Boss II - The Sentence

Autora: Panda Amour
Status: Finalizada
Revisada por: Juh
Categoria: Hot Fics
Sub-Categoria: Drama/Romance - PartFic
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PRÓLOGO


O que poderia alterar mais a alma do que a brutalidade das mentiras? A omissão, a dissimulação, cada um tratou de desempenhar o seu papel como ator – e atriz – no desenrolar de um romance misterioso. Infindável seria a história se aqueles mistérios jamais fossem solucionados; cada drama de lamúrias passadas deveria ser jogado à mesa como dados ou, talvez, como papéis de conciliação.
Tratava-se de desesperos psicológicos, e agora, de negócios. O elo que jamais deveria ser preso entre os dois pontos agora fincava em tamanha pressão, era impossível diagnosticar um modo de fazer a empresa voltar sem que eles se resolvessem. Mas ainda aquele fantasma os assombrava, um fantasma tão jovem querendo tomar-lhes o direito de decisão. Tormento.
E nisso resumia-se a estória, no conflito psicológico de cada um. , a revoltada, que agora retornava em sua missão de mostrar a verdadeira face. , o galanteador, que perdido tentava se encontrar no seu passado lubrificado do deleite em volúpia e agora, numa tentativa de liberar aquele sentimento de falta de vontade, perdia-se ainda mais, e mais, e mais. , o homem que de tão forte, tornou-se o mais fraco, e cedeu à dor da perda; mas ainda assim não deixou sua perspicácia diluir. E, é claro, Emily Summers, a moça jovem que parecia apenas bagunçar o bizarre love triangle entre chefes e funcionária; ela era mais que isso. Era. Pois agora jazia num túmulo de qualquer outro cemitério não muito afastado de Londres. Emily Summers estava morta. E agora?

CAPÍTULO 1 – FALÊNCIA.

POV

Era outro dia de chuva em Londres, molhando o pára-brisa do meu carro insistentemente num engarrafamento no centro. Não me estressava, eu estava naquele estado infidamente entediado há quase um ano, e nada parecia divertir-me. Bryan Adams era a trilha sonora, e com certeza ajudava a livrar o tédio; eu cantarolava a música.
I wanna be your lipstick... when you lick it
I wanna be your high heels, when you kick it!


As batidas no volante de acordo com a música eram inevitáveis. Quem quer que me olhasse de longe jamais cogitaria um homem destruído por dentro. Minha empresa, amada empresa, estava desmoronando; aliás, o uso do gerúndio é forma de amenizar as coisas. Eu e tivemos de vender nossas ações ao máximo, mas valiam tão pouco... Logo funcionários tiveram de ser demitidos, e depois, por mais que soubesse que aquilo poderia acontecer, Emily deu entrada no Hospital, sentindo dores tremendas. A London Music já não tinha qualquer valorização, e Emily estava a falecer, assim como ela previra. Ela que se fora com a promessa de voltar, mas ainda não o havia feito. não partiu o meu coração, ela partiu com ele, levou-o consigo. Então eu sinto pulsos chocando-se entre minhas vértebras, impulsionando vida. E esse sou eu, fracassado, mas sempre orgulhoso. Por isso, meu bip permanecia cantando como sempre; e dessa vez, era um pouco diferente. Paige ligava.
Emily faleceu. E junto com ela foi-se meu sócio, que se culpava por sua morte. E ainda assim, aquela que eu considerara como minha irmã, jamais me falou do seu passado, do que a trouxe de volta desde a tentativa de recomeço de vida em Cambridge. Emily, para mim, passou a ser desconhecida desde sua saída do meio urbano de Londres e construção da nova casa em Cambridge, devido à reabilitação. O que eu não conseguia entender era porque culpava-se tanto.
Recuei meus pensamentos à exímia realidade que me aguardava, finalmente pude retirar o pé da embreagem e seguir o meu rumo do dia, afundando o acelerador. Bem vestido no meu melhor terno, receberia hoje o novo sócio majoritário da London Music. Nem tudo estava perdido, eu só teria de baixar o meu ego e submeter-me a um chefe, mas isso seria apenas depois, daqui a quatro horas, pois eu havia reservado um tempo para convencer a voltar à realidade.
Mais trinta minutos de engarrafamento e cheguei a um restaurante perto do grande prédio onde se situava a empresa. A empresa que não mais era minha. Suspirei fundo enquanto estacionei a Land Rover atrás da caminhonete Mitsubishi de . Em passos rápidos, dirigi-me aquele lugar abarrotado de gente, mas que mesmo assim conseguia sustentar apenas em ruídos silenciosos de vozes calmas. Era o que eu mais gostava daquele lugar, nobre educação de restaurantes qualificados.
estava terrível. Mesmo vestido naquele terno negro e o colete vermelho sangue, um dos seus preferidos, a gravata estava folgada, os cabelos bagunçadas e o rosto da abstinência. Ele não quis vender a casa de Emily, mas na necessidade do dinheiro, o fez com o seu próprio apartamento. Eu não tinha nem noção do que aquele lugar havia se tornado – a pequena casa de Emily - mas também não queria imaginar. Sentei à sua frente e pedi ao garçom apenas um copo de água.
- ... – chamei-o com a voz calma. – Você precisa melhorar essa cara. Agora está na hora de levantar-se. Ajeite-se.
- Hoje eu me lembrei dela de novo... - Disse-me com a voz fraquejada, entre o grave e o rouco, quase inaudível. Levantou o rosto e virou para a janela ao nosso lado; pude notar que seus olhos estavam lacrimejando; quando a mão levantou, também revelou as tatuagens nos dedos e anéis.
- Ela se foi para sempre. Aliás, até quando você morrer, e quando você encontrá-la no céu, diga à Em que eu mandei um ‘Oi’. – disse-lhe com um sorriso de lado. Ele soltou uma pequena risada irônica.
- Esqueci-me de que você tem a certeza que vai pro inferno, mal-amado. – ele sorriu contra a própria vontade de ser triste, e não tardou a olhar silenciosa e depressivamente para a luz cinza que vinha da janela. Colocou a mão de dedos agora tatuados no queixo, apoiando-o, e o cotovelo sobre a mesa. – Não é sobre Emily... – crispou os lábios – é .
- Ah... – o nome dela proferido por deu-me uma sensação de extremo desconforto, principalmente depois de tanto tempo. Senti certa surpresa, e mantive meu olhar fixo no dele, relaxando um dos braços no apoio da cadeira. – O que foi agora?
- No diário de Emily, aquele que ela nos deu antes... – ele não foi capaz de completar a frase.
-Eu sei qual. Prossiga.
- Pois é... Eu finalmente acabei de ler. E tem mais outra parte, sobre antes de ela vir pedir ajuda para nós. – retirou a mão do queixo para alisar as próprias têmporas, numa terrível expressão de dor.
- Que... – hesitei – bom. Mas você me disse que estava pensando nela de novo. E não era em Emily. – falei com certa cautela.
- Ah, sim. Porque o fim do primeiro diário era “Eu espero que ela jamais volte, e os três viverão felizes. Separados.”. Essa foi a primeira vez que voltei a pensar nela. A segunda foi antes de vir aqui, quando eu abri o segundo diário... – ele suspirou, e finalmente me encarou – Não tem nada sobre o ‘antes’.
abriu algo que me pareceu uma pasta situada no chão ao seu lado, e dali retirou um pequeno caderno de aparência velha, de um rosa desbotado.
- Tinha sobre muito antes. – ele colocou o caderno cuidadosamente sobre a mesa.
- , eu não estou entendendo nada. – admiti, levantando as duas mãos como se me rendesse.
- Você é muito burro quando quer. – ele resmungou. Franzi o cenho. - Época de faculdade, início dos anos 90. Qual era a moda, ? O que a gente seguia? Onde nós morávamos?
Tive de forçar um pouco a minha memória para me lembrar daqueles tempos. Fora naquela época que consegui fazer cursos de jornalismo avulso, e vivia no metrô de Londres. O dia nem sempre era dia, mas a noite era sempre noite; festas, shows... Qualquer lugar onde houvesse jovens haveria diversão garantida.
- Sex, drugs and rock n’ roll. – disse-lhe. – Morávamos num dos prédios mais caros de Londres, uma cobertura que compramos com o dinheiro que você, gênio da administração, havia feito com minha herança. Muito sexo, com certeza.
- É, muito sexo. Num apartamento onde moravam três jovens, sendo dois homens e uma mulher. E você nunca teve olhares para Emily, pelo menos naquela época. – falou-me com olhar de censura.
- Claro que não! Emily é minha irmã, digo, praticamente. Além do mais, ainda tenho uma fila para traçar... – sorri pervertido, recebendo mais um olhar de censura de juntamente com sua cabeça, que balançava negativamente. Ele abriu a boca para falar, mas hesitou e encarou-me por uns instantes. Arqueei uma sobrancelha. – ?
- Nada, um dia eu te digo o que eu iria lhe falar. – ele sorriu um pouco macabro com seu visual deprimente. – Enfim, você com várias e eu com Emily.
- O QUÊ? – Eu quase gritei, mas colocou aquela mão de anéis pratas na minha boca antes que eu aumentasse meu tom e fizesse algo pior.
- Bem disse que você é muito burro quando quer. Sexo pra você sobe e desce pras duas cabeças e nada mais entra, um fenômeno. – disse-me com escárnio. Soltei-lhe um olhar furioso e ele finalmente tirou a mão da minha boca. Senti a raiva rodopiando em cada célula, ninguém me conta as coisas! Tentei me acalmar e, com êxito, relaxei as feições, num sinal para que ele continuasse. - Não já bastasse a mistura de bebidas, eu e ela fizemos uma aposta de provar drogas. Fizemos, não passou duas semanas e paramos. Eu não sei dizer o que acontecia entre mim e Emily. Ficávamos sempre no meu quarto ao som do melhor do rock, passávamos horas conversando, e no final... – ele me olhou, e percebendo a fúria ainda evidente, amenizou as palavras. – no final você já sabe. Só que aí, a gente começou a beber menos; e Emily trancou a faculdade, alegando que não era o que ela queria.
- Disso eu lembro. – suspirei. – Ela me ligou antes, pra avisar.
Finalmente o garçom chegou com minha água e eu nunca achei que precisasse tanto de 300ml daquele líquido. Bebi com pressa e recusei qualquer coisa que o garçom oferecia naquele momento. Voltei minha atenção para .
- Pois é. E eu já havia começado o mestrado, fazendo estágio, o que não me dava muito tempo em casa. Emily ficava sozinha. E aqui jaz a merda: Certo dia, quando voltei do estágio de carona, apenas cinco minutos mais cedo, a vi na varanda, cheirando carreiras de cocaína. Fui eu quem a mandei para Cambridge, voltar à faculdade, e ir pro centro de reabilitação. Jurei para ela, que quando voltasse, eu daria um jeito de fazê-la trabalhar. Ela chorou, completamente chapada, abraçada a mim. Marquei a viagem para dois dias depois, para que ela pudesse se organizar antes de ir embora. Eu gostava de Emily... – bagunçou os cabelos - mas todas as vezes que ficamos nós estávamos chapados, bêbados, sei lá.
- Ano passado Emily voltou, e você sequer deixou-me recebê-la. – resmunguei. – Amizade dos infernos essa nossa, cheia de segredinhos. – fiz gestos sarcásticos, riu.
- Eu que o diga, amizade de segredinhos. – coçou a barba – Então, fui buscá-la como prometido. Ela estava linda e, o melhor de tudo, saudável. Ou ao menos considerava eu... Enfim, tudo normal. Ela disse que não queria ficar comigo no meu apartamento, disse que já estava grandinha para isso. A primeira coisa que Emily quis ver foi a empresa, daí eu a levei para lá. Naquele dia ela conheceu , digo, pelo menos a viu. E aí, quando foi ao seu escritório, tinha acabado de sair, abarrotada de papéis, apenas nos olhou rapidamente e murmurou um ‘Bom dia’. Não pude deixar de olhar para trás e vê-la andando; lembra que ela tinha aquela capacidade de chamar atenção dos superiores? – riu novamente, enquanto eu sentia facadas no ponto vazio onde meu coração devia estar. – E quando entramos no seu escritório, você tinha a mesma cara de bobo, encarando o nada. Agora faz sentido que você no fundo queria aquela maldita designer, mas eu não notei naquela época.
- Emily notou. – concluí. – E aí eu consegui aquela casa para ela. Escondi o quanto valia o terreno, e apenas mostrei que a casa era simples, ela comprou em minhas mãos, mas nunca finalizou o pagamento das parcelas, o que manteve a casa em meu nome.
- É, mas isso vai ser relevante apenas para . Ou poderia ser, porque eu não acho que o gênio dela acharia aquilo um absurdo. Voltando à Emily, o diário... – hesitou – Lembro que no último dia, antes dela partir para Cambridge, ela viera à minha cama no meio da noite, e beijou-me. Ela estava sã, ela estava sóbria; e sabia que eu também. Nós fizemos... Ah, que porra , ela não é sua irmã, ok? A gente transou sem estar bêbados ou chapados. E repetimos, e naquele diário ela ainda escreveu que eu havia dito que a amava. Com todas as palavras. E não foi em francês, , foi ‘ Eu te amo, Emily, para sempre’.
- E depois, quando ela chega aqui, você está com a , olhando para as curvas de e parecendo ter engolido o vírus da volúpia, mas sem promiscuidade, como eu. Ela deve ter achado que você só ia querer sexo. – disse-lhe calmamente. Ele suspirou fundo. De repente, notei as suas palavras. – Como assim ‘e não em francês?’ – perguntei-lhe ríspido, com a voz baixa, rouca e ameaçadora.
- Silly, Silly . Naquele dia na casa de praia, naquele maldito dia, me disse que não ia se entregar a mim, eu estava transtornado. Ela disse e repetiu que não pertencia a mim. – o apelido feriu como espada enferrujada raspando a pele – disse que iria ser completamente feliz com você, em todos os sentidos, até na volúpia, naquela vontade animal que possuía tanto a ela quanto a mim para apenas uma noite. Ela me descartou. Eu iria provocá-la depois da tortura que me fez, e me aproximei da porta depois de tudo que vocês fizeram – fez uma cara de nojo -, eu ouvi, tudo.
- Você é doente!
- Olha quem fala! – ele resmungou baixo. – Onde está aquela pirralha? Como é o nome dela? Paige... Até o nome é de garotinha, e quantos anos ela tem? 21? Por pouco não é um pedófilo.
- Um trato: Cada um em seu tormento. – falei sério – Agora tire os anéis, pelo menos. E me sinto melhor agora que eu falo com um homem de barba feita, também.
A aparência de havia mudado desde a morte de Emily. Ainda sem retirar as roupas de grife, o miserável se meteu em estúdios de tatuagens para fazer graça no corpo, usar aqueles anéis de prata, deixar de fazer a barba, de cuidar de si mesmo. Eu o ignorei por certo tempo, admito. Mas chegou a um ponto em que tive de intervir, antes que ele ficasse repulsivo o bastante para que jamais renovássemos qualquer voto de amizade. De passadas no barbeiro a tentativas falhas de mudanças de alguns de terríveis hábitos que havia adquirido... como o cigarro. Pelo menos ele bebia menos quando eu o enchi de coisas para fazer, mas ele sempre dava o jeito de puxar um cigarro, e tragar como se fosse a última coisa que fizesse na vida.
- Merda de vida. – resmungava, retirando os anéis e colocando-os no bolso do paletó. Um deles caiu no chão, abaixei-me para pegar. Fora reflexo da própria mão que eu rodasse o anel procurando por algo.
- I Love you forever.– Li em voz alta o que havia escrito. – Você virou gay?
- Porra. Dê-me, isso me pertence. – ele puxou o anel com força da minha mão, colocando-o junto com os outros no bolso do paletó. – 1979 – suspirou – Ela nos deu quando éramos crianças. – sorriu, balançando a cabeça. – Bons tempos, quando para sempre era uma eternidade feliz.
Eu sorri junto a ele. Tirei dinheiro da minha carteira e deixei sobre a mesa.
- Vamos, está na hora. Sair das lembranças e voltar à realidade: falidos. – dei risada, levantando-me. pegou sua pasta e fez o mesmo.
- Falidos, quero só ver quem é o monstro que vai comandar-nos. Espero não ter que aposentar tão cedo minha vida nessa revista; sinceramente, a história da London Music vira livro. – ele gargalhou, num senso de humor que me assustava.
- Você não fumou nada diferente hoje, né? – olhei-o conclusivo.
- Mau pressentimento, mas me faz sentir bem. – riu daquele jeito estranho mais uma vez. Agora eu estava realmente assustado.

CAPÍTULO 2 – BOAS-VINDAS

Eu mal reconhecia aquele lugar em que me sitiava. Tudo fora passado por uma reforma tão radical a ponto de pegar-me olhando para todos os lados. O que antes eram dois escritórios – o meu e o de -, um ao lado do outro, tivera a parede destruída, e assim foi feita uma sala de reuniões, maior e majestosa. Era uma longa mesa de vidro e mogno que se fazia no centro do lugar, assim como um lustre de cristais daqueles de plena magnitude e impressionava alguns dos acionistas que se sentavam às confortáveis cadeiras. A troca de olhares entre mim e fora praticamente inevitável, quem quer que tivesse comprado a London Music, parecia ser muito, muito rico. O investimento fora pesado, principalmente para que o tal mantivesse mais de 50% das ações. Eram 7:55 PM, e a reunião fora marcada para às 8 em ponto, assim como dizia a correspondência. Eu tentava inutilmente relaxar, mas era impossível, era... Inútil. Não conseguia restringir os pensamentos que agora afloravam enlouquecidos para Emily e ; eles dois? E eu achando que éramos família. Família não se pega, certo? Pois assim eu penso.
Relutante e desconfortável, eu olhava em intervalos pequenos e de esguelha para , como se quisesse saber mais. Nós estávamos de volta ao trabalho, sem mais poses de chefe, sem mais , sem mais Emily, e com um passado bem irritante soprando nossas pegadas.
A noite demora a chegar na Inglaterra, mas finalmente estendeu-se o breu pela cidade. Havia ainda a grande janela de vidro, que servia como um grande observatório para as ruas movimentadas. Ouvi, então, uma porta se fechar, e um homem alto e grisalho, de olhos muito claros e bem vestido entrar pela porta com um semblante sério. Ele tinha uma áurea de superior... Seria ele? O homem andou em passos lentos, quase arrastados, e sentou na cadeira ao lado da de cabeceira, colocando sua pasta acinzentada sobre a mesa.
- Eis que me chamo Loius . – disse o homem com um sotaque puxado. – Sou o secretário da sócia majoritária da London Music, empresa a qual os senhores estão investindo no potencial. Todos já a conhecem, então vou dispensar as apresentações. – o homem olhou para trás com uma reverência - , eles vos esperam.
Um sentimento de estática definiu todos os meus movimentos. ? Sim, era ela, com certeza. E como se saísse das sombras apresentou-se com um sorriso infalível em lábios com sua cor natural, aquele sorriso chocante e simples. Eu podia sentir meus olhos brilharem, como se pequenos poros tivessem sido abertos ali, e então foram ventilados. E aquilo, o vazio, reclamava; ele estava tão perto de ser preenchido. Engoli em seco e mantive minha pose séria. Joguei os cabelos para trás com os dedos e pus os braços cruzados em encaixe sobre o peito. Ainda a observava, mas no silêncio do meu orgulho. Observava que o vestido era vermelho – lembranças... -, e também que era curto o suficiente para mostrar uma pequena parte daquelas pernas que por tão pouco tempo tive a oportunidade de desfrutar do poder delas. E como o negro fazia parte daquela mulher, como caía em perfeito contraste com a pele, e como também caía em perfeito contraste com a alma.
- Sejam bem-vindos, meus queridos. – ela sorriu largamente, e eu quase duvidei da minha capacidade de fingir. ? Quem é ? Minha mente era apenas ela. Ela estava de volta, ela cumpriria com suas palavras? Pertenceria a mim e a mais ninguém? E por que... Merda. Eu não estava preparado para que ela voltasse. – Então, como bem feito nosso acordo, traremos à London Music para um novo estágio de glória. Eu não reuni cada um de vocês sem qualquer propósito, sei o que cada um tem como talento. Vocês querem crescer? Querem dinheiro?
Aquela reunião seguiu e eu não ouvi uma palavra, apenas deixei-me levar por pensamentos, lembranças terrenas, e aquilo que me invadia. Eu não sabia lidar com aquele sentimento, não sabia lidar com . Não sabia a primeira palavra que diria a ela; afinal, o que eu diria? “Volte para mim.” E ainda tinha a Paige...
Não percebi quando tudo acabou e os outros participantes da reunião foram saindo da sala. ainda estava ao meu lado, e quando o olhei, ele parecia tão perplexo quanto eu. Avoado, não ouvi o som dos saltos sobre o assoalho; mas não pude deixar de confundir o perfume que exalava atrás de mim.
- Oi chefes. – ouvi a voz de minha nova chefe declarar-se irônica perto de mim, e ecoar pelo cômodo, que agora estava quase vazio, exceto por mim, e... .
- ... – engoliu em seco, e eu apenas virei meu olhar para ela, morto de curiosidade. – Você realmente voltou.
- Não, , eu ainda estou do outro lado do oceano. – ela ironizou, revirando os olhos. O rosto, os olhos, a boca, o corpo, tudo parecia ter atingido o apogeu da beleza. Estava exuberante, só que com um toque mais adulto, maduro, sério. suspirou e olhou para mim também, fazendo os olhares se cruzarem.
- Vai ser divertido brincar com vocês semana que vem. – ela sorriu largo e afagou meus cabelos. – Continuam sedosos e bons de pegar. – se aproximou, fazendo seu perfume exalar forte para mim. – É, mas parece oleosidade de outras mãos passando por aqui. Está na hora de ser homem de uma mulher só, não é, Senhor Galanteador? – afastou-se.
Encarei-a com um arquear de sobrancelhas.
- Já sou um homem de uma mulher só. – resmunguei, teimoso. Não é porque ela era minha chefe que ia controlar meus relacionamentos, nem se ela fosse a minha chefe e a... mulher que eu... disse amar. Não importava, era muita petulância para apenas uma mulher.
gargalhou:
- Ele está namorando. – riu mais uma vez. Pude ver a fúria transcorrendo rapidamente pelo semblante de , e tão rapidamente veio quando soprou, e sumiu. Definitivamente ela havia mudado. Sorriu e arqueou uma de suas sobrancelhas desenhadas.
- Essa eu pago para ver. – Ela riu. – Tem que ser uma mulher mesmo, hein? E... se você traí-la, perde a aposta, e daí quem me paga é você. – estendeu a mão para mim, deixando a manga do veludo escorrer pelo pulso.
- Acho divertido. – Sorri. – Eu topo.
- é testemunha. – disse. fez cara feia, mas enfim concordou. - Legal, brincadeiras à parte. está com a parte de administração, claro. , você fica como editor-chefe. Eu trabalho sozinha. No final do mês, contas são prestadas. Amanhã vocês serão chamados individualmente para assinar os contratos, assim como vocês poderão escolher a sua assessoria. Estaremos empregando os secretários e outros funcionários; precisamos de qualidade no serviço, e eu vou confiar a vocês esse cargo. Acho que no final do mês completamos todos os cargos. E... dinheiro não é problema. – piscou, afastando-se das nossas cadeiras e voltando à cabeceira, puxando sua maleta negra. – O resto discutimos depois. E mais uma vez, sejam bem-vindos à minha empresa.

(...)

Hot Boss POV
- Não, Tio Louis, você pode ir pra casa. – disse-lhe, organizando os papéis da empresa, as inovações que traria.
- Sim, senhorita. – disse-me Louis, saindo do escritório em seguida. Era tão irônico que agora eu o visse assim, obedecendo-me, comportando-se com educação. Louis era o monstro da minha vida. Afinal, toda órfã precisa ir a algum lugar. Com um parente tão próximo, não cheguei ao orfanato, fui direto à casa do meu tio. Aquela beleza de homem era meu tio, um solteirão, galanteador; meu tio Louis era como... o . Só que um com 22 anos, e uma criança de cinco anos para ser criada, educada, formada.
A família , minha família – e o pronome possessivo até hoje não me agrada -, era do tipo grande. Não grande por ter muitos membros, mas porque todos foram bem sucedidos em suas carreiras profissionais. Eu nunca soube o que realmente houve com meus pais, mas eu me lembro de ter sido culpada pela morte deles. Lembro de um incêndio, de trevas, de gritos, e de ter pulado da janela do segundo andar da casa. E eu me lembro de onde vivia, da ilha de Manhattan e daquelas belas casas; lembro... de New York. Aquela cidade se tornou o meu maior medo. Louis havia ficado com minha parte da herança e desistiu da Universidade de Medicina que cursava, deixou de ser um universitário para gastar a grande herança de meus pais para, segundo ele, proporcionar-me conforto. Louis mal me deixava ficar em casa, a todo momento eu tinha algum curso extra, além da escola. Música, dança (logo descartada pela minha falta de talento), arte, gastronomia (odiava cozinhar), filosofia, qualquer coisa que me mantivesse fora de casa, que me deixasse sozinha, que me isolasse e o deixasse sozinho. Afinal, por que um homem como ele iria perder tempo com uma jovem, educando-a? Deixe que os outros o façam, certo?
Apenas com o começo da Universidade, eu decidi que aquilo terminaria. Eu não morava na própria casa, não tinha educação familiar; e os meus erros eram consertados pela sensibilidade da vida – e sim, isso foi uma ironia. Design na Europa, mais especificamente em Londres, na UCA. Até que completasse 21 anos eu não poderia reivindicar a minha herança, para que eu pudesse ser independente. Meu maior sonho, sair daquilo. Ainda quando chegava em casa, tinham aquelas mulheres por lá transitando, aquelas pessoas desconhecidas; algumas vadias, coisas de Louis.
Mas o que eu não esperava, era me apaixonar por um garoto na faculdade. E o resto foi apenas consequência. O primeiro amor a gente nunca esquece, é como se cravasse em nossos corações de tal forma que as memórias tornavam-se inesquecíveis. As melhores fotografias que tenho da minha vida como uma mulher que amava estão na minha mente; assim como aquelas fotografias que quase sempre vêem em relampejos preto-e-branco e detém toda a minha falência quando jovem. Essas fotografias, essas memórias inesquecíveis, jamais achei que poderia superar; até que anos depois, encarasse o medo que era a extrema felicidade e também a extrema tristeza; vales e cristas da vida.
A inocência só é perdida quando se conhece o oposto, e assim vem a enorme cicatriz que me corroeu no Baile de Formatura. Aquelas três palavras que ele – não ouso citar mais seu nome – me disse, eram apenas palavras quando o vi com outra. Como queimar essa maldita memória? Pela fresta da porta, o som dos corpos que se enroscavam, daquela cachorra que uivava e daquele monstro que eu dizia amar, que arfava para possuí-la. Tratavam-se como animais. Et moi? Fiquei apenas a observar e deixei, pela última vez, que minhas bochechas encharcassem com lágrimas. Era tudo tão perverso, por que tinham de me corromper de tal forma? Para que o uso daquelas três palavras? Enquanto saía tropeçando no meu próprio vestido, chorando como uma donzela de novela, acabei por cair e desistir de levantar. Fora um homem quem me deu a mão para levantar-me; era velho, de semblante sábio com óculos fundo-de-garrafa. Então perguntei-lhe as minhas questões e ele disse-me que esses homens que amavam a várias mulheres o faziam pois em cada uma tinham uma necessidade para saciar. Conclusão: Eu não era o suficiente.
Fiz as malas deixando muitos pertences para trás, não ousei falar com aquele traidor, eu apenas fugi. Voltei à Nova York, e me deparei com meu querido Tio Louis e duas mulheres em sua cama, usando o MEU dinheiro para as futilidades e carências sexuais excessivas DELE. Bati a porta do quarto dele com força e fui ao quarto que deveria ser meu, mas estava ocupado com pessoas desconhecidas, cujos rostos minha capacidade de fotografar os apagou.
E assim, eu sou eu. Saí alterada daquela casa, com a chave do carro mais caro de meu maldito Tio. Não me dei ao trabalho de conseguir roupas novas, ou de guardar qualquer coisa antiga, apenas liguei a ignição, vendi o carro e voltei para a Inglaterra. E hoje eu esmago, e piso de salto alto, eu sou a chefe. Chefe daquele que cuspiu na minha criação, chefe daqueles que tinham o poder de me desiludir; eu era a Presidente daquela revista.
Um dia eu teria de contá-los a verdade e o porquê de eu ter voltado à Nova York, o meu passado, essas coisas. Não havia mais nada para me impedir de fazê-lo, a não ser aquele instinto. Vingança? Não, acho que não. Seria estupidez da minha parte. Não sabia direito o que estava a fazer naquele momento, talvez brincar, como dissera antes. Brincar com o poder que tinha sobre eles.
Um sorriso formou-se em meu rosto. Passei então a deixar meus pensamentos egocêntricos de lado, coloquei os pés por cima da mesa e encaixei minha coluna na cadeira. E fiquei ali, lendo e relendo meus próprios projetos profissionais, esperando que certa pessoa batesse em minha porta.

(...)

Os passos não demoraram a ecoar pela sala, e eu sequer levantei o rosto para ver quem era. Eu já sabia.
- Você demorou, querido.

CAPÍTULO 3 – PERDER... PERDIÇÃO?

A insatisfação estampada no rosto de era possivelmente incômoda quando, finalmente, olhei-o de relance, aproximando-se em passos determinados. Não consegui suprimir um sorriso ao conseguir ver-me daquele mesmo jeito há algum tempo atrás... Ironias do destino? Não dessa vez, tinha dedo meu na história. Não tinha a mínima idéia do que tinha a me dizer – ou reclamar, tanto faz -, porém estava ciente de que o havia atiçado.
- Perdeu alguma coisa? – perguntei-lhe, ainda com resquícios do meu sorriso de escárnio pairando no lado direito dos lábios. Levantei a cabeça para encará-lo, e iniciar batalhas com seus olhos fugazes. estava sério; puxou uma das cadeiras de perto da cabeceira, sentando ao meu lado, e apoiou-se na mesa de modo que seu rosto ficasse mais próximo do meu.
- Eu sou quem pergunto. Você perdeu alguma coisa? A sanidade talvez? – ele se dirigiu a mim com todo o seu poder de difamação da minha capacidade de (agora sim) manter-me sã.
- Com essa proximidade entre nossos corpos sabes que a sanidade... – voltei a puxar os papéis que lia - ... pode sim se comprometer. – Encarei-o com um olhar sério.
A rebeldia que havia adquirido em seu visual apenas o havia feito mais sexy, de um modo estrondoso e perturbadoramente encantador. Um sorriso formou-se naqueles lábios finos e rosados; só que havia um problema: Eu adorava brincar.
– Ou talvez seja apenas passado. – falei rápida, recuando.
Voltei a ler os papéis. Melhor dizendo, fingi lê-los, enquanto esperava a reação dele. Apenas ouvi sua respiração pesada, e senti o calor do seu corpo se afastar; provavelmente porque ele havia decidido encostar-se na cadeira, visto que ainda sentia sua presença. Apesar de querer brincar, eu não podia negar que no meu peito ainda batia um miserável coração; e algo que nunca mudou era por quem meu coração gritava, debatia-se: . Cheguei a ranger os dentes involuntariamente, por obséquio que não havia apreciado o fato do resolver trazer-me uma namorada. Meu medo não era de que ela fosse melhor do que eu – de maneira alguma – apenas doía-me pensar que eu pudesse ter pecado com ele de tal forma que jamais houvesse volta.
- Acho que agora sim convém a pergunta. – disse eu de cabeça baixa. Levantei meu olhar tão devagar quanto em slow motion. – Você veio fazer o que aqui mesmo?
sorriu.
- Who is the boss? – perguntou, deixando um risinho escapar. – Não pensei que seria tão literalmente assim. – eu arqueei uma das sobrancelhas, confusa – Mas por quanto tempo você vai ostentar esse fardo, minha amiga ?
- Tempo suficiente. Depois eu devolvo o que eu peguei emprestado. – eu sorri largo, encostando-me na cadeira e alisando-a, referindo-me ao cargo que agora eu exercia.
Acabamos por deixar nossos olhares fixarem-se um ao outro, e não conseguimos deixar de gargalhar, como os bons tempos em que o fazíamos; por mais raros que fossem esses momentos. Quando ainda era uma mera funcionária e ele o chefe que me agradava pura e unicamente, no tempo em que eu ansiava pelas suas palavras a serem dirigidas a mim... Nós sempre terminávamos uma conversa, por mais breve que fosse, com um sorriso ou uma boa gargalhada. Era inexplicável. E agora se revelava incondizível, depois de tudo que aconteceu.
- Eu gostaria muito de saber os seus planos. – disse-me , repondo-se na cadeira.
- Você não contou ao , não foi? Que eu voltaria com essa promessa de dizer quem...
- Não. – interrompeu-me – Eu disse a ele que você fugiu, mas que voltaria logo. Apenas isso. Sem a parte em que trocamos de papéis.
- Eu deveria ter suposto que você faria algo assim. – eu suspirei alto. – Bem, mas isso não é problema.
O silêncio então tomou conta do lugar. Passei a descascar as unhas que eu mesma havia pintado de alguma mistura de esmaltes, acho que fora café com rebu. Eu não iria revelar mais nada a , e por que deveria? Preferi me manter silenciada, e agir em silêncio também.
- Eu estou esperando a pergunta. – disse. Quando o encarei, seu rosto transparecia certo sarcasmo, a misturar-se com um breve sorriso de canto de boca.
- Que pergunta?
- Vamos, , não precisa mentir pra mim. Faça a pergunta.
- Puta merda, que pergunta? – perguntei com a voz firme. Eu odiava quando ele queria dar aquele jeitinho teatral às coisas. Não era do tipo dele. Ou, pelo menos, não devia fazer o tipo dele.
levantou da cadeira suavemente, mantendo seu olhar fixo no meu. Eu o acompanhava em cada passo de aproximação, até ele ficar atrás de mim e colocar as duas mãos, uma em cada ombro.
- , não se atreva a fazer nada do que eu não possa fazê-lo se arrepender depois. – alarmei-o. A distância entre nós dois havia sido diminuída agressivamente, acordando velhos instintos os quais eu pensei estarem mortos. Ele passou a massagear meus ombros vagarosamente, deixando uma pequena risada nasalada escapar; e então, curvou a coluna para deixar sua boca a centímetros do meu ouvido. Eu me sentia como um banco prestes a ser roubado, o qual o alarme já gritava: perigo, perigo, perigo...
- Paige, a garotinha do . – no exato momento em que proferiu suas palavras, senti um impulso de raiva atingir todo o meu corpo, fazendo-me contrair os músculos e ranger os dentes levemente. Passando os lábios de forma indiscreta – ilícita! – pelo meu pescoço e nuca, chegou até a outra orelha. Meu corpo não sabia se correspondia à raiva ou aos toques íntimos de e o incontrolável... tesão. Apertei as minhas mãos nas bordas da cadeira, mantendo então uma posição tensa, rígida. - Ela virá para visitá-lo. Com certeza virá. Uma garotinha, a Paige, completamente apaixonada pelos dotes do querido . – sussurrou ao outro ouvido. Puxei fundo o ar para os meus pulmões e arfei, ranzinza, concentrando o meu olhar para o teto. – Ela deve ser uns... – alisou os meus cabelos, retirando as camadas de um cabelo mais longo e colocando-as para frente, por sobre meus ombros. – Uns 10 anos a menos do que você. – eu arregalei os olhos, surpresa.
- Seu amigo virou pedófilo, por acaso? Eu ainda nem fiz trinta! Isso quer dizer...
Os movimentos rápidos de não me permitiram detalhar a cena, eu apenas me vi rapidamente de pé, em sua frente, enquanto ele me segurava pelos pulsos.
- Exagerei um pouco então. Ela tem vinte e dois anos. – Ele riu tão perto de mim que pude sentir seu hálito, de talvez um Malboro de canela, calando a mim e ao meu corpo dividido. Nossos olhos brigavam em silêncio; eles poderiam estar rasgando as roupas um do outro, mas era apenas contato visual. Ele inclinou a cabeça de modo quase imperceptível, e desviou rapidamente o seu olhar para os meus lábios, e novamente retornou para os meus olhos. Ele exalava a pura vontade que havia contida no seu corpo durante todo esse tempo. E aproveitava a minha indefinível estática para diminuir ainda mais a distância entre nós dois.
Eu esperava a visita de , era prevista, e, por isso, num impulso de capacidade estrondosa (ou talvez pensamentos que se fixavam em outro homem, inconscientemente), consegui fechar os olhos e rir de lado.
- Você é previsível, querido. – disse-lhe, soltando meus pulsos. – Impressiona-me todo esse teatro pela morte de Emily para depois vir arrastar-se para mim. Era o que ela menos queria...
- Não. Emily queria que estivéssemos os três separados. – adquiriu uma posição mais séria. – Mas isso é simplesmente impossível. Eu a amo, .
- Eu sei que você amav... – entre minha fala percebi a asneira que estava para deixar fluir. Franzi o cenho. Ama... a mim? – Não , você nem sabe o que é o amor. Olhe só para você. – eu neguei com a cabeça, afastando-me dele e pegando meus papéis, organizando-os na pasta escarlate. – Eu poderia te dar uma noite, apenas, de puro sexo e poesia. Porque é isso que você deseja, e não o amor. Não o amor. E eu nem sei se essa noite existirá, pois eu sim, eu amo, e eu não sei quem sou eu amanhã. Instabilidade, meu querido amigo, é o primeiro sintoma. Eu não sei ser certa porque eu amo.
- Quem? O ? – gargalhou, como se nenhuma das minhas palavras o tivesse ferido – Ele te trocou por uma mais jovem. Oi, , realidade. Pare de viver de seus “achismos”. estava aqui, ele te viu e o que foi que ele fez? Uma aposta. Nada mais. O que são vocês, crianças?
Minha vez de ser a fera ferida. Coloquei a pasta contra o peito e a bolsa nos ombros. Olhei-o nos olhos da forma mais feroz e transtornada possível.
- És apenas uma perdição. – disse convicta. – Hoje não, . Agora saia daqui, antes que eu mude de idéia sobre manter-me calma.
E assim ele o fez. Saiu ainda com um sorriso no rosto rebelde, mandando um ‘adeus’ com uma das mãos de anéis prateados. Encarei-o com o rosto sério, lutando para não sorrir de volta, e deixei a sua silhueta sumir da minha vista. Olhei para o resto do escritório, que agora tinha o meu design estampado. A elegância e a formalidade em cada ponto do lugar; e ainda a minha pequena sala, feita ali num espaço que eu acabei anexando à revista. O vidro fumê fazia com que eu tivesse completa visão de todos, sem que os outros ficassem a me vigiar. Dispensei cortinas por isso.
Eu estava com tanta raiva de naquele momento, que o acesso do meu corpo ao ódio puro fez com que minhas mãos e lábios tremessem; e uma vontade de chorar possuísse-me. Trocar-me por uma mais nova? Não seria possível. Eu tinha plena certeza de que aquele homem me amara, e me amava; desde quando pus meus pés naquela sala e encarei o seu rosto rígido. Como ele pôde...? Como eu pude? Repetir o mesmo erro do passado, e achar que aquelas três palavras realmente valiam de alguma coisa.
Eu te amo: Bull shit.
O caminho para meu novo apartamento em Londres fora calmo, visto que a noite não trazia muitos carros para a rua. Dentre todos os cheiros possíveis de serem encontrados no meu carro, eu ainda sentia perfume masculino e Malboro Red, tradução: . Ele ainda estava ali impregnado, como uma sanguessuga, retirando minhas forças. Seria tão fácil ceder a ele, perder-me em seus braços, e principalmente com essa... Paige entre mim e . Tão fácil ceder à sua sedução, à beleza estonteante, às mãos fortes que seguraram meus pulsos. Eu perderia tudo se cedesse à perdição, simplesmente. Perderia até a graça de brincar.

