Carpe Diem

Autora: Carolina Rodrigues
Status: Em Andamento
Revisada por: Faah Rodrigues
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: LongFic; Romance, Comédia e Drama.
Comentários:




01.

A lua brilhava calada e pura no céu turvo e escuro. Era como uma mancha clara entre os poucos pontos brilhantes que tentavam brilhar mais. Eu estava apoiando meu queixo sobre minha mão direita, onde meu cotovelo era mantido pelo meu joelho enquanto minha cabeça encostava na imensa janela de vidro do meu quarto. Sob a luz da lua que penetrava pelas janelas, o quarto tinha uma coloração estranha, porém bonita. O rosa ficava pálido e triste, mas muito profundo. Dava a impressão de estar vivo. Agora eu percebera que à noite, meus bichinhos de pelúcia na estante de vidro ficavam assustadores. Me lembraria de tirá-los dali pela manhã, caso algum outro dia não conseguisse dormir como hoje.

Meus pensamentos estavam rodando em lugar nenhum. Eu pensava, pensava, mas simplesmente não conseguia saber o que estava pensando exatamente. Talvez na manhã que se aproximava, talvez no semestre que passara. Talvez em como eu deveria estar dormindo ao invés de pensar no que eu tentava pensar. Minha cabeça latejou. Dei uma última olhada nas árvores que balançavam lá fora e no vento que parecia estar muito gélido fazendo um barulho desagradável no telhado. Dei uma última resmungada e deitei em minha cama, que estava muito fria com a ausência do meu corpo e dos cobertores que haviam caído no chão quando eu me levantara impaciente há umas duas ou três horas atrás.

Novamente, não consegui dormir. Fiquei encarando o teto e as estrelinhas presas nele que brilhavam no escuro. Elas pareciam rir de mim. ", sua idiota. Você ainda se lembra daquilo. Já faz tanto tempo", elas pareciam dizer. E realmente, elas estavam certas. Mas como apagar da mente algo que não sai do coração? Eu juro que tentei, mas é difícil demais. Poxa vida, esquecer de levar a roupa da educação física eu sempre esquecia e recebia várias faltas que me obrigavam a fazer o trabalho extra, mas esquecer a porcaria (na verdade, o melhor) de um verão eu não conseguia esquecer. Ah, férias de verão. Já sabemos em todos os filmes e livros que amores de verão não passam do verão. Mas minha cabeça latejava e insistia em passar aquelas memórias pela minha mente como se fosse um filme.

Eu havia chegado há dois dias em Milesville, um buraco, digo, uma cidade no interior da Califórnia. Eu não deveria estar aqui... Estive aqui o verão todo visitando minha avó paterna e digamos que eu não quero pensar muito sobre isso... será que vou encontrá-lo novamente? Ah! O que estou pensando? Dei meu melhor insistindo para não nos mudarmos para cá, pois eu sabia que as chances de revê-lo seriam enormes. Mas eu queria isso? Não! Claro que não. Aquilo foi estupidez... Amor de verão acaba no verão, certo? Sim, certo. Mas será que ele lembra de mim?... Pára de pensar nisso ! Você não vai encontrar com ele, pronto, fim. Eu estou conversando comigo mesma? Oh, Deus, eu definitivamente preciso dormir...

Minha família se mudou pra cá devido aos problemas de saúde da minha avó, então eles querem (na verdade, o papai quer...) ficar mais perto para poder cuidar dela. Afinal, nós já estávamos falindo com o tanto de dinheiro que o papai gastava em passagens de avião para cá, então, nada mais prático para os pais do que tirarem a filha de onde morou sua vida toda, das suas amigas, do seu colégio, seu conforto, de tudo, não é? Obrigada papai e mamãe. Mas como dizem... sempre é hora de recomeçar. Claro! Mas não no lugar onde você esteve no último verão e teve alguns dias de felicidade total com quem achava que seria o amor da sua vida! Sabe, alguns dias... Mas quando o verão acabou e voltei para minha cidade, puf, desapareceram todas as alegrias. Fiquei me perguntando quando o veria novamente. Mas agora eu simplesmente queria matá-lo. Não é justo levar o coração de alguém com você e jogá-lo fora sem simplesmente dizer nada. Nem um pouco justo. Mas foi isso que aconteceu.
fez isso comigo no verão passado. Ah! Bate na minha boca! Eu prometi nunca mais pronunciar esse nome. Quando encontrá-lo, vou arrancar dedo por dedo, parte por parte. Fazer tudo direito e fazer ele sofrer um pouquinho do que eu sofri.

Eu ainda não dormi? Droga. Amanhã, quero dizer, daqui a pouco é o primeiro dia de aula. E o que está me deixando louca é saber que não existem muitos colégios nessa porcaria de cidade e a chance de cometer um homicídio hoje está bem alta. Preciso de um álibi. E de um motivo. E de testemunhas contratadas para afirmar que foi legítima defesa. Além do mais, eu tenho apenas 15 anos, não posso ir presa nem para a cadeira elétrica. Cadeira elétrica? Hum... onde eu arranjo uma dessas? É, seria uma boa... Não teria sangue para limpar nem nada... Mas, deixando de lado meu instinto assassino, psicótico e vingativo, tenho muitas coisas para me preocupar. Que roupa vou vestir? Como meu cabelo vai estar? Ah, droga. Que horas são? Vou ficar com olheiras horrorosas. 5:17. Falta uma hora para o despertador tocar. Tudo bem que o Miles High School fica a cinco minutos daqui e a aula começa às 7:30, mas oras, eu tenho cabelos, roupas e maquiagem para me preocupar, certo?

Quer saber? Vou levantar. Fazer tudo com calma, quem sabe dar uma caminhada matinal... Tá, exagerei, até a parte de fazer tudo com calma está ótimo. Levantei, arrumei minha cama, escovei os dentes, tomei um banho quente e demorado e abri o guarda roupa. Eu precisava urgente fazer compras... Peguei uma T-shirt que dizia "Two hearts are better than one" e um shorts razoavelmente pequeno. Estava muito quente, apesar de ser de manhã ainda. Coloquei na frente do meu corpo e olhei no espelho. Ahh, não. Pouco para a primeira impressão. Coloquei de volta no armário e busquei outras alternativas. Saias, calças, chapéus, sapatos, blusas, casacos, coletes, tudo voava pelo quarto. Droga de novo. Eu teria muito trabalho para arrumar isso depois. Até que encontrei o que queria. O meu shorts jeans com detalhes em oncinha, com dois palmos de comprimento e uma blusa básica preta colada com um coletinho por cima. Nos pés, coloquei uma bota preta cano alto, salto agulha e bico fino. Ok, agora maquiagem. Leve, natural. Lápis, rímel, gloss e um blush básico. E claro, um pouco de corretivo para disfarçar essas olheiras horrorosas abaixo dos meus olhos . Cabelo... bom, nada demais. Apenas arrumei minha franja, e fiz um baby-liss. Meu cabelo e às vezes liso, sem graça, ficava melhor com cachinhos algumas vezes.

De repente, algo chamou minha atenção. Uma luz intensa começou a penetrar pelo meu quarto... O sol estava nascendo. O despertador tocou. Corri para desligá-lo e fui para o telhado assistir aquele espetáculo maravilhoso. A bola de luz que aos poucos ia flutuando pelo céu, que estava misturado de cores, tons rosados, amarelados... todos juntos que formavam aquela paisagem inacreditável. Minha casa ficava no alto de uma colina, então toda a cidade ficava lá embaixo, e a vista era incrível. Isso me lembrou aquele dia em que ficamos na beira da praia vendo o sol nascer e disse... O que eu estou dizendo? Prefiro achar que aquilo tudo foi um sonho, ou melhor, pesadelo. O sol começou a brilhar fortemente, ofuscando minha visão. Ouvi meu pai gritar meu nome lá de baixo dizendo que o café estava pronto.

Desci as escadas em pulos, estava inconscientemente alegre, não sabia porquê. Eu sentia no fundo que algo bom estaria por vir. Mas o que poderia ter de bom nesse dia onde eu tinha a chance de reencontrar um passado que eu não queria que estivesse lá? Provavelmente era uma sensação passageira pelo cheiro de café invadindo meu cérebro. Assim que me sentei á mesa, já fui recebida com gritos.

- Sua idiota, por que demorou tanto? Você é surda ou o que? - Meu irmão ficava mais chato e histérico de manhã.
- É bom você calar a boca Jake, eu não estou muito simpática hoje e a mamãe está dormindo.
- Pare de irritar seu irmão e coma logo, . - Para variar, meu pai defendeu meu irmão.
- Bla bla... que seja. - Eu murmurei sem que eles ouvissem. Afinal, pra quê encrenca logo no primeiro dia de aula?

Depois de tomar o café, subi para escovar os dentes. Dei uma última ajeitada no meu cabelo e então fui para o colégio. O caminho era fácil na ida, pois era só descida. O colégio ficava depois da colina, lá embaixo. Meu quarto tinha vista direta para o imenso colégio que seria o meu colégio agora. Eu estava assustada, mas concentrada para não sair rolando naquela descida um pouco íngreme. Bela hora em que eu vim de bota. Fiquei imaginando o esforço que eu teria para voltar... É, a sensação de um dia bom estava passando aos poucos e eu comecei a sentir que a tendência era piorar. Quando estava perdida em pensamentos, percebi que eu havia chegado no colégio. Havia muitas pessoas da minha idade e mais velhas, até mais novas, sentadas na grande escada que havia para entrar no colégio. De repente, quando eu comecei a subir os degraus, todos estavam me olhando e cochichando. Consegui ouvir o que duas meninas, acho que da minha idade, começaram a cochichar mas não tão baixo.

- Ela é nova aqui? Ela não tem cara de ser daqui. Ela é tão... pálida. - A primeira disse para a outra que estava do seu lado direito.
- É, será que ela se mudou para aquela casa na colina? Porque a casa estava... - então a primeira interrompeu a segunda com um tapa no braço quando percebeu que eu estava olhando. Cinicamente, elas sorriram para mim.

Querendo evitar conflitos logo no começo, eu apenas sorri de volta e passei reto. Afinal, que elas comentassem. Eu não ligo. E que história é essa de ser pálida? Vou te falar , viu... Só porque as pessoas daqui têm o costume de ir até o lago para tomar sol, todas essas loiras oxigenadas e bronzeadinhas. Argh, odeio sol. Mas, que seja. Continuei andando de cabeça erguida e fui até a secretaria perguntar onde era a minha sala. Pelo menos uma notícia boa por enquanto: Nada de ver sequer um sinal do ... Dele.

Então, uma senhora de provavelmente 70 anos, gordinha, baixinha, de cabelos enrolados, estilo anjinho, e grisalhos, com um óculos oval na ponta do nariz, com roupas floridas e alegres me atendeu carinhosamente.

- Posso ajudá-la, minha jovem?
- Na verdade, pode sim, senhora. - eu disse sorrindo e parando na frente do balcão que separava os sofás, que eram uma espécie de sala de espera, do cubículo em que as secretárias, máquinas copiadoras e afins ficavam. Tá, não era tãão cubículo assim, mas era razoavelmente pequeno.
- Oh, querida, me chame de Rose. - ela era muito simpática. Talvez a mais simpática daquele inferno que chamavam de colégio.
- Ah, claro, Rose. A senhora... - então ela me interrompeu.
- Por favor! Me chame de você, tenho praticamente a sua idade! - e deu uma gargalhada muito engraçada. Eu ri junto, não da piada, mas da risada contagiante dela. Tá, a piada também foi engraçada, mas meu humor não estava muito alto.
- Haha, claro, Rose. Você poderia me informar qual é a minha sala e, por favor, onde ela fica?
- Seu nome, querida.
- .
- Só um minutinho, . - então, Rose seguiu para um computador do século passado e digitou devagar o que eu imaginei que seria meu nome. Os dedinhos enrugados dela iam devagar, tecla por tecla... E.. ? Uau. Intimidade mil. - Aqui está, Lockhart. Nossa, você está no segundo ano? Parece estar no terceiro!
- Er... Rose... Meu nome é ! Não Lockhart, . E eu estou no primeiro. - dei uma gargalhada. Não sei porque, achei a situação engraçada.
- Oh, perdão, . É que vai chegando uma idade em que a memória confunde e a audição fica afetada... Haha, você sabe né! Só um minutinho... - e voltou para o computador rindo. Eu ainda estava rindo também. - Achei. . Que nome lindo! Você se chama ! Sabe, eu tive uma amiga no meu tempo de infância que se chamava Rosemary. Sempre confundiam a gente, pois nós éramos tão parecidas! E acredita, ambas éramos Rose! Mas... espera... O seu nome não é Rosemary... É ! Ah, que cabeça a minha... Deixe-me ver... O que você queria mesmo? - e fez uma carinha muito engraçada, como se eu tivesse acabado de chegar. O dia ia ser longo...
- A sala que eu estou.
- Oh, claro, perdoe-me, filha. É a sala... 17. Seguindo reto por esse corredor, vá até o final e vire à esquerda. Esquerda! Vá até o final desse corredor, suba as escadas e vire à direita. Será a quarta sala do lado direito.

Demorei um momento para gravar aquilo... Eu iria precisar de um mapa, meu GPS natural não era lá muito bom. Eu mal sabia o caminho de volta para casa. Anotei em um pedaço de papel, agradeci à simpática (e um pouco maluca...) Rose e fui. Quando eu estava no meio do corredor, o sinal (MUITO escandaloso) tocou. Eu me apressei para não me atrasar. Então fiz o trajeto que Rose me informou. Virei à esquerda, subi as escadas, virei a direita. Mas espera, cadê a sala 17? Droga. Ela me informou errado? Foi algum tipo de brincadeira de mal gosto com a aluna nova e idiota ou a coitada apenas se confundiu? Bom... isso eu pensaria mais tarde. O problema agora era encontrar a minha jaula, digo, sala. Algumas pessoas perceberam que eu estava perdida, mas ao invés de me ajudarem, apenas riram. Tentei perguntar para várias pessoas onde era a sala 17, mas todos me viraram as costas. Até que uma garota de cabelo preto, chanel, franja de lado, muito bonita, parecia muito simpática e um pouco mais alta que eu (o que não era difícil) me ajudou.

- Posso te ajudar?
- Ah! Por favor! Eu estou perdida! Pode me informar onde fica a sala 17?
- Sala 17? Uau, você está bem longe dela. É totalmente o oposto daqui.
- Mas a Rose me disse...
- Ei, você disse Rose? Ah... sempre faça o oposto do que ela te disser. Se ela disse esquerda, ela quis dizer direita. Se ela disse direita, quis dizer esquerda.
- Droga...
- Não se preocupe, eu vou com você até lá.
- Mas o sinal já tocou...
- Tudo bem, te encaminho direitinho e depois volto correndo.
- Ah! Nem sei como te agradecer! Muito obrigada!
- Não por isso ,amiga. A propósito, meu nome é Brooke Williams.
- Eu sou a . .
- Muito prazer. Agora vamos rápido!
Então, andamos o mais rápido que pudemos para a minha sala. Ela me deixou na metade do caminho, me explicou o resto e voltou correndo para sua sala, dizendo que os professores eram muito tolerantes com o horário e que três atrasos resultavam em advertência. Uau. Comecei a correr desesperadamente até que esbarrei brutalmente em alguém que gritou comigo.
- Olhe por onde anda garota! Se quiser brincar de pega-pega, vá para o playground porque aqui... - até que ele parou de falar quando me olhou. Eu ainda não tinha visto o seu rosto, porque eu caí de cara no chão de madeira e estava limpando a minha roupa. - ?

Como ele sabia meu nome? Eu o conhecia? Levei meus olhos até seu rosto e então o choque. Quando olhei seus olhos, de um azul muito profundo, meu coração disparou tanto que pude sentí-lo pular sob minha roupa. Minhas pernas começaram a tremer, mesmo que esticadas no chão. Minhas mãos ficaram geladas, minha boca se abriu. Meus olhos arregalados, buscando palavras e eu tentei respirar. Não consegui, parecia muito difícil fazer isso. Eu balbuciei algumas coisas inaudíveis até que a palavra certa me atingiu como um raio.

- -?

02.

Meu mundo caiu. Acho que isso resume bem a minha expressão perplexa-mas-nem-tanto, porém, extremamente irritada. Estava bom demais para ser verdade antes dele aparecer... Eu não o tinha visto até agora, então eu tive esperanças de estar delirando. Quem sabe eu não caí de cabeça e a queda foi tão forte que eu estava delirando. Eu desejei que sim. Não podia ser real!

- ? - ele repetiu meu nome quase rindo.
- . - repeti o nome dele com certo nojo.
- !
- ! - ok, ele estava me irritando.
- ! - então ele deu uma leve e irritante gargalhada.
- OK, CHEGA! Isso pode levar o dia todo. Vou passar reto por você e fingir que não te vi... Maravilha. Tchau. - certo... quem eu estou tentando enganar? Eu estava consumida demais pelo ódio para fingir que não o tinha visto lá. Até parece que dá pra esquecer esse querido carma na minha vida. Mas... não custa tentar, né? Foi o que eu pensei. Eu tentei ir embora mas ele me impediu, me segurando pelo braço.
- Espera! Vai ter que me contar... O que você está fazendo aqui em Milesville? - era só impressão minha ou ele estava achando que eu havia implorado para vir para cá por causa dele? Ah... Me segura!
- Não é da sua conta. - dei um sorriso irônico e o encarei para que ele percebesse que ainda estava segurando meu braço e que eu precisava sair dali antes que lhe desse um lindo soco no nariz. Já quebrei o nariz de uma menina antes, não seria tão difícil fazer de novo.
- Ah! Mas é claro que é! Por que não me diz que milagre te trouxe aqui de volta? - Sério, ele ainda estava segurando meu braço. Juro que tentei me soltar, mas fala sério, ele tinha o triplo do meu tamanho e largura. Não que eu fosse magra nem que ele fosse gordo... Eu tinha um corpo razoável até, e ele era... não quero dizer. Mas digamos que ele segue com o padrão de beleza. Forte. Argh, é essa a palavra. Na verdade, nem forte... mas sim... não vou dizer muito gostoso. De jeito nenhum.
- Sério, , me larga ou eu grito. E bem alto.
- ! O que aconteceu com você? Você era tão... meiga. - isso era ironia? Eu iria quebrá-lo em dois.
- Pois é, aquela já era. Vou contar até três.
- Eu não... - então eu o interrompi. De verdade, já estava me dando nos nervos e meu coração logo logo iria falhar de tão rápido que batia.
- Um.
- Pelo menos me diz em que sala você está?
- Dois.
- , pára com isso.
- Três. Eu vou gritar. - mas então cometi o erro de olhá-lo. Seus olhos me encaravam de tal modo que eu não conseguia desviá-los e quando tentei gritar, nenhum som foi produzido. Não sei como nem porquê, mas foi assim. Me perdi no tempo, minha respiração mais desigual do que nunca, mas eu simplesmente não conseguia me concentrar em nada. Nem em soltar meu braço, nem em respirar, nem em diminuir meus batimentos cardíacos. Só conseguia admirar aquele rosto angelical, seus olhos como o céu no verão, profundos, misteriosos... Ai, como ele era idiota! Mesmo hipnotizada, eu consegui perceber que meu coração estiva saltando e que era possível ver meu coração batendo por cima da roupa.
Então achei que fosse dobrar ao meio e cair no chão, quando de repente ele soltou meu braço, mas logo em seguida pegou minha mão e a levou até seu peito. Não pude deixar de notar o quão forte ele era, mas então depois de alguns segundos eu percebi o que ele queria me mostrar. Seu coração, tão acelarado quanto, batia em perfeita harmonia com o meu. Foi incrível como nossos corações de repente se juntaram formando um só barulho, uma só canção. Se misturaram e eu já não sabia se o que eu estava sentindo era o meu ou o dele... Ou até os dois juntos. Nunca havia me sentido daquele jeito antes e tive a sensação de que não a sentiria novamente.
Apesar de seu coração estar tão acelerado, sua respiração era tranquila. Não sei como ele fazia isso, mas ele conseguia. Ele fechou seus olhos enquanto ainda segurava minha mão e tudo que eu pude fazer foi continuar admirando seu rosto tão calmo, pacífico, perfeito. Sua expressão era tão calma que por um momento me perguntei se ele havia dormido. Ele parecia aproveitar o momento melhor do que eu, pois se eu me acalmasse, poderia me concentrar melhor nas coisas que estavam acontecendo. Delicadamente, ele acariciava minha mão com seu polegar, fazendo com que calafrios subissem por todo meu corpo. Eu tremia e ele pareceu notar e se divertir com isso, porque um sorriso bobo nasceu em seus lábios enquanto ele ainda estava de olhos fechados. Mas pelo jeito, eu estava tremendo tanto, que não era preciso estar de olhos abertos para perceber o quanto meu corpo tremia.
Sua mão tão quente contrastava com a minha que estava congelada. Engraçado... Eu não estava com frio. Muito pelo contrário, me sentia quente, viva. Eu respirava com dificuldade, e a fraqueza me dominou; não sabia por quanto tempo eu iria aguentar ficar em pé com a mão no tórax super musculoso do Justin. E então, de repente, uma pergunta passou vagamente pelos meus pensamentos. "Por que diabos eu estou aqui parada?! É o , não um príncipe encantado!" E quando esse pensamento se concluiu, tentei ser guiada pela razão, porque, convenhamos, a minha intuição emotiva não era das melhores. Então, brutalmente, saí de perto dele, balançando a cabeça para tentar voltar à realidade. Tentei não cometer o erro de olhá-lo de novo, mas quando me virei para encontrar novamente o caminho para minha sala de aula, pude perceber rapidamente a sua expressão confusa. Confusa? Decepcionada? Cara, que chato! Ele é tão... ilegível. Juro, não dava para saber o que ele estava pensando. Era tão irritante.
- Acho que não vamos conseguir entrar na aula. - ele zombou de mim como se fossemos melhores amigos desde sempre.
- É bom você calar a boca. Se eu não entrar na aula, eu te arrebento.
- Você e mais quantos? - a risada dele novamente invadiu meu cerébro e me congelou por alguns instantes. Não consegui responder, apenas sai batendo o pé o mais forte que pude. Nem sabia se estava indo para o caminho certo, apenas tinha que sair de perto dele antes de ter uma crise.

