Blood Seduction

Autora: Tiemy (Emy)
Status: Finalizada
Revisada por: Isa
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: ShortFic - Suspense/Drama
Nota pelo desafio: 8,5.
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Uma única noite.
Um único desejo.
Um último suspiro.




O Começo




-Não acredito que me convenceu a fazer isso.
-Ah vamos lá maninha, vai ser divertido! – Nick jogou os braços para o ar, golpeando os objetos ao nosso redor com nossas mochilas penduradas nos ombros. – Um fim de semana longe de casa e das responsabilidades, acampados no pé de uma montanha, com seu irmão predileto e seus amigos. O que mais pode querer?
-Nada de insetos, fogueiras e casais. – Respondi emburrada. O problema em ter uma turma onde todos namoram, é que em alguns programas você sempre fica sobrando. – Qual é Nicholas, eu não quero ter que dividir uma barraca com nenhum casal pervertido!
-Eu divido a barraca com você.
-Grande diferença! Não quero ver seu traseiro branquelo e muito menos daquela tal de... Qual é mesmo o nome dela? Aquela que tem nome de chiuaua...
-Tiffany. O nome dela é Tiffany, - Nick bufou, depositando as malas no chão, ao lado do carro. – Você não pode ser simpática com nenhuma garota que eu saio? Pelo menos uma vez?
-Não. – Dei de ombros, cruzando os braços contrariada. – E eu não vou dormir com vocês.
-Tudo bem, eu dou um jeito.
-Então dê um jeito agora.
-Nós estamos atrasados!
-Agora ou nunca. Não quero te dar a chance de me enrolar, senhor Nicholas .
-Argh, como você é chata! – Ele resmungou, tirando o celular do bolso. – Vou ligar para , acho que ele tem uma barraca extra lá...
-O-o vai?
-Não, . Eu to acordando ele às cinco da manhã porque não tenho mais o que fazer. É claro que ele vai, sua anta.
Ótimo. Meu final de semana não poderia ser pior. Vou ser a única encalhada do grupo e, ainda por cima, vou ter que ver com aquele protótipo de gente com silicone no lugar do cérebro.
Céus, o que foi que eu fiz de tão errado para ser punida dessa maneira?
Marchei para o lado do passageiro, bufando enquanto Nick acertava os últimos detalhes com seu melhor amigo que andava mexendo mais do que eu gostaria com meu sistema nervoso.
O problema em se ter um irmão mais velho, é que você sempre vai correr o risco de se apaixonar por um dos seus amigos. Outro problema também é que, quando seu irmão tem vinte e sete anos e você dezessete, os amigos deles nunca vão olhar para você, mesmo que seu irmão não seja dos mais ciumentos e possessivos do mundo.
-Tudo certo. A namorada de vai te emprestar a dela.
-Que ótimo. – Ironizei, deixando a cabeça pender para o lado do vidro, fechando os olhos. – Vai ser o melhor passeio de verão de toda minha vida.
-Hei limão azedo, relaxa. Cadê todo aquele vigor e expectativa dos seus dezessete anos?
-Sou uma adolescente idosa, se esqueceu?
-Ah qual é, melhora essa cara aí, vai! – Nick afivelou seu cinto, olhando fixamente para mim antes de dar a partida no carro. – Vão pensar que estou te levando à força!
-Quando isso não for levar à força, eu não sei mais que termos usarão.
-, ... Se você não fosse minha irmã, eu estaria louco para quebrar seu nariz. – Nick girou a chave na ignição, rindo. – Eu sei que você não vai se arrepender!
-Quero só ver.

Eu estava com o humor pior do que quando saímos de casa, há duas horas atrás. Não tanto pela viagem, já que não podia fazer mais nada a respeito, mas sim pela cantoria desafinada de Nick o trajeto inteiro.
-Não sei por que, mas, Hero não é mais minha música preferida.
Nick deu a língua, praticamente pulando para fora do carro quando estacionamos na entrada do resort. Ele parecia uma criança de cinco anos de idade. E vê-lo tão animado daquela maneira me contagiou um pouco.
Nicholas quase não tem tempo para ficar com a gente, já que sempre está ocupado com o trabalho. E parece que quando tem a possibilidade de tirar alguns dias de descanso, ao invés de descansar, ele quer recompensar todas as semanas ausentes com seus programas malucos.
Eu tinha o melhor e mais chato irmão do mundo.
