Dangerous

Autora: Thamih Bittencourt
Status: Em Andamento
Revisada por: Pamela Leão
Categoria: McFLY Fics
Sub-Categoria: LongFic - Romance, Drama
Comentários:




Prólogo

Aquilo estava muito estranho. A primeira coisa que vi foi à claridade do céu cinzento; senti o ar frio bater em minha pele descoberta, mas o que realmente fez um arrepio avassalador correr por minha espinha foi à imagem de um garoto de costas.
Não, por favor, não.
- Estava te esperando, amor – sua voz cortou o vento.
Eu paralisei enquanto ele se virava para mim, revelando a única face que eu não queria ver nunca mais nesse mundo.
- Você não vai me dar um abraço de boas vindas? – Ele deu um passo em minha direção, me fazendo instintivamente dar um passo para trás. – Por que está com essa cara? Você não está feliz em me ver?
Eu soube que a partir dali minha vida voltaria a ser o mesmo inferno de antes, era como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar – e não sabia se um dia conseguiria novamente. Mas seria eu capaz de lidar com tudo aquilo novamente? Eu teria de ser, e isso ia além de minha própria proteção, pois agora eu não estava mais sozinha.

Capítulo 1
Drive

Ótimo, está todo mundo me olhando. Aproveitem e tirem uma foto de uma vez. Escola nova, casa nova, cidade nova, país novo, continente novo! Mas não acaba aí. Vida nova, família nova.
Sempre gostei de me mudar, de lugar e escola, mas precisava exagerar? Mudar três vezes de estado não bastava, não. Eu tinha que mudar de continente. Certo, eu admito, eu estou amando esse lugar. Apesar de ser tudo muito diferente do Brasil, eu sempre fui apaixonada por Londres.
Continuei caminhando, nervosa e com a cabeça abaixada pelo estacionamento com Lauren ao meu lado. Era na casa dela que eu estava hospedada por causa do intercâmbio. Eu não daria muito trabalho a família, eu acho, afinal passaríamos todos os dias da semana naquele colégio, e somente os fins de semana em casa, o que era opcional. O termo de responsabilidade que cada responsável assinava determinava quantas vezes por semana podíamos sair fora do horário de aula. O meu determinava quatro.
- Onde vai ser o meu quarto? – eu perguntei ansiosa a Lauren. As malas que eu carregava estavam pesadas, e todo mundo ainda me olhava como se eu fosse uma alienígena.
- Fica naquele prédio – ela respondeu e fez sinal com a cabeça, já que também carregava malas, apontando a frente.
Eu olhei e lá estavam quatro prédios de três andares cada, todos com acabamentos em tijolos. Ao nosso lado ficava a escola.
Entramos no segundo prédio, e finalmente eu senti o calor dos aquecedores fazendo carinho em minha pele. Esse frio de Londres me mata.
- Terceiro andar, quarto 209 – ela leu no papelzinho todo amassado.
- Quem será que vai dividir o quarto comigo? – eu perguntei ansiosa enquanto subíamos a escada. – E por que todo mundo fica me olhando desse jeito? – Que saco!
- Alguma garota do terceiro ano, assim como você – ela respondeu. – E o que você esperava quando colocou cinco cores no seu cabelo, não chamar a atenção?
Eu não tinha pensado em chamar a atenção exatamente, como não consegui decidir qual cor colocar no cabelo, resolvi colocar as cinco mais legais.
- Tomara que ela seja legal – eu desejei levemente ofegante por causa daquelas escadas que pareciam não acabar nunca.
- Se não for a Brooklie, você sobrevive – ela disse, tentando jogar os cabelos que caiam na cara para trás mexendo a cabeça. – Mas não espere grande coisa.
Uhú, como você é positiva amiga.
Finalmente, terceiro andar. As paredes do corredor eram vermelhas, quase vinho. As garotas por todos os lados se arrumavam, conversavam aos cochichos ou simplesmente passavam me encarando. Eu vou começar a ficar paranóica daqui a pouco desse jeito.
As aulas já haviam começado fazia uma semana, mas eu havia recebido minha aceitação em cima da hora, e meu visto demorou a sair. Fora que no Brasil eu estava no meio do bimestre, e agora eu teria que fazer ele de novo. Pelo menos a matéria seria diferente aqui. Mas que foi sacanagem me fazer ir seis meses em uma escola a toa foi. Tinha chegado sábado, e passei o fim de semana na casa de Lauren. Lá até que era legal. E grande. Tomara que eles me adotem. Tá, parei. Ainda tenho mãe – graças a Deus a um oceano e mais alguns quilômetros de distância -, longe o bastante pra não me importunar. Pena que minhas amigas tenham ficado por lá também.
- – Lauren me chamou. Eu me virei e notei que ela havia ficado para trás – é aqui.
Voltei até onde ela estava e observei a porta com o número 203 gravado nela.
- Ela não vai abrir com a força do seu pensamento – disse Lauren impaciente. – E as suas malas de chumbo estão pesadas.
Respirei fundo deixando uma das malas no chão e abrindo a porta.
Não era exatamente isso o que eu esperava. O quarto era rosa, havia um frigobar branquinho; duas camas de solteiro separadas pelo espaço do criado mudo entre elas; um guarda-roupa; uma estante com uma TV, uma porta que só poderia dar para o banheiro; e a parede de frente a porta tinha uma janela com uma escrivaninha embaixo.
Na cama mais próxima a porta uma bonita garota de cabelos curtos castanho-dourados estava sentada calçando as meias três quartos brancas. Ela ergueu os olhos para mim e me estudou por um momento. Sabe, as pessoas por aqui podiam disfarçar um pouco, seria legal.
- Oi – ela me cumprimentou simpática.
- Oi – eu cumprimentei de volta e larguei minhas malas ao pé da cama de madeira clara coberta por um edredom roxo. Me larguei naquela cama sentindo meu corpo afundar confortavelmente.
- O que você acha que está fazendo? – perguntou Lauren largando as malas que carregava junto as minhas. – O sinal vai bater em cinco minutos! Coloca seu uniforme logo.
Eu olhei para ela de olhos arregalados e depois para as malas.
- Mas eu não tenho idéia de onde esteja! – eu disse desesperada sentando na cama de uma vez.
- Eu te ajudo a procurar – minha nova companheira de quarto ofereceu.
- Ótimo, ainda tenho que passar no meu quarto, que fica no segundo andar, ok? – e dizendo isso saiu.
Eu peguei uma mala e comecei a vasculhar enquanto a garota vasculhava em outra. Como eu sempre deixo tudo pra última hora, minha mala estava uma completa bagunça. Mas peraí, se a Lauren tinha pegado o uniforme pra mim, ele tinha que estar por cima. Saí abrindo as malas restantes até finalmente encontrar.
- Encontrei! – eu comuniquei a garota – Valeu.
Entrei no banheiro e me troquei de qualquer jeito, passando uma escova no cabelo em seguida e ouvi o sinal tocar. Provavelmente o sinal por perto, porque o som era consideravelmente alto. Enfiei todo o material que vi pela frente na mochila, coloquei-a sobre os ombros e disparei para a porta. Fiquei confusa ao ver as garotas caminhando calmamente. Encontrei com Lauren no final da escadaria.
- Quais são seus horários? – ela perguntou e eu a olhei confusa. Tinha me esquecido disso; no Brasil as aulas eram por turma, não por matéria. Merda.
- Acho que você tem que pegar na secretaria então – ela explicou ao notar minha cara. – Se formos rápido eu te mostro onde é.
Apressamos o passo, atravessamos o caminho que levava até a escola, subimos uma escadinha e entramos na escola. Logo perto da porta havia um escrito de “secretaria” em cima de uma janela que dava para outro cômodo. Nossa Lauren, eu nunca teria achado esse lugar sozinha?!
- Você é a aluna nova, certo? – uma mulher com cabelos brancos misturados aos castanhos me olhou por cima dos óculos de quadrados.
Não, sou um pavão disfarçado, querida. Eu assenti silenciosamente com a cabeça.
- Antes de entregar seus livros e papéis - ela continuou -, o diretor gostaria de conhecê-la.
Uh, legal. Sala do diretor no primeiro dia, que animador.
Ela saiu da secretária e eu a acompanhei por um corredor a te a diretoria. Lauren me cutucou e me passou a boina que usava e um elástico de cabelo que tinha no pulso. “Acho melhor esconder as mechas” ela sussurrou pra mim. Enquanto a secretária avisava o diretor foi o que eu fiz. Prendi meu cabelo pra cima e o escondi inteiro dentro da boina. Nossa, devo ter ficado gata, viu.
- Tchau – ela sussurrou ao soar do sino. Era por isso que havia um sinal perto os dormitórios: um para nos avisar que era hora de sair de lá e o daqui para avisar que as aulas começariam imediatamente. Faz sentido.
A secretária me deu espaço e eu entrei na sala, sentindo a porta se fechar atrás de mim. Tenso. O diretor fez sinal para que eu me sentasse na cadeira defronte a ele na mesa. Ele aparentava uns quarenta e poucos anos, com feições duras.
- Boa tarde, senhorita – ele me cumprimentou formalmente. – Então, o que você achou das nossas instalações?
- Bom, eu acabei de chegar – eu disse mexendo minhas mãos no colo. – Mas realmente gostei daqui. Obrigada pela vaga.
- É sempre bom termos a oportunidade de conviver com pessoas estrangeiras – ele disse. Valeu aí por me chamar de experimento -, e diferente de nós. – Então agora é ET? – Quer dizer que está se adaptando bem?
Qual parte do “eu acabei de chegar” esse cara não entendeu? E parece que todo mundo acha que o Brasil é puro mato, que somos todos Tarzan e Jane, ou mulatas que sambam.
Eu assenti com a cabeça e sorri, reprimindo meus pensamentos.
- Bom, eu não sei se você pretende fazer faculdade por aqui mesmo, mas acho que isso serve para qualquer universidade – ele continuou. – Temos atividades extracurriculares aqui, o que geralmente conta muito na aceitação das pessoas nas universidades. Dê uma olhada nas opções que temos aqui – ele me estendeu um papel. – Se você se interessar por alguma...
Eu comecei a ler as opções. Balé, futebol, basquete... Líderes de torcida. Gostei. Continuei a procurar algo mais que me interessasse. Conselho estudantil, parece importante.
- Acho que me interesso por duas – eu disse devolvendo o papel. – O grupo de líderes de torcida e do conselho estudantil.
- Ótimo! – ele exclamou animado. – Converse com a chefe das líderes de torcida, , e se informe dos horários. Para a próxima reunião do conselho, você será avisada. Preencha e depois deixe na secretaria. Boa aula!
- Obrigada – eu agradeci, peguei os formulários e fui embora. Passei na secretária pra pegar meus livros, horários e chaves.
Primeira aula, Biologia. A secretária me levou até lá para justificar meu atraso. Respirei fundo e entrei. Havia uma carteira vazia próxima a janela, onde um garoto loiro estava ao lado. Todo mundo me encarava enquanto eu sentava. Isso tá começando a me irritar. Comecei a preencher os formulários vagarosamente pra me distrair. Eu não entendia nada que o professor falava mesmo. As regras eram basicamente as mesmas de qualquer escola, fora que os prédios eram trancados às onze horas automaticamente e garotos pegos nos dormitórios femininos e vice-versa estavam sujeitos a expulsão.
O sinal soou antes do que eu esperava. A segunda e terceira aula seriam de matemática. Liguei para Lauren e ela me falou onde ficava a sala. Os dois períodos foram consideravelmente rápidos também, e eu conseguia entender tudo; números eram mais fáceis que biologia pelo menos. Hora do intervalo.
- Você devia deixar alguns livros no armário – sugeriu o professor de matemática antes que eu deixasse a sala. – Sua mochila parece cheia.
Eu agradeci e sai da sala. Armários... não tinha pensado nisso. Fui seguindo a multidão até achar os armários cinzas. O meu armário ficava no meio. Coloquei os livros ali empilhados e larguei a mochila junto. Voltei a seguir a multidão até achar Lauren. Já tínhamos tomado café-da-manhã então, depois de entregar os formulários na secretaria, ela me mostrou a escola. Tínhamos uma quadra coberta no lado de trás da escola, e atrás da quadra um longo gramado; de um dos lados havia uma cantina que ficava aberta praticamente o dia todo; no terceiro andar do prédio da escola só havia mais armários e classes; a biblioteca ficava no primeiro andar.
A aula depois do intervalo foi de biologia de novo. Comecei a acompanhar pelo livro e até que entendi umas coisas. Depois, geografia. Eu já disse que eu odeio geografia? Pois é, odeio. Eu até decoro na marra e no tédio, mas eu nunca consigo lembrar muita coisa depois de uma semana. Se eu já era péssima na geografia do país em que eu vive e estudei sobre desde pequena, imagina aqui. Aquela aula se arrastou horrores, e quando eu estava quase dormindo, o sinal tocou.
Finalmente, almoço. Já estava parecendo que o Aslam estava rugindo dentro do meu estômago. Tá, às vezes eu sou dramática. Liguei para Lauren e ela me encontrou perto dos armários. Fomos para cantina, e eu não sabia exatamente o que fazer. Eu tenho uma certa insegurança com coisas novas, medo de errar, sei lá. Fui pegando mais ou menos o que ela pegava pra comer... nenhum segredo. Algumas comidas daqui eram um pouquinho diferentes, e eu fiz uma careta me perguntando se aquilo era bom. Com certeza pelo menos o brownie deveria ser bom. Sentamos na mesa onde o grupo de amigas da Lauren estava. Eu comi em silêncio, me sentindo totalmente deslocada com o assunto delas. Enquanto mordiscava meu brownie comecei a observar as outras mesas do refeitório. As mesas pareciam conter cada uma um tipo de grupo, como as patricinhas, os nerds, os veteranos, as calouras, os skatistas, os noiados...
Fiquei observando as pessoas por ali até achar um rosto conhecido: a garota com quem eu dormiria essa noite. Tá, ficou estranho. A garota com quem eu dividiria o dormitório. A monotonia das conversas de Lauren com as amigas já estava me irritando, então eu murmurei um “te vejo mais tarde” e saí em direção a garota.
Ao lado dela na mesa estava sentada uma garota branquinha com sardas fraquinhas e cabelos pretos e dois garotos inegavelmente lindos, eu tenho que admitir, estavam sentados em frente a elas.
- Se importa? – eu interrompi a conversa animada deles.
- Claro que não - a garota de cabelos curto me deu espaço ao seu lado -, senta aí.
- Esse é o – ela apontou para o garoto a sua frente, que sorriu -, essa é a – ela apontou para a garota a seu lado –, e esse é o – ela apontou para o garoto de frente a . – Ah! E eu sou a .
- – eu me apresentei sorrindo.
- E aí, tá gostando daqui? – me perguntou.
- É, aqui é legal, mas ainda tá difícil acompanhar as aulas.
- Ah, com isso não precisa se preocupar, eu até hoje não consigo acompanhar – disse e a gente caiu na risada.
- Você deve acostumar com o tempo, relaxa – incentivou .
- Gostei do cabelo – me elogiou.
- É maneiro – disse . – Quantas cores?
- Valeu. São cinco. – eu murmurei sem graça.
- Suas mechas são muito fofas – disse e passou a mão pelo meu cabelo. concordou com a cabeça. – Vamos povo?
- Vejo vocês em vinte minutos! – disse aos garotos antes de entramos para o prédio feminino.
- Preciso de um banho – eu disse mexendo nas minhas roupas espalhadas em cima da cama. Eu tenho talento pra bagunçar roupas.
- Toma banho rápido então se quiser descer com a gente – avisou .
Legal, eles querem minha companhia.
- Ok – peguei um uniforme limpo e minha nécessaire e fui para o banheiro. Espaçoso o bastante e de azulejos brancos. Prendi meu cabelo em um coque alto e coloquei a toca por cima, tirei a roupa e entrei no boxe de vidro quase fume. Aquela água quente parecia tirar a tensão que passei durante a manhã.
Já praticamente pronta me analisei no espelho de corpo inteiro ao lado da janela. Aquela saia xadrez preto e branca parecia ligeiramente curta demais pra quem passa o dia todo sentada; sapato de boneca com salto e meias até o joelho pretas; camiseta social branca três quartos com uma gravata preta e o colete cinza com gola em “v” por cima com o símbolo da escola. O uniforme era legal, apesar de eu ter que usar um shortinho preto por baixo da saia, só pra garantir. Eu penteei mais uma vez o cabelo arrumando minha franja.
- Pronta? – perguntou me fazendo desviar a atenção do espelho.
- Quase – eu disse passando meu gloss ligeiramente vermelho nos lábios. – Agora sim.
Eu estava saindo do quarto quando dois vultos cortaram na minha frente. Observei o cabelo ruivo e liso – liso-chapinha, tava na cara – da garota mais alta e os cabelos negros e compridos da garota ao lado dela se distanciarem.
- Aff – reclamou revirando os olhos. Eu olhei para ela sem entender. – Na boa, nunca se meta com essas duas putas. São a e a Brooklie Patterson. Elas acham que mandam na escola.
- É pelo jeito você não curte muito elas – eu disse rindo. – Mas está anotado.
Pelo menos agora eu sabia quem era a , ou pelo menos conhecia as costas dela. Melhor nem ir falar com ela agora, senão acho que a vai ter um troço.
- Gente, eu tenho um horário livre agora – eu informei enquanto caminhávamos até a escola. – Algum de vocês também tem?
Eles negaram com a cabeça. Legal, o que eu vou fazer um período inteira sozinha? Alguns raios de sol atravessavam as nuvens, talvez eu fique em algum lugar aqui fora, tomando um ar. Fomos até os armários e quando o sinal bateu eu desci com o livro que estava lendo e o celular. Fiquei andando até chegar no gramado que ficava atrás quadra, onde achei um banco de madeira. Sentei ali e coloquei os fones de ouvido. Olhei em volta e tudo estava quieto. De repente aquela gravata apertada começou a me incomodar, então puxei o nó para baixo e abri três botões da minha camiseta. Abri meu livro e mergulhei na história de “A Mediadora”.

Capítulo 2
Can’t take my eyes of you

Eu senti uma forte pancada na cabeça e instintivamente levei a mão a cabeça reclamando de dor. Olhei para o lado procurando a origem do objeto e vi uma bola de futebol caída no gramado. Tirei os fones de ouvido me sentindo meio tonta por ter sido arrancada de perto do Jesse e ainda ter sido acertada por uma bola de futebol. Olha o tamanho desse lugar, e foram acertar logo a minha cabeça.
- Desculpa – eu ouvi uma voz grossa que me fez estremecer, olhei em direção a voz e me deparei com aquele ser vindo na minha direção. Eu fiquei sem reação com aquele par de olhos azuis me encarando. Acho que a bola bateu com muita força na minha cabeça e agora estou tendo uma alucinação. Ele se abaixou e pegou a bola. – Você é aquela garota nova brasileira? – eu assenti com a cabeça, ainda meio perdida. – Prazer, eu sou . Mas pode me chamar de .
Ele sorriu e eu fiquei sem ar por alguns segundos.
- – eu murmurei tentando não gaguejar.
- Era só pegar a bola, não precisa prestar primeiros socorros – um garoto alto e tão bonito quanto o primeiro veio correndo em nossa direção. Ok, minhas alucinações estão indo longe demais. Acho que eu morri, fui pro paraíso e esqueceram de me avisar. Não sabia que anjos eram tão gostosos. Calei.
- Esse é o apresentou.
Perfeição acaba de trocar de nome: e .
- Vem logo jogar – reclamou puxando .
- A gente se vê – gritou enquanto corriam e sorriu.
Eles começaram a jogar futebol ali junto com outros garotos. Há quanto tempo eles estavam ali? Eu nem tinha percebido eles chegarem. Eu nem tenho idéia de quanto tempo fiquei ali babando nele, fingindo ler meu livro quando alguém olhava. Deveriam ser todos terceiranistas, pelo que pareceu. Os outros garotos jogando com eles eram bonitos, mas aquele garoto, , parecia tão...
O sinal tocou e eu quase pulei com o susto, saindo do meu transe. Fui apressada para os armários, com aquele garoto me deixando meio alienada ao que estava fazendo. Só percebi que estava andando sem rumo pelo corredor com a mochila nas costas quando vi aquele pecado em carne e osso e olhos azuis surgiu na minha frente.
- Perdida? – ele perguntou sorrindo, provavelmente se divertindo com a cara de babaca que eu deveria estar. Eu balancei afirmativamente a cabeça, mexendo nos cabelos nervosamente.
- Deixa eu ver seus horários – ele pediu e eu estendi o papel que estava no meu bolso para ele. – Ah, inglês. Por aqui – ele começou a andar, e eu tive que me esforçar para fazer minhas pernas me obedecerem. Caminhamos em silêncio e ele me deixou na porta da sala de inglês, depois saiu andando pelo corredor quase vazio agora sem dizer mais nada.
estava sentada próxima a janela, e eu sentei na carteira atrás dela.
- E aí? Conseguiu achar alguma coisa pra fazer durante o horário vago? – ela cochichou e eu confirmei com a cabeça sorrindo bobamente. – O que você andou aprontando pra tá desse jeito?
- Ahn? – eu balancei a cabeça espantando da minha mente. – Nada. Tava lendo.
Ela me estudou por um instante, até o professor chamar a atenção da classe e ela virou para frente. Durante a aula ela me ajudou sobre algumas coisas que eu não conseguia entender, mas pareceu esquecer sobre o horário vago. Somente quando estava saindo da sala eu percebi que aquele amigo de , , estava na mesma aula que eu. Putz, ainda bem que eu não falei nada sobre eles!
- A sala de história é aqui – eu ouvi alguém falar, e vi parado ao lado da porta de uma classe.
- Ah, valeu – eu disse entrando na sala e sendo seguida por ele. Ele sentou no fundo da classe, e eu em uma das primeiras carteiras. Quando a professora começou a escrever no quadro eu derrubei meu lápis. Peguei ele e notei que a ponta havia quebrado, e não encontrei nenhum apontador no meu estojo.
- Ahn, pode me emprestar o apontador? – eu perguntei me virando para o garoto sentado atrás de mim. Involuntariamente olhei para o fundo da classe, e sorriu para mim.
- Aqui – o garoto estendeu o apontador para mim. Eu sorri timidamente para antes de me virar de volta para frente.

- ? – eu chamei. Ficar deitada na cama assistindo TV estava começando a me entediar profundamente. Ainda mais numa quarta-feira. E mais ainda numa quarta-feira em que eu vejo atracado com uma garota em uma sala vazia. Durante a aula inteira de história eu preferi fingir que ele não existia, afinal, ele era só um garoto incrivelmente lindo que eu tinha conhecido há dois dias, não é?
- Fala logo – murmurou parecendo impaciente. Eu devo ter deixado ela no vácuo sem perceber.
- Vamos fazer alguma coisa pelo amor de Deus – eu supliquei.
- Vamos – ela concordou desligando a TV e pulando da cama. Vesti meu casaco branco por cima do uniforme, pegamos dinheiro, celular e descemos depois de chamar no quarto dela.
- – ela vociferou no celular – desce agora! Precisamos de você para sair! – ela deve ter recebido outro “não” no telefone, por que ficou mais nervosa ainda. – Não, eu não posso simplesmente sair com elas! Já está ficando tarde para três garotas saírem sozinhas! – ela mordeu o lábio enquanto escutava. – Então tá! – ela desligou o celular com raiva. – Garotas, vamos subir. Ela comunicou convicta. Eu arregalei os olhos pra ela.
- Tá louca? – eu perguntei assustada. – Eu não posso me arriscar a ser expulsa por invadir o prédio dos garotos na primeira semana!
- Ah, qual – ela disse rolando os olhos. – Vamos lá garotas. A Brooklie Patterson e a – ela fez uma voz afetada ao dizer o nome das duas – vivem aí em cima e nunca foram expulsas. Vamos logo, ninguém vai ver.
Eu olhei em volta e só havia alguns alunos por ali, sem sinal de adultos. Achei que essa escola era rígida, que falta de vigilância, meu Deus.
- Eu não vou – disse séria.
- Eu não vou buscar o pra você – disse se virando e indo em direção ao prédio deles.
- Tá, é só fingir que não estamos fazendo nada de errado e entrar de uma vez – eu disse indo atrás de . Aquele fio de adrenalina no meu sangue por estar quebrando alguma guerra era bom. hesitou por um momento mas acabou nos seguindo.
O primeiro andar do prédio era igual ao nosso, com as portas que davam pra cozinha, o salão de balé, a sala de academia, essas coisas. Subimos as escadas e atravessamos o corredor azul escuro, olhando rapidamente de porta em porta, até entrar em uma delas gritando:
- Se formos expulsas por estarmos aqui vou falar que você me chantageou e vou implantar maconha no seu quarto!
- E eu acabei de perder minha inocência vendo aqueles dois garotos semi-nus no outro quarto! – declarou nos fazendo rir e desmanchar sua cara de brava.
e nos encaravam de olhos arregalados, eu notei que eles estavam segurando violões.
- O que vocês estão esperando? – reclamou cruzando os braços. – Vamos logo!
- Já disse que não tô afim de sair – disse .
Ela olhou sugestiva para .
- Desculpa , também tô sem saco – ele disse encarando o teto.
- Toca pra gente? – eu pedi animada. Sentei no chão defronte as camas onde eles estavam sentados. fez uma careta. – Ah, garotos, por favor? – eu pedi imitando o gato de botas. Isso sempre convencia.
Ele rolou os olhos e cochichou alguma coisa com , que concordou com ele. Eles começaram a tocar e cantar “Help”, dos Beatles.
- Êêê – eu comemorei. As meninas sentaram ao meu lado, e em pouco tempo estávamos acompanhando a música baixinho. Eles não simplesmente tocavam e cantavam bem, eles eram incríveis.
- Já são dez horas, melhor irmos – informou .


Capítulo 3
Say ok

Voltamos aos nossos dormitórios e eu aproveitei para fazer minha lição de química. Quando terminei de fazer me espreguicei e procurei meu celular para ver as horas. Eu não o encontrei em lugar nenhum, e lembrei de ter filmado e cantando com ele.
- Que horas são ? – eu perguntei levantando e colocando de novo o casaco por cima do uniforme.
- Quinze para as dez – ela informou. – E aonde você pensa que vai?
- Buscar meu celular – eu disse indo em direção a porta. – Minha mãe ficou de me ligar hoje.
Eu saí do quarto e me apressei pelo corredor antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Quinze minutos era tempo suficiente.
- O que você tá fazendo aqui? – perguntou assustado por me ver ali quando abriu a porta do quarto.
- Não consegui ficar tanto tempo longe de você – eu brinquei e ele me deu passagem para entrar. estava deitado embalado em um cobertor felpudo. – , você tá parecendo uma bala. – eu zoei ele que acompanhou meus passos com a testa franzida. Eu peguei o celular e mostrei a eles. – Melhor me apressar, faltam oito minutos. Até amanhã, dudes. – Eu mandei beijos no ar e sai do quarto mexendo distraidamente no celular.
Eu esbarrei em alguém e antes que pudesse sequer respirar me senti puxada e meu corpo bateu com força contra a parede do corredor.
- Oi boneca – a pessoa que me segurava sussurrou em meu ouvido e segurou meus pulsos. – Se estiver perdida, meu quarto é logo ali.
- Me solta – eu disse tentando manter a voz firme, mas ela já estava falhando, eu já era puro desespero.
- Ah, vamos lá boneca – ele prensou os lábios contra os meus e eu comecei a chorar. – Vamos nos divertir.
- SO... – eu tentei gritar com todo o fôlego que eu ainda tinha, mas ele tapou minha boca antes que eu pudesse continuar. Foi então que eu consegui ver o rosto dele. Ele estava furioso, tinha as feições encovadas e olhos extremamente pretos.
- Vai ficar de gracinha? – ele disse e em seguida me arrastou até um dos quartos ali por perto, ainda tapando minha boca. Ele fechou a porta e começou a me agarrar e eu tentava me debater e gritar, mas não tinha mais ar em meus pulmões. Eu comecei a sufocar e a me sentir tonta. Minhas mãos, braços, rosto, tudo formigava. Eu não raciocinava mais direito, só tentava a qualquer custo gritar, sem muito sucesso. Eu senti as mãos dele percorrerem meu corpo e irem para debaixo da minha saia enquanto ele me beijava forçadamente. Eu mordi a língua dele e aproveitei quando ele se afastou o bastante para eu conseguir gritar antes dele voltar a tapar minha boca.
Foi tudo rápido em seguida. Eu ouvi um estrondo e ele me soltou, deixando meu corpo cair no chão.
- Tira ela daqui – eu ouvi uma voz furiosa e que eu sabia que conhecia gritar. Em seguida alguém me pegou no colo e me levou para outro lugar.
- Não sai daqui – quem me carregava disse me deixando sentada no chão, e em seguida saiu dali. Eu abracei minhas pernas e continuei chorando sem parar, vendo tudo embaçado, tentando respirar a qualquer custo. Eu não sei quando tempo havia se passado até alguém acender a luz e me abraçar.
- Hey, hey, calma – eu ouvi aquela voz que conhecia dizer calmamente. Eu abracei ele forte e escondi meu rosto na curva de seu pescoço. – Respira, isso. Eu estou aqui.
Foi então que eu reconheci a voz. Era .
- Life is getting harder day by day – ele começou a cantar baixinho, fazendo carinho em meu cabelo - And I don't know what to do or what to say, yeah

And my mind is growing weak, every step I take

It's uncontrollable, now they think I'm fake, yeah

'Cos I'm not alone

But I'm not alone

I'm not alone

And you’re not alone…


- Estou aqui com você, pequena. – ele sussurrou parando de cantar.
Eu já conseguia respirar e eu chorava menos agora. Tudo estava calmo novamente. Ele se afastou e me encarou com aqueles olhos azuis, me dando toda a paz que eu precisava. Passou a mão por minhas bochechas, limpando as lágrimas que ainda estavam ali.
- Vem, vamos limpar esse rosto lindo – ele sorriu e eu sorri de volta, cessando meu choro. Passei a mão por meus olhos e foi então que percebi que um filete de sangue escorria do canto de sua boca.
- Meu Deus! – eu disse desesperada. – Você está machucado!
- Hey, pequena – ele se levantou e estendeu a mão para me ajudar a levantar. – Calma, isso não é nada.
- Não mesmo – e só então eu percebi que estava deitado em uma das camas, e que nós estávamos em umdos dormitórios. – simplesmente desmontou aquele cara!
Eu estremeci por lembrar dele. me guiou até o banheiro e eu joguei água no meu rosto.
- Quer um calmante? – ele ofereceu enquanto eu encarava minha imagem no espelho. Eu neguei com a cabeça e comecei a vasculhar as gavetas. Gel pra cabelo, sabonetes, camisinhas...
- O que você tá procurando? – ele perguntou intrigado.
Eu não respondi, finalmente achando algodão.
- Tem mertiolate, água oxigenada, alguma coisa do tipo? – eu perguntei e pegou em uma das gavetas água oxigenada e me entregou.
Eu olhei a embalagem. “Volume 10”, serve. Molhei o algodão com aquilo e me aproximei dele.
- O que você vai fazer? – ele perguntou olhando o algodão em minha mão.
- Cuidar de você – eu disse limpando o filete de sangue do rosto dele.
- Não precisa se preocupar comigo – ele disse com uma careta.
Ignorei e peguei mais um punhado de algodão e molhei com água oxigenada novamente. Passei em cima do corte no canto da boca dele e ele se afastou um pouco reclamando baixinho de dor.
- Fica quieto, – eu disse passando o algodão de leve novamente. Eu comecei a me sentir culpada pela dor dele. Era como se doesse em mim. – Obrigada por me salvar – eu agradeci sorrindo e tentando distrair ele.
- Por falar nisso – ele de repente fechou a cara. – O que você estava fazendo a essa hora aqui e com aquele cara?
- É verdade! – eu me lembrei da hora e sai do banheiro rápido, indo em direção a porta.
- Aonde você pensa que vai? – perguntou segurando meu pulso, e eu senti uma dor latejante.
- Embora. E , tá doendo!
Ele soltou meu pulso rapidamente e olhou-os. Eles estavam roxos. De repente, eu fiquei com medo da cara que ele fez.
- Todas as portas já foram trancadas a essa hora – informou .
- E agora? – eu perguntei tentando pensar em como voltar ao meu dormitório.
- Você dorme aqui – disse com as sobrancelhas erguidas como se aquilo fosse óbvio.
- Pirou?
- Você não tem muitas opções – informou .
Houve uma batida na porta. me empurrou para trás dela antes de abrir.
- Cadê a ? – eu ouvi a voz preocupada de , e saí de trás da porta. – Você está bem? O que aconteceu? Desculpa, a gente devia ter te levado até lá embaixo...
- É, deviam – o cortou grossamente. Eu olhei torto para ele.
- Tá tudo bem, – eu murmurei olhando para o chão.
- Vem, você pode dormir lá com a gente – ofereceu .
- Ela vai dormir aqui – sibilou , a cara fechada para eles. abriu a boca para protestar, mas eu o impedi.
- Eu vou dormir aqui – eu disse meio sem pensar, tentando evitar outra briga. olhou confuso para mim, franzindo a testa. – Tá tudo ok.
- Certeza? – perguntou.
- Tenho – eu afirmei e bateu a porta na cara deles em seguida. – Não precisava ser tão grosso com os meus amigos! – Eu disse brava com . Esvaziei uma sacola plástica que encontrei e fui em direção ao frigobar.
- Você tem noção do perigo que correu hoje? – ele perguntou igualmente bravo.
- Mais do que você pensa – eu lancei um olhar furioso para ele. Ele ficou em silêncio e eu coloquei alguns cubos de gelo na sacola. Depois enrolei a sacola em um pano e voltei para perto dele.
- E o que você estava fazendo aqui? – ele perguntou em um tom ainda um pouco bravo.
- Vim buscar meu celular no quarto do e do – eu respondi já impaciente com aquele assunto. – Eu e as meninas passamos a tarde lá. Aí quando eu tava indo embora aquele maluco me atacou.
- Você não deveria...
- Não enche o saco, – eu o interrompi e coloquei o gelo em cima do inchaço que estava se formando na lateral da boca dele. Ele me encarou e então sua expressão relaxou. Colocou uma de suas mãos por cima da minha que segurava o gelo.
- Obrigado – ele agradeceu e aqueles olhos azuis me hipnotizaram. Dei um beijo leve em sua outra bochecha e me afastei. Meu celular começou a tocar e só então eu percebi que não estava com ele. , deitado na cama próxima a porta com um travesseiro na cabeça, levantou a mão com o celular nela.
- Oi mãe – eu atendi e fui para o banheiro fechando a porta para ter mais privacidade.
A conversa durou apenas dez minutos, já que ligar do Brasil para Londres saia meio caro. Eu me animei quando ela disse que mandaria o dinheiro para eu comprar o laptop que eu tanto queria. Assim que ela desligou eu liguei para e contei por cima o que tinha acontecido.
Saí do banheiro e estava deitado no chão assistindo TV, apenas com um cobertor e um travesseiro. Tadinho, eu estava dando trabalho a ele. A cama próxima a janela estava feita, esperando por mim.
- Eu posso dormir no chão – eu ofereci. Ele negou com a cabeça.
- Quer uma roupa pra dormir? – ele ofereceu tirando o gelo da boca e indo até o guarda-roupa. É, dormir com o uniforme não seria exatamente confortável. – Que saco, acho que não devo ter nada do seu tamanho – ele reclamou vasculhando o guarda-roupa.
- – eu chamei e ele me olhou, parando de vasculhar. – Tira a camisa? – eu pedi e ele me olhou com uma expressão confusa. Eu encarei ele de volta e ele tirou a camisa. – Valeu – eu agradeci arrancando a camisa da mão dele e voltando para o banheiro.
Troquei meu uniforme pela blusa dele, apenas permanecendo com o shortinho por baixo da camisa, que cobria metade da minha coxa. Voltei ao quarto e ele me acompanhou com o olhar até eu me deitar e cobrir. Apagou a TV e a luz, deixando a escuridão tomar conta dali. Eu fechei os olhos e as lembranças do meu dia voltaram a minha mente. A imagem daquele garoto era vívida, fazendo com que eu me encolhesse e agarrasse o cobertor.
- ? – eu chamei com a voz embargada. Senti uma lágrima escorrer até o travesseiro. Aquela sensação de pavor me dominando novamente.
- Calma – estava agachado ao lado da cama e começou a fazer carinho em meu cabelo. Eu comecei a chorar e ele se juntou a mim debaixo dos cobertores, me abraçando carinhosamente. – Eu estou aqui, e nada vai te acontecer mais. Eu te protejo – ele sussurrou em meu ouvido. – Eu prometo – ele deu um beijo em minha testa. Eu continuei chorando baixinho, mas seus braços me davam sensação de segurança, me acalmavam, até que eu adormeci.

Capítulo 4
Don’t talk

Eu acordei com uma luz branca batendo na minha cara e sumindo em seguida. Abri os olhos vagarosamente e estava rindo com uma câmera na mão.
- Que gracinha – ele zoou e eu mostrei a língua.
ainda dormia profundamente e mantinha os braços me envolvendo.
- Melhor acordar o – continuou . – Ele gosta de acordar mais cedo pra tomar café fora. Aproveita e pede pra ele trazer alguma coisa pra mim. – e dizendo isso saiu do quarto.
Eu fiz carinho no cabelo de enquanto ele dormia. Ele parecia tão tranqüilo, tão lindo. Eu sorri ao ver um leve sorriso se formar no rosto dele. Dei um beijo em sua bochecha. “Hora de acordar, ” eu sussurrei.
- Bom dia, pequena – ele disse abrindo os olhos preguiçosamente.
Eu me espreguicei sentando na cama. me puxou me fazendo deitar de novo, e passou uma de suas pernas por cima das minhas.
- Vai tomar café comigo? – ele pediu manhoso.
- Hum... não sei... – eu fiz cara de pensativa. Ele mordeu minha bochecha. – Aí – eu disse rindo. – Seu violento. Eu vou - Ele mordeu minha bochecha de novo. – E por que me mordeu agora? – eu perguntei esfregando a mão na bochecha.
Ele simplesmente sorriu e se levantou. Garoto doido.
- Ahn, você não se importa de manter segredo sobre ontem, importa? – ele perguntou um pouco inseguro enquanto tomávamos café-da-manhã em uma Starbucks próxima a escola.
- Não – eu respondi dando de ombros. – Algum motivo especial? – eu perguntei tentando parecer casual. Se ele disser que tem uma namorada, eu juro que me afogo nesse cappuccino. Ou me jogo da ponte de Londres e me afogo no Tamisa.
- Não, eu não tenho nenhuma namorada se é o que você esta pensando – ele disse me deixando aliviada. Eu fui tão obvia assim?
- Então...? – eu perguntei tentando fazer com que ele continuasse.
- Só não fala, por favor – ele pediu. – Um dia eu te explico.
- Nem pros meus amigos?
- Já tem amigos é? – ele perguntou e eu rolei os olhos. – Aquele tal do e do ? De preferência não.
- ? – eu perguntei e ele fez cara de dúvida. – A garota de cabelos curtos, minha amiga. Do meu dormitório.
- O menos possível – e deu de ombros.
Eu hein, quanto suspense.
- De quem é aquela música que você cantou pra mim? – eu resolvi mudar de assunto. – Eu não conhecia.
- É minha – ele disse olhando para algum ponto distante. Eu o olhei espantada. – Eu sei, ainda não é exatamente uma música, não está nem pronta...
- Ela é linda! – eu o interrompi sorrindo. – Fora que você canta tão bem quanto o .
- Não sabia que aquele loser sabia cantar – ele disse franzindo a testa.
- , para de implicar com o – eu ralhei com ele.
Ele ficou quieto, provavelmente me poupando dos pensamentos dele sobre e evitando uma discussão.
- – eu chamei baixinho olhando para meu copo, mas sabia que ele me encarava. – Você acha... e se, eu, ahn, ver aquele garoto de novo, sabe?
- Hey, pequena – ele me chamou, mas eu continuei olhando meu copo, até ele colocar a mão em meu queixo e levantar minha cabeça para que eu o olhasse. – Não precisa se preocupar, você não vai mais ver ele.
- Como você pode ter tanta certeza? – eu perguntei encarando aqueles olhos azuis.
- Eu cuido dele – disse ele sério. – E não quero mais que você pense nisso, ok? – eu assenti silenciosamente com a cabeça. Uma lágrima teimosa desceu por minha bochecha, mas eu logo me recompus. – E também não quero mais saber de você andando sozinha por aí, muito menos nos dormitórios masculinos. Hora de ir.

Tínhamos a primeira aula juntos, mas ele simplesmente me ignorou desde o momento em que voltamos pra escola. Ele sentou com outro garoto na aula de química no laboratório e eu vi me chamando e apontando para a cadeira vazia ao seu lado.
- E ai, Five Colours? – me cumprimentou alegre. Pelo jeito ele está tentando ser bonzinho e me fazer esquecer certas coisas.
- E aí ! – eu sorri me sentando ao seu lado.
- Dormiu bem? – ele perguntou e dessa vez eu notei que ele estava tentando ser casual, mas se saindo tão bem quanto.
Não, eu não dei pro se é isso que você quer saber palhaço.
- Dormi – eu disse anotando o que o professor começava a passar no quadro. – O é que deve estar todo quebrado, tadinho, dormiu no chão.
Pelo jeito dessa vez eu fui convincente, porque ele mudou de assunto.

Quando a terceira aula daquele dia acabou, matemática, eu finalmente consegui falar com a . Os treinos começariam terça que vem. Ela não era tão ruim quanto havia dito. Quero dizer, ela não me analisou nem mais nem menos do que o resto da escola ainda fazia. Passei o intervalo com Lauren, tentando adiar meu encontro com e .
Mas a hora do almoço chegou, e eu resolvi sentar com eles, já que a próxima aula seria com .
- Será que a senhorita pode me explicar o que aconteceu ontem? – ela exigiu assim que eu coloquei minha bandeja em cima da mesa.
- Será que a gente pode esquecer sobre ontem? – eu pedi sentando.
Eles ficaram em silencio até puxar uma conversa. Ufa, mais fácil do que pensei.
Depois do almoço e passei no meu quarto e encontrei um embrulho em cima da minha cama. Estranho. Eu abri o embrulho e havia duas munhequeiras pretas e uma pomada. Eu peguei as munhequeiras e um bilhete caiu.
“Isso vai ajudar a sumir com o roxo. Se precisar de mim me liga”.
Escrevi a mensagem “Obrigada” e enviei para o número escrito no bilhete.
Estava realmente começando a esquentar, então eu finalmente pude tirar o casaco que eu vestia desde ontem e depois de tomar banho coloquei aquilo depois de passar a pomada. Por que ele se preocupava assim comigo?
Na aula de química não falou nada sobre a última noite, mas eu podia sentir que ela estava louca pra saber de tudo.
Aula de educação física. Eu troquei o uniforme pela roupa de ginástica que da escola, mas fui barrada por uma garota ruiva e maquiada. E bonita, eu admito.
- Por que você tá vestindo o uniforme comum de ginástica, Five Colours? – eu encarei ela sem entender. Era a Brooklie, e agora eu tinha um novo apelido é?
- E não é o que eu deveria estar vestindo?
- Você não está querendo entrar para o grupo de líderes de torcida? – ela tinha uma voz enjoada. Isso me lembrou imitando ela.
- É.
- Então cadê seu uniforme de líder? Nós não vestimos a mesma coisa que elas. – ela apontou para algumas meninas que passavam vestindo o uniforme de ginástica.
- Foi o que me deram – eu disse dando de ombros.
- Eu só vou entregar os uniformes semana que vem, Brooklie – apareceu atrás dela.
- Você já não deveria ter entregue? – ela perguntou um tanto desdenhosa.
- Não – ela respondeu ríspida.
Eu deixei as duas discutindo e saí de fininho. A professora nos fez ficar correndo em volta da quadra até eu quase morrer.
- Não se preocupe – disse sentando ofegante ao meu lado na arquibancada -, costumamos usar a aula de educação física – ela fez uma pausa para respirar um instante – para treinar.
- Tomara que essa vaca quebre a perna e morra – praguejou Brooklie se largando ao lado de .
- O que é que vocês três acham que estão fazendo sentadas? – a professora se esganiçou. Ela era grande e musculosa. Ela me assustava.
- Discutindo sobre nossos passos – mentiu Brooklie.
- Pois arranjem outro horário pra discutir – ela esbravejou, e eu juro que vi cuspe voando. Eca. – QUERO TODO MUNDO CORRENDO.
- Não podemos treinar? – tentou .
- Aaah, então as mocinhas estão achando que vão poder ficar treinando passinhos na minha aula, não é? – ela esganiçou.
- Sempre fizemos isso – disse Brooklie.
- Mas não vão fazer mais! – ela exclamou fazendo uma cara furiosa. – E tratem de voltar a correr agora mesmo se não quiserem ser expulsas de novo!
Eu bufei e voltamos a correr.
- Mulher grossa – reclamou indignada. – Até parece que não vamos mais treinar na educação física! Isso é totalmente absurdo!
- Vamos discutir melhor aquele lance da perna quebrada? – sugeriu Brooklie.
- Com certeza – respondeu convicta. – E nosso próximo professor terá que ser um homem, são bem mais fáceis de convencer.
- Se quiserem ajuda pra se livrar da mal-comida é só falar – eu ofereci e voltamos a correr em silêncio. Todo o oxigênio era precioso para não desmaiarmos.

- Puta que pariu, tô acabada – eu reclamei pra depois de sair do meu segundo banho em uma tarde.
- É, aquela professora de educação física é um saco. A última aula que tive com ela foi um inferno.
Eu deitei na cama e fiquei lá estirada durante algum tempo.
- Five Colours? – me chamou na porta do quarto. lançou um olhar matador para ela, que apenas ignorou. Eu fui para fora do quarto ver o que ela queria. – Você quer mesmo nos ajudar a expulsar aquela mulher-macho da escola?
- Quero – eu respondi. – Mas eu não quero arranjar problemas na escola, entende...
- Ok, então, nós vamos te explicando no caminho o que você tem que fazer.
Encontramos com Brooklie na escadaria da escola esperando por nós agarrada a . Ele me olhou torto não sei por quê quando saímos dali. Entramos na sala do diretor e fiz cara de triste.
- Ah, Srtª , vejo que você encontrou boas companhias – ele disse sorrindo, então percebeu minha tristeza. – Mas, por que vocês estão aqui? Algum problema?
- Sr. Philips – começou Brooklie -, ela não queria vir aqui porque não queria problemas logo na primeira semana, mas nós a convencemos que seria o melhor a fazer.
- Por favor, se sentem queridas – ele pediu apontando para as cadeiras a sua frente.
- Obrigada – agradeceu .
- Continuem por favor.
- Acho melhor ela mesma contar – disse Brooklie fingindo estar apreensiva.
- Eu estava na aula de educação física – eu comecei a mentir e deixei que meus olhos começassem a lacrimejar -, e então aquela professora começou a implicar comigo.
Eu fiz uma pausa fingindo tomar coragem.
- Calma, querida – incentivou . – Conte a ele.
- Eu era a última no vestiário, e ela simplesmente chegou gritando comigo – eu comecei a chorar. – Disse que eu estava fazendo corpo mole a aula inteira, e quando eu tentei sair do vestiário, ela agarrou meus pulsos e começou a me sacudir!
- Nós ouvimos os gritos e voltamos para ver o que estava acontecendo – disse enquanto eu me esforçava para aumentar o choro, e Brooklie me abraçou de lado.
- A professora começou a xingá-la de coisas horríveis – disse Brooklie. – E disse que brasileiras eram imprestáveis e burras, e foi piorando.
- E então nos viu e soltou – continuou . – Saiu dali como se nada tivesse acontecido.
- Meu Deus – disse o diretor de olhos arregalados. – Espero que você esteja bem, querida!
Nessa hora eu usei o elemento surpresa com que nem as meninas contavam. Tirei as munhequeiras dos pulsos e mostrei ao diretor. Todos me olharam assustados.
- Monstra! – exclamou Brooklie.
- Eu vou tomar providências agora mesmo! – o diretor bateu as mão na mesa e se levantou. – Senhoritas, sugiro que voltem para seus dormitórios por enquanto. E Srtª , peço desculpas pelos atos terríveis dessa professora. Lhe garanto que ela estará fora do corpo docente dessa escola ainda hoje. Espero que isso não a faça julgar mal os outros professores nem a escola, e que continue conosco.
Eu assenti silenciosamente com a cabeça controlando o choro.
- Você é melhor do que eu pensava garota! – elogiou Brooklie quando já estávamos no pátio.
- É você foi incrível! – disse . – Mas aonde você arranjou esses roxos nos pulsos?
Ferrou. O que eu falo agora?
- Foi em uma brincadeira que eu estava fazendo com meus amigos – eu comecei a falar o que vinha na cabeça. – Era um truque de mágica que eu aprendi no Brasil. Mas não deu muito certo, eu fiquei com a mão presa na caixa. – eu dei de ombros.
- Então era essa a causa dessas munhequeiras – conclui Brooklie. Nossa, como você é inteligente. – Engraçado, o tem umas iguais – ela disse pensativa.
Eu olhei para meus pulsos, eram munhequeiras pretas, comuns o bastante pra que eu simplesmente tivesse iguais. Mais peraí, como ela sabe o que o tem ou deixa de ter?
- ? – eu perguntei.
- Ah, você nem deve conhecer ele – disse ela dando de ombros. – Ele é amigo do meu namorado, aquele cara que tava comigo na escadaria.
Ela entendeu a pergunta de modo errado. Ainda bem.

- Aonde você foi com aquela vaca? – perguntou ríspida assim que eu entrei no quarto.
- Ajudá-las para termos mais tempo para treinar – eu respondi indo para o banheiro lavar o meu rosto.
- Treinar o que? – ela perguntou confusa. – Se você me disser que entrou para o grupo de líderes de torcida eu juro que te deserdo!
- Qual é o problema? – eu perguntei voltando pro quarto.
- Qual o problema? – ela perguntou com a voz esganiçada. – Todas as líderes de torcida são metidas, são fáceis e...
- Não me interessa o que elas são ou deixam de ser – eu cortei ela. – Eu não vou mudar só porque seguro pompons.
- Veremos – ela disse brava.
- A, qual é , você também odiou a professora de educação física – eu disparei.
- O que isso tem a ver? O que vocês fizeram?
- Já disse, arranjamos mais tempo para treinar agora – eu coloquei meus fones de ouvido impedindo de continuar a me encher o saco.
Foi aquela vaca da professora que gritou comigo primeiro, eu só estava dando o troco a ela.

Capítulo 5
S.O.S.

Depois daquilo ficou a sexta-feira inteira de cara virada pra mim. Assim que Lauren saiu da última aula nós fomos para a casa dela e passamos o sábado todo procurando um laptop pra mim e domingo foi um tédio: filme, comida e lição de casa. Mas tudo era um tédio por um único motivo: não saia da minha mente. Isso estava me irritando, eu simplesmente não parava de pensar nele. Por que isso agora?

Nas duas aulas de matemática resolveu sentar ao meu lado, expulsando a garota que estava ali antes. Eu tentava explicar as coisas pra ela, mas na maioria das vezes ela acabava por copiar minhas respostas.
- Aonde você vai? – me perguntou quando eu estava indo em direção a mesa onde e os outros estavam no refeitório.
- Ahn, sentar com o , a , o ...
- Aff . – ela me cortou. – Você senta com a gente hoje, ok?
Eu fiquei totalmente sem graça quando passei e acenei para eles e em seguida sentei na mesma mesa que ela com a bandeja do almoço. Acho que agora a nunca mais olha nas minha cara.
Eu olhei ao meu lado e ali estava Brooklie e uma outra garota loirinha. Olhei a minha frente e lá estava um garoto moreno forte, ao seu lado e... . Meu estomago deu um solavanco quando meu olhar encontrou com o dele. Acho que eu vou ver meu café-da-manhã de novo.
- Five Colours, essa é Claire- ela começou a apresentar -, Diego, e .
Eles sorriram e eu acenei. me fuzilava com o olhar apesar de sorrir.
- Já esta tudo arranjado – comentou Brooklie animada. – Conseguimos um professor para substituir aquela mulher-macho.
- Graças a Deus – eu disse baixinho.
- Garotos, vocês tinham que ver essa garota atuando, ela é perfeita – continuou Brooklie animada.
- O que vocês andaram aprontando dessa vez? – perguntou olhando para Brooklie.
- A professora de educação física estava tentando nos matar, aí nós cuidamos para que ela fosse expulsa.
- A Five Colours fingiu que a professora tinha agredido ela – contou .
- É, mas o melhor foi o improviso – continuou Brooklie. – Você tem que ver os roxos que ela arranjou nos pulsos, foi demais.
Será que alguém pode calar a boca dessas duas?
- E como você arranjou esses roxos? – perguntou . Eu juro que a qualquer momento iria sair laser dos olhos dele. Medo.
- Ela disse que tava fazendo um truque de mágica ou qualquer coisa assim – disse -, e as mãos dela ficaram presas numa caixa.
- Foi horrível – eu comentei olhando pra ela. – Nunca mais tento fazer mágica de novo na vida.
relaxou um pouco e parou de tentar me matar com o olhar.
- Mas sabe, já está até sarando – eu disse olhando para o meu próprio braço. – Não dói mais, e a pomada que eu tô passando tá tirando o roxo.
Eu sorri silenciosamente para o meu prato enquanto elas começavam outro assunto e ergui meus olhos para , vendo que ele sorria silenciosamente também.
- Eu nunca vou entender essas garotas – comentou baixinho para . – Só porque elas são loucas tentam nos enlouquecer junto.
riu.
- Talvez não loucas – eu disse olhando para . – Só confusas – olhei para que riu de novo.
Olhei em direção a mesa onde meus amigos estavam. Se não estivesse aqui, eu iria para lá agora mesmo.

Eu peguei meu fichário e meu livro de geografia e caminhei para a biblioteca pra fazer um pequeno trabalho que o professor havia passado. Pequeno porque não era ele que iria ter que fazer. Alguém me puxou para dentro de uma sala vazia.
- ! – eu dei um tapa no braço dele. Garoto estúpido, quase morri do coração. Meus olhos encontraram os seus e então eu percebi que o susto não foi nada comparado ao que os olhos dele faziam meu coraçãozinho.
- Posso saber o que a senhorita está fazendo junto com Brooklie e a ? – ele perguntou me encarando.
- Eu entrei pro grupo de líderes de torcida, e elas fazem parte – eu disse. – Aliás, é chefe das líderes. Nós nos demos bem, eu acho.
- E isso justifica você ser responsável pela expulsão de uma professora? – ele perguntou ligeiramente bravo.
- Acho que ela prefere ser chamada de professor viu – eu comentei tentando escapar da pergunta. Ele segurou o riso.
- Eu estudo com elas faz tempo – ele disse sério. – Quero que você tome cuidado com elas. Elas ferram até uma a outra se deixar, além de ter nos arrastado junto no terceiro ano.
- Terceiro ano? – eu perguntei confusa. – Mas vocês estão no terceiro ano agora.
- Repetimos – ele disse rolando os olhos. – Aliás, elas repetiram e como não conseguiram fazer nada para passar, fizeram para bombar eu e o junto.
- Uou – eu disse baixinho.
- E os pulsos, melhoraram? – ele desviou o assunto e pegou cuidadosamente meu braço, tirando a munhequeira dele.
Agora o roxo estava bem mais claro em alguns pontos e em outros já começava a amarelar.
Ele soltou meu braço e foi se sentar em cima da mesa do professor. Ficamos em silencio alguns minutos, até eu me aproximar dele devagar. Apoiei minhas mãos nas pernas abertas dele e sustentei seu olhar antes de encostar nossos lábios. Ele colocou a mão em minha nuca me fazendo arrepiar e pressionou nossos lábios. Ficamos assim durante alguns segundos, antes dele afastar nossos rostos. Ele pulou da mesa e antes de abrir a porta abriu a boca para falar alguma coisa, mas a fechou de novo e saiu dali me deixando totalmente confusa. Qual é o problema desse garoto?
Eu fui para a biblioteca começar meu trabalho de geografia, mas estava sendo difícil. A cada dois parágrafos que eu lia eu tinha que reler um, porque no último eu estava distraída pensando em .
Na aula de inglês eu sentei na carteira ao lado de . Ela virou a cara ainda brava comigo. Eu passei a aula inteira tentando puxar conversa, até finalmente conseguir fazer com que ela falasse comigo direito.
Aula de história. Eu sentei na última carteira no canto da sala, abaixei a cabeça e fiquei assim até que eu ouvi falar comigo.
- Ahn, me desculpa eu... – ele começou, mas eu o cortei.
- Vê se não me enche o saco – eu disse exasperada pra ele e abaixei a cabeça de novo.
Eu não iria deixar ele me dar um fora assim, ou dizer “somos apenas amigos”, ou seja lá o que ele fosse dizer, eu não queria escutar.
- Você tá bem? – ele perguntou.
- Não preciso de ninguém se preocupando comigo – eu murmurei.
- O professor vai te chamar a atenção se você continuar assim – ele avisou.
- Problema é meu.
- Só estou tentando te ajudar.
- Você me ajudaria se sumisse da minha vida.
- Não tem mais carteiras vazias, vai ter que me suportar.
- Não dá, você é insuportável.
- Senhorita , quer fazer o favor de acordar? – o professor me chamou e eu levantei a cabeça sentindo meu rosto queimar ao perceber todos me olhando.
- Eu avisei – disse .
- Blá, blá, blá... – eu fiz uma voz afetada.
- Você é tão estúpida.
- Você é tão idiota.
- Formamos um belo casal então – ele disse e eu o olhei sem entender, rindo em seguida.
- No Brasil, se um cara fugisse de uma garota quando fosse beijado, seria gay, sabia? – eu comentei irônica.
- Aqui também seria – ele disse rindo.
- Aí Meu Deus! Você é gay! – eu gritei e todo mundo me olhou de novo, eu abaixei minha cabeça morrendo de vergonha.
- Eu juro que te mato garota! – ele sussurrou pra mim.
Depois de alguns minutos eu levantei a cabeça, ainda impressionada.
- Por que não me contou antes que era gay? – eu perguntei para ele.
- Porque eu não sou – ele murmurou bravo e me fuzilando novamente com os olhos.
- Não? – eu perguntei ainda em dúvida. Bem que ele era perfeito demais para ser de verdade.
- Não – ele afirmou.
- Certeza?
Ele bufou e começou a copiar a matéria, me deixando totalmente no vácuo. Odeio esse garoto.
O sinal bateu enquanto todos saíram da sala nós dois simplesmente tivemos que ficar ali pra terminar de copiar a matéria.
- É culpa sua que eu estou perdendo meu tempo aqui – eu disse observando o professor sair da sala.
- Eu não segurei suas mãos para vocês não escrever – ele disse ainda sem me olhar.
- , vai embora.
- Não posso, tô copiando a matéria.
Eu bufei e fechei meu caderno.
- Depois eu arranjo a matéria com alguém – eu disse irritada. – Melhor do que ter que ficar aqui.
Ele fechou o caderno e saiu na minha frente, fechando a porta antes que eu pudesse passar.
- Qual é o seu problema, garota? – ele perguntou me encarando encostado na porta.
- Você – eu disse sustentando o olhar.
Eu não sei como aconteceu, mas no segundo seguinte era eu quem estava encostada – leia-se: pressionada – contra aquela porta. me beijava intensamente com as mãos em minha cintura e eu tentava eliminar qualquer espaço possível entre nós o puxando pela camisa e apertando sua nuca. Era como se uma corrente elétrica passasse por minhas veias ao invés de sangue. Ele mordeu meu lábio inferior me fazendo soltar um gemido baixo e puxar seus cabelos. Ele desceu os beijos por meu pescoço, me fazendo ficar ofegante, enquanto tentava me concentrar em abrir os botões da camisa dele. Ele percebeu minhas intenções e começou a fazer o mesmo com minha blusa. Foi então que eu comecei a lembrar de quando fui agarrada, de quando aquele garoto me tocava... Aquilo me fez respirar acelerado, me deixando tonta. Eu o empurrei e sai daquela classe correndo para meu dormitório.

Eu não sai do meu quarto até que o sinal batesse as sete e meia da manhã me mandando ir para a classe. Eu dei graças a Deus de não ter aula com durante a terça-feira, crente que não teria que vê-lo. Eu já estava até sentada almoçando na mesa conversando animada com quando me cutucou nas costas.
- Vem sentar com a gente quando terminar aí, ok? – ela disse e foi para a mesa dela. Alguém lá em cima deveria estar rindo muito da minha cara, não é possível.
Eu terminei de almoçar e fui para a mesa onde e os outros ainda estavam almoçando.
- E aí Five Colours – cumprimentou Brooklie. Eu me lembrei do que tinha dito sobre ela. E falando nele, lá estava o motivo de eu não ter dormido direito durante todos estes dias, o motivo das minhas distrações.
- Senta aí – disse me dando espaço a seu lado.
Eu sentei sentindo meu coração acelerar ao ver aqueles olhos azuis bem a minha frente me olhando.
- Nós já acertamos os horários pra usar a quadra – informou Brooklie. – Os treinos começam hoje querida, às cinco horas. A propósito, você combinou muito bem com o uniforme.
Eu ainda estava com o uniforme que elas me entregaram na aula de educação física. Era um short preto curto e uma blusa babylook branca com traços pretos que deixava uma faixa da barriga aparecendo.
Eu olhei para , que assentiu disfarçadamente com a cabeça, me fazendo sorrir envergonhada.
- Mas esse é o uniforme de educação física, sabe, do horário normal – explicou . – Nós podemos ficar com ele pela escola ao invés do outro uniforme. Usamos um uniforme parecido nos treinos.
- E é claro que temos um modelo especial para os jogos – disse Brooklie com um sorriso convencido.
- Então tá, né – eu disse baixinho.
- Garotas, vocês viram o que aquela garota estranha do segundo ano fez com o cabelo? – perguntou Brooklie. E com isso começou a sessão fofoca. Realmente, elas tinham uma língua afiada para falar mal dos outros, mas até que era engraçado.
Alguém passou a mão por meus cabelos e bagunçou-os. Eu olhei para trás e piscou pra mim enquanto caminhava. Eu ri arrumando meu cabelo.
- Galêre, tenho que ir – eu disse e sai correndo atrás de e os outros.
Eu pulei nas costas dele e ele segurou minhas pernas e me levou de cavalinho até a porta do nosso prédio.
- , seu preguiçoso – reclamou . – Até daqui a pouco.
Ele tinha se recusado a levar de cavalinho, disse que ela era muito pesada. Pesada eu não sei aonde, mas tudo bem, acho que se pedíssemos pra ele levar um gato ele iria reclamar que era pesado também.
Eu aproveitei nosso tempo livre pra entrar na net um pouco, já que agora eu tinha meu laptop.

: SOS amigas! Tô ficando louquinha nesse lugar!
Mari: Achei que tivesse morrido já! Você não deu noticias!
Liz: Amiiiiiiiiiga que saudadeee!!! Conta tudo!
: É sério, eu tô pirando aqui! Me ajudeeem!!!
Mari: O que aconteceu?
Liz: Conheceu muitos gatinhos?
: Um garoto. Ele tá me atormentando!
Liz: Ele é bonito?
Mari: Te atormentando?
: Bonito? ELE É PERFEITO!
Liz: Então qual o problema? Já deu uns pegas nele?
: Eu não sei... Eu chego perto dele e... Parece que vou ter um ataque do coração, meu estômago embrulha, eu começo a tremer... Ele quase me mata galêre, é sério!
Mari: ELA TÁÁ APAIXONADA!!!!!
Liz: Own! *---*
: Não tô não! Eu só me pego pensando nele às vezes... Mas ele é bipolar, é sério!
Mari: Às vezes? Certeza amiga?
Liz: Bipolar? Boiei.

- Não consigo entender nada! – reclamou me fazendo pular na cadeira. – É português?
- Sua curiosa! – eu reclamei fechando o laptop na mesma hora. – É, tava falando com minhas duas melhores amigas, lá do Brasil.
E de quem eu morro de saudades. deu de ombro e se largou na cama.

Nós voltamos para escola e eu aproveitei os minutos restantes para copiar algumas coisas do trabalho dela de geografia, já que eu havia sido mentalmente impedida de conseguir fazê-lo inteiro. Pelo menos agora eu estava conseguindo entender melhor os professores. Quando estava mexendo na minha mochila pra pegar o material de química, um bilhete caiu do meu caderno.
“Filosofia, depois do seu treino”.
- O que é isso? – perguntou tentando pegar o bilhete da minha mão.
- Nada – eu respondi amassando e jogando o bilhete de volta na mochila.
A dupla de química terminou e eu voltei correndo para o dormitório para tomar um banho rápido, mas não resisti a ligar o computador um pouco.

Mari: O que aconteceu, você saiu sem avisar! Mal educada!
Liz: Vai amiga, fala mais sobre o gatinho!
: Calma aí! Eu tenho treino agora, tenho cinco minutos!
Mari: Treino de que?
Liz: Então conta logo!
: Líder de torcida. Alguém me deixou um bilhete hoje escrito “Filosofia, depois do seu treino”. Eu não saquei muito bem...
Mari: Aula particular com alguém?
Liz: Líder de torcida??! Que massa!
: Não, não tenho aula com ninguém. É parece ser legal Liz J
Mari: Vocês aí não têm aula divida por salas e tals?
: Aham.
Mari: Então é “sala de filosofia”, não é?
: Não tinha pensado nisso... Vou dar uma checada! XD
Mari: Tá ficando lerda que nem a Liz!
Liz: Hey! Ainda tô aqui.
: Te amo lerdinha!
Mari: É, também te amo lerdinha!
Liz: Own *----* Amo vocês!
: Porra, já tô atrasada! Fui!

Fechei o laptop e sai disparada para o ginásio. Entrei no vestiário e lá estavam as garotas se trocando.
- Aqui – jogou o uniforme pra mim e eu me troquei. A blusa era preta com listras brancas, a saia rodada preta com as pregas brancas por dentro e o short preto. Amarrei meu cabelo e fomos para a quadra.
Aquilo era diferente do que eu estava acostumada. Talvez por que eu não estivesse acostumada com nada disso de qualquer jeito. Fora que minha elasticidade não era das melhores. Mas até que não estava tão complicado assim. Era divertido.
O treino durou uma hora, depois eu peguei minha roupa e já estava saindo quando Brooklie me chamou.
- Nós vamos sair e beber daqui a pouco. Nada demorado, mas precisamos relaxar um pouco sabe. Quer vir?
- Desculpa Brooklie, talvez numa próxima – eu disse fazendo cara de cansada. – Eu estou muito cansada.
- Ok – disse ela sorrindo franco.
Eu sai apressada pelos corredores tentando me lembrar onde ficava a sala de filosofia. Mas peraí, eu nem sei quem me mandou aquele bilhete. E se for um assassino? Do jeito que eu sou curiosa, eu nunca mais dormiria direito se não descobrisse. Fora que era só uma teoria que eu tivesse que ir na sala de filosofia. Eu finalmente encontrei a sala de filosofia, era a única com a porta encostada ao invés de fechada e trancada. Eu olhei para os dois lados desertos do corredor antes de entrar, já me preparando para gritar ou sair correndo. Ou os dois juntos. Empurrei a porta e nada aconteceu, me deixando mais tensa ainda, mas assim que entrei a porta bateu atrás de mim, me fazendo dar um pulo e soltar um gritinho.
Eu olhei para a porta e lá estava atrás dela, rindo da minha cara.
- Você adora me assustar, não é ? – eu reclamei emburrada. Mania chata desse garoto.
- É – ele afirmou ainda rindo. – Você fica tão engraçadinha quando leva um susto.
- Há-há – eu ironizei e dei língua.
- Suas munhequeiras combinaram com o uniforme – ele disse se aproximando.
- Eu sabia que você era gay mesmo! – eu disse, levando a mão a boca. Geralmente mulheres, ou garotos afeminados sabiam combinar roupas.
Ele rolou os olhos “Vai insistir nisso?”.
- Talvez – eu disse mordendo o lábio e olhando para os dele, que agora me pareciam extremamente convidativos. Ele se aproximou até juntar nossos corpos e passou os lábios pelos meus, me provocando.
- E sabia que esse uniforme – ele sussurrou em meu ouvido, me fazendo arrepiar -, fica muito bem em você?
Ele passou as pontas dos dedos aonde terminava a minha saia. Ele passou os lábios novamente pelos meus, enquanto brincava com a barra da minha saia. Eu puxei seu lábio inferior de leve com meus dentes e deslizei minhas unhas por suas costas. Ele pediu passagem com a língua e eu abri minha boca, me permitindo sentir o gosto dele. Ele segurou minhas pernas e colocou-as envolta de sua cintura, me carregando até a superfície de alguma coisa que eu suspeitei ser a mesa do professor. Ele cariciou a lateral do meu corpo, deixando suas mãos em minha cintura, depois descendo-as devagar. Eu distribuía beijos em seu pescoço enquanto arranhava levemente suas costas. Ele voltou a me beijar e começou a levantar minha camisa. Eu me separei dele apenas para tirá-la e quando voltamos a nos beijar, sentia quase que uma ferocidade em seus beijos. De repente, eu não conseguia respirar mais direito. Ele percebeu que eu não estava correspondendo mais e me olhou preocupado.
- Você está bem? – ele perguntou e eu coloquei a mão em sua boca, pedindo silencio. A pior coisa quando se passa mal é que sempre tem um idiota perguntando se você está bem.
Eu tentava puxar o ar, já me sentindo tonta pela falta de oxigênio. Ele levantou levemente minha cabeça pelo queixo, com uma das mãos, e com a outra segurou uma de minhas mãos, fazendo carinho nela. Aos poucos eu fui me acalmando e voltando a respirar novamente. Ele me deu um selinho e me abraçou.
- Dorme comigo hoje? – ele pediu e eu me afastei para olhá-lo. – Relaxa, estou pedindo pra você dormir comigo, só isso.
- Dormir, tipo, dormir? – eu perguntei.
- É – ele disse e então um sorriso malicioso apareceu em seu rosto. – A não ser que você queira fazer alguma outra coisa também.
- Não seria perigoso eu dormir em um quarto com dois homens? – eu perguntei. E diga-sede passagem dois homens tão gostosos como ele e o .
- vai passar a noite com a Brooklie hoje – ele disse enquanto eu olhava para aqueles olhos tão intensos mesmo no escuro. – E você não confia em mim?
- Confio – eu disse sorrindo timidamente. – Mas hoje não.
- Que pena – ele disse e me deu um selinho.
Eu sai da sala e adentrei o corredor, sentindo um calafrio. Como a noite os aquecedores da escola eram desligados, aquele lugar estava gelado.
- Aonde você estava até agora? – perguntou enquanto eu atravessava o caminho até os dormitórios.
Eu abri a boca para inventar alguma coisa, mas Brooklie perguntou antes “Com quem você estava?”.
- Eu tava na biblioteca – eu disse rápido.
- – eu ouvi alguém me chamar, eu olhei para trás e me abraçou pela cintura. – Você deve estar congelando, vem.
- A gente se vê – eu disse sem graça e sai abraçada com , deixando as duas de boca aberta atrás de mim.
- Vai, troca de roupa rápido – disse me deixando na porta do meu prédio. – Vamos comer alguma coisa.
É, parecia ser uma boa idéia. Eu me troquei e em dez minutos já estava lá embaixo de novo.
- Aonde vamos? – eu perguntei enquanto caminhávamos portão afora.
- Algum fast-food ou restaurante – ele disse. – O que você prefere?
- Hoje eu quero fast-food – eu disse sorrindo igual criança.
- Então tá – ele disse e beijou minha bochecha.


Capítulo 6
No Worries

- Dude, pára de olhar pra trás e me ajuda aqui! – eu exigi vendo virar a cabeça para trás pela milésima vez naquela aula. Ela sempre fazia isso, era irritante.
- Oi? – ela perguntou meio confusa. Em que mundo essa garota vive?
- Eu não entendi isso aqui – eu apontei para o meu caderno. Enquanto ela me explicava, a peguei olhando rapidamente para trás novamente. Eu olhei para trás e me deparei com . Certo, havia várias outras pessoas ali, mas era bem mais notável, fato.
- Eu acho o bonito – eu disse distraída.
- Engraçadinha – reclamou e eu a olhei sem entender.
- Qual o problema com ele?
- Além de que a Brooklie tomou posse e de que ele é um idiota, nenhum – ela disse com raiva.
- Eles são namorados – eu disse rolando os olhos. – E ele não me parece tão idiota.
- Namorados? Qual é! – ela disse copiando a matéria do quadro, enquanto a ponta de sua lapiseira quebrava algumas vezes. – Eles pegam geral, eles nem são namorados de verdade. É totalmente ridículo.
- Como assim? – eu perguntei franzindo a testa. - É um relacionamento aberto?
- Deve ser – ela bufou. – Quer dizer, ela é ex-namorada do melhor amigo dele, isso já é bem estranho pra mim.
- Quem? – eu perguntei apertando uma de minhas mãos.
- Dã – ela zombou. – O . Vai me dizer que sua amiguinha nunca contou?
- Namoraram? E o que aconteceu? Há quanto tempo? – eu disparei sem conseguir me controlar.
- Ano passado – ela disse apertando novamente a lapiseira cuja ponta tinha quebrado. – Mas eu não sei muita coisa, eu comecei esse ano aqui também, lembra?
- Ahn, ok – eu murmurei voltando a copiar a matéria silenciosamente.
Quer dizer que e Brooklie namoravam, e agora ela “namorava”, ou seja lá o que fosse, com o . E ela havia feito os dois repetirem de ano. Isso é estranho. As pessoas daqui são estranhas de qualquer jeito, mas eles superam. Será que era por isso que me escondia, porque ele não queria que ela soubesse? Porque ele ainda gostava dela, mas ela estava com o melhor amigo dele?
Durante o almoço eu passei rápido pela mesa de Brooklie, preferi ficar com e os outros. Eles me faziam sentir como se estivesse em casa.
- – eu disse irritada. – Se você tacar mais alguma coisa em mim, juro que vou te fazer engolir!
Ele não parava de jogar mini bolinhas de papel em mim, e aquilo estava ficando chato. Ele esperou até que eu estivesse distraída e tacou mais uma, me desafiando. Eu peguei três bolinhas do chão e me levantei, dando a volta na mesa e comecei tentar enfiar a bolinha na boca dele, enquanto ele segurava meu braço.
- Eu não joguei! – ele se defendia. – Foi o , eu juro!
Eu fiz mais força tentando enfiar a bolinha na boca dele, e ele teve que segurar meu pulso com mais força, me fazendo gritar de dor, e me soltando na mesma.
- ! – ele exclamou desesperado e se levantou, me abraçando. – Foi sem querer, desculpa!
- Não foi sua culpa – eu disse baixinho. – Já tava machucado.
Ele se afastou e me encarou, com a testa franzida. Eu me aproximei e cochichei em seu ouvido “Sabe, daquele dia lá no dormitório”. Ele me olhou fechando a cara. Eu levei um dedo a boca em pedido de silêncio. “Depois” eu murmurei voltando ao meu lugar na mesa.
- E você tá marcado, viu – eu avisei apontando para a cara dele.