Dei duas batidas na porta da sala 17 e dei uma olhadinha pela janelinha de vidro. O professor me encarou por uns instantes e então fez um gesto que eu realmente tive medo de ver. Ele apontou com o indicador para o pulso esquerdo, onde estaria o relógio imaginário dele. Ou seja, eu estava atrasada. Pela leitura labial eu entendi o "Não. Te vejo na próxima aula." E uma onda de fúria subiu pelo meu corpo. Fiquei tão irritada que tive vontade de chutar tudo que aparecesse na minha frente. Mas, para evitar mais estragos, parei por um tempo e respirei fundo. Meu dia já tinha sido tortuoso demais até aqui, para que piorar? Vaguei por alguns corredores vazios, enquanto pensava sobre o acontecido de alguns minutos atrás. Infelizmente, estava pensando no . Mas estava pensando em como ele era um completo idiota!
Ainda vagando pelo imenso colégio vazio, encontrei um jardim lindo. Era belíssimo, com borboletas voando sobre as milhares de flores coloridas, haviam bancos de concreto e cerquinhas, delimitanto o espaço que era possível caminhar sem esmagar as delicadas flores. Parecia de mentira! Encantada com aquele pedaço de paraíso num inferno tão macabro, resolvi esperar os 40 minutos que faltavam para a próxima aula lá. Sentei em um dos bancos de concreto e liguei meu iTouch. Procurei por uma música em especial: "Paramore - Decode". A música estava quase na metade quando um dos meus fones de ouvido foi tirado da minha orelha e colocado na orelha da pessoa, ouvindo a música por alguns segundos.
- Nossa... Você me ama. - adivinhem quem era. Quem mais podia ser?
- Primeiro: O que você está fazendo aqui? Segundo: Eu te amo? Pare com a maconha. Terceiro: Me deixe em paz, por favor? - é, confete em cima de quem disse .
- Hm, vamos uma de cada vez. Eu estou aqui porque é onde eu sempre venho quando mato aula. Digo, chego atrasado... E não é culpa minha se o professor não me deixou entrar. É, você me ama. Eu já decodifiquei - e fez aquele sinal de "pegou o trocadilho?" - E... se eu te deixo em paz?.... Ah, mas por que? É tão legal te irritar!
- Decodificou? Então seu "decodificador" está quebrado, pois não fui eu que mandei sinal nenhum. , vaza.
- Peraí... Vejamos. Há quanto tempo eu estudo aqui? Hm... Nove anos. E você estuda aqui há... quinze minutos. Quem será que está aqui há mais tempo? - eu tinha vontade de arrancar os dentes dele quando ele dava esse sorriso irônico.
- Tudo bem então, Mister Milesville High School, eu saio. - E novamente, ele segurou meu braço.
- É Miles High School, esperta.
- QUE SEJA!
- Eu não entendo.
- Nem eu.
- O que você não entende?
- Porque eu simplesmente não posso viver em paz sem que você me traga lembranças das quais eu passei seis meses tentando esquecer. - Oh não, crise de sinceridade logo agora! Sabe qual é um dos meus piores problemas? Não pensar antes de falar.
- Você tentou esquecer? Por que? - e novamente seu rosto tornou-se ilegível, confuso. Eu não entendi porquê, mas me sentei ao lado dele inconscientemente. Talvez para ter forças para continuar falando.
- ... Você me esqueceu. Eu tinha que fazer o mesmo. - suspirei levando minhas mãos ao meu rosto.
- E quem disse que eu te... - então ele parou de falar. Simplesmente, parou. Talvez porque não queria mentir dizendo que não havia me esquecido. Então senti um gosto amargo subir pela minha garganta, um nó de tristeza se formando. Eu queria chorar, gritar, bater nele, mas toda minha concentração estava voltada para impedir que as lágrimas que estavam se formando em meus olhos escorressem. - Ah.
Nesse momento, queria morrer. Depois de tudo aquilo, ele concluiu com um "Ah". Concordou com que eu havia dito? Óbviamente. Ele havia me esquecido. Queria levantar, mas não tive forças. Cara, realmente é preciso muita energia para não chorar. Então, as minhas forças foram em vão. Estava me sentindo tão triste, despedaçada, humilhada. Meu coração estava implorando para que eu parasse de sofrer, ele não aguentava mais. Meu cérebro rodopiava dentro da minha cabeça, porque nada fazia sentido. Logo que percebi, estava chorando. E chorando muito.
E era a última coisa que eu queria: Chorar na frente dele. Mas já estava tudo estragado mesmo, então que diferença fazia? O problema é que odeio chorar. Sério, prefiro sangrar. Quando você chora é quando você mostra o seu lado mais fraco, mais vulnerável. Então, algo me surpreendeu. Ao mesmo tempo em que eu estava imersa em tristeza, raiva, arrependimento, consegui levantar e correr. Talvez porque me sentia tão humilhada, tão machucada, que eu tinha que parar com isso. Corri por alguns metros até me segurar e me puxar de volta. Na boa, já virou moda ele me segurar, né? Aposto que ia ficar toda marcada depois.
Ele me segurou e depois... Fez algo que nunca imaginei que ele faria. Ele me abraçou. Me abraçou tão forte que por um momento senti que nada podia me alcançar. Por uns instantes, mesmo que chorando, me senti protegida, segura. Não o abracei de volta, apenas fiquei com as mãos nos olhos, secando minhas lágrimas inutilmente até virem outras molharem meu rosto. Ele me abraçava como se eu fosse uma criança que acabara de cair de uma bicicleta. Era tão gostosa a sensação de proteção que ele me dava. Com um braço me envolvia pelos ombros e a outra mão fazia minha cabeça encostar em seu peito, enquanto acariava meus cabelos. Foi aí que ele beijou a minha testa e sussurrou:

- Desculpa.
- Você não tá facilitando. - murmurei entre os soluços.
- Shh... Sério, não complica. Só... - suspirou bem fundo - Só me abraça como se não houvesse amanhã.

Acho que estava tão vulnerável que levei as palavras dele a sério. Eu o abracei de volta, tão forte como se fosse para evitar cair de um penhasco, que era, de certo modo, como me sentia. Agarrei sua camiseta para que ele não fosse embora. Ele não poderia me abandonar de novo, eu não suportaria.
Não estava raciocinando direito, pois a sã nunca abraçaria o motivo da minha tristeza que me afetou por quase seis meses. Não, essa era outra. Comecei a ter uma sensação muito estranha... era como se de repente meus pés não estivessem lá, nem minha mente. O chão virou algo irreal, minha respiração se acalmou ao mesmo tempo que meu coração insistia em batucar insamente.
Ele parou de me abraçar para olhar em meus olhos, tirando o ar reservado em meus pulmões e, pior do que antes, agora a única coisa que conseguia sentir era meu coração batendo intensamente. O olhar dele era intenso, como se desejasse algo proibido, como uma criança olhando uma vitrine de brinquedos, como uma mulher de dieta olhando para uma caixa de bombom, sei lá. Vocês entenderam... Realmente, não sei definir como eu olhava de volta, pois estava ocupada guardando cada momento e expressão. Talvez eu o olhasse como algo proibido também. Não queria me envolver com ele, mas não resistia estar tão perto. Sabia que gostar demais dele seria um problema e no final eu sairia magoada, como antes. Mas as palavras "Fique longe" pareciam outra língua pra mim naquele momento. Além disso, era orgulhosa demais para assumir que talvez valesse a pena correr o risco de me entregar ao "amor"; o era o mal no meu céu mais seguro, o lobo mau. Estava ficando cada vez mais difícil acreditar em alguma coisa.
Imagino que enquanto ele me encarava, eu fazia uma cara totalmente boba, pois o sorriso em seus lábios era como o de uma criança assistindo um desenho animado. Realmente, não sabia se ria da cara dele ou se chorava por saber que esse momento logo acabaria, apesar de desejar o contrário. Ele deslizou suas mãos para meus braços, me segurando, mas então uma de suas mãos colocou uma mecha do meu cabelo para trás e delicadamente acariciou meu rosto como se eu fosse uma coisa tão frágil que qualquer toque mais forte me quebraria em pedaços.

- Ah, ... - ele suspirou - Por que tem que ser assim? - ele disse num sussuro que por um momento achei que tinha delirado e ouvido coisas inexistentes.
- Assim... como? - perguntei num suspiro quase inaudível economizando ar para continuar em pé.
Mas ele não respondeu. Foi - parecia que relutando com ele mesmo - aproximando seus lábios dos meus enquanto segurava meu queixo; por um momento pude jurar que havia tido uma parada cardíaca. Um frio subiu por todo meu corpo, o que me fez tremer muito por um segundo. Sinceramente, estava esfriando, mas a proximidade da respiração dele em meu rosto contribuiu para me fazer tremer daquele jeito. Pouco a pouco mais próximo de mim, estava me enlouquecendo. Ele estava brincando comigo, isso não era certo. Se eu desmaiasse ali mesmo, ele ia ver. Quando finalmente consegui relaxar meu corpo o máximo possível, ele chegou a um centímetro dos meus lábios e então...
Me deu um beijo tão suave. Com um detalhe: Na bochecha. Não, não. É sério, na bochecha. Eu não sabia na hora o que fazer; agradecer, bater... Fiquei frustrada, mas feliz por não cometer um erro tão terrível. Depois de dar um beijo suave, demorado e estalado na minha bochecha, novamente com aquele jeito como se eu fosse algo frágil, ele tirou seu casaco e colocou-o em mim. Não achem fofo, eu ainda estava furiosa.
- Não pegue um resfriado, falou? - e deu aquele sorriso bobo matador e irritante.
Quando me preparei para dar uma resposta bem rude, pensei novamente. Apenas concordei com a cabeça e agradeci. Estava me virando para sair dali o quanto antes quando segurou minha mão. Forte o suficiente para me parar mas com um toque gentil.
- Nós somos quem somos, não precisamos fingir. - ele disse com um ar misterioso e ainda sorrindo.
Ia responder novamente, mas o sinal escandaloso tocou. Lentamente ele soltou minha mão, dedo por dedo, enquanto me encarava. Quis perguntar o significado da frase dita por ele, mas não tive energia suficiente. Estava exausta psicologicamente... Muita coisa para um dia só. Ele saiu em direção à sua sala e depois de alguns minutos paralizada, fiz o mesmo. Eu me sentia muito estranha, surreal. Indaguei a mim mesma por muitas horas se aquilo não havia sido um sonho ou um delírio, mas tive medo da resposta. Eu estava bem achando que tinha sido real.


03.

Acordei confusa, procurando alguma coisa para ter certeza de que eu estava realmente acordada. Meus sonhos turbulentos me deixaram completamente desnorteada, sem saber se estava realmente sonhando. Tentei lembrar de tudo que tinha acontecido até adormecer exausta na noite passada, então veio uma dor de cabeça cortante me dominar. Flashes passaram por minha mente; desde os momentos com até as aulas tediosas e o intervalo com minhas novas amigas. Porém o que doeu tanto não foi a minha cabeça, mas sim o coração ao lembrar desses primeiros flashes. Uma lágrima amarga de tristeza e saudade ameaçou escorrer pelo meu rosto, mas exitei. Há muito tempo (na verdade, alguns meses) eu não chorava e queria conservar esse recorde. Tudo isso pelo mesmo motivo que me dava vontade de chorar agora; entretanto, iria manter minha promessa de não chorar mais por ele nem por ninguém que não merecesse. Quem me visse agora não iria acreditar que eu era a mesma pessoa de seis meses atrás que chorava várias vezes por dia por um amor não correspondido. Aquela que escutava músicas de amor e não aguentava mais sofrer já não existe mais e deu lugar a uma que não quer se apaixonar por mais ninguém, que não acredita mais no amor. Tudo bem, eu sei que chorei ontem por causa dele, mas não quero lembrar disso. Fingi apenas que não existiu.

Doeu demais pensar nisso, então tentei mudar meus pensamentos de assunto. Lembrei do intervalo (pelo menos de parte dele) quando conheci as meninas aparentemente mais simpáticas do colégio: Brooke Williams, que eu já havia conhecido no começo do dia, Frankie Morrison, melhor amiga da Brooke e Kate Morrison, irmã da Frankie e melhor amiga também. Reconheço que invejei a relação das irmãs, tão amigas e conectadas, diferente da minha relação com o Jake, tão conturbada. Tudo bem que a Frankie tem 15 e a Kate 16, diferença pequena de idade, enquanto eu e Jake temos seis anos de diferença. Mas mesmo assim, admirei tanta fraternidade nas meninas.

Elas eram tão simpáticas, animadas e engraçadas, que por alguns momentos eu não tive vontade de arrancar o pescocinho do
. Frankie era uma menina extremamente bonita, com seus cabelos castanhos dourados, lisos, até o meio das costas. Sua franjinha de lado dava um ar bonequinha super fofa e seus olhos castanhos escondiam uma criança muito feliz e uma adolescente igualmente alegre. Era incrível como ela conseguia ser os dois ao mesmo tempo. Kate, apesar de ser irmã da Frankie, era muito diferente dela. Igualmente linda, mas mesmo sendo mais velha, era mais baixa. Tinha os cabelos negros até um pouco abaixo do ombro e os olhos igualmente escuros. Também tinha essa coisa de ser criança e adolescente ao mesmo tempo, animando qualquer pessoa ao seu redor.

Elas fizeram com que eu me sentisse em casa, perguntando tudo sobre mim e contando muito sobre elas. Omiti muitas coisas como por exemplo o fato de conhecer antes mesmo de chegar aqui. Eu não gostava muito de falar sobre mim, de qualquer maneira. Mas era fácil mudar de assunto com elas, provavelmente porque elas entenderam que eu não estava muito afim de falar sobre minha vida. Conversamos sobre muitas coisas, apesar dos poucos 20 minutos do intervalo. Elas me contaram sobre algumas coisas do colégio, já que estudavam lá desde a primeira série e amigas desde então (Kate na segunda série, já que era um ano mais velha) e sobre algumas pessoas que mereciam (ou não) serem comentadas. Como por exemplo, Amy Shercklake (e olha só que coincidência que eu descobrira mais tarde: ela é uma das antipáticas que comentara com uma amiga sobre eu ser "pálida" logo que cheguei) que se achava muito rainha do colégio, mas só porque foi uma criança muito rejeitada e infeliz. Falaram também sobre Stacey Jones, bem amiga da Amy e adivinha, igualmente metida.

Pensei comigo mesma se em qualquer lugar que eu fosse sempre teriam essas meninas metidas a donas do mundo. Não que me abalasse, porque convenhamos, é preciso muito esforço para me tirar do sério. Mas quando eu perco a linha... Ninguém aguenta. Mas esse ano vai ser diferente, prometi a mim mesma. Estou mais calma, mais compreensiva, menos agressiva. Ou seja, nenhuma chatinha com plástica no nariz iria me perturbar.

Enquanto pensava em ter coragem para levantar e ir novamente para aquele local de tortura chamado colégio, lembrei do que havia sonhado essa noite. Pior do que isso, com quem. É meio óbvio, eu sei. O me perseguia até onde não deveria. E outra, apesar de ser um ano mais velho que eu, a mentalidade dele era muito mais criança do que parecia. O jeito dele, o sorriso dele, os olhos dele... O que eu estava fazendo? Já era suficiente o sonho que tive essa noite. Foi um daqueles sonhos em que você jura que foi real e acorda acreditando nisso. Quanto mais eu tentava esquecer o que havia acontecido no dia anterior, mais meu coração ficava apertado. Ok, hora de levantar e coincidentemente, na hora que pensei nisso, meu pai gritou meu nome lá de baixo.

Como no dia anterior, escolhi uma roupa confortável e adequada àquele sol forte lá fora, que pude observar pela janela. Fiz uma maquiagem levinha, prendi meu cabelo, que hoje já estava liso de novo, em um rabo de cavalo, coloquei uma regata larguinha, um shorts do mesmo tamanho daquele do dia anterior, uma flat com strass e brincos de argola também com strass. Desci, tomei café, escovei os dentes e saí. Respirei fundo para suportar tudo que estaria por vir e torci para que a companhia das minhas novas amigas tornasse meu dia mais suportável. Então, delicadamente, comecei a descer a colina em direção à grande construção, com o mesmo medo de sair rolando de ontem. Concentrada, estava quase completando meu trajeto quando ouvi uma voz me chamando da escadaria do colégio. Quando fui olhar, acabei tropeçando no meu próprio pé e caindo... Sorte minha que quase ninguém viu aquela cena. Meu pé começou a doer muito, uma dor cortante passou pelos meus joelhos e quando olhei vi que havia esfolado meus joelhos que agora sangravam. Senti que meu pé começara a inchar e que meu cotovelo apresentava a mesma sensação dos joelhos. Certo, o que eu queria? Havia rolado no asfalto por cerca de três metros até parar sentada no fim da colina e próximo às escadas. Houveram algumas risadas e outros gritos pedindo ajuda. Estava um pouco tonta e só nesse momento reconheci que a voz que me chamara era da Frankie. Alguém me levantou devagar, mas eu não estava enxergando direito devido à tontura, então reconheci pelas vozes que uma multidão se aproximara, mas que a Brooke me levantara. Aos poucos voltei a enxergar, então vi aquelas pessoas em volta de mim me olhando como se eu estivesse morta.

- Eu.. eu estou bem. O show acabou gente, vamos. - tentei andar, mas estava mancando muito.
- Não, nada disso, . Vamos até a enfermaria e qualquer coisa iremos para o hospital. - disse Kate.
- Gente, qual é, não tem necessidade de ir até a enfermaria, eu nem bati a cabeça!
- É perigoso, porque se você bateu a cabeça vai acabar ficando mais doida que já é... - aquela voz grossa e irritante encheu minha cabeça aumentando ainda mais minha tontura e agora fazendo meu coração bater milhões de vezes mais rápido.
- , você pode me deixar em paz pelo menos agora? - me equilibrei para não cair de tantos pensamentos vagando pela minha mente.
- , você pode me deixar em paz, blá blá blá - ele me imitou com uma voz aguda e irritante, como sempre. - Vem, pára de ser chata. Eu te carrego até lá.
- O que? Nem morta! - então, como se minha opinião não importasse, ele me agarrou, me ergueu e me colocou em um ombro, com a minha cabeça virada para as costas dele. - ! Me laaaarga! Você surtou?

Minhas amigas riram e não entenderam porque aquele gostosão supostamente desconhecido por mim estava me carregando e me tratava como se me conhecesse, e vice e versa. Tentei me soltar dando tapinhas nas costas dele e praticamente gritando para ele me soltar, mas meu cotovelo e joelhos começaram a arder mais ainda e meu pé estava cada vez mais roxo e inchado, então parei. Dei uma olhada em volta e vi que todos (ou melhor, todas) me encaravam com espanto, entendi que estavam em choque pelo mesmo motivo que minhas amigas estavam.

começou a andar a caminho da enfermaria quando o sinal tocou e me senti culpada.

- , pode me deixar aqui, eu consigo andar. Não vai perder mais uma aula apenas no segundo dia de aula, né?
- Eu não vou te largar aqui, atrapalhadinha... Queria ter visto você caindo.
- Pára! Você é muito mau.
- É... eu sou. , você tem medo de agulhas?
- Sim... muito. Por quê?
- Eu vou querer ver isso... - e deu uma leve risada.

Chegamos à enfermaria e o me colocou sentada em uma cadeira enquanto chamava a enfermeira e explicava tudo. Ele disse alguns termos médicos que não compreendi muito bem e fiquei impressionada em como ele sabia dessas coisas. A enfermeira, igualmente impressionada, acenou com a cabeça e dirigiu-se até mim.

- Oi bonequinha, diga-me, dói aqui? - disse apertando de leve meu tornozelo. Dei um grito agudo de dor e ela entendeu que sim. Enquanto isso, estava atrás dela, de braços cruzados e ria porque ela havia me chamado de "bonequinha". - Certo... pelo visto não é nada grave, mas você terá que passar num hospital se não desinchar até o final das aulas de hoje. Vou passar uma pomada e enfaixar. Quero que você passe aqui depois da aula para darmos uma olhada, e quanto aos arranhões, cuidarei deles. Você - disse virando-se para o - é o namorado dela?
- Sim. - ele respondeu rindo. Eu ia retrucar, mas não deu tempo.
- Que casal bonitinho vocês fazem! - a enfermeira disse fazendo uma cara de que ia explodir de doçura.
- Nós não somos um casal! - retruquei, nervosa.
- Ah, não liga. Crise de relacionamento. - ele disse com aquele sorriso idiota nos lábios. E de novo, eu ia responder, mas não consegui pois no fundo eu estava rindo, mesmo não demonstrando nem um pouco.
- Entendi... Ah querida, não deixe um peixão desse escapar! - ela disse virando-se novamente para mim. explodiu em risada no fundo enquanto tentei me controlar para não bater nela, pois senti que minhas bochechas estavam ficando vermelhas e, obviamente, para aumentar mais ainda as risadadas do , ele viu.
- ENTÃO... pode me ajudar aqui? Preciso ir para minha sala. - tentei evitar que ela falasse mais alguma besteira.

Depois de uns vinte minutos de total dor com meus cotovelos e joelhos ardendo mais do que tudo, a dor começou a passar. Perguntei para a enfermeira se poderia ir para minha sala, sua resposta foi negativa, disse que deveria esperar até o final da primeira aula e então poderia voltar.

- Pode ir agora. - disse sem olhar para o , mas ele entendeu que era para ele.
- Poxa vida, nem teve agulha... Só porque você tem medo.
- Ha-ha.
- Por que você é tão mau humorada comigo? Percebi que ontem no intervalo você estava toda sorridente com suas novas amigas.
- Tá com inveja? - olhei para ele erguendo as sobrancelhas.
- Não é isso.. Você só... podia ser mais legal comigo.
- E por que eu faria isso?
- Porque eu... - ele ficou em um silêncio constrangedor por alguns segundos, mas que para mim foi uma eternidade. - ... porque eu sou legal com você.
- Legal? Ah sim, , você foi muito legal comigo depois do verão passado, muito obrigada.
- Ah, não acredito que você ainda tá nessa.
- Oh, perdão, minha culpa ainda estar chateada por ter sido totalmente ignorada depois de tudo aquilo.
- ... - ele sentou-se na cadeira ao lado da cama onde estava deitada. - desculpa. Já te disse e direi quantas vezes você quiser. Desculpa, desculpa, desculpa. Mas eu não podia te ligar, eu estava... - e parou de falar de novo.
- Estava o que?
- Nada... esquece.
- Começou agora termina.
- , não tem como te explicar. Esquece, tá?
- Mas , você sempre... - fui interrompida pelo sinal que soou escandalosamente.
- Bem, vamos indo. Eu te ajudo.

Relutei no começo, mas acabei deixando ele me ajudar a ir para minha sala. No caminho, encontrei com as minhas amigas que ainda estavam impressionadas e boquiabertas por causa do grandalhão me carregando e pela leitura labial percebi que Brooke disse algo como "Depois vai ter que explicar TU-DO!", mas o não me deixou parar falando que teríamos que ir rápido antes de tocar o sinal. Concordei, pois seria demais fazer ele perder duas aulas. Ele estava me carregando do mesmo modo que me carregou hoje cedo. Era engraçado ver as reações das pessoas ao ver aquela cena. Pela expressão de alguns meninos, perguntei a mim mesma se meu shorts estaria muito curto ainda mais na minha... digamos... posição desfavorável.