Suspirei vencida, descendo do carro para segui-lo. Tiffany já estava pendurada em seu pescoço com sua língua enfiada na goela dele. Rolei os olhos, desistindo de me aproximar, cumprimentando quem olhasse para mim com um sorriso morto.
Abri o porta-malas, buscando meu celular nos bolsos da mochila. Talvez eu ligasse pra minha mãe...
Sem sinal.
Bufei e depois de desliga-lo, o devolvi para a mochila. Se não tem sinal, pra que manter ligado? Vasculhei mais um pouco, procurando meu Ipod.
Baixa bateria.
-Ô inferno!
-Com algum problema? – Me assustei com a companhia inesperada, levantando a cabeça rápido demais e acertando-a na porta que não estava erguida por completo. – Meu Deus , você tá legal?
-Ai droga! – Fechei os olhos com força, pressionando o ponto atingido. Eu odiava a tal lei de Murphy. – To ótima, com um galo na cabeça então? Não tem como ficar pior.
E só então eu me dei conta com quem eu estava falando. Cobri minha boca com a mão livre, sentindo as bochechas queimarem. exibiu um sorriso torto, retirando minha mochila do bagageiro.
-Precisa de algum remédio?
-Não, foi só uma batida de nada. – Retirei minha mão da cabeça, pigarreando disfarçadamente. – Já estou acostumada.
-Com acidentes?
-Não, em ser azarada mesmo. A sorte passou longe de mim quando eu nasci.
riu novamente, colocando as mãos dentro de sua bermuda jeans. Eu fiquei mais preocupada em não parecer uma adolescente idiota apaixonada, então, mantive os braços cruzados, não olhando diretamente em seus olhos.
-Você é hilária. – E com um aceno breve, se afastou.
Ó-ti-mo. Agora eu sou uma palhaça diante do homem de meus sonhos.
É, eu me enganei. Tinha como ficar pior.
Muito mais do que minha sanidade poderia agüentar.
-Hei , eu quero que conheça a Tiffany! – Nick se aproximou com a garota em seu encalço, sorrindo. – Tiff, essa é , minha irmã mais nova, aquela que eu te falei.
-Você é muito fofinha!
-Olha, vamos combinar uma coisa, Tiff? – Estreitei meus olhos, fazendo-a agitar sua cabeleira loura exatamente como fariam com uma criança. – Se não quiser ouvir coisas desagradáveis, evite o uso de “inha” quando falar comigo. Estamos entendidas, fofinha?
Ela esboçou um sorriso sem graça, afastando-se com a desculpa de que tinha que pegar alguma coisa no carro.
-Não venha com sermão, Nicholas. – Olhei de soslaio para ele assim que ela estava longe o bastante. – Devia saber que eu não suporto que me tratem como se eu fosse um bebê.
-Mas eu não disse nada!
-Mas pensou. Você é meu irmão, seu idiota. Eu te conheço. – Rolei os olhos, suspirando pesadamente enquanto examinava a abundância de verde ao nosso redor. – Espero mesmo que tenha uma barraca só pra mim, ou as coisas vão ficar muito feias pro seu lado.
-Você não era tão agressiva assim há dez anos atrás...
-Há dez anos atrás você não era tão insuportável assim.
-Você sabe que me ama.
-Você me ama muito mais. – Coloquei a minha mochila nas costas, ajeitando-a com impulsos dos ombros. – Ter me arrastado até aqui só me mostra o quanto você precisa de mim. E não pense que eu esqueci da parte que eu não vou me arrepender por isso.
Que aquele final de semana valesse realmente à pena.
Ou alguém estaria muito encrencado.
Ah, estaria.



O Meio




De fato, eu teria uma barraca apenas para mim. Mas eu não esperava que ela fedesse tanto a perfume importado.
O que ela fazia? Borrifava seu perfume caro em todos seus objetos?
Naquele momento tive a certeza de que cometera um pecado muito grave numa outra vida. Não que eu esteja reclamando da minha vida atual como um todo. Mas existiam certos momentos – como esses, por exemplo – que eu realmente acreditava ser a pessoa mais azarada do mundo. Coisas pequenas como ter esquecido de carregar meu Ipod ou ser extremamente descuidada com as partes de meu corpo eram prova disso. Eu vivia cercada de pequenos infortúnios.
Eu só esperava que isso não fosse grave demais.
Depois de montar a barraca fedorenta, fiquei deitada lá dentro, fitando o teto abobadado avermelhado. Do lado de fora, os três casais terminavam de arrumar suas coisas, rindo e conversando animadamente.
