soslaio. - "Vamos tentar não brigar muito hoje, está bem?"
"Eu só ia te perguntar uma coisa" - Ele me sorriu de forma quase ingênua, mas havia certo brilho em seus olhos que eu não conseguia compreender. - "Posso?"
"Desde que seja algo aceitável..."
Acenei quando Tom passou buzinando por nós, seguindo para o estacionamento. Abracei meu tronco quando uma brisa gelada soprou em meus cabelos, levantando-os no ar. Olhei para Harry, que fazia uma expressão que eu não conseguia decifrar.
"Pensei ter visto você de olho no Oliver"
"Isso não é uma pergunta" - Franzi minha sobrancelha, encarando-o. - "E quem é Oliver?"
"Aquele que você estava secando no refeitório semana passada"
"Eu não sei de quem você está falando" - Enquanto tentava manter a calma com seu tom autoritário, puxei na memória aquele dia. - "Ah... Acho que sei de quem você está falando. Um de cabelos meio ondulados, castanhos?"
"Olha, é serio, você não vai querer se envolver com um cara como aquele" - Harry disse, enfiando as mãos nos bolsos da bermuda.
"Você não está tentando me dar...conselhos, está?"
"Não é um conselho" - Harry riu daquela forma que me deixa inebriada, seus olhos me analisando minunciosamente. - "Você vai ficar longe daquele cara".
O fitei boquiaberta enquanto ele continuava a me analisar. Senti uma estranha corrente elétrica passando entre nós e mais do que depressa focalizei meus olhos em outro ponto, segurando-me para não rir.
Olhei para trás e avistei os garotos chegando, indo de encontro com eles.
"Olha, deixe esse papo de irmão mais velho pro Thomas, está bem?" - Disse por sobre o ombro, sem de fato olhar para si.
Meneei minha cabeça, tentando afastar suas palavras e as sensações que elas causaram.
Coloque-nos num ringue de boxe e nos daremos muito bem. Mas nos coloque numa sala com bolo e chá que certamente não saberemos como lidar com isso.
Pelo menos eu me sentia incomodada conversando com ele como se não existessem todos aqueles atritos.
Eu desde criança não sabia como conviver com Harry sem que brigássemos por qualquer motivo bobo.
E somente agora me pergunto se isso terá um fim, algum dia. Se vamos continuar assim quando já estivermos velhos ou se isso continuará quando eles conseguirem realizar o sonho de se tornarem conhecidos mundialmente.
Bem, acho que não.
Harry Judd e Fletcher nasceram para viver em constante pé de guerra. E quando isso não for mais assim, creio que o mundo não será mais mundo.
Os meninos estavam muito agitados para permanecemos por muito tempo numa lanchonete. Depois que comemos decidimos por unanimidade ir para um pub muito legal ali perto.
Beber e dançar era sempre a melhor forma de extravasar toda aquela energia acumulada.
Eu não costumo beber porque sou muito fraca para bebidas. Alguns copos de cerveja e eu fico vermelha como um pimentão. E sem contar que ressaca não é nada legal. Não que eu já tenha tido, eu digo pelos meninos. É uma cena deplorável.
Já passava das dez e Danny e Tom estavam um pouco altos pela bebida. Dougie e Harry estavam em algum lugar por aí, provavelmente atracados com alguma garota qualquer. Decidi que seria melhor sair da mesa antes que Tom levasse as cantadas que Danny estava me dando muito a sério e acabasse brigando com ele ali mesmo. Claro que, depois que o efeito do álcool passasse, Danny não se lembraria das besteiras que disse.
Segui para o bar e pedi uma cerveja. Ora, uma garrafa apenas não iria fazer mal. Tocava uma música com uma batida bem dançante e, já que estava ali pra me distrair, rumei sozinha para a pista de dança com a garrafa pela metade em mãos.
E eu só conseguia dançar publicamente se estivesse um pouco alegre.
Olhei para a mesa que meu irmão estava sentado e havia duas garotas ali com eles. Bem, pelo menos eu saí antes de virar castiçal ou coisa parecida.
Deixei que a música fluísse pelos meus ouvidos, dando as coordenadas para que meu corpo se mexesse no ritmo certo.
Quando a primeira garrafa esvaziou-se, peguei mais uma. Estava calor ali dentro e não era tão ruim assim a sensação que o álcool me proporcionava. Só devia me lembrar de não passar da terceira garrafa.
Em dado momento pensei ter avistado Dougie com uma loira num canto do pub. Pelo menos ele estava se divertindo. Fechei meus olhos e dancei livremente, uma mão segurando meus cabelos para que batesse um pouco de ar em minha nuca.
Entornei o restante de cerveja num gole só. Sentia minhas bochechas queimarem e já me sentia um pouco entontecida.
Estava na minha terceira música e ia buscar mais uma garrfa quando senti mãos pousarem em minha cintura e uma respiração pesada bater em meu pescoço.
"Não sabia que você dançava tão bem assim"
Com a música soando alta e com o efeito do álcool não conseguia definir se conhecia ou não aquela voz. Virei-me bruscamente e, certamente eu não conhecia aquele cara.
"Me desculpe, eu te conheço de algum lugar?"
"Oliver Brandon" - Ele se aproximou para dizer em meu ouvido e naquele momento eu me lembrei. O garoto do refeitório. E eu quase tive vontade de rir, porque justamente o cara que Harry queria que eu mantivesse distância estava a alguns centimetros de mim. - "Estudamos no mesmo colégio"
"Ah claro, acho que Harry me falou sobre você" - Também tinha que me aproximar de seu rosto para que pudesse ser ouvida.
"Harry Judd?" - Ele perguntou e parecia incomodado. - "Conhece ele?"
"Infelizmente sim" - Ri fraquinho e ele pareceu gostar de ouvir aquilo.
Fechei meus olhos novamente, voltando a dançar. Oliver permaneceu dançando na minha frente e eu não me senti incomodada com aquilo. Estávamos num pub, qualquer um poderia dançar ali e eu não iria expulsá-lo só porque o Judd disse que eu iria ficar longe dele. Oliver não parecia ser má pessoa. Era alto e tinha cabelos levemente ondulados, caindo na altura dos olhos. E seus olhos tinham um bonito tom de chocolate.
Em determinada parte da música que tocava agora, ele se aproximou, segurando-me pela cintura com ambas as mãos. Coloquei minhas mãos sobre as suas, mas apenas para impedi-lo caso pensasse em mudar o rumo delas. Oliver me puxou com um pouco mais de força em direção ao seu corpo e senti-me ainda mais alcoolizada com seu hálito. Ele devia ter bebido muitas garrafas a mais que eu.
Dei dois passos para trás, a fim de desgrudar seu corpo do meu. Aquele não era um tipo de música para dançar tão perto assim.
Mas ele insistiu e quando se aproximou, já estava com sua boca colada em meu pescoço.
"Oliver me solte, você está me machucando" - Disse enquanto tentava empurrá-lo para longe.
"Deixa de manha" - Ele subiu sua boca em direção a minha e com dificuldade eu consegui me afastar. Por pouco tempo. - "Eu sei que vocês gostam disso"
Eu até tentaria lhe acertar se ele não fosse muito mais forte que eu. Percorri com um olhar desesperado procurando alguém que pudesse me ajudar.
"Me solta!" - Gritei, mas com a música alta mal era possível ouvir. Oliver apertou com mais força minha cintura e senti uma pontada de dor quando ele o fez. - "Você está me machucando!"
Havia lágrimas em meus olhos e eu estava prestes a começar a gritar por socorro quando vi um vulto cair sobre nós, arrancando-me dos braços dele.
"Fica longe dela, seu imbecil"
Harry me pôs atrás de si por poucos segundos, antes de lhe acertar um soco no meio do nariz. Não sei se o soco foi potencialmente forte ou se ele caiu porque estava muito bêbado. Mas não tive tempo de ver se Oliver ia se levantar do chão ou não. Harry me pegou pela mão, arrastando-me para longe da roda de gente que se formou no meio da pista.
"Você está bem?" - Ele sussurrou próximo ao meu ouvido enquanto ainda caminhávamos para o lado externo do pub. Eu soluçava, mesmo sem estar chorando. - "Droga , estou te perguntando se você está bem!"
"E-estou" - Disse quando paramos de andar. Mas fiz uma careta quando abracei meu tronco, as mãos relando em minha cintura.
"Ele te machucou? Eu disse pra você ficar longe daquele idiota!"
Harry parou de andar de um lado para o outro e se pôs perto de mim, segurando-me gentilmente pelos ombros. Olhou para minhas mãos, que agora estavam espalmadas sobre as laterais de minha cintura, a respiração falha.
"Me deixe ver" - Harry pediu preocupado, colocando suas mãos sobre as minhas.
"Estou bem, Judd"
"ANDA LOGO !" - Harry exaltou-se e fechou os olhos como se tentasse se acalmar. - "Por favor, me deixe ver?"
Relutante pela reação que ele poderia ter, levantei minha blusa vagarosamente, expondo minha barriga. Arrepiei-me quando um vento gelado passou por nós. Havia duas marcas avermelhadas marcando minha pele extremamente branca.
"Eu devia voltar lá e acabar com a raça dele!" - Harry cuspiu furiosamente, trincando o maxilar com força. Fechou os punhos e bufava como um touro, fazendo menção de voltar pelo caminho que viemos.
"Não, por favor não volte lá!" - Segurei-o pela mão, ignorando o fato de ondas elétricas estarem formigando aquela região. - "Me leva pra casa, por favor Haz"
Harry pareceu pensar por alguns segundos, sua respiração visível no ar. Pegou o celular e ligou para Danny, avisando que me levaria embora. Seguimos para o estacionamento em silêncio, e estranhamente, o fato de ter um braço de Harry em volta de mim me acalmava.
"15 De Outubro.
Oh céus! Amanhã é o meu aniversário!
A casa andou bem movimentada nessa última semana. Os meninos andaram ensaiando bastante. E, falando em meninos...
Nessa última semana rolaram alguns atritos no colégio. Claro que Harry tinha que contar pro Tom o que aconteceu no pub aquele dia e eles foram tirar satisfação com o tal de Oliver. Bem, resumindo: Harry, Danny, Tom, Dougie, Oliver e eu fomos parar na diretoria. Bem, Danny, Dougie e eu fomos juntos sob a alegação de que estávamos incentivando o vandalismo. Depois de algumas horas levando sermão sobre como se portar no colégio, fomos dispensados, mas com um aviso de que na próxima, nossos pais seriam convocados. Agora, os meninos me seguem por todo canto, me vigiando como se eu fosse algum objeto valioso. No começo eu fiquei um pouco brava, mas agora é engraçado. Fico imaginando os quatro usando aqueles ternos e óculos escuros... É, é bem engraçado.
Só não é engraçado o fato de que Harry está meio... estranho.
Eu não sei o que aconteceu com ele. Não sei se está doente, porque depois daquele dia ele quase não fala comigo. QUASE NÃO FALA COMIGO. Percebe como isso é estranho? Não houve um dia sequer de ano qualquer que ele não tenha me tirado do sério. E agora, assim do nada, ele parece nem me conhecer.
É, eu confesso: Harry faz falta no meu dia-a-dia.
Mas isso não quer dizer nada, embora queira dizer alguma coisa."
Fechei meu diário e o coloquei sob meu travesseiro, permanecendo acordada, fitando o teto. O que será que tinha acontecido com o Harry?
Estava quase pegando no sono quando estalos vindo de minha janela me deixaram estática. Demorou mais alguns segundos até que eu me desse conta de que estavam tacando pedrinhas na minha janela.
Cobri-me com um moletom de Tom, erguendo a persiana e encarando Harry pronto para tacar mais uma pedra. Abri a janela, apoiando-me sobre os cotovelos. Harry sorriu sem jeito quando sorri para ele, meio sonolenta.
"Oi Harry" - Disse sem precisar elevar minha voz; nossas casas eram bem próximas que, se alguém com alguma prática quisesse pular de meu quarto pro seu o faria sem dificuldades.
"Estava dormindo?"
"Quase" - Bocejei e cocei meus olhos, piscando diversas vezes para focalizar sua figura. - "E você, por que está acordado até tarde?"
"Ainda são onze e meia da noite, " - Ele riu, olhando pro relógio em seu pulso.
"Ah"
Fitei seus olhos por um segundo, corando sem saber exatamente porque. Era a primeira vez que ficávamos tanto tempo sem nos falar e eu não sabia se iriamos brigarou se tinhamos reatado aquela estranha amizade.
A noite estava gelada e estremeci levemente quando senti o vento gelado entrar pela janela.
"Amanhã é o grande dia hum?" - Ele falou depois de tacar suas pedrinhas para o chão, mirando-me com seus lindos olhos azuis. Nunca tinha percebido como eles tinham um brilho único.
"Mais um aniversário, só isso" - Dei de ombros, rolando os olhos. - "Acho que vai ser o grande dia para vocês"
"Tom está bem empolgado"
"Você não?"
"Também. Estou nervoso, na verdade" - Ele riu e seu sorriso refletia suas palavras.
"Vocês vão se sair bem. Vocês tocam muito bem" - Sorri de modo gentil e ele assentiu.
Dentro de mim sentimentos se rebelavam. Eu estava feliz por estar falando com ele novamente, confusa por estar feliz e nervosa por não saber definir tudo aquilo. Nervosa principalmente por sentir as mãos trêmulas diante de seu sorriso; por sentir o coração acelerar ao fixar meus olhos nos seus ou em qualquer parte de seu corpo, descoberto pela falta de camisa.
"Bem, então acho que nos vemos amanhã"
"Claro, você não tem como inventar desculpas para não aparecer em meu aniversário" - Rolei os olhos e ele riu, concordando.
"Boa noite "
Meneei a cabeça, tentando clarear meus pensamentos depois que ele sumiu, deixando sua janela aberta.
Deite-me na cama, ainda usando o moletom de meu irmão, sorrindo infantil para a escuridão. Meio segundo depois meu celular vibrou na cabeceira, piscando o número de Judd. E aquela seria a última frase que leria antes de cair num sono sem sonhos.
Mensagem recebida de Harry Judd às 00:01
"Feliz aniversário, pequena"
Acordei um pouco antes das dez com seis pessoas dentro de meu quarto, cada qual usando um chapéu colorido cantando alegremente 'parabéns pra você'. Mamãe segurava juntamente com Tom um bolo de chocolate, com velas faiscantes.
Passei as mãos pelos cabelos, sentando-me na cama tentando inultimente apagar as velas. Rolei os olhos quando elas apagaram sozinhas. Dei um beijo em minha mãe e em meu pai, recebendo depois um abraço simuntâneo dos quatro rapazes.
Depois da pequena comemoração familiar em meu quarto, as horas passaram num piscar de olhos e quando dei por mim, estava saindo do banho, quase pronta para a festa que estava começando. Tom estava recebendo as pessoas, já que a maioria fora ele que convidara. É, a festa era minha mas os convidados eram de meu irmão.
Sequei meus longos cabelos ainda enrolada na toalha, vislumbrada com o vestido sobre minha cama. Minha mãe tinha um ótimo gosto para essas coisas. Terminei de me arrumar e desci saltitante para o andar de baixo, recebendo muitos elogios de meus familiares.
Tom e Dougie ficaram responsáveis de arrumar o palco e eu estava surpresa. O palco estava sobre a piscina, cobrindo-a pela metade. A outra metade continha balões pretos flutuando. Luzes piscavam numa pista improvisada no meio do quintal.
Assim que avistei meu irmão, corri até ele, pulando em suas costas.
"Você é o melhor irmão do mundo!" - Beijei sua cabeça, virando-o de frente para que pudesse abraça-lo.
"E você merece tudo isso! Você está linda maninha!"
Como de manhã, Danny, Dougie e Harry se juntaram ao abraço. Beijei a bochecha de cada um, desejando sorte. Eles subiram no palco e Harry não parecia mais nervoso como antes. E pela primeira vez eu achei lindo vê-lo tocando bateria. Bem, aniversários causavam milagres em pessoas? Eu estava começando a acreditar que sim.
Eles tocaram todas as músicas que eles mesmo fizeram e cantei todas elas, orgulhosa por ver o quanto todos estavam gostando. Depois de algumas músicas eu já estava bem suada, assim como eles. Estávamos em sincronia.
Assim que eles desceram do palco e receberam o cumprimentos de nossos amigos, vieram correndo até mim. Danny me girou no ar, dando pulinhos animados juntamente comigo quando me pôs no chão.
"Eu disse que vocês iam arrasar!"
"Well, nós somos os melhores!" - Tom exclamou, sendo seguido de uivos dos meninos.
Tive que deixa-los um tempo depois, pois como anfitriã e aniversariante eu tinha que falar com todo mundo. Quando dei por mim, estava sozinha num canto, agradecida por poder ficar quieta um minuto ao menos. Segurava um copo de refrigerante ouvindo uma musica soar alegremente ao fundo. Aquele cd era de Dougie, eu tinha quase certeza...
"O que a aniversáriante faz aqui sozinha?" - Olhei para o lado e Harry estava escorado na parede, as mãos dentro do bolso da bermuda. Uma visão muito encantadora.
"Tomando um pouco de ar, eu acho" - Olhei para trás quando ouvi a música ser trocada por um acorde suave de violão. - "E você, não vai subir lá também?"
Harry olhou para o palco, arqueando uma sobrancelha. Fez que não sorrindo, se aproximando devagar. Pegou o copo de minha mão e o jogou em algum canto qualquer, segurando minha mão entre a sua enquanto me puxava com a outra pela cintura. Ao fundo eu reconhecia aquela melodia de algum lugar, mas naquele momento eu não conseguia distinguir de onde. Tudo porque Harry Judd estava me guiando numa valsa, seu olhar sustentando o meu.
"Um pouco de tradição nessa festa, hum?" - Ele sorriu torto e eu senti minhas bochechas queimarem.
"Isso não é muito tradicional"
"Custa fingir que é?" - Harry riu em meu ouvido e eu senti os pêlos de minha nuca se eriçarem. - "Você é muito chata em datas comemorativas, sabia?"
"Ah, não me enche Judd" - Eu não estava brava de fato. Voltavamos a ser o que éramos, mas com alguma coisa a mais. E eu não sabia se aquilo era bom ou ruim. Mas eu sabia que estava feliz.
"Você está muito bonita"
"Você está me elogiando?" - Arqueei uma sobrancelha exatamente como ele fazia, escondendo um riso. - "Harry Judd precisa ir para o hospital!"
"Ah, fique quieta e dança comigo" - Era uma frase tão simples que, se fosse dita por outra pessoa meu coração sequer iria disparar como agora.
Dançamos o restante daquela música em silencio, minha cabeça pousada em seu peito ouvindo seu coração bater um pouco menos acelerado que o meu. Na verdade, o meu parecia uma locomotiva prestes a saltar de minha caixa toráxica. Ouvi os aplausos e Tom dizendo alguma coisa, mas tudo soava muito longe. Arrisquei olhar para cima e encontrei o rosto de Harry muito, muito próximo ao meu. Seu hálito refrescante soprava para dentro de minha boca de um modo provocativo.
"Cara, você está monopolizando a aniversariante!" - Os braços de Harry foram substituidos pelos de meu irmão, que continuou me embalando numa valsa, só que um pouco fora do ritmo.
E eu não sabia se batia ou agradecia meu irmão. Se eu continuasse um minuto a mais nos braços de Harry não conseguiria respirar. Mas, por incrível que pareça, eu estava disposta a desmaiar por falta de oxigênio, contanto que seu corpo não se afastasse do meu.
Oh céus. O que estava acontecendo ali?
Eu não sei bem quando tudo começou a fazer sentido.
Há uns dois anos atrás, na minha festa de quinze anos, eu acho.
Agora era mais fácil aceitar os fatos do que no começo. Mas ainda assim era atordoante.
Eu era apaixonada por Harry Judd.
Não sei exatamente se tudo teve início naquela dança ou se isso existia muito antes e eu não conseguia - ou não queria - ver os fatos.
Mas agora que eu já tinha conhecimento disso, eu simplesmente não sabia o que fazer.
E me sentia uma idiota por isso.
Por gostar de uma pessoa que eu jurei que nunca iria gostar. Por sentir raiva e felicidade com suas provocações, que nunca tiveram um fim. Por não saber se conto isso pra ele. Por sentir medo dele não corresponder. Por sentir ciúmes. Por isso e por tudo mais.
Passei as mãos pelos cabelos, encarando o reflexo no espelho. Tom batia na porta do meu quarto de cinco em cinco minutos.
Ele não queria se atrasar para a apresentação e eu não queria ficar em casa. Mas eu simplesmente não conseguia sair de meu quarto depois que descobrira que a Lauren - sim, aquela vadiazinha loira aguada - ia estar lá. Com o Judd.
E por mais que eu tentasse não ligar para o fato de que Harry estava com a garota mais sem caráter e interesseira do colégio, eu não conseguia.
" Flecther, se você não sair desse quarto AGORA eu vou te deixar ai!" - Tom ameaçou, batendo impacientemente na porta do meu quarto. - "E estou falando sério dessa vez!"
Respirei a maior quantidade de ar possível, agarrando-me ao fio de coragem que surgiu antes de perdê-lo e meu irmão arrombar a porta de meu quarto.
"Hei hei, não desconte na minha porta, senhor impaciência!" - Passei por ele ao abrir a porta, colocando meu casaco. - "O que foi? Me apressa tanto e vai ficar parado ai?"
"Não acha que essa saia esta meio curta pra você não?" - Tom cruzou os braços, fazendo bico.
"Não seja exagerado Tom, estou de meia calça por baixo!" - Rolei os olhos, puxando-o pela barra da blusa. - "E eu não sou mais criança Thomas"
"Preferia que ainda fosse. Pelo menos assim ninguém ficaria babando tanto por você"
Rolei os olhos para sua expressão emburrada, apertando sua covinha. Saltitei de mãos dadas com Tom até a sala, de onde partia as vozes de Danny e Dougie.
Dougie engasgou com o refrigerante quando cheguei até eles, dando uma volta teatral.
"Wow" - Danny sussurrou e Tom lhe lançou um olhar mortal.
"Viu? É disso que estou falando! , vá trocar de roupa"
"Não, não!" - Ri da forma que Danny e Dougie disseram e ainda mais da expressão indignada de meu irmão. - "Quer dizer, nós já estamos atrasados, dude. Falamos brincando, ela está horivel!" - Dougie se prontificou a explicar, sorrindo sem graça.
"Mais uma gracinha pra cima dela e eu bato em alguém!"
Empurrei Tom pelos ombros, rolando os olhos para os meninos. Esperei que Dougie saisse, sempre o que fica por último. Imaginava que ele tivesse seguido em frente com Danny e Tom e me assustei quando topei com ele parado atrás de mim.
"Eu retiro o que disse"
"Quê?" - Perguntei enquanto guardava as chaves dentro de minha bolsa, encarando-o quando ele não respondeu prontamente. - "Retira o que Doug?"
"Você não está horrivel"
"Obrigada, eu acho" - Sorri torto para sua face extremamente infantil. Dougie fitava-me com seus olhinhos azuis, mordiscando o canto do lábio inferior. "Você está realmente muito bonita"
"Ok Dougie boy, não vou contar para o meu irmão que você falou isso" - Sussurrei próxima de seu ouvido, laçando um braço meu em volta do seu enquanto ria divertida.
Eu estava acostumada a ter mais liberdade com Dougie. Eu não via maldade em seus olhos, sempre tão inocentes. Não era como se Danny fosse um tarado, mas eu tinha um pouco mais de amizade com Dougie. E eu nunca levei suas brincadeiras à sério.
Porque elas não eram pra ser levadas, acreditava eu.
Chegamos no pub um pouco depois das dez e os meninos tinham apenas quinze minutos para se prepararem. Fazia alguns meses que eles tocavam todo sábado ali. Foi um pouco depois de batizarmos a banda de McFly, enquanto assistíamos um filme que todos adorávamos. Parecia que aquele nome funcionara como um amuleto de sorte, porque depois dai, muitos convites surgiram para os meninos.
Meninos.
Sorri comigo mesma enquanto me sentava na mesa mais próxima do pequeno palco. Todos beiravam os vinte anos e eu ainda os chamava de meninos. Talvez porque eles ainda fossem como uns. E sempre seriam os meus meninos.
Senti um aperto no peito. Sabia que dali em diante mais e mais convites surgiriam e não demoraria muito para que fossem reconhecidos por onde quer que passassem. E por mais que isso fosse tirá-los de perto de mim, era o que eu mais queria. Que eles realizassem seus sonhos e nunca se esquecessem que fora ali que tudo começara. Eu sabia que ainda sentiria muita falta dessas noites que tínhamos juntos, mas sabia também que me orgulharia muito.
Meus pensamentos agradáveis foram interrompidos quando ouvi a voz irritante de Lauren chegando até mim.
Olhei para trás sem me levantar da cadeira, sorrindo amarelo para as duas pessoas que acabaram de chegar.
"Harry, você tem cinco minutos até eles começarem" - Virei-me pra frente, sorrindo amigável para o garçom que me entregava uma lata de coca-cola. - "Se eu fosse você ia logo senão Tom pode ter um troço"
Ouvi-o balbuciar alguma coisa, mas não sabia se era pra mim ou se era pro ser irritante que gritava histericamente.
Bufei pesadamente quando Lauren arrastou a cadeira do meu lado, com seu perfume extremamente doce e enjoativo chegando até mim.
Estava começando a ficar com dor de cabeça e agradeci aos céus quando eles subiram ao palco.
Passei a maior parte do tempo perdida entre as músicas e meus pensamentos que mal percebera que Lauren sumira. Só percebera porque Harry perguntara assim que chegara na mesa juntamente com os outros.
"Oras Judd, a namorada é sua, você que deveria saber" - Dei de ombros, tentando ignorar seu olhar questionador sobre mim. - "Sei lá Harry, ela deve ter ido no banheiro. Por que não vai procurá-la, já que quer tanto vê-la?"
Ele franziu as sobrancelhas e saiu em seguida. Rolei meus olhos e ri para as expressões divertidas dos garotos.
Nem dez minutos se passaram e Harry voltou até nossa mesa, bufando como um touro. As veias de seu pescoço estavam saltadas e Harry estava vermelho como um tomate. Vi Lauren tentando chegar até nós por entre as mesas e eu sabia que algo de bom não tinha acontecido.
Enquanto os meninos perguntavam o que estava havendo, rapidamente peguei minha bolsa e vesti meu casaco, seguindo Harry que ia embora sem pronunciar um A.
"Eu vou com você" - Disse simplesmente quando Harry me lançou um olhar confuso e irritado ao me ver entrando no carro. - "Você não vai dirigir por ai sozinho nesse estado".
Ele deu de ombros e deu a partida no carro. Minha língua coçava para dizer coisa do tipo 'eu te avisei' e ao mesmo tempo eu queria perguntar o que tinha acontecido para que ele ficasse tão nervoso daquele jeito.
Mas, conhecendo-o tão bem como a palma da minha mão eu sabia que ele não ia dizer nada enquanto não quisesse.
Seguimos o caminho todo em silêncio; ora sim, ora não ouvia-o bufar.
Paramos na garagem de sua casa e não fiz menção de sair. Fiquei mordendo meu lábio inferior, brincando com uma mecha de meu cabelo.
"Eu já estou mais calmo, não se preocupe comigo" - Ele me olhou seriamente, os olhos meio fechados.
"Quer conversar sobre isso?"
"Eu devia ter ouvido você" - Ele disse simplesmente, sorrindo sem humor.
"Magoado por ela ter feito seja lá o que for?"
"Não, não é por isso" - Senti uma pontada de tristeza ao notar a sua própria estampada em sua voz. - "Eu preferi dar ouvidos à ela do que à você"
Ultimamente o silêncio estava nos tomando com muita facilidade. Nos encaramos por alguns minutos, os olhares presos por uma conexão intensa e muito forte.
"Bem, não sei se isso é bom ou ruim, mas só me prometa que vai ficar bem"
Ele assentiu e eu depositei um beijo em sua testa, estranhamente sentindo-o estremecer sob a palma de minha mão que pousara em seu ombro.
Já fazia dez minutos que eu acordara, mas não estava com vontade de sair da cama. Me enrolei um pouco mais no edredom, fechando os olhos.
Olhei para o relógio na cabeceira de minha cama e ele marcava nove e meia. Fitei ao lado a janela por onde entrava uma parca claridade acinzentada.
Diferentemente dos outros domingos, Harry ainda não viera me perturbar. Virara uma tradição ele me acordar com suas pedrinhas na minha janela. Muitas vezes, quando ele decidia matar aula, eu acabava me atrapalhando para me arrumar, já que Tom sempre me acordava na hora de sair de casa.
Imagens aleátorias surgiram em minha mente e como estava acontencendo muito ultimamente, fiquei sorrindo comigo mesma.
Lembrei que fazia algum tempo que eu não escrevia e revirei meu criado mudo em busca da minha antiga agenda.
Ela estava meio estufada de tanta coisa que eu enfiara em suas páginas. Recortes de jornais, pétalas de flores e fotos, muita fotos.
As primeiras eram da época de quando era pequenina. Uma minha e de Tom dormindo abraçados num urso gigante. Noutra, Harry e eu fazíamos bicos, provavelmente porque fomos forçados a nos abraçar para sair naquela foto.
Fui folheando as páginas, rindo sempre que encontrava algo engraçado.
Passei os dedos pelas pétalas de rosas que estavam secas, marcando a página com a data de meu aniversário. Naquele dia cada um dos meninos me deram uma de cada cor. Dougie me dera a branca, Tom a rosa, Danny a amarela e Harry a vermelha. Sorri fraquinho, sentindo um frio na barriga ao me lembrar daquele dia. As páginas seguintes haviam duas fotos. Uma dos meninos no palco e uma com eles me segurando no colo.
Passei para as páginas finais, onde haviam fotos mais recentes. Haviam bastantes de algumas apresentações em que meus pais foram, porque era sempre minha mãe que batia a maioria das fotos.
Mas, aquela última que agora eu vislumbrava era a que eu mais adorava. Ela era bem simples e fazia um ano que a tiramos.
Era uma manhã de outono, exatamente como essa. Estávamos na varanda tomando chocolate quente e ouvindo Danny tocar violão. Tom e Harry estavam sentados no degrau de cima enquanto eu estava espremida entre Dougie e Danny e seu violão. Minha mãe, como sempre, surgira com sua máquina. Estávamos prontos para que ela batesse a foto quando Harry disse alguma coisa que me fez olhar pra cima e Danny e Dougie para mim, gargalhando. Tom fora o único que saíra olhando para câmera, sorrindo timidamente. Passei os dedos pela foto, sorrindo.
Éramos tão felizes que eu tinha medo disso acabar de alguma maneira, algum dia.
Havia algumas páginas em branco mas eu não estava com paciência pra escrever nada naquele momento. Eram as últimas páginas e eu queria escrever alguma coisa decente.
Lembrei-me que tinha uma caixa dentro de meu closet onde eu guardava muitas lembranças. Tom sempre me chamou de porta trecos ambulante, mas a verdade era que, eu era muito sentimental para jogar coisas que tinham algum significado fora.
Abri a porta do closet, procurando pela caixa em questão. E eu a encontrei, na parte mais alta das prateleiras. Tom costumava pegar as coisas que eu não alçancava, mas como ele havia ido dormir na casa de Danny e eu estava sozinha em casa não tinha quem pudesse me socorrer. Havia uma poltrona no meu quarto, mas provavelmente ela era muito gorda pra passar pela porta estreita do meu guarda roupa.
Ponderei se as gavetas aguentariam meu peso. Claro, só se eu quisesse um milagre para o suporte de vidro aguentar o meu peso. O jeito era amontoar almofadas uma em cima da outra para poder alcançar a caixa. Amarrei meu cabelo num coque frouxo, jogando todas as almofadas de meu quarto ali dentro. Meu celular começou a tocar e eu pensei em ignorar, mas a pessoa do outro lado parecia bem insistente. Ofegante, atendi no último toque, ajuntando travesseiros e até bichinhos de pelúcia dentro do closet.
"O que pensa que está fazendo?" "Quem é?" - Apoiei o celular entre meu ouvido e o ombro.
"O que está fazendo dentro do seu closet?" - Só naquele momento reconheci ser Harry. Estava rouco e parecia sonolento ao falar. - "Eu tô vendo o que você está fazendo"
Olhei pela janela, que era exatamente de frente pro closet, vendo Harry apoiado sobre o parapeito, rindo torto com a cara inchada. Sempre agradeci aos céus por Harry não ser aquele vizinho tarado que fica espiando a vizinha se trocar. Eu sempre esquecia de fechar as portas do closet ou de baixar a persiana. Eu era bem esquecida, na verdade.
"Quero pegar uma coisa ali em cima" - Apontei para o alto, fazendo Harry rir. - "Pode me ajudar?"
"Chego aí em cinco minutos"
Eu nem precisava dizer que a porta dos fundos estava aberta. Harry conhecia minha casa de cabo a rabo. Exatos cinco minutos se passaram e eu já podia ouvir seus passos ruidosos subindo a escada. Dois toques na porta do meu quarto e ele entrou, sem camisa. Como podia? Estava um frio lascado e ele perambulava sem camisa. Arfei um pouco quando ele sorriu, coçando a nuca.
"Deixa comigo sua nanica" - Ele disse entrando dentro do closet, chutando os travesseiros para todos os lados.
Quando Harry se pôs na minha frente, suas costas roçaram de leve em meu braço. Me pus ao seu lado dentro do espaço disponível do closet, apoiando uma mão em suas costas musculosas. De repente aquele closet pareceu pequeno - e quente - demais para nós dois.
"Aquela ali" - Apontei para ele que, com facilidade, apanhou a caixa.
"O que tem ai dentro?" - Ele perguntou ao colocar a caixa em cima de minha cama, flexionando os ombros para trás. - "Coisinha pesada essa dai hein?"
"Coisas velhas. Quer ver comigo?" - Ele fez uma cara de desconfiado e eu rolei os olhos, rindo. - "Senta logo ai, seu bobo"
Sentei no meio da cama, cruzando as pernas. Harry deitou de lado na cama de frente pra mim, a caixa aberta no meio de nós dois.
Havia muita coisa lá dentro. Papeis de presente, cartões postais e mais fotos. Minha primeira barbie, relógios sem bateria, um dente de leite meu e de Tom dentro de um vidrinho.
"Isso é nojento!" - Harry chacoalhou o vidrinho, fazendo caretas com os sons que os dentes faziam quando batiam um no outro. - "Não tenho certeza se a fada dos dentes aceita dentes velhos".
Ignorei o comentário dele, retirando mais coisas lá de dentro.
"Lembra disso?" - Agitei um isqueiro sem gás para ele, rindo torto. - "Eu tenho mais alguns aqui dentro dessa sacola"
"Minha nossa, você realmente guardou essas coisas?"
Harry jogou a cabeça para trás rindo quando comecei a tirar todos os chaveiros, carrinhos e soldadinhos de chumbo de dentro daquela sacola. Ele desviou sua atenção e ficou rindo de lado quando tirei uma caixinha avermelhada lá de dentro. Ele pareceu pensativo por alguns minutos, mordendo o lábio inferior. Provavelmente pensando que fim eu teria dado no colar. Certa vez quando brigara com ele eu dissera que tinha dado o colar para uma tia avó minha.
"Procurando por isto?" - Chamei sua atenção, puxando o colar para fora da gola de meu moletom.
"Pensei... Pensei que não o usasse mais" - Ele pareceu surpreso e maravilhado ao mesmo tempo.
"É, e vou deixar que continue pensando isso" - Rolei os olhos e voltei a esconder o colar sob minha blusa, como sempre fizera todos aqueles anos.
Harry riu de lado, voltando sua atenção para o álbum de fotos que agora estava em sua mão.
"Olha só pra isso!" - Ele riu virando o álbum para mim, um dedo sobre uma foto minha. - "Está muito engraçada!"
"Ha-ha. Você diz isso porque nunca tiraram fotos suas quando seu dente acaba de cair" - Rolei os olhos e virei a página, parando na seguinte com um sorriso nos lábios. - "Eu gosto dessa aqui"
Harry pegou o álbum de volta, seus dedos roçaram nos meus e como estava acontecendo ultimamente, uma onda de eletricidade percorreu pelo meu corpo. Meneei a cabeça minimamente, tentando afastar aquela sensação estranha.
"Não me lembro dessa foto" - Ele franziu as sobrancelhas, mordiscando o lábio inferior.
Harry passou um dedo sobre a foto onde eu e ele estávamos sentados num tronco à beira de um riacho. Ambos estávamos sujos de sorvete e ríamos de alguma coisa. Sempre que a via, me perguntava em que época éramos amigos daquela maneira. Era a única foto em que demonstravámos felicidade juntos. Talvez fosse um lugar especial de nossa infância.
"Mas é mesmo uma foto legal" - Ele concordou, tirando-me de meus devaneios. - "Posso ficar com ela?"
"Se quiser" - Dei de ombros, sorrindo minimamente quando ele a guardou em seu bolso.
Naquele momento estávamos sendo como verdadeiros amigos. Rindo e conversando, emersos em nossa bolha de lembranças.
Aquele dia seguiu adornado por lembranças, tornando aquele momento inesquecível.
Eu não sabia se dentro de minha mente havia uma caixa azul como aquela, mas eu queria guardar aquele dia eternamente dentro de mim.
Um dia no qual Harry e eu nos tornamos mais próximos, de um modo imperceptível para nós, até então.
Eu já comentei em como o tempo estava passando rápido demais?
Naquela semana nossas férias de meio de ano iam ter início. Eu estava demasiadamente contente; já não aguentava mais aquele colégio. Bem, não exatamente o colégio. Eu estava me sentindo muito cansada de tudo, fisicamente.
Acho que estou me tornando uma adolescente sedentária.
E a culpa é toda desses meninos que vivem sentados no sofá comendo tudo que vêem pela frente.
"Estou cheio" - Dougie alisou a barriga à mostra, arrotando em seguida.
"OH céus, Doug! Você não pode fazer isso quando não estivermos comendo? Seu porquinho!" - Bati em sua testa, fazendo-o mostrar a língua.
"Lil Piggster" - Tom cantarolou o que eu achei ser uma mistura de pig com Dougster. Meu irmão tinha problemas em certos momentos como esse.
"Pára com isso" - Dougie fez um bico enorme, cruzando os braços no peito. - "Não sou porquinho!"
"AWN Doug, como você fica bonitinho assim!" - Apertei suas bochechas, no que todos eles emitiriam o mesmo som que eu.
Por um momento de puro delírio - ou não? - pensei ter visto Harry fechar a cara quando Dougie passou seu braço sobre meu ombro. Mas logo ele estava rindo novamente, caçoando com o nosso pequeno baixista.
"Sempre sobra pra mim!"
"Porque você é o mascote, Dougie!" - Abri minha boca, fazendo todos os quatro olharem para mim com um sorriso maroto nos lábios. - "Por que estão me olhando assim?"
"Tom..." - Danny sussurrou, esfregando as mãos uma na outra. Tive medo da cara dele. - "Quando você mandar..."
"AGORA!" - Tom gritou e Dougie apertou o braço em volta de meu pescoço.
E só entendi o que eles planejavam quando todos vieram pra cima de mim, numa guerra de cócegas. Claro que eu era o único alvo, pois não conseguia sequer respirar de tanto que ria.
Eu me sentia uma garotinha de cinco anos novamente. Antigamente Harry e Tom faziam isso comigo, a diferença agora era que havia Danny e Dougie naquela sessão de tortura.
"Ge...nte...Não...Não...consigo...res..respirar!" - Dizia abafada pelo riso. Meu rosto escondido no peito de alguém. - "Thomas! Por...Por...Fa..favor!"
"A é a nova mascote do McFly!" - Declarou Danny, reiniciando seu ataque de cócegas nos meus pés.
"Tá, tá eu sou!" - Gritei de uma vez, tentando me livrar dos braços de Tom. - "Gente, eu não sou mais criança! Vão pensar que vocês estão me assediando!!!"
"A gente não liga" - Vi Harry dar de ombros, rindo. Quando que ele se sentou em meu colo e eu não percebera? - "Tudo pra te torturar mais um pouco!"
"Não! Eu não vou aguentar mais! Pára, por favor!" - pedi chorosa, segurando suas mãos longe de minha barriga. - "Vocês querem que eu morra?!"
"Já disse que a é drama queen da família?" - Tom debochou, finjindo pensar por alguns segundos. - "Não se passaram nem cinco minutos!"
"Não Tommy, por favor, fala pra eles pararem!"
"Okay, Okay. Vocês já zoaram muito com minha pequena irmã" - Tom empurrou Judd para longe, colocando-me do lado oposto do sofá, quase atrás de si. - "Chega por hoje"
"Oh, eu tenho o irmão mais generoso do mundo!" - Encenei, jogando-me em seus braços. Beijei-lhe a bochecha suada, e caminhei para fora da sala completamente descabelada. - "Por que não colocam um filme enquanto eu faço outra pipoca?"
Logo sucedeu-se uma longa discussão sobre qual filme assistir que eu pude ouvir nitidamente da cozinha. Havia programado o microondas e faltava apenas um minuto pro tempo esgotar e nada da pipoca estourar.
"Ué... Por que não estoura?" - Fiquei na ponta dos pés para enxergar o lado de dentro, já que o aparelho ficava um pouco acima do meu nível de visão.
"Colocou do lado certo?" - Quase saltei para o lado quando ouvi a voz de Harry atrás de mim.
"E-eu acho que sim" - Recuperei minha respiração, mas não conseguia controlar meu coração. - "Acho que ta estragado"
Harry rolou os olhos, abrindo o microondas, virando a pipoca pro lado certo.
"Geralmente o lado que está escrito esse lado para cima tem que ficar para cima, "
"Haha. Da próxima vez então você faz, espertinho"
Fiz menção de ir para a sala, mas Harry segurou-me gentilmente pela mão, sorrindo-me de um modo terno. Senti choques por aquela região, mas sequer afastei sua mão da minha. Entreabri minha boca, puxando o ar para que chegasse de algum modo aos meus pulmões, já que eu prendera a respiração quando o perfume dele começara a me seduzir de uma forma muito perigosa.
"Faltam alguns minutos para ela ficar pronta" - Ele me puxou para perto, afagando delicadamente meu pescoço com o polegar quando suas mãos pousaram em meus ombros. - "Fique aqui comigo, por favor?"
Assenti sem encontrar o caminho de minhas cordas vocais. Eu estava começando a me sentir uma completa boboca perto dele.
Ultimamente não brigavamos, apenas conversavamos e riamos como todos os outros. Não sabia se era bom tê-lo como um amigo normal ou se preferia que continuassemos com nossas discussões.
Pelo menos eu saberia como agir agora, e não ficaria olhando-o como se nunca tivesse visto seus lindos olhos azuis antes.
Mas ele também não parecia se preocupar com o fato de que o timer já havia apitado duas vezes ou com o fato de estarmos muito próximos um do outro, na minha cozinha enquanto nossos amigos - e meu irmão - estavam na sala, gritando pela pipoca.
"Harry eu..."
"Shiiiu" - Ele soprou com seu hálito refrescante para dentro de minha boca e instantaneamente eu fechei os olhos, inebriada. - "Eu vou te beijar"
Borboletas, mariposas e libélulas fizeram um rebuliço dentro de meu estômago. Eu já podia sentir seu nariz roçando no meu, já era possível sentir o calor e a maciez de seus lábios nos meus, apesar de não estarem unidos.