- Sério que só tem esse jeito de me carregar? - resmunguei ao quando estávamos na metade do caminho.
- Não, mas você é uma menina teimosa e se eu te carregasse que nem gente, capaz que você pularia dos meus braços como uma batata quente. Então tenho que te carregar que nem um animal machucado na estrada.
- ! Isso doeu, tá? Me chamar de animal não é lá um elogio.
- Ah, mal. Esqueci que tenho que ser simpático com você mesmo recebendo o tanto de patada que recebo.

Aquilo realmente doeu. Não tanto pela dureza que ele disse, mas sim porque era verdade. Sei que o não tinha sido dos mais legais comigo, mas ele era um ser humano. O problema era que meu orgulho falava mais alto. Não conseguia ser meiga com ele, não dava! Mas pelo menos iria tentar ser mais humana.
Fiquei quieta o resto do caminho, bem longe nos pensamentos. Claro, eu estava com o pensamento longe, mas ele ao mesmo tempo estava tão pertinho de mim. O silêncio foi interrompido pela voz rouca e grossa dele que me colocou no chão delicadamente e passou meu braço por trás do pescoço dele para que eu pudesse me apoiar para entrar na sala e sentar na minha carteira.

- Chegamos. - ele disse quase indiferente.
- Hm... É... - tentei dizer alguma coisa, mas ficou preso na garganta.
- Vem, eu te ajudo a chegar na sua cadeira. - o tom de voz dele me machucava.
- , não precisa. Eu... Obrigada. Sério. - boa, . Precisava empacar justo agora? Alguma coisa nele me deixava tensa, nervosa e tímida... Era ridículo o poder que ele tinha sobre mim.
- Não foi nada. - ele começou a me levar para minha carteira, a qual eu havia apontado qual era antes.
- Você não precisa ser legal comigo... - dissse quando chegamos, olhando para baixo, com medo daquele olhar dele que me deixava insana.
- Mas eu quero... Apesar de que ultimamente você não tem merecido. - ele disse e eu podia sentir o olhar dele ardendo sobre mim.
- É, você realmente tem sido legal comigo. Afinal de contas, até que você pode ser um cara legal. Desculpa. Desculpa ser tão idiota com você. - disse num tom tímido, mordendo meu lábio.
- O quê? - sua voz era incrédula.
- Desculpa ter sido assim com você.
- Aaaah, era tudo que eu queria ouvir! - ele deu uma risada extrema, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.
- Quê? Como assim?
- , você até que fica fofa quando não está soltando fogo pelas orelhas, sabia? Ha, você caiu direitinho! Sou muito bom ator.
- ! Não acredito! Nossa, some daqui! Você é muito idiota! Se eu não estivesse debilitada você ia sentir meu punho encaixando certinho no seu nariz! - eu devia estar espumando de raiva, como ele podia ser assim? Ele arrancou umas sinceras desculpas minhas e por um momento pensei que estava enganada sobre ele, mas em um segundo ele mostra ser um idiota manipulador!

Ele riu por mais uns instantes e sem que pudesse esquivar, ele me deu um generoso e estalado beijo na bochecha que fez com que todos os que já estavam olhando o nosso showzinho arregalassem os olhos. Provavelmente fiquei corada, então me sentei rapidamente cobrindo meu rosto com as mãos. Ainda estava arrepiada do beijo que ele me dera, isso era patético...
Senti alguém me cutucar atrás e dizer perto do meu ouvido:

- Ele mexe com você, hein?

Virei para trás e vi uma menina absolutamente linda, com seu cabelo castanho longo e com cachos obviamente artificiais caindo sobre os ombros, contrastando com seu rosto quase tão pálido quanto o meu. Seu rosto era totalmente angelical, tão inocente... Sua voz, igualmente angelical, chamou minha atenção. Como era possível uma menina ser tão... pura?

- O quê? Claro que não! Ele é só... um conhecido.
- Vi como você se arrepiou quando ele te beijou. Não se preocupe, não contarei a ninguém. - disse e sua risada era como a de uma criança.
- Mas eu... - desisti de negar e suspirei fundo, era meio que óbvio para quem prestou atenção e viu que era verdade. - .
- Olivia Carter. Mas pode me chamar de Liv. - ela sorriu e me passou uma confiança como se já nos conhecessemos. - Então, , você é a famosa novata que rolou colina abaixo hoje?
- O quê?! Já estão comentando isso?! - fiquei estupefata em saber que as pessoas estavam comentando.
- Sim... E não é a única coisa sobre você que estão comentando...
- Ah, meu Deus. O que estão falando?
- Que você é a nova vítima do .
- Ah, que ótimo. Não quero nada com esse babaca. Quem começou com isso?
- Ah, querida, não sei.. Só sei que o colégio inteiro está comentando.

Fiquei apreensiva com isso, conversei apenas mais dois minutos com a Liv e o sinal tocou seguido do professor entrando na sala. No meio da aula, meu celular tocou a melodia que escolhi para quando recebesse mensagem de texto.

- Senhorita... - o professor me encarou com a típica cara de "não sei seu nome".
- . - respondi receosa. - Sim... Senhorita , entendo que é nova no colégio, mas tenho certeza que sabe que celulares na aula são expressamente proibidos. Precisa que a diretora explique?
- Er, não senhor. Não irá se repetir.
- Que assim seja. Então, como dizia, a inércia é a lei de Newton...

Delicadamente, abri o celular por baixo da carteira pois estava muito curiosa para saber de quem seria a mensagem.

", já que provavelmente não poderá sair no intervalinho de cinco minutos depois dessa aula, nos encontre no intervalo perto da lanchonete. Você tem muito o que explicar, hein? B."

Entendi na hora que a Brooke estava muito curiosa sobre o que havia acontecido mais cedo, então foi o que fiz. O sinal do fim da terceira aula soou e calmamente tentei me levantar. Liv, que eu havia conhecido melhor no intervalinho da segunda aula, estava me ajudando a caminhar para fora da sala. Agradeci a ajuda e disse que poderia continuar sozinha, prometendo que depois nos falaríamos, pois eu estava encrencada. Ela riu e concordou. Demorei um pouco mais do que o normal para chegar ao lugar combinado, pois eu estava mancando muito. Chegando lá, estavam todas elas: Brooke, Kate, Frankie e mais uma garota que eu não conhecia. Era uma melhor amiga delas também, que havia faltado no dia anterior. Ela era uma menina oriental, decendente de japoneses, descobriria depois, e muito bonita. Era sorridente, alegre e brincalhona. Tinha os cabelos negros e extremamente lisos até o meio das costas com uma franjinha simpática de lado. Era totalmente esbelta, com um corpo que fazia inveja a muitas. Seu nome era Chelsea Lynn. Fomos apresentadas, até que chegou a pergunta fatal:

- Então, , não tem nada que você quer nos contar? - Frankie indagou apoiando a mão no queixo, como um investigador.
- Eu? Er, tenho. Na verdade, odeio matemática.
- Muito engraçadinha, mocinha. Pode ir contando. Quando, como, por quê, como foi. - Brooke se manifestou.
- É sobre o ?- suspirei.
- É CLARO! Vai, conta tudo. - era a vez de Kate falar também.
- Certo... Nos conhecemos no verão passado, quando vim visitar minha avó. Nos encontramos em uma festa na praia, começamos a conversar e ficamos amigos depois de algumas semanas.
- Amigos? Aaaah tá. Até parece. - Kate disse rindo.
- ENFIM... ficamos amigos. Não nos beijamos nem nada, é sério.
- Como assim? NADA? Ah, não acredito! - Chelsea interrompeu.
- Poxa, é sério. Não rolou nada. Ele tentou me beijar algumas vezes, mas eu não deixei.
- Você não deixou?! Pááára com isso! - Frankie parecia indignada.
- Posso terminar? - suspirei fundo e disse, sem parecer rude. Elas permaneceram em silêncio, concordando com a cabeça. As expressões delas eram engraçadas. Estavam prestando tanta atenção como se fosse algo totalmente importante. - Certo... então, certa noite, quando estava indo para a casa da minha avó, nos despedimos e ele pediu que o encontrasse naquele mesmo lugar as três da tarde do dia seguinte. Disse que sim, ele era muito legal comigo, então não teria problema algum. E assim foi, às 3:02 da tarde, estava lá esperando por ele. Fiquei lá por cerca de três horas, tentando achar uma razão pela qual ele não havia aparecido. - parei para respirar, e logo continuei.
- Quando me dei conta, estava admirando o pôr-do-sol e as lágrimas lentamente caiam do meu rosto; cheguei a conclusão de que quando ele percebeu que eu não era o tipo de garota que ele estava acostumado e que seria impossível fazer as coisas que provavelmente ele queria, ele simplesmente não estava mais interessado em mim. Me senti a garota mais estúpida da face da Terra e de repente o pôr-do-sol tornou-se a única lembrança que queria ter daquele verão. Jurei a mim mesma que nunca mais acreditaria em nenhum menino, especialmente esses que se acham a última Coca do deserto, mas por um minuto eu podia jurar que ele era diferente. Mas ele! Ah, justo ele... Não seria possível um menino lindo ser legal comigo sem segundas intenções. Então, depois desse verão insuportável, voltei para casa fingindo que nada havia acontecido comigo, distribuindo sorrisos quando na verdade eu me escondia no banheiro para chorar. Ele não saía da minha cabeça, era tortuante continuar daquele jeito. Mas não havia alternativa, tentei olhar com outros olhos para outros meninos, mas não dava. Tudo que meu coração implorava era pra ver aqueles olhos intensos de novo. Aqueles malditos olhos que me faziam parar de respirar e meu coração ir de 90 a 200 em milésimos. Eu sabia que nunca mais iria me sentir assim, então senti um vazio muito grande e eu posso jurar de toda minha alma que a dor havia ultrapassado os limites do emocional e tinha tornado-se física.
- Passaram-se seis meses e estava anestesiada, vazia. Impedi meu corpo de sentir qualquer coisa, boa ou ruim, bloqueei meus sentimentos, meus pensamentos. Não estava vivendo, mas apenas existindo. Minha pele estava fria, meus olhos opacos. Eu queria tanto abrir os olhos, porque eu queria ver que não precisava mais dele. Foi totalmente idiota o jeito que me sentia sobre ele, era algo mais forte do eu jamais havia imaginado que poderia existir. Mas quando eu finalmente estava começando a me recuperar, recebi a notícia fatal. Iria me mudar para cá por causa da minha avó que estava doente e não tinha como minha família ficar viajando toda hora. Foi como um choque, me destruiu. Meu coração dóia novamente e todos os sentimentos que eu havia bloqueado com tanto esforço voltaram num segundo. Implorei para ficar onde estava, mas acabei ganhando a imagem de egoísta e insensível. Meus pais diziam que minha avó precisava de mim, eu sabia disso. Queria estar lá com ela, mas só de pensar no fato de vê-lo novamente meus olhos transbordaram em um segundo. Rezei, fiz promessa e tudo que pude para que não encontrasse com ele e muito menos estudar com ele. Mas foi tudo em vão. E então, cá estou eu.

Quando terminei, elas me encaravam com expressões praticamente iguais: uma mistura de pena, surpresa e sem saber o que falar. Ninguém atreveu-se a dizer qualquer coisa, depois do meu discurso longo e doloroso. Apenas depois de alguns segundos que pareceram eternidades me dei conta que umas lágrimas escorriam pelo meu rosto, então enxuguei-as.

- Desculpa pela demora... É que nunca contei essas coisas a ninguém, acabei me empolgando.
- Não foi nada... É bom desabafar. - Brooke passou o braço por trás dos meus ombros tentando me consolar. O problema é que ela não sabia que nada poderia me consolar agora.
Kate aproximou-se e me abraçou fortemente, o que fez com que - não faço a menor ideia por quê - eu chorasse muito, desabasse por completo. Ensopei o lado direito da blusa dela e quando levantei para tentar respirar, me deparei com a imagem de , um pouco mais longe, me fitando. Isso foi o fim pra mim e corri/manquei para o primeiro lugar que pude me esconder. Pude ver que elas entenderam o motivo de tal ato e se entreolharam, sem saber o que fazer.
Estava abaixada em um canto qualquer atrás de uma árvore do jardim. Meu tornozelo latejava, mas o aperto no peito era pior. O sinal tocou mas não tive forças para levantar, e além do mais, não queria que ninguém visse a minha cara de choro logo nos primeiros dias de aula. Continuei chorando por mais um tempo até ser interrompida por vozes ao fundo.
- Eu sei, eu sei. Mas não sabia o que fazer com ele, então mandei-o para a diretoria. O que houve com ele?
- Não sei também, mas creio que tomaremos medidas de segurança.

Eram duas das coordenadoras do colégio. Se me pegassem ali, achariam provavelmente que estava me drogando, matando aula ou algo do tipo e levaria uma linda suspensão que meus pais não gostariam nadinha.
Prendi a respiração e torci para irem embora logo antes que me vissem, e lentamente andaram para o outro lado até que suas vozes ficassem inaudíveis. Decidi que seria mais seguro se eu fosse para o banheiro feminino e qualquer coisa daria a desculpa que estava passando mal.
Levantei lentamente, olhei para os lados até ter certeza que era seguro seguir em frente. No corredor do banheiro, andando de fininho, alguém segurou no meu ombro por trás e quando ia gritar de susto, minha boca foi coberta com uma mão imensa, fui prensada nos armários que fizeram barulho. Uma voz sussurrou no meu ouvido:

- Não grita! Se alguém ouvir estamos ferrados. Demais.
- Quem é você?! - sussurrei, estressada.
- . E você?
- Como assim quem sou eu? Não interessa, por que você fez isso?!
- Ah, qual é, eu percebi que você ficou me encarando na aula de biologia.
- Eu nunca nem te vi!
- Ah, não seja tímida. Você é gata também.
- Tá, você é muito estranho. Pode me largar?
- Me fala pelo menos seu nome.
- Hm.... Mas sério, me larga.
- , quer dar uma volta depois da aula?

Então parei de me debater e olhei para ele. Meus olhos se arregalaram e eu congelei. Ele era absurdamente lindo. Seu corpo parecia ter sido feito a mão, seus olhos eram e seu cabelo era escuro e liso. Tinha aquele estilinho de cabelo levemente bagunçado, vestia-se super bem, e cheirava a hortelã. Fiquei hipnotizada por aquela maravilha que segurava meus pulsos e estava a apenas poucos centimetros de mim.

- Então, vamos?
- Hm, pode ser. - disse inconscientemente.

04.

Eu sabia. Tinha certeza. Era óbvio que caras como o Josh não valiam nada, mas me deixei levar. É, talvez fui superficial, até porque eu nem o conhecia mas vi que era fatalmente lindo. tinha um poder sobre mim, mas como meu instinto era xingá-lo, não tinha outro jeito. Quem sabe o Josh não curaria as marcas do meu passado sombrio?
Na última aula, fui para a enfermaria. Pedi para Liv que emprestasse a apostila para que depois pegasse as anotações e exercícios, e ela concordou. Chegando lá, após muito examinar, a enfermeira disse que eu teria de ir para o hospital, de qualquer jeito. Reclamei, resmunguei, mas ela não cedeu. Teria que ir para lá, e imaginei o sermão que ouviria quando chegasse em casa.
Sendo assim, liguei para minha mãe e disse que sairia com uns amigos novos, ela ficou contente por eu finalmente estar fazendo amizades. Não chega a ser uma total mentira, certo? O Josh poderia muito bem ser meu amigo. Mas a verdade era que eu não conseguia convencer nem a mim mesma sobre isso. Provavelmente nossas intenções iam mais longe do que uma simples amizade. E talvez, lá no fundo, eu quisesse me envolver com alguém, pois a sensação de vazio que deixara me consumia cada dia mais. E meu coração dizia que, infelizmente, - o mesmo causador do vazio - seria o único capaz de preenchê-lo. Ainda assim, não custava tentar.

Algo dentro de mim sentia que sair com Josh seria errado. Seria traição. Mas trair quem? Eu era completamente solteira e livre. Deixei a sensação ruim de lado e ao fim das aulas procurei por . Encontrei-o encostado perto da quadra com vários amigos e pensei no que fazer. Não iria simplesmente chegar dizendo "Então, vamos para o nosso encontro secreto?" e além do mais, precisava ir ao hospital antes. Esperei por um momento e quando estava prestes a ir embora ele acenou para mim e sorriu.

- Ei! - ele disse vindo em minha direção deixando os amigos para trás.
- Ah, oi. - disse quase tímida.
- Tudo pronto? - ele sorriu quase maliciosamente para mim e me perguntei novamente se estava fazendo a coisa certa saindo com ele. Mas, que se dane o meu lado racional, precisava me distrair.
- Hm, quase. Preciso passar no hospital antes. Se importa?
- Não, posso esperar aqui, se quiser.

A resposta que eu esperava era mais um "Ok, irei com você" mas me contentei com aquilo. Afinal, nós mal nos conhecíamos. Então, combinamos de nos encontrar em uma lanchonete perto do colégio no lado leste da cidade às 16:00 e fui em direção às escadarias do colégio. Lá estavam umas dez pessoas conversando e rindo e do outro lado estavam minhas novas amigas. Elas acenaram de longe para mim e me chamaram com a mão. Lentamente e mancando, desci degrau por degrau até elas.

- Olha quem resolveu aparecer. - brincou Frankie.
- Oi garotas e tchau garotas. Preciso ir ao hospital. - dei um sorriso torto.
- Quer companhia? - perguntou Kate.
- Não, obrigada. Eu me viro. - Na verdade, eu queria. Mas sabia que não seria certo fazê-las esperar por mim no hospital. Optei por ir sozinha. - Hm, meninas... Vocês conhecem um tal de ?
- O loiro ou o moreno? - indagou Frankie.
- O moreno.
- Josh Collins? Aquela escultura maravilhosa que anda? E que, falando nisso, é um total idiota. - disse Brooke, fazendo uma careta de desaprovação e as outras concordaram. - Sim... conhecemos. Por que?
- Ah. Tenho um "encontro" com ele. - respondi, fazendo as aspas com as mãos.
- O QUÊ? - ouvi em coro. - Como assim?

Expliquei o que aconteceu e pelo que percebi, elas não aprovaram minha atitude. Concordava com elas por diversos motivos. Sair com alguém que eu nem conhecia e sabendo o tipo de garoto que ele era, era totalmente arriscado. Essa não era eu. O que esta cidade estava fazendo comigo? O que as pessoas daqui estavam fazendo comigo?

O relógio do hospital indicava 15:55 quando saí de lá. Eu demoraria no mínimo 10 minutos para chegar na lanchonete com a minha locomoção debilitada. O médico disse que não era grave, ficaria enfaixado por alguns dias, mas deveria evitar esforçar muito. Com certeza, senhor doutor, tente não se esforçar quando não tem idade para dirigir ou mora numa cidade onde metrô é algo totalmente inexistente.
Cerca de 15 minutos depois, cheguei na lanchonete, cansada e ofegante, e vi Josh tomando um refrigerante na mesa do canto. Ele ainda não havia me visto, estava com o celular nas mãos, totalmente distraído. A sensação de estar fazendo algo errado me invadiu novamente, e fiquei perturbada com isso. O que iria acontecer? Eu não iria permitir que Josh fizesse alguma coisa indevida comigo. Certo?

- Desculpa pelo atraso. Não tive a intenção de demorar tanto no hospital. - disse me sentando na cadeira a frente de Josh e tentando sorrir sinceramente.
- Ah, não se preocupe, acabei de chegar também. - ele respondeu guardando o celular no bolso e sorrindo para mim. - Então, quer pedir?
- Claro! - eu disse e ele acenou para a garçonete.
- Pois não, o que vão querer? - uma garçonete jovem veio até nós com um rabo de cavalo que prendia seu cabelo cor de mel imenso. Era bonita e provavelmente era apenas uns dois anos mais velha do que nós. Na verdade, do que eu, já que Josh era um ano mais velho.
- Eu vou querer um triplo cheeseburguer com queijo extra acompanhado com fritas e um milk shake de chocolate grande. - acreditem, esse era o MEU pedido. Ah, qual é? Eu estava faminta. Quando terminei de pedir, um silêncio constrangedor permaneceu na mesa enquanto Josh me olhava e a garçonete me encarava como se esperasse que eu dissesse "brincadeira!" e pedisse só uma saladinha. Mas eu não disse.
- Ah, vou querer o mesmo, sem o milk shake. - Josh quebrou o silêncio eterno, fechando o cardápio e levantando o copo para mostrar que já tinha a bebida.
- Ok... Já trago o pedido... - ela disse hesitante e deu uma piscadinha para . Ele riu.
- Nossa, que sucesso hein? - eu disse cruzando as pernas.
- É... acontece o tempo todo. Fazer o quê...
- Então pode me dizer, Sr. Sucesso, o que o fez me convidar para sair? - eu perguntei apoiando os cotovelos na mesa para me aproximar dele.
- Achei você muito gata, só isso. - ele deu de ombros. Só isso? Sério? - Falando nisso, belo apetite. Mas será que você vai aguentar comer tudo?
- Provavelmente... Estou faminta. - ri nervosa, me arrependendo de ter pedido tudo aquilo. Não que eu não fosse aguentar, mas com certeza ele estava acostumado a sair com garotas que pediam um alface e uma água.
- Admiro garotas que comem decentemente. Me dá nos nervos aquelas garotas que só comem salada. - ele sorriu para mim e eu retribui o sorriso, tímida. Ele leu meus pensamentos?
- Mas você tem que admitir que o jeito como você me abordou foi no mínimo estranho.
- Ah, certo. Desculpe por isso, não sabia como chegar em você com todas aquelas suas amigas por perto.

O almoço foi calmo, conversamos sobre diversas coisas e tínhamos um razoável número de interesses em comum. Afinal, ele não era um cara tão mau assim. Após isso, fui para casa. Ouvi um sermão de vinte e dois minutos por não ter avisado sobre o incidente eu x colina. Pedi desculpas umas 233 vezes e argumentei que não queria preocupá-los, mas ainda assim minha mãe estava uma fera comigo. Não contei sobre Josh e ela achou que estive até agora no hospital. Não era mentira, certo? Eu apenas omiti o almoço. O que fazia total sentido, uma vez que minha mãe iria querer saber até o RG do garoto.

Fiz meu dever de casa e coloquei a matéria em dia. Arrumei a bagunça que estavam meu guarda roupa e meu quarto, organizei tudo de podia no quarto e no banheiro, inclusive os meus estojos de remédios e maquiagem. Depois de jantar, tomei um banho extremamente quente e relaxante e refleti sobre tudo. Tentei manter meus pensamentos longe de , mas era inevitável. Estava certo o que eu estava fazendo? A única coisa que eu sabia era que eu não sabia de nada.