- As meninas estavam hoje falando na hora do almoço sobre você e o disse olhando sério para o quadro. Eu fiquei em silêncio para que ele continuasse. – Parece que vocês estavam juntos ontem à noite – ele continuou e eu percebi que ele estava tentando não rir.
- Que mais elas disseram? – eu ri de leve.
- Que vocês eram um casal estranho, e que a cena na hora do almoço provou que vocês estavam juntos - de repente sua expressão estava séria. – não pareceu muito feliz em perder o admirador.
- Não sabia que tinha alguma coisa com – eu murmurei. Pelo jeito eu estava totalmente por fora dos romances do colégio.
- Não tem – ele respondeu. – Mas o vive correndo atrás dela. É de dar dó um homem se comportar assim.
O sinal bateu e eu esperei até que todos saíssem, enrolando para guardar meu material. fez menção de levantar e eu o puxei pela calça, fazendo-o sentar novamente. Eu me levantei e saí da sala, já que o professor ficaria ali, eu precisava de outro lugar para falar com ele.
- A sala de filosofia tá vazia hoje? – eu perguntei indo para o andar de cima. Ele assentiu com a cabeça, me acompanhando silenciosamente. Para minha surpresa a sala estava trancada, mas pelo jeito não para a dele. Ele tomou minha frente e em dois minutos a porta estava aberta.
- Você arrombou a porta? – eu perguntei fechando a porta atrás de nós.
- Na verdade eu tenho a cópia das chaves de algumas salas – ele disse dando de ombros. Eu franzi a testa. – Tá, eu roubei e copiei, satisfeita? Mas a chave dessa ficou no meu quarto, então, sim, eu arrombei. O que tem de errado nisso?
Eu rolei os olhos e me sentei na mesa do professor. Ele se aproximou de mim e tentou me beijar, mas eu virei rosto.
- O que foi? – ele perguntou afastando o rosto.
- Eu não entendo por que temos que ficar sussurrando, por que você me esconde, por que não posso contar sobre nós para ninguém – ele continuou me olhando como se pedisse para que eu continuasse. – Tudo bem, não temos nada, eu sei. Mas por que tanto segredo? O que tem de errado comigo?
- Não tem nada de errado com você – ele disse com a expressão séria. – Mas é melhor assim. Eu não sei se posso te contar ainda.
- É a Brooklie, não é? – eu perguntei olhando em seus olhos.
- O que a Brooklie tem a ver? – ele perguntou surpreso.
- Me diz você, – eu disse ríspida.
- Ela é só minha ex-namorada, o que isso teria a ver? – ele perguntou me encarando com a mesma intensidade.
Ficamos um momento em silêncio, até eu quebrá-lo “Você ainda gosta dela”.
- De onde você tirou esse absurdo?
- Do fato de que tudo que envolve eu e você ter que ser um segredo.
- Certo, ela até tem a ver com isso – ele desabafou. – Mas eu não gosto dela, de maneira alguma. Ela é que ainda gosta de mim, ou melhor, pelo que tenho visto, ela é praticamente obcecada por mim. E ela é uma das pessoas que eu tenho medo que te façam mal por isso.
- Mas pelo jeito vocês dois ainda andam juntos, não é meio estranho? – eu perguntei ponderando se acreditava nele ou não.
- Ela pega o – ele disse rolando os olhos. – Ela é que não desgruda da gente, não é minha culpa.
- Certo, porque a sua ex é maluca nós somos um segredo, então se resume a isso?
- Não – ele suspirou. – Não é só isso. Apesar da Brooklie ser perigosa, não é dela que eu tenha mais medo.
- Você não confia em mim o bastante pra me contar, não é mesmo? – eu o olhei de um modo triste.
- Eu confio – ele disse. – Mas não quero te preocupar com isso agora. Só preciso que você confie em mim.
- Certo – eu disse finalmente e pulei da mesa. – Mas eu estou de olho em você, mocinho – eu coloquei dois dedos em frente a meus olhos e depois os apontei para ele, sorrindo, e saí da sala.
- – ele me chamou antes que eu chegasse na metade do corredor. Eu parei e esperei que ele me alcançasse. – Quer dar uma volta? – Ele sussurrou em meu ouvido, me fazendo arrepiar.
Os corredores estavam desertos, pois no terceiro andar havia poucas salas, e todos os alunos estavam nelas. Eu pensei por um instante, e então o segui pela escola. Passamos despercebidos por todos, já que podíamos estar simplesmente em um horário vago. Matar a terceira aula de física que teria em um dia não me parecia uma má idéia, já que tinha perdido metade dela mesmo. Quando dei por mim, já estávamos no estacionamento. Eu observei a moto vermelha em minha frente.
- É sua? – ele assentiu com a cabeça. – Mas, você já pode dirigir?
- É claro – ele respondeu e eu montei na moto depois dele. Eu havia me esquecido que lá se podia tirar carteira mais cedo, e ele pelo jeito já tinha idade suficiente para isso. – Segura firme – ele avisou e eu o abracei pela cintura.
Ele acelerou a moto de uma vez me fazendo segurar mais forte em sua cintura. O porteiro mal teve tempo de falar qualquer coisa e já estávamos longe. O vento fazia barulho e tudo passava rápido demais para que eu conseguisse distinguir muita coisa. Eu fechei meus olhos com um pouco de medo. Devem ter se passado uns quinze minutos ou uma vida ali, até que ele diminui e parou. Se eu não tivesse prendido tão bem minha saia, Londres inteira teria visto meu short durante o trajeto. Eu desci da moto me sentindo meio tonta.
- Você é um perigo na direção – eu disse vendo ele desmontar da moto. – E você por acaso não esqueceu os capacetes?
- É mesmo – ele levou uma mão à testa. – Mas agora já era – e então deu de ombros.
- Aonde vamos? – eu perguntei olhando em volta. Estávamos no estacionamento aberto de algum outro lugar, e parecia ter bastante mato em volta.
- Dar uma volta no parque. – ele disse com um sorriso infantil no rosto, que me fez sorrir também.
Ele segurou uma de minhas mãos enquanto caminhávamos em direção ao parque e entrelaçou-as, me fazendo corar ligeiramente. Seguimos por um caminho de asfalto, onde pedestre e ciclistas tinham seus lugares demarcados. O caminho era ladeado por arvores, uma brisa batia em meu rosto, apesar de minha roupa curta demais para um lugar sem aquecedores me dar frio, aquela brisa era gostosa. A nossa direita, além de um longo gramado onde pessoas estavam sentadas ou até deitadas e crianças corriam, havia um grande lago.
Uma coisa vermelha a minha frente me assustou, até perceber que estendia uma flor vermelha para mim. Eu sorri e a peguei, dando um beijo em sua bochecha.
- Aqui não a ninguém que nos veja – ele disse sorrindo. – Eu posso mostrar a todos o quanto a minha garota é linda.
Eu senti meu rosto esquentar e meu coração disparar ainda mais, além do que a presença dele já me causava. Eu fiquei nas pontas dos pés para beijá-lo, que correspondeu. Era um beijo calmo, carinhoso, mas que ainda assim disparava mais meu coração e fazia com que correntes elétricas tomassem o lugar do sangue no meu corpo. Ele parou de me beijar e mordeu forte minha bochecha. Eu reclamei de dor e ele saiu correndo, olhando pra trás e sorrindo. Eu saí correndo atrás dele, que foi em direção ao gramado. Por mais que eu fosse rápida na corrida, ele conseguia se desviar de mim por um triz. Em alguns minutos já estávamos cansados, não somente pela corrida, mas também porque riamos que nem dois babacas. Ele finalmente deixou que eu o alcançasse, e eu pulei e o derrubei no chão. Ele puxou junto e eu cai por cima dele no gramado. Eu ia revidar a mordida, mas antes que conseguisse, ele me beijou, me fazendo esquecer qualquer outra coisa no mundo.
- Sabia que você é a garota mais linda desse mundo? – ele disse colocando uma mecha de cabelos atrás da minha orelha.
- Sabia que é feio mentir? – eu disse sentindo meu rosto queimar e dei um selinho nele.
- Mas eu não estou mentindo – ele disse e aqueles olhos me faziam sentir como se nada de ruim poderia acontecer no mundo. – Você é a garota mais linda do mundo.
Eu sorri sem graça sentindo meu rosto queimar mais ainda.
- E fica uma gracinha assim toda vermelhinha. – ele sorriu abertamente.
- Eu não tô vermelha. – eu protestei cobrindo meu rosto com as mãos.
Eu escutei ele rir e então afastou minhas mãos do meu rosto e me beijou. O beijo começou calmo, então foi aumentando a intensidade. Ele rolou na grama trocando de lugar comigo e ficando por cima de mim.
- , estamos no meio de um parque – eu disse ainda sem parar de beijá-lo, quando me dei conta de que minhas pernas involuntariamente levantavam enquanto ele estava deitado entre elas. – E sabe, eu tô de saia.
Só então ele considerou que estávamos em público.
- Quer comer alguma coisa? – ele perguntou se apoiando nos cotovelos e me observando.
Será que se eu responder “você” fica muito feio? Ok, se controla.
- Aham – eu respondi passando a mão por seus cabelos.
Nós nos levantamos e limpamos a grama. Fomos até uma barraquinha de cachorro quente ali perto e só quando eu dei a primeira mordida foi que percebi que realmente estava com fome. pegou o ketchup e desenhou uma carinha feliz no cachorro-quente dele me fazendo rir. Eu desenhei um coração torto no meu que fez até o dono da barraquinha rir. Depois de comidos e satisfeitos... já sei, eu tenho a mente maliciosa e sei que ficou estranho, então, depois de termos comido, voltamos para a parte gramada e sentamos ali. Eu me recostei em e ficamos ali observando o lago e as pessoas. Eu e rimos alto quando uma criança caiu logo a frente, e uma outra tropeçou nela e caiu também.
- Para de rir, não seja malvado com as criancinhas – eu censurei tentando conter minhas próprias risadas.
- Nem vem, você também riu dela – ele reclamou. – E eles nem se machucaram, já estão até correndo de novo.
Ficamos ali conversando e observando o pôr-do-sol. Aquele parque era simplesmente encantador, e as pessoas ali pareciam sempre felizes. O mesmo garoto que caiu correu para perto de nós, tocou em enquanto gritava “Tá com ele!” e então saiu correndo de novo. Antes que eu entendesse saiu correndo atrás do grupo de crianças, não correndo tão rápido, apenas o suficiente para assustá-las. Eu ria enquanto ele corria atrás de uma menininha, e então a levantou no ar, a fazendo rir alto. “Tá com ela agora” ele gritou e colocou-a no chão de volta.
- Se você não fosse tão grande, nunca conseguiria te distinguir entre as outras crianças – eu disse rindo enquanto ele voltava a se sentar encostado na árvore.
Em pouco tempo as crianças já estavam indo embora com seus respectivos pais, enquanto o dia ia se tornando noite.
- Vocês formam um casal lindo – a garotinha que havia erguido no ar parou de mãos dadas com a mãe ao seu lado. Ela era loirinha, com cabelos compridinhos e uma franjinha. Eu tive vontade de apertar as bochechas dela e a encher de carinho.
- Pode falar, minha namorada é perfeita – eu olhei para trás e estava com um sorriso convencido no rosto. – Só não sei se é mais bonita que você.
A menina deu uma risadinha e ficou vermelhinha, o que só me deu mais vontade ainda de brincar com ela.
- Pá você – ela disse e me entregou uma flor amarelinha. – Presente de casamento.
- Obrigada fofinha – eu agradeci pegando a flor e a cheirando.
A menina e a mãe se afastaram.
- Não sabia que eu era sua namorada – eu disse observando a flor em minhas mãos.
- Quer dizer que você está precisando aprender mais – ele disse e eu boiei por um instante. – Eu só traria uma pessoa muito especial até aqui. Você pode não ser minha namorada, ainda, mas temos algo mais especial que isso.
Então tá né.
- Agora vamos embora, já está ficando tarde, e já devem estar dando por nossa falta na escola – ele disse depois de alguns momentos de silêncio.

Capítulo 7
Daydream

- ! – eu ouvi alguém me chamar quando estava saindo da escola, após passar no meu armário e pegar meu fichário. Eu olhei para o lado e corria em minha direção.
- O que foi criatura? – eu perguntei preocupada com a ansiedade dele.
- O que foi? Você simplesmente desapareceu sua louca! – ele disse bravo. – Em um horário você estava lá e no outro não! Te procurei na enfermaria, te procurei em todos os lugares em ninguém sabia de você!
- Calma aí, nem minha mãe se preocupa tanto comigo. – eu reclamei franzindo a testa. – Sabia que eu tenho celular querido?
- Sabia, mas você pareceu esquecer, porque não atendia! – eu pensei por um instante nisso. Verdade, no caminho até o estacionamento havíamos largado nossas coisas nos armários, eu nem me toquei de pegar o celular. Era incrível, se quer que eu lembrava de respirar com perto de mim.
estalou os dedos em frente ao meu rosto me tirando de minhas lembranças felizes.
- Em que mundo você vive garota? – ele me perguntou.
Eu ri “Foi a mesma coisa que perguntei a hoje”. É, espera um pouco. tá apaixonadinha! É isso!
- Daqui a pouco eu passo no seu quarto! – eu disse e sai correndo para meu dormitório.
- Guerra, você está apaixonada! – eu disparei assim que entrei no quarto.
Ela enxugava os cabelos com uma toalha branca e arregalou os olhos para mim. Eu fechei a porta.
- Onde você estava mocinha? – ela perguntou.
- Não adianta tentar mudar de assunto – eu a cortei. – Agora me conta, por quem você tá apaixonada? - Saí dessa – ela disse rolando os olhos e ligando a TV.
Eu tirei a TV da tomada a fazendo reclamar.
- Pode desembuchar! – eu intimei balançando a tomada na minha mão.
- Você não me conta absolutamente nada de interessante que acontece com você, por que eu teria de ser diferente? – ela perguntou brava.
É, isso era verdade. Não é que eu não confiasse nela. Analisando bem, ela e a eram as únicas garotas em quem eu confiava nesse continente.
- – ela disse baixinho. Eu a olhei de olhos arregalados, enquanto ela encarava o chão, parecendo totalmente desarmada.
Eu considerei várias coisas para dizer, mas ver ela assim era de cortar o coração. Peguei um pente e sentei ao seu lado na cama.
- Sabe, na verdade nem importa – ela disse enquanto eu passava o pente por seus cabelos. – Ele nem olha pra mim – ela deu de ombros, parecendo angustiada.
- Eu conheço alguém que poderia persuadi-lo – eu disse e ela se virou para me encarar. – Ele não te vê porque você não o fez vê-la.
- Eu não quero ficar com ele, ser só mais uma, entende?
- Não estou dizendo que esse alguém vá fazer a cabeça dele, só estou dizendo que possa dar um toque nele – eu disse a ela, passando o pente por sua franja. – Você é linda, isso é um fato. Fora que você é carinhosa, confiável, sabe conversar e é super inteligente. Qualquer homem ficaria caidinho por você se pudesse te conhecer melhor.
- Nossa, quer ser minha empresária? – ela brincou sorrindo. – Mas entre eu e a Brooklie, duvido que ele iria preferir a mim. Quero dizer, olha só pra ela!
É nessas horas que eu tenho vontade de socar minhas melhores amigas.
- A Brooklie pode ser o que for, mas ela cansa – eu disse a encarando. – O sabe que ela não presta. Ela é ex-namorada do melhor amigo dele, e tem uma voz enjoada. Até o sabe que o só está com ela pra passar o tempo e...
- Quando foi que o apareceu na conversa? – ela perguntou me olhando, e eu percebi que havia falado demais, sentindo meu rosto esquentar. – Sabe, parando pra pensar agora, eu também não vi o hoje desde o último horário.
Ela estava de sobrancelhas erguidas para mim, com aquela expressão de “estou esperando você contar o que eu já sei”. Eu congelei por um instante, tentando buscar uma saída.
- Nossa, olha a hora! – eu exclamei me levantando de um pulo e pegando meu fichário. – Fiquei de passar no quarto do – e saí do quarto correndo.
Eu já estava na metade da escada do prédio dos garotos quando encontrei com .
- Achei que tivesse deixado claro que não queria a senhorita por aqui muito menos sozinha – ela sussurrou. Dois garotos passaram por nós e ele esperou que se afastassem para continuar. – Então, o que você está fazendo aqui? – ele exigiu cruzando os braços.
Eu o observei, e percebi o quanto ele parecia extremamente sexy daquele jeito.
- Vim pegar a matéria de física com o – eu disse mostrando o fichário a ele.
- Vocês não podiam fazer isso na biblioteca? – ele perguntou franzindo o cenho.
- Ele também queria falar comigo – eu expliquei. – Ficou preocupado porque eu desapareci.
- Vocês não podiam fazer isso na biblioteca? – ele repetiu a pergunta.
- No quarto dele temos mais liberdade e podemos conversar.
- Por isso mesmo – ele disse e eu o observei por um instante.
- Há, tá com ciúme do ! – eu brinquei e ele pareceu desconcertado.
- E daí que eu não goste da idéia de você trancada em um quarto com ele? – ele disse olhando para um ponto qualquer. – Você também não gostaria se fosse a Brooklie, não é?
Eu fechei a cara para ele. Isso já era trapaça.
- É diferente, é meu amigo – eu disse emburrada. – E provavelmente o vai estar lá. Agora eu tenho que ir.
Eu olhei em volta e a escadaria estava vazia, apenas com barulhos e vozes ao longe. Dei um selinho nele e passei, continuando a subir as escadas.
Eu bati na porta e antes que a abrisse, olhei para o corredor, e vi que estava no topo das escadas. Esperando que eu entrasse, claro. Mandei um beijo no ar pra ele e abriu a porta e me abraçou.
- O não tá aqui? – eu perguntei adentrando o quarto.
- Deve tá jantando no refeitório – ele disse dando de ombros.
- Me passa a matéria de física? – eu pedi abrindo meu fichário e colocando-o em cima da escrivaninha.
- Sabia que você ia pedir - ele pegou seu caderno dentro da mochila e me entregou. – E então, vai me contar sobre o fato de seus pulsos estarem machucados?
- Foi aquele garoto que me atacou – eu disse copiando a matéria de seu caderno.
- Por que você não deu queixa dele?
- Porque eu poderia ser expulsa na primeira semana só por estar no prédio masculino.
- Mas se você não deu queixa, por que ele foi expulso? – perguntou e eu me virei para encará-lo.
- Expulso? – eu perguntei sem entender.
- É o que parece, porque ele não está mais na escola, já tem até um garoto novo no lugar dele.
- Ainda bem que se livraram dele – eu disse voltando a escrever.
disse que daria um jeito, então ele devia ter armado para expulsar o cara. Espero.
- É – concordou . Ficamos algum tempo em silêncio, até ele perguntar: - Agora me fala, onde você esteve?
- Três aulas de física em um dia é estressante demais pra mim – eu disse soltando um suspiro. – Fui dar uma volta.
Eu sorri com a minha explicação. Eu realmente tinha ido dar uma volta, só não preciso ficar dando detalhes do que faço ou deixo de fazer. Ele pareceu respeitar meu estresse com aulas de física, porque começamos a conversar sobre livros.

Cheguei no meu quarto e fui logo ligando o computador. Se aqui eram quase dez horas, no Brasil deveriam ser umas sete. Mal conectei e elas já vieram me atormentar. Tá, eu adoro elas me atormentando, segredo.

Mari: Hey amiga, vai ter uma festa aqui nesse fim de semana, vai bombar! Queria que você pudesse vir L
Liz: Eu já até despistei meu peguete, só pra poder curtir \o/
: L Saudade de festaaa!!! Liz, sua biscate.
Liz: =O
: Zuera amiga J Queria ir!
Mari: Você ainda não disse como se chama o garoto! Desembucha mulher!
: .
Liz: *----* Que nome fofo.
: Tira o olho! É MEEEU!!!
Mari: Mals ae então
Liz: Ok, só disse que o nome é fofo cara, que maldade comigo!
: Eu sei amor.
Mari: Ciúmes=ela tá mais apaixonada do que eu pensava.
Liz: E aí, o que você fez hoje?
Mari: Por aí não tem umas festas, não amiga?
: Hoje... Fui para um parque com ele. Fomos de moto, e passamos a tarde lá, matei a aula de física J. Festas por aqui? Nem tinha pensado nisso.
Liz: *-----* Quer dizer que vocês têm um romance! Aí que tudo!!
Mari: Não tinha pensado nisso? O.o Garota, acorda, VOCÊ TÁ EM LONDRES SUA ANTA! E você nem tá aproveitando! Ah, se eu tivesse aí...!
: Verdade né! Pode deixar amigas, vou aproveitar esse fim de semana e vou pra alguma festa. Vamos nos divertir ao mesmo tempo J
Mari: Se o fuso horário nos permitir.
Liz: Não estraga o momento Mari!
Mari: Tá, calei.
: Gente, melhor eu ir... Tô cansada e tenho que acordar cedo. E só pra eu saber, se aí era de manhã quando aqui era hora do almoço, como vocês estavam on?
Liz: Matamos aula =D
Mari: Uns garotos muito lindinhos nos chamaram e nós ficamos até tarde na rua, aí estávamos cansadas demais pra aula. Depois que você desconectou a Liz veio aqui em casa.
: Marginais! Bom, beijos & boa noite.
Liz: =*
Mari: Até amanhã.

Eu fechei o laptop e me troquei, me atirando na cama em seguida. Quando a porta do dormitório abriu e entrou, eu fingi já estar dormindo, pra não ter que tocar no assunto “” de novo. Ela deitou e se cobriu, e quando eu pensei que ela já tivesse pegado no sono, ouvi sua voz invadir o silêncio e a escuridão “Você e o estão ficando?”. Eu continuei em silêncio, na esperança de convencê-la do meu sono profundo.
- Eu sei que você tá acordada – ela disse e me jogou um travesseiro na cara.
- Aí! – eu reclamei tacando o travesseiro de volta. – E se eu estivesse dormindo, você teria me acordado!
- E então, me fala sobre vocês dois – ela pediu e eu pude ver sua silhueta sentando na cama, e eu desisti e fiz o mesmo.
- Eu não sei explicar – eu comecei a contar. – Quer dizer, ele é super fofo quando está sozinho comigo... Mas ele não quer que eu conte sobre nós para ninguém. Quando você me falou da Brooklie, eu pensei que era por que ele ainda gostasse dela. Mas não é isso, e eu não consigo entender o porquê.
Ela ficou um momento em silêncio “Eu vou te ajudar a descobrir, pode deixar”.
Eu sorri porque sabia que ela também sorria “E eu vou te ajudar com o ”. Um silêncio esperançoso se instalou entre nós, e eu sentia a ansiedade crescendo dentro de mim “Que acha de irmos a alguma festa esse fim de semana?”.
- Bem que eu queria poder – ela suspirou. – Mas minha mãe é meio... controladora.
Eu fiz uma careta “E se você fingir que você vai dormir na casa de alguém?”.
- Você não entendeu – ela respondeu e eu senti a tristeza em sua voz. – Quando eu digo controladora, eu quero dizer realmente controladora. Eu tive que falsificar minha autorização pra poder sair quando eu quisesse, porque, se fosse por ela, eu sairia um dia por semana.
Isso sempre me assustava, o quanto as mães podem tentar prender seus filhos.

Acordei no dia seguinte com o som do meu despertador. já estava se vestindo, e depois de lutar contra meu sono, foi o que fiz também. Eu ainda era obrigada a usar as munhequeiras, apesar de a mancha estar quase inteira amarela nos meus pulsos. Mas tudo bem, apesar de parecer ridículo, eu podia jurar que o perfume do estava ali.
Eu fechei o armário com logo atrás de mim, o corredor lotado de alunos, mas eu só consegui ver uma pessoa passando. vinha com o uniforme masculino – calça preta, camisa social, gravata quadriculada como minha saia, o suéter cinza e o casaco com o emblema da escola – caminhando sonolento. Eu não saberia como explicar, mas aquele uniforme ficava diferente nele, de um jeito totalmente sexy. Ele me fitou por um instante e sorriu de lado, me fazendo corar e olhar pra baixo sorrindo.
- Se isso é um segredo, porque você baba nele tão descaradamente? – perguntou enquanto caminhávamos pelo corredor. Eu já tinha perdido de vista, mas ainda o via em minha mente.
- Como assim? – eu perguntei distraída, até começar a raciocinar de novo. – Hey, eu não faço isso!
- Só estou te avisando que sim, você faz – ela se virou de repente e entrou na sala pela qual passávamos. Eu me encaminhei até o laboratório de química, no terceiro andar, onde já me esperava.
- Fala aí, Five Colours! – ele me cumprimentou animado como sempre.
Eu sentei na cadeira a seu e esquadrinhei a sala com o olhar até achar , com o queixo apoiado na mão, quase dormindo.
- E aí – eu respondi me voltando para frente.
- Bom dia classe – o professor cumprimentou a todos. – Hoje nós vamos dissecar animaizinhos como sapos. Geralmente eu deixo isso para o final, mas esse ano...
- Prefiro dissecar um ser humano – eu reclamei baixo.
- Vamos dissecar a mãe dele pra ver se ele gosta – disse com raiva, me fazendo rir.
- Mas se vocês tiverem outra sugestão – disse o professor parecendo nervoso com a reclamação da classe. – É só falar.
- Nós podíamos ir até algum parque e estudar as plantas – eu sugeri alto fazendo todos me olharem.
- Muito esperto da sua parte, mas... – o professor disse.
- Ela está certa – defendeu uma garota na primeira carteira. – Nós estamos estudando sobre as plantas em química teórica, seria bom se pudéssemos fazer isso.
O professor pareceu considerar por um instante.
- Está certo então – disse ele finalmente. – Eu vou conversar com o outro professor e semana que vem nós vemos isso. Podemos ir estudando o que temos por aqui por hoje então.
Ele foi até o armário e nos entregou folhas secas e depois foi buscar folhas novas, nos mandando verificar uma série de coisas através do microscópio. pareceu tão feliz com isso que se esforçou em me ajudar, se mostrando inteligente o suficiente para tirarmos uma alta nota.

Esperei até que as duas estivessem juntas na aula de educação física para falar sobre o fim de semana. Elas haviam conseguido remanejar todas as líderes de torcida para terem aula de educação física no mesmo horário, para podermos realmente treinar nesse horário, então o vestiário estava cheio de garotas que pareceram adorar a idéia de festa no fim de semana tanto quanto elas.
- Mas para onde nós vamos? – perguntou .
- Aí garotas – uma garota morena de cabelos até os ombros nos chamou. – Meu tio é dono de uma boate, ou seja lá o que for aquilo. Podemos ir para lá, não vamos precisar falsificar documento nem nada. Posso descolar entrada vip pra gente.
- Mas seus pais não ligam? – eu perguntei um tanto preocupada.
- Não se eu for lá, porque eles pensam que meu tio me vigia – ela disse sorrindo.
- Ótimo, nós vamos – disse Brooklie levantando um pom-pom com a mão.
- Yeah – eu e concordamos e levantamos os pom-pons juntas.
- Quem mais vai com a gente? – perguntou Brooklie. Três garotas levantaram os pom-pons. – Então tá, coloca a gente na lista e passa o endereço – ela disse a garota com um sorriso convencido. – , você vai dormir lá em casa? – fez que sim com a cabeça. – Five Colours, quer dormir lá também?
- Quero – eu respondi sorrindo. Aquilo prometia ser divertido.
me explicou que era quase uma tradição inglesa de que os filhos pudessem ter contato com o álcool desde cedo, bebendo o quanto quisessem, contanto que não envergonhassem a família ou vomitassem na frente de alguém, acreditando-se que assim não teriam porque beber escondido ou ser alcoólatras no futuro. Isso quer dizer que tínhamos sinal verde para o fim de semana.
Eu não me demorei a mandar uma mensagem para minha mãe avisando e a ligar para os pais de Lauren. Falando em Lauren, eu quase não a vi durante a semana.

Na sexta o tempo passou voando. Eu mal vi o , porque passei a maior parte do tempo livre na biblioteca, tentando adiantar todas as minhas lições e trabalhos. Eu estava voltando para a biblioteca, com apenas a conclusão de um dos meus trabalhos faltando, quando meu celular começou a tocar, o identificar de chamadas me avisando que era .
- Oi – eu disse parando no corredor.
- Horário livre agora, certo? – ele perguntou do outro lado da linha com aquela voz grossa, aveludada me fazendo sorrir.
- Certo – eu confirmei.
- Vamos fazer alguma coisa – ele pediu.
- Ok – eu concordei alegre. – Aonde te encontro?
- Passa no meu quarto, tô perto dele já.
- Ok – eu repeti e ele desligou o celular.
Eu deixei minhas coisas no armário e fui para o quarto dele. Por incrível que pareça, eu não sentia medo de ir para lá. Acho que os únicos caras de que eu não tinha medo de estar em um quarto trancada com eles era ele, , e talvez . Talvez eu estivesse começando a superar certas coisas, isso é bom.
me esperava na porta, tomando conta do corredor. Ele me deu espaço e eu entrei, com ele fechando a porta atrás de mim. Ele se jogou na cama próxima a janela cruzando os braços atrás da cabeça.
- E então, o que você sugere? – ele perguntou me olhando. – Quer ir a algum lugar perto?
Eu não tinha mais raciocínio lógico. Seu perfume estava impregnado no quarto, atacando meus pulmões como um veneno. Eu olhei para ele, simplesmente despreocupado ali na cama, sem gravata, apenas com a camisa social com os primeiros botões abertos, colada ao corpo por causa dos braços esticados para trás da cabeça, com a parte da cueca aparecendo. Por que ele precisava me provocar desse jeito?
- Precisamos mesmo sair daqui? – eu perguntei sem me dar muita conta do que estava fazendo.
Não existia mais nada no mundo, nada que importasse. Eu deitei de bruços ao seu lado e me apoiei em seu peito para poder alcançar sua boca.
- Não – ele disse levantando o rosto e me beijando.
Ele abaixou os braços para minha cintura, e o beijo foi se tornando mais intenso. Eu sentia meu coração acelerado tentando rasgar minha pele e sair. Respirar não era mais importante do que beijá-lo, com certeza não. Ele se apoiou nos cotovelos nos levantando calmamente, e quando me dei conta ele estava com o corpo por cima do meu. Suas mãos passeavam por minha cintura e subia pelas laterais. Eu comecei a desabotoar sua camisa sem parar de beijá-lo.
- – ele disse se contendo e afastando minhas mãos de sua camisa. – Se você for começar a ter falta de ar outra vez, é melhor não exagerar.
- Desculpa – eu disse tentando voltar a beijá-lo.
- Você bem que podia me contar o por que disso – ele disse me impedindo de beijá-lo. Não me tortura !
- Não gosto de falar sobre isso – eu disse tentando encerrar o assunto. – Só tenha um pouco de paciência comigo.
- É que não é tão fácil quanto parece simplesmente me segurar, entende – seus olhos azuis observavam minhas reações, então eu tentei conter uma careta. – Quero que você esqueça tudo de ruim que já te aconteceu, mas não comece o que não pode terminar.
Nossa , assim você estraga sabia. Ele percebeu minha cara emburrada.
- Minha pequena – ele disse carinhosamente passando acariciando meus cabelos. Ele me deu um selinho, mas eu o impedi que se afastasse, segurando em sua nuca.
O beijo voltou a ficar intenso rapidamente, quase com desespero. Envolvi uma de minhas pernas em torno de sua cintura, e ele deslizou a mão por ela. Eu voltei minha atenção novamente para os botões da camisa dele, conseguindo abrir todos e jogar a camisa dele longe. Deslizei minha mão por toda a extensão agora descoberta. Como ele conseguia ser tão gostoso, meu Deus? Mordi seu lábio inferior, voltando a beijá-lo em seguida. Ele começou a abrir os botões da minha camisa e, de repente, ele não estava mais lá. A falta de seu corpo quente sobre o meu me fez sentir um pouco de frio e um certo vazio. Olhei para o lado e estava na porta.
- Sabe dude, você podia bater – reclamou enfezado colocando a camisa de volta.
- Foi mal – ele passou a mão pelo cabelo, constrangido. – Quer que eu volte depois?
me olhou questionando.
- Não, tudo bem – eu disse fechando minha blusa, com o rosto queimando e totalmente envergonhada. – Eu tenho que arrumar minha mochila mesmo. Tchau .
Dei um selinho nele, mas ele me segurou, pedindo passagem com a língua, concedida rapidamente. Eu estava lá feliz beijando quando ouvi uma tosse forçada atrás de mim, me lembrando que ainda estava ali. Se eu já não tivesse dito pra ele ficar, eu o expulsaria do próprio quarto. Finalizei o beijo com um selinho e me afastei rápido, saindo do quarto totalmente desconcertada.
- O que você tava fazendo aí? – encontrei assim que saia do prédio masculino.
- Ahn... – tentei pensar em uma boa desculpa. – Vim te procurar antes de ir, só pra dizer tchau, sabe?
Ele sorriu. Deve ter pensado que minha embolação era timidez. Tadinho, era tão inocente. E isso era fofo nele.
- Tchau arco-íris do meu céu – ele disse me abraçando e me rodando no ar.
Era nessas horas que eu ficava feliz de ter um short por baixo da saia, ou todo mundo teria conhecido minha calcinha naquele momento.
- Tchau bebê – eu fiz uma voz infantil e dei um beijo em sua bochecha assim que ele me colocou no chão.

Capítulo 8
Party up!

- Pronta? – eu perguntei parando a porta do quarto de Lauren com a mochila nas costas.
- Acho que sim – ela pegou uma mochila e colocou nas costas também.
Despediu de sua companheira de quarto e fomos para o estacionamento esperar os pais dela. Eu estava de calça jeans, das quais eu já estava sentindo falta nos últimos dias, então pude sentar no chão e cruzar as pernas.
Um conversível vermelho parou e Brooklie passou em minha frente, indo em direção a ele com em sua cola.
- Por incrível que pareça, aquele é o pai dela – disse Lauren que estava sentada ao meu lado com cara de tédio.
Eu olhei para o motorista. Ele era consideravelmente jovem e bonito. Parecia mais o irmão dela e não o pai.
- Toma cuidado quando estiver na casa dela. – ela avisou. – O pai dela não é o cara mais confiável do mundo.
- Tal pai, tal filha, entendi. – eu disse tentando não apresentar a surpresa em minha voz.

O resto daquele dia foi tranqüilo. Saímos para comer pizza em “família”, eu terminei meu dever com a ajuda de Lauren, tive tempo de continuar lendo “A mediadora” e fiquei até tarde na internet falando com Mari e Liz.
No sábado eu fui para a casa de Brooklie depois das cinco horas, e Rachel, a mãe de Lauren, fez questão de me levar até lá. Apesar de eu estar omitindo sobre a festa ela bem que podia confiar mais em mim, né! Mas tudo bem, antes de carro que de busão.
A casa era branca e enorme. Também, depois daquele carro lindo e reluzente que na escola o que eu podia esperar?
Rachel tocou a buzina e Brooklie apareceu seguida pelo pai na porta principal. Eu me despedi dela agradecendo a carona e fui ao encontro deles. Assim que o pai de Brooklie acenou ela deu partida no carro e foi embora.
- Prazer em conhecê-lo, senhor Patterson – eu o cumprimentei com a mão estendida.
- O prazer é todo meu – ele disse pegando minha mão e a beijando. – Mas pode me chamar de John.
- John – eu repeti com um sorriso simpático e a voz que eu sempre fazia quando falava com os pais de alguma amiga.
- Vamos – Brooklie me puxou pela mão e me levou para dentro da casa.
- Oh! Você deve ser a nova amiga da Broo! – uma mulher jovem, loira e bonita apareceu quando passamos pela sala. É, antes amiga do que inimiga pra ela. – Prazer, eu sou Claire.
- Muito prazer – eu dei um sorriso e acenei, ainda com minha voz de santinha.
- Mãe, leva alguma coisa pra gente comer lá em cima? – Brooklie pediu a Claire. Cara, os pais dela eram realmente jovens, medo.
Brooklie me puxou pela mão escada a cima. Passamos por um corredor e no meio dele entramos em um quarto grande e luxuoso como o resto da casa. estava lá dentro com um laptop no colo.
- Oi! – ela sorriu simpática e eu fiz o mesmo.
Brooklie nos deixou lá e foi para algum outro lugar da casa.
- Como os pais dela são tão jovens? – eu sussurrei sentando ao lado de na cama.
- Na verdade eles são mais velhos do que parecem – ela sussurrou em resposta sem tirar os olhos da tela do laptop. – Mas sabe como é, plásticas e cosméticos fazem milagres hoje em dia.
Eu ri e ouvi passos no corredor. Brooklie apareceu em seguida na porta do quarto.
- E então, você podia nos contar mais sobre esse namoro com o – pediu Brooklie se largando no puffe do mesmo tom rosa que a colcha de sua cama. - Eu ainda não acredito que você esteja com aquele loser.
- Eu não entendo essa implicância de vocês com ele – eu disse levantando as sobrancelhas.
- Ah, ele é bonito vai Brooklie – defendeu , mas eu via que ela tinha reunido coragem para isso.
- Mas continua sendo um loser – ela deu de ombros.
- Se você me dissesse que aquele garoto lá da escola cheio de espinhas na cara e que fala que nem um retardado é um loser, eu entenderia – eu disse séria. – Mas eu simplesmente não entendo por que vocês implicam com .
- Pensando bem, eu também não – disse deixando o computador de lado e encarando Brooklie.
- Ah, qual é garotas – ela disse depois de um instante. – Ele nem tem dinheiro direito, está naquela escola com uma meia-bolsa de estudos.
- E eu estou com uma bolsa de setenta por cento de desconto – eu disse a encarando duramente. – E como você deve imaginar, o dinheiro que minha mãe me manda acaba virando metade do valor com a troca de moeda.
- Então foi por isso que você fez tanta questão de eu não me aproximar dele? – perguntou indignada. – Quero dizer, o não tinha tanta grana antes do pai dele morrer, e vocês namoravam.
Brooklie ficou calada.
- pediu pra ficar com você? – eu perguntei interessada.
- Ah, é... – ela parecia constrangida.
- Relaxa, ele é só meu amigo – eu a encorajei.
- Bem... pediu – ela disse ainda apreensiva. - Umas três vezes eu acho.
Claire entrou no quarto trazendo uma bandeja com lanches, o que cortou nosso assunto.
- Vai querer que John leve vocês para a festa ou alguém vem buscá-las? – perguntou ela simpática, e eu notei que ela tinha o mesmo tom de verde que Brooklie nos olhos.
- Papai – disse Brooklie simplesmente.
A mãe saiu do quarto e um silêncio inquietante tomou conta da atmosfera.

- Esse lugar parece legal – eu disse alto tentando sobrepor a música alta quando entramos na espaçosa danceteria.
- Já estive em melhores – disse Brooklie seguindo na frente.
A batida da música ficava cada vez mais alta conforme nos aproximávamos da pista. As quatro garotas do vestiário, incluindo a sobrinha do dono do lugar vieram ao nosso encontro.
- E aí garotas, se divertindo? – a sobrinha do dono perguntou entusiasmada.
- Ah, acabamos de chegar Anne – disse alto.
- Então o que estão esperando? Vamos comigo ali na bancada pra eu apresentar vocês ao Ricky pra ele liberar bebidas pra vocês – Anne tomou a frente e fomos até lá.
Uma das outras três garotas que estavam conosco, a mais baixinha, começou a dar em cima dele, deixando-o todo atrapalhado. Ele devia ter uns dezenove ou vinte anos no máximo, mas com certeza não fazia meu tipo.
Bebidas na mão, fomos para a pista. Definitivamente o som estava ensurdecedor, com sua batida ressoando dentro de meu peito. Metade da bebida em minha mão já dentro de mim e eu estava menos tímida e dançando tão ousada quanto às meninas que estavam junto.
Fui mais uma vez até o bar com a menina que estava louca para voltar lá e quando voltamos só havia sobrado uma garota do vestiário e do nosso grupo.
- Cadê as outras? – eu perguntei me aproximando para que ela pudesse me ouvir e entregando uma das bebidas a ela.
Ela deu de ombros e apontou para trás de mim. Eu olhei e lá estava Brooklie se acabando com um garoto. Eu ri e dei de ombros também, entendendo o que as outras também deveriam estar fazendo.
Cinco minutos depois Brooklie estava limpando a boca com as costas da mão e dançando junto com a gente de novo.
- Oi gatinhas – um garoto loiro de olhos castanhos, com um rosto lindo e um corpo sedutor se aproximou de nós.
Brooklie deu um largo sorriso para ele e o olhou nem um pouco discreta.
- Eu já não te vi antes? – ele perguntou se aproximando de mim para que eu escutasse.
- Não que eu lembre – respondi tentando não manter mais proximidade do que a necessária.
- Ah, lembrei – ele disse e então seu tom se tornou diferente: - Nos meus sonhos.
Eu ri alto e balancei a cabeça em negação, ele não pode ter me dado essa cantada, Oh God!
- Se você quiser realizar meu sonho – ele se aproximou ousadamente de mim -, eu prometo realizar todos os seus desejos, boneca.
Aquela última palavra despertou lembranças desesperadoras em mim, e de repente a mão dele em minha cintura parecia me queimar como se fosse o fogo do inferno.
- Se você não cair fora agora mesmo eu juro que me torno seu pior pesadelo – eu disse nervosa empurrando a mão dele para longe de mim.
Ele se aproximou na tentativa de um beijo e eu escorreguei para o outro lado do círculo, ao lado de . Ele pareceu se dar por vencido e se afastou, sumindo entre as pessoas.
- Por que você deu um fora em um cara tão gostoso? – perguntou indignada.
Brooklie parecia impassível sem motivo aparente.
- Não me agrada o bastante – eu disse dando de ombros e tomando um longo gole daquela bebida rosa. – Cadê a Brooklie? – eu perguntei percebendo que ela não estava mais ali.
- Foi tentar seduzir o cara em quem você deu fora – divertiu-se . Eu a olhei sem entender. – Despeito. Ela odeia não ser a que mais chama a atenção. Mas relaxa, eu sempre passo por isso.
- Não te incomoda?
Ela deu de ombros. Eu pensei por um instante se aquilo me incomodava, e cheguei a conclusão que não até certo ponto. Quero dizer, isso era ridículo.
Duas garotas voltaram para junto de nós, e agora éramos em cinco.
Todas, incluindo e a garota baixinha que já havia conseguido dar uns beijos rápidos no cara que servia as bebidas, iam e voltavam com algum garoto, mas eu só saia dali para me embebedar mais. Os garotos se aproximavam e eu simplesmente os afastava, sem motivo aparente.
Lá pelas três da manhã, ou seja lá que horas fossem, a bebida estava me deixando tonta, e eu fui em direção ao banheiro para jogar um pouco de água no rosto, mas alguém me barrou no caminho. Eu não podia reclamar, afinal esse alguém era alto, bonito e tinha uma ótima voz.
- Como uma garota tão linda pode estar tão sozinha? – ele perguntou e eu me encostei na parede atrás de mim, sentindo que minhas pernas não estavam colaborando muito com minha tentativa de andar.
Olhei para o lado e a porta do banheiro estava próxima, mas a preguiça de ir até lá me dominava. E afinal, uma conversa com um garoto desses não me faria mal.
- Eu não sei – eu disse me sentindo muito confusa para conseguir formular uma resposta melhor.
Ele chegou mais perto, esticando os braços e apoiando as mãos na parede dos meus lados. Ele não disse mais nada, apenas se aproximou e me beijou. Para minha surpresa, eu estava correspondendo aos seus beijos com a mesma intensidade que ele me beijava, deixando seu corpo me prensar cada vez mais contra a parede. O calor que eu já sentia antes pareceu aumentar, e eu deixava minhas mãos passearem por debaixo de sua camisa.
- ? – uma voz feminina enjoada chamou meu nome, e eu tentei empurrar o garoto até que ele parece de me beijar.
Eu olhei e lá estava aquela garota ruiva, Brooklie. Eu senti meu estomago revirar fortemente e levei as mãos a boca. Saí correndo do jeito que pude e entrei no banheiro mais próximo. Um cheiro fétido entrou em minhas narinas, me fazendo vomitar no primeiro vaso sanitário que achei em minha frente.
- sua louca! – se esganiçou atrás de mim.
Ela me puxou pelos braços e me tirou dali, e quando me dei conta estávamos em um banheiro quase idêntico, mas sem aquele cheiro tão forte. Mesmo assim, provavelmente pelos movimentos bruscos, eu senti meu estomago revirar perigosamente, e entrei na primeira cabine que vi, me ajoelhando em frente ao vaso e vomitando novamente. Aquela queimação na minha garganta era horrível, e toda aquela tontura me fazia quase cair. Eu me larguei encostada na parede da cabine. Eu senti mãos puxando meu cabelo para trás e o prendendo de algum modo. Me virei e vi ali.
- Pega água pra ela – eu a ouvi pedir para alguém. – Você tá legal? – ela perguntou se virando para mim.
Eu balancei a cabeça afirmativamente, sem me tocar realmente do que estava fazendo. Ela me ajudou a levantar e me levou até a pia pra que eu lavasse meu rosto. Alguns minutos e uma menina que eu sabia que conhecia voltou com uma garrafinha de água, da qual eu bebi até onde pude.
- Vocês não precisam ir embora – a menina disse. – Podemos deixá-la em uma sala que tem lá em cima, onde ela pode descansar um pouco.
- Na verdade papai já está vindo nos buscar – eu ouvi Brooklie dizer. Olhei em volta e ela estava parada próxima a porta.
- É, já está na nossa hora – disse . – Você acha que pode caminhar até lá? – ela perguntou se voltando para mim preocupada.
Eu afirmei com a cabeça.
- Então vamos, papai odeia esperar.

Capítulo 9
Your love is a lie

- Como foi o fim de semana? – perguntou abertamente para mim, Brooklie e .
Eu dei de ombros. Não lembrava muita coisa mesmo. A não ser que a minha terrível dor de cabeça só durou duas horas no domingo, e que os pais de Brooklie pareceram nem ligar para o fato de que eu tivesse bebido tanto naquela festa. Mas também não perguntei nada a elas, com medo de ter passado algum vexame.
- Divertido – respondeu feliz.
- Muito – concordou Brooklie.
- Eu não me lembro de muita coisa, na verdade – confessei vendo que me olhava curiosa.
- Qual é, você não lembra daquele gato? – perguntou Brooklie indignada.
Eu a olhei sem entender. Tudo o que eu lembrava eram em flashes depois de algum tempo em que aquele garoto loiro havia me cantado.
- Há! Eu achei que você não estivesse a fim de pegar ninguém, dava fora em todo mundo – contou . Eu olhei para minha frente, onde estava sentado, totalmente em silêncio.
– Mas parece que você descontou todos os pegas que você não deu nos outros naquele pedaço de mal-caminho – continuou Brooklie.
Eu abaixei meu olhar, envergonhada, começando a ter flashes sobre aquilo.
- A bebida não afetou seu bom gosto, pelo menos – disse com um sorriso.
- Mas afetou meu estômago com certeza – eu disse. - E acho que eu não tô muito a fim de lembrar – eu sussurrei no ouvido de , mas Brooklie continuou:
- , se você não estivesse tão mal, acho que vocês teriam se conhecido melhor ainda.
Ela riu de seu próprio comentário malicioso. Eu não sabia onde enfiar a cara.
- Você não ficou muito atrás, não é? – eu disse em tom de brincadeira, mas com alguma coisa ruim fervendo dentro de mim. Ela se fez de desentendida. – Ah, qual é Broo, vai me dizer que não lembra dos... quantos mesmo ?
- Parei de contar depois do décimo – ela respondeu baixinho.
- É, por aí – eu continuei e ela estava de olhos arregalados para mim. – Vai me dizer que esqueceu de todos eles?
Ela ficou sem graça e eu vi de canto de olho a expressão furiosa de , mas não me atrevia a olhar para .
Comi metade do meu almoço contra a vontade, mas sabia que iria morrer de fome depois se não comesse. Ainda sem olhar para fui para a mesa onde e os outros estavam.
- Oi! – um sorridente me cumprimentou.
- Oi! – eu cumprimentei de volta me sentando entre e .
Pelo menos meus amigos me mantinham calma, mas eu sentia a ansiedade e o medo crescendo em mim durante a aula de inglês, enquanto contava aos cochichos tudo para .
- Cobra! – sussurrou indignada. – Você acha que a Brooklie sabe sobre você e o...?
- Não – eu respondi. – Mas ela falava como se fosse uma santa, como se não tivesse se quer olhado para alguém. não pareceu nada feliz ao saber que o relacionamento estava tão aberto assim.
- Você acha que ele gosta dela? – perguntou insegura.
- Não – eu respondi com firmeza. – Ele gosta dela assim – eu fiz gestos desenhando as voltas do corpo de uma mulher no ar. Ela deu uma risadinha. – Mas você acha que o tá bravo comigo? – eu perguntei sentindo a angustia dentro de mim.
- Bom, se ele gosta realmente de você... sim – ela respondeu e eu senti a angustia aumentar. – Você devia conversar com ele, explicar. Você estava tão bêbada que mal lembrava antes da Brooklie mencionar.
- Na verdade eu ainda lembro pouco – eu sussurrei. – Mas eu sempre disse que bebida não justificava, entende?
- Bom, agora você viu que não é exatamente assim – ela disse e piscou para mim. – Você vai ver que...
- Será que eu posso ajudá-las? – perguntou o professor rispidamente, nos assustando e cortando a conversa.
Por sorte nós estávamos sentadas a uma boa distancia de hoje, ou então ele não teria nos escutado.

Eu entrei na sala de história olhando para o chão, depois procurando qualquer lugar longe de , mas o único lugar disponível era a cadeira ao lado dele. Isso só pode ser uma conspiração, não é possível. Eu não tive coragem de olhar diretamente para ele nem quando sentei ao seu lado, sentindo meu coração bombeando sangue duas vezes mais que o necessário e meu estomago revirando de nervosismo.
Ou minha lapiseira quebrava a ponta do grafite ou eu escrevia alguma coisa errada e tinha que corrigir, resultado: última da sala. Mas parecia que alguém lá em cima não se satisfazia apenas me deixando por última da sala, tinham que me deixar com .
- Sabe, achei que você fosse diferente – eu ouvi ele me dizer, assim que o professor nos deixou lá sozinhos.
Pelo canto do olho vi que ele já havia guardado o material dele. Então era isso, ele estava ali pra jogar na minha cara o quanto eu sou idiota e imprestável.
- , eu não lembrava nem meu nome de tão bêbada – eu disse passando corretivo sobre outra rasura na folha.
- Isso não é desculpa, – ele disse e eu o olhei surpresa pelo uso do meu sobrenome.
- Eu nunca bebi tanto na minha vida – eu disse desviando do olhar duro que ele me dava. – E eu sei que isso não é desculpa, mas eu juro que não sabia o que estava fazendo. Você nunca bebeu na vida? – Eu o olhei e ele ficou em silêncio. – Só... me desculpe – eu disse sinceramente.
Guardei meu material sentindo algumas lágrimas passeando por meu rosto.
- Sabe, nós não temos, assim, oficialmente, nada – ele disse quando eu me levantei. – Mas você podia respeitar assim mesmo, seria bom.
Eu me virei para ele que se assustou ao me ver chorando.
- Eu nunca deixaria outro homem encostar em mim se eu soubesse o que estava fazendo – eu disse sentindo uma dor rasgar meu peito.
- Já estava na hora mesmo de acabar com isso – ele disse dando de ombros. – Nós nunca poderíamos ficar juntos.
Aqueles olhos azuis só me transmitiam dor.
– Eu... Ah! Não interessa! – eu gritei e sai correndo dali.

Eu passei as horas seguintes daquele dia na minha cama fazendo o que podia pra me distrair, mas a tristeza era mais forte. Meu celular tocou enquanto eu via um programa entediante de auditório, e eu atendi sem ver quem era.
- Oi – eu disse engolindo a vontade de chorar.
- , o que você tem? – a voz preocupada de perguntou.
- Nada – eu respondi sem emoção.
- Aham – ele concordou ironicamente. – E eu sou Papai Noel.
- Então o senhor pode desembuchando por que eu não ganhei o presente que eu queria quando tinha sete anos, ainda estou brava.
Ele riu do outro lado da linha.
- Nossa, você é rancorosa, mocinha – ele disse me fazendo rir. – Mas então bebê, eu estou com preguiça de ir até a biblioteca sozinho, vai comigo? – ele pediu em uma voz meiga.
- O que você tem que fazer lá? – eu perguntei antes de aceitar. Passar horas dentro de uma biblioteca agora não era uma idéia atraente.
- Só entregar uns dois livros e pegar outro – ele disse e eu sabia que ele sorria.
- Tá, eu vou.
- Te encontro em cinco minutos aí na frente então – ele disse e desligou.
- Eu achei que você não tava bem – disse me abraçando assim que sai do prédio feminino. – Mas pela sua cara de enterro eu tenho certeza.
- Eu tô bem, – eu disse baixo forçando um sorriso.
- Aham – ele concordou ironicamente de novo. – Agora me conta: o que houve?
- Não quero falar sobre isso, por favor – eu supliquei a ele me mantendo abraçada.
Ele suspirou e me abraçou de lado, caminhando em direção a escola.
- Você sabe que eu estou aqui, não importa o que aconteça, não sabe? – ele perguntou e eu vi sinceridade naqueles olhos castanhos.
- Obrigada – eu disse carinhosa e dei um beijo em sua bochecha.
- Quer assistir algum filme? – ele perguntou com um sorriso maroto.
- Contanto que tenha muito sangue e nenhum romance, quero.
- Tá, eu vou ligar pro e pedir pra ele trazer o filme – ele pegou o celular do bolso enquanto subíamos a pequena escadaria para entrar na escola. – Hey dude, pega um filme pra gente antes de voltar – eu observava o corredor e em seguida a escada dentro da escola, praticamente deserta aquela hora. – Mas você ainda vai demorar? Não, então tudo bem. , a tá com ele, pode ser no seu quarto? O meu tá uma bagunça... ?
Mas eu não estava mais prestando atenção. Estávamos no terceiro andar, já próximos a porta da biblioteca, mas mais além eu conseguia ver uma porta encostada ao invés de fechada, onde vozes e risadinhas chamaram minha atenção. E era a sala de filosofia. Meu coração disparou e eu prendi a respiração, me aproximando silenciosamente daquela sala. Empurrei a porta lentamente, torcendo para que não fizesse barulho. Consegui abrir o bastante para reconhecer o dono de uma das vozes. Pelo feixe de luz que vinha do corredor eu conseguia reconhecer aquele cabelo, aquele corpo. Eu não consegui sair dali, parecia que o mundo estava explodindo e eu estava congelada no lugar, incapaz de fazer qualquer coisa para impedir. As lágrimas desciam e minha garganta queimava junto com todo o resto do meu corpo, enquanto eu observava e aquela garota praticamente se comendo ali.
Alguém me puxou pelo pulso para me tirar dali, e eu gritei de dor.
- Caramba , ainda tá doendo! – eu reclamei alto demais me virando para ele.
Percebendo meu erro, saí andando rápido dali, querendo correr, mas sem forças para isso. Eu ouvi o som de uma porta batendo logo atrás de mim, mas continuei andando rápido. Eu peguei as duas munhequeiras em meus pulsos e as arranquei, jogando-as no chão, com repulsa a elas e qualquer coisa que me ligasse a ele.
- Você machucou ela? – eu pude ouvir a voz daquele canalha, e sabia que estava falando com .
Eu me virei sentindo cada célula minha arder em ódio.
- NINGUÉM ME MACHUCA MAIS QUE VOCÊ, IDIOTA! – eu gritei me virando para eles, agora vendo o rosto da garota que estava com ele, apesar da minha vista embaçada.
Me virei para meu caminho novamente e corri. Me dei conta na escada de que haviam passos atrás de mim, mas eu não ligava. Nada mais importa, só quero sair daqui.
- ! – ele gritava, mas sua voz parecia me machucar mais ainda.
Eu corri pelo pátio o mais rápido que pude, sentindo minhas pernas fracas conforme o ar começava a me faltar. Eu adentrei o prédio feminino, mas antes que conseguisse alcançar as escadas, me segurou pelo braço. Eu tentei me soltar, mas ele me puxou para a sala de dança vazia.
- – ele me chamou novamente, preocupado.
- Sai de perto de mim! – eu exigi, mas ele não se moveu.
- Pára com isso – ele pediu, mas eu só conseguia sentir raiva dele.
- Eu te odeio, me solta! – eu exigi, com as lágrimas cada vez mais rápidas percorrendo meu rosto.
- Não sei do que você está reclamando, agora você sabe como eu me senti! – seu tom de voz mudou, de repente nervoso.
- O que? – eu perguntei incrédula. – Você, você tá descontando, se vingando, é isso? – ele ficou em silêncio, e eu observei sua cara fechada, sentindo nojo dele. – Você não presta mesmo. Você e a Brooklie se merecem.
Ele soltou meu braço e eu sai dali, indo o mais rápido que pude para meu quarto, sem olhar para trás, porque eu nunca mais queria ver ele em minha vida.

- ? – eu ouvi alguém me chamar no quarto.
Eu havia me trancado no banheiro, eliminando toda a porcentagem de água de qual meu corpo era feito pelos olhos.
- Vai embora! – eu gritei com a voz totalmente chorosa.
- – eu percebi que a voz pertencia a o . Ele forçou a maçaneta, mas a porta continuou fechada. – Abre a porta vai.
- Não – eu disse sentindo um vazio enorme em mim. – Vai embora.
- Eu não vou embora – ele disse firmemente. – Se você não quiser abrir, tudo bem, mas eu vou te esperar aqui fora.
Eu senti a porta em que estava encostada balançar, indicando que ele tinha sentado com as costas contra ela também.
Depois do que me pareceu um eternidade, eu consegui controlar meu choro, mas a dor dentro de mim só parecia crescer. E ficou no quarto conversando comigo, me distraindo e me fazendo carinho até que eu adormecesse.

Durante o resto da semana eu o ignorei. Na hora do almoço eu inventava o que podia para não sentar com e Brooklie, nas aulas que tinha com ele sentava longe, e quando não tinha jeito, me mantinha quase na ponta da cadeira pra ficar o mais longe dele possível, como se o ar que ele respirasse se tornasse infectado. Aquilo estava me corroendo por dentro, mas não havia o que fazer. Era simples, eu tinha que esquecer, acabou, pronto. Ele me odeia, eu o odeio, nós nos odiamos. Me lembrei daquele dia no parque, peguei meu livro “Crepúsculo” no criado-mudo ao lado da cama onde eu estava estirada agora e dentro do livro estavam as duas flores que ganhei naquele dia.
- Você parece uma morta viva – reclamou me assustando. Eu fechei o livro e o coloquei de volta no criado-mudo. – Por que vocês não tentam se acertar, amiga? Você só tá piorando. E ele também pelo que tenho visto.
Ela sentou na beira da minha cama e passou a mão por minha perna carinhosamente.
- Eu já disse que não quero saber dele – eu disse colocando o travesseiro sobre a cabeça.
Uma pontada de preocupação bateu em meu peito, me deixando inquieta.
- , vamos? – Lauren me chamou e eu tirei o travesseiro da cabeça, criando coragem para levantar.
Eu peguei silenciosamente minha mochila e sai dali, louca pra ter um pouco de sossego mental, sem ninguém me olhando com dó. levou um ponta pé por baixo da mesa quando perguntou o que eu tinha, mas eu fingi não ver. parecia o mais preocupado comigo, mas não se atrevia a tocar no assunto, apenas ficava perto de mim, fazendo tudo o que ele podia.
Eu estava na cola de Lauren, atravessando o estacionamento, quando vi aquela moto veloz cortou a nossa frente. Eu olhei rápido o suficiente para perceber quem estava na moto vermelha.
- Meu Deus, aquele maluco quase atropelou vocês duas! – disse Christine saindo do carro toda alvoroçada.
Sério titia, nem notei.
Entramos no carro sem responder. Lauren também não parecia estar com o humor muito bom. Christine entrou em seguida ligando o carro e saindo do colégio. Graças a Deus, longe dele finalmente.
Lauren que estava sentada no banco da frente ligou o rádio, como sempre fazia. Alguma música estava no finalzinho e logo começou a tocar outra, e ela aumentou o volume.

“Coming out of my cage
And I've been doin' just fine
Gotta gotta be down
Because I want it all
It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss
It was only a kiss”


Eu prestei atenção na letra e engoli em seco.
- Lauren, troca a rádio – eu pedi sentindo a tristeza me invadir de novo.
- Tá de sacanagem né? – ela perguntou se virando pra mim. – Eu amo essa música!
Ela começou a cantar junto. Mesmo sua voz desafinada não aliviava o impacto daquilo em mim.

“Now they're going to bed
And my stomach is sick
And it's all in my head
But she's touching his chest now
He takes off her dress now
Let me go

And I just can't look
It's killing me
And taking control…”


É, agora eu tenho certeza que ou alguém lá em cima me odeia ou que alguém lá embaixo invocou comigo. Sério, isso só pode ser perseguição. Por que não jogam logo um raio na minha cabeça e param de me atormentar de uma vez hein?
Ao longe, eu ouvi um barulho forte e olhei assustada para o céu cinzento e carregado.
- É, parece que a previsão para o fim de semana é de chuva – disse Christine distraído com o trânsito.
Tá, esqueçam a idéia do raio, eu já entendi.
Lauren pareceu cansar da rádio, conectando seu Ipod ao som do carro.
- Pode ser Simple Plan? – ela perguntou enquanto escolhia a música.
- Pode – eu concordei e me arrependi em seguida quando começou a tocar “Welcome to my life”. – Passa – eu pedi tentando parecer indiferente. – Melhor, coloca meu celular aí, tem Paramore – Eu passei meu celular a ela e me senti melhor com aquelas músicas, apesar do vazio dentro de mim tentar me lembrar das coisas que as músicas anteriores me lembravam.

Capítulo 10
A little less sixteen candles, a little more touch me

Aquele fim de semana foi chuvoso e tedioso como previsto. Pelo menos os céus compartilhavam de minha dor. Tá, isso me lembrou aqueles poemas góticos e depressivos.
Na segunda-feira disse que não me agüentava mais ver assim e ameaçou de que se eu não melhorasse ele iria me socar. E eles tinham razão, sabe, pelo que me disse parecia ter aproveitado bem o fim de semana. A vantagem de se falar da vida alheia de metade da escola com elas era que eu podia saber do sem que elas percebessem grande interesse. Não que eu estivesse interessada no que ele fazia ou deixava de fazer. Eu ia fazer o que meus amigos, que realmente se importavam comigo, queriam.
- Hoje é oficialmente um dia feliz – eu disse a enquanto colocava as pretas até o joelho.
Era terça-feira e não havia sinais de chuva, apesar de que ainda eram sete e alguma coisa da manhã e não dava para enxergar o céu muito bem. Ainda estava frio, mas pelo menos não molharia mais meus sapatos hoje.
- Foi beber ontem e não me chamou? – ela perguntou fingindo estar séria e colocando as mãos na cintura.
- Nem – respondi sorrindo.
- Então algum motivo especial para ser um dia feliz? – ela perguntou esperançosa.
- Sim. Porque eu quero que seja, então vai ser.
E só pra ajudar, eu não tenho nenhuma aula com o .
Minha manhã foi tranquila e o almoço alegre. Tudo como planejado. Os horários depois do almoço também foram assim. Consegui até terminar todos os exercícios a tempo. Tá, me ajudou um pouco, mas isso não vem ao caso.
- E aí meu Arco-Íris, ocupada hoje à tarde? – perguntou bagunçando meu cabelo.
- Seu chato! – eu reclamei arrumando meu cabelo. – Tenho treino, mas se você quiser, depois tô livre.
- Certo, passa lá no nosso quarto – ele disse e saiu dali acenando.
Eu, e entramos no prédio feminino.
- , você fica meio sumida depois do horário – eu comentei subindo as escadas.
- Ah, é que eu prefiro ficar no meu quarto – ela disse dando de ombros.
- Uma garota caseira? Uau! – eu zuei ela.
Ela assentiu com a cabeça fazendo cara de santa.
- Caseira? Há-há! – disse parando na escada. – O vive lá com ela, por isso que ela não sai.
Eu a olhei de olhos arregalados.
- , achei que você era tão inocente – eu disse sinceramente chocada.
- Mas ele é só meu amigo – ela disse corando fortemente e olhando para o chão.
- A amizade de vocês é tão colorida quanto o cabelo da – disse ironicamente. – Vai me dizer que vocês nunca ficaram.
- Meu cabelo virou festa hoje? – eu perguntei fazendo uma voz irritada.
- Às vezes – respondeu . Eu a olhei sem entender. – O – ela explicou. – Dormir no mesmo quarto que a tá te deixando lerda que nem ela.
- Hey! – ela reclamou fazendo bico.
- Vamos logo, ainda tenho que tomar banho – eu disse empurrando escada acima e vindo atrás.

- Como foi o treino? – perguntou abrindo a porta do quarto.
- Aprendi um dos saltos – eu disse com um sorriso de criança.
- O sumiu de novo – ele disse e eu ri, imaginando onde ele devia estar.
continuou falando, mas uma garota saindo de um dos quartos me chamou a atenção. Era o quarto de , e aquele na porta olhando pra bunda dela era . A garota sorridente e com cara de piranha não era a mesma que eu havia visto a uma semana, mas o ódio que senti foi o mesmo. Sem pensar muito, enlacei meus braços em volta do pescoço de , que não entendeu muito bem o que eu estava fazendo, até encostar nossos lábios. Ele demorou um segundo, então aprofundou o beijo, passando as mãos em volta da minha cintura. Esperei até que o beijo esquentasse um pouco e o empurrei para dentro do quarto. Ele fechou a porta com violência, ainda sem parar de me beijar. Eu sorri pensando na cara de idiota com a qual deveria estar agora. Parei de beijar , que me olhou sem entender.
- O que foi? – ele perguntou. Pelo jeito ele não tinha se dado conta de que eu só queria provocar o . – Alguma coisa errada?
era fofo, nós éramos descompromissados e estava comendo metade da escola enquanto eu ficava chorando no meu quarto. Eu o empurrei fazendo-o cair na cama, e deitei junto com ele, voltando a beijá-lo.
Eu nunca havia pensado no desse jeito, mas isso mudava enquanto ele passeava as mãos por minhas costas e parecia tentando a descê-las até minha bunda.
Como Mari e Liz haviam me dito outro dia pela internet “Nada melhor do que um amor para esquecer o outro”.
Eu passeei com minhas mãos por seu corpo, mas não conseguia ter coragem para fazer passar daquilo. E ele parecia respeitar isso, apesar de estar claro o quanto ele me queria.
Alguém bateu na porta, mas nós ignoramos. Eu mordi o lábio inferior dele o fazendo soltar um gemido e voltei a beijá-lo.
As batidas na porta dessa vez foram mais fortes. fez menção de se levantar para atender, mas eu arranhei suas costas, como se fossem um castigo, e ele rolou na cama ficando por cima de mim, me beijando com mais firmeza que antes. Eu puxei a camisa dele pra cima em um pedido para que a tirasse, e ele parou de me beijar e a tirou, deixando-a cair ao lado da cama.
Novamente as batidas na porta. Antes que eu pudesse impedir se levantou e foi até abrir a porta. Um garoto magrela e de faces encovadas olhou assustado para o estado de sem camisa, com os cabelos bagunçados e ofegante.
- Ahn, eu queria falar com a garota – ele disse envergonhado.
- Tem que ser agora? – perguntou com a voz em tom de decepção.
- Ahn – eu vi o garoto dando uma olhadela para o lado. – Tem.
Eu me levantei e fui até a porta arrumando meu cabelo com as mãos.
- Pode me acompanhar? – ele me perguntou indicando o corredor.
- Não sozinha – eu disse com medo. – , vai comigo? – eu pedi fazendo carinha de criança. - Pelo menos até sair do prédio.
Ele entrou no quarto e voltou vestindo a camisa. Caminhamos em silêncio, mas eu podia sentir a irritação de , mas tentei não deixar transparecer meu alívio com achegada do garoto. Dei um selinho e sai do prédio masculino rápido, com o garoto ao meu lado.
- Queria te convidar para entrar no grupo de teatro – ele disse olhando para o nada.
- Por quê? – eu perguntei sem entender.
- Me indicaram você – ele parecia um pouco nervoso, provavelmente encabulado.
- Parece divertido – eu disse sorrindo. – Quando?
Ele pareceu surpreso com a minha resposta, mas logo suas feições estavam neutras.
- Os ensaios são segunda e quarta, no auditório da escola, às cinco da tarde.
- Nem sabia que tínhamos um auditório.
- É no primeiro andar – ele explicou.
- Certo, te vejo lá – eu disse acenando e fui para o prédio feminino.
Tudo bem que eu não sabia de onde o garoto tinha surgido, mas pelo menos eu tive uma desculpa pra sair do quarto do . Eu estava delirando achando que podia ser alguém como o , ou o , sei lá. Tudo bem, sempre fui meio alienada mesmo.

Minha primeira aula tinha que ser de física, só pra me encorajar mais ainda a ir pra sala. Eu fui até a carteira vazia ao lado de olhando para o chão, na esperança de achar algum buraco para enfiar minha cara no caminho. Queria ter a opção de sentar o mais dele possível, mas ele iria ficar chateado. Queria que o Harry Potter fosse real só pra que eu pudesse roubar a capa da invisibilidade dele.
- Bom dia Arco-Íris – ele deu um beijo estalado na minha bochecha assim que eu me sentei.
- Bom dia bebê – eu disse carinhosamente. – Mas são cinco cores, não sete.
- Eu estou contando com o rosado do seu rosto também.
- Mas ainda ficou faltando uma cor – eu murmurei percebendo que eu deveria estar mesmo rosada.
- E então, o que aquele cara queria ontem? – ele mudou de assunto.
- Me convidar para entrar no grupo de teatro – eu contei sorrindo.
Ele me analisou por um instante “É, até que é a sua cara”.
- O que você quer dizer com isso? – eu perguntei confusa.
olhou para a porta onde entrava um garoto com uma jaqueta preta com as mangas e costuras brancas, com dois grandes “W” em cada lado do zíper, na altura do peito.
- Ótimo, o time de futebol vai começar – ele disse rolando os olhos.
- Futebol? Tipo, futebol mesmo? – eu perguntei empolgada.
- Você é uma líder de torcida e não sabe nem que jogos vai animar?
- Ah, nem prestei atenção nisso – eu disse fazendo um gesto banal com a mão. – Mas eles jogam futebol que nem no Brasil?
Ele assentiu com a cabeça, e eu sabia que meus olhos brilhavam. Finalmente alguma coisa que me lembre do Brasil.

Durante as aulas de inglês eu contei a o que estava acontecendo, e ela me disse que eu devia levar o que fosse com adiante se eu gostasse dele.
- Aí está o problema – eu disse enquanto íamos para o refeitório. – Isso foi inesperado pra mim, não sei se eu gosto dele desse jeito.
- Bom, vocês podem tentar pelo menos – ela disse sorrindo. – Ou talvez ele deixe passar e pronto.
Durante o almoço até que foi bem normal. Quer dizer, nós andávamos abraçados como sempre fizemos nada de novo.
A sétima aula chegou e senti o olhar de sobre mim, com uma raiva inexplicável naqueles olhos azuis que me prenderam por um segundo, até eu me tocar e sentar longe dele. Olhei para trás e percebi que ele estava com o mesmo casaco que o garoto que eu havia visto nas aulas de física e igual a outros que vi na hora do intervalo. A voz do professor me assustou quando ele começou a explicar a matéria, e eu me virei para frente, percebendo o quão rápido meu coração batia. Tomara que ele quebre a perna enquanto joga futebol.
Na terceira aula de física daquele dia eu me senti mal ao sentar do lado de , como se eu fosse culpada por alguma coisa. Mas apesar disso, ainda era divertido e fofo. Como eu não percebi antes o quanto ele era bonito?