CAPÍTULO 4 – TRANSTORNO

Passaram-se exatos vinte e três dias desde o meu reaparecimento em Londres – agora como presidente da empresa que trabalhava. Tudo havia sido feito conforme planejado; sequer haviam mais vagas para empregados, estavam todas preenchidas. As reformas remanescentes haviam sido finalizadas, e os móveis que faltavam haviam sido entregues há uma semana. Nada melhor do que bons funcionários, inteligentes e eficientes, para fazer com que Revista ficasse um brilho em todos os aspectos. No meio tempo, apenas uma acionista, a italiana Edwina, havia desistido; não seria muito problema, já que ela tinha muito pouca porcentagem da London Music. A pena era que eu contava com uma melhor negociação para uma futura sede em Milão. Meus planos para a London Music eram de babar em cima do papel, porém, cumpri-los seria muito diferente. Eu estava preparada para o mundo da arte, música e negócios. Completamente preparada.
A noite que se passou até aquela segunda-feira fora inquieta. Apenas consegui dormir depois de me desesperar e tomar um sonífero. Não adiantou muito, já que minha inquietação enquanto acordada acabou passando para os sonhos. Era um daqueles maus pressentimentos, os quais me passavam angústia e pesadelos. E parecia que minha própria mente estava contra mim, visto que fora o pior pesadelo que havia tido há anos, desde que sonhei com três filmes de terror ao mesmo tempo. Eu via e chorando, de lados separados numa sala estranha, e a voz de Emily ecoando algo com “I told you so, I told you...”. Eu estava lá, no meio, e eles olhavam para mim como se quisessem que eu fosse ampará-los, porém, eu teria de escolher um lado para ir, para andar e enxugar as lágrimas. Confusa, eu não sabia para que lado ir primeiro; eu via , mas também um anel de noivado no seu dedo médio; e via , mas meu coração não iria me perdoar se deixasse o outro lá, sozinho. Era minha escolha. Sem contar o anel de noivado, que fora apenas a lembrança do comprometimento de com outra mulher que não eu, era tudo a mais pura realidade. E essa realidade, fora o pior dos meus pesadelos.
Acordei a suar como uma porca, e não tardei a me levantar para tomar uma ducha. Estava tonta, e ainda sentindo muito cansaço pela noite mal dormida; minha visão ficou embaçada por um tempo, até sintetizar ao normal. Banho tomado, cabelos molhados que me faziam tremer de frio, enrolei-me na mais felpuda toalha em direção ao armário. Vesti um conjunto Armani, o qual cabiam luvas brancas as quais eu nunca havia usado; e talvez apenas por isso escolhi aquela roupa. Deixei a maquiagem simples, apenas clareando e escurecendo a pele das pálpebras, dando um melhor aspecto aos olhos de quem não dormiu direito. Limpei olheiras e puxei as extremidades com tons escuros, dando um aspecto mais felino ao meu olhar, e menos “Tive uma noite dos infernos e, se estou feia, a culpa é do pesadelo”. Eu não gostava de deixar transparecer o que estava dentro de mim. Maquiagem e roupas são sempre boas aliadas. Sempre.

A primeira pessoa que notei quando pus os meus pés na London Music foi ; estava cabisbaixo, roendo as unhas nervosamente enquanto a outra mão se ocupava em segurar tensamente o celular. Por mais que Louis ficasse a tagarelar ao meu lado insistentemente, eu não conseguia desgrudar os olhos da aparente tristeza de . Quando finalmente retomei os passos de minha consciência, olhei repentinamente para Louis, que parou de andar ao meu lado e também fixou seu olhar no meu.
- Vai ter alguma reunião importante hoje? – perguntei com uma voz rouca, talvez sonolenta.
- Sim, , e daqui a algumas horas, com todo o pessoal. Acabei de dizer-lhe isso. A senhorita, por acaso, estava me ouvindo enquanto eu falava? – ele perguntou, um pouco rígido.
- Eu... – pensei um pouco antes de responder - ... estava tendo uma idéia, desculpe-me Louis. Não consigo me concentrar em tantas coisas ao mesmo tempo.
- Discordo. Você estava olhando para aquele de novo. – falou-me ele petulante.
- Ora, eu não já disse que você não deveria se meter na minha vida pessoal? – parei minha reclamação quando vi-me frente à porta de vidro que daria entrada ao meu escritório. Tirei a chave da pequena bolsa e destranquei-o. A grande janela iluminava o local por completo, por mais que fosse com raios solares remanescentes, visto que (pra variar) o céu estava nublado. - Já faz uma semana que você fica me enchendo o saco com o . Eu já lhe falei que ele é um antigo namorado, e apenas isso.
- E o Senhor ? – perguntou-me Louis, ajeitando a minha mesa. Olhei rapidamente para o local onde devia estar, avistando-o então sentado em sua cadeira, concentrado em digitar algo no computador.
- Um antigo amigo. – respondi-lhe – Mas por que está tão curioso sobre minha vida? Deveria cuidar da sua, isso sim. – sentei-me em minha cadeira reclinável, liguei o Macintosh branco e relaxei. – Agora vai lá, coroa, me arranja as listas que lhe pedi na semana passada.
Louis me encarou com um olhar de dúvida, e sorriu cavalheiro.
- Sim, querida sobrinha. – disse sarcástico a parte do ‘querida’. Ele sabia que eu odiava que mencionasse nosso vínculo familiar, assim como eu sabia que ele odiava ser chamado de coroa. Era apenas mais um dia de trabalho... ou não.


- Conseguimos contato com todos os agentes que a senhorita pediu, . Já entramos em contato com alguns deles. – disse-me Alene Gareth, da comunicação, que estava sentada a três pessoas da minha cadeira, a de cabeceira.
- Excelente. E como andam as negociações? Desejo que a nossa primeira capa seja com uma boa banda, além de que tragamos retrospectivas e novidades. – eu disse.
- Bem, a Muse confirmou participação nessa primeira edição. – falou o Sr. Gibson, ao meu lado esquerdo. – Eles estão de álbum novo e, sinceramente, achei-o interessantíssimo. A banda tem ótimas influências, e todos os três integrantes são excelentes músicos. Os caras têm estilo.
Abri um largo sorriso e tomei a fala:
- Muse vai ser a capa da primeira edição, pois então. Vejam o orçamento, é importante; tratem com qualquer despesa. Não quero saber de nada feito sem comunicação. Falando em comunicação, como ficamos com a Apple?
- Eu fui lá na quarta-feira. Eles ainda têm dúvidas quanto às promissões da London Music para dar o plano que a senhorita pediu. – falou Alene.
- Como eles podem ter dúvidas? Depois de tudo que a London Music já foi... – se manifestou pela primeira vez na reunião, quase num sussurro, porém completamente audível para a sala silenciosa e educada. Nossos olhares se cruzaram e fixaram-se. - Pois bem, Alene, iremos hoje novamente. Eu, você, e a Feng-Shui. – eu disse, finalmente retirando meus olhos de e colocando-os na mulher sentada na quarta cadeira de distância. – Pode ser, madame Feng-Shui?
A mulher, de cabelos grisalhos cortados impecavelmente em um geométrico Chanel, mexeu a cabeça em concordância. Seus olhos eram castanhos, claros como mel, e puxados. Uma legítima japonesa extremamente experiente em negociação e tecnologia. Eu a tinha como ídolo, apesar de jamais ter-lhe confidenciado nada. Alene também sorriu positivamente, colocando uma das mechas do seu cabelo cacheado e ruivo para trás.
- Eles devem estar com medo de perder novamente por qualquer besteira. Como aconteceu antes, e visto que estaremos comemorando a primeira edição de alguma forma, eles com certeza devem lembrar do que acontecera no ano passado, na festa à fantasia. – disse-me Feng-Shui, com sua voz calma e arrastada. – Com o novo time montado para a London Music e, é claro, Senhorita , com fundos suficientes para investimentos, não será muito difícil convencê-los.
- É, , e então qualquer coisa você seduz o chefe Steve Jobs. Vai ser facilzinho, seduzir chefes é a sua mesmo. – disse , de uma das últimas cadeiras. O pessoal que estava reunido, a maioria esmagadora composta de novos funcionários, olhou-me com certo medo. Porém, eu ri descontraída.
- Ah claro. “Steve, Carregue-me como a bateria do seu iBook; vamos brincar de Techno dance.” – imitei com uma voz sexy, cheia de atuações. Todos começaram a rir unânimes, até mesmo a Madame Feng-Shui riu, fazendo com que seus olhos pequenos parecessem estar fechados. Eu sorri, satisfeita. e sorriam também. E em meus pensamentos, eu gritava “Yes! Pesadelo maluco. Eles estão felizes.” – Menos, senhor . – ri-lhe cordial - De uma forma ou de outra, vou providenciar nossa comunicação. Um bom plano para a empresa na telefonia também. – acrescentei, dirigindo-me à Alene, que parava de rir e aprumava-se na cadeira.
- Sim, chefe. – respondeu Alene.
Dominic estava prestes a começar outra discussão quando ouvimos um celular tocar. O dono foi rápido ao desligar, e eu fui rápida a identificar.
- Desculpe-me. Esqueci de desligar. – falou , retornando uma expressão indecifrável, mas que eu remeti como culpa.
- Tudo bem. – disse a ele. – Continuemos então. Dominic, você ia falar alguma coisa?

(...)

A reunião terminou no horário do almoço, na verdade, estendeu-se um pouco; o que fez com que eu desse uma hora para que os funcionários saíssem para almoçar. Restara apenas eu, e na sala, até Louis havia se despedido. Estávamos a conversar sobre coisas referentes ao novo projeto e ao lançamento da primeira edição, previsto para o outono; abril, mais especificamente. De repente, o bipe de começou a gritar, digo, a bipar (mas é que era muito alto). olhou para com um olhar de súplica, e então pediu licença para sair da sala de reunião. Não demorados segundos e ouvi uma estranha voz proferindo, de forma inadequada para o ambiente de trabalho, ou seja, alto, o nome de ; também de uma forma não muito agradável (pelo menos para mim). Rapidamente coloquei-me para fora da sala de reunião para ver o que estava acontecendo na Redação semi-vazia.
- , meu amor! Que saudade! Por que não me retornou a ligação? Eu estava doida para falar com você, dizer que eu viria te ver. Mas aí então, resolvi fazer surpresa, e... Nossa, você tá estranho.
- Eu acabei de sair de uma reunião, Paige. Estou com fome, não almocei ainda.
- Não acredito! Já sei, foi a megera da sua chefe que não lhe deixou sair. Ah, ela me irrita tanto...
A pessoa que encontrei pelo corredor do saguão, com um conjunto cinza e casaquinho de cashmere, era a minha cópia... De quando eu tinha 22 anos. A mesma cor de cabelos, o mesmo natural dos olhos, o mesmo rosto anguloso; o corpo definido, as sobrancelhas, os ombros... Ela tinha praticamente tudo que eu tinha, apenas era um pouco mais alta e seca. Até o estilo de roupa, seria algo que eu usaria. Essa então seria a tal...
- Paige. Em carne e osso; um pouco mais de osso, devo dizer, mas... Sim, é ela mesma. Paige Wallace, a garotinha do . – ouvi a voz de dizer atrás de mim. Eu estava silenciada pela surpresa daquele desvio em que as coisas estavam tomando, aquele transtorno terroso.
- Irritante é ela, nem me conhece e já vem cheia de dedos. – resmunguei num sussurro, apenas para ouvir. Ele riu baixinho e ficou ao meu lado, observando os pombinhos: o velho gá-gá e a garotinha-clone. – Ela é muito parecida comigo... fisicamente.
- Parecida? Ela é sua cópia, xerocada frente e verso. – disse , e eu o encarei com um olhar ameaçador. – Com todo respeito, é claro. – ele acrescentou.
- É. Impressionante. – falei com desgosto, quando finalmente notei o olhar de em mim, enquanto a garotinha o abraçava. Apenas o rosto dele, do otário, olhando para mim como num ato de quem pede por clemência.
- Você está tremendo. – comentou , percebendo as minhas mãos que recebiam o sangue a pulsar puro ódio. Eu o ignorei, mantive meu olhar no de , e então gesticulei: apontei para mim mesma, para minha face, e então para a garotinha que ele abraçava. Mostrando, então, que eu identifiquei a semelhança. quis dizer alguma coisa, separando-se daquele abraço e vindo na minha direção com ; a menina ainda em seu encalço.
- , gostaria de apresentar a minha namorada, Paige Wallace. Paige, essa é , minha chefe.
Quanta ousadia!
Senti meu sangue ferver ainda mais para as mãos, então as escondi atrás do corpo e fiz um gesto simplório com a cabeça.
- Prazer em conhecê-la, senhorita. – sorri-lhe cordialmente (falsa). A menina pareceu não notar e, inocente, retribuiu com um sorriso verdadeiro e cheio de energia. Bem, pelo menos o sorriso não era igual ao meu. Seus dentes da frente eram separados, até demais, num caso de aparelho ortodôntico, e ela não tinha meus caninos afiados. A-há!
- Prazer é todo meu, senhora ! – falou Paige com sua voz mansa. Eu ouvi um senhora? Minha cara de mulher casada, por favor?
- Senhorita, minha jovem. Ainda não tive o infortúnio de um casamento, reservo-me para outras prioridades. Casamento apenas por amor. – sorri com os lábios fechados, deixando meus olhos correrem rapidamente para e , respectivamente, mostrando então que era melhor não me deixar muito tempo ali.
- Que lindo, ! E eu achando que sua chefa era treva. Ela acredita em amor de verdade.
- É, Paige, ela acredita... – disse com uma voz um pouco entediada, ou triste, eu não sabia definir.
- Que nem o nosso amor! – sorriu Paige, abraçando de lado. Agora quem estava prestes a gargalhar era eu. Apesar da raiva que me consumia, eu via tudo claro como o azul do céu. não amava Paige. A-há, parte dois!
! Nem te vi aí do lado, como você está? – Paige observou a presença de , cumprimentando-o com dois beijinhos.
- Bem, vejo que está na minha hora. Tenho compromissos e não posso desmaiar de fome entre eles. Você está já bem acompanhada, senhorita Wallace, apenas devo pedir-lhe que não tome muito tempo dos meus queridos editor e administrador. – sorri graciosamente para a menina (que por acaso estava mais alta do que eu, minimamente, mas estava) e puxei para dar-lhe um beijo na bochecha, com a real intenção de sussurrar em seu ouvido:
- Estou na máquina de café, e irada.
Saí daquele círculo tenso e fui para minha novíssima em folha – e é claro, mais do que amada – máquina de café. O que seria de mim sem cafeína? Dio Mio, nada seria! Nada seria, nada seria...

Cheguei em casa sentindo-me completamente exausta. Aquela infeliz guria saltitante não saia da minha cabeça e, apesar de saber que não a amava, eu também não sabia até quando ele duraria: Primeiro, porque tinha feito uma aposta comigo; e, segundo, porque ele seria orgulhoso demais, e ostentaria aquilo até não poder mais. A questão é: Até quando seria o limite de para ceder e finalmente voltar para os meus braços?
Bem, eu sabia até onde iria meus limites. Antes de me deitar, olhei o calendário, estávamos em janeiro, final do mês. Visto o sucesso com todos os empreendimentos de hoje à tarde, inclusive o da Apple, a primeira edição sairia com sucesso em abril, sem quaisquer problemas. Eu suportaria até lá? Não, mas eu tentaria, ao menos, ficar quieta quanto a isso, e enfiar minha cabeça no trabalho, esquecendo que bate um coração do lado esquerdo do peito e que, perto do meu escritório, tenho a perdição atentando diariamente.

CAPÍTULO 5 – SÉPIA

Havia muito mais do que ciúme, havia inveja, corroendo-me a cada passo da garotinha na minha frente, abraçando o MEU homem. Aliás, bom frisar, meu HOMEM. O que aquela criança fazia no meio de adultos mesmo? Transbordando aqueles sorrisos inacabáveis, aquela inocência saturada, aquele jeito meigo demais, aquela pele abençoada pelo colágeno da jovialidade. A cada segundo que passava, eu me culpava, mesmo inconscientemente “Ele me trocou por uma mais nova, por uma mais nova.”
Minha mente otária me culpava. Sabia que ele não a amava, tinha certeza daquilo. Mas, se um dia ele me disse a verdade com aquelas três palavras, por que me deixara para trás? Por uma aposta? Por orgulho? E a mais terrosa infelicidade, eu tinha de admitir, era que eu estava sendo tão orgulhosa quanto. Digo, eu não havia feito nada desde então, simplesmente nada. Apenas me sucumbia no meu próprio trabalho, ocupando a mente com qualquer coisa que não fosse aquele sentimento absurdo de ciúmes, que se proliferava em mim como moscas no lixo. Talvez ele me amasse, eu o amasse, e nós fôssemos apenas duas bestas estupidamente teimosas.
Eu sabia que não estava sendo uma boa atriz. Não estava escondendo de forma alguma minha infelicidade por estar cada vez mais longe do . Por isso, forcei-me a sair mais do ambiente de trabalho na revista e comecei a participar das transações fora do escritório; só para não ter que olhar para aqueles olhos... Aqueles olhos que um dia, tão sinceramente, disseram que me amavam. Senti-me ridícula. Infeliz aposta, medíocre e... Insuportável Paige. Já era a sexta vez naquela semana que ela tentava fazer contato comigo. Amizade. AMIZADE? Eu vou acabar ligando para o serviço da Super Nanny, e tirá-la da minha frente antes que eu cometa um crime hediondo.
- , minha querida, você não vai acreditar quem eu conheci hoje! Meu professor de Design gráfico, Victor Hugo, disse que te conhecia. Que fora seu colega na faculdade e—
- Como é? Hugo? – Interrompi-a bruscamente, finalmente dando sinal de que a ouvia. – Um irlandês?
- Sim, ele mesmo. Nossa, apesar de coroa, um pedaço de mal caminho... Alto, forte, louro, tem uma cicatriz na sobrancelha que só deixa ele mais sexy que o normal. Todas as meninas da Universidade são loucas por ele. – disse-me Paige. Estávamos na máquina de café, enquanto eu tentava embriagar-me de meu vício em paz e ela viera, como eu já frisei, na sexta tentativa de uma amizade. Olhei-a nos olhos pela primeira vez naquela semana, o que pareceu assustá-la de início.
- Sei quem é. – Eu disse, sentindo meu estômago revirar com as lembranças de Hugo, as quais vieram à minha cabeça como o flashback de um filme em sépia. Peguei o meu café preto e adocei-o rapidamente, passando a cheirar e assoprar, enquanto encontrava o caminho para as cadeiras da pequena cafeteria.
- Ele mencionou que eu era muito parecida com você. Só que você era mais baixa e curvilínea; que os cabelos eram idênticos, só que mais curtos... Além de ser mais rabugenta.
- Eu nunca fui um doce de pessoa, Paige. – sorri-lhe irônica, tomando o meu primeiro gole de café, em tom de quem não quer conversa. Ela sentou-se na cadeira à minha frente, insistente.
- disse que você é mais sociável do que aparenta. concorda.
Faltei cuspir o café fora com o comentário, mas me contive por pouco. O que diabos aquela garota pretendia com aquela conversa mesmo?
- E você veio aqui conferir se é verdade? – perguntei-lhe sem rodeios. Ela arqueou as sobrancelhas, pega de surpresa. – Poupe seu tempo, Paige. Se você quiser achar doçura, vá à uma bomboniere.
Paige riu. Miserável. Tinha a risada de uma hiena.
- Professor Hugo disse-me que você diria algo assim para mim, e que não era para eu desistir, porque sua amizade é extremamente importante.
Eu já estava a dez segundos de ficar descontrolada e realmente chamar uma babá para aquela garotinha metida, só que a babá seria a segurança da London Music. Uns grandalhões para ensinar uma lição a ela. Ou melhor, eu poderia fazer isso com minhas próprias mãos. Com a violência crescendo em mim de modo quase incontrolável, fechei os olhos e tomei ar, inflando as narinas como um dragão prestes a soltar fogo. Eu queria responder-lhe que era óbvio que minha amizade era importante, visto que eu era herdeira de uns riquinhos, conhecidos como meus pais; uma fortuna com zeros à direita que a pobre Paige nem sonhava que eu poderia possuir. Ninguém sabia do meu dinheiro a não ser eu e Louis. Aliás, eu, Louis, e o irlandês Victor Hugo, meu ex-namorado da faculdade.
Engoli o resto do café existente na caneca, colocando-a sobre a mesa. Senti a minha garganta arder com a temperatura do líquido, mas eu não ligava.
- Preciso voltar ao trabalho. Vê se procura algo útil para fazer, garotinha.
Assim que me virei, dei de cara com o , olhando-me nos olhos daquele jeito invasivo. Não suportei. Baixei meu olhar, e desviei do seu corpo ali estático, dando passos apressados para o meu escritório, e ali me trancando. Passado atormentando, intermitente.
Saber que Paige estava seguindo meus passos até no ramo profissional não me trazia nenhum conforto. Que tipo de Deus põe duas pessoas tão semelhantes num mesmo mundo? Eu a odiava. Com todas as minhas forças, eu a odiava. E agora mais ainda. Na mesma Universidade? De todas as Universidades de Artes do mundo ela tinha de estudar na minha? E Victor Hugo, aquele... Infeliz. Por mim nunca mais ouviria aquele nome. Bom saber que se tornou apenas um professorzinho, enquanto eu mandava e dizia numa empresa de porte. Ainda assim, ele terminou como professor de Universidade, os quais têm certo prestígio. Por mim ele estava ensinando o ABC para os analfabetos da África; sem qualquer prestígio, com muito trabalho a fazer e real utilidade no mundo.

# 9 anos e 11 meses atrás #

Eu pertencia ao meu próprio medo, e a idéia de fugir finalmente havia se tornado realidade. Estava cansada de lidar com coisas tão complicadas, momentos de histeria familiar, a solidão, também, não apaziguava as minhas dores. Sempre vivi à espera de alguém que, um dia, pudesse me salvar. Salvar-me de mim mesma. Salvar-me do meu maior medo.
A Inglaterra me parecia o lugar perfeito para começar uma nova vida, onde os meus desejos fariam alguma diferença. Para começar, eles falavam inglês; segundo, era uma das capitais mundiais da moda, e um lugar conhecido por trazer à tona pessoas de valor grandioso para toda a humanidade. Aquele país tinha um oceano inteiro de distância do que eu mais odiava no mundo: o meu próprio passado. Eu estava bem. Finalmente me sentia bem.
O dinheiro do carro de Louis não me serviria por mais de três meses. Eu era apenas uma garota, dezoito anos, sem experiência de trabalho e com um talento que eu não conseguia julgar como brilhante, talvez útil, mas nunca o suficiente para as expectativas do mundo. Dei entrada num apartamento um pouco mais afastado da cidade; uma loucura, visto que com ele iria embora todo o dinheiro que possuía. Eu só havia conseguido tão singularidade ao comprar um apartamento sem renda fixa, pois havia impressionado os últimos donos. Eram um pai e um filho, dois irlandeses, seus nomes, Armand e Victor Knox. Não pude deixar de notar a beleza de ambos, e especial do filho, que não deveria ser mais velho que eu – isso se não tivesse a minha idade. Foram argumentos sem base os quais dirigi aos Knox, porém pareceram fazer algum sentido, já que no final, eles aceitaram a minha oferta. Metade do dinheiro que possuía tratou de funcionar como um ‘sinal’, uma entrada no apartamento. Era pequeno para dois, mas o suficiente para mim. Possuía dois quartos, uma suíte, e um espaço em que se fazia a sala e a cozinha; a lavanderia era apenas uma varanda escondida a qual se penduravam as roupas e uma pequena máquina de lavar que ficava escondida entre os móveis. Para mim estava tudo perfeito.
Passou-se uma semana para que eu me estabelecesse naquele lugar, sem qualquer contato humano (senão com os entregadores de pizza), e eu fiquei trancada naquele apartamento. Aproveitei os antigos móveis, joguei um colchão no chão de um dos quartos para me servir de cama, e usava meu urso-polar de pelúcia que havia ganhado numa promoção da coca-cola (era o que dava ser uma consumidora ativa) como travesseiro.
Se cada lágrima minha fosse uma gota de chuva, aqueles sete dias se passaram chuvosos como a própria cidade de Londres. Era meio debilitante aquela chuva contínua – não só a chuva dos meus olhos, mas também a que vinha da cidade. Eu não estava acostumada com aquela umidade toda, nem o meu guarda-roupa. Eu teria de sair, eu precisava sair daquele apartamento e fazer alguma coisa! Mas eu me sentia triste e até mesmo gorda a toda vez que comia uma pizza tamanho família sozinha; sentia-me suja e sobretudo solitária. Mais do que em qualquer outro momento da minha vida.
Queria abraçar alguém, mas não havia nada além do urso-polar para ser abraçado. Queria chorar no ombro de alguém, mas dos amigos que tinha, todos estavam a um oceano de distância.
Em uma de fênix, acordei naquele dia com um raio de sol que atravessou a janela direto aos meus olhos, e eu parecia renascida. A primeira noite sem pesadelos sobre o que eu havia visto, antes de vir para cá. Sem Louis e aquelas barangas que frequentavam MINHA casa, esquecendo-se da noção de vestuário apresentável. Sem aqueles aproveitadores baratos que tentavam convencer meu tio a me dar para algum orfanato – para que assim eu pudesse ser adotada e minha herança, vindo junto. Dinheiro era uma coisa complicada. Mas eu havia renascido, no primeiro dia ensolarado em Londres.
Vesti uma roupa qualquer, a que mais me agradasse, e saí porta afora. Eu ia procurar emprego. Com os meus talentos e currículo impecáveis, alguém teria de ceder-me algum lugar para trabalhar. Peguei o metrô sem nem saber para onde ia, e desembarquei. Era engraçado aqueles ingleses, de sotaque puxado, falando rígidos ao meu redor. Eu sentia olhares sobre mim, e sorria para quem quer que olhasse nos meus olhos. Eu era outra pessoa, eu havia me tornado outra pessoa, eu quis me tornar outra pessoa. Ciscar o passado, ciscar o maldito medo. Era apenas besteira, coisas ruins da vida que eu supervalorizava: como o fato de nunca ter tido pais, irmãos, família. O fato de nunca ter namorado, porque sentia nojo, porque para mim namorar era o que Louis fazia; e aquilo era realmente nojento. Bem, pelo menos do jeito que ele fazia. Eu tinha de esquecer aquilo. E foi isso que eu fiz.
Foco, foco: Eu preciso de um trabalho. Mas em que trabalharia? Traduzindo inglês para francês ou português? Tocando piano em algum pub? Vendendo roupas numa filial Marc Jacobs? Eu realmente não sabia. Foi então que eu avistei. Aquela frente de Universidade, com uns estudantes nada convencionais a entrar e sair, com rostos satisfeitos. Eu li baixinho a placa que indicava o nome do lugar: University of Creative Arts. Como eu desejava fazer parte daquilo. Mas como poderia? Sem dinheiro, com prestações de um apartamento a serem pagas, uma nada no meio de tudo. Sempre me engracei pelas artes, apesar de ter bom desenvolvimento na matemática.
- Senhorita ? – ouvi uma voz masculina proferir atrás de mim. Franzi o cenho e virei-me para ver quem era, já numa posição defensiva. Qualquer coisa eu ia usar o boxe para alguma coisa útil: gancho, gancho, up, cruzado, direto. – Sou eu, Victor Hugo Knox, aquele que você comprou o apartamento...
Uns cabelos louros presos com um pequeno elástico, dourados, quase de uma cor de mel, estavam bagunçados; eram olhos verdes como uma esmeralda, brilhando como diamante lapidado. Knox, e que garotão! Alto, ombros largos, camiseta dos Guns n Roses e jeans surrados. Um momento para um suspiro mental. Ah...
- Oh, claro. É um prazer vê-lo novamente, Senhor Victor Hugo. – falei com um excesso de formalidade, ainda a admirá-lo.
- Eu que o diga, senhorita . E dispense as formalidades, pode me chamar de Hugo. – ele disse com um sorriso impecável, com direito a dentes tortos que, de uma forma insanamente incrível, conseguiam lhe deixar mais sexy.
- Sendo assim, eu sou apenas . – sorri-lhe também, um pouco tímida.
- Ok, apenas . E então, o que fazes desse lado da cidade? – ele perguntou.
- Procuro emprego. – respondi sincera.
- Na frente da Universidade? – ele perguntou. Logo, meus olhos voltaram para aquela arquitetura que eu admirava.
- É... Sei lá...
- Bem, eu posso te ajudar aqui, se não se importa.
- Como? – perguntei confusa, virando-me para ele.
- Eu estudo aí. Faço Design, estou no primeiro semestre. Acho que posso até conseguir uma vaga pra você.
- Mas eu não tenho condições de pagar uma particular. E preciso mesmo é de uma fonte de renda. – Eu disse convicta. Hugo riu.
- Faz o teste, tenta uma bolsa. – ele falou, desviando o olhar do meu. Eu estranhei a sua risada, mas não comentei nada.
- É... Não custa nada.

O bom de ter feito tantos cursos na vida, e de passar tanto tempo no ócio, trancada num quarto, apenas a desenhar, fizeram com que eu conseguisse não apenas uma bolsa, como também um pequeno emprego dentro da própria faculdade. Agora eu estaria desde a manhã até o fim da tarde a ser útil: estudando e trabalhando. Quem imaginaria que eu, a garota 1001 utilidades, era herdeira de uma fortuna imensa? Sem aproveitadores, apenas amizades de verdade. E Victor Hugo sempre perto de mim, guiando-me, cuidando de mim como seu eu fosse um valioso vaso de porcelana.
Foi num domingo à tarde, durante uma seção de cinema, que nós ficamos pela primeira vez. E então começamos a ficar várias vezes. Ali, aqui... Não era exatamente um namoro, afinal, ele nunca havia proposto nada disso; mas tinha tudo que um namoro teria: Fidelidade, carinho, sentimento, consideração... Ou pelo menos eu achava que era assim.

(...)

Assim que cheguei a Londres, mantinha meus cabelos em um corte Chanel geométrico, que era moda naquela época. Então o tempo passou, acabei cedendo à pressão de Hugo, e deixei crescer. Quando já estava para parecer uma Rapunzel, finalmente cortei-os, e finalmente percebi quanto tempo havia se passado. Três anos. Eu iria me formar.
Estava no meu apartamento e arrumava os cabelos juntamente com Cassandra, uma nova amiga da faculdade, que conhecia há não muito tempo. Anos 90, eu havia adquirido um estilo muito mais despojado e insano. Meus cabelos sequer foram penteados para a formatura, eu apenas os prendi numa trança-raiz com alguns pingentes, deixando alguns fios rebeldes escaparem. Meu vestido era preto e cheio de partes abertas, ousado, feito por mim mesma e especial para aquele dia. Não que fosse a primeira vez entre mim e Hugo, mas eu queria algo especial, diferente, para o dia da formatura. Eu queria tê-lo como meu namorado, oficialmente, tinha quase certeza de que ele iria propor naquele dia.
Cassandra também estava linda com seu vestido dourado recém comprado na Versace. Os cabelos castanho escuros e lisos bem penteados para trás e aqueles olhos cinzas de dar inveja maquiados belamente. Hugo iria nos pegar a qualquer minuto de carro, com o seu Ford novo. Não esperamos muito para ouvir a buzina do carro e sairmos estonteantes a bater nossos saltos sobre o chão, ao encontro do carro.
- Você está mais linda do que já é. – Hugo sussurrou no meu ouvido assim que cheguei ao carro, beijando meus lábios com os seus úmidos. Estava também deslumbrante no smoking grafite, com a gravata folgada, e os cabelos, agora mantidos curtos, brilhando para trás com o gel.
- Você também, amor. – sorri-lhe carinhosa e me afastei, colocando o cinto de segurança.
- Cassandra.
- Hugo. – os dois se cumprimentaram com simples acenos de cabeça, para então Hugo dar partida no carro.


#Flashback end#

Um extremo ódio me consumiu naquele momento de recordação. Por que diabos eu tinha de manter tais memórias? Por que, dessas coisas desagradáveis, a gente não pode simplesmente esquecer? E o flashback do filme da minha vida, montado em sépia, daquele modo grotesco, continuou a passar na minha cabeça; independente do ambiente de trabalho que me situava e da situação presente que me aturdia. Eu estava me culpando pelo passado naquele momento.