~
No dia seguinte, acordei me sentindo renovada. Mesmo que preocupada com o que me aguardava no colégio, acordei sorrindo. Mas meu sorriso logo sumiu. Lembrei que sonhara com . Eu sabia exatemente, nos mínimos detalhes, o que eu havia sonhado, mas simplesmente fingi que aquele beijo não acontecera. Eu precisava clarear a mente.
Após minha rotina matinal, fui para o colégio. Tive que sair mais cedo para não me atrasar devido à minha lerdeza para andar com o pé enfaixado. No caminho, encontrei minhas amigas.

- Oi, manquinha! - cumprimentou-me Kate.
- Oi garota do ! - disse Frankie me dando uma cotovelada.
- É mesmo! Você saiu com o ! Como foi? - indagou Brooke.
- Ah, foi bem legal até. E não me chame de manquinha, não tem graça. - tentei ficar séria, mas foi inútil. Comecei a gargalhar quando elas riram também.
- Como assim "legal"? Queremos de-ta-lhes. Vocês se beijaram? Teve mão boba? Ele falou quando vocês vão sair novamente? Ele fala bastante? Ele tem um amigo gato? - disse Chelsea, ainda rindo.
- Bom... não, não, não, sim e não sei! Quer que eu pergunte? - fiz uma cara maliciosa para ela.
- Querida, Josh é um dos 10+ aqui do Miles High School. É lógico que ele tem amigos gatos. Dá uma forcinha, né? - Brooke suspirou.
- Deixa comigo!
- Falando nisso, temos novidades. Você está oficialmente convidada para nossa festa anual no lago. Tem biquíni?
- Que festa é essa? E não, não tenho biquíni pois não uso. Tenho maiôs. - eu disse calmamente.
- Vou ignorar a parte dos maiôs. Todo ano fazemos uma festa no lago Fall e é uma das melhores. Garotos sem camisa, uuuuuh! - disse Chelsea rindo com as outras. - E você vai.
- O que te faz pensar isso? - eu perguntei quase rindo. Eu sabia que eu ia. Não pelos garotos sem camisa, mas sim por querer me enturmar.
- Porque nós estamos dizendo que sim. - Brooke sorriu para mim com um ar de graça. - E porque seu namoradinho vai estar lá.
- E quem disse que eu quero ver o ?! Ele é só um idiota que eu nem lembro mais o nome!
- Ahn... Eu estava falando do . - Brooke disse sem graça.
- Ah... - silêncio constrangedor - Ele não é meu namorado, de qualquer maneira. Desculpem, me exaltei.
- Bom, a festa é no mês que vem e você vai se encontrar com a gente de manhã. A festa vai até a noite. - disse Frankie tentando quebrar o clima chato que eu criei sem querer.
- Tudo bem... Ele vai estar lá? Eu digo, o ? - eu disse quase sussurrando, baixando o olhar para o chão e pensando no que eu faria se ele estivesse lá. De repente, eu não sentia mais vontade de ir à festa.
- É uma tradição. Todos vão e ele sempre foi. Na verdade, ele foi um dos criadores da festa. - confirmou Kate.
- Droga.

As duas primeiras aulas passaram razoavelmente rápido e a terceira passou voando. Era sempre assim na aula de redação; quando eu escrevia, perdia noção do tempo e passava extremamente rápido. Irônico ou não, o tema da redação de até 35 linhas era: "Primeiro amor". Prefiro não comentar sobre o quê ou quem eu escrevi. Não que eu estivesse apaixonada, mas fingi que sim para me inspirar. Eu precisava de notas boas.
No intervalo, estava me dirigindo para a cantina quando avistei Josh e seus amigos próximos à escada interior principal. Não sabia se ia até lá ou se fingia não ter visto, mas ele me viu. Deu uma rápida piscada e um sorriso encantador que me fez derreter. Instintivamente, fui até ele e quando cheguei lá, ele abriu caminho entre os amigos e me deu um beijo demorado na bochecha, mas muito perto da boca.

- Pessoal, essa é a . - ele disse passando o braço pelos meus ombros. - , esse é o pessoal.
- Oi, gente. - eu disse timidamente. Vi uns garotos muito bonitos e pensei nas minhas amigas. Mas como falar sobre isso com o Josh sem fazê-las parecerem atiradas? Talvez a Festa do Lago ajude em muita coisa. - Bom, vim aqui só pra te dar um oi, mesmo, .
- Ok então, a gente se fala depois da aula?
- Claro. Prazer em conhecê-los. - acenei com a cabeça e dei meu melhor sorriso. Precisava de uma boa impressão para ajudar minhas amigas.

No caminho, vi de longe conversando com uma menina. Ela não era bonita. E eu não sou ciumenta! Ela estava no mesmo ano que eu mas na sala do outro lado do corredor. De repente um flash de memória tomou conta de mim e me lembrei quem era ela. Stacey Jones. Sim, a própria. Seus cabelos cor de fogo eram compridos e volumosos e tinha uma pele quase tão branca como a minha. Por que, mesmo, ela tinha me chamado de pálida? Ela era alta, praticamente do tamanho do , e era magra. Bem magra. Ainda assim, era horrorosa. Certo, ela não era tão horrorosa assim.
Ela mexia no cabelo e sorria enquanto falava com ele e se eu não fosse uma completa ignorante no assunto "linguagem corporal", poderia dizer que ela estava dando em cima dele. Ela e o cabelo. Mas era só um palpite. Logo depois, ela dirigiu-se em minha direção, na fila da cantina. Ela me cutucou levemente e sorriu. Ela estava MESMO sorrindo para mim?

- Oi! Você deve ser a . Eu sou Stacey, muito prazer!
Ela. Estava. Sendo. Simpática. Comigo?
- Oi, Stacey. Como você sabe quem eu sou? - perguntei tentando ser simpática. Ela apontou para meu pé e eu lembrei do acidente na colina. Todo mundo sabia quem era a tonta do tombo. - Ah.
- Você é nova por aqui né? É chato isso. Eu digo, não conhecer ninguém. Se quiser, pode vim lanchar com a gente. Eu e meus amigos. - e eu achei que já tinha visto de tudo na vida.
- É, bom, eu já fiz umas amizades. - a fila andou.
- Com quem? - ela fez uma cara de curiosidade.
- Com a Kate, a Frankie, a Brooke, a Chelsea...
- Ah, conheço elas! Super fofas. A gente costumava andar junto. - uau, disso eu não sabia. - Mas enfim, se quiser se juntar a nós um dia desses, fica a vontade!

E foi o que eu fiz nos dias seguintes. Ficamos muito amigas e eu cometi o maior erro da minha vida fazendo isso. Ela acabou me afastando das minhas amigas sem que eu percebesse. Eu era tão inocente assim? E também passei os dias gastando todas minhas energias possíveis para ficar longe de . Odeio admitir, mas doeu. Muito. Era quinta feira da semana seguinte, eu não andava mais com as garotas. Eu andava com um pessoal que era tão exclusivo que eu não sabia como eu havia parado ali.

Em um dos intervalinhos de quinta feira, me deparei com no corredor e tentei desviar. Fui para um lado, ele me acompanhou. Fui para o outro, ele fez o mesmo. Até que parei e me virei de lado para dar passagem, evitando olhar nos olhos dele. Encostei as costas na parede desejando que ele saisse logo do meu campo de visão. Ele parou de frente para mim e levantou meu queixo com seu indicador para que eu olhasse para ele. Meu coração martelava em meu peito e meu corpo inteiro pulsava junto.

- , posso te pedir um favor? - ele segurou minha mão de leve e falou calmamente, olhando nos meus olhos com um sorriso triste brotando em seus lábios.
- Ahn... pode. - minha voz saiu mais trêmula do que estava em meus pensamentos. Isso me deixou mais nervosa.
- Não se apaixone por mim, tá?
- O quê?
- Vai ser melhor, acredite. Você precisa que eu me afaste de você para que isso não aconteça?
- O QUÊ? - arqueei uma sobrancelha.
- Podemos ser amigos, se você quiser. Mas é perigoso. - ele quase sorriu.
- Não me subestime. - eu disse, irritada, empurrando-o para longe de mim.
- Não nos subestime. - ele deu ênfase no "nos". O que diabos ele estava dizendo? Como se ele fosse irresistível.
- Olha, você pode ser completamente sedutor para as suas amiguinhas, mas não para mim, entendeu? Eu preciso mesmo que você fique longe de mim, mas não para não me apaixonar por você, mas sim porque você me dá nojo! E se você acha que em algum universo paralelo eu irei gostar de você, você perdeu o juízo.
- Oh, não. - ele levou a mão a testa, fazendo drama.
- O que é?
- Você está completamente apaixonada por mim.


~ E é nesse momento que a gente se arrepende. Você vai saber por quê.

Stacey me apresentou Amy. Amy Shercklake era uma garota de cabelos bem castanhos e lisos, tinha um nariz de porquinho. Inicialmente ela puxava assunto comigo, falando sobre coisas que tínhamos em comum. Que era quase nada. Achei-a ligeiramente metida enquanto ela falava sobre suas viagens pelo mundo e as pessoas famosas que tinha conhecido. Principalmente jogadores de futebol. Ela não era interessante.
Ainda assim, tentei ser simpática com ela. Estávamos nos dando bem e eu era a melhor amiga de Stacey, segundo ela. Stacey e Amy me mudaram completamente e eu passei a agir como elas. Se eu estivesse do lado de fora, me vendo, teria feito algo para impedir. Mas eu estava cega de alegria por ter amigas tão legais e até mesmo por Stacey ser tão influente. Amy era só alguém que eu tinha que conviver. Era um adereço, nada mais. Eu conversava com muitas pessoas e elas eram legais comigo. Eu nunca havia feito amizades tão rápido como naquela semana.
A parte triste - uma delas -, é que eu quase não percebia o meu erro. Ter largado minhas antigas amigas, estar agindo como uma idiota, chamando a atenção. Até o meu jeito de falar mudara. Eu estava mais ousada, menos educada e muito menos simpática com os outros. Tive que engolir minhas palavras de quando disse uma vez para minha mãe de que "os amigos não mudam quem somos".
Mudam, e totalmente. Stacey ia para minha casa e vice versa. Trocamos segredos, trocamos histórias. E então, dei o que ela queria.
A história do .
Não sei realmente como aconteceu, mas ela tinha um poder incrível de arrancar as palavras da minha boca. Contei o quanto chorei, o quanto sofri e até mesmo descrevi o perfume dele. Chorei no colo dela e ela me consolou. Adorei-a ainda mais por isso. Ela me deixou melhor, de certo modo, me dando conselhos. Ela era experiente.
Então, aconteceu.
Três dias após minha confissão amorosa para Stacey, eu estava na aula, tranquilamente, e o sinal tocou. Quando ia me dirigir para a porta e sair para o intervalo, eu achei que ia morrer. Nada fez sentido e meu coração doía, e doía de verdade, como nunca na vida. Meus pés congelaram no chão, minhas mãos ficaram frias. Meus olhos arregalaram-se e pisquei várias vezes para ter certeza de que era real. Eu nunca senti a morte tão próxima de mim como senti naquela hora.
beijava Amy. Na porta da minha sala.
Eu não sabia o que fazer; poderia correr dali, fechar os olhos e não ver aquilo, bater nos dois... Mas nenhuma me pareceu razoável. O que consegui foi ficar ali, olhando. O engraçado é que não tive nem reação para chorar, estava em choque demais para isso. Os dois finalmente pararam de se beijar e saíram caminhando de mãos dadas. Foi a experiência mais dolorosa da minha vida e senti meu último vestígio de vida apagando-se enquanto via tudo escurecer.

Tudo escureceu porque eu consegui me sentar, abaixar a cabeça e cobrir os olhos. Tudo que consegui foi chorar. Tentei aliviar a dor que penetrava em meu corpo, mas não passava. Aquela imagem ficara gravada em minha mente como se ainda estivesse acontecendo. Era viva, me queimava e me destruia. Eu ia morrer, eu sabia. Meu corpo não era forte o suficiente para aguentar aquilo e logo eu cederia. Meus olhos ardiam, minha boca estava seca, meus ossos pareciam pó.
Senti alguém abraçar meu ombro e tentei distinguir a silhueta turva ao meu lado. Era Kate. Como ela podia ser boa comigo após tudo que eu fizera? Chorei mais. Soluçava e à medida que tentava parar, piorava. Kate acariciava meu ombro, tentando me acalmar.

- Shhh... Vai ficar tudo bem.

Eu não conseguia acreditar em nada daquilo, era completamente surreal. Eu abandonara minhas amigas, minhas novas amigas me traíram da pior maneira possível e agora quem eu traí era quem me ajudava? Onde estava o sentido de tudo? Obviamente, não poderia raciocinar sobre isso naquele momento. Meu corpo tremia e eu não me sentia mais presente. Estava em qualquer lugar, menos ali. Por que eu vim parar aqui? Era algum tipo de lição que deveria aprender? Se fosse, por que dessa maneira? Eu morreria antes mesmo de entender.
Só após alguns minutos consegui me acalmar o suficiente para perceber que Kate não era a única ali. Frankie acariciava minha coxa e Brooke passava a mão na minha cabeça. Por que eu não consegui sussurrar um "Obrigada" para elas? Que péssima amiga eu era. Não merecia aquilo. Quando as pessoas dizem que estão sofrendo por amor, elas não sabem realmente o que é doer. Não desse jeito. Não nessa proporção de crueldade. As lágrimas não cessavam, muito menos a dor. O ar deixou meus pulmões e tenho quase certeza de que meu sangue parou de circular. Me senti vazia.
Minhas razões dissiparam-se e tudo que acreditava ser certo deixou de ser tão certo assim.

- Você está melhor? - Brooke me perguntou minutos depois.
Não.
- Sim. - respondi. - É que... fiquei muito chocada na hora. Mas passou. Não sei como agradecer por estarem aqui e nem sei como começar meu pedido de desculpas.
- Não se preocupe, entendemos.
Eu não sei o que fiz para merecer amigas tão legais... Então, o sinal tocou.
- Obrigada pela companhia meninas. De verdade. E me desculpem por tudo... Eu fui...
- Idiota? - completou Frankie.
- É, muito mais do que idiota. Não há palavra pra descrever o que fui.
- Esquece isso. - sorriu Kate. - Vamos para nossas salas, tudo bem?
- Claro. Por favor. - e fingi o meu melhor sorriso. Como era possível sorrir com tanta dor dentro de mim?

O restante das aulas passaram arrastando-se. Não saí da sala em nenhum momento, mas vi diversas vezes o novo casal do colégio passando pelos corredores. Estava em frangalhos e não conseguia levantar. Abaixava o rosto e chorava, vez ou outra. Eu precisava de mais auto-controle. Vi que Liv ia falar comigo, mas hesitou. Também achei melhor assim, não gostava de ninguém com pena de mim.

Em um dos intervalinhos, Stacey fez o que jamais imaginei que fosse capaz, mesmo depois de tudo isso. Ela entrou desfilando na sala, dirigiu-se até mim e disse com muita naturalidade: - Oi, ! Então... Só pra você saber, contei sua história com o para a Amy. Ela me disse que ficou interessada nele, então dei uma ajudinha para eles, espero que não se importe.

Como era possível?! Deveria ter ouvido minhas amigas quando disseram que ela não prestava, que ela havia feito muitas coisas ruins para muitas pessoas! Qual era o problema dela?!
Houve uma explosão enorme de raiva e tristeza dentro de mim e posso jurar que faltou muito pouco para arrancar a cabeça dela. Muito pouco. Apenas encarei-a com a melhor cara de desprezo que pude fazer e esperei ela sair. Isso não podia estar acontecendo.

No fim das aulas, minhas amigas me acompanharam pelo caminho. Como era de se esperar, os dois estavam se beijando na escadaria. Avistei Stacey conversando com o grupinho dela e senti ânsia, fiquei doente de vê-la rindo com os seus amigos enquanto eu morria pouco a pouco. Como alguém podia praticar tal atrocidade sem sentir nem um resíduo de remorso? Era humilhante. Era humilhante ter confiado nela, ter aberto mão de tudo por ela e agora isso. Não fazia sentido algum... Por que eu?

Mais tarde, no meu quarto, o meu travesseiro estava afogado nas minhas lágrimas. Não almocei nem jantei, não fiz dever, não fiz nada. O máximo que fiz foi tomar banho e ficar lá juntando minhas lágrimas com a água quente que caia em meu rosto. Alguém entenderia o quanto eu estava sofrendo? Era capaz de se imaginar tamanha dor? Gostar de alguém a tanto tempo e ver alguém que você confiava destruir tudo em segundos... Eu estava cedendo. Todos os meus pensamentos e dor eram em vão, nada ia trazê-lo para mim. Nada acabaria com esse vazio em mim. Então um pensamento me invadiu.
.
Ele seria capaz de me ajudar em tamanho problema? Estava instável emocionalmente, então achava justo fazer o mesmo que ele estava fazendo comigo. Mas é claro que não surtiria o mesmo efeito nele. Ele não se importava comigo o tanto que me importava com ele, mas o que eu tinha a perder?

De qualquer maneira, a vida me ensinou algumas coisas de uma maneira bem cruel. Pra começar, homens são incapazes de sentir. Garotas podem ser muito más. Quando você acha que conheceu o limite da dor, é só o começo. Dar valor às pessoas certas pode ser bem difícil às vezes.
Mesmo que não concorde com tudo isso depois, esse era o meu pensamento formado cuidadosamente naquela hora. Queria desistir de tudo aquilo naquele segundo. Amaldiçoei aquela cidade, aquele colégio, aquelas pessoas. Em hipótese nenhum eu seria capaz de fazer algo parecido com alguém. Ou eu era muito correta ou os valores foram distorcidos e ninguém me avisara. Não havia explicação sensata que justificaria o que fizeram comigo. E talvez, só talvez, não queria ouvir nenhuma explicação. Nada faria aquela sensação mudar.
Aquilo tudo fora um jogo. brincou comigo como se eu fosse uma sentimental qualquer e se divertiu com isso. E talvez ele cansou e decidiu partir pra outra. Lembrei do rosto dele, do seu sorriso, o modo como ele me olhava. Fechava os olhos e era tudo que eu podia ver. Estava vulnerável, totalmente dependente dele. Me senti estúpida e em uma daquelas histórias patéticas de amor. Isso não podia existir.
Mas eu sabia que era verdade. Eu já não conseguia viver sem pensar nele. Não havia tempo para entender em como reverter isso sem que eu já tenha morrido de velhice. Não havia lógica nisso.

As semanas passaram lentamente. Acordei todos os dias exausta pois eu não sonhava mais, mas sim, era assombrada com aquelas memórias. Queimando meu olhos. Poderia fingir que não me afetava, só precisava saber como. Queria voltar no tempo em que paixão, amor ou qualquer besteira dessa era idiotice para mim. Eu era agora a garota do coração partido.
A festa do lago chegou. Eu não ia. De jeito nenhum.
Pelo menos era o que eu achava.

05.

Tudo que eu queria era ele. Era estar com ele, falar com ele. Mas não podia. Não conseguia saber o que era certo quando ele bagunçava minha mente. Mas dessa vez eu manteria meu orgulho, não importava como. O pior de tudo era saber que estava presa na minha própria armadilha, mesmo não sabendo como chegara aqui. Talvez a verdade estivesse bem na minha frente, mas não podia enxergar. Teria que sair dessa sozinha. Conhecia a mim mesma tão bem, mas agora parecia que tudo que eu fora uma vez já não existia mais. Não havia como voltar um caminho que havia me perdido.
Sinceramente, sei como soa exagerado dizer que estava morrendo pouco a pouco a cada dia. Mas infelizmente, era a verdade. Não queria fugir de tudo - ou queria, não sabia mais -, mas era demais para mim, eu era muito jovem pra ter toda essa intensidade de sentimentos. Era como se o mundo de repente decidisse que era hora de desabar sobre mim. Conseguiria atravessar tudo isso sem me machucar mais ainda? Precisava voltar, eu estava sufocada. Mas era culpa dessa cidade. As coisas me matavam no fundo mas demonstrava apenas um sorriso. Era mais fácil do que dizer "Desculpe, você sabe como é amar alguém com uma intensidade que assusta até a si mesma? E sabe também como é saber que nunca vai estar com essa pessoa? É, eu sei."

Olhei no relógio. 3:42 da manhã. Havia acordado depois de intensas horas de sonhos. Sim, com ele. Levantei, desci as escadas e fui até a cozinha tomar água. Enchi um copo e logo tomei, mas fiquei segurando-o e pensando. Inconscientemente, fiquei revivendo o sonho. Tinha mais alguém nele, mas não pude lembrar quem era. Sei apenas que era um garoto que agia como se fosse meu namorado e olhava de longe, aproximava-se e tentava falar comigo, mas era interrompido pelo garoto. Ambos agiam como se ligassem para mim, até o momento que dizia que não se importava se eu não gostava dele e me beijava. Pois é, sonhos...

De repente, quase joguei o copo para o alto quando ouvi alguém atrás de mim. Fiquei gelada encarando o corredor escuro até que minha mãe apareceu na minha frente.
- Você pirou? Quase morri de susto! - me controlei para não berrar.
- Ouvi barulho aqui em baixo, vim ver quem era. O que aconteceu?
- Pesadelos. Pesadelos horríveis.
- Que pesadelos? - ela inclinou a cabeça para o lado.
- Eu... não lembro. Só sei que foi horrível.

De certo modo, não menti. Sonhar com o era horrível mesmo. Ah, era sim! Imagine aquele garoto loiro de olhos mais do que qualquer coisa que já vi na vida, musculoso, alto, cheiroso, com aquele sorriso irônico... Dizendo assim não parece tão horrível, mas no meu lugar, era.
Logo voltei para a cama, mas demorei muito para voltar a dormir. Fiquei com medo de sonhar novamente e não estava mais com sono. Continuei me virando de um lado para o outro, não conseguindo pensar em outra coisa. Fiquei lembrando de certas coisas. Era hora de confessar. Na verdade, conhecia há três anos. Vi ele pela primeira vez quando eu tinha apenas 12 anos, e desde essa primeira vez, me "apaixonei" por ele. Isso aconteceu quando vinha diversas vezes na casa da minha avó. E eram muitas vezes, mesmo. Não gosto de lembrar que foi naquele tempo que nos conhecemos, pois é completamente constrangedor. Éramos crianças, compreensível, mas tinha uma paixão irracional por ele desde aquela época. Escrevia tudo isso no diário. Sério. Uma vez guardei um papel de bala que ele ia jogar no lixo. Está claro agora porquê prefiro esquecer?
Passei muito tempo fingindo que não lembrava dele, quando na verdade pensava nele o tempo todo. Fiquei muito surpresa quando nos encontramos no verão um ano depois. Imaginei que ele não lembraria de mim, afinal fazia um ano. Um ano pode não ser muito, mas foi incrível como eu havia mudado. Fisicamente e também psicologicamente. E de fato, ele não lembrou. Ele puxou papo comigo no verão passado, se apresentando. E perguntou meu nome. Perguntar o nome de alguém significa que você não a conhece, certo? No começo, fiquei arrasada, mas depois não me importei. Afinal, ele estava lá! E não ia dar uma de esquisita dizendo que conhecia ele, sabia seu nome e até o nome da mãe dele. Não que eu o perseguisse, por favor! Ele me contara, quando éramos menores. Mas não seria constrangedor lembrar de tudo isso quando ele não sabia nem quem eu era?