Fiquei conversando com e no quarto até darem cinco horas, e eu fui para o auditório da escola. Até que não foi tão difícil assim achar.
Lá estava o garoto magricela e algumas pessoas que eu lembrava já ter visto pela escola. Todos pareceram surpresos em me ver ali.
- Posso ajudar? – perguntou uma garota de cabelos castanhos com luzes vermelhas.
- Ele me chamou – eu disse apontando para o garoto-caniço.
Ela o olhou parecendo brava.
- Cheryl, eu... ah... – ele não conseguia se desenrolar.
- Se tem algum problema comigo é só falar – eu disse com as sobrancelhas erguidas e as mãos na cintura.
- Claro que não – um garoto alto com cabelos muito pretos se manifestou. – Nós só não estávamos a esperando.
Cheryl respirou fundo “Você quer entrar para o grupo, então?”.
- É por isso que estou aqui – eu respondi.
- Que seja então – ela disse com um tom um pouco azedo. – Vamos apresentar uma peça no Natal, e estávamos discutindo sobre qual história usar.
- Talvez um musical? – perguntou uma garota com cabelo loiro-escuro.
- Alguém aqui sabe catar? – Cheryl perguntou e somente a garota loira levantou a mão. – Ok, então, além da Mattie, alguém? - ninguém se manifestou, muito menos eu que tinha voz de taquara-rachada. - Alguém aqui sabe dançar pelo menos? – só uma garota alta levantou a mão. – Então não rola. Mais idéias?
- Comédia – sugeriu um garoto baixinho.
Deveria haver umas trinta pessoas ali, e todos estavam sentados em roda em cima do palco. Eu aproveitei que a distração para subir e me sentar ao lado do garoto que havia me defendido.
- É uma opção – Cheryl disse. – Mais alguma sugestão?
- Conto de fadas – eu sugeri.
- Que tipo de conto de fadas? – ela perguntou me olhando torto. Ela invocou comigo e eu ainda não saquei por que.
- Branca de Neve! – disse a garota alta disse empolgada.
- Não temos sete anões disponíveis – cortou Cheryl.
- Não esse tipo, talvez alguma coisa mais inusitada – eu continuei. – Alguma história que a maioria não conheça ainda.
- Eu conheço uma – disse uma garota de cabelos loiro-brancos do outro lado da roda. – Fala sobre a princesa do inverno...
Ela nos contou a história sobre uma princesa que controlava o inverno, toda a sua neve, gelo e ventos. Durante todas as outras épocas do ano ela ficava isolada e solitária em seu castelo de gelo, esperando para reinar de novo quando sua época voltasse. Em um desses invernos um lindo príncipe se apaixonou por ela e eles viveram um lindo romance. Ele ficou desesperado quando o inverno acabou e ela mais uma vez foi trancada no castelo. Ele esperou durante todas as outras estações, até que ela voltasse. Ele tentou de tudo para não deixá-la ir quando o inverno acabou novamente, mas ela não podia fazer nada, eram leis vindas do universo. Ele correu o mundo inteiro, até encontrar uma forma de quebrar o feitiço. Mas para que ela saísse, ele teria que colocar outra princesa em seu lugar. Foi o que ele fez, superou todos seus medos, invadiu um castelo e seqüestrou outra princesa. Quando o primeiro dia de inverno chegou, ele quebrou o feitiço sobre sua amada, colocando a outra em seu lugar, apesar de se sentir sujo ao fazer isso. Os dois viveram felizes para sempre, mas a princesa colocada no lugar de sua amada, ficou lá, a espera de seu destino entre seus invernos.
- E como vamos arranjar gelo e neve? – perguntou Cheryl. Essa menina tá me deixando nervosa já.
- Algodão, espuma, essas paradas – disse o garoto ao meu lado.
- E vidro – sugeriu alguém.
- Ótimo – Cheryl sorriu aprovando finalmente a idéia. – Vamos começar os testes na semana que vem. Será que você consegue essa história por escrito?
- Consigo – a garota de cabelos loiro-brancos respondeu.
Uma mulher de cabelos castanhos com aparência de uns trinta e poucos anos chegou.
- Acho que já decidimos – disse Cheryl feliz à mulher.
A mulher era nossa professora de teatro, e pareceu gostar de mim. O tempo ali passou rápido, e todas as coisas ruins deram um tempo da minha cabeça, até nosso horário acabar e quando saímos o time de futebol saia ao mesmo tempo. Lá estava, e entre eles, todos suados e conversando alto. Eles nem pareceram notar minha presença ali. Melhor assim, só de olhar para ele eu sentia repulsa.
Cheguei ao meu quarto e estava ali conversando com . Ela deu uma desculpa qualquer e saiu dali, nos deixando sozinhos.
- Ahn, você se importa se eu te deixar aqui um pouco? Preciso tomar banho.
- Tá, eu espero – respondeu com um sorriso.
Tomei banho e ao mesmo tempo que queria enrolar, não queria deixá-lo sozinho lá.
- Tá cheirosa – disse com um sorriso infantil me observando pentear o cabelo na frente do espelho do quarto.
Eu larguei o pente na escrivaninha e me encostei no peitoril da janela com o vidro fechado, observando o céu. desligou a TV e chegou atrás de mim, colocando as mãos em minha cintura. Ele afastou meus cabelos molhados do pescoço e começou a dar beijinhos nele. Eu senti meu corpo arrepiar, mas algum tipo de tristeza me incomodava enquanto eu observava o céu ao crepúsculo.
- – eu disse baixinho. Me virei para falar alguma coisa, mas ele me beijou delicadamente antes que eu pudesse.
Após um instante permiti o beijo, levando minhas mãos a sua nuca e cabelo. Ele envolveu minha cintura, nos aproximando. Ele me abaixou lentamente até a cama, deitando junto, mas mantendo o beijo calmo. Ele se deitou ao meu lado, partindo o beijo, e me observando. Ele pegou minhas mãos e as entrelaçou. Eu dei um selinho nele, e ele sorriu.
Uma música repentina encheu o quarto, e eu me levantei procurando meu celular. Olhei no visor que indicava o nome de . Mas por que ele estaria me ligando? Minha vontade de atender era quase palpável de tão forte, mas eu olhei para , tranqüilo deitado em minha cama, e coloquei a chamado no silencioso. O celular apagou a luzinha em pouco tempo, e depois voltou a tocar.
- Peraí – eu disse entrando no banheiro e fechando a porta.
Respirei fundo e atendi.
- ? – a voz de disse com um tom de nervosismo, mas não agressivo. A sensação de ele falando meu nome me causou um choque estranho.
- Oi – eu disse baixinho, sentindo tristeza. Parecia que ele estava longe de mim, como se eu nunca mais fosse vê-lo. Todo o ódio que eu sentia por ele não era mais forte que esse horrível sentimento.
- Será que dá pra você parar de fazer isso na minha frente? – seu tom se tornou agressivo.
- Pirou? Não sei do que você tá falando – eu disse de repente nervosa.
- Olha, não me interessa o que você faz ou deixa de fazer, mas que não seja na minha frente.
- Ainda não entendi.
- Não se faça de sonsa. Você precisa ficar se expondo na janela com aquele otário?
- Você está me espionando ? – eu perguntei brava.
- Sua janela é de frente a minha, vai me dizer que você nunca notou?
Eu sai do banheiro quase arrancando a porta e assustando . Olhei pela janela e lá estava , em uma das janelas do prédio da frente praticamente de frente a minha. Isso não é possível, como eu não notei isso antes? Apesar de estar a uma boa distancia, eu conseguia discernir o nervoso em seu rosto.
- Não, nunca notei – eu respondi quase gritando. – E eu não estou te forçando a me olhar. Para de tomar conta da minha vida, foi você quem quis sair dela. Eu te odeio, e espero que da próxima vez que eu te encontrar você esteja morto. Agora me deixa em paz! - Eu desliguei o celular com violência.
- , calma – me olhava assustado se levantando da cama.
- Preciso ficar sozinha – eu disse atravessando o quarto e saindo, sentindo cada nervo do meu corpo pulsar com ódio pelo .
Eu sai dali e fui para a escola praticamente vazia àquela hora. O único lugar aberto era a quadra, então me entrei ali e deitei na arquibancada, aproveitando o silêncio e a escuridão para chorar e pensar melhor.
Ouvi passos ecoando pela quadra, e permaneci em silêncio, na esperança de que quem quer que fosse, fosse embora.
- Eu sei que você tá aqui – eu ouvi a voz do , me fazendo quase pular.

Capítulo 11
The heart never lies

- Não, eu não estou – eu murmurei sentindo meu coração acelerar e meu estomago revirar.
- Você só sabe fugir – ele continuou me importunando.
- Vai embora – eu disse tentando parecer firme.
- Por que você ficou com aquele garoto? – ele perguntou e eu percebi que ele estava próximo.
- Porque você é broxa e eu te odeio – eu disse encarando a escuridão.
Ele sentou perto de onde meus pés estavam.
- É sério , por que estamos fazendo isso? – seu tom dessa vez estava diferente, parecia frágil.
- Vai embora – eu implorei sentindo uma lágrima teimosa escorrer por meu rosto.
- Eu não vou a nenhum lugar onde você não esteja – ele disse carinhoso.
- Eu não acredito no seu amor – eu disse sentindo como se meu coração estivesse sendo rasgado violentamente. – Pra mim tudo é uma mentira.
- Você não devia dizer uma coisa dessas – ele disse magoado.
- Quantas você comeu na última semana ?
Ele ficou quieto.
- Eu não posso mais confiar em você porque você nunca confiou totalmente em mim.
- Eu confiava e você ficou com aquele cara do mesmo jeito.
- Eu estava bêbeda, que saco! Mas você parecia bem são com aquelas garotas.
- Se eu confiasse em você de novo o que você faria?
- Nunca mais beberia na vida pra começar – eu respondi me sentando. – Mas eu não sei como confiar em você de novo.
- E como eu faço você confiar?
- Me conta por que você tem medo de nos assumir em público.
Ele respirou fundo.
- Eu não quero te preocupar.
Eu me levantei, mas ele me segurou.
- Espera, não vai. - Eu me sentei de novo. – Se eu te contar, você pode ficar com medo, e não querer me ver nunca mais...
Eu me aproximei e pressionei nossos lábios.
- Ou você pode não me contar e eu não vou querer te ver nunca mais também.
Ele respirou fundo mais uma vez.
- Ano passado, mataram meu pai – eu segurei em sua mão, e as entrelacei. – Meu pai estava envolvido com uns caras muito “barra-pesada”, mas o pior foi que ele traiu minha mãe. Traiu ela com a mulher de um desses caras – ele fez uma pausa. – Esses caras agora estão atrás de mim e da minha família. Minha mãe se mudou de cidade e levou minha irmã, mas eu me recusei a sair daqui. Eu tenho medo de que eles peguem alguém de quem eu goste e façam alguma coisa. Eu não tenho certeza de até onde esses caras podem estar me vigiando, só sei que eu não quero arriscar você por nada nesse mundo. Eu apenas escutei e tentei assimilar em silêncio. Pensei em todas as possibilidades para mim, mas me afastar dele não era uma opção.
- Eu estou com você – eu disse firmemente.
- , se eles souberem de você...
- Eu sei me cuidar .
Ele riu de leve.
- Você tem certeza disso? De que quer ficar comigo?
- Absoluta.
Eu me aproximei encostando nossos lábios.
- Mas você também tem que me contar algumas coisas, sabia?
Eu me senti confusa “Tipo?”.
- Tipo por que você tem esses ataques.
Eu compreendi. Ele estava falando de quando eu começava com a falta de ar e todo resto. Dessa vez fui eu quem respirou fundo.
- Aquela noite – eu comecei. – Não... Não foi a primeira vez que um garoto... Ai , eu não quero falar disso! – eu implorei o abraçando e sentindo calafrios.
- Tudo bem, calma – ele disse carinhoso e passou a mão por meus cabelos. – Mas , você realmente tem certeza de que quer estar comigo, no meio dessa confusão? Esses caras são capazes de tudo.
Eu me afastei um pouco e puxei seu rosto pelo queixo para que ele me olhasse. Meus olhos haviam acostumado o suficiente com a escuridão para que eu o enxergasse seus olhos.
- Eu não vou fugir – eu disse firme. – E eu vou estar do seu lado pra tudo.
- Eu amo você – ele disse e eu senti meus olhos se molharem, meu coração tentando rasgar minha pele.
Ele pegou minha mão e a guiou até seu peito. Eu senti seu coração bater tão rápido quanto o meu. Eu não tinha palavras para dizer o que estava sentindo. Nada me afastaria dele novamente, nunca.
Eu juntei nossos lábios, e ele pediu passagem com a língua. Ninguém que nunca beijou por amor saberia o que eu sentia, como eram ter lava ao invés de sangue nas veias, sentir cada pedaço do seu corpo implorando pelo dele. Nossas línguas se encontraram, me permitindo sentir o gosto dele, me permitindo senti-lo. Ele me puxou e eu sentei no seu colo, com uma perna de cada lado do seu corpo. Suas mãos passeavam por minhas costas e me puxavam desesperadamente, como se ainda houvesse algum espaço entre nós para ser eliminado. Eu puxava seu cabelo com vontade, e o beijava com mais ainda.
Ele começou a abrir o zíper do meu casaco - exclusivo para as líderes de torcidas, mas que eu preferia usar depois das aulas – mas eu, contra minha própria vontade, segurei sua mão.
Ele interrompeu o beijo e deixou nossas testas coladas, me deixando sentir sua respiração forte em meu rosto “Eu vou ter que ter paciência com você, né pequena?”.
- Vai – eu respondi com um suspiro de infelicidade.
Ele me deu um selinho “Tudo bem, eu aguento”. Ele riu e me deu outro selinho.

Até a hora do almoço eu tive duas aulas com , e como eu já nem estava rindo a toa, nós quase fossemos expulsos por causa das gracinhas que ele fazia. Tá, minha risada alta também teve alguma culpa.
Eu estava caminhando com ele ao meu lado em direção ao refeitório quando meu celular tocou o alerta de mensagem.
“Hey, quer almoçar comigo? Vou estar te esperando com a moto ligada em dois minutos.”
Eu sorri. Guardei rapidamente o celular notando que o curioso do tentava ler a mensagem.
- Cadê a minha privacidade? – eu reclamei. – Você tá invadindo o meu espaço.
Eu dei um empurrãozinho nele.
- Eu não fiz nada! – ele se defendeu inutilmente.
Agora estávamos na frente da porta do refeitório, com um fluxo de alunos quase se empurrando.
- Nossa, o que tá acontecendo ali na frente? – perguntei fingindo grande curiosidade e apontando para frente.
- Onde? – eu ouvi ele perguntar quando eu já tinha me enfiado entre os alunos no fluxo contrário.
Sai apressada da escola e encontrei já sentado na reluzente moto vermelha segurando um capacete para mim. Eu o coloquei sem dizer nada e montei na moto, colocando o capacete.
- Esconde o cabelo – ele pediu.
Eu escondi meu cabelo dentro do capacete, prendi minha saia sob as pernas e assim que o abracei ele arrancou com a moto. Eu o abracei com mais força, gostando da sensação do vento e de tudo passando rápido, sem sentir medo, pelo simples fato de ele estar ali. Em cinco minutos ele diminui até parar dentro de um estacionamento. Eu tirei o capacete e o entreguei ao sair da moto.
Ele parou do lado da moto e me puxou pela cintura, me dando um beijo inesperado. Ele passou a língua por meus lábios, e eu os abri para poder sentir seu gosto, junto com a sensação de que meu coração queria rasgar minha pele. Ele mordeu meu lábio inferior de um modo delicado, me dando um selinho em seguida.
- É aqui na frente – ele disse saindo do estacionamento e entrelaçando nossas mãos.
Assim que saímos do estacionamento eu vi o restaurante. Grande e sutil, com pessoas conversando alegres enquanto comiam ou homens de terno discutindo alguma coisa.
- Quer sentar aqui fora ou lá dentro? – ele perguntou.
- Aqui fora – eu respondi sorrindo.
Apesar de estarmos ao ar livre, todas as mesas tinham uma espécie de guarda-sol, nos deixando na sombra. Eu pedi para que escolhesse, já que minha indecisão sempre era um ponto cruel para mim.
- Não é perigoso nos verem aqui? – eu perguntei olhando em volta.
- Eu espero que não – ele disse parecendo relaxado. – Tenho a impressão de ser seguido durante a noite, não a essa hora. E também eu corro demais para que alguém conseguisse nos seguir – ele sorriu convencido.
- É sério, você não tem medo de bater? – eu desaprovei.
- Nem, já acostumei, querida – ele disse de um modo carinhoso.
- Ah! Lembrei de uma coisa! – eu disse de repente ansiosa e me sentando totalmente ereta. – Me ajuda em uma coisa, ? – eu o olhei em expectativa.
- O que eu não faço por você – ele disse rolando os olhos.
- Sabe a minha amiga, a ?
- A Guerra? Aquela do seu dormitório?
- Ela mesma – eu disse sorrindo animada. – Quero juntar ela e o .
- Se tá de brincadeira né? – ele perguntou me olhando assustado.
- Ai , qual o problema? – eu fiz bico.
- O problema se chama Brooklie – ele disse sério. – E o tá usando o que você disse na mesa até hoje pra tentar afastar ela. Ela não está muito bem com você não, viu.
- Aff – eu reclamei. – Eu cuido da Brooklie e você cuida do . E não me olhe desse jeito, se vocês têm medo dela, problema de vocês. Eu não tenho – Ele riu e eu o olhei feio. – Pra mim a única graça são dois marmanjos com medo de uma garota mimada.
- Você é tão inocente – ele disse sorrindo. – Você é linda.
- Como? – eu perguntei cruzando os braços, confusa.
- Você não vê maldade nos outros – ele disse com aqueles olhos azuis em mim. – Você é doce, apesar de ser um pouco estressada.
O garçom nos serviu e se afastou em seguida.
- Eu não sou inocente desse jeito! – eu murmurei irritada. Depois de tudo o que eu passei um ser desse vem me dizer que eu sou inocente, há, eu mereço!
- Apesar de tudo, você é – ele disse com um sorriso encantador. – Me diga, até onde você acha que ela iria pra conseguir o que quer?
- Ela é só uma garota mimada que acha que é dona do mundo - eu disse rolando os olhos.
- Bombar eu e o ou expulsar um professor usando você não é o máximo que ela sabe fazer – ele disse sério. – Não a subestime. Ela é tão suja quanto os caras que mataram meu pai – eu vi a dor em seus olhos por um instante.
Nós comíamos distraidamente enquanto conversávamos.
- Mesmo assim, já estar na hora de alguém enfrentar aquela garota – eu disse determinada.
- , você não vai mexer com ela. Estou falando sério. Quer arriscar ser mandada de volta para o Brasil? – Eu quase engasguei. – Então não se meta com ela.
- E se ela se cansasse do ? Ou achasse outra pessoa? – eu tentei depois de um minuto de silêncio.
- O é a pessoa mais próxima de mim a quem ela pode tentar fazer os ciuminhos inúteis dela – ele disse entediado.
- Então ela tem que se cansar de você – eu disse achando a solução. – Será que isso é possível? – eu pensei em voz alta.
Ele riu.
- Na verdade eu acho que é mais por despeito do que por gostar de mim - ele deu de ombros.
- Eu gosto de você – eu disse distraída e absorta em seus movimentos.
- Eu também gosto de você pequena – ele disse sorrindo, me despertando. – Por isso não quero te ver se metendo mais do que você já está nisso tudo.
Eu sorri. Certo , mas não custa tentar.
- Mas e a , ela é ruim desse jeito também? – eu perguntei, me lembrando da participação dela.
- Mais ou menos – ele disse mais tranqüilo. – Brooklie faz por maldade, faz por diversão. Digamos que seja o cérebro e Brooklie o coração das coisas que elas fazem. Mas não é igual a Brooklie, eu chego a achar que ela ainda tem uma alma, mas esconde ela. Antes de eu começar a sair com a Brooklie, era minha amiga e do . Ela não precisava de nada disso, estava sempre feliz e de bem com todo mundo.
- Brooklie deve ser descendente de um demônio – eu murmurei.
- Provável – ele disse rindo. – Mas eu não aguento mais falar dela. E então, o que você achou do teatro? – ele disse se divertindo.
- Como você sabe? – eu perguntei desconfiada.
- me contou – ele disse apressadamente.
- Mas eu não contei a . Eu não contei a ninguém ainda além do .
Ele se concentrou na comida, desviando o olhar para um ponto qualquer.
- – eu sibilei. – Confesse.
- Hum? – ele se fez de desentendido.
- Você mandou aquele garoto para o quarto do só pra nos atrapalhar? – eu disse irritada. – Isso foi ridículo !
- Só estava protegendo o que é meu – ele disse como se fosse inocente.
- E desde quando eu virei sua propriedade?
- Desde que meu coração virou a sua – ele disse. Isso foi ligeiramente gay, mas muito fofo.
- Você não parecia se lembrar disso enquanto pegava outras garotas – eu disse resistindo a me render.
- Só pra me frustrar, porque nenhuma delas se compara a você.
- Você é... – eu olhei para aqueles ofuscantes olhos azuis.
- Seu – ele disse sorrindo vitorioso.
Eu parei de tentar protestar.
- Isso, só meu, e ninguém mais toca – eu disse decidida e encerrando o assunto.

- Onde você foi parar na hora do almoço? – perguntou sentando ao meu lado.
- Fui almoçar fora – eu disse pegando meu material dentro da mochila.
- Arruma seu cabelo, tá uma bagunça – ela alertou. Coloquei meu material sobre a mesa e penteei meu cabelo com os dedos. – Almoçou aonde? Eu odiaria comer sozinha, por que não nos chamou?
- Eu não estava sozinha – eu dei de ombros.
Ela me analisou por um instante “?”.
- Ahn... foi – eu tentei não sorrir, mas foi inevitável.
- Aaah! – ela exclamou empolgada, chamando a atenção da classe inteira. Suas bochechas rosaram. – Vocês voltaram e nem me contou nada! – ela sussurrou indignada assim quando as pessoas pararam de olhar.
- Você estava dormindo quando eu voltei ontem – dei um sorriso triste de lado.

- Hey querida, vamos para outra festa esse fim de semana, tá afim? – Brooklie me convidou enquanto trocava de blusa. O vestiário estava cheio.
- Ah, não sei – eu disse com um sorriso triste de lado enquanto prendia o cabelo. – Os pais da Lauren não iriam gostar muito, eu dormi na sua casa há duas semanas, entende?
Ir a outra festa não parecia uma opção muito legal quando eu ainda estava concertando as burradas da última.
- Você pode falar para eles que vai dormir aqui na escola – sugeriu .
- Não, de boa – eu disse. Peguei meus pom-pons e meu celular no armário e havia uma mensagem nele.

“Literatura”.

Eu sorri e fechei o armário. Minhas aulas já haviam acabado por hoje, e ele parecia saber disso. Não me dei ao trabalho de trocar de roupa, só sai antes que ou Brooklie me notassem. Subi as escadas com o som do sinal ecoando pelas paredes. Por que ele sempre escolhia as salas do terceiro andar? Acho que porque o corredor nunca estava cheio. Eu entrei na única sala sem luz e com a porta encostada, encontrando distraído olhando para a janela. Fechei a porta atrás de mim e ele me percebeu pelo barulho.
Caminhei até ele silenciosamente, e ele me deu um selinho e me abraçou.
- As meninas estavam planejando outra festa para esse fim de semana – ele disse calmo. – Elas te chamaram?
- Chamaram – eu disse sentindo aquele perfume me intoxicando. – Mas eu não vou.
- Tem alguma outra coisa mais importante pra fazer?
- Não – eu respondi sentindo as mãos passando por meus cabelos.
- Eu estava pensando em viajar para algum lugar... Passear de barco, mergulhar – eu seria capaz de dormir ali, em pé mesmo, com aquela voz deliciosamente calma e aquele carinho. – Faz tempo que não vejo o mar.
- Verdade – eu disse me lembrando de que não ia a uma praia há realmente muito tempo.
- Quer vir comigo? – ele perguntou e eu me afastei para olhá-lo.
- Seria maravilhoso – eu respondi com um sorriso tímido. – Mas não sei...
- Por favor, – ele pediu com aqueles olhos azuis me namorando. – Vem comigo?
Os pais de Lauren seriam o menos importante, pois eu poderia dizer que iria ficar na escola para estudar no fim de semana. A imagem de nós dois em um barco, olhando o horizonte, ou dentro da água, me pareceu irresistivelmente romântica.
- Só nós dois? – ele assentiu com a cabeça. – Ok.
Ele sorriu largamente e, segurando meu rosto com as duas mãos, me beijou.
- Que bom – ele disse parando de me beijar e encostando nossas testas. – Eu iria ficar chateado se você não quisesse ir.
Eu sorri. “, você tem que ir pra aula” eu alertei. “Você mata aula demais, não quero te ver repetir de novo”.
Ele riu “Mas aqui tá melhor”. Ele passou as mãos por minha cintura me puxando para mais perto, e voltando a me beijar quase agressivamente. Eu respondi ao beijo com a mesmo intensidade, deixando minhas mãos passearem por suas costas e nuca.

- , Arco-Íris da minha vida! – um saltitante pulou na minha frente, me pegou pela cintura me rodando no ar. Eu soltei um gritinho de susto.
- Que foi ? – eu perguntei quando ele me colocou no chão.
- Eu me inscrevi para um teste com uma nova banda! – ele sorriu como uma criança feliz.
- Aêe! – eu comemorei batendo palminhas.
- Eu tô super nervoso. Vai comigo? – ele pediu esperançoso.
- Claro querido! Quando?
- Amanhã - O sorriso em meu rosto se desfez, seguido pelo dele. – O que foi?
- Aí bebê, eu não posso – eu disse com o coração apertado.
- Ah, ahn, ok – ele gaguejou tristonho.
- Mas a deve poder – eu sugeri. – Ou a , ou o .
- Talvez a – ele disse com um sorriso de lado.
- Agora eu tenho que ir arrumar minhas coisas – eu disse me despedindo. – Mas prometo que te ligo, ok?
Ele concordou e eu fui para o meu dormitório. Arrumei minha mochila, dessa vez com roupas e mais coisas do que eu precisaria colocar se fosse um fim de semana normal. Guardei a mochila dentro do meu armário da escola e esperei até que Lauren terminasse a aula para avisá-la que “ficaria na escola”. Acompanhei-a até o estacionamento para falar com Rachel.
- Que pena, tinha feito lasanha – ela disse pela janela aberta do carro. - Se você tivesse me ligado, eu teria trago para você um pedaço.
- Tudo bem, Rachel – eu disse com um sorriso grato. – Qualquer coisa eu ligo pra algum restaurante e peço alguma coisa. De qualquer jeito, a cantina funciona no fim de semana. E quando minha mãe ligar, pode avisar que eu vou mandar um e-mail pra ela, por favor?
- Claro – ela concordou com um sorriso materno que me fez sentir culpada por estar mentindo para ela. – Juízo querida.
- Sempre – eu disse tentando ignorar minha consciência. – Tchau – eu me despedi dela e Lauren.
Rachel ligou o carro e partiu. Meu celular apitou no bolso detrás da calça e eu li a mensagem nele contida.
“Cinco minutos para você pegar suas coisas. Coloque um casaco, não quero que pegue essa friagem da moto”.
Eu corri para meu armário pegando minha mochila e depois corri para o meu quarto, para pegar um casaco, já que o agasalho que eu vestia era fininho. Sete minutos e eu estava no estacionamento, procurando silenciosamente por ele.
estava montado na moto vermelha, e estendeu um capacete para mim assim que eu me aproximei. Montei na moto e antes que ele partisse olhei para o lado e vi me encarando de longe. Me agarrei mais forte a assim que a moto entrou em movimento, sentindo um frio percorre minha espinha.

Capítulo 12
Walk in the sun

Em meia hora estávamos dentro de um avião, não me pergunte como. Só sei que ele deixou a moto no estacionamento do aeroporto e saímos correndo para pegar a última chamada do vôo, para o qual ele já havia arranjado as passagens. Aviões podem ser divertidos quando não se está atravessando um oceano inteiro, principalmente se você pode ficar olhando sem nenhuma restrição pro cara mais gostoso que você já conheceu na vida e que ainda usava uma blusa justa, sentado no banco ao seu lado, com uma mão entrelaçada frouxamente na sua e dormindo profundamente.
O mais divertido foi ver a cara da aeromoça quando eu perguntei pra onde o avião ia. Geralmente as pessoas sabem pra onde o ônibus que pegaram vão, mas eu não sabia nem pra onde ia o avião em que estava, além de ter deduzido que seria algum lugar na costa.
Quando pousamos ainda era dia, mas – com a cara amassada – disse que iríamos para algum hotel até amanhã de manhã.
- Você vai querer um quarto só pra você? – ele perguntou gentilmente para mim enquanto atravessávamos o saguão do hotel que, mesmo não sendo temporada, estava bastante movimentado.
Eu sorri, e tirei os óculos escuros quando chegamos ao balcão da recepção. Uma bonita mulher loira nos perguntou se eram dois quartos, e eu percebi que ela olhava de um certo jeito para . Sabe aquele jeito de “me come?”. Então, era esse mesmo.
- Um quarto de casal – eu disse antes que abrisse a boca.
- Identidades? – ela pediu com uma cara um tanto amarga, mas mantendo a voz gentil.
- Já tenho reservas se não me engano – disse passando um braço por meus ombros. – .
Ela mexeu no computador por alguns instantes. pegou seus documentos na mochila e colocou-os sobre o balcão. Ela conferiu com alguma coisa no computador.
- Preciso da sua identidade – ela me pediu com a voz uma tanto afiada.
Eu remexi no bolso da frente da minha mochila e entreguei meus documentos a ela. A cara azeda que ela fez quase me fez rir.
- Emancipada – disse ela devolvendo meus documentos. Ela pegou uma chave em algum lugar e entregou-as a . – Boa estada – disse ela, apesar de não desejar aquilo.
- Não sabia que você era realmente emancipada – disse , passando novamente seu braço por meus ombros.
- Minha mãe achou mais fácil me emancipar pra facilitar minhas coisas por aqui – eu disse. Ele apertou o botão do elevador e ficamos esperando. – Como você conseguiu um quarto se ainda é menor de idade?
Ele deu uma risadinha.
- Primeiro que dinheiro compra tudo, segundo que não sou mais menor de idade – ele disse entrando comigo no elevador. – Sou mais velho que você, esqueceu mocinha?
Eu achei que o hotel era grande, mas percebi que era mais sofisticado do que eu esperava quando entramos em nosso quarto. Grande, limpo e com uma decoração esplendida.
Deixei minha mochila no chão pelo caminho até a cama e me joguei nos lençóis brancos e macios, cheirando a amaciante. Eu senti o efeito da poltrona do avião na minha coluna então. riu.
- Tá com sono? – ele perguntou.
- Não, apenas um pouco cansada – eu respondi preguiçosamente.
- Que pena, ia te chamar pra conhecer um pouco da cidade…
Eu levantei animada. Adoro lugares novos, isso era sempre estimulante.
- Vou tomar banho – eu corri para o banheiro.
Tomei um banho rápido e me sequei com a toalha branquinha felpuda, só então me tocando que minha mochila com roupas limpas havia ficado no quarto. Me enrolei na toalha e entreabri a porta. “?” eu chamei, mas não houve resposta. Eu sai do banheiro pra pegar minha mochila jogada no meio do quarto, percebendo que estava na cama, escutando música tão alta com os fones de ouvido que eu podia ouvir o chiado de onde estava. Ele me olhou pior do que a forma como a recepcionista tinha o olhado. Sentindo meu rosto esquentar e tratei de voltar rapidinho para o banheiro, só saindo de lá completamente vestida.
- Aah! – lamentou-se . – De toalha tava mais legal!
Eu tive que rir dessa. “Vai tomar banho” eu pedi. “E não demore”.
Ele deu aquele sorrisinho malicioso “Vem comigo?”.
Eu ri alto. “Não” eu cortei a alegria da criatura. Ele fez carinha de cachorrinho sem dono. “Vai fedo” zoei-o. Ele arrancou a camisa no caminho até o banheiro, me deixando ver aquelas trabalhadas costas. Eu quase me arrependi de não ter aceitado o convite dele. O tempo de ele tomar banho foi praticamente sincronizado ao meu de pentear o cabelo e passar uma maquiagem básica.
Saímos do hotel e fomos para a praia, que ficava a menos de cinco minutos da praia, nos dando chance de ver o pôr-do-sol, sentados na areia branquinha e fina – diferente da amarelada e grossa da maioria das praias as quais eu costumava ir no Brasil. – Aqui o sol parecia um pouco mais pálido também, mas isso não me incomodava nem um pouco. Nunca fui muito fã de dias de sol escaldante. Eu estava com um short branco e meu adorado agasalho verde de linho, por isso a brisa fraca e gelada vinda do mar não me incomodava. Meus tênis descansavam lado a lado aos de , então eu podia sentir aquela areia gostosa em meus pés. Eu abracei meus joelhos, apoiando a cabeça neles, e observando o sol ser engolido calmamente pelo mar, misturando no céu tons lindos de rosa, laranja e azul. passou o braço por meus ombros, me encostando a seu corpo. As religiões falam de um paraíso na terra e que os verdadeiros devotos estariam nele. Bem, eu não me lembro de ter feito coisas o bastante para merecer isso. Talvez eu tivesse sido uma boa samaritana nas outras vidas, vai saber. O fato era que eu estava conhecendo o paraíso naquele exato momento, com aquela brisa deliciosa e carregada do cheiro do mar, a sensação da areia em meus pés, o barulho das ondas quebrando sem violência, o sentimento de pura paz, aquela paisagem maravilhosa e quem eu mais desejava nesse mundo bem ao meu lado, me abraçando e fazendo carinho em meu braço. Apenas sentindo a presença um do outro, isso era o bastante.
O sol sumiu totalmente no horizonte, mas a luz de seus raios ainda cobria um pouco da imensa escuridão da noite que avançava pacientemente pelo céu. se levantou, limpando um pouco da areia em sua bermuda e me estendeu a mão para me ajudar a levantar em seguida. Com o par de tênis em uma mão e a outra entrelaçada a dele, seguimos caminhando devagar pela praia, nos aproximando aos poucos do mar. Chegamos a uma parte em que a areia estava molhada e fofinha, e a água gelada alcançou meus pés, me fazendo pular soltando um gritinho. riu e se abaixou, pegando alguma coisa na areia.
- Que lindinha! – eu disse pegando a conchinha colorida que ele me estendia, e tirando a areia dela com o dedão, já que a outra mão estava ocupada. – Guarda pra mim? – eu pedi e ele a guardou no bolso da bermuda.
Entrelaçamos nossas mãos novamente e ele me puxou novamente para onde a água alcançava. Dessa vez eu não me assustei com a temperatura da água, apenas dei um chutinho nela, espalhando-a no ar a minha frente. me levou até a parte em que o mar chegava à metade da minha perna. Ele soltou minha mão e jogou um pouco de água em minha direção, e eu instintivamente tentei me proteger com as mãos, o que não foi muito eficiente. Rindo, eu revidei água nele, com um pouco mais de força do que devia, e a água acertou seu moletom, rosto e cabelo.
- Ah não! – reclamou ele. – Meu cabelo dude, sacanagem - eu ri da careta dele. – Vai rir mesmo? Você vai ver também! Agora eu te afogo!
Ele se precipitou em minha direção e eu sai correndo, espalhando água ao meu redor.
- Não ! – eu gritei quando ele me alcançou. Ele me pegou no colo e eu me agarrei forte ao seu pescoço com medo de que ele me jogasse naquela água gelada. – Por favor!
Ele me rodou no ar. “E por que eu não deveria?”. Ele meio que me deixou cair por meio segundo, me firmando novamente logo em seguida, apenas como ameaça. Eu me agarrei mais forte ao seu pescoço.
- Nãão! – eu implorei começando a rir. Era bom ficar ali, em seus braços. – Porque eu sou muito boazinha, ganhei presente no natal. Papai Noel vai ficar bravo com você se você me jogar - Ele gargalhou alto e eu ri junto. – Por favor!
- Está bem. Mas pra sair daqui também, vai ter que pagar pedágio – e lá estava aquele sorriso infantil e feliz dele, me fazendo quase suspirar.
Eu não me importaria de ficar em seus braços pra sempre. Ele aproximou o rosto até que nossos narizes estivessem encostados, com aqueles olhos, tão azuis quanto o mar abaixo de mim, me hipnotizando. Ele juntou nossos lábios e deixei que sua língua passasse por eles, sentindo seu gosto quente em contraste com a brisa fria e salgada. Eu só percebi que ele havia andado quando me abaixou, até me deitar na areia sequinha. Agora o céu estava escuro e as pessoas passeavam tranquilamente pela areia a longa distância. sabia até onde podia ir, principalmente em público. Ele afastou meu cabelo do rosto e eu me virei, deparando novamente com aqueles perfeitos olhos azuis. Eu dei um selinho nele e, não me sentindo satisfeita, dei outro, e outro, até que estávamos em um beijo profundo novamente.
Após tirar a areia dos pés e calçar os tênis, caminhamos até um sofisticado e calmo restaurante, de onde podíamos ver a praia pela janela. Na verdade, tudo naquela praia parecia ser calmo e sofisticado. Ninguém aqui andava rápido, todos pareciam felizes e apesar de ser bastante movimentada, não havia tumultos. O que jantamos? Frutos do mar, claro.
Voltamos ao hotel caminhando também, e parecia conhecer aquela cidade. Quando perguntei, ele respondeu que costumava passar alguns feriados em família por aqui antigamente.
Fomos pegar a chave na recepção e lá foi a loira-água-de-privada com suas asinhas pra cima dele. Eu esperava a típica reação masculina, ainda mais de alguém como , em que ele começasse a jogar charme pra cima dela também. Mas não, até meu desejo de ter um bastão em chamas pra acertar aquela vaca passou quando ele simplesmente não deu atenção a ela. Apenas pegou a chave e deixou e passou a mão por meus ombros novamente, deixando que toda a água oxigenada escorresse de dentro do coro cabeludo dela e escorresse por sua boca. Ele a deixou babando sozinha, e eu postei um sorriso vitorioso em meu rosto enquanto nos encaminhávamos para o elevador.
Ele me deu passagem após abrir a porta e eu fui direto sentar na cama e tirar meus tênis. Eu estava cheia de areia e com cheiro da água do mar. Com certeza precisava de mais um banho. Me levantei e fui para o banheiro mas, antes de fechar a porta, senti meu braço ser puxado e em milésimos de segundos estava correspondendo animadamente a um beijo de . Devagar ele foi me empurrando para trás, até que eu estava com as costas pressionadas contra o vidro do Box. Ele tirou meu agasalho de linho, dando chance as suas mãos de passearem por minhas costas, por baixo da blusa branca que eu ainda vestia. Eu me livrei do casaco dele também, sentindo meu corpo esquentar em cada parte em que nossas peles se encontravam. Eu mordi seu lábio com um pouco de vontade demais.
- Ai – reclamou ele parando de me beijar. – Não precisa ser tão violenta também.
Eu fiquei sem graça enquanto ele passava a mão por dentro da boca para verificar se não havia sangue.
- Desculpa – eu murmurei sentindo meu rosto esquentar.
Ele deu um sorrisinho. “Eu sobrevivo”. E me deu um selinho, saindo do banheiro para que eu pudesse tomar banho.
Minha mochila por sorte ainda estava no banheiro, porque eu havia me esquecido dela novamente. Vesti a baby look e o shortinho de pijama e voltei ao quarto. entrou no banheiro cheio de vapor e antes que eu terminasse de escutar uma música que havia colocado para tocar no celular, ele estava saindo do banheiro com uma bermuda de algum tecido aparentemente confortável e… a toalha que ele esfregava nos cabelos conta? Eu fiquei lá, que nem idiota babando nele. Afinal, por que um cara gostoso daquele estava com uma garota como eu? Não que eu fosse feia, mas, cara, olha só pra aquele corpo totalmente trabalhado, aquele rosto perfeito, aquele jeito…
Eu poderia ficar ali a noite toda pensando em tudo sobre ele, mas ele tinha que estragar meu interessante devaneio:
- Avril Lavigne? – meu celular estava em sua mão.
Eu chacoalhei a cabeça para voltar a realidade “É”.
Ele jogou o celular de volta na cama. Do nada, tudo ficou branco e úmido.
- ! – eu reclamei brava arrancando a toalha da cabeça com violência, me arrependendo logo em seguida, pois meu cabelo havia virado uma bagunça. Para irritar uma garota basta bagunçar o cabelo dela, dica. - Eu te enforco com essa mesma toalha, ! – ameacei e fui pra cima dele, que se encontrava sentado ao lado do meu celular na cama.
Bom, é um fato que sempre foi mais ágil do que eu, principalmente quando me hipnotizava com aquele par de pedaços-do-céu no rosto. Ele segurou meus braços e me jogou de costas contra a cama, fazendo meu celular voar no chão. Ele prendeu minhas pernas com as deles e me encarou. Por que eu estava querendo enforca-lo mesmo? Como eu poderia querer fazer qualquer coisa contra ele? Essa idéia só não era mais absurda do que a intensidade de nossos olhares, praticamente tocáveis. Era como se ele tentasse me dizer alguma coisa, e eu finalmente estivesse começando a pegar a mensagem. Eu enxergava um aviso de que tudo isso era perigoso, mas havia algo ainda mais forte do que isso, e ele me disse antes que eu pudesse conseguir decifrar por completo:
- Eu amo você – aquela voz parecia atravessar minha pele, e eu não conseguia ter reação, a não ser a de corresponder aos beijos que se seguiram.
Apesar de eu estar em quarto de hotel, em um lugar desconhecido e paradisíaco com o cara mais perfeito do mundo, eu tinha meus limites. Alguns pais matariam seus filhos, minha mãe não fazia nem idéia. E eu não estava nem ligando. Eu confiava nele, realmente confiava. Tudo parecia simplesmente certo, mas eu não estava mentalmente realmente preparada para seguir adiante, precisava de mais tempo. E ele sabia disso.
Uma noite tranquila com sonhos felizes e os braços de a minha volta. Minha mãe sempre disse que eu gritava a noite, que meus sonhos sempre eram perturbados. Hoje eu acordei sorrindo.
- O Arco-Íris resolveu despertar? – sussurrou .
Eu senti um arrepio percorre minha espinha. Preguiçosamente me virei na cama, ficando com o rosto a centímetros do de . Ele me deu um selinho. – Bom dia, linda.
Eu sorri. “Bom dia amore”. Passei a mão por seu cabelo, sem conseguir bagunçá-lo mais do que já estava.
Ele deu um beijo em minha testa. Sentou na cama se espreguiçando e pegou o telefone que ficava na cabeceira. Enquanto ele pedia nosso café da manhã eu me ajoelhei na cama e abracei-o por trás, dando um beijo em seu pescoço. Ele desligou e passou a mão por cima dos meus braços em volta de seu pescoço. Eu me assustei quando ele segurou firme meus braços e se levantou, me puxando com ele.
- ! – eu gritei quando ele começou a me arrastar para fora da cama. – Eu vou cair! Me solta!
Ele me soltou. Eu desequilibrei quase cai de cara no chão, se não fossem por minha mãos na frente.
- Wow! – ele correu para mim assustado, me ajudando a levantar.
Assim que eu estava novamente segura sentada na cama, aproveitei que ele estava perto e dei um belo e estalado tapa em seu braço. Ele reclamou de dor.
- Como você ousa me largar desse jeito no chão! – eu ralhei apontando o dedo na cara dele.
Ele fingiu que ia morder meu dedo, e eu recolhi minha mão.
- Você falou pra eu te largar e eu larguei! – ele se defendeu.
Eu o fuzilei com o olhar. “, era pra você me largar em segurança!”.
- Aah, vem cá amor – ele se aproximou, passando os braços a minha volta.
Há, depois dessa ele não vai me bajular tão fácil. Eu afastei seus braços e me levantei, indo para o banheiro para uma rápida higiene. Quando abri a porta o café-da-manhã estava sendo colocado em cima de uma cômoda por um funcionário – jovem, mas que não fazia meu tipo – e estava parado segurando a porta aberta.
Eu tive que respirar fundo com a imagem daquele peitoral descoberto ali. Peguei meu laptop dentro da mochila sentei na cama com ele no colo. Eu quase o derrubei com o barulho da porta batendo com força. de repente parecia bravo.
- Que foi? – eu perguntei inocentemente.
Foi a vez dele de me fuzilar com o olhar. “Você podia esperar aquele cara sair ao invés de ficar desfilando com essas roupas indecentes pelo quarto”.
Eu pisquei duas vezes antes de assimilar, depois olhei para minhas roupas. “, é só um pijama, você pirou?”.
Do jeito que ele falava parecia que eu estava pelada, meu Deus.
- Curto o bastante pra aquele cara ficar olhando suas pernas e... - Eu dei de ombros e ele me olhou indignado. – Você nem liga?
- O cara passa por isso o dia todo, você acha realmente que alguém vai perder o tempo olhando pras minhas pernas? Qual é, já vi meninas no Brasil usando coisas bem mais curtas – ele me olhou um tanto confuso. – Lá é muito calor em alguns lugares.
- Quer dizer que você usava roupas assim lá? – ele sibilou ficando um tanto vermelho.
Nossa amor, desestressa.
- Não exatamente. Mas, ah, , saí dessa. Você fica tão exagerado quando está com ciúmes! – ele abriu a boca para retrucar, mas o cortei: - Respire fundo querido, temos um fim de semana maravilhoso pela frente.
Achei melhor não mencionar a recepcionista que tinha água oxigenada nas veias ao invés de sangue, para nos poupar de outra discussão a toa.
Ele se virou e foi pegar a bandeja do café-da-manhã, colocando-a em cima da cama. Eu observei bem aquela bandeja farta e fechei o laptop que mal havia acabado de ligar.
Nós comemos em silêncio, e aquilo estava começando a me incomodar.
- ? – eu chamei manhenta. Ele ergueu o olhar pra mim. – Você tá bravo comigo?
Eu não consegui decifrar sua expressão que mudou de repente.
- Claro que não meu amor – ele fez carinho em minha bochecha com o polegar. Nós ficamos ali nos olhando durante alguns segundos. – Agora vamos, pequena, se arruma logo – e me deu um selinho.
Eu sorri timidamente e ele fez o mesmo, se levantando em seguida. Devo ter ficado um minuto ou mais ali, simplesmente observando mexer na mochila, andar daqui para lá no quarto, até que ele entrou no banheiro e fechou a porta. Eu suspirei e me levantei para me arrumar.
Felizmente, a vaca que deveria mamar água oxigenada todo dia de manhã não estava lá quando fomos fazer o check-out. Com as mochilas nas costas caminhamos pela praia. queria almoçar antes de pegar um barco, e seria um pecado não aproveitar um pouco daquela praia com um sol tão radiante no céu. Estava calor o suficiente para meu short branco e uma camiseta regata serem usados.
estendeu um pano leve na areia e nós sentamos nela. Dali a um tempo, um grupo de amigos apareceu, sentando um tanto próximos a nós. Três deles estavam com pranchas nas mãos, outros dois de bermuda e com a camisa jogada por cima dos ombros. Havia também três garotas, todas de biquínis e cangas. Eu as invejei por poderem estar usando aquilo, enquanto eu fiquei receosa de colocar qualquer coisa mais curta do que meus shorts brancos com por perto, depois de seu showzinho mais cedo. Notei que um dos garotos de bermuda carregava um violão, e depois das garotas estenderem suas cangas na areia, ele o largou ali.
- O último a chegar na água paga o meu almoço! – gritou o mais garoto mais alto disparando para a água carregando sua prancha.
- O meu também! – gritou outro também com uma prancha e seguiu o primeiro.
Todos os outros dispararam atrás dos dois primeiros, fazendo algazarra pelo caminho. As meninas riram e deitaram em cima das cangas.
Eu observava os garotos nadando na água e os surfistas sendo engolidos pelas ondas. Apenas o mais alto parecia estar lidando bem com a água hoje. se levantou e eu o observei confusa enquanto ele se aproximou das garotas estiradas. O que ele achava que estava fazendo? Será que vou ter que fazer uma plaquinha escrita “Oi, , ainda estou aqui seu desgraçado” e assobiar pra ele me notar?
Uma das garotas levantou os óculos escuros e o olhou de cima abaixo, enquanto ele falava algo que eu não conseguia ouvir. Eu estava prestes a me levantar e afogar aquela garota na areia e depois matar com um pedaço de pau quando ela consentiu alguma coisa com a cabeça e ele pegou o violão encapado em uma capa preta e voltou para mim.
Sentando ao meu lado com as pernas cruzadas em estilo índio, ele desencapou o violão de madeira clara e o apoiou na perna direita.
- , você... – ele levantou o dedo indicador pedindo um minuto, e eu me calei, voltando a olhar para os garotos no mar.
Primeiro ele tentou algumas notas, e murmurou coisas tão baixinho que eu não conseguia ouvir. Aquela brisa calma e salgada batia em minha pele descoberta, e eu comecei a brincar com a areia ao meu lado. Então a melodia tomou forma, abafando todo os outros sons quando sua voz se juntou aos acordes. Eu me virei para contemplar aquele rosto perfeito.

I wonder what it's like to be loved by you
I wonder what is like to be home
And I don't walk when there're stones in my shoe
All I know that in time I'll be fine


Ele se virou para mim, deixando que nossos olhos formassem algum tipo de conexão, e eu podia novamente ver através deles.

I wonder what it's like to fly so high
Or to breathe under the sea
I wonder if someday I'll be good with goodbyes
But I'll be ok if you come along with me


Ele respirou fundo e eu senti meu coração acelerar de um modo que deveria ser até perigoso.

It's such a long long way to go
Where I'm going, I don't know
Yeah, I'm just following the road
Through a walk in the sun
Through a walk in the sun

I wonder how they put a man on the moon
I wonder what is like up there
I wonder if you'll ever sing this tune
All I know is the answer is in the air


Um sorriso totalmente puro se formou em seu rosto. Não havia mais duvidas, eu estava onde queria.

It's such a long long way to go
Where I'm going, I don't know
I'm just following the road
Through a walk in the sun
Through a walk in the sun


Eu olhei para o sol por um milésimo de segundo, e parou por esse instante, procurando a nota correta, para então prosseguir.

Sitting and watching the world going by
Is it true when we die, we go up to the sky oooh
So many things that I don't understand
Put my feet in the sand when I'm walking in the sun oooooh
Walking in the sun


Sua voz tomava conta não somente de minha mente, mas de todo o meu ser, de toda a minha alma.

It's such a long long way to go
Where I'm going, I don't know
I'm just following the road
Through a walk in the sun
Through a walk in the sun
Yeah...
Ohhhhh


Ele deu uma última batida lenta no violão e só então eu percebi que eu estava sorrindo largamente.
- , é linda – eu disse finalmente. – Foi você quem compôs?
Ele sorriu todo feliz. “Foi. Ela meio que apareceu em partes na minha cabeça hoje de manhã, enquanto eu te observava dormir”. Eu franzi a testa. Ele tinha me observado dormir? “Mas aqui, com você, eu consegui entende-la”. Eu tive que suspirar com essa. “Mas então, que você estava escrevendo aí?” ele perguntou curioso se esgueirando para ver.
Sem perceber, antes de ele começar a cantar, eu havia escrito nossos nomes na areia, dentro de um largo coração. Olhei para nossos nomes ali e depois olhei eu seus olhos, dando graças a Deus por estar sentada, pois minhas pernas bambeavam.
- – ele ergueu o olhar dos nomes para mim. – Eu... – aquilo parecia absurdo depois de tantas coisas pelas quais havia passado, depois de tantas decepções com as pessoas, depois de tanto sofrimento e promessas de nunca mais gostar de um homem. Mas eu não gostava de , isso era superficial demais. era mais do que tudo que eu já havia conhecido, o que eu sentia era simplesmente inevitável. – Eu... – a conexão entre nós estava mais uma vez ali, em nossos olhos. Eu estava segura com ele, sabia disso. – Eu amo você.
Eu vi um brilho em seus olhos, e segundos depois, ele estava me beijando como nunca antes.

Eu não entendia nada de barco, por isso não me atrevi a opinar em qualquer escolha dele além de um “aham” quando ele apontava para algum barco e dizia alguma coisa sobre o motor dele. Depois de uns dez barcos rejeitados naquele deque ele escolheu um que eu particularmente gostei por dentro. Madeira era o que definitivamente definia aquele barco por dentro. Desde as paredes a cama era em madeira envernizada. Até tinha um nome! “Saint Louis” estava escrito em marrom no lado de fora.
- – eu chamei manhosa.
Ele tirou os olhos do oceano a nossa frente que nos esperava e me olhou achando graça na minha voz. “Quê?”
- Tá calor e eu quero sorvete.
Ele riu.
- Está bem pequena, temos que comprar mantimentos para hoje a noite mesmo – ele concordou dando de ombros, já me guiando para fora do barco. – Mas eu escolho o sabor.
- Nem pensar! – eu protestei pulando para fora do barco com sua ajuda.
- Vamos ver então.
Eu cruzei os braços e fiz cara de brava.
- Eu vou ficar com esse até amanhã antes do almoço – disse ele se dirigindo ao dono do barco. – Nós já voltamos.
A primeira coisa que eu fiz ao chegar no mercado foi correr para a geladeira dos sorvetes, sem perder tempo achei o meu preferido, e me agarrei a ele.
- Hey, eu escolho! – protestou aparecendo atrás de mim.
- Mas eu quero esse – eu fiz manha novamente.
- Garota mimada – reclamou ele, levando um tapa meu como castigo. – Eu quero de gelo azul, beijo azul... Não lembro o nome.
- É céu azul, criatura – eu disse rindo. – E foi esse que eu peguei.
Ele me olhou desconfiado e tirou o pote de sorvete da minha mão para checar, depois começou a olhar envolta, como se procura-se alguma coisa.
- O que foi? – eu perguntei confusa.
- Cadê as câmeras? É pegadinha?
- Você é maluco?
- Qual é, a garota que eu amo gosta do meu sorvete preferido? Sem chance. Alguém deve estar tirando uma com a minha cara.
Eu ri alto.
- Você é tão bobo – disse rindo dele, que me abraçou, largando o sorvete em uma estante próxima, e me beijando em seguida.
Amortentia para mim provavelmente só teria um cheiro, e não três como para a maioria das pessoas. Teria o cheiro dele. E se tivesse nosso gosto preferido, não seria de sorvete sabor céu azul, mas teria o gosto dos beijos dele.

Capítulo 13
Corrupted

Estiquei uma toalha branca no chão do convés e, com meus óculos escuros de hastes coloridas, shortinho e a parte de cima do biquíni pretos, me deitei sobre ela.
Cinco minutos sendo aquecida pelo sol e algo tampou a luz de meu rosto. Abri os olhos e levantei os óculos.
- , vocês está tapando o sol – eu reclamei. Meu rosto esquentou, mas não por causa do sol. Era o jeito com que ele me olhava. – Para ! – eu pedi cheia de vergonha.
Ele sacudiu a cabeça, como se desperta-se de algum devaneio. “Melhor passar protetor, querida”.
- Verdade – murmurei pensando no assunto. – Pega pra mim? – pedi com carinha de criança.
Ele revirou os olhos e desceu as escadas. Quando voltou a tampar meu sol novamente estava com um tubo de protetor na mão.
- Quer ajuda? – ele se agachou ao meu lado com um sorriso malicioso.
- Há-há – tomei o tubo de sua mão.
Ele se afastou enfezado.
Joguei protetor nas mãos e me lambuzei com ele – até chegar nas costas e ter um sério problema para alcançar todas as partes.
- ! – clamei com a voz fina.
- Quê? – dessa vez não me importei por ele estar tapando o sol. A visão de seu peitoral – agora descoberto – era bem melhor. Adoro futebol, ainda mais o que ele é capaz de fazer com o corpo de um garoto de dezoito anos, assim como as abençoadas academias em nossa escola.
- Me ajuda? – eu pedi fazendo carinha de criança novamente, mas pervertidamente imaginando como não deveriam ser as coxas dele.
Ele ergueu as sobrancelhas “E por que eu deveria? Você não acabou de me rejeitar?”
- Por favor? – eu insisti.
Ele soltou o ar, se dando por vencido e pegando o tubo da minha mão.
- O que eu não faço por você? – ele disse enquanto eu me virava de bruços para que ele pudesse passar o protetor em minhas costas.
Eu sorri, mesmo ele não vendo. A sensação de suas mãos passeando por minhas costas era deliciosa. Antes que eu percebesse, aquilo estava virando uma massagem. Eu não tinha idéia de onde ele havia aprendido, mas suas mãos fazendo pequenas pressões em meu tronco era uma sensação divina de relaxamento e carinho. Eu estava quase ronronando com vontade de gemer baixinho, mas me controlei o quanto pude quando suas mãos deslizaram de minha cintura para minha bunda. Deixei que ele se divertisse – é, talvez não só ele… - durante uns dois minutos antes de cortá-lo.
- Quer sorvete? – ele ofereceu, fingindo que não havia acabado de tentar me seduzir.
- Aham – confirmei feliz, me sentando e cruzando as pernas.
Ele foi buscar enquanto eu prendia meu cabelo em um rabo de cavalo para que não grudasse nas costas. Sentou ao meu lado e me entregou uma colher, abrindo o pote em seguida. Eu não demorei a atacar o conteúdo azul, adorando a sensação do sorvete gelado descendo em minha garganta naquele calor. me deu um beijo na bochecha, me fazendo encolher ao choque de seus lábios gelados em minha bochecha quente. Mais uma colherada de sorvete goela abaixo, aproveitei sua afobação em pegar mais sorvete para tascar-lhe uma lambida na bochecha.
- Ah, é guerra? – ele perguntou passando as costas da mão pela bochecha lambida, me fazendo rir.
- É, e o que o senhor vai fazer? – coloquei as mãos na cintura.
- Isso – ele passou a colher com sorvete na ponta do meu nariz, e em seguida me deu um selinho.
Só que eu gostei de seus lábios gelados nos meus, então tratei de aprofundar o beijo rapidinho, esquecendo do sorvete derretendo sob o sol. E no meu nariz. Pelo menos até o momento em que ele chegou a nossos lábios, e interrompi o beijo fazendo um barulhinho de nojo.
- Nós vamos mergulhar amanhã depois que o sol subir, tá? – ele disse com um sorriso infantil animado.
Eu peguei mais uma colherada do sorvete e coloquei na boca, concordando com a cabeça. Ele afastou a colher de mim, voltando a me beijar fervorosamente.

Estava escuro agora. Eu não conseguia diferenciar o mar do céu de tão negros que os dois estavam. Só aparecia um fiapo da lua a minha frente, e ela não iluminava grande coisa. Estava frio e meu casaco estava lá dentro. Depois de levar um belo susto com alguma coisa que deu rasante na água, eu venci a preguiça e desci as escadas do barco. Com toda a minha distração, levei um susto ao me deparar com saindo do banheiro, meu coração quase rasgou meu peito e eu senti minha respiração falhar com aquela visão maravilhosa. Os cabelos molhados grudados e totalmente bagunçados e a boxer preta. Por que diabos ele tinha que ficar daquele jeito? Aquilo não era saudável pra mim.
E agora eu havia descoberto como as coxas dele eram. Definidas, suculentas eram o que me vinha à cabeça. Melhor do que eu havia imaginado.
- Vista-se – eu disse entre dentes. Ele pareceu surpreso com a minha suposta agressividade.
- Estou vestido – ele disse olhando para a própria boxer.
Eu tentei me fazer sair dali, para demonstrar que havia ficado brava, mas meus pés se recusaram. Meu corpo inteiro recusava qualquer movimento contrário. “Muito engraçado. Agora dá pra colocar uma roupa?”.
- Tenho uma proposta melhor – ele disse maroto, se aproximando perigosamente de mim. – Por que você não tira a sua? – ele sussurrou as últimas palavras em meu ouvido, enquanto passava uma das mãos pela minha cintura, por debaixo da minha blusa. Eu estremeci.
- Sabia que você é um idiota – eu disparei, como se ele me houvesse ofendido. Por que ele tinha que me tentar tanto? Empurrei ele tentando inutilmente o afastar.
Ele franziu a testa e tirou a mão de minha cintura. “Você é muito estranha”.
- Você é um idiota – eu retruquei novamente.
- Qual é o seu problema? Uma hora diz que me ama e outra hora parece que me odeia.
- Eu sempre te odeio.
Pra começar por você estar me provocando desse jeito. Isso não é justo.
- Você é maluca – agora sua voz estava alterada, e ele se afastou de mim, começando a andar pelo quarto.
- Você é um pervertido – eu percebi que havia começado a gritar.
- Que tal tomar um banho pra esfriar a cabeça? Se você quiser eu mesmo te jogo no mar, aposto que a água esta bem gelada.
- Eu posso te processar por ameaça de morte agora, sabia?
- Cala boca pirralha, você é muito chata.
- Você é metido.
- Enjoada – ele passou a mão direita nervosamente pelo cabelo molhado.
- Só fico enjoada quando estou perto de você.
Por outro sentido, isso chegava a ser verdade.
- Pelo amor de Deus, se afoga e me deixa em paz!
- Estúpido!
Nós gritávamos tão forte um com o outro que quando dei por mim estávamos próximos. Próximos demais.
- Como você consegue se agüentar?
- Se eu consigo te agüentar, eu aguento qualquer coisa.
Certo, eu não estava falando as coisas mais com tanto sentido. Ou pelo menos verdadeiras.
- Eu odeio você – ele disse com ferocidade.
Sua boca parecia chamativa demais para mim, mesmo com as palavras fortes e ofensivas que sustentava. Involuntariamente, eu cheguei mais próxima a ele.
- Eu te odeio mais ainda – eu retruquei no que gradualmente foi se tornando um sussurro.
Ficamos em silêncio por um minuto, sentindo a respiração próxima um do outro. As mãos de foram vagarosamente entrando por baixo de minha roupa, e quando nossos lábios se encostaram, ele me empurrou com força para trás, enquanto me beijava ferozmente. Me senti pressionada contra a parede e soltei um gemido quando ele mordeu meu lábio inferior. Eu podia sentir o volume em sua boxer aumentando, e eu não ligava mais para nada enquanto o empurrava para trás com as duas mãos espalmadas em seu peito. Foda-se se eu havia tido problemas. Foda-se se eu havia sido machucada. Isso não iria me afetar. Não mais.
me puxou com ele para o chão. O contato que as minhas costas fizeram com o chão frio não me incomodou, pois eu me sentia queimando viva. Ele estava tirando meu sutiã? Aonde havia ido para minha blusa? Eu nem havia notado que ele já a havia tirado. Eu arranhei suas costas enquanto ele ia descendo seus beijos, deixando sua língua passear por minha pele. Eu queria que ele abusasse de mim tanto quanto eu estava abusando dele. Já que eu estava perdida mesmo, não ligava para mais nada. Seus beijos continuaram descendo, fazendo uma longa parada em meus seios, enquanto abria minha calça e a descia. Assim que se livrou dela, foi subindo os beijos novamente, me fazendo soltar o ar pesadamente antes de voltar a me beijar com vontade.
Só havia uma coisa que me incomodava. Eu não sabia como havíamos chegado a tal ponto, mas aquilo me incomodava profundamente. Era sua boxer. Eu me livrei dela e a joguei longe, odiando-a. parecia sentir o mesmo ódio por minha calcinha, pois me lançou um olhar determinado e carregado de desejo antes de arrancá-la.
Ele aproveitou a posição em que suas mãos estavam e puxou minhas pernas para cima, e eu as envolvi em sua cintura.
Eu senti a dor me invadir forte por um segundo, e então passar tão rápida quanto havia chegado.
- Desculpe – ele sussurrou.
Mas eu não ligava. Arranhei suas costas como um pedido, e ele pareceu entender. Dessa vez eu senti ele me penetrar com um pouco menos de força. A dor dessa vez foi menor e, na quinta vez, eu não a senti mais.
Dei graças a Deus por estarmos em alto-mar, assim ninguém podia ouvir meus gemidos, tão altos quanto os dele. Ele aumentava cada vez mais a intensidade por debaixo da minha pele, me fazendo revirar a cabeça para trás ás vezes. Parecia que ele iria me rasgar por dentro a cada vez, e não havia um centímetro de meu corpo que não queimasse em puro prazer, até que isso foi tão forte que não agüentamos mais. caiu ao meu lado, arfante, e eu precisei de um minuto para me recuperar o bastante antes de me virar para ele.
- Me odeie pelo resto da vida se for desse jeito – foi a primeira frase que ele disse quando nossos olhos se encontraram.
Eu ri. Ele passou a mão por meus cabelos e me puxou para mais perto dele, me fazendo deitar a cabeça em seu peito, sentindo-o subir e descer irregularmente.
- O que seria de mim sem você, pequena? – ele perguntou, seguido de um suspiro.
Eu sorri e dei um beijinho em sua pele.
- Te amo, – e ao fechar os olhos, adormeci.

Eu abri os olhos, e tudo estava escuro agora que a luz do banheiro não se mostrava mais para iluminar parcialmente o local. Não deviam ter se passado nem quatro horas desde que adormeci, pois o cansaço ainda tinha um grande efeito sobre mim. Mas de repente eu estava ansiosa e alerta, o que cortava todas as minhas chances de adormecer tão cedo novamente. Me virei e percebi que não estava mais no chão, mas na cama, com esparramado ao meu lado, dormindo como um cavalo sedado. Mas um cavalo bonitinho. Eu sorri ao perceber meus pensamentos idiotas e me levantei vagarosamente da cama. Sem chance de achar minhas roupas naquela escuridão, fui direto para um banheiro. Decididamente eu precisava do banho. Não ficava suada assim desde que aquele monstro sapatão que haviam colocado para ser nossa antiga professora de educação física havia me mandado correr voltas e mais voltas seguidas pela quadra.
Mas tudo em que o banho me ajudou – além de ficar linda e cheirosa novamente – foi a ficar mais desperta. Pelo menos minha mochila eu consegui achar em meio à escuridão. Na verdade, acho que foi ela meio que me achou, já que eu acabei tropeçando nela pelo caminho. Na cozinha acendi a luz e me vesti, depois sai à procura do meu laptop dentro de minha mochila. Mas ele decididamente não estava ali. Isso me deu um desespero danado. Agora, com a luz da mini-cozinha acesa iluminando o quarto, foi fácil achar a mochila de . Coloquei-a em cima da bancada da cozinha, achando cuecas limpas, uma calça, algumas blusas e... não, não. Decididamente não. É claro que aquilo era de brinquedo. Quero dizer, por que motivo teria uma arma de verdade na mochila? Certo, uns caras mataram o pai dele e haviam algumas possibilidades de estarem atrás dele... Mas ele não tinha certeza de nada, não é mesmo?
Toquei a arma. Fria e pesada, como uma de verdade devia ser.
Eu peguei aquilo e fui para o quarto, acendendo a luz na cara dele e chacoalhando seus pés violentamente.
- O que foi? – ele perguntou grogue de sono.
- Por que você tem uma arma? – gritei sacudindo a dita cuja em minha mão.
Seus olhos se arregalaram. “Larga isso, ”.
- Responde a minha pergunta! Por que você tem uma arma?
Bem, avaliando minha situação, isso era uma coisa que eu tinha o direito de saber. Eu estava no meio do mar com um cara e ninguém além de um ser que havia nos alugado o barco sabia onde estávamos agora. E o cara com quem eu estava tinha uma arma.
- Pra me proteger – ele disse se sentando na cama. – Agora larga isso.
E por que eu deveria acreditar naquele cara com quem eu estava totalmente sozinha no meio do mar e que portava uma arma sem meu conhecimento? Ah, é, porque eu amava aquele cara. E confiaria minha vida a ele.
Só então me dei conta de que a arma ainda estava em minhas mãos, meio que apontada para ele de um modo desajeitado.
- , me dá isso – ele pediu cuidadosamente.
- Não me trate como se eu estivesse pronta para atirar em você – eu reclamei dando a arma em suas mãos.
Ele demonstrou grande alívio com esse meu ato, seguido de culpa.
- Desculpa amor, só não quero te ver mexendo nisso, ok? – e então ele quem ficou bravo em um estalo. – Você estava mexendo na minha mochila?
- Ahn... – meu rosto esquentou. – Eu estava procurando meu laptop.
Ele se levantou e foi até a cozinha, vestindo a boxer pelo caminho – eu confesso, espiei a bunda dele, e será que tem alguma coisa nele que não me agrade completamente? – e deu uma olhada na própria mochila.
- Decididamente não está aqui – ele disse guardando a arma novamente na mochila. – Será que não deixou lá em cima?
- Não, não mexo nele desde antes de sairmos do hotel.
- Então deve ter ficado lá – ele deu de ombros.
- Você só pode estar brincando – eu disse desesperada. – O que eu vou fazer agora? Minha mãe vai me matar...
- Calma pequena – ele me tranqüilizou me abraçando. – Eles com certeza devem ter guardado para você. Eu vou ligar para eles e amanhã nós passamos lá e pegamos ele, ok?
- Uhum – eu murmurei encostando minha cabeça em seu peito nu e sentindo o sono tomar conta de mim novamente assim como uma calma instantânea. Ele cheirava ligeiramente a suor, mas isso não me incomodou no momento.
- Vem, vamos deitar antes que você durma em pé – ele disse me arrastando para a cama e apagando a luz pelo caminho.
- Que horas são? – eu perguntei enquanto ele me cobria com o edredom.
- Quase meia-noite – ele informou. – Vou fazer chocolate quente, você quer?
- Quero – eu disse com um sorriso, me aconchegando na cama. Mas antes que ele voltasse eu já havia adormecido profundamente novamente.
E dessa vez fui eu quem acordei sacudida e assustada. A luz da cozinha iluminava de modo aconchegante o quarto, mas eu estava totalmente assustada, porque não parava de gritar.
- Temos que sair daqui! – ele gritava desesperado. – , acorda! Temos que sair agora!
- Você ficou maluco garoto? – eu perguntei incrédula.
Percebendo que eu havia acordado, ele me puxou pelo braço, me fazendo tropeçar pelo caminho.
- O que está acontecendo? – eu perguntei totalmente confusa.
- Confia em mim, precisamos sair daqui! – ele gritou, me arrastando da cozinha escada acima. O pior é que ele estava falando sério.
Eu desejei mais que tudo que aquilo fosse uma piada de mau gosto ou um pesadelo, ainda mais quando ele parou em frente as grades do barco e olhou para o mar ali embaixo.
- Espera aqui! – ele sai correndo e voltou como um raio com dois coletes salva-vidas nas mãos, me fazendo vestir desajeitada um deles.
- Por quê? – eu perguntei ainda mais confusa. – O que você acha que... – e então eu percebi o porquê dos coletes. – Oh não, nem pensar, eu não vou...
- Confie em mim! – ele gritou e me pegou no colo.
E então, eu estava caindo. Achei que a coisa estava bastante ruim quando estava caindo, e percebi que estava totalmente enganada sobre isso quando a água bateu com força em minhas costas e tomou conta do meu ser. Água gelada, mais gelada do que aquela que eu pegava na geladeira, mais gelada do que o sorvete de céu azul recém-saído do congelador. Mais gelada do que qualquer coisa que eu já havia tocado ou sentido na vida.
O corpo de caiu ao lado do meu, espirrando ainda mais água em mim.
- se-seu... – eu gaguejei, batendo os dentes.
- Vem, precisamos nadar para longe! – e começou a nadar na direção oposta do barco.
- VOCÊ FICOU MALUCO? – Eu gritei incrédula. – JONES, EU QUE-QUERO VOLTAR PRO BARCO IMEDI-DIATAMENTE!
- CALA BOCA E NADA – ele gritou de volta.
Eu me assustei com a ferocidade em sua voz. E claro, eu nadei atrás dele. Nadamos durante uns três minutos ou menos, até que um grande clarão iluminou tudo, até o céu.
- SE ABAIXA! – ele gritou.
Eu só tive tempo de puxar um pouco de ar antes de afundar na água, sentindo cada músculo em meu corpo sendo ainda mais congelado.
E então o clarão passou por cima de nós. Trinta segundos depois, sem resistir à falta de ar e fôlego que o nado havia me proporcionado – sem contar o frio –, emergi, seguida por .
- Você está bem? – ele perguntou preocupado.
Eu me virei e olhei para na direção do clarão que continuava a iluminar a noite. Não muito longe dali, estava o barco. Ou o que havia restado dele, que agora estava pegando fogo. Eu entrei em choque.
- Eu consegui avisar a guarda costeira antes de te acordar, estão vindo nos pegar – ele disse e segurou uma de minhas mãos embaixo da água.
Eu não conseguia emitir som algum, só conseguia observar os restos do “Saint Louis” pegando fogo. Não consegui ter idéia de quanto tempo se passou até que o resgate chegasse, só sei que ficava tentando inutilmente falar comigo enquanto isso. Mas eu estava chocada demais para responder qualquer coisa. E quando finalmente enxerguei algum pedaço de terra firme, com o barco em chamas sendo deixado para trás e o ronco do motor do barco da guarda costeira me enlouquecendo, eu apaguei.

Pisquei algumas vezes antes de conseguir focar minha visão direito. O quarto estava iluminado por uma meia luz e um bip contínuo me incomodava. Procurei a origem do barulho, e só quando vi a linha verde de meus batimentos cardíacos subindo e descendo me dei conta de que estava em um quarto de hospital. Acompanhando a tinta verde quase azul das paredes e as janelas com cortinas brancas que davam para o corredor, vi sentado em um sofá próximo a minha cama, com a cabeça abaixada e apoiada nos braços, me impedindo de ver seu rosto.
- Você está bem? – eu perguntei preocupada.
Ele levantou a cabeça, seus olhos levemente inchados e vermelhos.
- Depende. Você está bem? – ele me perguntou sério.
Eu mexi minhas pernas por debaixo do lençol, depois meus braços e pescoço. Me dei conta de que o local era quentinho, assim como as cobertas que me cobriam e estremeci ao lembrar do mar gelado.
- Acho que sim – respondi.
- Então eu também estou – ele disse com um sorriso triste.
- Mas por que estou aqui?
- Você desmaiou.
- Por quanto tempo?
- Umas cinco horas pelo menos – ele respondeu parecendo cansado e frágil.
- É, acho que eu estava precisando dormir direito, assim como você precisa agora.
Ele riu. “Vou avisar ao médico que você acordou”. Deu um beijo em minha testa e depois foi para a porta. “Já volto, pequena”.
Eu sorri em resposta antes que ele saísse.
O médico testou meus sentidos e, mesmo confirmando que tudo estava bem, tive de ficar mais duas horas no hospital, em observação. aproveitou esse tempo para ir as docas resolver com o dono do barco a situação e pegar meu laptop no hotel.
Eu havia ficado brava comigo mesma por ter esquecido o laptop no hotel antes, mas agora eu estava feliz pela minha burrice. Apesar do barco em que estive há poucas horas ter explodido, me achei um pouco sortuda.
- E o que o cara do barco disse? – eu perguntei enquanto almoçávamos lagostim.
- Que o seguro iria cobrir tudo.
- E a policia?
- Eles ainda não tiveram confirmação sobre causa do incêndio.
- Mas você sabe qual foi – eu afirmei séria.
Ele soltou um suspiro, mexendo com o garfo na comida parecendo desconfortável. “Sei”.
Esperei pelo resto da resposta, mas não houve.
- Então, o que foi?
- Foram os caras que mataram meu pai, tenho certeza – seu olhar estava baixo e vago em seu prato.
- Mas... mas como? – eu perguntei confusa.
- Perguntei para alguns dos donos dos outros barcos. Um deles viu dois homens entrando no barco ontem, enquanto fomos ao mercado. Não foi acidental, eles me seguiram.
- Eles... eles estão tentando nos matar? – perguntei incrédula.
- Me matar – ele corrigiu. – Você se estiver por perto – ele soltou um suspiro cansado.

Durante toda a viagem de volta eu fiquei pensando sobre isso. dormia desconfortável ao meu lado durante o vôo. Como alguém poderia estar atrás dele? Ele parecia tão inofensivo para mim. Ele era tudo o que importava para mim. Se alguém sequer o ferisse eu não sei o que faria. Ele disse que me matariam se eu estivesse por perto... Mas como eu conseguiria ficar longe dele? Eu estremeci só de pensar nessa possibilidade. A de ficar longe dele. Não, não importa o que poderia vir a acontecer, eu estaria sempre ao seu lado.
Isso pelo menos era o que eu queria.

- ? – ele me chamou enquanto eu arrumava minha roupa de cama limpa.
- O quê? – eu perguntei ainda dando atenção aos lençóis.
- Nós... nós não podemos mais ficar juntos – ele disse pesarosamente.
Eu demorei um segundo para entender o que ele estava falando. Minha respiração falhou.
- Ahn? – eu perguntei meio zonza, me virando para ele.
- Nós não podemos mais nos ver – ele disse encarando o chão.
- E por que não? – eu perguntei cruzando os braços.
- Porque é melhor assim.
- Melhor pra quem?
- Pra você – ele levantou a cabeça.
- Eu sei o que é melhor pra mim – eu disse indo até ele, sentado na beira da cama de . – E você não vai se livrar de mim assim tão fácil.
Eu coloquei uma perna de cada lado das suas, me sentando em seu colo e passando a mão em volta de seu pescoço. Agora que estava perto eu podia claramente ver a dor em seus olhos.
- , eu não posso suportar nem a possibilidade de algo acontecer a você – ele disse me abraçando forte pela cintura. – Você só vai estar segura se não estiver comigo. Eu achava que talvez eles não estivessem realmente atrás de mim, mas agora eu tenho certeza de que eles estão. Você precisa ficar longe de mim.
- – eu disse passando um dedo por seus lábios. – Não adianta, tudo em mim tem a ver com você. Eu vou estar com você independente do que aconteça. Eu te amo.
Pressionei meus lábios contra os seus. Por um instante ele resistiu, mas não durou muito. Deixei que nossas línguas brincassem durante algum tempo, apenas sentindo seu gosto e seu calor. Mas então o calor foi aumentando, assim como nossas atentadas mãos exploravam mais e mais o corpo um do outro, arrancando as roupas encontradas pelo caminho.
Nessa hora você pode se perguntar que tipo de loucura era aquela. Não era o puro perigo me atraindo para ele, ia além disso. O perigo vinha de fora e eu estava ciente disso, pelo menos tão ciente quanto uma adolescente é capaz. O perigo me deixava assustada e não era a ele que eu não podia resistir. Era a e tudo o que eu sentia por ele.