#Flashback – A formatura #

Cada minuto da colação era um minuto de tédio. Eu já tinha meus pés inquietos, minhas unhas cantando batidas estranhas no braço da poltrona, e aquela vontade de suspirar a cada cinco segundos.
- Amor, dá um tempo. Já vai acabar. – sussurrou-me Hugo, que também não estava lá muito calmo.
- Ah, claro. Precisam realmente fazer tantos agradecimentos? Daqui a pouco a Lindsay vai subir no palco porque o professor de história da Arte vai agradecê-la pelo tchrururu.
- Tchururu?
- Você acha mesmo que Lindsay, burra do jeito que é, ia conseguir passar em história da arte? Pelo amor de Deus, Hugo. Open your eyes.
- Ah... – ele riu abafado – entendi. Tchururu quer dizer sexo?
- Eu evitei a palavra, você que fez questão de dizer. – eu me envergonhei.
- Por que vergonha de dizer essa palavra? – ele estranhou, encostando a cabeça no meu ombro.
- Não tenho vergonha.
- Sei.
- Sabe mesmo. – eu falei convicta. – Mas também não precisa alarmar que a menina transou com o professor pra conseguir passar de ano. – sussurrei quase inaudível.
- Ah é... – Hugo levantou a cabeça, olhando-me de lado, daquele jeito extremamente malicioso (que aí sim, envergonhava) – Eu sei mesmo...
- Cala a boca, Knox.
Eu e Victor Hugo tínhamos uma relação concreta. Todos sabiam que estávamos juntos, e nós não precisávamos escrever na nossa testa: “Namorados”. Mesmo assim, muitos nos olhavam de uma forma diferente, estranha e que chega a me incomodar certas vezes. Hugo dizia ‘não ser nada’, mas eu tinha sempre a pulga atrás da orelha.
Assim que acabou a colação, finalmente fomos para a festa. E aconteceu exatamente o que eu já previa acontecer: uma oficialização. A música que tocava era de Tears of Fears, Shout. Um sucesso da época. Nada muito clichê ou certinho, e ele apenas me deu um anel. Era ouro 18k, com dois pequenos diamantes. Nada de “Você quer namorar comigo?”, apenas o anel e aquele sorriso maravilhoso. Beijei-o e abracei-o como nunca havia feito antes, tinha a certeza de que ele era o homem da minha vida; aquele que me tirara da sarjeta e me colocara de volta ao topo: formada, amada e querida.
Foi de repente que recebi uma estranha ligação. Eu conhecia o número, era Louis, o meu tio e ex-tutor. Não atendi, por obséquio. Hugo perguntou quem era, e eu respondi-lhe na mais pura sinceridade, contando-lhe todo o trajeto da minha vida. Apenas de repetir o nome Louis , os olhos de Hugo adquiriam uma cor estranha. Ele chegou a sorrir quando não devia, mas eu não tinha cabeça para lhe perguntar. Jamais esperaria uma ligação de Louis; e afinal, como ele descobrira o meu número? Automaticamente passei a ficar ressentida, e não desejava mais festejar ou comemorar nada.
Eu pedi um tempo para ir ao banheiro, e quando voltei de lágrimas secas, Hugo não estava mais lá. Passei a procurá-lo insistentemente. Eu só queria saber dele, mais ninguém. Foi então que eu o vi. Não sabia diferenciar as mãos dele com as da outra que ele agarrava.
- Puta que pariu. – xinguei alto para todo mundo ouvir. Logo as pessoas passaram seus olhos atentos e curiosos para o que acontecia no canto da boate. – O que diabos é isso, Knox?
Meu tom não era apenas de dor, mas de desprezo. Ser traída era a última coisa que eu achei que ia acontecer comigo. Talvez porque seria demais para minha cabecinha melodramática, o fim do mundo, talvez.
- , eu posso explicar... – Hugo desgrudou da menina, que agora eu reconhecia: Cassandra. Foi então que fiquei mais revoltada ainda.
- Eu sei que você pode explicar. Dizer mais mentiras... – minha fala foi interrompida pelo celular que voltou a tocar. Louis. Foi impulso, e eu atendi. – Que inferno meu tio! Pare de me ligar, nós não temos mais nenhuma relação! Fique com o inferno do dinheiro.
- Na verdade, querida sobrinha, eu só liguei para te dar os parabéns pela formatura. E quanto ao jovem que você escolheu, eu sempre soube que não ia dar certo. Ele é um dos meus. – ouvi a risada sarcástica de Tio Louis do outro lado do telefone. Eu quis desligar, mas me contive.
- Você conhece ele, coroa?
- A mãe dele, Bridigitte, é a minha nova esposa. Eu e o pai dele negociamos há algum tempo.
- Negociaram mulher?
- É. Sabe como é... – ele riu.
- E como você sabe tudo da minha vida? Andou me seguindo, seu demoniozinho? – eu falei nervosa ao telefone.
- Não, Victor reportou tudo para mim, assim que ouviu seu nome, gatinha. Você é previsível. – Louis falou. E dessa vez eu não pensei duas vezes em desligar na cara dele, quase quebrando o celular com as minhas próprias mãos. Olhei para Victor Hugo, que ainda tinha a boca melada com o batom de Cassandra. Cheguei a ter pena dele, realmente tive. Claro que não era por nada que ele fez, mas por algo que eu estava prestes a fazer.
- Hugo, chegue mais perto. Deixe-me limpar sua boca. – eu falei fingindo calma. Ele arregalou os olhos, surpreso, e deu passos lentos para mais perto de mim. – Venha, amor, venha. – Encorajei-o. Ouvi uma pessoa perto de nós, comentando algo como “Eu sabia que ela gostava de ganhar chifres... Para ficar com um cafajeste com o Hugo!”. Apenas me deixou com mais raiva. Todos sabiam da má fama de Hugo, menos eu.
O sangue já havia descido para o meu punho, e eu o apertava bravamente. Em uma das mãos, meu celular (que era um Motorola gigantesco) acabava por machucar. Assim que vi Hugo na distância perfeita, larguei o celular no chão e me posicionei rapidamente para um movimento rápido.
- Gancho, gancho, up, cruzado, direto. – falei enquanto executava os golpes de boxe. Minha raiva era tamanha que eu havia ganhado força suficiente para deixar Hugo no chão depois de apenas cinco golpes. Olhei para ele de cima, observando o seu supercílio sangrar, a boca inchar do lado direito e ele se contorcer para amenizar a dor na barriga. – Otário. Agora você vai lembrar de mim para sempre. – sorri irônica. Retirei o anel que a pouco havia ganhado e joguei-o sobre ele. – Aprecie a sua vidinha desprezível, cafajeste.
Virei-me.
- Mas a gente nem namorava! Eu não te traí, . – ele resmungou, sendo levantado do chão pelos amigos.
- Então imagine como seria a sua dor agora se, nesses três anos que se passaram, estivéssemos namorando. – Soltei-lhe um olhar assassino e saí dali com a classe de uma mulher traída, mas muito insana. Eu sabia que assim como Hugo iria carregar a cicatriz na sobrancelha, eu iria carregar a cicatriz no coração. Muito pior. Muito pior...


# Flashback end#

CAPÍTULO 6 – VINGANÇA DE DESEJO

- Alô?
- .
- Oh, senhorita ! Mas que prazer em falar com a senhorita, nem que seja por meio do telefone. – disse-me uma voz feminina, porém mais velha, um pouco rouca. Eu não reconhecia de nenhum lugar. Tudo bem que faltavam 30 minutos para o fim do expediente e eu estava contando os minutos para enfim parar de atender telefones, alisar a cabeça dos outros e sorrir como uma Barbie; mas mesmo assim! Eu ainda estava em pleno funcionamento. Quem diabos era aquela mulher?
- Desculpe-me, senhora, mas... com quem estou falando?
- Ora, mas que estupidez a minha. Esqueci de me apresentar! Sou a Phoebe Wallace. Você deve conhecer minha filha, Paige.
Senti minhas narinas inflarem automaticamente, em desprezo. What the fuck? O que a mãe Paige fazia me ligando?
- Sim, sua filha. A namorada de um dos meus funcionários, . Sei quem é. – falei entediada ao telefone, passando a desenhar um bonequinho numa forca em um dos post-it esquecidos na minha mesa.
- , que garoto bom. Ainda nem o conheci, mas pelo que a Paige vem me falando dele, ele já me parece ser maravilhoso.
- É. Ele é. – enforquei o bonequinho e passei a procurar a caneta vermelha. , um garoto... Há!
- A Senhorita deve estar ocupada, realmente não queria importuná-la... – a voz da mulher Wallace continuava a se propagar, até eu finalmente achar a caneta e voltar ao meu desenho macabro. – É que minha menina sumiu, e esqueceu o celular em casa.
Parei de desenhar o sangue escorrendo do meu bonequinho (que eu ainda estava a decidir se era o ou a Paige), para então me tocar do que estava acontecendo. A mãe da Paige estava me ligando para perguntar sobre o paradeiro da filha? Não precisam mais da Super Nanny. Quem sabe aquele carinha que treina animais na televisão fechada? Bota uma coleira na pirralha!
- Entendo. O que a Senhora deseja de mim?
- Só queria saber se ela está aí com o . É que eu tenho vergonha de ligar para o escritório dele, por isso pedi para transferirem para a senhorita. Paige me disse que vocês eram amigas, então achei que você não ia se importar.
E viva a genética! Porque se Paige é insuportável, ela realmente puxou a mãe. Eu estava para dizer: “Minha querida, eu sou a chefe do namorado da sua filha. Symancol deixou lembrança.” E só nisso eu ganhava vários pontos. Mas aí para dizer que o namorado da filha dela é o meu ex o qual eu estou tendo uma briguinha infantil, porém ainda o amo, era melhor ela tirar a criança dela de campo.
Olhei para o escritório do . Ele tentava trabalhar, parecia tentar, e Paige estava lá – no horário do expediente! – acariciando-o, conversando (lê-se fazendo um monólogo, sequer abria a boca). Pentelha.
- Ela está aqui sim, Senhora Wallace. M—
E a mulher ainda desliga na minha cara! Louis entrou no meu escritório antes que eu começasse a gritar de raiva.
- , a reserva para o 41 está feita para três dias. Aquele produtor musical vai estar lá com a equipe, a reunião fica para a segunda feira de manhã.
Eu estava a ponto de dizer: O quê, como, quando, por quê? Toda sucumbida em meus probleminhas esqueci dos problemões. Louis pareceu ler meu olhar.
- O produtor que vai cuidar das coisas na inauguração da revista. O agente do Muse também vai estar lá, assim como todos os funcionários que trabalharão. Tem um auditório reservado para vocês.
- Ah, sim. – respondi, colocando a mão sobre a cabeça, bagunçando os cabelos sentindo uma leve pontada de dor de cabeça. – Obrigada Louis. Você pode folgar esses três dias, não vou precisar dos seus serviços; está dispensado. Avise aos outros funcionários, eles também estarão dispensados nessa segunda.
- Você vai fazer tudo sozinha?
- Sim, já está tudo pronto. Só falta a parte financeira... Mas eu vejo isso com o depois.

Era uma terça-feira, e meus planos para os próximos dias, além do trabalho exaustivo, consistiam que, no final de semana, ainda me hospedasse em um dos melhores hotéis 5 estrelas de Londres, para ter uma reunião com todas as pessoas que cuidariam da grande festa de inauguração da revista. O trabalho me enchia o saco, principalmente com o carma que eram Paige e juntos.
Consciente, eu havia criado uma espécie de ódio de a qual jamais pensei em ter na minha vida. Mas ele estava pedindo por isso! Por que não largava a maldita criança e vinha pegar a mulher de verdade? E se fosse pela beleza, bem, eu nasci primeiro, a beleza é minha, ela que “roubou” por falta de criatividade. Ah! O fato de ela parecer comigo apenas me deixava mais insana. Ele realmente ia me trocar por aquilo?
Não haveria muito tempo para eu me acalmar, a não ser que eu desistisse de tudo (principalmente da aposta) e fosse falar com o cabeça dura lá. Mas não, eu não estava preparada para desistir. Eu queria me vingar, de algum jeito idiota e infantil, mas que eu tinha certeza de que ia me sentir melhor. Porque furar o meu orgulho era demais. Além do mais, eu não me meto com homens com namoradas, faz parte do código de conduta adotado pós-trauma. E que os dias passassem...

terça-feira,
quarta-feira,
quinta-feira,
sexta-feira,
sábado

domingo
41 Hotel, 00:30 am.

Coloquei Etta James para tocar a noite inteira, até me sentir cansada o suficiente para deitar na cama e dormir. Desliguei o iPod, deixando-o sobre a mesa de cabeceira, e tentei descansar a mente...

41 Hotel, 2:30 am (n/a: acompanhe a música)

Uma igreja, várias pessoas. Eu no altar, porém não no centro, do lado. Eu era madrinha de um casamento. ali perto, parecendo... O noivo. sentado na terceira fileira. O som da voz de Emily atormentando a minha cabeça: “Sempre separados.”. Uma noiva, parecida comigo, mas não era eu; Paige Wallace. e Paige. e Paige...
I heard church bells ringing (Eu ouvi os sinos da igreja tocarem)
I heard a choir singing (Eu ouvi um coral cantando)
I saw my Love walk down the aisle, (Eu vi o meu amor descer pelo corredor)
On her finger, he placed a ring ( No dedo dela, ele pôs um anel)
Oh, I saw them holding hands (Eu os vi de mãos dadas)
She was standing there, with my man! (Ela estava ali, com o meu homem!)
And I heard them promise “til death do us part” (Eu os vi prometer “até que a morte nos separe”)
Each word was a pain in my heart (Cada palavra foi uma dor no meu coração)

A música que cantava em minha mente, como um fundo musical mais alto, contava a história do que estava acontecendo. Eu queria me mexer, eu queria impedir, mas nada, apenas sentia lágrimas escorrerem do meu rosto.

And all (E tudo)
All I could do was cry (Tudo que consegui fazer foi chorar)
I was losing the man that I Love, and all I could do was cry (Eu estava perdendo o homem que amava, e tudo que podia fazer era chorar)

Eu sabia o último verso da música, não, não! Aquilo não poderia estar acontecendo, só podia ser um sonho! Não, um pesadelo!
For them life have just begun; but mine it’s at an end. (Para eles a vida apenas começou, para mim, ela está no fim)


Acordei com um grito abafado no travesseiro. Estava suada, minha respiração acelerada e o meu coração para pular para fora do peito. Liguei a luminária que estava ao meu lado, para ter noção de tempo e espaço. Ainda eram 2:38 AM, e eu estava ainda naquele hotel. Eu não ia conseguir mais dormir, definitivamente não ia.
Levantei-me da cama (que por sinal era muito confortável), e fui lavar o meu rosto no banheiro. Não sentia mais sono, e tinha medo, de que quando voltasse a dormir, o pesadelo fosse continuar. Sentindo a água fazer efeito revigorante, percebi do que precisava. Num ato de insanidade, ou talvez numa medida desesperada, enviei uma mensagem.
“Encontre-me. Preciso de você.
Xx

Mesmo tendo ido ao 41 por motivo de negócios, jamais deixaria de colocar um maiô no mala, apenas em caso tivesse tempo para desfrutar da sauna. Era o que eu precisava; piscina, água quente, tudo no meio da noite, para tentar me curar do meu pior pesadelo. se casar; jamais, a não ser que eu fosse a noiva. Por outro lado, eu preferia morrer do que assistir aquilo.
Também, eu não queria ficar sozinha, não de novo.
Eu havia conseguido raiva o bastante de para não ter enviado aquela mensagem a ele, mas ao maldito . Eu não queria amor naquele momento, não queria nada complicado; apenas queria uma das melhores faces do amor: prazer. Eu queria sentir-me amada, sem ter de amar e sofrer de verdade. seria perfeito; se encaixava no que eu precisava, antes de tudo, antes de assumir a posição de uma verdadeira desesperada. Além do mais, era uma forma do meu lado vingativa (e infantil, devo admitir), também ter prazer, e finalmente saciar um desejo que há muito estava preso em minhas entranhas. Inconsequência era o remédio para a minha mente quando tudo ficava muito pesado, estranho ou complexo. Como quando eu fugi de casa, soquei um ex-namorado, comprei um apartamento sem ter emprego fixo para pagar as prestações; como quando eu transei com meu chefe no escritório dele, no carro no meio do nada, num casebre que eu sequer sabia onde se localizava; como agora. É um jeito de ver a vida por um lado bom: arriscando-se.
Abri a minha mala e peguei o maiô preto e simples, vestindo-o logo em seguida. Não me dei ao trabalho de tirar o suor que há pouco estava no meu corpo tomando um banho; apenas puxei o roupão e coloquei por cima do traje, saindo do meu quarto de hotel para ir à sauna.

(...)

Já nadava há meia hora quando avistei um olhar surpreso: olhos brilhando em minha direção. Ele estava apenas de jeans, camisa, jaqueta e tênis. O perfeito básico. parecia hipnotizado com a minha presença, apesar de também parecer que estava tendo uma boa noite... Até eu incomodá-lo no seu sono. Bem, aquela expressão, não parecia de alguém que havia sido incomodado pela chefe no meio da noite.
- Foi até rápido a me encontrar. – eu comentei, nadando para a borda da piscina.
- Já sabia onde você estava, só demorei a criar coragem para atender um chamado no meio da noite. – ele engoliu em seco.
- Sei... Está com sono? – perguntei-lhe, chegando finalmente à borda.
- Estava, quer dizer...
- Entendo. – eu sorri-lhe, então subindo ao solo firme puxando o meu próprio peso para cima. Enxuguei os cabelos, torcendo-os, e levantei. Foi então que percebi meu total controle sobre ele, . Eu quis rir, mas apenas deixei soltar um sorriso no canto dos lábios e fui até uma cadeira próxima, onde pude encontrar o meu roupão. Passei a me enxugar, e fiquei olhando furtivamente para ele, observando-o tentar manter os próprios pensamentos pervertidos para si. Foi então que eu já estava possuída pelo desejo de vingança (ou seria vingança de desejo?); e joguei o roupão de lado. Podia ser que o hotel tivesse um complexo de câmeras... Who cares?
- Sabe uma coisa que eu sempre quis fazer quando vejo pessoas perto da piscina? – perguntei, finalmente o encarando.
- Hã? O-o quê?
- Empurrá-las. – Respondi, empurrando-o para dentro da piscina quente
- Está louca, mulher? – ele perguntou surpreso, com a roupa toda molhada grudando no corpo. Eu pulei na piscina e retirei a sua jaqueta, jogando-a para terra firme.
- A jaqueta não combinava com seu estilo molhado. – Eu pisquei. – Desculpe se destruí algo que estava no seu bolso, bad boy. – sorri, me aproximando dele.
Cada músculo do seu peitoral estava devidamente delineado pela camisa molhada, o que me fazia ter orgulho do meu lado insano ao permitir tal imagem do paraíso. era, com toda certeza, gostoso. As tatuagens que havia feito apenas o deixaram mais sexy – o que uma chefe de empresa não devia admitir, mas bem, essa sou eu, né?
Ele percebeu a aproximação repentina, e logo fez o favor de me puxar mais para perto, fazendo-me arrepiar com o contato, além de voltar velhos sentimentos que tinha toda vez que ele se aproximava daquele jeito. , aquele que parava com todo o meu organismo; sem ar para respirar, sem forças para se mover, sem sanidade para conter.
- O que você está fazendo, ? – perguntou com sua voz masculina, arrepiando-me. Ele conseguia ser bem rude e sexy com as palavras: ao mesmo tempo.
- Sentiu saudade do seu tempo de chefe para me tratar com tamanha audácia, bonitinho? – ri. Ele riu também, só que seu hálito estava demasiado perto do meu rosto. Não era de menta refrescante como do , mas ainda assim entorpecia com um leve cheiro de Malboro red e pasta de dente. Agora eu entendia porque Emily fazia questão de ter os dois, de uma vez só. Garota gulosa.
- , ... O que você quer com isso tudo?
- Seduzir. – Sorri largo.
- Bem, isso você já conseguiu, parabéns. Mas por quê?
- E isso importa? – ele respondeu com silêncio, apenas a me encarar. Coloquei os braços ao redor do seu pescoço, segurando-o pelos cabelos, trazendo aquele hálito para cada vez mais perto da minha boca. – Hein? Desde quando porquês importam?
- Bem, para ter você, eu não me importo mesmo com o porquê.
- É, eu já sabia disso.
Nossos lábios a centímetros de distância. A respiração ofegante dele fazia cócegas na pele do meu rosto. Ele quis se aproximar para o toque final, mas eu estava o segurando pelos cabelos, e o impedi. Ele estranhou, então eu sorri, e usei o meu poder sobre seus cabelos para aproximá-lo num beijo mais feroz. Parecia algo de quem tinha sede no deserto e acabava de encontrar um oásis. Os movimentos eram bruscos, nossas línguas não se tocavam, e sim lutavam, como num ringue por sobrevivência. tinha uma língua áspera, inteligente. Empolgada, acabei por colocar as minhas pernas ao redor dos seus quadris, e ele com suas mãos tão ásperas e rudimentares quanto a sua língua, segurou-me pela cintura. apertava-me de tal modo, como se eu fosse uma presa prestes a fugir, pressionava seus dedos em minha pele.
Os instintos que me guiavam eram completamente rústicos. Eu apenas pensava em tê-lo, logo, acabar com aquilo; mas ao mesmo tempo queria que aquela noite durasse mais e mais.
deu passos laterais até a borda da piscina. Chegando lá, imprensou-me entre seu corpo e a parede. Mordeu meu lábio inferior, finalmente deixando-me (tentar) respirar depois de um beijo como aquele. Eu ofegava, procurando ar, e ao mesmo tempo sorrindo, sem conseguir me controlar. Era tão errado, na piscina do hotel... As mãos de então começaram a fazer um trajeto mais perigoso, subindo pelas minhas cochas, experimentando o elástico do maiô. Nossas testas estavam grudadas uma na outra, nossos narizes se tocavam, e eu ainda abraçava-o pelo pescoço. Estava mais alta que ele. Foi quando senti seus dedos espertos adentrarem meu maiô, apalpando minha bunda, e então vindo mais para frente. Ele era rápido, tudo estava indo muito rápido. Quando seus dedos estavam próximos da minha intimidade, ouvi passos de aproximação. Ops, talvez seria errado demais naquela piscina.
Empurrei-o, fazendo com que se assustasse. Mandei-lhe fazer silêncio e me acompanhar. Subi à borda da piscina e corri para pegar meu roupão. Mal vi saindo da piscina, joguei o roupão para ele e pedi que tirasse a roupa molhada e colocasse o roupão, rápido. Eu sabia que tinha alguém vindo. Deus. Só podia ser a segurança do hotel. A adrenalina que supostamente me faria entrar em pânico, simplesmente me fazia sentir um prazer de aventura!
Eu queria estar olhando para , retirando aquelas roupas, mas tinha de vigiar a porta. Foi então que eu avistei o autor dos passos: um segurança do hotel. Pronto, era só o que faltava. O que estaria eu fazendo às 3 da manhã na sauna do hotel com um homem encharcado? Eu nem tinha criatividade para criar algo inocente. Foi então que eu me virei rápida e corri para um que estava torcendo a sua camisa molhada. Que visão... Mal pude me deleitar, peguei-o pelo braço e passamos a correr para a outra saída da sauna.
- O que foi, ?
- Ora o que foi, tem um segurança vindo. Vou muito parar para explicar o que estou fazendo a essa hora, com você, um homem encharcado, na sauna do hotel. Isso é um cinco estrelas, .
- Bem, isso eu já percebi. Mas precisa realmente correr? Eu acho que vou escorregar a qualquer momento.
- Veja pelo lado bom... – eu abri a porta da saída, empurrando-o para fora, eufórica. – Bem, eu não consigo ver um lado bom. Meu quarto é no andar de cima, vamos, escadas. – chamei-o para as escadas de emergência.
estava eufórico e sorridente, seguia tudo que eu mandava fazer. “Sobe as escadas”, “Me dá o roupão”, “Faça silêncio!”
Estava emocionante a nossa fuga do segurança da escada. Corríamos feitos loucos até o meu quarto, molhando todo o piso, sem se importar, apenas rindo como duas hienas atacadas. Eu sentia, definitivamente, a amizade que havia crescido entre nós dois durante aquele tempo. Era gratificante.
Quando finalmente avistei o meu quarto, pedi a ele o roupão e tirei do bolso o cartão magnético que era a chave. Por muita sorte não havia desmagnetizado o cartão, com toda aquela movimentação e umidez. Assim que a porta abriu, puxei para dentro e tranquei nós dois ali dentro. Nossa respiração estava descompassada e ofegante, e havia dois motivos para estarmos eufóricos: o beijo e a correria. Entreolhamo-nos cúmplices e gargalhamos, mais uma vez. (n/a: 41 hotel: quarto, banheiro, sala.)

- Essa foi horrível, não me faça passar por isso de novo. Eu jurei que ia cair nas escadas.
- Há! Se você caísse, eu te carregava nos braços, princesa. – Eu lhe disse, rindo mais ainda.
- Ah claro, claro. Sua capacidade de incrível Hulk.
- Sempre, meu caro Batman!
- Não acredito que você lembra dessa fantasia...
- Eu gostei de quando se vestiu de Batman. Combina com você.
- Sei... – ele disse com uma cara irônica.
- É sério! – disse-lhe convicta. Ele continuava me olhando, mas não com aquela cara sarcástica. Eu achava que ele parecia com o Batman pela capacidade de ser dois ao mesmo tempo: o mocinho e o bandido. Assim como era o coringa... Ah, mas eu não quero lembrar dele. – Você continua um homem encharcado.
Ele olhou para si mesmo, percebendo o jeans encharcado, a blusa...
- A jaqueta! – falamos em uníssono.
- Era uma vez uma jaqueta, . Eu não vou lá pegar.
- Nem eu. – ele pôs as mãos para cima, como se se entregasse. Rimos novamente.
- Bem, acho que tenho que providenciar um banho. Venha, dê-me sua camisa. – chamei-o. Ele me entregou a camisa molhada e enrugada, e eu entrei no quarto (que era, na verdade, um quarto e sala, eu estava em uma das suítes máster). Fui ao banheiro e torci a camisa molhada, deixando a água escorrer pelo ralo da pia.
- Afinal, o que foi aquilo na piscina? – ele perguntou, encostando-se na porta.
- Somos amigos, né?
- Sim, mas o que isso tem a v...
- Então foi um beijo de amigo. – eu disse-lhe rindo, e saindo do banheiro, indo novamente à saleta, onde havia uma saída de ar-condicionado. Coloquei a blusa frente ao ar refrigerado, em cima de uma pequena cômoda ali perto. Distraída, não percebi a presença de atrás de mim, e quando arqueei as costas, bati-me com ele. Suas mãos grandes seguraram-me pelo braço. Seus lábios escorregavam pelo meu pescoço, fazendo-me arrepiar; ele ainda beijava a minha nuca, com um carinho irreconhecível. Deixei o ar soltar pela boca, suspirando.
segurou-me com mais força pelos braços e me virou para ele, beijando-me com destreza e fúria. Desengonçada, pulei com tudo para cima dele, travando minhas pernas em seus quadris e abraçando o seu pescoço. Ele cambaleou um pouco até conseguir equilíbrio, e riu durante o beijo. Mordi seu lábio inferior e suguei-o; minhas unhas cravavam em sua nuca, enquanto eu voltava a segurá-lo pelos cabelos. andava pelo quarto, e como não enxergava quase nada, conseguia bater em qualquer coisa que se materializasse na nossa frente. O abajur caiu, um vaso de flores não caiu por pouco, minhas costas foram batidas na parede sem dó... E enquanto isso nos beijávamos como se não houvesse amanhã. Bem, talvez realmente não fosse haver amanhã para uma amizade colorida demais. Então que aproveitássemos, nem que fosse só por uma noite.
- Onde diabos está essa cama? – perguntou, quebrando o beijo. Passei a sugar o seu pescoço com meus dotes vampirescos, do jeito que mais gostava de fazer. Sorria entre um chupão e um beijo que ali depositava. Seu perfume masculino fortemente inalado pelas minhas narinas parecia curar meus pulmões, como água depois de uma tempestade de areia.
- Quem disse que a gente precisa chegar à cama? – eu perguntei-lhe sussurrando no ouvido. Mordisquei-lhe o lóbulo da orelha. – Ponha-me no chão, eu vou guiá-lo ao verdadeiro sentido do que estamos fazendo.
- E o que estamos fazendo? – ele perguntou. Senti sua risada soltar o ar quente da boca perto da minha clavícula, quase no ponto G... Do meu pescoço. Terrível lugar do pescoço que, se bem atingido, poderia me levar a um orgasmo sem dúvidas.
Afastei-me do pescoço de , e passei a mirá-lo com um olhar tentador. Ele me ajudou a colocar as pernas no chão, sem que ambos caíssemos. Eu nem sabia em que lugar da suíte estávamos, mas coloquei as mãos sobre ambos os ombros dele e o fiz descer, ajoelhar-se ao chão.
- Estamos fazendo... – retirei uma das alças no maiô negro, sem desviar o olhar (até porque isso não era possível de se fazer, estávamos conectados). – Sexo de amigo. – Sorri-lhe maliciosa, e passei a outra alça para fora dos meus ombros, despindo meu busto vagarosamente.
- Isso é insanidade. – ele comentou com a voz rouca e falha, a observar cada movimento das minhas mãos a me despir.
- Essa é a idéia, querido amigo.
Deixei o maiô na altura da cintura e mordi o lábio inferior, deixando minhas mãos agora livres, uma em cada lado do corpo. observava-me como se fosse algo incrível, mas era apenas eu, de topless. Eu sabia que meus seios estavam descobertos e com certeza de mamilos rígidos (dado a sua presença, sem camisa, no recinto). segurou-me pelos quadris e puxou o meu corpo para perto bruscamente, fazendo-me soltar uma risada marota. A cara de abestalhado dele era impagável. Hotel cinco estrelas: 800 euros. Maiô de grife: 120 euros. Celular: 150 euros. Ter uma amizade colorida com : não tem preço.
As mãos rudes colocaram o maiô até a exata região pélvica, e aproveitou a sua pouca altura para beijar a minha barriga, morder, e descer torturantemente com seus lábios úmidos pela região pélvica. A cada passada de seus lábios eu sentia não só um arrepio, mas também um friozinho na barriga, como quando se desce uma depressão, como numa montanha-russa. Passei a acariciar a sua nuca, massageando com os dedos a cada vez que tinha aquela sensação de que tinha acabado de engolir uma caixa de halls preto. Inevitavelmente, meus suspiros se tornavam gemidos. Quando não aguentava mais tanta tortura, abri os olhos que estavam fechados com a intensidade das sensações corpóreas, e afastei-o de perto da minha intimidade. Automaticamente, ele me encarou, com os lábios rubros; mantivemos o contato óptico até que eu acabasse de ajoelhar-me também. Percebendo a textura do tapete que tocou os meus joelhos, percebi que estávamos ao lado da cama, no puro insucesso de chegar até lá e segurar o desejo insano que nos possuía.
surpreendeu-me ao me puxar para um beijo e, rapidamente, com aquelas mãos já fluído pelo meu corpo, retirar de uma vez o maldito maiô. Com as mãos também espertas, segui para o seu jeans, automaticamente sentindo o volume que ali se prendia. Pobre . Preso numa calça jeans. Hora de libertá-lo da prisão malévola. Abri o botão do jeans e nem fiz muito efeito em colocar o zíper para baixo, a latência de seu membro fazia isso sozinha. Seu jeans caiu sobre seus joelhos, e então sobrou apenas a boxer azul-marinho (claro que fiz questão de abrir os olhos para ver a cor), que se fazia perfeita no seu corpo. Se cada curva no corpo de uma mulher, lateralmente falando, excitava um homem; cada curva de um homem, falando de forma volumétrica, excitava uma mulher. Cada gominho da barriga, cada colina de um peitoral musculoso, rígido... E não podemos esquecer... O prato principal.
Cansada de ficar ajoelhada, sentei no tapete, colocando minhas pernas ao redor de . Foi fácil para que ele entendesse a posição e rapidamente deitasse em cima de mim. Um segundo de beijo perdido, para nós, era uma eternidade; não desgrudávamos os lábios famintos. Ele retirou o resto da calça com os próprios pés, e eu ajudei a tirar a boxer também. Foi então a necessidade de parar de beijar. Precisávamos suprir outra necessidade. Ele quebrou o beijo com certa cautela, descendo os lábios pelo meu queixo, pescoço, seios. Apenas beijou cada um deles, e com uma das mãos, espalmou o esquerdo, acariciando-o enquanto sua boca ainda descia. Da mesma forma que uma bêbada de absinto via fadinhas verdes, eu via círculos negros se fazendo na minha visão. A adrenalina me possuía, meus hormônios me possuíam. tirou a mão que acariciava o seio esquerdo e se afastou do meu corpo. Eu nem olhava direito o que ele fazia, mantinha meus olhos meio fechados, seguros daqueles círculos negros que debatiam minha loucura.
Retirou o resto do maiô, descendo até meus pés, e largou a peça para longe. Apalpou minhas pernas, e escolheu uma delas para beijar desde o tornozelo, até a minha intimidade. Ele parecia decidido a me proporcionar prazer, e não pensou duas vezes antes de começar a sugar-me. Cada movimento da sua língua pelo meu clitóris, e o estímulo dos dedos velozes, era como querer arrancar um grito da minha garganta. A sensação de prazer me tomava, fazendo diluir todo e qualquer problema que eu já pudesse ter na vida. O prazer é o remédio da preocupação. não descansou, ignorou sua própria excitação porque parecia que algo mais importante era me ver desinibida e dada ás suas carícias. Vilão e mocinho, vilão e mocinho.
Um último gemido, mais alto prolongado, anunciou o meu primeiro orgasmo. A revirada de meus órgãos dentro de mim era dolorosa e gratificante. A cada vez que se tem um orgasmo, ele vai ficando melhor, era incrível isso. Talvez porque a cada vez que gozava, aprendia a deliciar-me mais com a sensação de prazer absurda.
- Não me toque, não me toque. – Eu lhe pedi, completamente instintiva, para prolongar a sensação. Durou alguns poucos segundos, abri os olhos sentindo a visão um pouco embaçada, e sorri para ele. Não se demorou a encontrar meus lábios noutro beijo ofegante, descompassado.
Virei-o pelo tapete, voltando à órbita. Precisávamos de um preservativo, e minha bolsa estava ali perto. Com o rola-rola, acabei por conseguir alcançar a maldita bolsa, eu estava por cima dele. Quebrei o beijo e sentei em cima de sua ereção, sentindo-a pulsar em minha intimidade que já estava lubrificada novamente. Puxei a bolsa russet que estava a poucos centímetros de distância e, daquele bolsinho especial, retirei uma camisinha. Prevenção era algo que eu prezava, principalmente num “sexo de amigo”.
Rasguei o pacote rapidamente com as unhas e deslizei para as suas pernas, ficando de joelhos por cima dele. Com a camisinha ainda no pacote, segurei-a pela boca enquanto tirava a boxer de , numa agrestia que explicitava a minha impaciência. Ele ajudou, também não queria nada devagar. Nus em pêlo, então, coloquei a camisinha sobre o pênis ereto. Quem imaginaria que guardava uma coisa dessas dentro da calça...
Com a parte de responsabilidade feita, voltamos ao cume de nossos hormônios. Beijei-o nos lábios, queixo, peitoral, abdômen – exatamente como ele tinha feito comigo -, e antes que eu tomasse minha posição por cima, segurou-me pelo cabelo para colocar a minha cabeça rente a sua, nossos narizes se tocando, e então rolou novamente pelo tapete, ficando por cima.
- Eu sei que você gosta de ficar por cima, chefe, mas dê uma chance a um velho amigo... – ele disse com a cara mais tapada (e incrivelmente sexy) possível.
posicionou o membro na minha vagina, lambeu meus lábios falhos e iniciou seu estoque de investidas. Ele era um animal, claro, mas de alguma forma carinhoso. Com certeza a libido de era meio afetada, principalmente por mim, e desde muito tempo; por isso, ele era rápido em seus movimentos. Mas ainda assim, criamos um vínculo de amizade e cooperação, que era além de toda a nossa sexualidade e vontade de comer um ao outro; por isso, suas mãos passeavam em movimentos carinhosos pelo meu rosto e cabelo. Minhas unhas, fincadas em suas costas, retribuíam o carinho quando alisavam-na.
A água que antes delineava nossos corpos pela piscina da sauna, agora era puro suor. Mesmo que a temperatura externa indicasse zero grau Celsius, nós ainda assim seríamos dois corpos atritando com uma camada de suor; o óleo natural do corpo.
Ele era uma máquina, o meu Batman. Não parava um segundo, não tolerava o próprio cansaço. Pensei em mudar a posição, mas meus pensamentos logo se diluíam, a loucura me dominava por completo. As minhas pernas estavam ao redor dele, segurando-o com destreza, abrindo o espaço em que era a vez de ele entrar para a lista daquilo que me possuía: , loucura, hormônios, adrenalina... , , ...
Seus gemidos ocupavam o som da minha mente como uma canção de acelerar o coração. Esse, por sua vez, batia tão fortemente no meu peito, que eu duvidava se ele realmente estava no peito; porque o sentia bater na minha cabeça.
Foi então que me veio uma onda elétrica, não vinha do meu corpo, mas do de . Senti os músculos que eu abraçava repentinamente relaxarem sob meus braços e mãos. Seus olhos , atentos a mim, sentiam o orgasmo triunfar, dilatando as pupilas. Alisei as suas costas, deixando-o deitar sobre mim.
- Você sempre tem que tirar onda de forte e querer me carregar. – ele me disse entre o descompasso da respiração louca.
- Deixe de besteira e deite direito sobre mim, eu quero sentir seu coração bater sobre meu corpo. – ele me olhou confuso, com as palavras melosas. – Isso foi uma ordem, .
Ele sorriu largo, e deixou o seu corpo cair sobre o meu. Beijei-lhe o rosto que estava perto, e fiquei a ouvir seu coração, senti-lo bater forte e, aos poucos, diminuir a aceleração.
- Você só fez isso por causa do . – comentou, rolando e deitando ao meu lado... Completamente nu.
- Não.
- Não foi uma pergunta, foi uma afirmação. – ele me disse, olhando para mim. Retribui o seu olhar com intensidade, como quem queria mentir melhor. – Relaxe, eu sei que você fez por ele. Você o ama.
- É. Eu te amo também. – desviei o olhar.
- Mas não tanto quanto ama ele. É diferente... A gente tem um amor...
- Um amor de amigo. – respondi, deixando um sorriso brotar em meu rosto.
- Isso. – ele riu – Um amor de amigo. Não se preocupe , ele vai voltar pra você, sempre comeu na sua mão.
- Fala isso como se você fosse o contrário. – dei risada, fazendo uma cara de Miranda Prestley.
- Metida.
- Eu to brincando. Você não come mais na minha mão, estamos quites.
- Sério?
- Sério...
O silêncio prevaleceu entre nós, ficamos a encarar o teto da suíte do 41.
- Eu to com sono. – comentou.
- Homens... – rolei os olhos. – Esqueça seu sono.
- Por quê? Tô proibido de ir pra cama dormir, chefe? Eu mereço, você me acordou às 3 da matina.
- Ora bolas por quê! Porque agora está na hora do banho de amigo... – sorri-lhe maliciosa, enquanto ele me olhava surpreso... E sorridente.