Separei-me de seus braços quando a voz de Danny se aproximava, perguntando se havíamos ido fabricar a pipoca. Danny olhou de mim para Harry, que estava encarando o teto. Cheguei a imaginar se Danny podia ouvir meu coração batendo a todo vapor dentro de minha caixa toráxica. Mordi os lábios quando Harry baixou seu olhar para mim, sorrindo do mesmo modo carinhoso de antes. Pegou a pipoca dentro do microondas entregando-a para Danny, antes de lhe dar um tapa na testa.
Com seu corpo longe, pude respirar normalmente, embora meu coração ainda disparasse adoidado dentro de mim.
Definitivamente alguma coisa estava acontecendo entre nós.
Não sei se tinha o mesmo significado para Harry, mas para mim, aquele pequeno momento indicava o início de alguma coisa além de uma simples amizade.
"Por que tá parada na cozinha com essa cara de zumbi?" - Olhei para Tom que segurava uma almofada sob os braços, a boca cheia de pipoca. - "Vem, o filme já começou!"
Não deu tempo de responder nada pois Tom logo me puxou pela mão, arrastando-me e em seguida me jogando no sofá, me fazendo cair sobre o colo de Dougie.
"Presente pra mim?" - Dougie envolveu minha cintura com ambas as mãos, mandando um sorriso para Tom. - "Cunhadinho"
", você tinha que cair logo em cima do Poynter??"
"Thomas! Você me joga no sofá e ainda espera que eu não caia em cima de alguém? Doug estava no lugar errado, oras!" - Exclamei, Tom indignado sentando-se no chão enquanto todos riam do seu ciúmes bobo.
"AAh que coisa linda! Tom está com ciúmes!" - Danny riu do seu jeito escandaloso, balbucinado alguma coisa incompreensível depois com sua boca cheia de pipoca.
"Dá pra vocês calarem a boca?!" - Saí do colo de Dougie, ajeitando-me ao seu lado. - "Que filme é esse?"
"Sei lá , é uma parada de zumbi ai..." - Danny respondeu, sempre de boca cheia. Por que ele tinha que falar justo na hora que ia comer? - "Tom que escolheu!"
"Eu não gosto de filme de terror!"
"Quem disse que é de terror?" - Dougie perguntou e como o filme já estava na metade, uma cena nada agrádavel surgiu na tela, assustando todos nós.
"Eu não quero assistir isso!" - Choraminguei, escondendo meu rosto atrás da almofada. - "Troca Tom!"
"Ah não, esse filme é legal ! Olha só!"
Eu não via nada além da estampa floral da almofada e sequer ouvia os meninos falarem agora. Todos estavam prestando atenção no filme, de onde surgia gritos agudos e aquelas músicas de suspense que eu odeio. Senti o braço de Dougie laçar meus ombros, puxando-me para perto.
Se fosse Danny ou até mesmo Harry eu poderia achar que estavam se aproveitando da situação, mas conhecendo um pouco de Doug, sabia que aquilo também era medo. Ou uma mistura dos dois, não sei bem. Arrisquei olhar para tela, mas o fiz na hora errada e soltei um grito abafado, que foi seguido por risos dos meninos.
Depois disso, sabendo que ficaria com medo demais para subir para meu quarto enfrentando a escuridão do corredor, ajeitei-me no sofá, deitando a cabeça no colo de Dougie, que sorriu terno quando fechei meus olhos, beirando um cochilo com o cafuné que ele me fazia.
Eu poderia estar ficando paranóica, mas de alguma maneira eu sentia minhas bochechas queimarem com a impressão de que Harry prestava atenção nos meus movimentos.
Antes de pegar no sono no colo de Dougie, lembrei-me do sussurro rouco de Harry, minutos antes.
"Eu vou te beijar..."
Quanto de desejo e sentimento existiam por trás daquelas simples palavras?
Aquele passeio no parque
Sabe quando você corre, corre, corre pra valer mesmo? Como se sua vida dependesse daquele ato de movimentar-se o mais depressa possível?
Parecia que eu tinha acabado de executar um ato desses. Meu coração martelava não só em minha caixa toráxica, mas dentro de meus ouvidos e de minha cabeça, assim como o peito subia e descia, a respiração ofegante, oxigenando demais o cérebro fazendo a cabeça girar.
Tudo isso sem correr para salvar minha vida. Tudo isso porque Harry estava perto demais de mim.
Era como se eu tivesse acabado de conhecê-lo.
Aquela sensação maratonística começou pela manhã, quando fui a primeira a acordar e alegremente, fui acordar os meninos. Bem, Tom e Danny já estavam acordados e faziam muito barulho na sala de estar, de onde partiam os sons do video game juntamente com os gritos de ambos. Dougie e Harry ainda dormiam e, como não estavam esparramados pelo sofá, deduzi que estavam ou no quarto de Tom, ou no quarto de hóspedes. (Na verdade, aquilo virara um depósito de coisas velhas. Mas ainda tinha uma cama bem macia ali).
Silenciosamente rumei em direção ao quarto de Tom, e a porta estava entreaberta. Uma espiada rápida lá dentro e avistei Dougie se remexer no colchonete, cobrindo o rosto com a almofada para interromper os fracos raios solares que a cortina não tampava. Sorrindo, resolvi que iria deixá-lo dormir um pouco mais.
Mesmo depois dos acontecimentos de ontem -como o quase beijo, por exemplo-, eu ainda sentia aquela necessidade de irritar o Harry. Bem, irritá-lo não seria o termo correto, mas era como se eu quisesse uma certeza de que tudo ainda era como antes. Ou pelo menos, uma pequena parte.
Segui para o andar inferior, onde ficava o quarto de hóspedes. Planejando um ataque de almofadas ou até mesmo um grito no pé do ouvido, girei a maçaneta, encontrando o quarto do mesmo jeito que estava ontem e nos dias anteriores.
Será que ele foi embora?
Não, ele não tinha ido. Lembro-me vagamente que, depois que Tom me deixou no quarto - sim, ele me carregou até lá - o ouvi murmurrar alguma coisa com o Judd. Eu podia estar sonolenta, mas eu ainda sabia reconhecer a voz daquele ser que por tantos anos me tirou do sério.
Fechando a porta enquanto me perguntava onde enfim se meteu o Harry, os acordes suave de um violão me levou até a porta da garagem, que era próxima ao quarto de onde acabara de sair.
A porta estava encostada, Harry sentado no sofá desgastado vestindo apenas a bermuda jeans. Ainda escorada no batente, com uma mão apoiada na maçaneta e outra na parede o observei dedilhar sem muito jeito o violão do meu irmão. Os olhos estavam fechados, a cabeça encostada nas costas do sofá. Se não estivesse tocando, poderia achar que estava dormindo.
"Deu pra me espiar agora é, Fletcher?" - Harry sorriu sem abrir os olhos, tombando a cabeça em minha direção em seguida, abrindo os olhos lentamente. - "Bom dia pra você também"
"E-eu não estava te espiando! E como sabia que era eu?!"
"Só você consegue ser um pouco mais silenciosa que os outros" - Ele deu de ombros enquanto abria ainda mais o sorriso. Desde então eu não me movera um centímetro sequer. - "E só você cheira à melancia pela manhã"
Instintivamente cheirei uma mecha de meu cabelo, perguntando-me quando é que ele reparou o aroma do meu shampoo. Disfarcei o repentino constrangimento com um pigarro, largando a porta e me aproximando dois passos minímos. Recuei para perto da porta logo em seguida.
"Você dormiu aqui?"
"Dougie ronca demais."
Ri da careta de Harry, lembrando-me que Dougie realmente parecia cansado quando subi ao quarto de Tom.
"Deveria ter dormido com o Danny. Provavelmente ele não acharia ruim"
"Ele é espaçoso demais. Você deveria me deixar dormir na sua cama" - Harry falou sério, largando o violão e se levantando. Engoli em seco, sentindo as bochechas queimarem. - "Provavelmente você não roncaria e nem roubaria o cobertor"
"É. Digo... Não! Harry!" - Perdi-me em minhas palavras confusas, dando um tapa em seu ombro nú quando ele riu do meu desconcerto. - "Vamos tomar café logo."
"A senhora é que manda."
"Ah, não enche Judd."
Rolei os olhos enquanto seguia para a cozinha, deixando-o para trás. Mas internamente eu me sentia alegre.
Ainda éramos os dois implicantes de antes.
"Eu tenho medo de altura!"
"Você é medrosa demais, ." - Danny bufou ao meu lado, sendo acompanhado por Tom.
"Qual é a graça de vir num parque de diversões e não se divertir?" - Dougie juntou-se aos demais, os olhos brilhando como os de uma criança.
"Até você, Dougie?" - Repliquei indignada enquanto o pequeno baixista bagunçava meus cabelos. - "E você Harry, vai dizer o quê?"
"A gente devia ir na roda gigante."
Ele disse enquanto olhava para cima, a expressão dividida entre diversão e seriedade. Todos olhamos para a gigante roda à nossa frente, os meninos rindo pelo nariz em seguida.
"Isso é muito parado. Morreria de tédio ali dentro" - Tom agitou uma mão no ar, como se aquela fosse uma ideia terrivelmente absurda.
"Eu prefiro ir nesse do que em qualquer outro brinquedo que envolva altura e velocidade." - Disse sem pensar, olhando da roda gigante para Harry, que exibiu um sorriso torto.
"Eu não entro num negócio desses." - Danny cruzou os braços e foi imitado por Dougie, só que de um jeito menos agressivo. Me lembrou duas crianças contrariadas.
"O que? Vocês vão me deixar aqui sozinha?"
"Eu vou com você."
Olhei para Harry um tanto surpresa. Ele deu a ideia de a gente como um todo, não só nós dois. Ou foi? De qualquer maneira, parecia fora de cogitação estar numa cabide pequena, a muitos metros do chão, sozinha com o cara que andava balançando meu sistema nervoso.
"E-eu não sei Harry, não quero que deixe de se divertir por minha causa e..."
"Tudo bem. Acho que isso pode ser divertido."
"Será que a joga o Harry lá de cima?" - Danny olhou novamente para cima, provavelmente imaginando a cena. - "Eu aposto que sim."
"Eu acho que ela bate nele primeiro." - Tom riu, mordendo o lábio inferior depois. - "Ou talvez bata a cabeça dele no vidro..."
Será que nenhum deles tinha percebido ainda o que estava acontecendo entre nós dois? Talvez não. Ainda não. Se nem ao menos eu sabia o que estava acontecendo, imagine os outros... Será que Harry sabia o que era aquilo?
"Vem, vamos logo, medrosa." - Harry puxou-me pela mão, seguindo para a fila da roda gigante. -"Ela não é tão grande como a London Eye... Mas parece ser bem alta."
"É o suficiente para eu querer ficar em terra firme!"
"Tudo isso é medo de altura ou medo de que vire uma assassina?"
"Não diga bobagens, Judd."
"Então é medo de mim? Pode falar, eu sei que sou assustador..."
"Mas nem em pesadelos." - Respondi, dessa vez guiando-o até a cabine que parara na nossa frente. - "Você não me mete medo nenhum."
Joguei meu corpo contra o estofado, Harry fazendo a mesma coisa do lado oposto. Enquanto seu sorriso saía confiante, o meu parecia uma britadeira de tão trêmulo.
Sim, eu estava com medo de ficar pendurada dentro de uma caixa de aço. Sim, eu estava com medo do que poderia acontecer naqueles próximos minutos. Eu nunca ficara tanto tempo sozinha com Harry depois que deixamos de ser meros vizinhos briguentos.
Pra sorte ou azar nosso, segundos antes do maquinista fechar a nossa porta, um casal se aproximou ofegante. Harry pediu que eu me sentasse ao lado dele, mas neguei mover um músculo sequer. Ele rolou os olhos e concedeu o seu lugar para o casal que esperavam ansiosos e se espremeu ao meu lado.
", você pode ir só mais um pouco para o lado? Estou meio apertado aqui."
Fiz que sim brevemente, mas não me movi. Fechei os olhos quando um solavanco nos pôs pro alto, fazendo a roda girar para que outras pessoas entrassem nas cabines que ainda estavam vazias. Ouvi a risada baixa de Harry e os sussurros do casal à nossa frente. Em seguida, muito calmamente ele passou um braço em volta dos meus ombros enquanto a outra desfazia os nós apertados de meus dedos com um afago gentil.
Aquilo era novo para mim.
Dougie costumava fazer isso quase sempre. Danny e Tom preferiam apertar minhas bochechas ou bagunçar meus cabelos. Mas nunca houve nada parecido entre Harry e eu.
"Relaxa, ." - Harry encostou sua boca em meu ouvido, tal qual o casal sorrindente faziam a todo momento, desde que entraram na nossa cabine. - "Se ficar com os olhos fechados vai perder a melhor parte"
Havia tanta segurança em seu timbre que quase instantaneamente eu voltei a abrir os olhos, fitando por longos segundos sua irís azulada. Harry sorriu e, ainda sem separar nossas mãos apontou para fora, além dos vidros que reluziam arco-irís em nossas roupas.
Como uma criança, espalmei a mão livre no vidro e aproximei-me, sorrindo infantil em seguida.
"É... Lindo!" - Sussurrei, virando-me com rapidez, parando centímetros do rosto de Harry. - "Realmente... Lindo"
Risos contidos me fizeram lembrar que não estavámos a sós, mas isso não alterou o fato de que de repente, aquilo começou a ficar mais quente que o normal. Pelo menos pra mim.
"Hei!" - Chamou a menina ruiva, agitando uma mão no ar. - "Podemos tirar uma foto do casal?"
"Erm, nós não..."
"Claro que pode!" - Harry interrompeu, descendo a mão que estava em meu ombro e pousando-a com um pouco de firmeza em minha cintura, colando nossas bochechas uma contra a outra. - "Diga 'xis' amor"
A única coisa que eu consegui fazer foi esboçar um sorriso totalmente sem jeito. Harry havia me chamado do quê?
O casal agradeceu e nos mostrou a foto em seguida, fazendo Harry implorar que mandassem aquela foto por e-mail. Quando eu menos esperei, estávamos de volta à plataforma, indo de encontro aos nossos amigos que caminhavam em nossa direção.
"Até que não foi tão ruim assim, não é ?" - Harry bagunçou meus cabelos, sorrindo.
"É. Podemos ir embora?"
"Você tá bem?" - Tom perguntou, colocando uma mão na minha testa. - "Suas bochechas estão vermelhas. Está com febre?"
"Só tô um pouco cansada. Podemos ir agora?"
No final de noite, eu estava sentada na varanda com minha agenda em meu colo. Eu queria registrar aquela tarde de alguma maneira, mas eu estava tão confusa que não conseguia sequer descrever o que sentia.
Então fazia alguns minutos que ela estava repousada ao meu lado, a caneta girando em meus dedos. Pelo canto do olho vi a luz da varanda de Harry se acender e, nem tão surpreendente assim, eu o vi fechar a porta atrás de si. Não fui rápida o bastante para fingir que não o tinha visto ali quando ele olhou em direção à minha casa.
Meu coração faltou abrir um buraco em meu peito quando ele sorriu e se aproximou lentamente. Cada passo seu em minha direção fazia as estocadas aumentarem. Involuntariamente prendi a respiração quando ele terminou de subir os degraus de minha varanda.
"Sem sono?"
"Um pouco. Você também parece estar."
"Estou um pouco inquieto." - Harry deu de ombros, sentando no primeiro degrau, virando-se para mim e me chamando com um aceno rápido. - "Daí você não consegue ver as estrelas."
Naquele momento senti todas as articulações de meu corpo rugirem. Eu estava tão tensa! Nem parecia que aquele ali era o Harry que eu conhecia e aquilo tudo me deixava nervosa. De um jeito bom, mas... Nervosa ainda assim.
Sentei no degrau abaixo do seu, sentindo as pontas dos meus dedos formigarem. Para não procurar seus olhos de imediato, ergui a cabeça, fitando os pontos brilhantes acima de nós.
"É uma noite muito bonita." - Sussurrei, conseguindo olhar brevemente para ele.
"Seria muito mais bonita vista da roda gigante."
Concordei com um riso fraco, um arrepio percorrendo pelo meu corpo pela lembrança de nossa proximidade. Proximidade esta que, estava se tornando mais comum do que nossas antigas discussões. Harry sentou-se ao meu lado, virando de frente para mim. Com um olhar cauteloso, como se estivesse pedindo permissão, Harry tocou em meu braço, puxando-me para si.
Extasiada demais para controlar minhas ações, eliminei qualquer espaço entre nossos corpos, me aninhando em seu colo.
Seus dedos percorriam a extensão dos meus ombros até a ponta dos meus dedos, distribuindo ondas irregulares de calor por todo meu corpo.
"E... Por falar em roda gigante..." - Ele começou a falar e por instinto afastei meu rosto de seu peito, deixando nossos rostos na mesma altura. - "Isso me lembra que eu pretendia fazer uma coisa muito importante enquanto nós estivessemos lá em cima"
"O... Quê?"
"Você não imagina?" - Ele instigou, sussurrando com a ponta de seu nariz roçando no meu.
"Não..."
"Quer que eu te mostre?"
"S-sim..." - Perguntei-me se ele conseguiu ouvir, pois minha resposta não passou de um sopro de ar. Eu não conseguia encontrar minha voz.
"Feche os olhos."
Senti a respiração falhar no momento em que deixei de encarar seus olhos. Senti uma mão pousar delicadamente em minha nuca enquanto a outra desceu vagarosamente de meu ombro para minha cintura com um pouco mais de urgência.
Ri em pensamento, pois estávamos em sintonia. Havia tanta urgência em mim quanto havia nele.
Harry começou a distribuir beijos em minhas pálpebras, e traçou um caminho lentamente torturante até meu queixo. Entreabri meus lábios, suspirando rapidamente.
E, com a urgência de nós dois, nossos lábios se uniram em seguida, num primeiro beijo que mudara o que sabíamos a respeito um do outro.
Que mudara tudo que sabíamos da nossa história até hoje.
Você sente isso?
Eu já sabia que te amava antes mesmo de perceber. Mas não sabia que podia ser tanto assim!
Li e reli aquela única frase que consegui transpassar de meus pensamentos para minha agenda, sorrindo abobalhada. Sintomas típicos de alguém apaixonado.
Eu queria escrever muito mais do que aquela linha insossa, vazia de detalhes.
Eu queria poder registrar a sensação dos lábios macios de Harry tocando os meus, o calor que seus dedos proporcionavam ao meu corpo, as batidas frenéticas de meu coração.
E, mesmo que eu me empenhasse em ser cuidadosamente detalhista, eu sabia que nenhuma palavra se compararia ao que eu realmente sentia por dentro.
Como se milhões de fogos de artifício estivessem explodindo ao mesmo tempo.
Em pensar que Harry já me fizera sentir assim muita outras vezes. Só que nunca fora tão bom daquele jeito.
Harry Judd definitivamente era um caos na minha vida.
E naquele momento acabei descobrindo que gostava da sensação caótica que se instalara dentro de mim e ao meu redor.
Mas, naquele momento também percebi que havia um pequeno empecilho naquela história toda.
Eu não posso imaginar qual será a reação de Tom quando ficar sabendo disso.
Quanto aos meus pais eu estou tranqüila. Quer dizer, mamãe vai aceitar, ela sempre disse que ficávamos bonitos juntos. Meu pai nunca se pronunciou quanto ao caso, mas também não disse que não aprovava. Acho que ele era mais preocupado com meus estudos do que com essas coisas de namoro, em si. E além do mais, é o Harry. Crescemos todos juntos! Imaginei-me falando aqui para Tom e ele explodindo de nervoso.
Não era também como se Tom tivesse alguma coisa contra o Harry, mas acho que ele reagiria assim com qualquer cara que eu namorasse. Não que eu e Harry fossemos namorados.
Bem, eu não sabia se a gente era alguma coisa ainda.
Mas o que realmente me afligia, era ter que contar que ia ter alguma coisa com o cara mais pegador do McFly. E somente naquele instante me dei conta de outro problema que se juntou ao meu conflito matinal: eu não seria mais uma pra ele, seria?
Meu Deus! Como estou confusa!
E faminta.
Meu estômago reclamou pela terceira vez desde que acordara e ficara naquele estado meio vegetativo. Rolei de bruços na cama, fitando o chão, tomando coragem para levantar.
O que não foi preciso muito.
Tom saltitou para dentro de meu quarto, sentando em cima de minhas costas.
"Hei, saia de cima de mim, Thomas!"
"Bom dia, flor do dia!" – Ele cantarolou, arrancando minhas cobertas. Eu odiava quando ele fazia isso. – "Acorda pra cuspir!"
"Você tá parecendo uma gazela saltitante." – Murmurei, bocejando. Sentei na cama, desfazendo os nós em meus cabelos. – "Por que está tão contente assim?"
"Ah, férias me deixam animado!"
"Tom, você está de férias desde que terminou o colégio." – Rolei os olhos. – "Eu é que deveria estar contente desse jeito."
"Poxa vida, você sabe como me desanimar." – Ele soltou um muxoxo, fazendo-me rir. – "E ainda por cima ri de meu desalento! Você vai ver só!"
Tom agarrou-me pela cintura, jogando-me no chão e começando uma sucessão de cócegas.
Eu já disse que eu me sinto como uma garotinha de cinco anos quando eles fazem isso?
"PÁRA, THOMAS!" – Eu disse, sufocando num riso. – "EU NÃO TENHO MAIS CINCO ANOS DE IDADE!"
"Isso é uma lição para você não rir da tristeza do irmão mais velho!" – Ele estufou o peito, sorrindo de forma que sua cova ficasse saliente. – "E você..."
"A-há!" – Saltei em suas costas, prendendo-me em sua cintura com as pernas. – "O irmão mais velho vai me carregar até lá embaixo!"
", você não tem mais cinco anos de idade!" – Ele imitou-me, levando um tapa na cabeça. – "Hei! Isso é desacato à autoridade!"
"Vamos logo Tom, sua irmã mais nova está com fome!"
"Você está sempre com fome, pequena."
Tive que concordar, rindo consigo. Tom levou mais dois tapas na cabeça quando bateu meus joelhos na quina da cômoda que ficava no corredor. O que gerou mais risos pela parte dele.
"É nisso que dá rir da desgraça alheia!"
"Você é mau. Muito, muito, muito mau Thomas Michael Fletcher."
Na verdade, Tom era o irmão mais velho que toda garota deveria ter. E que nenhuma garota deveria magoar.
Ah, eu inspecionaria todas aquelas que se aproximassem dele. Teriam que passar por um interrogatório minucioso. Passariam até por tortura, se necessário...
Fui tirada de meus delírios com um riso singular, acompanhado de um perfume que eu reconheceria em qualquer lugar.
"E ai, dude?" – Tom cumprimentou Harry com aqueles toques de garoto, segurando minha perna com a mão livre. – "Caiu da cama?"
"Tom, eu quero descer!"
"Por que está com pressa?" – Ele riu, apertando minha perna contra si.
Ah, porque estou bancando a bobona na frente do cara que eu beijei ontem!
"Estou com fome!"
Harry riu, fazendo Tom me soltar imediatamente. Rolei os olhos para os dois que ainda riam, dando um beijo em minha mãe e tomando meu lugar na mesa. Tentei não olhar muito na direção de Harry, que acabara de sentar de frente para mim, conversando sobre qualquer coisa com Tom. Mas parecia meio impossível não se sentir atraída pelos seus lábios rosados...
Instantaneamente senti meu rosto esquentar. Pigarreei disfarçadamente, servindo-me com meus cereais tentando não chamar muita atenção para mim.
"Querida, por que está vermelha?" – Minha mãe perguntou assim que se sentou ao meu lado, afagando rapidamente meus cabelos.
Senti minhas bochechas queimarem ainda mais quando Tom e Harry pararam de conversar, olhando em nossa direção. Não foi preciso inventar qualquer desculpa; engasguei-me com o ar, tossindo descontroladamente.
"Coma devagar, querida!"
"Okay mãe, obrigada." – Grasnei, me recuperando. – "Tom me deixou com fome por tempo demais."
"Não tenho nada a ver com isso!" – Ele ergueu as mãos para o alto, acertando o rosto de Harry sem querer. – "Opa."
Caímos na risada, esquecendo aquele meu breve momento de fantasia. Terminamos nosso café numa conversa animada.
"Vocês vão ensaiar hoje, é?" – Eu perguntei, enquanto enxugava a louça que minha mãe lavava. Tom e Harry retiravam as coisas de cima da mesa.
"Estamos só esperando os outros preguiçosos chegarem." – Harry respondeu, sorrindo. Senti uma leve queimação na região de minhas bochechas. Oh céus, de novo! Vou engasgar com o que agora?
A campainha soou alta e repetidamente. Salva pelo gongo.
"Eu atendo!" – Anunciei, já correndo para fora da cozinha. Abri a porta no segundo depois. – "Hei, são vocês!"
Dougie e Danny pararam de conversar, sorrindo abertamente para mim.
"É, somos nós!" – Danny piscou, adentrando juntamente com Dougie. – "Eu sabia que sentiria minha falta, docinho."
"Cala a boca, Jones. Ninguém pode saber do nosso romance secreto."
"Oh shit! Eu me esqueci desse detalhe! Isso significa que terei que matar o Dougie agora!" – Dizendo isso, agarrou Dougie pelo pescoço, mantendo-o preso numa chave de braço. – "Suas últimas palavras, bode expiatório?"
"Danny, o que é bode expiatório?" – Eu perguntei, rindo.
"Sei lá." – Ele deu de ombros, pensativo. – "Mas achei uma palavra legal."
"Ai Jones, você não é normal!"
"Mas elas me amam." – Ele fez uma cara sexy, deixando um Dougie avermelhado de lado.
"De quem ele estava falando?" – Perguntei a Dougie, quando Danny seguiu para a cozinha.
"Das namoradas imaginárias dele."
Rolei os olhos, seguindo Dougie e os outros para a garagem. Como aqueles garotos eram bobos!? E como me faziam bem.
"Hei , você pode buscar meu caderno?" – Tom perguntou, ajustando sua guitarra ao tronco.
"Ah Thomas, fala sério! Você sempre esquece de pegar ele!"
"Por favorzinho?"
Semicerrei meus olhos para si, suspirando vencida. Já disse que meu irmão era muito abusivo de vez em quando?
Deixei a garagem, subindo até seu quarto, vasculhando suas coisas em busca do bendito caderno. E não estava achando. Onde é que um garoto coloca seu caderno de composições quando não está em cima de escrivaninha nem dentro do criado mudo?
"Uma ajuda pra procurar?"
Levei uma mão ao peito ao me assustar com a presença de Harry. Olhei alarmada para os lados, temendo ser pega dentro do quarto de meu irmão sozinha com ele. É, eu já ficara sozinha com ele muitas outras vezes, mas nunca numa situação parecida como as de ultimamente.
"Harry, o que tá fazendo aqui?!" – Sussurrei, vendo-o se aproximar com um sorriso sapeca nos lábios. Era como se ele tivesse tramado um plano genial para roubar o pote de doces em cima do armário.
"Eu disse que ia ao banheiro." – Ele sussurrou de volta, arqueando uma sobrancelha. – "Mas acho que não estou com vontade de ir. "
"Você ficou maluco?! O Tom vai te matar se te ver aqui!" – Minha voz saia tão baixinho que tinha que me aproximar para poder ser ouvida.
"Ah, então você tem que me dar um beijo de despedida."
E, sussurrando de volta, selou nossos lábios num beijo caloroso. Sentindo o coração pulsar a mil pela adrenalina de sermos pegos, não conseguia coordenar direito meus movimentos. Ora eu abraçava seu corpo, ora eu segurava seus pulsos que me seguravam pelo rosto como se fosse empurrá-lo para longe a qualquer indício de aproximação.
Mas por fim, cedi ao contato de nossas línguas, deixando-me levar pela sensação boa de tê-lo ali comigo.
Ai céus, Harry Judd ainda faria meu coração parar de bater com tanta perfeição. Fato.
Aquilo que eu chamo de sentimento
Mensagem recebida de Harry Judd às 00h28min.
“Eu digo que você me seduziu. Ou melhor, que você não conseguiu resistir aos meus encantos.”
Rolei os olhos, rindo no silêncio de meu quarto. Harry conseguia me fazer rir mesmo quando queria dizer algo sério. A culpa não era minha se ele falava besteiras como essas.
Mensagem enviada para Harry Judd às 00h30min.
“Estou falando sério, Hazz. Melhor ninguém ficar sabendo do que aconteceu hoje, por enquanto. Não sei como Tom vai reagir e... Bem, você entendeu.”
Mordisquei meu lábio inferior, um tanto receosa. Será que ele entenderia? Ou acharia que eu tinha, sei lá, vergonha de dizer que estava com ele? Mas o caso era que eu não sabia se poderia dizer queestávamos juntos.
Mensagem recebida de Harry Judd às 00h32min.
“Okay, entendi. Você acha que não vou te levar a sério, e não quer se precipitar para seu irmão não achar que eu fui um canalha e estava brincando com você?”
Essa foi rápida. Demorei alguns minutos até formar uma resposta coerente. Bem, ser sincera já adiantaria muito.
Mensagem enviada para Harry Judd às 00h36min.
“É mais ou menos isso.”
Meu coração disparou quando enviei, sem imaginar qual seria a resposta dele. Prendi o ar quando o celular vibrou em minhas mãos, minutos depois.
Mensagem recebida de Harry Judd às 00h39min.
“Você é a garota mais especial que eu pude conhecer na vida. Eu nunca faria nada que pudesse magoá-la. Não pra valer. Você sabe, aquelas provocações desses anos todos eram apenas... Brincadeiras. Isso é de verdade. Nós dois... Somos algo verdadeiro, não é?”
Naquele momento tive vontade de correr até sua casa, entrar em seu quarto e beijá-lo até perder todo meu oxigênio. Quis gritar, não sei exatamente por que, mas ficar em silêncio não parecia justo diante de tamanha euforia que explodia dentro de mim.
Mensagem enviada para Harry Judd às 00h41min.
“É a coisa mais verdadeira que eu poderia ter em toda minha vida, com certeza.”
Fechei meus olhos, sorrindo ternamente para a tela luminosa de meu celular. Eu nunca pensei que simples torpedos me fariam sorrir tanto! Bem, eu nunca pensei que ficaria assim por causa dele então, o improvável já não era tão surpreendente assim para mim.
Meu sorriso alargou-se ainda mais quando o celular voltou a vibrar em minhas mãos.
Mensagem recebida de Harry Judd às 00h44min.
“É bom ouvir isso de você. Boa noite, pequena. Minha pequena .”
Tolamente, mas me sentindo a pessoa mais feliz do mundo, depositei um beijo delicado sobre a tela, onde a mensagem dele ainda estava estampada. E daquela forma, sorrindo infantil, deixei o sono me vencer, sussurrando para a escuridão um quase inaudível “Boa noite, Harry”.
E os sonhos foram os mais agradáveis possíveis.
"Você acordou animada hoje." – Tom observou, enquanto eu me jogava ao seu lado no sofá.
"Férias me deixam animada." – Encostei minha cabeça em seu ombro, roubando o controle de sua mão. – "E eu não quero assistir Bob Sponja." "Ah não, qual é! Bob Sponja é um clássico!"
"Ah não, eu prefiro Tartarugas Ninjas!"
"Você é mesmo uma garota?" – Tom riu, afagando meus cabelos. – "Nunca vi alguém gostar tanto desse desenho."
"Amo o Leonardo." – Suspirei, rindo em seguida. – "E você ama qual?"
"O Donatello!" – Tom fez uma voz afetada, fazendo-me gargalhar.
"Você é mesmo um garoto?"
"Do que estão rindo?"
Céus! De onde é que Danny surgira? Esses garotos às vezes parecem assombração. Vivem aparecendo do nada e nos dando o maior susto!
"Caramba Jones, assim você nos mata do coração!" – Eu disse, fechando os olhos ao me recuperar do susto. – "De onde é que você veio?"
"De Bolton". – Ele respondeu ingênuo.
"Ah, isso eu já sabia. Eu quis dizer, desde quando você está em casa?"
"Ah claro! Desde que sua mãe saiu e eu entrei pela porta que ela deixou aberta para mim, avisando que vocês estavam aqui na sala discutindo sobre qual desenho era melhor."
"Danny, seu idiota!" – Tom exclamou rindo. Sentei ereta no sofá, chamando Danny para se sentar do nosso lado.
"Então, já que está aqui, me diga qual é sua Tartaruga Ninja preferida."
"Que tipo de pergunta é essa?"
"Eu já escolhi o Léo, Tom o Donatello. Qual é o seu? Responda logo!"
"Miguel!"
Cai na risada com a cara de convicção de Danny. O mesmo não entendeu quando Tom caiu na gargalhada também.
"Qual é o problema?"
"Nenhum Danny, nenhum." – Tombei minha cabeça em seu ombro, ainda rindo. Ele prestou atenção no desenho, franzindo as sobrancelhas.
"AH!" – Gritou quando consegui parar de rir, assustando-me novamente. – "Não é Miguel, é Michelangelo! Me confundi."
"Deu pra perceber a semelhança de nomes." – Tom zombou.
"Hei, ambos começam com Mi. Dá pra confundir sim!"
"Só alguém com cinco neurônios que nem você!" – Tom replicou, dando um tapa em sua testa.
"Tom! Não! Ah droga, agora ele só tem quatro!"*
"Há-há, minha vingança há de ser maligna!"
Eu não agüentava mais rir, e sem querer, Danny já começara sua vingança maligna com suas frases idiotas. Minhas bochechas doíam de tanto que eu ri.
Depois da sessão de risos pela manhã, fomos nos refrescar na sorveteria perto de casa depois do almoço. Danny tentou fazer espaguetes e no fim, acabamos comendo sanduíches.
"Eu ainda não consigo acreditar que você colocou açúcar no lugar de sal!"
"Ah qual é, as duas coisas são brancas e estavam uma do lado da outra!" – Ele se defendeu, totalmente sério. – "E a culpa é da !"
"Eu disse que o sal era da tampa azul!"
"Mas não especificou se era da azul clara ou da azul escura!"
"Porque você não me perguntou, oras!"
"É que eu só fui perceber que as duas eram azuis depois de jogar quase o pote todo."
"Tudo bem, o sanduíche ficou bom." – Tom disse, rindo. – "Mas da próxima, já sabe que o sal é do pote azul escuro!"
"Não Tom! É o azul claro!" – Eu exclamei.
"Ah, chega desse papo de azul que eu já to ficando meio verde."
"Ah, cala a boca um pouco Danny, ou eu vou morrer devido a uma crise de bronquite!"
"Você tem bronquite?" – Ele arqueou as sobrancelhas, fitando-me surpreso. – "Você nunca me contou..."
"É porque eu não tenho." – Rolei os olhos, respirando uma grande quantidade de ar. – "Mas vou passar mal de tanto rir, de qualquer maneira."
"Você consegue me fazer sentir um idiota, às vezes." – Ele soltou um muxoxo, fazendo bico.
"AWN Danny!" – Abracei-o pelos ombros, apertando suas bochechas em seguida. – "Não se preocupe, você será nosso único idiota sardento e charmoso do McFly!"
"Eu estou mais para um idiota sexy." – Ele disse, estreitando os olhos numa pose sexy.
"Continua sendo um idiota". – Tom riu, levando um tapa de Danny. Ah, aquele dia ia longe.
Eu podia nomear cada sentimento meu em relação àqueles idiotas que atendem pelos nomes de Tom, Harry, Danny e Dougie.
Tom me transmitia segurança, Danny alegria, Dougie conforto e Harry... Ah, Harry estava muito próximo de alguma coisa chamada amor.
Mas sem sombra de dúvidas, eu o amava como amava o McFly como um todo.
Eles faziam parte de mim. Da melhor parte.
Naquele final de tarde
Estávamos quase indo embora da sorveteria quando o celular de Danny tocou.
Por fim, Dougie e Harry iriam para lá, já que Danny esquecera que combinara de encontrar com os dois, há algumas horas atrás.
Eu já não me sentia tão nervosa em estar perto dele depois do... Primeiro beijo. Eu só não podia ficar muito perto. Sabe-se lá se eu conseguiria me controlar para não agarrá-lo na frente de todo mundo.
Não que eu fosse uma pervertida, mas é que os beijos de Harry eram meio viciantes.
E eu adorava aquele novo vício. Era bem melhor do que chocolate. Ou estava perto disso.
"Estou com sono." – Bocejei, encostando a cabeça no ombro de Tom. – "Quando é que eles chegam?"
"Devem estar chegando." – Danny checou o celular, olhando para os lados. – "Ah, eles ali!"
Desencostei minimamente minha cabeça do ombro de meu irmão, sentindo leves fisgadas na cabeça. Eu precisava de um analgésico já.
"E ai, pessoas?" – Dougie exclamou, sentando-se ao meu lado. – "Danny, seu incompetente! "
"É, Danny, seu idiota!" – Harry exclamou depois de se sentar na minha frente, exibindo um sorriso cúmplice. – "Você esqueceu de nós!"
"Ah, por que gostam de me chamar de idiota?"
"Gente, pára de chamar o Danny boy de idiota." – Eu disse sonolenta. Ele sorriu convencido para Dougie. – "Ele não tem culpa de ser assim!"
"Sua sensibilidade me comove, !"
"Eu sei que você me ama." – Consegui rir, mas de tão fraco, Tom se remexeu inquieto sob minha cabeça.
"Hei, você ta bem?"
"Dor de cabeça. "
"Quer ir embora? "
"Não, não. Vamos ficar mais um pouco. Já vai passar. "
Desencostei-me de meu irmão, sorrindo gentil. Não queria deixá-lo alarmado. Depois que eu quase me afoguei certa vez, Tom ficara mais protetor quanto a mim. E isso acontecera há muitos anos atrás. Eu gostava de seu cuidado, mas não de deixá-lo preocupado.
"Vou pegar mais sorvete. "
"Quer que eu vá com você?" – Tom fez menção de se levantar, e eu o impedi.
"Hei, eu estou bem! Vou estar no seu campo de visão, qualquer coisa, você pode correr e me salvar, okay?"
"Eu vou com você." – Dougie se levantou, sorrindo para Tom. – "Adoro o sorvete de flocos daqui. Hei Judd, você não vem?"
"Depois de comer o bolo da sua mãe? Nem, não cabe mais nada aqui." – Ele gesticulou para sua barriga, sorrindo abobalhado. – "Vai lá e cuida da , senão o Tom vai ter um troço."
"Ah, cala a boca Harry." – Tom replicou, jogando uma bolinha de papel amassado em sua cabeça.
"Você está bem mesmo?" – Dougie perguntou, quando nos aproximamos do balcão.
"É só uma dor de cabeça idiota."
"Hei, Danny vai ficar magoado ao saber que andou chamando outras coisas de idiota." – Ele sorriu animador. – "Posso fazer alguma coisa pra te ajudar?"
"Pode." – Exibi um sorriso torto, tombando minimamente a cabeça para seu lado. – "Começando a desfazer essa cara de preocupação. É sério, eu vou ficar legal depois de uma dose extra de cobertura de morango."
"Se eu não te conhecesse, acharia que Tom andou roubando sua comida. "
"Ah, vê se não me enche, Dougie boy. Vou roubar seu sorvete, se continuar assim."
"Pequena invocada. "
"Ainda bem que você sabe." – Rolei os olhos, sentindo-me um pouco melhor. – "Dougie, se eu te contar uma coisa, você promete não contar para ninguém? Ninguém mesmo?"
"Sou um cofre de segredos!"
Eu tinha que contar para alguém ou ia acabar enlouquecendo. E a única pessoa que eu podia confiar esse segredo no momento, era Dougie. Danny era meio esquecido e poderia contar sem querer e pegar Tom despreparado. E acredite, ter um irmão mais velho super protetor pego desprevenido não é uma coisa boa.
Como se quisesse ter a certeza de que não me arrependeria daquilo, lancei meu olhar brevemente para a mesa onde eles estavam sentados e perdi o fôlego naquele instante. Foi como ser golpeada de surpresa. Trinquei meu maxilar, cerrando meus olhos.
"O que foi?" – Ouvi Dougie sussurrar, olhando na mesma direção assim que xinguei baixo.
Laureen e sua trupe de amigas desmioladas rodeavam a nossa mesa como gaviões cercam sua presa. Com sorrisos idiotas estampados nos lábios cobertos de gloss. Eu nunca gostei daquela garota e lembrar que ela já foi alguma coisa de Harry me dava nos nervos.
E vê-lo sorrindo para ela me deixou ainda mais nervosa.
Dei meu pote para Dougie segurar, que me fitava sem entender nada. Bufando, saí da sorveteria sem olhar uma segunda vez para aquela cena repugnante.
Acho que Dougie pensou que eu ia ao banheiro, porque não fez menção de me segurar ou vir atrás de mim. Melhor assim. Eu não queria descontar minha raiva em alguém que não tinha culpa de nada.
Com passos duros tomei o caminho de volta para casa, bufando pelo nariz enquanto murmurava coisas como uma maluca. Algumas pessoas na rua me olhavam torto, mas eu não estava nem aí. Consegui avançar duas quadras facilmente, diminuindo o ritmo quando comecei a ficar sem fôlego. Minha dor de cabeça parecia ter piorado.
Parei um pouco, fechando os olhos e massageando as têmporas, esperando que a dor diminuísse com aquilo. Ouvi meu nome ser chamado e, por um segundo, senti alívio ao reconhecer a voz de Dougie. Mas só por um segundo. Depois, um sentimento de frustração me dominou. Ora, quem deveria estar correndo atrás de mim naquele momento era o Harry!
"Hei, o que foi aquilo?" – Ele perguntou, recuperando o fôlego, apoiando as mãos nos joelhos flexionados.
"Nada." – Respondi mais áspera do que gostaria. Suspirei, controlando meu tom de voz. – "Nada com você, se é o que quer saber."
"Então por que saiu furiosa daquele jeito?"
"Não quero falar sobre isso agora, está bem?" – Meneei a cabeça, voltando a caminhar, sentindo Dougie me seguir.
Caminhava com o braço cruzado, fitando o chão. Dougie ao meu lado fazia a mesma coisa, ora ou outra chutando pedrinhas pelo caminho. Suspirei derrotada, cansada daquele silêncio que não era comum entre nós dois. Dois tagarelas.
"Me desculpe." – Eu pedi, entortando a boca numa careta ressentida. – "Não queria ser estúpida com você."
"Tudo bem, eu já sabia que você era invocada." – Ele riu, dando de ombros quando paramos em frente à minha casa. – "Então, o que você ia me contar... Tinha a ver com o Harry, não era?"
"N-não." – Respondi surpresa.
"Claro que era. Ficou assim quando viu a Laureen falando com ele. E bem, eles namoraram um tempo... É a única razão pela qual você poderia ter saído daquele jeito."
"É tão visível assim?" – Suspirei, pela milésima vez naquele dia. Eu estava ficando muito melancólica.
"Não, mas acho que eu sou bom nisso." – Ele sorriu, fazendo-me sorrir intrigada. – "Em entender você. Pelo menos, um pouco."
"Você não existe, Dougie boy."
"Claro que existo! Mas então, quer falar sobre isso agora?" – Ele se sentou na escada, puxando-me para me sentar ao seu lado. – "Você não parece prestes a explodir ou coisa do tipo. "
"Mas minha cabeça parece que vai." – Encostei minha cabeça em seu ombro, fechando os olhos fortemente. – "Mas, é isso, eu acho. Eu acho que... gosto dele."