- Bom dia! – sorridente me cumprimentou. Eu franzi a testa devido à claridade.
- Bom dia – eu respondi com a voz ligeiramente rouca, observando-a transferir as roupas da mochila de volta para o guarda-roupa.
Ela me olhou sugestiva.
- Quê? – eu perguntei sem entender.
- O acabou de sair daqui – ela disse, erguendo as sobrancelhas. – Não tem algo que você queira me contar?
Eu senti minhas bochechas esquentarem.
- Ah, ele dormiu aqui – murmurei desviando meu olhar do dela.
- Só dormiu? – ela não iria desistir até arrancar isso de mim.
- Talvez – eu disse sem resistir a dar um sorriso maroto.
- Eu sabia! – ela exclamou sorrindo vitoriosa.
- Como? – perguntei tirando o edredom de cima de mim.
- Pelo sorriso com o qual ele saiu desse quarto – ela comentou. – Apesar da cara amassada de sono.
- Pedimos comida e ficamos conversando até tarde ontem – eu contei, e então vi sua expressão. – É, além disso.
- Se troca logo, o sinal vai bater daqui a pouco – ela alertou.
Levantei preguiçosamente e peguei meu uniforme no guarda-roupa para me trocar no banheiro em seguida.
- , como o foi na audição? – ela perguntou casualmente enquanto eu ajustava minha gravata em frente ao espelho.
Puta merda, o , eu havia esquecido completamente dele!
Notando minha falta de resposta ela enfiou a cabeça dentro do banheiro e decifrou minha cara de gato quando é pego arranhando o sofá.
- Você não falou com ele? – ela franziu a testa, brava.
- Ahn... – eu enrolei.
- Aí Meu Deus, ele deve estar puto – ela balançou a cabeça em desaprovação, saindo do banheiro. – Nós já não fomos com ele...
- Mas e a ? – eu perguntei meio desesperada. - Ela não foi?
- Não faço idéia.
Bom, no intervalo, a caminho da lanchonete para tomar café-da-manhã, obtive minha resposta. E só para constar, não era das melhores, já que me viu no corredor e, ao invés de me receber calorosamente como sempre, fechou a cara e passou reto.
Sorte dele que eu estava de muito bom humor hoje. Azar o meu.


Capítulo 14
Bleed It Out

- – eu chamei manhosa, me virando e seguindo ele pelo corredor. Ele ignorou. – – insisti, continuando sem resposta. Apressei-me e passei a sua frente, parando e fazendo-o parar. Ele me olhou impaciente. – Qual é, eu tive problemas no fim de semana – me defendi, mesmo ele continuando calado. – Me desculpa.
- Que tipo de problemas? – ele levantou as sobrancelhas, falando alto o suficiente para que somente eu escutasse, enquanto os alunos nos empurravam às vezes no corredor lotado. – Estava muito ocupada na cama daquele idiota? Pensei que você era diferente, mas vejo que estava enganado. Você é igual a qualquer outra vadia dessa escola.
Na maioria das vezes meus impulsos são mais rápidos do que meu raciocínio. E essa foi uma das vezes, quando meti minha mão aberta na cara dele com força, olhando tempo suficiente para ver as marcas dos meus cinco dedos ficando vermelhas em seu rosto. Me virei sentindo meus olhos arderem e segui cegamente alguns passos pelo corredor.
- Hey, hey, pequena – ouvi aquela voz rouca próxima a mim, e então senti seus braços ao meu redor. – O que houve?
Me encostei em seu peito sentindo as lágrimas molharem sua camisa.
- Vocês se merecem – eu ouvi dizer ao passar, me fazendo começar a soluçar.
- Já entendi – disse com os dentes trincados.
Passei a mão por meu rosto, enxugando as lágrimas e sentindo-me desprotegida pela repentina falta de seus braços ao meu redor. Quando abri novamente os olhos foi em tempo de ver puxando a mochila nas costas de , socando-o em seguida. O corredor, que até então estava barulhento, se silenciou no mesmo segundo.
Eu entrei em desespero. Sai correndo até eles, enquanto o empurrava, gritando “O que você fez a ela?”.
- O que eu fiz a ela? – respondeu com desprezo, e cuspiu sangue no chão. Senti meu coração congelar completamente. – O que você está fazendo com ela!
- Seu looser idiota – os estudantes haviam formado uma roda em volta dos dois, e eu tive que dar mais alguns passos e empurrar pessoas do meu caminho para continuar a enxergá-los. partiu para cima dele, mas alguém segurou seus braços.
- Looser? – repetiu com desdém. – Eu a trataria bem melhor do que você. Mas é claro, você a está iludindo. Eu conheço o seu tipo. – fazia força para se desvencilhar do cara que o segurava, mas não conseguia. Mas por que ninguém estava segurando , sendo que ele estava chegando mais perto do ? Foi então que percebi: era quem segurava . – Você a enche de mentiras, leva para cama e depois vai a dispensar. Fique longe dela! – e com isso ele deu um soco na barriga de .
Senti como se o soco fosse em mim, tirando meu fôlego. Era como se meu mundo estivesse sendo destruído. Corri para eles, tentando segurar o braço de , mas ele se desvencilhava de mim com facilidade.
- Deixa de ser idiota, – eu gritei, chorando. – Solta ele!
Ele levantou o braço para socá-lo e, antes que eu pudesse gritar de novo, foi atirado longe. Demorei alguns instantes para localizá-lo com montado sobre ele, socando-o.
Percebi tarde demais que não estava respirando direito. Vi se soltando e batendo em antes que eu caísse de joelhos, minhas pernas fracas demais para me sustentar e sentindo-me totalmente tonta.
me percebeu e largou , vindo para mim desesperado.
- O que foi? – ele perguntou me sacudindo.
- Larga o – eu choraminguei com o resto de oxigênio que ainda tinha.
- , larga ele – gritou , autoritário.
saiu de cima de na mesma hora, olhando confuso para .
- Se acalma , por favor – ele pediu todo desesperado.
me viu e seus olhos se arregalaram. Ele se levantou com dificuldade e veio até mim, o rosto coberto de sangue.
- Eu vou te levar pra enfermaria – ele disse me puxando para cima, mas minhas pernas estavam bambas demais para que eu conseguisse me levantar.
- Tira a mão dela – eu ouvi esbravejar.
- PAREM! – eu gritei de modo histérico.
Minha mente estava cada vez mais turva e meu corpo mais mole ainda, sustentado apenas por me segurando pelos braços.
- – eu ouvi a voz de anormalmente estridente.
- Ai Meu Deus! – exclamou , vendo o meu estado.
- Você, leva ela pra enfermaria – eu a ouvi dizer pra alguém.
Em seguida senti braços me erguerem no ar e me deslocar dali. Meus pés bateram em algumas pessoas pelo caminho. Não devíamos ter ido muito longe e eu senti minha garganta queimar violentamente. Bati no peito do cara que me carregava, com uma das mãos tampando a boca.
- Ai Meu Deus, solta ela – ouvi dizer com a voz ainda estridente. – Rápido, coloca ela no chão!
- Tá bom, tá bom – percebi pela voz que era que me carregava.
- Vem cá – me segurou de um lado e continuou a segurar do outro. Entramos no banheiro e eu não tive tempo de chegar à privada. Minha garganta queimou ainda com mais intensidade e eu não consegui aguentar e vomitei, sentindo aquele gosto horrível na boca.
- , o que você tem? – perguntou com a voz estranha.
Eu cuspi e puxei o ar para dentro dos pulmões, sentindo minha garganta arder.
- Vamos logo pra enfermaria – ouvi a voz de .
- Não – eu disse passando a mão pelos olhos.
Sentei ali no chão mesmo, com a ajuda de e .
- Você tem que ir – insistiu.
Eu balancei a cabeça negando. passou mão pelo meu rosto.
- Hey, pequena, eu estou aqui – ele disse tentando me acalmar, mas eu via as lágrimas escorrendo por seus olhos. – Nada vai te acontecer.
Ele me abraçou, e eu deixei minha cabeça descansar em seu peito. De repente eu me senti violentamente cansada.

-I wonder what it's like to be loved by you – ele começou a cantar baixinho, enquanto eu fungava e soluçava. - I wonder what is like to be home.
And I don't walk when there're stones in my shoe.
All I know that in time I'll be fine.


Ele passava a mão por meus cabelos, me apertando forte contra a ele. Comecei a me acalmar e minha respiração começou a melhorar. Minhas mãos diminuíram o formigamento.
- Por favor, – ele disse me afastando o bastante para que pudesse ver meu rosto passando uma das mãos carinhosamente por ele, limpando minhas lágrimas. – Se alguma coisa acontecer a você eu... – percebi que seus olhos estavam vermelhos. Ele estava chorando. Isso cortou meu coração.
Passei um dedo por seus lábios, impedindo-o de continuar.
- Continua cantando – eu pedi com um sorriso triste, fungando em seguida.

-I wonder what it's like to fly so high – ele continuou, me abraçando novamente e voltando a fazer carinho e meus cabelos. - Or to breathe under the sea.
I wonder if someday I'll be good with goodbyes,
But I'll be ok if you come along with me.


- Te amo – me encolhendo contra seu peito.
- Vou te levar pro seu quarto, vem – ele me levantou e então ameaçou me pegar no colo.
- Não, você e o vão para a enfermaria – eu disse séria, respirando fundo. – A me leva.
- Mas... – ele protestou preocupado.
- Tudo bem, eu já consigo andar – eu disse com um sorriso torto. – Vai lá. , vamos?
Ela assentiu silenciosamente com a cabeça e saímos do banheiro com em nossa cola.
- Tem certeza de que está melhor? – perguntou preocupada.
- Tenho – respondi mesmo sem tanta certeza.

- Dude, o que foi aquilo! – disse sentada em sua cama com ao seu lado.
- São dois idiotas – reclamei cruzando as pernas e abraçando-as.
- Dá um desconto, o tava meio estressado – tentou defende-lo.
- E por isso ele precisava falar daquele jeito comigo? – questionei indignada.
- Ele não passou nos testes – prosseguiu, tentando amenizar minha raiva. – E o cara que foi escolhido pra vocalista nem cantava tão bem.
soltou o ar pesadamente, balançando a cabeça em desgosto “Tadinho, achei realmente que ele ia conseguir”.
- Eu também – continuou . – Ele estava super nervoso. O cara era gato, mas não melhor do que o .
- Injusto – concordou .
- É – eu concordei. – Mas ele não precisava pegar pesado desse jeito comigo.
- Você sabe que ele morre de ciúmes do , – disse tranquilamente.
Ergui as sobrancelhas, surpresa. “Por quê?”.
Ela e se entreolharam.
- O gosta de você – explicou . – E todos na escola conhecem o .
- O me ama, será que ele não pode aceitar isso? – eu disse, indignada. – Certo, eu gosto muito do . Muito mesmo. Mas, com o tudo é tão... – eu suspirei com um sorriso.
- Os olhos dela até brilham – disse sorrindo.
Eu ri sem graça.
- Mesmo assim, todos conhecem o histórico de ignorou minha felicidade. – E você sabe, não é dos melhores.
- Isso é passado – eu disse séria. – Não me importa como ele era antes. O que me interessa é o que nós dois temos agora.
- E o que é exatamente? – questionou . Eu a encarei sem entender. – O que vocês têm agora, exatamente? Vocês namoram? Porque eu não ouvi nada sobre isso nos últimos dias. continua como solteiro para as piranhas da escola.
- Eu vou deixar bem claro pra todos que ele é só meu – eu disse brava.
- Isso inclui a Brooklie? – perguntou preocupada.
- Com certeza – confirmei séria.
Ouvimos batidas na porta.
- Quem é? – gritou.
- É a Brooklie – a voz enjoada da mesma respondeu do outro lado da porta. – E a . , abre aí.
Eu abanei a cabeça negativamente para e . Puxei a colcha da cama e me enfiei embaixo dela.
- Quanta coragem – ironizou baixinho.
Antes de abrir a porta fechei os olhos e fingi estar dormindo profundamente.
- Ela está dormindo – ouvi avisar.
A porta rangeu.
- Ah, certo – ouvi a voz de Brooklie dizer. – Na hora do almoço eu falo com ela.
Assim que fechou a porta eu abri os olhos.
- Tem certeza que isso incluí a Brooklie? - perguntou divertida.
- Não duvide de mim – desafiei, voltando a me sentar.
- Temos que voltar pra aula – avisou se colocando de pé. – Você vem?
Fiz uma careta. Já tínhamos perdido uma aula mesmo. “Meu próximo horário é de geografia. Acho que vou ficar por aqui mesmo”.
As duas riram.
- Vai ficar bem? – perguntou preocupada, já na porta. Assenti com a cabeça. – Então, até o almoço – as duas deixaram o dormitório.
Aproveitei o tempo livre para ficar lendo meu livro da mediadora. Finalmente, quando meu estômago já se acabava de roncar, o sinal tocou anunciando o almoço.
Fui tranquilamente até o refeitório, pois todo o caminho se encontrava praticamente vazio.
Me assustei com o número de pessoas que viravam a cabeça quando eu passava e até apontavam, aos cochichos nada discretos, no refeitório. Antes que eu pudesse escapar, Brooklie e estavam ao meu lado enquanto eu colocava comida em meu prato.
- E aí, desembucha o que aconteceu – disse Brooklie ansiosa.
Garota fútil, pensei. Só quer fofoca.
- Você está melhor? – perguntou preocupada. - Fiquei sabendo que passou mal.
- Estou melhor –murmurei pegando uma lata de refrigerante diet.
- Vai, conta – insistiu Brooklie enquanto caminhávamos até a mesa.
Tentei desviar para minha mesa, onde e sentavam, mas então vi e , ambos com o rosto machucado. A raiva borbulhou dentro de mim e segui para mesa onde já estava sentado com e mais dois garotos grandes ao seu lado.
Respirei fundo. Brooklie queria uma resposta? Ela iria ter.
Coloquei minha bandeja na mesa, mas não no lado onde costumava, e sim ao lado da de . Ele me olhou surpreso enquanto eu me sentava.
- Tá melhor amor? – perguntei de um jeito meloso, dando um selinho nele.
- Ahn, tô – disse ele desconcertado. – E você?
- Aham – concordei com um sorrisinho.
Ouvi um estrondo. Olhei para frente e Brooklie havia jogado sua bandeja no chão.
- O que é isso? – ela perguntou, praticamente gritando.
O refeitório ficou totalmente em silencio.
Ah, não, já havia tido confusão o bastante por um dia, pensei, mas a raiva foi mais forte que o cansaço.
- O que? – eu perguntei cinicamente.
O canto da boca dela tremeu enquanto ela apertava as mãos em punho.
- Isso – ela apontou para nós dois.
- Ah! Isso sou eu – eu apontei para mim mesma. – E isso é o meu namorado – apontei para . – Por que o interesse?
Algumas pessoas fizeram barulhos e ovacionaram como “uuu”.
- Eu mato você! – ela ameaçou vir para cima de mim, mas a segurou.
- Qual é Brooklie, tá na hora de superar, não acha? – provoquei.
- Vamos sair daqui, já está ficando ridículo – tentou a tirar dali, mas ela resistiu.
- Está mesmo – concordei, mantendo o sorriso cínico. – Sua popularidade está caindo, querida.
Se não fossem as mãos de em seus braços ela teria voado em mim por cima da mesa mesmo.
- Vamos – esbravejou a arrastando para longe dali até saírem do refeitório.
- Você pirou? – finalmente se manifestou, e jogou o garfo em sua mão de volta na mesa. – Qual é o seu problema, garota?
- Não gosto do jeito que ela te olha e não gosto do jeito que ela te ronda – eu disse mexendo tranquilamente em seus cabelos. – Já estava na hora de ela se tocar que vocês não têm mais nada.
- Ah, ótimo – ele esbravejou, ainda que em voz baixa. – Nos exponha ao extremo.
Dei de ombros. “Se os caras que tentaram nos matar já sabem, que diferença vai fazer?”
- Mas a Brooklie é...
- Uma piranha que quer meu namorado – eu o cortei. – Se você pode bater no meu melhor amigo, eu posso dar esse recadinho pra ela.
Ele bufou irritado.
- – dei um beijinho em sua bochecha. – Eu sei o que estou fazendo, ok? Posso dar conta dela.
- Vocês já estão ferrados mesmo – se intrometeu. – Mais cedo ou mais tarde ela descobriria.
Eu sorri vitoriosa para .
- , tá afim de um novo amor? – eu perguntei displicente, mudando de assunto.
- Se esse amor tiver belas curvas, por que não? – ele respondeu divertido.
- Acho que você devia chamar minha amiga para sair – eu continuei, torcendo para que desse certo. – Acho que vocês dois se dariam certo.
- Que amiga? – ele perguntou dando uma garfada na comida.
- A – eu respondi.
Ele engasgou. deu um tapa em suas costas - que eu diria desnecessariamente forte.
- Aquela da aula de inglês? – ele perguntou depois de se recuperar.
- Essa mesma.
Ele deu um sorriso tarado, do qual eu tive medo.
- É, acho que eu me daria bem com as curvas dela.
- Respeite minha amiga, mocinho – avisei. – Ela é uma moça de família.
Ele recompôs a expressão.
- Certo, vou tentar me lembrar disso – ele disse pensativo.
Balancei a cabeça em desaprovação, voltando minha atenção em seguida para a comida.

- Amor, você não acha que tá na hora de ir ao médico? – perguntou , enquanto caminhávamos pelo gramado nos fundos da escola. Eu o olhei sem entender. – Você sabe, por causa dessas suas crises, falta de ar, essas coisas.
Ele me olhava preocupado e eu sabia que ele estava escolhendo as palavras para falar.
- O que te leva a pensar que eu já não fui? – perguntei displicente.
Ele me olhou confuso. “E não resolveu nada?”.
Dei de ombros. “Por enquanto ainda não. Mas ele disse que vai melhorar”. Olhei para as nuvens cinzentas lá em cima que indicavam a chegada de uma forte chuva. “Mas confesso que nunca cheguei a ponto de vomitar antes”.
- Talvez você devesse ir ao médico novamente – ele sugeriu.
- Talvez – respondi, mas não iria fazer isso. Estava cansada de médicos. Eles nunca resolviam nada direito. – Tenho um teste hoje no teatro – comentei desviando o assunto.
- Nervosa? – ele perguntou com um meio sorriso.
- Um pouco – confessei.
- Você vai se sair bem – ele me encorajou. – Só não vou lá te dar uma força porque tenho futebol.
- Se você fosse eu iria ficar ainda mais nervosa.
Ele deu um beijo em minha bochecha “Te amo, pequena”.
- Te amo meu anjo – eu disse sorrindo.
Algumas gotas de chuva começaram a cair, nos fazendo voltar para dentro da escola.
me levou até a porta da sala de inglês, onde me esperava já sentada na carteira. Eu diria que havia sido uma aula normal, se não fosse pelo fato de espalmar as duas mãos em cima da carteira de assim que o sinal de fim da aula soou.
Ela olhou para cima sem entender, até se deparar com os olhos dele e ficar com cara de idiota.
- O que você vai fazer hoje à noite? – ele perguntou casualmente, como se os dois conversassem todos os dias.
Ela ficou muda. Eu chutei sua perna e ela pareceu acordar. “E-eu vou estudar” ela gaguejou.
- Que pena – ele disse balançando a cabeça. – Achei que poderíamos sair para jantar – ele tirou as mãos de cima da carteira.
quase surtou. “Eu posso estudar outro dia!” ela disse desesperada.
Ele se virou para nós novamente. “Te pego as oito então” piscou e saiu da sala.
Ela me olhou boquiaberta, enquanto eu começava a rir da cara dela.
A única coisa boa de ter uma próxima aula é que estava nela. Sentado ao meu lado, conversando comigo. E agora não precisávamos disfarçar, todos já sabiam que estávamos juntos. O que só serviu para aquelas olhadas nada discretas me perseguissem o dia todo. Inclusive no teatro.
Mas nem isso, nem meu nervosismo, impediram que eu me saísse bem a ponto de conseguir o papel principal.
E um garoto muito, muito bonito iria fazer para romântico comigo. Loiro, alto, olhos cinzentos e um corpo extremamente convidativo.
É, talvez essas coisa tenham me incentivado a atuar bem para conseguir o papel.

- Sabe garota, você devia parar de ficar se escondendo atrás dos remédios – estava na porta do meu quarto me olhando.
- O que você esta fazendo aqui? – perguntei assustada escondendo frasco em minhas mãos.
- Vim buscar a – ele disse descontraído. - Ele adentrou o quarto sem ser convidado e sentou na cama vazia de . - Você tem gel aí? Preciso arrumar meu cabelo.
Eu rolei os olhos e fui até o banheiro procurar. “ está no quarto da se arrumando” eu avisei. O máximo que achei foi um spray fixador.
- Serve spray? – perguntei voltando ao quarto com o tubo na mão e me deparei com ele segurando o meu frasco de remédios. Puta merda.
- Por que você toma anti-depressivos? – ele perguntou balançando o frasco.
- Isso não é da sua conta – peguei o frasco da mão dele e joguei dentro da primeira gaveta do guarda-roupa que vi.
- Por que você precisa tomar anti-depressivos? – ele insistiu me deixando nervosa.
- Vou chamar a – eu disse com raiva largando o spray na cama e saí do quarto batendo o pé.
- – chamei batendo na porta do quarto de .
- Entra – ouvi a voz de .
- Uau! – exclamei aprovando .
- Gostou? – perguntou feliz.
- Eu que fiz! – brincou .
Eu ri. “Está linda” confirmei. “ já está te esperando lá no quarto”.
- Aí Deus – ela disse nervosa. – E se der alguma coisa errada?
- Relaxa – me diverti com seu nervosismo. – Tudo vai sair bem.
Ela respirou fundo. “Obrigada ” ela agradeceu.
- Boa sorte – eu e desejamos juntas antes de ela deixar o quarto com seu lindo vestido curto e a maquiagem impecável.

Durante as aulas do dia seguinte fiquei impaciente pensando no que poderia fazer. E se ele contasse para a escola inteira? Não, ele não faria isso. Mas e se ele contasse ao ? Isso iria me trazer problemas, explicações que eu não queria dar. Coisas que eu não queria lembrar.
Por sorte meu uniforme de líder de torcida estava no armário do vestiário, pois lá fora caia uma chuva desgraçada e a ultima coisa que eu queria era ter que atravessá-la para trocar de roupa quando as aulas acabaram.
Pelo menos o treino me distraía apesar da Brooklie amarrar a cara para mim e tentar me sabotar. Mas eu não iria sossegar enquanto não soubesse se tinha contado ou não.
- Vem comigo – me chamou enquanto eu saia da quadra para a chuva. Corri com ele até o prédio dele e ele me puxou pra dentro de uma das salas do primeiro andar. – Espera aí, já volto. - E saiu da sala.
Me sentei no chão. Estávamos na sala de espelhos, o que deveria ser uma sala de balé, mas até onde saiba ninguém a usava. logo voltou carregando duas luvas aparentemente de textura fofa e jogou-as em um canto. Trancou a porta, guardando as chaves no bolso. Ele tirou o casaco da escola e jogou junto com as luvas. Abriu três botões da camisa, abriu os botões nos pulsos e enrolou a manga.
- Levanta – ele mandou. Eu continuei o encarando.
- Ficou louco? – eu ralhei com ele. - Nem minha mãe fala comigo desse jeito!
- Deve ser por isso que você é tão mimada – ele retrucou.
- Eu não sou mimada! – reclamei indignada.
- É claro que é – ele continuou. – Mimada e indisciplinada.
- Olha só quem fala – me levantei. – O que você quer afinal?
- Você quer ficar com o , certo? – ele perguntou calmo.
- É claro – respondi firmemente.
- E você está disposta a qualquer coisa por isso, de verdade? – ele perguntou me encarando.
- Estou – respondi convicta.
- Então você vai ter que aprender algumas coisas – ele disse. – Vai ter que aprender a cuidar de si mesma. tem que saber que você é capaz disso, ele não vai estar sempre lá pra te proteger e você sabe disso. Você já teve sorte muitas vezes, mas outras não conseguiu escapar. Eu vou te ensinar a se defender.
- Como assim ? – perguntei confusa. – Como você pretende me ensinar?
- Do meu jeito – ele respondeu simplesmente. – Quero ver o que você sabe fazer. Me bate.
- O que? – perguntei incrédula. Ele só podia estar brincando.
- Me bate – repetiu ainda me encarando.
- Não – respondi firmemente.
- Por que não? Não tem coragem? – ele provocou.
- Não adianta, não vou te bater.
- Medrosa. Mimada. Indisciplinada. – ele disparou.
- Eu não sou nada disso.
- É claro que é, você não é capaz de defender a si mesma. Seus pom-pons não vão te ajudar em nada. Você é só uma perdedora de quem o ficou com dó.
- Cala boca .
- Você afronta os outros porque tem medo de ser você mesma.
- Não enche o saco.
- Você tem medo de tudo, de todos. É uma paranóica, é por isso que toma anti-depressivos, porque não se suporta, não consegue superar. O que foi que te aconteceu em garotinha?
- Me deixa em paz – comecei a sentir meus olhos molharem e as lembranças começaram a passar pela minha mente.
- Me fala o que aconteceu com você – ele disse grosso. – Vai garota, você só sabe chorar, nunca vai conseguir superar, você não é forte o bastante.
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
- Para ! – eu implorei chorando.
- Eu não vou parar. Por que o te esconde tanto? Ele não quer te mostrar a ninguém, ele tem vergonha de você.
- Ele gosta de mim! – gritei pra ele com raiva.
- Não, ele tem pena de você. É isso que você provoca nas pessoas, pena. Me fala o que aconteceu!
Eu só conseguia chorar, as lágrimas como se me sufocassem, tapando meu ar.
- Reage , enfrente isso!
Eu não conseguia puxar o ar para os pulmões mais.
- VAI, REVIDA – ele gritou próximo a mim e segurou meus pulsos me sacudindo. – REAGE!
Eu tentei soltar meus pulsos mas ele os apertava.
- VAI GAROTA, VIRA MULHER.
- FILHA DA PUTA ME SOLTA! – Eu gritei em resposta.
- Se solte sozinha! – ele instigou e eu tentei puxar meus pulsos com força. – Você tem que soltar girando os pulsos, não usando a força idiota!
Eu gritei de raiva e girei os pulsos, conseguindo me soltar das mãos deles. Corri para a porta forçando a maçaneta, mas ela não abria de jeito nenhum.
- Não tem como escapar! – ele disse vindo atrás de mim.
- Abre isso !!! – pedi desesperada para sair dali e apagar tudo aquilo da minha mente.
- Me enfrenta vadia! Me diz o que aconteceu!
- CALA BOCA! – eu urrei de raiva.
- Não vou calar, e você também não pode me fazer, porque você é fraca, estúpida, frágil. Eu posso fazer o que eu quiser.
- Não, não pode!
A raiva estava esquentando o meu sangue, meu coração pulsava acelerado.
- Você não conta porque tem medo. Já passou, mas você continua aí, sempre com medo. Você vai ser uma eterna covarde, admita.
Eu gritei de raiva de novo.
- Gritar não vai adiantar de nada! Isso vai se repetir, porque você vai deixar!
- Não!
- não vai estar lá. vai ter se cansado da garota fraca e dependente. Você vai perdê-lo e tudo vai acontecer de novo.
Ele estava próximo de mim e eu comecei a estapear ele.
- Ele não vai me deixar!
- Vai, e tudo vai se repetir.
- NINGUÉM VAI ENCOSTAR EM MIM DE NOVO!
- Vão sim. Pare de me estapear, me bate de verdade!
Eu gritei de raiva e comecei a socá-lo sem dó. Chutei-o e ele bloqueou.
- ME BATE DE VERDADE OU VÃO FAZER TUDO DE NOVO!
Eu bati com mais força nele, agora socando.
- Pare de gritar e use o fôlego pra bater! Deixa os braços na altura do peito garota! Fecha essas mãos direitos. ME BATE COM VONTADE!
Eu estava começando a voltar a chorar.
- BATE NELE PRA ELE NUNCA MAIS ENCOSTAR EM VOCÊ.
Eu usei todas as forças que eu tinha e sai socando ele de tudo quanto era jeito, tentando achar algum ponto que ele não estivesse cobrindo. Chutei-o e consegui acertar suas pernas, ele se curvou levemente com dor e eu consegui socá-lo algumas vezes. Bati nele até não ter mais forças e cair no chão cansada. Ele deitou ao meu lado ofegante. Depois que me acalmei ele me estendeu a chave da porta. Peguei-a e sai dali o mais rápido que meu corpo permitiu.

Capítulo 15
Ignorance

Mas é claro que eu não iria contar a ninguém, e sabia disso. Afinal, eu não queria que ficasse sabendo que eu tomava remédios. estava certo, eu era fraca, e saber que eu era fraca ao ponto de ter que tomar anti-depressivos não ia me ajudar em nada.
Após uma noite de sono pesado, minha primeira aula era de Física. Eu estava ignorando com todos os meus esforços, mas percebia seus olhares pra mim.
- Me desculpa – ele insistiu.
Me arrependi de ter chegado cinco minutos mais cedo na sala. Vazia exceto por , que havia me seguido desde os armários.
Eu o ignorei, olhando firmemente para o quadro negro. Ele me cutucou.
Outro problema dessa aula é que era minha dupla, então ele estava próximo o bastante pra me encher o saco o quanto quisesse. Meus pedidos para troca de lugar não haviam surtido efeitos, pois os professores não entendiam meu motivo repentino, já que a diretoria não havia tomado conhecimento da briga. A escola inteira ainda comentava da briga, mas a diretoria parecia nem sonhar com ela. E se sabiam, não fizeram nada quanto a isso, o que eu achei um absurdo, apesar de estar feliz por não ter se ferrado.
- – ele me cutucou novamente. – Por favor, meu Arco-íris. Eu só estava tentando te proteger.
Olhei-o irritada. “Proteger?”.
- É – ele disse, aproveitando a brecha. – Eu só queria que você enxergasse o que estava fazendo.
- Ele gosta de mim, – eu disse devagar, olhando o quadro novamente.
- Eu sei disso – ele disse e olhei-o totalmente confusa. – Agora eu sei disso. Andamos conversando.
- Ah, que coisa linda – ironizei.
Ótimo saber que andaram conversando pelas minhas costas zinho.
- Ele parece ser legal.
- Ele é.
- Desculpa mesmo por aquele dia. Eu não devia ter pegado tão pesado. Não deveria ter me metido – eu vi seus olhos marejarem por um instante.
- Tudo bem – eu disse me encostando em seu ombro. – Você só estava tomando conta de mim. Como um irmão mais velho.
- Você é nojenta – ele reclamou.
- Por que? – perguntei me afastando um pouco.
- Você agarra seu próprio irmão? Isso é doentio – ele disse fazendo cara séria.
Soquei seu braço.
- Cala boca – eu disse rindo.
- Você sabe que eu não posso viver sem você, não sabe? – ele perguntou e eu repousei minha cabeça em seu ombro novamente, sorrindo.
O sinal bateu e aos poucos a classe foi se enchendo.
Na aula de história eu não encarei . Nem por um segundo. Mas ele não podia simplesmente me deixar em paz. Assim que o sinal de término bateu, ele largou um papel dobrado em cima de minha carteira a caminho da porta.
“Se você tiver coragem, mesmo horário e lugar hoje”.
Se eu tiver coragem. Há, quem ele estava pensando que era?
Aproveitei meu horário vago para dar uma passada no texto da peça de teatro e fazer os trabalhos de química e aritmética.
Como Brooklie havia mudado de mesa desde segunda-feira – para a das patricinhas, o que era de se esperar - e eu não tinha mais problemas com , convidei e para se sentarem em nossa mesa. Quero dizer, aquela que dividia com , , e .
Achei que alguém iria protestar, mas logo roubou meu lugar ao lado de , me fazendo sentar entre e . E para minha maior surpresa, os dois estavam se dando bem. Quero dizer, e . Até cheguei a me sentir meio excluída.
E quando reclamei disso, os dois me confortaram. bagunçou meu cabelo – mas eu sei que a intenção foi boa – enquanto mordeu minha bochecha.
E claro, tudo isso só serviu para atiçar as más línguas no colégio. Mas eu não me deixei levar pelos comentários sobre como Brooklie estava acabada: sabia que ela só estava esperando, como um jacaré espera para dar o bote. E eu estaria pronta quando ela quisesse. Ou pelo menos eu esperava que sim.

Reuni toda a coragem que tinha, pois estava indo para aquela droga de sala de dança por puro despeito, e rodei a maçaneta, sentindo um leve tremor com o estalo que a porta ao ser aberta.
Fiquei aliviada ao me deparar com a escuridão que dominava a sala de espelhos vazia.
- E aí, Five Colours? – perguntou em meu ouvido. Eu gritei de susto. – Pronta pra mais uma?
Ele entrou atrás de mim e acendeu a luz.
- Escuta, eu tive um ensaio duro agora, e tenho muita lição de casa – me apressei a dizer. – Então, se você puder falar de uma vez o que você quer pra que eu possa ir embora...
- Corta essa – trancou a porta, guardando a chave no bolso.
Engoli em seco. Sabia que a tortura iria começar.
Então, por que mesmo eu estava ali? – Ah, é, eu não estava a fim de contar ao meu namorado sobre os remédios que tomava. Pra não ter que aprofundar mais alguns assuntos dos quais eu tentava fugir.
- Bom, vou perguntar só uma vez – ele disse, vestindo as mesmas luvas fofas que vi no dia anterior. – Você vai colaborar comigo ou vai ser na marra?
Soltei o ar pesadamente. “O que você quer afinal?”
- Vai colaborar? – ele insistiu.
- Que seja – respondi malcriada.
- Vai?
- Vou! – gritei irritada.
- Ótimo – ele disse com um sorrisinho. – Vamos começar pelo lado mais difícil. Vem cá – me puxando pela mão me colocou em frente ao espelho, permanecendo atrás de mim. – Olhe para si mesma. – Encarei meu reflexo, com suas mãos em meus ombros. – O que você vê?
- Eu... – me analisei. – Ah, do pro gasto – brinquei.
Ele riu baixinho. “Sério, o que você realmente vê?”
- Uma garota bonitinha e problemática – confessei.
- Estamos evoluindo. Então, vamos pular as preliminares de psicólogo e ir direto ao que interessa. Quais são seus problemas?
- São meus – respondi mal-humorada.
- Você disse que ia colaborar, e tudo o que disser...
- Pode e será usado contra você – eu cortei, sarcasticamente.
- Não, vai ficar entre nós. Prometo.
- Mas por que exatamente precisamos falar disso? – questionei cansada.
- Porque você precisa desabafar com alguém, e eu sei que por mais que confie nos seus amigos, não vai contar nada a eles. Só quero te ajudar.
- E o que te leva a pensar que vou contar logo a você? – me encostei a ele, observando sua imagem refletida no espelho. Ele me encarou de volta através do mesmo.
- Por que estou disposto a ouvir – respondeu sério. – Estou tentando evitar que termine com você, porque ele realmente gosta de você. Talvez, se você for capaz de se virar sozinha, ele mude de idéia.
Respirei fundo. “Ótimo, por onde quer que eu comece?”
- Olhe para si mesma, somente para si – ele disse em um tom ameno. – Relaxe. No que você pensa quando começa a passar mal?
Minha imagem, eu podia dizer, não era das mais agradáveis ao pensar nisso. Senti um calafrio percorrer meu corpo e me encolhi.
- Fique calma – ele disse passando as mãos por meus braços, esquentando-os.
- Certo – encarei meu próprio rosto. – Eu... sinto um desespero... não sei explicar... É horrível.
- E quando você fica desesperada, o que você sente, com o corpo?
- Bem – isso era mais fácil. – Meu coração fica acelerado e começa a me faltar ar. E junto com a tontura vem o formigamento nas mãos. Conforme vai piorando o formigamento passa pelo meu rosto e eu começo a não sentir minhas pernas mais.
- Lembre-se de que o ar nunca falta. Ele sempre está ali, você só tem que se esforçar em puxá-lo.
- Mas é difícil – eu disse aflita.
- Mas o ar está ali, você nunca fica sem ele nos pulmões. Ele está ali, é sua cabeça que te faz pensar que não está. Você só precisa pensar nisso, que há bastante ar, ok? – eu concordei com a cabeça. – Agora vamos voltar mais um pouco. Você tem isso desde que aquele garoto te agarrou lá no dormitório?
Eu achei graça. “Não”.
Ele franziu a testa. “Então, há quanto tempo?”.
- Desde quando morava no Brasil.
- E por que você tem isso? O que houve? – ele perguntou e eu senti uma certa preocupação em sua voz, o que incrivelmente me fez sentir grata por ele estar ali.
Agressão, assédio sexual, tentativa de estupro, seja lá o que eles colocaram naquelas drogas de fixas. Mas eu não contaria a ele. Cheguei a abrir a boca para tentar soltar essas palavras, mas a sensação daquele homem me tocando de novo me travou. Meus olhos marejaram e de repente estava difícil raciocinar. Difícil afastar aquelas malditas lembranças.
- Ok, se acalma – ele pediu, observando minha expressão atordoada.
- Por favor, eu não quero falar disso – choraminguei, me virando e me encolhendo contra seu peito.
Ele me abraçou forte. “Tudo bem, não vamos falar disso então” ele concordou. “Que tal brigar?” ele sugeriu após um minuto, se afastando de mim. “Venha desconte sua raiva em mim”.
Eu ri com a sua tentativa de me fazer sentir melhor.
Eu podia estar longe das minhas melhores amigas de anos – com as quais ultimamente eu não andara falando muito -, longe da minha família e do estilo de vida com o qual cresci, mas podia ter certeza de uma coisa: algumas pessoas por aqui se importavam comigo. Não só Lauren e a família. E logo , eu acabava de descobrir, também.
Me aproximei dele, que estava com as duas mãos erguidas em posição de defesa, e o abracei.
- Te adoro, – eu disse sorrindo.
Ele, que fora pego de surpresa, demorou um instante para me abraçar de volta. “Também te adoro, ”.
- Agora, eu quero aprender a nocautear uma pessoa – eu disse me afastando e batendo palminhas empolgadas. – Vamos, lá, professor, se prepare para apanhar.
- Você deve ser bipolar, dude – ele disse rindo.
- Não me chame de dude – eu reclamei, mesmo não achando realmente ruim. – Eu sou uma dama.
E soquei a mão dele.
- A Rainha Elizabeth sabe bater melhor do que você – ele provocou, arrumando a posição das minhas mãos. – Uma dama tem que ter postura. Corrija a sua – Coloquei os ombros pra trás, sentindo uma leve dorzinha ao fazer isso. – Observe minhas pernas e faça o mesmo – arrumei minhas pernas conforme as dele. – Isso, agora você soca nas minhas mãos conforme eu contar até o três, ok? – assenti com a cabeça. – E um, dois...

- Caraca, foi no inferno e nem me chamou pra ir junto? – perguntou com sarcasmo quando apareci na porta do quarto.
Eu dei uma risadinha sem sal, ainda sentindo meu coração acelerado e estando levemente ofegante.E só porque além disso meu cabelo estava molhado de suor, não queria dizer que ela podia ficar tirando sarro de mim de graça. Quero dizer, se eu falasse que tinha sido o quem me deixou naquele estado ela não ia gostar nem um pouco.
- É sério que eles pegam tão pesado assim no teatro? – ela insistiu. – Por que esteve te procurando agora pouco, então ele não foi o culpado. Você não traiu ele, né?
Eu rolei os olhos.
- Estava na academia sua besta – entrei no banheiro e fechei a porta.
Nada melhor do que tomar um banho quente depois de tudo isso e cair na cama. Capotar soa mais apropriado, eu acho.
Acordei tremendo de frio. Tudo a minha volta pareceu meio embaçado, até que eu me acostumasse com luz que entrava pela janela e meus pensamentos parassem de rodar assustadoramente. Um pesadelo terrível foi o que eu ganhei por dormir tão profundamente.
Minha mente voltou a rodar e meu estomago acompanhou de um modo insuportável. Com um impulso pulei da cama e corri a tempo de chegar a privada, abrindo seu tampo e despejando toda as minhas ex-refeições de ontem. Respirei fundo sentindo minha garganta queimar e me encostei a parede de azulejos. Alguma coisa estava errada comigo, isso era certo. Quero dizer, quantas vezes eu vomitei antes desde os meus dez anos pelo menos sem que o motivo fosse bebida alcoólica? Que eu lembre, só nos últimos dias. Alguma coisa estava muito errada, eu podia sentir isso dentro de mim. Pensei que pudesse ser pelos meus “ataques”, mas agora eu estava bem. Um pouquinho zonza, é verdade, mas nada de falta de ar ou formigamentos.
- Você está bem? – apareceu a porta do banheiro esfregando os olhos.
- Preciso de um analgésico – eu disse com um sorriso de lado.
- Tem aí no armário, pode pegar – e saiu do banheiro.
Me levantei com um pouco de dificuldade e lavei minha boca. Peguei a cartela de analgésicos que achei coloquei em minha mochila no quarto, para se precisasse mais tarde, pois sabia que agora provavelmente não me adiantaria. Tontura não é dor de cabeça, mas não precisava saber disso.
Os únicos fatos incomuns naquela manhã foram chegar fazendo um toquinho divertido com quando entraram na sala e voltar a sentar ao meu lado na aula de matemática.
Ela deveria estar brava comigo, pois era amiga de Brooklie, certo? Pelo jeito não. Ela sentou ao meu lado e tentou puxar conversa como se nada tivesse acontecido. Mas eu não engoli tão fácil, principalmente quando ela me disse que estava cansada de Brooklie que agora definitivamente havia se tornado insuportável. E que eu deveria tomar cuidado com ela.
Por que todo mundo fica dizendo isso pra mim? Brooklie era só uma adolescente metida e mimada. Eu não tinha medo dela.
E , eu não iria confiar tão fácil nela.
Certo, eu ia. Na verdade, eu já estava confiando. Tenho a péssima mania de na hora acreditar no que as pessoas falam, e só depois, quando repasso o assunto mentalmente, percebo se era mentira. Às vezes percebo.
Mas era mais astuto do que eu, fato.
Assim que na hora do intervalo sentei colocando minha bandeja sobre nossa mesa e dei um selinho nele, apareceu com um sorriso amarelo perguntado se podia sentar conosco. Todos – além de , que a olhava com brilho nos olhos e um sorriso – a encararam pasmos.
“Pode” respondi tranquila ao mesmo tempo em que dizia o contrario.
O olhei torto.
- Qual é , você não está falando sério? – ele perguntou incrédulo.
- Qual o problema, ? – retruquei indignada. parecia a ponto de enterrar a cabeça no chão de tanta vergonha.
- Você não pensa? Ela é a melhor amiga da Patterson – ele me encarava duramente enquanto falava. Não sei por que, mas gostei do fato de ele se referir a Brooklie agora pelo sobrenome. – Ela só pode estar querendo alguma coisa ruim.
- , eu sei que você pensa coisas ruins de mim – disse sem graça, com a cabeça baixa -, mas estou tão cansada dela quanto você. Por favor, não me faça sentar com as segundanistas de novo, lá é tão sem graça.
Isso era verdade. Não havia prestado muita atenção, mas era verdade que ela havia sentado-se à mesa onde Lauren costumava sentar ontem. Como eu pude não prestar atenção a isso? E se com Lauren sentada naquela mesa – o que não estava essa semana, pois estava gripada e de molho em casa – imagine sem ela.
- Senta aí – eu disse a ela.
chegou para o lado dando espaço para que ela se sentasse entre mim e ele. Ele não era tão bobo quando queria.
bufou em contradição e durante o resto da refeição as coisas foram meio tensas.
- As pessoas merecem uma segunda chance – sussurrei para ele, aproveitando que distraia .
- Segunda chances nunca importam, as pessoas nunca mudam – sussurrou , sentada em frente a mim e com a cara amarrada.
Por sorte não escutou. Ou pelo menos fingiu que não.
Eu conhecia o trecho da música do Paramore que acabara de citar, mas tudo o que fiz foi lhe lançar um olhar de repreensão.
Passando pelo corredor com minha mochila nas costas e segurando minha mão, tudo que eu podia fazer era sorrir. Mas sorrir parecia ser a ultima coisa em que Brooklie estava pensando quando passou por nós, esbarrando em mim.
Já estava até me virando para puxar aqueles cabelos ruivos e arrancá-los sem piedade quando me deu um puxão, me abraçando pela cintura firmemente.
- Ignora – ele sussurrou em meu ouvido, me dando um beijo na bochecha em seguida.
Mesmo com a raiva borbulhando em meu corpo, não pude deixar de sentir um arrepio com aquilo.
Bom, eu fiz o que pediu. Ignorei Brooklie durante toda a aula de Educação Física. Descobri que ela havia se jogado pra cima do professor – musculoso, só pra constar – e tentou convencê-lo a me tirar da equipe. Mas o professor negou seu pedido. Segundo ele simplesmente gostava de me ver com aquele shortinho e aquela saia, fazendo as acrobacias. Brooklie estava perdendo a posição de garota mais popular e desejada da escola e sabia disso.
Sua seguinte providência me fez esquecer o pedido de para que a ignorasse. Durante o almoço não cheguei a voltar para o quarto, o que estava me rendendo uma bela surpresa agora.
Se bem que bela certamente não descrevia aquela enorme pichação em vermelho vivo na porta do meu dormitório. “Vadia” era o que ela havia escrito.
Eu já estava na metade do caminho de volta a escola , pronta para achá-la na droga de aula que ela estivesse para sentar um bom murro na cara dela, quando me barrou.
- Aonde você vai? – perguntou, me segurando pelos braços.
Estava tão furiosa que provavelmente havia sido minha expressão que me entregara.
- Matar a Brooklie – sibilei com as mãos fechadas em punho.
- Por que dessa vez? – ele perguntou tranquilamente.
- Ela pichou minha porta, com um enorme “vadia” escrito nela.
- E bater vai resolver? – ele ergueu as sobrancelhas.
- Se vai resolver não sei, mas com certeza vai me fazer sentir melhor – então o olhei confusa. – E afinal, você me ensina a bater, não é?
- Pra se defender, é diferente – ele disse me puxando pelo braço de volta ao prédio feminino, sem se dar ao trabalho de verificar se algum funcionário poderia estar vendo. – E se você quer vingança, eu posso te ajudar.
- Como? – me interessei. Já que ele não me deixaria bater nela, pelo menos haveria justiça.
- Se você prometer me esperar quietinha no seu quarto eu trago o necessário.
- Certo – concordei.
Ele me deixou na escada e saiu do prédio.
Aguardei ansiosamente sua volta, mal conseguindo me concentrar em meu livro, até a parte em que Suzannah começava a bater em outra pessoa.
Meus olhos brilharam quando adentrou o quarto tirando uma lata de spray da sacola que carregava, uma lata de tinta e verniz.
- Eu te adoro – agradeci com um sorriso maligno.
- Vamos fazer o seguinte então – ele disse, colocando as latas no chão. – Eu restauro a sua porta enquanto você decora o quarto dela. Mas temos que ser rápidos, é pouquíssimo tempo até que esse corredor volte a ficar lotado.
Assenti com a cabeça, sentindo a adrenalina ganhar vida em minhas veias. Ele jogou a lata de spray na minha mão, mas antes que eu atravessasse a porta, ele me chamou.
- Não conte nada ao , não esqueça – e piscou para mim, me arrancando uma risadinha baixa.
Uma lata de spray que eu descobri ser preto ao testá-lo na porta de Brooklie. “lésbica” foi o que tratei de escrever ali. Eu sabia que ela não iria ficar só puta, mas sua fama iria se espalhar com fogo em palha. Além disso, ela tinha nojo; repugnância, como ela mesma descreveu uma vez. Eu nem ligaria, mas ela sim.
Mas as enormes letras em sua porta não me satisfizeram o bastante. Precisa de mais. Abri sua porta e sacudi a lata enquanto pensava no que escrever. Como minha mãe sempre me disse, eu era muito criativa, e não demorou muito para que suas paredes rosa tivessem as palavras “Invejosa, psicopata, demente, puta e lésbica. Essa sou eu” gravadas nelas. Talvez ela pudesse fazer uma música com isto. Me direcionei a porta ouvindo o soar do sino vindo lá de fora, alto como se fosse se viesse do corredor e apertei o spray direcionado para o carpete, só para um toque final antes de deixar aquele quarto. Com um último sorriso satisfeito fechei delicadamente a porta, voltando para a do meu quarto. , passava rápidas pinceladas por ela, tendo quase finalizado. Não havia mais sinais da vandalização que a coitada havia sofrido mais cedo.
- Obrigada – agradeci passando por ele e adentrando o quarto.
- Se divertiu? – ele perguntou. Assenti com a cabeça, o sorriso ainda em meu rosto. – Viu, dar vida a sua expressão artística é melhor do que partir para a violência.
Eu tive que rir alto dessa. – Opa, começou – ele tirou a lata de tinta de frente da porta e entrou rápido, fechando a porta em seguida.
Ouvi os passos e as vozes começarem a dominar o corredor. levou a lata e o pincel para meu banheiro.
- Estou louca para ver a cara dela – eu disse ansiosa, me largando em minha cama macia.
- Amanhã eu envernizo a porta – ele disse voltando para o quarto.
Muitas risadas foram ouvidas pelo corredor.
- Acho que minha arte está sendo reconhecida – eu disse feliz.
Mais um minuto e um grito agudo me assustou. Alguns segundos depois, a porta do meu quarto estava sendo escancarada, revelando Brooklie e um bando de garotas se amarrotando pelo corredor. Com seu cabelo ruivo ligeiramente armado agora e a expressão furiosa, ela parecia mais do que nunca com um leão.
- Ao que devo esse incomodo? – perguntei cinicamente, levantando as sobrancelhas. Cruzei os braços atrás da cabeça, totalmente relaxada por ter conseguido o que queria.
- Como você ousou fazer isso? – ela gritou ensandecida.
- Estranho como os criminosos amadores sempre se confessam, não? – eu disse olhando para o teto. – Achei que seria falta de educação minha deixar de responder a seus recados.
Ela grunhiu alguma coisa ininteligível, e correu para cima de mim. , que estivera parado próximo a porta do banheiro, a segurou na metade do caminho.
- Alguém tem um sedativo aí? – gritei para as meninas no corredor. – Encontrei o tal leão que fugiu do zoológico. Ou era do circo? – perguntei me virando para ela.
Brooklie se debatia nos braços de , tentado se soltar de qualquer forma.
- Ah, por falar nisso, amei a nova decoração do seu quarto – eu disse dando uma piscadinha.
Ela ficou branca, literalmente. Por alguns segundos, parou de se debater nos braços de , para então voltar com toda força. O que não pareceu ter afetado , que a segurava sem hesitar.
apareceu na porta e entrou com dificuldade para passar pelas garotas apinhadas ali.
- O que está havendo? – ela perguntou com as mãos na cintura e a voz esganiçada. – Que porra é aquela dentro do nosso quarto?
- FOI ELA – Brooklie apontou para mim. Ela berrava, e eu estava começando a me assustar. Seu rosto estava vermelho de raiva. – LIA, ELA ACABOU COM O NOSSO QUARTO!
- Você? – olhou para mim franzindo a testa. – Valeu, eu também durmo lá, sabia?
- É só você trocar de quarto – eu disse dando de ombros. – Quero dizer, você com certeza estará em melhor companhia.
- , ACABA COM ELA, PELO AMOR DE DEUS – Brooklie continuava surtando nos braços de . Ele parecia estar começando a ter dificuldades em contê-la.
parou e analisou a situação por um instante. “Certo, mantenha a calma Broo”. Então se virou para a porta, onde as garotas curiosas disputavam lugar para assistir. “Quem aí tem uma cama sobrando no quarto?”.
Brooklie parou de respirar, isso era visível. Uma garota gritou lá nos fundos confirmando que tinha uma.
- Ok, vou pegar minhas coisas – se virou para Brooklie, que continuava sem respirar. A única indicação de que continuava viva eram as lágrimas de ódio escorrendo de seus olhos. – Tchauzinho Broo – disse dando um sorriso cínico para a garota e saindo do quarto em seguida.
- Gente, alguém chamou o diretor, ele está vindo! – uma garota gritou ao fundo.
Seguiu-se uma confusão em seguida, na qual conseguiu tirar Brooklie de meu quarto, enquanto ela continuava a se debater e as meninas se espalhavam, cada uma correndo para seu próprio quarto.
- , você pode se esconder aqui – eu gritei para ele.
entrou no quarto às pressas, ofegante.
- Meu Deus, o que houve? – ela perguntou desesperada.
voltou ao quarto e trancou a porta, se encostando ofegante a ela em seguida.
- Vai pro banheiro – eu disse, rindo da situação.
Os gritos escandalosos de Brooklie do outro lado da porta e as batidas fortes que ela dava me assustaram um pouco, mas não mais do que o grito de uma voz grossa que veio em seguida.
- O que está havendo aqui? – reconheci a voz do diretor esbravejando no corredor. – Senhorita Patterson, o que acha que está fazendo?
- AQUELA VACA ACABOU COM O MEU QUARTO – ela gritou.
Eu arregalei os olhos para , que me encarava boquiaberta.
- Já para a minha sala! – ele disse firme.
Prendi a respiração.
- Mas ela... – ouvi sua voz desesperada.
- Não me faça repetir, senhorita! Para minha sala agora.
Ouvi-a grunhir de ódio antes de sair batendo o pé pelo corredor.
Alguns segundos depois novas batidas foram ouvidas na porta.
- Senhoritas, podem abrir a porta? – pediu a voz do diretor.
Okay, respire.
- O que eu faço? – sibilou desesperada.
Respirei fundo e esfreguei as mãos em meus olhos, provando lágrimas e adquiri uma expressão chorosa.
- Abre – sibilei de volta.
Arranhei de leve minhas bochechas antes que ela abrisse a porta. Essa é a vantagem de se ficar vermelha fácil. Baixei a cabeça e apoiei os braços no joelho.
- , está tudo bem? – o diretor perguntou preocupado, adentrando o quarto.
Balancei a cabeça negativamente, forçando os olhos até que as lágrimas começassem a cair.
- O que houve? – ele perguntou, provavelmente para .
- Aquela maluca da Brooklie veio aqui e começou a gritar com ela – disse .
- Por quê?
Levantei a cabeça, mostrando meu rosto choroso.
- Ela chegou aqui gritando e me acusando de ser a responsável pelo que fizeram no quarto dela – eu disse, dando um belo soluço em seguida. – Eu não entendo, nós éramos amigas, mas ela tem me tratado tão mal nos últimos dias! E agora – outro soluço -, isso. Não entendo o que houve!
- Certo, se acalme – ele pediu, se aproximando de mim e sentando ao meu lado na cama. – Vou fazer o possível por você, querida.
- Eu, eu estou ficando com medo dela – eu disse, deixando novas lágrimas escorrerem por meu rosto. – Não consigo entender tudo isso, é confuso demais pra mim. As pessoas no Brasil não eram assim.
- Ok moça, se acalme – ele tornou a pedir. – Vou dar a ela uma suspensão. Se isso não resolver, quero que me procure imediatamente, entendido?
Assenti com a cabeça. “Obrigada senhor” disse com a voz chorosa, dando um sorrisinho triste. “É muito bom ter o apoio de alguém por aqui”.
Ele passou a mão por meu rosto, enxugando uma lágrima.
- Certo – ele disse ligeiramente desconfortável. – Melhor eu ir logo – se dirigiu a – Cuide dela, por favor.
- Claro – ela concordou, tomando seu lugar ao meu lado na cama.
Só bastou que ouvisse o som da porta se fechando para aparecer na porta do banheiro.
- Será que alguém agora me explicar alguma coisa, porra! – exigiu estressada.
Eu ri, desmanchando totalmente minha cara de choro.

Capítulo 16
Misery Business

- Bom, só para comunicar, Brooklie está expulsa do nosso grupo, ela não é mais uma líder de torcida – comunicou com um sorriso presunçoso no vestiário, enquanto arrumávamos o uniforme.
- Foi expulsa? – perguntei quando a maioria das meninas já tinha se retirado do vestiário.
- É, parece que o diretor quer cortar qualquer tipo de contato que vocês possam ter – Ela contou, e eu passei pela porta logo atrás dela. – E me perguntou quem eu preferia na equipe. Chegou a ficar surpreso quando te escolhi.
- Ela é melhor do que eu nos movimentos, não entendo por que fez isso – eu disse confusa.
- Mas você se dá melhor no trabalho em equipe, pra começar – ela puxou o rabo de cavalo, apertando-o. – Ela roubou meu posto de chefe das líderes de torcida no meio do ano passado, é claro que não iria deixar isso acontecer de novo.
Ergui as sobrancelhas, surpresa “Vocês não eram melhores amigas?”.
- Brooklie só é amiga de si mesma – ela disse, então se dirigiu a todas que tagarelavam no meio da quadra. – Ok garotas, alongando!

Mesmo toda suada e sentindo meus músculos começarem a reclamar, fui até a sala de espelhos do prédio masculino, sabendo que precisaria sair de lá em uma cadeira de rodas.
- está puto com você – me avisou assim que fechei a porta.
- Ah, legal, ele já está sabendo – respondi infeliz.
- E tem alguém na escola que não está? – ele ergueu as sobrancelhas. Eu ri sem graça. – Por onde quer começar hoje?
- Não podemos sair e tomar um refresco? – pedi com carinha de cachorro sem dono. – Tive um dia difícil.
Ele sorriu. “Está bem” concordou se levantando do espelho onde estava encostado e vindo em direção a porta.
Mal pude acreditar quando ele segurou a porta para que eu passasse, mas não me atrevi a questionar.
E minha felicidade durou pouco, pois a cara de ao parar na minha frente quando já estávamos próximos ao portão me assustou.
- Onde você pensa que vai? – ele questionou autoritário.
Eu franzi a testa. “Por que você está falando comigo desse jeito?”.
- Você chegou a pensar em me procurar? – ele continuou, ignorando meu protesto. – Isso chegou a passar pela sua cabeça, ou você estava ocupada demais com seus lindos movimentos na quadra? – ele ironizou na última parte.
- Quando eu voltasse...
- Ah, claro, eu aqui, o otário aqui se matando de preocupação e você ia me procurar quando voltasse? – ele estava realmente bravo e meu orgulho estava começando a afetar meu humor. – Por que não me ligou pelo menos?
- , eu não tenho celular – me justifiquei, com a voz um pouco alterada.
- Podia ter pegado o do – ele sugeriu.
- Não gosto de ficar pedindo nada – cruzei os braços na frente do corpo.
Ele me observou um minuto, até que sua cara de bravo se desfez.
- Pode ir – ele disse, então voltou a mim. – Vem cá, pequena.
E me abraçou. Fiquei confusa por um instante, mas o efeito de seu perfume e o calor de seu corpo tão próximo a mim me derreteu, me fazendo envolver os braços a sua volta também.
- Desculpe – ele sussurrou contra meu cabelo.
- Tudo bem – eu disse, sentindo seu peito firme contra minha bochecha. – Te amo.
- Também te amo, pequena – ele segurou as laterais de meu rosto e me deu um beijo na testa. – Aonde você quer ir? – dei de ombros. – Quer aproveitar e jantar comigo? – ele pediu com um sorrisinho, segurando minhas mãos.
- Humm – fiz uma cara de pensativa. – Quero – respondi sorrindo.
Ele abriu mais o sorriso e me deu um selinho. “Vou pegar a moto, troque de roupa enquanto isso”.
Assenti e fiz o que ele pediu. Afinal minha saia de líder de torcida não era a coisa mais recomendada para ir jantar, ainda mais se o transporte for uma moto que me dá a impressão de estar a ponto de voar.
Dentro de quinze minutos estávamos adentrando uma ampla e fria garagem.
- Shopping? – perguntei confusa quando as portas do elevador em que entramos se abriu novamente para o grande complexo de lojas.
- Que foi? Achei que você gostasse disso – ele passou as mãos por cima de meus ombros, caminhando ao meu lado.
Ele ainda não devia ter percebido o brilho nos meus, mas eu sabia que ele estava lá. O brilho, quero dizer. Aquilo não era um shopping, ah não, aquilo era uma insanidade. Se isso era um shopping, o que era aqueles lugares por onde eu tanto andava no Brasil? Galerias?
Eram tantas lojas que me senti zonza por um instante. Por dois, por três... segurou firmemente meu corpo.
- , o que foi? – ele perguntou.
Respirei fundo, voltando a sustentar meu próprio peso aos poucos.
- Nada, só uma tontura – dei um sorrisinho triste. – Já estou bem.
Ele me observou pelo canto dos olhos, suspeitando, enquanto eu o puxava em direção a loja mais próxima que vi.
- Vai me dizer que você gostou disso? – questionou com uma careta, observando a mesma vitrine que eu.
Um vestido de estampa florida bege e verde estava exposto em uma das manequins.
- O dia que eu vestir uma coisa dessas vai ser o mesmo em que darei um tiro na minha testa – sentenciei puxando ele para prosseguir pelo corredor. – Mas por que afinal viemos para cá?
- Bom, ainda está um pouco cedo para jantar, então por que não dar uma volta com a minha linda namorada? – ele ergueu as sobrancelhas, me deixando sem graça. – E acho que estou te devendo roupas novas.
- , odeio que paguem as coisas para mim – eu disse com uma careta.
- Encare como um reembolso.
- Sério , isso realmente me incomoda – segurei suas duas mãos ficando de frente para ele, e de costas para o caminho que seguíamos enquanto andávamos. – Você não devia se preocupar com isso.
- Quero ver minha namorada bem vestida pra poder exibir ela, pode ser então? – podia ver naqueles olhos azuis que ele não desistiria tão fácil. – Você não pode negar que seu guarda-roupa deve estar meio escasso para o inverno que está chegando.
- Tá bom – concordei a contra gosto. – Mas não se acostume a gastar comigo! Odeio isso.
- Bom, dinheiro é uma coisa que não vai me fazer falta tão cedo, então, relaxe – ele me deu um selinho.
Me virei novamente para nosso caminho, mantendo apenas uma mão entrelaçada a dele.
Achei que iria se encher disso rapidinho, mas até que ele agüentou bem. Por sorte, na maioria das lojas que passamos até que eu fui bem rápida, considerando o tempo que geralmente levo para escolher uma peça de roupa. Digamos que o interesse das vendedoras em serem úteis ajudou bastante nisso.
- Ok , já são nove horas, podemos comer agora? Estou faminta – pedi, andando ao seu lado com mais uma sacola na mão.
- Ainda falta uma coisa – ele disse com um sorriso que eu não entendi.
- , já cheguei a comprar sapatos, você tá pior do que um amigo gay! – protestei, sentindo o cansaço me incomodar novamente. Eu amo fazer compras, certo, mas já estava bom por hoje. – O que mais você quer? - ele indicou com a cabeça, e eu olhei na direção. – Há, nem pensar! – protestei totalmente incrédula. – Não vou entrar aí! Garotas não compram lingeries junto com os namorados!
- Eu sei – respondeu tranquilo. - Por isso eu espero aqui fora.
Ele sentou no banco pelo qual passávamos.
- Você está falando sério?
- Aham, pode deixar isso aqui – ele tirou a sacola que eu levava de minha mão. – Quando terminar, é só me chamar. Pode demorar o quanto quiser aí – eu o fuzilei com o olhar. – Se você não for lá escolher, eu compro e depois te entrego, você decide.
Bati o pé e me virei para a loja, respirando fundo para tomar coragem. “Certo” disse para mim mesma, “Eu posso fazer isso”.
- Amor – me chamou. Eu estava crente que ele iria dizer que era brincadeira, que eu não teria que comprar nada, mas ele logo cortou minha alegria: - Não tenha vergonha de ousar.
Minha boca deve ter ido parar no chão, de tão absurdo que era aquilo. Demorei um instante para me recuperar novamente. Dei uma bela fuzilada em antes de voltar a caminhar em direção a loja. “Te amo” o ouvi dizer antes de entrar, me fazendo dar um sorrisinho involuntário.
Parei para observar alguns dos sutiãs ali pendurados e uma jovem vendedora não perdeu tempo em vir me rondar.
- Precisa de ajuda? – ela ofereceu com aquele sorrisinho simpático que é paga para dar.
- Ahn, meu namorado me obrigou a vir aqui – eu disse, louca para me livrar disso logo. – Será que tem alguma coisa do meu tamanho? Não sei direito o que escolher...
- Deixe ela comigo, Megan – uma outra vendedora me cortou. Eu nem tinha me dado conta de que alguém mais estava me escutando. – Pode ir – insistiu ela para a vendedora mais jovem, que fechou a cara ao se afastar.
Com um cabelo até os ombros e só um pouco gordinha na barriga, a mulher aparentava menos de quarenta e até era atraente. Mas não entendi o porquê da repentina intromissão.
- Eu sei do que você precisa, querida – ela disse com um sorriso carinhoso. – Por aqui – ela me guiou pela loja, parando em alguns pontos e pegando algumas peças. – Primeira vez que você faz isso sozinha? – ela perguntou inocentemente.
- Aham - me senti extremamente desconfortável, como se fosse uma criança.
- E onde está o seu namorado? – ela colocou outro par de lingeries em meus braços.
- Lá fora – respondi olhando para o chão.
- Espere um instante – ela se afastou até a porta da loja, dando meia-volta e passando por mim, fazendo sinal para que a seguisse mais fundo na loja. – O que você acha desse? – ela perguntou me mostrando um conjunto de espartilho, calcinha e uma rendinha para a perna. Arregalei meus olhos para ela. – É, algumas fazem isso quando eu mostro, mas todas sempre voltam para comprar outro. O seu namorado é aquele sentado no banco, não é? – assenti com a cabeça, observando os detalhes em fita no espartilho preto e vermelho. – E o que ele diria disso?
Minhas bochechas esquentaram. “Acho que, uou” disse, pensando em sua reação.
Ela colocou na frente do meu corpo, medindo. Olhei para os lados, querendo me enfiar dentro de um buraco negro.
- Relaxe querida, não tem ninguém olhando – ela parou de medir o espartilho e o colocou na pilha em minhas mãos. – Ele serve. Acho que está bom por hoje, não é? – assenti silenciosamente com a cabeça. – Espere, não esqueça os assessórios – ela deu um sorrisinho e o resto em cima da pilha.
- Na verdade, eu não preciso disso – apontei para a rendinha no topo da pilha. Ela franziu a testa. – Sério, eu já tenho – murmurei baixinho.
- Certo – me arrependi logo em seguida, quando ela trocou a rendinha por algo longo, fino e preto. Meus olhos se arregalaram. – Ah, esse é melhor do que o outro – ela levantou as sobrancelhas. Claro, por que eu tinha que ter aberto minha boca grande? Agora eu tinha um logo chicote nas mãos, que lindo. – Pode me dar isso aqui agora, querida, vou mandar embalar pra você.
- Ok, vou chamar meu namorado – sai de lá com a cabeça baixa, e meus olhos arderam de ódio assim que os pus em . – Será que podemos ir embora?
- Você escolheu alguma coisa? – ele perguntou com um sorrisinho.
- A vendedora escolheu pra mim – eu disse cruzando os braços. – E estou com medo daquilo.
- Vamos , não pode ser tão ruim.
- Ah, pode sim.
- Então quer dizer que provavelmente eu vou gostar, certo? – ele perguntou com aquele sorrisinho safado no rosto. – Me espere aqui – ele se levantou e me deu um selinho e, sem nem me dar tempo para protestar, entrou na loja, só saindo de lá novamente com uma sacola nas mãos.
- Só me diz que pelo menos você não olhou – perguntei, suplicando por dentro.
- Não, não olhei amor – ele pegou as outras sacolas no banco. – Agora sim, vamos comer.
- Finalmente! – comemorei, caminhando ao seu lado.
Jantamos tranquilamente em um dos restaurantes da praça de alimentação, e que não deixou absolutamente nada a desejar.
- Quer algum doce? – ele perguntou enquanto atravessávamos a praça de alimentação.
- Ah, não sei... – olhei a minha volta, dando uma rápida olhada nas opções. Um forte cheiro de cappuccino ou alguma coisa parecida chegou em meu nariz, vinda provavelmente da Starbucks. Aquilo embrulhou meu estomago violentamente. – Deus, vamos sair daqui, que terrível! – puxei apressada para longe dali, tentando com todas as minhas forças não vomitar.
- O que foi? – ele perguntou confuso.
Mas já era tarde, aquele cheiro havia me detonado. Uma placa logo a frente indicava um banheiro há alguns metros. Corri pelo corredor deixando para trás, e entrei apressada no banheiro, empurrando umas duas mulheres que ficaram em meu caminho. Novamente aquela sensação de queimação tomou conta de minha garganta, e eu vomitei pela segunda vez naquele dia.
- Meu Deus, o que houve ? – perguntou desesperado, me atacando assim que sai do banheiro feminino.
- Um cheiro horrível de cappuccino – eu disse com uma careta.
Ele me olhou suspeito. “Você adora cappuccino”.
O estranho é que isso era verdade. “Mesmo assim... fiquei um pouco enjoada”.
- Vou marcar uma consulta pra você – ele sentenciou.
- , eu estou bem – protestei.
- Não, você não está – ele me olhou sério e eu não conseguia acompanhar direito o que ele dizia, pois já havia me perdido naqueles olhos azuis.
- Acho que é só o cansaço – cortei-o no que quer que ele ainda estivesse falando. – Podemos voltar para escola? Tô morrendo de sono.
Ele bufou. “Vamos”.

- me chamou na porta do meu quarto.
- Acho que já está tudo pronto – disse a mim, fechando sua mochila. – Até segunda – ela acenou e saiu do quarto.
- Entra – eu convidei tacando o resto de roupa embolada dentro da mochila, já que eu sempre deixava para arrumar tudo no último minuto nas sextas nunca dava tempo de dobrar. – Você viu se Rachel já chegou? – ele franziu a testa. – A mãe da Lauren.
- Ah, acho que não – ele disse entrando no quarto e me abraçando pelas costas. – É... pra você – ele estendeu um celular a minha frente.
- Ah, – me virei para ele emburrada. – Obrigada, mas você sabe que não posso aceitar.
- Qual é – ele reclamou me abraçando de frente agora. – Você precisa de um e sabe disso.
- Já não bastaram as roupas ontem? – reclamei incomodada. – Pagar um jantar é uma coisa , isto já está passando dos limites.
- Prometo que é a última coisa – ele tentou me dar um selinho e eu virei o rosto. Mesmo assim ele me deu um beijo na bochecha. – Por favor, preciso ter contato com você. E além disso, o fato de seu celular ter se explodido foi culpa minha, assim como suas roupas.
- Eu posso muito bem pedir um novo para minha mãe, não sou tão pobre quanto você pensa – é, aquilo me irritava.
- Eu sei que não é – ele me olhou sério. – Mas gosto de manter contato com você, saber que está bem, e até sua mãe te mandar o dinheiro e você comprar um novo...
Bufei impaciente. “Me dá isso aqui vai”. Arranquei o celular de sua mão e liguei-o. Tela grande e ricamente colorida, mostrando uma foto que me derreteu por dentro. O idiota tinha me vencido. Era uma foto nossa. Mas não qualquer uma: era aquela que tinha tirado quando nos conhecemos, quando dormimos – literalmente – juntos. No papel de parede ele estava em um sono profundo ao meu lado, com uma expressão tranquila, quase como feliz. Muito parecida comigo, na verdade.
- Own, te amo ! – dei um selinho nele e isso logo virou um beijo.

Capítulo 17
We’re broken

E naquele fim de semana, quando finalmente achei que iria ter um pouco de descanso e poderia passar um tempo de qualidade com a minha “família britânica”, meu celular tocou pela terceira vez naquele domingo. Não era ou , como mais cedo. Em plena cinco horas da tarde de um nublado sábado, descobri ser quem me ligava.
- Coloca uma camiseta e um casaco por cima, vou passar aí em vinte minutos – ele disse e eu demorei um segundo para assimilar.
Abaixei a TV e empurrei a cabeça de Lauren de meu colo para poder me levantar.
- Você não consegue me deixar em paz nem no fim de semana? – perguntei irritada. – Qual é , segunda-feira a gente...
- É mais casual irmos no fim de semana – ele me cortou. Eu bufei. – Vou passar aí, não me faça tocar a campainha quando chegar.
- Eu não vou... – mas ele já havia desligado. - ...sair – completei para o nada.
- Vamos sair para jantar hoje – avisou Lauren, se sentando no sofá. – Se for sair, não demore. Vamos sair oito horas.
- Tá bom, maninha - murmurei subindo vagarosamente as escadas.
- Aproveita e traz um lenço pra mim quando descer – ela pediu.
Eu começara a chamar Lauren assim desde que ela me abraçara ontem dizendo que estava morrendo de saudades da irmã – no caso, eu era a irmã. Definitivamente pessoas doentes ficavam mais carentes. E nojentas pois, apesar de ela já estar melhorando, ainda não parava de assoar o nariz.
Já eu, não vomitava desde quinta, e isso era realmente bom.
Peguei uma babylook qualquer preta e um dos meus novos agasalhos. Calça jeans e os cabelos presos em um rabo de cavalo alto que deixava algumas mechas aparecendo nas laterais da cabeça. Ouvi uma buzina e olhei rápido pela janela, vendo que me esperava lá embaixo em um carro prata. Sai pelos corredores pulando em um pé só tentando calçar os all star pelo caminho e jogando o lenço que Lauren tinha pedido ao seu lado no sofá.
- Casual o bastante para você? – perguntei abrindo a porta do carona e entrando.
- Entra logo – ele me apressou.
deve sentir certo prazer em me irritar, não é possível.
- Que foi, a te deixou na mão e você veio descontar em mim? – retruquei, batendo a porta.
Bater a porta do impecável carro dele pareceu ter surtido efeito quanto a irritá-lo.
- Não, vamos sair mais tarde – ele arrancou o carro de uma vez na ruazinha tranquila.
- Onde afinal estamos indo? – perguntei depois de alguns minutos.
- Você vai ver – ele disse com um sorrisinho de lado.
Isso me assustou um pouco, admito.
- Qual é o problema que as pessoas têm em me dizer onde estamos indo? – reclamei em voz alta cruzando os braços e afundando no banco.
Ele ligou o rádio, passando as estações até parar em “Misery” do Good Charlotte. Paramos em um sinal fechado e ele cantarolava e batucava no volante conforme a música. Mas não como eu, ou a maioria das pessoas fazia, eu reparei. Ele tinha ritmo na batucadas.
- Você toca bateria? – perguntei quando o sinal abriu e ele fez o carro voltar a andar.
- Toco – ele respondeu olhando para os carros à frente. – Por quê?
- Nada – murmurei me virando para a janela.
O resto do caminho foi acompanhado apenas pelas músicas que continuavam a tocar na rádio. Ele estacionou o carro e eu o segui pela calçada até ele parar em frente a um lugar malcuidado de paredes cinzentas manchadas e portas de ferro.
- Segure minha mão – ele pediu, eu o olhei confusa. – Anda, segura – eu fiz o que ele pediu e ele entrelaçou nossos dedos. – Pra qualquer efeito você é minha namorada. E ignore se mexerem com você, certo?
Concordei com a cabeça.
Ele adentrou o lugar e uma barulheira vinda de algum lugar lá dentro era alta devido aos ecos nas paredes. Eu conseguia discernir alguns xingamentos e frases conforme nos aproximávamos mais do balcão, mas havia algum som que eu não conseguia identificar. As paredes estavam lotadas de armas, me fazendo encolher ligeiramente.
- Namorada? – um homem com a barba branco-acinzentada malfeita e uma barriga estufada para frente nada bonito perguntou ao Judd.
- Pois é – ele disse parecendo descontraído, passando o braço por cima de meus ombros. – Achei que tava na hora dela aprender algumas coisas.
- Ela parece meio jovem para entrar aqui – ele lustrava uma arma com um pano e eu tentei não parecer assustada com o tamanho dela. – Está com os documentos aí?
Claro, todo mundo sempre me achava com cara de pré-adolescente. Realmente ter cara de mais jovem ajuda, mas quando você é mais velha. Nesses casos só me causava o constrangimento de sempre ter que mostrar a porra dos documentos. E é por isso que, como sempre, eu estava com eles em meu bolso.
- Ah, qual é – disse persuasivo para o homem me fazendo parar com a mão na metade do caminho para o bolso – desde quando você pede documentos?
O cara respirou fundo, largando a arma em cima do balcão de vidro. “Certo, podem entrar” ele disse parecendo de repente de bom humor.
- Duas horas – o disse fazendo sinal de dois com os dedos e me puxando para os fundos da loja. Uma porta estava aberta ali, entre algumas estantes – É por isso que está essa barulheira, algum idiota deixou a porta aberta – ele comentou.
Ele fechou a porta atrás de nós e passamos por um corredor mal iluminado, os barulhos se tornando cada vez mais altos. Somente quando adentramos um amplo espaço eu descobri o que era aquele som que não tinha conseguido identificar. Tiros.
Ali estava lotado de gente – a maioria homens – gritando para poder serem ouvidos devido aos grandes tampões nos ouvidos ou simplesmente xingando alto para descontar a raiva. Alguns poucos estavam encostados nas paredes esperando sua vez eu acho; todos os outros estavam posicionados em suas cabines, atirando nos alvos no lado oposto na parede.
logo providenciou tampões para nós com um dos caras que estavam encostados na parede, me aliviando consideravelmente daquele barulho. me passou um par de luvas pretas de couro, enquanto ele mesmo vestia as suas. Ele me levou até mais adiante e uma das últimas cabines estava vazia. Ele pegou uma arma e dispensou o cara que nos acompanhava.
Eu cruzei os braços e fiquei encarando , esperando uma resposta.
Ele se aproximou e puxou um dos meus tampões, para que pudesse escutá-lo direito. “Atirar é mais eficiente do que bater”.
Eu puxei um dos lados do seu tampão para que ele também pudesse me escutar. “Isso é mesmo necessário?”.
Ele assentiu com a cabeça. “Você vai acabar achando divertido”.