Eu também estaria animada se tivesse alguém ali comigo para que eu não me sentisse deslocada.
Não era por falta de oportunidade. Havia garotos interessantes no meu colégio, mas... Nenhum deles era . Eu tentava não comparar todos que conhecia com ele, mas é impossível esperar que um garoto de dezoito anos te atraia como um de vinte e seis.
Suspirei, fechando os olhos por alguns momentos, murmurando uma canção qualquer.
-Hei maninha, nós vamos dar uma volta pela redondeza.
-Tudo bem.
-Eu disse que nós vamos dar uma volta. – Ele terminou de baixar o zíper que estava entreaberto, estendendo uma mão para mim. – E o nós inclui você.
-Por que sempre me inclui nos seus passeios?
-Porque não quero deixar minha irmãzinha sozinha. E você precisa se divertir mais. Parece mesmo uma velha ranzinza enfurnada aí dentro. Vamos lá, eu te trouxe aqui para se descontrair com nossos amigos. Por favor?
Baguncei meus cabelos, enrugando meu nariz numa careta para Nick, que abriu seu melhor sorriso. Aquilo me fez rir contra minha vontade.
-Odeio você, sabia?
Nicholas me rebocou pela mão, gritando animado que podíamos seguir adiante. Nos embrenhamos no meio do mato, seguindo uma trilha quase apagada. Nick me segurava pela mão de um lado, e Tiffany do outro. Eu precisei me esforçar muito para não fazer caretas enquanto conversava com ela. Eu tentaria ao máximo não estragar aquela viagem.
-Aonde isso vai dar? – Perguntei por fim, sentindo as gotas de suor escorrerem pela nuca, amarrando meus cabelos num coque alto. – Não vamos nos perder, não é?
-Não tem como se perder aqui. É a única trilha que encontramos.
Um barulho suave podia ser ouvido com mais nitidez, conforme avançávamos. O cheiro de terra molhada e de folhagem foi substituído por algo mais condimentado.
-Praia?
-É o que parece. – Nick sorriu, avançando com os outros. Tiffany e eu ficamos paralisadas no mesmo lugar, ainda na trilha. Troncos baixos cobriam parcialmente o que estava na nossa frente. – Tem areia e água, é praia!
-Não me diga. – Ironizei, vencendo os últimos passos até ultrapassar a cortina de folhas.
Tive tempo apenas de ver Nick se livrando de sua camisa e saltando na água, onde e Logan já se encontravam. Mellanie estava sentada juntamente com a namorada de Logan – eu nunca lembrava o nome dela – rindo da alegria dos meninos. Apanhei a camisa de Nick do chão, que era parcialmente coberto por areia. Havia mais pedras de tamanhos irregulares do que outra coisa. A costa era toda daquele jeito: arvores atrás, areia e pedra no meio, e o mar na frente. Sentei na pedra maior, não muito longe das outras garotas. Tiffany achou melhor não ficar perto de mim na ausência de Nicholas e se juntou a elas.
Cruzei as pernas, como se fosse meditar e fechei os olhos, inspirando aquele aroma agradável. Lembrava-me de quando era criança e ia pescar com Nick e nosso avô...
O som de risos contidos das meninas me fez abrir os olhos, curiosa sobre o que estava acontecendo. Até entender que riam de mim. Ou do que iam fazer comigo.
Assim que abri meus olhos, os braços de meu irmão me prenderam em seu colo. Nicholas agitou seus cabelos molhados sobre mim, respingando água para todo lado.
-Você não vai fazer isso!
-Ah, eu vou sim!
E correu para a água, afundando comigo. Prendi a respiração a tempo de ficar submersa, lutando para me livrar de seus braços. Feito isso, voltei à superfície, ouvindo sua risada estrondosa.
-Você achou engraçado, né? Vamos ver se vai achar engraçado quando apanhar na frente dos seus amigos!
Estar dentro da água me dava uma vantagem que eu não teria em terra firme. Nick era muito maior e muito mais forte, mas na água estávamos iguais. Além do mais, eu fiz quatro anos de natação e ele não. Pulei em seu pescoço, fazendo força para baixo, conseguindo montar em suas costas com facilidade.
-Há-há. Quem é a melhor agora, hum?
-Okay, okay você venceu! – Nick esticou os braços para trás, segurando em minhas pernas. – Você é a número um. Mas eu vim antes de você.