Talvez seja por isso que estava tão difícil esquecer tudo isso. Coisa que deveria fazer logo, uma vez que o querido obviamente já estava em outra. O que era esquisito - uma das coisas -, era que nós nunca havíamos nos beijado e ainda assim criei toda essa afeição por ele. O beijo, essa coisa extremamente física não era algo que urgia, examente. Poderia esperar, mas não podia aguentar ficar longe dele. O que eu realmente precisava era ouvir a voz dele, sentir seu abraço. Mesmo que preferisse que arrancassem meus olhos a admitir isso a ele. Ele me dava vida, me deixava inteira. Quão estranho era isso?
E talvez, também, por esse beijo que nunca acontecera, continuava sonhando com isso. Li uma vez que é nos nossos sonhos onde manifestamos desejos e medos. A questão era: eu queria ou temia esse beijo? Lembrei também que naquele tempo que nos conhecemos, ele me pediu um beijo. Neguei. Ah, o que ele queria? Eu tinha 12 anos e a coragem de um coelho assustado! Em outros dias, ele tentou me beijar e sempre esquivei. Novamente, era muita coragem para uma garota só. E foi nesses pensamentos e nessas memórias que adormeci, cansada.

Era outro dia. O dia. Aquela maldita festa no lago. Já havia decidido que não iria, mesmo com as insistências das minhas amigas. Mas quem disse que elas quiseram me ouvir? Elas eram bem teimosas e falaram que não podia deixar de me divertir por... coisas que me desagradam. Palavras delas. A verdade era que não sabia como encarar aquelas pessoas. Todas elas. As que arruinaram minha vida, as que sabiam como minha vida havia sido arruinada e o . Havia me afastado dele completamente. Não fora intencional, veja bem. Meu coração fora destruído em zilhões de pedacinhos e a última coisa que quis naquele momento foi ser magoada novamente. Claro, ficaria com Josh e depois? Pois é, não havia depois!
Então, na manhã da festa, ouvi a campainha tocar. Cobri minha cabeça com o travesseiro e rezei para não serem minhas amigas. Elas não iam me arrastar para a festa, iam?

- Oi, senhora Scofield, a está? - perguntou Frankie.
- Olá, garotas. Ela está lá em cima, acredito que dormindo. Mas podem acordá-la... Não sei o que anda acontecendo com ela ultimamente, mas ela dorme demais! Será que é coisa da idade? - minha mãe respondeu deixando-as desconfortáveis. Elas sabiam que eu não andava "dormindo demais".
- Ah... deve ser. - respondeu Brooke rindo sem graça - Obrigada, vamos subir.

Ouvi duas batidas na porta. Não respondi. As batidas aumentaram de intensidade, mas continuei calada.
- , sabemos que está aí. Vamos arrombar se você não abrir. - ameaçou Kate.
- Eu estou doente! Não posso sair. É... contagioso. E grave!
- Ah, é? E o que você tem? - perguntou Brooke sarcástica.
- Tenho... É... Catapora. - tentei ser convincente, mesmo sabendo que elas não iam acreditar.
- Vamos contar até três.
- Estão tentando acordar a pirralha? - perguntou meu irmão que passava pelo corredor.
- Sim, mas ela não quer abrir a porta! - respondeu Frankie.
- Deixa comigo, tenho uma cópia da chave do quarto dela. - ele respondeu enquanto sua voz ficava distante e ria sarcásticamente.
- Manda o Jake ficar longe da minha porta! - berrei lá de dentro.
- Aqui. - Jake riu e começou a abrir a porta. Como raios ele tinha a chave do meu quarto?

Elas entraram, cheias de malas e bolsas, e pararam próximas à minha cama. Sabia que elas me encaravam, mesmo estando com a cabeça embaixo do travesseiro e cheia de cobertas por cima de mim. E estava calor. Elas estavam esperando que me rendesse, mas não cedi.

- Obrigada, Jake. Por abrir a porta. - disse Frankie para Jake enquanto ele virava e ia embora.
- Por nada, sempre que precisar irritar essa coisa aí. - ele riu.
- Ok, , isso vai ser do jeito fácil ou do difícil? - perguntou Brooke se aproximando mais de mim.
- Já disse que não vou nessa festaaaa! - grunhi.
- Acho que ela escolheu o jeito difícil. São três contra uma, querida. Três.

E então elas começaram a puxar o travesseiro e os cobertores de cima de mim. Tentei árduamente resistir, puxando tudo de volta, mas como elas disseram, eram três contra uma. Elas venceram. Fiquei esparramada de pijamas na minha cama por alguns segundos até elas me puxarem - e como elas eram fortes! - e me colocarem de pé ao lado da cama.

- Trouxemos suas roupas. - Kate sorriu como se eu estivesse vibrando com tudo isso. Não. Não estava.
- Que roupas? - indaguei angustiada. O que elas estavam aprontando?
- A sua roupa de banho e a outra para a after-party. Você não acha que vai ficar com a roupa molhada até de noite, né?
- Gente, agradeço imensamente tudo isso que vocês estão fazendo por mim, mas...
- Mas nada! Vamos nos trocar, mas vai você primeiro, precisamos ver se serve! Não tínhamos certeza se iria servir, mas acredito que cabe certinho. - Frankie interrompeu e as outras sorriram. - Conversamos com a sua mãe e vamos dormir aqui hoje. Acho que você precisa da gente.
- Meninas, isso é tão gentil...
- Ei, ei, não chora! É por isso que nós estamos aqui, para que você sorria! - Brooke me abraçou e as outras fizeram um "Awww".

E experimentei. Um maiô lindíssimo. Elas tinham um bom gosto incrível, mal pude acreditar. Ele era de zebrinha, com as costas parcialmente nuas, strass nas alças e na parte do busto; enfim, era lindo.

- Garotas, amei. Muito obrigada. Preciso pagar vocês.
- Olha, não sei como funcionava na sua outra cidade, mas aqui presente não se paga, querida. - brincou Kate.
- Não sei como agradecer. - disse, emocionada. Elas eram mais do que legais comigo.
- Então, não sei também como funcionava onde você morava, mas existe uma palavra aqui que é "obrigada". Sabe, o-bri-ga-da e ela é...
- Obrigada, Brooke. Entendi. Obrigada, Kate, obrigada, Frankie. - disse, rindo.
- Aprendeu rápido, hein? - todas elas sorriram para mim.
- Nossa vez de nos trocarmos! - disse Kate, animada, pegando as outras roupas nas inúmeras sacolas no chão do meu quarto. - Vai fazendo sua maquiagem, á prova d'água, por favor, enquanto isso.
Demoramos algumas horas para ficarmos prontas, mas o resultado não poderia ser melhor. Elas estavam maravilhosas. Brooke usava um biquini azul celeste lindo, Kate optara por um biquini preto deslumbrante e Frankie escolhera um biquini rosa de matar. Todos eles eram incrivelmente lindos e detalhados, capaz de fazer inveja pra qualquer uma. Todas nós colocamos t-shirts e shorts jeans por cima dos trajes de banho e nos maquiamos. Nada pesado, claro, apenas o necessário. Depois disso tudo, almoçamos em casa e estávamos prontas para ir. Pelo menos elas estavam.

- Onde está a Chelsea? - perguntei no caminho, enquanto meu irmão dirigia para nos levar até o lago Fall.
- Ela disse que não ia poder ir pois tinha compromisso em família. É uma pena. - respondeu Brooke.
- Chegamos. - resmungou meu irmão. Ele não tinha gostado quando minha mãe pediu para que ele nos levasse.
- Valeu, Jake. Até depois.
- É bom não fazer nada errado, eu te deduro.
- Você não seria capaz.
- Me testa.

Descemos do carro e avistamos muitas pessoas conversando, bebendo, se pegando e tudo aquilo que você vê em uma típica festa. O sol estava forte e então entendi porque as pessoas daqui eram tão bronzeadas. Um lago tão perto... Poderíamos ter vindo a pé, mas minha mãe havia preferido uma carona de carro.
Conforme íamos nos aproximando das pessoas, mais meu coração acelerava. Respirei fundo, e tentei me acalmar. O local estava lotado já, então seria difícil encontrar com na festa. Fomos chegando a um local onde tinha um aglomerado de bolsas, malas e derivados. Procurei a sombra mais próxima, já que odiava sol. Não sou pálida, só não gosto de sol. Nem um pouco...

As meninas começaram a comer o churrasco que era servido por alguns garotos da minha aula de biologia. Não estava realmente com fome, mesmo não tendo almoçado direito. "Algo" estava tirando meu apetite. Fiz minha melhor cara de "estou aproveitando horrores essa festa" e deitei em um espreguiçadeira na sombra, ainda de roupa. Coloquei meu óculos de sol, fechei os olhos e tentei relaxar. Não poderia ser tão ruim essa festa e eu não podia deixar que fosse impossível conviver no mesmo ambiente que , porque seria inevitável. Enquanto afundava-me em pensamentos, ouvi uma voz ao meu lado.

- Qual o sentido de deitar em uma espreguiçadeira na sombra?
- ! Quanto tempo. - sorri.
- Pois é. Você meio que... sumiu.
- Desculpa, ando meio ocupada. - Mentira.
- Entendo. Vejo que você não está se divertindo. Ainda. - disse e me lançou o melhor olhar malicioso que já vira.
- Hm, talvez. Mas e você, está se divertindo?
- Poderia estar bem melhor. Quer dar uma volta?
- Acabei de chegar... Estou me familiarizando com o ambiente. Talvez mais tarde, tá?
- Sem problemas. Sabe onde me encontrar.

Sei? De qualquer modo, era tarde. Ele se levantou e sumiu da minha vista no meio da multidão. Estava certo recusar o convite dele? Ao passo que poderia ser extremamente... cicatrizante, poderia ser uma péssima, péssima ideia. Minha cabeça estava a mil, então fui buscar alguma coisa para beber. Demorei um pouco para entender a disposição das coisas. Churrasco, bebidas, bêbados e por aí ia. E o lago estava começando a encher. A música alta estava razoável e então comecei a me acostumar com a ideia de que, afinal de contas, poderia me divertir, nem que fosse só nesse dia.
Conversei com as minhas amigas, dancei, me enchi de refrigerante e doces, nadamos até ficarmos enrugadas e me diverti bastante. Mas... Era extremamente óbvio que o inevitável uma hora viria de encontro ao meu. Quando estava voltado para minhas amigas após encher o meu copo e de duas delas (ou seja, estava fazendo malabarismo) a ironia da vida novamente me presenteou com um esbarrão muito forte em alguém. Oh, que clichê.

- Você anda muito distraída. Sorte que é uma festa no lago e não algo com traje de gala. - disse tentando inutilmente limpar um pouco da mistura de refrigerantes que caíra na bermuda dele.
- É. Paciência. - dei de ombros e ainda completei com meu melhor sorriso de "muito melhor sem você", mas não que algum dia eu o tive, de fato. A coisa era: não podia dar bandeira do quanto estava sofrendo por causa dele, então a falsidade invadiu todos os meus órgãos.
- Estou esperando.
- O quê?
- Seu pedido de desculpas. - ele sorriu estupidamente aquele sorrisinho irônico irritante.
- Que pena. Não vai acontecer. Não que tenha feito de propósito. - retribui o sorriso, igualmente irônica.
- Olha, que mal educada!

Virei as costas para ele e não olhei para trás, mesmo que por dentro eu estivesse ardendo. Quando voltei à companhia das minhas amigas, elas questionaram onde estavam os refrigerantes.
- Na bermuda do . - respondi.
- Como assim?! - Brooke disse arregalando os olhos.
- É, a vida às vezes é justa. - sorri como uma boba e voltei para a espreguiçadeira, mesmo sem meu refrigerante.

Mais tarde, enquanto dava uma volta ao redor da festa, entrei em choque. Não que fosse um completo absurdo, mas fui pega de surpresa. Meu caro amigo e sua nova amiga. E não era Amy. No início, não tive reação. Respirei fundo e conti as lágrimas que deram indícios de aparecer. Engoli o nó na garganta, respirei fundo novamente e tentei fazer passar. O meu problema é que quando a tristeza passa, fica a raiva. E com a raiva, a impulsividade.
Procurei .
Minha cabeça estava fervilhando e fui quase batendo o pé até perto da churrasqueira, onde imaginei que ele estaria e me surpreendi por estar correta. Ele ria com os amigos dele, bebia cerveja e conversava. Demorei um pouco para decidir entre a razão e a impulsividade, mas a segunda falou mais alto. Era esse o jogo que queria? Era o que ele teria.
- Oi, ! - disse, dando meu melhor sorriso.
- E aí, ! - ele retribuiu o sorriso.
- O passeio ainda está de pé?
- Com certeza.

Certo ou errado, fui. Não fomos muito longe, ficamos próximos da cachoeira. Conversamos bastante e sim, nos beijamos. Durante muito tempo, e meu instinto criança era ver se presenciava aquilo. Mesmo que não o afetasse tanto quando as ficadas dele com outras me afetavam, quis ver a reação dele. E nunca consegui decifrar aquela expressão. Surpresa era uma das mais evidentes, com toda certeza. Tinha algo como... raiva? Não, impossível. Estava delirando. E mais uma confissão.
Era o meu primeiro beijo.
Quase ninguém sabia disso. Não tinha vergonha de dizer, mas não era algo que eu saía falando, porque era desnecessário. E também, muitos não acreditavam. Vai entender... A única coisa que sei é que aproveitei muito, era uma experiência maravilhosa. Mas no fundo, senti alguma coisa errada. Como se não fosse a pessoa certa que estava com a língua na minha boca. Ignorei essa sensação e tentei aproveitar o máximo tudo isso que estava acontecendo.
Obviamente, atraiu a atenção de muita gente. E a reação das minhas amigas foi completamente impagável. Elas ficaram mais assustadas do que imaginei que ficariam. Não liguei realmente para as coisas que estavam acontecendo à minha volta, exceto uma que não precisa ser citada. Mas como disse, ignorei tudo isso e me concentrei em fazer tudo direito. Estava morrendo de medo de estar fazendo tudo errado, porque para mim parecia tudo mil maravilhas. Mas e para ele?

Depois de um tempo que ficamos nessa pegação e de ter acostumado com alguns olhares nos assediando, decidimos ir no alto da cachoeira para apreciar a vista. Era pôr-do-sol e a vista estava maravilhosa. Ele estava sentado do meu lado e aquela bola de fogo vermelha-alaranjada repousando no céu me fez lembrar de que não era Josh que supostamente deveria estar vendo aquilo comigo. Tentei não lembrar nada sobre aquele verão, mas fui mal sucedida. Quanto mais eu tentava esquecer, mais tinha que fingir para Josh que aquilo era exatamente o que eu queria.
Ficamos em um clima totalmente romântico até o sol se pôr completamente e quando percebemos a festa estava esvaziando. As pessoas tinham se juntado para irem comprar as coisas para a segunda parte da festa, a parte noturna. A maioria das garotas havia ido trocar de roupa e os garotos também. Fui me levantar para encontrar minhas amigas e trocar de roupa também quando inesperadamente, esbarrei com tudo em uma garota que passava. Ela caiu do alto da cachoeira no lago praticamente vazio e rochoso.
E ficou inconsciente.

06.

O sonoro e constante bipe do monitor embalava meu sono levemente e minha cabeça apoiada na minha mão direita logo cedeu e pendeu para o lado, fazendo com que eu despertasse e voltasse à realidade. Olhei rapidamente para os lados tentando recuperar os sentidos e a noção. Então, tudo veio em um flash.
O momento em que me levantei rapidamente, esbarrando muito forte em alguém, esse alguém caindo, pessoas gritando, minha cabeça girando, sirenes... Aquela loucura toda passou em minha cabeça em exatos três segundos e meio e então percebi que a garota na cama olhava com certo receio para a poltrona onde eu estava sentada. Não a reconhecia de lugar algum, mas algo nela era familiar. Tentei lembrar, mas minha mente ameaçava explodir. Olhei-a de volta, tentando não assustá-la.

- Oi. Como você está se sentindo? - perguntei num tom de voz amigável.
- Eu... hm... estou bem. Desculpa, mas quem é você? - era só o que faltava. A garota ficou com amnésia!
- Bom, você não me conhece, eu acho, mas eu, hm, derrubei você da cachoeira...
- Oh, então foi você... Não pude ver seu rosto de lá de baixo.
- Sinceramente, não sei quantas mil vezes seriam necessárias para te pedir desculpas! Obviamente você sabe que não foi de propósito, eu não faria isso! Pelo menos, não com você, afinal, não sei nem quem você é, e espero que você... Desculpe, estou falando demais, não estou? - ela me olhou e quase riu.
- Sou a .
- Sou a . Mas de verdade, como você está? Os médicos falaram que não foi nada grave, que não houve fraturas ou coisas do tipo.
- Ah, estou bem. Um pouco confusa, na verdade, mas nada que não me recupere. Tem alguém... hm... da minha família sabendo?
- Falaram que um garoto disse que avisaria sua família. Não sei quem foi. - dei um sorriso amarelo.
- Tudo bem, acho que sei quem foi.
- Olha, você tem todo o direito de estar brava comigo, eu vou entender...
- Não estou brava! Talvez assustada, mas sei que foi um acidente. - ela disse e sorriu para mim.
- Obrigada por entender, minha consciência está bem pesada por causa disso.

E essa é a parte irônica da coisa. Ficamos conversando um bom tempo e gostei muito dela. Pelo que pareceu, ela era muito simpática, meiga e extrovertida. Ela me contou que mudara recentemente para o Miles High School e que não sabia se pretendia ficar por lá, já que não conhecia muitas pessoas. Apoiei que ficasse lá, contei sobre minhas amigas que eram maravilhosas e ela pareceu empolgada em conhecê-las. Prometi que o faria assim que fossemos para o colégio. Estávamos no meio de uma conversa sobre o colégio quando a porta do quarto se abriu.

- Olá, garota. Como se sente? - perguntou o homem de jaleco branco.
- Muito bem, obrigada. Já posso ir embora? - disse e enrugou o nariz, uma careta que parecia um bichinho fofo.
- Logo, logo. Apenas mais umas horas de repouso para termos certeza de que está tudo certo e poderá ir. - o médico disse e logo saiu pela porta.

- Se você quiser, pode ir para casa. - ela disse, virando-se para mim.
- Não senhora! Ficarei aqui com você até que possa sair.
- Obrigada. Odeio hospitais.

Não muito tempo depois, estávamos conversando - ainda - e a porta se abriu novamente. Imaginei que seria um médico ou uma enfermeira liberando (já estava íntima o suficiente para chamá-la de ) e poderíamos finalmente ir embora. Mas então quase caí da poltrona quando o vi entrar.

- E aí, menina. Que susto que você me deu.
- É, , não foi dessa vez que você se livrou de mim. - respondeu. O que diabos estava acontecendo ali?
- ... você... aqui? Conhece a ? - ele levemente arregalou os olhos para mim.
- Foi ela que... me trouxe pra cá. - disse diante antes que eu pudesse dizer alguma coisa. Como se isso fosse possível, visto que eu estava congelada como um robô. Mas por que ela mentira? E como ele conhecia ela?
- Hm, obrigado .
- Fui eu que a derrubei. - disse subitamente.
- Sério? Que... estranho. , sabe que horas vão te liberar? Vou te levar pra casa. - ele disse, não dando muita atenção para mim.
- Não sei, mas me tira daqui, por favor. Sabe que odeio este lugar.
- Certo, verei o que posso fazer. Bom... vou deixar vocês duas a sós. Só não fiquem muito amiguinhas, não gosto da .
- Pode deixar. - disse dando um sorriso irônico enquanto saia, dando uma olhada por cima do ombro para nós.
- Hm, você conhece ele, então? - perguntei no melhor tom casual que consegui.
- Mais do que você imagina.

Pensei por alguns segundos o que ela quis dizer com aquilo. Ficou bem claro para mim que eles eram algum tipo de "namoradinhos" então não quis mais me intrometer no assunto. não deveria ficar sabendo que me importava de qualquer forma com a vida dele.
Quando percebi que me encarava, mudei rapidamente de assunto.
- Você foi muito legal em não ficar brava comigo. Se fosse comigo eu provavelmente te empurraria da cachoeira também.
- Tá brincando? Logo mais te arremesso da janela desse hospital.

Rimos por mais alguma meia hora e foi liberada. Por algumas vezes, referiu-se a e tentei ao máximo esconder meu desconforto quando o assunto era ele, e quando ainda falávamos sobre ele, bateu na porta e disse que já podiam ir embora. Ela suspirou de alívio e então preparou-se para ir, acompanhando até a saída do hospital. Ele evitara olhar para mim quase o tempo todo. Será que era ciumenta, então?

- Vocês vieram de carro? - perguntei assim que saímos.
- Não, vamos a pé. - disse um tanto seco.
- Não seria melhor se ela não se esforçasse, pelo menos por enquanto?
- Não.
- Mas... - tentei falar até ser interrompida por .
- não dirige.
- Oh. Entendi. Então tá. Vou indo.
- Obrigada pela companhia, . Te vejo no colégio.

sequer se despediu de mim e me perguntei se havia feito algo de errado. Mas claro, , você derrubou a namorada dele da cachoeira! Os dias provavelmente ficariam mais difíceis. Como seria ser amiga da namorada do ? E o pior de tudo é que eu realmente gostei dela.


No dia seguinte, cheguei um pouco mais cedo para me encontrar com as minhas amigas. Tínhamos muito para conversar. Cerca de dez minutos depois que cheguei, vi ao longe chegando com . Ele a ajudava a andar e percebi que ela estava com uma botinha no pé direito. Ela provavelmente havia torcido o pé. Ainda me sentia culpada pelo que havia acontecido e minha mente estava a mil. Então, de repente, um nome passou vagamente em meus pensamentos.
.
O que eu faria em relação a ele? Ficaríamos novamente? Eram questões nas quais não queria realmente pensar no momento, pois, sinceramente, estava tudo uma grande bagunça. Sabia que não gostava do . Pelo menos, não daquela maneira. Ele não me deixava gelada e quente ao mesmo tempo, tonta só de falar comigo, não me deixava trêmula em cada parte do meu corpo. Talvez estivesse superestimando o real valor do em relação a mim, mas por mais que tentasse lutar para que esses sentimentos fossem embora, era praticamente impossível. Meu coração doía de pensar nisso e agora, pensei comigo mesma, ele parece estar ficando firme com a .