Eu estava em meu tranquilo e preguiçoso sono de domingo, sonhando que caminhava com ao meu lado, que carregava uma linda criança em cima dos ombros, que ria de felicidade.
Mas claro, a sociedade de hoje em dia não dá mais valor a pequenos momentos felizes como esses, mesmo que fosse um sonho. E nem respeitam coisas sagradas como meu sono de domingo.
Despertei contra minha vontade com o irritante toque do meu celular, o qual eu ainda não havia conseguido trocar, e que parecia furar meus tímpanos de tão estridente.
Estiquei minha mão e tateei pela cabeceira a procura do celular.
- Alô – atendi grogue.
- Vou te buscar mais cedo hoje – eu demorei a assimilar o que a voz falava.
- , eu tô dormindo – eu disse tolamente.
- Que horas você prefere? Depois do almoço, claro – ele ignorou o fato de que eu estava dormindo.
- Qualquer hora depois que eu acordar – respondi mal-humorada.
- Ótimo, duas horas eu passo aí – ele não se deixou abalar por estar me ligando tão cedo de jeito nenhum.
- Sério, , eu te odeio – reclamei.
- Duas horas, não esquece, ou te arrasto da cama porta afora – ele ameaçou e desligou.
- Vai se ferrar – retruquei para a linha muda.
Deixei o celular ao meu lado mesmo e me ajeitei na cama.
E eu já estava quase caindo no sono de novo quando meu celular voltou a tocar. Aquela maldita musiquinha me enlouquecendo novamente.
- Que droga, me dá um descanso! – reclamei praticamente gritando assim que atendi, deixando a raiva por estar sendo acordada de novo fluir.
- Foi mal, não achei que estivesse sendo tão pegajoso – a voz de do outro lado da linha me fez sentir como se uma faca estivesse me cortando por tê-lo deixado tão sem jeito sem motivo.
- Não amor – me apressei a desculpar – achei que fosse outra pessoa, desculpe.
- Ah... devo ter te acordado né? – ele ainda estava sem jeito. – Desculpa, eu...
- Não não, tudo bem, querido – eu o cortei. – Você não me acordou, ainda não tinha voltado a dormir, pode falar.
- Ah... estava pensando em fazer alguma coisa... sabe, domingos podem ser extremamente entediantes sem você.
Eu dei uma risadinha, sorrindo.
- Tudo bem, o que você quer fazer? – afastei as cobertas e me sentei na cama. A cama de Lauren estava vazia, mas ainda bagunçada. Eu não me acostumava com a idéia de outra adolescente acordar antes das onze em um domingo.
- Não sei... Podemos assistir um filme, passear, ir ao cinema, patinar... Você decide.
- Patinar – vibrei animada. – Que horas?
- Posso passar umas cinco horas pra te pegar.
- Sete horas – corrigi, lembrando de .
- Ok... O que vai fazer à tarde? – perguntou descontraído.
- Passar algum tempo com Lauren – menti descaradamente. Como eu poderia falar: Ah , vou sair com o seu melhor amigo, atirar um pouco... Sabe como é, já que estamos sob ameaça de morte repentina é bom me prevenir como puder.
- Eba! – Lauren entrou no quarto com o cabelo bagunçado e seu pijama de moletom.
- Eba o que? – perguntei tampando o celular.
- Você vai ficar um pouco comigo – ela disse com um sorrisinho feliz.
Ah, ótimo. Eu precisava de mais uma para enrolar agora.
- Ela já melhorou? – perguntou.
- Ah, é, está quase boa – respondi fazendo sinal para que Lauren saísse do quarto. Ela emburrou a cara e saiu. – Como está indo no futebol? – mudei de assunto.

- Para onde vamos, mana? – Lauren perguntou animada quando desci para a cozinha, desistindo de dormir até o meio-dia.
- Lugar nenhum – respondi enchendo um copo de leite.
- Mas você disse a que ia sair comigo – me virei para ela que estava encostada na bancada fazendo uma carinha de cachorro sem dono. – Estou enfiada em casa há uma semana!
- Primeiro: Essa carinha de coitada você aprendeu comigo, não venha usar contra mim – alertei e ela emburrou a cara, toda bravinha. – Segundo: Nós saímos para jantar ontem.
- Mas sair com a família não conta!- ela reclamou parecendo indignada.
- Ahá! – apontei para ela. – Se eu sou irmã, sou da família, então você se ferrou.
- Mas ...
- Hoje não dá, amore – peguei biscoitos dentro do pote em cima da bancada onde estava comendo. – Outro dia, pode ser?
Ela revirou os olhos. “Pode né. Mas por que não dá? Você não vai sair com o e pelo jeito está mentindo para ele”. Ela me observou atenta.
Engasguei um pouco com o leite. “Não estou mentindo pra ninguém” me apressei a dizer.
Ela me olhou desconfiada. “Você está sim”.
- Não estou – insisti mesmo sabendo que era inútil.
- Ah, você está – ela veio para perto de mim, apoiando as mãos na bancada e me olhando de um modo penetrante. – Pode ir contando.
- Bom dia, querida – para meu alívio Lauren se afastou assim que a mãe entrou na cozinha. – Caiu da cama?
- Não mãe, agora ela é pop – respondeu Lauren antes de mim. Eu fiz cara feia pra ela. – Recebe ligações logo pela manhã.
- Estranho, nem ouvi o telefone da sala tocar – ela abriu a geladeira e começou a vasculhá-la.
- Foi meu celular – respondi sem pensar.
- Achei que ele tivesse sido roubado semana passada – Rachel espiou por cima da porta da geladeira. – Conseguiu recuperá-lo?
É claro que ela sabia que eu não tinha dinheiro para comprar um, pois em geral era ela quem pegava o dinheiro que minha mãe depositava no banco – mesmo sendo a minha conta. Mas Lauren foi mais rápida do que a minha capacidade de inventar uma desculpa.
- Foi presente do namorado dela.
Sorri sem graça, desviando o olhar para meu copo de leite, mesmo sabendo que Rachel ainda me observava.
- Namorado? – ela perguntou. – Você já tem um namorado e nem me contou?
- É que não faz muito tempo – eu disse sem graça olhando timidamente para ela.
Rachel fechou a porta da geladeira e me encarou com uma mão na cintura. “Não faz muito tempo mas ele já te deu um celular?”.
Isso porque ela não viu as roupas, pensei.
- Nós nos apegamos meio rápido – eu disse com um meio sorriso.
- Sei – ela respondeu desconfiada voltando a abrir a geladeira. Mas meu alivio não durou. – Quero conhecê-lo.
Olhei feio para Lauren e sinalizei um corte em meu pescoço, transmitindo a mensagem de que iria matá-la assim que pudesse.
Ela deu de ombros para mim. “Da próxima vez você sai comigo” ela deu um sorrisinho saindo da cozinha, me deixando pasma.

Às duas horas estava esperando , já posicionada atrás do sofá da sala para ficar mais próxima da porta assim que ouvisse a buzina. Se eu fosse rápida pouparia explicações e mentiras desastrosas sobre onde ia e com quem. Eu ri ao comparar a situação com alguém que tem um amante, isso era ridículo.
Logo ouvi a buzina soar lá fora e sai rápido para a porta, mandando beijos no ar para a agora indignada Lauren perguntando aos gritos onde eu estava indo. Minha resposta foi o cantar de pneus do carro de assim que adentrei o veículo. Qual é, Lauren não podia só ter calado a boca hoje? Malditas segundanistas.
Quando adentramos novamente aquele lugar malcuidado e cheio de armas nas paredes, disse que não sabia quanto tempo passaríamos ali e o cara apenas assentiu com a cabeça. Mais uma vez, ele me ensinou os melhores jeitos para atirar. Conforme eu ia pegando o jeito, ia conseguindo acertar com mais frenquencia o alvo que queria.
- Dá próxima vez, vamos no paintball, para você tentar fazer isso em movimento – ele avisou, passando o braço por meus ombros enquanto saíamos dali. Eu sorri com a idéia.
- Vai ser divertido – eu disse entrando no carro e observando ele dar ré para sair da vaga.

Já eram seis horas quando cheguei em casa e eu precisava urgentemente de um banho antes de começar a me arrumar.
Mas assim que saí do meu relaxante banho quente para o quarto lá estava Lauren no computador e começou a disparar por cima da música que o computador reproduzia perguntas como: “Quem veio te buscar? O vidro era muito escuro. Onde você foi? Por que eu não podia simplesmente ir com você? Por que demorou tanto?”.
- Agora eu entendo por que as pessoas costumam odiar os irmãos – foi minha resposta.
Ela continuou tagarelando, mas minha mente foi para longe quando comecei a escolher o que vestir para sair com . Com certeza uma calça jeans eram o mais apropriado. Escolhi uma de lavagem escura. Mas que camisa? Vasculhei o guarda-roupa até achar uma das novas, vermelha estilo pólo cheia de escritos brancos. Como o vermelho era forte seria mais apropriado um casaco escuro ou...
- Uma tal de “Mari” está perguntando por você – Lauren finalmente chamou minha atenção pelo nome que mencionou. – Por que ela tem meu e-mail?
- Eu passei para caso de emergência – disse indo até o computador para espiar. – Será que dá pra abaixar essa música?
- Belanova é legal vai – ela reclamou mas mesmo assim abaixou o volume.
- Manda uma resposta avisando que mais tarde falo com ela – pedi me apoiando no encosto da cadeira dela. – E avisa que estou bem e viva.
Voltei para o armário e coloquei um colete de lavagem escura para combinar com a calça. Eu podia colocar o mesmo casaco que havia usado a tarde e que estava pendurado perto da porta da sala.
As sete e cinco meu celular tocou, o nome de constando no visor.
- Oi amor – atendi carinhosa.
- Estou te esperando aqui fora – ele avisou. – E o que você está querendo?
- Ahn... como assim? – perguntei desconcertada.
- Sempre que você faz essa voz e eu sei que carinha você deve estar usando, é porque quer alguma coisa – ele respondeu em tom normal.
É, talvez eu tivesse sido carinhosa demais ao atender.
- Não é que eu queira alguma coisa – me defendi dando os últimos retoques da maquiagem na frente do espelho. – Na verdade é a Rachel.
- Quem? – perguntou.
- Rachel – repeti impaciente. – A mãe da Lauren. Te disse isso na sexta.
- Ah, é – ele respondeu. Eu rolei os olhos para minha própria imagem. – O que ela quer, que você volte cedo?
- Ahn... é um pouco pior – fiz uma careta.
- Fala logo – agora ele quem estava impaciente.
- Ela quer conhecer você – eu avisei. – E o pai de Lauren já deve ter chegado da viagem de trabalho do fim de semana, então...
Houve um minuto de silêncio no qual eu comecei a esperar ouvir os pneus de seu carro cantarem como de , anunciando que ele estava positivamente desistindo de mim. Como eu consegui adicionar a palavra “positivamente” nesta frase eu não entendi, mas vamos à parte importante.
Houve um suspiro do outro lado da linha.
- Foi culpa da Lauren, não minha – me antecipei a defender.
O ruim daquele quarto é que a janela era virada para os fundos da casa, e não para a entrada, então eu não tinha como saber se ele já estava indo embora silenciosamente.
- Ok – ele disse e desligou o telefone.
- , – chamei inutilmente para a linha muda.
Corri escada abaixo desesperada pela possibilidade de ele realmente ter ido embora. Mas antes que chegasse ao primeiro degrau, a campainha tocou. Meu alivio enfraqueceu minhas pernas por um instante, me fazendo desequilibrar por um segundo no corredor. Me recompus rapidamente e fui para a sala atender a porta. Mas Rachel foi mais rápida do que eu.
Eric, o pai de Lauren, que estava sentado no sofá, virou a cabeça para olhar quem estava cumprimentando tão educadamente sua esposa.
- Ah, você está ai – Eric disse se virando para mim. – Já estava começando a achar que tinha voltado para o Brasil – ele brincou.
Eu dei uma risadinha.
- Entre, entre – Rachel convidava fervorosamente .
Lauren apareceu pelo corredor.
- Veio assistir ao show? – sussurrei brava.
- Hey, maninha, relaxa – ela colocou a mão nos meus ombros e me balançou de leve.
- Boa noite, senhor – estendeu a mão para Eric que a apertou.
- Esse é o seu namorado? – Eric perguntou-me. Estremeci com seu olhar profundo, eu não estava acostumada com autoridade de pai em casa. Assenti com a cabeça engolindo em seco. – Vão lá pra cima, gostaria de ter uma conversinha com ele.
- Vamos meninas – Rachel me deu um sorrisinho e foi nos empurrando pelo corredor.
Lancei um olhar nervoso para antes de continuar e subir as escadas.
Tudo que eu pude ouvir foi ele pedindo a para sentar-se. Achei que iria ser ruim, mas nem tanto. Rachel nos deixou no quarto e voltou a descer para juntar-se ao marido. Comecei a roer minhas unhas e descascar o esmalte azul nelas.
- , aproveita para falar com suas amigas – ofereceu Lauren nervosamente apontando para o computador.
- Ser boazinha agora não vai concertar as coisas – murmurei brava para ela.
Certo, eu estava estressada, mas também não era para menos. Mas eles também não podiam achar que eu iria ficar ali deitada na cama pensando na vida enquanto eles interrogavam ou sei-lá-o-que meu namorado, não é?
Girei cuidadosamente a maçaneta da porta, puxando-a vagarosamente. Ela deu um rangido curto, e fechei os olhos com medo. Mas os murmúrios lá embaixo continuaram, então concluí que não tinham me ouvido. Soltei o ar aliviada, puxando um pouco mais a porta para que pudesse passar. Dessa vez ela não rangeu, e eu passei me encolhendo por ela e seguindo na ponta dos pés pelo corredor até a ponta das escadas.
Lauren me seguiu e eu fiz sinal para que ela voltasse, mas ela ignorou. Desci três degraus, sentando encolhida ali e finalmente podendo escutar parte da conversa, mesmo com o maldito comentarista do jogo que passava na TV me atrapalhando.
iria ficar furioso com aquilo. Mesmo que eu soubesse que ele era educado o bastante para não demonstrar isso na frente deles, eu sabia que ele devia estar mais que desconfortável tendo que falar sobre sua vida para Eric e Rachel, que não paravam de lhe fazer perguntas. Se já era difícil para ele falar comigo, imagina com eles? Tomará que ele ainda olhe na minha cara quando sairmos. Quer dizer, se ele ainda quiser sair comigo.
- E o que você faz além de estudar? – perguntou Eric.
Eu quase ri ao pensar em uma resposta atrevida: :como sua filha.
- Sou do time de futebol da escola, toco música e estou na equipe do decatlo acadêmico – ouvi a voz rouca de contar.
Há, há. Decatlo acadêmico? Eric não iria cair nessa nunca.
- Muito bem, meu jovem – ele parabenizou. – Atividades extracurriculares como essas são importantes. Deve ser difícil fazer tudo isso e ainda estudar, afinal as provas de lá não são nada fáceis.
- Mas se ele faz parte do decatlo quer dizer que ele consegue dar conta do resto – Rachel se manifestou.
Não acredito, alguém me explica como eles caíram nessa pelo amor de Deus? Por acaso tinha cara de nerd? Qual é, ele colava de quem estivesse mais perto, fora que ele era repetente, então já conhecia a matéria. Ou pelo menos um pouco dela. E espera aí, eu tenho cara de quem namoraria um nerd? Diziam às vezes que eu era estranha, mas isso já era demais.
- Há quanto tempo vocês estão juntos? – Rachel perguntou.
- Um mês – ele respondeu com facilidade.
Eu me assustei. Estávamos juntos há tanto tempo assim? Eu nem tinha percebido o tempo passar... ainda podia lembrar perfeitamente do nosso primeiro beijo, com todos os detalhes. De repente eu me senti com um calor que não batia com a temperatura fria daquele corredor e escada.
- E como é a relação de vocês? – Rachel perguntou e eu prendi o ar. Onde ele estava tentando chegar? Isso era invasão de privacidade!
Mas nessa hora o comentarista do jogo começou a falar mais alto, e eu não conseguia mais ouvir direito o que eles falavam. Desci cuidadosamente mais um degrau, tentando escutar o que pudesse, com Lauren em minha cola. Mas Lauren não foi tão cuidadosa quanto eu, pois escorregou e fez um barulho. E por mínimo que tivesse sido, pude escutar Eric pedir a Rachel que nos verificasse. Olhei com urgência para Lauren, fazendo sinais desesperados para que ela subisse rápido. Ela parecia não estar entendendo meus sinais, então passei por ela e corri o mais silenciosamente que pude para o quarto, tendo que esperar que ela entrasse para fechar a porta.
Corri para o computador, mexendo desesperadamente no mouse, abrindo o primeiro joguinho que vi. Lauren se largou na cama, olhando para o teto, como se estivesse fazendo isso há horas.
Alguns segundos depois ouvi passos no corredor seguidos pelo rangido da porta se abrindo. Olhei para trás como se estivesse surpresa.
- Pronto, já podemos descer? – perguntei a Rachel.
A expressão em seu rosto não era brava, mas também não era feliz.
- Não – ela respondeu. – E esperem aqui até eu vir chamar ou teremos problemas, mocinhas – e fechou a porta novamente.
Esperei até que os passos no corredor sumissem para poder voltar a porta e girar cuidadosamente a maçaneta de novo.
- Está maluca? – perguntou Lauren se sentando na cama. – Não ouviu a mamãe?
- Ouvi – eu disse dando de ombros. – E você ouviu as perguntas que estão fazendo a ele, eu tenho que saber o que está acontecendo lá!
- Você não vai querer ver a mamãe brava – avisou Lauren. – Os castigos dela não são nada agradáveis, é sério.
- E que você quer que eu faça, espere sentada? – perguntei, minha voz começando a ficar alterada devido ao meu nervosismo.
- É sua única opção – Lauren levantou as sobrancelhas.
Eu estava desesperada, mas talvez ela estivesse certa. Ficar de castigo por aqui não seria legal. Voltei ao computador para poder falar com minhas amigas.

Mari: Finalmente! Achei que você tinha morrido!
Mari, a exagerada.
: Mas você recebeu um e-mail avisando que eu estava viva.
Mari: Mas isso só faz alguns minutos! E talvez estivessem só tentando me consolar.
:
Liz: Oi, oi, oi!
Era isso que amava na Liz, seu jeito alegre e despreocupado.
: Oi! Saudades!
Liz: Hey, achei que tivesse nos esquecido L
: Desculpa, estou realmente sem tempo. Quando entro na internet é só pra fazer trabalho.
Mari: Imagino, aí deve ser difícil.
Liz: Aposto que deve ser divertido.
: Divertido? Meu namorado está lá embaixo sendo interrogado, como isso poderia ser divertido?
Elas demoraram a responder.
Liz: Se ferrou.
: Valeu aí pela força.
Mari: Que bom, pelo menos ele vai te respeitar como deve.
: Falando nisso... ahn, vocês têm visto aquela pessoa por aí?
Mais um silêncio, dessa vez tão longo que achei que elas haviam desconectado.
Liz: Você quer realmente saber disso? Eu não acho uma boa idéia tocar no assunto...
: Fala aí.
Era desconfortável, mas eu queria saber. Eu era curiosa demais para não querer.
Mari: ... pelo jeito você não tem visto minha página né...
: Como assim?
Liz: Você não deve ficar chateada com isso, quero dizer... Nós... nós não pudemos evitar... ele foi se aproximando de nós... e, ele é tão sincero e carinhoso com ela...
Mari: , eu sinto muito. Mas ele não é tão ruim quanto parece, sabe... só precisava de uma chance para...
: Vocês entenderam de quem estou falando? Estou falando do Jack.
O nome dele não tinha nada a ver com o apelido, mas todos insistiam que meu ex-namorado tinha a cara do Leonardo de Caprio, por isso colocaram o apelido do personagem mais famoso que ele havia interpretado. As imagens de nós dois juntos voltaram a minha mente, mas elas eram automaticamente manchadas de sangue. Senti como se a cicatriz em minha perna formigasse.
Mari: Nós entendemos.
Levei um choque, relendo nossa conversa. Se aproximando? Do que elas estavam falando? Como assim?
Abri mais uma pagina na internet, procurando pelo site pessoal da Mari. Mariana Queiroz, a página foi se abrindo vagarosamente, carregando as fotos mais chocantes que eu nunca poderia ter imaginado ver novamente. Eles estavam juntos.
Mari, Jack e Liz. Constava na legenda da primeira foto, onde Jack estava com os braços em cima dos ombros das duas, e todos sorriam.
Meu ar sumiu, mas continuei a rolar a página para baixo.
Liz e Rafael. Eles não são um casal lindo?
A foto era dos dois juntos, dando um selinho em meio a um sorriso.
Rafael? O cara que tinha nos emprestado a casa e que encobriu tudo o que o amigo havia feito, e que mesmo sabendo o que havia acontecido, tinha ficado calado? Não pode ser, eu devo estar em um pesadelo.
Mari e Jack. Estava escrito na legenda de outra foto, em que os dois estavam se beijando, quase se engolindo. Senti o nó que havia se formado em minha garganta piorar ao continuar a ler a legenda. Eu te amo.
Voltei a janela em que conversava com as duas.
: Por que vocês estão fazendo isso? O que são aquelas fotos?
Mari: , me desculpa! Ele tentou de todo o jeito ter contato com você e... bom, nós acabamos juntos, foi inevitável. Entenda, nós nos amamos.
Liz: , eu sei que vocês não se deram bem, mas eles estão felizes juntos.
Eu funguei, desesperada. Aquilo era um pesadelo, tinha que ser. Minhas melhores amigas me traindo? Não, não podia ser.
Mais uma vez as imagens com as quais eu lutava a tanto tempo para desaparecerem de minha mente estavam lá, vividas e dolorosas.
: Vocês duas estão malucas? Eu tive que mudar de país por causa dele, porque ele me perseguia, porque ele...
Mari: , pare de exagerar. Nós entendemos que tenha aparecido essa oportunidade maravilhosa para você sair do país e que coisas horríveis haviam acontecido entre vocês... mas você estava alcoolizada naquele dia, pode ter misturado um pouco as coisas.
: O que? Eu tinha bebido uma lata de cerveja, e você sabe que eu não fico bêbada fácil. Eu sei muito bem o que aconteceu, e vocês também. Mari, se toca, ele é perigoso!
Mari: Não, ele não é. Sabemos que você tinha usado coisas naquele dia , não adianta fingir que não. Ele gostava realmente de você, você sabe disso, ele seria incapaz de te fazer mal.
Liz: Mari, para.
: Que tipo de coisas? Do que você está falando.
Mari: Drogas , é disso que estou falando.
Liz: Mari, chega.
Mari: Não Liz. Ele nos contou. , nós somos suas amigas, não deveria esconder essas coisas da gente.
: Mari, você está vendo o que está dizendo? Ele está fazendo isso com vocês, a mesma coisa que fez comigo. Ele está te cegando. Isso não é certo, não entendo por que estão fazendo isso comigo! Você sabe que ele só está perto de vocês para me achar! Pelo amor de Deus, você tem que ficar longe dele.
Mari: Não, . Durante quase um ano eu fiquei quieta, assistindo a felicidade de vocês dois. Estou cansada disso, de ainda ter que ouvir ele chamar seu nome quando dorme. Será que você não pode parar com isso e nos deixar ser feliz? Você devia ter vergonha de si mesma, inventando tudo aquilo.
Liz: Por favor, parem com isso!
: Mariana, você viu como eu fiquei machucada, como ele acabou comigo! Por que isso agora? Não estou te entendendo, você não é mais a amiga que eu conheci.
Liz: Mari, é verdade, você viu como ela ficou.
Mari: Liz, você está tão próxima dele quanto eu, então nem venha. E ele disse que ela se cortou quando caiu.
:Nossa, meu rosto ficou com aquele hematoma por que eu caí também? Eu imaginei tudo aquilo então? Você não sabe pelo que eu passei sua cretina.
Mari: Não me importa. O que quer que tenha sido, passou, é passado. Ele mudou, ele nunca foi violento comigo. Pare de tentar estragar a minha felicidade.
Liz: , me desculpa.
: Vão se ferrar. Vocês duas estão merecendo a companhia que tem. Só não me entreguem, por favor. Quero viver minha vida aqui em paz e, pelo jeito, não tenho mais motivos para voltar ao Brasil se puder evitar. E não venham chorar mais tarde, quando acontecer alguma coisa ruim, pois eu não vou querer escutar. Vocês merecem o inferno em que logo estarão.
Desconectei antes que pudesse ouvir mais, pois não podia suportar. Lauren correu até mim, quando comecei a soluçar alto, com dificuldade para respirar e minha visão totalmente embaçada. Ela me abraçou desesperada com um braço e mexeu no computador com o outro.
- É ele, não é? – ela sussurrou para mim, vendo a página ainda aberta com as fotos. Assenti com a cabeça, o choro se intensificando. – E quem é ela?
- Minha – solucei. – Minha melhor – solucei novamente. – A-amiga.
Eu não conseguia respirar direito, tudo parecia sufocante.
O ar sempre está ali, lembrei das palavras de , você só tem que puxá-lo.
Eu tentei sugar o ar com todas as minhas forças para dentro dos pulmões.
Lauren se desesperou e correu para fora do quarto, gritando no corredor que eu estava passando mal e que precisava de ajuda.
Ótimo, agora eu iria ser expulsa por ser uma maluca.
Eu ainda não conseguia puxar o ar para dentro dos pulmões e tudo a minha volta só ficava mais e mais turvo. Houve barulho de passos rápidos e fortes pelo corredor.
- O que houve? – perguntou colocando seus braços a minha volta, e de repente eu senti como se um escudo me protegesse, me senti em segurança.
- Aquele cara do Brasil, o que atacou ela – Lauren falava rápido e eu não tinha forças para mandá-la calar a boca. – Ele está com a melhor amiga dela.
Ele olhou para a tela do computador, suas feições de repente assustadoramente duras, mas eu me aconcheguei em seu peito sem medo. Eu sabia que ele era a última pessoa na Terra que me faria mal.
Ele passou as mãos por meus cabelos, acariciando-os.
- Estou aqui, meu amor – ele sussurrou em meu ouvido. – Estou aqui com você. Só respire.
Eu fiz força para puxar o ar, e dessa vez estava dando certo. Minhas mãos e rosto formigavam, mas eu estava voltando a conseguir respirar.
- Ela está bem? – ouvi a voz preocupada de Rachel, mas continuei de olhos fechados, encostada no peito largo e confortável de . – O que aconteceu?
Lauren repetiu a explicação, mas eu não dei atenção. Tudo o que me importava era que estava ali para me proteger.
Fiquei assim até me acalmar totalmente, só então levantando a cabeça e secando as lágrimas.
- Viva a maquiagem a prova d’água – brinquei, admirando o rosto lindo de , apesar da dor disfarçada nele.
- Você já está realmente bem? – ele perguntou me encarando sério e preocupado.
Assenti com a cabeça, dando um sorriso franco. “Preciso de um pouco de ar fresco, vamos sair logo”, pedi.
- Certeza? – ele ainda estava preocupado comigo.
- Tenho – confirmei e ele dei um beijo em minha testa.
- Não acho uma boa idéia você sair – protestou Rachel cruzando os braços.
- Com certeza não – Eric apoiou.
- Eu só quero esquecer tudo isso – pedi a Rachel, usando minha carinha de cachorrinho sem dono. – Por favor? – insisti com uma vozinha persuasiva.
- Não sei... – ela refletiu, mordendo o lábio inferior.
- Prometo tomar conta dela – disse , continuando a me abraçar enquanto eu levantava.
- Podem ir – Eric foi quem se manifestou, para minha surpresa.
Eu sorri, e Rachel não protestou dessa vez. Puxei para fora do quarto antes que eles desistissem de deixar.

Capítulo 18
The Only Exception
Atenção: Coloque We'll be together - Ashley Tisdale para carregar

Colocamos nossos patins e entramos no ring de gelo, segurando minha mão. Eu mal conseguia me manter de pé sozinha e não queria largar de jeito nenhum a barra que ficava nas laterais por mais que ele insistisse.
- Você nunca vai aprender se não soltar da barra – ele insistiu mais uma vez, enquanto eu tentava deslizar desajeitada adiante, ainda segurando a barra como se minha vida dependesse daquilo. – Vamos baby, eu te ajudo.
- Não , estou acostumada com praias, mesmo que não goste delas – reclamei escorregando um pouco e me agarrando ainda mais firmemente ao ferro. – Isso daqui é perigoso demais, eu posso cair e quebrar alguma coisa.
- É por isso que falei pra você continuar de casaco – ele deslizou com facilidade a minha frente e me prendeu colocando um braço de cada lado meu na barra. – Vem , você tem que tentar. Eu te ensino, é super fácil.
- Fácil pra quem está acostumado – reclamei com a respiração falhando. Isso estava acontecendo com maior frequencia cada vez que chegava muito perto de mim. – Eu nunca vou conseguir fazer isso.
Ele bufou irritado e tirou seus braços da minha volta, me virando as costas e patinando para longe. Eu continuei a observá-lo, fascinada pela facilidade com a qual ele deslizava pelo gelo por entre as outras pessoas. Ele voltou a se aproximar espirrando um pouco de gelo em mim e voltando a me trancar com seus braços.
- Você não confia em mim? – ele penetrou minha alma com aquele par de olhos azuis, fazendo meu coração dar solavancos. Ele segurou minhas duas mãos, me puxando devagar com ele. – Deslize um pé de cada vez, fazendo uma pequena abertura para fora – eu continuava hipnotizada por seus olhos, fazendo o que ele orientava. – Viu amor, não é tão difícil – ele sorriu.
Eu não pude conter um sorriso de volta e essa distração me rendeu um belo escorregão, no qual eu podia dizer que o casaco que ainda estava vestindo por insistência de me salvou de qualquer arranhão. Ele riu de mim me ajudando a levantar, depois continuou me puxando pela pista de gelo por mais uma meia hora, como se estivéssemos dançando. Não que eu já não conseguisse patinar sozinha, mas agora simplesmente não queria. Ele deu uma mordida forte em minha bochecha e de repente me deixou xingando sozinha enquanto deslizava para longe. Eu fiquei estática no lugar, com medo de continuar sozinha.
- Que foi, tá com medo de cair? – ele provocou de um modo infantil.
- Não! – retruquei mais infantilmente ainda, começando a deslizar para ele, mesmo sem muita velocidade.
Ele mostrou a língua para mim e continuou a deslizar, enquanto eu o seguia. Ele não acelerou tanto quanto eu sabia que conseguia, apenas o bastante para me fazer continuar a persegui-lo. Quando finalmente cheguei até ele, pronta para revidar a mordida de alguma forma, ele me levantou no ar e me beijou, encostando um pouco na barra logo atrás dele como apoio. Sem demora permiti a passagem de sua língua para encontrar com a minha, sentindo o calor predominar sobre o frio, como se fosse capaz de derreter o gelo abaixo de nós.
Ele quebrou o beijo, me deixando desesperada por mais, mas eu me controlei.
- Tenho uma coisa pra você – ele disse com um sorriso carinhoso, afastando uma mecha de cabelo minha do rosto.
Eu franzi a testa brava. “Achei que você tinha prometido que não ia comprar mais nada pra mim”.
- Eu já tinha quando te prometi, então não estou quebrando a promessa – ele deu um sorriso maroto. – E é especial, pelo menos pra mim – continuei com a testa franzida, o encarando. – Vem aqui – ele me puxou pela mão novamente para a pista, sem quebrar o contato visual. [n/a: Coloquem pra tocar!] Eu reconheci a música que tocava nos alto-falantes espalhando pela pista “We’ll be together” da Ashley Tisdale. Eu amava aquela música e ela fez com que minha raiva diminuísse. Quando chegamos ao meio da pista, ele se abaixou, se apoiando com apenas um joelho no chão. Fiquei sem reação enquanto ele tirava do bolso uma caixinha aveludada e a levantava. – Mesmo que já estejamos namorando – ele abriu a caixinha, revelando duas alianças pratas -, achei isso uma coisa importante.
Eu o olhei estática, e abrir a boca foi minha única reação. Ele voltou a se levantar sorrindo, e eu sorri derretida para ele.
- Mas eu achei que – ele pegou minha mão e eu levantei os dedos, para que ele pudesse colocar a aliança, que se encaixou perfeitamente – com aquela coisa toda de estarem atrás de você, e do barco, você me mandaria embora.
Meu coração doía insuportavelmente só de pensar nisso.
- Eu tentei – ele confessou com um suspiro. Eu peguei a outra aliança na caixinha e coloquei em seu dedo devagar. – Passei noites pensando em como fazer isso. Mas descobri que nunca iria conseguir. Eu não entendo como pode doer tanto só pensar nisso. Sabe, eu não tinha muitos motivos para sorrir antes de te conhecer – ele me deu um selinho. – Agora eu descobri que não teria motivos para viver se ficasse longe de você - Só percebi que uma lágrima havia escapado de meus olhos quando passou as costas da mão em minha bochecha, secando-a. – Eu te amo.
- Eu também te... – mas antes que pudesse terminar seus lábios calaram os meus em um beijo árduo.
O som da música foi transposta por outro barulho: palmas. Eu tentei me separar dele para que pudesse ver o que estava havendo. Estavam nos assistindo e eu nem percebi? Mas ele não deixou, apenas me segurou forte pela cintura, me fazendo esquecer o que quer que pudesse estar acontecendo em volta. Nós continuaríamos juntos, acontecesse o que fosse, e isso era tudo o que eu poderia desejar.

Eu não sabia se considerava que minha semana havia começado bem ou se havia começado mal. Se eu considerasse que ela começou no domingo, isso me deixava mais confusa ainda, pois aquele dia havia sido terrível e ao mesmo tempo lindo e inesquecível. Se eu considerasse que ela havia começado na segunda, eu diria que não seria a semana dos meus sonhos, pois Brooklie simplesmente estava de volta à escola. Que tipo de suspensão dura um dia? Isso era ridículo. Ela merecia passar o resto do ano suspensa, se pedissem minha opinião.
continuava a sugar o pouco de energia que eu ainda tinha depois dos treinos e dos ensaios, mas eu já estava notando uma grande melhora de minha parte. Quando eu fosse realmente boa nesse negócio de bater nos outros, a primeira pessoa que eu iria acertar seria ele. Depois eu o agradeceria. Agradeceria porque tudo aquilo era o escape perfeito para tudo o que havia acontecido de ruim no fim de semana. Eu deixava que aquelas imagens malditas viessem a minha cabeça e isso me dava mais determinação para aprender.
Eu só queria ficar perto de , mas cada vez que isso acontecia, tínhamos livros e cadernos em mãos para fazer algum trabalho estúpido que algum professor mais estúpido ainda havia nos passado.
De quarta para quinta troquei de quarto com para poder pelo menos dormir. Bom, sinceramente, eu achei realmente que iríamos apenas dormir de tão cansada que eu estava. Meus olhos já estavam se fechando pesadamente quando saiu do banho e deitou ao meu lado, balançando os cabelos e espirrando água na minha cara. Sai de baixo das cobertas para reclamar e quando fiquei parei no meio de alguma palavra impossível de ser recordada notando que ele estava somente com uma toalha branca enrolada na cintura foi a oportunidade perfeita que ele aproveitou para me beijar e depois partir para meu pescoço. Cansaço nenhum seria suficiente para me fazer pedi-lo para que parasse.
Isso era uma coisa que eu não entendia, pensei ao acordar na quinta-feira e passar uma mão pelos cabelos de , observando-o dormir tão profundamente quanto uma criança. Como eu queria tanto quanto ele sexo, como eu havia cedido tão fácil, tão rápido. Olhando sua face tranquila eu sabia que seria impossível tentar resistir a ele mesmo que eu quisesse. Mas não era só pela beleza, afinal, meu ex-namorado não era nada feio. Se eu fui tão aos poucos com Jack, se eu não realmente desejava transar com ele mesmo antes de ele ter me machucado daquela maneira, como é que não conseguia ter medo de ?
Jack me tratava de maneira romântica e tudo mais, mas talvez eu já soubesse como ele realmente era, no fundo. Talvez eu soubesse por tamanha convivência que nós tínhamos, talvez eu pudesse apenas ter sentido o que estava por vir. Ou talvez eu só não estivesse pronta, talvez ele não fosse o cara para mim de qualquer jeito. Ele tinha um jeito estranho de demonstrar seu amor às vezes.
Com uma lágrima solitária escapando de meus olhos me lembrei daquela noite, encarando o rosto de , mas não o vendo mais realmente. Aquilo não havia sido tão repentino quanto eu achei que havia sido. Jack estava me tratando de um modo autoritário já havia algumas semanas, mas eu achei que era simplesmente estresse...
- ? – me chamou, e eu levei um susto ao ser arrancada de minhas lembranças. Ele me observava com a testa franzida, e limpou as lágrimas de meu rosto com as costas das mãos. - Hey, pequena, não chora. Não te faz bem pensar nisso.
- Como você sabe no que estava pensando? – dei um sorrisinho para ele, feliz por me concentrar em seu rosto novamente.
Seus olhos se aprofundaram nos meus.
- Está através de seus olhos – ele disse me puxando para mais perto e me dando um beijo na testa.
- Eu ainda vou descobrir o que você me esconde, – eu disse, me aconchegando em seu peito.
- Como assim? – eu podia ouvir sua voz rouca reverberava dentro de seu peito.
- Você não me pressionar a te contar nada – me apoiei nos cotovelos e virando para enxergar seu rosto confuso. – Você não me pressiona nem um pouco, e eu gosto disso. Sua paciência comigo é tão... não sei, confortadora. Mas eu sei que por trás dela tem alguma coisa que você não quer me contar.
Ele se mexeu desconfortavelmente na cama e me encarou por um longo minuto.
- Não é que eu não queira – eu podia ver um resquício de dor em sua expressão.
- Desculpe, eu formulei a frase errada – dei um sorrisinho triste. – Não estamos prontos para detalhes, pois nós dois sabemos do que se trata.
Ele assentiu lentamente com a cabeça, olhando para algum ponto além de mim.
- Hey – um sorriso pervertido insistia em meu rosto enquanto passava a mão por seu tórax descoberto por baixo da coberta. Ele me observou com uma expressão indistinta. – O que você acha de matarmos a primeira aula? – minhas unhas fizeram um leve contato com sua pele e eu o senti contrair a região e seus olhos fecharam por breve segundo. Antes que fosse possível contar o tempo ele já estava em cima de mim, me beijando arduamente.

O resto dos dias passou tão rápido que me assustei quando surtou porque eu ainda não tinha uma fantasia. Pra que eu iria querer uma fantasia? Pra uma maldita festa de Halloween para a qual havia nos convidado. É claro que eu estava ouvindo comentários sobre festa e as discussões sobre as fantasias fazia umas duas semanas, mas não tinha levado realmente a sério. Qual é, quem iria a uma festa a fantasia? Bom, pelo jeito todos os meus melhores amigos, e eu só estava me dando conta disso agora.
- Você pode ir de brasileira – se intrometeu. não se manifestava para me ajudar, apenas enfiava mais comida na boca, como se estivesse tentando tapá-la de propósito. Voltei minha atenção para , sem entender a sugestão. – É só você pegar uma bandeira do Brasil e fazer um vestido com ela.
- Perfeito! – exclamei, ironizando em seguida: - Você pode pegar a cortina da sua casa e fazer um vestido com ela.
Ela deu língua. “Só estava tentando ajudar”.
- Ninguém vai vestida de cortina ou bandeira nessa festa! – reclamou .
- Mas eu nem conheço o dono da festa! – protestei. – Seria praticamente entrar de penetra.
- Eu nunca entraria de penetra em uma festa! – indignou-se .
- Você não é considerada penetra porque pega um dos convidados – ela abriu a boca para me responder, mas não saiu nenhuma palavra. Ela balançou o cabelo e espetou a comida com raiva.
Aproveitei para dar mais uma boa garfada na comida também, eles sempre me atrapalhavam quando estava comendo.
- Vocês não são penetras – parecia de saco cheio. – Ele me mandou convidar vocês. Eu disse quantos eram e ele respondeu que quanto mais melhor.
Engoli a comida antes de falar. “E se o James não gostar de mim? Ele pode me expulsar da festa”.
rolou os olhos. “O James é legal, você vai ver. Mesmo sabendo que não tem como não gostar de você, vocês dois se dariam bem”.
- E o que importa o que ele vai achar de você? – parecia zangado, me pegando de surpresa.
- Ahn, ele é o dono da festa – respondi.
- Nós vamos na festa, mas você que não desgrude de mim – ele falava sério.
Ergui as sobrancelhas, indignada. soltou um “ui”.
- Isso aqui é uma aliança – mostrei minha mão a ele, enfezada. – Não uma coleira.
Me levantei da mesa com o nariz em pé. Ele não iria mandar em mim. Eu sabia porque isso me deixava nervosa, mas não quis pensar nisso. Comecei a me afastar da mesa. Olhei em volta e todos comiam em meio ao barulho de conversa. Eu na tinha chegado nem na metade do meu prato ainda, e eu pude sentir a fome falar mais alto que meu orgulho até eu não agüentar mais e me virar de volta para mesa.
Todos me encaravam surpresos na mesa enquanto eu voltava a me sentar.
- , você não acha que tem comido um pouco demais não? – perguntou , totalmente indiscreta enquanto eu enchia minha boca de comida, me sentindo feliz novamente.
Mastiguei com dificuldade sentindo minhas bochechas esquentarem. Finalmente engoli, todos eles ainda me observando em silencio.
- Eu tenho fome, qual o problema?
- É que... – ela parecia estar sendo cuidadosa agora – bem, você não está exatamente engordando.
- Que bom né – eu disse feliz em saber que ainda era considerada magra.
- Acho que é pelos treinos – todos olharam para e eu prendi o ar. – De líder de torcida – ele completou.
A comida ficou presa na garganta e corri para o suco em caixinha na minha frente.
- Não acho que seja só isso – disse. – Eu também sou líder de torcida e não como desse jeito.
- Elas acham que você está vomitando – todos olharam para . Eu engasguei com o suco. – Que é? – as meninas olhavam feio para ele agora. – Eu ouvi vocês falando – e voltou para mim: – Elas acham que você tem bulimia.
Nas últimas semanas eu havia vomitado umas três, quatro vezes no máximo. Mas eu não tinha forçado nada. Eu não tinha isso. Todos me encaravam, um silencio incomodo tomou conta da mesa.
- Vocês não estão falando sério? – retruquei. – O também come assim! – apontei para o mesmo, que parou com o garfo na metade do caminho para boca.
- Mas ele é homem – disse .
- Eu não tenho bulimia – cruzei os braços, emburrada.
- Você diz que vai na academia lá do prédio, mas eu nunca te acho lá – disse e eu a olhei sem acreditar.
agora me encarava friamente, esperando uma resposta. Fingi não notá-lo.
- Você tem tonturas – disse .
- Isso é um complô contra mim? – perguntei incrédula. – Parem com isso, eu não tenho nada - voltei a minha comida, mas ainda sentia os olhares sobre mim. – E parem de me olhar!
Após mais ou menos um minuto em que concentrei minha atenção somente na comida eles voltaram a conversar.
Não era como se eu não tivesse notado o quanto eu comia, mas vamos lá, eu não parava quieta o dia todo. E é claro que os treinos de deveriam ser tão responsáveis quanto os de líder de torcida em relação à queimação de minhas calorias. Mas é claro que eles não sabiam disso, então, a preocupação deles era quase justificável.
Eu já havia até me esquecido de que precisava inventar alguma coisa quando encontrei fora do ginásio, me esperando. Sorte minha ter tido tempo para uma chuveirada no vestiário antes que a aula acabasse.
Sorri e fiquei na ponta do pé para dar um selinho nele, mas ele virou a cara, me deixando dar um beijo apenas em sua bochecha.
- O que foi? – coloquei as mãos na cintura.
Em um movimento rápido ele me colocou contra a parede que antes estava, uma das mãos na parede ao lado de meu ombro esquerdo. Minha respiração falhou quando ele se aproximou.
- Será que você pode me explicar o que está acontecendo? – ele exigiu.
Encarei duramente seu olhar de volta, mas sentindo meu estomago embrulhar.
- Não sei do que você está falando – tentei transmitir o máximo de segurança possível em minha voz.
- Você sabe muito bem.
O sinal soou estridente. A porta do ginásio se abriu, e minha turma de educação física saiu fazendo estardalhaço ao passar pelo corredor, inclusive Brooklie.
Sim, mesmo ela não sendo mais líder de torcida eu era obrigada a aguentá-la nas aulas de educação física. Ela passou atrás de e ele deu um passo para mais próximo de mim, com uma feição raivosa. Eu não precisava ver pra saber o que ela tinha feito: passado a mão na bunda dele. Senti meu sangue entrar em combustão dentro de mim quando ela virou, andando de costas agora, e mandou um beijo para ele.
Meus instintos me empurravam direto para cimas dela, mas o braço de ao lado de meu ombro desceu e me segurou firmemente.
– Vamos para outro lugar – ele me puxou em direção as portas que davam para os fundos do colégio, a expressão nada amigável em seu rosto.
- Pira... – eu gritei com raiva para Brooklie, mas tapou minha boca antes que eu terminasse.
Tentei morder sua mão, mas ele apenas riu, fazendo conchinha com ela para que meus dentes não a alcançassem. Chutei sua canela, e, aproveitando que ele havia sido pego pela surpresa e pela dor e soltado destapado minha boca, continuei a xingá-la aos berros.
se recuperou e voltou a tapar minha boca, me arrastando para fora da escola. Ele voltou a me socar contra a parede, e eu senti minha coluna reclamar.
- Qual é o seu problema Thamíris? – ele perguntou sério. Abri a boca para responder, mas ele me cortou antes que eu começasse a me defender. – Você sabe que quando mais você der atenção, mais ela vai provocar. Uma das coisas que ela mais ama é atenção.
- Desculpe se eu não quero que ela fique passando a mão no meu namorado! – ironizei ainda irritada.
Ele revirou os olhos. “Como se ela nunca tivesse encostado em mim antes” ele murmurou.
Eu o olhei de boca aberta, totalmente ofendida. Me virei para sair, mas lá estavam seus braços a minha volta novamente, me impedindo.
- Desculpe, desculpe – ele se apressou a dizer. – Prometo que não vou mais deixar isso acontecer, ok?
- Já não devia acontecer – o encarei séria.
- E desde quando você perde o controle desse jeito? – ele perguntou, me pressionando contra a parede. – Você está se irritando fácil demais ultimamente – ergui as sobrancelhas para ele. – Não, não quero dizer agora, exatamente. Estou falando no geral. E ainda tem esse negócio de você estar comendo tanto e não engordar.
- Algumas pessoas simplesmente comem e comem e não engordam! – me defendi sentindo uma tristeza estranha tomando o lugar da raiva. – Este relacionado ao metabolismo e...
- Você costumava controlar o que comia quando te conheci – ele me cortou. Por que ele adora tanto me cortar? – E ficava desesperada quando começava a engordar. O metabolismo de ninguém muda desse jeito se não houver uma razão. Você tem que me contar o que está havendo.
- Eu tenho teatro, sou líder de torcida, a cada cinqüenta e cinco minutos tenho que trocar de sala, estudo que nem uma condenada, e depois de tudo isso ainda sou obrigada a... – me calei, sentindo meu escorregão. Eu quase contei sobre . estava aguardando minha conclusão, engoli em seco antes de terminar. – Malhar.
- E aí vem a pior parte – ele disse. – Porque você não está malhando. deixou isso bem claro. Você está mentindo para ela e, eu não esperava por isso, para mim - Certo, eu também não esperava por essa. – Eu quero saber exatamente o que está acontecendo.
Seus olhos pareciam tentar penetrar nos meus novamente, mas desviei meu olhar do seu, com medo que ele enxergasse a verdade neles.
- , assim não dá – ele continuou. – Só vejo duas possibilidades: Ou você não confia em mim o suficiente ou você está escondendo alguma coisa realmente ruim de mim.
- Talvez eu só queira um pouco de espaço – me esquivei instintivamente.
- Espaço? – ele perguntou incrédulo. – Você tem o seu espaço. Você tem o seu tempo com suas amigas e pra tudo que você quer. É tão difícil assim pra você me contar o que há de errado? Estou tentando te ajudar. Aliás, só não eu. Desculpe se eu gosto de saber que você está segura quando não posso estar lá para te proteger.
- Mas que saco, – de repente notei que estava gritando, lágrimas haviam tomado conta de meus olhos, mas eu não fazia idéia de onde toda essa raiva vinha. – Eu não preciso ser vigiada vinte e quatro horas. Não preciso da proteção de ninguém, eu já sei me defender sozinha. Não preciso de ninguém me rondando. Vocês estão me sufocando!
- Então é isso que você quer? – seus olhos estavam tão enraivecidos quanto os meus. – Espaço? Ok – ele apontou para minha face –, é isso que você vai ter – virou as costas e andou apressado para longe de mim.
Deixei meu corpo escorregar pela parede atrás de mim, chorando.

Achei que aquilo era só mais uma briga, como todo casal tem. Eu já havia passado por isso antes. Mas era diferente, e agia diferente do que eu esperava. Na aula de história ele não apareceu e, na hora do almoço, ele não olhou diretamente para mim sequer uma vez.
Quando terminamos de comer nosso grupo, como em geral, se deslocou para os dormitórios. Aproveitei para me aproximar de , que caminhava lentamente atrás de nós com as mãos no bolso.
- Desculpa, eu estava meio estressada ontem – eu disse, andando ao seu lado.
Ele continuou sem me olhar. “Não me importo por você se irritar, por você gritar, por você se debater ou o que for, só quero que você me conte”.
- , não há o que contar – observei-o, e sua feição se fechou.
- Então acho que você precisa de mais espaço – ele apressou o passo, se distanciando de mim e juntando-se aos amigos.

Capítulo 19
You Belong With Me
‘ Especial: Brooklie Patterson POV’

Um belo copo de suco era tudo no que eu conseguia pensar enquanto caminhava pelos corredores escuros da escola. Já tivera meu tempo de paz para refletir em uma sala vazia e, mesmo com a garoa fina caindo do lado de fora daqueles muros, a imagem de um copo de suco gelado não parava de rondar a minha mente. Passei pelas grandes portas do ginásio enquanto decidia se tomaria suco de maça ou de laranja quando vozes me chamaram a atenção. Minha curiosidade me dominou ao perceber a quem pertenciam: meu e seu novo mascote de luxo. E o melhor de tudo, era que pareciam estar discutindo.
É querida, nem tudo são flores, pensei ao me esgueirar próxima a porta, olhando para os lados no corredor para ter certeza de que ninguém me pegaria bisbilhotando. Para minha sorte as portas não estavam fechadas e, como a quadra produzia ecos até do menor ruído, eu conseguia discernir o que eles falavam com facilidade só me encostando próxima a abertura.
- , eu não quero falar sobre isso! – a voz da pirralha da estava esganiçada.
- , os pais de Lauren me contaram – ouvi a voz aveludada de , como se fosse um vento a me acarinhar. Pela voz ele não estava muito feliz. – Você veio para cá porque ele estava te perseguindo, não era?
Ouve um minuto de silêncio.
- Eu tenho medo dele me achar – a voz dela estava chorosa, um pouco abafada. Rolei os olhos.
Menina fraca.
- Você não está sob proteção judicial ou algo assim? – perguntou.
- Não. Ele não pode chegar perto de mim, mas a policia achou exagerada a idéia de me mudar de país, então eu não tenho proteção nenhuma aqui.
- Calma pequena, esse cara não vai te achar por aqui – ele a confortou, me deixando enjoada. – Mas você ainda me deve explicações de outra coisa.
- O que? – ela perguntou.
Patética.
- O que você anda fazendo se não está na academia ou com nenhum de nossos amigos? – sua voz tinha um tom cansado, como se não fosse a primeira vez que perguntasse aquilo.
- Aí , esquece isso.
- Mas qual é o problema em me dizer? – sua voz estava ficando alterada.
- Daqui a um tempo eu falo – ela disse, tentando encerrar o assunto.
Mas eu conheço meu , ele não ia deixar assim. Quando ele realmente queria saber uma coisa, ele arrancava aquilo de você a qualquer preço.
- Então daqui a um tempo você me procura – ouvi passos ecoando pela quadra, cada vez mais próximos, fazendo justiça aos meus conhecimentos quando se tratava dele.
Corri para a pilastra mais perto que tinha, escondendo meu corpo atrás dela. Em meio a escuridão, passou por mim sem me perceber. Fiquei o observando se afastar, analisando quais seriam as possibilidades de agarrá-lo, até que a senhorita-cabelo-colorido passou por mim, também sem me perceber. Ela caminhava olhando os próprios pés, e um sorrisinho se instalou em meu rosto ao perceber sua tristeza.
Ela e nunca dariam certo, ela tinha que entender isso.
E eu a iria fazer entender o mais rápido que eu pudesse.

Ajeitei meu cabelo e fui para o refeitório, buscar o meu tão ansiado suco, juntamente com um jantar básico. Hoje tínhamos filé de frango, então eu poderia colocar mais molho na salada. Com minha bandeja prontinha e meu lindo sorrisinho no rosto – que escondia as chamas que crepitavam dentro de mim pedindo algum tipo de atitude quanto a minha situação – desfilei em direção a minha mesa, mas percebi que havia se isolado em uma mesa aparte da de habitual. Eu conhecia esse tipo de atitude dele: ele queria pensar, refrescar a mente, ter um espaço para respirar.
Mas Thamíris não entendia. E por isso ela tentou se juntar a ele na mesa, usando uma voz melosa, tentando acalmá-lo. E fracassou. Ele a mandou pastar – não com essas palavras, mas entrelinhas – e ela voltou a mesa onde alguns de seus amigos estavam. Todos almoçavam juntos, mas isso era raro no jantar.
Desviei meu caminho propositalmente, sentando na mesma mesa que ele, mas afastada o bastante para que ele ainda sentisse que podia respirar. Quero dizer, sem ninguém enchendo o saco.
Ele me olhou torto.
- Você não devia estar aqui – murmurou em um tom mal educado.
- Nem você – retruquei erguendo as sobrancelhas.
- Cheguei primeiro – , por mais que crescesse, sempre mantinha algo de infantil.
- Desculpe, eu dou uma pausa nas competições enquanto como – eu sabia que ele estava querendo discutir, extravasar de alguma forma. Eu lhe daria o que precisasse.
- Você precisa parar de provocar a - ele meio que pediu.
Ele não costumava pedir as coisas, então, por que se humilhar por uma garotinha de quinta? Não importa, eu não iria ceder.
- Se ela parar eu paro – mantive meu ar superior. O que era fácil, ainda mais quando se tratava dela.
- Ela não te provoca – ele respondeu com um pouco de comida mastigada na boca.
Isso me fez rir, apesar de ser nojento.
- Ela te beija na minha frente, então ela provoca.
Ele se manteve em silencio, e eu aproveitei para comer tranquilamente. Eu sabia que olhares de ódio pairavam sobre mim, mas eu nem ligava. Até gostava. Era eu quem estava mantendo calmo agora. Ih, acho que me enganei quanto a pausa na competitividade enquanto comia.
Terminamos nossas refeições em silencio, e, mesmo tendo colocado o dobro de comida em seu prato, ele baixou seus talheres quase ao mesmo tempo que eu. Dei umas três belas goladas em meu suco de maçã, aquilo era minha sobremesa.
Senti que o olhar de pairava sobre mim, e aproveitei para passar a língua pelos lábios de um modo sexy.
- Quer? – ofereci sorrindo.
Ele refletiu por um instante, um tanto distraído. Eu sabia que ele queria. O lado criança dele queria doce. E meu lado adolescente estava querendo outra coisa...
Estendi meu copo gentilmente para ele, que hesitou, mas pegou.
Antes que a bebida chegasse em seus lábios, o copo foi tirado de sua mão. Eu não havia percebido e sua amiguinha do jardim – – chegarem.
Mas elas estavam ali: com os braços cruzados, os olhos em fúria e ao seu lado, com o meu copo de suco na mão. A olhei irritada. Era o meu suco, pelo qual eu tanto ansiara, e tirado das mãos do meu . Os pais tirando o doce da criança como se fosse dar carie. Eu mereço.
- , você não deveria pegar isso, tem veneno de cobra – desdenhou, e minha irritação cresceu.
- Que tal vocês devolverem meu suco, darem meia volta e voltarem a turminha de retardados a qual pertencem? – sugeri em um tom que sempre estressava os outros.
continuava em silencio. Aquilo estava o estressando tanto que ele sofria calado. Ou simplesmente estava entediado.
fez menção de avançar em mim, mas colocou o braço livre em sua frente, a impedindo.
- Claro – a idiota de cabelos curtos murmurou. – Com todo prazer.
Antes que eu pudesse reagir, ela virou o copo de suco na minha cabeça, e eu senti aquele liquido gelado e um pouco denso escorrer por meus cabelos. Soltei um gritinho indignado, sem conseguir ter outra reação.
arregalou os olhos, assustado. Nós não esperávamos tanta rebeldia. Em seguida Thamíris o puxou dali, mas eu vi ele se desvencilhar dela antes de atravessarem as portas para fora do refeitório.
Eu sabia que todos me olhavam, e a primeira coisa que fiz foi sair o mais rápido possível, mas sem correr. Correr seria uma atitude medíocre; andar rápido mostrava que eu não havia sido atingida por aquilo por certo ângulo.
Encontrei com Ashley, uma de minhas amigas – leia-se companhia a tira colo e pau-mandado -, quando subia as escadas para meu dormitório, e mandei-a buscar outro suco para mim. Dessa vez de uva.

Acordei de um pulo na manhã seguinte, já sabendo exatamente o que teria de fazer. É claro que – aquela traidora – não havia resistido a espalhar sobre a festa em que ela e aqueles idiotas iam. Como não pensei nisso antes?
Joguei o cobertor para longe, pouco me preocupando com a bagunça que faria. Era extremamente confortável ter um quarto só para si, isso era inegável. Peguei meu uniforme no guarda-roupa e comecei a trocar meu pijama de seda por ele. Fiz isso rapidamente, pois uma animação começava a queimar dentro de mim. Tudo voltaria a estar certo. Eu faria com que voltasse.
Fui até a janela e observei o céu. Cinzento, que novidade. Mesmo assim, aquele dia seria tão perfeito quanto amanhã.
Eu já sabia onde estaria, então me apressei a sair do colégio. Eu odiava ter que usar aqueles casacos mas, graças a Deus, ainda usávamos saias – mesmo que só até hoje. A partir de semana que vem nós trocaríamos nossas lindas saias curtas por malditas calças. Tudo por causa do estúpido frio.
Para meu grande contentamento, ainda era burro o bastante para sair e tomar seu café da manhã na Starbucks. Se eu estivesse sob ameaça de morte, eu me entocaria quietinha até o dia do julgamento.
Bom, é claro, ele estava sozinho. Isso queria dizer que eles ainda estavam brigados.
franziu a testa e eu acenei alegre para ele, indo até o balcão para fazer meu pedido e me juntando rapidamente a ele.
- Café com o que hoje? – perguntei apoiando minha cabeça em uma das mãos e fitando seus olhos.
- Na verdade, é cappuccino – ele respondeu dando mais um gole no copo em sua mão.
Um dos sinais do humor de era o café que pedia. Mas era sempre café, então eu não entendi.
- Achei que você não gostasse – tentei disfarçar minha surpresa.
Ele desviou o olhar para fora da janela. ”A não vai gostar de te ver aqui”.
- Qual é , você precisa parar com isso – ele me olhou sem entender. – Você sabe, ela ainda é muito nova... – por baixo da mesa passei minha perna descoberta pela calça dele, como um carinho. - Imatura.
Ele riu sem humor, balançando a cabeça negativamente enquanto afastava sua perna da minha.
- O que foi? – dei um gole em meu café, agora em uma temperatura boa o bastante para que não queimasse minha língua.
- Você tem uma idéia totalmente errada sobre ela.
- , eu vejo como ela age. Ela ainda é muito criança pra você – dei um sorrisinho sexy para ele.
- Talvez, mas quer saber – ele devolveu meu olhar, mas não havia fogo nele -, eu gosto disso nela, dessa alegria. Ela é impulsiva, e anda meio estressada, só isso.
Passei a mão pelo cabelo dele. Coitado, era um iludido. Mas isso ia passar amanhã à noite.
Ele desviou o olhar lá pra fora, totalmente indiferente a meu carinho, e seus olhos se arregalaram. Olhei na mesma direção e vi Thamíris. A idiota parecia não ter muita reação, então aproveitei para me aproximar de e dar um beijinho em sua bochecha.
Ele pareceu acordar e me empurrou, levantando rapidamente com seu copo na mão e correndo para fora da Starbucks.
Soltei o ar pesadamente, de saco cheio, observando Thamíris se distanciar dele conforme ele tentava se aproximar. Ela estava gritando ou era só impressão minha?
Me assustei quando ele se aproximou muito dela e ela colocou a mão na boca, como se estivesse prestes a vomitar. jogou o copo que segurava longe e, assim que ela se recuperou o bastante, eles voltaram a brigar.
Estúpida, pensei.
Assim que eles sumiram de vista voltei à atenção ao copo em minha mão. Só quando faltava pouco para o sinal da escola bater me levantei elegantemente e sai dali, ainda tomando meu café.
O resto da manhã daquela sexta pareceu passar vagarosamente, e tudo em que eu conseguia me concentrar era sobre a noite de sábado. Mas, é claro, para tudo dar certo, eu teria que começar a agir... agora.
A hora do almoço chegou e eu me apressei para o dormitório das meninas antes que as outras chegassem. Por sorte o corredor estava vazio, e eu pude entrar no quarto do Arco-Íris ambulante sem problema. Fucei rapidamente e achei com facilidade a fantasia dela em uma caixa dentro de uma sacola. Estiquei-a sobre a cama, procurando em seguida uma tesoura que eu sabia que estava em minha própria mochila. Antes de começar meus estragos fiquei com um pouco de dó. Não dela, mas da fantasia. Era realmente bonita – uma fantasia daquelas garotas que trabalham em bares boêmios. Mas todos têm que pagar algum preço. Logo comecei a correr a tesoura pelas costuras, trabalhando cuidadosamente para que ela não percebesse tão cedo o que eu havia feito.
Assim que terminei voltei a embrulhar tudo cuidadosamente e sai do quarto despercebida.
Corri de volta a refeitório e almocei com a consciência tão limpa quanto a de uma freira. ainda iria me agradecer por tudo isso. Provavelmente a não, mas com certeza.

Já eram nove horas e eu já havia chamado meu táxi. Observei minha imagem refletida no espelho a minha frente mais uma vez, só para checar o quanto eu estava realmente esplendorosa hoje. Quero dizer, mais do que normalmente. Minha fantasia de princesa em um tecido rosa claro que praticamente reluzia com uma parte de rendinha entre os seios que fechava com uma fitinha transpassada e as pluminhas na borda da saia tinham perfeita harmonia com a pequena coroa que descansava em minha cabeça e minha meia rastão branca. Assim que ouvi a buzina do táxi em frente ao meu portão fiz cafuné em Holly – minha gatinha persa felpuda – e caminhei até a porta em meu mais novo e lindo salto prateado – como a minha coroinha. O vento gelado me atingiu assim que abri a porta, mas eu sabia que frio não seria problema naquela festa.
- Tem certeza que não prefere que te leve, Broo – meu pai apareceu na porta quando eu já estava próxima ao portão.
- Tenho sim – sorri para ele.
Ninguém merece o pai te levando em uma festa.
- Qualquer coisa me liga – ele disse pela milésima vez naquela noite.
- Certo. Tchau, papai! – mandei beijos para ele no ar.
Entrei no táxi e enquanto nos afastávamos observei ele fechar a porta.
- Para onde, senhorita? – o taxista perguntou.
Estendi um pedaço de papel para ele com o endereço da festa, que Ashley havia conseguido para mim.
Eu já podia sentir a ansiedade dar sinais de vida durante a viagem de carro – viagem mesmo, aquilo parecia não chegar nunca. Minha concentração se focava em só uma coisa assim que pisei fora do carro e a música pode ser ouvida: . Eu precisava achá-lo logo. Quanto mais cedo o achasse mais rápido poderia agir. Estremeci com uma rajada de vento, me fazendo apressar o passo até começar a passar pelas pessoas. Antes mesmo de chegar a porta daquela grande casa as pessoas já estavam dificultando meu caminho, me fazendo desviar toda hora. Deixei essa irritação de lado e adentrei o lugar, enquanto a música parecia estar me ensurdecendo gradativamente. Eu sabia que essa festa teria muita gente, mas isso era absurdo. O lugar estava lotado, e eu tive sérios problemas para atravessar o que me parecia ser a sala. Assim que uma porta com um espaço que me parecia agradavelmente menos lotado me chamou a atenção, desviei meu caminho para ele, descobrindo ser a cozinha.
- Quer uma? – um garoto me ofereceu educadamente.
Educação era uma coisa que eu já estava começando a sentir falta antes de chegar ali, então aceitei de bom grado a latinha fechada de cerveja que ele me oferecia. Seus cabelos pretos mesclados com loiro caiam sobre a máscara que ele usava estilo zorro, só que laranja, e uma roupa preta.
O primeiro gole da cerveja desceu deliciosamente por minha garganta, me fazendo sorrir.
- Não lembro de ter te convidado pessoalmente, você é amiga de quem? – ele me perguntou.
O segundo gole de cerveja que eu estava tomando pareceu travar em minha garganta, mas eu me esforcei para não engasgar.
- Sou amiga do – disse alto com um sorriso, depois de finalmente ter engolido a cerveja.
- , amigo do ? – ele perguntou animado. Confirmei com a cabeça. Alguém conhece o ? Desde quando ele era uma referencia quando se tratava do ? – Estou procurando eles já faz meia hora! Onde eles estão?
- Também estava procurando eles. Marcamos de nos encontramos aqui na festa – sim meu bem, eu sou rápida quando se trata de mentir.
- Bom, então o que acha de continuarmos nossa busca juntos? – ele ofereceu indo em direção a porta.
Eu não queria ter que me enfiar no meio de todo mundo de novo, mas sabia que era preciso.
- Claro – respondi segurando com minha mão livre sua mão para que não nos perdêssemos.
Eu não sabia por que, mas alguma coisa no rosto dele me lembrava . Isso atiçou ainda mais minha vontade de encontrá-lo rápido.
Depois de três músicas tocarem em sequencia, finalmente os achamos em um sofá. Poynter, com em seu colo e .
- Finalmente! – o garoto soltou minha mão e os cumprimentou. – E olhem só quem eu achei pra vocês! – ele apontou para mim.
Todos me encararam boquiabertos. Eu sei sweets, estou linda.
- ! – andei até ele e sentei em seu colo. Que culpa tenho se não havia mais espaço no sofá?
- O que você está fazendo aqui? – ele perguntou estreitando os olhos para mim.
- Ora , o que se faz em uma festa? – sorri para ele.
Todos os três garotos pareciam estar com o mesmo tipo de fantasia, mas eu não conseguia decifrar o do que exatamente eles estavam fantasiados. Mas foi o que me deixou mais confusa, pois tinha orelhas verdes e pontudas.
- Vocês vieram de roupão ou isso é algum tipo de guerreiro japonês?
Ele rolou os olhos e ignorou minha pergunta. “Desde quando você conhece o James?”.
- O que você está fazendo aqui? – repetiu a pergunta de , provavelmente eles não estavam nos ouvindo por causa da música alta.
Eu a ignorei.
- Quem? – perguntei a , sem entender.
- O dono da festa com quem você estava – ele rolou os olhos. – Brooklie, acho melhor você ir embora.
- , você tem que reaprender a aproveitar o momento – sorri sedutoramente.
- A não iria gostar de saber que você está no meu colo.
- Cadê ela afinal? Vocês terminaram ou que?
- Isso não é da sua conta – de repente ele ficou extremamente bravo.
Então eles brigaram mesmo, talvez até tivessem terminado. Isso queria dizer que eu o teria a noite inteira só para mim? Perfeito.
- , estou com saudade – me aproximei de seu ouvido, para que a conversa se tornasse ainda mais intima. – Muita saudade – passei a mão por seu cabelo.
- Brooklie, vai embora – sua voz estava dura.
- Você sente tanta saudade quanto eu e sabe disso – deixei que meus lábios tocassem levemente seu pescoço.
Ele afastou o pescoço de mim.
- Me deixa em paz.
- , você não pode ser tão duro comigo – eu disse, fazendo manha. – Você está sendo injusto. Me trocou por aquela garotinha que nem ao menos da conta de você e ainda fica me afastando desse jeito.
- Eu não te troquei, até onde eu saiba nós já havíamos terminado antes dela aparecer – ele respondeu, mas ignorei essa parte. Se não fosse por ela ele teria voltado pra mim rapidinho. – E eu não vou discutir sobre ela com você. Só nos deixe em paz.
- Eu deixo, com uma condição. – Ele me olhou desconfiado. – Eu quero um beijo.
- Não – ele respondeu.
- Vamos lá, – fiz carinho em sua bochecha. – Um beijo e prometo deixar vocês em paz.
É claro que eu estava blefando, mas sabia que se ele cedesse a um beijo, o resto se tornaria mais fácil.
- Não.
- A paz de vocês não vale isso?
- Brooklie, vá embora - ele repetiu cansado.
- – aproximei meu rosto do dele -, é só um beijo – ergui as sobrancelhas e deixei meu sorriso sedutor tomar meu rosto novamente.
- Promete?
Ele estava cedendo? E o que ele estava esperando que eu respondesse?
- Prometo.
Aproximei-me mais ainda dele, que recuou. Passei a mão para sua nuca, puxando-o para mim.
Nossos lábios se encontraram e deixei que nossas línguas começassem a festa sem demora. Ele não me envolveu com seus braços, mas respondia ao beijo. Eu estava tendo o que eu queria, e isso me excitou.
Antes que me desse conta, ele estava rompendo o beijo.
- Você pertence a mim, e sabe disso – disse antes de ele afastar nossos rostos totalmente.
- Não, Brooklie – ele respondeu, e eu fiquei confusa. – Agora é hora de você ir embora.
Ele me empurrou de seu colo, e eu levantei antes que caísse.

Capítulo 20
Five Colours In Her Hair

Aquilo só podia ser um pesadelo. A música ensurdecedora, os garotos que haviam mexido comigo em meio a multidão que me estressava e o fato de minha linda fantasia ter sido destruída não parecia nada comparado ao que eu estava vendo agora. Por favor, me acordem, nesse sonho eu não quero estar.
De repente seus olhos encontraram os meus, se enchendo de desespero. Senti uma gota escorrer por minha bochecha. Só agora ele percebeu que eu cheguei? Era assim, nós brigávamos e ele corria para ela?
Balancei a cabeça com força e sai empurrando todos, criando passagem de qualquer jeito. Eu só queria sair dali. Eu só queria minha cama, meu travesseiro e meu ursinho para chorar abertamente.
Assim que finalmente encontrei ar livre para encher meus pulmões, que já falhavam, senti uma mão me puxar. Eu não precisava ter me virado para saber quem era, mas mesmo assim o fiz.
- Não é nada disso que você está pensando – ele disse.
Eu ri ironicamente. Ele tinha que escolher uma frase tão clichê?
- Eu não estou pensando, eu vi – disse sentindo meu coração se apertar ao fitar aqueles olhos azuis.
- Eu te juro, . Foi só um beijo. Só queria que ela nos deixasse em paz.
- Nos deixasse em paz, ? Isso foi algum tipo de negociação, uma troca então? – as lágrimas que insistiam em escorrer por meu rosto agora pareciam refletir nos olhos dele. – Por que pra mim sabe o que pareceu: você beijando a sua ex-namorada após termos terminado.
- Nós não tínhamos terminado – ele disse firme.
- Ah, não? – ergui as sobrancelhas. – Então estamos terminado agora!
Soltei meu braço de sua mão em um movimento rápido e caminhei apressada, tentando me afastar daquela casa o mais rápido possível.
- Não! – ele gritou. Eu não olhei pra trás, mas ele apareceu em minha frente. Tentei desviar meu caminho, mas ele me segurou pelos dois braços. – Você não pode fazer isso comigo – ele me sacudiu.
- ME SOLTA – Minha raiva era tanta que eu não podia controlar os gritos. – Você não presta, eu nunca devia ter confiado em você.
- Desculpe - para minha surpresa, ele me soltou. – É melhor você ficar longe de mim mesmo. Vá embora.
Eu comecei a me afastar com raiva, sentindo todos meus músculos gritarem de ódio. Sem me dar conta, eu estava olhando para trás, e ele estava abaixado, chorando. Chorando como uma criança. Meu coração que já havia sido partido pareceu ter sido pulverizado agora.
Brooklie se aproximou dele, falando alguma coisa e pedindo para que ele se levantasse. “Vá embora logo, droga!” pude ouvir gritar para ela. “Você já teve o que queria!”.
Eu já estava longe demais para entender o que eles falavam quando olhei para trás e o encontrei sozinho novamente, agora sentado na grama. Parecia ainda estar chorando.
Parei de andar. Como seria minha vida sem ? Eu não sabia responder. De repente, senti como se não pudesse mais respirar. Sem ele ao meu lado, sem sua alegria, suas brincadeiras bobas, seus mal-humores, seus carinhos.
Estremeci. Minhas pernas não pareciam mais capazes de me sustentar, então me sentei ali mesmo, na calçada, antes que caísse.
O que seria de mim sem meu herói pra me proteger? Meu anjo da guarda sempre ali para me vigiar, para me confortar?
Ele era o único no mundo que me entendia. Nem mesmo meus amigos me entendiam tanto quanto ele. Eu confiava nele.
Ele ergueu a cabeça, e seu olhar parou sobre mim, imóvel. Foi como se uma luz iluminasse minha mente. Eu confiava nele. Por que não acreditaria nele, afinal? Quero dizer, quantas vezes Brooklie já havia tentado me sabotar? Não dava pra contar.
E eu tinha que considerar que podia ter terminado comigo quando aquela cria do demônio contou que eu havia ficado com outro garoto em uma festa. Nós não tínhamos nada oficialmente sério, mas já sentíamos que era sério e, mesmo eu realmente tendo ficado com outra pessoa – lembrando que estava bêbada – ele reconsiderou. Ele me perdoou, porque gostava de mim e sabia que eu gostava tanto quanto.
Continuei o encarando. Eu tinha certeza de nosso amor, então, por que teria que fugir dele? Por que teria que transformar isso em um final?
Não era só por mim, pela minha necessidade dele, mas por nós que estava levantando, sentindo a coragem me dominar. nunca havia mentido para mim, não seria agora que ele seria estúpido de fazê-lo.
Minhas pernas não estavam exatamente firmes, mas corri em sua direção o mais rápido que pude. Ele se levantou, me recebendo em seus braços. Foi então que eu percebi que ele estava chorando mais do que antes.
- Pequena, eu juro – ele disse entre o choro-, e-eu não tenho nada com a...
Eu o interrompi com um beijo. Deixei que sua língua acarinhasse a minha. Era como se fosse a primeira vez que nos beijávamos. Só pareceu que voltei realmente a respirar quando seus braços me envolveram com vontade novamente. Ele precisava de mim tanto quanto eu precisava dele, ele nunca mentiria para mim.
Ele interrompeu nosso beijo, fazendo uma trilha de beijos até minha orelha.
- Eu te amo – ele sussurrou. – Nunca duvide disso - eu sorri enquanto ele fazia o caminho inverso de seus beijos até voltar a minha boca.
Nós ficamos ali fora até que nos chamou para entrarmos novamente. Assim que o fizemos, ele nos guiou até a frente de um palco, no meio da sala. Eu nem o havia notado antes ali.
Todos nossos amigos estavam ali, na primeira fila. estava fantasiada de policial, de boneca e de pirata. Ao lado delas, , e estavam fantasiado de jedi, assim como . Mas tinha um diferencial, orelhas postiças verdes e pontudas.
- não está fantasiado do que eu estou pensando, está? – perguntei a .
- Nós tentamos fantasiá-lo de Princesa Léia, mas ele preferiu vir de Mestre Yoda – nós rimos. – E você, amor? Detetive?
Eu vestia um sobretudo creme, uma bota de salto até os joelhos e um chapéu que havia arrumado de ultima hora. Afinal, minha fantasia havia sido destruída, e eu tinha uma idéia de quem havia feito o estrago.
- É – respondi com um sorrisinho. Pelo menos eu estava fantasiada de alguma coisa. – Aquele no palco é o James? Do que ele tá vestido?
- Depois eu pergunto pra ele.
- Eles vão fazer um show? – perguntei curiosa.
- É, um show curtinho – ele deu um beijo em meu cabelo. – Sabe, eu e o estamos começando a compor junto, e está dando certo!
A banda em cima do palco começou a tocar, e é claro que eu conhecia a música. já havia a cantado para nós. Não só nós, como muita gente ali acompanhou a música animadamente, mesmo alguns arriscando a letra errada.
- Espera aqui amor – pediu e antes que eu pudesse responder ele se aproximou mais ainda do palquinho, chamando James, que havia acabado de terminar a música. James se abaixou e ele sussurrou alguma coisa em seu ouvido, que concordou positivamente.
subiu no palco e pegou o microfone.
- Eu gostaria de tocar uma música para minha linda namorada ali na frente – ele começou a dizer, e eu senti minhas bochechas arderem. – Aquela com cinco cores no cabelo. Bom, essa música se chama “Not Alone”, espero que gostem.
Um dos garotos que estava no palco entregou um violão para ele, e desceu em seguida, junto com os outros.
deu os primeiros acordes e somente quando começou a cantar a melodia fez sentido para mim.