"Eu nunca pensei que fosse ouvir você dizer isso!"
"É, nem eu!"
"Tudo bem, você pode falar disso depois que tomar um analgésico."
"Depois eu tomo..." – Sussurrei sonolenta. – "Aqui está bom."
"Aqui? Como assim aqui?"
"Aqui, oras. Você tem um cheiro bom de canela." – Eu ri, fazendo rir também. – "Não ache que estou tarando você. "
"Imagina." – Ele riu novamente e seu riso soava como um ronronar em meus ouvidos.
Continuei com meus olhos fechados, concentrando-me apenas no silêncio agora agradável entre nós dois. Fiquei longos minutos assim.
"Ela está dormindo?"
Abri meus olhos rapidamente, encontrando os olhares curiosos de todos sobre mim. Dougie estava com os braços estendidos sobre os joelhos, e os meus estavam ao redor de seu braço esquerdo, onde eu estava encostada. Eu tinha a vaga sensação de que cochilara por alguns segundos. Pisquei repetidas vezes, focalizando a figura de Tom, que era o que estava mais próximo de nós.
"Você veio embora e nem nos avisou." – Ele acusou, franzindo as sobrancelhas. – "Eu fiquei preocupado!"
"É, ele tava achando que Dougie tinha te seqüestrado." – Danny riu, fazendo-me rir minimamente. Harry não estava com um semblante muito divertido. – "Danadinhos vocês dois hein?!"
"Ah Jones, cala a boca." – Eu murmurei sem me afastar de Dougie. Eu me sentia muito sonolenta. Isso é normal?
", você não parece muito bem. É serio!" – Tom retornou a falar, sacudindo-me levemente pelo ombro quando voltei a fechar os olhos. – "O que você tem?"
"Sono. "
"Vem, melhor você entrar e tomar um remédio." – Meu irmão me levantou pelos ombros, empurrando-me para dentro. Os outros nos seguiam em silêncio.
Em todo momento, eu evitei o olhar de Harry. Das duas uma: ou eu ficaria ainda mais nervosa e entraria em colapso, deixando meu irmão mais preocupado ou eu começaria a discutir com ele ali mesmo, na frente de todo mundo, o que também deixaria meu irmão preocupado caso eu começasse a gritar coisas como “não quero você perto daquela garota, porque você é meu!”.
Enfim, fingir que estava dormindo no sofá foi a melhor coisa que eu fiz enquanto todos estavam lá. Mas, eu sabia que Harry não estava contente com aquela cena que resultou em zoação a tarde toda, assim como eu não estava feliz com o que vi na sorveteria.
E tive certeza de que teríamos uma conversa como nos velhos tempos quando recebi sua mensagem em meu celular, um pouco antes de deitar em minha cama.
Mensagem recebida de Harry Judd às 22h36min.
“Conversamos amanhã”
Primeiro Conflito
Meus dedos tamborilavam impacientes sobre a mesa e de cinco em cinco minutos meus olhos se fixavam no celular na minha frente, esperando que ele tocasse.
Era um misto de ansiedade com nervosismo.
Como se eu nunca tivesse discutido com o Harry antes.
Claro que eu esperava que não brigássemos, mas éramos previsíveis demais. Bem, na verdade, eu era previsível demais. Realmente uma pequena invocada. E, além do mais, uma coisa é você discutir por bobagens e outra totalmente diferente é discutir alguma coisa importante, sem saber exatamente o que vai acontecer depois.
A cena de ontem ainda não havia me descido goela abaixo e eu sabia que isso seria o estopim para uma discussão daquelas. E por mais que eu soubesse que aquilo seria inevitável, eu tinha medo. Medo de não ser o mesmo tipo de discussões de antes, daquelas que minutos depois estávamos nos falando de novo, brigando de novo.
Relacionamentos afetivos são como fios de cristal. Se rompem com mais facilidade do que se constroem.
Agoniada demais para ficar sentada e ciente de que não poderia simplesmente ir até a casa dele sem levantar suspeitas, apanhei meu celular e enfiei dentro do bolso de meu jeans, avisando minha mãe que daria uma volta. Por sorte, Tom ainda não estava acordado. Ele começaria a me encher de perguntas e provavelmente eu me atrapalharia em todas elas.
Com um suspiro contido, comecei a caminhar pela calçada, indo pro lado oposto ao da casa de Harry. Não tinha um lugar em mente para ir, então fui seguindo pelas ruas tão conhecidas, parando numa praça bastante movimentada, por causa da manhã gostosa de férias.
Sentei na parte onde a grama estava mais fofa, fitando o aglomerado de árvores um pouco mais à frente. Fechei os olhos sentindo os raios de sol me esquentar aos poucos.
Levei uma mão ao coração quando senti o celular vibrando em meu bolso, sentindo o coração acelerar ainda mais quando reconheci o número que me ligava.
“Alô?” – Limpei a garganta antes de atender, querendo mantê-la firme.
“Onde você está?” – Ele perguntou, pigarreando.
“Sentada na grama na praça perto de casa” – Respondi, arrancando ansiosamente as folhas verdes do solo. – “Onde você está?”.
“Chego aí em quinze minutos” – Harry respondeu não me respondendo, desligando em seguida.
Deixei um suspiro paciente escapar de meus lábios, guardando o celular de volta em meu bolso, fitando meus joelhos flexionados como se eles fossem as coisas mais interessantes por ali. Fiquei daquela maneira, divagando em meus devaneios até ser interrompida por uma voz rouca que fez os pêlos de minha nuca se eriçarem.
Prontamente me levantei, afanando as folhas caídas que se prenderam em minha calça, olhando em seus olhos de meio em meio segundo. Seus olhos azuis pareciam mais escuros daquele ponto de vista e eu me sentia perdida neles.
“E então, você chegou” – Que coisa mais imbecil de se dizer, Fletcher! – “Quero dizer, você chegou rápido”.
“É, eu cheguei. O que estava fazendo?”
“Sentada” – Respondi, como se aquilo fosse óbvio. Porque era. – “Você viu”.
“Não, eu me referia ao que aconteceu ontem”.
“Ah, ontem.” – Imediatamente senti meu instinto de briga inflar dentro de mim. Ora, ele ficou de gracinha com a ex dele e ainda por cima queria satisfações com aquele tom de voz? – “Refere-se a qual parte, precisamente? Da melação com a Laureen ou o quê?”.
“Do que é que você está falando?”.
“De tudo. Das brincadeirinhas idiotas que rolou naquela mesa e do sorrisinho afetado que você ficou dando pra ela”. – Eu disse, trincando os dentes pela lembrança que me deixava irada. – “Ou pensou que eu não vi tudo isso? Grande papelão hein, Harry Judd?”.
“Você fala como se eu fosse o único presente naquela mesa! E não foi você que pediu que eu agisse normalmente? POIS BEM, AQUILO FOI COMO SERIA NORMALMENTE!”
“Ah, e normalmente vocês fazem o que depois disso? Se comem em alguma esquina qualquer?”
“NÃO FUI EU QUE SAÍ DA SORVETERIA COM ALGUÉM ATRÁS DO MEU RABO!”
Encolhi instantaneamente com seu tom de voz, com o tom de suas palavras ofensivas. Franzi minhas sobrancelhas, exibindo um sorriso sem humor. Meneei minha cabeça, completamente abalada pelo rumo daquela conversa.
“Está insinuando alguma coisa, Harry?”
“Não sei do que está falando” – Ele cruzou os braços, fitando alguma coisa qualquer atrás de mim. Aproximei-me, apontando um dedo em seu peitoral.
“Está insinuando o que, Harry Judd? É melhor falar na minha cara ou eu nunca vou te perdoar por isso”.
Ele ficou em silêncio; seus lábios fechados numa linha rígida.
“Se coloca no meu lugar, droga!”
“Me colocar no seu lugar? Por que não se coloca no meu?! Cristo, como você é egoísta! Está achando o que, que eu tenho um caso com o Dougie, é isso?”
Harry me fitou com os olhos cerrados, trincando o maxilar. Bufei incrédula, me afastando de si.
“Você é um idiota, Harry. Por pensar que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas.”
“Eu não disse nada.”
“Mas pensou. Não minta para mim, Judd. Eu te conheço mais do que eu gostaria. Porque, se tem alguém que seria capaz de fazer uma coisa dessas nessa relação, com certeza esse alguém não sou eu!”
“Está querendo dizer o que com isso, ?”
“Pense o que quiser, já que não precisa de mim para tirar suas próprias conclusões, não é mesmo?”
“Aonde você vai?” – Perguntou aos berros, quando dei as costas e comecei a caminhar para longe.
“Tem certeza de que não sabe? Pensei que soubesse de tudo!” – Provoquei, completamente fora de mim. Eu nunca fui muito paciente. Muito menos com alguém menos paciente do que eu, como o Harry. – “Quer uma dica? Começa com Dou e termina com gie”.
Tudo bem, eu sabia que tinha estrapolado, provocando-o daquela maneira no meio de uma discussão.
Mas eu não sabia me controlar.Não quando estava totalmente irritada e ofendida.
Harry estreitou seus olhos, mantendo os lábios numa linha rígida. Assentiu uma vez, inalando o ar com força.
“Se é o que quer fazer, vá em frente”.
E dessa vez ele que deu as costas, encarando-me furiosamente enquanto entrava em seu carro, estacionado um pouco mais a frente de onde estávamos. Eu permanecia parada no mesmo lugar, vendo-o arrancar furiosamente até sumir de minha vista.
Idiota. Idiota. Dois grandes idiotas.
Por que eu começara a achar que aquilo nunca daria certo?
Com uma lágrima carregada de muitos sentimentos complexos, voltei a sentar no gramado, abraçando meus joelhos e deixando que as lágrimas escorressem enquanto meu rosto estivesse escondido por aquela muralha frágil.
Uma hora depois, eu estava enfiada em meu quarto, secando distraidamente meus cabelos molhados. A cena da discussão entre Harry e eu não saía de minha cabeça, e cada vez que eu me lembrava daquilo, um nó se formava em minha garganta.
Contra meu orgulho próprio, não deixava de conferir meu celular de dez em dez minutos, esperando que ele me dissesse que tudo ficaria bem entre nós novamente. Ou que dissesse que não me queria mais, eu esperava que ele dissesse qualquer coisa que me tirasse daquela angústia.
Mas nada acontecia, além daquela vontade imensa de me atirar num poço que aumentava conforme os minutos avançavam.
Suspirei pesadamente, encarando o teto de meu quarto sem emoção e com uma vontade enorme de gritar. Com a intenção de reprimi-lo, cobri meu rosto com o travesseiro, pressionando meus braços sobre ele, como se tentasse me sufocar. O que não era minha intenção, de verdade. Eu não sabia se aquilo abafaria meu grito caso eu resolvesse gritar – como nos filmes – então, não arrisquei tentar.
Pequenas ondas de eletricidade percorreram pelas minhas veias quando estalos partiram de minha janela. Um som muito conhecido que fez todo meu corpo estremecer.
Hesitante, caminhei até a janela procurando por Harry, mas a janela de seu quarto estava fechada. Permaneci parada de frente para a minha, perguntando-me se tudo aquilo fora obra de minha imaginação.
Mas parecia tão claro...
Sem que eu pudesse evitar, um grito ecoou de minha garganta quando a figura de Harry apareceu em minha janela, cutucando o vidro com o indicador.
Céus, como ele fora parar ali?
Andei apressadamente até ela, erguendo o vidro e deparando-me com o Harry equilibrando-se na escada que estava escorada na lateral de minha casa. Coloquei metade de meu corpo para fora, arregalando os olhos para ele.
“O que pensa que está fazendo, seu maluco??!” – Exclamei, puxando-o com toda minha força para dentro de meu quarto pela gola de sua camisa.
“Tentando ser romântico?”
“Está parecendo mais um maníaco tentando me matar de susto!” – Me afastei de si, ainda abismada com aquela maluquice. E ainda chateada. – “Não podia usar o telefone como uma pessoa normal faria?”
“É, parece que minha tentativa de ser romântico não deu certo.” – Ele coçou a nuca, e eu concordei bufando. – “Mas eu ainda espero que aceite minhas desculpas.”
“Pelo quê?”
Cruzei os braços, batendo o pé freneticamente no chão. É, eu era bem birrenta quando queria.
“Por ter ido embora quando na verdade, eu deveria te abraçar com toda minha força.” – Ele sorriu torto, fazendo-me derreter por dentro. – “Eu não quero brigar com você. Não de uma maneira que possa nos separar. Me desculpa?”
Harry se aproximou, tombando a cabeça minimamente para o lado, juntando as mãos como se fosse rezar. Parecia uma criançinha que acabou de aprontar. Um sorriso brincou em meus lábios contra minha vontade. Harry emanava ingenuidade num corpo de homem, e aquilo mexia comigo. Ah, como mexia.
“Eu não devia te desculpar. Você foi um grosso, estúpido e imbecil!”
“Mas isso eu sempre fui” – Ele sorriu, brincando com uma mecha de meu cabelo, fitando-me com intensidade. – “Estamos de bem?”
Ai droga! Como eu poderia sentir raiva dele depois daquele sorriso?
Fingi pensar por um momento, cerrando meus olhos para si. Depois, rolei meus olhos, abraçando-o pela nuca e trazendo seus lábios até os meus.
“Se toda briga terminar com um beijo assim...” – Ele separou minimamente nossos lábios, espalhando beijos por todo meu rosto, parando na ponta de meu nariz, fazendo-me rir. – “Vamos brigar com mais freqüência!”
“Isso se eu não te matar antes de te desculpar, não é?”
“Você não seria capaz de matar uma pessoa tão linda e sensual como eu” – Harry brincou, puxando-me ainda mais contra si. – “Além do mais, você precisa de uma porção diária de Harry Judd para ficar feliz”.
“Já disseram que seu ego é maior que você?” – Eu ri, depositando um leve tapa em seu ombro. – “Mas eu não ligo de receber essa tal porção diária de Harry Judd. Nem um pouquinho”.
“Então é bom ir se acostumando. Tem muito mais disso pra você pelo resto de nossas vidas. Começando por agora!”
Selei meus lábios nos seus, sorrindo entre o beijo, sentindo-me novamente inteira.
Pelo resto de nossas vidas.
Eterno
“E como vai ser quando as aulas voltarem?”
“Como assim Hazz?” – Eu perguntei, me afastando de seu corpo, virando meu rosto para poder enxergá-lo melhor. Ele apertou ainda mais seus braços em volta de minha cintura, como se quisesse me impedir de sair de seu colo. – “O que tem as aulas?”
“Ah... Sei lá. Não vou estar lá para ficar de olho nos outros.”
Lancei minha cabeça para trás, encaixando-a na curva de seu ombro, rindo pra valer.
“O que é tão engraçado?”
“Harry Judd não confia mais no seu taco?” - Arqueei minha sobrancelha, sorrindo de forma debochada e divertida ao mesmo tempo.
“É por confiar demais nele que eu perguntei isso. Quando as coisas estão boas demais, alguma coisa sempre dá errado.”
“Não seja bobo!” – Virei-me de frente para ele, segurando seu rosto entre minhas mãos, depositando um beijo em sua testa. – “Ninguém nunca me afetará como você. Eu quero você, estou com você e sou só de você!”
“Quanto você numa única frase!”
“Por que é tudo sobre você, oras” – Fechei meus olhos, sentindo as bochechas esquentarem com aquela pequena declaração. Eu nunca tive muito jeito pra falar de meus sentimentos.
“Se soubesse que seria tão bom ouvir coisas assim vindas de você, teria me apaixonado antes. Muito antes.
“Pra que se lamentar pelo tempo que passou se podemos aproveitar o agora? O agora que estou aqui.” – Me aninhei em seu colo, ouvindo seu coração pulsar. – “O agora que você está aqui quando poderia estar com qualquer outra garota.” – Ele afagou gentilmente minhas costas, depositando um beijo prolongado em meus cabelos. – “O agora que pertencemos um ao outro”.
“Sim, o agora em que você é minha”.
“Quanta possessividade!”
“Só estou cuidando do que é meu!”
“E espero que cuide bem” – Sussurrei, fechando meus olhos, sentindo-me completa e segura em seus braços. Adormeci com o cheiro de seu perfume, tendo a vaga sensação de que aquilo era um sonho. Dos bons.
“, pequena, acorde!”
Abri lentamente meus olhos, suspirando com um sorriso nos lábios. Harry sorria ternamente, com uma mão pousada em meu joelho.
Mas como eu fora parar dentro do carro dele?
“Você dormia feito uma criancinha, e não quis te acordar” – Ele sorriu, respondendo minha pergunta antes que eu a pronunciasse, afagando meu rosto com delicadeza quando paramos no semáforo.
“Não me diga que saiu me carregando pelo parque feito um bebê.” – Murmurei ainda sonolenta. Eu andava muito preguiçosa, ultimamente. – “Que coisa mais brega!”
“Com certeza foi o que muitos pensaram”. – Harry riu, acelerando com o carro quando o sinal ficou verde.
Por todo caminho, me concentrei na nossa conversa, sorrindo sempre que nossos olhares se encontravam. Harry era a coisa mais linda quando sorria. Assim como era lindo quando falava, quando ficava zangado e, principalmente, quando me abraçava.
Como eu nunca percebera isso antes?
Talvez porque eu estivesse preocupada demais em mantê-lo longe de mim.
E engraçado como agora eu desejava exatamente o oposto.
“E então, o que vamos fazer amanhã?” – Ele perguntou, estacionando o carro na rua atrás de nossas casas.
“Harry, amanhã você tem ensaio com os meninos.”
“Depois do ensaio, então.”
“Não sei... Provavelmente ficarei no meu quarto, tendo uma tarde muito tediosa longe de certa pessoa...” – Brinquei, enroscando meus dedos aos seus distraidamente. – “Vai ser realmente uma tarde muito interessante”.
“Então, eu serei obrigado a estragar sua diversão. Eu já sei o que vamos fazer amanhã.”
“E o que vamos fazer amanhã?”
“Amanhã você vai saber!”
“Hei, não! Isso não é justo! Eu quero saber agora!”
“Tsc, tsc. A-ma-nhã.” - Ele soletrou como se faz quando uma criança não entende o que você diz.
“Por favorzinho?” – Implorei, fazendo minha melhor cena de cachorro sem dono.
“Nem vem, ! Não vou estragar a surpresa!” – Harry riu, beijando demoradamente meus lábios, afagando minhas mãos. – “Agora, sem querer te expulsar, é melhor você ir.”
“Sabia que eu te odeio?”
“Eu sei” – Ele riu entre o beijo, afastando-se para me fitar com seus olhos azuis de uma intensidade que fazia meus pêlos se arrepiar. – “A gente se vê amanhã.”
Contrariada, fiz bico ao me despedir dele, tanto pela curiosidade como pela saudade antecipada. Quanto mais eu tinha dele, mais eu queria.
É possível alguém desejar tanto uma pessoa que até tempos atrás jurou odiar?
Saltitei até minha casa, sorrindo abobalhada. Meus pais não estavam em casa e nem havia sinal de meu irmão também. Com um dar de ombros, joguei-me no sofá, ligando a televisão num canal qualquer. Minutos depois, o sono havia me vencido. Mais uma vez.
Despertei com a parca iluminação que driblava a persiana de minha janela. Afastei minimamente o edredom que cobria meu corpo, constatando que ainda usava as mesmas roupas de ontem, mas que, ao invés de estar na sala – onde eu adormecera – eu estava em minha cama.
Eles precisam parar com essa mania de me carregar no colo sempre que adormeço pelos cantos.
Sorri debilmente ao completar meu pensamento. E concluí que, mesmo se eu estivesse com quarenta anos e dormisse de qualquer jeito no sofá ou largada na cadeira de balanço na varanda e Tom estivesse por perto, ele daria um jeito de me carregar até a cama e me cobriria como se eu fosse uma criancinha. Ele fazia isso desde que eu me lembro. É que eu tinha a mania, quando pequena, de dormir em lugares... Inusitados. Como da vez em que ele me pegou dormindo no cesto de roupas secas na lavanderia.
Rolei na cama, ficando de costas para a luminosidade da manhã, que preenchia meu quarto e minha alma. Eu realmente me sentia iluminada naquela manhã. Como se meu coração estivesse em chamas.
Era aquilo que se chamava amor?
Bom, chamem como quiserem chamar. Eu só sei que quero sentir isso para sempre.
Sempre, sempre e sempre.
Seria muito egoísmo de minha parte?
O nosso lugar
Como havíamos combinado horas atrás, eu fiquei em minha casa uns quarenta minutos depois que o ensaio acabou e Harry saiu dizendo que tinha um compromisso com uma tia.
Eu quicava impaciente no sofá, olhando sem ver o que passava na tevê.
Tom, Danny e Dougie se preparavam para sair. Iam fazer alguma coisa no centro. Comprar corda pro violão e outras coisas mais para seus instrumentos.
Eu estava quase os expulsando de lá, tamanha era minha curiosidade e ansiedade.
“Hei , quer alguma coisa do centro?” – Danny perguntou e tornou a falar antes que eu respondesse. – “Já sei, quer alguma coisa pra comer!”
“Bem, eu ia dizer nada, mas já que deu a sugestão, eu aceito chocolate!”
“Bom, já que foi você que deu a sugestão Jones,” – Meu irmão deu tapinhas em seu ombro, sorrindo. – “é você que vai pagar o doce dela”.
“Eu quero Ferrero Rocher!” – Anunciei, erguendo ambos as mãos num gesto infantil, fazendo todos rirem. – “Uma caixa grande!”
“Por que eu fui abrir minha boca?” – Danny resmungou, rolando os olhos quando saltei em seu pescoço, apertando suas bochechas.
“Por que você é um bom amigo e me ama!”
“E você abusa demais disso!”
“Por favor, Danny!” – Repeti o gesto de ontem, que não dera certo com o Harry, mas parecia ter efeito sobre o Danny, que esboçou um sorriso enorme.
“Só porque você é uma folgada e eu não quero apanhar.”
“Bom passeio pra vocês!” – Desejei, me despedindo de todos com um beijo estalado na bochecha. – “E não se esqueçam do meu chocolate!”
“Será que se alimentarmos ela depois da meia noite ela vira um gremlin?” – Pude ouvir Danny comentar aos risos, mas a porta já estava fechada quando me preparei para jogar uma almofada em sua cabeça.
Rolei os olhos abraçando a almofada que jogaria na cabeça de Danny, sorrindo. Meus amigos não são normais. Ao longe, uma música conhecida começou a soar, e demorou alguns segundos para lembrar que aquela música era o toque do meu celular.
Desajeitada, pulei o sofá, correndo até a mesa, onde ele vibrava ao som de Muse. E o nome dele piscava na tela, fazendo-me sorrir abobalhada.
“Oi Hazz!”
“Oi ” – Harry riu de minha afobação, fazendo-me rir também. – “E então, despistou todos?”
“Foram todos pra rua!”
“Tem certeza de que não esqueceram nada? Não podemos correr o risco de algum deles voltar e nos pegar!”
Mordi meu lábio inferior, perguntando-me se era o certo o que estava fazendo. Bem, não podia me sentir inteiramente culpada por esconder aquilo de meus amigos já que Dougie sabia alguma coisa a respeito. E também, havia o fato de que não esconderia aquilo para sempre. Bem, esconderia até tomar coragem de contar para meu irmão mais velho.
“Eu tenho certeza absoluta! Você vai demorar muito pra chegar?”
“Tenho certeza de que se demorar demais, alguém vai ter um colapso nervoso!”
“Que bom que você sabe!” – Harry sorriu, fazendo-me sentir como se borboletas voassem dentro de meu estômago. Hm... Isso soou piegas demais?
“Estou te esperando aqui fora”
Não foi preciso ele dizer mais nada, até porque, se tivesse dito, eu não teria escutado da mesma maneira. O celular já estava no bolso de meu jeans e a maçaneta sob minhas mãos. Minutos – ou seriam segundos? – depois eu já estava pendurada em seu pescoço, rindo feito criança em dia de Natal. Pego de surpresa, Harry riu divertido, afagando meus cabelos e beijando minha testa.
“Pra onde você vai me levar, afinal?”
“Você não pode ser paciente?” – Ele rolou os olhos, abrindo a porta do passageiro pra mim assim que eu desfiz o nosso abraço.
“Não!”
“Sinto muito, mas comigo, você terá que ser uma boa menina” – Harry sussurrou, beijando meu queixo, subindo com o beijo para minha bochecha e muito depois, selou nossos lábios num beijo casto, porém muito caloroso. Pelo menos pra mim. – “Um pouco de confiança, por favor?”
Harry exibiu o tipo de sorriso que fazia meu coração acelerar e parar ao mesmo tempo. Sua beleza chegava a ser sufocante. Eu poderia ficar olhando para ele durante uma vida toda...
Meu. Deus. Quem é você e o que fez com Fletcher?
Eu não estava me reconhecendo. Não por admitir que Harry é lindo de morrer, mas por me sentir tão... Viva daquela maneira. Logo eu, que sempre pensei que o amor fosse uma bobagem... Que fosse coisa de ficção.
Bem, acho que nenhuma outra surpresa é tão grandiosa como a nossa própria vida.
“Acho que posso agüentar, se você me der mais beijos como esses” – Sorri sem abrir meus olhos, encostando minha testa em seu peito, inalando seu perfume com prazer. – “Podemos ir antes que eu comece a pensar que você está planejando um seqüestro?”
“Não seria uma má idéia”
Rolei meus olhos, observando-o dar a volta no carro depois de me dar um beijo, dando a partida assim que passou o cinto em volta de seu tronco e seus dedos em volta dos meus.
Com um sorriso que não saía de meus lábios, liguei o rádio, mas não por estar incomodada com o silêncio que se instalou dentro do carro. Ultimamente, ficar em silêncio ao lado de Harry era o mesmo que estar sintonizada em seus pensamentos.
Não que eu soubesse exatamente o que ele estava pensando, mas eu me sentia bem daquela forma.
A melodia animada nos contagiou, e quando percebi, Harry batucava o volante enquanto cantarolava baixinho. Eu ficaria muito ridícula se dissesse que aquela era uma cena linda?
“Come on let me hold you, touch you, feel you always…” – Cantei, sorrindo para ele. Era definitivamente o que eu queria naquele momento. E para sempre.
“Kiss you, taste you all night, always” - Harry completou, levando nossas mãos unidas até sua boca, depositando em meus dedos um beijo suave. – “Sempre.”
Como era de se esperar, senti minhas bochechas esquentarem diante da intensidade de seu olhar, e mesmo assim, eu não conseguia desviar meus olhos dos seus.
“Pronta para sua surpresa?” – Ele indagou depois de estacionar o carro no acostamento da estrada, literalmente, no meio do nada.
“Não me diga que está mesmo me seqüestrando” – Eu respondi, olhando ao redor sem entender. Não havia nada ali, além do... Nada.
“Sua tolinha! A surpresa não está exatamente aqui”
“Ah, claro” – Murmurei, sorrindo amarelo. Já disse que estou convivendo muito com o Danny?
“Vamos logo, !”
Harry estendeu sua mão para mim, acenando com a cabeça para a paisagem verdejante atrás de si. Olhei de sua mão para o lugar onde ele indicou, rolando os olhos e sorrindo para si enquanto tomava impulso para pular do banco do carona, entrelaçando meus dedos aos seus no segundo seguinte.
“Agora, pra ficar ainda melhor, eu vou vendar você!” – Ele disse, parando abruptamente e virando-me de costas para si.
“Harry, desde quando você é cafona desse jeito?”
“Você pode simplesmente fingir que está gostando?” – Ele riu, tampando minha visão com um pedaço de pano gelado. Cetim, eu acho. – “Por Deus, eu sempre soube que você era difícil de agradar, mas não imaginei que seria tanto assim!”
“Não disse que não estava gostando... Eu só não gosto de... Ficar no escuro.”
“Não precisa se preocupar” – Ele sussurrou, colando seus lábios em meu pescoço depois de afastar meu cabelo para o lado, apertando gentilmente meus ombros. – “Eu estou aqui com você. E não irei a lugar nenhum.”
“Confio em você.” – Respondi de imediato, porque era um fato que não precisava ser repensado. Eu confiava em Harry.
Em agradecimento, seus polegares afagaram meus ombros, fazendo-me movimentar assim que ele me empurrou gentilmente para frente. Ao meu redor, era possível ouvir muitos sons, mas o que chamou minha atenção uns minutos depois, fora o som de água correndo. Quase como em um rio... Ou cachoeira, eu acho.
“Preparada?” – Excitação percorria a voz dele, assim como por todo seu corpo, que me abraçou fortemente antes mesmo de me livrar da fita em meus olhos. – “Ah, me deixe ajudar com isso!”
Harry desamarrou a venda e assim que ela caiu em meus dedos, pisquei fortemente, tentando me acostumar com a claridade depois de alguns minutos de olhos fechados.
A princípio, eu não entendi muito bem o que fazíamos na beira de um riacho. Olhei da paisagem que transmitia paz para Harry, que sorria abobalhado.
Desde quando Harry Judd sorri abobalhado para mim?
Ah, claro, desde que nos apaixonamos um pelo outro.
“Isso me parece familiar” – Eu disse afagando suas mãos que se prendiam em minha cintura. Harry beijou delicadamente minha nuca, e mesmo sem olhar, eu sabia que estava sorrindo. Passei meus olhos minuciosamente pelo lugar outra vez, demorando-me num tronco caído, velho e parcialmente coberto por lodo... – “Eu não acredito! Hazz!”
“É, ele está exatamente como alguns anos atrás” – Apoiou seu queixo em meu ombro, desfazendo o laço em torno de minha cintura para pegar algo em seu bolso. – “Não é incrível?”
Estendeu o braço direito para frente, posicionando a fotografia como se quisesse encaixá-la na paisagem. A foto de nós dois sentados no tronco – que naquela época já era velho – me fez sorrir. Num impulso, segurei em suas mãos, correndo em direção a ele, rindo feito criança.
Mas eu tinha o direito de me sentir daquela maneira.
Afinal, eu estava no nosso lugar, no lugar de nossa infância. E agora, um lugar que não estaria somente nas lembranças do passado e sim, na certeza de que pertencíamos um ao outro desde... Desde sempre.
“Isso foi... Incrível, Harry!” – Eu beijei a ponta de seu nariz quando nos ajeitamos na arvore caída, me aninhando em seu abraço da melhor maneira que pude. – “Eu me sinto tão... Sei lá, como se estivesse completa, aqui, com você.”
“Eu também me sinto assim.” – Fechei meus olhos, aproveitando o carinho que ele me fazia nos braços. – “?”
“Não estava dormindo!” – respondi abrindo os olhos rapidamente, fazendo-o rir alto. Harry afagou a curvatura de meu pescoço, erguendo meu rosto em direção ao seu carinhosamente pelo queixo. Acho que perdi minha respiração nesse momento.
“Eu... Eu amo você.”
Harry sorriu torto, um gesto meio que receoso, porém muito sincero. Com cuidado, afastou as mechas de meu cabelo que escapavam de meu coque mal feito, beijando calidamente meus lábios em seguida.
Não, definitivamente, foi nesse momento em que eu perdi o fôlego.
“Eu sempre te amei, Harry” – Murmurei encostando minha testa na sua, sorrindo. – “E sempre vou amar você, seu garoto chato e impertinente.”
Eu não tinha duvidas.
Harry fora o primeiro a tocar em meu coração, o primeiro a me fazer sentir tudo aquilo que eu não conseguia explicar. E ele seria o primeiro a ter meu amor, a certeza de que ninguém mais poderia me completar, a não ser ele.
Deus, como eu amava ter certeza daquilo tudo!
E ainda mais, como eu amava saber que era correspondida.
Pelo vizinho idiota e insuportável.
“Eu amo você” – Repeti, intensificando nosso beijo.
Uma conversa franca
“, você tá legal?” – Tom perguntou num falso tom de despreocupação enquanto passava geléia em sua torrada. Olhou para mim enquanto eu o fitava sem reação. – “Você parece... Diferente.”
“Diferente como, Tommy?” – Dei de ombros, mordendo uma grande fatia de bolo, preocupando-me em mastigar devagar para não engasgar caso ele dissesse ah, tipo apaixonada por um dos meus melhores amigos! – “Não entendi...”
“Sei lá, você parece... Iluminada.”
Pisquei repetidas vezes, olhando fixamente nos olhos de meu irmão, esquecendo de mastigar, formando um calombo enorme na bochecha esquerda. Tom riu, trazendo-me de volta à realidade. Empurrei o restante de bolo com um gole de suco de laranja, dando de ombros novamente.
“Você acordou meio sensível hoje hein, garotão?” – Dei duas batidas em seu ombro, seguindo para sala, deixando-o com uma cara indignada. – “Sabia que você assistia meus filmes de romance escondido!”
“Ah, vê se não enche” – Ele murmurou risonho, acompanhando-me até a sala.
Rolei os olhos, desistindo da idéia de provocá-lo. Um pequeno latejar em minha cabeça me incomodava e, assim que Tom se sentou ao meu lado no sofá, deitei em seu colo com alguns protestos dele.
“Hei, eu só quero um pouco de carinho do meu irmão mais velho!”
“Você é abusada demais, .”
“Ah Tommy, você vivia fazendo cafuné em mim quando eu era criança.” – Choraminguei, encenando manha. – “Um pouco agora não vai te matar!”
“Depois fica dizendo que não tem mais cinco anos de idade” – Ele tentou imitar meu tom de voz na última parte, mas depois riu e afagou gentilmente meus cabelos.
“Obrigada!”
Eu já disse que sou preguiçosa demais e que pareço com um filhote de gatinho? Daqueles que adormecem assim que você começa a fazer carinho neles? Pois é, eu dormia facilmente quando me faziam cafuné. Ou talvez o carinho de Tom fosse bom demais para me manter acordada.
De qualquer maneira, eu acabei adormecendo em seu colo e só acordei quando o próprio se remexeu, roncando baixo, quase como um ronronar.
É, acho que éramos uma família de gatinhos.
Espreguicei-me no sofá, cutucando sua barriga para que também acordasse.
Mas você já tentou acordar uma pessoa que dorme como uma rocha? Esse era o Tommy.
Deixei meu irmão no sofá, tentando ajeita-lo da melhor maneira para que não ficasse com dores pelo corpo. Qual é, eu também cuido dele.
Segui para a cozinha buscando alguma coisa para comer, pois minha barriga protestava. De novo.
Enquanto enchia um copo com leite, meus olhos se prenderam na casa ao lado, e logo um sorriso bobo se espalhou pelos meus lábios. Harry não estava ali, pois, numa hora daquelas, devia estar roncando ainda. Bebi meu leite, pensando no que faria a seguir.
Durante a noite, um pouco antes de adormecer, havia tomado a decisão de que contaria tudo para Tom. Mas a coragem sumiu junto com os sonhos agradáveis e agora, eu sentia um frio na barriga toda vez que pensava no assunto.
Parecia até que estava me preparando para um julgamento.
Eu tinha a certeza de que Tom não me condenaria à morte ou qualquer coisa do gênero, mas eu tinha medo de chateá-lo. Mesmo que fosse por causa da minha paixonite – quer dizer, pelo meu amor por Harry – eu queria tomar toda precaução antes de dizer qualquer coisa.
“O que está fazendo aí?” – Levei uma mão ao coração quando me engasguei com o leite, virando-me assustada para Tom.
“Você quer me matar do coração??!” – O acusei, com os olhos esbugalhados quando ele correu até mim, segurando o riso enquanto dava leves batidas em minhas costas. – “Que susto você me deu!”.
“Está tão assustada por quê?” – Ele riu semicerrando seus olhos para mim. – “Tá me escondendo algo?”
“Quê??! Thomas, pára com essa mania de achar que estou te escondendo algo sempre que você me dá um susto!"
“Então você quer me dizer alguma coisa?” – Eu sabia que ele estava brincando. Tom estava se segurando para não rir, e eu estava me segurando para não levar aquilo a sério. Não tinha como ele suspeitar de nada! Era apenas uma brincadeira. Ele fazia aquilo sempre. – “To te achando com uma cara muito suspeita...”
“N-não seja bobom Thomas! E-eu não tenho nada para esconder ou te falar.”
Balancei a cabeça em negativa, voltando a beber meu leite com cuidado para não engasgar de novo. Virei-me para a janela e aquela tentativa de não engasgar foi completamente por água abaixo quando avistei a figura de Harry sem camisa, bebendo suco de laranja direto no gargalo em frente à geladeira.
Tinha como minha situação constrangedora piorar?
Bem, se eu ficasse ali parada, babando pelo meu vizinho, e até então namorado secreto, na frente do meu irmão com uma cara de idiota, aí sim, iria piorar cem vezes mais.
“Eu vou comprar açúcar.” – Disse a primeira coisa que veio na mente, meneando a cabeça enquanto atravessava a sala em direção à porta.
“Mas tem açúcar aqui!”
“Açúcar especial para o bolo que eu vou fazer mais tarde!”
E sem deixar que meu irmão dissesse mais alguma coisa e realmente começasse a achar que eu estava escondendo algo – o que não era mentira – corri para a calçada, grata por ter trocado o pijama antes de descer para o café da manhã.
Cheguei até o mercado sentindo as bochechas queimando e eu sabia que não tinha nada a ver com a caminhada de quatro quarteirões até ali. A imagem de Harry protagonizando uma cena que deveria ser proibida para o bem do meu coração piscava em minha mente, desconcertando todos meus outros pensamentos.
Céus, como Harry podia ser tão... Tão...
“Bom dia, !”
Despertei de meus devaneios quando Jimmy, o filho do senhor Gregory, que era dono daquele mercado, me cumprimentou sorridente. Tecnicamente, ele não trabalhava para o pai, mas gostava de ficar ali, para ajudar a mãe. O que eu realmente achava admirável numa criança de apenas nove anos.
“Hei Jimmy, como está?”
“Na mesma de sempre. Meu pai está viajando e deixou o mercado com minha mãe e com o irresponsável do meu irmão mais velho, você conhece o Liam, não conhece? Estou aqui para dar uma fiscalizada nas coisas. Procurando por alguma coisa?”
Sorri divertida com sua simpatia, bagunçando seus cabelos loiros e levemente arrepiados.
“Garoto, você tem personalidade.” – Ele assentiu com um dar de ombros descontraído. – “Eu preciso de açúcar... Mas não o açúcar normal, sabe? Tem alguma coisa parecida?” - Diga que sim pelo amor de Deus!
“Açúcar confeiteiro. Não adoça como o comum, é para confeitar bolos e pães. Por isso se chama açúcar confeiteiro.”
“Então é isso que eu preciso”.
Ele apontou para o corredor, chamando-me para segui-lo. Cumprimentei a senhora Gregory que estava no caixa juntamente com Liam, o irmão mais velho de Jimmy. Ele não parecia muito satisfeito de estar ali. Eu apenas o conhecia do mercado, mas podia afirmar que ele parecia daqueles tipos fechados, que não conversa muito.
“Eu tenho que ir agora, mas se precisar pode me chamar!” – Jimmy me entregou o pacote de açúcar, sorrindo satisfeito com o bom atendimento. – “Mande lembranças para sua família!”
Concordei com Jimmy, que logo foi ajudar uma senhora que perguntava se tinha trigo na farinha de trigo. Cheguei ao caixa me segurando para não gargalhar, grata por não estar mais preocupada como minutos atrás.
“Bom dia querida, tudo bem?” – A simpática senhora de cabelos grisalhos me sorriu, apanhando o açúcar e passando-a pela caixa registradora. Liam me cumprimentou com um aceno breve de cabeça e eu lhe respondi com um sorriso sem graça, tratando de pagar pelo açúcar logo. Havia alguma coisa nos olhos verdes dele que me incomodavam. – “Mande lembranças para sua mãe, querida!”
Despedi-me e voltei para casa, sentindo aquele nozinho na boca do estômago voltar a me perturbar. Era como uma sanfona. Dependendo do momento, ela quase não me incomodava.
É isso que você ganha quando cresce sem segredos do irmão mais velho.
Mas eu tinha que me acostumar com aquilo, a coisa de ter que esconder uma coisinha aqui e outra acolá de Tom. Afinal... Ele não me contava coisas muito pessoais e isso me dava o direito de não contar também... É assim que funcionam os laços de cumplicidade entre os irmãos, não é?
Quando entrei em casa, Tom estava do mesmo jeito no sofá, a não ser o fato de que agora ele estava com um pequeno fio de baba escorrendo pela boca entre aberta.
Rolei meus olhos, chacoalhando minha cabeça para os lados minimamente. Depositei as sacolas sobre a bancada, apoiando as mãos na cintura em seguida. Não acredito que a primeira desculpa que me surgiu foi a de fazer um bolo! Francamente, meus bolos eram ótimos, mas em compensação a bagunça que eu fazia... Bem, nossa mãe não achava tão ótima assim, já que Tom achava uma graça enorme vestir o avental dela e me sujar com farinha. Claro que, como irmã mais nova, eu tentava faze-lo parar, mas quase sempre, entrava na brincadeira nada ecológica dele. Muitas xícaras de farinha eram desperdiçadas...
Aproveitando que Tom estava apagado na sala, comecei a reunir os ingredientes com certa pressa, como se fosse uma ladra roubando uma loja com o dono dentro. Eu sabia que ele estava lá e que poderia me pegar a qualquer momento, coisa que eu realmente não queria que acontecesse. Sempre sobrava pra mim limpar a cozinha depois da 'farra'.
Mas, como era de se esperar que a tal lei de Murphy que vive no meu pé se intrometesse, acabei esbarrando na forma vazia, derrubando-a no chão com um grande estardalhaço. Levei ambas as mãos à cabeça, encolhendo os ombros num gesto de quem sabe que fez o que não devia.
Não levou o processo inteiro de me abaixar com cuidado e apanhar a forma do chão para que um Tom de cara amassada surgisse na cozinha com um ponto de interrogação enorme sobre sua cabeça.
Já viu como criança se ilumina na manhã de Natal? Posso dizer que Tom parecia prestes a abrir um presente maior que ele naquele momento. Não consegui impedir que um suspiro resignado escapasse de meus lábios.
“Hmm, você vai fazer bolo do quê?” – Ele perguntou, esfregando a barriga e lambendo os beiços de uma forma engraçada. – “Estou faminto!”
“Ainda não sei do que vou fazer” – Cocei minha nuca, lembrando o motivo de ter inventando a historia do bolo e ficando um pouco nervosa com isso. – “Alguma sugestão?”
“Vou chamar os guys.”
“Eu tava falando do sabor do bolo, cabeção” – Bati em sua testa com a colher de pau, sabendo que não deveria ter feito aquilo. Tom entendia tudo como um incentivo para brincadeiras idiotas.
Não demorou dois segundos para que ele me erguesse do chão e me jogasse em seu ombro como se eu fosse uma boneca de pano inanimada. Meus braços alcançavam suas pernas e foi nelas que eu me agarrei para que ele parasse de andar. O que, mais uma vez, não fora uma boa idéia. Tom tropeçou em seus próprios pés, cambaleando para cima dos puffs ao lado da tevê.
“Acho que não ando tendo boas idéias ultimamente” – Disse entre risos sufocados, rolando para o chão ao lado de Tom, que reclamava de dor nas pernas. – “Cabeçudo!”
“Gorda! Sorte que caímos sobre algo macio. Ou sorte do chão da nossa casa né?”
“Seu...” – Parei no meio do raciocínio, fitando-o zangada. – “Hei! Eu não sou gorda! Você que é gordo!”