Dito isso, me jogou novamente para dentro d’água. Minhas roupas inapropriadas para o mergulho me deixavam pesada e depois de conseguir me livrar de Nick, saí dela. A garota que eu esqueci o nome perguntou educadamente se a água estava boa. Eu afirmei, torcendo a barra da camisa. Acho que ela era a única daquele grupo que eu não tinha nenhum tipo de aversão. Talvez fosse porque ela não era namorada do 'meu cara' e nem do meu irmão.
Com minha declaração, todas resolveram entrar e eu fui caminhar. Definitivamente, ficar parada com as roupas molhadas não era uma boa idéia. Mesmo sem sol, estava quente. Conforme eu me afastava dos risos, um silêncio estranho preenchia meus ouvidos. Não sei por que achei estranho, mas era como se alguma coisa estivesse escondida naquele silêncio todo.
As copas das árvores moviam-se lentamente, como se tivessem medo de acordar um tipo de maldição. Fiquei alguns segundos observando a aglomeração de troncos largos quando percebi um farfalhar muito próximo.
Estaquei no lugar, sem me mover. Cerrei meus olhos, tentando identificar a origem daquela movimentação. Mas nada veio além do silêncio fúnebre.
Eu devia estar ficando paranóica.
Com um sorriso enviesado dei meia volta, reprimindo um grito ao me chocar contra alguma coisa. Coisa aquela que não estava ali segundos atrás.
-Mas o... – Franzi as sobrancelhas, desfazendo o movimento assim que me dei conta no que me chocara. A coisa mais linda que eu já vi em toda minha breve vida. – Quê...?
-Devagar. – Ele sorriu, amparando-me pelos ombros.
-Me desculpe, não vi que estava... Mas o que estava fazendo atrás de mim?
-Caminhando? – Ele abriu um pouco mais seu sorriso, as esferas de seus olhos fixas em mim. – Você parecia bastante distraída para perceber minha aproximação.
-Achei ter ouvido um barulho ali. – Apontei para a mata, sentindo o coração palpitar fortemente. – Mas acho que foi coisa de minha imaginação.
-Costuma falar muito com estranhos?
-Só quando eles são muito bonitos. – Disse sem pensar, sentindo as bochechas corarem imediatamente. – Não, não, não. Não foi isso que eu quis dizer!
-Está tudo bem. – Ele se aproximou, sussurrando em meu ouvido. Instantaneamente senti os pêlos de minha nuca se eriçarem. – Vou aceitar isso como... um elogio.
Ele se afastou lentamente, os lábios traçando um sorriso quase inexistente. Sutilmente, não como se eu fosse fugir, mas como se quisesse brincar comigo, ele ergueu uma de suas mãos que estavam pousadas dentro do bolso de sua bermuda jeans e afastou uma mecha de meu cabelo, colocando-a atrás de minha orelha. Fechei os olhos por alguns milésimos de segundos, sentindo a respiração falhar.
-. – Ele disse simplesmente, sorrindo de um jeito incompreensível demais de tão encantador. – Se precisar, estou a disposição.
E deu as costas, voltando por onde veio. Eu continuei estática, vendo suas costas definidas por debaixo da camisa branca, de tecido quase transparente se afastar.
Por que eu sentia mais calor agora do que cinco minutos atrás?
Voltei a caminhar, trombando pela segunda vez com alguém. Mas esse foi fácil identificar, pois seu cheiro era inconfundível.
-Hei... ! – Céus, por alguns segundos eu esqueci seu nome. Alguns segundos com um estranho e já era capaz de me fazer esquecer o nome que não saía de minha cabeça por nada. – O que aconteceu?
-Quem era? – Ele apontou com o queixo para frente, franzindo as sobrancelhas por debaixo do cabelo molhado.
-Ahn, um cara chamado . – Dei de ombros, ainda anestesiada pela intensidade de seu sorriso; de seu olhar. – Deve morar pela redondeza, ofereceu ajuda, caso precisarmos.
-Não vamos precisar. – Ele continuou fitando o caminho por onde sumira, cerrando minimamente os olhos. – Mas então, vamos embora?
-Claro, claro.
Caminhei ao lado de , conversando sobre coisas banais.
E por mais que não tenha me virado para ter certeza, eu podia sentir o olhar dele cravado em mim.
Ou eu realmente estava ficando paranóica.

-Isso não é acampar, definitivamente! – Eu ri, fazendo todos me acompanharem. – Pensei que fossemos esquentar a água sobre a fogueira e essas coisas.
-Hei, podemos acender uma fogueira se quiser. – Nick ralhou, futricando o solo abaixo de seus pés com o bico do tênis.