CAPÍTULO 7 – PROPHIT 60091

POV

O ar quente da London Music numa quarta-feira de manhã era algo aconchegante. Em Londres o inverno de começo de ano se fazia vigoroso, aumentando ainda mais congestionamentos e desculpas para não ir ao trabalho. O melhor era sempre ficar em casa, tomar um café, talvez um chocolate quente; e receber carinho da namorada, ficar por debaixo de cobertores esperando o breakfast ser servido na cama. Porém, para quem trabalhava numa revista dominada por e seus funcionários demoníacos, faltar era a última coisa que eu poderia pensar na vida. Da última vez que tentei, tive gente ligando para minha casa, procurando saber por que não fui. Ultrajante. Mas aí você me diz: Se liga, você é funcionário. Pois é, eu sou, mas ainda não me acostumei.
Nada costumeiro também era receber um sorriso sincero de pela manhã, parecendo uma pluma vagando pelos corredores da revista e distribuindo trabalho para todo mundo. Aliás, o sorriso sincero daquela mulher era realmente algo muito difícil de ser visto. Difícil até demais.
Hinata, a minha secretária de um metro e meio, assim notando minha presença naquela estranha manhã, correu ao meu alcance, despejando seu bom-humor cotidiano.
- Bom dia, senhor ! Que bom o Senhor ter chegado, já estava ficando preocupada caso se atrasasse de novo... – disse-me Hinata, andando em passos firmes e apresados. Bem, eu não me orgulho, mas andei me atrasando para o trabalho há algumas semanas. Culpa de quem? Paige Wallace. Mas não é nada maravilhoso (ou prazeroso) que você está pensando que eu fazia com ela antes de vir para cá; mas devido a milhões de súplicas da sua mãe, estou levando-a para a Universidade, do outro lado da cidade. Era meio estranho todo aquele comportamento da minha sogra, eu estava parecendo a babá de sua filha, ela não me enxergava como o namorado de Paige.
Chegando ao escritório com Hinata falando intermitente sobre como seria terrível se eu me atrasasse, e acrescentando que parecia ter planos para colocar a revista em circulação o mais rápido possível, cheguei a sentir certo alívio. Automaticamente, retirei o notebook da maleta e coloquei-o sobre a mesa, abrindo-o e ligando-o.
- O senhor comeu algo hoje ou...?
- Sim... Acho que vou te dar um pouco de trabalho. – eu ri sem graça. Bem, ficar sem comer de manhã era coisa que gente maluca, como uma velha funcionária que me servia há um tempo atrás, fazia. Porém, eu me recusava a comer aquelas... coisas que Paige preparava de manhã na intenção de me surpreender. Hinata, a salvadora da pátria, saiu rapidamente do escritório para providenciar meu alimento de cada dia.
Abri as cortinas do lugar, deixando aquela luz fraca do sol sob nuvens dar um pouco de vida ao ambiente de trabalho. Senti a luz natural de um dia em Londres aquecer minhas células, despertando-as. Era o terceiro suspiro consecutivo quando senti o cheiro de cappuccino invadir meus pulmões.
- Tinha sanduíches hoje lá. Estão uma delícia. – disse Hinata com a boca cheia e três sanduíches nas mãos. O copo de capuccino já estava sobre a mesa. – Esses aqui são seus, e esse aqui é meu. – ela disse, oferecendo-me os dois que estavam na sua mão esquerda e abocanhando o da direita. – Ah, que bom, meu trabalho oferece mais do que café.
Digna de uma invenção da minha... Chefe, a cafeteria havia virado um tipo de cantina para os funcionários da revista. "Aqui ninguém passa fome." Foi o que ela disse na inauguração. E todo dia tem algo diferente na bandeja. Posso reconhecer que foi genial, principalmente quando se têm namoradas as quais deviam manter distância da cozinha, mas não o fazem.
Abri o pacote de alumínio que cobria o sanduíche e o mantinha quente, sentindo o cheiro de pão quente inebriar meu olfato. Rapidamente finalizei o café da manhã, e com as mãos sujas, tive de correr ao toalete.
Foi de certa surpresa quando me apareceu com uma cara de zumbi desesperado. Parecia que a chefe já tinha feito uma visita a ele naquela manhã, pois encontrei-o lavando o rosto como se quisesse acordar. Não queira aparecer com cara de sono na frente dela, você acaba recebendo, a) Um fora b) Um comentário maldoso c) Um mandato de ida ao lavatório para uma nova tentativa de parecer plausível d) Uma advertência escrita, que nem na época de colégio. Sinceramente, eu achava que havia virado um tipo de ditadora na revista, e qualquer questionamento oral sobre isso, ela me dizia que estava "Mostrando quem manda.". A verdade nua e crua? Em pensar que uma mulher daquelas já foi minha...
Pensando nisso, eu ainda me pergunto o que estou fazendo com a Paige, e porque a resposta de ‘cumprir aposta’ não me satisfaz mais. Talvez, eu não conseguia me imaginar perdendo a aposta, na certeza absoluta de que aquela mulher fosse pisar muito em mim.
Cumprimentei rapidamente, já que minha suposição estava certa: o pegou com cara de sono a trabalhar e havia lhe intimado a lavar o rosto e acordar pra vida. Esse tipo de atitude por parte dela me satisfazia, quando feita a . A grande aproximação entre aqueles dois estava mais do que evidente aos meus olhares. Saber que o seu melhor amigo gosta da mesma mulher que você e está se aproximando gradualmente dela, eu garanto, não é um bom sentimento. Eu quero tê-la de volta para mim, mas não sei por onde começar, o que fazer, como fazer. Terminar com Paige faria com que ela me tivesse em mãos, reconquistá-la, também; e tudo por causa de uma maldita, infeliz e infantil aposta. Se fosse para tê-la de volta, eu teria que esperar – acredite – uma atitude dela. Ela que nunca se declarou para mim, pelo menos não com aquelas três palavras as quais eu ansiava ouvir dos lábios teimosos.
Fiz o que devia ter sido feito, lavei as mãos e aproveitei para bochechar um pouco de água na boca, já que escovar os dentes não era uma opção para o momento. Tirei do bolso do paletó um chiclete de menta e pus na boca, aliviando o gosto de café da manhã que alimentava meu hálito.
Voltei ao meu escritório em passos preguiçosos, com as mãos nos bolsos da calça grafite que usava no dia. Hinata estava a sua mesa, atendendo ao telefone de uma forma engraçada e parecia ter pegado outro sanduíche da bandeja. Do outro lado, avistei com a Madame Feng-Shui, ela parecia lhe dar instruções severas. Recordar do posto de administração fazia-me recordar de Emily também, mas eu me recusei a manter a linha de pensamentos para Emily. Principalmente quando, já na porta do meu escritório, sinto alguém me cutucar; um aroma conhecido no ar.
- Bom dia ! – era ela, , sorrindo-me trinta e dois dentes. Estava deslumbrante, como sempre, apesar de eu estranhar aquele sorriso exagerado na minha frente.
- Bom dia, chefe. – Eu sorri de volta, querendo agradá-la.
- Que bom que você está de bom-humor, chefinho, porque eu tenho uma tarefa para você. – momento de reflexão: chefinho? Que parte do filme eu perdi? – Preciso do Livro de Edição pronto até sexta-feira da semana que vem. Vamos imprimir no sábado, eu contratei uma gráfica, já que tirei aquele bagulho de impressoras que tínhamos aqui dentro. Na verdade, eu comprei a gráfica, ela é nossa agora. Mas isso não vem ao caso. Livro de Edição, sexta-feira, de manhã, na minha mesa. Combinado?
- Sim, senhora.
- E não me chame de senhora que eu não sou a sua avó.
- Sim, senhorita.
- Melhorou. Mas você sabe que pode me chamar só de , chefe.
- Eu sei, chefe... – pensei um pouco. – Espera, eu sei?
- Sabe.
-Sei.
me sorriu da forma mais pervertida, maléfica, não-plausível, quente, magnífica, insuportavelmente sexy possível; e depois, virou as costas. Uma pergunta: WHAT?
Fiquei vagando meus pensamentos a observá-la andar para longe de mim, em passos firmes. Encantava-me o modo em que o músculo das panturrilhas se contraiam, devido aos movimentos bruscos feitos em cima de um salto. Ela andava com aqueles centímetros a mais como se tivesse em sua altura normal; andava de saltos como se tivesse de tênis de corrida. Ela era minha, e eu a deixei ir embora. Mas como negar o pedido de Emily? Como? Emily era praticamente minha irmã, eu morei debaixo do seu teto, eu fui educado pelos seus pais durante praticamente toda a minha adolescência. Emily foi a garota da minha vida. E eu repito, ela foi a garota da minha vida, não a mulher. Éramos irmãos, o que você não faria pela sua irmã, por mais estúpido que fosse o pedido dela? Era como sangue do meu sangue, parte de mim. Eu protegi Emily, eu a amei, e a assisti morrer sem realizar seus últimos pedidos era um erro. era vingativa, emocional, controladora; ela também não parecia ter tido uma vida feliz quando era pequena. Como poderia explicar algo a ela que as pessoas só podem entender se sentirem? não tinha irmãos, não tinha família, ou se tivesse família, jamais mencionou sobre ela.
Eu estava confuso, impaciente, torturado pelos meus pensamentos. Nada me restou além de seguir com o meu trabalho e minha farsa. Livro de Edição, sexta-feira, na mesa dela.

Hot Boss

Olhar nos olhos de e não ser capaz de lhe dizer a verdade era excruciante. Seus olhos, tão , límpidos e impuros, confortavam-me como chocolate quente em dia de inverno. Olhar para ele naquela manhã me fazia sentir certo remorso por ter cedido à perdição. Mas eu não aguentava mais. Não aguentava mais um segundo olhando para a cara dele, para a mulher que ele havia escolhido para me substituir (que, por acaso, era fisicamente parecida comigo), não aguentava mais sentir aquela repressão de sentimentos; estava tão perto...
Eu me senti bem quando acordei. Eu sabia que havia feito o que deveria ser feito. Mas talvez... Talvez estivesse realmente na hora de consertar as coisas. Talvez fosse hora de parar de brincar. Responsabilidade. Verdade. Futuro. Passado. Presente.

O processo para inauguração da Revista estava indo de vento em poupa. O time que eu escolhi a dedo parecia encaixar perfeitamente ao quebra-cabeça. Eles eram ótimos, e o dinheiro da herança de meus pais havia servido perfeitamente. Por necessidade, eu teria de voltar à Nova York e cuidar dos outros negócios o qual o dinheiro da família também estava envolvido: Uma clínica especializada em câncer, um orfanato em New Jersey, ações na bolsa, imóveis inúteis. Louis poderia me ser útil, mas eu fazia questão de excluí-lo gradualmente dos negócios da família; ele já tinha feito merda o suficiente. O emprego que lhe dei na London Music servia apenas para uma coisa: que ele fosse meu funcionário, que me prestasse serviço, obedecesse minhas ordens. Era um meio de fazer justiça com minhas próprias mãos, legalmente.
- , alguns artistas estão precisando de confirmação de seus shows durante a inauguração. - Louis entrou em meu escritório, desviando-me de meus pensamentos.
- Entre. – disse-lhe. Meu tio sentou-se na cadeira a minha frente, com um pequeno caderno em mãos.
- Bem, Muse será atração principal certo?
- Sim.
- Então, temos a Little Boots e La Roux como novos nomes da música aqui na Inglaterra. The Strokes, a banda americana que começou o seu sucesso aqui em Londres. O produtor da banda Garbage também retornou a ligação e a banda se mostrou interessada em aparecer. The Clash, que você pediu, eles disseram estar indisponíveis para o dia. Mas um dos membros vai aparecer como convidado. Duffy não confirmou, o agente disse estar checando a agenda.
- Eu pensei que você só queria confirmações... – soltei um sorriso sem graça e ajeitei-me na cadeira, inclinando-me para frente. – Quero Little Boots e La Roux para a boate. O evento é grande, e nós temos que colocá-las estrategicamente. São muitos convidados, os estilos também têm de ser bem remanejados. Alene saberá mais fazer essa divisão. Eu confio em qualquer coisa que ela faça, apenas me passe depois o que foi acertado, por motivos de organização. Deixe as duas bandas americanas confirmadas. Quero um ídolo de MPB, a confirmação de Duffy e novos artistas, esses pequenos desconhecidos, entretendo os convidados no início. O palco não vai parar. Anotou tudo?
- Sim. – ele deu um suspiro, fazendo últimas anotações.
- Chame o Gibson aqui no escritório. E peça à secretária do o rascunho das páginas de cada um. Marque reunião geral para a sexta-feira.
- Sim, senhorita. – Louis disse com gentileza forçada. Eu olhei-o indiferente. – Ah, eu posso espalhar que já está tudo arranjado para a festa?
- Pode. – dei de ombros.
- Você já decidiu o tema?
- Decido até amanhã, ainda estou achando todas as minhas idéias muito clichês.
- Mas o clichê dá certo, .
- Eu sei que dá, só que arriscar algo novo pode dar mais certo ainda. Ou melhor, arriscar fazer algo que não se faz há muito tempo. Agora vá cuidar do seu trabalho.
Louis virou-se rapidamente e saiu da minha sala. Eu ainda o observava pelas paredes de vidro. Tinha uma visão perfeita de todos trabalhando, assim era bonito. Eles não pareciam desinteressados ou entediados; todos pareciam bem. Exceto... . Não consegui falar com ele depois daquele domingo de amigo (você entendeu). Segunda-feira foi um dia cheio para a minha agenda, assim como terça que seguiu, quando eu saí do 41. Estava tudo bem entre nós quando a loucura acabou. Porém, de alguma forma, eu me sentia mal por ele estar com uma expressão tão triste... Eu pensava que era apenas sono, mas aparentemente não era.
Observei de longe, querendo confortá-lo, mas sem querer fazer nada comprometedor no ambiente de trabalho. Eu não poderia ser tão fraca a ponto de não conseguir diferenciar vida pessoal de profissional. Liguei, então, para o seu ramal.
- London Music, administração, falando.
- Eu lhe ordeno que vá para casa descansar. Você está um caco, Mister .
- ? – ouvi sua risada pelo telefone, enquanto assistia ao sorriso abrir, de longe. – Eu to bem.
- Mentiroso. Eu falei que é uma ordem?
- Cara, não deviam te deixar ser chefe de ninguém. Bossy.
Ri do seu comentário.
- Sério , eu te vejo daqui. Você chegou com cara de morto, lavou o rosto, e agora tá parecendo um zumbi. Tire essa folga, eu não vou descontar de seu salário.
- Good Boss. Todo mundo deveria ter chefes como você. – ele riu.
- Mudou de idéia rápido. – disse eu, impressionada. Virei a cadeira giratória para trás, observando o trânsito na cidade de Londres. Estava realmente o clima perfeito para ficar em casa. riu do outro lado da linha.
- Eu tenho muita coisa para fazer aqui. – ele disse com uma voz triste.
- É para isso que funcionários existem. Eu não te deixei sozinho. Faça o seguinte: Vá dar uma volta, comer alguma coisa, e depois você volta, se esse é o problema. Só não me invente de fumar, é um péssimo hábito.
- Mas você gosta do meu cheiro.
- Eu finjo que gosto. – menti. – Eu me importo com sua saúde...
- Saúde... – ele repetiu, com uma voz distante. Estranhei.
- É, you jerk, saúde. Agora vá logo, antes que eu chame o guincho para te jogar pra fora dessa Revista.
riu de modo engraçado, arrancando-me um sorriso também.
- Cumprindo ordens, eu me retiro. Hasta La vista, senhorita .
- Au revoir, sir . – brinquei, desligando o telefone.
Ao mesmo tempo que saía da revista, avistei cabelos conhecidos movimentando-se. Cabelos como os meus. Sim, era ela, a maldita Paige Wallace, entrando na minha empresa a mandar beijinhos para meu . Eu falei meu ? Infelizmente o pronome possessivo não se adequava à realidade. agora pertencia a ela. Aquela falsificada em camelô. Quer saber o pior? devolveu aqueles beijos que ela mandou no ar. Assim que Paige chegou perto o suficiente, a puxou pela cintura e beijou-a, NO MEIO DO ESCRITÓRIO, NA MINHA FRENTE PORRA!
Liguei para o ramal de sua secretária, aquela japonesa gordinha que anda engraçado.
- London Music, escritório de , editor-chefe. Hinata Otsaka falando.
- Olá senhorita Otsaka, aqui é a .
- Chefe! A que devo a honra?
Acredita que essa mulher veio me elogiar pelos sanduíches hoje de manhã? Ela me acha uma deusa pelos sanduíches. Antes eu não tivesse lhe dito que preparo aqueles lanches em casa...
- Por favor, coloca... – meus pensamentos estavam raivosos, eu tive que puxar o ar para não acabar falando algo, digamos, nada educado. Mais ou menos como ‘coloca essa aberração da natureza pra fora da minha empresa’ – pede para a Paige Wallace se retirar. Diga a ela que estamos em horário de funcionamento, que se ela quiser ver o , seu namorado, que o veja fora do expediente.
Hinata me obedeceu prontamente, e nem se deu ao trabalho de desligar o telefone, o que me fez ouvir citar minhas ordens para o . "Incomodou a chefona?", ele dizia rindo. O que havia de errado com ele? Ele realmente planejava me machucar com aquela maldita aposta? Era para ele me mostrar que me amava, que jamais iria ficar com outra mulher senão eu. Mas ele resolveu levar para o sentido literal da aposta. Só estava demorando demais com aquela garotinha de merda, tempo DEMAIS. Deus, se orgulho matasse...
- Hinata? Ainda está aí?
- Sim, sim, chefe. Eu já falei com ela, ela disse que iria já.
- A ordem é imediata. Trabalho é trabalho, vida pessoal fora daqui.
Minha ordem, assim, finalmente foi atendida. Eu me virei novamente para o trânsito de Londres, recusando-me a assistir a despedida dos pombinhos. Pouco tempo depois, ouvi meu computador apitar com e-mail novo, forçando-me a girar a cadeira novamente.

[REGISTRO DE MENSAGENS]

@londonmusic.co.uk para @londonmusic.co.uk
Assunto:
(Sem Assunto)
Mensagem: Qual foi chefe, ataque de ciúmes?

@londonmusic.co.uk para @londonmusic.co.uk
Assunto:
RE: (Sem Assunto)
Mensagem: Você vai aprender a diferenciar profissão de vida pessoal ou eu vou ter que interferir sempre?

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RE: RE: (Sem Assunto)
Mensagem: E você sabe mesmo diferenciar, chefe?

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RE: RE: RE: (Sem Assunto)
Mensagem: É melhor você tomar cuidado com o que diz.
Prophit 60091.

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RE: RE: RE: RE: (Sem Assunto)
Mensagem: O que é isso, um código? "PROPHIT 60091"

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Dica
Anexo: Hooverphonic-2Wicky
Mensagem:
Isso é Hooverphonic. Você trabalha numa revista de música, fique esperto.

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RE: Dica
Mensagem: Eu nunca quis te machucar.

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RE: RE: Dica
Anexo: EttaJames-StormyWeather
Mensagem:
Às vezes fazemos algo sem intenção nenhuma de machucar as pessoas, mas acontece. Prove-me que sua intenção era real.
Sobre a música: Olhe para a janela.

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RE: RE: RE: Dica
Anexo: Silverchair-Missyoulove
Mensagem:
Eu também estou infeliz.


CAPÍTULO 8 – TRIO, TRINDADE, TRÍPLICE

Era domingo, eu estava cansado, mas tinha que ver o que estava acontecendo com meu amigo . Seu olhar estava tão distante que até eu, na insensibilidade masculina, passei a notá-lo como um homem triste – de novo. Seguir até sua casa foi inevitável. Paige também havia pegado um resfriado, o que a forçou a voltar para casa. Os cuidados da família quando se está doente são praticamente vitais, e foi isso que eu disse a ela quando deixe-a em casa. Também pensei nisso quando fui ao encontro de , na antiga casa de Emily. Ele estava estranho, triste... Quem sabe doente? Eu era a única família que ele tinha, pelo menos aqui em Londres, e eu tinha certeza de que ele jamais procuraria seus pais ou irmãos quando estivesse se sentindo mal. O que eu conheço iria guardar tudo para si, e procurar alguma válvula de escape, provavelmente contra a sua saúde, para curar-se sozinho.
Ao tocar a campainha, eu o vi exatamente do jeito que imaginava: Um copo de whisky na mão, o cigarro no outro, e uma cara de zumbi com olheiras dignas de um morcego. Ele estava perdido.
- . – ele me cumprimentou, tentando sorrir. – Não esperava sua visita... – disse, olhando envergonhado para os trajes. Vestia apenas uma samba-canção, daquelas que provavelmente a mãe havia lhe dado, com corações coloridos estampados.
- Oi . Posso entrar?
- Claro, claro... – abriu passagem para mim. Ele cheirava a álcool e sujeira; é, eu teria um longo dia pela frente cuidando do bebezão.
Meu amigo fechou a porta e me chamou até a cozinha, onde ele havia montado uma espécie de minibar. A casa de Emily sempre fora muito pequena, não dava para ter muitas coisas. Tudo continuava o mesmo: o crochê cobria o sofá, as cortinas continuavam no tom pastel morto, as cadeiras da sala pareciam nunca ter saído do lugar... Até o cheiro dela, eu podia sentir. Como diabos vivia num lugar que mais parecia um cemitério? Não havia a felicidade de Emily morando ali, apenas o seu fantasma. Não era mais cheiro de biscoitos que eu sentia, nem do suco de uva que ela dizia ser vinho; era apenas álcool, sujeira e o perfume de Emily pairando no ar, como se tivesse se fixado àquela casa de tal forma que nem o tempo, nem a sua morte conseguiram apagar o cheiro.
- , eu estou preocupado com você, cara. – disse-lhe, sentando em uma das cadeiras da cozinha, enquanto ele enchia novamente o copo de whisky.
- Preocupado comigo? Mas por quê? – perguntou rindo.
- Você anda com essa cara de morto-vivo. Eu não o vejo pegando mulher há tempos. Você voltou a beber e a fumar que nem um doido. Está vivendo num cemitério, e por cemitério eu digo essa casa. Isso aqui me parece tão...
- Morto? – perguntou tirando um trago.
- Sim.
- Emily... – disse. – Eu não consigo superar o que aconteceu com ela, só isso.
O que acontecia com quando ele bebia era bem simples: Ele não tinha papas na língua.
- Procure outra mulher. – eu disse vagamente.
- ? Ela não pode ser minha, .
- Quando eu disse outra mulher não me referi a ...
- Mas ela seria a única, alguém com quem eu tivesse vontade de montar uma vida, uma família... – disse com os olhos fixos no horizonte. Eu sentia meu coração doer, quase como o impacto de uma pedra num pote de argila: ainda estava tudo muito quebradiço aqui dentro. – Mas não é para mim. Ela é minha amiga, e mesmo com a experiência que nós tivemos...
- Experiência? – eu perguntei, sentindo meu sangue ferver.
- Sim, de domingo para segunda, no 41 Hotel, quando ela ficou lá para a reunião, conferência, sei lá o que ela queria com aquele bando de gente. – disse ele calmo, bebendo mais um gole do seu whisky e fazendo uma cara estranha.
- Como você me diz uma coisa dessas, assim, do nada? Você não sabe que...
- Porra, você pode esperar eu terminar de contar as coisas? – eu me assustei, balançando a cabeça em sinal positivo. – Ótimo. Eu perguntei a ela porque ela tinha feito aquilo, chamado-me, seduzido-me... Perguntei se era por causa de você. – eu o olhei mais ansioso que nunca. – Ela disse que sim.
Alívio. Respiração de volta ao normal. Coração batendo em intervalos regulares.
- O que mais ela disse?
- Olha minha cara de pombo correio. – ele falou com uma cara entediada e bêbada, que me fez ter vontade de rir. – Que inferno vocês dois. Fico não fico, quero não quero, vamos apostar! – falou que nem uma bicha afetada. – Parecem duas crianças! Vai logo na casa dela, pergunta a ela sobre a porra do passado dela. Você não sabe nada sobre ela, mas também não faz nada para descobrir. Você tá apaixonado por alguém que você nem sabe quem é! O motivo de ela ter ido para Nova York, de ter voltado milionária e mandando no caralho da nossa empresa. A LONDON MUSIC ERA NOSSA! NOSSO TRABALHO! A DOIDA RESOLVEU ‘PEGAR EMPRESTADO’! E...
faltou a voz, e bebeu mais da sua bebida maldita para limpar a garganta. Sua cara era de quem ia me assassinar a qualquer momento. O corpo encostado no bar improvisado estava contraído de tal forma que eu conseguia ver suas veias saltando dos braços e pescoço. estava vermelhinho. Tragou mais uma vez o cigarro, jogando-o pequeno no cinzeiro, apagando. - Eu também te amo, , mas pelo amor de Deus, se acalma. Você tá pior que minha sogra. – eu disse rindo, confortável, como se não tivesse acabado de receber a maior lição da minha vida.
- Você é um desgraçado, . Larga Paige, ela é muito nova pra você, você não a ama, e cara, AQUELA MULHER MARAVILHOSA TÁ ESPERANDO POR VOCÊ. Não é por mim, é por você.
- O que te faz ter tanta certeza?
- A mulher que me queria está morta, . A mulher que eu amei e me amava hoje está morta e eu nunca apreciei o que nós tínhamos. Como poderia saber que o amor era algo tão importante? Por mim eu estaria morto com Emily.
- ... – suspirei – desculpe-me. – disse levantando-me da cadeira e me aproximando dele. tinha a cabeça baixa, praticamente derrubava o líquido do copo de tanto que suas mãos tremiam.
- Minha única chance era o que eu tinha com . Mas com ela é luxúria, nada mais. E ela estava certa, eu só precisava dela uma noite para nunca mais. – Coloquei meus braços ao redor do meu amigo num abraço forte, que amoleceu a ponto de derrubar de uma vez o whisky no chão.
- Eu vou levar suas palavras comigo, mas ouça o que eu tenho a dizer, my brother. Emily se foi, e nada pode mudar isso. A sua vida continua, você não pode simplesmente desistir e lamentar-se o resto da vida por um erro. Não pode, não deve, eu não vou deixar. Lembre-se dos bons momentos que você e ela tiveram juntos. – senti lágrimas no meu ombro. soluçava e chorava como uma criança que caiu da bicicleta. – Sh, não chora, cara.
- Chorar é coisa de maricas, né? – ele perguntou com a voz arrastada.
- Uma vez alguém me disse, que um homem chorar é uma prova de bravura. A prova de que é realmente um homem, humano, mortal. – disse-lhe cauteloso, enquanto ele se afastava de mim e colocava as duas mãos nos meus ombros.
- Emily. – ele disse, referindo-se à autora da frase.
- Sim.
- Quando você chorava pelos seus pais.
- Sim.
- Você era estranho naquela época. – ele disse, com um sorriso bobo na boca e a cara toda lambida de lágrimas.
- Você também. – disse rindo.
Abraçamo-nos como dois idiotas. Eu também sentia vontade de chorar, mas a cara de pateta de só me fez querer rir como uma hiena. Chegava a ser engraçado que encontrássemo-nos em tal situação. Eu e , precisando um do outro, ouvindo um ao outro; era uma puta de uma amizade.
Depois da seção maricas que nos fez entornar o resto da garrafa de whisky, acabei por forçá-lo a entrar no chuveiro e tomar um banho. Ele já estava tão bêbado que nenhuma palavra que falava fazia sentido, mas ainda assim eu não conseguia parar de rir. Pelo menos, com toda a depressão que ele teve, não retornou às drogas. Era muito fácil consegui-las, viciar-se... Mas pelo menos isso ele soube parar. Eu consegui que ele retirasse aquele anel do dedo, aquele ridículo com um “I love you forever”, que ele clamava ser a frase de Emily que ele por tanto tempo ignorou. Com o bebê limpo e dormindo, restou-me vagar por aquela casa, tocando nos velhos pertences de Emily como se cada objeto ali fosse capaz de me trazer uma lembrança. Era verdade, tudo aquilo me trazia uma lembrança, era inevitável.
Sentei no sofá e ali me deitei, olhando tudo ao meu redor. Foi então que eu o vi. O diário de Emily, na pequena mesa de centro. Eu não resisti:

, se você estiver lendo isso, por favor, perdoe-me. Perdoe-me por ter sido a teimosa que fui, perdoe-me se omiti algo, perdoe-me por qualquer erro que cometi. Mas, acima de tudo, perdoe-se. Eu sei que estou com um pé na cova, mas eu ainda não morri. E, mesmo que isso aconteça, eu sempre vou estar viva, em todas as lembranças as quais você puder recordar. Emily Summers, março de 2009.”

A letra era praticamente rabiscada, as bordas do caderno sofreram de amassos, provavelmente pelas mãos rudes e ignorantes de ao folhear aquele diário. Eu virei a página, receioso do que estava por vir.

“Hoje é 17 de maio de 2008.
Eu estou com câncer. Fui a um oncologista hoje, Dr. Theodor é o seu nome. Um homem bom, idoso, de aparência sábia, quase um ancião. Eu consegui ter confiança nele para prosseguir com os exames. É o meu fígado. Dr. Theodor disse que com uma seção de quimio eu possa melhorar, porque as células não entraram em metástase. E aí, depois, é continuar com o tratamento. Vou ter que me retirar por seis meses.
Menti para e . Eles não precisam saber que estou doente. Nunca tiveram que se preocupar comigo, e não vai ser agora que eu irei preocupá-los. Eu os amo demais para fazer algo assim com aqueles corações moles. Amanhã partirei para o Hospital, tenho de fazer o tratamento o mais rápido possível.”


Foi então que entendi a razão para aquele diário: o câncer. Ela começou a escrever assim que descobriu.

“Hoje é 18 de maio de 2008.
Eu acabei de ser internada. Odeio essas paredes brancas de hospital, e esses cobertores de poliéster malandro. Já estou trabalhando na costura de um cobertor de verdade. É azul marinho, com detalhes em branco, bem quentinho. Dr. Theodor deve chegar a qualquer momento, e até agora eu só tive essas enfermeiras doidas me drogando e me deixando nua. Ficar nua é uma coisa estranha, mas gostosa. Sabe, estou me sentindo livre! Freedom at the Hospital!”


O cobertor que ela dizia estar costurando, eu o conhecia. acabou de se cobrir com ele. Dear God. E Emily, quando criança, costumava correr de calcinha pela casa. A mãe dela ficava tão irritada. “Emily Summers, vai te ver sem camisa!”, era o que a Senhora Summers dizia; “ não gosta de meninas, mãe. Ele só gosta daqueles bonecos retardados.”, Emily explicava. O quê? Por acaso você gostava de meninas quando tinha onze? Eu jogava bola e brincava de boneco. Só que tinha umas meninas na minha sala... Elas eram loucas.
Continuei a ler o diário de Emily, o qual ela reportava cada segundo dentro e fora do hospital. Como ela voltou, como ela mentiu bem, como ela escondeu os seus sentimentos de por causa de . Era de imaginar que fosse tão triste. E , ela fazia o papel de Paige, e só agora, lendo esse maldito diário, eu conseguia imaginar como poderia estar se sentindo. “You can hurt me, I can hurt you”; ela queria mostrar algo de, quem sabe, mesma intensidade quando ficou com . Mas depois do que Emily escreveu... Eu não sei exatamente o que há com as mulheres, essa válvula de sensibilidade que elas guardam em si. Porém, eu tinha certeza de que até para uma mulher como , eu poderia tê-la machucado mais do que eu jamais poderia ter imaginado.
Foi então que li algo que me chamou atenção naquele diário. Ela.

“Hoje é 3 de setembro de 2009.
, quem poderia saber que ela era aquela . Eu não resisti, coloquei o seu nome no Google; porém, eu não esperava que tantos resultados piscassem em minha janela. era a única sobrevivente de um incêndio que matou a sua família. E, a família , era da famosa clínica especializada em câncer. A clínica cuja filial eu fui internada, aqui em Londres. Por isso ela sabia aquilo tudo! Que outro modo ela poderia saber que eu estava com câncer? Que outro modo ela poderia saber tratar uma mulher que havia acabado de sofrer aborto tão bem? Como ela poderia definir meu câncer só de me examinar tão rapidamente?
Havia muitas informações sobre ela no Google. Prêmios que ganhou, por ser esportista, outros por ser geek demais. Mas a imagem que mais me chocou, foi dela, como uma criança, com uma enorme cicatriz na costela e o rosto cheio de fuligem. A manchete dizia: ‘A herdeira escapa de incêndio intencional na mansão.’
Não sei mais o que pensar dessa mulher, por mais que ela me pareça com uma veterana de guerra. Ela mente sobre a vida que levou. E como pode uma herdeira , de repente, trabalhar para dois marmanjos como e , numa posição relativamente simples em comparação ao dinheiro que sua família possui?
Muitas vezes ouvi ela dizendo que não suportava mais fugir. Então deve ter sido isso. Ela fugiu. Eu não quero mais saber da vida dela. Não quero mais saber dela. Porém, o que eu quero é que ela saia desse triângulo amoroso, antes que ela saia mais machucada que eu. Alguém como ela não merece algo assim. Eles tem de viver, os três, separados. Esse é meu último pedido. Merda, o papel acabou.”


O que Emily queria era que, simplesmente, não se machucasse mais. A história de vida daquela garota, hoje uma mulher, pareceu chocá-la de tal forma que foi impossível evitar protegê-la. Eu queria ligar o computador, digitar seu nome no Google também e saber o que diabos Emily sabia e eu não. Porém, algo me ocorreu. As palavras de . Se eu precisava conhecer , estava mais do que na hora de lhe perguntar a verdade. O problema, porém, era uma única coisa: coragem.

CAPÍTULO 9 – A LONDON MUSIC CONVIDA PARTE 1

Isabel POV

Poucas pessoas haviam tido a coragem de sair de casa naquele dia de inverno em Londres. Porém, não estava assim tão frio. Já era final de fevereiro, e em março a primavera estacionaria no clima europeu. Eu gostava daquela saidera do inverno, era frio, mas nem tanto; era confortável, e o bastante para usar algo elegante, como o conjunto Hérmes o qual eu trajava. Eram dez horas da manhã daquele último sábado antes da inauguração da revista. Eu estava nervosa, tamborilando os dedos em um dos bancos do Hyde Park, na plena noção de que às 11h30 atravessaria a rua adjacente ao parque e decidiria, de uma vez, o tema da maldita festa.
O Hyde Park não foi exatamente minha escolha para pensar, eu preferia ficar em casa me empanturrando de chocolate, frutas doces, ou qualquer coisa digna de uma formiga; porém, depois de uma ligação estranha do , eu tive de conter meus instintos femininos de devorar uma barra do Wonka. Comprei um simples pirulito na vinda até o parque, e cheguei meia hora antes do combinado. 10:15 AM era quando o , supostamente, chegaria. No meio tempo havia comprado chicletes, já que minha ansiedade clamava por qualquer coisa doce.
O tema da festa tinha de ser algo, no mínimo, razoável. E que não fosse muito clichê. Algo que impressionasse, que fizesse as pessoas quererem ir. Não podia ser à fantasia, nem anos 60 ou 80; Imagine só uma festa anos 60 com Muse como convidados principais? No Way. Muse é... Contemporâneo...
O tempo passou sem que eu sequer percebesse.
- Bom dia, Isabel. – Ouvi uma voz masculina me chamar. Levantei a cabeça devagar, para ver quem me chamava; porém, apenas com um cheiro, o indivíduo era de fácil identificação: .
- Dia. – respondi-lhe de volta. – Sente-se.
Ofereci ao o lado direito do banco, que estava vazio. Ele estava de algum modo extremamente atraente naquele dia. Naquele jeito simples e despojado de um jeans Levi Strauss, camisa, e uma jaqueta de couro. A jaqueta fazia o favor de fazer mais largos ainda os seus ombros, e a minha visão – de esguelha – quase teve um ataque de terror quando ele sentou dobrando os braços sobre as pernas e o couro rugiu em desconforto, na área dos braços.
- Então... Por que me chamou? – eu perguntei, tentando me distrair de seu sex appeal, olhando para o céu nublado.
- Eu nem sei por onde começar... – ele disse, virando o rosto para mim. A ponta do seu nariz estava vermelha, assim como os lábios, os quais ele parecia ter acabado de passar a língua. Comecei a treinar para manter a respiração calma.
- Eu diria que começasse pelo começo, mas acho que você não veio aqui me contar uma história.
- Como você sabe?
- Joguei verde. – sorri-lhe infantil e cruzei as pernas, apoiando os cotovelos nos joelhos. De alguma forma, a presença de ao meu lado havia me deixado subitamente mais nervosa do que eu já estava. Era incontrolável o modo em que o sangue pulava, voava, enlouquecia em minhas veias com a simples presença dele. Isso não estava acontecendo antes, então, por que agora? Por que meu maldito corpo tinha de me trair?
- Bem, na verdade eu vim lhe fazer uma pergunta.
Arqueei uma sobrancelha para ele, por mais que, no fundo, eu era quem estava intimidada.
- Pergunte.
- O que aconteceu no seu passado? – ele perguntou, com os olhos tão fixos nos meus que eu mal podia piscar.
- Coisas.
- Você sabe a resposta da minha pergunta, e não é essa.
- Não. – suspirei – Eu só não quero lhe responder. Tem um jeito de você saber sem que eu tenha que voltar ao meu passado.
- Qual?
- Google. – sorri-lhe sem graça. Desenterrar o maldito passado era tudo que eu menos queria. Eu estava completamente devota ao meu trabalho e do jeito em que as coisas se faziam, eu jamais iria me perder por uma volta ao passado. Voltar ao passado, nem que fosse metaforicamente, seria um erro. Um erro.
- Google?
Levantei-me, limpando a parte de trás da roupa.
- Sim. Google. – olhei para o relógio, ainda faltava muito para a ida ao Buffet. Foi aí que... Algo me ocorreu. Um insight. O tema da festa de Inauguração da London Music. – , posso lhe pedir um favor?
- Acho que sim.
- Eu sei que hoje é sábado, mas envie um e-mail a todos da Revista. Eu já sei o tema da festa.
- Qual? – ele me olhou com uma cara surpresa. Por que os traços de seu rosto tinham de ser tão cativantes?
- Futurístico. Futuro. Ao infinito e além. – sorri teatral. Ele sorriu também, maroto. – Eu vou ligar para a Madame Feng-Shui e para Alene, da comunicação. Mande e-mail para todos, do mesmo jeito. E... É só. Eu tenho que resolver umas coisas, foi uma ótima conversa, . Até segunda.
levantou-se, enquanto eu estranhava o seu comportamento, de olhos arregalados. Ele tinha aquele olhar de ‘Estou aprontando e a mamãe não vai saber’, e eu simplesmente estava estática, na luta para vencer o traidor que era o meu corpo. Sentia meus pés formigarem, no velho dilema de: Sair correndo ou permanecer parada. se movimentava para aproximar-se de mim, cada vez mais. O perfume agia como flechas em meu pulmão, perfurando, uma por uma, a minha respiração. Estava acontecendo tudo de novo, e de repente, e loucamente!
- Por que você está se aproximando desse jeito? – perguntei rápido, o coração acelerado, as pernas já bambas.
- Só quero me despedir. – ele disse daquele jeito sacana.
- Um aperto de mão é o suficiente, . – argumentei, enquanto encarava seus lábios sendo umidificados novamente. Uma palavra: ab-sur-do!
- Não me parece o suficiente... . – ele falou tão perto que eu podia sentir o ar quente da sua boca tocar em meu rosto. Suas mãos já estavam envoltas em minha cintura, apertando-me, e meu corpo finalmente chocou-se com o seu.
Eu suguei o máximo de ar que pude, sorri como uma mula (espera, mulas sorriem?), e consegui, finalmente, parar de olhar para os lábios dele, conseguindo recobrar minha consciência.
- Você não vai querer perder aposta agora. Tenha um bom motivo além de tesão incontrolável. Parece que te deu uma boa dica, sobre conhecer meu passado, mas você continua o mesmo louco de sempre. – sorri por conseguir recuperar o controle das coisas.
- Pra que essa aposta inútil, ? Depois daquelas mensagens pensei que já estava bem óbvio de que essa aposta era a coisa mais sem nexo que nós dois já resolvemos fazer.
- , entenda bem. – Ele ficou surpreso quando ouviu-me chamar pelo primeiro nome. – Eu nunca faço nada sem ter um plano, um objetivo. Foi o que eu aprendi com meu passado. Essa aposta ainda não alcançou o seu objetivo.
- E quando diabos vai alcançar?
- Você vai saber quando. – sorri, beijando sua bochecha, tão devagar que eu poderia grudar meus lábios no rosto quente. – Agora eu preciso ir.