“Você vai ver... Um dia vou ficar musculoso e você vai sentir falta da minha gordurinha ultra sexy” – Tom fez uma cara convencida, piscando. – “Escreve o que eu to te falando”
“Aham, falou senhor dos músculos.” – Cutuquei sua barriga, fazendo-o se encolher de maneira drástica. – “Vou fazer meu bolo que eu ganho mais. E você, fique sentado aí e liga pros meninos que você ganha mais ainda”.
“Que medo de você, !”
“É bom que tenha mesmo, ou não vai comer do meu bolo”.
Tom rolou os olhos, fazendo sinais com a mão como se dissessem blábláblá. Dei língua para ele, voltando aos risos para a cozinha. Só comecei a despejar a farinha na tigela quando ouvi a risada descontraída de Tom ao telefone com Danny. Sabe como é, só pra evitar uma sabotagem pela parte dele.
Porque de armações, já bastavam a minhas.
Quarenta minutos depois estávamos todos sentados na varanda, comendo o bolo de floresta negra que quase não saiu por culpa de Dougie. Como a gente faz para um homem entender que não se deve abrir o forno antes do bolo estar devidamente crescido?
Mas acho que depois do tapa que ele levou ele vai aprender a respeitar a não invadir o território feminino.
“, já dá pra você casar!” – Danny disse sorridente, de boca cheia, pra variar. – “Se você quiser casar comigo, não tem problema nenhum!”
“Ah cala a boca Jones, ela vai casar comigo!” – Dougie replicou, mandando um beijo pra mim.
“Por que vocês não vão casar com a irmã dos outros?” – Tom respondeu, querendo parecer zangado. – “O que você colocou no bolo, ??!”
“Hei! Eu não fiz nada! Até porque, nem você nem Harry foram afetados com ele, então a culpa não é minha e nem do meu bolo!"
“Claro que eu não fui afetado, seria como se eu quisesse casar comigo mesmo se eu não fosse eu” – Tom parou de mastigar, franzindo as sobrancelhas. - "Isso fez sentido pra vocês?"
“E eu não fui afetado porque eu sei que você vai casar comigo e não com eles, oras.” – Harry disse com um dar de ombros e com o mesmo tom de brincadeira dos outros, mas, como se tratava dele, tudo tinha um significado especial e diferente.
“E desde quando você e a vão se casar? Não queremos a terceira guerra mundial, obrigado!” – Danny fez joinha com a mão livre, enquanto a outra sustentava o prato quase vazio. – “To começando a achar que a realmente colocou algo nesse bolo... Ele está fazendo até milagres!”
“Acho que foi o açúcar especial que ela foi buscar hoje a tarde...”
“Ah, cala a boca Thomas, o açúcar não tem nada demais!” – Defendi. – “Vocês que são uns bobocas e nunca comeram bolo gostoso que nem o meu!”
“Hmm, e será que o Liam tem a ver com a gostosura do seu bolo?” – Thomas retrucou, fazendo-me engasgar e Harry também. Ainda bem que ninguém estava prestando atenção nas reações dele.
“Do-do que você tá falando?” – Eu podia sentir os olhos quase saltando de minhas órbitas.
“Ah, qual é , eu sei que você foi lá no mercadinho do pai dele hoje de manhã”
“É, eu fui. Mas o que isso tem a ver? A gente sempre vai lá quando precisa comprar alguma coisa” – Dei de ombros, um pouco mais recuperada. Meu coração batia alto em meus tímpanos.
“Não sei não... Essa história do tal açúcar confeiteiro não me convenceu muito, não...”
Thomas riu e eu apenas o fitei incredulamente. Eu não podia culpá-lo por achar que eu tinha uma queda por Liam, já que sempre tinha que comentar o quão aquele menino era estranho. Talvez ele tivesse interpretado mal minhas demonstrações de que não me sentia bem perto dele. Se ele soubesse de quem eu realmente gostava, não estaria fazendo esses tipos de piada na frente dele! O que Harry vai achar disso agora? Que eu tenho uma queda pelo garoto estranho do mercado? Que ótimo. Era tudo o que eu precisava para perturbar a paz que se instalara entre nós recentemente.
Nervosa, confusa e sem saber o que dizer em minha defesa, levantei da cadeira de balanço que dividia com Dougie e passei rapidamente pela porta de entrada, vendo tudo escurecer segundos depois de ouvir o prato se espatifando no chão.
Foi como ter os olhos tampados por uma escuridão repentina e ter o solo roubado de seus pés por milésimos de segundos que parecem durar uma eternidade. Creio que foram apenas alguns segundos, no máximo, um minuto que fiquei desacordada. Não sei explicar como aconteceu ou porque, só sei que assim que abri meus olhos, pude visualizar o pescoço de alguém e a gola de sua camisa azul. Eu sentia meu corpo mole e com esforço, movi minha cabeça para o lado, encontrando o semblante preocupado de Dougie.
“Quando você vai parar de me salvar?” – Sussurrei num fio de voz, fechando os olhos ao sentir a cabeça girar.
Dougie apenas riu, terminando de subir as escadas. Passos no corredor e logo percebi que todos estavam ali. Okay. Sinto-me bem patética agora. Com um ranger suave que eu identifiquei ser do quarto de Tom (eu sempre digo pra ele dar um jeito naquela porta porque ela me irrita e delata toda vez que ele levanta no meio da madrugada), senti a maciez do colchão sob meu corpo assim que Dougie se afastou, com um semblante assustado igual ao dos outros rapazes.
Tenho a leve impressão de que eu os assustei um pouquinho. Okay. Talvez muito.
“, pelo amo de Deus, o que você tá sentindo?” – Danny se ajoelhou diante da cama, colocando suas mãos sem sutileza alguma em minhas bochechas. – “Quer que a gente te leve pro hospital? Quer que a gente traga um medico até aqui? Quer que eu dance a macarena pra você?”
“Danny, pára de ser idiota” – Tom deu um tapa em sua cabeça, sorrindo assim que consegui rir da cara estupefata de Danny. Ele não queria demonstrar, mas eu sabia que estava imensamente preocupado e que teria reagido da mesma – ou até pior – forma que Danny.
“Hei, eu estou bem” – Disse, mais para mim do que para eles. Eu me sentia levemente entontecida. – “Você pode dançar a macarena pra mim um outro dia, está bem? Sem maiores traumas por hoje." - Danny assentiu, mas sem sorrir. - "E por que você me trouxe pro quarto do Tom, Dougie?”
Movi minha cabeça no travesseiro para poder visualizar o rosto de Dougie, que assim como o de Harry, era o que estava mais afastado de mim. Ambos pareciam igualmente preocupados.
“Bem... Porque foi a porta que abriram pra mim. Sabe, eu estava com as mãos um pouco ocupadas.” – Ele apontou com a cabeça para Harry, rindo pelo nariz.
Sorri ao mover meu olhar para ele, que ficou repentinamente perdido com a mudança brusca de atenção não só de minha parte, mas de todos ali, que pareceram se dar conta do fato somente naquele momento.
“Ah, sei lá... Não achei legal esse bando de homem entrar no seu quarto... Como somos em maioria aqui, viemos pro quarto do macho alfa” – Harry por fim sorriu, abraçando afetadamente o braço de meu irmão. – “Não é, baby?”
“Vocês são tão gays quando querem...” – Tossi um pouquinho, rolando os olhos para eles, como se quisesse certificar de que estava tudo bem. Ou quase tudo. – “Eu estou bem, sério. Acho que levantei rápido demais...”
“Tem certeza, ? To começando a ficar preocupado com você!” – Tom indagou, sentando-se na beirada da cama e acariciando meu joelho. – “Não acha que devemos contar pros nossos pais? Você anda tendo muitas dores de cabeça ultimamente...”
“Relaxa Thomas, foi só uma queda de pressão.” – Sorri da melhor maneira que pude para ele, bocejando em seguida. – “Não sabia que desmaiar cansava tanto! Vocês podem ir fazer o que quiserem, não precisam ficar aqui olhando para minha cara enquanto eu durmo, contando cada suspiro que eu der.” – Fechei brevemente meus olhos, esperando que eles entendessem o recado. Mas claro, eu havia me esquecido que eles eram bem lentos quando queriam. – “Vão, vão, o que estão esperando pra terminarem de devorar meu bolo mágico, enfeitiçado, ou sei lá o que?”
“Tudo bem, entendemos o recado! Mas estaremos lá embaixo, então, qualquer coisa é só gritar!” – Danny comunicou com sua alegria habitual de volta, agarrando Dougie pelo pescoço enquanto saíam porta a fora com uma pequena discussão sobre o bolo.
Tinha que ser o Danny.
“Qualquer coisa me chama” – Tom se inclinou para beijar minha testa e caminhou até a porta, passando por Harry que permanecia parado de uma maneira fofa com os braços cruzados no peito, encostado na janela com o rosto virado para fora. – “Você vem Harry?”
“Ahn, eu já vou dude. Quero... Falar com a primeiro”
Tom olhou para Harry como se ele tivesse criado um terceiro olho no meio da testa e da mesma maneira olhou para mim, como se eu tivesse começado a falar em chinês no mesmo momento. Piscou duas vezes seguida de uma maneira que me fez engasgar com um riso que tentei não soltar e com um dar de ombro hesitante, seguiu porta a fora.
Esperei paciente e temerosamente que Harry se movesse e foi quase impossível não prender o ar no meio do trajeto quando ele se sentou na altura de meu quadril, pegando meus dedos que se enroscavam um no outro e exibir um sorriso que eu posso descrever no mínimo, como estonteante.
Mas oi? Desde quando Harry reage dessa maneira depois de ver aquele que ele achava ser meu outro me carregar no colo bem na sua frente?
“Nós não vamos brigar de novo... Vamos?”
“Só se for pela sua saúde, mocinha” – Harry ergueu lentamente seus olhos azuis para os meus, arqueando minimamente sua sobrancelha, agravando meu estado amolecido.
“Tudo bem, se você continuar me olhando dessa maneira, aí sim é que eu vou precisar de um médico. De um cardiologista, na verdade.”
Harry lançou a cabeça para trás, rindo gostosamente. Céus, como ando parecendo uma adolescente de dezessete anos perdidamente apaixonada... Ah claro. É porque eu realmente estou. Não tem como não achar tudo o que ele faz bonito. Harry é a definição em pessoa da perdição. Num bom sentido, é claro.
“Falando sério agora, ... Tom não é o único que anda percebendo seus sintomas... Você acha realmente normal uma garota de dezessete anos ter tanta dor de cabeça assim?”
“Normal não é né... Talvez seja coisa de oftalmologista. Talvez eu precise usar óculos...” – Fiz cara de drama, envesgando meus olhos, fazendo-o rir ainda mais. – “Imagine que lindo, Hazz. Aposto que você iria fugir de mim se eu aparecesse aqui usando um fundo de garrafa...”
“É, eu fugiria sim” – Ele sorriu sapeca, inclinando seu corpo sobre o meu, tocando a ponta de nossos narizes. – “Mas só se fosse pra bem perto de você.”
Baixando sua voz para um sussurro que foi capaz de arrepiar todos os pelos de meu corpo, Harry roçou seus lábios nos meus de uma maneira tão ingênua, que era quase provocante.
“Você é suicida? Tá brincando com o que não deve!” – Eu o alertei, emaranhando meus dedos em seus cabelos, afastando-o minimamente de mim, apenas para poder visualizar sua íris azulada que brilhava em expectativa.
“Se refere ao fato de estar te provocando... Ou ao fato de estarmos quase nos beijando no quarto do seu irmão?”
“Das duas coisas, no mesmo nível de perigo” – Impedi que Harry se aproximasse novamente virando o rosto aos risos para o lado, enquanto minhas mãos se espalmaram em seu tórax definido. Preciso dizer que isso não ajudou muito?
“Não gosta de viver perigosamente?”
Harry sussurrou com sua boca contra a minha, subindo suas mãos de meus pulsos para meu pescoço, descansando uma sobre meu ombro e levando outra até meus cabelos. Seus dedos afastaram todos os fios que se prendiam em meu rosto, fazendo-me fechar os olhos com o carinho de seu toque. Posso dizer que muitas coisas foram registradas em minha mente naquele momento. O calor de seus dedos que era como o sol pela manhã, o cheiro de seu hálito que me lembrava bala de hortelã e sua respiração ritmada, que parecia controlar todas as batidas de meu coração.
Deus. Eu poderia passar o resto de meus dias daquela forma que ainda assim eu não me cansaria. Nunca.
“Eu te amo tanto” – Consegui dizer, sorrindo ao ouvi-lo sorrir também. – “Tanto, tanto, tanto!”
E a verdade nunca me pareceu tão certa como naquele momento. Eu me sentia feliz só de pronunciar aquelas palavras. Eu te amo.
Harry me encarou com tanta intensidade, que eu perdi todas as outras palavras que viriam a seguir, perdi todo o ar e toda a noção de onde estava. Tudo o que eu sabia era que naquele momento, parecia muita injustiça os lábios deles estarem tão perto, mas não perto o bastante. E sabe como é, eu odeio injustiças.
“Vai ficar só olhando, Judd?” – Contornei as linhas de seus lábios delicadamente com meu indicador, fazendo-o alargar seu sorriso estonteante. – “Me beije logo.”
E prontamente meu pedido fora atendido. E daí que estávamos no quarto do meu irmão mais velho? Aposto que se fosse com alguma amiga minha, ele também faria a mesma coisa. Pior até. Mas o caso era que... Ficar com Harry e se conter não eram palavras que combinavam.
Fui perdendo o fôlego conforme o beijo ganhava mais e mais intensidade. Sabe aquele negócio do e daí que estava no quarto do Tom? Bem, agora fazia sentido e se eu não parasse... Melhor não pensar no que aconteceria se eu não parasse, certo?
“Ar, ar, ar” – Inspirei uma grande quantidade de ar, sorrindo com os lábios levemente inchados. Harry não estava muito arrumado também. Seus cabelos estavam desalinhados graças aos meus dedos impacientes e sua boca estava tão rosada quanto os meus provavelmente também estariam. – “Precisamos disso para sobreviver, hum?”
“Claro, claro” – Ele respondeu desconcertado, depositando um beijo suave em minha testa. – “Vou precisar buscar o ar lá fora porque aqui não sobrou nenhum”
“Eu não vou acompanhá-lo, porque seria o mesmo que nada” – Ri, arrumando-me em minha cama provisória. – “E acho que vou tirar um cochilo...”
“Okay, eu vou deixar você descansar.” – Harry colou seus lábios sobre os meus suavemente. Parou de caminhar quando estava perto da porta, virando-se minimamente para mim. – “Hum, ?”
“Sim, Harry?”
“Promete que vai ficar bem?”
“Prometo” – Sorri terna, fechando os olhos num gesto infantil. Ele assentiu, sorrindo de um jeito fofo.
“Boa noite, pequena”
“Boa noite” – Ignorei que ainda fossem quatro da tarde e sorri ao vê-lo sumir pelo corredor.
Como as coisas simples passam a ser tão importantes quando estamos amando.
Fiquei fitando o espaço por onde ele sumiu, ouvindo murmúrios no corredor. Instantes depois, o corpo de Tom surgiu por onde Harry saíra, sorrindo sem graça.
“Pensei que estivesse dormindo”
“E você ia ficar me vigiando dormindo como se eu tivesse um ano de idade?” – Acusei de olhos semi cerrados, vendo-o abanar a cabeça afirmamente. – “Já estou melhor, Tommy”
“Na verdade...” – Ele coçou a nuca e se sentou na cadeira ao lado da cama, movimentando-o para os lados com o impulso de seus pés. Ele parecia constrangido... Céus. Será que ele viu alguma coisa? – “Eu queria conversar com você...”
“Sobre...?” – Deixei a frase no ar, recebendo o silencio por alguns minutos enquanto ele sorria e tentava falar, alternando a seqüência dos movimentos com a boca. – “Tom?”
“É sobre você... E o Harry.”
Pisquei forte, atônita. De alguma maneira eu esperava que ele entrasse nesse assunto, mas não esperava que fosse tão diretamente daquela forma. Quero dizer, não sei como ele deduzira que havia um Harry e eu e muito menos que ele fosse descobrir tão cedo assim.
“S-sobre e-eu... Eu... Eu e... Hã?” – Oi, eu sou lenta okay? Não é sempre que seu irmão parece ter poderes mágicos para descobrir um segredo que você jurou ter guardado muito bem. – “O quê?”
“Ah, ... Sei lá, tenho percebido algo no ar, mas eu ainda não sei o que é. Só sei que tem algo em como vocês se olham que... Mudou. É quase como se vocês fossem uma única pessoa e isso é bem estranho. Então, seja sincera comigo... O que há entre vocês dois, de verdade?"
Tom estava calmo. Não era como se eu quisesse que ele estivesse gritando e se descabelando, mas era meio estranho vê-lo agindo daquela forma tão passiva comigo em relação a um garoto. Percebendo minha hesitação, Tom se inclinou na cadeira para que pudesse se aproximar de mim, com um sorriso amigo nos lábios e carinhosamente afagou o topo de minha cabeça.
E então eu percebi o quanto estava sendo boba em relação ao meu receio. Tom era sim, ciumento e super protetor, mas eu sabia que no fundo, ele nunca iria contra algo que pudesse me proporcionar algum tipo de alegria. Porque no fundo, bem lá no fundo, ele sabia que ninguém poderia tomar seu lugar em meu coração e que eu sempre correria para os braços dele quando algo desse errado. Tom era meu melhor irmão, e nada mudaria isso. Nenhum garoto e nenhuma garota que entrasse em nossas vidas.
Por que tive tanto medo mesmo?
“Ah Tommy... Eu... Eu não sei por onde começar!”
“... Você sabe que pode confiar em mim, não sabe?”
“Eu sei, Tommy. Nunca passou pela minha cabeça que você não é uma pessoa confiável. Eu tive... Medo. Medo de você brigar com Harry ou de ficar com raiva de mim...”
“Então... Vocês estão... Namorando?”
“Não oficialmente.” – Enruguei o nariz numa careta. – “Eu estava tomando coragem pra contar pra você primeiro...”
“E quando você iria contar?”
“Eu não sei...” – Sorri sem graça, dando de ombros rapidamente.
“Bem, você pode me contar agora”
Assenti, sentindo que aquele era o momento. Sempre fora, talvez.
“Eu gosto dele, Tom. Não sei como e nem quando percebi isso, mas, eu gosto dele. De verdade.”
“... Eu sei que o Harry é encantador, mas, você sabe como ele é...”
“Eu sei, Tom... Mas, também sei que ele pode mudar... Você não acha que ele merece uma chance?”
“É, pode ser. Eu só não quero que você se machuque, entende?” – Tom se aproximou da cama, afagando meus cabelos e sorrindo amigável. – “Porque senão eu vou ser obrigado a quebrar a cara bonitinha dele em mil pedacinhos.”
“Eu sei que vai e se ele me magoar, pode ter certeza de que você será o primeiro a saber disso. Eu mesma vou pedir que você bata nele, está bem?” – Beijei suas bochechas, rindo aliviada. No fundo, eu sabia que Harry não seria capaz de me magoar.
Sabia, não sabia?
“Obrigada por confiar em mim, .” – Tom se levantou e bagunçou meus cabelos, ajeitando a manta em volta de mim. – “Vamos montar cabana hoje como fazíamos antigamente, é?”
“Pode ser que sim. Estou com preguiça de ir pro meu quarto.” – Sorri. – “Aonde vai?”
Tom se preparava para sair e deu meia volta, dando de ombros enquanto fazia uma cara de desdém.
“Os dudes estão lá embaixo ainda. E,” – Ele exibiu um sorriso convencido. – “eu tenho que fazer um interrogatório mais tarde. Sabe como é, não é nenhum que entra pra família Fletcher assim, sem mais nem menos.”
“Tom, pega leve com o Harry” – Pedi, mesmo que aquilo fosse uma brincadeira, não queria que o Judd ficasse ainda mais apreensivo do que nos últimos dias. – “Por favor”
“Pode deixar”
“Hei Tom, quando você voltar, pode trazer chocolate quente? Que nem você fazia quando éramos pequenos?”
“Daqui a pouco, você vai ter que começar a pedir essas coisas pro seu namorado, ouviu?” – Tom piscou cúmplice, fazendo-me corar.
Namorado.
Agora era mais definitivo do que antes. Sorri na escuridão, sentindo como se o mundo fosse pequeno demais para tanta felicidade.
E quando a felicidade é muita, o que vem depois?
Formalidades
“Pára quieto, Judd!”
Puxei Harry pela barra de sua camisa, forçando-o a se sentar ao meu lado com um sorriso trêmulo. Gotículas de suor escorriam pela lateral de seu rosto e aquilo só aumentava minha vontade de rir. Ele estava quase sem cor.
“Até parece que você nunca viu meus pais antes!” – Afaguei sua mandíbula tensa, sorrindo torto numa tentativa de distraí-lo. E funcionou. Por dez segundos.
“É, mas agora as coisas são diferentes.”
“Não tão diferentes assim, vai. Continuamos sendo eu e você.” – Beijei a ponta de seu nariz, colocando minhas pernas sobre sua coxa. – “E veja pelo lado bom, seu cunhado é seu amigo e está do nosso lado.”
“Bem, pelo menos o Tom não quis partir minha cara nem nada.” – Harry riu, um pouco mais a vontade. – “Eu pensei que fosse ser difícil. Ele é sempre tão possessivo em relação a você.”
“Acho que no fundo, ele tinha medo de que algum cara fosse aparecer e me levar embora daqui e consequentemente, dele. Acho que foi mais fácil pra ele porque é você.”
“Bem, não tão fácil assim também, né? Ele deixou claro que poderia partir minha... Como ele disse mesmo? Ah, cara bonitinha de ursinho Pooh.”
“Não acho que ele seria capaz... Além do mais, ele impôs essa condição caso você merecesse, não é?”
“E acredite, eu nunca vou merecer isso.” – Harry me puxou para mais perto, beijando repetidas vezes meus lábios.
Fazia quase quarenta minutos que Harry chegara a minha casa, pisando ali pela primeira vez, como meu namorado. Não era a toa que ele estivesse tão apreensivo, já que ele e Tom fizeram um acordo justo, na opinião de Tom. O acordo era o seguinte: Tom abriria uma exceção para Harry nas regras que ele mesmo criara para o cara que fosse me namorar (vai entender cabeça de irmão mais velho, né?), mas Harry teria que falar com meu pai à moda antiga. Pedir minha mão em namoro e essas coisas. Era justo, mas eu achava desnecessário.
No fundo, eu também estava meio nervosa. Papai gostava muito de todos os meninos da banda, curtia o som deles e dava o maior apoio. Mas tudo isso os vendo mais como amigos do meu irmão do que meus propriamente ditos. No começo, meu pai achava que não era bom para mim andar com quatro moleques, mas depois de um tempo, se acostumou. Creio que na cabeça dele, Danny e Dougie eram como Tom para mim e Harry era como uma garota invejosa que eu ignorava. Ou seja, nenhum indício de que qualquer um deles fossem se engraçar pro meu lado. E também tinha o fato de que Tom já era ciumento por ele e por toda a ala masculina de nossa família. (Não que Tom tenha admitido isso, claro).
Mas como Harry mesmo havia dito, agora as coisas são diferentes.
Ouvimos o tilintar de chave na porta e imediatamente Harry retirou minhas pernas de cima da sua, tomando certa distancia de mim no sofá. Rolei meus olhos, mas não insisti numa aproximação. Aquilo estava sendo pior pra ele do que para todo mundo.
Tom desceu as escadas no mesmo momento em que nossos pais entravam na sala. A tensão de Harry era quase palpável e eu tinha certeza de que se todos ficassem no mais absoluto silêncio, os batimentos dele poderiam ser ouvidos do outro lado da rua.
Tom assentiu para Harry assim que se sentou no sofá de frente para nós e piscou marotamente para mim. Que amigo sádico ele era, se divertindo com o nervosismo de Harry.
“Boa noite, queridos!” – Minha mãe saudou, depositando sua bolsa e suas chaves sobre a mesa enquanto meu pai retirava seu paletó. – “Onde estão os outros?”
Aproveitando a deixa, Harry se levantou num movimento seguro e, inflando o peito, pigarreou para chamar a atenção de todos. Quero dizer, a atenção de meu pai, já que minha mãe, Tom e eu já estávamos olhando em sua direção.
“Boa noite senhor Fletcher, boa noite senhora Fletcher” – Harry começava a ganhar uma leve coloração avermelhada e eu me segurei para não rir. – “Eu... Eu gostaria de falar com vocês.”
Meu pai sorriu para Tom, que também estava vermelho, mas por outros motivos. Já disse que ele é um sádico? Vou incentivar o Harry a fazer a mesma coisa quando for a vez dele de apresentar alguma namorada pro nossos pais.
“Ora querido, pra que tanta formalidade?” – Minha mãe contornou o sofá, carinhosa como sempre e tratando-o como se fosse mais um filho seu, depositou um beijo na testa de Harry e afagou seus cabelos. – “Nossa, você está meio gelado! Se sente bem, Harry?”
“S-sim. Er... É muito importante o que eu tenho para falar com vocês.”
Meu pai sentou-se na poltrona que estava no meio entre os dois sofás, e Harry também se sentou. Imagino que tenha ficado grato por isso. Minha mãe afagou meus cabelos e se sentou no braço do sofá ao meu lado, prestando atenção em Harry.
“Diga, meu filho” – Meu pai incentivou num tom caloroso, dando uma pequena fagulha de confiança para mim e para Harry. Pelo menos ele não está sendo rude... – “Só não me diga que engravidou minha filha!”
Harry engasgou com o ar, fazendo-me olhá-lo abismada.
“Pai!” – O repreendi, ainda com os olhos esbugalhados e com o rosto fervendo. Minha mãe dava leves palmadas nas costas de Harry e Tom não parava de rir. – “Isso é brincadeira que se faça?!”
Não restava dúvidas de que Tom tem o mesmo senso de humor nada engraçado de meu pai, né?
“Que foi? Não disse nada demais!” – Ele respondeu ingênuo.
Recuperado do susto, Harry tornou a falar antes de procurar meu olhar e receber um sorriso como estímulo. Mamãe já percebeu o que estava acontecendo pois sorriu marota. E já deu pra perceber que eu sou ligeira como minha mãe, né?
Mulheres, quando querem, entendem tudo num piscar de olhos.
“Então, já que não é nada grave assim, diga o que tem pra dizer, querido.” – Mamãe piscou para ele. – “Estamos ouvindo”.
“Euqueriapediramãodesuafilhaemnamoro.” – Harry soltou o ar de uma vez depois de falar o que nem mesmo eu entendi. Meu pai pediu para que ele repetisse, sem embolar as palavras. Nessa altura, Tom já estava sem fôlego. – “Eu... Eu quero pedir a mão da sua filha em namoro.”
Silêncio. Se aquilo fosse um filme de comédia romântica barata, ’cri-cris’ preencheriam o ar, tenho certeza. Até mesmo Tom parou de rir e observava a cena, alternando seus olhares de mim para Harry e de Harry para meu pai. Eu sabia que ele estava fazendo isso porque eu também olhava de Harry para meu pai e de meu pai para Tom. Minha esperança era de que, se alguma coisa desse muito errado, Tom fosse intervir.
“? namorando?” – E então meu pai gargalhou. Pra valer. Tom, que até então era o único se divertindo com a situação ficou sem reação. – “Meu filho, você bateu forte com a cabeça hoje?”
“PAI!”
E eu aqui, preocupada com o esporro que ele provavelmente daria no Harry, acabo sendo vítima de uma piada machista do meu próprio pai? O que há de errado com os homens dessa família?
“Eu não entendi o que o senhor quis dizer...” – Harry leu meu pensamento, perguntando de maneira confusa e com um sorriso amarelo nos lábios.
“ não parece ser o tipo de garota que curta romances e essas coisas, sabe? Ela nunca foi muito... Feminina.” – Meu pai sorriu como se quisesse se desculpar pela opinião, e eu apenas o fitei indignada. – “E falar em namoro, ainda mais com o cara que vivia pegando no pé dela me pareceu uma piada.”
“Eu sempre achei que minha implicância com a fosse apenas pirraça. Mas, acho que no fundo, sempre foram sinais de que gostava dela, mas não queria admitir.” – Harry sorriu sincero para mim e para meu pai, fazendo minha mãe murmurar um “awn, que fofo!” que só eu pude ouvir. – “O senhor nos dá autorização para namorarmos? Namoro de verdade?”
"Entendo". - Papai murmurou, assentindo consigo mesmo. Silêncio novamente. "Pai?" - O chamei sugestivamente, fazendo-o se lembrar de que esperavámos uma resposta. E eu espero que a cara séria que ele fez agora não seja um sinal ruim.
“Bem, você já é da família, mas não custa nada te dar as boas vindas de novo” – Meu pai levantou da poltrona, estendendo uma mão para Harry, que a apertou com um sorriso aliviado. – “Seja bem vindo à família, Judd.”
“Obrigado, senhor Fletcher” – Suspirei aliviada. Não fora tão ruim quanto imaginávamos hum?
“Mas tem uma coisa” – Meu pai ficou sério novamente, fitando-o com o ar de um pai autoritário que quase sempre nos fazia tremer. – “Se você magoar minha garota... As coisas vão ficar pretas pro teu lado.”
“Eu já estou informado dessas condições” – O olhar de meu pai caiu em Tom, que fez joinha com ambas as mãos. Isso era tão Jones! – “Prometo que não vou decepcioná-lo.”
“Não é a mim que você tem que prometer, filho.”
Harry assentiu, voltando ao seu lugar no sofá, sendo abraçado fortemente pela minha mãe.
“Você fica para o jantar, ouviu bem?” – E dizendo isso, largou meu namorado e se juntou ao meu pai para fora da sala.
“Parece que tiraram o mundo de minhas costas” – Harry sibilou, levando uma mão ao coração. – “Não foi tão ruim como eu pensei que seria.”
“É, tirando a parte da ameaça subliminar... Você se saiu bem!”
“Tom foi bem mais assustador” – Me ajeitei ao seu lado, deitando minha cabeça em seu peito enquanto ele passava um braço sobre meu ombro, jogando uma almofada no meu irmão, que agora prestava atenção na televisão.
“Cuidado, Judd, agora você é meu cunhado.” – Tom estreitou os olhos, e voltou-se para a televisão antes que Harry lhe respondesse qualquer coisa.
“O que ele quis dizer com isso?” – Harry sussurrou para mim, franzindo as sobrancelhas.
“Que você se meteu com uma encrenca. Das grandes!" - Apontei para mim mesma, sorrindo abobalhada.
“Já pensou em como tudo aconteceu tão de repente na nossa vida?” – Harry me apertou em seu colo, beijando o topo de minha cabeça enquanto afagava minhas mãos. – “Tenho medo de que não seja verdade quando acordar.”
Fechei meus olhos, inspirando seu perfume com a brisa suave daquela noite.
“Não aconteceu de repente, Harry... Vinha acontecendo desde que nos conhecemos. E algo que leva tanto tempo para acontecer, não acaba de uma noite para outra.”
“Você não tem medo?” – Harry baixou seu olhar para encontrar os meus. Sorri de modo que meus olhos se fecharam um pouquinho, encaixando meu rosto na curvatura de seu pescoço em seguida.
“Tenho medo de não aproveitar cada segundo com você. O resto... O resto não importa, contanto que você saiba que eu te amo.”
Harry sorriu enviesado, ajeitando-se na cadeira de balanço que rangia suavemente conforme ele tomava impulso para balançar nossos corpos entrelaçados. Ficamos em um silêncio agradável, apenas apreciando a presença um do outro, ouvindo nossas respirações ritmadas.
“É quase inacreditável ouvir você dizer isso.”
“O quê?”
“Que você me ama. Eu já ouvi muitos ‘eu te odeio’, mas eles nunca me afetaram tanto quanto um único ‘eu te amo’ que você diz.”
“Porque eu nunca te odiei de verdade...” – Sorri mais para mim mesma do que para ele, fitando o nada, deixando a mente se encher de lembranças. De lembranças com ele. – “Mas o que eu sinto agora, isso sim é verdadeiro. E não vai mudar. Nunca.”
“Você promete?”
“Não preciso prometer, Harry. Não tem como esquecer o que te faz respirar...” – beijei seu pescoço, sentindo-o estremecer levemente. – “O que te faz sorrir...” – Subi meu beijo para seu queixo, observando Harry fechar seus olhos. – “O que te faz viver”.
Segurei seu rosto entre minhas mãos pequeninas, permanecendo daquela maneira até ele abrir seus olhos e me deixar contemplar o azul profundo e brilhantes de sua íris. Harry levou suas mãos até o meu rosto, exatamente como eu fazia e depois de exibir um pequeno sorriso que roubou todo o ar de meu pulmão, me puxou para perto, roçando nossos lábios num quase beijo que arrepiou todos os pelos de minha nuca.
Judd, Judd. Desse jeito você ainda me mata do coração!
“Você é minha”.
Seus olhos brilharam como duas labaredas que consumiram todo o fôlego restante em meu interior. Havia tanta certeza em suas palavras que aquilo me fez estremecer de prazer.
Harry Judd e sua mania de possessividade.
Mas quer saber de uma coisa?
Eu não ligo de ter um cara como ele - obcecado? - por mim.
Nem um pouco.
Dois meses.
Dois meses inteiros com Harry Judd e meu coração ainda bate desgovernado quando o vejo sorrindo para mim. Acho que eu nunca vou me acostumar com a intensidade de seus olhos azuis, com o som de seu riso e com o tom rouco de sua voz.
E isso é ótimo.
É como se todos os dias, eu me apaixonasse de novo. E de novo e de novo e de novo. E quando eu acho que não é possível me apaixonar ainda mais por ele, acabo descobrindo que meu amor está mais forte do que o dia anterior.
Dizem por aí que é impossível encontrar o amor sem perder a razão, e eu começo a concordar com isso.
Eu faria loucuras por Harry, se fosse preciso. Não mediria esforços para vê-lo bem, porque eu sei que ele faria o mesmo no meu lugar.
Mensagem recebida de Harry Judd às 7h45min.
Surpresa pra você mais tarde.
Com amor, Judd xx
Okay, ninguém contou pra ele que é injustiça mandar uma mensagem desse tipo quando eu não posso ligar de volta e exigir que ele me conte o que está acontecendo? Eu odeio ficar curiosa.
Argh, lá se vai o pouco de concentração que eu tinha para aturar duas aulas seguidas do professor Smith. Odeio geometria tanto quanto odeio surpresas. Surpresas do tipo que namorados e amigos preparam.
Dando uma bisbilhotada rápida sobre o livro e constatando que o professor Smith estava muito ocupado cuspindo nos alunos que sentavam na primeira fileira enquanto explicava a matéria rabiscada no quadro negro, digitei rapidamente e cliquei em enviar segundos antes do senhor Smith chamar minha atenção.
Mensagem enviada para Harry Judd às 7h58min.
Me conta!
Eu esperei pela resposta enquanto o professor me metralhava com perguntas e resmungos sempre que eu respondia errado. Ah, Harry Judd, você consegue me desconcentrar mesmo não estando ao meu lado!
Os minutos foram se arrastando e nada de Harry me responder.
Posso matar meu namorado quando eu chegar em casa?
"Dougie! Dougie!"
Já tentou gritar pelo seu amigo, num corredor hiper lotado, tentando não deixar sua mochila nem partes do corpo para trás? É, realmente não era fácil! Ainda mais quando esse amigo está provavelmente ouvindo música no volume máximo.
Bufando e praticamente grunindo 'dá licença' para todo mundo que entrava na minha frente, consegui chegar até Dougie, arrancando os fones de seus ouvidos com um puxão que o fez exclamar assustado.
"Garota, você quer me matar do coração?!"
"Eu estava te chamando, cabeção!" - Fiz bico, cruzando os braços depois de dar um leve empurrão em seu ombro. Dougie logo desfez a cara de susto, apertando minhas bochechas. - "Você faz ideia do que está acontecendo em casa, nesse momento?"
Dougie abriu a boca, depois a fechou, franzindo as sobrancelhas. Mordiscou o canto do lábio, depois fez sinal negativo com a cabeça, fazendo caretas. Típico dele.
"Dougie, não mente pra mim!"
"Não estou mentindo!" - Ele ergueu as duas mãos na altura dos ombros, rindo maroto.
Ah, ele estava sim!
"Você mente muito mal, Poynter!"
"Tudo bem, o que eu poderia estar escondendo de você?"
"Alguma coisa. Harry me mandou uma mensagem horas atrás e não me respondeu quando eu pedi que me contasse. E eu sei que não tem nada a ver com nós dois, porque Danny me mandou uma mensagem parecida, dizendo que haveria uma surpresa mais tarde. Só que não é meu aniversário ainda e nem de nenhum de vocês, o que não faria lógica de qualquer forma..."
"Danny bundão..."
"O que disse?" - Parei de falar quando Dougie murmurou zangado, o que só me fez crer de que ele sabia o que estava acontecendo e não queria me contar. - "Por favor!"
"Ahn, não posso!"
"Por favor?"
"Droga , eu não posso!" - Dougie começou a ficar vermelho e isso indicava que ele estava doido pra abrir a boca, mas certamente não tinha permissão. - "Até queria, mas não posso. Desculpa."
Bufei novamente, descruzando os braços e balbuciando qualquer coisa como 'tanto faz'. Pude perceber que Dougie fez uma carinha chateada, de quem não queria estar fazendo aquilo. Depositei um beijo em sua bochecha a fim de tirar aquele semblante tristonho de seu rosto.
Descontente por estar mais curiosa do que nas primeiras aulas e por ser obrigada a aturar a presença de Laureen pelos próximos quarenta minutos, entrei na sala sem olhar para os lados, ocupando rapidamente meu lugar ao lado de Jason, meu companheiro de biologia. Bom, ele era um aluno presente só de corpo, já que sempre cochilava enquanto a professora Taylor explicava a matéria.
Aquilo me faria rir se Laureen não estivesse por perto.
Eu sei que não deveria me deixar incomodar por alguém como ela, mas acredite, eu tento. Desde que ela se transferiu - ou foi transferida, não sei ao certo - para minha sala, minha paz foi pro espaço. Ela vive me provocando com as coisas mais imbecis do mundo, e eu sinceramente não sei quem é mais infantil nessa história. Ela por me provocar ou eu por me deixar irritar.
De qualquer modo, hoje eu não me irritaria. Não ligaria para as risadinhas idiotas que ela troca com as amigas quando olha na minha direção, eu não vou me irritar com os coraçõezinhos que ela desenha na lousa com as inicias "HJ", eu não vou...
Laureen passou por mim, derrubando minha pasta propositalmente. Levou uma mão à boca fazendo cara de surpresa, apanhando minhas anotações do chão com um sorriso cínico nos lábios.
... Me irritar.
Respirei fundo, concentrando-me no mantra que parecia ficar mais impossível conforme os minutos passavam.
Quando o sinal finalmente tocou, joguei minhas coisas dentro da mochila de qualquer maneira, sendo surpreendida pela garota que estava tentando me matar de raiva parada rente à minha mesa, sorrindo debochada.
Eu juro que não respondo por mim se ela abrir a boca para falar um A de Harry.
"O que você quer?" - Perguntei, trincando o maxilar para não rosnar. Do jeito que meu coração batia, eu seria capaz de morder e latir. Sério.
"Hei, quanta hostilidade, querida!"
Semicerrei meus olhos, engolindo todos os xingamentos e insultos que raspavam a ponta de minha língua. Eu não iria me sujeitar aos caprichos dela. Eu não iria demonstrar que estava irritada e pronta para pular no pescoço dela. Não, não.
"Fala logo o que você quer, Laureen."
"Eu só queria saber se você pode me passar o número do Dougie".
Eu tinha preparado um discurso caso ela falasse alguma coisa do meu namorado, mas quando ela mencionou o nome de outra pessoa, eu simplesmente a fitei como se ela tivesse acabado de se materializar na minha frente.
"Dougie?" - Perguntei sem conseguir disfarçar a surpresa em minha voz.
"Sim, claro. Ou você achou que eu iria ficar correndo atrás do Judd para sempre?" - Laureen arqueou as sobrancelhas, rolando os olhos quando pisquei forte duas vezes. - "Não preciso perder meu tempo com coisa pouca que nem ele. E além do mais, ele tem você, não é mesmo?"
Engoli novamente todos os insultos, ignorando o tom desprezível que ela usou quando se referiu à mim. Ri pelo nariz, estranhando toda aquela mudança repentina. Ela estava planejando alguma coisa e, se eu pudesse evitar, eu evitaria.
"Não vou passar nada para você. Se toca, garota".
"Não seja egoísta, ..."
"Não. Me. Chame. De. ". - Vociferei, apontando um dedo em riste em sua direção, jogando minha mochila abruptamente nas costas, saindo da sala antes que perdesse o controle de vez.
Ora, quem ela pensa que é?!
Primeiro, dá em cima do meu namorado (que ainda não era meu namorado oficialmente na época) descaradamente na sorveteria, fica me provocando com bilhetinhos colados no meu armário perguntando de Harry, age como se fôssemos amiguinhas e agora ela quer que eu passe o número de Dougie para ela? Justo uma desclassificada como ela? Ah, faça-me o favor! Dougie merece coisa muito melhor, e não lixo reciclado!
Coitado, Harry deve ter batido a cabeça com muita força no dia que aceitou uma garota como ela.
Rumei para o refeitório extremamente irritada, não notando que Dougie esperava por mim no corredor.
"Hei, pequena, o que houve? Ainda está irritada comigo?" - Ele perguntou assim que joguei meu corpo pesadamente sobre o banco na mesa mais afastada, deixando minha mochila cair de qualquer maneira no chão ao meu lado.
"Não é nada com você". - Respondi secamente, bufando.
Dougie encolheu os ombros, largando a cadeira que puxou para se sentar, fazendo menção de dar a volta e me deixar sozinha.
Imediatamente segurei sua mão, fazendo-o olhar de nossas mãos para mim.
"Hei, me desculpe, eu não quis ser grossa com você, Dougie boy". - Sussurrei, puxando sua mão novamente para que ele se sentasse do meu lado. - "Você me desculpa?"
"Tudo bem, . Eu sei que está ansiosa..."
"Olha, se fosse isso, eu estaria feliz" - Bufei, enfiando as mãos no bolso de minha blusa, desviando o olhar para além das janelas altas e largas. - "Eu até tinha me esquecido que vocês estão tramando algo nas minhas costas..."
"Por que está zangada, então?"
"Laureen".
"Ah" - Dougie murmurou e eu voltei minha atenção para seu rosto, que aderiu um tom escarlate. - "Eu bem que suspeitei..."
"Suspeitou do quê?"
"Era bom demais para ser verdade..."
Dougie parecia que tinha esquecido que estava conversando comigo, e começou a divagar consigo mesmo. E quando eu acho que o Danny é doido, me aparece o Dougie para provar que nem sempre estou certa. Ou que Danny está sempre errado. Ah, tanto faz.
"O que foi, Dougie?"
"A Megan veio pedir meu número..."
"Megan...?"
"A amiga de Laureen, aquela..."
"Que tem peito de pomba com prisão de ventre?" - Rolei os olhos quando ele assentiu envergonhado, fazendo-me ficar tão vermelha quanto ele. Acho que vou sofrer um ataque cardíaco hoje. - "Dougie, eu não acredito que você deu seu número para ela?!!!"
"Qual o problema, ? Ela é bonita..."