-Ah Nick, você sabe que eu estou brincando! – Lacei meus braços em torno de seu pescoço, me esticando ao máximo para lhe abraçar. – Eu realmente não queria comer comida mal assada. China in Box é realmente muito melhor! E está quente!
-Sorte a nossa a cidade estar perto. – riu, falando de boca cheia. – Eu não conseguiria acender uma fogueira nem ferrando!
-A poderia acender acidentalmente. – Nick replicou, fazendo-me rolar os olhos para si. – Ela tem sorte com essas coisas.
-Azar, você quis dizer.
-Tanto faz.
Revirei os olhos, sorrindo torto em seguida. O tempo estava relativamente agradável, e a brincadeira na água daquela tarde me custou muita energia. Então, depois de terminar meu jantar e conversar mais um pouco com meus amigos, me retirei para minha barraca. Estrategicamente, as barracas foram montadas um pouco longe uma da outra. Eu fiquei ainda mais afastada, pois não queria ter que ouvir o que eles faziam no meio da madrugada. A campina onde estávamos era bastante ampla. A estrada não estava muito longe dali.
Assim que deitei meu corpo dolorido sobre o saco de dormir, apaguei quase que imediatamente.

Acordei no meio da madrugada arfando, com o coração acelerado dentro do peito.
Mas não era por causa de pesadelo.
Levei uma mão ao peito, como se aquilo fosse acalmar o ritmo desenfreado de meus batimentos cardíacos. Fechei os olhos, inspirando uma grande quantidade de ar.
Minha barraca parecia uma estufa e aquele calor todo – que eu não sabia de onde vinha – estava me sufocando. Abri o zíper e com uma lanterna me pus para fora, sentindo a brisa gelada refrescar minha pele em chamas. Gotas de suor ensopavam minha camisa.
Fechei os olhos novamente, um tanto sonolenta. Em meu inconsciente, em alguma parte insana dele, eu desejei que aquele sonho fosse real.
Mordisquei meu lábio inferior minimamente, as imagens ainda frescas em minha memória.
Os lábios de grudados nos meus, seus dedos agarrando minha cintura com força, minhas unhas cravadas em suas costas largas.
Meu Deus, como alguém podia ser tão...
-Pensando em alguém?
Sai de meus devaneios, esboçando um sorriso afetuoso, acreditando que estava sonhando. Dormindo em pé, seria mais preciso. Mas eu não era sonâmbula então... É, ele estava ali.
-Não... Exatamente.
Ele assentiu, sorrindo minimamente. Eu não sabia de onde ele tinha saído e muito menos o que estava fazendo ali. Eu só sabia que, minha Nossa Senhora, como ele é bonito. Meu coração acelerou quando ele se aproximou cauteloso. E toda aquela cautela estava me deixando impaciente. Céus, eu não estava me reconhecendo.
-O que faz aqui? – Sussurrei, com medo de acordar alguém e esse alguém arranjar confusão com o estranho. – Não é meio tarde para caminhar?
-Pensei que estivesse precisando de alguma... Ajuda.
-Ah, mas com certeza você não pode me ajudar.
-Não posso? – Ele indagou com sua voz rouca soando muito perto; seu hálito provocante batendo em minha boca. Era como se ele soubesse que estive tendo sonhos libidinosos com ele.
E sem pensar muito no que estava fazendo para não me arrepender, zerei qualquer distância entre nossos corpos, beijando-o com voracidade.
Como eu havia sonhado, seus dedos firmaram-se em minha cintura, alastrando ondas de calor por todo corpo.
Dentro de mim uma batalha de conflitos me deixava confusa. Mas, seu beijo era convincente o bastante para me dar a certeza de que eu não me arrependeria do que quer que fosse acontecer naquela noite.
Era o que eu achava naquele momento.
-Você vai me dar muito mais do que essa noite,.
Foi a última coisa que ouvi de seus lábios antes de perder completamente meu juízo.



O Fim




A claridade que filtrava pela lona da barraca batia diretamente em meus olhos. Rolei para o outro lado, sentindo as pernas arderem. O meio delas, na verdade.
Um tanto zonza, sentei-me sobre o saco de dormir. Olhei brevemente para a barraca e tudo parecia como na noite anterior... Menos minhas roupas que não estavam no meu corpo. Rapidamente constatei que não tinha sonhado. Bom, pelo menos, não tudo.