Life is getting harder day by day
And I don't know what to do or what to say, yeah
And my mind is growing weak, every step I take
It's uncontrolable, now they think I'm fake, yeah


Senti uma lágrima escapar de meus olhos, meu coração parecia incendiar novamente.

'Cos I'm not alone
But I'm not alone
I'm not alone


Ele tinha razão, eu não estava sozinha. Ele estava comigo, sempre estaria.

And I, I get on the train on my own
Yeah, my tired radio, keeps playing tired songs


Ele havia conseguido terminar a música? Eu sorri para ele, que me retribuiu com o mesmo calor.

And I know that there's not long to go
Oh, when all I wanna do, is just go home
Yeah yeah
But I'm not alone
But I'm not alone
People rip me from the clothes, I wear, yeah
Everyday seems to be the same, they just swear, yeah
They just don't care
They just don't care
They just don't care
'Cos I'm not alone
But I'm not alone
Na na na na na na na na na na
Na na na na na na na na na na no, no no
Na na na na na na na na na na
Na na na na na na na na na na no no
But I'm not alone
La la la la
I'm not alone


Ele terminou de cantar e deu o último acorde, arrancando aplausos e gritos de todos ali, o que me deu um susto. Eu tinha sido simplesmente hipnotizada.
- Gostou? – ele perguntou esperançoso.
- Amei – respondi com um largo sorriso. Ele sorriu da mesma forma. – Você é perfeito.
- Te amo, pequena – ele disse e me deu um selinho.
- Também te amo – deixei nossas testas juntas, podendo olhar em seus olhos.
Os garotos voltaram ao palquinho e tocaram mais duas músicas antes de voltar com os sons da eletrônica. As pessoas se dispersaram um pouco mais, e começou a me fazer dançar. Quando reconheci as batidas de “Good Girls Go Bad”, me lembrei do motivo pelo qual esse sobretudo havia sido tão conveniente.
- Tem quartos aqui? – perguntei ao ouvido de , alto o bastante para que somente ele ouvisse.
Um sorriso pervertido brincou em seu rosto. E ele não me respondeu, apenas me puxou e guiou por entre a multidão, até começarmos a subir as escadas e irmos para um corredor, onde a música parecia não ter abaixado praticamente em nada o volume. Havia muito casais se pegando por ali, ou pessoas bêbadas passando e ele me guiou até achar um quarto livre, me puxando para dentro dele.
Antes que o barulho da porta sendo fechada chegasse aos meus ouvidos, os lábios de já estavam grudados nos meus.
Meu sangue de repente parecia lava, e tudo o que eu queria era beijá-lo mais e mais. Minhas mãos atrapalhavam seus cabelos enquanto as dele passeavam livremente por meu corpo. Onde quer que elas tocassem era como se choques me atingissem.
Desci minhas mãos de seu cabelo e comecei a procurar a abertura da roupa dele. Estava calor demais para continuar com elas, mas parecia não haver jeito. Ele riu do meu desespero e se livrou da roupa com facilidade, e eu adorei ajudá-lo como pude.
“She was so shy” ele cantarolou junto com a música. “'til I drove her wild”.
- Cala boca – reclamei rindo e o empurrando na cama, atrás dele.
Ter a imagem dele ali, de boxer branca na minha frente, me animou digamos... muito.
Comecei a desabotoar meu sobretudo.
- Quer ajuda? – ele ofereceu com um sorriso nada católico.
Neguei com a cabeça, me movimentando conforme a música. Continuei a desabotoar vagarosamente meu sobretudo. Agora era eu quem ria por causa do desespero dele.
Quando finalmente cheguei ao último botão a boca dele praticamente caiu. Deixei que o sobretudo caísse aos meus pés e coloquei as mãos na cintura.
- Uou! – foi a única coisa que ele conseguiu balbuciar.
Eu gargalhei. Era exatamente isso que eu disse que ele diria quando me visse com aquele espartilho. Convenientemente, o espartilho preto e vermelho que eu usava combinava perfeitamente com a tatuagem de frufru em minha coxa.
Sem conseguir mais esperar, me aproximei dele, sentando em seu colo.
“I make them good girls go bad” ele cantou junto com a música, convencido, e me puxou até que nossos corpos estivessem colados.
“I know your type, boy you're dangerous, yeah you're that guy” cantei para ele, junto com a garota que agora cantava. Antes que eu pudesse continuar, ele me beijou com urgência, deslizando suas mãos sem pudor por meu corpo.

A consciência voltava e eu observei uma imagem não muito clara se mexendo a minha frente. Esfreguei meus olhos e soltei um bocejo enquanto me espreguiçava. Ao abrir os olhos percebi que o que se movia era , colocando de volta a fantasia da noite passada.
- Desculpe, te acordei, amor? – ele subiu na cama e me deu um selinho.
- Não acredito que dormimos aqui – me sentei na cama, e as imagens e sensações da noite passada vieram a minha mente. Estremeci.
sorriu. “Não se preocupe, querida, James não se importou”.
Senti meu estomago reclamar. “Tô com fome”. Fiz biquinho.
Ele recolheu minhas roupas que estavam jogadas no chão jogou-as em cima da cama. Comecei a me vestir.
- Onde você conseguiu esse espartilho? – ele perguntou enquanto eu o ajustava no corpo.
Senti minhas bochechas esquentarem. “Você comprou ele”. Ele fez cara de indagação. “Naquela loja do shopping”.
Ele sorriu pervertido. “Acho que vou explodir suas roupas de novo”.
Fiz sinal com a mão para que ele se aproximasse. “Estamos juntos no lado bom da força novamente?” perguntei e ele riu.
- Estamos – ele respondeu e me deu um selinho. – Acho que te devo muita confiança depois de ontem – fiz uma careta. Ele me puxou pelas mãos e me levantou da cama, esticando o sobretudo para que eu vestisse. – Vem, vamos comer alguma coisa.
Nós descemos as escadas e aquela casa se encontrava em estado de calamidade. Com algum esforço chegamos a cozinha onde encontramos nossos amigos ali, além de mais três que eu não conhecia.
- Aí está a garota com cinco cores no cabelo! – James disse me recepcionando. – Eu sorri sem graça. – Todo mundo ficou me perguntando quem diabos era aquela estranha com cinco cores no cabelo.
- Estranha, valeu aí – eu desviei o olhar para o teto.
- Todos falavam de você, mas ninguém sabia seu nome – disse e roubou alguma coisa do prato de enquanto ela estava distraída.
- Meu Deus, o que eu fiz de errado? – perguntei preocupada.
- Você tem cinco cores no seu cabelo e é diferente, isso foi o bastante – disse James.
chegou perto me abraçou e rodou no ar, me fazendo dar um gritinho.
- Meu Arco-Íris é oficialmente popular – ele disse ainda sem me soltar.
Eu dei um beijo na bochecha dele, ligeiramente tonta. “Vejo que alguém acordou de bom humor”. Dei uma olhadela para , que parecia ter dormido menos que eu naquela noite.
- Ok, me declaro culpada – ela ergueu as mãos no ar, arrancando risadas de todos. – E espero que você tenha tomado cuidado com meu sobretudo.
- Nem encostei nele – já foi logo se defendendo.
- Seu sobretudo está impecável – garanti. – A única diferença é que fica mais bonito em mim.
- Sem graça – mostrou a língua.
- Prefiro o que tá por baixo – sussurrou em meu ouvido e senti minhas bochechas arderem em conjunto com um arrepio.
apareceu na porta da cozinha parecendo um zumbi, seus cabelos curtos bagunçados. Ela esfregou os olhos, só então se dando conta de que todos a observavam.
- Parem com isso! – ela reclamou, mas sua voz saiu ligeiramente rouca.
- Ressaca? – perguntou , com um tom de compreensão.
- Ahn? – ela piscou algumas vezes. – Ah, é. Muita ressaca.
Mas toda a sua credibilidade foi tirada assim que adentrou a cozinha, bocejando, sem camisa.
- Vocês chegaram a dormir? – a pergunta saiu antes que eu me desse conta.
- Não – ele respondeu, e arregalou os olhos, se encolhendo atrás do balcão, o rosto vermelho.
- Ressaca, né, espertinha? – disse, segurando o riso. – Que coisa feia mentir.
- Nem vem, foi você que enganou minha mãe pra eu poder vir – ela retrucou, se recuperando da vergonha enquanto se aproximava e lhe dava um beijo na bochecha.
- Mentir para os pais é diferente – disse . – Pra nós não pode.
- Tem suco, James? – perguntou, ainda muito aéreo para prestar atenção na conversa.
- Perto da pia – James respondeu.
voltou a se aproximar de no caminho, aproveitando para dar-lhe uma mordida no braço, a fazendo gritar e ganhando um tapa – que ele pareceu nem sentir – e foi até a pia pegar o suco.
- Se a menina chegar roxa em casa vai ficar difícil a mãe dela acreditar que era uma festa do pijama – ralhou com , que ainda parecia não a estar ouvindo.
- Contanto que ninguém tenha quebrado nenhuma das camas, o resto a gente arruma – James disse distraído.
cuspiu o suco na pia e começou a engasgar, e todos congelaram, o observando. Ele continuou a tossir e parecia iria conseguir realmente abrir um buraco embaixo dela de tanta vergonha que seu rosto voltava a transparecer.
E o que todos nós podíamos fazer agora além de rir da cara deles?

Capítulo 21
Conspirancy

- Podíamos passar a tarde no parque – ele sugeriu enquanto entravamos em seu carro. – Alguém vai querer carona? – ele ofereceu pelo vidro aberto.
- Não – respondeu.
bateu no vidro da minha janela e eu abri o vidro.
- – ela parecia nervosa. – Não quer sair com a gente? podia te buscar mais tarde.
- Não, tudo bem – eu respondi sorrindo tranquila. – Precisamos passar um tempo juntos.
- Mais do que ontem? – também apareceu na nossa janela.
Senti minhas bochechas esquentarem novamente, e fechou seu vidro na cara dele.
- voltou a me chamar, e eu segurei a mão que ela estendia. – Se cuida. Te amo amiga.
- Own, também te amo – sorri sincera.
- Ciúmes! – gritou de algum lugar lá fora.
- Ciúmes mais um! – gritou .
- Amo todos vocês – gritei com a cabeça para fora do vidro. – Tchau.
parecia relutante em soltar minha mão, mas o fez de qualquer jeito.
deu partida no carro e deixamos a casa de James para trás.
- O que ela tinha? – ele perguntou com uma careta.
- Não sei – respondi. – Mas de repente sinto uma coisa estranha...
- Relaxa amor – ele colocou uma mão em minha coxa, acariciando-a.
Liguei o rádio e deixei tocar uma música qualquer do Robbie Willians em uma das estações.
Observei o rosto tranquilo de e de repente me senti culpada por estar escondendo o que ele tanto queria saber. Não deveria haver segredos como esses entre nós.
- Aprendi a atirar – eu disse olhando para a estrada a nossa frente.
- Ahn? – ele perguntou confuso.
- Aprendi a atirar – repeti. – Com uma arma de verdade.
- Você ficou maluca? – ele perguntou incrédulo.
- Você vive se preocupando comigo! – protestei. – Então aprendi a me proteger.
- A se proteger? – ele me olhou zangado. – , como assim você aprendeu a atirar?
- A atirar, a bater, a esfaquear... O que for preciso – respondi cruzando os braços.
- QUEM TE ENSINOU ESSAS COISAS? – me assustei ao perceber quão alto o nível de irritação dele estava.
- Você queria saber o que eu andava fazendo – disse me encolhendo.
- – ele repetiu, obviamente tentando controlar a irritação. – Quem te ensinou?
- Não vou te falar – respondi, tentando não envolver nisso.
- Foi o ? – Como ele sa? Minha expressão deve ter me entregado. – Droga!
Ele bateu com força no volante. De repente eu percebi o quão rápido o carro estava, e isso me assustou.
- , vai devagar – pedi. Ele não respondeu. – , vai devagar - Eu estava me assustando ainda com seu silêncio e sua falta de expressão. Ele estava pálido ou era paranóia da minha cabeça? – ?
- Não dá! – ele respondeu nervoso. Me senti desesperada enquanto a descida em que estávamos se atenuava e a velocidade do carro aumentava junto com ela. – O freio não tá pegando!
- Como assim o freio não tá pegando?
- Eu não sei! – seus olhos azuis continham o mesmo desespero que os meus. – Não obedece!
Olhei para sua perna que forçava cada vez com mais força o freio, mas o carro não diminuía a velocidade.
- O que a gente vai fazer? – senti as lágrimas já darem o ar da graça em meus olhos. Olhei para fora a procura de alguma coisa que pudesse ajudar, mas estávamos em uma estrada de uma montanha, tudo que havia era morro de um lado e penhasco do outro. Logo a nossa frente havia uma enorme ladeira, e logo depois dela, uma curva. – Não dá pra dirigir até parar?
- Aquela curva é muito fechada pra velocidade em que já estamos, imagina quando chegarmos lá embaixo!
- Então o que a gente vai fazer?
A tensão tomou conta do carro nos segundos em que esperei pela resposta.
- Pular – ele respondeu. – As portas são travadas enquanto o carro está ligado, então, assim que eu desligá-lo, a gente pula.
Arregalei os olhos para ele, mas acabei concordando com a cabeça por falta de opção. Era o único jeito, e eu sa disso.
- Pronta? – ele perguntou. – No três. Um... – eu me aproximei dele e dei-lhe um beijo. – Dois... – respiramos fundo. – Três!
Ele girou a chave da ignição e as luzes do carro se apagaram, em seguida ele destravou as portas.
- Eu te amo! – gritei para ele enquanto abríamos cada um sua porta.
- Também te amo, agora vai! – ele gritou.
Sem pensar muito no que estava fazendo, escancarei a porta e me joguei para fora do carro. O impacto foi forte assim que bati no chão e meu corpo rolou pela grama. Parei a centímetros da grade de proteção da estrada. Eu não sa se ainda estava viva ou não, só queria saber onde estava . A dor logo declarou que eu estava viva – e muito, pela intensidade dela. Pela posição em que eu estava pude ver o carro descer a mais de duzentos quilômetros por hora e bater na grade de proteção da curva lá embaixo, levando-a junto em um vôo livre.
Minha visão ficou embaçada de vermelho. Tentei levantar o braço para limpar meu rosto, mas isso doeu demais. Rolei para ficar de barriga para cima e usei a outra mão para limpar meus olhos. Sangue escorria de alguma parte acima de minhas sobrancelhas.
- ! – gritei com medo de me mover e me dar conta que mais alguma coisa estava doendo. Mas, mesmo parada, uma dor terrível tomou conta de meu abdômen. Era como uma cólica, mas mais forte do que qualquer uma que eu já tivesse sentido.
Ele apareceu ao meu lado, tampando a luz do sol.
- , você está sangrando – ele parecia desesperado.
- É, acho que bati a cabeça – eu disse fechando os olhos, tentando não gritar com as dores que latejavam em meu corpo.
- Não, – ele parecia mais desesperado agora do que estivera no carro. - Suas pernas, você está sangrando.
Arregalei os olhos, pega de surpresa, e tentei me levantar. Isso doeu muito, e ele me ajudou a levantar a coluna o bastante para que eu constatasse que estava realmente sangrando. Enquanto eu continuava sem acreditar naquilo ele correu para o meio da estrada e fez um carro parar.
- A ambulância já está vindo meu amor, calma. – disse ao voltar e se postar ao meu lado.
Eu ainda encarava a mancha de sangue entre minhas pernas. Passei uma das mãos por baixo do sobretudo e levantei meus dedos umedecidos pelo liquido vermelho e ainda mais quente do que as lágrimas que passavam despercebidas por meu rosto.
Respirei fundo, tentando não preocupar e ainda contendo os gemidos de dor.
- Acho que tá parando – sussurrei após alguns minutos.
- Espero que sim – ele deu um beijo em minha testa.
- Você não tá machucado? – perguntei, agora esquadrinhando seu corpo.
Havia sangue, mas em quantidade bem menor do que em mim.
- Um pouco – ele respondeu. – Mas dá pra aguentar. O pior é que acho que quebrei uma unha.
Eu ri, e isso provocou uma fisgada.
- A paisagem aqui é bonita – eu disse descansando minha cabeça em seu peito e tentando me distrair. A cólica parecia diminuir a intensidade juntamente com o sangramento.
- É – ele concordou. – Mas você não pode dormir, pequena.
- Tá – mantive os olhos na paisagem verde, apenas agradecendo internamente a Deus por ainda poder sentir o peito de subindo e descendo conforme sua respiração.
A ambulância finalmente chegou e eles imobilizaram, o que me deixou indignada. Eu não estava tão mal a ponto de ter que ser imobilizada enquanto podia simplesmente sentar ao meu lado. Isso não era justo.
Assim que meu corpo ficou reto as dores se intensificaram, mas a “cólica” era o que mais me preocupava. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo, mas minha cabeça doía tanto que eu preferia tentar me distrair com os instrumentos dentro da ambulância ou o rosto de .
E aquele lindo sobretudo estava ensopado de sangue, vai me matar.
não saiu do meu lado no hospital nem por um segundo. Seria sufocante se não fosse tão reconfortante ter ele por perto, preocupado. Somente quando médico disse que eu ficaria bem e que era ele quem precisava de atendimento agora foi que ele deixou meu quarto.
O médico continuou lá dentro.
- Você precisa de repouso por enquanto, acredito que amanhã poderá deixar o hospital – ele disse, anotando alguma coisa na prancheta que carregava. Pelo menos aquele quarto tinha um cheiro agradável de coisa limpa. – Você teve muita sorte, mocinha. Você perdeu sangue, mas incrivelmente seu bebê continua bem. Pelo jeito que aquele rapaz se preocupa com você só pode ser o pai, certo?
Eu não entendia mais do que ele estava falando.
- Que bebê? – perguntei confusa. – Não tinha nenhum bebê com a gente.
- O seu bebê – o médico disse, ele olhou para a prancheta e então voltou a me olhar. – Você é , certo? – confirmei com a cabeça. – Seus exames dizem que está grávida de cinco semanas.
- Não, não estou – eu disse firme.
- Podemos refazer seus exames se quiser – ele propôs.
- Ótimo, refaçam – respondi grossa, indignada por eles terem errado tão feio.
- Mas primeiro me responda – ele abaixou a prancheta e me olhou fixamente. – Você não teve relações sexuais nesse período? Não sentiu nenhum tipo de enjôo ou tontura? Sua menstruação está regular?
Arregalei os olhos para ele. Isso era uma coisa em que eu não tinha prestado atenção antes. Minha menstruação era regular, variando de três a cinco dias de atraso no máximo, mas… ela já estava atrasada pelo menos duas ou três semanas. Como não percebi isso antes?
- Mas nós nos protegemos – balbuciei incrédula.
- Todas às vezes? – ele insistiu.
Todas? Não, não todas. Mas qual eram as chances de se engravidar na primeira vez? Ele só podia estar brincando.
- Mas achei que eu passasse mal por causa da fo – eu tinha que achar alguma falha.
- Comendo muito? Sono demais? Cansaço? Irritação? – ele listou.
- É, tenho tido um pouco de fome – eu disse, lembrando das garotas brigando comigo. – E acho que tenho me irritado muito facilmente. Mas mesmo assim, não posso estar grávida! Não posso!
- Minha mulher sempre disse que a gravidez é um dos melhores momentos de uma mulher.
Por que diabos o médico estava me falando aquilo? Eu sou apenas uma criança, não uma mulher!
Ele se virou para sair do quarto.
- Doutor – o chamei assim que ele chegou à porta. – Não fale nada para o meu namorado, por favor.
Ele concordou com a cabeça e saiu.

era amigo demais de para bater nele, mas eu sa que tinha sido por pouco. Ele me mandou parar de ter “aulinhas” com , e eu não tive outra opção além de aceitar. De qualquer jeito, eu teria que dar um tempo mesmo, já que o teatro e o grupo de lideres de torcida já sugavam todo o esforço que o médico havia me autorizado a ter. continuava em nosso grupo tranquilamente – tranquilamente até a hora em que começava a beijar a -, mas não falava com ele se não fosse extremamente necessário.
cabeça-dura, ele não queria saber se tinha boas intenções ou não. Eu sei que ele estaria bravo comigo até hoje se o acidente de carro não tivesse acontecido.
E depois daquele acidente tudo estava sendo difícil. Olhar para a cara de e não lhe contar sobre a minha gravidez estava sendo mais complicado do que eu esperava. O pior é que, agora que eu sa o motivo, eu tinha que esconder meus sintomas. Falei a e meus amigos que o médico explicou tudo aquilo como uma virose. Eles caíram, exceto , quando me viu vomitar depois de um dia inteiro de cólica. Ela podia ser a mais lerda entre nós, mas com certeza inteligência não lhe faltava. Ela comprou um teste de gravidez para mim sem eu saber, e me ofereceu ele. Tentei escapar de tudo quanto era jeito, mas não teve como. Ela me conhecia mais do que eu podia imaginar, ou eu mentia muito mal. Então, me levaram dois dias de protestando em silêncio, mas eu admiti para ela.
Isso me aliviou, para falar a verdade. Era bom poder compartilhar isso com alguém. Era bom ter ajuda, pois ela me repreendeu, mas depois disso, ficou feliz. Foi então que eu percebi que não adiantava mais me torturar, eu estava grávida e tinha que aceitar isso. Poucos iriam aceitar isso quando soubessem, mas eu não podia fazer nada. A não ser que… não, isso era perigoso demais, ilegal e estupidez. Afastei rapidamente esse pensamento e continuei caminhando pelo corredor frio.
Eu já estava mentindo para há duas semanas, não ia ser agora que diria alguma coisa. Mas por que raios tinha que estar tão frio justo hoje? Isso estava me irritando. Eu já havia acordado mal, mas ter que ser o centro das atenções duas vezes seguidas estava me deixando ainda mais tensa. Ok, respira fundo.
Entrei no auditório da escola, onde nosso cenário já estava montado, mas as cadeiras ainda estavam vazias.
- Oi! – Allan, meu par romântico, me cumprimentou. – Pronta, minha princesa? – ele brincou.
- Não – eu respondi sincera com um sorriso.
- Também estou apavorado – ele confessou fazendo uma careta.
- Todos estamos – disse uma das garotas saindo de trás do palco. – Agora venham logo, vocês precisam se preparar.
Eu fiz uma careta arrancando uma risada de Allan.
Pelo menos meu vestido era lindo. Se eu fosse um desastre na peça, pelo menos meu vestido branco era lindo. Me olhei no espelho. Era estranho, pois eu estava com uma peruca preta. Meu cabelo nunca fora preto, apenas castanho, mas minhas mechas eram “inapropriadas para a personagem”, como Cheryl havia dito.
- Vinte minutos! – gritou Cheryl na porta do camarim que eu dividia com mais cinco garotas. – Lá fora já está começando a encher.
Prendi o ar, depois respirei fundo tentando me acalmar, repassando os ensaios mentalmente enquanto terminava a maquiagem.
- Você vai se sair bem – Allan sussurrou para mim enquanto esperávamos atrás do palco que a peça começasse.
- Nós vamos – corrigi com um sorriso nervoso.
Os primeiros quinze minutos foram realmente difíceis, mas, depois, eu me soltei de forma natural, e tudo começou a fluir melhor. estava lá, na primeira fila me assistindo, mesmo tendo um importante jogo ainda hoje. Todos os meus outros amigos – exceto – estavam ali também, me assistindo.
Eu tinha certeza disso porque assim que pisei no palco, gritou “Uhú”, e isso causou um grande esforço de minha parte para não cair na risada naquele silencio mortal. Mesmo assim anotei mentalmente para bater em mais tarde.
Lauren e os pais estavam na segunda fileira, do outro lado. Mas depois dos quinze minutos, isso também parou de me deixar nervosa e, no final, todos estavam nos aplaudindo de pé.
- Você não pode entrar aqui – ouvi a voz de Cheryl repreender alguém.
- E por que não? – a voz sedutora que eu reconheceria em qualquer lugar soou do outro lado da porta do camarim. Há, ele estava tentando convencer Cheryl daquele jeito? Nem sonhando ela iria ceder a ele.
- Tá todo mundo vestido aqui? – Cheryl perguntou enfiando a cabeça pra dentro da porta.
Uma das garotas, a de cabelo loiro-branco, vestiu a camiseta apressada.
- Estamos – uma das outras respondeu.
Cheryl abriu mais a porta e deu passagem para . Ele conseguiu convencer ela? Meu Deus, eu tenho que prestar mais atenção no efeito dele sobre as mulheres.
Eu abri um sorriso de orelha a orelha ao ver ele se aproximar de mim e agachar, apoiando-se em um dos joelhos. Ele levou uma de minhas mãos aos lábios, dando um leve beijo nela.
- Minha princesa – aquele par de olhos azuis apagou qualquer coisa que pudesse estar a nossa volta. – A mais linda de todas as princesas que a humanidade já teve.
- E o que lhe faz pensar que eu seria sua? – ergui as sobrancelhas.
Ele se levantou, sem interromper o contato visual nem soltar minha mão. “Está escrito através de seus olhos”.
Senti minhas bochechas esquentarem.
- E você estaria disposto a cumprir todos os meus desejos e me salvar de todos os perigos?
Ele passou as mãos por minha cintura, nos aproximando o máximo que meu vestido fofo permitia.
- Até pelos seus desejos mais caprichosos eu seria capaz de desbravar todos os mares e lugares mais remotos. Para te manter a salvo, eu daria a minha própria vida.
Ele aproximou nossos rostos até que nossos lábios estivessem afundados em um beijo.
- Pra próxima peça vocês já têm papel garantido – disse Cheryl, interrompendo nosso beijo.
riu, mas ainda me olhava carinhosamente.
- Não acho que eu vá estar na próxima peça – disse com um sorriso infeliz.
- Tá maluca? – perguntou Cheryl indignada.
– Você não está pensando em nos abandonar, não é? – a garota loira perguntou.
- Desculpe gente, mas acho que não vai ter como.
- E por que não? – perguntou, e eu voltei minha atenção para ele, totalmente alarmada. – Se for por causa das provas, eu te ajudo a estudar. Ou o ajuda a gente.
Na verdade seria mais por que eu estaria com uma barriga enorme até lá, mas melhor você não saber disso ainda.
- Você não devia estar se aquecendo? – tentei desviar o assunto. – O jogo é em menos de uma hora!
- Você também já devia estar se aquecendo – ele contrapôs.
- Então da licença pra eu trocar de roupa – dei um selinho nele. – Te encontro na quadra, pode ser?
Ele concordou e assim que a porta se fechou, as garotas começaram a falar do quanto ele era fofo. Ele é fofo mas é meu, queridinhas.
Passei pelo corredor, movimentado agora, e alguns faziam comentários sobre a peça para mim e eu ficava cada vez mais feliz por tudo ter dado certo. As palavras de ressoavam em minha mente, a cena como em um lindo filme. Ele era tudo pra mim.
A barulheira era grande vinda da arquibancada e eu me dirigi direto ao vestiário feminino. Hoje era o dia de um dos três jogos mais importantes desse semestre, a expectativa em cima de todos era grande. A arquibancada estava lotada não só pelos alunos, mas também por seus pais.
Eu estava terminado de prender meu cabelo quando Brooklie entrou e todas pararam de conversar ou de se alongar, provavelmente pensando a mesma coisa que eu, mas foi quem verbalizou.
- O que você está fazendo aqui?
- É um vestiário feminino, eu posso entrar aqui a hora que quiser – ela disse com a voz enjoada de sempre. – Quero falar com você – ela soltou finalmente.
A olhei surpresa. “Pode falar”.
- Ótimo – ela deu de ombros. – Seu namorado está te esperando atrás da escola.
- ? Mas o jogo é daqui dez minutos! – pensei alto demais.
- Eu não disse que era o – ela deu um sorrisinho falso e se virou jogando os longos cabelos ruivos, saindo do vestiário.
A vontade de grudar nos cabelos dela e a estapear ardeu dentro de mim, enquanto meu único pensamento era “E quem mais seria, sua demônia ruiva?”. Me segurei e contei até cinco, respirando fundo.
- Acho bom você estar de volta em dois minutos! – me despertou do estado de surpresa e confusão.
- Certo – sai rápido do vestiário e passei pela lateral da quadra, atravessando a porta que dava para os fundos da escola.
Aquilo estava muito estranho. A primeira coisa que vi foi a claridade do céu cinzento; senti o ar frio bater em minha pele descoberta, mas o que realmente fez um arrepio avassalador correr por minha espinha foi à imagem de um garoto de costas.
Não, por favor, não.
- Estava te esperando, amor – sua voz cortou o vento.
Eu paralisei enquanto ele se virava para mim, revelando a única face que eu não queria ver nunca mais nesse mundo.
- Você não vai me dar um abraço de boas vindas? – Ele deu um passo em minha direção, me fazendo instintivamente dar um passo para trás. – Por que está com essa cara? Você não está feliz em me ver?
Eu soube a partir dali que minha vida voltaria a ser o mesmo inferno de antes, era como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar – e não sa se um dia conseguiria novamente. Mas seria eu capaz de lidar com tudo aquilo novamente? Eu teria de ser, e isso ia além de minha própria proteção, pois agora eu não estava mais sozinha.
- O que você está fazendo aqui, Jack? – eu cuspi as palavras.
- Não é obvio? Eu vim te ver! – Ele sorriu. – Vim te buscar, na verdade.
- Eu não vou a lugar nenhum com você.
- Eu sei que você sente falta do Brasil. Mas não se preocupe, nós não vamos imediatamente. Comprei nossas passagens pra daqui uma semana. Quero aproveitar um pouco aqui, conhecer seus amigos...
- Decididamente você é maluco – eu disse indignada. – Você não está achando realmente que eu vá voltar com você para Brasil, não é?
- Claro que estou. Por isso também uma semana, pra você ter a chance de pensar.
- Como você me encontrou?
- Tive uma ajudinha.
- De quem?
- De uma amiga sua. – Ele deu de ombros, e eu o olhei confusa. - Agora vem cá – ele me chamou com a mão. – Me dá um beijo.
- Prefiro beijar águas-vivas, são menos nocivas do que você.
- Não seja tão teimosa – ele deu mais um passo para frente, e eu dei um para trás. – O que você quer, que eu te peça desculpas outra vez? Você sabe que eu sinto muito por tudo aquilo.
- Desculpas não vão apagar nada – ele deu outro passo em minha direção e eu outro para trás, encontrando a parede da escola a minhas costas. Um sorriso surgiu em seu rosto enquanto ele continuava a se aproximar. – Fique longe de mim.
- Não, não vou ficar longe – ele encostou o corpo no meu, e eu senti uma súbita vontade de vomitar. – , esqueça aquilo, vamos recomeçar. Parece que se esqueceu de como nos amávamos. Eu te amo e você sabe disso – ele alisou minha bochecha e eu virei a cara.
- Não, eu achei que te amasse, mas descobri o que amor quer dizer, e, com certeza, não chegamos nem perto disso.
Sua feição se fechou.
- O que você quer dizer com “descobri”? – continuei calada. – Me dá sua mão – ele exigiu.
- Me deixa em paz – tentei o empurrar, mas ele só me prensou mais contra a parede e pegou minha mão, levantando-a a força.
- Aliança? – ele parecia furioso agora, e isso despertou os piores sentimentos de medo que já havia experimentando na vida. – QUEM É ELE?
- Não é da sua conta – arranquei minha mão da sua. – Eu não pertenço a você, nem nunca pertenci.
- Ótimo – ele disse cínico. – Se você não pode ser minha, não pode ser de mais ninguém.
- Você é ridículo.
- E você precisa aprender a ser mais educada – ele levou os lábios próximos ao meu rosto, e eu tentei o empurrar com mais força ainda, sentindo a repulsa pulsar em todo meu corpo. Ele segurou meu rosto com uma das mãos, segurando-o e forçando meus lábios com língua. Eu senti desespero, e minha respiração já começava a falhar. – Sabe, adorei essa roupinha – um sorriso maldoso se instalou em seu rosto, e eu sufoquei, sentindo sua outra mão subir por minha coxa. – Vai facilitar o trabalho dessa vez.
Ele voltou a tentar me beijar, passando sua mão por debaixo de minha saia sem pudor. A tontura me dominou, e eu não conseguia mais reagir com força. E, naquela mente doentia dele, ele estava entendo como rendição.
- Viu, você sente tanta falta de mim quanto eu de você – ele sussurrou em meu ouvido.
- Por que você está fazendo isso comigo de novo? – eu choraminguei, tentando puxar ar enquanto minha boca estava livre.
- Pra você aceitar que me quer.
Com aquela última frase, todas as lembranças que eu estava tentando manter trancadas há tanto tempo tomaram conta de minha mente novamente. Quando ele me levou para casa do amigo dele, Rafael, e começou a ficar violento de verdade comigo; dele me arrastando até o quarto e me jogando com força contra a cama, exigindo de todo o jeito que transasse com ele. De como o canivete que ele segurava rasgava a pele da minha coxa e ele sorria de um jeito diabólico. De como eu nunca havia corrido tanto em minha vida, mesmo sentindo dor na perna. De Liz me recebendo na casa dela, totalmente assustada com meu estado.
De nada havia adiantado o treinamento que havia me dado - pensei, sentindo meu corpo amolecer gradativamente. O canivete e a arma que ele havia me dado tampouco me ajudariam nesse momento, pois estavam em minha mochila, trancada no meu armário. De nada havia adiantado mudar de país. De nada havia adiantado toda a minha luta contra meus medos, pois eles estavam aqui agora, mais fortes do que nunca.
Ele deu uma mordida em meu pescoço, descendo a boca lentamente, mas com voracidade, e eu senti as lágrimas escorrerem livremente por meu rosto.
É claro, meu herói estava ocupado demais agora, em um jogo importante, do outro lado da parede. Ninguém iria me ajudar, e eu sa disso.
A imagem de voltou a minha mente, e meu coração doeu como se estivesse sendo esfaqueado. Eu precisava dele mais do que nunca, mas ele estava ocupado demais para me salvar, distraído demais para dar por minha falta.
Meu estômago doeu, e foi então que percebi. Eu não poderia permitir que nada daquilo acontecesse, pois meu corpo não pertencia mais só a mim. Havia uma criatura pequena dentro de mim. Pequena, mas que eu enfrentaria qualquer coisa para proteger. Eu a amava mais do que a mim mesma, mais do que a .
Minha mente pareceu se restabelecer, e eu me concentrei em respirar. Recuperei um pouco da minha sanidade e finalmente criei forças para enfrentá-lo.
Descobri que meu maior medo não era dele mais, mas de que qualquer coisa pudesse acontecer de ruim com meu bebê.
Levei minhas mãos aos cabelos loiros de Jack, e ele me olhou sorrindo.
- Eu tenho nojo de você – disse com ferocidade, puxando com força seus cabelos para trás.
Levantei com toda força que pude minha perna, livre por um instante, e acertei em cheio meu joelho entre as pernas dele.
Pego de surpresa, ele se curvou com dor, e eu aproveitei, e eu aproveitei para dar um belo soco em seu rosto. Dei alguns passos para o lado e fui me afastando e, assim que ele levantou o rosto, pude ver sua expressão assassina.
Assustada, eu corri. Corri como naquela noite do medo. Não corri como se fosse para salvar minhas vida, já realmente que eu tinha que correr para isso. Empurrei com força a porta de trás do ginásio, e todos na arquibancada faziam algazarra, alguém devia ter feito gol. Pelo menos eu passaria despercebida por eles, e continuei a correr, entrando no primeiro lugar mais próximo que vi, descobrindo ser o vestiário feminino.
Sentei no banco em frente ao meu armário, com a respiração acelerada, o pânico me deixando totalmente alerta. Abri meu armário, mas, antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, alguém puxou e segurou meus braços para trás com força. E eu que achei que estaria mais segura aqui, há.
- E quando você aprendeu a revidar? – eu senti sua respiração em meu pescoço, me fazendo tremer.
- Agora eu tenho pessoas que cuidam de mim – eu disse, tentando manter a voz firme, tentando não mostrar meu pânico. – Se eu fosse você, dava o fora o mais rápido possível.
Ele riu, e eu tentei soltar minhas mãos. Ele socou minha cabeça contra a porta do armário ao lado da minha, mas aquilo doeu menos do que eu pensei que doeria.
- Eu não estou vendo ninguém aqui além de nós, meu amor – eu sa que ele tinha um sorriso sacana no rosto. – Conforme-se que você é só minha, eu quem cuido de você.
- Sério? Espero que você não tenha filhos. Estou falando sério, meus amigos devem estar vindo.
Eu sa que aquilo era mentira, mas talvez ele caísse nessa. Eu não iria desistir, eu não iria ceder. Não sem lutar.
- Então talvez devêssemos ir para outro lugar – ele disse e dei um beijinho em meu pescoço.
Claro, eu sou estúpida, tinha ter aberto minha boca. Agora, se alguém realmente tivesse me visto, não faria diferença.
- Por que você ficou desse jeito? – tentei distraí-lo. – Você nunca foi desse jeito comigo e de repente você foi mudando e...
- Você não parecia corresponder ao meu amor do jeito que devia – ele disse amargo.
- Você quer dizer que eu não gostava de você porque não transávamos? – perguntei indignada.
- É, mais ou menos por aí – ele respondeu.
- Você é doente, Jack!
Percebi tarde demais que cometi um erro usando essas palavras. Uma lâmina gelada começou a percorrer minha pela, mas eu sa que estava virada com a parte sem corte. Por enquanto. Ele a deslizou até minha coxa, acariciando a cicatriz com o dedão.
- Pelo menos você não me esquece – ele disse, se referindo à cicatriz.
- Bem que eu queria conseguir – retruquei.
Ele me virou com força, e eu senti que as chances de conseguir alcançar minha bolsa estavam cada vez mais distantes.
- Ah, acho que esqueci de te devolver uma coisa, meu amor – ele deu um sorrisinho cínico, e eu senti seu punho se chocar fortemente contra meu rosto.
Abaixei a cabeça com dor, e espiei para a distância que me dividia do meu armário aberto. Eu precisava alcançar aquela arma, eu precisava proteger meu bebê.
- O que tem ali? – ele perguntou curioso. – Por que você abriu o armário?
Ainda prendendo minhas duas mãos com uma das suas em minhas costas e a outra segurando o canivete perto de meu pescoço, ele me arrastou para o lado, até ficar em frente ao meu armário. Ele começou a vasculhar dentro dele, e eu me desesperei.
Ouvi um barulho. Se ele achasse a arma, quem quer que estivesse vindo, estaria em perigo também.
- Acho que tem alguém vindo, melhor você sair enquanto tem tempo – eu avisei.
- Você sabe que eu não vou sem você – ele disse. – e agora é muito tarde, docinho. Eu já achei.
Ele balançou a arma e todas as minhas esperanças se esvaíram eu estava ferrada.
- SOLTA ELA! – ouvi aquela voz aveludada esbravejar.
- Caí fora – Jack retrucou, sem dar atenção.
- SOLTA ELA AGORA – a voz reverberou pelas paredes frias do vestiário novamente.
- Vai embora! – eu implorei.
Eu achava que tinha sentido medo há pouco, mas agora meu coração estava congelado. Além de meu bebê estar correndo perigo, agora também estava.
- É um dos seus amigos? – Jack perguntou, subindo as sobrancelhas.
Isso , dá ataque mesmo, entrega de uma vez esperta.
- Não – respondi tentando ao máximo manter a calma, o que parecia impossível. – Mas ele é inocente nessa história, não tem por que machucá-lo.
- NÃO VOU REPETIR! – veio em nossa direção a passos largos.
- Não precisa – disse Jack calmamente, levantando a arma. – Agora vai embora, moleque.
Ok, mesmo Jack tendo dezoito anos, não era menor do que ele. Mas Jack tinha uma arma, isso era outra história.
levantou as mãos, desprevenido. “, quem é ele?”.
- Achei que vocês não se conheciam – Jack deu uma breve espiada em mim. – Quem é ele afinal, boneca?
- Todos na escola sabem meu nome, Jack – eu disse, ainda tentando parecer convincente, e dando uma pista a . – E não me chame de boneca.
Jack riu alto. “Ainda com essa mania de rejeitar o apelido? Você sabe que adoro te chamar assim”.
- Por favor, vamos embora – pedi, tentando a todo custo tirar daquela situação.
- Vamos – Jack segurou com força em meu braço, nos virando para sairmos.
- Você não vai a lugar nenhum com ela, seu canalha – disse.
Jack se virou para ele, impaciente.
- Não se intrometa em brigas de casais – Jack parou por um instante, parecendo distraído com alguma coisa, mas eu não tive coragem de tentar nada, pois sua arma continuava apontada para . – Não acredito...
- Vamos embora – eu choraminguei.
Sem ao menos aviso prévio, recebi um tapa no rosto que me jogou no chão.
- SUA VADIA – Jack gritou para mim. – As alianças são iguais. Como você pode fazer isso? Nós brigamos, e você corre para outro? Pra esse cara?
Eu tentei buscar todas as desculpas possíveis em minha mente, mas não tive sucesso com o desespero nublando minha mente. Jack voltou sua atenção para , e engatilhou a arma.
Eu sufoquei.
- Jack, não faça isso – implorei, me arrastando até ele. – Por favor, deixe ele ir embora, eu faço qualquer coisa que você quiser.
- Você faria qualquer coisa só para mantê-lo a salvo? – ele perguntou, me olhando de um modo assustador.
- Qualquer coisa – respondi sem pensar.
- Não, , pare com isso – pediu, e eu vi que o meu desespero estava refletido em seu rosto.
- Vamos, Jack – eu me levantei e me aproximei dele, sentindo cada centímetros do meu corpo rejeitar essa aproximação. – Só eu e você – sussurrei em seu ouvido, e beijei o canto de sua boca.
- Você promete não fugir mais de mim? – ele perguntou, sem desviar o olhar de .
- Se você prometer deixá-lo ir em paz – respondi, dando mais um beijinho no canto de sua boca.
- Você não vai a lugar nenhum com ele! – disse , eu vi uma lágrima escorrer por sua bochecha, pulverizando meu coração.
- Certo – ele disse e, sem desviar a arma de , começou a me beijar intensamente.
Eu senti a repulsa gritar dentro de mim. Era como se eu estivesse beijando uma barata.
Meu coração literalmente parou quando ouvi um som que havia conhecido há poucas semanas. O barulho de um tiro.

Capítulo 22
Burned

Instintivamente olhei para . Não havia sangue em nenhum lugar, mas eu continuava a espera dele.
- Você errou – desafiou, agora mais próximo do que antes.
Olhei para Jack com um intenso ódio, maior do que eu. Sem raciocinar, e antes que me desse conta, eu o havia socado, e continuei socando. Ele virou a arma para mim. Eu tentei alcançar seu braço para torcê-lo, e ele atirou novamente. Meu braço queimou, e eu gritei de dor.
Jack pareceu confuso por um instante, como se não acreditasse no que tinha acabado de fazer. parecia no mesmo estado de choque.
- Droga, alguém deve ter ouvido isso – ele voltou a apontar a arma para , que agora estava realmente próximo. – Você fica quietinho ai!
Jack voltou a segurar meu braço com força, e saímos pela porta de trás do vestiário, enquanto ele continuava a apontar a arma para . Assim que a porta se fechou, eu ouvi os passos rápidos vindos de dentro do vestiário. Jack abriu a portinha da mangueira de incêndio, já arrombada por algum aluno vândalo, e a enrolou no puxador da porta, prendendo-a. tentava abri-la, mas não conseguia. Eu ainda podia ouvir seus gritos enquanto corria pelo corredor escuro com Jack, a arma sempre apontada para mim.

Ele tinha conseguido sair do colégio comigo com uma facilidade inacreditável. Mas também, eu não podia simplesmente envolver outra pessoa nisso. Eu precisava pegar aquela arma de algum jeito, mas ainda não fazia idéia de como iria conseguir essa façanha.
Caminhamos pela rua, e ele entrelaçou nossos braços, a arma apontada para mim por debaixo do casaco.
- E agora, para onde vamos? – perguntei, tentando bolar alguma coisa para me livrar dele.
- Eu aluguei uma casa, mas vamos ter que andar um bocado até lá – ele disse. – Não posso arriscar pegar um ônibus com você.
Eu pensei em sugerir um táxi, mas apressar as coisas para ficar em uma casa sozinha com ele não era exatamente o que eu estava querendo.
- Eu sei que pra você parece que eu sou maluco, me desculpe – ele disse, e eu franzi a testa. Parece? Há. – Mas você só não me entende. Ainda. Eu sei que você só precisa de um tempo pra...
- Jack, cale a boca – retruquei irritada. Meu braço esquerdo estava doendo pra caralho, será que ninguém percebia que ele estava sangrando? Ninguém se importava? Certo, o porteiro da escola perguntou sobre isso, mas eu tive que dizer que estava tudo bem, que estávamos indo cuidar disso. Jack não estava nem ai por eu estar machucada. – Cada vez que você abre a boca só fica mais ridículo.
- Você tem muita sorte por seu namoradinho ter escapado de mim. Assim que nós conversarmos, eu volto pra cuidar dele.
- Não ouse encostar em um fio de cabelo dele – eu rosnei.
- Own, ela fica bravinha quando fala dele – ele disse cinicamente. – Não percebe o que ele fez com você? Ele te convenceu que o ama.
- Você já prestou atenção no que fala? – perguntei incrédula. – Eu não faço idéia de como pude namorar com você. Ainda bem que eu cresci.
Ele apertou meu braço com mais força e me virou bruscamente de frente para ele.
- Sua vadia...
- Vadia? Você tá namorando a minha ex-melhor amiga pra me fazer ciúmes, sendo que eu te odeio!
Ele olhou para a rua atrás de mim, a testa franzida. “Mas que porcaria é essa?”.
Eu olhei para trás, na esperança de que fosse vindo em meu resgate. Mas eu nunca havia visto aquele carro preto grande e com vidros fume que agora cantava pneus, parando perto do meio-fio. Jack me virou de costas para ele, passando seu braço em volta de meu pescoço e apontou a arma para minha cabeça enquanto dois caras, um do banco da frente e outro do de trás, saiam, com armas apontadas para nós.
A diferença é que minha arma era pequena e humilde perto da deles, assim como meu próprio tamanho e o de Jack.
- Quem são vocês? O que querem? – perguntou Jack, e estava claro em sua voz que ele estava apavorado. Como se eu não estivesse.
- A garota – um dos armários disse.
- De jeito nenhum – Jack retrucou, e eu senti ele apertar o cano na minha cabeça.
Um deles carregou a arma.
- Você não vai realmente querer discutir – o outro carregou a arma também.
Jack me largou.
- Me dá a arma – eu disse me virando e estendendo minha mão para Jack. Senti um puxão e quando dei conta já estava jogada no banco de trás do carro.
- Melhor levar o garoto junto – o motorista disse alto, para que os outros dois escutassem.
Instantes depois, Jack estava sendo jogado ao meu lado, tremendo feito uma vara verde.
Olhei pelo vidro de trás do carro, e vi correndo, no fim da rua, em nossa direção, mas o carro arrancou antes que ele tivesse chance de se aproximar.
- Os amigos do seu namorado são meio violentos – ele disse baixinho, enquanto os armários entravam no carro, um deles no banco de trás, ao lado de Jack.
- Eu não acho que sejam amigos do – respondi com a voz falha. – Quem vocês são? – perguntei depois de vinte minutos de silêncio.
- Seu namorado nunca falou sobre nós? – o motorista perguntou sem humor.
Eu achei melhor não responder com sinceridade, caso eles realmente fossem quem eu imaginando.
- Não.
- Bom, nesse caso é melhor você não saber – ele continuou. – Mas você devia se preocupar agora com o que você é.
- E... – eu estava com grandes dificuldades para respirar. – O q-que eu sou?
- Nossa refém – o cara no banco do carona respondeu, se virando para mim com um sorriso maldoso. – Mas não se preocupe, queridinha, você vai ficar bem. Se você se comportar direitinho.
- E quanto a mim? – Jack perguntou nervoso. Olhei para sua face, e ele estava chorando. – Eu não tenho nada a ver com a história, me deixem ir embora, você não precisam de mim, eu sou só um garoto perdido nisso tudo... – ele não calava a boca.
- Você é testemunha – o motorista disse, cortando-o. – Desculpe, garoto, mas estava no lugar errado, na hora errada.
- O que você quer dizer com isso? – ele perguntou, pegando em meu braço e apertando-o. Eu o soltei com violência.
- Não encoste em mim – murmurei com nojo.
- Sinto muito, garoto – o motorista respondeu.
O que o corajoso Jack fez? Ele tentou abrir a porta do carro. Mas elas estavam trancadas, é lógico, então tudo o que ele ganhou foi um belo soco do armário que estava ao seu. Ele caiu em meu colo e eu o empurrei para o lado, sentindo repulsa de ele estar encostando em mim.
Mas, nesse momento, o medo era maior do que meu nojo por ele, pois eu estava começando a entender a mensagem do motorista. Eles iriam prendê-lo junto comigo? Ou...
- Coloque a venda neles – o motorista disso. Eu não movi um músculo enquanto o grandalhão com quem dividamos o banco amarrava a venda em meu rosto, deixando tudo negro como noite. – Não, no garoto não precisa colocar. Mesmo se ele acordar, não vai fazer muita diferença.
Eu perdi a noção do tempo me preocupando com o que aconteceria a seguir. Tudo que importava para mim agora era a minha segurança, continuar viva, pois só assim meu bebê continuaria bem.
Eu devia ter escutado quando ele disse que não deveríamos ficar juntos. Eu devia ter percebido o perigo que estava correndo. Eu não tinha porquê me importar com isso antes, eu preferia morrer a ficar longe dele. Mas as coisas eram diferentes agora, e eu estava percebendo tarde demais.
O carro parou e ouvi o barulho das portas se abrindo. Eu até comecei a acreditar que poderia tirar a venda e sair correndo, mas assim que abriram minha porta alguém amarrou minhas mãos nas costas antes de me tirar no carro.
Eu caminhei às cegas por algo que eu presumi ser grama, pois era macio.
“Degrau” o grandalhão que me segurava – seja qual dos grandalhões fosse – avisou.
Levantei o pé e subi o degrau, o vento que antes agitava meu cabelo cessou e o ar a minha volta esfriou. Presumi que tínhamos entrado em algum lugar.
- Achei que iam demorar mais – uma voz feminina disse em algum lugar próximo.
- O moleque facilitou as coisas – a voz do motorista vinha de trás de mim.
- De qualquer jeito, está tudo pronto, mas só para uma pessoa – a voz feminina voltou a se pronunciar.
- Como se você tivesse tido muito trabalho – o motorista zombou.
- Não esqueça de quem sempre consegue tudo o que você precisa – agora a voz feminina parecia estar ficando para trás.
- Pra onde vocês estão me levando? – eu não conseguia mais segurar a pergunta.
- Para seus novos aposentos – o cara que me segurava rosnou.
Tudo o que eu mais queria era me livrar daqueles caras, sair correndo, mas sabia que nunca conseguiria tal façanha. Minhas mãos estavam atadas as costas, minhas vendas apertadas, e, uma coisa que havia me ensinado era que eu não seria mais rápida que um bala. Nesse caso, várias.
- Escada – o cara me avisou.
Eu quase cai, pois achava que o próximo degrau seria mais alto, e não mais baixo, mas ele me segurou sem muito esforço. Descemos alguns degraus e paramos. Ele soltou as amarras de minhas mãos, me jogando dentro de algum lugar. Eu me apressei a tirar a venda e, assim que consegui, eles já estavam fechando a porta no final da escada, me deixando na escuridão completa.
Respirei fundo aquele ar gelado e senti meu estomago embrulhar ainda mais, como se estivesse dando um nó. Fiquei ali, congelada durante não sei quanto tempo, apenas tentando assimilar o que estava acontecendo.
Finalmente tomei coragem suficiente e dei um passo a frente. Eu precisava saber onde estava, qual o tamanho dali, quais as possibilidades...
No terceiro passo tropecei em alguma coisa e caí em cima de algo macio.
- Jack? Jack, acorde! – eu comecei a sacudi-lo, mas ele não respondia. Coloquei minha mão em seu peito, sentindo um alivio imediato ao senti-lo subir e descer. – Covarde – murmurei me levantando de novo.
Era melhor deixá-lo inconsciente do que tê-lo de aguentar. Pelo menos ele estava vivo.
Continuei a caminhar pelo lugar, dessa vez com mais cuidado, até encontrar a parede. Corri minhas mãos por ela tentando achar alguma coisa, alguma saída... mas não havia nada além de parede e tinta descascando. Eu estava ferrada.
Andei de uma parede a outra, medindo o lugar. Quatorze pés por vinte e três. É, até que não era tão pequeno quanto eu achava.
Achei algo mais macio no chão, que depois de tatear, presumi ser um colchonete fuleiro. Sentei nele e foi a deixa para que o choro e todo o desespero me dominassem.
Eu não tinha como saber ao certo quanto tempo se passou – tenho a impressão de ter dormido profundamente naquele colchonete durante horas depois de tal exaustão sofrida. Preferia não ter acordado, pois foi de um pulo que grudei na parede ao abrir os olhos e encontrar a escuridão, me dando a infeliz noticia de que tudo tinha sido mais do que um pesadelo terrível, era a total realidade. Mas não havia sido a escuridão que me acordara, e sim algo se mexendo em meu cabelo. Instintivamente embrenhei minhas mãos no cabelo para me livrar do que estivesse nele. E se fosse uma barata? Senti vontade de gritar só de pensar naquela repugnante possibilidade.
- Desculpe ter te acordado, amor – uma voz cortou a escuridão.
Amor? Eu me senti confusa por instante, mas aquela voz não era de . Uma sombra se moveu na escuridão, e eu assimilei quem era o dono da voz quando ele estava próximo.
- Jack, você não consegue me deixar em paz nem quando eu durmo? – disse irritada, passando as mãos freneticamente pelo cabelo. Eu não sei se sentiria mais nojo se tivesse sido uma barata do que ele.
- Você ficou tão enjoada desde que mudou pra cá – ele disse como se estivéssemos conversando há horas.
- E você virou um psicopata nesse meio tempo – retruquei sem humor, esfregando meus olhos e deixando meus olhos se adaptarem melhor ao breu.
- Psicopatas são esses caras que pegaram a gente – sua voz me dizia que ele estava emburrado. – Eu não faço idéia do que está acontecendo e eles ainda me apagaram sem motivo.
- Se eles não tivessem eu mesma o teria feito.
- E você parece estar mais violenta também.
- E vou ficar pior ainda se você voltar a encostar em mim de novo – ameacei.
- Podemos discutir isso depois, agora eu quero saber como vamos sair daqui.
- Não vamos – respondi infeliz.
- Como assim não vamos? – sua voz tinha ganhado um tom mais agudo.
- Não tem como sair daqui, não tem nenhuma passagem ou porta além daquela cima das escadas.
- Uma hora eles vão ter que abrir.
- Não seja burro, eles tem armas.
- Mas se eles nos pegaram, é porque temos algum valor, ou já teriam nos matado.
Eu estava começando a me irritar com ele. Por que ele não podia simplesmente parar de falar asneira e sei lá, dormir? Eu poderia nocautear ele.
- Você está errado. Nós não temos valor. Eu talvez tenha, não você.
- Presunçosa, é claro que eu tenho valor.
- Sério? E por que você teria?
- Por que eu não tenho nada a ver com aquele babaca.
- Não o xingue – eu não consegui segurar, não podia simplesmente deixá-lo xingar em minha presença. – E é exatamente por isso que eles atirariam em você assim que tentasse qualquer coisa, porque você não tem nada a ver com . E, se eles tiveram algum contato com , ele já deve ter mandado que te matassem.
- Mas se não tiveram poderiam pensar que sou importante.
- Então eu vou informá-los que podem te matar – eu disse secamente.
- Afinal, por que estamos aqui? – eu dei um sorrisinho sem sal de lado, vendo-o desviar em parte do assunto.
- Eu não sei exatamente, mas imagino quem eles sejam.
- E quem são?
- Não é da sua conta – respondi mal humorada, sentindo um arrepio pelo frio que fazia ali.
- Aquele idiota ficou devendo e agora os traficantes pegaram a gente? – ele tentou.
Eu ri alto com essa.
- O que sua imaginação lhe permitir.
- Tá, mas nós temos que sair daqui. Talvez eles pague os caras e eles nos libertem logo...
- Você sempre foi otimista – eu lembrei sentindo uma pontada de tristeza ao lembrar que, um dia, nós havíamos sido felizes juntos.

Eu tinha um palpite que estávamos ali há mais ou menos dois dias já, a contar pelas duas quatro refeições que tínhamos recebido.
A voz de mulher que eu havia escutado quando cheguei tinha ganhado um rosto quando ela veio desinfetar a ferida em meu braço. Ela era magrela e com cabelos castanhos armados, os olhos pretos. Mas a dor em meu braço tirou minha atenção de seu rosto. Nunca queira levar um tiro, mesmo que de raspão. Quando não está doendo, é porque está latejando incessantemente.
Jack estava apavorado, e só piorava. Se fosse uma opção, eu teria tentado escapar só pra levar uma bala na cabeça e não ter que aguentá-lo mais. Se ele tentou me agarrar novamente? Claro que tentou. Mas eu me protegi, bati nele e comecei a gritar até os seqüestradores virem e apontarem uma arma na cabeça dele. “Se nos causar mais algum problema estouro seu cérebro!” o grandalhão gritou na cara dele. Tenho minhas suspeitas de que ele fez xixi na calça naquela hora.
Depois disso tudo foi agonizante. Aquele silêncio mortal, o tempo passando. Eu não sabia por quanto tempo aquilo continuaria, e tinha medo de descobrir. Eu só queria ver . Só queria seus braços ao meu redor, sua voz rouca sussurrando que me amava. Só queria poder olhar em seus olhos azuis mais uma vez.
Eu me perguntei como eu cheguei ao ponto de namorar Jack um dia. Onde tudo havia mudado? O que houve com ele, afinal? Já fomos um casal feliz.
Eu pensei nisso com mais profundidade. Tínhamos realmente sido felizes? Não, felizes, essa palavra não se encaixava. Mas tivemos bons momentos, alegres. Nos gostávamos, mas era uma coisa superficial. E agora eu descobri que o cara que me traumatizou por violência e tentativa de estupro era um covarde na verdade. Até um rato teria mais coragem que aquele idiota.
Mas eu não queria que ele morresse. Não mais, pois agora eu não tinha mais medo dele, apenas ódio. Mas nem todo o ódio do mundo poderia me fazer desejar a morte de um ser humano.
A lembrança de ele me beijando e atirando em me fez querer que ele morresse, de repente. Se ele tivesse acertado, eu mesma o teria matado. Eu havia acabado de dizer que nem todo ódio do mundo poderia me fazer desejar a morte de outro ser humano? Que seja, ele deveria ser desclassificado da espécie humana.
Ouve um barulho e eu dei um pulo e me grudei na parede atrás de mim, ainda sobre o meu cantinho do colchonete.
A luz clareou o porão e eu fiz sombra com uma mão sobre os olhos, para deixá-los se acostumarem. Era outra refeição? Pra mim não havia passado mais que três horas desde a última.
Mas não era a mulher que me acompanhava até o banheiro com uma arma apontada pra mim ou o grandalhão que nos trazia comida. Era o motorista, aquele que não via desde que fui enfurnada aqui, mas ouvia sua voz pelo corredor muitas vezes. Ele parecia nervoso. Ele caminhou e parou a minha frente.
- Você tem alguns segundos – ele disse rispidamente.
Eu demorei alguns segundos para assimilar, então ele me estendeu um celular e um dos caras-armários se postou na porta com a arma visível.
- ? – eu ouvi a voz de baixa saindo do celular, e o peguei da mão estendida com uma velocidade recorde. – ? – ele repetiu. Meu coração voltou a ganhar vida ao ouvir sua voz rouca do outro lado da linha.
- ! – aquela voz aguda vinha da minha garganta.
- Você está bem? – ele perguntou preocupado. – Eles te machucaram?
- Estou bem – eu o tranqüilizei. – O que está acontecendo agora ? Por que estou aqui?
- , eu vou te tirar daí, eu juro! – sua voz estava diferente, e lágrimas começaram a descer por meu rosto pelo simples prazer de ouvir a voz dele.
- Não tente nenhuma loucura, por favor – eu choraminguei com medo.
- Seu tempo acabou – o motorista estava estendendo a mão para pegar o celular da minha.
- Eu te amo! – foi a única coisa que me veio a cabeça, o único pensamento importante.
- Eu te amo – eu ouvi a voz dele dizer enquanto o seqüestrador tirava o celular de minha mão e levava a sua orelha.
- Você já viu que ela está bem, agora cumpra sua parte – ele continuou falando com e se retirou do porão, me deixando na escuridão novamente. E Jack, todo encolhido no outro lado da parede, também.
- Nós vamos sair daqui, não vamos? – Jack quebrou o silêncio apões longos minutos.
- É claro que vamos – eu disse segura daquilo.
- Como você pode estar tão certa disso? Depois eles tiverem seja lá o que for, o que te faz acreditar que vamos continuar vivos?
- Eu confio em . E não vou deixar ninguém me matar.
- Hã – ele murmurou desgostoso. – Eu não entendo como o que te motiva tanto a querer continuar viva. É o ?
Era a primeira vez, eu notava, que ele pronunciava o nome de .
- Em grande parte, sim – eu acariciei minha barriga, pensando se minha filha estava sendo afetada por todo o medo que eu sentia. – Estou determinada a continuar viva.
- Eu não tenho mais tanta certeza se isso faz diferença – ele desabafou.
Eu olhei em direção a sua voz. “Por quê?”.
- Eu não tenho você, nem nunca vou poder ter – parecia um tanto difícil para ele falar aquilo.
- Você tem seus pais – lembrei-o.
- Meu pai é um alcoólatra que adora me escorraçar e prefiro não falar sobre a minha mãe – ele disse transparecendo raiva na voz.
- Eles não eram assim – franzi a testa.
- Desde que eles se separaram as coisas mudaram. Eu não te contei sobre o divórcio deles porque você estava muito ocupada fugindo de mim.
- Mas você tem a Mari – eu mudei de assunto tentando ficar indiferente, mas ainda havia um pouco de raiva da Mari em mim.
Ele riu baixinho. “E?”.
- Ela gosta de você – agora eu estava ficando com raiva era dele.
- E por que isso deveria me afetar? – ele perguntou.
- Cara, você não presta – eu retruquei raivosa.
- Eu já tirei todo proveito dela que podia, já cansei – ele disse indiferente, como se estivesse em uma roda de amigos bêbados e cafajestes.
- Você é um filha da puta mau-caráter – eu xinguei sentindo meu sangue ferver. – Você não pode falar assim dela!
- Claro que posso – ele parecia estar achando graça na minha reação. – E por que isso te incomoda? Vocês não brigaram?
- Então ela te contou? Foi ela quem te contou também onde eu estava?
- Ela contou que vocês brigaram, mas não contou onde você estava. Foi uma tal de Brooklie que conseguiu me encontrar na internet.
- Brooklie? – perguntei confusa.
- É, ela não é sua amiga? Ela disse que você queria me ver e me deu o endereço da escola – ele contou.
Eu passei alguns minutos pensando sobre isso. Como ela havia descoberto sobre o Jack eu não fazia idéia, mas fazia sentindo agora ela ter falado que “meu namorado estava me esperando”. Se ela o mandou pra cá, ela sabia muito bem o que estava fazendo. Sim, eu a havia subestimado, mas nunca pensei que alguém chegaria tão longe pra ferrar alguém.
- E quanto ao processo que você colocou em cima de mim – ele quebrou o silêncio tenso que dominara o lugar. – Você está perdendo feio.
- Infelizmente eles não têm pena de morte lá, então eu sairia perdendo de qualquer forma – eu me senti infeliz por aquilo. Maldita injustiça.
- Mas você vai voltar para o Brasil agora, não vai? – ele perguntou. Era realmente esperança na voz dele?
Eu ri. “E por que eu faria isso?”.
- Não sei se você notou, mas nós fomos sequestrados aqui – ele ironizou.
- Não sei se você se lembra, mas meu ex-namorado tentou me estuprar lá. E me perseguia também. Ah, mas peraí, você deve se lembrar, já que foi você – eu retruquei grossa. – Então acho que os países estão quites em questão de trauma.
- Você vai ficar aqui por causa do mesmo? Você é maluca.
- Você não está em seu ápice de sanidade pra me chamar de maluca. E apesar de tudo, eu gosto de Londres.
- Boneca, não fala besteira – ele disse como se eu fosse uma criança rebelde.
Eu me enfureci, levantei e fui em direção a sua voz, parando quando meus pés bateram nele. Ele se levantou ao me sentir, ficando de frente a mim. Eu podia distinguir sua silhueta na escuridão, e quando dei por mim, meu punho estava cravado em seu rosto, fazendo-o virar o rosto.
- Já falei pra não me chamar assim! – gritei na cara dele.
Ele segurou meus braços, e me sacudiu com brutalidade.
- Sua vadia desgraçada – ele xingou.
Eu gritei de dor pela força que ele fazia em meus braços, uma das mãos bem em cima de onde o tiro tinha me ferido.
Eu soltei meus braços e dei uma bela joelhada. Mas eu errei em meio a escuridão, e acabei acertando sua barriga.
A luz deu sinal de vida naquele me fazendo franzir a testa, mesmo estando no canto mais escuro do porão.
- O que está acontecendo aqui? – o motorista exigiu nervoso. Eu coloquei a mão sobre meu o machucado do meu braço que agora latejava pra valer. Ele observou Jack um tanto curvado com a mão na barriga. – Ótimo garoto, você acabou de conquistar a passagem para fora daqui – ele disse sem humor. – Vamos, você além de ser inútil ainda me arranja problemas – Jack, ainda parecendo sentir dor e surpreendido, seguiu-o. eu encarei a cena confusa. Eles estavam o libertando? – Anda logo, moleque – eu ouvi a voz que reconheci como um dos armários esbravejar assim que a porta se fechou, trazendo a escuridão novamente ao cômodo.
Voltei a sentar no colchão e abracei minhas próprias pernas. Eles realmente iriam libertá-lo? E pra onde ele iria agora, de volta ao Brasil ou ficar me aguardando sair daqui para tentar fazer da minha vida um inferno? Passei a mão por minha barriga, sentindo a raiva se esvair totalmente de meu corpo, e uma angustia me dominar.
- Vai ficar tudo bem, Little – eu disse para o ser que eu mais amava no mundo e crescia dentro de mim. – Vamos ficar bem – encostei minha cabeça na parede, deixando as lágrimas escorrerem.