"E mais rodada do que peru em Natal! Argh! De que adianta eu me esforçar para manter garotas do tipo delas longe de você, se você não ajuda?!"
", é só uma garota qualquer, eu não vou me casar com ela!"
Bufei contrariada, cruzando os braços sobre o tronco e escorregando na cadeira, permanecendo de cara fechada. Ele estava certo. O que eu tinha na cabeça para ficar tão zangada só por que ele deu o numero dele para a garota? Ora, ele era dono do seu nariz e de outras partes do seu corpo, e fazia o que bem entendia com eles.
Mas por que eu ainda continuo irritada com isso?
Meneei minha cabeça, enterrando novamente as mãos no bolso de minha jaqueta. No mesmo instante, senti o celular vibrar, distraindo-me por alguns instantes.
Mensagem recebida de Tommy às 9h55min.
Pronta para ser uma fugitiva? Olhe para fora.
Sem entender o conteúdo da mensagem, fiz o que ele pedira, sentindo-me idiota. Mas por poucos segundos. Logo identifiquei Danny, Tom e Harry acenando freneticamente para mim, pulando como macacos. Oh não, apenas Danny estava pulando como um chipanzé. Típico.
"Você ainda não quer me dizer o que estão tramando?" - Me virei para Dougie, que acenava discretamente de volta para eles.
"Pra quê estragar o melhor da festa? Vamos dar o fora daqui."
Dougie apanhou minha mochila, puxando-me pelo capuz sem me dar outra alternativa que não fosse levantar e acompanhar seus passos largos sem chamar muita atenção para nós.
Como se fosse possível não chamar atenção dando uma de 'James Bond' ao lado de Dougie Poynter no meio do refeitório.
Dougie jogou minha mochila em seu ombro quando passamos pelo corredor principal, totalmente despreocupado. Não era a primeira vez que eu fazia aquilo e também não era como se alguém fosse nos apanhar saindo da escola antes do horário. Nosso colégio era dividido em três prédios, e era comum termos que migrar de um para o outro, algumas vezes por dia.
"Meu Deus, se seu pai ver o que estamos fazendo, provavelmente teria um troço!" - Dougie riu enquanto descíamos as escadas que nos levaria ao estacionamento, onde Harry e os outros nos esperavam.
"Eu realmente espero que ele não descubra isso!" - Ri, finalmente livre de toda tensão que me cercava minutos atrás.
Será que isso se devia ao fato de que Harry sorria abertamente para mim?
Assim que nos aproximamos do grupo de garotos que sorriam ansiosos para mim e cúmplices para Dougie, me lancei nos braços de Harry, inspirando seu perfume como uma viciada. Senti seus lábios quentes tocarem a maçã de meu rosto e nada mais parecia importar naquele momento.
Mas o momento parecia importar para Tom, que pigarreou alto, separando-me de Harry com um tom escarlate que manchou minhas bochechas. Para disfarçar, abracei Danny e Tom ao mesmo tempo, pendurando-me em seus pescoços e beijando repetidas vezes as bochechas de ambos.
Chantagem emocional é o que há.
"Eu amo muito vocês, sabia?"
"Ih... Ela vai começar com o joguinho sujo dela. Ninguém abre a boca!" - Tom disse rolando os olhos, apontando para Harry com um semblante ameaçador. - "Principalmente você, cunhado!"
"Eu odeio você" - Fiz bico, fitando Tom incrédula. - "E você, você e você também!"
Os garotos riram, e como se não bastasse toda aquela frescura de não me contar qual era a surpresa, Danny teve a brilhante idéia de me vendar. Já disse o quão Jones é o Jones? Ele sempre inventa essas coisas.
"Danny, seu idiota! Eu te odeio!"
"Também te amo, !" - Danny mordeu minha bochecha depois de amarrar firmemente um pedaço de pano ao redor dos meus olhos. - "E sei que você me ama incondicionalmente também."
"Nossa, ele disse uma palavra com mais de seis letras!" - Tom zombou e foi nesse clima que eu fui encaminhada para o carro, sem saber exatamente para onde estávamos indo e o que eles estavam aprontando.
Acho que uma hora se passou e ninguém quis me contar nada. Depois da vigésima tentativa de subordinar meu irmão e todos os outros, eu desisti. Não perguntei mais nada, apenas me concentrei nos movimentos que o carro fazia. Direita; piada sem graça de Danny; direita, risada escandalosa de Danny; farol quebrado; reclamação de Tom; direita; afago carinhoso de Harry em minha mão de algum ponto ao meu lado, ou a minha frente, não sei bem.
Ah, aquela viagem estava sendo mais longa do que eu realmente queria.
"Tudo bem, vocês não querem me contar o que tá acontecendo, mas podem pelo menos me dizer se estamos chegando aonde quer que seja?" - perguntei, cutucando a perna que estava do meu lado direito. Não sei de quem era, mas essa pessoa riu. Hm, acho que esse era o Dougie. - "Eu estou ficando impaciente!"
"Acalma a afobação aí garota!" - Danny exclamou e deu um tapa - que não foi muito leve, diga-se se passagem - em meu joelho, fazendo-me exclamar alto. - "Opa, foi mal."
Senti o carro parar e me perguntei se estávamos em outro farol quebrado. Tom cochichava alguma coisa com Harry, e todos ficaram em silêncio. Portas dianteiras abrindo e vento gelado na minha nuca depois.
Ah, chegamos!
Aonde eu não sei.
Mãos gentis apertaram minhas mãos, puxando-me e fazendo com que eu me movesse. Mãos em meus ombros me auxiliavam também. Se aquela fosse uma brincadeira sem graça e eles me largassem numa sala escura, eu ia bater muito neles. Muito mesmo.
Senti cheiro de café e a quentura de um aquecedor afagar minhas bochechas. Tom falou 'oi' para alguém, mas eu não sei exatamente quem. A pessoa que me puxava pela mão parou e a que me empurra pelos ombros me segurou enquanto abriam uma porta que rangeu baixinho. Aquele ambiente tinha um leve aroma amadeirado... Lembrava-me lojas de cds.
E cada vez mais essa situação corroe meus nervos.
"Posso tirar a venda agora?"
"Espera mais um pouco!" - Tom pediu e identifiquei ele como o condutor que me puxava pelas mãos. - "Fica paradinha aí!"
Senti a movimentação dos meninos ao meu redor, o perfume de cada um deles se misturando no ar. Apenas o de Harry permaneceu forte. Talvez porque ele permaneceu ao meu lado, abraçando-me carinhosamente e apoiando o queixo em meu ombro.
"Vou tirar sua venda..."
"Ah, estava demorando!" - Exclamei, agitando minhas mãos no ar enquanto Harry desfazia o nó. - "Vocês são uns pentelhos!"
Harry deixou a venda cair de meus olhos e a primeira coisa que eu fiz foi me virar e beijar delicadamente seus lábios, voltando rapidamente para frente para ver o que eles tanto esconderam de mim.
As paredes estavam revestidas com um material preto que parecia espuma, a luz estava baixa e havia um baixo encostada num pedestal e uma bateria com um emblema contorcido escrito... McFly.
Ai. Meu. Deus.
Eu estou aonde eu acho que estou?
Olhei ao redor, encontrando os olhares dos garotos sobre mim. Todos sorriam abertamente, confirmando minhas suspeitas.
Me sentindo completamete Jones, tive que perguntar como se ainda não estivesse entendendo nada.
"Onde nós estamos?"
Tom esticou o braço e apanhou uma pasta sobre a mesa de vidro, esticando-a para mim. A primeira coisa que li foi "Island Records" e não precisei ler mais nada depois.
Eu não sabia se ria, se chorava ou se fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Pulei no pescoço de Tom, gritando e rindo abobalhada, sendo abraçada por todos ao mesmo tempo.
Aquela era a realização de um sonho que todos nós cultivamos e batalhamos para que acontecesse durante todo esse tempo.
E agora era mais real do que nunca.
Oh meu Deus. Aguenta coração, porque seu namorado vai ficar famoso.
"Eu amo muito você, e nada vai mudar isso. Se estamos hoje aqui, é porque você nos fez querer ser os melhores!" - Harry dizia enquanto distribuía beijos por todo meu rosto. - "Você é a nossa estrela! Nossa star girl!".
Oh coração, aguente muito antes, porque seu namorado é simplesmente perfeito.
Parecia que minha vida tinha sido agitada, exatamente como se estivesse dentro de um globo de neve.
Sempre que eu conseguia estabelecer um ritmo para meu cotidiano, ele era totalmente bagunçado. Não que eu estivesse achando ruim, a mudança tinha sido ótima para mim. Mas o que me matava era ver os meninos tão cansados.
Desde aquele dia que eles me levaram até a Island - uma semana atrás - mal paravam em casa de tanta coisa que tinham para fazer. Tom vivia grudado com Danny para cima e para baixo, carregando o violão e o caderno já surrado com as letras que logo deram vida à três músicas. Eles estavam satisfeitos com o resultado, mas viviam cochilando por aí. Harry e Dougie pareciam mais elétricos do que o normal no dia a dia, mas sempre que dormiam, o ronco profundo delatava o quão cansados também estavam.
E eu fazia o que podia. Bem, na verdade, eu aderira o entusiamo deles como se eu fizesse parte da banda também. Bem, era como se eu fizesse mesmo. Eu sempre dava uma ideia aqui e acolá para as composições de Tom e olha, eu não era tão ruim assim! Acho que tinha a ver com o DNA.
Naquela noite, combinamos de dar uma descansada. Descontrair um pouco, como sempre fazíamos antes daquela loucura toda começar. Pela manhã tínhamos combinado de pegar um cinema e terminar a noite numa Starbucks, um programa bem sossegado até. Mas ninguém teve disposição para sair de casa naquela noite de outono. Eu já disse que adoro o outono? Não sei porque, mas eu acho que é bem a nossa estação. Me lembra o quanto é bom ficar com eles vendo as folhas caindo preguiçosamente no quintal.
"Estou tão cansado!" - Danny resmungou, jogando-se no puff ao meu lado, suspirando ao fechar os olhos. - "Eu poderia dormir por cem anos agora..."
"Você sempre foi cansado Jones" - Murmurei, afagando os cabelos de Harry, que estava com a cabeça apoiada em minhas pernas. Ele parecia bem cansado. - "Isso nunca foi novidade para mim."
"Isso é verdade!" - Dougie concordou, esticando-se no tapete, acomodando sua cabeça sobre os braços cruzados na nuca.
"Concordo". - Tom bocejou do sofá, fechando os olhos parecendo uma criança.
"Calúnia!" - Danny protestou, jogando a almofada em Tom.
Se fosse em outra época, começaríamos ali uma guerra de travesseiros, mas tudo que meu irmão fez foi abraçar o travesseiro lançado por Danny, mudando os canais da televisão sem parar. Dougie estava roncando e Danny tentava manter os olhos abertos.
Não demorou mais que dez minutos para que todos nós caíssemos num cochilo ali no meio da sala.
~×
" pequena, acorde!"
Abri meus olhos lentamente, sorrindo abobalhada quando me deparei com o rosto de Harry colado ao meu, a ponta de nossos narizes roçando um no outro, num beijo de esquimó cafona, mas que me fazia muito bem, obrigada. Beijei calidamente seus lábios, afagando a cicatriz em sua cabeça.
"Como você pode me mandar acordar, sendo que você está dormindo?" - Sussurrei roucamente, fazendo-o abraçar mais forte a minha cintura com o braço que estava em volta dela. Sua mão livre afagava a base de meu pescoço delicadamente.
"Não estou dormindo"
"Está com os olhos fechados" - Acusei baixinho, ouvindo o ronco dos garotos que ainda estavam da mesma maneira que horas atrás. Já devia ser tarde, pois a casa inteira estava em completa escuridão.
"Isso não quer dizer que estou dormindo."
"Tudo bem, tudo bem. Você venceu. Mas por que me acordou, afinal?"
"Minhas costas doem" - Ele reclamou, passando a ponta do seu nariz em meu maxilar, indo em direção ao lóbulo de minha orelha. - "Não podemos ir pra sua cama?"
"Hmm... Acho que sinto segundas intenções nesse pedido..."
"Terceiras, quartas e quintas também." - Ele riu em meu ouvido, arrepiando-me com seu hálito quente em meu pescoço.
Eu nunca me senti daquela maneira. Tão quente pelo simples fato de estar abraçada com ele, sentindo sua respiração bater em meu pescoço. Arrepios percorriam meu corpo sempre que ouvia sua voz rouca soar tão baixa e tão próxima daquela maneira.
Coração, isso não é hora de sofrer um ataque.
Minha respiração acelerou quando Harry me puxou ainda mais de encontro ao seu corpo e eu fechei os olhos quando seus dedos se enroscaram em meus cabelos. Logo, o gosto doce de sua boca invadiu a minha, e tudo o que eu queria era mais, mais e mais.
"Acho melhor... Irmos devagar" - Sussurrei contra seus lábios quando me dei conta de que estava pensando em ir além do beijo que estava se tornando mais urgente e um pouco agressivo. - "Com... Calma".
"Isso. Okay. Calma" - Harry apoiou sua testa contra a minha, puxando o ar com força. Oh, eu não era a única a estar sem fôlego por ali, huh? - "Calma..."
Ri baixinho, afundando minha cabeça na curvatura de seu pescoço depois que ele se ajeitou no amontoado de almofadas no canto da sala, puxando-me para deitar em seu peito. Com a mão espalmada sobre seu coração, pude sentir o quão forte ele batia. O meu não devia estar muito diferente.
Beijei calidamente a linha de seu maxilar, seguindo em direção ao seu queixo, fazendo-o contrair a mandíbula.
"... Assim você não me ajuda!"
"Desculpe!" - Pedi, mas sem me sentir realmente culpada. Era ótimo saber que eu tinha tanto poder sobre ele. Pelo menos, eu não era a única a sofrer de taquicardia sempre que ele estava por perto.
Harry beijou minha testa, fechando os olhos quando comecei a afagar seus cabelos. Fiquei longos minutos daquela forma, até que meu braço cansou daquela posição. Qualquer um me acharia uma boba se visse essa cena, mas eu me pus a observá-lo dormindo com um sorriso enviesado nos lábios.
Seus traços suaves, a sua respiração agora compassada... Era tudo perfeito. Harry era perfeito e eu me sentia lisonjeada por tê-lo para mim. Eu não era nem de longe parecida com ele. Sempre teimosa, descrente, e até um pouco bruta, às vezes. Não levo jeito para sentimentos, embora esteja me saindo muito bem. E, o mais importante de tudo: eu não era nem um pouco sexy.
Oh céus, Harry Judd está sofrendo de miopia. Ou o cupido dele é bem burro. Mas tudo bem, melhor para mim, não?
"Eu te amo tanto". - Sussurrei com um pequeno sorriso bobo nos lábios, voltando a adormecer aninhada em seus braços.
O meu porto seguro.
~×
No domingo pela manhã, fui acordada pelo som distante de algum celular tocando. Com certa dificuldade levantei minha cabeça do travesseiro macio, tateando cegamente o colchão na busca do aparelho que insistia em tocar aquela música irritante. Ao invés de encontrá-lo, acabei acertando a cabeça de Tom.
"Outch!" - Ele resmungou, levando uma mão ao olho atingido. - ", um dia você ainda vai conseguir deixar um hematoma aqui!"
"Desculpa..." - Murmurei, voltando a fechar os olhos. - "Manda o Bruce calar a boca! Eu não mereço isso à essa hora da manhã..."
"Danny. Danny, seu celular tá tocando!" - Tom cutucou Danny que estava deitado ao seu lado, fazendo-o resmungar algo incompreensível. Acho que ele estava sonhando com Muffins gigantes que queriam devorá-lo. Pelo menos foi o que ele gritou antes de abrir os olhos. - "Atende logo essa porcaria".
"Por que essa falação toda de madrugada?" - Dougie reclamou e de onde eu estava, deitada rente ao sofá não conseguia distinguir de onde sua voz partia. - "Vocês não sabem ficar quietos?"
"Pronto, agora só falta o Harry acordar e começar a falar também." - Tom cutucou a barriga de Harry que estava deitado no sofá, aquele no qual eu estava encostada, fazendo-o acordar assustado. - "Diga alguma coisa e eu bato em você!"
"Quê?" - Harry abriu um olho só, encarando confuso o dedo de Tom que estava apontado em sua direção.
Sonolentos, mas finalmente, éramos nós novamente. Brincando e resmungando um com o outro, dando risadas e fazendo todos rirem. A nossa sala de estar parecia um acampamento de crianças desordeiras.
No meio da madrugada, alguém resolveu que dormir no chão não era muito legal e trouxe todos os colchões para sala. Eu me lembro de tudo vagamente. Harry e Tom foram os que se prontificaram a trazer os colchões para baixo, enquanto Dougie, Danny e eu cochilávamos de qualquer jeito no sofá. Acho até que rolou algum papo sem sentido entre nós, mas eu não lembro exatamente sobre o que era.
Depois de mais algumas palavras, Danny encontrou seu celular, não antes de tropeçar em Dougie e cair sentado no chão com um baque surdo. Rolei meus olhos, acompanhando Tom num riso calmo. Harry voltou a cochilar e em seu rosto havia um pequeno sorriso suave, o sorriso que ele me deu depois de sussurrar bom dia.
Deus, eu não quero ficar sem isso nunca.
Sem Harry com seu charme, sem Tom com suas reclamações, sem Danny com suas trapalhadas, sem Dougie com suas esquisitices. É bastante compreensível que eu esteja com medo de perdê-los, não é?
Quando você se acostuma com alguma coisa, alguma realmente magnífica, pode ser egoísmo e tudo, mas você quer que isso seja seu para sempre.
No fundo, no fundo, eu estava morrendo de ciúmes de todos eles. Principalmente de Harry, claro.
"Crianças, hora do café!"
Mamãe Fletcher apareceu na sala e para eles, foi como a aparição do sol depois de muitos anos na escuridão. Os olhos de ambos, até mesmo de Harry, que ao ouvir o chamado de minha mãe acordara, brilhavam encantados.
Danny foi o primeiro a levantar, correndo até minha mãe e abrançando-a fortemente, fazendo-a rir. Não demorou para que Dougie, Tom e Harry fizessem o mesmo.
Mamãe ria da euforia repentina dos garotos, enquanto eu sorria ao vê-los seguirem para a copa. Mamãe me esperou ainda parada no mesmo lugar, estendendo um braço em minha direção para que eu pudesse me aconchegar em seu abraço. Depositou um beijo demorado em minha testa, acariciando meus cabelos revoltos carinhosamente.
"Bom dia, querida. Como passou a noite?"
"Graças aos céus, eu estava cansada demais para ouvir a sinfonia de roncos dos meninos. Com certeza eles devem ter roncado demais."
"Ah, eu podia jurar que havia quatro moto-serras funcionando aqui embaixo e uma fazendo coro ao meu lado na noite passada"
Mamãe riu e eu a acompanhei, deixandos os meninos confusos enquanto tomávamos nossos lugares na mesa. Papai conversava alguma coisa animadamente com eles e eu lhe dei um bom dia sorridente depois de roubar a panqueca de Tom.
E foi tomada por uma sensação boa de nostalgia que o café se seguiu naquela manhã.
~×
As horas haviam passado depressa demais e não tínhamos feito quase nada depois do café da manhã. Bom, eu não fiz quase nada depois do café. Tom e os meninos resolveram muitas coisas, cada qual agindo de uma maneira. Tom passou o dia todo entre o celular e a internet, enquanto Harry, Danny e Dougie entraram e saíram de casa tantas vezes que eu parei de contar depois da décima vez que a porta foi aberta.
Naquela noite, eles fariam a primeira apresentação pela Island. Uma apresentação grande. Uma apresentação de verdade. Não que as outras fossem de brincadeira ou não valessem, mas, é que agora era diferente. Eles iam gravar um CD!
Deus, isso é surreal demais!
Mas eu tenho certeza de que eles não cairão no esquecimento. Eu sei que muitas bandas formadas por adolescentes viram febre quando são lançadas, mas depois perdem aquela magia e caem na vala dos fracassados. Eles não teriam esse futuro. Eu sei apenas de olhar para eles. De saber quem eles são de verdade e conhecer bem os valores de cada um. Há carisma e companheirismo acima de tudo. Tudo o que vem de positivo é consequência da boa personalidade que esses garotos possuem.
Olha eu aqui, agindo como uma mãe coruja chorona.
Bom, melhor me preocupar em me arrumar e caprichar na maquiagem à prova d'água, porque eu não tenho dúvidas de que eu vou chorar muito quando ver meus meninos em cima de um palco com um público realmente grande gritando por eles. Eu vou até me comportar e não vou surtar caso comecem a gritar pelo nome do meu namorado.
Afinal de contas, eu sou a namorada dele, por mais que outras centenas e centenas de garotas digam que o amam ou coisa parecida. Apenas eu conheço o quão encantador e irritante pode ser Harry Mark Christopher Judd.
E eu não troco isso por nada nesse mundo.
Meu celular começou a tocar e no mesmo instante um sorriso nasceu em meus lábios. Era a nossa música que anunciava que Harry havia me mandado um torpedo.
Mensagem recebida de Hazz às 17hr55min.
Completamente eufórico e morrendo de vontade de dar um abraço na minha garota. Tom não pára de mexer num tal de Myspace, Danny não pára de falar e eu acho que o Dougie está prestes à vomitar. Cadê você no meio dessa loucura? xx
Larguei tudo o que estava prestes a fazer, e me joguei na cama, digitando a resposta rapidamente.
Mensagem enviada para Hazz às 17hr59min.
Eu estou pronta para estar na primeira fileira de um grande show hoje à noite, gritando alucinada por um tal de um baterista chamado Harry Judd. Você conhece?
- Querida, melhor se arrumar, não queremos perder a hora! - Mamãe Fletcher colocou a cabeça para dentro de meu quarto, enquanto travava uma batalha com seu brinco de pérola para ocasiões extremamente importantes. Ela acreditava que dava sorte. Não que eles fossem precisar. Qual é, uma banda com a voz de Tom Fletcher e Danny Jones? É sucesso na certa. Modéstia a parte, é claro. - Vamos, vamos!
Antes de deixar o celular de lado para terminar de me arrumar li rapidamente a resposta de Harry, sentindo o coração apertar em meu peito numa mistura de saudade, euforia e orgulho.
Mensagem recebida de Hazz às 18hr04min.
O cara mais sortudo de toda Inglaterra, sem sombras de dúvidas.
Te espero aqui.
Hazz xx
Roupas ajeitadas, cabelos penteados, maquiagem à prova d'água. Tudo em seu devido lugar. Bom, quase tudo. Meu fôlego se perdeu em alguma parte do meu quarto, porque desde que entrara no carro e desde que colocara os pés na arquibancada, na primeira fileira como havia prometido, eu não conseguia respirar direito. E mesmo assim, o sorriso orgulhoso não deixou meus lábios um segundo sequer. Meus pais não estavam muito diferentes.
Demorou mais alguns minutos até que eles aparecessem.
E quando eles apareceram, eu quase perdi o resto do ar que me mantinha viva. Foi como um sonho. Um sonho muito irreal. De repente, aqueles garotos que estruturavam boa parte da minha vida me pareceram desconhecidos, daquela maneira que nos sentimos ao ver o nosso ídolo se apresentando pela primeira vez. Você nunca falou com ele, ele nem sequer sabe da sua existência, mas ainda assim você sente aquela proximidade que ninguém é capaz de explicar.
Claro que eu conhecia muito bem aqueles quatro moleques. Mas naquele momento eu senti que estava diante de grandes futuros ídolos de uma nova geração e por um breve segundo, foi como se nunca tivessemos nos conhecido. Mas isso durou apenas aquele breve segundo, pois assim que Danny me viu e abriu aquele sorriso com aquele monte de dentes, eu soube que sempre estaria ali para eles. Para sempre.
Ai senhor, o show mal começou e eu já estou chorando!
Respirei fundo e deixei toda minha felicidade se misturar à deles, cantando e sorrindo como uma maluca.
Bom, acho toda verdadeira fã de alguma banda por aí sabe como é se sentir assim.
Como se ali estivesse toda sua vida, narrada em canções que foram feitas para você e para milhares de outras garotas espalhadas pelo mundo inteiro.
"Obrigado pela presença de todos vocês!" - Danny exclamou e muitos assovios eclodiram pelo ar. - "Hoje foi realmente uma grande noite!"
Eu não tinha mais fôlego, eu não tinha mais voz, eu não tinha mais minhas bochechas, de tanto que eu sorri aquela noite. Mas eu estava feliz. Realmente feliz.
Eu nunca vi público tão animado quanto aquele que estava presente, praticamente lotando o pequeno estádio de futebol. Mesmo tendo ouvido algumas coisas que não me agradaram muito, eu estava feliz demais.
Eu mal via a hora de poder abraçá-los...
E parece que muitas outras garotas também queriam a mesma coisa.
A porta do camarim estava completamente abarrotada de garotas. Apenas as carecas dos seguranças podiam ser vistas, mas eram quase nada no meio de tantas cores de cabelos por ali. E se eu não me engano, acho que vi duas ou três garotas com cinco cores no cabelo. Wow. A que níveis estamos logo na primeira apresentação do McFly? Isso me assusta um pouco.
Fui ganhando espaço por entre os corpos que pulavam e se espremiam umas contra as outras, praticamente suspirando de alívio quando consegui chegar perto do segurança que bloqueava a passagem. Não é exagero meu dizer que eu praticamente tive que olhar para cima para falar com ele.
E cara de bonzinho é o que ele não tinha, devo dizer.
O lado bom foi que alguém lembrou de avisar que eu talvez fosse aparecer por ali e então, assim que eu disse meu nome, o armário em forma de gente abriu uma pequena brecha, voltando à sua posição quando eu passei pela porta. Novamente, suspirei de alívio quando venci aquele enorme obstáculo.
Antes que eu pudesse abrir meus olhos e retomar meu fôlego, quatro pares de braços me prensaram contra seus corpos suados e que não cheiravam nada bem.
"Eca!" - Gritei quando eles afrouxaram o aperto, o bastante apenas para erguer minha cabeça. - "Vocês não podem parar com essa mania de abraçar os outros quando estão fedidos?"
"É a recompensa de uma noite incrível!" - Danny me soltou, erguendo os braços e rodopiando pela sala. Eu já comentei que ele não é muito normal, não é? - "Dudes, eu quero fazer isso pro resto da minha vida!"
Sorri, esquecendo-me do meu pequeno momento de irritação, sendo abandonada por Tom e Dougie, sentindo agora apenas os braços de Harry em volta de meus ombros. Passei meus dedos pelos seus cabelos suados, não conseguindo reprimir uma careta ao sentir o suor que ensopava a gola de sua camiseta. Harry sorriu maroto, começando uma trilha de beijos que começou na minha testa e acabou em meus lábios.
Sorri duas vezes durante o beijo, apertando o corpo de Harry cada vez mais forte contra o meu. Hipocrisia seria dizer que eu não queria fundir nossos corpos em um só.
"Hey, se vocês não notaram, nós ainda estamos aqui!" - Tom exclamou, jogando uma toalha molhada de suor em cima de nós dois. O que foi o bastante para que eu me afastasse de Harry e começasse a correr atrás de Tom.
Corremos em círculos por alguns minutos até que eu cansei, e ainda rindo me joguei no sofá, observando meu irmão dançar desengonçadamente com uma careta convencida. Rolei meus olhos, chamando Harry para se sentar ao meu lado. Com um sorriso doce ele prontamente me atendeu, entrelaçando nossas mãos assim que apoiei minha cabeça em seu ombro.
“Vocês foram realmente incríveis. Estou tão orgulhosa!”
Os quatro garotos ao meu redor exclamaram um “awn” exagerado, fazendo-me rolar os olhos. Dougie sorriu depois para mim e Danny sentou-se ao meu lado, dando um tapa no joelho de Harry praticamente se jogando em cima de meu colo.
“De verdade, eu realmente quero fazer isso pro resto da minha vida”. – Danny disse depois que todos subitamente ficaram em silêncio. Vale ressaltar que esses momentos duram por pouco tempo, graças a habilidade de Danny de não ficar quieto. Eu gostava daquilo.
“Eu também. É como... Como se sentir 100% vivo”. – Tom, sempre o mais filosófico. Eu também gostava daquilo. – “A música fala mais do que as palavras convencionais. E é realmente gratificante ter esse poder. De usar a música para dizer tudo aquilo que queremos”.
“Vocês são os melhores músicos que eu conheço. Eu é que sou grata por ter vocês na minha vida. Por vocês serem meus antes de pertencer a qualquer outra pessoa” – Sorri para os rostos suados dos meus meninos, beijando calidamente os lábios de Harry depois.
Eu não tinha palavras – nem canções – suficientes para dizer o quanto eu estava feliz naquele momento. Eu estava feliz por ter o melhor namorado do mundo, por ter um irmão incrível como o Tom e amigos igualmente excepcionais como Danny e Dougie. E eu estava ainda mais feliz por eles terem realizado o sonho deles e eu tinha certeza de que eles iriam muito longe.
E eu queria mais do que nunca fazer parte daquele sonho, para sempre.
Não posso suportar a idéia de alguma outra garota entrando naquele mundo mágico, o nosso mundo mágico. Sim, eu sei que uma hora eles arranjariam namoradas, mas eu não sei se lidaria bem com isso...
Eu sou extremamente possessiva e ciumenta quando se trata do McFly todo.
“Um beijo pelos seus pensamentos?” – Harry sussurrou divertido, depositando um beijo quente em minha mandíbula, provocando arrepios por todo o meu corpo.
“Meus pensamentos valem muito mais do que apenas um beijo”.
“São tão importantes assim? Mais do que meu beijo?”
Harry fez um bico, franzindo suas sobrancelhas de um jeito fofo e perversamente sexy ao mesmo tempo.
Meu Deus. Eu tenho que parar com essa mania de achar tudo o que ele faz sexy.
E eu definitivamente tenho que parar de usar essa palavra.
Mas que culpa eu tenho se arranjei o namorado mais quente de toda Inglaterra?
Ok, foco. Foco. F-O-C-O.
Estou começando a sentir minhas bochechas esquentarem. E se fosse só as bochechas eu ficaria grata.
Limpei minha garganta disfarçadamente, concentrando-me apenas nos dois botões da camisa pólo que Harry usava...
...E que estavam abertas expondo seu peitoral definido singelamente.
Isso é uma conspiração do mundo contra mim??!
“?”
“Oi?” – Pisquei atônita, focalizando os olhos extremamente azuis de Harry sobre mim. – “Er, oi.”
“Oi.” – Ele respondeu sorridente, meneando sua cabeça enquanto me puxava para mais perto de seu corpo. – “To vendo que vou ter que usar minha tática especial de tortura...”
Antes que eu pudesse associar suas palavras, Harry enroscou uma de suas mãos nos meus cabelos, na altura de minha nuca, guiando lentamente o meu rosto em direção ao seu. Sua mão livre afagava gentilmente minha cintura, espalhando ondas devastadoras de calor por toda minha espinha. Um pequeno gemido escapou de meus lábios assim que senti os dele tocando a linha de minha mandíbula, descendo vagarosamente até meu queixo, onde ele depositou uma mordida suave.
Naquele momento esqueci que meu irmão e os outros estavam presentes na mesma sala, esqueci qualquer tipo de pensamento racional que pudesse existir dentro de mim. Deus, eu havia até esquecido qual era meu nome e em que planeta eu estava.
Aquele era o poder Judd sobre mim.
“Você... Tem que... Parar com isso” – Consegui dizer pausadamente, permanecendo com os olhos fechados e com a respiração ofegante, mesmo quando o carinho passou a ser menos perigoso.
“Parar com o quê?” – Harry voltou a brincar com minha sanidade, sussurrando em meu ouvido, mordiscando o lóbulo de minha orelha. – “Não quer que eu te beije mais?”
Minha respiração falhou quando ele se afastou, arqueando sua sobrancelha, mantendo seu olhar fixo sobre o meu. Eu não sabia se era pior ficar sob o domínio dos seus toques, ou do seu olhar. Ambos possuíam a capacidade de me enlouquecer.
Aquele momento intenso entre nós fora quebrado por toques ligeiros na porta, e mesmo que aquela bolha na qual estivemos presos nos últimos dois minutos aparentemente tivesse sumido, eu me sentia totalmente submersa naquela aura de sedução.
Céus. Estou perdendo completamente a minha sanidade.
E estou amando isso.
“Ah não, por favor, Tom!”
Resmunguei manhosa, encolhendo-me na cama enquanto meu irmão embolava o edredom e o jogava para longe de mim, abrindo as cortinas sem delicadeza alguma.
“Ninguém mandou você ir dormir tarde ! Agora anda, levanta e vai tomar um banho, você já está atrasada pra aula!”
Tom disse em tom autoritário, lembrando muito o senhor Fletcher. Bufei, irritada, sentando-me na cama enquanto Tom saía pelo meu quarto, gritando mais alguma coisa que eu não consegui entender muito bem.
Rumei para o banheiro ainda irritada, tomando um banho morno muito rápido, vestindo meu uniforme de qualquer maneira.
Eu geralmente não era daquelas que odiavam as segundas, mas especialmente naquele dia eu sentia que estava pronta para matar o primeiro que cruzasse meu caminho e fizesse cara feia.
Terminei de me arrumar, e desci para tomar o meu breve café da manhã, com o maior bico do mundo.
Não era justo que meu irmão pudesse ficar em casa e eu tivesse que ir pro colégio depois de um show como o de ontem. Eu ainda estava cansada!
“Por que essa cara emburrada, maninha?”
“Vê se não me enche, Thomas” – Rolei os olhos, enchendo um copo com suco.
“Bom, já vi que tem gente de mau humor hoje.” – Ele riu, depositando um beijo em minha testa. Contra minha vontade. – “Dougie passa aqui em dois minutos”.
“Você não vai me levar?”
“Harry foi dormir na casa do Danny ontem, temos alguns assuntos pra resolver na gravadora, então não ia dar tempo de fazer as duas coisas ao mesmo tem...”
“Tá, tá, entendi. Vai logo antes que você se atrase.”
“Você é o limão azedo mais lindo desse mundo!”
Tom não se atreveu a se aproximar de novo, mandando um beijo no ar e correndo para fora. Rolei os olhos novamente, mas depois me peguei rindo pelo nariz.
Um copo e meio de suco depois, Dougie apareceu na cozinha, assustando-me.
“Meu Deus, Doug! Você quer me matar do coração?!” – Perguntei aos berros, levando uma mão ao coração. – “Por onde você entrou?!”
“Pela porta...” – Ele apontou para trás, segurando o riso. – “Me desculpe, estava aberta e eu entrei”.
“Não faça mais isso!” - Disse, ainda com os olhos esbugalhados.
Dougie riu novamente, vindo até mim e envolvendo-me num abraço amigável. Inspirar o seu perfume me trouxe de volta a costumeira alegria que eu sentia todas as manhãs, fazendo-me novamente rir comigo mesma.
Era como se meu mundo girasse em torno deles, e das emoções que eles me faziam sentir.
“Pronta para o nosso martírio?”
“Não, mas não temos outra escolha, não é?”
“É o último ano. Temos que ser fortes e não desistir! Avante, nobre soldado!” – Dougie estufou o peito, marchando forçadamente até a sala.
Apanhei a minha mochila que estava jogada no cantinho da cozinha, seguindo meu amigo que ainda fingia ser um soldado.
Se tínhamos uma guerra ali, era sempre em nome da alegria.
Não tem como continuar de mau humor com Dougie Poynter ao seu lado. Não mesmo.
“Hey... Você está bem?”
Dougie desviou a atenção do chão, exibindo um sorriso murcho depois.
“To meio cansado do show ainda”
Eu concordei com um murmúrio, imitando a postura de Dougie ao caminhar. Suas mãos estavam pousadas nos bolsos do seu moletom, e ele voltara a caminhar olhando para o chão. Eu não estava acostumada a ficar sem assunto, principalmente com Dougie.
“E como foi hoje, com as garotas?”
“Como assim?” – Dougie ergueu minimamente sua cabeça, chacoalhando os ombros.
“Ah, vocês estão ficando famosos... É normal que algumas garotas tenham demonstrado interesse em você, já que é o único do McFly que continua estudando...”
“Só existe uma única garota naquele colégio que eu corresponderia ao interesse, caso ela demonstrasse algum interesse em mim.”
Dougie havia dito aquilo com tanta convicção – não em suas palavras, mas no seu olhar – que por alguns segundos eu fiquei emudecida. Meu coração falhou uma batida, e uma grande quantidade de sangue se acumulou em minhas bochechas, forçando-me a desviar os nossos olhares.
É claro que ele não havia dito aquilo pra mim. Não tinha como ser. Não podia ser
“Er... Você vai ficar pra almoçar?” – Não pude evitar de ficar aliviada quando paramos em frente à minha casa. Dougie estava estranho. E aquilo me deixava estranha também. – “Acho que minha mãe fez aquele bolo de carne que você gosta.”
Dougie olhou para a porta de entrada por alguns minutos, deixando um suspiro fraco escapar de seus lábios e os ombros caírem um pouco. Negou com a cabeça, depositando um beijo rápido em minha bochecha e se virando para partir.
Fiquei parada na porta de casa até a silhueta de Dougie sumir de vista, sentindo alguma coisa se remexer dentro de meu peito.
De alguma maneira, eu sabia que aquilo indicava problemas.
Suas mãos desenhavam cuidadosamente cada parte de meu corpo. Começou pelas pálpebras cedidas, indo em direção aos meus lábios, contornando-os delicadamente. Seus dedos, macios e quentes adornavam meu pescoço, arrepiando os pêlos de minha nuca com uma facilidade assombrosa. Com o mesmo cuidado, suas mãos desceram pelas minhas costas arqueadas, parando na base da mesma, por onde ele me puxou de encontro com seu corpo. Meu coração já não estava mais acelerado, eu já não sabia onde ele estava naquele momento. Eu só sabia que queria mais. Mais daquele calor vicioso, mais daquele toque inocentemente provocador.
Gentilmente, seus dedos invadiram o tecido fino da minha camisa, espalhando ondas irregulares de frio e calor conforme eles exploravam a pele de minha barriga e cintura.
Deixei a cabeça pender para frente, apoiando minha testa em seu ombro, inspirando seu perfume com obstinação. Um gemido baixo escapou de meus lábios quando a respiração descompassada dele bateu em meu ouvido.
Tomada pelo ardor do momento, procurei sua boca com a minha, sedenta pelo sabor de seus lábios. E quando os encontrei, foi como explodir de dentro pra fora e de fora para dentro. Não havia nada como o encaixe perfeito que nossos lábios faziam.
Com a mesma intensidade, ele levou seus lábios até o lóbulo de minha orelha, sussurrando meu nome num gemido provocante.
"Eu te amo, "
“NÃO!”
Sentei-me na cama em um salto, engasgando com o ar. Meu coração ainda batia acelerado e minhas costas estavam molhadas de suor. Levei as duas mãos aos cabelos revoltos, puxando-os para trás, a fim de afugentar o calor repentino que fazia ali.
Ainda assustada demais para pensar racionalmente, deixei minha cama tropegamente, descendo para a cozinha atrás de um copo de água. Água bem gelada.
Sem perceber, minhas mãos estavam trêmulas e tão quentes como o resto do corpo. Pelo reflexo na janela pude ver o quão vermelho estavam minhas bochechas.
Virei um, dois, três copos seguidamente, finalmente conseguindo controlar minha respiração. Eu não estava tão alterada pelo conteúdo do meu sonho, mas sim pelo fato de que, quem protagonizava aquele sonho não era Harry. Era Dougie.
Ai. Meu. Deus.
Sou uma pervertida que tem sonhos eróticos com o melhor amigo!
Fechei meus olhos, chacoalhando a cabeça com força, tentando afastar as imagens daquele sonho.
Com passos desajeitados e apressados segui para o banheiro, praticamente enfiando a cabeça debaixo da torneira. Fiquei ali, encarando o reflexo esperando que ele me explicasse o porquê daquele sonho sem sentido.
E o mais importante: por que eu estava tão quente daquela maneira?
“Você está com uma cara péssima!”
Tom comentou no café da manhã, e todos na mesa olharam em minha direção. Aparentemente, ninguém havia percebido as enormes olheiras até aquele momento. Instantaneamente senti minhas bochechas corarem quando o meu olhar buscou sem minha permissão os olhos de Dougie. Meneei com a cabeça exageradamente, voltando a prestar atenção nos meus cereais.
“Tive... pesadelos”
“AWN! Que coisa mais fofinha! Por que não me chamou? Eu assustaria os monstros debaixo da sua cama com meus super músculos” – Tom arregaçou as mangas de sua camiseta, fazendo caretas exageradas enquanto forçava os músculos de seus braços sobre a mesa.
“Tom, você não consegue nem assustar criancinha no Halloween.” – Eu respondi, tentando parecer despreocupada, mas ainda assim minha voz soou levemente estremecida. – “Quem dirá um monstro de verdade”.
“Outch, ! Assim você fere o meu ego de super herói”.
“Eu quis dizer que você é bonito demais pra assustar alguém” – Expliquei, levantando-me da mesa antes que minha situação piorasse. Por que diabos eu continuava vermelha? Ah claro, deve ser porque Dougie não para de olhar pra minha cara com um ponto enorme de interrogação sobre sua cabeça. – “Vou terminar de me arrumar”.
E saí da cozinha antes que qualquer um deles perguntasse qualquer coisa.
Eu não entendia o que estava acontecendo.
Fora apenas um sonho, não era mesmo? Aquilo não tinha nada a ver comigo, eu não tinha pedido para que sonhasse com Dougie! Aquela sensação esquisita ia passar. Eu não tinha porque sentir vergonha dele ou de nenhum deles, ninguém sabia da minha depravação. Novamente senti as bochechas esquentarem quando me lembrei do sonho.
Mas... Se era apenas um sonho, por que as sensações eram tão reais?
O calor, o conforto... O desejo.
Deus, eu nem havia me tocado de quão tentador Dougie podia ser quando queria e até mesmo sem querer. A seriedade que de vez em quando toma conta de sua feição, o ar misterioso que ronda seus olhos infantis... Sua voz sussurrando no meio da noite.
Por favor, que meus batimentos descontrolados e esse frio na barriga não signifiquem nada. Absolutamente nada.
Molhei meu rosto repetidas vezes na água gelada, evitando olhar para o reflexo no espelho. Eu tinha medo do que ele pudesse me mostrar.
Não que eu duvidasse do que eu sentia por Harry. Eu o amava. Oh, e como eu o amava! Mas não podia negar que também amava Dougie. De maneiras diferentes, mas eu o amava. O amor que eu sentia por Danny e Tom eram equivalentes... Mas o que eu sentia por Harry e Dougie pareciam disputar entre si, naquele momento.
Meneei minha cabeça novamente, tentando assim dispersar os pensamentos que estavam começando a me deixar confusa.
Respirei fundo três vezes antes de abrir a porta de banheiro, e quase caí para trás quando dei de cara com Harry. Por um milésimo de segundo eu fiquei sem reação, mas voltei a sentir meu corpo quando ele abriu seu sorriso maroto, puxando-me para roubar um beijo ligeiro. Acho que estava tão desnorteada que acabei beijando-o com menos intensidade do que costumava. E ele percebeu.
“O que foi?”
“Não foi nada” – Sorri amarelo, colando nossos lábios novamente, puxando-o pela nuca para que se aproximasse novamente. – “Eu só estou meio sonolenta ainda”.