Buffet, decoração, salão de festas, convites, confirmações... Assim seguiu o resto da minha semana antes da festa da London Music. Quando me vi, havia esquecido de checar algo importantíssimo: a própria revista. Isso, eu tinha de não ser perfeita. Foi só abrir a minha gaveta, que o problema estava resolvido: Havia o Livro de Edição, com um post-it anexado, e a seguinte mensagem:

“Além de suas expectativas, chefe.

E tinha de ser tão insuportavelmente metido. Bem, eu não podia reclamar, mas ele não havia feito mais do que a obrigação. Soltei um risinho insignificante enquanto revisava cada página do Livro, e assim que terminei, liguei para o ramal de Louis, pedindo a ele que levasse o livro à gráfica. Seria impressa a primeira remessa hoje, a que só iria para os pontos mais importantes de venda e as que seriam usadas durante a festa, distribuídas aos convidados.
No sábado a impressão seria em larga escala, e enquanto festejávamos, eu anunciaria que as revistas estavam simultaneamente sendo entregues por todo o Reino Unido. Apenas depois conseguiríamos exportar a revista para outros países, talvez daqui a um mês. Era o prazo que tinham para traduzir as matérias da primeira edição. As outras edições estariam por conta de cada filial, de cada país.
A festa era no dia seguinte, e eu tinha que me preparar, sabe, emocionalmente. Não podia entrar na Festa Futurística da London Music vestindo-me simplesmente como uma, sei lá, Jetson. Foi aí que eu tive uma idéia maravilhosa: ia parar de viadagem e só escolher minha roupa quando fosse a hora. Nisso eu percebi que estava ainda na revista, passavam das 9 da manhã e Paige ainda não havia vindo me importunar. Logo trabalho surgiu, e eu tive de cuidar, mas fiquei caducando por que diabos a Paige não havia parecido hoje. Logo hoje, era sexta-feira! Happy Hour ou whatever.
O dia passou quase como um foguete, e quando percebi, já estava recolhendo minhas coisas para voltar para casa. Paige, por acaso, não havia aparecido; e que eu soubesse ela não estava doente. e me encaravam daquele jeito starring eyes, que me deixava mais tonta que cadela no cio. Arrumei minha maleta e fui embora meio indiscriminada, apenas olhando para o rosto dos dois, sem graça, tentando dar o ar de chefe manipuladora, mas que parecia não dar certo já que ambos continuavam me olhando como objeto de desejo.
Dei as costas e fui para casa, mas com a certeza de que algo estranho estava acontecendo.

POV

A festa de Inauguração.
O lugar em que eu me encontrava tão imenso que meus olhos se perdiam em onde olhar. Paige, ao meu lado, observava tudo com um olhar triste e ao mesmo tempo encantado. Eu não pude evitar de agir estranho depois de, simplesmente, digitar o nome de e teclar enter no Google. Ela tinha um passado tão... Triste e sem graça. Como pude deixar o nome de uma garota – agora mulher – como ela passar despercebido? Ela devia ter escolhido a Inglaterra pelo motivo específico de que poucos reconheceriam-na. Encontrei, no Google, várias entrevistas com ela, sobre a morte de seus pais. Como podiam culpar uma menina por um incêndio de tal dimensão? Chegava a ser sádico.
Sentei em um dos milhares sofás que estavam espalhados pelo salão. Era de uma armação de metal e coberto com couro vermelho, e confortável daquele jeito em que a gente acaba engolido pelas almofadas. Um garçom passou, e me ofereceu uma bebida – que eu nem sabia o que era, mas aceitei. Paige também pegou uma bebida. Nós mal estávamos nos falando, apenas cumpríamos com as ações devidas. Uma banda já estava no palco, mas havia apenas música eletrônica tocando alto. Reconheci logo o vocalista que ajeitava o microfone, era apenas uma sombra, mas ninguém dava para diferenciá-lo sabendo das três bandas principais que iam tocar. The Strokes, Muse, Garbage; nessa ordem.
Logo o salão lotou, celebridades brotando do inferno, mas os fotógrafos e paparazzi ficavam apenas do lado de fora. Ou seja, lá dentro, eram todos frutos de seus trabalhos, sem mais nem menos; e nem adiantava mostrar a calcinha, ou esquecer de usar camiseta. Muitos adotaram o estilo dos Jetsons, a família do futuro, outros escolheram algo mais como os uniformes de Star Trek, ou daqueles super-heróis do futuro.
Foi então que uma spotlight focou no palco a figura de uma mulher ao lado do Casablancas. Eu mal podia acreditar que a conhecia.
O vestido preto e indecente me fazia abrir a boca e fechar sem parar. É claro que metade da festa estava usando preto, prata, ou coisa brilhante; mas só ela conseguia ficar daquele jeito indescritível. Eu não sabia se era a excepcionalidade das curvas do seu corpo, do modo que os seios fixavam-se no tecido, e por pouco não apareciam por completo. O modo em que ela esbanjava uma jovialidade, vestida em puro preto e prata, com os cabelos presos de lado e mais curtos do que o que eu conhecia. Seus lábios estavam com um batom tão escuro, porém tão bem desenhado ao seu arco de cupido.
pegou o microfone enquanto colocava o braço ao redor dos ombros de Julian Casablancas, ele que pôs também uma mão em sua cintura. Se eu não tivesse certeza de que ele era comprometido, estava pronto para marcar território. A outra mão de tocou o telefone, e estava com algum tipo de luva de metal em sua mão, como de um andróide, só que com um brilhante vermelho escrito London Music, piscando sem parar.
- Boa Noite, ladies and gentlemen. – e na simples frase, a multidão de VIP’s gritou e aplaudiu. Ela sorriu, e eu quis parar o tempo. - Espero que estejam bem acomodados para receber nossos convidados musicais. Eu sou , a nova presidente da London Music – e foi só ela falar o próprio nome que as pessoas gritaram ainda mais. Parece que ela havia feito algo com seu nome além de “A menina que sobreviveu ao incêndio da própria casa”. – essa festa está sendo patrocinada pela Apple, Clínica para pessoas com câncer, Hotel 41...
Não conseguia mais prestar atenção no que ela falava, só nos gestos, no corpo, nos seios... Era inevitável! Apenas me toquei de que o mundo ainda girava quando a voz dela parou de soar ao microfone, e o Julian Casablancas assumiu, começando a cantar um dos greatest hits da banda, You Only Live Once.
- , você está OK? – perguntou-me Paige ao meu lado.
- Estou ótimo. – menti, encarando-a.
- Sei... – ela fez careta. Foi aí que eu finalmente descobri porque enchia tanto o saco para que eu namorasse alguém, comprometesse, qualquer coisa. A primeira lição da minha vida foi quando falou-me, finalmente, sobre Emily. Era mais ou menos como naquela música que os Strokes estavam cantando.

Ooooooo-ooooo-ooooooh
A man don't notice what they got (Um homem não percebe o que tem)
oh Women think of that a lot (Oh Mulheres pensam muito nisso)
One thousand ways to please your man oh oh (milhões de maneiras de agradar o seu homem)


Que melhor jeito Emily poderia agradar senão adiando o sofrimento que ele poderia vir a sentir quando soubesse que ela estava doente, entre vida e morte. Como eu não percebi quem tinha em mãos, quando achei que apenas o fato de ter me apaixonado poderia fazer com que tudo desse certo? O amor é muito mais do que o mero ato de se apaixonar: é saber, conhecer a parceira. E esse foi o meu erro.
E eu vou lhe dizer que lição eu aprendi com .

CAPÍTULO 10 – A LONDON MUSIC CONVIDA PART 2

POV

Todos aqueles rostos curiosos olhavam para mim, o centro das atenções. Eu toquei no microfone para falar, mas parecia que todo o meu corpo se retraía à aparição em público. Eu imaginava quais eram aqueles pensamentos sujos dos garotões do lado direito, as críticas dos velhos metidos, a falta de interesse de algumas jovens. A ficha demorava tanto para cair! Eu estava então, no centro do palco, e era a representante de toda a London Music. O jeito como o meu vestido colava no meu corpo era inconfortável, assim como os saltos doíam o peito do pé.
Julian Casablancas pôs-se ao meu lado, como se dissesse: "Vá em frente". Tirei mais ar dos meus pulmões e finalmente cumprimentei a pequena multidão:
- Boa Noite, ladies and gentlemen. – gritaram, aplaudiram, apenas de ouvir a minha voz. Alguns gritaram o meu nome e me mandaram sorrisos gentis. E então todo o meu nervosismo se dissipou como corante em água; e eu tomei a fala de uma vez com um sorriso.
Quando o meu pequeno espetáculo de poucas palavras acabou, Julian cumprimentou-me, sempre adorável, e eu deixei-o comandar os The Strokes e fazer aquele salão tremer.
Como se adivinhasse o momento que eu estava passando, You Only Live Once foi a primeira música que passou pelos auto-falantes e foi automaticamente que eu olhei para . Ele estava calmo, olhando as pessoas passarem, sentado em um dos sofás ali presentes. Paige estava ao seu lado, mas não dava atenção a ele. Conversava com uma convidada a qual eu não conseguia me recordar do nome, mas sabia que trabalhava na televisão.
Passeei por entre os convidados enquanto o show dos The Strokes se fazia no palco principal; foi um susto quando uma mão quente tocou o meu braço e me puxou rapidamente.
- Boa Noite, Senhorita . – sorriu-me com trinta e dois dentes à bordo. – Como vai a minha chefe favorita?
- Que susto, Batman! – disse-lhe, colocando uma das mãos no peito, sentindo meu coração acelerar batidas a 200 m/s.
- Oh, não era a intenção! – ele falou, abraçando-me de qualquer jeito, e me apertando contra o seu peito de um jeito que eu achei que nunca mais ia respirar novamente. O cheiro dele, sempre entorpecente, dessa vez não vinha com o leve aroma de cigarro.
- Além do mais, eu sou sua única chefe. – frisei, quando consegui um pouco de ar ao soltar-me levemente de seus braços.
- Ainda assim minha favorita! – ele resmungou, prendendo-me em seus braços fortes novamente. Ri abafada pela sua camiseta prateada um pouco cheguei demais, porém dentro do tema futurístico da festa. – Isso sim que é festa! Eu nunca vi tanta mulher gostosa junta em toda a minha vida.
- Eu ainda estou aqui, . – bati em seu ombro, e ele me afastou um pouco. – E esse comentário foi meio infeliz.
- Não é tão infeliz assim. Veja pelo lado bom: Você é a mais gostosa de todas as presentes!
- Eu não sou "de comer" – fiz aspas com os dedos – para ser gostosa.
rolou os olhos.
- Difícil te agradar. – resmungou.
Apenas sorri de volta, abraçando-o eu mesma dessa vez. Foi por cima dos ombros de que observei um olhar intenso vindo do querido . Ele realmente queria matar com aquele olhar. Vendo-o de longe, com terno de couro e camiseta listrada em preto e branco. O jeito dos olhos brilharem, refletindo luzes, cintilantes, assassinos. Os lábios finos fechados, o semblante sério, entediado, e ainda assim sem perder o poder de sedução. Eu devorei com meu olhar minucioso sobre ele.
- ! – gritou-me uma voz conhecida. Não era , era uma mulher. Alene, uma das minhas funcionárias, atirando-se entre mim e .
- Sim. – disse eu a Alene, afastando-me do cheiro gostoso que emanava pelo pescoço, e enviando-lhe uma expressão de desgosto.
- Desculpe atrapalhar, mas venho a trabalho. Louis está para ficar louco com a imprensa atrás de você. Estão querendo saber quem você é, de onde você veio, maior frisson! E tem gente da mídia americana também, uma loucura! – Alene parou de falar para finalmente respirar. – Tem um monte de famosos da área VIP esperando para cumprimentá-la, incluindo os patrocinadores. Devo dizer, eles parecem satisfeitos!
Alene sorria, mesmo parecendo um pinto de tão suada e cansada que aparentava. Os cabelos ruivos prendiam um coque mal-feito cheio de brilhos.
- Estou a caminho. – dirigi-me a Alene, então virando-me para . – Bem, eu vou cuidar. Com sua licença, senhor . – disse eu em tom de brincadeira, beijando-lhe o rosto que parecia ter acabado de tomar um banho de pós-barba.
- Sim senhorita . Eu lhe disse que não ia ser fácil tomar o lugar de chefe. – ele falou, beliscando meu nariz como se eu fosse uma criança mal-criada.
- Eu nunca disse que seria fácil. Foi necessário. – resmunguei.
- Foi?
- Foi.
- No passado? Foi e não é mais?
Sorri-lhe enigmática e retirei-me sem mais. Acompanhei Alene até onde ela me levou, e o resto, sinto informar-lhes, foi apenas trabalho.

POV

Chutar Paige da minha vida, esse era supostamente o objetivo. E acredite se quiser, completá-lo não foi assim tão fácil. Ela estava tão bonita na festa, tão... Parecida com . Amaldiçoei-me por tudo aquilo, como pude jamais ter percebido que Paige era quase que uma cópia física de ? Como me deixei enganar pelos meus olhos e instintos? Era isso que queria esfregar na minha cara então? Que eu não era capaz de namorar ninguém que não fosse ela ou, ao menos, parecida com ela? Que ela sempre estaria na minha vida, mesmo que eu escolhesse outra pessoa?
Talvez sim, talvez não. O que eu sabia era que não dava mais para fingir. Mas eu não fui forte o bastante para colocar a menina de lado. Como um idiota, eu não consegui acabar com ela.
Paige quis sair da festa mais cedo, e eu não quis contrariá-la. desaparecera de minha vista desde o começo da festa, e sequer voltou a olhar em meus olhos, ou ao menos falar comigo. Eu sei, eu sei, eu tinha que falar com ela, mas como podia fazer isso com minha namorada no meu encalço? Como poderia ir em se nem conseguia finalizar o que eu tinha com Paige? Eu não poderia. Deixei Paige em casa com a promessa de que iríamos nos encontrar para uma conversa. Não seria uma conversa qualquer, seria a temida e enjoativa DR.
Foi inevitável que, após deixar Paige em casa, eu voltasse para a festa. Senti uma vontade estúpida de socializar e beber. Porque era isso que eu fazia quando não conseguia lidar com meus problemas, conversava e bebia como se não houvesse mais nada no mundo. Encontrei de cara, e ele parecia estar fazendo o mesmo, afogando as mágoas a fingir que estava tudo bem. Muse já havia tocado e entregava o palco para o pessoal da Garbage. Shirley Manson, a vocalista e líder do grupo, assumiu com tamanha excepcionalidade que as pessoas da pista e camarotes sequer tiveram tempo para tomar água. A música fluía nos ouvidos de tal forma que a vontade era apenas de sentir a música, em sua essência.

Love can be so strange (O amor pode ser tão estranho)
Don't it amaze you? (Isso não te emociona?)
Every time you give yourself away (Toda vez que você se deixa levar)

It comes back to haunt you (Ele volta para te assombrar)


É claro que a letra da música fazia jus a minha vidinha de merda. Sentei com no bar e pedi uma cerveja, por costume. Ele pediu algum drinque que eu não consegui ouvir direito o que era, e então nós iniciamos uma conversa qualquer sobre qualquer bunda que passasse em nossa frente. Literalmente bundas. Por exemplo a de Paris Hilton, que passou por nossa frente de nariz empinado; pediu uma lupa para enxergar a bunda nela, segundo ele, ela era muito magra e estranha. Nada que eu não concordasse, mas a mulher também conseguia não fazer nada útil e ganhar milhões.
- Ela é digna de ter fãs. Ser rica sem fazer porra nenhuma. – eu disse a , dando um gole na cerveja.
- É verdade... – riu escandaloso. – Mas se ela é preguiçosa na vida real, imagine na cama? Slow motion.
- Eca ! – eu ri também.
Continuamos por uns cinco minutos com a inutilidade, até a visão do paraíso atingir-nos em cheio, sem piedade.
- Vocês dois não deveriam beber desse jeito. – falou com as duas mãos na cintura fina. Vinda totalmente das trevas, porém linda demais para uma bruxa má.
- E você deveria se juntar a nós! – disse brincalhão. Vale ressaltar a pequena nota de que eu não gostava da proximidade dos dois, do fato de terem se comido, e de a culpa toda ser minha? Vale. Então anota isso.
- Bem, eu até gostaria de me juntar a vocês dois. Mas sabe, eu não sou assim tão gulosa para querer os dois ao mesmo tempo. – ela sorriu sacana. – O pessoal vai se reunir na área VIP depois do show de Garbage. Tem umas coisas legais lá, vocês deveriam vir. Apresentem essas pulseiras para entrar, só subir as escadas depois da boate.
entregou-nos duas pulseiras de um roxo berrante, e saiu dando aquele maldito tchauzinho com a ponta dos dedos, e tão maldito quanto, sorrrisinho de canto de boca.
- Ela manda na gente. – comentou , abismado.
- Mas ela não manda no próprio coração. – eu lhe disse convencido, retirando mais um gole da cerveja e encostando-me no bar de uma vez.

A festa parecia ter acabado. De repente a quantidade absurda de pessoas diminuiu de tal forma que eu só via pessoas limpando o lugar. Era a décima oitava vez que encarava aquela pulseira roxa, sem saber o que fazer. Digo, eu poderia simplesmente tomar coragem e encontrar , mas talvez as quatro garrafas de cerveja, dois chopps e uma remessa de tequila pareciam não ser o suficiente para derrubar meu medo e minha consciência. Desejei até ser mais burro, para quem sabe não ter que me preocupar com depressão por causa de mulher. Uma mulher! Como pode o sexo oposto domar leões como nós? Isso chegava a me parecer antiético! Em pensar que havia quem dissesse que mulheres são sexo frágil. Ah, frágil, já não bastasse Emily para provar o contrário, praticamente riscou a palavra frágil do vocabulário.
, que bebeu demais, não aguentou e pegou um táxi para ir para casa. Ele era até forte com a bebida, mas havia exagerado naquela noite. Só me restava ir aquele camarote.
Levantei com certa tontura, mas logo tomei as rédeas; então me dirigindo às escadas que havia mencionado. Era uma escada de espiral, feita de madeira, e o meu sapato social batucava enquanto eu subia. Ouvi então um som de Bossa Nova aumentar cada vez mais sua frequência, à medida que eu me aproximava do topo. Vozes de pessoas, copos de vidro brindando, e eu finalmente tive visão do que acontecia ali. Madame Feng-Shui estava no meio de uma pequena roda, onde eu pude reconhecer a elite da Revista, alguns abraçados, outros bêbados, vistos de forma nunca vista antes: informais.
- Um brinde à nova London Music! – disse Madame Feng-Shui com sua classe inabalável, pairando com sua taça de champagne para o alto. Sim, estava ao seu lado, com um sorriso tímido nos lábios. Com aquele vestido de mais cedo, só que agora com os cabelos soltos e mais rebeldes. – Um brinde à nossa chefe e presidente !
Os presentes gritaram seu nome, saltitantes, enquanto ela abaixava a cabeça. Instaurei-me em um ponto escuro do lugar, do lado de uma pilastra de mármore.
- Eu apenas fiz uma contribuição. Uma pena que os verdadeiros responsáveis por tanto sucesso não estão aqui. Brindemos, então, aos nossos amigos ausentes e !
Mais festa, diante das palavras dela. Espera... What? Ela estava me dando crédito pelo sucesso da revista? Eu não... Conseguia acreditar naquilo. Ela foi quem ressuscitou a London Music. O olhar dela era de realização, mas ao mesmo tempo, tinha um ar distante, triste, irreconhecível.
Encontrei uma penumbra por trás de uma das pilastras, e permaneci ali, meio escondido, assistindo o que se passava entre eles da empresa. Mentira. Eu só tinha olhos pra ela.
A dificuldade de andar fez com que ela parasse e, do nada, abaixasse-se, tocando a barra do vestido.
- ! Que é que você tá fazendo com essa bunda pra cima? – perguntou Alene, na maior intimidade. Sim, ela estava com um copo de whisky na mão.
- Esse vestido maldito, não me deixa andar direito! – reclamou, e então puxou o tecido do vestido para cima, rasgando-o irregular, e deixando aquelas pernas para fora. AQUELAS PERNAS! Senti minha mão coçar para tocar as suas pernas, que pareciam esculturais, feitas a mão para recusar imperfeições. Ela também retirou os saltos e jogou-os debaixo de uma das mesas ali perto. O corte no vestido longo ficou torto em cada lado das pernas, mas eu não conseguia observar isso, para mim, aquilo era perfeito. Eu sei, é um adjetivo meio sem nexo, essa tal de perfeição. Mas eu tinha um significado para ‘perfeito’. Perfeito é aquilo que mesmo tendo defeitos, possui as qualidades sobressalentes. Ela, para mim, era perfeita; eu amava tanto as qualidades quanto os defeitos.
É claro, também inegável, a atração sexual. Mas como, por Deus, um homem resistiria a pernas como aquelas? God Damn.
Por obséquio eu estava perdido demais em meus pensamentos – dos mais pervertidos aos mais românticos – e não consegui notar que alguém se pôs à minha frente.
- não vem? – perguntou-me a conhecida voz feminina.
- O quê? – falei meio perdido, percebendo o quanto o rosto dela resolveu encarnar algo realmente belo, logo em minha frente. arqueava-me uma das sobrancelhas intimidadoras, e então colocou um braço na pilastra ao meu lado, dando uma de homem da relação.
- Terra para . não vai vir?
- Não, ficou bêbado demais, pegou um táxi e foi para casa. – respondi rápido, sem expressão (pelo menos externamente, porque internamente, meu sangue estava sendo drenado para... Baixo.)
- Hum... – resmungou com a boca fechada. – Eu gosto dessa Bossa... – ela comentou, com aquela cara de quem está fingindo não querer nada. Eu sorri-lhe maroto e tirei o braço dela que estava na pilastra para segurar sua mão.
- Então vamos dançar. – disse-lhe, puxando-a para perto do som, onde alguns casais já dançavam calmamente uma Bossa estrangeira.
- Você não me deixou nem responder sim ou não! – ela falou rindo, enquanto era puxada por mim. Parei no meio daqueles casais e segurei-a pela cintura. Ela arfou, olhando intensamente para os meus olhos como se quisesse sugar minha alma.
- Não foi exatamente uma pergunta para que você pudesse responder. – disse-lhe rindo perto de seu ouvido, e assistindo seus pêlos do pescoço arrepiarem-se. Antes que me inventasse de resmungar, toquei sua cintura com mais força, e colidi nossos corpos. Seus seios, tão quentes, passaram calor para mim, e tocavam-me o peito sem intenção de misericórdia. Eu poderia tocá-los naquele exato momento, e apreciar da maciez e volume agradável. Mas talvez pudesse ser minimamente paciente para não ter de fazer isso em público, lembrando que o público eram quase todos os meus colegas de trabalho.
A música que tocava era conhecida por mim. Eu conhecia a letra. E, por isso, não pude deixar de cantar em seu ouvido. Era a minha chance de tê-la de volta. A minha vez de criar o mínimo de coragem.
- Tell me when will you be mine. Tell me quando, quando, quando. We can share a Love divine. Please don’t make me wait again. [Diga-me quando você será minha. Diga-me quando, quando, quando. Nós podemos compartilhar um amor divino. Por favor não me faça esperar de novo.] – eu realmente não sabia dançar Bossa Nova, realmente não era um bom dançarino; mas a música fluiu de tal forma que até o meu corpo conseguiu absorvê-la, e os passos para um lado, para o outro, e rodopiando com ela em meus braços, seguiram como se eu fosse feito para aquilo. ria perto do meu ouvido, respirava com dificuldade, e seguia meus passos na dança. Talvez não estávamos assim, dançando bem, talvez estávamos dançando bem mal, mas em completa sincronia. – When you will you say Yes to me? Tell me quando, quando, quando? You mean happiness to me. [Diga-me quando você dirá Sim para mim. Diga-me quando, quando, quando? Você significa felicidade para mim.]
- Desse jeito parece que você está falando diretamente comigo. – ela riu.
- Talvez eu esteja. – sussurrei e parou de dançar, encarando-me ferozmente. Passamos uns segundos trocando palavras pelo olhar, até que seus olhos se dirigiram para a minha boca, daquele jeito em que se pede um beijo. Assim que eu me aproximei, ela apenas colocou os braços mais fortemente ao redor do meu pescoço e abraçou-me, voltando a dançar.
- Every moment is a Day. Everyday seems a lifetime. [Cada momento parece um dia inteiro. Cada dia parece uma vida inteira.] – ela cantou em meu ouvido. – Eu não queria passar tanto tempo separada de você. Foi terrível, doloroso. I can’t wait a moment more. [Eu não posso esperar mais] Aqui, agora, não consigo ver nada além de você. E às vezes a minha coragem não é o bastante para lhe dizer o que penso, porque da última vez que agi assim, dizendo o que pensava, cometi um dos maiores erros da minha vida.
- Se esse tempo foi doloroso, por que você se afastou de mim?
- Nem você sabia o que estava acontecendo, sabe, entre nós dois. E eu não queria ser uma adolescente apaixonada, de novo, fazendo uma merda atrás da outra. Eu queria, não, eu quero que as coisas dêem certo.
- Eu ainda não entendo, .
- Você vai entender, eu vou lhe explicar, mas não agora. – ela disse, e a música finalmente acabou, dando espaço para outra desconhecida por mim.
- Agora é para matar a saudade. – Eu sorri e lhe beijei o pescoço.
- É, mas não aqui, querido chefe. – ela disse me afastando. – Tem um lugar que eu queria lhe mostrar.
Ela me puxou para longe dos casais dançantes, até encontrar com seu secretário e tio Louis, sentando entre quatro mulheres. Sim, QUATRO mulheres. Louis era o garanhão da noite, como eu costumava ser... Bons tempos.
pegou chaves com Louis e correu para pegar os saltos que haviam sido jogados embaixo de uma mesa qualquer.
- Meu carro é o Aston Martin branco. Com cuidado, muito muito muito cuidado, pegue ele que tá no estacionamento da frente e traga pros fundos. E discrição, .
- Sim senhora.
- Eu te encontro na saída dos fundos daqui a 10 minutos.

HOT Boss POV

É claro que eu não ia deixar que todos do trabalho notassem que eu estava saindo com . Apesar de meu coração estar armado e perigoso na guerra contra o meu cérebro, ainda era namorado de Paige as far as I know, então nada de fazer merda. Discrição era necessária, assim como atuação e segurança dos impulsos sexuais (que acredite, estavam quase me consumindo depois daquela maldita dança).
Despedi-me de todos da festa e dei autoridade para a Madame Feng-Shui caso qualquer coisa acontecesse. O aluguel do lugar ia até 6 horas da manhã e os seguranças estavam avisados para expulsar as pessoas que estivessem no lixo da festa.
Apesar de todo o sucesso da festa, a única coisa que eu sentia eram minhas pernas pedindo arrego, minhas bochechas doendo de tanto sorrir, minha panturrilha tinindo de dor depois de 8 horas seguidas de uso de um maldito salto; bem, estava tudo assim, até ele chegar. Livrei-me do vestido que me impedia de andar como uma pessoa livre e dos saltos que acabavam com minha raça. O resto da dor do meu corpo foi completamente anestesiada depois da simples perversidade do olhar de sobre mim.
Corri até a saída dos fundos e logo encontrei meu carro ligado e a sombra de dentro dele, dificilmente visível graças aos vidros fumê. Andei então para o banco do motorista e abri a porta.
- Eu dirijo, vai pro lado. – disse-lhe.
subiu o seu olhar vagarosamente, contemplando-me daquele jeito que me faria deixar de ser rainha para ser escrava; encontrou os meus olhos e sorriu. Sorriu como um garoto malandro prestes a invadir a grama do vizinho. Rosto de criança em época de Halloween, pedindo doce na casa alheia. Sorriso hipnotizante.
- Bossy. – ele reclamou rindo. – E por que eu deixaria você dirigir, mulher?
- Simples. – disse-lhe. – Porque sou eu quem mando. – ri – I am the Boss, cherié.
Rindo, ele foi para o banco do carona.
- Mandona. – resmungou, enquanto eu agora me sentava no banco do motorista.
- Eu sei que você gosta assim. – disse-lhe ajeitando o banco e pondo o cinto. Desci o freio de mão e coloquei a primeira. – Põe o cinto que nós vamos correr.

(...)

Acendi apenas uma das luzes da sala de estar do meu apartamento, onde apenas poderia se encontrar sofá e um grande aparelho de som. Sim, eu tive preguiça de decorar. Os únicos decorados eram a cozinha (onde eu fingia cozinhar coisas gostosas, mas era minha sala de experiências para as receitas de Jamie Oliver), o banheiro da suíte e, é claro, a suíte. O resto dos cômodos sobrava espaços. Porém, apesar de tudo, tinha algo realmente interessante naquele apartamento. Ali mesmo, na sala de estar, havia uma porta de vidro que dava para outra sala, que eu chamava de sala de Jogos. Na verdade, apenas tinha uma mesa de bilhar, que eu costumava jogar sozinha quando o tédio de um domingo à tarde me tomava. E aproveitava o excelente aparelho de som para por uma música alta até o vizinho do 22º andar – o apartamento abaixo do meu – vir reclamar. Apesar de que, nos últimos dias, eu havia conseguido convencê-lo a se juntar a mim; nem sabia seu nome, mas devia ter uns 60 anos e tinha cara de veterano de guerra.
- Sinta-se à vontade. – eu lhe disse, jogando meus saltos ao lado do sofá.
- Aqui é sua casa? – perguntou, sentando no sofá como se fosse morador dali.
- Sim. Lar doce lar. – eu lhe disse rindo, e ligando o aparelho de som baixinho em qualquer música que estivesse passando. – Venha aqui. – chamei-o até a Sala de jogos.
me seguiu até ali, percebendo a mesa de bilhar.
- Sinuca?
- Sim, não é linda? – referi-me à mesa, alisando-a.
- É. – ele disse sem nem se importar com o que eu estava falando, se aproximou rapidamente de mim, enlaçando os braços ao redor da minha cintura e levantando-me do chão como se eu fosse uma pluma, e não pesasse carne e osso. Ri de nossa situação, enquanto ele ajeitava-me sentada sobre a mesa de bilhar. Senti uma das bolas de bilhar debaixo de minha coxa, e separei-me de , ficando em pé na mesa.
As bolas de bilhar estavam jogadas espalhadas sobre a mesa.
- Já te contei que sou uma exímia jogadora de futebol? – perguntei-lhe, colocando o pé por cima de uma das bolas.
- Ainda não.
- Watch me. – disse-lhe
Comecei a chutar bolas nas caçapas; algumas com sucesso, outras não, e fazendo graça com as que errava.
– Essa não entrou porque tá no buraco errado! – eu disse rindo, fazendo-o rir também – AH, isso soou tão pervert!
- Você viu o duplo sentido sozinha nessa, viu? Eu não falei nada. – ele disse entre risadas.
- Nem venha que você fez aquele olhar! – culpei-o, chutando a penúltima bola na caçapa.
- Qual olhar? – ele perguntou arqueando as sobrancelhas.
Sentei no meio da mesa, pegando a última bola, amarela, com a mão. estava na minha frente, sorrindo como um bobo. Entortei meu corpo para a frente então, encostando nossos narizes e afastando antes que ele me prendesse. Coloquei a última bola na caçapa com a mão.
- Você sabe qual olhar. – sorri-lhe, juntando as pernas e abraçando-as.
- Sei, é? – ele perguntou. Eu assenti. pegou-me pelos tornozelos e me puxou para ele, arrastando-me pela mesa sem misericórdia. – É assim?
Minhas pernas já estavam ao redor de sua cintura, suas mãos divididas, uma em cada coxa minha, segurando com força. Seu olhar animava cada célula minha para o ataque.
- Assim mesmo. – sussurrei segurando-lhe o queixo e aproximando meu rosto e lábios.
Quando nossos lábios finalmente se tocaram, senti um alívio incomparável, como se estivesse presa e de repente ganhasse liberdade. Como se eu estivesse com medo e de repente ganhasse coragem. Como se eu estivesse à beira da morte e de repente ganhasse vida. Alívio para os meus lábios que tinham sede dos dele. Alívio para o meu olfato que tinha fome de seu hálito, seu cheiro, sua essência. Como pude viver tanto tempo sem ? Era a parte de mim que faltava, minha necessidade insaciável. Ele.
Nossos lábios tomavam atitudes animais um contra o outro, nossas línguas brincavam como amigas de infância e nossas mãos estavam confusas sobre onde permanecer, tocar, alisar, apertar.
O cheiro dele era um limite entre perdição, álcool e Azzaro. O terno de couro logo desceu o corpo másculo em encontro ao chão e a camisa listrada tinha seus botões sendo arrancados na velocidade da luz pelos meus dedos ágeis – devido a quantidade de hormônios que alimentavam meu corpo.
Foi questão de alguns segundos para que eu tirasse o botão da calça e abrisse o cinto. Se dois minutos haviam passado desde que nos entregamos ao fogo, era muito, e mesmo assim já estava vestido apenas com um relógio brilhante, boxers, meias e sapatos.
- Você tem que me dar chance de tirar sua roupa, chefe. – ele me disse, conseguindo separar-se dos meus lábios para intercalar beijos pelo meu pescoço. Ri descontrolada, sentindo aqueles lábios úmidos me tocarem com fúria e desejo. Sua língua logo percorreu o trajeto do meu pescoço até a boca, parecendo saber o caminho de cor.
Com aquelas mãos espertas, subiu o trajeto das coxas, chegando à minha bunda e apertando com força.
- Senti saudades disso. – ele disse rindo perto do meu ouvido. Até a minha alma se arrepiou. Era praticamente impossível controlar instintos. Antes que resolvesse rasgar meu vestido de uma vez, afastei-me dele, com muita dificuldade, e comecei a puxar o vestido para cima. Era realmente difícil tirar o maldito vestido sentada em cima de uma mesa de bilhar com o corpo pegando fogo e um Deus Grego em minha frente. Mas eu era alguém persistente. As pequenas partes de metal arranharam-me as costelas, só que eu estava muito aérea para sentir qualquer dor. Afinal, meu corpo pedia loucamente por prazer.
Logo a calcinha era a única peça que me impedia de trajar a birth suit (roupa a qual eu nasci com, ou seja, nenhuma). Olhei para um faminto e chamei-o com o dedo. Ele retirou os sapatos e subiu agilmente na mesa de bilhar.
- Isso não vai quebrar? – ele perguntou.
- Eu espero que não. – respondi com um sorriso perverso nos lábios.
se pôs sobre mim. Éramos dois loucos descontrolados prestes a transar em cima de uma mesa de sinuca. Seu membro latente, empurrava um bom volume por cima da minha intimidade, e eu não conseguia respirar direito. O ar estava impuro. Beijei como se ele fosse me dar o mínimo de oxigênio; para mim, era uma forma de permanecer viva.
O beijo finalmente pareceu acalmar-se e ficar mais lento. Eu gostava mais assim, lento e gostoso, excitava-me ainda mais. Principalmente quando era quem me beijava. Ele tinha a paciência de me beijar devagar e me deixar completamente insana por mais.
Suas mãos então espalmaram-se contra meus seios, apertando-os como quem aprecia, com cuidado; e com toda minha excitação não havia como impedir que os mamilos ficassem rígidos. Ele alisou-os com a ponta dos dedos ásperos, e então parou de me beijar a boca, para passear os lábios pelo pescoço, clavícula e colo, chegando então aos seios. Eu conhecia aquela estratégia de tortura, e estava louca para contra-atacar.
Deixei que ele deliciasse-se com meus seios, e assim que ele começou a descer novamente, pela barriga que encolhia com os espasmos constantes, puxei-o pelo cabelo até a altura do meu rosto; beijei sua boca rapidamente e virei meu corpo contra o seu, ficando por cima. Colei meus lábios pelo seu pescoço, fazendo marcas com chupões talvez exagerados demais. Ouvi um gemido de sua parte quando comecei a descer as mãos pela lateral do seu corpo até chegar à boxer.
Minha necessidade de tocar-lhe o membro latente era inevitável. Apenas tirei um pouco da sua boxer, libertando o pênis já ereto. Beijei-lhe o caminho do tronco até a virilha, e finalmente resolvi lhe dar um pouco de prazer. Passei a língua pelas laterais de seu membro, da base à cabeça, até abocanhá-lo. Deixei as mãos de lado para fazer apenas os movimentos com a boca e língua. Meus olhos fechados, eu apenas tinha os meus quatro outros sentidos. soltava sons pela boca que supostamente seriam gemidos, mas ficaram no meio termo entre sussurrar e gemer. Uma de suas mãos, inquieta, resolveu segurar-me pelos cabelos da nuca, guiando meus movimentos. Retirei bruscamente sua mão de meus cabelos.
- , eu sei o que estou fazendo. – disse-lhe séria, encarando seus olhos ainda fechados e a boca entreaberta.
- Mas... Onde... – ele não conseguiu pronunciar as palavras direito.
- Mantenha suas mãos quietas, . – sorri e voltei a lambê-lo. Eu não sabia onde ele havia colocado as mãos, mas pelo menos não era na minha cabeça, o que me dava liberdade total; e essa de liberdade parecia funcionar muito bem. Seus gemidos aumentavam cada vez mais, e eu sentia seu membro a um toque para explosão.
Afastei minha boca do seu pênis assim que senti o gostinho de esperma invadir minha boca. Fiz o resto do trabalho com a mão, assistindo atenciosamente o rosto de até ele atingir o seu orgasmo. Usei a boca novamente e deixei seu líquido descer pela minha garganta.
- Eu... – ele tentava respirar. O rosto suado e tanto a minha quanto a respiração dele estavam aceleradas. - ... Senti... Muita... Muita... Saudade disso.
- Sei que sim. – eu lhe disse sorrindo e beijando-lhe os lábios. – Eu descobri que ejaculação masculina é cheia de Vitamina C – falei rindo e ouvindo a sua risada alta ecoar pela sala. – e que sexo emagrece. – pisquei.
- Ótimo. Então acho que vamos estar sempre em forma. – ele falou, colocando uma mecha de meu cabelo que grudava no meu rosto suado para trás.
- Bem, sobre isso... – beijei-lhe seus lábios rapidamente, não resistindo. – Acho que você perdeu uma certa aposta. E agora tem que fazer exatamente o que eu mandar.
- Aposta? Que...? - estava confuso, até parecer achar-se. – Puta que pariu. Eu não acredito que...
- Olha, eu só tenho dois pedidos. – ele voltou a me olhar confuso. – Primeiramente, acabe qualquer tipo de relacionamento com aquela de camelô, e sim, eu estou me referindo à Paige Bitch. E entenda que eu sou a única na sua vida. E por mais que você tente achar outra pessoa, você vai sempre acabar me achando.
- Metida. – ele disse rindo. Eu devia começar a contar as vezes que me chamava de metida.
- Segundo pedido não é um pedido, é uma ordem: Volta pra mim. – suspirei e peguei um pouco de fôlego para cantar baixo, com a voz rouca perto de sua boca. – Come on baby, be my bad boyfriend!
- Com prazer. – ele disse, segurando-me pelos cabelos da nuca e me beijando a ponto de eu perder todo o meu fôlego. – Então eu posso voltar a dizer a todo mundo que você é minha namorada?
- Você pode escrever num outdoor se quiser.
- Melhor assim. Mas vou logo avisando: Eu sou o chefe da relação.
- Metido. – beijei-lhe rapidamente os lábios. – Pensando bem, eu tenho mais uma ordem.
- Sabia. O que é?
- Faça sexo comigo como se não houvesse mais nada que importasse nesse mundo. Nada nem ninguém. – disse-lhe séria. – E lembre-se de que isso é uma ordem.
- Nunca recebi ordens tão boas. – ele respondeu, ficando por cima. Retirou minha calcinha com cuidado e parou para observar meu corpo. Passou a palma da mão larga pelas minhas curvas com um ar de aprovação. Eu assistia sua beleza com orgulho, desejando que pudesse tê-lo para mim até não suportar mais, ou seja, até a morte. Porque para mim não havia como cansar dele. Alguma vez você cansou da felicidade?
De repente, senti um frio passando pela minha intimidade. Estava nua em pêlo, exceto é claro pelas jóias penduradas em minhas orelhas, mas isso não conta, né? levantou as minhas pernas, abrindo-as e se colocando entre elas. Tocamos os narizes e ele ajeitou o seu membro em minha vagina, preparando para a penetração.
- É bom ter a original de volta. – ele disse com a boca a milímetros da minha.
- Sei que sim. A original é sempre melhor.
- Você tem que sempre ser metida assim?
- , cala a boca. – beijei-lhe os lábios com um sorriso coçando no canto da boca. Logo senti seu membro pressionando contra a minha vagina, e penetrando lentamente, numa tortura insuportável e, ao mesmo tempo, prazerosa. mal tinha começando as investidas quando, de repente, a musiquinha de fundo que tocava pelo aparelho de som da sala de estar parou de tocar. Quando abri os olhos, não consegui ver nada além do breu.
- Acho que faltou luz. – sussurrou decepcionado em meu ouvido. Sentia seu coração acelerado bater tão forte contra o peito que eu era capaz de ouvir: Tumtum, Tumtum. Parecia que ele estava tendo uma ataque, mas então percebi que o som era tão alto porque o meu estava batendo na mesma velocidade.
O corpo suado de colava no meu, e eu não tinha a mínima intenção de separá-los.
- Guess we’ll just gonna dance in the dark. – sussurrei em seu ouvido e ouvi a sua risada nasalada romper o silêncio. Daí então, nos voltamos a... Dançar no escuro.