Vesti minha camisa rapidamente e procurei pelo meu shorts, sentindo uma leve fisgada em meu pescoço ao movimentá-lo para os lados.
Preocupada com a ardência que latejava, procurei por um espelho em minha bolsa, encontrando uma mancha avermelhada no lugar que ardia. Parecia uma queimadura.
Passei levemente a ponta de meus dedos sobre a região, lembrando da força que empregara ao sugar aquela parte. De todas as distrações, ele parecia gostar muito daquela região.
Embora aquilo fosse ficar feio, eu não podia culpá-lo. Eu tinha certeza de que suas costas estavam bem arranhadas.
Depois do meu primeiro namorado, eu nunca estivera com outro homem. E isso fazia um ano, aproximadamente. Mas mesmo com a pouca experiência, certamente nenhum outro se compararia a ele, depois daquele dia.
Eu não vira que hora ele foi embora e certamente não queria que ele estivesse aqui quando os outros acordassem.
Nicholas teria um infarto. Eu teria se estivesse no lugar dele. Oras, quem é que em pleno juízo dorme com um cara que conheceu há algumas horas? E que não conhece nada a respeito dele, além de seu nome?
Não que eu estivesse arrependida.
Voltei a jogar meu corpo sobre minha cama improvisada, fitando o teto com uma expressão infantil.
- sua dorminhoca, hora de acordar!
-Ah Nick, não enche! – Cobri o rosto com os braços, preguiçosa. – É cedo ainda!
-Vamos, vamos! – Ele chacoalhou a lateral de minha barraca, assustando-me. – Vamos dar uma volta na cidade.
-Eu não vou!
-Eu vou te arrastar!
-Já disse que você é chato?
-Esta dizendo agora!
-Nick, eu não quero ir.
-Ah, você quer sim.
-Hei, vocês dois. Parem de discutir feito crianças. – Ouvi rir, e tive vontade de rir também. Não pela nossa discussão infantil, mas pelo som de seu riso. Era contagiante. – Vamos lá . Nick não vai dar sossego enquanto você não for.
Abri o zíper, colocando a cabeça para fora, completamente descabelada.
-Você não vai me deixar ficar e curtir a natureza mesmo, não é?
-Obviamente.
-Me sinto uma criança que não pode ficar sozinha. – Bufei, fazendo bico.
-Mas você é! Sempre vai ser para mim. – Nick deu um beijo estalado em minha bochecha, apertando-a em seguida. – Agora anda. Vamos, vamos!
-O que colocaram no seu café?
-O que certamente não colocam no seu!
-Tem resposta pra tudo?
-Da mesma forma que você tem argumento pra tudo. – Ele sorriu presunçoso. – Anda sua lesma, não temos o dia todo!
Nicholas era insuportável, mas eu o amava. Nick fora meu irmão-herói por toda vida e, mesmo que não queira admitir isso, ele nunca deixará de ser.
Pulei em suas costas, prendendo-me em sua cintura com minhas pernas.
-, você não tem mais dez anos de idade.
-Ah, deixe que eu a carregue pra você então! – surgiu do nosso lado, rindo provocante para Nick, que cerrou os olhos.
Sempre quando querem tirar meu irmão do sério, eles usam essas piadinhas importunas. Nick não era aquele tipo de irmão que assume que está com ciúmes. Éramos parecidos nisso.
-Há-há. Cada um tem seu fardo pra carregar. Seria muito injusto passar esse trabalho pra você, .
-Hei, o que quis dizer com isso? Eu estou bem aqui em cima, sabia? Posso ouvir tudo o que estão dizendo!
-Não me diga!
-Ele me ama. – Sussurrei para , que riu. Era estranho o fato da namorada dele estar há metros de distância?
Naquele momento, por incrível que pareça, eu esqueci completamente a noite anterior.

-Nós devemos ir.
-Você tá de brincadeira né? – Todos olhavam do panfleto para Nick. – Diz que não tá falando sério.
-Mas eu to! – Ele exclamou com os olhos brilhando. – Ah galera, vai ser bacana!
-Não somos convidados. – Logan disse agarrado com Laurene. (Não, eu não lembrei o nome dela. Tive que perguntar ao Nick). – Vai que dá algum problema.
-É um festival e não um baile de gala. Não precisamos de convites.
-Não sei não... – disse, coçando a nuca. Eu concordei com ele. Mellanie e Tiffany não protestaram. – Nós temos que ir embora amanhã de manhã...
-Então vamos encerrar nosso final de semana nesse festival!