Não era bem uma verdade, mas eu não podia simplesmente olhar pro meu namorado e dizer: Olha amor, estou internamente abalada porque tive sonhos eróticos com seu melhor amigo! Mesmo tendo passado quase a noite toda revirando na cama, eu não estava nem um pouco sonolenta.
“Pesadelos?” – Ele questionou, sussurrando em meu ouvido. – “Por que não me chamou para dormir com você? Eu afugentaria todos seus medos...”
Universo, pára de brincar comigo, por favor?
Senti um arrepio quando Harry depositou um beijo casto na base de meu pescoço, abraçando-me com mais força. Tive que me segurar em seus ombros para não desabar no meio do corredor como uma gelatina exposta ao sol.
Não vou ter coração até o final do dia, desse jeito.
“Hazz...”
“Hmm?” – Ele murmurou, ocupado demais para responder algo mais elaborado. Seus lábios quentes traçavam um caminho delirante por meu maxilar.
“Você... Eu... Corredor”.
“Me... Desculpe”.
Mas ele não parecia culpado. Seus lindos olhos azuis brilhavam ao me fitar, percebendo quão forte era sua influência sobre meus sentidos. Minha respiração estava descompassada e meus lábios ligeiramente inchados.
“Vamos logo antes que seja preciso chamar os bombeiros”. – Brinquei, entrelaçando meus dedos aos seus. – “Ou um cardiologista”.
Harry riu gostosamente, beijando o topo de minha cabeça enquanto descíamos as escadas de encontro ao restante dos meninos, que já estavam prontos para acompanhar Dougie e eu até o colégio. Engoli em seco quando chegamos na sala e novamente nossos olhares se encontraram.
Ah, aquele seria um longo dia.
“Então...” – Dougie coçou a nuca, caminhando ao meu lado chutando as pedrinhas na calçada. – “O que foi que aconteceu, ?”.
“Hmm?” – Contra a vontade da minha decência, levantei meus olhos do chão, firmando-os nos de Dougie.
“Você tá estranha hoje” - Dougie entortou os lábios de uma forma engraçada, mas eu não consegui rir.
“Não estou, não...” – Franzi uma sobrancelha, perguntando-me se deixei algo passar sem que percebesse. Eu o tratei normalmente – embora esteja sendo difícil não corar toda vez que olho para ele, como agora. – “Estou bem normal...”
“Não tá não. Pelo menos, não comigo”. Abri a boca, mas a fechei logo em seguida. Nenhuma desculpa seria o bastante. Nada do que eu dissesse faria aquele bendito sonho sumir de minha memória, e embora Dougie não tivesse culpa alguma daquilo, nada do que eu dissesse naquele momento poderia ajudá-lo a entender também. Então tudo o que eu podia fazer era simplesmente sorrir e deixar um suspiro cansado escapar de meus lábios.
“Desculpe-me, Dougie boy. É que eu ando meio... Aérea hoje. Não é nada com você” – menti. Hei, não me acuse por mentir deslavadamente. Eu não poderia simplesmente dizer: Estou extremamente constrangida por ter tido sonhos eróticos com você, me desculpe por ter me escondido de você na hora do almoço, ok?! Ao lembrar novamente do sonho, tive vontade de correr pra bem longe. Eu não sabia explicar o que sentia quando pensava sobre aquilo, era bem... Estranho.
“Hm... Entendo” – Ele assentiu, desviando nossos olhares. Paramos em frente a minha casa e sem delongas, Dougie depositou um beijo rápido em minha testa, fazendo a volta para ir pra sua casa.
“Me desculpe!”– Gritei, depois de me recuperar de sua aproximação. Aquilo não era bom. – “As coisas vão ficar normais logo!”
Dougie exibiu o tipo de sorriso que me fazia querer sorrir também. E naquele momento foi exatamente o que eu fiz. Abri um grande sorriso, sentindo um misto de calor, culpa e felicidade me corroer de dentro pra fora.
Eu enfim havia terminado meu dever de casa. Com um sorriso satisfeito, larguei o lápis sobre o caderno, observando-o rolar lentamente e cair no meu colo. Fechei os olhos por alguns segundos, alongando minhas costas na cadeira.
Olhei para o lado e me deparei com um Tom adormecido, babando no meu travesseiro. Um dia eu ainda vou descobrir por que os meninos gostam tanto da minha cama. Há uns meses atrás pedi pro meu pai comprar dois puffs imensos, mas quem disse que eles o usam? Quando eles resolvem se reunir no meu quarto, se espremem todos na minha cama. Vai entender.
Rolei meus olhos, sorrindo ao me levantar da cadeira para me sentar na beirada da cama, para afagar os cabelos revoltos de meu irmão. Tom praticamente ronronava enquanto eu passava os dedos entre os fios sedosos. Era tão irracional, mas eu sentia uma grande necessidade de protegê-lo. Como se eu fosse a irmã mais velha, aquela que quer pegá-lo no colo e afugentar qualquer dor ou medo. E vê-lo daquela maneira, tão relaxado, adormecido como um bebê, só fazia aumentar aquela sensação.
Eu seria capaz de qualquer coisa no mundo para nunca vê-lo sofrer.
“Tom... Hey!” – Sussurrei, agitando-o minimamente pelos ombros. – “Vai dormir no seu quarto, seu babão”.
Tom resmungou qualquer coisa parecida com 'não quero' e vendo que não conseguiria tirá-lo de lá tão cedo, ri pelo nariz, cobrindo-o com meu edredom antes de sair do quarto.
Na parte inferior havia apenas o silêncio e as cores fracas do entardecer. Mamãe e papai chegariam depois das nove, e provavelmente eu já estaria dormindo. Sem ter o que fazer ali, sentei-me no grande sofá de couro caramelado, fitando o nada.
Era bom ficar em silêncio, às vezes.
No silêncio encontramos respostas que nem mil vozes poderiam te dar.
Agora por exemplo, descobri que estou morrendo de saudades do meu namorado. Rabisquei um 'estou com Harry' no bloco de notas e deixei ao lado do telefone, vestindo um sueter leve por cima do vestido e saltitando porta afora.
Harry provavelmente estaria largado no sofá assistindo tevê, e ficar largada assistindo tevê com meu namorado. Era tudo o que eu poderia querer depois de uma tarde inteira de geometria, biologia e tudo mais que terminava em “ia”.
Cruzei o gramado que separava nossas casas, e gentilmente dei dois toques na porta. Eu não gostava da campainha da casa dos Judd’s. Ela sempre me dava choque. Um minuto se passou e ninguém atendeu, franzi minimamente minhas sobrancelhas. Do lado de dentro eu podia ouvir um zumbido fraco que vinha de alguma televisão ligada, então, isso queria dizer que havia gente em casa. Girei a maçaneta e constatei que a porta estava destrancada.
Não que eu gostasse de fazer aquilo, mas, como Harry sempre fazia aquilo em casa, fui entrando. Chamei pela senhora Judd, mesmo sabendo que ela não estaria ali. Encostei novamente a porta, ouvindo claramente o som do rádio vindo do andar de cima. Não pude conter o sorriso idiota ao pensar em Harry. Subi os degraus de dois em dois, parando um pouco no corredor de frente para a porta entre-aberta de seu quarto. Não havia um pingo de claridade ali, apenas a música ecoando num volume médio. É claro que ele nunca me ouviria daquela maneira. Empurrei a porta para o lado, chamando pelo seu nome na escuridão. Não obtive resposta logo a princípio, então, eu tive que abaixar o volume até que a melodia não passasse de um murmúrio para conseguir identificar sua respiração pesada ressoar pelo ambiente.
Eu deveria cogitar a possibilidade de que ele também estaria dormindo, é claro. Rolei os olhos, meneando minha cabeça. Aproximei-me da cama, sentando com cuidado na beirada, afagando na escuridão seus cabelos bagunçados.
“Hey, senhor preguiça..” – Sussurrei ao perceber que ele despertara, sorrindo tolamente. – “Bom dia”
“Hm... ...?”
“Sorte a sua que sim...” – brinquei, inclinando-me para encostar meus lábios nos seus. – “Já pensou se eu fosse uma serial killer? Não teria sobrado muita coisa de você agora...”
Harry remexeu-se na cama, ajeitando-se de modo que ficasse com a barriga para cima, puxando-me para que eu me deitasse em seu peito. Aos poucos minha visão se acostumou com a escuridão, e com o pouco de claridade que vinha do aparelho de som eu pude vislumbrar os contornos do rosto de Harry. E eu percebi que ele sorria minimamente enquanto colocava meus cabelos atrás de minhas orelhas.
“Realmente” – Ele concordou, fitando-me com tanta intensidade que eu perdi o fio do raciocínio, perguntando tolamente sobre o que ele falava. – “Eu sou um cara de muita sorte por ter você aqui comigo”.
“Eu diria, no mínimo, que você é muito louco...” – Sorri, ligeiramente encabulada.
“Louco por você, só se for!”
“Você não fica sem argumentos em nenhum momento, não é mesmo?” – Sorri, desenhando os contornos de seu maxilar com a ponta de meus dedos. Eu nunca ia me cansar daquilo. – “Eu te amo”.
Levei meus lábios até os seus, depositando inúmeros selinhos, afagando carinhosamente seus cabelos. Afastei-me o mínimo possível, apenas para poder olhar em seus olhos e me sentir completa como sempre me sentia ao seu lado.
“Hm... Eu acho que ainda não estou muito convencido...” – Harry disse em tom brincalhão, invertendo nossas posições com um movimento rápido, fazendo-me rir descontroladamente enquanto ele prendia seu corpo sob o meu. – “Acho que preciso de mais alguns milhões de beijos...”
“Não se preocupe, temos a eternidade de nossas vidas para que enfim eu consiga te convencer!”
“Não me importo de começar agora. Você se importa?”
“Nem um pouco”
Entrelacei meus dedos em seus cabelos, puxando-o com urgência para mim. Beijar Harry era algo inexplicavelmente bom. Não havia um único momento em que eu me cansava de explorar seus lábios tão possessivamente como agora. E não tenho vergonha nenhuma ao afirmar que sou completamente obcecada pelos seus beijos. Que eu sou completamente obcecada por Harry Judd e toda sua imperfeição.
Eu nunca quis que Harry fosse perfeito. Coisas perfeitas não existem. E quando existe dura pouco tempo. E naquele caso, eu não queria que acabasse quando o relógio marcasse meia-noite.
Harry não era meu conto de fadas. E eu o amava ainda assim.
Havíamos chegado a um ponto que o ar não entrava pelos nossos pulmões e, mesmo assim, não queríamos nos afastar um do outro. Geralmente eu me esquivo, talvez por medo ou até por timidez, mas, parecia tão certo deixar as coisas fluírem naturalmente que, tudo o que consegui fazer quando meu pulmão implorou por oxigênio, foi puxar Harry mais para perto. Se é que aquilo era realmente possível.
Suas mãos quentes e firmes apertavam a pele de minha cintura por cima do tecido fino do vestido. Este simples contato fazia-me agarrar com força na gola de sua camisa, desejando arrancá-la de seu corpo.
Como se acabasse de ler meu pensamento, Harry tirou-a em questão de segundos, e eu me perguntei quando foi que separamos nossos lábios... Quando ele se aproximou de mim novamente, seus lábios tomaram o rumo de meu maxilar, seguindo tortuosamente para meu pescoço, detendo-se ali, fazendo-me suspirar com cada beijo demorado e cada mordida provocante.
Eu sentia como se fosse capaz de entrar em combustão a qualquer segundo.
Ansiando por mais de seu corpo, mas ainda assim querendo que aquele momento se prolongasse, inverti nossas posições, ficando por cima de Harry. Com os dedos trêmulos, desenhei o contorno de seus lábios na escuridão, fechando os olhos ao sentir que ele sorria. Deus, como eu era feliz pelo simples fato dele estar sorrindo. Harry também passou a dedilhar os contornos de meu rosto, fazendo-me suspirar e abrir meus olhos, procurando pelos seus.
“Linda” – Ele sussurrou, e aquilo pareceu provocação suficiente para que eu procurasse seus lábios avidamente.
“Lindo”. – Mordisquei seu lábio inferior, sentindo-o estremecer sob meu corpo.
As mãos de Harry que estavam sob meus cabelos desceram vagarosamente pelas laterais de meu corpo, parando na barra de meu vestido. Por um momento, hesitei. Em meu íntimo, eu sabia que era com ele que eu queria que fosse... Bem, a minha primeira vez. Eu não tinha dúvidas nenhuma de que Harry era a pessoa certa, tinha certeza de que jamais me arrependeria de me entregar a ele. Harry era meu primeiro amor, era certo de que as coisas fossem assim, não é mesmo? Ele seria a lembrança perfeita por toda eternidade, assim como todos os momentos que passamos juntos.
Mas mesmo tendo aquela certeza, não parecia... Adequado agir pelo calor do momento. Não que eu quisesse que fosse uma coisa programada, eu queria que acontecesse naturalmente... Mas não naquele momento.
Fui diminuindo o ritmo de nosso beijo, pigarreando baixinho ao me afastar de Harry, que mantinha a respiração descompassada e os cabelos totalmente bagunçados. Eu não devia estar muito diferente. Sorri para seu semblante ofegante, repousando minha cabeça sobre seu colo, ouvindo seu coração batendo apressado. Um coração que batia por mim, assim como o meu batia por ele.
“Você sabe que eu te amo, não sabe Hazz?” – Sussurrei, escondendo meu rosto na curvatura de seu pescoço, inspirando seu perfume natural com afinco.
“E você também sabe que eu amo você, não sabe?” – Ele usava o mesmo tom, acariciando com certa dificuldade a base de minhas costas. Aquilo também não estava me ajudando muito. – “Amo mais do que qualquer coisa neste mundo”.
“Eu sei, Hazz. Não sei como, mas eu sei que me ama tanto quanto eu amo você. E eu sei que você vai entender se eu disser que... Bem... Eu não... Sabe... Estou pronta pra dar esse passo...” – Gaguejei em diversas partes da frase, fazendo Harry rir baixinho.
“Shiiu, minha pequena... Eu não pretendo fazer nada enquanto você não quiser que aconteça” – Senti seus lábios tocarem demoradamente minha testa, fazendo-me suspirar em alivio.
“Eu quero que aconteça, Hazz. Com você. Mas...”
“Mas do jeito certo e no momento certo” – Ele concluiu, e eu concordei com um murmúrio feliz. – “E quando acontecer, acredite, eu farei de tudo para que seja especial para você”.
Reprimi a onda de calor que brotou dentro de mim, contentando-me apenas em beijar seu pescoço com carinho. Mas eu devia imaginar que, contentamento e Harry Judd não cabiam na mesma frase.
Segundos depois estávamos nos beijando novamente, mas dessa vez tomamos o cuidado de não ultrapassar nenhum limite decididos por nós dois.
Eu sabia que tomara a decisão certa. E sabia que Harry cumpriria sua promessa.
Ele faria tudo ser especial para mim. Eternamente.
Querido diário,
Dizem que é impossível descobrir, antes da nossa meia idade, o nosso verdadeiro amor. Pois eu acho que quem disse isso, nunca viu como os olhos azuis de Harry brilham quando olham para mim, e não tenho dúvidas nenhuma de que os meus brilham tanto quanto qualquer corpo celeste quando estou com ele. Harry me dá conforto quando murmura canções de ninar quando estou deitada em seu colo. Ele me faz rir quando diz coisas bobas, e até mesmo quando me irrita. E Harry continua fazendo isso. Continua me irritando ao roubar minhas panquecas. Me irrita quando me desconcentra. Me irrita quando faz birra. E cada vez que ele faz isso, eu tenho mais certeza de que não conseguiria ficar sem ele. É impressionante como consigo amar Harry por completo, sem tirar seus defeitos ou diminuir suas qualidades. Eu o amo exatamente do jeito que ele é. O cara mais incrível que eu já conheci na minha vida. O baterista talentoso, o garoto cheio de mistérios e charme. Eu não poderia querer nada além disso, nada além da essência verdadeira que Harry nos transmite com um único sorriso, um único olhar. E, bizarramente, sei que ele sente o mesmo. Sei que ele me ama exatamente do jeito que sou. Eu acho que não mediria esforços para que aquele brilho nunca se apagasse.
Como dizer que tudo isso não é amor verdadeiro?
Sorri para o nada, brincando gentilmente com o pingente que brilhava singelo em meu pescoço. O coração que Harry me dera há sete anos atrás, o marco de uma história cheia de reviravoltas. Pensar em como tudo começou ainda me dava frios na barriga. Era quase inacreditável. Mas estava acontecendo, e eu nunca poderia explicar como era bom ter alguém como Harry para mim.
Como era bom ser dele, inteira e unicamente dele.
Fechei minha agenda velha e de um azul desbotado, guardando-a de volta ao seu lugar em meu criado mudo. Era uma manha nublada de quinta-feira e eu não havia ido para o colégio, por conta da preguiça que me fez perder o horário. Tom e Harry estavam na casa de Danny desde a noite anterior, e provavelmente ficariam lá até o final de semana. Essas coisas de banda eram mais complicadas do que eu imaginava. Bem, eu não imaginava como seria ter uma banda, mas para mim era basicamente aquilo que eu via sempre: eles se reuniam, ensaiavam, alguém criava as letras e depois outro alguém ajudava com os acordes e pronto. Mas não era só aquilo. Tinha produtores, agentes, gravadoras e uma pilha de outras coisas em letras miúdas em folhas de papel. Eu ficava perdida quando eles começavam a falar sobre aquele mundo que eles faziam parte agora, mas eu sempre sorria quando faziam questão de me contar tudo (mesmo que eu não entendesse nada de redes sociais e contratos). Aquilo importava muito para mim. Saber que eles queriam me deixar a par das novidades. E importava muito mais saber que, mesmo sendo desgastante e estressante, eles amavam aquilo.
Deitei na cama que arrumara minutos antes de começar a escrever, sentindo uma vontade imensa de me enfiar sob as cobertas novamente. Manhãs nubladas me davam preguiça. Fechei os olhos por alguns instantes, pensando em coisas aleatórias. Fiz listas do que precisava comprar no mercado; chequei os deveres domésticos que devia fazer, já que estava em casa e já que provavelmente Tom deixou uma bagunça sem tamanho na cozinha. Meu irmão poderia ter de organização o que ele tem de fome.
Um pequeno tremor de susto percorreu meu corpo quando meu celular vibrou repentinamente sobre o criado-mudo.
Enquanto me levantava para pegá-lo, indaguei-me quem poderia ser. A única pessoa que me mandava mensagem era Harry ou Tom, mas ambos estavam em reunião na gravadora e seus celulares estavam desligados. Mamãe Fletcher não era adepta de mensagens via celular, geralmente ela liga em casa quando precisa falar com a gente.
Ainda me perguntava quem poderia ser quando li o nome no visor e sem querer, meu coração acelerou uma batida, fazendo correr sangue fervente pelas veias.
Mensagem de Dougie às 11h57min
Hei... Posso dar uma passada aí na volta do colégio?
Doug xx
Li e reli a mensagem três vezes, e nas três vezes eu vi as letras, mas não conseguia formular uma frase que fizesse sentido. Um turbilhão de coisas sem nome colidiram dentro de mim. Meneei minha cabeça, tomando um pouco de ar e me sentando na cama, lendo com calma palavra por palavra, demorando mais um bom tempo antes de responder. Era estranho Dougie me mandar uma mensagem perguntando se poderia vir aqui, e era ainda mais estranho que eu me sentisse daquela maneira. Quer dizer, eu não sei ao certo como é que me sentia, mas a calmaria que me circundava instantes atrás deu lugar a uma agitação notável.
Por fim, digitei uma resposta absolutamente normal, procurando sentir-me normal.
Mensagem enviada para Dougie às 12h07min
Hei... Desde quando precisa perguntar?! É claro que pode.
Dois dias haviam se passado desde que tivera aquele pequeno incidente com Dougie (sem que ele fizesse idéia disso, é claro) e desde então eu não ficara mais sozinha com ele. Quero dizer, nós voltamos juntos do colégio naquele dia, e mesmo que o percurso tivesse durado apenas vinte minutos, o clima não era um dos mais harmoniosos. Dougie pode ser distraído e atrapalhado, mas é bem sensível. Ele capta as coisas rapidamente e isso me deixou contra a parede quando ele questionou meu comportamento evasivo dos últimos dias. Eu tinha em mente a decisão óbvia de que Harry era o único dono do meu coração e que nada iria me deixar confusa, mas algo em Dougie me fazia balançar.
Não que eu estivesse interessada nele, é claro.
Talvez seja consequência do sonho. É, pode ser isso. Foi tão real que, se eu não tivesse acordado e se eu fosse um pouco mais desligada do que eu já sou, eu poderia facilmente acreditar que rolara algo entre a gente.
Não que eu queira que role, que fique claro mais uma vez.
Droga! Por que é que eu tenho que ficar dando justificativa de tudo que falo sobre Dougie para mim mesma?!
Deixei minha cama, trocando meus pijamas por uma calça jeans e um suéter lilás, calçando meus tênis e prendendo os cabelos revoltos num rabo de cavalo frouxo, procurando não me preocupar demais com os detalhes.
Eu não precisava ficar bonita. Era apenas Dougie. Apenas Doug com aqueles olhinhos azuis acinzentados...
Alguém me ensina como ativar o comando Cala boca, consciência?
Novamente, um tremor de susto percorreu minha espinha quando a campainha ressoou audivelmente pela casa. Inspirei uma grande quantidade de ar, pulando os degraus de dois em dois, segurando-me no corrimão para não cair.
Antes de abrir a porta, relaxei meus ombros tensos e expressões do rosto, tentando parecer o mais normal possível. Mas foi impossível não esboçar um grande sorriso ao ver a silhueta de Dougie na minha porta, carregando a mochila por uma alça só em seu ombro direito, enquanto o lado esquerdo estava apoiado despreocupadamente na parede. Era como se ele ficasse exuberante sem perceber e nos fizesse pensar que fora tudo milimetricamente calculado. Dispersei os pensamentos sem sentido, abraçando-o com um movimento que me pareceu totalmente autônomo. A parte sã (e ainda envergonhada, diga-se de passagem) de minha consciência dizia que não devia, mas meu corpo pedia pelo contato de nossas peles, que era tão habitual desde... Desde sempre. Antes de namorar Harry, Dougie costumava ser aquele com o qual eu ficava abraçada no quintal ou quando assistíamos filmes.
Claro que tudo mudou.
Principalmente a reação de meu coração ao sentir seus dedos se firmarem em meus braços e sua respiração bater em minha nuca.
“Tudo isso é saudade?” – Ele riu ao se afastar, fitando-me com um sorriso nos olhos também. Se é que aquilo era realmente possível.
“É... A-acho que sim” – Respondi, tentando disfarçar minha repentina desconcentração. – “Então, como foi seu dia hoje?”
“Muito chato” – Dougie suspirou e rolou os olhos teatralmente, fazendo-me rolar os olhos também. – “Por que não foi hoje?”
“Perdi a hora”
“Tendo pesadelos novamente?”
Ok, sei que Dougie perguntou aquilo porque queria zombar de minha cara, mas por um segundo, por um centésimo de segundo eu achei que ele soubesse do sonho. Inevitavelmente minhas bochechas passaram de branco transparente para vermelho pimentão.
“Hei, eu estava brincando!” – Dougie gargalhou, bagunçando meus cabelos como Tom costumava fazer comigo. – “Também tenho pesadelos medonhos onde salamandras me devoram no jantar!”
“Você é muito bobo, Dougie boy!”
Ele concordou e ficamos rindo até o silêncio surgir gradativamente. Não sei o que acontecia com a gente, sempre que tentava estabelecer o clima amigável que sempre existiu entre nós, repentinamente o ar se agitava e caíamos naquela atmosfera estranha. Era como um círculo vicioso. Um círculo onde Dougie passa de melhor amigo idiota para homem envolvente e sedutor e vice versa. Já eu neste círculo sou pêga por muitos sentimentos que eu nunca senti antes. Não por Dougie. Não dessa maneira tão confusa.
“Ahn... Estava indo para algum lugar?” – Ele pigarreou enquanto ajeitava a mochila em seu ombro, apontando para mim depois de me olhar de cima a baixo.
“Ah é! Vou dar um pulo no mercado, preciso comprar algumas coisas...”
“Certo... Então, acho que eu vou indo...” – Dougie desceu um degrau, e eu instantaneamente o puxei de volta, trazendo-o um pouco perto demais de mim.
“Claro que não! Você vai comigo!” – Tirei a mochila de Dougie de seu ombro e a joguei atrás da porta, fechando a mesma atrás de nós enquanto o empurrava pelos ombros escada abaixo. – “Ou você acha que eu vou carregar as sacolas sozinha?”
“Muito da exploradora você, viu?! Onde reclamo por abuso de autoridade das melhores amigas?! E os meus direitos de...”
“Ah Dougie, fica quieto e anda!”
“Além de tudo é mandona!”
Tudo que fiz foi rolar os olhos, caminhando ao lado daquele que descobri significar muito para minha vida. Muito a ponto de sequer cogitar a hipótese de me afastar. Mesmo que isso significasse um redemoinho de confusão interna para mim.
Dez minutos – e muitas risadas – depois, estávamos no mercado razoavelmente cheio. Dougie fazia gracinhas de segundo em segundo, e aquilo me fazia esquecer o que eu precisava comprar.
“Dougie, se eu soubesse que você era pior que o Danny no mercado, teria deixado você em casa!”
“Desculpa!” – Ele riu, fazendo sinais de que iria se comportar, e aquilo só me fez rir ainda mais. – “Mas eu ainda acho que aquela senhora estava desejando meu corpo sensual! Mané precisa de aspargos o quê! Ela queria era uma desculpa para vir falar comigo!”
“Dougie, aquela senhora mal enxergava direito!”
“Outch. Nossa, essa doeu!” – Dougie encenou um choro, fazendo-me rolar os olhos e dar-lhe um tapa no braço. As pessoas já começavam a achar que Dougie tinha algum problema. – “Obrigado por me chamar de horrível sem um pingo de piedade! Você assassinou o meu ego!”
“Dougie, pára de fazer escândalo!” – Sorri amarelo para uma senhora que passava pelo corredor, balançando a cabeça negativamente para nossos comportamentos. – “Vai, pega aquela lata de molho ali em cima para mim!”
“Viu, até você, que me chama de horrível precisa de mim para alguma coisa”.
“Eu nunca disse que não preciso de você.” – Dougie sorriu sincero, e aquilo fez uma onda de calor atravessar meu coração. – “Ta, ta, sem sentimentalismo em público! Pega logo a lata, Poynter!”
“Ok, ok! Você venceu, vamos agir como dois adultos comportados no mercado” – Dougie estufou o peito, colocou a camisa dentro da bermuda e engrossou a voz ao falar. – “E então querida, você prefere o molho tradicional, ou o levemente apimentado?”
Dougie parecia um modelo de molhos de tomate com prisão de ventre. Chegar naquela conclusão só me fez gargalhar como uma condenada no meio do corredor.
“Ah , qual é! Se decide: ou somos completos babacas ou não somos nada!”
“Des... Ai Deus, minha barriga dói de tanto rir! Me desculpe. Vamos comprar as coisas de uma vez e ir pra casa”
“Você me mata de vergonha! Se soubesse que era pior que o Danny, te deixava em casa, menina!”
~×
“Hmm! A minha macarronada está uma delícia!” – Dougie exclamou com um sorriso debochado. Atirei o pano de prato que estava em meu colo em sua direção, fazendo-o rir ainda mais.
“Sua macarronada, né? O máximo que você fez foi colocar a água pra ferver!”
“Ué, se eu não tivesse fervido a água, como você cozinharia o macarrão?” – Dougie fez uma cara convencida, estufando o peito exageradamente, o que só me fez rir ainda mais e engasgar com a comida.
“Convencido!”
“Invejosa!”
“Ta se achando demais já, hein?!”
“Fala sério, você não vive sem mim!” – Dougie riu, imitando um gay presunçoso e escandaloso.
Mas, naquele almoço naquele final de tarde eu percebi que era verdade. Por mais que Dougie conseguisse bagunçar minha cabeça, eu não poderia ficar sem ele. Eu nunca conseguiria. Dougie era uma das melhores partes da minha vida.
A parte que envolvia o nascimento do McFly, minha adolescência e principalmente as batidas do meu coração.
“Eu estou com sono!”
“Você não vai me deixar ir sozinha pro colégio. Anda Dougie boy, levanta!”
“Me recuso a abandonar minha cama. Ela precisa de mim!”
“Eu vou contar até cinco!”
“Não seria até dez?”
“Um... Cinco!”
“Hey, isso não vale!” – Dougie protestou, enfiando a cabeça debaixo do travesseiro, enquanto eu terminava de puxar o edredom. – “, é sério, não quero ir pro colégio hoje...”
“Também estou falando sério, Dougie! É seu dever me acompanhar até o colégio!”
“Ninguém vai te sequestrar no meio do caminho.”
“Nunca se sabe! Vai que aparece algum maníaco e eu não tenho você do meu lado? Quem é que vai assustá-lo, afinal de contas?!”
Dougie descobriu a cabeça, fitando-me com indignação. Eu desatei a rir, perdendo até o fôlego.
“Ah, você me paga sua baixinha!”
“Olha o sujo falando do mal lavado!”
Não pude deixar de soltar um grito agudo seguido de uma gargalhada quando Dougie pulou da cama, correndo atrás de mim bufando ruidosamente como um touro. Deixei seu quarto, atravessando o corredor e descendo as escadas tropegamente, quase caindo por duas vezes seguidas. Dougie gritava e ria, e eu tentava apenas não esbarrar em nada pelo caminho. Passamos pela cozinha onde sua mãe preparava o café, e eu só consegui parar de correr no quintal, quando por fim tropecei em meus próprios pés e fui ao chão. Dougie até tentou parar também, mas por estar quase me alcançando, acabou tropeçando em minhas pernas e caiu ao meu lado, alternando exclamações de dor e risos.
“Outch! Lembre-me de nunca mais correr atrás de você logo após acordar, por favor!”
“Você se machucou?” – Perguntei entre risos, virando-me para o seu lado, observando-o. Havia grama nos seus cabelos bagunçados. E aquilo me fez cair na gargalhada novamente. – “Ai Dougie, você está parecendo um gnomo com tanta grama na cabeça!”
Dougie virou seu rosto na minha direção, erguendo seu tronco e sustentando-se com uma mão apoiada no chão, enquanto a outra bagunçava ainda mais seus cabelos, fazendo toda a grama contida neles caírem sobre mim.
“Agora você é uma gnoma também!”
“AH! Não acredito que você fez isso!” – Minha vez de se passar por indignada. Semicerrei meus olhos, levantando-me para ficar na mesma altura que Dougie, arrancando tufos de grama e jogando sobre ele, como guerra de bolas de neve, sem a neve.
“Você quer guerra, não é mesmo?! Pois fique sabendo que eu sou o senhor da guerra da grama, e minha vingança será malig...” – A senhora Poynter gritou da janela da cozinha, chamando nossa atenção. – “Você escapou dessa vez, mas não pense que eu vou esquecer!”
Dougie se levantou, fazendo gestos e caretas exageradas, impedindo-me de levantar de tanto que ria. Fiquei deitada na grama macia, olhando para o céu azulado enquanto tentava recuperar o ar. Dougie rolou os olhos, dando meia volta quando viu que eu não o seguia para dentro da casa, passando um braço sob a dobra dos meus joelhos e apoiando minhas costas com a outra, erguendo-me do chão com facilidade.
“Hey, o que está fazendo?!”
“Carregando você, oras. Se ninguém te carrega, você não vai a lugar nenhum! É preguiçosa demais até mesmo para fazer a coisa que mais gosta, que é comer!”
“Você me chamou de comilona preguiçosa?!” – Cerrei meus olhos, abrindo minha boca em sinal de descrença.
“Não. Estou te chamando de preguiçosa comilona!” – Dei um tapa em seu ombro, fazendo-o rir. Dougie me deixou sentada na cadeira da cozinha, sentando-se ao meu lado.
“Meu Deus do céu, o que foi que vocês fizeram, crianças?!” – Senhora Poynter estalou a língua no céu da boca, espanando a grama presa em minha camisa. – “Estão todos sujos de terra! Como vão para o colégio assim?!”
“É fácil! Nós não vamos!” – Dougie fez pose de sabichão, sorrindo animado para mim.
~×
“E você achando que a gente ia conseguir matar aula hoje, huh?!” – Rolei os olhos para a face emburrada de Dougie, sorrindo sutilmente.
“Minha mãe não tem espírito esportivo mesmo! Até parece que ela nunca foi jovem...”
“Ah, não esquenta Dougie, esse é o último ano no colégio! Depois tudo vai ser diferente...”
“Exatamente por isso, ” – Dougie ficou sério, agitando o conteúdo de seu copo. – “Depois que estiver livre do colégio, vou ter outras responsabilidades maiores. Muito maiores”.
“Está falando da banda, não é?” – Mordisquei meu lábio inferior, brincando com o meu cadarço. – “Eu nem tinha parado para pensar que ano que vem tudo vai mudar”.
“Algumas coisas já mudaram” – Seus olhos azuis miraram os meus, e por segundos, achei que Dougie queria dizer outra coisa. Meu coração deu um pulo sobressaltado dentro do peito. – “Mas é o caminho que nós escolhemos, não é?! Quero aproveitar enquanto posso ser um adolescente comum”.
Um grupo de garotas do primeiro ano passou por nós, e todas elas sorriram para Dougie. Eu lancei minha cabeça para trás, rindo do constrangimento de meu amigo. Dougie era extremamente tímido e o fato de ter sido azarado por garotinhas na minha frente o fez engasgar com o ar.
“Não teve graça”. – Ele murmurou quando parou de tossir, dando a língua para mim exatamente como um garotinho mimado.
“Teve um pouco!”
“Ah, fica quieta!” – Dougie rolou os olhos, tomando o restante de seu suco, levantando-se da mesa e estendendo uma mão em minha direção. – “Vamos dar uma volta antes que o sono me consuma aqui mesmo!”.
Sorrindo, aceitei sua mão que me puxou para perto de si. Dougie passou um braço sobre meus ombros, descansando a outra dentro do bolso de seu moletom.
Havia algo de errado no fato de eu não me sentir incomodada com os olhares sobre nós nesse momento? Não era bem como se eu tivesse algo para esconder, não é mesmo?
Passamos pelo refeitório e descemos as escadas que levavam à área descoberta do ginásio. As poucas pessoas que estavam ali estavam entretidas demais em seus livros para reparar em nós, e eu fiquei grata por aquilo. Depois que meu irmão e o McFly começaram a crescer, as pessoas me olhavam como se eu fosse diferente. Não sei explicar, mas era como se eu fosse poderosa e ao mesmo tempo em que elas invejassem isso, tinham medo de mim. Era realmente estranho.
“?”
“Huh?” – Pisquei e focalizei a figura de Dougie, olhando-me como se eu tivesse acabado de me materializar ao seu lado. – “Me desculpe, estava distraída. O que dizia?”
“Hm, nada demais” – Ele mudou de posição ao meu lado, de modo que eu não pudesse ver os seus olhos.
Eu detestava vê-lo daquela maneira. Dougie tendia a ser um pouco sentimental de vez em quando e, se ele está num dia que precisa de atenção e ninguém lhe dá, ele emburra como um bebê chorão.
“Hei, me desculpe! Não quis te ofender!” – Sacudi seu ombro exageradamente, mas ele continuava a me ignorar. – “Dougie! Fala comigo, seu tonto!”
Sem que eu pudesse esperar, Dougie se virou repentinamente, jogando seu peso para o meu lado esquerdo e me puxando consigo, fazendo nossos corpos rolarem pela grama. Quando finalmente paramos, a quase um metro de onde estávamos sentados, esperei que a vertigem passasse e acertei um soco leve no seu ombro. Dougie ainda estava deitado com a barriga pra cima, rindo feito um condenado.
“Estou cheia de grama! De novo!” – Exclamei, afanando as folhas verdes que se prendiam por todo o uniforme emprestado de Dougie.
“Eu disse que minha vingança seria maligna!”
Rolei os olhos, desistindo de ficar zangada e sorrindo também. Eu sentia que aos poucos as coisas iam se normalizando entre Dougie e eu. Quer dizer, para ele nada esteve errado, então era fácil para ele olhar dentro dos meus olhos e ser ele mesmo.
Depois de retirar toda a grama presa em meus cabelos com a ajuda de Dougie, que continuava rindo da sua idéia genial de vingança infantil, nós voltamos para nossas respectivas aulas.
~×
London, 11 de Outubro.
Querido diário;
Nem acredito que meu 18º aniversario está chegando! Faltam sete dias... Sete dias para que um novo ciclo comece... Meu Deus! Eu mantenho você comigo desde os meus quinze anos! Lembra-se? Não sei se começarei um novo quando você acabar... Temo que não seja a mesma coisa. Aqui estão minhas melhores lembranças da minha adolescência... E, por mais que eu não queira, sei que as coisas vão mudar. Eu sinto que vão mudar muito! Pretendo trabalhar no escritório de papai... Ou até mesmo com os garotos, fazendo alguma coisa no estúdio e nas turnês... Não seria o máximo? Eu estaria sendo paga para viajar pelo mundo com meus melhores amigos! Mas, voltando ao assunto do meu aniversário... Harry e os meninos estão querendo fazer uma grande festa de comemoração... Mas eu não estou tão animada. Quero dizer, é legal festejar e talz, mas eu queria algo mais simples. Caseiro é a palavra certa. Danny disse que um pub inaugurou semana passada em alguma parte do centro de Londres e mencionar ‘pub no centro de Londres’ automaticamente significa para mim: movimentação excedente de garotas dando em cima do meu irmão, do meu namorado e dos meus dois amigos idiotas. Eu sou muito ciumenta, é.
Vou tentar convencê-los de que não quero nada no meu aniversário. Talvez eu consiga persuadi-los com aquela minha carinha de cachorro sem dono ;)
“Vamos dar uma volta?”
Tom apareceu no meu quarto, assustando-me e fazendo assim, como que eu soltasse um grito de exclamação e soltasse minha agenda no chão. Levei uma mão ao coração, xingando-o carinhosamente enquanto ele me ajudava a apanhar os papeis que caíram de dentro da agenda.
“Você anda muito assustada, garota!”
“Não tenho culpa se você é tipo, muito assustador!” – Sorri abertamente enquanto Tom dava a língua para mim, fazendo uma imitação muito ruim da minha voz. – “Para onde vamos?”
“Sei lá, ao cinema, que tal?”
“Esta mais do que topado!” – Concordei animadamente, saltando nas costas de Tom quando ele virou-se para sair do meu quarto. – “Vamos todos?”
“Harry foi buscar Dougie e Danny. Podemos ir na frente... Ou será que você não ama mais o seu irmão e se recusará a acompanhá-lo enquanto o seu namorado não chega?”
Fingi pensar por alguns segundos, caindo na gargalhada quando Tom abriu a boca, fingindo estar chocado. Pedi dois minutos para trocar de roupa e dar um jeito na rebeldia do meu cabelo, escolhendo animadamente o que ia vestir. Tom murmurou algo como vou esperar lá embaixo porque toda essa movimentação me dá vertigem e deixou-me sozinha antes que eu pudesse perguntar qual das duas blusas eu deveria usar. Não era como se eu realmente precisasse de opinião masculina na hora de me vestir, mas era legal zombar com a cara de Tom.
Vinte minutos depois (milagrosamente Tom não reclamou da minha demora) estava na sala, chamando meu irmão para que fôssemos logo. Não queria chegar muito tarde em casa, pois tinha deveres para fazer. Tom demorou pelo menos mais quinze minutos para desligar o vídeo game, e claro que, compreensivamente, eu não reclamei. Meu irmão e eu funcionávamos assim: se um amenizava em alguma coisa, o outro também deveria amenizar em algum ponto. Mas, se um tinha o direito de reclamar, ah, o outro tinha direitos dobrados. Sei que na maioria dos casos não é exatamente assim que acontece, mas eu tenho a sorte de Tom ser meu irmão. (Não é porque ele é meu irmão não, Tom é realmente um em um milhão).
Pegamos nossos pertences e caminhamos de braços dados até o ponto de ônibus, conversando sobre amenidades e fazendo palhaçadas enquanto nosso transporte não chegava. E, mesmo depois de termos entrado no ônibus razoavelmente cheio naquela tarde de sábado, não paramos de rir. Era engraçado porque, se fosse algum tempo atrás, as pessoas ali iam pensar que éramos apenas dois adolescentes desocupados, mas agora, as pessoas que nos reconheciam cochichavam e sorriam timidamente, achando graça de tudo que Tom dizia ou das caretas que eu fazia para ele.
Quando isso acontecia, eu me perguntava quanto tempo levaria até que não pudéssemos mais sair na rua sem causar um pandemônio.
Meia hora depois, desembarcamos na frente do Cineworld, e perdemos longos minutos escolhendo e mudando de opinião sobre o filme que iríamos assistir.
Eu fui a primeira a ceder, e deixei Tom na fila do ingresso e fui comprar pipoca. Eu sabia que, mesmo que eu escolhesse um filme, Tom me faria assistir o que ele tinha escolhido, então, minha opinião não fazia diferença. Okay, exagerei um pouco na dose do drama. Ri comigo mesma, meneando a cabeça enquanto aguardava ser atendida.
Enquanto o casal da frente não se decidia se levava duas pipocas ou uma, saquei meu celular e digitei uma mensagem rápida para Harry, perguntando se ele demoraria muito para chegar.
Fiz meu pedido e, quando estava pronta para voltar e me encontrar com Tom, fui abordada por uma pessoa que eu realmente não estava a fim de cruzar hoje.
Respirei fundo e usei todo o estoque de educação que eu tinha naquele momento.
“O que é que você quer, Laureen?” – Usei um tom baixo, porém agressivo enquanto mirava a garota sorridente à minha frente.
“Ora, ora quem eu encontro aqui! Há quanto tempo não nos falamos, querida! Como está o seu namoradinho?”
“Ah, vê se não me amola, garota” – Cuspi as palavras, fazendo questão de bater meu ombro no seu quando passei por si.
“Espero que ele esteja bem...”
Eu sabia que ela estava querendo provocar. Eu sabia que não devia dar atenção à ela. Mas sabe quando você não consegue se controlar? Pois então, eu sou assim.
“Ele está comigo querida, é claro que ele está bem. Eu não sou dessas de que fica usando os outros sabe?” – Alfinetei e triunfante, percebi que a atingira. – “Agora se me dá licença, o meu namorado deve estar chegando e eu não quero perder meu tempo com você”.
“Quero ver se as coisas vão continuar assim depois de mostrar uma coisa para ele”.
“Do que é que você esta falando?”
“Não sou eu que estou dizendo... São as fotos”.
E, como se me mostrasse seu álbum de família, Laureen estendeu seu celular em minha direção, revelando uma imagem onde Dougie e eu estávamos abraçados. Desdenhosa, Laureen guardou o celular de volta na bolsa antes que eu pudesse entender o que ela pretendia e quebrar seu aparelho em dois.
“Não seja estúpida, eu não devo nada para ninguém. Isso não quer dizer nada”.
“Essa não, mas as outras... Especialmente aquela que vocês estão rolando na grama... Pode ser realmente que não exista nada entre você e Dougie, mas Harry pode interpretar isso como bem entender. E, se eu não me engano... Harry tem ciúmes de vocês dois, não é?”