You can't start a fire
You can't start a fire without a spark
This gun's for hire
Even if we're just dancing in the dark


CAPÍTULO 11 – EMILY SUMMERS E

Feixes de raios solares atravessaram as cortinas os pedaços de papelão que envolviam as janelas, acordando-me automaticamente com certa dor na coluna. Teimei a abrir os olhos devagar, e encontrei-me abraçando como um coala, seu peito másculo servindo-me de travesseiro. O aroma delicioso de seu perfume invadia-me, e eu não pude deixar de dar um sorrisinho de canto de boca, satisfeita com o jeito o qual me encontrava. Estava calma, despreocupada, completa. Era como se tudo estivesse dando certo...
- ? – a voz rouca e sonolenta de surgiu como uma canção de ninar. Fechei os olhos novamente, apenas sentindo-o ao meu lado.
- Sim?
- Você tem uma cama? Minha coluna dói em cima dessa mesa.
- Você tem forças pra se levantar? – perguntei.
- Acho que sim.
- Bem, eu não. – virei-me para ele, encontrando seu rosto amassado de sono e, ainda assim, incrivelmente lindo. Seus olhos mal conseguiam abrir. – Me carrega para a cama?
- , eu estou praticamente dormindo. Você quer que um zumbi te leve à cama?
- Você vai mesmo me deixar aqui criando mal-humor em cima dessa mesa dura? – fiz cara de necessitada das ruas, como se mendigasse mesmo.
- Por que fazer essa cara? – ele perguntou, fechando os olhos como e evitando minha cara de cachorro sem dono.
- Pare de responder minha pergunta com outra pergunta. – fiz bico.
- Minha coluna dói.
- Você é um velho mesmo. – eu disse, levantando-me e saindo de cima da mesa de sinuca. Vesti a blusa dele que estava jogada no chão, e esperei-o levantar também.
apenas riu e levantou-se num vulto rápido, descendo da mesa de bilhar e rapidamente vestindo-se com sua boxer, essa facilmente encontrada em uma das caçapas. Olhou-me malandro e se atirou ao meu encontro, pegando-me no colo e correndo feito um louco pela casa.
- ! – eu gritei, dando risada ao mesmo tempo ponderando os danos que poderiam ser causados caso desse uma câimbra nos braços dele, e ele acabasse me soltando. – Devagar, for God’s sake! Meu quarto é o... – mais risadas descontroladas quando ele me girou – você fica animado rápido... – ele riu – Meu quarto é o terceiro do corredor, indo di... Direto.
Ele ia muito rápido, eu jurava que ia cair. Nossas risadas se misturavam descontroladas, loucas, engraçadas; às vezes eu não sabia se estava rindo de algo que acontecia, ou se ria apenas da risada dele. Num instante, graças ao Senhor The Flash que me carregava, fui jogada na cama fofa que tinha os lençóis novos com cheiro de sabão em pó e amaciante. se jogou ao um lado como um peso morto, e eu parei para recuperar o ar, já que dar risada é realmente uma coisa que cansa. Com minha respiração ainda acelerada, pus-me sobre , em suas costas, e passei a distribuir beijos estralados por seu pescoço e ombros; parando então para massagear suas costas.
- Ah... Assim tá bom. Aqui, mais em cima, direita, direita... Aí! Aí é o lugar que mais dói. – falava abafado, com a cara pela metade afogada no travesseiro fofo. – Se eu soubesse que era tão boa massagista, havia contratado você como minha secretária há 3 anos.
- Cala a boca, . – falei, dando um tapa leve em suas costas e me deitando ao seu lado. Ele deu risada e ajeitou-se sobre a cama, de modo que pudesse me puxar e encaixar nossos corpos de lado.
- Se importa se eu dormir mais um pouco? – ele perguntou manhoso.
- Pode dormir o quanto quiser, chefe.
Não foi preciso mais palavras, o próximo som que eu ouvi de foi a sua respiração calma e prolongada, e nada mais. Dormiu tão rápido que mal pude contar os segundos. Estava tão feliz de tê-lo ao meu lado, sobre minha cama, abraçando-me... O sono logo me invadiu, e fez com que eu dormisse junto a ele, profundamente.


Acordei novamente, dessa vez sem sol na minha cara. Ouvia então a chuva bater na janela de vidro. Como poderia essa cidade chover tanto? Sentei na cama, colocando as pernas para fora e as mãos sobre o rosto, esfregando os olhos. Eu poderia estar acordada, mas meus olhos coçavam irritantemente, ardiam, e eu nem sabia por quê. Parando de tentar arrancar meu globo ocular fora, olhei para o lado onde deveria estar deitado, mas não estava. A cama estava vazia. Forcei mais a vista, achando que era ilusão, mas não, era realidade, não estava na cama.
Levantei num impulso e fui ao banheiro, onde consegui lavar os olhos e rosto, fazendo com que a coceira fosse amenizada. Andei por toda a casa e não o encontrei, a não ser na geladeira, onde encontrei um bilhete com aquela letra típica masculina, descendente de hieróglifos:

",
Dei uma saidinha, mas volto já, por favor não planeje me assassinar. Fiz café da manhã pra você, coloquei no forno, é só esquentar.
Sempre seu,
"


'Bonitinho', pensei, relendo o bilhete pela terceira ou quarta vez. Sorri sem nem perceber, abrindo então o forno e encontrando omeletes ainda mornas, o que indicava que ele havia saído fazia pouco tempo. Dei de ombros e não me dei ao trabalho de por as omeletes no microondas; nem ao menos usei garfo e faca, estava faminta. De colher e usando meu dedo indicador como faca, devorei as omeletes feitas por . Não eram as melhores que eu já havia comido, mas ainda assim tinham um tempero exótico, gostoso.
Por ter comido muito rápido, a sede atacou, e eu abri a geladeira para pegar um copo de água ou de qualquer desses sucos industrializados que costumava comprar, na pura preguiça de usar o liquidificador. Passei a andar pela casa, meio sem direção, tomando goles do suco de uva. Eu me senti como um monstro faminto, tendo comido tão rapidamente a omelete e agora enchendo a pança de suco. Um horror, eu sei, mas a gente não costuma pensar bem quando se está com fome. Acabei por ligar o som na sala, deixando algo calmo tocar, alguma surf music facilmente identificável como Jack Johnson, e então fiquei a encarar a chuva pela janela da sala de estar.
poderia ter saído para, enfim, acabar com Paige. Esse era meu pensamento. E um pensamento muito feliz por acaso.
Ouvi então um som de celular tocando insuportavelmente, mas não conseguia identificar de onde vinha, foi então que eu vi algo piscando em uma das caçapas da sinuca. Saí correndo, mas não fui rápida o suficiente, já que quem ligava parecia ter desistido. O celular obviamente não era meu, o meu toque era diferente. Era de . Eu bem sei que bisbilhotar as coisas alheias é muito feio, mas não pude deixar de ver no visor quem ligava para o meu – agora e novamente – namorado.

E ainda havia uma mensagem.
"Onde você está? Esqueceu do nosso compromisso? Estou com Emily. xx "
Impossível estar com Emily, ela estava morta! A não ser que... Que ele estivesse no túmulo de Emily, no cemitério que eu já conhecia. Era a minha chance. Eu finalmente ia poder contar tudo que queria a aqueles dois, e ainda mais com a lúgubre presença de Emily Summers. Olhando o visor do celular novamente, percebi que havia outra mensagem, essa de alguém (infelizmente) conhecida. Paige Wallace:
"Amor, já acordou? Você vem me pegar hoje? Desculpa ter saído da festa cedo.
Te amo
Xoxo Pay"


Tomei um banho, escovei os dentes, vesti uma roupa qualquer e saí de casa correndo, sem nem ao menos desligar Jack Johnson que tocava na sala.


POV

Cemitérios são lugares assustadores. Calmos demais, tristes demais. Eu poderia sentir a tristeza que pairava naquele cemitério. E por mais que ainda fosse dia, tudo que eu podia ver eram trevas, e o obscuro. A morte é algo obscuro. , no entanto, parecia não se incomodar tanto com o fato de estar em um lugar fúnebre como aquele cemitério. Ele andava à minha frente, indicando-me o caminho para o túmulo de Emily. É claro que nunca tinha ido ali, senão no dia do enterro; eu não costumo me encher de tamanha energia negativa que aquele cemitério passava. Nem ao menos me lamuriar pelo passado eu fazia, preferia não tocar no assunto, era muito mais fácil viver assim.
Era uma daquelas lápides de mármore cinza, colorido com flores que dividiam-se entre mortas e vivas, coloridas e murchas. agachou-se e deixou mais um ramo de flores ao lado de outras que estavam murchas. Aquela velha expressão voltou ao seu rosto, tomando-lhe qualquer aspecto feliz. Eu o via chorar internamente por Emily, novamente. E eu sabia que no fundo ele chorava por arrependimento de nunca ter percebido o sentimento dela para com ele, por nunca ter sabido que Emily carregou um filho seu, ou que tinha uma doença fatal e jamais tocou no assunto. Eu também me arrependia, é claro, mas não era como . Principalmente porque parecia jamais esquecer do erro que cometeu, de ter dito que a amava tarde demais.
O silêncio tomou-se entre nós por alguns minutos incontáveis. Minha mente prendia-se completamente aos meus arrependimentos.
- Você tem que parar de frequentar esse lugar. – disse eu a , jogando a única rosa que comprei, na pressa, sobre a lápide. – É horrível.
- Sei que sim, mas Emily está aqui, é o único lugar que eu posso encontrá-la. – disse-me com um suspiro.
- Não é verdade. – uma voz feminina respondeu atrás de nós. Eu poderia jurar que era a Morte vindo me buscar, mas na verdade era apenas , de jeans e moletom, nos encarando com cara de quem cansou correndo. Como diabos aquela mulher veio parar aqui?
- ? – perguntou , mesmo sabendo a resposta para aquelas pergunta na ponta de língua.
- Eu mesma. – disse ela, aproximando-se, e ficando entre nós dois. – Você não precisa vir aqui para encontrá-la. Pode fazer isso onde quer que esteja. Aqui apenas repousam os ossos dela, tenho certeza de que você não amava ossos, certo? – ela suspirou – Você precisa sair dessa escuridão, , e ficar no mesmo lugar sempre, remoendo seus erros e angústias, eu garanto que não é a coisa certa.
- E aí fala a herdeira , de Nova York, não é? – perguntou cheio de pose, olhando-a de cima. Eu arqueei uma sobrancelha, sem entender o que diabos acontecia.
- Eu mesma. – ela repetiu. – Eu sei que vocês querem saber quem sou, mas ta aí uma coisa que até hoje eu não sei dizer.
- Como você sabia que eu estava aqui, e com ele? – perguntei assustado.
- Seu celular, chefinho, esqueceu lá em casa. – Ela pôs o celular no bolso do meu jeans, encostando a mão em meu ombro em seguida. Peguei o celular do bolso e vi as mensagens recebidas. Paige e . Será que ela tinha lido as duas? Merda, eu ainda não havia acabado com Paige, o que significava que oficialmente, nós dois ainda estávamos juntos, e eu estava quase como um árabe polígamo.
- Você leu minhas mensagens?
- Eu não tinha como pegar o seu celular e fechar os olhos para não ver as mensagens, . A diferença é que eu preferi não fingir que não li. – ela deu de ombros. Eu queria ficar puto com aquilo, mas sabia que não estava em posição para reclamar. No entanto, não pude deixar de guardar a discussão para depois.
- Sim, , o que mesmo a senhorita veio fazer aqui? E desde quando você e o voltaram?
- Vim visitar uma lápide. E eu prefiro não comentar sobre a segunda pergunta. – ela disse rapidamente, com as respostas na ponta da língua. – Sabe... – um breve suspiro – Eu nunca pensei que isso fosse realmente acontecer, sabe, de ela morrer. Eu falhei com ela e sinto que fui, de certa forma, responsável por sua morte.
- Como assim? – perguntei.
- Vocês lembram do dia... – ela hesitou – do aborto?
- Sim – eu e respondemos em uníssono.
- Eu soube que Emily estava com câncer naquele dia.
- Por isso você se trancou com ela no banheiro? – perguntou com uma cara insana.
- Não exatamente, mas de certa forma, podemos dizer que sim. Ela me pediu para não dizer a vocês, a ninguém. Emily resistiu a um câncer por mais de um ano sem medicação. Ela nunca fez mais do que quatro sessões de quimioterapia...
- E como VOCÊ descobriu isso? – perguntou com raiva dissolvendo em sua boca.
- Clínica para pacientes com câncer. Era um dos empreendimentos da minha família, cujo qual meus pais eram responsáveis. Minha mãe era oncologista. Meu pai era empresário. Minha mãe era daqueles tipos de pessoas que não ligam para T.A.B.U.’s, e não pensou duas vezes quando me levava, ainda pequena, para a clínica. Eu era uma criança, e minha mãe odiava me deixar em casa sozinha, porque achava que eu acabaria uma mimada com babás adolescentes. – parou de falar repentinamente para tomar ar – Então sim, eu ia muitas vezes ao hospital, e minha mãe me ensinara muitas coisas sobre o câncer. No passado não havia tantas pessoas assim doentes, principalmente porque a maioria morria. Quando meus pais morreram... – ela franziu a testa – Eu ainda ia para a Clínica, era um dos meios de fugir do meu tio Louis e seu bordel. Outros meios de fugir dele era fazer cursos. Por isso eu sei fazer várias coisas.
Eu sorri, como quem tem pena. Ter pena era uma coisa feia, mas quem quer que assistisse a mudança nas feições de ao contar a própria história, perceberia que ter pena era inevitável.
- Eu tomei aversão a hospitais depois de um tempo, depois de ver tanta gente morrer ao meu lado. Ver as pessoas morrerem era horrível, e eu demorei muito a notar isso. Enfim, voltando ao ponto que interessa; nessas minhas idas ao hospital, as enfermeiras e médicos que eram amigos de minha mãe, cuidavam de mim e me ensinavam coisas.
- Coisas como saber que alguém está com câncer a olho nu? – eu perguntei sarcástico.
- Sim. Mas não foi exatamente o que eu vi que me fez perceber que ela estava com câncer. Era só uma suposição a partir dos sintomas. Depois daquele dia na festa, passei a conviver com Mily, e perceber que ela tinha alguma coisa errada foi uma questão de tempo. – respondeu com um olhar triste sobre a lápide. Agachou-se e retirou o ramo de flores que estavam murchas, recolhendo-as.
- ... – começou, parecendo recolher a raiva que lhe continha há pouco – Seria muito rude perguntar como seus pais morreram?
- Nossa casa foi incendiada. Há sempre os haters de bilionários como os meus pais, por mais que eles não dessem a mínima para o dinheiro. Digo, claro que eles gostavam de ser ricos, mas nunca colocavam o dinheiro acima de tudo. Meu pai era o homem que prezava a excelência no que quer que fazia, e minha mãe era do tipo ajudante da humanidade. – ela falou. – Eu estava durante o incêndio.
- E como sobreviveu? – perguntou , curioso com a história.
- Era noite, estávamos dormindo. A mansão tinha dois andares, mas os quartos eram colados um no outro, sabe, o meu e o de meus pais. Eles gostavam assim. Acho que foi por isso que hoje eu estou viva. Quando acordei, o incêndio já era iminente, lembro quando uma das pilastras de estilo grego da casa caiu quebrando metade da minha cama. Meu pai me salvou. Eu só lembro de ter caído sobre o jardim.
- Por isso as cicatrizes nas suas costelas e braços. – concluiu. O quê? Como ele sabia disso? Tá, tá, eu sei porque, não precisa me lembrar.
- É. – concordou. Como eu nunca achei nada disso em seu corpo? Para mim tudo nela era macio. Estranho.
- Eu me sinto culpada por não ter levado-a comigo a Nova York e, quem sabe, ter salvado sua vida. Ou talvez fosse tarde demais. – disse .
- Eu me sinto culpado por nunca ter visto que ela estava doente, e não ter correspondido aos seus sentimentos a tempo. – disse . – E me sinto arrependido por muitas outras coisas.
- Por que tá todo mundo se culpando? – eu perguntei, balançando a cabeça. – Vocês não são culpados por nada. Até eu sei que se Emily está onde está foi porque ela quis. Chega, vocês dois, ficar se culpando, arrependendo-se. Sempre vai haver algo com que você queira se culpar ou arrepender, mas de que adianta, ficar stuck on repeat e perder o que a vida ainda oferece? Você dois estão vivos, porra! Vivos! E eu já falei que odeio esse lugar?
- Eu sei... – falou triste. – Mas...
- Sem mais! Sentimento de derrotismo, vocês acham que era isso que Emily queria de vocês? – perguntei revoltado.
- Bom, na verdade , eu acho sim. – disse – Digo, eu sei que não convivi muito com Emily, e que errei com ela muitas vezes, mas ela era o tipo de pessoa que vivia do passado. Tanto que ela quis nos manter separados, para manter o trio maravilha que vocês eram quando crianças. Ela sabia que se eu entrasse na jogada, acabaria com isso.
- Olha, eu sinceramente não tenho a mínima idéia do que se passava na cabecinha de Dona Emily, mas eu sei que ela não estava sendo certa. – disse rápido.
- Concordo. – disse eu.
- Também acho. – disse , e então permanecemos em silêncio por um bom tempo, até a própria interromper (como sempre) – Eu tenho uma idéia. Mas, podemos resolver isso segunda feira, no escritório. E, enquanto isso, eu acho que devemos desobedecer a lápide e continuarmos juntos. Não quero ser parte do trio maravilha, mas quero ser parte de suas vidas, se me permitem.
- Emily permitiria isso? – perguntei.
- Garanto que eu jamais roubaria seu lugar. Amém Emily, e não confundam o papel dela com o meu. – disse , e nesse momento, eu senti a indireta tensa para mim. Era isso que eu havia feito, concordado com Emily como se fosse roubar seu lugar, isso por ter escolhido "uma delas" no ano passado. Eu invoquei a fúria de , e parecia ter sacado a indireta também, já que olhava para mim to kill.
Começou a chuviscar, o que me fez olhar para cima, e avistar nuvens carregadas no céu.
- É melhor sairmos daqui, antes que nos molhemos. – disse – E acho que todas as desculpas estão aceitas, sim?
- Yeah. – resmungamos em uníssono eu e .
- Que bom, porque eu quero ir pra casa e já estou com fome de novo. – disse , enquanto eu e demos risadas abafadas, e os três saímos correndo pelo cemitério assustador até o estacionamento.


CAPÍTULO 12 – MUSE

POV


Eu sabia que algo estava errado. Digo, além do fato de ser um domingo de manhã e eu não ter dormido por simplesmente ter virado a noite com sexo e romantismos. Sim, talvez algo estivesse realmente errado. É sempre assim quando eu sinto o gosto básico da suprema felicidade, algo sempre estava errado. dormia em minha cama enquanto eu continuava a encarar minha própria imagem no espelho do banheiro, para variar. Era quase como um mantra fazer aquilo, na esperança de encontrar em si respostas para as muitas perguntas.

Emily sempre foi uma pessoa meio que errada; ela era louca, e morreu levando o coração de um homem – em especial – consigo. . Como eu o adorava, como eu o queria bem, tudo isso já era clichê em minha mente. Doía, mais do que deveria, ver sofrer com a maldita Emily, ou pior, com sua lápide. Era necessário separá-lo desse mundo que vivia. Eu sabia que podia fazer algo, mas não aceitava que separá-lo de Emily, a adormecida, fosse separá-lo de mim também. Pode soar ridículo, mas e se resolver que nunca ia ter coragem para acabar com Paige, o que eu faria? Para quem eu recorreria? Quem eu abraçaria?
Sim, eu sei, é puro egoísmo transcorrendo pelos meus pensamentos, mas eu nada podia fazer se tinha uma relação única com aquele homem. Triste homem chorando pelos cantos, por uma amada que não era eu. Digo, eu tinha , que parecia me amar, que eu, provavelmente, também amava; mas como as coisas poderiam ser diferentes quando o assunto era o sempre grande Senhor ?
Quem, afinal, era o Boss detentor de 51% das ações do meu coração, do meu amor?
É, como eu disse, algo estava incrivelmente errado.
Ajeitei os cabelos para trás e dei mais uma olhada para o boxe do banheiro. Banho, , banho. Num pico de coragem, retirei a única peça que me impedia de ficar completamente nua, uma calcinha, e fui em direção ao boxe. Fiquei na posição exata sob o chuveiro e fechei os olhos, ligando o chuveiro devagar. A água estava mais quente do que costumava, provavelmente coisa de , que eu havia descoberto nesse fim de semana que o garotão só tomava banho com aquela água a queimar a pele. Eu costumava ajeitar a resistência, mas acabei por dar de ombros, eu só queria sentir a água tocando minha cabeça e ombros, e alisando o resto do corpo.
Providências, era isso que eu precisava fazer, tomar providências. Todo e qualquer problema é resolvível, eu só precisava de uma solução; a começar pelo que mais me incomodava além da tristeza de : A existência de Paige Wallace.
Um sentimento bom e mal ao mesmo tempo me invadiu naquele exato momento. Eu só pude lembrar de um nome: Victor Hugo Knox, o irlandês filho da puta.
Sim, sim, e por que não? Era impossível que Victor Hugo convivesse no mesmo espaço de uma mulher bonita sem tomar nenhuma atitude. Paige não era o tipo poço de beleza, mas bem parecia uma daquelas modelos da Vogue, com dentes incisivos separados, magra demais, e... Sem estilo-próprio.
Talvez eu estivesse divagando demais, e tivesse de voltar a por os meus pés no chão. E essa alternativa, com certeza, era a mais provável.
Acabei de tomar banho e fiz minha higiene pessoal; passei hidratante no corpo, depilei as pernas, penteei o cabelo e finalmente pus uma toalha para sair do banheiro. Abri a porta vagarosamente, para não acordar , e então na ponta dos pés dirigi-me ao meu armário, pegando um blusão de lã azul e usando uma daquelas calcinhas pin-up que eram um pouco mais largas e confortáveis. Devido ao frio que se fazia pela casa, e pelo fato de meus cabelos estarem molhados, pus meias 7/4 e, simplesmente, voltei a dormir, mesmo ainda pensando no "Problema Paige". Domingos, preguiçosos demais para pensamentos tensos...

- ... – senti beijos molhados sobre a minha nuca. – Hum, que chefe perfumada. – mãos grandes tocaram meu pescoço de uma vez, tirando meus cabelos do lugar, fazendo com que um filete de ar frio me arrepiasse. Era o hálito dele me invadindo. Eu já sabia quem chamava meu nome, mas estava muito carente de dengo, e permaneci com os olhos fechados. – , , ... Acorde, sim? Tenho uma coisa para te mostrar.
- Uma coisa? Que coisa? – perguntei com um sorriso bobo nos lábios e os olhos ainda avidamente fechados. Senti me virar para si e morder meu queixo sem qualquer permissão ou aviso prévio. Foi automático que eu tivesse um leve, porém assustado, espasmo tomando meu corpo. Isso porque eu também sentia cada curva do corpo dele, tão rígido com aqueles músculos desenhados, sobre o meu. Sentia seu cheiro de sabão e hálito de pasta de dente de menta; e o jeito que sua pele fria tocava a minha, quente, recém saída de pesados edredons.
- Vem, é na televisão. Vai passar sobre a festa da Revista. – ele levantou de cima de mim, fazendo-me abrir os olhos apenas para resmungar olhando naqueles dois globos .
- Trabalho, ? Hoje é domingo!
- Hoje é domingo, mas o mundo não parou de girar, cara chefe. Agora vamos, tire esse corpinho lindo da cama e venha comigo para o sofá. – ele disse, estendendo as mãos para mim. Levantei com sua ajuda.
- Chato. – resmunguei – Eu vou lavar o rosto antes, ainda consigo assistir resquícios de meu sonho.
Beijei na bochecha áspera devido a rala barba e andei ao banheiro. Mais uma vez, tive que encarar a minha própria face diante do espelho; eu ainda estava realmente incomodada com a existência de Paige no nosso relacionamento. Tinha que acabar. E logo.
Coloquei o cabelo para trás, penteando a juba que havia saído do Reino de Simba, já que eu havia feito o favor de dormir com os cabelos molhados. Prendi tudo num coque com um elástico, e ajeitei as partes mais chatas com um daqueles cremes de cabelo faz-tudo era-uma-vez-leoa. Assim, finalmente, lavei o rosto, sentindo os poros da minha pele abrirem-se para receber a água quente. Delightful.
Quando cheguei à sala, estava espalhado pelo sofá, assistindo canal de fofoca. Espera, canal de fofoca? Ele me acordou para ver canal de fofoca?
- Senta aqui, . – ele apontou-me seu lado, ajeitando-se no sofá. – Já vai começar.
- Começar o quê? – perguntei, sentando-me perto dele, enquanto sentia o seu braço rodear minha cabeça.
- Você vai ver... – ele disse. Olhei para a televisão, que acabava de passar um daqueles comerciais ridículos de pizza. Como conseguiam vender pizza colocando uma pessoa relativamente gorda na propaganda? É muita falta de atenção aos detalhes.
Logo um programa começou, e todo o cenário daquela incrível festa de uma sexta à noite, apareceu em flashes.

"A London Music, revista de música e tendências, resolveu voltar com tudo à ativa. Nessa sexta-feira, 12 de fevereiro, houve uma das melhores e maiores comemorações desse início de ano; superando muitos eventos já previstos na estação. A inauguração da revista seguiu com grandes nomes, não só convidados VIP’s, mas também incríveis bandas hospedando rock ‘n roll moderno e extraordinário.
Com nova direção, a London Music saiu em disparada nos primeiros dias de venda; e está prometendo muito para ser uma das guias do mercado de música; coisa que ninguém jamais imaginou. E ainda ganhou filiais fora do país, mais inimaginável ainda para os nossos críticos.
- presidente da companhia , de Nova York, agora comandando a Revista - subiu ao palco para cumprimentar seus convidados, sendo recebida com muita alegria. "


E então, passou um vídeo em alta resolução, mostrando o momento em que eu deixei de ser apenas para me transformar na grande ; de uma timidez irreconhecível ao glamour.
- Se não fosse pelo Casablancas eu acho que não ia conseguir nem falar nesse momento. – eu comentei rindo, virando-me rapidamente para observar as feições de ; ele que assistia atentamente ao noticiário.
- Eu gostei do vestido. – ele comentou, com a boca entreaberta.
- Obrigada.
- Mas estava muito indecente. – completou, fazendo-me dar um tapa em sua perna, de leve.
- Deixe de besteira. Se você gostou é porque ficou bonito. E o que é bonito é para mostrar. – resmunguei.
- Mulherzinha metida! – ele disse, finalmente desgrudando os olhos da tela.
- Deus me fez assim, cherié. – beijei-lhe os lábios frios rapidamente, voltando a assistir o programa sem muita atenção.

"... A banda The Strokes foi a primeira a se apresentar, seguida da banda inglesa Muse, e a sumida dos Tops, Garbage.
‘Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard são excelentes músicos e compositores. Juntos, eles sequer parecem ser apenas três pessoas, soam como uma orquestra inteira; a melodia é completa. A música deles junta rock, pop, e ainda um pouco de música clássica. É delicioso de se ouvir.’ Comentou a um de nossos repórteres, sobre a escolha da banda Muse. ‘O álbum Resistence é inteiro de músicas maravilhosas. Qualidade impecável.’ Completou.
As faixas..."


- Engraçado que eu falei isso, mas nem pude assistir ao show deles. Todos esses VIP’s para serem atendidos e cumprimentados, uma chatice.
- É o que dá querer mandar em tudo. – disse, e antes que eu pudesse reclamar, ele me encheu de beijos no rosto. – Eu assisti ao show inteiro do bar.
- Você tem que parar com essa mania de beber demais. Vai perder os melhores momentos da sua vida porque vai estar bêbado e sem lembrar do dia seguinte... Que nem uma certa pessoa. – comentei.
- Eu não bebo tanto assim. É o jeito inglês de ser, você sabe disso. – falou, levantando-se.
- O que foi? – estranhei ter saído do sofá.
- Teve uma música que eu ouvi, eu queria te mostrar. Você tem o CD... – deixou-se interromper pelo som da televisão.

"Confira um pouquinho do que rolou no show do Muse, na Inauguração da London Music!"

E então Undisclosed Desires começou a tocar, e puxou-me para fora do sofá, acolhendo-me em seus braços.
- Vamos dançar Muse? Sério?
- , me faz um favor. – pediu. Levantei o olhar para ele; seus olhos sérios e profundos. – Cala a boca e ouve.

I know you suffered (Eu sei que você sofreu)
But I don't want you to hide (Mas eu não quero que esconda)

cantava a letra da música perto do meu ouvido, embalando-me em um ritmo próprio, como quem dança valsa ouvindo rock’n roll.

It's cold and loveless (É frio e sem amor)
I won't let you be denied (Eu não vou deixar você ser negada)
Soothe me (Me acalma)
I'll make you feel pure (Você me faz sentir puro)
Trust me (Confie em mim)
You can be sure (Você pode ter certeza)

O perfume que exalava do pescoço dele era tão viciante que o meu rosto não se atrevia a se mexer, para não perder qualquer centímetro daquele cheiro. Seus cabelos, lavados no dia anterior, ainda cheiravam ao xampu que usava; e toda a sua masculinidade, a mesma que me fazia derreter em seus braços, dissipava-se em eflúvios ao meu redor. Fechei os olhos e deixei a música fluir, ignorando qualquer outro som que não fosse Muse ou .

I want to reconcile the violence in your heart (Eu quero reconciliar a violência em seu coração)
I want to recognize your beauty's not just a mask (Eu quero reconhecer que sua beleza não é apenas uma máscara)
I want to exorcize the demons from your past (Eu quero exorcizar os demônios do seu passado)
I want to satisfy the undisclosed desires in your heart (Eu quero satisfazer os desejos secretos do seu coração)

Como poderia a música traduzir o seu momento de declaração de tal forma? Como poderiam notas músicas me soar tanto como um alívio repentino para todo e qualquer problema? Como poderia a sua voz rouca perto do meu ouvido, cantando as palavras exatas, deixar-me tão a mercê de sua vontade?

You trick your lovers that you're wicked and devine (Você engana seus amores dizendo que é cruel e divina)
You may be a sinner (Você pode ser uma pecadora)
But your innocence is mine (Mas a sua inocência é minha)
Please me (Satisfaça-me)
Show me how it's done (Mostre-me como se faz)
Tease me (Provoque-me)
You are the one (Você é a única) I want to reconcile the violence in your heart (Eu quero reconciliar a violência em seu coração)
I want to recognize your beauty's not just a mask (Eu quero reconhecer que sua beleza não é apenas uma máscara)
I want to exorcize the demons from your past (Eu quero exorcizar os demônios do seu passado)
I want to satisfy the undisclosed desires in your heart (Eu quero satisfazer os desejos secretos do seu coração)

"[música em fade] Entrevistamos o…"

- Eu quero que não importe o que aconteceu com você. Não importa o que aconteceu no seu passado, o que ainda acontece pelo que você deixou mal-resolvido. Eu quero e vou estar com você. A única coisa que eu peço é que não me abandone como já fez, que não o faça nunca mais. Eu também não quero passar pelos testes dessa sua mente maléfica. – ele me fez rir, deixando um sorriso de canto de boca também escapando de seus lábios. – Eu não quero que...
- Sh... – calei seus lábios pondo os meus por sobre, afastando lentamente. – Fique quieto.
Separei-me de seu corpo aquecedor com alguma resistência. E então, peguei o terceiro CD da prateleira dos mais reproduzidos, e então o coloquei no meu potente som, passando a faixa. Desliguei a TV puxando o cabo, no que pareceu um gesto de raiva, mas era apenas minha intenção dizer: Esqueça trabalho, esqueça revista, esqueça fofoca, esqueça isso tudo.
- Somos só nós dois. – disse ao quando voltei a me aproximar, e dessa vez, fui eu que encaixei meu corpo no dele. (n/a: I belong to you - Muse)

When these pillars get pulled down (Quando esses pilares desmoronarem)
It will be you who wears the crown (Você é quem irá vestir a coroa)
And I'll owe everything to you (E eu vou dever tudo a você) How much pain has cracked your soul? (Quanta dor feriu sua alma?)
How much love would make you whole? (Quanto amor te completará?)
You're my guiding lightning strike (Você é o relâmpago que me guia)

A respiração dele já se fazia descompassada aos passos de dança aleatórios. Sua cabeça, completamente mergulhada em meu pescoço, fazia com que os cabelos finos tocassem minha pele; eu sentia leves cócegas. Deliciosas. Que seria da vida sem música? Quais palavras poderia eu achar fazendo sentindo para os meus sentimentos? Não, tudo que eu precisava era de letra e melodia.