-Mas Nick... É tipo um baile de fantasias. E nós não temos nada desse tipo aqui.
-Mas eu sei onde podemos arranjar! – Mellanie se pronunciou, e pareceu levemente incomodado. Quase deixei escapar um sorriso maldoso. – Tem uma loja aqui perto.
-Então, todos concordam que não há desculpas para não nos divertimos hoje?
Soltei um riso pelo nariz, rolando os olhos. Nicholas tinha um poder de persuasão...
-Por mim tudo bem. – Disse, dando de ombros. Nick abraçou-me fortemente, beijando o topo de minha cabeça. – Ah, mas sem bajulação Nicholas!
-Bem, se vocês concordam, eu também concordo. – deu de ombros como eu, sorrindo gentil em minha direção. O que significava que ele também podia estar rindo para Nick.
-Certo! Próxima parada: compras!
-Você parece um gay falando assim. – Observei, levando um tapa de leve em minha testa. – A verdade não dói tanto quanto seus tapas, meu amor.

Nove e meia da noite.
Logan, Laurene e Mellanie estavam perdidos em alguma parte dali. Eu, meu irmão, Tiffany e estávamos sentados num dos vários bancos rústicos daquela praça. O festival era bem do jeito que eu imaginava que seriam festas de interior. Cidade pequena, poucos habitantes, comida farta e música caipira. Acrescentamos as fantasias, e voilá, aquele era o festival de... Como era mesmo o nome daquela cidade?
Bem, eu só sabia que estava muito longe de casa.
E que estava começando a me divertir.
parecia muito mais vivo longe de sua namorada. Era como se Mellanie ofuscasse todo seu brilho. Comparação horrível, eu sei. Mas era como se ele pudesse ser ele mesmo longe dela.
E eu gostava ainda mais dele daquela forma.
Tiffany quis conhecer o resto da cidade, mas eu não estava com pique para andar ainda mais. Nick, como um completo babão apaixonado acompanhou a namorada, enquanto eu continuei sentada, bebericando meu refrigerante. Esperei que se mexesse, mas ele continuou sentado também.
-Se quiser ir dar uma volta, tudo bem. – Eu disse, arqueando minhas sobrancelhas.
-Ahn não, na verdade eu quero ficar aqui. – Ele sorriu caloroso. – Não quero que seu irmão fique achando que está sozinha.
Sinceramente? era um fofo se preocupando comigo, mas aquelas não eram as palavras que eu esperava ouvir. E, mesmo ele estando numa fase ruim em seu namoro, eu sabia, bem lá no fundo, que não teria nenhuma chance com ele. Afinal, o que eu era para ele, além da irmã mais nova do melhor amigo? Ele devia me considerar uma criança ainda.
Esbocei um sorriso amarelo, agitando meu copo vazio.
-Eu... Já volto.
Eu não queria mais me encher de refrigerante, é claro. Mas aquela fora a única desculpa que arranjara para sair de perto dele. Dele e de todo o sentimento que tinha por ele.
Não era amor, não podia ser em tão pouco tempo, mas ainda assim, era forte o bastante para me machucar.
Naquele momento, não parecia tão divertido estar numa fantasia idiota, num festival idiota, numa cidade idiota. Sendo uma idiota.
Caminhei para longe da multidão, para longe da música animada que contrastava com o que eu sentia naquele momento. Eu só queria um pouco de paz.
Acima de mim, a lua grande e bonita estava em sua fase nova e não brilhava tanto como nas noites de lua cheia. Aos poucos, meus olhos se acostumaram com a parca iluminação daquele trecho da estrada.
Com passos lentos e de cabeça baixa, fui me afastando da multidão sem que percebesse e quando dera por mim, estava no meio do nada, cercada de árvores tão altas quanto prédios de cinco ou seis andares. Quase não podia ver o céu estrelado dali.
Um calafrio percorreu meu corpo e imediatamente senti a necessidade de proteger minha retaguarda. Tentei refazer o caminho que me levara até ali, mas tudo parecia tão terrivelmente igual. Um labirinto sem saída de árvores e mais árvores ao meu redor.
Pela primeira vez depois de sete anos, eu senti medo do escuro. Não por estar sozinha, longe de qualquer segurança. Mas medo por saber que alguma coisa aconteceria.
Não sei explicar como funciona essa coisa de instinto de sobrevivência. A gente só entende quando se está em perigo. E era o que estava acontencendo naquele momento.