Capítulo 23
Dangerous to Know

Tudo o que eu queria era que ele estivesse comigo novamente, mas a cada dia as coisas pareciam ficar cada vez piores. Já haviam se passado o que eu tinha quase certeza de serem três ou quatro dias desde que Jack se fora, e a solidão me assolava de fora desoladora. Não que a companhia dele me agradasse, mas eu não tinha nem mais em quem descontar minha raiva e nervosismo. Aquele lugar estava me enlouquecendo, e ninguém me falava quando eu sairia daqui. Se eu sairia, pra começar. A falta que me fazia era acima do que eu podia suportar. E eu ainda tinha que conviver com os insetos. Da ultima vez fora uma barata, e eu simplesmente pirei quando senti aquele negócio na minha perna. A mulher que me trazia comida achou que eu estava tendo um infarto ou coisa do gênero, mas eu estava somente tendo mais uma das minhas sessões sufocamento. Até que tinha demorado bastante pra isso acontecer com toda essa situação. Quando eu bati na porta dizendo que havia um barulho de rato, eles ignoraram. Então eu bati, bati, e continuei batendo, mas só quando eu comecei a xingar e quebrei o copo que ainda estava ali da última refeição contra a porta, foi que o armário – que este eu reparei contra a luz que tinha um rosto mais fino que o outro e o cabelo mais escuro – abriu a porta e foi procurar o rato. Eu o achei em um canto e ele atirou. É, atirou no rato. Eu soltei um grito agudo, e me calei ao receber aquele olhar frio dele, temendo ser o próximo alvo. A imagem do rato destroçado ainda vinha a minha mente, me fazendo estremecer toda vez. aquele lugar era terrível, e eu só me movia do meu colchonete agora para pegar a comida na escada ou ir para o banheiro. Preciso dizer que ir no banheiro com aquela mulher magrela apontando uma arma pra mim não era nada confortável e que a comida que eles me davam – além de ruim – nunca me satisfazia? Eu acho que não. Mas isso era irrelevante em comparação com o nervosismo que toda a situação me causava.
A luz adentrou a escuridão mais uma vez, mas dessa vez não era a silhueta da mulher contra a sombra, mas do motorista. Ele deixou a bandeja com um prato de comida e um copo com água em um dos degraus.
- Reze para o seu namorado fazer a coisa certa hoje – ele disse com a voz fria, e eu estremeci. – Ou você vai acabar junto com seu amiguinho. - ele se virou e começou a subir a escada.
- Jack? O que você fizeram com ele?! – eu gritei assustada, mas ele ignorou e continuou a subir. – O QUE VOCÊS FIZERAM COM ELE! – eu gritei histérica.
Ele se virou. “Se você não calar a boca eu não vou nem esperar a decisão do seu namorado”.
Eu me levantei. “Vocês o mataram?” ele voltou a subir os degraus. “Por que? Vocês disseram que iriam o libertar!”
Ele se virou de volta para mim e desceu as escadas apressado, tirando algo do bolso no caminho.
- Eu nunca disse isso – ele falou sínico.
- Como puderam? – as palavras ainda saiam gritadas de minha garganta sem que eu pudesse impedi-las.
Ele me segurou e me colocou contra a parede. Eu senti algo frio encostar na minha garganta e o pavor tomou conta de mim.
- Não haja como se você não quisesse isso, você estava louca para se livrar dele – eu senti aquelas palavras me atingirem profundamente por dentro, a culpa me angustiando. – Eu quero saber exatamente o que o te falou sobre nós – ele exigiu, com o rosto a centímetros do meu.
- Nada – eu disse, tentando passar a maior segurança naquilo possível, enquanto o medo me contorcia por dentro.
- Ah, certo, você acha que vou acreditar que ele não te falou nada? Vai ser pior pra você se eu cortar sua garganta – ele ameaçou, e eu não conseguia mais respirar.
- Ele não me falou nada, eu juro! – as lágrimas começaram a escorrer sem minha permissão.
- Vou perguntar só mais uma vez – sua voz fria ficava cada vez mais agressiva. – O que ele te contou sobre nós? O que você sabe sobre o julgamento de hoje?
- Julgamento? – eu perguntei, realmente confusa. – Eu não sei sobre o que você está falando.
- Certo, mocinha, acho que vai ser do jeito difícil então – mantendo seus olhos profundamente sombrios agora ele deslizou a lamina por sobre minha pele macia e suada, descendo por meus pescoço e eu quase me senti aliviada por um instante, quando ele desencostou a lâmina de minha pele, mas isso não durou, pois logo estava sentindo a lâmina gelada em minhas costas, por debaixo da minha blusa. Meu coração batia tão rápido e forte com o pavor que eu podia o ouvir claramente. – O que você sabe?
Sem esperar minha resposta, ele colocou pressão na faca e eu gritei com a dor daquilo rasgando a minha pele.
- Já disse que não sei nada! – eu gritei com os olhos fechados, desejando que aquela dor parasse.
Quando abri os olhos novamente, notei que a mulher magrela estava encostada contra a parede oposta, nos observando. Qual é o problema dessas pessoas? Por que ninguém me ajuda, por que eles parecem praticamente se divertir com isso?
Senti o sangue quente escorrer por minhas costas.
- Achei que você não a machucaria – a mulher sussurrou.
Obrigada, senhor, por olhar por mim, pelo menos essa rápida olhadela.
- Mudei os planos – ele deu um sorriso malévolo, e eu sabia que a cor havia sumido de meu rosto, enquanto ele voltava a descansar a lâmina em meu pescoço.
Olhei para a mulher magrela, esperando algum protesto dela, mas eu podia ver a sombra de um sorriso em seu rosto enquanto ele voltava a deslizar a lâmina por cima de minha pele, parando em minha bochecha.
- Que tal uma plástica? – ele perguntou ainda sorrindo. Eu pressionei minha cabeça contra a parede, começando a sentir tudo girar pela minha respiração falha demais para me sustentar e parecia que meu estomago estava sendo exprimido. – Eu posso até fazer um desenho se você quiser – ele deu uma risadinha. – Mas se você preferir, ainda pode falar sobre o que você sabe.
- Eu... eu não sei... de nada – disse em pausas, tremendo. – não me... contava... por mais... que eu... perguntasse – meu estomago reprimiu de forma violenta e o sangue em minhas costas continuava a me molhar.
- Acho que ela vai desmaiar – a mulher disse baixinho.
Senti a lâmina começar a cortar minha pele da bochecha, e então minha garganta queimou violentamente.
Meu corpo, antes parcialmente sustentado pelo motorista de feições rígidas, foi largado no ar. Instintivamente coloquei minhas mãos na frente do corpo, protegendo meu corpo da queda. A queimação aumentou e, sem que pudesse refrear, eu vomitei.
- Ela poderia ser usada como testemunha – o motorista disse. – Alguns machucados não vão fazer diferença, agora ela será apenas uma isca. Assim que o aparecer para pegá-la, nós damos um fim nele.
Eu congelei, e as lágrimas aumentaram.Mas meu cérebro funcionava a mil por hora agora, e tudo o que eu queria era poder sair dali. Não, eu não poderia deixar uma coisa daquelas acontecer. Agora eu estava com data marcada para morrer e, pior ainda, para causar a morte de .
E o pequeno ser dentro de mim não teria chance de conhecer esse mundo, se eu continuasse ali. Eu pensei em coisas que meu bebê estaria perdendo, e isso não era justo. Eu não deixaria ninguém machucar nem a , nem a nosso bebê. Eu tinha que sair dali.
Pelo que eu tinha reparado, o motorista não tinha uma arma em meus – sem contar a lâmina – e a mulher também não. Ela, que antes estivera na parede próxima a escada, agora estava mais perto do motorista, e isso já me dava alguma vantagem. Quanto aos armários eu não tinha como saber, mas provavelmente eles não estaria com uma arma em mãos desnecessariamente.
Era minha chance. Era a única chance.
Com um movimento rápido, dei impulso e corri em direção as escadas. Mesmo que eu morresse, eu não iria deixar que isso acontecesse sem resistir. Eu alcancei os degraus, e foi quando o casal atrás de mim começou a gritar comigo. Dei um pequeno tropeço e minhas mãos arranhadas pela recente queda, foram cortadas pelo vidro do copo que eu havia quebrado antes. Um caco grande estava ao lado de minha mão direita, e eu o apanhei, pulando o degrau onde tinha minha suposta refeição e continuando rapidamente a subir a escada.
Ignorei todas as dores que circulavam meu corpo e virei assim que cheguei ao patamar da escada. Eu estava meio perdida, mas segui a direita pela cozinha, e encontrei è esquerda sala depois de um curto corredor. Eu não sabia onde os dois armários estavam, e também não estava interessada, contando que não estivessem em meu caminho. Finalmente alcancei a porta de madeira, e girei a maçaneta, puxando-a pra mim.
Estava trancada.
Eu me desesperei, mas procurei por outra saída envolta. O casal apareceu na porta do corredor na sala, e eu visualizei a janela na parede lateral. Corri e, me apoiando na mão esquerda um pouco machucada, pulei o sofá que estava em meu caminho, e pulei para a janela. Uma mão atrás de mim agarrou minha blusa, e meu reflexo foi virar minha mão com o caco de vidro para que ela me soltasse. Eu nunca devia ter feito isso.
Parei minha mão assim que percebi o que estava fazendo, mas já era tarde.
O grito dela ecoou por toda a casa, enquanto o motorista gritava junto pegando seu corpo no ar. Eu observei a cena sem assimilar, enquanto a garganta dela sangrava. Olhei para minha própria mão, coberta de sangue. Eu sentia que seu sangue havia espirrado em meu rosto, mas eu não conseguia assimilar direito.
O motorista olhou para mim com um ódio tão profundo e verdadeiro que foi o estalo para que eu lembrasse que ainda tinha que fugir. Agora mais do que nunca.
Pulei para o lado de fora da casa, sentindo o horror e medo em meu corpo, mas forçando minhas pernas o mais rápido que eu podia. Era gramado, passei por um carro estacionado, mas que não era o mesmo em que tinham me seqüestrado, e um muro médio a minha frente. Com um grande impulso, pulei, mas não consegui alcançar a borda com força suficiente. Ouvi sons altos e grossos, e um frio percorreu minha espinha. Tiros.
Impulsionei com ainda mais força dessa vez, conseguindo alcançar a borda do muro com jeito o bastante para subir nele. Os tiros estavam ficando cada vez mais próximos, e com uma olhadela para lá antes de conseguir passar para o outro lado vi que o armário com rosto mais fino havia aparecido junto com o motorista coberto de sangue e com uma expressão assassina no rosto, todos armados, mas só o motorista estava atirando.
Corri pela calçada para o lado direito, e percebi que era um bairro residencial.
Estou ferrada, pensei. Mas se já consegui chegar aqui, vou continuar até o fim. Ninguém vai nos matar.
Afastei a imagem aterrorizante da mulher com aquele sangue escuro escorrendo do pescoço, e me concentrei em correr. Os tiros vinham atrás de mim novamente, e eu virei à esquina à esquerda. Tinha que haver uma loja, algum policial, qualquer coisa que pudesse me ajudar.
Antes de chegar à próxima esquina, sentindo os tiros me perseguindo novamente, atravessei para o outro lado da rua, e virei à esquerda. Eu ainda estava sendo publicamente perseguida por tiros, e, as únicas pessoas pelo caminho – duas, eu acho, do outro lado da rua – apenas se abaixaram. E o que eu estava esperando, que alguém viesse ser meu escudo?
Mas naquela esquina adiante, havia um posto de gasolina. eu senti uma pontinha de esperança assim que passei pela por ali, e continuei a correr, para a loja de conveniências.
As dores em meu corpo já estavam quase insuportáveis, mas eu não parei até invadir a loja e atacar o primeiro telefone publico que vi pela frente. Disquei o apressada o numero de – a cobrar – e ele atendeu no segundo toque.
Cinco segundos e os tiros estavam perto novamente, enquanto os funcionários lá fora e as pessoas no carro que estava abastecendo gritavam e se abaixavam.
- Aonde estamos – gritei para o cara que havia sumido atrás do caixa.
- A direita da Kingsland Road – ele respondeu com um ganido.
- Oi – a voz de atendeu apressada após a mensagem de cobrança estar acabando com meu tempo.
- ! – eu exclamei ao ouvir aquela voz. – Eu estou a direita da Kingsland Road, eles estão tentando atirar em mim, me ajuda! Eu sou uma armadilha para o , não o avise.
- Estou indo – ele respondeu alerta.
- Rápido! Vou tentar sair desse posto – e desliguei, pois os seqüestradores já estavam quase na loja.
- Tem uma saída pelos fundos – o cara ainda escondido atrás do balcão avisou. – Vire à esquerda. As chaves! – ele finalmente apareceu atrás do balcão e jogou um molho de chaves para mim.
- Obrigada! – eu peguei as chaves no ar e corri para os fundos, seguindo o caminho que ele havia me dito.
Cheguei a um portão alto de grades, e com um cadeado. Havia pelo menos dez chaves naquele molho, e eu comecei a testá-las. Uma não, duas, três...
O barulho da porta pela qual eu havia acabado de passar se chocando contra a parede foi acompanhado pelo estalo do cadeado em minhas mãos sendo destrancado pela minha quarta chave. Abri e fechei o porão, passando o cadeado nele novamente e o trancando.
- FILHA DA PUTA! – pude ouvir o furioso motorista xingando ao se deparar com o portão. – O que está esperando? ATIRE!
Me apressei mais ainda enquanto os tiros recomeçavam atrás de mim. Me infiltrei por várias ruas, e minha velocidade diminuía pouco a pouco conforme o tempo passava, meu corpo começando a ceder.
Mas a visão a minha frente era a melhor que eu poderia desejar: o carro prateado de . Eu teria desmaiado ali mesmo de alivio, se não fosse por uma bala passar tão perto de mim. De relance olhei para trás, e vi que o motorista estava a frente, seu capanga com dificuldade para alcançá-lo.
- Entra! – abriu a porta para mim, e eu me joguei no banco do passageiro. Fechei a porta e o olhei agradecida. – Se abaixa! – ele alertou e em seguida um tiro acertou a lataria do carro.
Eu me abaixei no banco enquanto ele virava bruscamente o carro, dirigindo na direção contraria, agiu em se afastar dos bandidos.
Eu voltei a chorar, mas agora era de pura felicidade. Eu estava livre.
- Obrigada – sussurrei em um agradecimento sincero, com dificuldade, o ar me faltando depois de tanta corrida.
- Você está cheia de sangue! – ele disse desesperado.
- Sério? Nem tô sentindo mais nada – eu me encostei contra o banco do passageiro. O corte em minhas costas doeu um pouco, mas eu nem me importei. Aquele banco era a coisa mais confortável do mundo, eu poderia dormir ali para sempre.
- Estou falando sério Thamíris – ele me censurou. – Você está muito ferida?
- Não, – eu deixei que meus olhos fechassem, sorrindo levemente. – Nós vamos ficar bem.
Estávamos vivos. Eu e Little iríamos ficar bem, isso era tudo o que importava.
- Nós? – perguntou depois de alguns segundos. Eu podia sentir seu olhar sobre mim.
- Posso descansar um pouco? Nunca corri tanto – eu pedi, ignorando sua pergunta.
- Você está correndo desde que me ligou? – ele perguntou incrédulo.
- Se eu tivesse ficado parada teria levado um tiro. Aliás, quando você me ensinou a atirar, disse que eu nunca seria mais rápida que uma bala. Bom, eu realmente não sou, mas consegui escapar viva delas – Eu deixei o sorriso aumentar ligeiramente em meu rosto. – , você pode ligar para o ?
- Claro – ele respondeu.
discou e me passou o celular. Ao primeiro toque, atendeu.
- Fala dude – ele atendeu em uma voz desanimada.
Eu senti uma pontada ao perceber a tristeza dele.
- Oi amor – eu disse sem conseguir controlar a emoção. – Estava com saudade da sua voz.
- ?! – sua voz perguntou confusa. Ele demorou mais um segundo para continuar. – Esse é o celular do . Aí Meu Deus, eles o pegaram também? Você está bem?
- Calma – eu o tranqüilizei. – Agora está tudo bem. Estou com no carro, estamos voltando.
- O que aconteceu, eles te libertaram? – sua voz parecia ter ganhado vida novamente, e eu me senti feliz por isso.
- Não, eu escapei.
- Você ficou maluca? Como conseguiu isso?
- Eles iam me usar para te matar, eu não podia deixar isso acontecer - como um baque, a imagem da mulher sangrando voltou a minha mente, e eu enrijeci no banco, arregalando os olhos. – Aí Meu Deus – eu choraminguei.
- O que foi, você está ferida? – se desesperou do outra lado da linha.
- Não, eu estou bem – minha voz era quase um sussurro. – , eu fiz uma coisa horrível, mas eu juro que foi sem querer.
- Não tem problema, querida. O que foi? – ele arfou.
- Eu... – eu mal conseguia dizer as palavras. – Eles iam me matar, eu tinha que sair, e ela me segurou. Foi por reflexo, eu só... só queria que ela me soltasse – minha visão não estava mais na estrada a nossa frente, mas sim de volta àquela cena.
- ? – me chamou do outro lado.
- Eu tinha um pedaço de vidro na mão – levantei minha mão direita, e só então percebi que ainda segurava o caco de vidro ensangüentado. Larguei com um gritinho agudo.
tirou o celular da minha mão, e eu me encolhi no banco, encarando o pedaço de vidro no chão do carro.
- Dude, pega as coisas dela na escola, eu vou levá-la direto ao aeroporto – disse.
Eu demorei algum tempo para assimilar o que ele havia dito para . Pegar minhas coisas? De que diabos ele estava falando?
- Pra onde... pra onde nós vamos? – eu perguntei sentindo um nó na garganta.
- Você vai voltar pro Brasil – ele disse. – Não, isso seria burrice – ele se repreendeu. – Você vai para outro lugar, qualquer um, contanto que esteja fora do alcance daqueles caras.
- E o ? – eu perguntei, com medo da resposta.
- Pergunte a ele – ele disse, seu olhar duro.
Eu me encolhi mais ainda no banco, finalmente sentindo todas as dores de minha feridas ganharem de minha resistência. Encarei novamente o caco de vidro ensangüentado, instintivamente colocando a mão sobre minha barriga.
não nos abandonara, eu mentalizei para Little . Ele nunca faria isso.
Eu não sabia mais se eu estava tentando convencer Little ou a mim mesma.

Nós já estávamos no centro de Londres, e ao olhar mais uma vez o machucado em minhas mãos decidi que tinha que fazer o que fosse preciso para permanecer em Londres, pelo menos até ter certeza de que iria comigo aonde fosse.
- – eu sussurrei. Ele me olhou de lado. – Acho que preciso ir para um hospital.
- Uau, você acha? – ele ironizou.
- É sério . Mesmo que nós fossemos direto para o aeroporto, não me deixariam embarcar nesse estado deprimente.
- Certo – ele concordou e tentei esconder o pequeno sorriso que queria se formar em meu rosto.
Ele desviou o caminho que seguíamos e me passou o celular que já estava discando para .
- Oi – ele respondeu depois do terceiro toque.
- , nós estamos indo para um hospital – eu avisei.
- Hospital? Você não tinha dito que estava bem? – eu estremeci com sua preocupação.
- São só uns cortinhos – eu amenizar.
pegou o celular de minha mão. Essa era a nova mania dele? Então por que ele me dava o celular, por que não falava de uma vez?
- Eu não sei se todo o sangue na roupa é só dela, mas, bom, é melhor garantir que ela fique bem – escutou, e depois me perguntou. – Onde está seu passaporte?
- Na casa da Lauren – eu disse. Eu não podia mentir, afinal, se ele já havia verificado na escola, era o único outro lugar em que poderia estar.
- Na casa da Lauren – repetiu para o celular, e então disse a qual hospital estávamos indo.

A recepcionista arregalou os olhos ao me ver. Bom, ela e todas as pessoas pelas quais havíamos passado. Dessa vez eu não podia culpá-los: minha aparência com certeza estava perturbador. Eu não tomava banho há quase uma semana, meus cabelos normalmente lisos estavam grudados e oleosos – e isso coçava horrores – e, não só meu uniforme de líder de torcida estava imundo e ensaguentado, como também as partes descobertas do resto de meu corpo.
- Podem se sentar ali – a recepcionista disse se recuperando e apontou os bancos próximos onde havia algumas pessoas. – E podem preencher essa ficha enquanto aguardam? Vou tentar conseguir um médico o mais rápido possível.
Eu assenti com a cabeça e pegou a ficha que ela estendia, preenchendo-a assim que sentamos, enquanto eu ditava as respostas.
- Sintomas? – ele perguntou, achando graça.
- Fala que meu cérebro tá escorrendo – murmurei emburrada.
- Sério, fala logo – ele disse tentando não rir.
- Eu não sei quantos machucados eu tenho – disse brava. – Só sei que minhas costas e minha mão direita tá doendo pra caralho.
- Deixa eu ver – ele pediu. Eu tentei impedi-lo, mas, bom, eu não estou com grande resistência no momento. – Puta que pariu – ele xingou um pouco mais alto do que o aconselhável ao levantar minha blusa na parte de trás, atraindo olhares reprovadores. – Como você não avisou isso antes? Vem – ele me puxou de volta ao balcão, resmungando por que eu havia dito que estava tudo bem.
Para meu desgosto, ele mostrou minhas costas para a recepcionista, que pegou a ficha e pediu para um dos enfermeiros me levar até um consultório. ficou para trás, para esperar por .
O médico me analisou e pediu ao mesmo enfermeiro trazer algumas coisas para ele. Eu teria que levar pontos.
Eu gelei ao ouvir isso. Claro, depois de tudo que já tinha me acontecido nesse dia, isso não deveria me incomodar. Mas se já ardia enquanto ele limpava o corte em meu rosto – que graças a Deus ele declarou não ser profundo -, imagina quando ele estivesse esterilizando e passando uma agulha por minhas costas?
O enfermeiro voltou, e entregou uma bandeja com o que o médico havia lhe pedido.
- Vai doer? – perguntei inutilmente.
- Vou aplicar uma anestesia local – ele deu um sorrisinho tentando ser simpático e me acalmar.
Eu fiz uma careta. A agulha que ele pegou não era muito pequena, mas antes com aquilo do que sem.
Eles me deram uma roupa com abertura atrás, para eu trocar no banheiro. Fiz alguns exames básicos e voltei para lá segurando a parte de trás. Só o que me faltava agora era sair andando com a bunda aparecendo. Lindo. Eles tinham até me oferecido uma cadeira de rodas, mas eu quase ri na cara deles. Eu havia corrido tanto, andar alguns metros agora não faria diferença.
O médico observou os exames com a cara de paisagem que os médicos sempre fazem.
Ele se levantou e me mandou deitar, descobrindo minha barriga e colocando o estetoscópio sobre ela. Eu fiquei apreensiva, eu poderia chorar.
- Parece que está tudo bem, mas é melhor conferirmos – e então ele me encaminhou para outra, onde eu tive que deixar minha barriga aparecendo, o que, devido à roupa, significava também minha calcinha.
Ele passou um gel gelado sobre minha barriga, o que me arrepiou, e então passou um aparelinho por ali ligado a um monitor. Meu coração disparou ao ver as formas confusas no monitor.
- Doutor – eu chamei confusa e apreensiva, a voz chorosa. – Tem alguma coisa errada? – Ele mexeu mais um pouco e meus olhos já ardiam demais pra que eu continuasse naquela expectativa. – Doutor?
- Não, seu filho está ótimo – ele disse, finalmente, sorrindo. – E o corte nas suas costas é profundo, mas não acertou nenhum órgão vital – ele pegou minha ficha, e deu mais uma lida rápida nela. – Presumo que já sejam quase dois meses de gravidez, certo?
Eu demorei algum tempo para assimilar, vasculhando minha memória e ao mesmo tempo extremamente aliviada pelo que tinha ouvido. Little Jones estava bem, era como poder respirar novamente, como se nunca tivesse respirado de verdade.
- Senhorita? – o médico me despertou.
- Ah, sim, dois meses – eu balbuciei.
- Ok. Vamos fechar esse ferimento agora, venha.
- Doutor, da pra saber o sexo do meu bebê? – eu perguntei esperançosa e emocionada encarando o monitor.
- Ainda não querida, daqui mais algumas semanas você vai poder.
Eu sorri para o monitor até que ele não mostrasse mais nada e mais uma vez nós trocamos de sala, onde dessa vez ele me mandou deitar de bruços e abriu meu avental.
- Certo, vamos começar pelas suas costas, depois sua mão – ele avisou e se aproximou de mim, com o enfermeiro a alguns passos dele.
Olhei para a parede branca a minha frente, e gritei de dor ao sentir o algodão encostar na fenda nas minhas costas. Aquilo ardia como o inferno.
- ! – ouvi a voz de .
Meu coração latejou contra a maca, e um sorriso se instalou em meu rosto, sem que eu pudesse controlar.
- – eu virei minha cabeça, e pude vê-lo chegando perto.
Meus olhos marejaram ao encontrar os seus, que me analisavam preocupados. Eu queria poder pular daquela maca, agarrá-lo, gritar de felicidade, mas me limitei a estender minha mão esquerda para ele. Ele a segurou com cuidado e carinhosamente. Eu suspirei ao sentir sua mão quente na minha, e minha vontade de chorar aumentou ainda mais quando seus olhos finalmente se focaram nos meus.
Eu soube que não havia lhe contado nada, para meu alivio.
A dor em minhas costas diminuiu um pouco, e eu apertei forte a mão de ao sentir a agulha penetra em minha pele, assim como o liquido se espalhando. Aquilo formigou durante pouco mais de um minuto, e então a dor cessou.
- Eu sinto muito – falou, seus olhos de um tom mais claro do que de costume e avermelhados na parte que deveria estar branca. – Eu nunca devia ter permitido tudo isso. Eu devia ter te deixado segura. Eu nunca deveria ter chegado perto de você. Olha só o que te aconteceu! Eu sinto tanto...

Capítulo 24
I Belong To You
‘Especial duplo: ’s POV - Primeira parte’

Eu me sentia um lixo. Eu era a pior pessoa desse mundo, a mais idiota, inútil e egoísta. Como eu podia ter deixado aquilo acontecer com a minha pequena? Ela era tudo pra mim, e ela podia ter morrido. Eu devia ter me afastado dela quando tive chance. Eu nunca deveria nem ter me aproximado dela. Mas eu fui egoísta e pensei demais em mim mesmo, no quanto eu sofreria longe dela. Eu fui um inútil, pois nada tinha conseguido fazer para salvá-la. E eu era burro, porque não tinha prestado atenção no que estava acontecendo, eu subestimei os bandidos.
Mas maldades desses níveis eram coisas que não entravam na minha cabeça. Eu já havia presenciado algumas das piores coisas desse mundo, mas isso não... Entrava na minha cabeça.
Por isso me chamava de inocente, porque eu não enxergava as coisas ruins do mundo. Mas não era tão inocente e burro como eu, e havia visto isso chegando. Ele tentou me ajudar de todas as formas possíveis e, mesmo assim, chegamos a esse ponto.
Uma felicidade imensa estava dentro de mim por tê-la a salvo e tão perto de mim novamente. Eu rezei tanto para poder ver seu rosto novamente, rezei tanto para que ela ficasse bem. E agora ela estava ali, com seus olhos nos meus, um sorriso doce e sincero no rosto. Mas eu não conseguia deixar minha felicidade transparecer, pois a culpa me massacrava. Minha pequena estava em um estado deprimente, machucada e maltratada. Mas mesmo com toda a sujeira e sangue, seu rosto ainda era o mais belo que eu já havia visto.
- Eu... Realmente sinto muito – repeti.
- , pare com isso – ela me pediu. Sua voz soou fraca, mas era como música para meus ouvidos. – Não é sua culpa. E, pelo menos para mim, nunca foi uma escolha ficar longe de você. Eu estou bem agora, não tem o que se preocupar.
Eu balancei a cabeça negativamente, achando graça naquilo.
- , é minha culpa, e nós dois sabemos disso – eu a observei sério. – E você não estaria assim se não fosse...
- Já falei pra parar com isso – ela franziu as sobrancelhas, brava. – Eu sabia onde estava me metendo, e eles terem me pego com tanta facilidade foi culpa do viado do Jack. Eu estou bem, você não pode simplesmente ficar feliz por isso?
- É claro que eu estou feliz por isso – eu me aproximei um pouco mais, ainda agachado, para que pudéssemos nos encarar.
- Como eles estão indo aí em cima? – ela perguntou, mordendo o lábio inferior.
Eu me levantei e analisei novamente a fenda em suas costas. Pelo menos ali estava limpo agora, e eles já tinham costurado metade do rasgo.
- Está tudo bem – eu dei um sorrisinho, tentando a aliviar.
Ela devolveu meu sorriso com facilidade.
- Viu, eu disse que estava tudo bem.
Eu dei um risada nasalada.
- Eu te amo – eu acariciei sua mão.
- Te amo – ela respondeu me encarando daquela maneira profunda, única dela, e que parecia enxergar minha alma.
Eu continuei ali, apertando sua mão cada vez que ela fazia uma careta, até que o médico terminou suas costas e partiu para seu ombro.
Ele tirou um curativo sujo que estava ali, e eu vi o ferimento que a bala tinha feito, me embrulhando o estômago.
- Você teve sorte disso não infeccionar – o médico disse.
O tiro havia pego de raspão nela, mas ainda assim era minha culpa. Eu devia ter recebido aquele tiro, não ela.
O médico terminou com seu braço e foi para sua mão direita. A angústia e culpa voltaram a me esmagar assim que vi o estrago.
- O corte está bem profundo – o médico disse, como se alguém tivesse sido capaz de não notar isso ainda. – Mas vou fazer o possível para evitar sequelas. São estilhaços de vidro aqui? – ele perguntou a .
- São – ela confirmou, seus olhos doces tomando uma dor que eu nunca havia visto antes em seu rosto, e desejava que nunca chegassem a passar ali.
Meu olhar refletia a dor dela, eu podia sentir tão intensamente quanto se fosse a minha própria. Ela apertou minha mão fazendo outra careta enquanto o doutor lhe aplicava outra injeção local.
- , talvez ela não tenha... Talvez eles tenham socorrido ela – eu argumentei com a voz falha.
- Não – ela engoliu em seco. – A garganta dela... Era sangue demais...
- Não se preocupe, meu amor – tudo o que eu queria era tirar aquela escuridão de seu olhar... De sua alma –, nós vamos superar isso, eu prometo.
Ela abriu a boca e voltou a fechá-la. Eu sabia que tinha algo mais que ela queria me contar, que ela precisava... Mas que não iria. E eu não queria forçá-la, eu tinha meus próprios segredos.
- , eles perguntaram algo sobre um julgamento. Do que eles estavam falando? – suas sobrancelhas franziram, e ela me encarou, esperando um resposta.
Eu suspirei. Eu sabia que agora eu teria que lidar com isso, teria que contar. Era o mínimo que eu podia fazer, depois de tudo o que ela havia passado. Mas eu não podia contar tudo, pois isso ainda era perigoso para ela.
- O julgamento sobre a morte do meu pai – eu disse, empurrando mentalmente as paredes que nos separavam, me esforçando para me abrir até onde podia. – É por isso que eles ainda estão atrás de mim. – Eu me calei e a observei.
- Você não vai me falar o resto, não é? – era uma afirmação, não uma pergunta. Ela bufou. – Legal – ela ironizou.
- Você sabe que é melhor você não saber – dei um sorriso triste.
- Eu não abri minha boca mesmo até agora, mesmo quando... - Ela se calou, e então completou apressada: – Eu tenho direito de saber.
- Não – conclui firmemente.
Havia algo além da proteção que eu estava dando à ela ao negar. Eu não queria que ela soubesse. Eu ainda não estava pronto para compartilhar minha dor, e não queria que ela visse essa dor em mim. Ela já tinha coisas demais pesando nela agora, contar tudo a ela não a faria mais feliz.
- ? – ela me chamou insegura, e eu murmurei "hum" para que ela continuasse, segurando mais forte sua mão. – Você acha que eles realmente... Mataram o Jack?
Ela fechou os olhos, e uma lágrima escorreu de cada olho dela. Aquilo era torturante de se ver.
Mas eu não podia mentir para ela, mesmo com seus olhos avermelhados, e eu notei que estavam inchados.
- Foi o que eles me disseram – eu disse com um caroço na minha garganta. – Mas nós não temos culpa disso. Na verdade eu não entendi muito bem porque eles o fizeram. Acho que só pra se livrar de mais uma testemunha.
- Eu acho que foi minha culpa – ela disse triste. – Se eu não tivesse feito tanto escândalo, ele provavelmente estaria vivo.
- Você sabe que isso não é verdade. Se eles iriam até matar você e eu, por que iriam deixar Jack vivo? Ele acabaria desse modo de qualquer jeito. Ele procurou por confusão. Se eles não tivessem sequestrado vocês, eu mesmo o mataria – eu disse sem pensar, e ela arregalou os olhos por um momento, mas suspirou e os fechou em seguida.
- É, talvez você esteja certo – ela murmurou. – Doutor?
- Sim? – ele respondeu, dando o último ponto na palma dela.
- É normal pessoas no meu estado terem cólica?
- É sim – ele respondeu, e eu me senti meio por fora. – Assim que terminarmos de limpar seus machucados você poderá descansar.
- Certo – ela concordou parecendo feliz com a ideia de poder dormir.

- Como ela tá? – uma garota de cabelos curtos me sobressaltou assim que apareci na sala de espera.
Soltei o ar pesadamente. "Ela tá bem, ".
- Eu posso ver ela? – seus olhos estavam aflitos.
- Mais tarde – eu me sentei ao lado de . – Agora ela tá descansando.
Triste, ela se largou na cadeira do outro lado de , apoiando a cabeça nas mãos e os cotovelos na perna.
- Eu liguei para os pais da Lauren, eles estão vindo – informou.
Eu fiz uma careta.
- Valeu por ter falado com eles – eu agradeci encarando a parede a minha frente. – Eu não teria conseguido manter contato com eles. Não teria estômago.
- Foi meio difícil convencê-los a não falar com a polícia quando tive que contar – sua voz estava controlada. Ele passou um dos braços pelos ombros de . – Quero ver agora, quando disser que vão deixar o país.
Enterrei meu rosto nas mãos. "Nem me fala, dude. Não quero nem pensar nela em algum lugar estranho, sozinha".
- Eu já liguei pra e pra e avisei sobre a , elas vão avisar o e o .
- Obrigado – murmurei entre minhas mãos.
- , você devia pensar melhor sobre isso – disse, ignorando o que tinha dito. – Você não devia deixá-la ir sozinha.
- Mas e se eles me rastrearem e forem atrás de mim? Eu não posso mais deixá-la correr esses riscos – eu levantei minha cabeça e a encostei contra a parede atrás de mim.
- Você não está pensando direito – continuou tentando me persuadir. – Pelo que ela me contou, a mulher que ela matou – eu estremeci e prendi o ar, sentindo dor ao ouvir aquilo – só pode ser a tal irmã dele. A descrição bate.
- Ela só acertou a mulher, não quer dizer que tenha matado – protestei.
- Matou? Ai meu Deus, o que aconteceu? – cutucou desesperada.
- Depois eu te conto, amor – ele deu um beijo no topo da cabeça dela e acariciou seus cabelos.
Aquilo me deu uma saudade tão desesperada de que eu teria levantado e voltado imediatamente para o quarto dela se ela não tivesse tanto que descansar.
- Como eu estava dizendo – continuou –, você não está assimilando o que ela fez. Morta ou não, é a irmã dele, e o cara tava realmente furioso, eu o vi quando a busquei. Agora ela está tão na mira quanto você.
- E o que você espera que eu faça? – eu estava começando a sentir aquele desespero novamente, o mesmo que tinha tomado conta de mim a semana inteira, mas por enquanto era só uma fagulha em comparação.
- Que não a abandone – me encarou sério. – Ela precisa de você mais do que nunca, ela está totalmente frágil, e você está querendo mandá-la para qualquer outro país sozinha e desprotegida? Eu espero que isso seja porque você não está pensando direito, e não para fugir das responsabilidades.
Eu franzi a testa, me sentindo ofendido com suas palavras. "Eu não estou fugindo de nada, eu nunca a abandonaria".
- Ótimo, é a hora de você provar então – disse sério.
- Tem alguma idéia pra onde podemos ir? – perguntei voltando a encarar a parede a minha frente, refletindo sobre o que havia me dito.
Eu realmente estava sendo covarde e irracional ao pensar em deixá-la ir sozinha. Como eu poderia abandoná-la tão frágil e abalada como estava? Como eu pude pensar em deixá-la? Eu iria me afastar dela para protegê-la, mas agora era realmente tarde demais para isso.
Apesar de tudo o que estava acontecendo, eu sentia como se uma pequena chama de felicidade se acendesse dentro de mim novamente. Nós ficaríamos juntos. E mesmo que eu nunca pudesse me redimir por tê-la feito passar por tantos horrores, eu estaria lá para cuidar da minha pequena, protegê-la e fazê-la feliz até além do que eu fosse capaz.
- Dude, você tá me escutando? – me cutucou, despertando-me de meus pensamentos.
- Agora tô – respondi dando um sorriso curto de lado. Ele revirou os olhos. – Cadê a ? – perguntei dando falta dela.
- Foi comprar alguma coisa pra gente comer – ele respondeu mexendo no celular. – Como eu estava dizendo, acho que o Canadá é uma boa opção. Eles falam inglês, é em outro continente e provavelmente não te procurarão em uma cidade de lá que não seja muito grande.
- É uma boa idéia, mas ainda podem simplesmente dar um jeito de descobrir para onde fomos. Fora que o passaporte para lá não deve sair tão rápido quanto precisamos.
- Já pensei nisso também enquanto você estava me ignorando. Vocês vão para os Estados Unidos, já que o visto pra lá sai bem rápido e mesmo ela sendo brasileira também vai conseguir, enquanto daqui eu tento achar alguém de lá que falsifique documentos.
- Se nós formos para Nova York eu mesmo consigo – eu espiei as mãos dele que mexiam freneticamente no teclado do celular. – O que você tá fazendo?
- A não para de me mandar mensagens perguntando sobre a – ele bufou. – Não sei porque não pergunta a .
- Pergunte isso pra ela – eu me recostei no banco e deixei minha cabeça pesar contra a parede atrás de mim.
ficou em silêncio alguns minutos, e quando sua voz ressurgiu foi com um tom estranhamente agudo para sua voz geralmente grossa.
- O celular da tá desligado – ele estava com os olhos arregalados e parecia perdido como eu nunca tinha visto antes. Eu me sentei rígido e tenso. – Estava ligado antes, nós nos falamos antes de ela chegar aqui – ele me olhava alarmado. – E agora está desligado.
- Calma – eu sabia que era inútil tentar acalmá-lo, pois eu mesmo estava sentindo a sensação de pavor me atacar novamente. – Talvez não tenha acontecido nada...
- Eu vou procurá-la – ele se levantou e saiu da sala antes que eu pudesse pensar em alguma coisa para dizer.
Mas se tivesse acontecido alguma coisa com , queria dizer que eles saberiam onde e eu estaríamos. Me levantei e passei a mão pelo cano gelado embaixo da minha blusa e jaqueta de couro preta para checar se continuava ali. Fui para o quarto de a passos largos, abrindo a porta com o coração quase rasgando meu peito com tanto medo que eu sentia. O alivio de vê-la deitada ali, as mãos brincando com a borda do lençol mostrando ansiedade, deixaram minhas pernas até bambas de tanto alivio.
Seu rosto branco formava um lindo contraste de seus cabelos molhados e seus olhos escuros. E, Deus, como eu tinha sentido falta daqueles olhos que agora me encaravam com brilho. Eu sorri, pois sabia que o brilho em seus olhos era somente meu. Eu sabia disso, pois, quando ela estava distraída ou não tinha me visto, ele não estava lá; mas ela me via e eles surgiam, e isso sempre fazia meu dia valer a pena.
- Você deveria estar descansando – eu fechei a porta atrás de mim e me aproximei da maca.
Era tão bom vê-la limpa novamente, sem todo aquele sangue e sujeira em seu rosto e ferimentos. E seu cheiro. Eu podia senti-lo agora que estava perto o bastante. Parecia que não importava qual sabonete ela usasse ou se estivesse usando perfume, o cheiro de sua pele ainda era único enquanto eu beijava as costas de sua mão e a acariciava.
- Não consigo dormir – ela disse parecendo tristemente tranquila.
- Os pais da Lauren já estão vindo – puxei a cadeira ao lado da maca para mais perto e sentei nela.
Ela arregalou os olhos. "Meu Deus, o que você disse a eles? E minha mãe?".
- Calma pequena – eu sorri tentando acalmá-la e arrumei alguns fios rebeldes de sua franja para o lado. – O falou com eles no mesmo dia do jogo. Mas eles não sabem a real causa... Acham que foi por dinheiro. Eric convenceu Rachel de que se falassem com sua mãe, ela iria chamar a polícia, e eles sabiam que não podiam fazer isso.
- Coitada da Rachel, deve ter surtado – eu assenti com a cabeça. Ela fez uma pausa antes de continuar. – E você, pretende ir à polícia agora?
- Só quero sair do país por enquanto, e se eu for à polícia, vou ter que ficar preso aqui para declarações, julgamentos e a coisa toda de novo. Eu não aguentaria passar por isso de novo, ainda mais te deixando vulnerável.
- O que você... - ela me olhava apreensiva e mordeu o lábio inferior. – O que você disse no julgamento?
Soltei o ar pesadamente.
- Eu não quero falar sobre isso. Só o que posso dizer é que fiz o que eles pediram.
- Então eles vão ficar livres? – ela se mexeu tentando se sentar, e então puxou o ar com uma careta de dor, voltando a se deitar e me olhou intensamente. – Por que você fez isso, ? Eles mataram seu pai e vão sair impunes? Era seu pai, , você não precisava ter feito isso.
Eu acariciei a lateral esquerda de seu rosto, o lado oposto do que tinha um pequeno corte. "É claro que eu precisava. Não importa se ele era meu pai, tudo o que me importa é a sua segurança. Eu não podia arriscar". Seus olhos começaram a se molhar. "Achei que já tivesse deixado claro que eu te amo acima de qualquer coisa, e que você é tudo o que me importa". - Oh, – ela piscou e uma lágrima escorreu de seu rosto, mas eu fiquei feliz por ela estar sorrindo ao mesmo tempo. Ela tentou se sentar novamente que eu suspeitava com a intenção de me abraçar, e dessa vez um grito de dor escapou por seus lábios.
- Hey, pequena – eu a fiz deitar rapidamente de novo. – Pare de ficar tentado se mexer tanto. O que está doendo? Quer que eu chame o médico?
- Não, não – ela negou juntamente com a cabeça. – É só o corte em minhas costas, mas é que eu estou tentando me sentar de mau jeito. Droga, quando eu estava correndo não doía tanto – seus lábios formaram um pequeno biquinho junto com sua expressão emburrada.
Era incrível como às vezes ela ficava chateada com pequenas coisas, da mesma forma que ficava feliz com outras. Mas eu preferia que ela se distraísse com essas pequenas coisas agora do que ficasse se lembrando de coisas piores.
- Obrigada por trazer minhas coisas – ela voltou a sorrir docemente, e eu senti meu coração pulsar com força novamente dentro de mim com a visão daquele sorriso. – Foi ótimo poder escovar meus dentes depois do banho. Ela separou largamente os lábios para mostrar os dentes.
- Isso é algum tipo de insinuação? – eu me apoiei na maca com uma mão de cada lado de seu corpo, aproximando meu rosto. – Porque eu sinto que você está tentando me seduzir.
Ela riu e meu estômago revirou de uma forma que eu quase havia esquecido como era com sua respiração batendo em meu rosto. Com medo de machucá-la, encostei meus lábios nos dela com delicadeza, mas ela deixou claro que não queria delicadeza de minha parte assim que enfiou a língua na minha boca, me fazendo estremecer e que me faria sorrir se meus lábios não estivessem tão ocupados.
- Ela devia estar descansando – uma voz jovem feminina nos sobressaltou.
- Desculpe – murmurei passando a mão pela nuca, embaraçado, e voltando a me sentar na cadeira ao lado da maca.
- Eu estou bem – reclamou mexendo nervosamente no lençol de tecido ligeiramente duro que a cobria. – Quero ir pra casa, moça.
- Calma, você ainda está extremamente fraca – a enfermeira disse com um sorrisinho. – Fora que precisa ficar algum tempo em observação para termos certeza de que seu...
- Está bem! Está bem! – ela cortou a enfermeira de forma grosseira e com o tom de voz consideravelmente mais alto. – Eu fico aqui.
Eu não entendi exatamente porque havia ficado tão exaltada, mas provavelmente ela só estava ainda muito nervosa, então deixei passar sem questionar, apenas segurando firme em sua mão.
A enfermeira recompôs a cara assustada, voltando à feição gentil de antes.
- Sua família está aqui para vê-la – ela disse, um tanto acanhada agora. – Mas seu namorado terá que sair, não podem ficar tantas pessoas aqui – a enfermeira esperou um instante e então saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
fez um biquinho, me fazendo soltar uma risada nasalada.
- Fique calma, amor – murmurei arrumando novamente seu cabelo que começava a secar. – E não se preocupe, tenho certeza que vai ficar tudo bem. Vou aproveitar para procurar , mas prometo que volto logo, está bem?
- ? Ela está aqui? – ela indagou confusa. – Procurar por ela? Onde ela foi?
- Ela saiu para comprar alguma coisa para comermos e está demorando um pouquinho, só vou verificar.
Eu me levantei e curvei sobre ela para lhe dar um selinho, mas ela segurou firme minha mão quando tentei me afastar para sair do quarto. Ela não tinha engolido tão facilmente o que eu havia dito sobre , ainda estava alerta demais. Eu e minhas distrações, falando o que não devia.
- , não tente amenizar. O que aconteceu? – ela exigiu.
- Nada – insisti. Tudo o que ela menos precisava agora era de mais uma preocupação. – Só acho melhor verificar.
- Por que o não faz isso? – ela também insistiu. Ela sabia que eu estava mentindo, mas eu não iria de forma alguma preocupá-la com aquilo.
- Vou falar com ele. Não demoro, prometo. Assim que eles saírem daqui eu volto com a , está bem? Qualquer coisa é só me ligar, seu celular está no bolso da frente da malinha que te trouxe – dei-lhe outro selinho e soltei sua mão, me dirigindo para a porta.
- ? – me chamou quando eu já estava passando pela porta. Olhei para trás e meu coração pareceu partir ao meio ao vê-la tão frágil naquela maca. – Eu te amo – ela disse dando um sorriso de lado.
Eu mascarei como pude toda a dor dentro de mim e dei-lhe o melhor sorriso enviesado que pude. "Eu te amo", respondi, dando mais um passo e voltando minha cabeça para frente antes que ela notasse que meus olhos começavam a queimar com lágrimas querendo escapar.
- Pra sempre? – ela perguntou com a voz ligeiramente infantilizada, inocente.
- Pra sempre – lhe respondi sem me virar para ela, pois ao piscar duas lágrimas escorreram por meu rosto. Com mais um passo apenas puxei a porta atrás de mim, ainda sem me virar, e segui pelo corredor tentando conter o resto das lágrimas enquanto limpava as que tinham escorrido com as costas da mão.
Parei antes de entrar na sala de espera e me recompus o mais rápido que pude. Lá estava Rachel, que tinha os olhos injetados e estava claramente nervosa, Eric, que parecia estranhamente travado ao lado dela com uma expressão séria misturada com tristeza, Lauren rasgando de forma infantil e ao mesmo tempo violenta um copo de plástico e , sentada ali com a cabeça apoiada em uma das mãos, pacotes de papel pardo sobre as pernas cruzadas e uma expressão de tédio. Eu iria matar a assim que os outros deixassem a saleta, apesar de estar aliviado por ela estar bem.
Lauren foi a primeira a se pronunciar – leia-se: surtar assim que me viu.
- Onde está minha irmã?
- No segundo quarto à direita – eu respondi desviando o olhar dos pais dela, que agora me encaravam em expectativa.
- E como ela está? – Rachel perguntou apreensiva.
- Meio abalada e cansada, mas ela está bem, de certa forma – eu tentei amenizar o máximo que pude a situação dela.
Mas afinal, ela estava relativamente bem, não é? Ela não corria risco de vida nem nada assim, e isso era o que mais me importava, apesar de seus ferimentos e traumas.
- Vamos lá, querida – Eric guiou Rachel e Lauren pelo corredor, passando por mim com um olhar de reprovação.
É, acho que ele não gostava muito de mim, pelo menos não mais. Mas uma coisa eu tinha que admitir: aquela família amava . Ela era como Lauren a via, sua irmã, e isso estava claro.
Eu soltei o ar pesadamente, lamentando que tivesse que deixar pessoas que se importavam tanto com ela. E, falando em pessoas que se importam com a ...
- , onde você estava? – eu disparei para ela, encarando-a bravo. – Alguém te machucou? Alguém...
- Nossa, calma aí – ela me cortou e levantou os pacotes que estavam em seu colo. – Fui comprar nossos lanches, assim como tinha dito. Acho que esse estresse todo tá mexendo com a sua mente, dude. Cadê o ?
- Foi atrás de você, já que seu celular estava dando como desligado – eu peguei meu celular no bolso e disquei o número do . colocou os pacotes na cadeira do lado e começou a vasculhar os bolsos. – Dude...
- , acho que eles pegaram a me cortou do outro lado da linha. – Me ligaram do celular dela e mandaram eu dizer onde a estava...
- Não, , a tá aqui – franzi a testa, confuso.
- Meu celular não tá comigo! – guinchou, vasculhando novamente os bolsos. - Minha mãe vai me matar! Céus, tenho certeza de que estava no meu bolso de trás!
- A tá aí? Como assim? – perguntava do outro lado da linha. – Mas eles disseram que estavam com ela.
- Não, não, ela está aqui na minha frente. E está bem – informei, começando a andar de um lado para o outro na pequena saleta. – Você não disse onde estava, não é?
- É claro que não, mas foi difícil. Eles não paravam de falar que iam machucar ela, eu estava desesperado, mas continuei mentindo. Dude, agora eu tenho noção pelo que você passou. Eu juro que se eles tivessem encostado nela, eu mataria o desgraçado com...
- , espera só um minuto – eu distanciei o celular um pouco para poder falar com . – Quando foi a última vez que viu seu celular? Não sentiu ninguém pegando ele nem nada?
- Eu mexi nele quando estava descendo a rampa antes da recepção, depois coloquei no bolso traseiro da calça. Não senti ninguém encostando em mim além de um cara grandão que esbarrou em mim na porta do hospital...
- , acho que eles estão aqui no hospital – eu senti o mesmo desespero que tinha tomado conta de mim durante toda a semana começar a retornar. – disse que um cara grande esbarrou nela na porta do hospital, e eu acho que pode ser um deles.
- Vou verificar. Vá pro quarto da e vigie. Se eles estiverem aqui vamos ter que sair imediatamente. E não tire os olhos da .
Desliguei e voltei a guardar o celular no bolso, peguei pelo pulso e a puxei, só dando tempo para que ela pegasse os pacotes em cima da cadeira enquanto levantava e a guiei pelo corredor até o quarto de . A porta estava encostada, e eu a empurrei levemente, tomando cuidado para que ninguém me visse. Para minha sorte, Rachel e Eric estavam de costas para a porta e, Lauren, do outro lado da maca, se concentrava em .
Após alguns segundos notou minha presença, mas eu coloquei o indicador sobre o lábio pedindo para que ela não me denunciasse. Ela desviou o olhar para Rachel por um instante e então voltou a mim, e eu juntei as mãos e coloquei na lateral da cabeça, a inclinando, tentando transmitir a mensagem certa para que ela fingisse sono.
Ela assentiu quase que imperceptivelmente, e eu voltei a encostar a porta cuidadosamente.
Em um minuto todos estavam saindo do quarto, todos, apesar de ainda preocupados, pareciam aliviados.
- Vocês deviam ir para casa – sugeri enquanto eles passavam. – Eu e ficaremos por aqui, não tem com o que se preocupar.
Mantive minha expressão o mais calma que consegui, tentando passar-lhes a tranquilidade da qual eu não sentia nem mais um resquício.
- Eu não queria sair de perto dela... - Rachel disse insegura.
- Mas ela está dormindo agora – disse com um sorriso simpático e a voz de boa menina. Olhei significativamente para Lauren, pedindo que ela me desse alguma assistência. Ela devolveu meu olhar com curiosidade. – É melhor vocês irem para casa.
- Mãe, ele tem razão – Lauren se manifestou para minha alegria. – É melhor irmos agora que ela está dormindo, mais tarde voltamos.
Rachel soltou o ar pesadamente, derrotada.
- Vamos – Eric se pronunciou. Ele sequer me dirigiu um olhar o tempo todo, como se eu não fosse merecedor de tanto. Mas isso não era algo que me irritava ou preocupava no momento.
Esperei que eles sumissem no corredor para então entrar no quarto de com em minha cola.
- O que foi? – perguntou, totalmente alerta.
- Não é nada demais – eu amenizei, mas meu sorriso era inevitavelmente nervoso. – Só vamos ter que deixar o hospital mais cedo.
Fui até a mala dela, em uma mesa no pé de sua maca, e comecei a procurar por roupas neutras.
- E por quê? O que houve de errado? me ajuda aqui! – ela pediu e correu para seu lado lhe dando apoio para sentar.
- Não houve nada de errado – eu encarava a mala, evitando seu olhar e sua expressão de dor. – Só achamos mais seguro irmos para algum lugar menos previsível...
- , o que houve de errado? – ela perguntou, e eu prendi o ar.
- Na-nada – ótimo, ela gaguejou.
- , eu sei que você está mentindo – insistiu com a voz dura.
- Eles estão aqui. Desculpe, .
Eu pude ouvir sugando o ar com força para dentro dos pulmões, um aviso claro de que mais um de seus ataques estava se iniciando. Eu corri para ela, segurando as laterais de seu rosto.
- Hey, hey – os olhos dela estavam arregalados, o pavor claro neles. – Vai ficar tudo bem, mas você tem que manter-se calma, está bem? Eu não vou deixar nada acontecer com você, mas nós temos que sair daqui agora.
Algo lampejou em seus olhos como fogo, uma determinação tão forte que chegava a esconder a maior parte de seu medo. Ela assentiu silenciosamente com a cabeça, o corpo rígido, mas a respiração controlada.
- Consegue andar? – perguntei ajudando-a a descer da maca.
- É claro que consigo – ela respondeu como se eu a tivesse ofendido.
- Te amo – dei um selinho nela e dei algumas roupas para que ela vestisse.
Ela nem se deu o trabalho de ir ao banheiro, apenas se trocou ali mesmo com a ajuda de , consciente de que estávamos sem tempo. Fiquei extremamente aliviado de só adentrar o quarto quando já estava fechando o agasalho.
- Dude, vamos logo – disse. – A coisa tá feia.
Olhei para com urgência, temendo ter a visão de todo aquele pavor voltando aos seus olhos, mas em seu lugar a determinação e a coragem pareciam ainda mais fortes agora. Ela já se provara mais forte do que eu pensava e até mais do que eu, provavelmente.
Fechei a pequena mala de enquanto agarrava pelo pescoço, e eu podia ver em seu rosto que ele poderia chorar de alívio por tê-la em seus braços novamente.
- Eu te ajudo, pequena – com uma das mãos eu segurava a mala e passei o outro braço ao redor da cintura de , dando-a apoio. Dei-lhe um beijo na testa antes de começarmos a caminhar para sair do quarto.
Devagar, devido às caretas de dor que fazia a cada dois passos que dava – mas ela continuava a se recusar a me deixar pegar uma cadeira de rodas – atravessamos o corredor e a sala de visitas, passando agora pelo corredor central para chegar ao elevador.
- Como eles souberam tão rápido que estávamos aqui? – ela perguntou a .
- Eles não sabiam – ele disse após um momento.
- Então por que... - parou de andar por um momento, e eu a segurei mais forte, sentindo suas pernas vacilarem e vendo seus olhos se arregalarem. – Ela está viva? Foi por isso que eles não me perseguiram de carro, por que o outro cara grandão estava trazendo ela para o hospital? Ela está bem? !
Ele continuou calado, e eu puxei para que ela continuasse andando.
- , não pare de andar, temos que sair daqui rápido – eu insisti, e ela voltou a andar. – Tem certeza de que não quer uma cadeira de rodas? Eu te levaria no colo, mas suas costas estão machucadas...
- ! – ela exigiu, apesar de me ignorar continuando a andar. – Eu sei que você sabe, e eu preciso saber! Ela está bem?
tinha a expressão ilegível, mascarada, e isso me indicava tudo que eu precisava saber, e tudo que eu não queria que ela soubesse.
- , é sério, nós temos que sair daqui agora – eu disse, tentando apressá-la para distraí-la. – Depois nós conversamos sobre isso, agora temos que...
A expressão dela de repente era totalmente apavorada e ela tinha estacado no chão. Eu sabia que não era algo em que ela estivesse pensando ou deduzido, era algo para que ela olhava fixamente a nossa frente. Contra todos meus temores, eu olhei para frente, a apertando contra mim. Eu reconhecia aquele cara grande com a expressão fechada não do dia do assassinato do meu pai, mas dos dias que se seguiram desde então. Eu tinha certeza de tê-lo visto de relance na rua várias vezes e de que ele era um dos homens que havia jogado e Jack no carro no dia do sequestro. Ele levou uma das mãos para perto do feixe da calça, indicando o volume naquela parte. Instintivamente puxei para minhas costas, deixando que meu corpo a encobrisse. Eu a protegeria a qualquer custo, a qualquer preço.

Capítulo 25
Save You
‘Especial duplo: ’s POV - Segunda parte’

Larguei a mala e a chutei para o canto da parede, para que ficasse mais próxima de mim. Levei uma de minhas mãos ao cós de trás da calça, levantando levemente minha blusa para poder pegar a arma que ali descansava. Senti o corpo de estremecer e a apertei contra minhas costas com minha outra mão, tentando acalmá-la apesar de tudo.
Com o canto do olho eu pude ver que fazia o mesmo que eu, porém ele já tinha até destravado a própria arma e estava pronto para atirar a qualquer momento. estava apavorada atrás dele, sibilando algo como uma prece.
Eu tratei de destravar minha própria arma e respirei fundo em expectativa ao que viria a seguir.
- , você está bem? – sussurrou.
- Estou pronta – ela sussurrou em resposta, sua voz incrivelmente firme.
Eu sabia que aquele fogo de determinação devia estar de volta a seus olhos, mas isso não me acalmava. Um estalo quase inaudível veio de trás de mim, e eu senti uma repentina raiva por .
- Você não fez isso – eu disse entre dentes.
- Cala boca e pensa em um jeito de sairmos daqui – ele sussurrou em resposta.
Ah, ele dá uma arma para a minha garota e ainda me manda calar a boca? Se eu realmente não tivesse que me concentrar em uma saída eu o socaria.
- Acho que nossa única opção é recuar – sussurrei, tentando raciocinar.
assentiu silenciosa e quase imperceptivelmente. deu um pequeno passo para trás e a seguiu. Cuidadosamente eu e fizemos o mesmo.
Minha respiração saia em arfadas, entre as quais eu prendia o ar. Eu tinha a impressão de estar quase tremendo de medo, mas tinha que aguentar firmemente em expectativa. Continuamos andando para trás, cada vez com mais pressa. O homem no fim do corredor não fazia nada quanto a isso, apenas nos deixava seguir com um sorriso perverso. Ele não nos deixaria seguir tão livremente assim por nada, alguma coisa estava errada.
Mais dois passos e minha teoria da conspiração se confirmou.
- Vão a algum lugar?
Aquela voz gélida congelou cada célula de meu corpo, mas eu virei sem pensar duas vezes, a arma apontando para ele. Era preferível deixar minhas costas vulneráveis do que sem proteção. Ela respirou contra meu queixo, e eu sabia que ela estava apavorada, aquela maldita voz parecia lhe despertar o mesmo medo. O fato de ele a estar assustando agora e já a ter maltratado tanto começou a aumentar o ódio dentro de mim, camuflando o medo.
- Fica longe – rosnei entre dentes.
Aqueles olhos frios me encararam de maneira maldosa, obsessiva. Dei uma rápida olhada em volta, vendo que outro cara grande – o outro que participara do sequestro, se não estava enganado – estava no outro final do corredor.
Estávamos cercados.
- E você, docinho – ele disse, mexendo nos cabelos dela com a arma. – Não terminamos nossa conversa ainda, você saiu tão apressada.
Eu notei que as mãos estavam sujas de sangue quase seco, assim como as do novo homem no final do corredor, além de suas roupas.
- Estamos em um hospital, logo alguém virá – eu disse, dando um passo pra trás e trazendo comigo. – É melhor você ir embora.
- Bom, então ou eu terei que matar quem aparecer ou matar vocês mais rápido – ele deu um sorriso cínico. – Mas e você, , como vai a família? Quero dizer, o que restou dela.
- Atira logo nesse cretino – cuspiu , que permanecia virado para o outro homem, o de rosto mais largo do lado oposto, a arma apontada para ele.
- Ele não seria tão idiota – zombou Sven com um sorriso presunçoso.
É claro, eu sabia o nome do assassino de meu pai, assim como sabia que os outros dois caras só podiam ser Julian e Marcos, seus capangas. Eu já os havia reconhecido para a polícia.
afrouxou meu aperto, virando para encará-lo também. Eu voltei a apertá-la forte, e ela apontou a arma para ele.
- Mas eu seria – ela disse com sua voz quase firme.
Sven riu dela. “Você já matou minha irmã, o que te faz pensar que eu não atiraria primeiro?”.
- Se você fosse atirar, já teria atirado – ela disse com ferocidade, mas sua voz deu uma pequena falha pela confirmação que ele fizera.
- Mas então, onde sua irmã e sua mãe estão se escondendo mesmo? – ele perguntou ignorando e voltando a me encarar. – Tenho quase certeza de que já descobri a cidade, mas se você puder me adiantar o endereço completo eu ficaria agradecido.
Eu dei mais um passo pra trás, mantendo grudada em mim.
- Eu já fiz o que você pediu no julgamento, por que não pode nos deixar em paz? – perguntei, começando a ficar desesperado como um ratinho encurralado por um grupo de gatos.
- Você é uma testemunha, não posso simplesmente te deixar andando por aí – ele disse como se aquilo fosse óbvio.
- Certo, mas deixe eles irem – eu pedi, e estremeceu.
- Hum… - ele fez uma cara pensativa. – Não, eles sabem demais agora.
- Eles não vão dizer nada, só deixe-os irem – eu seria capaz de me ajoelhar e implorar na frente daquele assassino deplorável apenas para tê-la em segurança. – Eu faço qualquer coisa.
- Eles poderiam chamar a polícia – ele respondeu, e então seus olhos queimaram em ódio. – E essa garota não vai a lugar nenhum sem uma bala na cabeça.
Ele puxou em um movimento ágil e forte, arrancando-a de meus braços. Sem que eu percebesse, o homem que antes estava no fim do corredor a minha frente, Julian, agora estava próximo o bastante para tocar o cano gelado da arma que segurava em minha cabeça.
Eu me deti, enquanto se debatia nos braços de Sven.
- Abaixa a arma – rosnou Julian com a voz extremamente grossa.
- SOLTA ELA! – eu gritei, pronto para ir pra cima de Sven.
Eu não podia simplesmente atirar nele agora, não com se debatendo em seus braços.
- Abaixa a arma – repetiu Julian impaciente.
- SOLTA ELA SEU FILHO DA PUTA! – o ódio em mim era mais do que incontrolável vendo-o machucar os pulsos de , os segurando com só uma mão.
- Melhor, eu não vou atirar em você – Sven disse baixinho, mas eu podia ouvi-lo entre as batidas de meu coração. Ele largou a arma no chão e pegou algo de trás de sua calça. – Vou cortar seu pescoço, assim como você fez com minha irmã.
Sem conseguir conter mais nenhum músculo do meu corpo, eu fui para cima dele, mas Julian me segurou, tirando a arma de minha mão. Eu tentei meu soltar com força, mas ele era com certeza bem mais forte que eu. Meus olhos deixavam escorrer lágrimas de ódio e desespero.
- Vou te assistir sangrar até não ter nem mais forças para tentar sobreviver – Sven continuou, e eu me debatia com cada vez mais força, mas havia parado de se mexer, a lâmina ensangüentada com que Sven brincava em sua pele a apavorando. – Você vai morrer engasgada com seu próprio sangue. Ou melhor, pela falta dele - ele sorriu maléfico. – Matem os outros dois – ele ordenou a seus capangas.
- Não! – gritou, lágrimas saindo de seus olhos também agora.
Mas já era tarde, um tiro estalou pelo corredor, seguido de gritos e mais um tiro.
- Solta ele! – ouvi a voz de esbravejar, e minhas pernas fraquejaram ao mesmo tempo em que eu soltava a respiração e abria os olhos, o alivio imediato de saber que ele estava vivo.
Eu estava quase conseguindo uma boa posição entre meus solavancos para acertar o homem que me segurava, mas ainda não era bom o bastante.
- Cuida da ! – eu o reprovei.
- Solta ele! – repetiu e eu vi pelo canto dos olhos que ele sustentava a arma apontada para Julian. Por que infernos ele não estava ajudando a ?
Outro tiro ecoou pela sala e foi com um susto que eu percebi que o grito de dor vinha de Sven e não de .
Consegui finalmente uma posição boa o bastante para acertar o cotovelo com força nas costelas de Julian, o fazendo me soltar.
- Pega ! – chutou a arma em direção a garota de cabelos curtos, que abaixou em um movimento rápido e segurou a arma.
Sven estava no chão com a perna abaixo do joelho sangrando, mas ainda assim tentado se levantar para ir até nós.
- Corre! – eu gritei e todos dispararam, enquanto o som da arma de Julian sendo descarregada nos perseguia.
Desviamos do corpo de Marcos, cujo sangue escorria de um buraco em sua testa, e viramos, pegando a escada de emergência logo no começo daquele novo corredor curto.
Descemos as escadas correndo, pulando degraus e o que podíamos e, apesar de estar machucada e eu poder ver que ela segurava alguns gritos de dor, ela corria na mesma velocidade que nós. Cerca de um andar e meio depois, o barulho de tiros batendo no ferro do corrimão e nas paredes tomava conta do lugar, nos fazendo correr ainda mais.
Eu ajudava como podia, mas ela realmente descia mais rápido sem a minha ajuda. estava a nossa frente, seguido por . Nossas respirações eram altas e descompassadas, abafadas pelo barulho de nossas grandes passada e os tiros acima de nós. segundo andar, primeiro… térreo!
- Não, subsolo ! – disse quando eu corria para porta.
Sem hesitar eu voltei a descer as escadas, mantendo sempre a minha frente, apesar de poder correr mais rápido que ela, eu não a deixaria desprotegida de modo algum.
Passamos de uma escadaria mal iluminada para uma garagem ainda mais escura. Nós disparamos por entre os carros parados, guiados por , e logo os tiros se tornaram mais perigosamente perto de nos acertar.
parou por um segundo em uma das esquinas do estacionamento, e apontou para a esquerda, fazendo todos nós nos movermos novamente seguindo aquela direção.
Assim que chegamos ao outro lado da ruazinha do estacionamento um tiro acertou a lataria do carro ao lado de . Ela gritou e colocou as mãos na cabeça, sem parar de correr.
- Calma – eu tentei acalmá-la, mesmo sabendo que aquilo seria inútil. Eu queria poder abraçá-la e acariciá-la. Queria deixá-la segura em meus braços. – Não vou deixar ninguém acertar você.
Em um segundo examinei o terreno a minha frente para me certificar que não tropeçaria, então me virei e atirei neles três vezes, sem sucesso em acertá-los devido tanto ao meu movimento quanto ao deles.
destravou o carro logo adiante pelo controle do alarme, passamos por mais alguns carros e nos jogamos dentro deles. Batemos a porta enquanto já arrancava com o carro. Eu abri a janela e me esgueirei por ela, atirando mais algumas vezes nos caras e em seguida tendo que me esconder dos tiros deles.
estava agachada no banco do carona, protegendo a cabeça. estava também agachada no banco de trás, mas suas mãos não estavam na cabeça, estavam cobrindo a barriga.
Eu me apavorei.
- , eles te acertaram? – eu a puxei para cima e afastei suas mãos.
- Não – ela respondeu cansada.
Sua blusa estava manchada de sangue, mas era apenas de sua mão que voltara a sangrar um pouco.
- , me deixa lá em casa – eu pedi, finalmente podendo abraçar .
- Não sei se é uma boa idéia… - ele respondeu, me observando pelo retrovisor. – Você realmente precisa ir lá?
- Meu passaporte e todo o resto tá lá – dei um beijo em sua testa e afaguei seus cabelos. – Vai ficar tudo bem, pequena.
- Certo, e depois aeroporto? – ele descansou a mão esquerda sobre a coxa de .
- Primeiro você leva a em casa – eu disse. – Ou se você achar algum outro lugar mais seguro. Depois você volta pra me buscar. Ah, aproveite pra tentar pegar a mala da que ficou no hospital, nem que alguém tenha que fazer isso por você. O passaporte dela tá lá – pareceu não ver problema nisso, apenas assentiu com a cabeça. – Você tá com muita dor, amor? – questionei baixinho para .
- Eu não sei por que, mas quando estava correndo não doía tanto – ela murmurou contra meu peito. – Agora tá doendo, mas não se preocupe, só dói um pouquinho.
Ela sorriu pra mim, mas seu sorriso saiu triste. Eu a puxei levemente e estiquei meu pescoço para ver suas costas. Sua camisa tinha uma mancha de sangue que havia se expandido envolta do corte. Eu sabia que aquele sangue estancaria em pouco tempo, mas uma dor ainda assim massacrava meu peito, provavelmente não só porque ela estava machucada e aquilo com certeza doía, mas porque ela estava tentando fingir que não doía tanto. Tentando me iludir amenizando as coisas, assim como eu tentava fazer com ela.
- Aproveita e pede pra quem for pegar a mala roubar algumas coisas pra gente trocar os curativos dela – eu voltei a aconchegar o mais confortável para ela possível em meus braços.
- Tá – respondeu simplesmente.
Devido à pressão do pé de no acelerador, em pouco tempo tínhamos chegado ao meu prédio.
- me chamou quando eu já estava abrindo a porta. Eu a olhei em resposta. – Acho que você não devia subir, ainda mais sozinho. - Não se preocupe, não vou demorar – eu disse com um sorriso saindo do carro.
- E se eles vierem pra cá? – ela insistiu. – É perigoso.
- Não se preocupe comigo – eu me agachei para dentro do carro para dar um selinho em .
- Eu devia ir com você – se ofereceu, sua voz fraca.
- Não, é melhor você ficar com – eu passei a mão por seu rosto, admirando seus belos traços por aquele instante.
- Nós devíamos te esperar aqui – disse parecendo nervosa com algo. Mas, quero dizer, ela tinha vivenciado coisas o bastante por hoje para justificar seu nervosismo, certo? – Ou devia subir com você…
- Não, você precisa ir pra longe de nós logo – eu recusei, voltando minha atenção para .
- Eu te amo – ela sussurrou com um sorriso fraco.
- Te amo, pequena – eu dei-lhe outro selinho e sai do carro, fechando a porta.
partiu a eu abri o portão do condomínio e entrei nele, andando apressado até meu prédio. Bati meus pés impaciente com a demora da decida do elevador, continuando a batê-los em seguida dentro do elevador por sua demora em subir.
O único apartamento com que eu dividia o corredor estava desocupado, então eu estava sozinho naquele corredor. Peguei a chave certa no molho e abri a minha porta.
ainda demoraria o bastante para que eu pegasse algumas roupas e colocasse na mala, então atravessei meu apartamento até o quarto, ignorando a paisagem exposta pelas grandes janelas da sala. Eu não queria olhar pra lá, pois eu sabia que sentiria saudades daqui, e agora não era hora para isso.
A porta do closet correu para o lado, expondo roupas muito bem organizadas e limpas. É claro, elas só estavam assim porque Roberta as havia deixado daquele jeito, assim como o resto da casa. Eu teria que ligar para ela mais tarde e avisar que iria vir menos vir menos vezes para arrumar a casa, já que eu estaria fora.
Peguei uma mala em das altas prateleiras e comecei a jogar as roupas dentro dela de qualquer jeito. Eu não levaria tudo, mas pelo menos algumas peças de cada já seria de grande ajuda. Dois tênis, um sapato… Fechei o closet e comecei a vasculhar as gavetas da cômoda em meu quarto a procura de meus documentos. Peguei minha escova de dente meu frasco de remédio dentro do espelho do banheiro e depositei também na mala. Voltando para o quarto eu dei uma ultima olhada nele, sabendo que sentiria falta daquela cama tão macia, apesar de solitária.
Mas era isso, não era? Eu iria morar com agora, eu não estaria mais sozinho. O que era esse apartamento grande e confortável com toda sua solidão? Que diferença ele faria se estivesse ao meu lado? Nenhuma.
Fui até a cabeceira do lado da cama em que sempre dormia – já que era a cama de casal dos meus, cujo o colchão fora trocado – e peguei o porta retrato que estava ali.
Eu sorri ao relembrar a cena nele fotografada. Era uma foto recente, da qual eu não tirara os olhos na última semana.
Ela tinha aberto um enorme sorriso ao me ver enquanto eu me agachava em frente a ela, me apoiando em um dos joelhos. Eu tinha pego sua mão e beijado suavemente.
- Minha princesa – eu havia dito, meus olhos tinham encontrado os seus, que brilhavam intensamente. – A mais linda de todas as princesas que a humanidade já teve.
- E o que lhe faz pensar que eu seria sua? – ela erguera as sobrancelhas, se fazendo de difícil.
Eu me levantei ainda olhando profundamente em seus olhos. “Está escrito através de seus olhos”.
Ela ficou um pouco vermelha.
- E você estaria disposto a cumprir todos os meus desejos e me salvar de todos os perigos?
Eu envolvi sua cintura e a puxei o máximo que pude para perto de mim, seu vestido dificultando as coisas.
- Até pelos seus desejos mais caprichosos eu seria capaz de desbravar todos os mares e lugares mais remotos. Para te manter a salvo, eu daria a minha própria vida.
Sem conseguir mais resistir, eu a beijei intensamente.
E fora durante esse beijo que uma das garotas do camarim havia batido a foto. me disse que ela tinha cabelos loiro-brancos e lhe entregara a foto na segunda-feira para que me desse.
Um barulho na sala me despertou de meu pequeno flashback, e eu coloquei a foto sobre a mala aberta, pegando a arma que eu tinha recolocado no cós da minha calça e a destravando. Provavelmente era apenas vindo me chamar, mas eu não iria arriscar.
Tomei fôlego, segurando a arma erguida apontada para cima com uma mão e com a outra dando apoio, segurando meu pulso, me preparando por um instante.
Eu virei para a sala com a arma erguida e preparado para atirar, mas algo me acertou na cabeça, me fazendo vacilar para frente e tropeçar nos meus próprios pés. Minha cabeça latejou, mesmo assim eu me virei ágil para atirar, apenas ganhando mais um golpe de algo que eu percebi ser gelado contra meu rosto.
- Hoje você morre, – a voz fria como seus olhos cortou o ar.
Eu levantei meu rosto do chão para encará-lo, e ele fez sinal para que quem quer que estivesse atrás de mim – que provavelmente era Julian -, parasse.
Eu fiquei de quatro e em seguida sentei sobre meus próprios pés, tonto pela pancada.
- Onde está sua mãe e sua irmã? – ele perguntou retoricamente.
Seu sapato preto estava molhado e manchado em sua grande parte de vinho, encharcado mais para o meio, onde havia um buraco feito pelo tiro que havia lhe dado.
- Fale logo seu estúpido – ele me chutou na barriga, e eu perdi o ar. – Cadê aquelas vadias?
Estava na hora de acabar com tudo aquilo, ele simplesmente nunca nos deixaria em paz. Eu tinha que virar homem e fazer a única coisa que manteria e minha família em paz.
- Vai pro inferno! – eu ofeguei e antes que a coisa fria e dura voltasse a me acertar, eu atirei no peito de Sven, olhando em seus olhos frios, assim como eu o havia visto fazer com meu pai.
Houve mais outra pancada em minha cabeça, mesmo eu já estando no chão. A dor e a tontura não me permitiram descobrir a origem da gritaria que se seguiu, eu apenas pude ver de modo embaçado o corpo de Sven caindo, antes de receber mais duas pancadas na cabeça.
Tudo ficou turvo, como se eu estivesse caindo de um precipício, imagens da minha vida correndo por minha cabeça e se prendendo a uma garota, até chegar ao fundo, onde era silencioso, calmo e escuro, onde não havia nada do que se lembrar ou sentir.