I can't find the words to say (Eu não consigo achar as palavras para dizer)
They're overdue (Elas estão ultrapassadas)
I'd travel half the world to say (Eu viajaria meio mundo para dizer)
"I belong to you" ( Eu pertenço a você)

Passei os lábios por sua orelha, arranhando o lóbulo com os dentes.
- Eu sou sua, de corpo, alma, e com esse louco coração que agora bate sob meu peito. – sussurrei em seu ouvido, enquanto a música continuava a tocar e nós dançávamos mais lentamente. – Acho que finalmente devo me desculpar; apesar de saber que nem tudo é culpa minha. Eu sei que não. Você sabe que não.
Afastamos as cabeças dos respectivos pescoços para enfim nos encararmos. Os olhos dele pareciam ter ganhado a profundidade de um oceano, e a força de mil marés. Ele me tinha segura com aquele olhar; talvez misericordioso, talvez triste, talvez infinitamente feliz; ou talvez apenas misterioso. Toquei nossos narizes, fazendo com que hálitos de bocas nervosas se encontrassem num exalar de ar de nossos pulmões. - Mon Cœur S'ouvre à ta Voix (Meu coração está à sua voz) – cantei tão perto dos seus lábios que eles tocavam os meus num gesto de ternura. Era isso, ternura. - Ah! Réponds, réponds à ma tendresse (Ah, responda, responda à minha ternura) Verse-moi, verse-moi l'ivresse! (Derrame sobre mim essa embriaguez) Réponds à ma tendresse! Réponds à ma tendresse! Ah! Verse-moi l'ivresse! (Responda à minha ternura! Responda à minha ternura! Ah! Derrame sobre mim essa embriaguez)
Foi então que num gesto de puro romantismo, seus lábios atacaram os meus, com a fúria do mar e a beleza da lua - embriaguez irreparável. Dois se tornando um só. I belong to you. A minha ternura havia sido respondida. Não que soubesse francês, mas ele sabia ler os meus desejos mais secretos. Undisclosed Desires.
Eu não sabia se era dia, se era noite, se ainda havia trilha sonora acompanhando-nos em nossos amassos. Eu só sabia que estava completa; e que o tocar de seus dedos ásperos por debaixo do meu blusão era do deleite mais severo. Sabia que minha pele clamava pela dele; e que, pela primeira vez na vida, eu parecia ter feito a escolha certa... Não era?

CAPÍTULO 13 - CHEFE

- Louis? Quero o Senhor aqui no escritório. A-go-ra. – falei ao telefone, completamente tomada pela ansiedade e a agonia que estava o escritório da London Music naquela tarde chuvosa. Segunda-feira estava tomando a minha alma, fazendo de mim uma verdadeira chefe – e das chatas.

Em meio a tantos romantismos entre eu e o belo Senhor - que aqui perto tomava um café para manter-se acordado -, acabou também que eu não havia tido aquela conversa séria. Não era exatamente uma DR, estava mais para uma ordem direta com direito a chantagem emocional. Mas enfim, eu não podia tratar daquilo em horário de trabalho, principalmente com as coisas simplesmente borbulhando pós inauguração da revista. Novos contratos, patrocinadores, requisições de ações; muita gente investindo na renovada London Music.

Ouvi um bater na porta de vidro.
- Entre. – eu disse, dobrando as pernas de botas Blueberry. Levantei o olhar já sabendo quem era. – , por favor, sente-se.
- Sim, chefe. – ele respondeu. Seu rosto estava um misto de ressaca e beleza. Uma ironia. sentou-se na cadeira à minha frente e passou a me encarar.
- Pois bem, aqui venho discutir um assunto muito sério com você.
- Olha , se for porque você voltou com , eu sei, sempre soube que isso ia acontecer e que eu ia me fuder no final. E além do mais, eu...
- , cala a boca e vigie esse palavreado. Eu não vim aqui falar de assuntos pessoais meus, vim falar de você para você. – disse eu séria, revirando alguns papéis na minha mesa.
- O quê?
- Seu rendimento está péssimo. Se não fosse pelo pessoal que trabalha para você, , meu dinheiro ia por água a baixo, porque você simplesmente não está administrando o capital da empresa como deveria. – Vi abrir a boca para falar, mas interrompi a sua própria respiração. – Eu não sei como você se sente sobre as coisas que aconteceram com você. Eu nunca perdi o amor da minha vida, ou sei lá o que você e Emily eram; mas você precisa superar, ou vai perder tudo que conseguiu até hoje.
Ele me olhou confuso, naquele olhar desolado que geralmente dirigia-se ao horizonte, mas hoje fixava-se em mim.
- Eu já perdi tudo. Perdi minha revista, perdi Emily, perdi você... Eu não to mais nem aí. Eu não...
- , primeiramente, você não me perdeu, e nunca vai perder. Porque você sabe que eu fui sua apenas por uma noite, e sabe que aquilo terminou onde começou. Sabe disso, mas não aceita. Eu posso não ser seu amor, mas eu sou, depois de sua mãe, a mulher de sua vida. – joguei uma papelada em sua frente. – Eu estou te transferindo à diretoria de London Music NY.
arqueou as sobrancelhas.
- É isso mesmo, querido. Você precisa sair desse mundinho, precisa respirar novos ares, conhecer outras pessoas. Sair de um lugar onde tudo está ainda muito recente. Quando quiser voltar, pode voltar. Mas o negócio é que eu não confio em ninguém mais para dar parte da empresa.
- E o seu tio?
- Meu tio é estelionatário, está vivo porque eu aceitei tê-lo de volta, e porque... Você não sabe como é bom o gostinho da vingança, fazendo-o de meu capacho. – sorri-lhe.
- eu...
- Aceita, eu sei. Toma uma caneta. – pus a caneta sobre o bolo de papéis.
Olhei para ele passando a confiança que nem eu mesma sabia se existia em mim. Eu precisava que se distanciasse daquilo tudo, não conseguia vê-lo sofrer nem por mais um segundo. Eu sabia que, se ele fosse para NY, ele teria alguma dificuldade no começo; mas um homem lindo e charmoso como ele não poderia fracassa de tal maneira, e ainda em Nova York!
Uma parte do meu consciente dizia que eu estava sendo egoísta, porque tinha escolhido ficar com , e por isso não conseguia ver a tristeza do outro lado da moeda. Porém, por mais que aquele sentimento existisse, eu não poderia ignorar que tinha de salvar de si mesmo. E essa era a maior das minhas prioridades.
- Será que eu não posso... Pensar nisso e te responder depois? – pediu com um olhar de misericórdia. Ele parecia aflito e confuso, era apenas tais sentimentos que expressavam as suas feições.
- Você tem até sexta-feira. E não se preocupe, nós vamos à Nova York. Estou planejando essa viagem já há algum tempo; e não vou simplesmente largar meu melhor amigo do outro lado do oceano. – falei a ele, com um tom mais amigável e menos duro.
- Você vai comigo?
- Sim. Eu, você e Louis.
- E ? – perguntou ele, e eu pude sentir um súbito de esperança em suas palavras.
- Ele pode ir se quiser. – falei rapidamente, tentando não me manter no assunto. – Aliás... Seria ótimo que ele fosse.
- Por quê? – arqueou belamente uma das sobrancelhas.
- Acho que está na hora de visitar meu passado também... – comentei, deixando meu olhar vagar pelo horizonte, e a minha mente, pelo pretérito imperfeito. – Enfim. Há bastante tempo até essa viagem, eu só queria que decidisse logo para que eu pudesse dar entrada na papelada. E também tem aquelas outras milhões de coisas que vão ser consequência de sua promoção. Por exemplo, onde vou arranjar um novo administrador? – bufei. – Esse emprego me mata.
Ouvi uma risada abafada pela parte de enquanto eu juntava a papelada da minha mesa.
- Você nunca fez o tipo organizada. – ele me comentou, agrupando ao menos os papéis de seu contrato.
- As coisas costumam mudar. Mas eu sou mais organizada que muita gente!
- não é parâmetro, Dona .
- Então esquece meu último comentário. – rimos. – E não me chama de Dona. – falei repentinamente séria, matando-o com um olhar.
- Sim, Senhora!
- E nem de Senhora, que eu não sou sua mãe.
- Sim... Senhorita!
- Assim tá menos mal. Mas eu prefiro quando me chamam de chefe.
- Sim, chefe! – ele disse, rindo como não parecia fazer há muito tempo. Aquela risada do tipo que ecoa pela sala, aquela risada gostosa que vem do fundo do coração; aquela risada sincera, que a gente ri por besteira, mas que faz um bem para a alma. Um bem tamanho a ponto de deixá-la cor de rosa: La vie en rose. (A vida cor de rosa)
Encarei a face – finalmente – feliz de , e deixei escapar um sorriso bobo. Num lapso de responsabilidade por estar no trabalho, toquei a sua mão.
- Eu quero ouvir mais risadas como essa. – disse-lhe, sem forças para encarar os olhos assassinos. Olhei a sua mão, com algumas tatuagens sobre os dedos, e um único anel em prata que sempre me intrigava, desde a minha volta à Londres e aos meus chefes.
- Emily.
Quando ele falou aquele nome, qualquer sensibilidade ainda presente no meu corpo simplesmente se dissipou. Que porra de Emily!?
- Você não vai dizer que não vai assinar contrato por causa de...
- O anel. Foi Emily que me deu. – ele disse com um sorriso fraco.
Respirei fundo, antes que falasse alguma besteira. Eu já estava cheia daquela ladainha com Emily. Ela morreu! Morreu! Foi embora, deu os braços a Deus, Zeus, ou seja lá quem fosse a alma boa que nos guardasse depois da morte. Ela morreu, não estava mais entre nós, pra que viver de alguém que morreu sem deixar sequer um legado positivo? Emily mentiu até quando não pode mais. Emily se drogou até que alguém percebesse, até que seu organismo dissesse chega. E ele, , tinha de venerá-la! Aquilo estava além das minhas atribuições ao amor. Muito além. Eu não conseguia enxergar lógica numa coisa tão cega. Emily morreu, mas a vida tinha de continuar; porque senão, era mais fácil ter morrido junto a ela.
Eu entendia que a gente vivia para sofrer. Era um fato. Fato terrível, mas um fato. Mas a procura da felicidade... É muito mais do que qualquer sofrimento. Essa procura é o que nos faz viver, e ter os nossos melhores momentos; e morrer sem ter que se arrepender por não ter vivido. É isso tudo!
Emily quebrou uma regra natural, e ignorou os próprios instintos de sobrevivência. E ... estava seguindo o mesmo caminho.
- . – disse o seu nome com convicção, e atirei o meu olhar para ele sem medo de que ele me respondesse aquele olhar; aquele que faz minhas pernas tremerem. – Encontre um objetivo na sua vida. Escolha algo novo e incrível para viver. Tenha um sonho. Saia dessa vida de passados. – segurei as suas duas mãos. – E diria Edna Moda em os Incríveis: Quem vive de passado é museu, querido, o futuro a gente faz agora.
- Mas...
- Você não precisa de ninguém pra querer ser feliz. Você precisa de si mesmo. E depois, acredite em mim, você vai encontrar alguém que lhe confiará a chave de felicidade e a essência disso que dizem ser... – hesitei -... O amor.
Quando me percebi, estava segurando as mãos dele; e parte ruim disso era que ele havia percebido, e não estava levando aquilo ao sentido que eu desejava. me encarou com aquele olhar sugador de almas, e levantou o canto da boca num sorriso maroto. Eu estava estática, empalhada, e nem sabia ao menos porque não conseguia mover um músculo. Parecia com aqueles pesadelos em que nós gritamos, mas não emitimos nenhum som; que corremos, mas não saímos do lugar. Era enlouquecedor!
- Gosto de ouvir essas quatro letras pronunciadas pelos seus lábios ranzinzas. – ele começou a se aproximar. E eu, enfeitiçada, nada fiz. - Você não tem noção da satisfação que...
Antes que acabasse sua frase, alguém escancarou a porta de vidro; num jeito que eu acreditava ser agressivo, mas era apenas estúpido.
- Wallace.
- Oi ! – ela sorriu, entrando no meu escritório como se não estivesse lá. – Trouxe meu currículo. Sabe como é, eu me formo esse semestre, estou precisando de um emprego. A única pessoa que eu conheço capaz de me empregar é você.
- É mesmo, Paige? – perguntei a ela, transbordando ironia. Foi aí que percebi que eu havia saído do estado de congelamento. Soltei rapidamente as mãos de , olhando para ele de forma intimidadora.
- , pegue seu contrato e saia daqui. – disse-lhe com autoridade. Ele me olhou como quem não estava entendendo e eu lhe respondi silenciosa, apenas mexendo os lábios: “Você passou dos limites.” sorriu, e também silenciosamente, me respondeu: “Desculpe, chefe.”
Não adiantava eu ser autoritária, insana, meticulosa. Eles sempre iam adorar me deixar louca. E quando digo eles, no plural, vocês já devem saber a quem eu estou me referindo.
andou até a porta escancarada, e piscou no maior estilo James Bond, fechando a porta sutilmente ao sair.
- Paige Wallace, sente-se. – disse eu à filha do capeta, que pela primeira vez na vida, fez algo útil. Eu sabia que se ela não tivesse escancarado a porta de maneira estúpida, estaria prestes a acabar com qualquer risco de fidelidade existente entre mim e . Seria o fim. Eu não poderia conviver com aquilo. Eu poderia ser capaz de fazer muitas coisas: de maratona Kama Sutra a pular de bungee-jump, mas trair... Não. Nunca. Eu poderia não ser o tipo de pessoa que não dizia ‘Eu te amo’ com freqüência, podia não ser o tipo que fazia a alternativa Byroniana, entretanto não iria me atrever a quebrar a barreira da fidelidade. Não quando fui eu quem, uma vez, fui A Outra.
- Dê-me seu currículo, por favor. – Eu respirei fundo, pegando o currículo da mão de Paige. Ela parecia um pouco nervosa e estranha; eu realmente não queria contratá-la, mas não custava nada dar uma chance a ela. Bem, na verdade custava sim; só que eu estava devendo uma.
- Aqui, ! – ela disse insuportavelmente saltitante.
- Meu nome é .
- Mas te chama de .
- Você me chamará de .
- Mas... – ela continuou, e antes que falasse qualquer coisa, encarei-a num olhar que só uma mula não conseguiria interpretar como “Cala a boca, porra.”
Comecei a ler, então, seu currículo.
- Você não tem nenhuma experiência prévia, além de um estágio na Universidade? – perguntei-lhe, arqueando uma sobrancelha.
- Não. – ela falou triste. – Sabe, meu pai sempre foi muito rico, e quando ele... Mudou de casa, eu fiquei para cuidar de minha mãe. Ela é meio neurótica.
- Bem sei disso. – comentei, deixando escapar. Paige apenas riu.
- É assim mesmo. Eu ainda me impressiono de ainda esteja comigo. – Paige disse com um olhar vago. Senti um frio na espinha. Shit. – Digo, minha mãe só falta perguntar que preservativo ele usa; enche o saco dele, já era tempo de desistir de mim, como todos os outros.
- Olha Paige... – suspirei, já sem forças. – Eu acho que tenho como te ajudar. Estou recrutando um time para trabalhar em Nova York, na filial London Music de lá. Já tenho um designer, mas você pode trabalhar com ele, e aí vai adquirir experiência.
- Eu adoraria! E poderia me livrar da minha mãe!
- É... Poderia. Quando você se forma?
- Agosto.
- Então, assim que conseguir seu certificado pode falar com o Louis na época. Já vai estar tudo encaminhado.
- Ah! Obrigada , digo, ! Você é muito gentil! – ela disse, pulando na cadeira. Eu sorri sem graça.
Paige era muito... Ingênua. Era isso. Ela era tão ingênua, que mal sabia se portar, mal sabia como escolher as palavras. Falava coisas que não devia a pessoas que não se importam. Eu sabia que estava mandando Paige para longe, mas o que eu demorei a perceber, foi que eu estava mandando-a para o exato lugar que mandaria . HOLY FUCKING SHIT!


O infernal dia acabou. Acabou com seus olhares sedutores, acabaram as ligações da mãe de Paige reclamando por eu ter conseguido um emprego pra ela apenas do outro lado do oceano; acabou a cara assustada do Dominic ao perceber que a festa arrecadou tanto dinheiro que acabou por cobrir as dívidas do mês. Acabou mais um dia de trabalho. Ou ao menos eu achava que tinha acabado. Ao sair do meu escritório, ajeitando minha roupa que estava toda amassada, percebi que ainda havia uma luz acesa em toda a Redação: .
Andei em passos furtivos até lá, ouvindo os meus saltos baterem toctoc no chão. Meu coração acelerava só de pensar nele. Eu sentia-o palpitar sob meu peito, e uma leve tremedeira invadir-me. O que era aquela sensação! A qualquer momento eu poderia, simplesmente, desequilibrar e cair: minhas pernas estavam tontas.
- ? – eu ouvi a voz de ecoar pela Redação da London Music. Eu queria voar, queria ir mais rápido, mais rápido! Trotei até o escritório dele, mas quando cheguei lá, não encontrei o que desejava encontrar. Não havia ninguém.
- Porra , onde foi que você se meteu? – perguntei com certa fúria. Uma risada ecoou em resposta. Uma risada rouca, brincalhona; a risada dele.
- , eu quero te falar uma coisa muito séria! – falei para o nada, andando pela Redação, procurando-o debaixo das mesas. Quanto mais eu me afastava de seu escritório, tudo ficava mais escuro, e eu só via o que estava na minha frente porque usava a luz do celular. – Olhe , eu vou falar logo, porque já estou mais do que atrasada para lhe dizer isso. Eu quero que você acabe com Paige.
- Foi o que eu fiz hoje de tarde. – ele respondeu, fazendo sua voz ecoar, e eu ter a leve impressão de que estava perto da cafeteria/cantina. Continuei a andar à sua procura, ouvindo seus passos furtivos moverem-se junto aos meus, confundindo-me.
- Sério? Não deu tempo nem de eu fazer chantagem emocional. – eu disse rindo.
- Pois é. Saiba de uma coisa. – de repente a voz dele mudou de fonte sonora, parecia vir do outro lado. – Eu não traio.
- Ótimo.
- Metida. – ele riu.
Passaram-se dois minutos em que eu andava e nada de ele aparecer. Merda.
- , apareça de uma vez. Isso não está tendo mais graça. Você tem noção do quanto esses saltos machu... – fui interrompida em minha frase por duas mãos grandes que fixaram-se sobre a área dos meus olhos. Um corpo, tão de repente, surgiu atrás de mim, quente. Se eu não conhecesse o perfume que já envenenava o ar, acharia que era um ladrão. Meu coração estava mais acelerado do que antes, e eu respirava ofegante, pela pura adrenalina que tomava meu corpo. E então, sutilmente, eu pus as minhas mãos sobre a dele.
- Não vai perguntar quem é? – ele perguntou, tão perto do meu ouvido que eu poderia ficar surda com a sinfonia que era a sua voz.
- Você...
- Why so serious? disse a frase sussurrada, soltando o ar em meu pescoço. Eu nada consegui fazer, a não ser, sorrir.

CAPÍTULO 14 – ACERTO DE CONTAS

5 meses depois, 12 de junho.

Trabalho difícil do dia: Supermercado. Depois de – finalmente – reformar o apartamento, estava na hora de dar um jeito na cozinha, trazendo, portanto, ingredientes para alimentar os monstrinhos da casa. Isso é, a lombriga que com certeza morava na barriga de , e a minha fome incontrolável, depois de gastar tanta energia. Sim, eu era assim. Não conseguia controlar minha fome, queria comer o tempo todo; em compensação, parecia uma máquina trabalhando, e só parava na hora de dormir (porque até antes disso... uma máquina).
Eu assisti a seção de verduras e legumes passar, completamente confusa. Deus, como eu achava difícil escolhê-los! Seria realmente bom se toda mulher já nascesse com esse instinto, sabe, de escolher legumes e verduras.
Coloquei os fones de ouvido, deixando qualquer música relaxante tocar. Optei por deixar no shuffle, músicas aleatórias, e fiquei a cantar baixinho escorada no carrinho de compras. Passei pelos corredores lentamente, observando até as embalagens dos produtos. Minha vida me incomodava. Eu sabia que precisava dar um jeito naquilo.
Namorar escondido era pura adrenalina. Esconder, fingir, rir escondido... Essa era a realidade entre mim e . Estávamos escondendo-nos de tudo. Isso por razões óbvias. Apesar de eu ter demorado a acreditar, realmente terminou com Paige naquela tarde, logo depois dela ter passado no meu escritório para bater o cartão no quesito cara de pau. Pois bem, mas a vida continuava, e seria loucura que assumíssemos o relacionamento em público assim, das trevas. Eu era sim conhecida pela imprensa como a cara da London Music, e ainda tinha uma reputação a zelar dentro da empresa; e o mesmo seguia para . Nós sabíamos que fomos errados ao se pegar loucamente com ele ainda se relacionando com a “zero oitocentos paraguai”. Mas ainda assim precisávamos ficar juntos, era uma necessidade insaciável, louca, estúpida! Éramos amantes. Mantivemos então a relação em segredo, o que fora bem divertido no começo, e até que nos fez ficar nessa durante tanto tempo.
Ele também não estava muito feliz. A nossa última conversa, por fim, fez com que chegássemos a uma decisão hoje à noite. Por isso eu estava no mercado também. Precisava fazer um jantar decente, ao menos, na minha 999999ª tentativa de copiar uma daquelas receitas do Jamie Oliver.
Andei pelo supermercado tão lentamente que se passaram três horas para que o carrinho lotasse e eu finalmente fosse ao caixa, tirando os fones de ouvido. Foi então que eu vi algo estranho. Alguém que eu conhecia, ou reconhecia.
- ? – perguntou-me a mulher. Era baixinha, por volta dos 58 ou 60 anos, e usava mais maquiagem que o recomendável. As pernas curtas cobriam-se com meia-calça cor de pele, e o vestido rodado anos 60 lhe dava um ar de viajante do Tempo.
- Eu?
- Não acredito que não me reconhece, ! – a mulher abriu os braços, sorrindo largamente. Eu sabia que a conhecia! Fiz uma cara de reconhecedora de faces, analisando-a o mais minuciosamente possível. Ela comprava tantas Coca-Cola’s! Ah, não! Só podia ser...
- Margareth! – exclamei sorrindo. – Não acredito que é você.
- Claro que sou eu, bastardinha, e quem mais seria? – ela pôs uma mão a frente para que eu cumprimentasse-a. Ignorei. Europeus, que mania de não se abraçar! Envolvi meus braços por Margareth, enquanto aos poucos ela aceitava ser abraçada.
- Tia Margareth, a única professora que me amava! – eu disse, tentando não chorar. Morria de saudades dela! Eu sei que ela era a única que me recordava de um jeito bom da época de faculdade. Talvez porque não me fez dizer meu nome em voz alta quando derrubei a prateleira de lápis; apenas me colocou para trabalhar o dobro, até pagar o que eu quebrei. Bem, tudo menos a humilhação, certo?
- Acho que agora todo mundo te ama, querida. E olhe o que uns 15 anos não fazem com você, hein? Está parecendo gente, eu ouço o seu nome toda hora na televisão! – Margareth me disse, afastando-se.
- Vou aceitar isso como um elogio. – disse-lhe pensativa.
- , acredite, isso é um elogio. – ela me falou convicta. – London Music, hein? Quem diria, a atrapalhada ...
Fiquei envergonhada. Realmente. Não fosse por ele eu não era nada além de alguém atrapalhada com sotaque americano que ninguém queria entender.
Minha conversa empolgada com Margareth logo se acabou quando o caixa do supermercado Waitrose, com uma cara de burro amarrado, resolveu chamá-la. Ela passava os produtos falando três milhões de coisas ao mesmo tempo, e mal parecia alguém que deveria respirar. Margareth era louca, mas ainda assim era minha professora universitária favorita. Apenas envelheceu na pele, pois as roupas e a obsessão por Coca-cola continuavam as mesmas.
- Ah, você não sabe! Lembra aquele seu namoradinho safado? Victor Hugo?
Eu gelei.
- Sim, lembro dele. – disse como quem não se importa.
- Pois é, ele está trabalhando lá na Universidade... – ela comentou. Foi aí que eu parei para pensar. Eu estou no Waitrose, isso quer dizer que a University of Creative Arts estaria... A cinco quarteirões daqui! Deus, eu estava em Epson! – Está ensinando Design Gráfico. Um excelente professor, mas continua com aqueles probleminhas, você sabe. Ao menos agora sabe vestir um terno.
Victor não era o tipo que vestia ternos, pelo menos na época que eu o conheci, quando suas roupas eram jeans rasgados e camisa de banda. Sem contar em all-stars surrados, e aqueles cabelos louros tocando os ombros. Ele era lindo, mas um canalha; como 90% da comunidade masculina mundial.
- Que bom. – eu disse, colocando minhas compras em cima do balcão.
- Muita gente iria querer conhecê-la, . Você bem poderia dar uma passadinha lá comigo, não é? – ela falou quase numa súplica. Fiquei pensativa, assistindo Margareth pagar suas coisas com um cartão Visa. Assim que acabou, ela ficou ajudando a empacotar suas coisas, e eu comecei a passar as minhas.
- Eu estou com essas compras no carro e, além do mais, eu moro em Wimbledon, é um pouco longe não é?
- Não anda mais de metrô?
- Nope.
- Mudanças!
- Quer saber de uma? Eu vou. Eu vou, tem até uma estudante que eu conheço lá. E eu adoraria rever o Knox. – falei de uma vez.
- Ótimo! Então eu vou esperar, e você segue meu carro.
- Sem problemas. – disse. Pedi para o caixa cara de burro empacado agilizar a vida dele, e logo consegui por as compras no carrinho e sair em disparate com Margareth, caminho à UCA.
Estava decidido e mais do que decidido que eu enfrentaria o meu passado, então porque não fingir um sorriso e cumprimentar o filho da puta que fez a minha ruína de vida amorosa ser pior do que já era? É, não tem nada que não possa ficar pior. Aquilo era uma oportunidade de eu confrontar meu passado. So, let’s go.

O caminho foi rápido até a Universidade, e quando eu me vi olhando aquele lugar de frente, foi como sentir milhões de facas atacando minhas memórias. Tirando-as dos potes que eu as tranquei, fazendo-as jorrar em minha cabeça como um mar de um passado que me fazia enlouquecer; até hoje. Era tenebroso, eu não conseguia que aquelas imagens sumissem da minha visão.
- , você está bem? – perguntou-me Margareth, mexendo as mãos pequenas na frente do meu rosto.
- Claro, estou ótima! – disse balançando a cabeça, andando ao seu lado com passos lentos, apenas para acompanhá-la em seus passos curtos. Era muito mais alta que ela. Eu observei a entrada da UCA sentindo o meu estômago revirar. A entrada era a mesma, apenas haviam usado um pouco mais de tinta nas paredes e tecnologia na acomodação. Margareth me apresentava a todos pelo caminho.
- Muitos dos seus professores já aposentaram, pouquíssimos trabalham aqui. Eles já eram velhos nos anos 90, imagine agora! – Margareth tagarelava, empurrando-me pelos corredores. – Ah, Anos 90, uma loucura. Apesar de que hoje em dia eu não sei viver sem Twitter. – ela riu – Posso ficar velha, minha filha, mas eu estou sempre atualizada!
Eu fingi uma risada nasalada, enquanto tentava pedir ao meu coração, mentalmente, que ele parasse de querer sair do meu peito, batendo tão forte.
Margareth levou-me ao seu escritório, dando uma seção nostalgia na qual eu vi a minha foto junto ao Victor no último ano, na entrada da formatura. A maldita formatura. Dessa vez, eu deixei que os sentimentos simplesmente tocassem o meu corpo, enchessem minhas veias. Não os segurei na minha mente, ou naquilo que chamavam de coração.
- Victor me traiu na formatura. Ou sei lá quando e quantas vezes, mas eu peguei no flagra na formatura.
Margareth encolheu uma feição de nojo.
- Normal. Ele está casado agora, mas nós já tivemos que interferir uma vez, quando descobrimos que estava tendo caso com uma aluna. – ela falou, tirando a foto da minha mão e colocando-a de volta na pasta.
- Eu lembro da música que tocava enquanto eu o via com Cassandra. Eles mal se falavam e de repente se tornaram amantes em minha frente. É muita falsidade. É muito cinismo.
- É impressionante.
- Eu quis que eles queimassem no inferno, senti-me melhor depois de dar um murro na cara de Victor. Aliás, esse foi um dos motivos para que eu não sentasse e simplesmente chorasse. Não sei. Ser enganada é terrível. – baixei a cabeça, pois quando percebi, estava colocando tudo para fora para minha professora de história da arte de anos atrás. Na verdade eram exatamente 14 anos. E sim, eu me senti velha ao dizer isso.
- Querida – mania de Margareth de chamar todo mundo de ‘querida’ ou ‘querido’ – Você tem que superar isso.
- Já superei.
- Sei que sim. – ela riu – Com um daqueles bonitões que você trabalha, não é?
Arregalei os olhos molhados. Como ela sabia?
- Eu os vi na televisão, você agradecendo a eles. Já fuçaram sua vida toda, moça, todos sabem sobre você. Até eu fui entrevistada! – ela sorriu largo, fazendo pose. – Mas eu a conheço. Você tinha asas para todo garotão que passava pela universidade, e só não fez nada por causa do Victor.
- Odeio quando as pessoas me lêem como se eu fosse transparente. – resmunguei, cruzando os braços.
- Sorry, Darling. – disse-me Margareth. – Bem, eu vou deixá-la à vontade. Victor está dando aula na última sala do corredor para o oitavo semestre. Você ganhou dele, , tenha certeza disso.

Já fazia 20 minutos que Margareth havia me deixando em sua sala até que ela fosse pegar uma Coca-cola no carro. O porquê de ela ter me deixado aqui tanto tempo era, sem sombra de dúvidas, para que eu fosse falar com Victor. De uma vez por todas. Pensei em , , Emily. Pensei em Paige, na comida que estava esquentando no carro, no vinho que eu tinha que colocar na geladeira. Pensei, mais uma vez, no passado; até finalmente perceber que eu jamais iria para frente se não colocasse essa parte do meu passado no passado também. Era um fato que as coisas do passado deviam permanecer no passado. E se eu repetir essa palavra mais uma vez, eu juro, vou me jogar num abismo.
Saí da sala de Margareth decidida. Passos decididos, feições decididas. Eu era , e não deixaria que... O pretérito me deixasse para trás, e para baixo. Não mesmo. Última porta à direita. Foi de repente que um monte de gente saiu daquela mesma porta que eu pretendia entrar. Escondi meu rosto, só por precaução.
Como um lugar poderia ter um cheiro tão específico? Aquele lugar me cheirava a anos 90. Assim que a mini multidão resolveu sair da minha frente, ainda fiquei um tempo ali, parada, tentando assimilar as coisas. Foi mais do que repentino quando Paige me apareceu furiosa saindo da sala, e a voz dela ecoou pelo corredor.
- Vá a merda, Victor! Não aguento mais isso. Meus pais já conseguiram me manter na faculdade, a culpa é sua por ter sido um idiota durante todo esse tempo. Eu quero que você suma da minha vida, só isso. – ela disse andando rápido. Victor Hugo segurou o seu braço, prendendo-a na parede com força.
- E você vai fazer o quê, chamar sua mãe? Eu estou cansado desse doce seu. Aposto que você dava muito mais fácil para aquele seu ex-namorado, ou para o projetista, porque eu sei que vocês se comeram no porão. – Eu o observava de costas, e mesmo ainda tendo a mesma idade que eu, já estava um pouco grisalho, mas ainda assim, incrivelmente lindo. Cabelos curtos, um tapete em sua cabeça. Por que tão bonito? Shit.
Os dois se olhavam tão intensamente, que a minha presença era de um fantasma. E continuaria a ser, até alguém dos dois me notar.
- Grande merda. Como se você se importasse. – resmungou Paige.
- Eu me importo!
- Se importaria se estivesse namorando comigo!
- Eu sou casado, porra!
- E eu sou jovem, porra! Não esculhambe com a porra da minha vida se não conseguiu suceder com a sua. Otário. – Paige desgrudou-se dele, indo em frente e finalmente, olhando para frente. Eu. Ela. Eu. Ela. Dois olhares assustados. Pus as mãos na cintura, sobre o tecido fino do meu vestido quadriculado.
- Hello. – falei deixando o escárnio faiscar de minhas palavras. Victor me encarava com um olhar de interrogação que logo se tornou uma exclamação surpresa. Reconhecimento. – Paige, que bom vê-la. – falei com a cara de pau mais tosca vista na face terrestre.
- ! Eu, eu... Você ouviu tudo?
- Bem, surda eu não sou. Então sim, eu ouvi tudo.
- Eu não aguento mais isso! Quero ir embora!
- Você vai embora, cherié. Nova York em dois meses. Agora me dê licença, eu vou conversar com seu professor. – disse-lhe, com os olhos fixos nos de Victor.
- Você vai me defender? – perguntou Paige, tocando meu braço.
- Não Paige, eu não ligo para quem você fica ou deixa de ficar. – respondi ríspida.
- Mas ele é meu professor, e está, hum, abusando de mim! – ela praticamente gritou para mim.
- Que pena, isso é problema seu. Seja bem-vinda ao mundo real Paige. Você fez a merda, aguente até o final. Eu aposto que até hoje Victor aguenta as merdas que fez no passado, não é Victor? Como está o seu supercílio?
Eu nunca me senti tão bem em minha vida. De frente para quem destruiu meu coraçãozinho. Pobre coraçãozinho, pulando de felicidade por causa de uma vingança tão simples, apenas palavras ríspidas. Lovely.
Victor mexeu na sobrancelha, por cima de uma cicatriz que eu sorria por ter feito.
- . – falou em sua voz grossa.
- Knox. – repeti.
- O que faz aqui?
- Vim dar autógrafos. – ri alto enquanto ele olhou desconfiado – Mentira, só vim visitar a Universidade. Lembrar do passado.
- Você sempre teve medo do passado. – ele reclamou, aproximando-se. Paige ainda não havia saído do meu lado, e eu me sentia baixa demais pelo fato de ela usar saltos gigantes, enquanto eu usava rasteiras. Terrivelmente baixa. E ela se escondia do meu lado de tal forma que parecia que eu era a mãe dela, defendendo-a do homem mal.
- As coisas mudam. Bem, pelo menos na minha vida.
- Hum... – ele fingiu farejar. – Sinto cheiro de mulher apaixonada. Maquiagem bem-feita, olhar brilhando, roupas decentes. Você ficou do mesmo jeito quando eu era o seu dono.
- Eu nunca pertenci a ninguém Victor, se fiz parecer que sim, desculpe-me. – disse rípida.
- Bem... – ele se aproximou em demasiado. O engraçado é que eu não perdia mais o ar quando senti o seu perfume, ou o seu olhar brilhando sobre o meu. Minhas pernas não bambearam, estavam rígidas ao chão. – Você não pode negar que um dia seu coração foi meu.
- Não. Isso é um fato. – aproximei meus lábios dos seus, rapidamente desviando e beijando-lhe a bochecha. – E também é um fato que você perdeu meu coração para sua cabecinha de baixo, que sempre tem que falar mais alto, não é?
Victor me encarava com os olhos de esmeralda confusos, perdendo-se. Eu me sentia charmosa como uma princesa quando seu olhar caiu sobre o meu, e os meus olhos desviavam-se do seu num ar de ignorância. Se eu soubesse durante esse tempo que passou que eu tinha superado ele! Ou talvez... Talvez não houvesse assim tanto tempo para que eu superasse-o. Talvez eu só superei quando meu coração voltou a ter, de certa forma, um dono; ou dois donos, que fosse!
- Eu aconselho que você se afaste da Wallace, já que ela não te quer. Ainda continua de uma beleza estonteante, consegue outras que...
- Eu não quero outras. Eu quero ela. – ele resmungou, tocando a Wallace com a mão grande. Suspirei.
- Você quer demais. Está casado, não é? – olhei para a aliança. – Bem, então devia estar satisfeito. Uma pena que você não aprendeu a lição.
- Ah! – ele riu loucamente – Você pensa que me ensinou uma lição? – riu mais ainda, olhando para minha cara.
- Sim. – respondi convicta.
- Coitada de você, .
Olhei para Paige ao meu lado, ela não parecia feliz. Sua ingenuidade era um ponto, sua perversidade – pelo menos para o lado do sexo – era outro ponto, e suas lágrimas loucas para escorrer eram o ponto final. Suspirei mais uma vez. Eu via a risada de Victor em slow motion, e então eu fui, vagarosamente, cerrando os punhos; um sorriso brotando dos meus lábios rosados.
Em um segundo, Victor estava rindo, em outro, estava com a mão no rosto agachado, xingando todos os nomes que sabia.
- Coitado de você, Victor. – disse eu, com um ar superior que nem eu mesma sabia de onde tinha vindo. Eu havia esmurrado-o exatamente como fiz catorze anos atrás, e ele nem ao mesmo se deu ao trabalho de aprender a se defender de mim. – Eu sinto pena de você.
- Você! De novo! Sua... – gritou ele, parecendo, sei lá, ator de novela mexicana levando um murro pela primeira vez. Segurei-o pela orelha, e fiz ele olhar o meu rosto.
- Primeiramente, fale baixo, que ninguém quer ouvir a gazela chorando. Segundo, você acabou de levar uma surra de uma mulher, de novo. Terceiro, isso foi para você aprender a lição: Não traia. E no seu caso, se você trair enquanto eu estiver por perto, você não vai só perder confiança, pode perder seu rostinho bonito.
Eu ria baixinho, querendo não dar uma gargalhada de Cruela Cruel conseguindo o que queria.
- Você vai ser presa! – ele reclamou, ao menos não gritou.
- Você também, seu velho pervertido! – resmungou Paige ao meu lado, finalmente fazendo algo útil. Dei de ombros e abracei Paige de lado, eu estava tão feliz que nem reclamaria da minha cópia 0800 por ter ficado com o cara com quem meu coração pertencia por tanto tempo. Além do mais, Deus, como porradas poderiam ser revigorantes!
Dei as costas ao maldito Victor Hugo Knox, e não ligaria de vê-lo de novo, xingar e bater nele era uma terapia e das melhores. O sonho de qualquer mulher. Despedi-me de Paige antes de descer as escadas, e voltar a me preocupar com uma das poucas coisas que realmente me importavam, talvez a mais importante; .