De repente, me pareceu uma péssima idéia ter fugido de meus sentimentos por . Eu poderia xingá-lo por querer cuidar de mim como uma criança, poderia ignorar seu comentário e levar na brincadeira, ou simplesmente jogar tudo pro alto e dizer logo que estava afim dele. Mas não, eu era uma completa covarde que se esconde atrás do primeiro pilar que aparece pela frente. Mas, quanto aquele ato me custaria?
Talvez minha vida.
Com a respiração entrecortada busquei qualquer movimentação anormal na escuridão, e por mais que não conseguisse enxergar alguma coisa, eu sabia que estava sendo observada. Sendo estudada como uma presa frágil e indefesa.
Eu tentei gritar, mas todo meu corpo estava paralisado. Fechei os olhos fortemente quando senti a aproximação de alguma coisa atrás de mim, em alguma parte daquele bosque. Repentinamente o medo deu lugar ao desespero. Forcei minhas pernas a se moverem e então eu estava correndo para lugar nenhum, agarrada a um fio de esperança de que a sorte pudesse estar do meu lado naquele dia.
Foi assim, correndo sem rumo, que eu realmente me dei conta de que estava sendo seguida. Estalos vindo de galhos secos me mostraram que aquela coisa estava muito, muito perto. E o que quer que seja, é silencioso demais para ser um animal selvagem e rápido demais para ser um humano. Pelo menos, um ser humano normal.
Inutilmente lágrimas encheram meus olhos; imagens de Nicholas passando pela minha mente como um chamado silencioso para que ele me salvasse.
Embora eu soubesse que aquilo não aconteceria.
Todos os filmes de terror que eu assisti na minha vida não eram nada comparados ao que eu estava vivendo naquele momento.
E, como num filme muito clichê, eu fui pro chão. Simples assim, como dois e dois são quatro, eu estava estirada no chão, sangrando num corte superficial no lábio inferior.
Rapidamente girei meu corpo para que pudesse ver o que se aproximava lentamente.
E meu coração falhou duas batidas ao reconhecer aquela silhueta assombrosa.
Tampei minha boca com uma mão tremula, abafando até mesmo minha respiração descompassada. Aquilo não podia ser real.
-Nunca vi alguém desistir tão fácil assim...
Seus olhos mergulhados em um negrume sufocante brilhavam em excitação, um sorriso desfigurado por caninos afiados esboçavam presunção. E eu não conseguia me afastar conforme ele se aproximava.
Extremamente atraentes. Morto vivo. Rapidez. Força sobre-humana... Imortal
Tudo o que eu lera até aquele momento e parecia irreal se mostrou mais verdadeiro do que minha mente podia compreender. Mas ele estava ali, diante de meus olhos, sorrindo sem pudor.
Ele sabia que eu não lutaria. Adiantaria clamar pela minha vida? Chorar desesperadamente e tentar fugir?
Nem se eu fosse a garota mais sortuda do mundo conseguiria escapar daquele encontro com vida.
eliminou qualquer espaço entre nós, dedilhando a linha de meu maxilar com cautela, acelerando os batimentos cardíacos de meu coração.
-Eu disse que você ia me dar muito mais do que aquela noite.
Fechei os olhos, derramando as últimas lágrimas que se prendiam em meus olhos. Eu sabia que era o fim. É inútil lutar quando se está prestes a cair do desfiladeiro. Aquilo só tornaria o processo ainda mais doloroso.
Eu queria estar em minha cama naquele momento, perto de meus pais, segura em meu mundinho sem grandes aventuras. Ou até mesmo ali, mas perto de Nick e sua namorada com nome de chiuaua.
Eu queria tudo, menos ter a certeza de que nunca mais os veria novamente.
Percebi tarde demais, que fora um erro desejar aquele estranho. Minha vida estava em suas mãos, que seguravam-me firmemente pelos cabelos, com a promessa de que não me deixaria escapar.
Abri meus olhos, vendo pela última vez, um pedaço do céu estrelado.
Um grito de dor escapou de meus lábios assim que seus dentes dilaceraram a pele fina de meu pescoço, roubando toda a vida que existia em mim.
fora o último a me ver com vida, aquele lindo estranho cheio de mistérios que cruzou meu caminho, alterando para sempre a minha vida e a daqueles que nunca mais me veriam novamente.
Mesmo sem respirar com a mesma força de antes, a dor não diminuiu. Parecia estar longe de acabar.
Mas antes de cair na escuridão plena de uma morte sem piedade, um único nome ecoou em meus pensamentos desconexos como um adeus amargurado.