O sinal tocou e todas nós entramos. Elas provavelmente perceberam minha cara quando vi e , mas elas já estavam sabendo da história. Ainda assim, fingi que nada havia me afetado e fiz a melhor cara possível. No intervalo, encontrei com novamente e apresentei-a para minhas amigas. Mesmo com uma certa hesitação inicial, elas se deram muito bem. Tinham interesses em comum e realmente sabia como conversar.
Em meio a conversa, vi olhar para como quem queria falar com ela, mas mudou de ideia quando viu que estava comigo. Talvez ele estivesse certo, não seria muito legal a namorada dele conviver com a menina que é apaixonadinha por ele. Mas mesmo assim, tentei pensar que seria uma ótima amiga e não teria nenhum problema ela ser namorada dele. Talvez até seria um modo de me fazer ver que a vida continua e ele seguiu com a dele, portanto deveria fazer o mesmo.
Claro que, como eu mesma já sabia, não passavam de mentiras para tentar iludir meu coração.

Na última aula, nossa coordenadora deu um aviso que deixou toda a sala eufórica. Teríamos um projeto de biologia. Então você se pergunta "por que um projeito de biologia deixaria alguém animado?". Simples: Iríamos acampar.
A ideia me assustou muito, pois nossa sala não era muito disciplinada, ou melhor, parecia realmente com um zoológico, então fiquei com medo do que poderia acontecer. Pior ainda, odiava ter que pensar que ficaria totalmente exposta a bichos e insetos. Sou alérgica a pernilongo, não é muito legal. Enquanto pensava sobre isso, quase infartei. A nossa querida coordenadora - sim, foi uma ironia - disse algo que simplesmente me fez ficar boquiaberta por tempo suficiente para que todos vissem.

- A viagem será no mês que vem. Para todos, já que é 80% da média bimestral de vocês. Além disso, ficarão duas semanas lá. - ela ia saindo pela porta quando virou-se e disse:
- Ah! Quase me esqueço de dizer! A viagem é para os primeiros e segundos anos.
Engasguei.
A sala comemorou.
Continuei engasgando.

- Você está bem? - Liv, que sentava atrás de mim, perguntou.
- Estou - tosse - ótima! - tosse - Obrigada.
- Hm, acho que entendi... Não se preocupe, vai ser legal. - ela tentou me confortar.
- Não, sem chance de ir nesse acampamento! Sem. Chance.
- Mas vale muito da nossa nota. Como você vai recuperar?
- Tenho que dar um jeito. - disse e então tocou o sinal. Fui atrás da coordenadora como um furacão.

- Oi, é... - fiz cara de que não lembrava o nome dela, mas ela simplesmente me encarou sem expressão. É, ela era sempre simpática assim. Então, continuei:
- Então... Deixa eu te perguntar... Tem como não ir nesse acampamento?
- Claro. - ela disse ainda sem expressão na voz.
- Ah! Que ótimo, já estava muito preocupada, porque...
- Mas você fica sem 80% da sua nota. - ela me interrompeu dando um sorriso irônico.
- O quê? Mas você... Ah, esquece.

Sai batendo o pé em direção à saída do colégio, enquanto tentava respirar fundo. Fui até as mesinhas perto das escadas e sentei lá. Afundei minha cabeça nos meus braços em cima da mesa e novamente tentei respirar, sem sucesso.

- Você não parece bem.
- Ah, estou ótima, . - disse com a voz abafada, sem levantar a cabeça.
- Há algo que posso fazer? - ele perguntou colocando a mão no meu braço.
- Você tem uma arma?
- Não...
- Então, não.
- Certo, então... acho que não é um bom momento para ficar aqui. - ele foi logo levantando.
- Não, espera. Desculpa se fui grossa. Não estou num dia muito bom. - puxei o braço dele e o fiz sentar novamente ao meu lado.
- Realmente, é o que parece. Precisa conversar?
- Você não entenderia...
- Tente.
- Não quero ir ao acampamento. - bufei. - Viu? Vai me achar idiota.
- Não falei nada! Mas há algum motivo em especial para isso?
- Hum... odeio acampar. - menti. Não iria conversar sobre meninos com o .
- Entendi. Mas por mais que você odeie, pode ser divertido. Não é o fim do mundo, confie em mim. - ele me encarou com um sorriso lindo que quase me fez acreditar naquilo. - E também, não é como se você fosse ficar perto do o tempo inteiro.
- O-o-qu-quê? - arregalei os olhos e não consegui fingir que não fiquei assustada com as palavras dele.
- Prometo que te ajudo. - e sorriu novamente.
- Mas por-porque você falou do ? - gaguejei novamente.
- Você é uma péssima mentirosa. - ele disse rindo e saiu. Fiquei lá congelada, pensando em como ele sabia disso e porque disse aquelas coisas. Certo que meio mundo sabia de algumas coisas, mas como isso chegou nos ouvidos justo do ? Isso era realmente perturbador.

Fui para casa assim que o último sinal tocou. Precisava mesmo sair daquele ambiente e refletir um pouco sobre todo o caos. Depois de ter feito todo o dever de casa atrasado e ter feito todas as minhas atividades diárias, meu celular tocou escandalosamente em cima da cama. Corri para atender, imaginando quem seria. Ao olhar o número, tomei um certo susto.
- Alô?
- Oi, ! Espero que não se importe, peguei seu telefone com as meninas.
- Hum, claro que não, ... Aconteceu alguma coisa?
- É que estou com uma dúvida na aula de geografia. Sabe, né, isso que dá chegar um pouco atrasada no colégio.
- Se eu puder ajudar, com certeza.
- Ótimo, você pode vir aqui agora? Prometo não tomar muito do seu tempo.
- Tudo bem, me passa o endereço e já estou indo.

Alguns minutos depois, fui até a casa da . Toquei a campainha com minha mão desocupada, já que estava carregando alguns livros e algumas folhas com anotações. Assim que toquei a campainha, uma folha caiu no chão. Resmunguei e me esforcei para pegá-la enquanto ouvi a porta abrindo.
- Deixa que eu pego pra você. - disse, abaixando-se e colocando a folha em cima das outras nas minhas mãos. Paralisei.
- Oi, ! Entra! - disse, aparecendo na porta atrás dele.
Continuei estupefata, mas fingi meu melhor sorriso. - Claro.
- Eu.. hm... já estava de saída. Até mais. - disse, saindo da minha frente e indo embora.
- Não liga, ele anda meio esquisito esses dias.
- Ah, é? Hm... - disfarçar meu desconforto foi muito difícil, mas pareceu não perceber.

Voltei para casa quase uma hora mais tarde, depois de ter explicado a matéria para mas ainda pensando na cena de mais cedo. na casa dela? A coisa estava bem séria. A solução mais cabível seria me afastar dela, afim de evitar problemas. Mas eu era muito orgulhosa para isso. Não iria deixar que estragasse qualquer outra coisa sequer na minha vida, ainda mais uma nova amizade tão legal quanto . Então, eu havia decidido. Seria amiga dela e aguentaria o fato de os dois namorarem. Pensei também o que eu faria com . O que eu faria com . O que eu faria no acampamento. Dormi.

07.

Meu coração estava acelerado. Não sabia porque, não havia motivo para estar emocionada em uma aula de Matemática. Mas algo parecia não encaixar e eu estava com uma adrenalina incomum para um dia qualquer como aquele. Batia a caneta nervosamente contra a apostila e suspirava profundamente afim de tentar acalmar aquele nervosismo incomum. Eu encarava as coisas mas não as via, realmente. Mordia os lábios freneticamente, continuava batendo a caneta na apostila, e mexia a perna inconsicientemente. Eu estava um completo caos e aparentemente sem motivo nenhum.

- Tá tudo bem aí? - perguntou-me um garoto que sentava-se ao meu lado.
- Hm... Desculpe, estou fazendo muito barulho?
- Seu lábio está sangrando.
- O quê?! - E então senti o gosto do sangue. - Oh. Acho que mordi forte demais.
- Você devia se acalmar. Isso não vai te fazer muito bem... - ele disse com uma cara um pouco assustada.
- Legal... Estou assustando as pessoas. Desculpa.
- Estou atrapalhando vocês, senhorita e senhor Mayer?
- Desculpe, professor. - murmurei, quase em silêncio. Não queria chamar mais atenção ainda.
- Senhorita ... Precisa ir ao banheiro?
- Estou bem, obrigada.
- Tem certeza? Seu lábio está...
- ESTOU BEM. Obrigada. - disse nervosamente. Imagine uma sala de aula inteira olhando para sua boca. Não é confortável.

O "senhor Mayer" do meu lado riu da minha situação mas não consegui ficar brava com ele. Se estivesse no lugar dele, provavelmente riria também. Então apenas dei um tapinha de leve no braço dele, mas logo depois me arrependi. Porque não era como se fôssemos amigos, então meu gesto pareceu um pouco íntimo demais. Mas ele pareceu não se importar, porque as risadas aumentaram. Liv estava atrás de mim e senti seus olhos pousarem sobre mim e também sobre o garoto de cabelos muito negros jogados despreocupadamente e os fios completamente desordenados.

Alguns poucos minutos se passaram e ele ainda estava com um sorriso no rosto. Então, quando o professor virou-se para a lousa para escrever algo que não fazia muita importância para mim, ele inclinou-se para o meu lado e sussurrou:
- Sou .
- Hm. O menino que ri da desgraça alheia chama-se . Bom saber quando for preencher o BO contra você. E também sei que seu sobrenome é Mayer. Acho que agora só preciso do seu RG. - disse, fazendo drama e pegando a contracapa da apostila e uma caneta, fingindo que estava anotando as informações dele.
- Oh! - ele colocou a mão sobre o peito, fingindo-se ofendido - Posso saber o nome da acusadora, ?
- Não. - disse de imediato, conseguindo fingir uma cara séria, mas logo depois um breve sorriso acusador brotou em minha face.
- Hm. Ok. Gosto de desafios.
- Sentiu-se desafiado por mim? - disse, dando um meio sorriso para provocá-lo.

Ele ia responder, mas o professor virou, nos encarando. Então, ao mesmo tempo, fingimos estar anotando o que ele falava. Obviamente ele não acreditou, mas pelo menos não disse nada. Tive de levar as mãos à boca para não rir. Ele mordeu o lábio levemente, ainda com um sorriso e ajeitou o cabelo, quase deitando-se sobre a cadeira.

Fingi estar prestando atenção na aula, mas na verdade minha mente estava uma bagunça. Josh era exatamente o que eu precisava. Um cara legal, estável, fofo, etc. Ele provavelmente controlaria o caos que eu estava. Mas quando pensava em estar com ele, meus braços pediam o abraço de outro alguém. Esse alguém cujo nome nem deveria lembrar. Ele me fazia essa bagunça. Ele era exatamente o tipo de cara que deveria me afastar. Mulherengo, não liga para relacionamentos, só se preocupa com ele mesmo e com os números da listinha idiota dele.
Mas se sabia de tudo isso, por que só de lembrar daquele sorriso idiota meu coração já dava saltos?
Não importava. Daria um jeito nisso. Teria que esquecer ele, ele tinha namorada - que estava se tornando minha amiga - e de qualquer modo, riscaria ele da minha vida de vez. A respeito do acampamento, ele ficaria com a namorada, eu ficaria com as minhas amigas - e quem sabe o Josh - e fim. Tudo ficaria bem.
Mas por que me sentia tão a beira de um colapso?

O sinal tocou, tirando-me do transe em que me encontrava. Era intervalo, então fechei minhas coisas e sai da sala. Quando chegava no corredor, ouvi uma voz me chamando.

- Ei, !
- Senhor Mayer, mas já está sentindo minha falta? - sinceramente, não sabia porque, mas mesmo conhecendo-o há pouquíssimo tempo, sentia-me na liberdade de fazer piadas como se já o conhecesse há um tempo. Ele pareceu sentir-se do mesmo modo.
- O que eu ganho? - ele disse apoiando a mão na parede, ficando de frente para mim e perto demais para o meu gosto.
- Hm, não entendi sua pergunta. Posso pedir ajuda dos universitários? - disse, tentando disfarçar o meu desconforto.
- O que eu ganho se descobrir seu nome? - ele disse com um sorriso convencido, como se tivesse certeza de que descobriria.
- Depende. O que EU ganho se você não descobrir meu nome?
Ele pareceu pensar por uns instantes e disse:
- Tem algum prêmio que queira em mente?
- Na verdade, sim. Você faz meu dever de casa. E certo. Se tiver um errinho, você paga caro. Olha que vou conferir, hein.
- Ok. E se eu descobrir, você faz o meu. - e ele fez uma voz fina, tentando me imitar - E certo. Se tiver um errinho, você paga caro.
- De acordo. Vamos estabelecer as regras. Você só pode perguntar meu nome para uma pessoa. E só tem uma chance para acertar. Ok?
- Corretíssimo. Podemos dar início a essa saga?

Sendo assim, saímos nos dando empurrões e tapas de brincadeira até o pátio principal, até que avistei minhas amigas. Brevemente bolei uma estratégia e a coloquei em prática.

- Ali. Aquelas meninas parecem honestas.
- Mas por que elas saberiam seu nome?
- Temos amigos em comum.
Nos aproximamos delas e elas fizeram aquela expressão de que não estavam entendendo nada.
- Olá, garotas. Perdão a intromissão e a interrupção do agradável intervalo de vocês, mas eu gostaria de saber... - enquanto ele falava isso, esperava que a leitura labial das minhas amigas estivesse em dia, pois silenciosamente mas desesperadamente dizia e gesticulava "Sarah", mas sem nenhum som. Elas fizeram uma cara de que eu estava ficando louca, mas logo ele perguntou:
- ... se vocês sabem o primeiro nome dessa simpática moça aqui do meu lado.
Quando ele se virou para mim, endireitei minha postura, dei um sorrisinho e fingi que não tinha feito nada. A confusão ainda pairava nas expressões delas, mas Kate logo falou:
- Ela se chama Sarah.
- HÁ! Quer escolher qual matéria você vai fazer meu dever, Sarah?
As minhas amigas se entreolharam, depois olharam para a gente. Mal conseguia me mover, porque tive uma crise de riso inacreditável. Ele ficou sem entender nada por um momento e depois olhou para minhas amigas.
- O nome dela não é Sarah, é? - ele perguntou silenciosamente.
Elas riram e negaram com a cabeça.
- Ok. Você pode fazer meu dever de Matemática, já que eu não entendo nada mesmo. Divirta-se. - disse, ainda rindo, recompondo-me da crise e me virando para minhas amigas. - Vamos, meninas.
Deixamos-o para trás, mexendo no cabelo nervosamente mas quase rindo. Pude ouvir um "Você não vai me contar mesmo seu nome?", mas apenas olhei para trás com um meio sorriso e neguei com a cabeça.


Foi um dos raros momentos em que me diverti realmente naquele colégio. Minhas amigas a princípio suspeitaram da nossa amizade repentina, mas deixei claro de que era simples e somente isso. Elas pareceram aceitar, pelo menos por enquanto. Seria legal ter um amigo nesse colégio, as coisas ficariam mais fáceis.
Pelo menos eu achava.


***
Vi seus cabelos loiros acompanhando o vento quando ela saía rindo pelo corredor com as amigas e deixando o cara para trás. Era um daqueles momentos raros em que ela ria de verdade e esquecia de fingir estar sempre brava e emburrada com o mundo. Deus, aquela garota era intensa. Ela era uma bagunça, uma tragédia, um caos. Podia sentir que ela tinha todos os sentimentos do mundo dentro daquela cara de menina indefesa, dentro daquele sorriso inocente. sentia tudo com muita intensidade e eu podia garantir que ela sofreria muito por isso. Ela tentava não deixar ninguém ultrapassar o limite de segurança na confiança dela, mas sempre deslizava. Ela confiava muito nas pessoas, sempre achando que elas eram boas.
Aparentemente, conhecia-a muito melhor do que ela achava. Mas era melhor que ela não me conhecesse melhor e continuasse com a imagem que ela tem de mim. Quanto mais ela me odiasse, melhor seria para ela. É que era tão difícil não me render àqueles olhos tão profundos e afogados em mágoas, implorando para serem resgatados. Mesmo que ela não dissesse isso para ninguém, pessoa alguma sabia melhor do que eu o quanto ela queria ser resgatada. Ela tinha atitudes de criança, cabeça de adulta mas um coração de adolescente. Se alguém sentia tal coisa, ela sentia tudo isso amplificado dez vezes mais.
O mundo parecia conspirar para que eu finalmente largasse tudo e abrisse os braços para continuar aquela nossa antiga história. Mas não podia. Fiz uma promessa a mim mesmo e àquelas duas pessoas e não podia quebrá-la. Era quase insuportável vê-la olhando para outros olhos que não fossem os meus. Envolver-se em outros braços senão os meus. Mas sabia que estava fazendo o melhor para nós dois. Ela seguiria em frente.

Mesmo que eu não.

***
Sentei na minha varanda, deixando o vento bater no meu rosto. Respirei fundo e relaxei, deixando o cheiro de chuva invadir minhas narinas. O vento chicoteava meu cabelo no meu rosto e tudo parecia tranquilo e normal.
Coloquei meus fones de ouvido e fechei os olhos. Aproveitei o clima agradável até que adormeci.
Acordei por volta das 18h, alguém me cutucava. Abri os olhos preguiçosamente e tirei um fone de ouvido. Olhei para a figura ao meu lado ainda fora de foco. Demorei alguns segundos para voltar a consciência.
- Suas amigas estão aqui. Deixa de ser preguiçosa e levanta!
- Ok, ok, estou indo. Obrigada, mãe.

Frankie, Brooke e Kate entraram no meu quarto, me abraçaram e sentaram-se pelo quarto.
- A que devo a honra de recebê-las, madames?
- Queríamos perguntar uma coisa pra você... - Frankie disse, receosa, como se as palavras fossem perigosas demais para que eu as ouvisse.
- Ok... Perguntem.
- Olha... Não queremos que você fique chateada. Mas achamos melhor perguntar para você antes.
- Ok, dá pra falar logo?
Brooke suspirou.
- Você acha que está certo o que está fazendo com o ?
- Como assim?
- Quero dizer, você vem praticamente ignorando o menino depois do que aconteceu. Ele não deve estar muito feliz com isso.
- Entendo... Mas vocês não entendem que...
- Sim, nós entendemos. Você gosta do , mas ele é o cara errado. Mas , tá na hora de superar, não tá não? - Frankie disse, colocando a mão sobre meu ombro.
- Claro, e é isso que estou fazendo. Só não acho certo ficar com alguém pensando em outro. Quando estiver tudo completamente fora da minha cabeça, talvez funcione.
- E quanto tempo isso vai levar? Você não pode ficar prolongando essas coisas com ele. E se não for a lugar nenhum? - Kate finalmente se pronunciou.
- Olha, eu não sei... Estou fazendo meu melhor, estou mesmo! Com ele namorando a e ela sendo nossa amiga agora, está ficando mais fácil entender que não há nada mais que fazer a não ser seguir com a minha vida. - disse, quase sombriamente, sentindo meu coração pesar por saber que era verdade. Mas por mais que dissesse essas palavras com a maior convicção possível, no fundo da minha mente tive certeza de que dizia apenas bobagens. Era impossível esquecer daquele jeito.

Conversamos por horas, jantamos e elas foram embora. Na solidão do meu quarto, era mais difícil manter minha mente longe de assuntos "proibidos". Meu celular acendeu, vibrou e logo parou. Estiquei-me preguiçosamente até ele, olhei no visor. Uma nova mensagem. Curiosamente li a mensagem.

"Minha casa, amanhã, depois do colégio. Milk shake, pipoca e filmes nos aguardam! xoxo - N"
Passar a tarde na casa da . Ok, podia ser uma boa ideia.
Não?



Dormi rapidamente naquela noite sem sonhos. No colégio conversei um bom tempo com . Ele me chamava de "Garota Sem Nome" ou simplesmente . Rimos bastante e fomos atrapalhados várias vezes por professores que insistiam em achar que nós é que estávamos atrapalhando. Ele era engraçado, divertido mas era um pouco bobão, assim como todos os outros meninos da idade dele. Menos o . Josh sempre tinha aquela coisa de seriedade, como se ele fosse bom e inteligente demais para ser assim.
Descobri também que era repetente e era da classe do no ano anterior. Descobri isso por acaso, não que eu quisesse saber, de qualquer maneira. E isso reforçou a minha teoria de que não era exatamente um gênio. Mas ele era legal, mesmo assim. O problema era que enquanto todo o mundo continuava se movendo, encontrava-me parada no mesmo lugar. E apesar de tentar seguir em frente, provavelmente levando Josh em consideração, simplesmente não fazia sentido. Mas o estranho era que em certos momentos, sentia como se toda aquela tristeza tivesse sido apenas um pesadelo mas logo depois lembrava o quanto a tristeza era real e o quanto eu não queria estar com .
Estava ficando extremamente cansada daquela montanha russa de emoções, queria simplificar as coisas. Parar de sofrer por tanto pensar. Decidi "deixar acontecer". O que quer que acontecesse, eu aproveitaria cada momento. E foi assim que decidi ir em frente e parar com todo o emocionalismo que estivera passando nos últimos dias.
Comecei a entender que ocupar minha mente com outras coisas era a melhor maneira de me manter afastada daquele hábito de tentar controlar tudo e prever o que ia acontecer. Então, comecei a me distrair com outras coisas. Até mesmo estudando um pouco mais.
O último sinal bateu e quando saí as quatro garotas já me esperavam na saída. Iríamos na casa da , como havíamos combinado. Jurei a mim mesma que poderia aparecer de toalha que não iria me abalar... Não tanto. A casa dela não era tão longe - como se qualquer coisa naquela cidade do tamanho de uma casa de Barbie fosse longe - então demoramos menos de dez minutos para chegar. Havíamos levado trajes de banho a pedido da , ela disse que iríamos nos divertir muito. Então, chegamos lá e fomos entrando, ficando confortáveis. Quando chegamos na sala de estar, todas paralisamos.
- ... O que você está fazendo aqui? Disse que traria minhas amigas. Oh, olá. - disse e dirigindo o amistoso cumprimento ao amigo - extremamente lindo - que estava sentado ao lado de no sofá.
- Olá. - ele disse, acenando com a cabeça com um sorriso que deixou todas nós meio abobadas, mas que quase fez desmaiar.
Todas nós estranhamos o comportamento de na frente do próprio namorado em relação ao amigo dele. Mas, relacionamentos modernos, quem somos nós para entender? finalmente quebrou o silêncio constrangedor que ocorria enquanto e o garoto recém saído de um catálogo de modelos para cuecas trocavam olhares e sorrisos significativos.
- Ahn... , eu estou aqui. - disse , desconfortavelmente e com fogo nos olhos.
- Oh, sim, claro. Mas... vocês vão ficar aqui? - ela disse para , ainda que olhasse para o outro.
- Pensamos em jogar video game ou até mesmo um futebol. Achamos que vocês não se incomodariam. - disse o modelo.
- Oh, de modo algum. Fiquem à vontade. - disse amistosamente ajeitando os cabelos. obviamente não gostou nada da atitude e chamou ela no canto. Eles aparentemente brigaram por uns segundos mas ela não ligou muito. Quando eles voltaram, fingiram sorrisos.
- A propósito, sou Edward. - disse o garoto, acenando e sorrindo amigavelmente. Pude ouvir suspirar.
- Ok, garotas, andar de cima, agora. - ordenou subindo relutante, ainda torcendo o pescoço para olhar para Edward.