CAPÍTULO 15 – WHO IS THE BOSS?

O meu apartamento estava digno de se olhar. As paredes da sala estavam cobertas de madeira e alvenaria, dando um ar de exterior para o lugar. Eu havia trocado o sofá para algo mais aconchegante, como uma namoradeira e duas poltronas. No meio de tudo, tinha uma mesa de centro bem baixinha, onde coloquei um ornamento japonês que era realmente uma graça. As cores predominantes na sala eram marrom, preto, branco, cinza e tons de roxo. Na parede foi pendurada uma televisão de plasma 42’’ Scarlett, de alta definição; e os meus muitos CDs e DVDs foram organizados em prateleiras sob a TV.
A sala de estar era também a sala de jantar, o que me fez apenas adicionar uma mesa apropriada para as refeições e confortáveis cadeiras. Um grande lustre fazia parte da decoração, ficando logo sobre a mesa, e dando um ar longínquo e levemente vitoriano. Dois pratos e talheres já estavam postos, e um descansador esperava o prato principal.
Na saleta - onde ficava a sinuca - pintamos, eu e , as paredes de vermelho-sangue; e enchemos com alguns quadros antigos os pontos sem janelas. Por sua vez, as largas janelas foram combinadas com belas e grandes cortinas escuras, fazendo com que a pequena saleta tivesse um ar vitoriano renovado. Prateleiras com livros foram colocadas em um dos lados do lugar, e um novo e aconchegante sofá de veludo encaixou-se perfeitamente em uma das extremidades da sala. Estava definitivamente agradável.
O jantar estava marcado para as 9 horas da noite. Um pouco tarde, mas a folga da sexta-feira era apenas para mim, estaria no trabalho até aquele horário mesmo.
Entrei no apartamento com dificuldades devido ao tanto de sacolas que carregava. O porteiro era um mala, e só havia ajudado com as compras até o elevador. Maldito seja. Meu caminho sofrido até a cozinha me deu uma vontade de ter ataque de pelanca e não arrumar mais nada. Eu nunca achei que tivesse o dom de cozinhar, mas também nunca parei de tentar. Meu pensamento era sempre: Quando eu crescer, vou casar com um cozinheiro, que, além de cozinhar, vai amar lavar pratos. Ninguém merece lavar pratos. Mas é claro que no final eu acabei dando uma de cientista maluca na cozinha, e o homem que – bem – eu provavelmente casaria, cozinhava tão bem quanto eu. Sobre lavar pratos, bem, nós dividimos os dias e colamos a tabela com um ímã na geladeira. E era independente sobre em que casa nós estaríamos.
Rolei os olhos com meus pensamentos e comecei a organizar os produtos que estavam nas sacolas em seus respectivos lugares. O design da cozinha me ajudava bastante, já que havia uma boa quantidade de prateleiras e a dispensa não economizava espaço. O cômodo era claro, em tons pastéis e mármore branco. As paredes eram cobertas com tinta bege e azulejos com um tom mais escuro colocados de forma aleatória. O fogão era uma coisa linda de se ver, e a geladeira – escolhida por – tinha tantos compartimentos que eu só seria desorganizada se quisesse. Estar rica é estar em outro patamar da vida. Acredite. Em pensar que eu recusei dinheiro durante tanto tempo da minha vida.
Quando tudo estava em ordem, eu já me sentia uma porca suando. Abri as janelas do apartamento, deixando o ar fresco entrar. Queria tomar banho, mas não ia adiantar; porque preparando o Courguette ao Carbonara ia me sujar toda de novo. Fui rapidamente até a sala, ligando o som e deixando uma playlist qualquer a tocar. Foi no exato momento que eu comecei a colocar a mão na massa como cozinheira, que as músicas mais interessantes começaram a tocar; e então a minha história se resume a rebolados, ingredientes e muita lambança.

POV

Despedi-me da London Music com um sorriso no rosto. Era o meu momento de glória, iria pedir a minha em namoro. E depois iria fazer declarar publicamente da forma mais brega possível, para que ela se envergonhasse, e quisesse esconder o rosto no meu pescoço. E então eu ia sentir sua respiração perto de mim. E depois ela reclamaria muito, tentaria me bater; e no final nós acabaríamos na cama, num sexo romântico e selvagem ao mesmo tempo. Ah... Devaneios!
Girei a ignição do carro, ouvindo-o roncar quando acelerei. Eu não poderia estar mais feliz.
O caminho foi sinuoso até a casa dela. A verdade é que às vezes era difícil diferenciar se aquele era o apartamento dela que eu dormia de vez em quando, ou se era o meu apartamento que ela dormia de vez em quando. A troca de chaves foi uma idéia maliciosa, e que deu muito certo. Eu nunca pensei que seguiria os passos básicos de um relacionamento daquele jeito! Parecia algo.... Meant to be.
Não passei muito tempo pensando se iria propor ou não, mas tinha a séria habilidade de fazer coisas simples virarem complexos indecifráveis. Ora, era só um namoro, e qual era a grande coisa sobre isso? Ah, claro. A capacidade de falhar em relações amorosas é mérito dela, e ela explicou trezentas mil vezes, e a única coisa em que eu consegui me perguntar era por que alguém como ela se deixaria sucumbir a coisas mínimas como aquela? Namorar era tão simples; acabar um namoro, aí sim, é outra história. E por que ficar remoendo o fato de não ter namorado antes de mim?
Nosso relacionamento antes de ela se irritar comigo e com toda aquela história com Emily nunca teve um fim formal. Nós apenas separamos; para mim foi abandono. Eu comentei isso com ela na nossa primeira discussão de relação, mas, para variar, disse que eu superestimava o fator abandono pelo lado masculino. Disse que eu não estava acostumado a perder mulheres daquele jeito. Era verdade? Claro que era; e é óbvio que eu não admiti. Vejamos bem, o final da discussão foi feliz: Sexo de reconciliação.
Sorria tão freqüentemente com meus pensamentos que mal percebi quando cheguei na frente do prédio de . Estacionei na frente do portão, saindo do carro e entrando rapidamente no prédio, indo direto ao elevador sem nem cumprimentar o porteiro. Eu sinceramente achava que ele era gay; tratava-me bem, mas fazia o contrário com . É, definitivamente ele era gay.
Chequei o relógio mais uma vez: dez horas e vinte e oito minutos. E a minha capacidade excepcional de atrasar para um encontro. Ajustei o paletó ao meu corpo, bagunçando o cabelo do jeito que ela gostava, cheirando o hálito e checando o visual. Suspirei lentamente ao girar a chave na fechadura, e abri a porta. Dois perfumes me invadiram de imediato: cheiro de massa italiana e o perfume de maçãzinha de . Na verdade, o perfume dela não era de maçã, mas o frasco era, e eu nunca lembrava o nome do perfume, mas adorava.
Ela estava deitada sobre a namoradeira roxa, com as canelas descobertas e a pele a brilhar; talvez um novo hidratante especialmente para que minhas mãos escorregassem com mais facilidade pelo seu corpo. Usava uma incrível roupa preta, que só de olhar eu me sentia revitalizado. O couro presente na parte de baixo moldava suas curvas, e o corpete delineava seus seios com perfeição. Um sorriso tão malicioso quantos meus pensamentos fez-se em meu rosto. Em uma das mãos segurava uma taça de vinho, e bebericava, parecendo não perceber minha presença. Victor Sylvester era o som de fundo, tocando talvez alto demais, When I fall in love.
Em passos seguros atravessei a sala até o som, abaixando-o, fazendo com que aquela mulher notasse minha presença. Ela levantou o olhar daquele jeito de quem não se importa, mas assim que seus olhos cruzaram com os meus, estávamos conectados à suma importância.
- Então o senhor editor chefe resolveu chegar. – ela comentou, levantando-se do sofá para se aproximar perigosamente de mim. Inalei mais fortemente o seu perfume, e me deixei levar pelos instintos que me possuíam. Puxei-a pela cintura, forçando o encontro de nossos corpos. Ela continuou séria. – Atrasado.
- Desculpe-me chefe. Muitas coisas a serem delegadas sem a sua exímia presença na empresa. – falei pomposo, automaticamente aproximando meus lábios de seu pescoço. Beijei-lhe cada extensão de pele descoberta na área do pescoço e clavícula. Em um instante o seu rosto sério demonstrou a fraqueza de um sorriso, e uma consequente risada quando a minha barba mal feita fez cócegas.
- Está desculpado. – ela disse calma.
- Sério? – perguntei-lhe impressionado. A música fazia com que seus quadris se mexessem de um lado para o outro, e eu tinha quase certeza que ela não se apercebia do rebolado. Inevitável deslizar as mãos para sua bunda.
- Bem, talvez eu lhe faça sofrer comendo meu courguette ao carbonara. Ou pelo menos a tentativa de fazer aquele prato. – disse, olhando em meus olhos. Beijou rapidamente meus lábios, afastando-se sem nem dar tempo de eu retribuir o beijo.
- Você cozinhou? – perguntei assustado. Ela concordou com a cabeça. – Inacreditável.
- Bem, pois é, eu cozinhei. E eu acho que nós temos muito a conversar... – se afastou de mim, saindo dos meus braços furtivamente para abaixar um pouco o som.
- ... – chamei-a.
- O quê?
- Eu não estou com fome.
- Eu não quero saber se você está com fome. Você vai comer. – ela me disse, autoritária. – E se quer saber, você está ficando muito magrinho. – eu fiz bico. – Ah, ! Vai que eu acertei dessa vez? Você vai perder de comer meu maravilhoso courgette.
- , eu confio em você para muitas coisas. – fitei seus olhos felinos – Mas cozinhar...
Ela me encarava com tamanha fúria que meu corpo respondeu com um passo retardado.
- , você é inacreditável. – fez bico e saiu. Ótimo. Teimosa. Acha que pode fazer tudo excelentemente bem. Alguém tinha que dizer não a ela! Vai que a comida estava envenenada com o fruto do gosto ruim? Argh! Ela sempre esquecia de colocar alguma coisa, ou esquecia o forno ligado e queimava as coisas; a única coisa que sabia fazer eram ovos, bolo de chocolate, uma ou duas sobremesas e mais arroz e feijão. A mulher falava três línguas fluentemente, sabia tocar vários instrumentos, desenhava como uma artista nata, sabia geografia crítica e política; uma decoradora excelente, leitora assídua de clássicos, presidente de uma empresa... Se ela ainda soubesse cozinhar, minha auto estima estaria seriamente danificada.
Fui à sua procura, encontrando-a encostada no balcão da cozinha. percebeu minha presença rapidamente, e armou o olhar almejante ao homicídio para mim. Bem, eu já era à prova de suas teatralidades quando se sentia ofendida. E eu aposto como se ela abrir a boca no exato momento em que eu por meus pés na cozinha estará cheia de um vocabulário erudito. Diria a falecida Emily, apareceria cheia de dedos.
- Por que tu entras em minha cozinha? Quem deu a ti permissão para tal ato? – perguntou ela, toda pomposa. É, ela estava cheia de dedos.
Olhei para a panela no fogão que guardava o seu tão dito molho carbonara. Na pia, uma vasilha de vidro estava cheia com o macarrão courgette. Silenciosamente, peguei uma colher no escorredor e provei um pouco do molho da panela.
- Só um pouco mais de sal. – comentei com a voz baixa, pegando o sal do saleiro e jogando pitadas sobre o molho da panela. Liguei o fogão, esquentando o molho e mexendo um pouco. me observava, mas eu não queria encará-la no momento. Não tinha, então, a mínima idéia de que careta fazia. Ela odiava encarar o simples fato de que eu era melhor cozinheiro que ela. Ela odiava estar por baixo em qualquer coisa; e se ocorresse o contrário em algum momento, não seria da minha que estaríamos falando. Apesar de tudo, somos orgulhosos, teatrais, metidos, e também um excelente casal.
Preparei o resto da refeição, colocando o tal courguette ao carbonara em uma vasilha de vidro redonda, pegando o talher. Olhei para ela de relance, com um sorriso sacana no rosto. ainda estava emburrada. Deu passos rápidos para frente e tomou a vasilha de minha mão.
- Metido! – exclamou, saindo da cozinha até a sala, onde eu segui seus passos nervosos.
Depois de colocar a vasilha sobre o descansador, pegou a garrafa de vinho tinto sobre a mesa de centro, servindo. Sentei-me na cadeira extremamente confortável, e ela desligou as luzes da casa para ligar o lustre. Era a primeira vez que ligava, e ficou simplesmente esplêndido.
Eu a observava sentar à mesa e apoiar os cotovelos, vestindo aquele olhar assassino novamente; o mesmo olhar que em instantes me atingiu em chamas.
- Eu sou a mulher da casa, deveria saber cozinhar. – disse ela.
- Se fosse pelo lado conceitual, , eu deveria mandar em você, e não o contrário. – falei-lhe com um sorriso. Ela riu, colocando uma das mechas do cabelo para trás da orelha. – Bem, eu vou fazer questão de me servir primeiro.
E sim, esse fui eu me redimindo. Não gostava de deixá-la brava por muito tempo, por mais que parecesse divertido. Acho que mais divertido ainda era ter o poder de arrancar um sorriso dos lábios teimosos.
Coloquei um pouco do courguette em meu prato, e até que não me pareceu tão terrível na primeira garfada. Tomei um pouco de vinho para aliviar o gosto, e voltei a por um pouco mais na boca.
- E então? – perguntou , colocando comida no prato.
- Está... Bom. – arqueei as sobrancelhas. – É, realmente, está bom.
- Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. – disse rápido. – Ditado popular. Depois de tantas tentativas.
Comemos praticamente em silêncio, exceto por perguntas superficiais e respostas curtas. A troca de olhares e sorrisos era intensa, o que me deixava menos desconfortável pelo silêncio. Algo estava estranho entre nós dois, eu sabia o que era e chegava a temer a conversa.
serviu uma das sobremesas geladas que sabia fazer, e quando ambos acabamos de comer, o silêncio prevaleceu mais uma vez.
- Eu acho que vou lavar os pratos... – ela desculpou-se, levantando. Puxei-a pelo braço, fazendo-a voltar a sentar.
- Eu acho que precisamos conversar. – Disse sério.
- Say what you need to say. – disse minha mulher, com um olhar cético.
- Eu não quero mais esconder. – fui direto.
- Nem eu.
- Então por que estamos escondendo?
- Porque era divertido, sei lá... – ela rolou os olhos – Meio que proibido. – sorriu maliciosa. – Mas eu confesso que estou insegura.
- Insegura? Você? Por quê? – segurei as suas mãos geladas levemente, e ela tomou posse de minhas mãos, parando para alisar, abrir e fechar, admirar; divagar.
- Com a empresa. – eu franzi o cenho – É muito mais do que só eu e você. London Music em alta, e eu fiz uma promessa.
- Que promessa?
- É complicado. – ela suspirou – Mas imagine como as pessoas iriam aceitar isso! Digo, eu sou sua chefe, essas relações não deviam acontecer, poderiam muito bem acabar com a nossa relação profissional e...
- , eu entendo sua preocupação, mas sinceramente, nossa relação é muito mais do que a reputação ou o impacto que causa nos outros. Você sabe quão difícil é achar uma pessoa com quem você queira viver junto, compartilhar, e todas aquelas baboseiras?
- É claro que eu sei...
- Não, você não sabe. – interrompi-a bruscamente. Levantei da cadeira para agachar ao seu lado. – Você não sabe porque já encontrou esse alguém.
arqueou as sobrancelhas.
- Quem é essa pessoa?
- Eu! E quem mais poderia ser? – falei convicto. Ela franziu o cenho e fez uma cara pensativa.
- Quem mais...
Fiz uma cara insana, sem acreditar naquilo.
- Não é possível que você acreditou! – ela falou rápido, beijando a ponta do meu nariz. A marca do batom com certeza me faria parecer um palhaço. – Sei que sou uma ótima atriz, mas seria uma mentira absurda se houvesse mais alguém que eu quisesse na minha vida.
- Ótimo. – eu disse, voltando a sorrir sacana. – Por que você será minha namorada, oficialmente.
- Que repetitivo. – ela rolou os olhos, deixando escapar um sorriso nos cantos dos lábios. – Mas eu aceito mesmo assim.
Em um segundo ela estava em minha frente, sentada comportada na cadeira; e noutro ela havia levantado, feito-me levantar, e me beijado de tal forma que nem eu acreditava ser possível. Era agressiva, animalesca, deliciosa. E aí está a prova de que éramos um excelente casal. Já havíamos nos resolvido, viu?
Minhas mãos não tão bobas deslizaram por seu corpo, testando a finalidade de suas curvas. A roupa sexy que vestia finalmente me incomodava, e fazia com que eu tivesse a séria necessidade de tirá-las. As suas mãos, espalmadas em meu peito, empurravam-me para trás, guiando para algum lugar desconhecido.
Cat people era a nossa trilha sonora rumo a qualquer lugar da casa. Eu não estava apenas excitado, como sentia os meus próprios ossos arderem na pura necessidade de ter . Tê-la, tê-la; não era um pensamento, era um mantra incontrolável.
O beijo se fazia violento, e os passos de olhos fechados levavam-nos a tropeços e mais tropeços. Ela sorria entre o beijo, e se eu tentava separar nossos lábios – nem que fosse para respirar – ela mordia-me até ter de volta. Era como tirar o doce de uma criança extremamente teimosa.
Tirei o seu corpete com maestria, fazendo-o cair no chão. Meu corpo, logo em seguida, bateu-se na porta de algum dos cômodos. Eu não tinha idéia do onde estava, meu único objetivo no exato momento era achar o zíper de sua saia. As mãos da namorada encontravam-se em meu cabelo e bagunçavam-no loucamente; de modo a me deixar tonto.
Tentei abrir os olhos, com certo sucesso, e percebendo que estávamos na cozinha. Ela percebeu minha inquietação e parou com o beijo em minha boca para se ocupar com meu pescoço. As mãos espertinhas já folgavam a gravata, jogando-a para longe, e os dedos ágeis tiravam os botões da camisa.
- Cozinha? – perguntei, meio sem ar.
- Estamos na cozinha? – ela parou de me beijar de uma vez e eu pude observar os seus lábios tão vermelhos e inchados que chegava a ser engraçado. Seus cabelos antes impecáveis estavam bagunçados, e sua expressão era confusa.
- É.
- A intenção era o quarto... – ela parou de olhar em volta para me encarar. Eu juntei nossos rostos. – Mas aqui também serve.
Minha camisa caiu no chão e o zíper escondido de sua saia logo fez o favor de abrir e tirar aquelas pernas debaixo de pano. Sua lingerie parecia feita para mim, para que eu olhasse, e ficasse louco. Ela sorriu da forma mais maliciosa possível, irresistível. Carreguei-a pelos quadris, empurrando o que quer que estivesse na bancada para o lado. Uma panela caiu, já que eu consegui distinguir o som do metal no chão. David Bowie já havia parado de tocar, e a velha banda Garbage começou o seu som. Eu não conseguia ouvir a voz de Shirley Manson sem me lembrar da louca festa da London Music, e daquele dia, e do que eu fiz naquele dia. Ah! Sem mais devaneios, eu queria a prática!
Tirei as alças do sutiã de , beijando-lhe a região dos ombros. Ela arqueava as costas, deixando seu corpo em minha completa posse. Mergulhei em seus seios que se cobriam pela metade. Sentia um perfume delicioso emanando de sua pele, extasiante. As minhas mãos apertavam sua cintura com força, e o sorriso que enxerguei de esguelha era o sinal verde para que eu continuasse.
Ela levantou o corpo com os braços para que eu pudesse tirar sua calcinha. Eu fui tão rápido que ela tomou um susto quando sentiu mordidas perto de sua intimidade. Suas mãos foram apressadas a segurar meus cabelos; eu sentia seu arrepio ao passar as mãos em suas pernas torneadas; sentia os espasmos quando os músculos do corpo todo se contraíam.

I've got a fever, come check it and see
There's something burning and rolling in me
We may not last, but we'll have fun till it ends
C'mon baby, be my bad boyfriend


A sua intimidade já estava úmida o suficiente para que eu a penetrasse, mas eu podia esperar apenas para deixá-la um pouco mais à beira de insanidade.

I want to hear you call out my name
I want to see you burn up in flames
Keep you on ice so I can show all my friends
C'mon baby, be my bad boyfriend
So ripe, so sweet - come suck it and see
But watch out, daddy, I sting like a bee
I know some tricks I swear will give you the bends
C'mon baby, be my bad boyfriend


- ! Oh!
E ela já começara a gritar o meu nome. Eu mal havia começado. Ela queria tanto assim, um namorado malvado. Que fosse. Tirei as suas mãos de meus cabelos.
- Já sabe as regras. Eu sei o que estou fazendo. – e o cheirinho de vingança tomou o ar. Tantas vezes torturado, era a minha vez de torturar. Sorri-lhe calmamente antes de começar a sugar e lamber sua intimidade de tal jeito a deixá-la pronunciar meus nomes, apelidos, e adjetivos.

My fever's rising, you ran into luck
Say what, sugar? You want to get what?
I'm going to give you one hundred and ten
C'mon baby, be my bad boyfriend
It's wild the way you tease me
It's wild the way you free me
It's wild the way you reach me


Tudo era uma loucura, o jeito em que seu corpo fazia os exatos movimentos para conseguir o máximo de mim, sem usar as mãos; o jeito em que eu sugava sem parar, e ainda acariciava os seus seios. Ela queria me arranhar, puxar meus cabelos, mandar em mim, eu sabia que queria; mas suas mãos estavam segurando qualquer outra coisa, impedindo-a.

Wrapped me up in your wire from the start
You've got the women waiting in line
I'm not asking you to make up your mind
But I can make you happy at least now and then
I've got something special for my bad boyfriend
If you can't love me, honey, go on, just pretend
I've saved something special for the very end
If you can't love me, honey, go on, just pretend
C'mon baby, be my bad boyfriend


Assim que seu corpo começou a relaxar em meus braços, parei de sugá-la e puxei-a para mais perto, beijando seus lábios sem nem me preocupar com o gosto que sentiria. colocou um braço ao redor do meu pescoço, ofegando, e escorregou a outra mão para tirar minha calça e baixar a boxer. Antes que ela fizesse qualquer outra coisa, carreguei-a novamente, colocando seu corpo na bancada oposta. Som de talheres caindo. Excitado ao máximo, aquela foi a minha deixa para penetrá-la de uma vez.
Seu gemido ecoou pela cozinha. A música ainda tocava na sala. As roupas estavam espalhadas e tudo que fazíamos era sexo selvagem. Eu não me importava se ia doer, machucar; se estava bom ou ruim; seguia meus instintos para manter investidas o mais fortes possíveis e deixá-la falar meu nome quantas vezes quisesse. Suas unhas afiadas arranhavam minhas costas como uma gata, mas eu não era capaz de sentir dor. O prazer dominava.
Sentia meu corpo implodir, e aos poucos meus músculos começavam a falhar; não podia ser! Impedi qualquer fraqueza do meu corpo. Carreguei-a contra uma parede e mantive os movimentos, não ia deixá-la em qualquer posição em que ela investisse. Eu queria dominar.
Aos poucos ela foi se soltando de mim, relaxando as unhas e as mãos espertas. Beijou meus lábios e abriu os olhos, encarando-me. Não parecia estar sequer na mesma galáxia que o resto do mundo, seu olhar era vago, as pupilas dilatadas. E então seu corpo enrijeceu-se todo ao redor de mim. Orgasmo feminino, finalmente! Era tão difícil arrancar um, e toda vez que acontecia, era como se toda a minha masculinidade estivesse satisfeita, meu ego inflado, e até o meu coração se contentava com o ápice do prazer de minha mulher.
Mantive as investidas por pouco tempo, apenas para que eu também alcançasse o orgasmo e ambos caíssemos no próprio chão da cozinha. Estava sujo, mas nenhum de nós se importava com aquilo. abraçou-me de frente.
- Eu tenho uma coisa para falar. – ela praticamente sussurrou para mim. Eu encarei-a, aprovando que falasse. – Mesmo que eu não te devolva o cargo de chefe da empresa – rolei os olhos ao saber que depois de um sexo daqueles ela pensava na empresa – eu quero que você saiba que você é o chefe que eu escolhi. The Boss of my... – ela se fez pensativa – heart.
sorriu com vergonha, e apenas encostou a boca na minha, sem beijar. Eu sorri de volta.
- Parece idiota, mas não é. Essa era a resposta para a pergunta, quem seria o chefe. Eu enganei vocês por um tempo cuidando da London Music como presidente, mas aquela era apenas uma maneira de eu voltar para vocês tendo alguma moral. Mesmo que tivesse que apelar pro dinheiro da minha herança. – ela explicou, numa tagarelice sem fim. Eu estava esgotado demais para falar. – Eu só queria que você soubesse disso. Você é o chefe, ; eu te escolhi.
Sorrisos, troca de olhares, carinhos...
- Ninguém precisa mandar em ninguém, . Acho que... – olhou para mim surpresa – Acho que nós estamos ambos subordinados a isso.
- Então passamos o estágio do compromisso, lembra que lhe falei? Primeiro estágio: desejo, atração. Depois vem aquele sentimento de paixão, algo além de querer sentir a pessoa. Terceiro estágio. vem a cumplicidade e, com coragem, compromisso. Finalmente vou descobrir o que vem depois.
Permaneci calado. Eu sabia o que viria depois, esperaria ansiosamente para as três palavras fugindo dos lábios de minha .
Epílogo

New York. The Big Apple. Cidade de crimes e sonhos, beleza roubada. Estátua da Liberdade, ruas infestadas das mais diversas raças, cores e estilos. New York, New York. Cidade onde a querida vivera seus dias de solidão e infelicidade, onde ela cresceu, aprendeu a ser alguém; mesmo que fosse com os tapas fortes da vida complicada. Cidade que guardava sua mágoa e grande felicidade – ao mesmo tempo.
Eram quatro na limusine: e de conversa íntima de um lado, e a pequena Wallace e o maravilhoso de outro lado; um com cara de paisagem e o outro mais preocupado com as notícias do New York Daily.
- Estão falando da London Music aqui. – comentou , chamando atenção dos pombinhos e de uma distraída Paige.
- O que estão falando? – perguntou . havia lhe dado o cargo como presidente da London Music, filial londrina, e voltado a cuidar dos negócios da família com mais cuidado. Os três, da nova trindade, ocupavam um bom espaço no mercado. A despedida da menina do seu cargo ganhou um festa privativa e um certo terror de sua parte quando se tratava dos negócios da empresa.
- Estão de volta: a dupla & voltam a comandar a renomada London Music. Blábláblá... Com um empurrãozinho da amiga íntima, a herdeira , agora maior acionista, a dupla de negócios voltam a tocar a empresa que agora ganha filiais em NY, Paris, Milão, Lisboa e São Paulo. As filiais ficaram com siglas de acordo com o nome da cidade que se situa. NYM é a nossa nova revista de tendências e novidades do mundo da música e afins. – parou para respirar – Acho que é só isso de interessante. Falaram do namoro de vocês dois, e de um designer famoso que trabalhará na NYM. Esse é aquele que você me falou, ?
ajeitou os cabelos, pondo-se mais elegantemente sentada. Com ao seu lado, era meio difícil manter a compostura.
- Sim, é ele mesmo. Matt Persona comandará o departamento. Ele é um excelente desenhista, criativo até demais. Formou na minha turma, e radicado aqui em Nova York. – informou , lembrando do tal homem. – Matt vai ensinar a você, Paige, tudo que precisa. Obedeça a ele e você fará parte do que você quiser nesse ramo.
Paige, calada até então, abriu um largo sorriso.
- Eu o vejo na televisão! Que emocionante, eu vou trabalhar com ele.
Foi então que sorriu, sempre tramando alguma coisa. Ela não estava colocando Paige para trabalhar com Persona por nada. E foi exatamente isso que se provou quando chegaram ao grande prédio onde situava-se a NYM. já estava indo pela terceira vez, conhecia o caminho, e foi abrindo alas para o quarteto passar.
Assim que a porta de vidro se abriu, o próprio Matt Persona apresentava-se frente à recepção. Vestido impecavelmente com terninho Gucci, a pele clara transluzia e os sapatos italianos eram dignos de um suspiro. A silhueta magra apresentou-se na frente do quarteto, e colocou uma mão para cumprimentar . A mulher sorriu, e puxou Persona para um abraço; ele parecia descontente, não era do tipo que abraçava, mas ainda assim deu tapinhas nas costas da mulher.
- Não abraçar é anti-social, Matt. – disse , separando-se dele.
- Não abraçar é uma questão de higiene, minha cara. – disse ele, ajeitando o seu terninho no corpo esguio e alto.
- Deixe-me lhe apresentar... – falou , dando um passo pra trás. – Esse é o meu namorado, , ele é presidente da filial original em Londres.
Os dois trocaram acenos.
- Esse é ...
- Eu já conheço. Como vai, Senhor ? – perguntou Matt, cumprimentando-o com um aperto de mãos.
- Vou bem, Persona.
- E essa – disse , puxando a menina ao seu lado – é Paige Wallace, a sua nova pupila.
Matt olhou a menina Wallace de cima a baixo, medindo-a. Arqueou uma das sobrancelhas bem feitas e finalmente pôs uma das mãos para frente, como se fosse cumprimentar. Antes que Paige levantasse a mão também, deu-lhe uma cotovelada.
- Beije a mão dele. – sussurrou para a mais nova.
- Ele acha que é um rei, por acaso? – perguntou a menina petulante.
- Ele é o seu chefe e esse é o seu sustento. Agora seja educada. – disse num tom superior. Paige sentiu-se intimidada pela voz dura da mais velha, e obedeceu-a, abaixando-se para tocar os lábios nos dedos do Persona.
- Vá mostrar seus trabalhos a ele. E mesmo que ele te xingue toda, acredite em mim, vai ter uma volta. – falou baixo para Paige. , ao seu lado, ouviu a conversa e soltou uma risada maliciosa.
- Uma volta? – perguntou ele, com um sorriso nos lábios.
- Sim. – respondeu ela, se dando conta do que se referira. – Estritamente profissional! – corrigiu-se.
riu, abraçando a namorada de lado. já estava conversando com uma moça ao seu lado, tinha cara de secretária, mas era uma das redatoras da revista. olhou-o com o coração aliviado, parecia que ele tinha superado a atração insana entre os dois. E, aliás, ela se sentia extremamente bem com um coração que instalava-se no seu corpo, mas pertencia ao homem ao seu lado, o chefe .
- Matt, Paige vai te mostrar o que ela é capaz. Seja legal com ela, lembre do que eu te falei sobre alfinetar demais as pessoas. – disse , enquanto Persona a encarava com um bico teimoso.
- Eu vou tentar. – disse ele, saindo de cena. – Siga-me, garota Wallace, eu tenho muito a te ensinar.

A 10th avenue fazia com que os pêlos do braço da arrepiassem. Sua infância e adolescência estavam sendo recordadas, enquanto aos poucos a limusine ocupada pelo conhecido trio chegasse à velha mansão ; ou pelo menos o que sobrou dela. Paige Wallace agora era posse do grande Matt Persona, e não se importava nem um pouco com o que Matt fizesse com Paige. Não por uma questão (puramente) de vingança, mas pelo fato de que Paige precisava perder aquela estúpida ingenuidade, e um toque de realidade e glamour eram os poderes mágicos do designer Persona.
A limusine estacionou entre a Fifth e a Madison Avenue. Uma belo chatteau se fazia ali, em cores acinzentadas, um tanto quanto mortas; porém com uma estrutura extremamente detalhada. se perguntava por que havia levado-os até ali, e por que diabos tinham que ser os dois juntos. Mas ele sabia que seria inútil perguntar, uma vez aquela mulher invocava com um mistério, só mostraria o que queria na hora que quisesse. Na hora certa.
Ela foi a primeira a sair da limusine, ajeitando o vestido quadriculado no corpo esguio. seguiu seus passos, e por último, pôs-se ao lado da . Ela encarava a casa de um jeito diferente, como quem desconfia; deu alguns passos a frente e encontrou o que queria. Uma pedra no chão dizia: “Os jamais serão esquecidos. Eis a memória de uma tragédia.”
- A casa que eu morava era exatamente aqui. – disse, saindo de todo aquele mistério. Seu olhar era vago, opaco, e as mãos estavam trêmulas. percebeu, querendo aprumá-la em seus braços, mas ela recusou. – Meus pais morreram aqui. Essa é minha tragédia, esse é meu passado. Por isso eu quis que os dois viessem, eu devo isso a vocês dois... E a Emily, mas para ela já é tarde demais.
Ela entregou as mãos trêmulas, uma para cada chefe, e andou em passos decisivos até a porta da casa que jamais fora vendida, apenas reconstruída por cima de cinzas. Aberta com uma chave tão velha quanto a casa, a porta rangeu, antiga, para dar espaço a um cômodo de recepção. O trio conheceu todos os cantos e salas do chatteau em silêncio, até que parassem num quintal, sentados em um balanço de madeira. Juntos. Exatamente como Emily achara que daria tudo errado.
- Eu acho que estamos quites, não é? – perguntou .
- É, estamos quites. – disse , mexendo nos cabelos que agora estavam curtos demais.
- Por que você nos mostrou isso? – perguntou , confuso.
- Porque... – ela hesitou. Deixou que os pensamentos fluíssem na cabeça. Ela sabia o que dizer, sabia quais eram as palavras, era apenas deixar escapulir, apenas falar. pôs uma das mãos no peito, lembrando de seus pais, e de como ela jamais pode dizer o que queria a eles. Não podia perder uma oportunidade por orgulho, não mais, não tendo a certeza de que era a verdade. – Mostrei minha vida a vocês porque os amo.
e arregalaram os olhos. Como poderia ela dizer que ama!? Era um sonho, um delírio, mais um de seus devaneios?
- Não sei mais esconder quem sou. Eu amo vocês. Os dois. Cada um de uma forma diferente, mas eu os amo. E, se acontecer qualquer coisa, eu prefiro morrer sabendo que quem eu amava, sabia da verdade. – ela disse de uma vez, levantando do balanço.
segurou a mão dos dois, levantando-os e abraçando os dois de uma vez só. e estavam confusos, se deviam ceder ao abraço ou não. Não se tratavam mais do mesmo jeito desde que ela apareceu na vida deles, desde uma brincadeira de fantasias – fantasias que se aplicavam tanto metaforicamente quanto literalmente. Os chefes entreolharam-se. Sorriram, e deixaram-se levar por uma sentimental , que agora era capaz de dizer ‘Eu te amo’. falava mentalmente com Emily, ‘Desculpe-me’, ele dizia. Eles poderiam sim viver juntos, poderiam ser felizes juntos, nem que a felicidade durasse apenas alguns minutos. Porque isso era ser feliz, era ter mais momentos de alegria do que tristeza e melancolia.
O anel de prata no dedo de escorregou.

‘I Love you forever’

At last my love has come along
My lonely days are over
And life is like a song

Ohh yeah yeah
At last
the skies above are blue
My heart was wrapped up in clover
The night I looked at you

I found a dream, that I could speak to
A dream that I can call my own
I found a thrill to press my cheek to
A thrill that I have never known

Ohh yeah yeah...
You smile, you smile Oh, and then the spell was cast
And here we are in heaven
For you are mine at last


colocou sorrateiramente uma mão no braço de , chamando sua atenção. E, apenas movimentando os lábios.

“At Last.”




FIM


n/a: Despeço-me, caras leitoras, dessa fiction. Despeço-me de atualizações atrasadas, de capítulos horríveis e capítulos sexies demais. Despeço-me, pois eis o fim!
Sentirei muitas saudades e espero que vocês também. @ficboss FOREVER! Mantenham viva essa chama!
Boss foi a primeira longfic que escrevi, e a primeira longfic que termino. Espero poder escrever mais histórias, pois a experiência foi realmente incrível. Eu sei que não é lá um grande enredo, mas com certeza eu prendi vocês ao computador na madrugada, hã? Ah, eu sei que prendi!
Aprendi muito com minhas leitoras, principalmente a manter uma promessa, e fazer as coisas até o fim. Se essa fic finaliza hoje, é porque vocês me incentivaram do começo até o final.
Agradecimentos especiais a Carol, Sam, Leka, Fê, Dayana, Heluyssa (yay), Raay, Alessandra, Mika, Hay, Pri, Li, Letícia, Anne, Luana, Cathe, Tynha, Maria Clara, Duda Henker, Laís Dórea (yay), Isabela Xavier, Dayane, Tamires, Maysa, Juh, Mih, e todo mundo que comentou na fiction! Se eu for listar todas vocês, não atualizo isso hoje!
Espero não tê-las decepcionado!
E sim! O Livro de Boss está de pé!
Agradeço a minhas betas Juh Claro, Babi Lorentz e Cah. Obrigada por me aturarem durante todo esse tempo. Mesmo.

Como sempre, deixarei Twitter e Formspring. E também a petição para o Livro de Boss.
Com muito amor, carinho e ansiedade;
Yours Bela Deville; Panda; Pandamour.
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