“E desde quando é crime um namorado sentir ciúmes da sua namorada?”
“Desde quando ele deveria ser meu”
Minha mão formigou para acertar seu lindo rosto de garota mimada, mas a única coisa que eu consegui fazer foi gargalhar. Eu ri divertida, porque aquela era uma boa piada. Laureen me fulminava com seus olhos verdes e sabendo que aquela era a melhor escolha a ser feita, lhe dei as costas.
O que aconteceu em seguida foi realmente muito confuso para mim.
A calçada estava ligeiramente congestionada e eu tive a brilhante idéia de contornar o tráfego de pedestres pelo lado da rua. Era apenas questão de contornar um carro e voltar para a calçada... Mas subitamente senti a escuridão me roubar a visão e antes que ela me tragasse por completo, ouvi gritos. Um em especial, chamando pelo meu nome.
E então, eu apaguei.
Eu odeio quando meu cérebro dá uma pane e eu perco detalhes importantes das coisas que acontecem à minha volta.
Com um pouco de dificuldade e com dores que latejavam por todo meu corpo, abri meus olhos. Eu estava acordada há pouco tempo, mas meu cérebro dava giros de 360º graus dentro do meu crânio e a sensação não era muito boa, então preferi me certificar de que não vomitaria nem desmaiaria caso abrisse meus olhos. A primeira coisa que focalizei foi o teto branco que com certeza não fazia parte do meu quarto e muito menos do quarto de meu irmão. Com muito cuidado, virei meu rosto para meu lado direito e quando consegui focalizar os móveis, percebi que o quarto todo era branco. Ou pelo menos, a maioria das coisas ali eram brancas. Havia uns pontos marrons que deveriam ser tomadas ou coisa do tipo, mas não me detive nesses detalhes. Com o mesmo cuidado e mais lentidão do que antes, virei minha cabeça para meu lado esquerdo, encontrando o casaco de Tom sobre o sofá – e adivinhem qual era a cor dele? – mas não havia nenhum sinal dele.
Certo, eu sabia que estava em um quarto de hospital. Não, não era somente pela cor sem graça do ambiente, mas pelos aparelhos ao meu redor e especialmente pela agulha enfiada no meu braç... Oh, eu tenho um gesso no meu braço!
“Hei dudes, a bela adormecida acordou!”
Desviei rápido demais a atenção do meu braço em direção a porta, de onde muitas vozes se embaralhavam e fui obrigada a fechar os olhos com força, tentando controlar a tontura.
“Hei, não precisa fingir que está dormindo, eu já vi que você está acordada!” – Danny grasnou e todos em volta riram. Eu tentei sorrir, mas acho que não me saí muito bem. – “? Você tá bem?! Pelo amor de Deus, fala comigo!”
“Danny, pára de ser escandaloso. Só estou um pouco tonta...”
“Ah, então não temos nada de grave aqui!” – Ouvi Tom exclamar e eu contive a vontade de rolar os olhos. Aquilo não seria uma boa ideia. – “Você nos deu um susto, pequena”.
Finalmente senti as tonturas me deixarem, mas a sensação de que meu cérebro flutuava no vazio ainda não tinha passado. Semicerrei meus olhos, tentando manter a figura de meu irmão sentado na minha frente em foco.
“O... O que foi que houve?” – Perguntei confusa. As imagens iam passando rápido demais pela memória e eu não conseguia me concentrar em nenhuma delas.
“Você foi atropelada! Não se lembra?” – Em algum ponto do quarto a voz de minha mãe soou e embora parecesse tranquila, havia resquícios de preocupação em seu timbre. – “Seu irmão quase teve um troço quando viu o que estava acontecendo! Eu já não falei que você tem que prestar mais atenção quando for atravessar a rua, ?!”
“Tá tudo bem, mãe. Não fica enchendo a menina, ela acabou de acordar!” – Tom repreendeu minha mãe e os dois começaram uma pequena discussão engraçada. Mamãe quando ficava nervosa tendia a tagarelar e isso nos dava dor de cabeça.
“Mas eu não ia atravessar a rua...”
E como um estalo eu me lembrei. A fila da pipoca, a discussão com Laureen, a motocicleta vindo em alta velocidade.
Eu estava numa cama de hospital, com o braço engessado e a cabeça dolorida. Tudo por culpa daquela... Daquela...
“.”
A voz suave de Harry dizendo meu nome em um sopro de alívio, como se eu fosse um tipo de luz que surge para romper a escuridão me fez esquecer de absolutamente tudo. Por mais que aquilo me causasse enjôos, virei minha cabeça em direção à porta, por onde Harry vinha entrando com certa urgência. Ignorando também as dores em meu corpo, estendi meu braço bom para poder abraçá-lo e sentir seu perfume que tanto me fazia bem.
“Meu Deus, você quase me matou do coração!” – Ele dizia enquanto beijava repetidamente minha testa e bochechas. Como podia ser possível sentir dor com a coisa que eu mais amava no mundo? Isso é castigo demais!. – “Ai, me desculpe! Como está se sentindo?”
“Um pouco dolorida... E com um pouco de... Fome”.
Todos riram e o ar em volta de mim deixou de ser tenso. Assim que viram que eu estava bem, trataram de tagarelar sobre tudo e eu apenas me concentrei em não tombar para fora da cama.
~×
“Danny, isso não se parece nem um pouco com uma flor!” – Exclamei, dando um tapa na testa do Jones, que ria estupidamente. – “Pára de ficar fazendo essas coisas toscas no meu gesso!”
“Ah , eu sempre quis desenhar no gesso de alguém... Mas nunca conheci alguém com alguma parte do corpo quebrada!”
“Eu que bato a cabeça e você que fica lesado?” – Danny deu de ombros, admirando aquilo que ele dizia ser uma obra de arte sem me dar muita atenção.
Naquela tarde de Domingo, estávamos todos em meu quarto. Na verdade, eu nem cheguei a sair dele depois que acordei. Tive alta ontem mesmo e desde que coloquei meus pés dentro de casa, Tom e Harry não me deixam fazer absolutamente nada. É engraçadinho até, mas não gosto de vê-los tão preocupados assim. Eu só havia quebrado um braço e batido a cabeça no chão, que mal há nisso? Todo mundo quebra o braço alguma vez na vida (menos é claro, as pessoas que Danny conhece) e eu vivo batendo a cabeça. Mas mesmo com esse argumento, Harry não sossega e fica toda hora com aquela carinha de preocupação. Me fez prometer que não faria nada além de ficar sentada na minha cama assistindo tevê ou ouvindo musica. A promessa de Harry dava até para ser burlada, mas complicado mesmo era a vigilância de Tommy sobre mim.
Eles estavam levando realmente a sério a recomendação do médico de que eu não devia fazer esforço nenhum nas próximas 72 horas.
Então assim que amanheceu, Tom, Harry, Danny e Dougie se mudaram para o meu quarto. Harry trouxe meu café da manhã na cama e Danny se encarregou de trazer as canetinhas coloridas. Tom e Dougie estavam travando uma batalha colossal com a televisão que tentavam colocar pra dentro do meu quarto.
Eles literalmente se mudaram para o meu quarto, vocês não estão entendendo. Havia tênis e meias espalhadas pelo chão e resto de pizza em cima da cômoda. Eles vão transformar meu quarto numa zona de guerra em menos de um dia.
“Sai Danny, agora é a minha vez!” – Dougie tomou a canetinha de Danny, que fez um bico manhoso como um menino de sete anos que acabou de levar um sopapo de um garoto mais velho. (O que não era o caso, ali). – “Não sou nenhum artista, mas tenho certeza de que meus desenhos não se parecerão com borrões!”
“Borrão é o seu...”
“Jones!”
“Eu ia dizer nariz!” – Danny tentou argumentar e acabou desistindo quando eu não lhe dei mais atenção.
Dougie rolou os olhos exatamente como eu costumava fazer e passou a assoviar uma canção enquanto escolhia as cores que usaria. Eu sorri ao observar aquela cena. Eu realmente tinha muita sorte por ter aqueles idiotas na minha vida.
Dougie ainda desenhava um lagarto no meu gesso quando minha mãe entrou no quarto trazendo pedaços de bolo e refrigerante capaz de alimentar um exército. Analisou os desenhos de Danny e meneou a cabeça, o que rendeu muitas risadas entre nós. Emburrado, Danny passou a mudar os canais da tevê, deitando na minha cama e apoiando a cabeça na minha canela. Tom deitou no tapete e passou a discutir com Danny pára que voltasse nos canais que ele tirava. Dougie estava compenetrado na sua obra de arte e Harry tentava prestar atenção em tudo. Ora ele fazia comentários sobre os desenhos no meu gesso, ora assistia tevê e na maior parte do tempo checava minha temperatura e o curativo na minha testa.
Eu estava quase adormecendo quando Dougie terminou o seu desenho. Trouxe meu braço quebrado para mais perto, jogando a cabeça um pouco para o lado para poder ver o desenho completo.
“Uau Doug! Ficou lindo!”
Dougie desenhara uma iguana com hibiscos vermelhos, e ao longe ouvi Danny murmurar algo como puxa saco. Tom e Harry desataram a rir e Dougie apenas sorriu em resposta. Depois foi aquele fuzuê, porque todos queriam desenhar alguma coisa que me fizesse lembrar deles também. Só Danny que não quis arriscar nenhum outro desenho e eu lhe disse que não era preciso, porque sempre que olhasse aqueles rabiscos infantis, iria me lembrar de que fora ele que os desenhara. Danny era o único garoto idiota que eu conhecia que eu não tinha vontade de mandar pro espaço, se é que me entendem.
Tom desenhou um gato com grandes olhos amarelos e escreveu embaixo: eu amo meu irmão. Harry ameaçou rasurar os desenhos dos outros meninos e isso nos rendeu mais alguns minutos de bagunça. Vi meus bichinhos de pelúcia voarem de um lado para o outro e algumas canetinhas foram parar no quintal. Depois que ameacei chamar minha mãe com uma mensagem de texto, eles voltaram a se comportar. Dessa vez, Danny estava sentado do meu lado direito e Harry do esquerdo, onde ele ainda não sabia o que desenhar no meu gesso já multicolorido. Dougie ocupara o antigo lugar de Danny, deitando cuidadosamente em minhas canelas enquanto Tommy escolhia algum DVD para assistirmos.
Por fim, Harry escreveu centenas de "Harry Judd é o mais gato do McFly" e coisas do tipo "Danny é gay!". Desisti de tentar controlar aqueles garotos. Pelo menos, eu sempre poderia rir ao ver aquela coisa branca incômoda em meu braço e não me lembraria do motivo dela estar ali. (Mas isso não me fazia esquecer que, querendo ou não, a culpa por estar daquela maneira era de Laureen).
Quando já não havia mais nenhum espaço em branco no gesso e nenhum espaço vago na minha cama, nos calamos e prestamos atenção no filme que Tom colocara. E mesmo que estivesse entretida, eu tinha total consciência dos dedos mornos de Harry acariciando ora meu ombro, ora meus cabelos. E ter a certeza de que eu sempre teria aquilo - não somente seu carinho, mas como o carinho dos outros três rapazes me fez, mais uma vez, agradecer aos céus por tê-los do meu lado.
Nada importava mais do que eles. Nada.
~×
O período de 72 horas já havia passado, mas ainda assim ninguém me deixava sozinha. Em alguns momentos cheguei a me estressar com os cuidados excessivos de meu irmão e principalmente do meu namorado, mas depois eu acabava rindo e esquecendo meu nervosismo.
Mas, pensando bem, agora estou começando a me estressar novamente, porque nenhum dos quatro rapazes sentados na mesa me deixa falar.
"Eu acho que deveríamos fazer outra big festa em casa. Como no seu aniversário de quinze anos. Lembram que montamos aquele palco em cima da piscina? Foi muito foda!" - Tom dizia entusiasmado, sendo repreendido por olhares de nossa mãe sempre que deixava um palavrão escapar. - "Perdão o uso da palavra, mas não acho nenhuma outra que defina perfeitamente aquele dia!"
"Mas a está fazendo 18 anos! Não é todo dia que comemoramos 18 anos!" - Danny disse com uma seriedade que não era dele. Mas nem isso o poupou de ser zoado pelos outros garotos. - "Dããr, vocês entenderam o que eu quis dizer! É uma idade especial, ela está quase deixando de ser teenager para virar mulher! Acho justo comemorarmos naquele pub que inaugurou alguns dias atrás..."
"Que pub?" - Papai se envolveu na conversa, mastigando vagarosamente.
"Não me lembro o nome, senhor Fletcher... Mas é um lugar bem bacana!"
"Sei que em Camdem Town há uns pubs bem interessantes... Eu costumava ir lá quando era jovem..." - Papai disse em tom sonhador, como se lembrasse de algo que eu realmente não queria saber o que era. - "Seria interessante vocês irem algum dia desses num pub chamado The Lord".
"Hei, vocês estão tão animados que até parece que o aniversário é de vocês!" - Eu exclamei, rolando os olhos quando todos me fitaram com aquela cara de descrença. - "Ah qual é, não me olhem como se eu fosse uma aberração! Eu já disse que eu ainda não decidi o que vou fazer no meu aniversário!"
"document.write(Emy), qual é você! É seu aniversário! Temos que comemorar com estilo!"
"Você só está querendo um motivo pra encher a cara e pegar geral, Jones".
"E quer mais o quê? Unir o útil ao agradável é uma boa maneira de se comemorar!"
"Eu disse que ainda não sei".
"Oh querida, de qualquer forma, vá se divertir! Você é tão jovem... Essa é a melhor época da sua vida!" - Mamãe usou aquele tom doce, querendo me persuadir. Ah, mas não seria tão fácil assim não.
"Você ouviu tia Debbie, ! Essa é a melhor época da nossa vida. Vamos comemorar enquanto não temos outras preocupações!" - Dougie reforçou a chantagem de mamãe e eu quis dar um beliscão em seu braço por debaixo da mesa. Só não o fiz porque ele se encontrava inalcançável naquele momento.
Mas, de certa forma, eu entendia o que ele estava querendo dizer. Era quase a mesma conversa que tivemos no colégio dias atrás. Ele queria que comemorássemos como um grupo de jovens normais, antes que eles começassem a viajar pelo mundo e não tivessem tempo nem para um dia inteiro cheio de doces e despreocupações. Seria tipo uma despedida dessa vida normal que levávamos até ali.
Não posso negar que aquilo me amoleceu um pouco. Um pouco. Eu ainda era a favor de ficarmos em casa assistindo uma temporada inteira de C.S.I ou qualquer coisa do gênero.
"Vou pensar, está bem?" - Dei de ombros, tirando meu prato da mesa e deixando-o na pia.
Mesmo com minha ausência, eles continuavam cogitando quais eram os melhores lugares para irmos no meu aniversário. Eu tinha quase certeza de que eles ganhariam aquela disputa. De alguma forma, eles conseguiriam me arrastar para algum lugar e eu não teria como evitar.
E o pior de tudo é que eu sei que vou acabar me divertindo.
Como costumava fazer depois de jantar, segui para a varanda, sentando na grande cadeira de balanço para observar o céu pontilhado de estrelas que cintilavam como minúsculos brilhantes. Eu adorava a vista dali. Gostava do silêncio e do toque gentil da brisa noturna.
"Eu costumava te observar em algumas noites quando éramos crianças e ficava me perguntando o que era que você tanto fazia aqui fora".
Harry não olhava para mim. Ele estava encostado no batente da porta de entrada, olhando para o pedaço de céu que se podia ver dali. Seus olhos azuis pareciam muito mais brilhantes do que as estrelas, naquela noite. Com um jeito que eu julguei ser infantil, estiquei o braço bom, gesticulando energeticamente para que ele se sentasse ao meu lado. Harry sorriu e aquele simples ato provocou ondas de calor por todo meu coração.
"Não é uma bela visão?" - Aconcheguei minha cabeça na curvatura de seu pescoço, entrelaçando meus dedos aos seus. - "Eu gosto de estrelas".
"Eu não entendia, porque nunca tinha parado para observá-las. Você definitivamente é a nossa Star Girl"
Sorri do apelido bobo, mas que de alguma maneira eu havia gostado. Ficamos em silêncio, apenas observando, pensando, sentindo. Era incrível aquele laço de empatia que eu tinha com Hazz. Ele não precisava dizer nada, de alguma maneira muito louca, eu sentia sua energia, sentia a felicidade de simplesmente estarmos ali, sentados lado a lado.
"Não sei o que vai decidir pro seu aniversário, mas vou logo avisando que vou roubar você pra mim. Literalmente".
"Como assim?"
"Tenho uma programação especial pro próximo Sábado" - Harry disse como se aquilo fosse a coisa mais natural possível. Me remexi inquieta na cadeira, ficando de frente para si. - "E nem adianta, não vou te contar nada! Só quero que fique ciente de que no Sábado, você será apenas minha e de mais ninguém!"
"Mas Hazz..."
"Já falei com seus pais e com Tom. Eles liberaram você de tudo e qualquer compromisso que possa surgir".
"Você falou com...? Mas... Hã?"
"Muito propício você deixar a mesa antes de todo mundo! Aproveitei o clima e comentei que queria fazer algo especial pra você... Não foi muito difícil convencer seus pais... Só Tom que me lançou aquele olhar mortal, sabe? Mas depois tudo ficou esclarecido... Disse que não seria tão já que eu te sequestraria e levaria para o Alaska".
"Você é o namorado mais..."
"Inteligente? Charmoso? Gostoso?"
Tudo isso e muito mais, para o próprio bem da minha sanidade.
"... Idiota que eu amo!"
Hazz rolou os olhos, sorrindo abertamente para mim antes de colar seus lábios nos meus.
Finalmente.
O gosto dos seus lábios era muito melhor do que qualquer outra constelação celeste e coisas do gênero.
Uma semana havia se passado. Magicamente os dias que me separavam do meu aniversário se esgotaram.
Eu estive tão ansiosa com a tal surpresa que Harry me reservava que eu quase não me ligava nas outras coisas ao meu redor. Laureen, por exemplo. Milagrosamente, ela não dera as caras no colégio naquela semana. Eu pouco me importava, ela vivia dando aqueles sumiços dela e, sinceramente? Quanto menos de Laureen eu visse na minha frente, menos eu me incomodava com meu braço quebrado e toda a chatice que ele trouxe. Remédios, dificuldades na hora de me trocar e coceiras em lugares que a régua não alcançava.
Outro benefício que aquela agitação trouxe foi o fato de que eu deixara de lado qualquer outra preocupação. Isso incluía o certo desconforto que me rondava quando eu ficava com Dougie. Estranhamente algo mudou depois daquele bendito sonho e por mais que eu me esforçasse, eu não conseguia reconstruir as pontes corrompidas dentro de mim.
“Como está o seu braço?” – Dougie puxou assunto, parecendo meio nervoso.
“Não dói...”
Dei de ombros, olhando pro gesso colorido como uma maneira de evitar os olhos dele.
"E então! Amanhã é o grande dia, hun?!" - Dougie deu leves palmadas em meus ombros depois de alguns minutos em silêncio, sorrindo sem mostrar os dentes. - "Ansiosa?"
"Pra ficar velha? Nem um pouco!" - Sorri debochada, dando um soco leve em seu ombro, empurrando-o em direção à saída do colégio. - "Sabe, eu fiquei pensando... Acho que vocês têm razão... Devemos comemorar meu aniversário naquele pub que inaugurou. Pode ser que..."
Não quis terminar a frase, porque era estranho admitir que talvez não tenhamos mais tantas oportunidades de fazer aquilo dali em diante.
"É, você captou o espírito da coisa" - Dougie riu, ficando pensativo. - "Às vezes tenho medo de me arrepender no futuro... Sei lá".
"Dougie, eu vou te fazer algumas perguntas, e você me responda sinceramente, está bem?"
Hesitante, Dougie concordou, arqueando minimamente suas sobrancelhas.
"O que você sabe fazer de melhor, é tocar, não é?" - Ele concordou. - "Cantar te faz sentir que está fazendo a coisa certa, não é?"
"Não tem como explicar o quão bem isso me faz... Mas eu prefiro tocar do que cantar... Minha voz parece a de uma criança chorando..."
"De qualquer maneira, estar em cima de um palco, fazendo aquilo que você gosta ao lado dos seus melhores amigos não te dá a melhor sensação do mundo?"
"Sem dúvidas!"
"Então por que se arrependeria de fazer o que gosta e de ser quem você realmente é? Não há a mínima possibilidade de isso acontecer... Quando estamos no caminho certo, no nosso caminho, nenhuma dificuldade nos faz querer mudar nossas escolhas".
"É... Você tem razão!" - Dougie me abraçou pelo ombro, apertando minha bochecha. - "Por isso que eu te amo!"
“O que seria do McFly sem mim?” – Usei todo dom dramático que eu possuía, fazendo Dougie rir mais abertamente. – “Agora, vamos apressar o passo, porque eu estou morrendo de fome!”
“Essa é a que eu conheço!”
Depois que cheguei do colégio, as horas passaram mais depressa ainda. Dougie almoçou com a gente. Depois que ele se foi, prometendo que nos divertiríamos muito na noite de Domingo, Tom saiu apressado murmurando coisas que eu não consegui traduzir até agora. Meus pais chegaram dos seus respectivos trabalhos e Harry veio ficar comigo, como sempre fazia nas sextas. Assistimos um seriado tosco na tevê, comemos pipoca e jogamos vídeo game. (Hazz disse que não ia mais jogar comigo, porque eu era muito boa e nunca deixava ele ganhar).
Quando me deitei pra dormir, parecia que eu tinha vivido um dia com mais de vinte e quatro horas. Eu adormeci quase que instantaneamente. Não tive sonhos, eu acho.
Mas, o bom disso tudo, é que eu ainda tinha humor para acordar sorrindo. Eu havia acabado de abrir os olhos e me deparara com uma linda rosa branca sobre o criado mudo, com um bilhetinho todo Harry Judd. Dizia:
“Feliz aniversário, minha pequena.
Esteja pronta dentro de uma hora.
Com amor, Hazz”
Sorri abobalhada. Eu só não sabia definir se era efeito do bilhete ou do sono que ainda tentava me manter na cama, confortavelmente aninhada sob os edredons.
Mas a expectativa que me fazia quicar na cama me obrigara a levantar para tomar um banho decente, com direito a música no volume máximo. Era meu aniversário, eu tinha direito a certas regalias, não é mesmo?
Quando desci para tomar café, encontrei Tom, mamãe e papai com sorrisos animados estampados nos rostos. E na mesa, meus pratos preferidos: panquecas, waffers, milkshake de morango...
“Bom dia, família!” – Saudei, recebendo um abraço apertado de minha mãe, que servia Tom quando eu cheguei. – “Bom dia, mãe!”
“Parabéns, meu amor! Minha pequena garota... Está crescendo!” – Mamãe beijou demoradamente minha testa, alisando meus cabelos como se eu tivesse cinco anos de idade. – “Venha, vamos tomar café! Preparei uma porção de coisas deliciosas!”
“E eu estou morrendo de fome!” – Sorri, inalando com prazer o aroma adocicado de amoras.
“Parabéns, minha filha!” – Papai beijou o topo de minha cabeça quando me sentei ao seu lado, acariciando delicadamente minha bochecha ao se afastar. – “Já se sente mais velha? Oh, acho que já consigo ver uns dois fiozinhos brancos ai...”
“Estou charmosa? Tipo a Vampira de X-men?”
“Sempre, minha querida” – papai sorriu, voltando a atenção para suas panquecas. – “Decidiu onde vão comemorar seu aniversário?”
“Acho que sim” – Entortei a boca, meneando a cabeça. – “Está mais pra sim do que pra não...”
Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, Tom, que até então estava entretido com seu milkshake, levantou-se da cadeira e me puxou, abraçando-me com tanta força que eu até perdi o ar.
“Feliz aniversário, maninha!!! Um trilhão de felicidades pra você...”
“Tom... Está me sufocando!”
“Você é a irmã mais nova mais chata do mundo todo!” – Tom continuava a me abraçar, sacudindo-me para os lados de uma maneira infantil. – “Mas eu te amo muito!”
Quando consegui respirar, beijei-lhe a bochecha rosada, mordendo-a em seguida. Depois dos cumprimentos amorosos de minha família, nos sentamos para podermos enfim, tomar nosso café.
Conversávamos sobre tudo, mas especialmente naquele dia, meus pais resolveram desenterrar coisas da minha infância. Tom, como todo irmão mais velho, lembrava só dos meus piores momentos, como da vez em que fiz xixi na barraca de camping quando acampamos pela primeira vez. Apesar de querer bater nele, eu estava grata por ele lembrar de coisas que eu mesma já não me lembrava mais.
Tom estava no meio de uma narrativa de quando eu me perdi no supermercado quando a campainha tocou e meu coração deu um salto dentro do peito.
Saltitante, corri até a porta, escancarando-a e encontrando o dono do único sorriso capaz de fazer meu coração bater mais rápido e mais lento ao mesmo tempo. Harry usava camisa xadrez, calça jeans e tênis. Básico, mas pronto para me matar do coração. Assim que nossos olhares se cruzaram, ele alargou seu sorriso perfeito, puxando-me para um beijo carinhoso. Quente, mas carinhoso.
“Parabéns...” – Ele sussurrou entre os beijos, afagando minha nuca com suas mãos. – “Pronta para ser minha por um dia todo?”
“Eu sempre estou” - Afaguei a linha do seu maxilar, puxando-o para dentro para que pudéssemos nos despedir de meus pais e de meu irmão.
~×
“Você literalmente não entendeu ainda que eu não sou muito chegada em surpresas, não é?” – Disse em um tom que eu tentava manter indiferente. Harry me vendera e eu não gostava muito de todo aquele suspense. – “O que você tá fazendo, Hazz?!”
“Hei, hoje é seu aniversário, mas seja boazinha com seu namorado!”
“Você está me matando de curiosidade!”
Ouvi a risada divertida dele preencher o ar, e aquilo me fez deixar de lado um pouco do mau humor. Até porque, eu começara a adivinhar para onde ele estava me levando. Tinha cheiro de terra e ao longe o murmúrio agradável de água corrente. Isso explicava porque ele cobrira meu gesso com saco plástico. Eu tinha certeza de que ele estava me levando para o riacho, aquele que certa vez tiramos uma foto... A foto preferida dele.
Deixei que um sorriso desdenhoso brincasse em meus lábios quando paramos de andar. Os dedos macios de Harry deixaram meus ombros e começaram a desfazer o nó da minha venda, e quando eu estava prestes a dizer que eu já adivinhara qual era a surpresa, me dei conta de que aquilo nem chegara perto do que eu pensei.
Sim, nós estávamos no riacho, mas eu só não contava com um pic-nic montado bem diante de meus olhos. Havia flores e confetes coloridos em cima de uma toalha listrada. É, na minha concepção aquilo era bem brega, mas era lindo ao mesmo tempo. Lindo porque foi Harry que preparou aquilo tudo, pra mim. Acredito que depois dessa, ele pode até se vestir de ursinho Pooh e fazer uma serenata na minha janela que eu não vou conseguir detestar. Por mais que seja brega.
Harry consegue transformar as coisas mais cafonas em coisas extremamente... sexys. Oh céus, é tudo que consigo pensar ao vislumbrar o azul de seus olhos brilhando radiantes para mim.
“E então? O que achou?”
“Você é muito, muito, muito lindo.” – Beijei demoradamente seus lábios, rindo como uma abobalhada.
“Pensei que ia me chamar de brega...”
“Bom, você é. Muito, muito, muito cafona. Mas sua beleza estonteante compensa todo o resto...”
“Você é muito insensível” – Harry fez manha, mordendo levemente meu lábio inferior. – “E por causa disso, merece tomar um banho!”
Passando seus braços em volta de minha cintura de uma forma que eu não conseguisse me libertar, Harry caminhou comigo até a beira do riacho e, sob meus contínuos protestos de que não queria me molhar, ele mergulhou. Por um segundo o frio da água travou todos meus músculos, mas logo em seguida, em algum ponto entre eu xingar Harry e ele me beijar, eu já não ligava mais para as roupas molhadas e a água gelada. Nem mesmo o fato de estar com o braço engessado me importou.
Agarrei a cintura de Harry com minhas pernas, enquanto meus braços se envolviam desajeitadamente em volta de seu pescoço. Ficamos longos minutos ali, com a água batendo em nossos ombros, apenas curtindo a presença um do outro. Volta ou outra eu parava de beijá-lo e ficava olhando-o. Apenas olhando. E ele também fazia a mesma coisa. Estávamos decorando nossos traços, como se aquela fosse a primeira vez que nos víssemos.
“Eu nunca vou cansar de dizer o quanto eu amo você.” – Disse baixinho, acariciando sua cicatriz que ficava aparente com seus cabelos molhados.
“E eu nunca vou cansar de te dar motivos para dizer isso. Eu quero que hoje seja um dia especial, . Quero te fazer feliz”.
“Você já me faz feliz, Harry.”
Ele sorriu, trazendo meu corpo para perto, beijando-me com vontade. Involuntariamente, minhas unhas arranhavam sua nuca e seus ombros, e conforme nosso beijo se intensificava mais difícil ficava para se concentrar e respirar.
Com cautela, fomos diminuindo nosso ritmo, concordando silenciosamente que devíamos ir um pouco mais devagar. Sabe, aquela coisa que eu e ele adquirimos, de conseguir entender o que o outro pensava apenas com um olhar.
Harry espalhou beijos carinhosos por todo meu rosto, nos levando sem pressa alguma para fora d’água. Apostamos corrida até nosso pic-nic, o que gerou bastante risada por ambas as partes.
“Não vale, você ganhou porque não esta usando jeans!”
“E que diferença faz, ? Você perdeu!”
“Faz diferença sim, o jeans fica pesado quando fica molhado!”
“A gente pode resolver isso... Você tira a calça e a gente aposta corrida de novo!”
“Harry!” – Abri a boca num gesto de indignação, dando um tapa em seu ombro.
“O que foi?” – Ele riu divertido, e aquilo só aumentou a quentura na região das minhas bochechas. – “Não tenho culpa se você é uma péssima corredora!”
“Ah é? Então espero que você corra tão bem agora, porque eu vou mostrar pra você quem é a péssima corredora!”
Harry continuou rindo, mas mudou de expressão ao perceber que eu estava com um pedaço de torta em mãos, pronta para sujá-lo.
"Hei, você sabe que eu estava brincando né?”
“Brincando é? Eu acho que não!”
E, como duas crianças travessas, começamos a correr em volta das coisas, Harry parecendo totalmente desesperado para que eu não o sujasse. Não era realmente minha intenção desperdiçar a torta da senhora Judd, mas estava sendo divertido. E no fim acabamos eu e ele sujos de chocolate, rindo sem fôlego na grama.
E o resto da tarde passou daquela forma. Brincando, rindo, descobrindo que não poderíamos mais ficar um sem o outro, nunca mais.
~×
“Meu Deus do céu , o que foi que aconteceu?”
Mamãe ria, ora parecia divertida, ora parecia agoniada. Havia terra, folhas e chocolate por todo meu cabelo e roupas. Nem o meu gesso escapou ileso, mesmo com aquele saco plástico envolta dele. Harry não estava muito diferente, mas ao contrario de mim, ele parecia bem despreocupado com o estado do cabelo.
“Culpa do Harry!” – Eu acusei, fazendo bico. – “Quero dizer, meia culpa do Harry”.
“Vocês estão todos sujos, crianças!” – Mamãe tentava inutilmente tirar a sujeira de mim e de Harry, mas quando percebeu que não tinha jeito, nos mandou ir para o quintal.
“É agora que nós dois apanhamos de cinta?” – Harry sussurrou para mim, fingindo estar apavorado. – “Será que teremos direito a um último pedido?”
“Não sei senhor Judd, o que gostaria de pedir caso a carrasca Fletcher nos dê essa oportunidade?” – Aderi o tom de brincadeira, empurrando Harry pelos ombros.
“A filha dela. Mas se ela não deixasse, eu me contentaria com o filho”.
“Hei, ninguém pega meu irmão assim não!” – Eu exclamei, dando um tapa leve na cabeça de Harry, que gargalhou antes de reclamar pela 'agressão'.
Quando chegamos ao quintal, encontramos meu pai e Tom limpando a piscina. Assim como minha mãe, os dois esboçaram primeiro espanto, depois algo entre nojo e diversão.
Estávamos piores do que pensei.
“Vão se lavar, desse jeito vocês não ficam dentro de casa. Desculpe Harry querido, mas tem terra por toda parte de você. Thomas, dê a mangueira pra se lavar!”
Tom não era muito fã dessas coisas lamacentas, então, quando ele se aproximou com aquela cara de nojo dele, bastou apenas um olhar de rabo de olho entre Harry e eu para que tivéssemos a mesma ideia. Assim que Tom esticou a mangueira em nossa direção, planejando se afastar o mais rápido possível, percebeu que não foi tão rápido assim e quando menos esperava, estava sendo abraçado por mim e por Harry.
“Argh, me larguem seus porcos!” – Ele exclamava e quanto mais tentava se desvencilhar, mais Hazz e eu o apertávamos. Por fim, ele acabou rindo e entrando na brincadeira de molhar a mim e a Harry.
Meio limpos e meio sujos, cada qual seguiu para o banho. Harry foi pra casa dele, dizendo que o dia ainda não tinha acabado e que ele viria me buscar novamente assim que estivesse limpa e sem terra nos cabelos. Tom ainda ficou para terminar de ajudar nosso pai e eu fui pro meu quarto antes que minha mãe me visse suja.
A única coisa que eu conseguia fazer enquanto entrava no chuveiro era rir. Eu me lembrava de cada momento até agora e tive que admitir: eu nunca gostei tanto de fazer aniversário. Assim que sai do banho minha mãe veio com o telefone, dizendo que alguém queria falar comigo.
E esse alguém gritava como um louco, cantando algo muito distante do “parabéns pra você”. Sério, Danny às vezes tinha grandes problemas.
“O que acontece com você quando canta ‘muitos anos de vida?’. Parece que está com dor de barriga, Jones”.
“Haha, sua engraçadinha. Vou dar um desconto porque hoje é o seu dia! Parabéns pelo seu aniversário! Sabe, você me chama de idiota todo o tempo, mas ainda assim é minha melhor amiga e bom, você sabe... Eu te amo muito!”
“Ah, obrigada Danny. Retiro o que disse sobre você cantar quando está com dor de barriga, sabe que do McFly é o meu cantor favorito!”
“Deixa o Tom saber disso que ele te esfola viva!”
“No mínimo ele vai querer me internar, mas tudo bem. Então... Aproveitando que você me ligou, queria falar sobre a comemoração do meu aniversário de amanhã... Acho que pode ser uma boa irmos para aquele pub que você tanto quer conhecer.”
“Tudo bem, não precisamos mais falar sobre isso. Você não quer comemorar então eu... Eu... O que foi que você disse?”
Lerdo como sempre, Jones. Sorri para o telefone, tentando me vestir ao mesmo tempo.
“Exatamente o que você ouviu. Vocês me convenceram. Vamos comemorar meu aniversário de dezoito anos com estilo. Afinal, não é sempre que fazemos dezoito, não é mesmo?”
“Essa é a minha garota! Quero dizer, ah, você entendeu! Vou ligar para os dudes!”
Desligamos depois de eu deixar os preparativos todos nas mãos de Danny. Ele pode ser lesado, mas sabe fazer uma festa, isso eu não posso negar.
Exatos sessenta segundos depois, o telefone voltou a tocar e eu encontrei um Harry que parecia muito preocupado do outro lado da linha.
"Eu acho que o Danny está bêbado... Ele acabou de me ligar e eu não entendi muito bem o que ele disse... Mas foi algo mencionando 'festa' e '. É o que eu estou pensando?". "Bom, se você está pensando que eu deixei minha festa de aniversário sob os cuidados dele, bom, então sim!"
“Tem certeza que é uma boa ideia deixar isso nas mãos do Danny? Você sabe como ele é...”
“Tudo bem Hazz, eu confio no potencial do Jones para fazer uma comemoração digna de dezoito anos. Vamos dar um pouco de crédito para ele!”
Harry pareceu hesitante, mas por fim soltou um suspiro fraco, rindo em seguida. Pareceu animado.
“Você é quem manda! E só pra avisar, estou chegando ai em 15 minutos!”
Ele desligou antes que eu pudesse dizer: mas eu nem me arrumei ainda! Harry sabia que se não me apressasse, eu demoraria horas e horas para sair do quarto. Não que eu ficasse revirando meu guarda roupa atrás de algo para vestir, mas era pelo fato de me distrair com as coisas, como meu diário ou música.
Apanhei as primeiras peças de roupas que vi e tratei de desembaraçar todos os fios de meu cabelo, o que parecia que ia levar anos para acontecer. Ainda mais com o telefone tocando daquele jeito sem parar.
“Hei... Liguei em má hora?”
Engoli o tom azedo no mesmo minuto que Dougie percebeu meu mau humor. Mas por ser ele do outro lado, subitamente me senti feliz. As coisas estavam voltando ao normal aos poucos entre nós dois.
“Dougie, Dougie, Dougie! Pensei que tinha esquecido do meu aniversário!”
“Jamais! Eu liguei aí de tarde, mas sua mãe disse que você tinha saído...” – Por um momento, por um breve e delirante momento, eu achei que Dougie ficou incomodado com aquilo. Mas passou depressa. – “Mas enfim, eu nunca esqueceria o seu aniversário! Parabéns pequena, que você seja sempre essa garota que você é!”
“Chata e briguenta?” – Brinquei, mas no fundo senti que não era apenas uma brincadeira e isso me deixou confusa. Era quase como se eu quisesse saber o que ele realmente pensava sobre mim.
“Linda, carinhosa e única”. – Dougie pigarreou e se estivesse diante de mim, com certeza estaria fazendo caretas e estaria olhando pros pés. E eu estaria rindo abobalhada exatamente como estou fazendo agora. – “Quero dizer, nós todos amamos você. Você é a nossa fã número um.”
“Com certeza, Doug. Obrigada por ter lembrado, de verdade. Fico muito contente que tenha me ligado! A gente se vê amanhã, certo? Vamos comemorar meu aniversário com estilo!”
“É, eu fiquei sabendo! Danny me ligou quase agora...”
“Ele é rápido mesmo!”
“Ele está empolgado” – Dougie e eu rimos, ficando em silêncio depois. – “Bom, acho que é isso, então. A gente se vê amanhã. Feliz aniversário !”
Despedi-me de Dougie, ficando um bom tempo olhando pro nada. Mas eu saí do transe quando percebi que tocavam a campainha e que com certeza um Harry muito apressado ficaria doido ao me ver completamente desarrumada.
O meu único problema é que quando quero fazer as coisas na pressa, acabo me atrapalhando ainda mais. O resultado foi que vesti a camisa do lado avesso e quase saio usando meias de cores diferentes. Mas... Hei, aquele era meu aniversário e eu ia sair com o namorado mais lindo de toda Inglaterra, não poderia sair usando uma camisa, shorts e tênis como se fosse um dia qualquer, não é mesmo?
Rapidamente, mas tomando o cuidado de não me acidentar, troquei as roupas por um vestido preto básico, tentando prender meu cabelo de uma forma decente.
Confiante de que estava razoável para uma noite ao lado do meu namorado, desci as escadas, encontrando todos reunidos na sala. Sorri para meu pai, minha mãe, Tom, a garota sentada ao lado dele e Harry. Meio segundo depois eu percebi que tinha alguém ali que não me era habitual.
“! Você está linda!” – Mamãe sorriu para mim, e eu sorri brevemente em resposta. Eu estava curiosa sobre a loira que estava ali na minha sala, de mãos dadas com o meu irmão, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. É, eu estou com ciúmes mesmo, e daí?
“, quero que conheça a Giovanna. Gio, essa é minha irmã, !” – Tom exibiu a cova de mim para ela, e aquilo não ajudou muito.
“Oi, é um prazer te conhecer, enfim!” – A loira sorriu gentil, levantando-se e vindo em minha direção. – “O Tom fala muito de você!”
“Hm”. – Respondi, assentindo com um aceno de cabeça. Eu não ia dar o braço a torcer e dizer que já ouvira falar dela. É, eu ouvira falar dela nas últimas semanas, mas não achei que fosse algo sério. Tom nunca traz as garotas com que sai pra casa. – “Você conhece meu irmão de onde mesmo?”
“Estudamos juntos... Acho que não deve se lembrar de mim...”
Forcei um pouco minha memória, vasculhando todos os grupos de garotas que eu conhecera e não suportava. Gio não era de nenhuma delas e eu tenho total certeza disso, por que quando eu não gosto de alguém, ela fica registrada em minha mente. Aos poucos eu fui reconhecendo seus traços. O sorriso amável, o semblante sereno... Gio devia ser daquele grupo que sempre passava as tardes lendo, falava baixo e não tinha problemas com nenhum professor.
Resumindo, ela não era uma vadia como a Laureen.
E, por mais que eu sinta ciúmes do meu irmão, não posso negar que ele parece feliz. Quero dizer, parece não. Ele está feliz. É só observar a forma como ele sorri por menos de dois segundos. Ele esta todo abobalhado. Quero dizer, agora ele parece um pouco apreensivo, porque não para de olhar em minha direção com um tipo de suplica calada em seus grandes olhos castanhos.
Por fim, sorri para ela, dando um abraço apertado com sinceridade. Gostei dela. De verdade. Mesmo sentindo ciúmes. Vai entender.
Tom soltou um suspiro de alívio exagerado, fazendo-me rolar os olhos enquanto me separava de Gio. Ela me deu os parabéns e eu me despedi da minha nova cunhada e de meus pais, sendo acompanhada por Tom e Harry até a entrada.
“Eu juro pela galáxia inteira que eu achei que você ia surtar”.
“Bom, eu quase pulei no pescoço dela quando a vi na sala, mas... Não sei, ela parece ser legal”. – Dei de ombros, entrelaçando meus dedos aos dedos de Harry, olhando para a rua. Era difícil ceder para o irmão mais velho quando você sempre foi a cabeça dura teimosa. – “Sabe, ela não parece ser chata”.
“Você gostou dela”.
“É, pode ser”.
“Não, não, você realmente gostou dela!” – Ele parecia encantado. – “Cadê aquela garota possessiva que não deixava ninguém se aproximar do irmãozinho querido?”
“Ah, não me enche, Thomas!” – Dei um soco em seu braço, mas não foi o tipo de soco que eu dou de brincadeira. Foi forte. Eu estava feliz por ele, mas isso não queria dizer que ele podia abusar. – “Sai da minha frente antes que eu mude de ideia”.
Harry e Tom riram cúmplices, e depois de zombar um pouco mais de mim, ele entrou.
“Não acredito que você está com ciúmes do Tom!” – Harry riu, mas eu não o acompanhei. – “Qual é , por que está tão zangada?”
“Não estou zangada”. – Disse com mais raiva do que queria, relaxando os ombros e suspirando fraquinho. – “É só que... Eu sempre fui acostumada a ter o Tom só pra mim. Agora... Agora tem ela. Tudo bem, ela parece ser uma boa pessoa e ele está radiante, e por mais que isso me deixe zangada, eu não consigo sentir raiva dela. Não é estranho?”
Começamos a caminhar em direção ao carro, Hazz passando um braço por meu ombro, afagando a pele exposta de meu braço.