- Dá pra acreditar que esse menino é tão lindo? - disse ela quando chegamos ao quarto dela.
Por um momento pensei quão estranha era a situação. O namorado ficava na casa dela com um amigo, assim, sem mais nem menos? Ou eu estava muito desatualizada ou isso era mesmo estranho.
- O passa muito tempo aqui, não? - disse Frankie, quase corando, tentando entender assim como nós.
- Bom, não tanto. Ele costumava sair bastante, não mais. Depois do... - ela fez uma longa pausa - ... ano passado, ele parou mais em casa.
- Bom, na sua casa, quis dizer.
- Como assim? Bom, gosto de pensar que a casa é minha, de fato, mas temo que tenho que chamar de "nossa".
- Nossa? Como assim? - Kate expressou o que todas nos perguntamos ao mesmo tempo.
- Ora, ele mora aqui, a casa é dele também. - disse , indiferente.
- Ele MORA aqui? Uau, , isso é... meio assustador. - disse Brooke, assustada.
- Por que assustador? Ele provavelmente vai se mudar quando se formar. Mas ele quer esperar até que eu seja maior de idade ou entre na faculdade também. Irmão superprotetor é uma droga, não?

Pausa.
Todas nos entreolhamos.
Pausa.

- Irmão? - alguém disse.
- Sim. Irmão. Peste. Carma... São sinônimos.
- Irmão? - alguém repetiu.
- Uau, o que está errado aqui? - começou a perceber a estranheza em nossos olhares.
- ... é seu... irmão?
- É o que nossos pais dizem... Peraí, o que vocês acharam que ele era?

Pausa constrangedora.
Explosão de gargalhadas que duraram tempo até demais.

Confesso que não sabia se ria de vergonha ou de felicidade. Foi um momento super constrangedor quando contamos a ela o que achávamos que eles eram. Ela não parava de repetir "Eca eca eca eca" e de agonizar. Quase urrou perguntando o que havia de errado em nós por termos achado isso. Explicamos - quase - tudo pra ela, mas no final ela resumiu em vários "eca eca eca" de novo, o que nos fez rir novamente.

- Não acredito que achamos aquilo. Pensando bem, faz TANTO sentido vocês serem irmãos! Agora até percebo certa semelhança! - disse Kate, ainda vermelha de tanto rir.
- Não me xingue, ok? Não temos nada em comum.

Depois de tudo esclarecido, não pude deixar de perceber um certo alívio em meu peito. O ar ficou mais leve, menos tenso. Não que me importasse que namorasse ou o que quer que seja... Mas pelo menos não era , aquela garota legal que era nossa amiga agora. Pelo menos isso fez com que me sentisse melhor.
Ficamos horas conversando e diversas vezes descemos para a cozinha para comer, beber alguma coisa, procurar algo, quando na verdade eram só desculpas para ver a estátua divina - Edward, não - que repousava em seu sofá. Ela suspirava cada vez mais quando o via e ele diversas vezes olhou para ela e sorriu.
Tentei ao máximo não me importar que estava na mesma casa que eu. Às vezes sentia que ele me olhava mas assim que olhava de volta, ele desviava. Isso me deixou intrigada e quase chateada ao mesmo tempo. Assistimos a um filme mas não parava de insistir para descermos e arranjar uma desculpa para ficarmos lá embaixo.
Finalmente cedemos a vontade dela e descemos. Eles estavam jogando video game, um jogo de futebol.
- Olhem só que coincidência, é fera em futebol.
- Não brinca! Vem jogar com a gente então! - convidou Edward, amigavelmente.
- Oh, mas eu não... - tentei começar mas elas começaram a me empurrar para o sofá.
- Não vai fazer uma desfeita dessas, não é? - sibilou , dando-me um olhar mais do que significativo.
- Ok, tudo bem...

Joguei duas partidas contra Edward, ganhei uma e perdi a outra. Senti diversas vezes que estava sendo observada, mas supus que era alguma das minhas amigas. Assim que o terceiro jogo ia começar, pausei.
- Preciso ir no banheiro. , substituição! - falei como um técnico, dando uma piscadela maliciosa.
- Já que insiste... - ela mal terminou de falar e já estava sentada ao lado de Edward, segurando o controle.

Subi as escadas e fui ao banheiro. Depois de lavar as mãos, dei uma retocada na maquiagem e uma ajeitada no cabelo. Encarei o reflexo por um tempo, pensando na situação. não era namorado de , longe disso.
Isso me deixara de certo modo aliviada, o que não era um bom sinal para quem queria fingir que está superando. Ainda assim, manteria os sentimentos bem trancados dentro do peito.
Meu cabelo estava uma bagunça, precisava urgente de um pente. Lá de cima, berrei:
- , onde posso pegar uma escova de cabelo para ajeitar isso aqui?
- Na gaveeeeeeeeeeeeta. - ela gritou, provavelmente muito concentrada "no jogo".
- , tem umas 10 gavetas aqui, qual delas? - tornei a gritar.
- Aaaaaaaaaaaah... aaah, pera, chutei, por que não foi? Aaaaah. , mostra lá pra ela qual é! - disse, entrecortando as palavras com gritinhos e risos.

- NÃO! Não se preocupe, eu vou ach...
Mas era tarde demais. Ouvi passos subindo as escadas.
? Subir? Eu? Sozinha? No quarto? Não não não não não não não não...

- ...

08. Era como se fosse a primeira vez que eu o via. O coração batia acelerado e irregularmente, as mãos geladas, a boca seca, todas as emoções... Como da primeira vez. Era impossível negar o que estava sentindo, mesmo acreditando que aquilo pertencia apenas a filmes e livros bobos de romance. Me senti incrivelmente viva e estúpida ao mesmo tempo, como se estivesse vendo aquilo de fora. Provavelmente estava mesmo parecendo uma boba, só esperava que ele não percebesse isso.

- Então... Ela me disse que é essa aqui... - disse, se aproximando de mim, passando seu braço ao lado da minha cintura e colocando a mão na gaveta mas com os olhos nos meus.

Ficamos alguns momentos parados, nos encarando e jurei que poderia desmaiar a qualquer momento com aqueles olhos me sondando. Tentei pensar em algo para dizer mas minha mente estava nebulosa, tudo parecia difícil demais para ser feito naquele momento. Não tive vontade nenhuma de quebrar aquele gelo, mas me sentia desconfortável de ver que ele me encarava daquela maneira.

- Aqui... está. - ele disse, finalmente estendendo a mão para mim com o pente.
- Obrigada. - sussurrei, estendendo a mão lentamente, ainda meio tonta. O pente caiu no chão no exato momento que ia pegá-lo e, acidentalmente, acabei pegando a mão dele. Tentei tirar rapidamente, me desculpando, mas ele segurou-a.
Ele encarou nossas mãos e então subiu o olhar para mim. Tentei falar alguma coisa mas com certeza soou idiota e inaudível. Ele lentamente virou a mão e entrelaçou nossos dedos, sem tirar os olhos dos meus.
- O que... o que... O que você... está fazendo? - sussurrei, como se fosse muito difícil falar.
- Você está tremendo. - ele riu.
- Não... não estou... - tentei novamente desvencilhar nossas mãos, mas mais uma vez ele a segurou.
- É tão difícil... - quase tive a sensação de ter imaginado que ele disse isso, de tão baixinho.

Ele riu novamente, mas não era uma risada verdadeira. Era um sorriso triste. Fiquei perdida, tentando entender alguma coisa, mas então ele soltou minha mão e me segurando pelo cotovelo, me puxou contra ele. Congelei e vi tudo desmoronar a minha volta, meus joelhos ficaram fracos demais para suportar meu peso, mas resisti. Tudo passou quase em câmera lenta: ele foi me puxando rapidamente, mas gentil, e quando ficou a centímetros do meu rosto, pousou seus lábios na minha bochecha esquerda.
Não sei ao certo quanto tempo durou essa cena, mas tinha certeza que meus tímpanos iam explodir de tão alto que meu coração batia. Senti lágrimas brotarem em meus olhos, mas rapidamente mandei-as de volta. Ele lentamente foi se afastando de mim, com os olhos fechados, respirando fundo. Ele aparentava pacífico, mas sentia algo se revirando dentro dele, como se toda aquela calma fosse apenas uma máscara. Podia senti-lo inquieto, lutando. Mas enquanto tentava decifrar alguma coisa, ele quebrou o silêncio.

- Me dê um beijo.
- O quê?! - quase gritei, sem ar. Ele riu.
- Aqui. - disse, apontando para a bochecha dele.
- Mas... Mas... O que você quer dizer? - perguntei, atordoada.
- Aqui. Um beijo. Isso vai te matar? - ele riu novamente, apontando para sua bochecha.

Tive vontade de responder "sim" à sua pergunta, mas me contive. Lentamente e muito insegura, me aproximei dele e como se qualquer movimento fosse errado demais para estar acontecendo, dei um leve beijo na bochecha dele. Ele sorriu novamente aquele sorriso triste e para minha incrível surpresa, ele fez o que eu menos esperava. Me abraçou.
Mas ao contrário das outras vezes, onde ele me tratou como se eu fosse de porcelana e quebrasse ao mínimo toque, ele me apertou. Forte. Muito forte, contra o peito dele. Ele tinha algum tipo de mágica hipnótica que estava me deixando sem ar. Ele passou um braço pelas minhas costas e com a outra mão afagou meus cabelos, de um jeito que nunca imaginei que aconteceria. Era tudo... surreal. Por mais clichê que soasse, senti o chão flutuando. Ainda incerta, abracei-o de volta. Mas então senti um golpe de realidade me atingir e brutalmente acabei com o momento.

- O que você pensa que está fazendo? - disse, me afastando e tentando fazer minha voz soar firme.
- Como? - a confusão tomou conta de seus olhos enquanto ele me encarava.
- Você... fazendo isso, o que acha que está fazendo? - e de repente estava muito irritada. Passara dias e dias tentando superar o sonho quebrado, e ele do nada me abraçava e estava tudo bem? Não estava nada certo.
- Eu só achei que... Desculpe, mas achei que podíamos ser amigos.
- Amigos? Nunca fomos amigos. Por que seríamos agora?
- Seria tão errado assim? Não vejo o motivo de ser ao contrário.
Ia responder, mas respirei fundo. Amigos? Será que isso amenizaria minha dor e enfim superaria a situação ao vê-lo como amigo? Não acreditava muito nisso, mas podia tentar. Afinal, o que tinha a perder? Obviamente, ele mexia comigo. Quem sabe a convivência não faria com que me acostumasse com ele e esses... sentimentos... sumissem? Poderia dar - quase - certo. Por mais coisas erradas que ele tivesse feito comigo, ficar remoendo e lamentando o passado não iria mudar o presente.

- Hm. Ok. Amigos. - sorri, quase verdadeiramente, tentando disfarçar o nervosismo.
- Ótimo. Amigos. Agora que você é amiga da minha irmã, será mais fácil sermos amigos... Sem o clima estranho.
- É, espero que sim. Depende de você.
- Se você parar de tremer quando estiver perto de mim. - ele virou os olhos e depois riu.
- Eu não tremo perto de você! - reclamei, dando um soco no braço dele.

Rimos por alguns instantes e então ele quebrou o silêncio novamente, falando para descermos. Concordei e saí primeiro, enquanto ele guardava o pente - que por sinal, não usei - e veio logo atrás de mim. Quando chegamos no topo da escada e eu estava prestes a descer o primeiro degrau, ele me chamou. Me virei para olhá-lo, quando ele me surpreendeu aproximando as mãos do meu cabelo. Fiquei imóvel esperando o próximo movimento dele, então ele novamente fez algo que nem imaginava.
Bagunçou meus cabelos. E muito.
Tentei impedir, mas era tarde demais. Ele fez um belo estrago, deixando meu cabelo quase irreconhecível de tão bagunçado. Não entendi o porquê daquilo, até que descemos, ele quase correndo de mim, e chegamos lá embaixo quando ele soltou um suspiro propositalmente alto.

- Uau, essa é fogosa. - ele suspirou alto novamente, fingindo que estava abotoando a calça.
Todos nos olharam, sem exceção, e nos encararam um momento. Minhas amigas fizeram cara de surpresa, de que não estavam entendendo nada, inclusive eu, mas Edward riu.
- Nossa, , não dava pra descabelar um pouco menos a garota? - disse Edward rindo, levantando-se e indo na direção dele, dando aquele "toque" de punho no punho que garotos costumam fazer. Os dois riram.
- Pois é, eu quis pegar leve, mas ela é insaciável.
- O que... Ah... Mas... ! Vocês sabem que nada aconteceu, não é? - disse, desesperadamente, tentando respirar normalmente e agir como se fossemos... "amigos".
Afinal, teria que conviver com isso. A ideia, que no começo soou incrivelmente absurda, começou a soar mais agradável. Qualquer um que me perguntasse ouviria a mesma resposta: que estava odiando aquilo. Mas no meu íntimo sabia que era melhor do que aquela frieza e distância que estávamos. Tê-lo como "amigo" entre várias aspas era melhor do que não tê-lo de modo algum.
Minhas amigas se entreolharam, incertas do que fazer, mas acabaram rindo para entrar no clima. A mais inocente dali, , que obviamente não sabia nada sobre a história entre eu e o irmão dela, ria de verdade. Tentei inutilmente arrumar meu cabelo, mas não liguei muito. A situação me deixara demasiadamente desconfortável, mas ao mesmo tempo, sentia que era algo bom que estava acontecendo. A vida parecia um pouco melhor. Tudo que eu queria era ele, e agora o tinha. Como amigo...
Uma das coisas que mais me irritava sobre ele era que quando ele me olhava ou me tocava, me fazia esquecer toda a raiva, toda a mágoa que sentia dele. Era simplesmente assim, como se nunca estivesse lá. Não conseguia admitir que ele tinha toda essa influência sobre mim, mas era a mais pura verdade. Quando os olhos dele pousavam em mim, nada mais fazia sentido. Por diversas vezes, quando pensei sobre isso, senti-me deveras estúpida, como se fosse algo que apenas imaginava. Mas quando estava olhando pra ele e ele olhava de volta, parecia mais real do que qualquer outra coisa no mundo.

O clima continuou descontraído, como se todos nós fôssemos amigos há anos. Várias vezes meu olhar encontrou com o de , mas simplesmente desviava. Não propositalmente, mas realmente não conseguia encará-lo e ficar sóbria. Não queria evidenciar demais meus sentimentos por ele, especialmente perto de . que, como nunca, se divertiu perto daquela escultura divina pela qual ela ainda estava suspirando. Fomos para a piscina mais tarde pouco antes do pôr-do-sol. Jogamos bola, contamos piada... Realmente nos divertimos.
Mal nos demos conta do tempo passando, até que sentimos o ar ficar mais frio. O céu adquiriu uma coloração incrivelmente vívida, com tons de laranja, vermelho e rosa, espalhando-se através do infinito. O sol já estava indo embora, pondo-se por trás das colinas e das casas que lá habitavam. O tempo parecia de certo modo ter parado, como se o mundo inteiro tivesse silenciado-se para poder apreciar o crepúsculo. Uma enxurrada de memórias me atingiu, lembrando de um verão que tanto quis esquecer. Inconscientemente tornei meu olhar para , que estava cabisbaixo. Ele pareceu sentir meu olhar e olhou-me de volta, sem expressão. Nem um sorriso, nem um piscar de olhos, só uma expressão vazia. Quase como se ele quisesse chorar. Quando me dei conta de que estava o encarando, virei-me de volta para o pôr-do-sol. Senti que ele ainda olhava, e discretamente tornei a olhá-lo. Dessa vez ele pareceu sair de um transe profundo e forçou um meio sorriso para mim.
- Só faltaram os marshmallows. E um violão. E uma fogueira. E uma praia! - quebrou o gelo.
- Realmente. - Frankie concordou.
- Nós podíamos fazer um luau um dia desses. Seria divertido! - completou, batendo palmas, os olhos alegres.
- Claro, se antes conseguirmos sair desse interior. - Brooke disse, sarcasticamente.


Minha mente estava lotada e vazia ao mesmo tempo, se é que isso era possível. Milhões de coisas como imagens, diálogos e memórias passavam, mas ao mesmo tempo não conseguia concluir nada. Não sabia o que queria, estava mergulhando numa completa indecisão e insegurança sobre o futuro. colocou a mão no bolso e tirou seu celular. Mexeu por alguns segundos e então a melodia começou a inundar nossos ouvidos.

The best thing about tonight's that we're not fighting
Could it be that we have been this way before?


- Trilha sonora? Que coisa de filme. - sussurrou Kate cuidadosamente baixo, como se para si mesma, porque parecia que qualquer mínimo movimento estragaria tudo. Então todos nos deixamos envolver pela música, sentados no deck, observando o sol se pôr.
I know you don't think that I am trying
I know you're wearing thin down to the core
But hold your breath
Because tonight will be the night that I will fall for you
Over again



O sol já começava a sumir no horizonte, todos em um torpor indescritível, um silêncio ensurdecedor. continuava quase cabisbaixo, mas ainda encarando a paisagem, inclinado para trás apoiado em seus braços. Ninguém sabia o que dizer. Ninguém realmente tinha o que dizer. vagarosamente virou seu rosto em minha direção. Arrastou-se para mais perto de mim. Meu coração instantaneamente respondeu selvagemente, saltando dentro do peito. Prendi as mãos entre os joelhos para ver se podia disfarçar um pouco o nervosismo. Precisava me acostumar com aquilo. Então, novamente me assustou, quase me dando um ataque do coração. Aproximou-se de mim e passou o braço por trás do meu ombro, puxando-me para mais perto dele. Não resisti e encostei a cabeça em seu ombro. Tive vontade de fugir, mas a vontade de ter seus braços ao meu redor era milhões de vezes maior. No momento, o certo e o errado tinham uma linha mais tênue do que nunca.

- Estou te devendo um pôr-do-sol, não estou? - sussurrou enquanto apoiava seu queixo em minha cabeça.
- O quê? - fingi não entender para ganhar tempo até encontrar uma resposta decente. Meu corpo tremia, de frio e de nervoso, ansiedade e medo. Ele percebeu e me segurou mais forte.
- Estou te devendo um pôr-do-sol. Não esqueci. E acho que nem você. Sei que você ainda me odeia pelo que aconteceu.

This is not what I intended
I always swore to you I'd never fall apart
You always thought that I was stronger


- É... Mais ou menos isso. - foi tudo que consegui dizer. Os outros nos encararam por um momento, mas logo desviaram o olhar e fingiram não ter visto nada. Pude sentir minhas bochechas queimarem. Hesitei por um momento, querendo desvencilhar-me dele, mas não tive forças.
- Me desculpe... Falando sério. Me desculpe. Espero que possamos esquecer isso e sermos amigos.

I may have failed
But I have loved you from the start


A palavra "amigos" me acertou em cheio. Não queria ser amiga dele. Não queria tratá-lo como amigo. Não queria vê-lo com outra e conversar com ele como amigo. Mas o que podia fazer? Era a escolha dele. Ignorá-lo obviamente não estava dando certo, muito menos esquecê-lo. Essa era a minha última chance de superar toda a dor que me tomava quando ele estava por perto. Talvez pudesse deixar meu orgulho um pouco de lado e abraçar a chance de ser feliz de novo, acostumada ao fato de nunca poder chamá-lo de "meu". Senti uma lágrima teimosa rolar pelo meu rosto, mas rapidamente enxuguei-a. Apenas balancei a cabeça, concordando. Não sabia exatamente o que estava sentindo, o que estava se tornando algo muito comum. Era uma mistura de alívio por não ter que segurar aquela vontade horrível de estar por perto dele, mas de tristeza por estar tão perto, mas tão longe.

So breathe in so deep
Breathe me in
I'm yours to keep
And hold on to your words


Ele acariciou minha mão gentilmente com seu polegar, encostando sua bochecha em meus cabelos. Perguntei-me que tipo de amizade seria esse onde um dos lados estava constantemente pensando em como queria mais. Mais do que carícias na mão. Mais do que um abraço amigável. Mas me contentei com aquilo. Bastante. O único problema era não deixar transparecer o quanto desejava mais.

Cause talk is cheap
And remember me tonight
When you're asleep


- Então... Amigos? - ele perguntou suavemente, desencostando de mim e olhando para meu rosto.
- Amigos. - respondi dando meu melhor sorriso, me perguntando se tinha sido convincente o bastante.

Because tonight will be the night
That I will fall for you
Over again
Don't make me change my mind
I won't live to see another day, I swear it's true


As estrelas começaram a aparecer no céu e o vento tornou-se ainda mais gelado. Tremi rigorosamente e tirou seu casaco e colocou-o em mim. Ia dizer que não precisava, que já ia para casa, mas não o fiz. Apenas agradeci e fiquei calada. As pessoas começaram a levantar, quase hesitantes, com medo de quebrar o momento que estava tendo com . Imaginei o que estava passando na cabeça de enquanto via tudo aquilo acontecer diante de seus olhos. Mas ela pareceu não se importar e o que foi mais esquisito, nenhuma sombra de estranhamento passou pela sua expressão.

Alguns minutos se passaram e então fomos para nossas respectivas casas. despediu-se de mim com um beijo suave no rosto e um longo abraço. Ele também me fez dar um beijo na bochecha dele, algo que era um costume dele com as amigas. Ele dava um beijo na bochecha da pessoa e logo ela dava um na bochecha dele também. Chegando em casa tomei um longo banho quente, me livrando de toda a tensão e refletindo sobre tudo que acontecera naquele dia. Tudo parecia meio surreal agora que estava acabado. Ou começando. Não sabia exatamente. Meu corpo inteiro formigava e meu coração acelerava cada vez que memórias passavam diante de meus olhos. Ainda conseguia sentir o toque de pelo meu corpo, aquele abraço, seus olhos sobre mim... Aquilo parecia não ter fim.
Eram sentimentos inéditos que achei que só existiam em livros e filmes. Nunca, em toda a minha vida, achei que passaria por algo assim. Eram tão intensos que às vezes me perguntava se eram reais. Era a primeira vez que o emocional tornara-se físico e por algum motivo, fazia com que me sentisse realmente viva. Mesmo que a dor fosse tão ou mais forte que a alegria, sentia aquilo de fato e sentia como se finalmente algo fosse real dentro de mim. Não sabia se era algo bom ou ruim. Achava-me muito nova para sentir tudo aquilo junto.
Saí do banho mais relaxada, mais tranquila. Coloquei meu pijama mais confortável e me enrolei nas cobertas, me sentindo bem pela primeira vez em muito tempo. Ao mesmo tempo em que me sentia mais aliviada pelo rumo que as coisas estavam tomando, temia pelo futuro. Deitei a cabeça no travesseiro, exausta, e agarrei meu ursinho de pelúcia. Quando estava prestes a dormir, ouvi um tremor vindo do meu criado mudo. Meu celular tinha o visor aceso. Quem poderia ser à uma hora dessas?
Hesitei por um momento, preguiçosa demais para me esticar, mas a curiosidade foi maior. Enquanto me esticava para alcançá-lo, ele vibrou novamente. Estranhei. Peguei meu celular com a ponta dos dedos, arrastando-o até a borda do criado mudo. Desbloqueei-o e li no visor: "2 novas mensagens". Meu coração pulou por um momento, cheio de curiosidade. Abri a primeira mensagem e quase caí da cama.

"Boa noite, amiga. Haha, será estranho te chamar de amiga. Chamarei só de mesmo."
Meu coração quase pulou pela boca. Nem acreditava que o número do ainda era o mesmo de tanto tempo atrás. Não sabia se respondia, se ignorava, se apagava. Minha boca continuava aberta e o celular quase caiu da minha mão. Decidi ler a outra mensagem enquanto decidia o que fazer. O número era desconhecido. E dessa vez, praticamente caí mesmo da cama.

"Sra. , cujo nome é , nascida na Califórnia, chegando em Milesville este ano por razões familiares. Duvidou da minha capacidade? Consegui até seu número. E não espere seu dever de Matemática certo. É melhor fazer você mesma. Te vejo amanhã. - "

... me mandando mensagem? O que diabos estava acontecendo? Encarei o celular por alguns momentos até o visor apagar. Então, continuei encarando o vazio sem saber o que responder. Até que tomei coragem, segurei o celular firmemente e comecei a digitar para a segunda mensagem.

"Uau, isso foi completamente stalker da sua parte. E sobre o meu dever de Matemática: É melhor que você o faça, caso contrário se arrependerá amargamente. Te vejo amanhã, stalker. xx"

Não soava bom o bastante, apaguei e reescrevi algumas vezes, mas acabei por enviar assim mesmo. Então voltei minha atenção para a primeira mensagem. Tamborilei os dedos no celular, tentando achar alguma ideia brilhante. Optei pelo simples e quase impessoal, tentando não forçar a barra com a minha nova "amizade".

"Bons sonhos, amigo. Ou devo te chamar apenas de ?"

Suspirei aliviada por ter acabado com aquilo e então coloquei meu celular novamente no criado mudo, desta vez destinada a dormir. Enrolei-me novamente nos cobertores e fiquei o mais confortável que pude. Estava certa de que iria dormir quando aquele barulho novamente inundou meus ouvidos. Mais uma mensagem. Hesitei. Mas eu sabia que não aguentaria dormir sem saber do que se tratava. Suspirei alto novamente, estiquei o braço sem olhar para trás e peguei o celular. Abri a mensagem com medo do que iria ver.

"Pode me chamar de futuro namorado, eu deixo. Mas, hm, , não está muito feliz com a nossa amizade. Então é melhor deixarmos meio que hmm... escondido. Certo? Então vamos agir menos "amigáveis" quando ela estiver por perto. Você sabe, não é nada contra você. Ela só acha que não é o melhor para mim.

Fiquei boquiaberta ao ler aquilo. Por que achava que eu não era o melhor para ele? Eu não era boa o suficiente? Não era bonita o suficiente? Aquilo realmente me pegou desprevinida. Rapidamente respondi de volta:

"Hm, seria legal se você me contasse o porquê disso. Quero dizer, ela é minha amiga, achei que ela gostasse de mim."

Rapidamente meu celular vibrou de novo. Só então percebi como aquilo era estranho. Quero dizer, estar trocando mensagens com o . Era realmente estranho.

"Não, amor, não a leve a mal, ela realmente gosta de você. O problema é comigo, acredite em mim. Ela só acha que... seria o melhor para nós dois. Não será pra sempre, é só até ela perceber que podemos sim ser amigos, ok? Então me dê uma ajudinha com isso. :)"

Amor.
Amor.
Realmente parei por uns dois minutos na palavra "amor".

Respondi algo curto como um "Ok, veremos" e enfiei meu celular na gaveta. Aquilo era demais para mim. Já não estava entendendo nada. Ele queria minha amizade mas me chamava de amor? Talvez isso fosse comum para ele, mas só fazia meu coração saltar ainda mais. Aquilo não era justo. Achei que ficaria mais fácil com o tempo acreditar nessa história de sermos amigos, mas me enganei. Estava cada vez mais difícil fingir isso. E por que não me queria por perto dele? Teria a coragem de perguntar isso a ela?
É o que eu saberia no dia seguinte.
Adormeci exausta com os pensamentos longe, cheio de memórias, diálogos, mensagens, música, abraços. Tudo misturado em uma onda de sonhos e realidade. Não conseguia mais distinguir se estava acordada ou sonhando.

09.

Logo ao acordar percebi que estava atrasada. Meu corpo inteiro doía como se tivesse feito algum tipo de atividade física muito intensa no dia anterior. Mas apenas havia passado por fortes emoções. E jogado bola na piscina. No momento em que estava prestes a levantar a porta do meu quarto se abriu e meu pai se assustou por eu ainda estar deitada.
- Você ainda está dormindo?! Você disse há vinte minutos que estava se trocando! - ele quase gritou.
- Eu disse?
- Disse! Você vai se atrasar, se arrume logo! - ele disse, fechando a porta.

Lentamente levantei da cama, dando alguns tapas na minha própria face, tentando acordar. Era típico de mim acordar e dormir de novo sem lembrar de nada. Já havia feito muitas coisas desse tipo, como comer sushi, atender ao telefone, à campainha, andar pela casa... E tudo isso sem lembrar de nada ao acordar.
Corri para o banheiro, fazendo tudo que precisava. Escolhi uma roupa qualquer, confortável, e coloquei apenas o básico de maquiagem. Não estava me sentindo tão disposta a ponto de escolher roupas e também não havia tempo para isso. O colégio era próximo, mas a descida quase íngreme da colina fazia com que eu demorasse mais do que o normal para chegar. Depois de colocar as roupas depressa, corri para baixo e apenas praticamente engoli uma xícara de leite de uma vez só. Assim, peguei minhas coisas e corri para fora de casa. Já estava mais do que atrasada.
Desci a colina com o máximo de cuidado possível na velocidade que estava, ainda que praticamente correndo. Quando estava quase chegando, vi o segurança do colégio se aproximar do portão para fechá-lo. Do lugar onde estava comecei a gritar "NÃO! NÃO! NÃO!" e ele se assustou. Mas, mesmo assim, segurou o portão para que eu entrasse. Uma vez lá dentro, suspirei e tentei recuperar o fôlego. Ainda não tinha me acostumado com aquele colégio cheio de corredores e salas e sempre demorava para achar a minha. Mas finalmente a achei, entrando e sentando no meu lugar o mais silenciosamente possível.

- Então, não se esqueçam de trazer todas as autorizações assinadas pelos responsáveis até a semana que vem. Caso contrário, ficarão com notas muito baixas se perderem essa viagem completamente educativa. Não pensem que será farra! - disse a nossa orientadora saindo da sala e batendo a porta.
- Do que ela estava falando? - perguntei quase ofegante, para mim mesma, mas pelo jeito disse alto demais.
- Da nossa viagem de acampamento. - respondeu , levantando uma sobrancelha enquanto olhava para mim.
- Droga!!! Tinha me esquecido completamente dessa viagem! - resmunguei, colocando as mãos no rosto tentando não me estressar novamente com aquele assunto.
- Você tem algum problema com acampamentos, Maddie? - perguntou , rindo da minha cara.
- E se eu tiver? Algo contra? - respondi firme tentando não rir. Era engraçado como sempre sentia vontade de rir perto dele.
- Não, claro que não. Só quero dizer que pode ser divertido. Dê uma chance. - ele sorriu.

Pensando bem, por que não? As coisas agora estavam melhorando e não precisava ficar evitando ninguém. Seria um pouco estranho, mas nada que eu não pudesse dar um jeito. Agora com sendo meu "amigo" talvez fosse mais fácil passar por aquilo. Evitaria qualquer tipo de conflito e sairia ilesa de tudo isso. Exceto pelas picadas de pernilongo que com toda certeza tomariam conta do meu corpo. Mas tirando isso, até que poderia ser legal. Além do mais, quando havia notas envolvidas, não se podia brincar. Se minhas notas continuassem baixas eu certamente veria um lado bem maligno da minha mãe. De novo.

As autorizações foram entregues e deveriam ser assinadas e devolvidas até o final da semana. Como de costume, peguei minha caneta e anotei "Autorização - acampamento" na palma da mão, assim não esqueceria. Voltei a olhar para o quadro e tentei prestar atenção a aula, mas meus pensamentos divagavam, como de costume. Tinha uma péssima mania de tentar saber das coisas antes mesmo de elas acontecerem. Imaginava como seriam as coisas, o que era pésimo, uma vez que várias vezes criava situações fantasiosas e depois me decepcionava, já que nada do que pensei acontecia de fato. Então, senti meu celular vibrar levemente no meu bolso. Ligeiramente tirei-o e olhei no visor por baixo da mesa. Era uma mensagem da .

Preciso falar com você. URGENTE. Me encontre na frente da minha sala assim que tocar o sinal.

Fiquei um pouco preocupada ao ler aquilo. Não era muito comum me mandar mensagens do tipo urgente. Depois da mensagem, não consegui me concentrar mesmo. Esperei ansiosamente o sinal tocar e saí em disparada pelos corredores. Logo encontrei o corredor da sua sala e quase trombei com ela. Ela estava eufórica e cuspia as palavras rapidamente como se não houvesse tempo. Segurei-a pelos ombros e pedi que se acalmasse e disesse as palavras mais devagar.
- O Edward!! - ela quase gritava, tentando respirar fundo.
- Sim?! O que tem ele?
- Ele perguntou pro se teria problema em "me conhecer melhor". - ela sussurrou me segurando, quase pulando.
- Sério?! Isso é ótimo!!! Fico muito feliz por você, porque pela pouca experiência que tenho, te conhecer melhor significa-
- NÃO! Não diga. - ela interrompeu - Não quero criar falsas expectativas. E se nada der certo? Preciso manter os pés no chão.
- Tudo bem então. Estarei aqui cruzando os dedos para dar tudo certo. Mas ele disse como planeja... te conhecer melhor?
- Só sei que tem a ver com o acampamento. - ela sorriu de orelha a orelha.
- Uhhh. Cabanas, fogueira, noite... Preciso terminar? - dei um olhar acusador acompanhando-a na risada.
- Espero. Realmente espero. Mal posso esperar pra tocar aquela escultura divina e tê-la em minhas mãos. - ela suspirou.
- Então vamos fazer acontecer. Missão lançada.

O sinal para o intevalo soou e descemos para o pátio principal. Eu e descemos juntas e logo nos encontramos com as outras. Elas não pareciam muito felizes ao nos ver.
- Gente, vocês não vão acreditar! - começou .
- É, uma coisa inacreditável!

Eu e começamos a contar a história sobre Edward afobadas e ao mesmo tempo e elas ouviam com uma expressão desinteressada. Estranhei tanta frieza da parte delas em relação a tudo que estávamos contando. No final, enquanto terminava de contar, elas acenaram com a cabeça e finalizaram com um "Hm, legal". parou imediatamente e abaixou a cabeça. Fiquei um pouco irritada porque era algo que realmente estava animando-a e nossas melhores amigas não estavam nem ligando.
Abracei pelo ombro e a tirei dali. Apesar de irritada, estava mais confusa sobre o que estava acontecendo com elas. Logo esquecemos, assim que avistamos e Edward sentados no banco de concreto perto do pátio. Eles riam e se batiam, como todos os garotos fazem. De repente, Edward nos viu e logo parou, encarando . logo olhou confuso na direção em que Edward encarava e então compreensão tomou conta de sua face. acenou, quase tímido, e apenas consegui sorrir timidamente e abaixar o olhar. , por outro lado, continuou encarando Edward e quase podia ver faíscas saindo de seus olhos, assim como dos dele. Sutilmente, cochichei para :
- Essa situação está me deixando constrangida.
- Não ligo. Aprenda a viver com isso. - ela riu.

Gentilmente comecei a sair do campo de visão deles e puxei comigo. Sabia que era um pouco errado da minha parte interromper todo aquele contato visual ardente, mas eles estavam começando a chamar a atenção das pessoas. percebeu e concordou que seria melhor sair dali. Ao olharmos para trás, vimos nossas amigas nos olhando hostilmente. Quando ia começar a pensar sobre isso, fui surpreendida por uma voz grossa e gentil cortando meus pensamentos.
- Perdida, ?
- Nunca, Mayer.
- E então, já se acalmou sobre o acampamento? - ele perguntou cruzando os braços.
- Talvez... Um pouco.
- Eu disse. Vai ser legal. Estarei lá. - ele respondeu rapidamente com um ar convencido, estufando o peito.
- Hmmm, certo. Muito bom. - fingi desinteresse e logo depois ri.


*

A semana passou mais rápido do que o normal. Passei toda a semana trocando mensagens/olhares/breves conversas com . Só conseguíamos conversar tempo suficiente até brigarmos ou eu ficar tímida e nervosa demais. Era difícil me acontumar com aquilo, mas quem era eu para reclamar? Iria apenas aproveitar o melhor daquela situação. Ao final da semana, todos estavam eufóricos e agitados para o acampamento na semana seguinte. Anotava mentalmente o que precisava arrumar, comprar e fazer, mas no final sempre esquecia. No fim de semana, estava quase tudo praticamente organizado e pronto. Um frio percorria minha espinha ao pensar sobre esse acampamento. Era um medo ilógico, uma ansiedade boba. Mas sentia e não podia negar.
No fim de semana, eu e as meninas nos reunimos na minha casa. Brooke, Kate e Frankie mal falavam comigo e com , faziam piadas entre si, riam entre si e nos excluíam. Aquilo foi realmente estranho e doloroso. Tanto eu quanto percebemos e pude sentir a vontade de pedir esclarecimentos fervendo em seus olhos. Mas ela se conteve, ainda mais depois que dei a entender para que ela fizesse tal. Não estava no clima de discutir a relação com elas. Mas logo depois elas, exceto , foram embora. Eu e ficamos conversando a noite toda sobre tudo, inclusive sobre Edward e o acampamento. Mas então a conversa foi ficando um pouco constrangedora quando ela tocou... naquele assunto.

- Maddie... Me promete ser sincera sobre uma coisa? - ela começou.
- Sim, claro.
- O que acontece entre você e o meu irmão?
Silêncio constrangedor.
- Maddie...?
- Oh... É... Complicado, eu acho. - tentei dizer por fim.
- Sim... Sei que é. Sei que você o ama, também.
- O quê?! Não, espera, não é bem assim... - inutilmente comecei a dizer.
- Maddie, olha, quer saber? Não precisa me contar. Quando você estiver pronta, pode conversar comigo. Sei que ele é meu irmão e que é provavelmente estranho conversar sobre isso comigo. Mas quero que saiba que você pode, se quiser. Você tem sido uma amiga e tanto para mim, sempre me ajudando e me ouvindo quando preciso. Saiba que estou aqui por você também, não há razão para não confiar em mim. Apesar de ele ser meu irmão, vou me manter o mais imparcial possível. E pode até ser mais fácil, já que eu convivo com ele, talvez saberei o que dizer.
Depois de alguns minutos pensando sobre aquilo, finalmente consegui dizer:
- Obrigada. Isso significa muito para mim, de verdade.
- Não é nada. Agora me diz, o que está te corroendo tanto por dentro?
- Ah... Realmente, é difícil dizer, . Seu irmão é um mistério.
- É... Eu sei. Realmente, fiquei surpresa de vê-lo perto de você. Ele age diferente. Mas sei que ele não quer nada sério com ninguém. E é exatamente por isso que ele te evitava.
- O qu- Isso é sério? Como... Mas... Eu... Ele... - balbuciei em choque. Ele realmente achava que eu queria um casamento com ele? Qual era o problema dele?
- É... Cada um reage às coisas do seu modo. Ele preferiu se afastar de tudo e todos a se arriscar novamente. - ela respondeu, cautelosa
- Mas... Por que você diz isso? Alguma ex o machucou o bastante a ponto de ele não querer mais relacionamentos? - indaguei curiosa.
- Ex? Ele não... Oh. - ela suspirou.
- O que foi?
- Minha boca é muito grande. - respondeu, mordendo o lábio.
- Mas... O que você ia dizer?
- Não é nada, esqueça. - ela disse, sombria.

Ia começar a perguntar novamente mas me contive. Estava absorta demais em pensamentos para me esforçar psicologicamente sobre isso. Logicamente fiquei curiosa mas era como se o assunto magoasse também. Então preferi deixar pra lá. Porém logo lembrei de algo que havia dito no dia anterior. Não resisti e tive que perguntar.

- , por que você não queria que e eu fôssemos amigos? - perguntei timidamente.
- Maddie, não é nada com você. Pelo contrário... É difícil explicar. Mas eu prometo que não vou me meter. Vocês dois são grandinhos o suficiente para lidar com tudo isso. - ela disse, por fim.

Percebi que não arrancaria nada mais do que aquela explicação vaga dela então tentei tirar aquelas dúvidas da minha mente. Começamos a conversar sobre assuntos anteriores novamente como o acampamento. Começamos a planejar como faríamos para que Edward e ficassem juntos. Várias conspirações e ideias absurdas surgiram e ríamos até nossas costelas doerem. Estávamos realmente nos divertindo muito.


*

Os dias se passaram e finalmente o dia do acampamento chegou. As semanas haviam sido longas e todos estavam ansiosos, mas houve seus pontos positivos e negativos. Os positivos consistiam basicamente em conversar com o ainda que ficasse mais nervosa que o normal perto dele. Consistiam também em constantemente conversar com . Nós tínhamos nossos falsos flertes diários que nos divertiam. Ele passou a me abraçar esporadicamente e não recusei. Pelo contrário, abraçava-o de volta pois o abraço dele era confortador e macio. Doce e calmo. Era de algum modo seguro. Entretanto, o lado negativo era que, mais do que nunca, as minhas "amigas" haviam se afastado de mim e da . Algo estranho havia acontecido mas tive medo de perguntar.
Após terminar de arrumar todas as minhas malas, dirigi-me para o colégio, esperando pelo ônibus que nos levaria ao local do acampamento. A ansiedade tomava conta de mim e os sinais eram claros. Eu mordia os lábios, batia os pés contra o chão, batucava em todos os locais possíveis. Só fui capaz de relativamente relaxar quando ouvi um motor parando ao portão lateral e ouvi a voz de despedindo-se de alguém. Corri até ela e a abracei e em princípio ela ficou surpresa mas então me abraçou de volta. Rimos e nos dirigimos ao ponto de encontro e só então percebi que vinha atrás dela carregando algumas malas. Ele olhou para mim e sorriu. Perguntei-me até quando ele seria capaz de embebedar-me com aqueles sorrisos estonteantes. Sempre me sentia estúpida quando ele fazia com que eu me sentisse daquele jeito mas simplesmente não podia evitar. então largou as malas ao lado das minhas e me abraçou, fazendo o ritual de sempre; primeiro me deu um beijo na bochecha, demorado e macio, e então fez com que eu fizesse o mesmo. Cada vez que eu tocava meus lábios contra a pele fria e macia dele, calafrios tomavam conta de mim e ele ria porque os tremores eram evidentes.
Esperamos por um tempo, conversando sobre coisas aleatórias, como música, estudos, filmes e comida. Só então o ônibus chegou e todos comemoraram. Era finalmente a viagem tão esperada. Como de costume, e eu sentamos juntas enquanto e Edward sentaram duas cadeiras atrás a nossa direita. Se virássemos para trás podíamos vê-los, mas evitamos ao máximo. Então simplesmente tentamos nos distrair ouvindo música ou contando piadas idiotas. Nossas antigas amigas passaram reto por nós, como era de costume atualmente.
Sentaram-se no fundo e ignoraram nossa presença lá. Fingimos que não havíamos visto mas claramente aquilo havia magoado.
Após pouco mais de meia hora de viagem, muitos haviam adormecido. Todos acordaram cedo e com certeza a maioria mal havia dormido. Querendo ou não, estávamos todos ansiosos pela viagem, por diversos motivos. Uns, pela farra. Outros, pelos estudos. E eu, pela companhia. Estava realmente sofrendo por antecipação, mas era quase inevitável. Assim, perdida em pensamentos e com adormecida ao meu lado, não pude evitar e olhei para trás, onde estava sentado. Soltei um suspiro de imediato no momento que meus olhos pousaram nele. Ele dormia, como um anjo, respirando pesadamente. Seu peito movia-se para cima e para baixo em um ritmo calmo e constante. Hora ou outra ele suspirava e voltava a respirar normalmente. Era uma visão um tanto quanto angelical e hipnotizante. Ele parecia tão calmo, inocente e indefeso enquanto dormia. Minha percepção de tempo tornou-se ineficaz pois passou-se muito tempo até que eu percebesse que havia passado tempo demais olhando-o dormir. Parecia um tanto quanto assustador, mas era simplesmente uma visão que eu nunca havia tido a oportunidade de presenciar. Aos poucos, ele foi acordando e quando seus olhos se abriram, a primeira coisa que encontraram foram os meus. De imediato desviei o olhar e endireitei-me na cadeira, tentando fingir que nada havia acontecido.
Com o silêncio profundo no ônibus, acabei adormecendo também. Comecei a sonhar com coisas aleatórias que não conseguia realmente distinguir e o sono era agitado. Podia sentir que estava me mexendo bastante mas não conseguia acordar. As coisas começaram a piorar e os pesadelos começaram a tomar conta de mim. Eram cenas horríveis que ao acordar eu não me lembraria, mas simplesmente aterrorizavam meu sono. Pude sentir a agitação piorar e quase ficar fora de controle quando ainda semi-inconsciente senti um par de braços me tranquilizarem. Era uma sensação esquisita, como se ainda estivesse sonhando, e então presumi que estava de fato sonhando.
Aninhei-me naqueles braços que me envolviam, sentindo um pouco de frio, e acomodando-me afim de me esquentar um pouco. Mas então o estágio de semi-consciência começou a clarear e eu estava de fato acordada. Os braços me acolhendo não eram imaginários tampouco frutos do meu sonho.
Era .

CONTINUA


Volte ao topo para comentar!


Fechar a janela para voltar ao POP