“Sabe, quando eu conversei com Tom... Antes de te pedir em namoro oficialmente” – Ele explicou quando eu o fitei sem entender. – “Ele disse algo parecido. Disse que você era a irmã mais nova dela, e que era dever dele te proteger. É óbvio que ele se preocupa com você o tanto que você se preocupa com ele e isso é muito legal. Mas às vezes , a gente precisa deixar que as pessoas que mais amamos vivam suas próprias vidas, cometam seus próprios erros e acertos para poderem crescer. Ele sabe que não vai poder cuidar de você pra sempre, e foi por isso – acredito eu, que ele ficou tranquilo quando soube que eu queria ficar pra valer com você. Porque ele sabe que eu me preocupo com você tanto quanto ele, porque nós sempre fomos uma família. Acho que você deve estar passando a mesma coisa que ele passou, mas, olhe para nós, agora. Você também deixou de ser somente do Tom... E mesmo assim ele continua te amando tanto quanto antes. Não custa nada você dar uma chance para ela também. Ninguém vai roubar o seu espaço na vida dele, ele é único!”
Concordei com um sorriso agradecido, abraçando-o fortemente. Ele tinha razão, não é? Tom sempre seria meu irmão, independente de quem entrasse em nossas vidas.
“Agora que minha garota não está mais zangada,” – Ele disse com um sorriso torto que eu simplesmente acho lindo, colocando meus cabelos atrás das orelhas. – “podemos ter uma noite agradável e muito... Como você diria mesmo? Brega?”
“Exatamente. Uma noite agradavelmente brega ao lado do cara mais brega do mundo”.
Harry rolou os olhos, mas riu enquanto abria a porta do carro para mim com uma expressão divertida, sussurrando algo como ‘velhos hábitos não morrem’.
~×
Recapitulando o dia de hoje até agora, eu não posso e nem tenho motivos para reclamar de nada. Eu, logo eu que nunca fui muito chegada em aniversários – inclusive os meus – estava agora pedindo para que o dia não terminasse nunca.
Depois de todas aquelas coisas fofas que Hazz fez para mim durante o dia, ele me levou para jantar. E foi realmente muito... Fofo.
Havia piano, iluminação suave, estrelas, centenas de estrelas iluminando o céu. Harry sorrindo e seus olhos brilhando pelo simples fato de eu ter amado cada pequeno detalhe.
Acho que não houve um mísero segundo que eu não sorri agradecida e encantada. Eu sempre me lembraria daquele aniversário.
“Céus, como esse sorvete é delicioso!”
“E como você é linda se sujando toda!”
Hazz riu, jogando a cabeça para trás. Rapidamente limpei os cantos de minha boca, mas não parecia que estiveram sujos antes. Meus dedos estavam limpos. De um jeito brincalhão, mas ainda assim provocante Harry trouxe seus lábios até os meus, mordiscando-o e roçando sua língua nos locais onde mordera. Instantaneamente me faltou o ar e as paredes do meu coração pareciam estar em chamas.
Levei minhas mãos ao seu rosto, afagando suas bochechas, a base de seu pescoço. Harry era tudo para mim. Deus, como eu o amo!
“Hora de ir pra casa?” – Perguntei, sentindo gotas inesperadas tocaram meus ombros. Uma garoa morna começara a cair sobre nós. – “O último a chegar ao carro é um perdedor!”.
Nem preciso dizer que eu ganhei, não é mesmo?
Harry fora pego totalmente desprevenido e quando se deu conta, eu já estava na calçada, correndo em direção ao carro. Quem é uma péssima corredora agora?
Sem fôlego, me escorei no carro, rindo. Ele também ria, mas ao invés de me ajudar a recuperar o fôlego, ele terminou de tirá-lo de mim ao me abraçar pela cintura e me beijar com urgência.
Afastei-me sem separar nossos corpos, fechando os olhos por alguns segundos, deixando que as gotas da chuva tocassem minhas pálpebras. Quando voltei a abrir os olhos, encontrei Harry fitando-me com um sorriso singelo nos lábios.
E então eu me dei conta de que estava pronta. Assim, simplesmente assim, debaixo da chuva de verão, envolta em seus braços, transbordando de felicidade. Eu estava pronta para ser de Harry Judd.
Sem dizer uma única palavra, ele compreendeu. Suavemente, ele desenhou os contornos de meu rosto, descendo cuidadosamente os seus dedos até os meus, deixando um rastro quente em minha pele. Ele levou nossas mãos unidas até seus lábios, beijando-a demoradamente.
Era a promessa muda de que ele nunca me machucaria.
Enquanto entravamos no carro e tomávamos o caminho de volta para casa, não houve silêncio constrangedor nem dúvidas sobre nossas cabeças. Uma musica suave tocava no rádio e fazíamos comentários sobre o dia.
Não posso negar que no fundo, bem lá no fundo, senti algo se revirar em meu estômago quando ele estacionou o carro em frente à sua casa. Mas, assim como veio, ela se foi no mesmo instante que ele me aninhou sob seus braços, correndo comigo até a varanda de sua casa. Entrelacei meus dedos ao seu, exibindo um sorriso torto, girando a maçaneta e puxando-o para dentro comigo.
A casa estava na penumbra e nem sinal dos pais de Harry. Nosso beijo começou na sala, calmo e doce, nossas línguas dançando em um ritmo lento. Conforme íamos tateando os moveis à procura da escada, o ritmo ia acelerando e a urgência ia se demonstrando cada vez mais incontrolável. Tropegamente e rindo entre o beijo conseguimos chegar ao segundo andar, literalmente caindo dentro do quarto de Harry. Caídos no chão, começamos a rir e naquela mesma sintonia de diversão entrelaçamos nossos corpos novamente. Minhas unhas arranhavam suas costas por baixo da camisa molhada de Harry e volta ou outra eu o ouvia gemer baixinho. Minha respiração estava entrecortada e por mais que meu coração batesse ensurdecedor em meus ouvidos, eu tinha noção de tudo. Os lábios quentes de Harry em meu pescoço, suas mãos frias e urgentes em minha cintura, seu perfume misturado com o cheiro de sua pele e de nossas roupas molhadas. Não existia perfeição melhor do que aquela.
“...” – Ouvi-o sussurrar roucamente em meu ouvido, suas mãos parando de se movimentar sobre minha pele. Sua respiração descontrolada batia em minha nuca e aquilo me arrepiava.
“Shiiiu” – Coloquei um dedo sobre seus lábios, sorrindo minimamente. – “Eu tenho certeza do que quero e tenho certeza de que você vai fazer as coisas certas. Eu quero você e não tem como negar isso. Eu preciso de você, hoje e sempre.”
Harry fixou seus olhos nos meus com uma intensidade que fez todo meu corpo estremecer. Mordiscando seu lábio inferior antes de exibir um meio sorriso perfeito, ele me apanhou em seu colo, depositando-me com cuidado sobre a cama.
“Você é linda”.
Ouvi-o sussurrar antes de puxá-lo para mim, o desejo aflorando cada parte inimaginável de meu ser.
“Eu te amo, ”.
(Capítulo especialmente narrado em terceira pessoa)
Ao abrir os olhos naquela manhã, sentiu algo que parecia não ter fim. Não eram somente os braços de Harry ao redor da sua cintura, abraçando-a protetoramente ou o suave toque dos primeiros raios de sol, que afagavam a pele exposta de seu corpo. Era algo muito maior do que felicidade plena; era um amor que parecia durar por todo o sempre.
Ela se remexeu minimamente na cama, temendo acordá-lo. Sua vontade era de enchê-lo de beijos e dizer o quanto a noite fora incrível, mas também queria observá-lo um pouco mais. Ela decorou detalhadamente uma vez mais, as linhas que moldavam seu rosto. Harry tinha a aparência de um homem agora, mas se ela fechasse os olhos e se concentrasse um pouco, poderia ver aquele garoto magrelo com os cabelos desgrenhados que vivia tramando mil e uma maneiras de tirá-la do sério. Deixou um pequeno sorriso se moldar em seus lábios, e continuou olhando para o namorado que dormia como um semblante tranquilo. Com cuidado, afagou sua cicatriz na lateral de sua cabeça, fechando os olhos e se aconchegando um pouco mais perto do corpo dele. Mesmo sem camisa e descoberto desde a madrugada, Harry estava quente. Ela estava quente. De amor, paixão, desejo. Sentimentos que nunca foram tão límpidos e incontroláveis como agora. Tudo o que ela queria e conseguia pensar era nele. Nele e no mundo feliz que eles faziam parte.
Sentiu Harry suspirar um pouco mais forte e segundos depois, sentiu-o apertar o abraço em torno de si. Sentiu o arrepio percorrer sua espinha quando ele murmurou um bom dia roucamente, do jeito que ela gostava. Prendeu a respiração antes de mirar os seus olhos no azul profundo dos olhos dele, mas ainda assim perdeu todo o fôlego quando o viu observando-a atentamente. Havia um brilho indescritível neles e ela se viu tentando desvendar o motivo. Fazia algum tempo que estava com Harry, mas ela ainda se perguntava como aquilo era possível. Como era possível Harry ser apaixonado por ela.
“Oi” – Ele sorriu após depositar um delicado beijo na ponta do seu nariz, fazendo-a rir também.
“Oi” – Ela sussurrou de volta, mordendo a ponta do seu queixo. – “Dorminhoco”.
“Como se você estivesse acordada há muito tempo” – Harry rolou os olhos, fechando-os em seguida só para provocar a garota, que ria baixinho.
Ficaram mais um tempo rindo até que aos poucos um silêncio agradável preencheu o ar. Não era somente o chamou, tirando-o de seus devaneios. – “Eu tenho que ir pra casa...”
“Por quê?” – Ele perguntou manhoso, abraçando-a mais forte ainda. Os dois se embolavam com as cobertas. – “Ta tão gostoso aqui... E eu nem te mimei ainda”.
“Se ficar me mimando, eu vou ficar mal acostumada”
“Não quer ficar mal acostumada com meus abraços...?” – Harry aderiu um tom provocativo, passando minuciosamente seus dedos pelas curvas de , que arfou contra seus lábios, instigando-o ainda mais. Assim como ela, o desejo de Harry parecia não ter fim. – “Nem com meus beijos?” – Ele continuou com a brincadeira, passando a beijar o pescoço dela, subindo lenta e tortuosamente pelo seu maxilar, distribuindo beijos e mordidas por seus lábios em seguida. – “Não quer mesmo?”
“Você joga muito...” – mudou de posição na cama, ficando por cima do corpo de Harry, com um sorriso brincalhão nos lábios. – “Muito...” – Uma das mãos dela seguiu para os cabelos dele, acariciando e dando leves puxões enquanto as mãos deles procuravam tocar cada parte de seu corpo com uma urgência avassaladora. – “Muito sujo, senhor Judd”.
E sem que pudessem mais se controlar, eles se entregaram ao momento de amor, descobrindo novamente cada parte um do outro, pedindo desesperadamente para que aquilo durasse cada vez mais. Harry era cuidadoso com sua garota, e ela admirava isso. Embora o desejo fosse predominante, também havia amor, carinho, respeito.
Sem que ela nunca precisasse dizer, Harry lhe dera tudo o que ela sempre pedira para a sua primeira vez. Ele tornara aquilo real da melhor maneira possível, e ela nunca se esqueceria daquele dia. Nunca.
~×
“Harry, é serio! Eu tenho que ir agora!” ria enquanto ele lhe prendia contra o sofá sentado em suas pernas, suas mãos funcionando como algemas em torno dos pulsos dela. – “Eu preciso dar sinal de vida em casa antes que acionem a polícia!”
“The drama queen” – Ele rolou os olhos, soltando os pulsos dela devagar, segurando delicadamente seu rosto entre suas mãos. – “Promete que volta logo?”
“Hazz, eu só vou ao médico ver como está o meu braço, não vou me mudar pro Alaska!”
“Claro que não, você não gosta de coisas frias, afinal, você namora com o cara mais quente de todo mundo”.
“Ta certo senhor big ego, eu prometo que volto aqui depois que passar em casa, tudo bem?”
Harry fingiu pensar por um minuto, fazendo rolar os olhos. Harry conseguia ser bem irritante quando queria. Ele era craque nisso, pensou com um sorriso bobo nos lábios. Harry a deixou ir depois de beijá-la e mordê-la ao ponto dos dois ficarem tontos novamente. saltitou até sua casa depois de sussurrar carinhosamente um 'eu te amo'. Ah, como era bom ouvir aquilo!
Depois que sua garota se foi, Harry ficou um tempo sentado no sofá, apenas lembrando. O modo como ela se agarrou ao seu corpo, o jeito que ela sussurrava seu nome. Foi tudo perfeito, do jeito que tinha de ser. Não somente por ser a primeira vez dela, pra ele foi como se duas peças se encaixassem. Eles se completavam.
Riu consigo mesmo, percebendo o quão bobo estava. Decidiu tomar um café da manhã rápido a base da pizza da noite anterior. Colocou a louça suja na pia, prometendo a si mesmo que depois lavaria aquilo. Subiu pro seu quarto e rapidamente entrou no banho, demorando-se embaixo da água morna.
Tinha um longo tempo até que voltasse e não queria ficar sem fazer nada. Decidiu que iria correr, exercitar-se era uma das coisas que Harry gostava de fazer quando estava de bom humor.
Colocou os fones no ouvido e já saiu de casa no pique, cantarolando suas canções favoritas enquanto corria sem um rumo certo. Enquanto passava pelas vielas e ruas, deixava os pensamentos seguirem sem rumo também. Mas em todo momento, entre músicas da banda e coisas para comprar, ele se lembrava do sorriso dela. E aquilo o fazia sorrir sozinho também.
Em um desses momentos de devaneios foi pego distraído e acabou esbarrando em alguém. Imediatamente ele retirou os fones, pedindo desculpas sem ver em quem realmente batera. Naquele momento desejou não ter parado para se certificar se a pessoa estava bem. Laureen parecia surpresa e divertida ao mesmo tempo, e exibia aquele tipo de sorriso que indicava problemas.
“Quem é vivo sempre aparece” – Laureen sorriu, medindo Harry descaradamente. Por um segundo se perguntou como pôde ficar tanto tempo com uma garota como ela. – “Perdido?”
“Só estava correndo”. – Só naquele momento que ele percebeu que estava na rua onde Laureen morava. – “Agora, se me der licença, eu preciso ir”.
“Espera!” – Ela pediu antes que ele saísse correndo novamente. Relutante, Harry parou. – “Eu só... Bom, eu sinto sua falta, Judd”.
Se Harry não conhecesse bem Laureen, poderia jurar que ela estava dizendo a verdade. Mas felizmente ele conhecia o tipo dela, e sabia que por trás de cada palavra e cada olhar existia um jogo sujo. E ele não ia cair naquilo.
“Guarde seus joguinhos de amor para quem realmente se interessa neles” – Ele deu de ombros e se seus reflexos não estivessem tão apurados, seria pego pelos braços dela e sabe-se lá o que poderia vir depois. Pela parte dela, é claro. Harry sabia o que queria e com certeza não era Laureen. Visivelmente contrariada por ter sido rejeitada, Laureen assentiu com um aceno de cabeça, permanecendo estática enquanto ele continuou sua caminhada sem se abalar.
Ele só queria que ela lhe deixasse em paz. Ela só queria que ele fosse seu, novamente. E ela estava disposta a conseguir. Nem que tivesse que usar todas as suas artimanhas possíveis e impossíveis.
Baixou o olhar, e deixando que um sorriso debochado surgisse em seus lábios, Laureen observou Harry sumir de vista.
Ela tiraria da jogada ainda naquela noite.
~×
estava deitada no sofá de sua casa, um copo de suco pendendo em sua mão enquanto ela olhava pro teto, apenas pensando. Havia tantos pensamentos nela naquele momento que sua cabeça parecia querer explodir.
Passou mais tempo do que o previsto no hospital e ela estava de mau humor por causa disso. Fechou os olhos, inspirando uma grande quantidade de ar, antes de decidir subir pro seu quarto, pra descansar um pouco antes de fazer qualquer outra coisa.
Queria ver Harry, estar envolta por seus braços, mas não era o momento adequado.
A casa estava no mais completo silêncio. Seus pais haviam lhe dado uma carona até o hospital e de lá disseram que passariam à tarde na casa de sua tia e Tom estava – como sempre – com Danny na gravadora. Desde que oficializou o namoro com Giovanna, a inspiração de Tom parecia ter multiplicado. Ela entendia o que o irmão estava sentindo. Não era só por estar completamente apaixonada também, mas é que havia uma aura de tranquilidade e doçura em volta de Gio que era quase impossível não se sentir cativado. ainda sentia aquela pontinha de ciúmes, mas agora estava entendendo melhor as coisas. Tudo acontece por um motivo, e quem era ela para contrariar o destino? Inexplicavelmente sentiu vontade de chorar. Mas ela não queria ficar melancólica, não naquele Domingo. Danny havia preparado uma festa para ela e todos eles iriam se divertir. Seria o melhor aniversário de dezoito anos da vida dela.
Tomou um banho rápido, mas eficiente o bastante para relaxá-la. Jogou-se em sua cama e adormeceu quase que instantaneamente.
Não teve um sono tranquilo e acordava sobressaltada de meia em meia hora. Quando o sol estava se pondo, abriu os olhos, sentindo o corpo mais tenso do que horas antes. Sentou-se na cama, desejando o abraço de seu namorado. Logo depois de pensar em Harry, ouviu as vozes de Tom e Danny virem do piso inferior. E também ouviu a voz de Harry. Fechou os olhos com um sorriso nos lábios, permanecendo sentada em sua cama, jogando o emaranhado de seus cabelos todos para o lado. Dois toques gentis na porta e ela pediu que ele entrasse.
Trocaram olhares cúmplices, e sorriram juntos. Em silêncio, Harry entrou no quarto parcamente iluminado, sentando-se de frente para , beijando docemente a ponta de seu queixo.
“Desculpe Hazz, acabei pegando no sono...” – Ela começou a dizer, aninhando-se no colo dele, como uma criancinha. Ele achou graça. – “Não ficou zangado, não é?”
“Hmm... Não sei ainda... Estou pensando se devo puni-la ou não...”
“Posso pagar minha punição com beijos e abraços?”
“É o mínimo que você pode pagar depois de abandonar uma pessoa carente como eu...” – Harry riu em seus cabelos, abraçando-a por fim. – “Como foi no médico?”
Sentiu se remexer inquieta em seu colo, cutucando tediosamente o gesso. Sabia que ela não aguentava mais aquilo e sabia muito bem que ela não gostava de hospitais. Logo entendeu o seu repentino mau humor.
“Poderia ter sido melhor”.
“Hei, você logo se livra desse gesso horrível” – Ele tentou animá-la e demorou até que falasse novamente. Murmurou algo que ele não entendeu, mas preferiu não tocar mais naquele assunto. – “Danny está uma pilha, acho que a noite será bem longa hoje!”.
“Ele é uma criança hiperativa, Hazz. Isso é o normal dele”. – deu de ombros, descendo da cama e se espreguiçando. – “Só espero que ele não tenha contratado Strippers”.
Harry riu divertido, observando a namorada andar pelo quarto enquanto conversavam sobre a noite que teriam pela frente. Ele achou ser apenas coisa da cabeça dele, mas estava... Estranha. Havia uma ruga de preocupação marcando sua face, e por mais que ela sorrisse para ele sempre que seus olhares se encontravam, o brilho de seus olhos pareciam esmaecidos.
Ou talvez fosse apenas o estresse de horas dentro de um hospital. É, talvez fosse aquilo. Deixou o quarto de depois que ela entrou no banho e foi se juntar ao cunhado e ao amigo, que assistiam qualquer coisa na tevê.
Ficaram conversando sobre coisas da banda e comentando sobre os filmes que Danny parava para assistir. Quase uma hora depois, ouviram os passos de vindo da escada. Como era de costume, o coração de Harry acelerou brevemente e um sorriso bobo nasceu em seus lábios.
Ele sabia que sua namorada era linda, mas naquela noite em especial, ela estava... Incrível.
usava seu shorts jeans habitual, combinado com uma regata preta simples e jaqueta de couro por cima. O salto que lhe deixava uns cinco centímetros maior e seus cabelos estavam levemente ondulados. Linda, pensou ele.
Ela lhe sorriu assim que desceu, abraçando Tom pelos ombros quando se aproximou. Danny não parou de falar sobre os detalhes da festa e ela somente ria, tentando acompanhar o fluxo desenfreado de informações. Quando Tom conseguiu calar a boca de Danny – oferecendo-lhe comida – se acomodou nos braços de Harry, escondendo seu rosto na curvatura de seu pescoço. Ainda parecia cansada.
“Minha garota não parece com ânimo para festas” – Ele sussurrou e ela concordou, bocejando graciosamente. Afastou-se o mínimo somente para poder olhar em seus olhos. – “Acho que podemos contornar a situação... Podemos dizer para Danny que você não quer mais ir”.
“Nah” – Ela fez uma careta, brincando com os botões da camiseta de Harry. – “Eu aguento. Não seria justo com ele e com nenhum de vocês...”
“Bom... Então já que está decidida a fazer esse sacrifício pelo Jones, acho justo te dar alguma coisa para animar...” – mirou seus grandes olhos castanhos nos azuis de Harry, tombando sua cabeça minimamente para o lado.
Sentiu Harry remexer no bolso da jaqueta jeans, estendendo em sua frente logo em seguida, uma pequena caixa de veludo preta. Harry não sabia o que comprar de presente para ela; ele queria que fosse algo especial, mas sem muitas frescuras, porque sabia que ela não ia gostar. Foi naquela tarde mesmo que ele decidiu o que daria para ela, teve a certeza assim que viu na vitrine a pequena jóia brilhante. sentiu-se levemente nostálgica enquanto apanhava com cuidado o pacote em mãos. Se parecia tanto com o primeiro presente que Harry lhe dera... Com a ponta dos dedos, abriu-a, encontrando em seu interior algo tão lindo quanto o colar que Harry lhe dera - e que ela usava sempre, desde então.
“Simboliza a nossa união, o nosso amor e tudo o que eu sinto por você”. – Harry sussurrou, apanhando o anel prateado e colocando-o cuidadosamente no dedo anelar direito de , que parecia comovida demais para fazer qualquer outra coisa que não fosse sorrir tremulamente para Harry. A palavra “eternamente” estava entalhada na circunferência de um modo singelo. Simples, mas cheio de significados. Assim como a relação dos dois.
Inevitavelmente deixou que pequenas lágrimas umedecessem seus olhos. Como ela estava emotiva naquele dia! Beijou os lábios de Harry antes que ele percebesse sua comoção e entendesse tudo errado.
“Eu te amo tanto, Hazz. Tanto que eu nem sei como consigo”.
“Eu amo você” – Ele repetiu, acariciando suas costas em um abraço carinhoso. – “Acho que agora você está preparada para festejar, não é?”
Ela concordou com um aceno de cabeça, tocando admirada a aliança em seu dedo. Ele ficara realmente feliz em ter acertado na escolha. De mãos dadas, eles acompanharam Tom e Danny até o quintal, onde esperavam por Dougie para que todos pudessem ir juntos para o pub que Danny escolhera.
A sensação que predominava entre os amigos era algo único, que nenhum deles conseguiria descrever, mas que os faziam se sentir bem. ia relaxando aos poucos, deixando na parte vaga da memória aquela impressão de preocupação que Harry percebera. Danny, Tom e Dougie riam animados e Harry e os acompanhavam, mas na maior parte do tempo pareciam submersos numa bolha só deles.
Quando chegaram ao “Midnight Club”, foram recepcionados por uma musica dançante e luzes coloridas. O clube estava cheio e foi um pouco difícil conseguirem chegar até a área vip, fechada exclusivamente para . Danny realmente sabia fazer uma festa. Ela reconheceu colegas do colégio e algumas pessoas ela simplesmente não fazia ideia de quem poderia ser. Sabia que todos ali lhe desejavam os parabéns, então, provavelmente eram amigos de Danny e sabiam ao menos o que estavam comemorando.
Abraçou fortemente Danny, agradecendo por tudo que ele fizera ali. Ele sorriu satisfeito, erguendo o copo – Danny era mágico quando se tratava de bebida, pensou ao constatar a rapidez com que ele conseguira um copo– brindando o aniversário dela.
Não demorou para que todos ali estivessem com um copo em mãos também, inclusive ela. E então ela se entregou a música, dançando como se não houvesse amanhã.
“Eu preciso ir ao banheiro!” – procurou pelo irmão, mas ele devia estar do lado de fora esperando pela Giovanna, que ligara dizendo que chegaria atrasada por conta do trânsito. Harry tinha ido buscar mais bebida para os dois, mas com o tumulto no bar, ele demoraria pra voltar. Dougie também não estava por perto, então lhe restou ir sozinha. Até tentou chamar Danny, mas na situação dele, não era bom arriscar tirá-lo do sofá.
Com dificuldade, ela conseguiu chegar ao banheiro feminino, que por sorte não estava tão cheio. Quando estava pronta para sair, topou com Dougie no meio do caminho. Trocaram um sorriso rápido e estavam seguindo um na frente do outro, quando estacou bruscamente, fazendo-o bater em suas costas. Rindo, Dougie lhe questionou o que havia acontecido, mas ela não respondeu.
Então, ele procurou o que havia de errado, preocupado com o bem estar da garota. Procurou seus olhos, mas eles estavam fixos em outra direção. Ele seguiu com o olhar e se outra pessoa lhe tivesse contado, não teria acreditado.
Aquele podia ser qualquer outro cara curtindo a balada com os lábios colados nos daquela garota desconhecida, mas... Infelizmente não era. Tanto quanto Dougie não queriam acreditar naquilo, mas sim, aquele era Harry.
Ela não viu o que aconteceu antes ou depois daquele meio segundo, sem pensar em mais nada, sumiu por entre a multidão. Dougie ainda não acreditava no que estava acontecendo. Como Harry era capaz?! Instantes depois de sumir, a garota largou Harry e sumiu, deixando-o para trás sem entender nada. E antes que Dougie fosse atrás da amiga, Harry encontrou seu olhar. E havia tanta coisa neles, mas Dougie só conseguia ver sua própria indignação. Queria brigar com Harry, mas não podia deixar sozinha por aí daquela maneira. Deu as costas antes que Harry pensasse em se mover.
Sabia que era inútil, mas gritava por no meio da multidão. A falta de luz o irritou naquele momento e a música alta já não era tão boa assim.
Poderia ligar para Tom ou Danny, mas aquilo não ia ajudar. Quanto menos gente soubesse – naquele momento – melhor seria. Percorreu os olhos por todo o lugar, avistando ao longe os cabelos dela. Apressou em segui-la com o olhar, para não perdê-la de vista. Sem fôlego, ele enfim conseguiu chegar à saída de emergência, que dava num beco estreito onde geralmente as pessoas fumavam.
estava ali, graças aos céus, pensou. Ela estava sentada no chão, escorada à parede com a cabeça baixa. Dougie não soube medir o quanto aquela cena o machucou por dentro. Sem hesitar, se aproximou, sentando-se ao seu lado. levantou o olhar, e eles estavam vazios. Não estava surpresa por Dougie tê-la seguido e encontrado-a. Mas, fora a ausência de surpresa, também havia a ausência de tristeza ou raiva. Não havia nada. Dougie tentou entender aquilo. Ele mesmo estava disposto a partir a cara de Harry em dois, mas ela não estava abalada. E aquilo o preocupava. Talvez ela ainda não tenha associado o que viram. Talvez, a dor seria maior quando o dia amanhecesse e o álcool saísse de suas veias.
“...?”
Ela piscou, e os seus olhos se marejaram. As lágrimas se acumularam, mas não chegaram a cair. A dor no peito de Dougie dobrou de tamanho. Não suportava vê-la daquela maneira.
“E-eu...” – Ela começou, mas não sabia o que queria dizer, naquele momento. Estava completamente dopada. – “Doug...”
E então caiu em prantos, sendo amparada pelo abraço confortador de Dougie. soluçava copiosamente, cada gemido angustiado rompendo as paredes do coração dele. A dor dela se tornara sua.
Sempre fora daquele jeito. Desde que eles se conheceram, Dougie se encantou por ela. Demorou a perceber, mas ele gostava dela. Mais do que realmente podia. Ele sempre soube que gostava de Harry, até mesmo antes de ela descobrir isso e, por mais que aquilo soasse sem sentido em sua mente, ficou feliz quando eles ficaram juntos. Porque ela estava feliz e era isso que importava. Mas agora... Ela estava quebrada por culpa daquele que ela amava. Não parecia justo.
Ele desejou poder tirar toda aquela dor de dentro dela.
“Shiiiu... Eu to aqui com você, pequena”. – Ele embalou o corpo de , como se tudo aquilo não tivesse passado de um pesadelo. – “To aqui com você”.
E não sabe por quanto tempo ficou ali, na mesma posição, apenas abraçando-a. Também não ligaria se fosse preciso ficar ali por todo o resto da noite. Só o que lhe importava era ela. Somente ela, no momento.
“When you have everything then you got everything to lose”
(Quando você tem tudo, então você tem tudo a perder).
- You should know by now
(Deixem a música carregando e coloquem para tocar quando a letra começar!
Música do capítulo: Secondhand Serenade – The Last Song Ever)
Por um breve e insano segundo, eu achei que tinha morrido.
Todas as terminações nervosas do meu corpo pareciam comprometidas: como uma máquina em mau funcionamento, eu sentia como se fosse explodir em mil pedacinhos com o mínimo movimento, fosse ele brusco ou não.
Apertei meus olhos na tentativa de fazer aquele mal estar passar, mas digamos que não funcionou da maneira que eu esperava. O enjôo continuava ali, beirando entre meu estômago e minha garganta, o que definitivamente, não era uma coisa agradável.
Bufei impaciente, rolando sofregamente pra fora da cama. Meio minuto depois eu percebi que já estava fora dela. Tateei o tapete de meu quarto, procurando por um apoio seguro para me levantar. Demorou, mas por fim consegui me segurar no pé da cama com o pouco de firmeza que restava em meus braços e me guinchei para cima dela, mantendo-me sentado com muita, muita dificuldade em cima dela.
Com um meio olho aberto, olhei sem ver à minha volta, reconhecendo imparcialmente meu quarto.
Eu precisava de um banho, não era possível que somente eu estivesse cheirando mal daquele jeito. Era uma mistura de vodka, queijo e algo que não consegui distinguir.
Argh.
Nem que eu levasse cinco anos, eu teria que me rebocar para o banheiro imediatamente. Talvez sob a água fria eu conseguisse melhorar meu estado físico e mental, já que a noite de ontem não passava de borrões distorcidos e inquietantes. Eu ainda não conseguia me lembrar, mas sabia que algo muito ruim aconteceu.
Tropegamente saí de meu quarto, tentando não fazer muito barulho enquanto ia pro banheiro. O final do corredor nunca me pareceu tão extenso quanto hoje.
Xingando baixo quando derrubei os sais de banho de minha mãe, torci para que ela não acordasse e viesse brigar comigo. Do jeito que meus miolos fritavam no cérebro, eu provavelmente teria um colapso.
Com uma rapidez que parecia impossível para alguém no meu estado, me livrei de minhas roupas e entrei no box, gemendo baixo quando a água fria atingiu minha pele como lâminas afiadas. O estômago se retraiu e tive que trincar minha mandíbula para não emitir sons desagradáveis naquele horário.
Permaneci imóvel debaixo do chuveiro enquanto as coisas iam se encaixando lentamente dentro de minha cabeça. A única certeza era que eu exagerei nas doses de vodka na noite anterior e era evidente que tinha um bom – ou não, dependendo do ponto de vista – motivo para tal atitude.
Eu nunca fui do tipo que bebe pra cair.
Comecei lembrando de Danny gritando algo comigo. Provavelmente foi ele que me trouxe pra casa... Antes disso ele estava falando com alguém no telefone. E, antes disso... Eu estava tentando ir embora, mas por algum motivo eu não fui... Aí eu comecei a beber... Por que... Por que... Ah.
Merda.
No momento em que me lembrei, eu quis que a minha primeira impressão daquele dia fosse verdade. Eu preferia estar morto agora. Eu... Merda.
Tinha aparecido aquela garota enquanto eu esperava pela bebida, perguntando algo sobre a banda. Eu só quis ser atencioso, porque achava que ela era uma fã nossa. Eu não estava ouvindo o que ela estava dizendo e me aproximei para ouvir... Foi quando ela me agarrou e me beijou. Merda, ela me beijou e Dougie viu.
Não sei exatamente o quanto ele viu, mas eu esperava que não entendesse tudo errado. Esperava que ele ao menos tivesse visto que não fui eu que agarrei aquela garota.
Mas, pelo modo como ele foi embora, só podia significar duas coisas: ele entendeu tudo errado e a julgar também pela maneira como saiu correndo, também tinha visto aquela cena.
Merda. Merda. Merda.
Eles sumiram de minha vista e quando eu tentei ir atrás deles para tentar explicar o que estava acontecendo, Danny não me deixou pegar o carro. Disse que eu estava alcoolizado demais para ir embora e que não ia me dar as chaves. Eu até quis dizer que eu precisava ir embora pra conversar com eles, mas eu não tive coragem de contar o que aconteceu. Eu não tinha culpa, mas ainda assim ele não ia entender. Nem ele e muito menos Tom, que também não me deixava ir embora.
Contrariado e vigiado rigorosamente por meus dois amigos, eu tive que ficar e sentir no fundo do meu estômago que eu estava totalmente ferrado.
Meia hora depois Danny recebeu a ligação que eu julguei ser de Dougie, dizendo que estava com em casa. Não sei o que ele contou, mas Danny me olhou como se soubesse que algo tinha saído errado. Talvez ele achasse que fosse somente uma briga casual e me deixou beber o resto da noite sem fazer muitas perguntas.
Se ele soubesse a dimensão do estrago... Provavelmente teria me espancado.
é como a irmã mais nova dele. Danny sempre deixou claro que faria de tudo por ela, que não admitiria que ninguém a fizesse chorar.
Eu costumava achar a mesma coisa. Mas o que foi que eu fiz? Não era minha intenção, obviamente, mas ainda assim aconteceu. Eu podia ter evitado aquilo, não podia?
Engoli a bile, fechando o registro enquanto inúmeras suposições inundavam minha mente. Parecia que uma bomba nuclear havia sido explodida dentro de mim.
Tinha que haver uma saída.
Sem muito entusiasmo enxuguei meu corpo, enrolando a toalha em volta de meu quadril, seguindo para meu quarto. Eu precisava me vestir e ir até a casa dela. Por um momento eu quis me sentir confiante, mas... Não era tão simples assim. Meu coração batia agoniado dentro do peito e ácido corroia as entranhas do meu estômago e dessa vez não era por causa da bebida.
Eu só esperava que ela me deixasse explicar.
Vesti a primeira camiseta que apareceu na minha frente, procurando uma bermuda limpa logo em seguida. Passei as mãos rapidamente pelos cabelos molhados, inspirando fundo enquanto calçava meus tênis.
Nem mesmo o reflexo no espelho parecia acreditar que aquilo acabaria bem.
Deixei um breve recado na geladeira, avisando minha mãe que estaria na casa de . Só o fato de pensar em seu nome fazia meu estômago se afundar ainda mais dentro de mim.
Tomei fôlego antes de sair de casa, inspirando o ar gélido da típica manhã londrina. Havia um pouco de sol, mas não o bastante para aquecer. Desci os degraus apreensivamente; meu lado mais covarde querendo a todo momento voltar para meu quarto e não sair de lá enquanto a poeira não baixasse.
Mas eu sabia que devia fazer aquilo, mais do que ninguém.
Diminui o ritmo de meus passos quando pude avistar a silhueta de sentada na varanda ao longe. Parecia tão... comum. Vê-la ali fora, como se aquele fosse um dia normal e eu estivesse indo apenas para passar um dia agradável ao lado dela.
Senti inúmeras coisas se agitarem dentro de mim, mas eu as empurrei para debaixo do tapete, tentando não perder o controle. Eu poderia ter somente uma única chance e eu não podia colocar tudo a perder.
Minhas mãos suavam e pareciam levemente trêmulas. As coloquei dentro do bolso do jeans, tentando parecer despreocupado. Engoli em seco quando parei em frente aos degraus de sua casa. Ela parecia não ter percebido minha aproximação e, se percebera, disfarçara muito bem.
O que não significava boa coisa.
Inutilmente esperei que, ao me avistasse, abrisse o típico sorriso que eu adorava e se jogasse em meus braços, afundando seu rosto na curvatura de meu pescoço.
Mas, evidentemente, aquilo não aconteceu quando ela me viu.
Ela parecia... Surpresa. Como se eu fosse um desconhecido que se atrevera a entrar no seu quintal e agora a encarasse como se esperasse por alguma coisa.
Eu não conseguia me mover, por mais que centenas e milhares de coisas passassem na minha mente agora. Como a vontade que eu tinha de abraçá-la e dizer o quanto eu a amava. Era tudo o que eu queria: ter a minha garota em meus braços e ver que tudo não passara de um mau momento.
Exibi um pequeno – quase inexistente – sorriso esperando que ela fizesse o mesmo. Observei fechar o livro que lia calmamente e colocá-lo ao seu lado no banco, inspirando uma grande quantidade de ar com os olhos fechados.
Com certa dificuldade eu consegui subir os quatro degraus, parando quando ela se levantou também. Havia tanta tensão no ar que eu mal conseguia raciocinar direito.
Aquilo nunca acontecera entre nós dois antes. Nunca.
“Hei”. – Eu consegui dizer, acenando de uma maneira idiota para ela.
Ela piscou diversas vezes seguida, como se algo incomodasse a visão. Eu preferia não ter reparado, mas eles estavam mais úmidos do que o habitual.
Ah, merda.
(Eu desejo que minha vida fosse esta canção)
Cause songs they never die
(Pois canções nunca morrem)
I could write for years and years
(Eu poderia escrever por anos e anos)
And never have to cry
(e nunca teria que chorar)
“, sobre o que aconteceu ontem...”
“Não importa, Harry”. – Ela disse, e sua voz não passava de um pequeno sussurro rouco. Ela meneou a cabeça, olhando para a rua, evitando meu olhar. – “O que aconteceu... Aconteceu”.
“Por favor, me escute! Eu não queria que aquilo acontecesse.” – Eu tentava não falar alto demais, mas eu simplesmente não conseguia me conter. Eu precisava dizer tudo antes que ela dissesse qualquer outra coisa. Qualquer coisa que a afastasse de mim para sempre. – “Você sabe que eu te amo, . Não sabe?”
Ela não disse nada. Caminhou lentamente para o muro, batendo levemente com o punho na madeira. Meu coração parecia ter parado de bater a muito tempo.
Eu não sentia nada além da sua indiferença.
(Eu mostraria a você como eu me sinto, sem dizer uma palavra)
I could wrap up both our hearts, I know this sounds absurd
(Eu poderia unir nossos corações, eu sei que isso soa absurdo)
And I saw the tears on your face... I shot you down
(E eu vi as lágrimas em seu rosto… Eu acabei com você)
And I slammed the door but couldn't make a sound
(E eu bati a porta mas não pude fazer barulho)
So please stay sweet my dear... don't hate me now
(Então, por favor fique bem minha querida… Não me odeie agora)
And I can't tell how this last song ends
(E eu não posso dizer como essa última canção termina)
“Eu costumava achar que nunca sofreria por ninguém, sabia?” – Ela sorriu sem humor, mordiscando fortemente o lábio inferior. Parecia prestes a cair em prantos, mas ela estava se esforçando para permanecer forte. – “Eu costumava achar que eu nunca me importaria com as coisas que você fazia”
“...”
“É engraçado porque... Nunca pensei que fôssemos nos apaixonar” – Pela primeira vez desde que eu chegara ali, ela olhou diretamente para mim. – “Eu nunca pensei que fosse amar tanto alguém algum dia. Mas, agora...”.
Ela sorriu, mas era um sorriso triste. Eu apenas a olhava falar, pressentindo que alguma coisa seria quebrada naquele dia.
(O modo como eu me senti hoje à noite, tão pra baixo, tão pra baixo)
I pray I can swim just so I won't drown
(Eu rezo para que consiga nadar, então não me afogarei)
And the waves that crash over me... I gasping for air
(E as ondas que chocam sobre mim… Eu respire com dificuldade)
Take my hand so I can breath... as I write this last song down
(Pegue minha mão então eu consigo respirar enquanto escrevo esta última canção)
And I saw the tears on your face... I shot you down
(E eu vi as lágrimas em seu rosto… Eu acabei com você)
And I slammed the door but couldn't make a sound
(E eu bati a porta mas não pude fazer barulho)
So please stay sweet my dear... Don't hate me now
(Então, por favor fique bem minha querida… Não me odeie agora)
I can't tell how this last song ends
(Eu não posso dizer como essa última canção termina)
“Você sabe que eu nunca, nunca faria algo que pudesse machucá-la” – Eu consegui dizer, tentando me aproximar. Mas ela recuou quando eu avancei dois passos. Aquilo machucou de maneiras absurdas. – “Eu sinto muito, . Se eu pudesse voltar no tempo eu... Eu não deixaria aquilo acontecer.”
“Mas nós não podemos voltar no tempo, Judd”
Fechei meus olhos brevemente, sentindo fisgadas no meu coração. Fazia tempo que ela não me chamava daquela maneira.
“Por favor, não me diga que acabou” – Pedi, sem forças para olhar em seus olhos.
(O vidro quebrado, sua pele umedecida)
Was everything... was everything
(Era tudo… Era tudo)
Your broken voice... was quivering
(Sua voz rouca… Estava tremendo)
Your everything... your everything
(Você é tudo… Você é tudo)
“Eu achei que isso nunca fosse acontecer...” – Uma lágrima escorreu pelo seu rosto, mas ela a enxugou antes que caísse em seus cabelos. Inspirou fundo e eu estava me segurando para não derramar minhas próprias lágrimas. – “Mas eu não posso continuar com você, Harry”.
olhou para a aliança em seu dedo, fechando os olhos com força enquanto retirava-a e estendia para mim. Naquele momento eu também percebi que o colar não estava mais em seu pescoço.
Ela estava me excluindo de sua vida. Começando pelas coisas que eu havia lhe dado.
(Grite para mim, faça isso o melhor que eu já ouvi)
Laugh out loud I know it sounds absurd
(Ria bem alto, eu sei que parece absurdo)
Scream at me make it the best I ever heard
(Grite para mim, faça isso o melhor que eu já ouvi)
Your everything... your everything
(Você é tudo… Você é tudo)
Heart beats slowing, pains are growing
(Corações batendo devagar, dores vão aumentando)
Does he love you, that's worth knowing
(Ele te ama? Basta saber isso…)
“Adeus, Judd”
Foram essas duas palavras que ela disse antes de me dar as costas e fechar a porta. Parecia impossível encontrar oxigênio naquele momento. Eu sentia todo meu interior rachando e se esfarelando, deixando um enorme buraco no lugar do meu coração.
Ainda sem acreditar no que estava acontecendo ali, olhei o pequeno anel que brilhava em minhas mãos. Estava mais claro do que nunca.
Tudo terminara.
(Corações batendo devagar, dores vão aumentando)
Does he love you, that's worth knowing
(Ele te ama? Basta saber isso…)
De alguma maneira, eu consegui voltar para minha casa.
Quando me dei conta de que estava na penumbra do meu quarto, foi então que eu desmoronei. Não tinha vergonha pelas lágrimas ou remorso pela noite passada. No momento, tudo o que existia dentro de mim era apenas o vazio.
E eu nunca senti tanta dor em toda minha vida, antes.