Capítulo 26
Down Goes Another One

havia tentado me convencer a ficar no carro, mas, por mais que doesse me movimentar, eu o convenci de que era perigoso eu ficar sozinha. O prédio era lindo, cheio de enormes janelas e com jardim bem cuidado. apertou o numero doze no painel e, apesar de tudo o que poderia estar acontecendo, eu estava excitada com a idéia de conhecer o lugar onde morava.
Assim que saímos do elevador percebemos que havia algo errado – talvez pelo fato explícito da porta de um dos apartamentos estar escancarada – e eu obedeci quando ele me mandou ficar perto do elevador, segurando a porta. Afinal, por mais aflita que isso me deixasse, eu não podia simplesmente sair correndo para dentro do apartamento. Eu tinha que pensar em Little Jones, apesar de ser doloroso ter que aguardar parada naquele corredor sabendo que meu estava em perigo.
começou a gritar, e calafrios correram por minha espinha.
“Larga!” ele gritava. “COVARDE FILHO DA PUTA” eu podia sentir o ódio em seu berro, seguido por dois tiros seguidos.
Eu interiorizei meu grito, fechando os olhos e sentindo meu corpo tremer. Minhas pernas vacilaram, mas eu não conseguia pensar em deixar e ali. Me apoiando nas paredes e temendo o que encontraria, espreitei pela porta do apartamento.
Eu fiquei aliviada ao ver que agachado próximo a uma grande massa corporal, ele se virou para me encarar e eu pude ver que era um dos armários que havia me sequestrado. Meus olhos continuaram a vasculhar o lugar e com um passo para frente eu pude ver o cabelo de no corredor, seguido por seu corpo conforme eu corria até ele, ignorando qualquer dor em meu corpo. não precisou nem se levantar para chegar até ele antes de mim, já que o homem que estava caído de cara no chão estava próximo a .
Eu desabei no chão, mas hesitei com medo de tocar em . Uma dor insuportável tomava conta de mim, empurrando lágrimas deseperadas para fora de meus olhos.
tinha sangue escorrendo da cabeça, e a lateral de seu rosto que eu podia ver estava intensamente vermelha. Olhando em volta eu percebi que em uma das mãos do armário segurava de modo torto um cano de ferro, no qual seu corpo estava parcialmente sobre.
“Covarde!” eu sussurrei indignada, voltando em seguida minha atenção para .
colocou a mão no pescoço dele, examinando.
- Ele não… - um soluço escapou irrompeu por minha garganta. – Não, não, ele não pode estar… - outro soluço ainda mais forte. Eu não conseguiria terminara a frase nem se não estivesse chorando.
- Não – disse, pegando o celular do bolso e discando. – Mas não podemos mexer nele. O coração está batendo fraco, mas ele ainda está vivo.
Eu não conseguia nem mais respirar entre tantos soluços enquanto chamava a emergência antes de vir para o meu lado e me abraçar.
- – eu choraminguei com o pouco de ar que me restava. – Eu preciso de você – eu solucei mais algumas várias vezes antes de conseguir forças para continuar. – Nós precisamos – eu enfatizei o nós pensando em nosso Little Jones, e coloquei a mão sobre a barriga. – Por favor, fique conosco!
me abraçou mais forte, e meu choro aumentou. A dor física que eu sentia sequer era capaz de aliviar a dor que me consumia por inteira por dentro.
Eu não tinha mais o que chorar, e tudo o que saiam eram soluços. Afastei e me deitei ao lado de , encarando seus olhos fechados. “Eu te amo” eu murmurei antes que outro soluços escapasse de minha garganta. “Nós te amamos, fique, por favor”.
voltou a colocar sua mão no pescoço de , e sua feição não conseguiu esconder a dor.
- Está mais fraco – ele explicou. – Mas os paramédicos já devem estar chegando, não se preocupe.
Eu solucei e voltei a chorar tão intensamente quanto antes, mas mais silenciosa agora. Peguei a mão dele, mole e pesada, e a coloquei cuidadosamente sobre minha barriga.
- Fique – eu repeti entre o choro. – Você consegue. Fique, !
Murmúrios irromperam a sala e tudo se tornou uma confusão. Os paramédicos correram para atender a , e, mesmo eu ficando histérica sobre isso, eles me fizeram ficar longe de , me levando em outra ambulância sem ao menos me dizerem como ele estava. Foi a coisa mais agonizante da minha vida.
Eles me enfiaram dentro de um dos quartos e me mandaram aguardar um médico. Eu assenti e esperei até que o enfermeiro saísse dali para me buscar calmantes.
Aproveitando que estava sozinha, não perdi tempo em escapar daquele quarto. Eu precisava ver .
Me apressei pelos corredores, e todos me olhavam torto, até que uma enfermeira me parou.
- Você está bem? Já foi atendida? – ela exigiu, barrando meu caminho.
- Já sim, me mandaram fazer alguns exames.
- Quer que eu te acompanhe? – ela ofereceu.
- Não precisa, eu sei o caminho – eu sorri forçado para ela e continuei meu caminho, me orientando pelas placas espalhadas pelos corredores.
Demorei mais alguns minutos, mas finalmente achei a UTI.
Naquela ala visualizei a figura de parado contra a parede, os braços cruzados e cabeça baixa. Eu me aproximei silenciosamente. Ele se assustou ao me ver, escondendo o rosto, mas eu já tinha visto suas lágrimas.
- ? – eu exigi mais como um ganido, a voz falha.
- Ele está vivo – ele disse com a voz rouca pelo choro. – Está em cirurgia.
- Oh, , o que vamos fazer? – eu joguei meus braços em volta de seu pescoço e deixei que lágrimas silenciosas voltassem a escorrer.
- Eu não sei – ele respondeu com a voz incerta, me apertando após um instante contra ele. – Mas você precisa se acalmar, tudo isso é péssimo para o seu bebê.
Eu funguei baixinho.
- Como você descobriu? – perguntei contra seu pescoço.
Ele deu uma risadinha baixa, mas eu sentia que ele ainda chorava.
- Apesar de ser mais do que óbvio, eu só tive certeza hoje, no carro, quando eu te busquei e você ficou com sua mão sobre a barriga – ele respondeu, sua voz falhando fracamente em algumas partes.
- O realmente não sabe ainda? – eu perguntei.
Antes tudo o que eu queria esconder isso dele, mas, agora, tudo o que eu mais queria é que ele soubesse.
- Não – foi a curta resposta dele.
Nós ficamos abraçados por mais alguns minutos, apenas tentando suportar a espera, tentando nos acalmar mesmo que isso não diminuísse a dor.
- Você devia aproveitar para trocar seus curativos e se cuidar – sugeriu contra meu cabelo.
- Não vou sair daqui enquanto não tiver notícias.
Ele não protestou, pois sabia que seria inútil. Houve uma movimentação no corredor, e eu tentei me afastar de para ver o que era, mas ele me segurou com força contra seu peito, seu corpo totalmente rígido. Eu me empurrei para longe dele e vi dois médicos com um carrinho com equipamento em cima passando a minha frente. O tempo que eles levaram para entrar na sala de cirurgia em que estava fora o tempo que eu levara para entender o que estava acontecendo.
Aquilo era um desfribilador e eu podia ouvir os gritos do doutor sobre voltagens e uma voz feminina dizendo “Estamos perdendo ele”.
Meu mundo parou e minha respiração congelou enquanto eu assistia a porta voltando a se fechar sozinha. Perdendo ele? Não, não faria isso comigo. Ele disse que eu nunca estaria sozinha, então, por que ele estava fazendo isso? Por que ele estava nos deixando?
Eu mal senti as mãos que tocaram meus braços, alguém dizendo que não podíamos ficar ali.
Me desvencilhei das mãos, minha mente totalmente confusa e enevoada. Andei até aquela porta e a abri, vendo o corpo inteiro de dar um solavanco e voltar a ficar deitado e imóvel em seguida. Minha cabeça rodou, mas eu dei mais um passo a frente.
- De novo! Aumente para trinta! – e além disso tudo o que eu podia ouvir era um som agudo e continuo. – Afastar!
Mãos agarraram meus braços por trás, tentando me puxar para fora da sala, mas eu resisti, vendo o corpo de dar outro solavanco com o choque percorrendo todo o seu corpo.
- ! – os gritos irromperam de minha garganta, com toda a minha força e fora de meu controle – !
As mãos me puxaram com mais força agora, me arrancando da sala de cirurgia, me distanciando de .
De repente, tudo o que eu pude ouvir, apesar de minha luta particular com quem quer estivesse me puxando ou dos meus próprios gritos, como se todo o resto estivesse congelado, foi a mudança do som agudo de continuo para pulsante, antes de que tudo ao meu redor ficasse escuro e maçante demais para que eu pudesse continuar a resistir.

Eu acordei com um carinho gostoso em meus cabelos e sem nenhuma dor, mas eu gritei do mesmo jeito me sentando rígida.
- ! – o grito ecoou pela sala.
- Ele está vivo – uma voz masculina conhecida disse ao meu lado.
Eu me sobressaltei, passando a mão pelo cabelo ao lembrar do recente carinho e senti um curativo seco entre minha palma e o cabelo.
Me virei e um sorriso se abriu em meu rosto ao focalizar o rosto de .
- Que bom que você está aqui. Mas como está? – eu perguntei, ainda preocupada.
Eu comecei a esticar minha mão para alcançá-lo, mas percebi algo nas costas daquela mão. Uma agulha ligada a um tubinho. Eu fiz uma careta, fazendo soltar uma risadinha nasalada.
- Ele está desacordado, mas disseram que está estável – ele disse, pegando minha mão e a acariciando com o dedão.
- O que você quer dizer com “desacordado”? – ele me fez voltar a deitar cuidadosamente. Eu estava deitada de costas, mas isso não doía agora. – Por que não sinto dor?
- Eles injetaram remédios para a dor – ele explicou. – E eu só sei que ele está desacordado e estável, foi tudo o que me disseram.
- Cadê o ? – perguntei checando novamente a nossa volta.
Eu estava em um leito praticamente idêntico ao que estivera antes, porém tudo era em branco ao invés de azul, mesmo assim devíamos estar no mesmo hospital.
- Está sendo interrogado agora – suspirou. – E se eu fosse você, quando alguém entrar aqui, fingiria estar dormindo.
- Interrogado? Ele foi até a polícia?
Ele riu. “Com tudo o que houve, a polícia foi até ele”.
Eu arregalei os olhos. “Ele não vai ser preso, não é? Ai Meu Deus, eu vou ser presa!”.
- É claro que não – fechou a cara, falando sério. – Foi legitima defesa e essas coisas, fora que você foi sequestrada.
- Ah, é – eu disse, assimilando direito. Olhei para minha barriga. – , acho melhor avisar ao médico que eu acordei, não acha?
- A polícia está do lado de fora do quarto, está pronta pra isso? – ele me observou preocupado.
- Tudo bem, é melhor lidar com isso logo – eu disse com um meio sorriso.
- Certo – ele deu um beijo em minha testa. – Você sabe que eu te amo, não é, meu Arco-Íris?
- Também te amo – eu respondi sorrindo.
Ele deixou o quarto e eu respirei fundo. Não estava muito ansiosa para responder as perguntas da polícia, mas precisava ter certeza de que Little Jones estava bem dentro de mim.
Fiquei encarando o teto durante algum tempo, apenas tentando absorver tudo o que tinha acontecido. As imagens passavam rápidas demais por minha cabeça, acelerndo meu coração e me causando tremores.
- Como está nossa paciente fujona? – o médico cantarolou entrando no quarto.
Eu sorri sem graça pra ele. Era o mesmo que tinha me tratado antes, então realmente estávamos no mesmo hospital.
- Estou bem, mas bem que vocês podiam ter me dado essa coisa pra aliviar a dor antes.
Sua expressão se tornou neutra. “Talvez, mas achei que era necessário agora”.
- O que foi, algum ponto abriu? – perguntei inocentemente.
- Não. Eu realmente deveria ter aplicado uma anestesia mais forte antes, aposto que você deve ter sentido dor quando estava fugindo. Pode me dar o braço, por favor? – eu levantei um pouco o braço com a agulha e ele enrolou um medidor de pressão nele. – É só para checar – ele apertou a bombinha, apertando meu braço ao encher o medidor de ar, para depois retirá-lo. – Quase normal.
- Então por que me deu agora? – eu perguntei, sentindo que havia alguma coisa errada.
- Bem, você passou por coisas demais – ele disse. – Físicas, mas eu tenho certeza que também emocionais. Me disseram que você foi sequestrada, você devia ter me dito antes – eu apenas concordei silenciosamente com a cabeça. – Você deveria ter ficado de repouso, em observação, como eu tinha lhe dito – eu concordei novamente. – Mas eu não vou te dar nenhum sermão por não ter chamado a polícia, você já tem problemas demais.
- Doutor, o que há de errado? – eu queria que ele fosse logo ao ponto, parasse de dar voltas, aquilo estava atacando minha ansiedade.
- Você está com início de anemia, provavelmente causada pela sua má alimentação e má condições da última semana. Além disso, você se esforçou mais do que devia, e isso não fez bem ao seu bebê.
Eu arregalei os olhos, sentindo meu coração sendo esmagado. “O que…” eu engoli em seco “O que o senhor quer dizer?”.
- Bom, na verdade, seu bebê em si está bem – eu voltei a respirar, afundando minha cabeça contra o travesseiro. Esse cara tava tentando me matar de susto? – Mas você não. Sua gravidez é de risco.
- E o que isso quer dizer? – eu senti um calafrio.
Eu queria que estivesse ali para me abraçar e cantar baixinho em meu ouvido, mas ele não estava.
- Isso quer dizer que a senhorita não pode mais fazer nenhum esforço – ele sentenciou. – Vai ter que ficar de repouso e não pode se estressar ou sofrer grandes emoções. Eu vou fazer um atestado médico para que você fique em casa, e também preparar um cardápio balanceado para resolvermos essa anemia.
- Como está? – perguntei o olhando atentamente, tentando conseguir qualquer sinal como respostas, mas sua feição continuava neutra. Ele simplesmente deveria estar acostumado a isso, afinal, ele era médico.
- Estável – ele respondeu.
- Posso vê-lo? – pedi fazendo a minha melhor carinha de pidona, estilo Gato de Botas.
- Acabei de lhe dizer que não pode sofrer grandes emoções – ele discordou.
- Se eu ficar aqui vai ser pior ainda, vou ser consumida pela minha ansiedade, estou sem tomar meu remédio há uma semana – eu disse, ele continuou me observando. – Por favor – eu insisti.
Os cantos de seu lábio subiram ligeiramente, quase como um sorriso. “Está bem, depois que os policiais falarem com você eu peço pra alguma enfermeira te levar”.
Ele saiu do quarto, mas eu pude ouvi-lo pedir aos policiais lá fora para que fossem breves e cuidadosos antes que a porta se fechasse.
Não foram policiais como eu esperava, mas sim investigadores britânicos que me interrogaram. Mas eles trabalham para a policia, então dá na mesma.
Foi mais fácil do que eu pensei. Quero dizer, os acontecimentos ainda eram recentes, então, não fazia exatamente muita diferença eles estarem me perguntando, já que inevitavelmente eu iria ficar me lembrando de tudo. As cenas passavam clara e dolorosamente em minha mente, mas parecia que tudo tinha acontecido há muito tempo. E na maioria tudo o que eu tinha que fazer era concordar, já que havia lhes contado a maior parte da história. Mas uma parte em particular eu estava tentando evitar, e foi como um golpe no estomago quando eles me perguntaram sobre a morte da irmã de Sven.
Depois disso eu fiquei extremamente desconfortável, mas eles realmente não iriam me prender. O caso de iria novamente ao tribunal, mas Sven seria preso de qualquer forma antes acusado dos crimes recentes, em que os indícios eram claros.
Eu perguntei sobre o caso em que estava envolvido, e eles me disseram que era a testemunha de um crime do qual eu eles não podiam me dar mais informações. Legal, ninguém nunca me conta nada de verdade.
Meu desconforto sumiu quando uma enfermeira veio me colocar numa cadeira de rodas – a qual eu não me atrevera a recusar desta vez – para levar até , ao mesmo tempo em que minha ansiedade me fazia roer minhas unhas quebradas e irregulares.
Eu respirei fundo antes de entrar no leito dele, que ainda se encontrava na UTI, e quase pulei da cadeira de rodas ao vê-lo.
- Pode me deixar sozinha com ele um pouco? – eu pedi a enfermeira.
Ela concordou e deixou o quarto.
Eu suspirei ao ver seu peito subindo e descendo, o barulho agudo pulsante traduzindo as batidas de seu coração.
Graças a Deus a enfermeira tinha tido o bom senso de me deixar perto o bastante para que eu pegasse a mão de .
Subi meu olhar até seu rosto, sentindo meu coração se apertar.
Sua expressão estava serena, calma, livre de tudo o que tinha acontecido, mas sua cabeça acima dos olhos estava envolta em uma fachada.
Eu podia ver o pedaço de um hematoma roxo um pouco abaixo da bandagem, perto de seu olho. Eu não podia ver o outro lado de seu rosto, já que ele estava deitado de costas.
Sua pele estava ainda mais pálida do que quando ele tinha vindo me ver mais cedo.
Eu suspeitava de que ele estivesse mais do que sedado, mas ninguém queria me falar isso. Não queria me ver histérica novamente.
Mesmo sem ter tanta certeza se podia me controlar, soltei a mão de e me levantei cuidadosamente da cadeira de rodas, devagar, ganhando firmeza nas pernas aos poucos.
Eu sabia que eu havia dormido muito tempo, talvez um dia inteiro, e eu duvidava que dormisse mais do que eu, mesmo em seu estado.
Tomando a maca como apoio e arrastando o balão de soro junto comigo, eu caminhei até o pé da maca, onde tinha uma prancheta. Passei os olhos pelo papel dali, ignorando as informações irrelevantes, até conseguir achar o que realmente importava.
Minhas pernas fraquejaram, mas eu me mantive de pé, me apoiando com mais firmeza na maca. Reli algumas vezes até ter certeza de que não era uma alucinação.
- Coma – eu sussurrei. estava em coma.
Eu encaixei a prancheta de qualquer jeito de volta ao lugar e fui para perto de novamente. Segurei em sua mão firmemente e deitei minha cabeça sobre seu peito, deixando uma lágrima escorrer ao sentir seu coração bater. Me ergui novamente e acariciei sua bochecha.
- Se você estiver me ouvindo – eu falei em uma voz baixa -, eu quero que você saiba que eu estou bem, e nosso bebê também – eu me abaixei para lhe dar um selinho. – Obrigada por ter ficado – eu suspirei, apenas me deixando perder em seus perfeitos traços. – Mas você precisa acordar. Eu vou esperar você acordar o tempo que for necessário. Eu vou estar aqui pra sempre, pra você – eu fiz carinho na mão que segurava com minha mão não enfaixada. – Eu estou feliz por você ter ficado - e então eu me senti culpada. Era como se eu tivesse pedido para ele ficar e o prendido entre dois mundos. – Eu te amo.
A porta se abriu e eu desviei meus olhos para ela, vendo a enfermeira entrar.
- Você tem que ficar de repouso agora – ela disse tentando ser simpática. – Vamos?
Eu concordei com a cabeça, dando uma leve fungada e me sentando na cadeira de rodas. Eu tinha que sair dali antes que desmoronasse.
Era como se eu não respirasse mais sem ele estar bem, como se o ar que eu respirasse saísse dos pulmões dele. Meus pensamentos se embaralhavam, as palavras me faltavam. Eu precisava dele mais do que qualquer coisa nesse mundo. Eu me distanciava de sua maca como se tudo ao meu redor desmoronasse, deixando apenas a trilha dos pedaços do meu coração pelo caminho.
Nós tínhamos sido feitos um para o outro, e eu nunca poderia imaginar amar alguém mais do que eu o amava. Isso era impossível. Eu o amava mais do que a mim mesma e eu não podia comparar esse amor ao que eu sentia pelo pequeno ser crescendo dentro de mim, porque são amores diferentes, mas eu amava ainda mais o pequeno ser por ser parte de . O que eu sentia por ele era tão grande que a dor era esmagadora ao saber que ele não estava bem.
E eu sabia que ele me amava da mesma forma, e era por isso que ele estava ali, por que eu o tinha pedido para ficar.
Eu acariciava minha barriga, e apenas deixava que as lágrimas fluíssem.
Nós já estávamos passando pela porta quando a voz nos sobressaltou.
- ?

Capítulo 27
Time After Time

- ? – a voz repetiu, fraca, mas o bastante para fazer com que meu coração disparasse.
Eu me levantei da cadeira de um pulo, arrancando a agulha da minha mão e empurrando a enfermeira para fora do meu caminho em meio à confusão.
Eu corri até a maca dele, segurando sua mão com firmeza.
- Eu estou aqui – eu sussurrei, chorando com uma alegria indescritível me invadindo.
- Senhorita , o que pensa que está fazendo? – a enfermeira ralhou comigo. – Ele só deve estar tendo um sonho.
Por um instante a alegria começou a se esvair de mim, mas então ela voltou com força total ao sentir a mão dele responder ao meu aperto.
- – ele repetiu em um sussurro, os cantos de seu lábio subindo em um sorriso fraco.
- Estou bem aqui, – eu respondi, mantendo o aperto com minha mão boa e fazendo um carinho desajeitado em sua bochecha com a outra.
Seu sorriso subiu mais um pouco, fazendo cada célula do meu corpo reagir com êxtase, e o ruído agudo pulsante soou mais rápido pelo cômodo.
- Está tudo bem, meu amor – eu lhe dei um selinho longo. – Eu te amo.
- Eu te amo – ele sussurrou.
Enxuguei as lágrimas de meu rosto e olhos com as costas da mão ferida para poder olhá-lo melhor. Seu rosto tinha vida novamente.
- Temos um milagre aqui! – uma voz grossa me sobressaltou.
Eu olhei. Não era o médico que estava me tratando, mas sim o cirurgião que havia operado .
abriu os olhos, mas seu olhar era totalmente confuso e desorientado. “Onde estamos, ?”.
- No hospital, – eu respondi.
- Mas por que tá tudo escuro? – ele não focava o olhar em mim, apenas continuava confuso.
- Você é um sobrevivente, hein? – o Doutor “Richard”, pelo que eu li no crachá, continuou, se aproximando de . – Com licença – ele me pediu, e eu soltei a mão de para que ele o examinasse.
Fui para mais perto do pé da cama e fiquei com a mão sobre sua perna, a acariciando para mostrar-lhe que estava ali.
- Siga a luz – o doutor pediu após um momento com a lanterna nos olhos dele, agora abertos.
- Está tudo escuro – resmungou.
Eu o olhei assustada.
- Você não está vendo nada? – o doutor perguntou um tanto alarmado.
- Estou, a escuridão – sussurrou , como se aquilo fosse óbvio.
Eu dei a volta na maca e coloquei as mãos nas laterais de seu rosto, virando com cuidado sua cabeça para mim.
- Você não me vê? – eu perguntei, alarmada.
Mas a resposta já estava em seus olhos desfocados antes de chegar a sua boca. “Não”.
- Doutor, faça alguma coisa! – eu exigi, o encarando avidamente.
- O que está havendo? – perguntou confuso e com a voz um pouco mais forte agora.
- Vou ver o que posso fazer, agora a senhorita deve sair daqui.
Eu respirei fundo, me segurando para não surtar novamente.
- Vamos – a enfermeira trouxe a cadeira de rodas até mim.
- Depois eu volto, – eu disse, lhe fazendo carinho nas laterais do rosto.
- Não demore – ele pediu.
Eu me abaixei sobre ele e dei-lhe um selinho, custando a me convencer de que tinha que sair dali.
- Acho que seus amigos e sua família estão na sala de espera, quer passar por lá antes de voltar pro quarto? – a enfermeira perguntou enquanto empurrava minha cadeira de rodas.
- Quero – respondi, me sentindo totalmente distante.
- Só não conte ao doutor que eu fiz isso – ela pediu como se fosse um segredo.
Eu assenti calada.
Eu agora me sentia tão desorientada quanto , e as paredes e pessoas a minha volta passavam sem serem realmente vistas. Como não podia estar me vendo? Como podia estar simplesmente tudo escuro para ele? Deveria ser alguma coisa passageira, só isso. Afinal, ele tinha apanhado bastante, mas não podia ser nada grave. Não com o meu .
- ! – a voz estridente de me despertou, me assustando ao perceber que a sala estava abarrotada de gente.
- ! – ela se abaixou e me abraçou.
- Que saudade – abraçou a mim e a , seguida por , , , e Lauren.
- , você tá bem? – eu perguntei, a analisando para checar.
- Estou – ela respondeu, achando graça. – Você devia se preocupar consigo mesma.
- É, estou encrencada – fiz uma careta infeliz.
- Nossa, achei que o pior já tinha passado – disse parecendo assustada.
- Não, não é isso – eu dei um meio sorriso. – É que eu não vou mais poder ir pra escola.
- Aí Meu Deus, você não vai ter que voltar pro Brasil, não é? – ficou quase histérica.
- Não – eu a tranquilizei. – Mas vou ter que passar um bom tempo de repouso.
- Quanto tempo? – perguntou aflita.
- Alguns meses – eu respondi, olhando significativamente para , que demorou alguns segundos para captar a mensagem.
- Está realmente tudo bem? – ela perguntou, me mandando outra pergunta entrelinhas.
- Sim – confirmei.
- Você está bem? – Rachel veio finalmente me abraçar, toda preocupada.
- Estou – respondi pela milésima vez aquela pergunta. – Mas estou preocupada com .
Ela soltou o abraço e começou a ajeitar meus cabelos.
- Ele ainda tá… dormindo? – perguntou, desconfortável.
- Não, ele acordou – eu olhei pra baixo.
- Acordou? – gritou. – Mas ele estava em coma!
lhe deu um cutucão com o cotovelo.
- Estava, mas acordou – fechei os olhos respirando fundo. – Mas ele não me vê.
- Deus, ele perdeu a memória? – se precipitou.
- Ele não vê nada – eu engoli em seco, tentando conter as lágrimas e o desespero. – Eu não sei por que, mas ele fica dizendo que tá tudo escuro!
- Ok, acho melhor voltarmos para o quarto – a enfermeira disse, percebendo que eu estava ficando agitada.
- Posso ficar lá com ela? – pediu.
- Pode, mas não muito tempo – ela respondeu.
- Depois nós vamos lá, querida – Rachel deu um beijo no topo da minha cabeça.
Eu assenti com a cabeça.
- , pode ir ver o e me dar notícias? – eu pedi com o olhar carente.
- Claro – ele respondeu. – Vamos, .
segurou minha mão enquanto a enfermeira me empurrava de volta ao meu quarto. Depois de eu deitar, a enfermeira colocou uma nova agulha nas costas da minha mão, ligando um novo tubinho a ela.
- Está começando a doer de novo, será que pode me dar mais daquele negócio que tira a dor? – eu pedi.
Ela assentiu e saiu do quarto para buscar.
- Como assim você vai ter que ficar de cama? – exigiu.
- Minha gravidez é de risco agora – eu respondi com tristeza.
- Oh – ela parou por um instante, puxando uma cadeira que estava do outro lado da parede pra o lado da maca e se sentando nela. – E agora?
- Eu não sei – respondi olhando para o teto.
- ainda não sabe, não é? – ela perguntou retoricamente.
- Não. Eu não queria ficar na casa da Rachel, deixando ela e Eric preocupados… - eu suspirei. – E quem é que vai cuidar do ?
- A família dele, eu acho – ela respondeu.
- Não, isso seria inviável. Quero dizer, a irmã é menor que ele e já deve estar acostumada a escola onde estuda e tudo mais, assim como a mãe dele se ela trabalhar. Ou mesmo acostumadas com a cidade e tudo o mais, então ele não as tiraria de lá para cuidar dele, tenho certeza.
- E ele não pode ir pra lá? – ela questionou.
- Pode – eu respondi após um instante.
- Mas ele não vai – ela continuou. – Ele também tem uma vida aqui , não se esqueça disso. Ele não iria querer te deixar, mesmo que você não estivesse grávida.
- Como você pode ter tanta certeza? – eu a olhei insegura.
Ela riu. “Como você pode ter alguma dúvida?”.
Eu sorri para ela, tentando acreditar; mas eu sempre fora uma pessoa insegura demais.
- Será que ele vai ficar bem? Aquilo deve passar em algumas horas, não é?
- Eu não faço idéia – ela respondeu séria, voltando a segurar minha mão. – Mas o importante é que ele está vivo, e está acordado! Você devia ficar feliz por isso.
Era a mesma coisa que eu havia dito para anteriormente, se ele não podia ficar feliz por eu estar bem. Eu devia ficar feliz agora por ele estar vivo, mas era doloroso pensar que ele não estava bem como deveria. A angústia dele era a minha.
- Eu estou feliz – respondi com sinceridade. – Mas não posso evitar ficar preocupada.
- Mas vai ter que – eu nem havia visto a enfermeira entrar. – Você não pode se estressar, lembra? E tenho certeza que você e seu namorado ficarão bem, vocês são fortes.
Ela sorriu para mim, e eu senti o líquido quente que ela injetava no tubinho entrar por minha veia.
- Nós vamos ajudar vocês – disse. – Não se preocupe. Lauren vai te levar a matéria, mas nós vamos lá sempre que pudermos para te ajudar e fazer companhia.
- Não quero ninguém se sacrificando por mim – eu disse.
- Amigos são pras horas que você mais precisa – sorriu aquecedoramente e eu me senti cativada de verdade.
- Obrigada – era tudo o que eu podia dizer.
- Só não espere que a vá te ajudar com matemática ou física.
- Eu não esperaria – eu ri. – Pega meu celular pra mim? – eu pedi apontando para a mala cinza pequena na mesinha ao pé da maca.
soltou minha mão e procurou nos bolsos frontais da mala até voltar com meu celular em mãos.
- Pra quem você tá ligando? – ela perguntou quando eu coloquei o celular no ouvido.
- Pro – um sorriso bobo apareceu em seus lábios ao ouvir o nome dele. – Preciso de notícias do . Estou começando a ficar inconformada de tê-lo deixado sozinho.
- Alô? – a voz grossa do me atendeu.
- Como ele tá? – perguntei ansiosa.
- Bem – ele respondeu.
- Passa o celular pro – eu pedi.
Houveram ruídos na troca de mãos antes que eu ouvisse a voz de .
- Oi.
- Como o tá? E nem tente amenizar a situação.
- Na mesma.
- O médico já sabe o que ele tem? – a aflição se juntava a ansiedade.
- Não, mas daqui a pouco um especialista vem ver ele – tinha a voz triste, um tom que eu ainda não tinha conhecido em sua voz.
- Você me liga? Não, melhor, me mande uma mensagem, pro não ficar te ameaçando para você não me deixar muito preocupada como eu sei que ele tá fazendo agora.
Ele riu do outro lado da linha. “Você acertou, tudo bem”.
- Valeu, – desliguei. – E ai de você, , se avisar o .
Ela levantou as mãos abertas, uma cara inocente. “Tô de boa”.
- , sabe o que eu queria agora? – perguntei retoricamente, empolgada. Ela negou com a cabeça. – Batatas fritas com ketchup e Milk shake de chocolate. Ah, e terra.
Ela fez uma careta hilária, e eu me segurei pra não rir da cara dela.
- Cara, você tá delirando ou é desejo de grávida e todas aquelas paradas? – ela fazia cara de nojo.
- Não sei, mas eu preciso de terra mais do que o resto – eu sorri tentando passar ansiedade.
- Bom, eu não quero que meu afilhado nasça com cara de terra – ela pensou um instante. – Ou será que ele nasceria marrom, mesmo você e o sendo tão pálidos?
- Seu afilhado, eu ainda não tinha pensado nisso – pensei alto, distraída. Ela me olhou apreensiva. – Mas, como você sabia que eu te escolheria sendo que nem eu sabia ainda?
- Oh! Eu vou ser a madrinha dele? – ela perguntou emocionada, um sorriso enorme se esticando por sua face. – Vou buscar seu lanche e roubar terra do jardim agora mesmo! – ela se levantou de um pulo, dando pulinhos até a porta.
- ! – eu a chamei desesperada, e ela parou para me olhar. – A parte da terra era brincadeira!
Ela demorou um instante para assimilar. “Oh, claro!”. E saiu rindo do meu quarto.
Pouco depois de ter saído Rachel e Lauren entraram.
- Como você está, filhota? – Rachel se aproximou e começou a passar a mão por meu cabelo.
Rachel não se parecia muito comigo. Ela tinha o nariz mais fino e as maçãs do rosto maiores. Seus lábios eram um pouco mais finos, assim como seu rosto e seu cabelo cacheado acima dos ombros, escuro e bem cuidado.
Lauren tinha algumas ciosas do pai, como as bochechas e várias expressões, mas o que mais diferenciava as ela da mãe era seu cabelo castanho claro que não era cacheado, mas ligeiramente crespo, que hoje estavam presos em um rabo-de-cavalo. Nada com o que mulheres não pudessem lidar.
Mas, mesmo nenhuma das duas se parecendo comigo, mesmo não tendo o mesmo sangue, eu as amava profundamente. Lauren era a irmã que eu nunca tive e Rachel a mãe que eu sempre quis e precisei.
- Estou ótima – eu respondi, gostando do carinho. – Você tem que parar de se preocupar tanto comigo, eu estou bem.
Ela sorriu com compaixão. “Quer alguma coisa?”.
- foi buscar alguma coisa pra eu comer, mas eu confesso que estou morrendo de saudade da sua comida.
Seu sorriso se alargou.
- Amanhã eu trago seu almoço, se o médico autorizar.
- Pergunta se pode trazer pro também – pedi.
Lauren se sentou do lado direito da minha maca, me observando calada.
- E como ele está, querida? – Rachel perguntou insegura.
Eu suspirei. “Eu não sei. Estou com medo, Rachel, muito medo. Ele não consegue ver nada, e eu me sinto tão culpada…”.
- Mas você não tem culpa de nada! – ela me consolou, curvando o corpo para me dar um meio abraço.
- Eu nunca deveria ter deixado ele subir sozinho. sabia que algo ruim ia acontecer, ela sempre sente essas coisas. Eu fui tão descuidada! – eu não chorava, mas minha voz estava amarga, eu simplesmente precisava colocar aquilo pra fora.
- Não, eles pegaram no apartamento dele, não foi? – ela se afastou para me olhar e eu concordei com a cabeça. – Você fez melhor em não ter subido, eu não quero nem pensar no que poderia ter acontecido. Oh, querida, estou tão feliz de você estar bem!
Eu podia ver com clareza a felicidade em seus olhos, o amor materno antes de ela me abraçar novamente.
- Estou feliz de ter você, Rachel – as lágrimas ameaçavam sair de meus olhos. – Vocês são a melhor família do mundo!
Com cuidado de não machucar minha mão, puxei Lauren para que me abraçasse também.
- Você é minha irmã preferida – ela disse, e eu sorri. Como se ela tivesse outra irmã pra eu competir. – E a pessoa mais corajosa que eu conheço.
Nós ficamos abraçadas por volta de um minuto, até começarmos a nos recompor.
Conversamos até que voltou com meu lanche, e meus sentidos se tornaram quase como de predadores ao sentir aquele maravilhoso cheiro de batata frita e um suculento sanduíche que tinha vindo de brinde, assim como a visão de gotas geladas de água escorrendo pelo lado de fora do copo de Milk shake. Foi difícil não me segurar e pular em e pegar meu alimento. Ela arregalou os olhos assustada ao ver minha expressão e tratou de me entregar logo o lanche.
Eu mordi com tanta vontade aquele sanduíche que nem me importei de todos estarem me olhando estranho, só porque parecia que eu não comia a uma semana. Ah, peraí, era porque eu não comia direito a uma semana.
- Obrigada – eu disse com a boca parcialmente cheia depois do segundo pedaço.
Eu pude ouvir meu estomago fazer um barulho estranho, como se estivesse agradecendo também.
- De nada – ela sussurrou. – Mas tem certeza de que você poderia estar comendo isso? – eu lhe lancei um olhar de ódio. Não me afastariam daquela refeição nem que minha vida dependesse disso. – Não está mais aqui quem falo – ela levantou as mãos em sinal de inocência, fazendo Lauren rir.
- Se você quiser eu aviso que não precisam trazer o seu jantar – Rachel ofereceu.
Eu me controlei profundamente para não olhá-la com ódio também. Ninguém aqui tinha percebido o tamanho da minha fome ainda? E sede também, pensei ao tomar mais um longo gole daquele delicioso Milk shake. Se não me tivesse trazido o copo grande eu a teria trucidado.
- Não, tudo bem, só peça que levem ao quarto do , eu vou ver como ele está – eu disse depois de terminar com o sanduíche.
Rachel assentiu com a cabeça, pegando um guardanapo de dentro do saco pardo e limpando minha boca. Eu sorri pela atenção, apesar de me sentir uma criança de quatro anos.
Parti para minhas tão desejadas batatas, as quais eu ofereci para as outras, mas elas recusaram – leia-se: não ousaram tocar na comida do leão faminto. Meu Milk shake já estava na metade, e eu parei por um instante, pensativa.
- O que foi? – perguntou estranhando minha súbita parada.
- Você acha que o pode tomar isso? – eu perguntei, me sentindo meio egoísta de estar me empanturrando com tanta coisa boa enquanto ele estava tão mal.
- Com certeza não – Rachel respondeu. – Ele operou a cabeça, não foi? – eu assenti com a cabeça. – Nem você deveria estar comendo isso.
- Mas agora que eu já comi mais da metade, eu posso aguentar o resto – eu sorri sapeca e voltei a comer apesar da sensação de egoísmo ainda me alfinetar.
Todas logo tiveram que deixar o quarto, mas me avisou que passaria a noite no hospital comigo. Eles iriam revezar, não importava o quanto eu protestasse para que eles não tivessem trabalho comigo.
Eric passou para me ver rapidamente e logo todos estavam deixando o hospital.
O tempo parecia se arrastar novamente e eu me senti desconfortavelmente presa àquele quarto. Cerca de duas horas depois veio ao meu quarto e, com a ajuda da desnecessária da enfermeira, me colocaram na cadeira de rodas e ele me levou pelo hospital até o quarto de .
Eu sabia que ele estava acordado mesmo com seus olhos estando fechados, pois suas mãos batucavam impacientemente no colchão.
Ele virou a cabeça ao ouvir a porta bater ao se fechar, mas seus olhos não focavam em nenhum ponto especifico.
Eu me levantei da cadeira de rodas, arrastando a droga do balão de soro comigo, e parei em frente a ele. Se eu abrisse minha boca, eu iria chorar.
Ele fechou os olhos, mas sua cabeça continuou virada para o nosso lado. “” ele levantou as mãos no ar, procurando por mim.
Mesmo pega de surpresa pela certeza em sua voz, segurei sua duas mãos, as entrelaçando nas minhas.
- Como você me reconheceu? – minha voz saiu frágil, mas audível.
Ele sorriu. “Seu cheiro”.
- Mas eu não estou nem com perfume.
- Sua pele tem um cheiro único – ele levou minhas mãos ao seu nariz, cheirando-as. – Inconfundível.
Eu não tinha palavras para aquilo, apenas mais lágrimas e um sorriso.
cuidadosamente chegou para o lado na maca, me dando espaço a seu lado.
- , me ajuda aqui – eu pedi, e me ajudou a deitar na maca com , saindo do quarto em seguida.
Eu encarei seus traços perfeitos até onde a bandagem começava, e acariciei sua bochecha.
Ele pegou minha mão e beijou sua palma.
- – eu sussurrei.
- Oi – ele respondeu em sua voz rouca, o som que eu mais amava no mundo.
- Você me escutou? – ele me mostrou uma expressão confusa. – Quando eu te chamei antes? – o som agudo da maquina que copiava a batida de seu coração se tomou um ritmo mais acelerado. – Quando você estava… - respirei fundo fechei os olhos – morto.
Ele passou a mão por meu rosto, enxugando as lágrimas.
- Sabe, eu tinha desistido – ele me puxou para me aconchegar contra seu peito. – Eu só lembro de ter apagado e de repente uma sensação estranha, de… leveza. Eu não consigo lembrar de mais nada, só sinto essa leveza quando penso. Mas assim que acordei, eu sabia que tinha sido por você. Eu sabia que era você, era como um anjo me chamando. E seu cheiro estava aqui quando acordei.
- Isso é tão confuso – eu acariciei sua cintura, sentindo ele alisar meu cabelo. – Eu achei que você tinha morrido, e tudo o que eu queria era você de volta. Eu gritei, mas, , doía tanto! – eu o apertei com força, querendo ter certeza de que ele estava realmente ali, que era sua camisa que eu estava molhando com minhas lágrimas. – E agora você está desse jeito, e eu acho que a culpa é minha.
- Hey, pequena – ele me apertou de volta. – Não diga um absurdo desses. Você não tem culpa de eu não estar enxergando. Eu estou aqui por você, mas isso não quer dizer que você tem culpa de eu te amar tanto e muito menos de eu estar desse jeito.
- Eu devia era ter te deixado em paz – eu solucei. – Nunca deveria ter te importunado só porque eu não suportava. Eu fui egoísta e injusta. Pra que você iria escolher viver nesse inferno…
- , pare com isso – ele puxou meu rosto, me fazendo olhá-lo. Ele queria me encarar, mas, mesmo seus olhos se focando em mim agora, eu sabia que ele não podia me ver. Ele fechou os olhos, engolindo em seco a dor que isso lhe causava. – Eu não quero que você me deixe em paz nunca. Eu nunca estaria em paz sem você – ele pegou minha mão esquerda e a colocou sobre seu peito, me permitindo sentir as batidas de seu coração no mesmo ritmo que a maquina produzia em alto e bom som. – Ele é inteiramente seu, só bate por você, só atende ao seu chamado. Por favor, nunca desista de me chamar, nunca me deixe de você – ele estava chorando agora, chorando tanto que dificultava entender o que ele dizia. – , por favor, nunca desista de mim.
Eu o abracei pelo pescoço, chorando junto com ele. “Eu nunca vou desistir de você, eu prometo”.
- Não, , não me prometa isso – sua voz estava extremamente rouca além de chorosa. – Eu não te quero presa a mim por uma promessa. Você não está entendendo. Eu sei que você vai me deixar, e agora sou eu que não posso suportar isso. Eu não me importo com mais nada, eu só não consigo… - ele soluçou. – , eu estou cego. Estou cego de verdade.
- Mas isso vai passar, , eles só precisam descobrir o que você tem para te curar – eu tentei confortá-lo tanto quanto a mim mesma.
- Não, não vai passar, – ele me afastou para que eu pudesse vê-lo. Era tão doloroso olhar em seus olhos com lágrimas escorrendo e não ter seu olhar de volta. – os resultados já saíram. Aquele cara me bateu demais, com força demais. Foi um milagre eu ter sobrevivido e acordado tão rápido, mas isso é uma sequela. As pancadas afetaram minha cabeça, – ele puxou o ar com força antes de continuar. – Eu estou cego.

Capítulo 28
Keep Holding On

Eu continuei a observá-lo sem ter uma reação. O ar não entrava mais pelos meus pulmões, meu coração parecia ter parado de bater, com se estacas de gelo estivessem o perfurando seguidas vezes, congelando tudo em que tocavam.
- Não – eu sussurrei, ainda sem conseguir acreditar.
Eu tinha permanecido firme - de certa forma – até agora com a idéia de que iria ficar bem logo, que aquilo era totalmente passageiro. Aquilo era no que eu precisava acreditar.
- Não, , é verdade – disse, mas eu mal escutava. – Eu nunca mais vou poder ver seu rosto, seus olhos, seu corpo, nada. Nunca mais…
Eu voltei a abraçá-lo pelo pescoço, sem me importar com o incomodo da agulha na minha mão direita, sem me importar com mais nada.
Aqueles olhos azuis nunca mais me olhariam com aquela paixão que fazia minhas pernas bambearem, meu coração acelerar e meu corpo estremecer. Nunca mais arderiam em desejo ao fitar meu corpo daquele jeito que me incendiava insanamente. Eles nunca mais refletiriam o amor que eu sentia por ele quando nos olhássemos nos olhos.
Ele nunca conheceria o rosto do nossos bebê, nunca veriam o sorriso da nossa criança, nunca veriam as semelhanças que eu esperava que eles tivessem.
Ele nunca me diria que nosso filho tinha meus olhos ou meu jeito de sorrir. Nunca veriam o quanto nossa criança seria linda. Não a veria crescer.
- Não, , tem que haver algo, alguma chance… - minha voz morreu em mais soluços.
- Menos de um por cento dos casos tem a visão recuperada – ele disse, seu choro ligeiramente mais calmo. – Não tem como, , as chances são muito pequenas.
- Não importa – eu sussurrei com o rosto afundado em seu pescoço.
- , não crie falsas esperanças, vai ser ainda pior – ele disse, me afastando de seu corpo contra minha vontade. – Eu estou cego, e eu sei que você vai embora. Só, por favor, faça isso rápido, não faça aos poucos, não adie.
- Não importa que as chances sejam poucas, eu sei que você vai conseguir – eu disse. – E se você não voltar a enxergar, isso não vai me afastar de você. Eu te amo – eu beijei seus olhos fechados. – Não vou ficar presa a você por uma promessa, mas por nosso amor. Eu nunca vou desistir de você porque isso seria desistir de mim.
- Nós nunca conseguiríamos ter uma vida normal, não seja tola, não se iluda.
- Nós vamos ficar juntos independente do que aconteça, pra sempre – eu disse, firme, engolindo o choro.
- Você tem certeza disso, ? – ele fungou baixinho, suas lágrimas secando.
- Absoluta – eu disse e juntei nossos lábios em um beijo apaixonado.
Fazia tanto tempo que eu não o beijava que me parecia como a primeira vez. Sempre o melhor beijo da minha vida.

Era mais do que eu podia imaginar, extrapolava todas as sensações e sentimentos que eu já havia experimentado antes, era tanto que minhas células pareciam infladas a ponto de estourar.
Eu achava que era impossível amá-lo mais do que eu já amava, mas, naquele momento, com seus braços me apertando tão forte que eu podia sentir seu coração batendo como se fosse o meu, eu tive certeza de que o amava mais do que nunca, de que o amava infinitamente.
Eu soube que aquilo nunca iria passar, nunca acabaria, não importando o que viesse a acontecer. Mesmo se um dia no futuro não estivéssemos mais juntos, eu o amaria. Sempre.
Eu separei nossos lábios e sussurrei. “Não importa o que aconteça, estaremos juntos, lembra?”.
- Como você consegue ser tão perfeita pra mim? – me deu um selinho demorado. – Eu te amo mais do que você possa imaginar.
- Nada vai mudar nossos destinos – eu sorri sentindo seus dedos passarem por meus lábios, e ele sorriu também – e nosso destino nos une. Nós só temos que aguentar firme.
- Como você consegue ser tão forte? – ele passou o nariz pelo meu com carinho.
- Eu simplesmente tenho que ser.
- Como vou fazer com a escola agora? Eu não queria ter que mudar pra uma escola de cegos… - ele fez um careta. – Fora que não tem nenhuma pero de casa que eu saiba.
- Nós podemos tentar achar um professor particular que saiba dar aula para cegos – arrisquei. Ele deu uma risadinha. – Não é impossível, só difícil. Achei que você fosse pra casa da sua mãe.
- E te deixar aqui? Nem pensar!
estava certa e eu não pude deixar de sorrir largamente com isso.
- Mas você não pode ficar no seu apartamento sozinho, podia contratar uma enfermeira – refleti por um instante sobre o que eu estava falando e uma pontinha de ciúmes me pinicou. – Não, um enfermeiro.
Ele riu. “Roberta pode cuidar de mim, eu acho”.
- Roberta? – eu franzi a testa, sem reconhecer o nome.
- Ela era nossa empregada quando ainda morava com meus pais – ele explicou e eu me aliviei. – Ela limpa meu apartamento e sempre deixa comida pronta pro fim de semana. Talvez ela possa cuidar de mim ou achar alguém que possa.
- Eu posso te ajudar – sugeri. – Quero dizer, eu não vou mais pra escola mesmo nem nada, então não seria problema.
Foi a vez dele de franzir a testa, só que bravo. “E por que você não iria para a escola?”.
- Estou sob ordem médica para ficar de repouso – respondi, acariciando sua cintura. – E você não tem noção do quanto fica sexy nessa roupa.
- Zoa mesmo, você tá com a mesma roupa que eu sei – ele sorriu, mas então voltou a expressão séria. – Mas quanto tempo você vai ficar sem ir pra escola? – eu fiquei em silêncio, sem querer responder. – Fala.
Respirei fundo. “O resto do ano letivo”.
- O quê? Por quê? O que você tem de tão grave?
Ahn… gravidez?
Mas ele não sabia. Ele estava desacordado quando falei, ele não sabia.
- Não é nada demais, só não posso fazer muito esforço, passar por emoções fortes… Traduzindo, eu tenho que vegetar – revirei os olhos.
- Não seja ridícula, ninguém precisa ficar tanto tempo em uma cama sem ter alguma coisa grave.
- , por favor, não quero falar sobre isso agora – pedi. – Prometo que eu falo quando estiver pronta.
- Eu não vou perder você, vou? – sua expressão tinha adquirido tanta dor que parecia perfurar meus pulmões.
- Não, , eu não estou morrendo – disse firme.
Após um minuto, sua expressão se aliviou, mas não totalmente.
- Mas você está aqui em intercâmbio em função dos estudos, não é? Eles não vão querer te deportar ou algo parecia?
- Não, , eles não podem me deportar, não se preocupe. Estou sob restrição médica, mas continuo matriculada na escola. Vou conversar com o diretor, vou estudar em casa.
- Vou ficar te ligando o dia inteiro e indo te ver todos os dias se você deixar – ele disse, tomando um ar divertido e romântico novamente.
- Eu não estava querendo dar trabalho a Rachel e a Eric – continuei no meu tom sério. – Eles já passaram por tanto nervoso essa semana e eles trabalham o dia todo. Seria injusto chegarem em casa e ainda terem que me dar atenção, me ajudar… Quero dizer, eles já tem uma filha com quem se preocupar, eu estaria praticamente roubando os pais dela pra mim, isso não seria justo.
- Se eu estivesse em minhas condições normais, você iria morar comigo. Mas eu não quero que você tenha que passar o dia fazendo nada pra mim, nem se preocupando comigo. Então, o que você tem em mente.
Respirei fundo mais uma vez, tomando coragem para falar. “Quero morar com você mesmo assim”.
- , não seja ridícula. Nós não temos condições de cuidar de nós mesmos, quanto mais de cuidar um do outro – eu desviei o olhar dele, chateada. – Não é que eu não quero que você more comigo – como ele sabia como eu me sentia? – mas eu não quero que você vire nenhum tipo de enfermeira ou dona de casa.
- Eu não vou. Quero dizer, teríamos a Roberta ou quem quer que fosse para isso, não é? – ele apenas escutou com atenção. – Eu gostaria de morar com você, se você também quisesse isso. Pelo menos por um tempo, sei lá. Eu quero estar por perto pra te ajudar, de qualquer forma. É melhor do que ficar preocupada a distância.
- Não – ele respondeu daquele jeito autoritário dele.
- Não seja cabeça dura, . Pense sobre isso – eu lhe dei um selinho.
Ele pensou por um instante, então soltou o ar pesadamente. “Ok, vou pensar, mas não prometo nada”.
- E eu vou entender também se você não quiser. É um passo muito grande, afinal? Talvez sejamos jovens demais pra isso.
- Não, esse não é meu ponto de vista – ele enrolou uma mexa roxa de meu cabelo em seus dedos. – Mas vou pensar.
- Te amo – lhe dei outro selinho.
- Te amo – ele me beijou com carinho.
- Eu não tô querendo ser estraga prazer – adentrou o quarto usando tom de desculpas –, mas você tem que descansar. A enfermeira mandou avisar que seu tempo acabou.
- Não acabou não, cadê meu jantar? – senti meu estomago reclamar junto comigo.
- Ahn, , prefiro que você coma lá no seu quarto – disse meio sem graça.
Ergui as sobrancelhas pra ele, me tocando segundos depois que ele não veria isso. “E por que isso?” verbalizei.
- Eu não quero que você me veja comendo, se é que me entende – ele disse, tentando claramente não me aborrecer. – Vai ser um desastre.
- Não tem por que você se sentir dessa forma, Daniel, mas tudo bem. Me ajuda aqui !
veio até mim e me ajudou a descer da cama sem dar uma de desastrada e acertar ou acabar por arrancar acidentalmente a agulha em minha. Eu precisava de ajuda porque era desastrada, não porque não fosse capaz de fazer aquilo sozinha.
- Depois eu volto aí, dude – disse, empurrando minha cadeira de rodas em direção a porta.
- Certo, dude – ele respondeu, voltando a se esparramar na maca. – Durma bem, meu anjo.
- Só se você estiver nos meus sonhos – cantarolei antes de ser empurrada para fora do quarto.

Mais alguns dias se passaram até que o médico me liberasse para ir para casa, contanto que eu permanecesse em absoluto repouso. teve de continuar no hospital por mais duas semanas, e mesmo declarando a saudade absurda que eu sentia dele, ninguém na casa me deixava ir vê-lo. Eu ficava a maior parte do tempo sozinha, e isso estava me matando. Pelo menos eu tinha meu laptop pra ficar me divertindo um pouco e fazer uma social – ainda mais agora que eu não tinha mais que esconder minha localização – mas não era a mesma coisa.
- , eu quero ir te ajudar! – protestei no celular, inconformada com a recusa dele de deixar-me levá-lo para casa.
- Minha mãe vai me levar, não tem por que você vir até aqui só pra isso – ele disse calmo. – Ela vai ficar comigo essa semana ou um pouco mais, não tem com o que se preocupar, meu amor.
- Mas eu tô com saudade! – insisti birrenta.
- Essa semana eu peço pro te levar lá em casa, está bem? – ele propôs.
Era o melhor que eu iria conseguir , então minha única opção foi aceitar.
- Ok, vou tentar sobreviver até lá.
Ele riu. “Tenho certeza que você consegue. Te amo, pequena, agora tenho que desligar”.
- Te amo, tchau – desliguei e deixei o celular na cabeceira, voltando minha atenção ao computador.
Bufei impaciente ao checar mais um e-mail da Liz. “Pare de nos ignorar” já que eu não chegava a ler seus e-mails ela agora estava mandando os recados pelo assunto.
Aquele já devia ser o trigésimo e-mail dela e de Mariana que eu excluía, e aquilo estava me cansando.

: O que vocês querem?
Liz: Que você nos desculpe.
: Não vai rolar. Mari: É sério, , nós sentimos muito. : Pelo que? Por não terem me escutado ou por duvidarem de mim e me acusarem de estar mentindo sobre algo tão sério? Ah, talvez também por ter ficado com meu ex-namorado mesmo sabendo de tudo o que ele tinha feito por mim e confessar toda sua ridícula inveja. Amigas não têm inveja umas das outras, elas procuram apoiar. Liz: Por tudo isso e além. Eu fui idiota, me desculpa. Mari: Me desculpa, , mas nós estamos sofrendo por aqui também. Não sei se você notou, mas acabaram de achar o corpo do meu namorado aí, e está difícil até de conseguirem liberá-lo para fazermos o funeral por aqui. Como você disse, amigas apóiam. Que tal me dar um pouco de apoio também? Ele morreu indo atrás da minha melhor amiga, como você acha que eu não me sinto? Eu o amava. : Eu não sou sua melhor amiga e não use isso para que eu fique com dó de você e te perdoe. Eu não posso simplesmente fingir que está tudo bem, porque nunca vai estar. Eu tenho amigos de verdade por aqui e sei que eles jamais fariam algo assim comigo. E você não o amava coisa nenhuma Mari, isso não é amor. Agora, eu tenho coisas mais importantes pra fazer do que perder meu tempo com gente como vocês. E parem de me mandar mensagens, eu não quero falar com vocês nunca mais. Adeus.

Fechei o laptop e coloquei-o de lado. Como eu havia sido amiga daquelas duas? Mariana era uma traidora e Liz não ficava muito atrás, já que tinha ficado tão amiga de Jack e ainda por cima namorado Rafael. O que eu mais sentia pelas duas no momento, além de raiva, era repulsa. E eu sabia que mesmo quando a raiva passasse a repulsa por elas continuaria ali.
Abri a gaveta do criado mudo e peguei um dos livros que havia me dado. Ele havia me dado os cinco livros faltantes da série e eu já estava no terceiro volume da série. É, eu leio devagar.

“...- Nombre de Dios, Suzannah - disse Jesse outra vez, incrédulo. - O que você esperava que acontecesse? Você traz o garoto logo aqui? E agora pede para eles não o matarem? - Balançando a cabeça, Jesse começou a andar na direção dos Anjos.
- Você não entende - protestei, correndo atrás dele. - Ele tentou me matar. E tentou matar Mestre, Gina, Dunga e...
- E então você faz isso? Suzannah, você já não sabe que não é uma assassina? - Os olhos escuros de Jesse se cravaram em mim. - Por favor, não tente agir como se fosse. A única pessoa que vai acabar se machucando com isso é você.”


Obrigada, Jesse, muito obrigada mesmo. Eu tenho sangue nas mãos, ao contrário de Suzannah. Fechei o livro me sentindo depressiva, um lixo. Como eu tinha sido capaz? Não foi por querer, mas aquela mulher estava morta e eu ao menos sabia o nome dela. E ninguém sentia sua falta, já que seu irmão estava em coma. não tinha o mesmo sangue que eu nas mãos, o tal seqüestrador não estava realmente morto. E até agora eu não sabia o real motivo de tudo aquilo. Não sabia por que eles haviam matado o pai de ou por que eles continuavam atrás da família, sendo que o pai já estava morto. Será que algum dia estaria pronto pra me contar tudo? Eu duvidava.
- Que bom que você está gostando dos livros meu Arco-Íris – eu me sobressaltei e deparei com encostado no batente do quarto, me observando. – Desculpe, não queria te assustar.
- É bom ter um pouco de emoção de vez em quando – dei um sorriso triste.
- É, deve estar sendo bem entediante ficar aqui – ele se aproximou e sentou ao pé da minha cama. – Mas você já viveu emoções o bastante para uma vida toda, não acha?
- Tanta que agora estou em abstinência – nós rimos. – E aí, quais as novidades?
- discutiu com a professora de geografia e saiu da sala batendo a porta na cara dela – ele contou e eu arregalei os olhos.
- discutindo com um professor? Meu Deus, o que houve com ela?
- Eu também me assustei – ele concordou. – Mas ela anda meio revoltada ultimamente. A mãe dela teria ficado uma fera, foi sorte a professora não ter ido reclamar na diretoria. Pelo menos a não tem mais brigado comigo, apesar de estar judiando das líderes de torcida.
- Brooke pegou meu lugar desde a apresentação daquele dia, não é? – perguntei triste.
- Só como líder de torcida mesmo, pois a odeia mais do que nunca e não vê a hora de conseguir uma desculpa para expulsá-la do grupo novamente. Sem contar que você consegue continuar popular sem ao menos estar naquela escola.
- O que você quer dizer?
- Bom, você é a garota com cinco cores no cabelo que “roubou” o namorado da Brooklie e não tinha medo dela. Você e eram o casal mais “fofo” daquela escola, como eu ouvi algumas garotas comentando na aula outro dia e você foi sequestrada primeiro por seu ex-namorado e depois pelos caras que queriam pegar . Você escapou com a cara e a coragem e agora, mesmo com cego e você de cama, vocês continuam juntos. É de tocar o coração, não acha? – ele colocou uma das mãos sobre o coração e suspirou de um jeito gay, me fazendo rir.
- Mas como eles sabem de tanta coisa?
- Bom, sinto que a teve uma pequena participação nisso, você sabe que ela não consegue se segurar muito tempo – rolei os olhos. – Só não diga que eu falei, não estou afim de mais brigas por enquanto. E, bom, saiu uma matéria sobre isso no jornal da escola.
Arregalei os olhos. “Jornal da escola? Mas achei que ninguém lia aquilo!”.
- Bom, desde que se tornou editora, eles lêem – deu de ombros.
- Editora do Jornal da Escola? Ninguém me conta mais nada nessa droga! – cruzei os braços, brava. – Daqui a pouco a vai ser uma líder de torcida e eu só vou descobrir no dia do jogo.
riu. “Não se preocupe, isso não vai acontecer. já tentou convencer de todas as formas, mas a não quer de jeito nenhum”.
Eu ri também. “É, não seria muito a cara da mesmo”.
- Eu trouxe a reportagem, se você quiser ver – se levantou e eu assenti com a cabeça.
Ele deixou o quarto e voltou menos de um minuto depois vasculhando em sua mochila preta. Tirou um jornal de dentro de e me entregou. Eu abri o jornal e procurei pela reportagem.
- Porra, a precisava pegar uma página inteira pra isso? – perguntei olhando indignada para a folha. – Manda ela vir aqui amanhã pra eu poder matá-la.
- Não sei se você notou, mas também estão na capa – ele disse com um sorrisinho.
Eu fechei o jornal e olhei a capa. Havia uma foto que tomava quase metade da primeira página, e eu me perdi no tempo olhando para ela.

Um enorme sorriso se abria em minha face ao vê-lo se aproximar e se agachar, apoiado em um dos joelhos. Sem tirar os olhos dos meus ele pegou minha mãe e deu-lhe um doce beijo.
- Minha princesa – aquele par de olhos azuis apagou qualquer coisa que pudesse estar a nossa volta. – A mais linda de todas as princesas que a humanidade já teve.
- E o que lhe faz pensar que eu seria sua? – eu ergui as sobrancelhas, tentando fingir uma pequena indiferença.
Ele se levantou, sem interromper o contato visual nem soltar minha mão. “Está escrito através de seus olhos”.
- E você estaria disposto a cumprir todos os meus desejos e me salvar de todos os perigos?
Ele passara as mãos por minha cintura, nos aproximando apesar de meu vestido fofo.
- Até pelos seus desejos mais caprichosos eu seria capaz de desbravar todos os mares e lugares mais remotos. Para te manter a salvo, eu daria a minha própria vida.
Tonta de felicidade com todas as suas palavras, eu deixei que nos perdêssemos em um beijo.

E lá estava nosso beijo, retratado em uma foto em preto e branco naquela página, mas em minha mente colorido como se estivesse a minha frente.
Uma gota quente escorregou por minha bochecha e eu só me dei conta da presença de ali quando senti o colchão afundar ao meu lado e ele passar os braços por meu ombro, me puxando para dar um beijo em minha testa, me puxando também para a realidade.
Eu nunca mais teria aqueles olhos azuis retrucando meu olhar com tamanha intensidade. Ele não me salvara como prometera.
Aquela foto representava tanta pureza, tanto de nossa inocência e felicidade. Agora tudo isso parecia quebrado, manchado. Será que conseguiríamos algum dia recuperar tudo aquilo? Cenas da última semana passaram por minha mente como resposta, me fazendo encolher contra o peito de . Não, nunca mais teríamos aquela inocência, ela fora irremediavelmente quebrada. Aquelas lembranças nunca sairiam de minha mente por completo, assim como o terror que me afetava ao lembrá-las.
- Hey, Arco-Íris, eu vou fazer uma coisa pra te animar – disse, se afastando de mim com sorriso amigável até se levantar. – Vai dando uma olhada – ele vasculhou na mochila, tirou uma pasta dela e um de seus cadernos e me entregou – pra ver se você não entende algo e quando eu voltar eu te explico.
Assenti e ele deixou o quarto. Não muito animada abri a pasta e comecei a ler o primeiro texto. Eu já estava começando a ler o questionário sobre o texto quando voltou com um pacote de papel pardo e dois copos de plástico que me fizeram salivar.
- Dude, seus olhos até brilham pro bagulho – riu. – Acho que eu acertei então.
- Do que é? – perguntei ansiosa e ao mesmo tempo temendo a resposta.
- É o Milk shake especial de diamantes. É de chocolate. Eu fiquei sabendo que você não curte mais cappuccino.
Eu sorri. “Especial de diamantes? Nunca ouvi falar desse na Starbucks” peguei meu copo sentindo-o gelar minhas mãos de um modo delicioso.
- Fui eu que apelidei – ele deu um sorriso sapeca. – É que seus olhos parecem diamantes quando você olha pra esses copos.
Eu gargalhei. “Te amo, ”.
- Também te amo, coloridinha – ele voltou a sentar ao meu lado. – E você nunca vai adivinhar o que eu tenho aqui. Mas é só meu.
Eu cheirei próxima a ele. “Muffins!” eu gritei excitada.
- Mas são só meus – ele repetiu fazendo uma cara séria.
- Nãããão! – eu esperneei na cama como uma criancinha, o fazendo rir. – Eu quero, eu quero, eu querooo! – tentei arrancar o pacote de sua mão mas ele levantou o braço, me impedindo de alcançá-lo por milímetros.
- Primeiro fala quem é o garoto mais lindo que você já viu? – ele exigiu, esticando ainda mais o braço.
- , é pecado você fazer uma garota grávida passar vontade! – protestei tentando me esticar ao máximo para alcançar o pacote. Ele abaixou a mão um pouco e eu pude alcançar o pacote vitoriosa, abrindo-o e pegando um muffin quentinho de dentro dele e o mordisquei. – Tá muito bom! Ué, você não quer? – ofereci o pacote para ele, só então percebendo sua face assustada e incrédula. – Aí Meu Deus, o que foi? – perguntei preocupada e me assustando também. Ele abriu a boca, mas não havia som. – Fala! – eu exigi nervosa querendo sacudir seus ombros, mas minhas mãos estavam ocupadas.
- Grá-grávida? – ele sussurrou após alguns instantes.
Só então eu me dei conta do que tinha deixado escapar. Engoli em seco.
- É… é um jeito de falar. Uma expressão – tentei consertar.
Ele franziu a testa. “Eu não sou idiota, , não adianta tentar mentir agora. Mas… como assim grávida? Por que… Por que você não me falou nada antes?” ele exigiu de modo distante.
- Desculpe – foi tudo que pude sussurrar.
- Ahn… parabéns – ele disse meio em dúvida, voltando a si. – É isso que se diz, não é?
- Acho que sim – respondi ainda em sussurro, olhando para minhas próprias pernas esticadas ao longo da cama.
- Como vai se chamar? – ele perguntou.
- Ainda estou decidindo.
- Nossa, você e o podiam ter nos contado – ele disse finalmente.
- O não sabe.
- Ele não é o pai? – o olhei e ele tinha a testa franzida novamente.
- É claro que é – rolei os olhos.
- Então por que ele ainda não sabe?
- Por que eu ainda não contei.
- E você está esperando o que, sua barriga estufar como um airbag?
Dei de ombros. “Só não achei a hora certa ainda”.
Ele soltou o ar pesadamente. “Ok, acho que eu vou ter que dividir meus muffins com você e o pirralho”.
- Hey! – eu não podia lhe dar um tapa no ombro, então lhe deu um empurrãozinho de lado. – Olha como fala do meu bebê.
Ele riu. “Vai ser um pestinha, você vai ver”.
- Não! Meu filho vai ser um anjinho! – dei língua pra ele.
- Não se você deixar o chegar perto da criança – nós dois rimos. – Agora é sério, , estou aqui pra o que você precisar, certo?
Eu sorri, tocada. “Obrigada”.
Ele me abraçou e eu senti o copo gelado na mão dele encostar em minhas costas, me arrepiando.
- Meu Arco-Íris – ele cantarolou.
- Seu Arco-Íris que vai comer todos os seus muffins sozinha – cantarolei de volta com a voz ligeiramente abafada pelo pedaço do muffin que eu mastigava.
- Nem pensar! – ele me largou e pegou um muffin no pacote em meu colo, dando uma mordida e sorrindo vitorioso para mim.

Capítulo 29
My Heart

n/a: Vá baixando: My Heart - Paramoe e Little By Little - Oasis

continuou adiando minha visita a sua casa até que eu comecei a gritar no telefone e assustá-lo. Era como se eu estivesse sofrendo de abstinência de alguma droga, como se nada mais tivesse graça. Eu sentia falta de seu perfume, do calor que emanava de seu corpo, de como a sua voz soava grossa e me arrepiava por inteiro quanto mais perto estivesse de meu ouvido e de seu silencio confortador quando me abraçava carinhosamente e beijava meu cabelo. Eu sentia falta de seus beijos e de como nós nos entendíamos com facilidade em quase tudo, mesmo sem palavras. Eu sentia falta de tudo o que tivesse haver com ele e, só para ajudar, eu não tinha nada que me distraísse de verdade. Mas também, provavelmente, se tivesse, não conseguia pensar em nada eficaz o bastante para manter meus pensamentos longe dele.
E se ele estivesse com medo de me apresentar à mãe dele? Quero dizer, ela provavelmente estaria por lá, já que estava cuidando dele. E se ele estivesse com vergonha? Não me aguentando, perguntei a ele isso no telefone; ele riu e disse que nunca deixaria de ter orgulho ao me apresentar pra qualquer um, principalmente sua mãe.
Eu me sentia como uma estrela solitária em uma noite gelada. Minha única vantagem era que dormia a maior parte do tempo, provavelmente por causa da gravidez somada ao tédio continuo daquela casa vazia. Eu passava a maior parte do tempo deitada na cama dormindo, mexendo no laptop ou estudando e na sala assistindo TV. A noite era melhor, quando Rachel e Eric chegavam em casa e eu tinha companhia, mas não me sentia bem dando tanto trabalho a eles. Quero dizer, eu não podia lavar minhas próprias roupas ou lavar muita louça sem que Rachel me enxotasse da cozinha dizendo que eu deveria estar deitada. Eu tinha a impressão de que ela sabia sobre meu real motivo de ter que estar de repouso, apesar de eu ter sido bem explicita com o médico para não contar a ninguém sobre minha gravidez. Talvez ela tivesse adivinhado e estivesse apenas me esperando contar o eu poderia apenas estar imaginando coisa.
Poder ver a cidade já enfeitada para o Natal – mesmo que por trás dos vidros do carro de – me dava à impressão de estar liberdade de volta. Era tão bom poder sentir o frio de Londres contra minha pele novamente que eu podia dizer que estava viva novamente, principalmente sabendo que em poucos minutos estaria com novamente.
Mas foi com um arrepio que nada tinha a ver com o frio que eu percebi que tinha certo receio de entrar naquele prédio. Mesmo sendo um dia feliz – apesar de nublado – e sabendo que estava prestes a rever , uma súbita vontade de correr de volta para casa e me esconder embaixo das cobertas me dominou, me fazendo encolher no banco do carona enquanto aguardávamos o portão da garagem se abrir.
Era o lar de , mas eu não tinha culpa de não ter boas lembranças daquele lugar, onde passei os piores momentos da minha vida.
- Você tá meio pálida – disse, me acordando dos pesadelos. – Quero dizer, mais do que o normal.
- É, acho que preciso tomar mais sol – desviei, tentando não lhe mostrar o medo involuntário que sentia.
- Sabe, está sendo difícil para todos nós – havia encaixado seu carro entre outros dois perfeitamente e já desligava o motor. – Quero dizer, lógico que não tanto quanto pra vocês dois, mas as coisas andam meio diferentes.
- O que você quer dizer? – perguntei batendo a porta.
- Bom, todos criamos um senso de realidade agora – nossos passos ecoavam pela garagem fria e silenciosa. – até parou de brigar com o , se dando conta do que estava fazendo. Apesar de eu achar que ele curte quando fica nervosa
Nós rimos.
- Vocês vivem falando sobre eles sempre brigarem, mas eu quase nunca os vi brigados desde que estão juntos.
- Porque você estava distraída com o e suas próprias coisas para prestar atenção nas pequenas coisas – continuou. – E provavelmente não estava por perto quando ela dava seus escândalos. Mas, voltando o assunto… ah, esquece, me mata se eu te contar.
- Ah, pode ir falando mocinho! – exigi, a curiosidade disparada dentro de mim.
Ele apertou o botão do décimo segundo andar. “Você conhece a , ela quem quer te contar”.
- Você começou agora termina! – protestei.
- Não é nada demais, mas ela me fez prometer que eu não abriria a boca – ele continuou firme.
- Você já abriu sua boca, agora continua.
- Sou um namorado obediente, sinto muito.
- Eu não posso ficar tão curiosa, o médico disse que faz mal pra saúde, capachinho.
- Não sou capacho, sou apaixonado, é diferente – revirei os olhos, apesar de não conseguir conter um sorriso por ele ser fofo quando se tratava da . – E esse lance da curiosidade não vai colar comigo.
- Chato! – reclamei, mostrando a língua.
As portas do elevador se abriram e eu senti meu coração disparar em expectativa dentro de mim.
- Você não vem? – perguntou com uma mão na frente da porta do elevador para que ela não fechasse.
Concordei com a cabeça, disfarçadamente respirando fundo antes de pisar no corredor. tirou a mão da frente da porta e foi direto tocar a campainha do número 1202. Eu me mantive atrás dele, agora com medo de que a mãe de abrisse a porta. Houve um barulho de chaves tiritando seguida da porta sendo destrancada e aberta.
- ? – aquela voz rouca era a melhor coisa que eu tinha ouvido na semana.
- ! – eu sai detrás do e pulei em seu pescoço, sem conseguir conter minha felicidade em estar perto dele e esquecendo todos os medos e receios que cercavam minha cabeça até então.
- Oi pequena – ele disse carinhosamente, me apertando em seus braços. Eu sorri, dando um selinho nele. – Vem – ele me puxou para dentro da casa, e eu evitei olhar na direção do corredor, tentando manter aquelas lembranças longe.
- Dude, eu tenho que ir – disse atrás de nós. – Quer que eu passe aqui mais tarde pra levar ela?
- Não precisa – disse, se virando para ele. – Minha mãe pode levar ela pra casa mais tarde. Valeu dude – ele ergueu a mão para fazer um toque com , que teve que dar um passo a frente para conseguir. Eles apertaram as mãos e se foi.
- Senti sua falta – eu sussurrei, me agarrando novamente a ele.
- Também senti a sua – ele me apertou forte em seus braços, e eu senti vontade de chorar emocionada. – Você não sabe o quanto.
- Acho que eu tenho uma idéia do quanto – sussurrei contra seu pescoço onde minha cabeça estava enterrada.
- Sempre com o cheirinho que eu tanto amo – ele disse mais para si mesmo do que para mim.
- Ah, quer dizer que o senhorito tá comigo só por causa do meu cheirinho – brinquei, subindo a mão por sua nuca para acariciar seu cabelo.
- Em maior parte sim – ele deu um beijo no topo da minha cabeça. – O resto são só detalhes.
- E quais seriam os detalhes?
- De que você é a garota mais linda do mundo – ele respondeu e eu notei em sua pausa que havia algum rádio ligado não muito longe dali, mas um tanto baixo. – E eu te levaria até Hollywood para te tornar uma estrela de cinema só para o mundo saber o quão bonita você é.
Eu não tive palavras para respondê-lo, apenas o abracei mais forte, dando um beijinho em seu pescoço com um sorriso enorme no rosto.
- Vem cá – ele me puxou em direção ao centro da sala e depois virou para a direita, em direção ao que me parecia ser a cozinha.
- Cadê sua mãe? – notei que apesar dele parecer conhecer o caminho mais do que de cor, seus passos ainda eram um tanto inseguros. Eu não tinha coragem de olhar em seus olhos opacos ainda.
- Foi no mercado – ele respondeu, colocando a mão à frente até achar o batente e passando pela porta.
Eu previra, aquela era a cozinha. Agora a música estava perfeitamente audível, vinda de um pequeno aparelho de som em cima de um dos balcões.
A cozinha era grande, com piso frio de ladrilho cinza escuro, com os armários e gabinetes brancos, os balcões no mesmo tom de cinza escuro e o fogão, geladeira e eletrodomésticos cromados ou pretos.
[n/a: Coloquem pra tocar My Heart!]
- Hey, eu conheço essa – eu disse assim que uma nova música começou a tocar no rádio.
- I am finding out that maybe I was wrong (Eu estou descobrindo que talvez eu estava errado) cantou em meu ouvido junto com a voz da Hayley, me puxando para seus braços novamente. - That I've fallen down and I can't do this alone. Stay with me, this is what I need, please? (Que eu caí e eu não posso com isso sozinho. Fique comigo, isto é o que eu preciso, por favor?)
- Sing us a song and we'll sing it back to you. We could sing our own but what would it be without you? (Nos cante uma musica e nós cantaremos de volta pra você. Nós poderíamos cantar sozinhos mas o que isto seria sem você?) – eu acompanhei, sem medo se minha iria sair desafinada ou não. Inconscientemente nós mexíamos nossos corpos juntos no ritmo da música. - I am nothing now and it's been so long (Eu sou nada agora e faz muito tempo) .
- Since I've heard a sound, the sound of my only hope (Desde que eu escutei o som, o som da minha única esperança) – ele continuou a cantar. - This time I will be listening (Desta vez eu estarei escutando) .
- Sing us a song and we'll sing it back to you (Nos cante uma musica e nós cantaremos de volta pra você) – nós cantamos juntos. - We could sing our own but what would it be without you? (Nós poderíamos cantar sozinhos mas o que isto seria sem você?)
Ele me fez dar uma voltinha, me apertando novamente em seus braços em seguida. - This heart, it beats, beats for only you (Este coração, bate, bate apenas por você) – ele colocou minha mão sobre seu peito, onde eu podia sentir as batidas aceleradas de seu coração. - This heart, it beats, beats for only you (Este coração, bate, bate apenas por você) .
- This heart, it beats, beats for only you (Este coração, bate, bate apenas por você) – eu peguei a outra mão dele e coloquei sobre meu colo, o deixando sentir as batidas do meu coração também. - My heart is yours (Meu coração é seu) .
- This heart, it beats, beats for only you (Este coração, bate, bate apenas por você) – nós voltamos a cantar juntos, ainda sentindo o coração um do outro e acompanhando o ritmo da música. - My heart is yours. This heart, it beats, beats for only you. My heart, my heart is yours (Meu coração é seu. Este coração, bate, bate apenas por você. Meu coração é seu). – nós cantamos repetidamente até o final da música, e eu percebi que encarava aqueles olhos azuis sem medo, sem dor.
Ele deslizou as mãos para minhas bochechas, puxando meu rosto para perto do seu. “Eu te amo” ele sussurrou, antes de selar nossos lábios.
“Essa foi My Heart, Paramore. Agora, Little by Little, do Oasis” o radialista anunciou.
[n/a: Coloquem pra tocar essa]
Nossas línguas se encontraram com um choque que percorreu todo meu corpo, me fazendo grudar ainda mais nossos corpos e dar intensidade ao beijo. Era tanta a saudade que pareciam que não se encontravam há séculos. Ele embrenhou uma das mãos por entre meus cabelos e outra deslizou para minha cintura, enquanto minhas mãos, que queriam grudar em seus cabelos, mas não podia – já que sua cabeça estava em processo de cicatrização assim como minhas costas e mão – eu as deixei em sua nuca, dando ocasionalmente leves arranhados. Menos de um minuto assim e estávamos começando a sentir a falta de ar, mas isso não nos importava. Ele passou suas duas mãos por minhas costas, descendo demoradamente por minha bunda e a apertando, parando somente quando chegaram as minhas pernas, as puxando para cima.
Segurei firme em seus ombros e entrelacei minhas pernas em sua cintura, enquanto ele tateava atrás de nós para achar o balcão. Ele empurrou algo para dentro da pia, me colocando sentada na superfície fria de um dos balcões em seguida. Desci meus beijos para seu pescoço, o sentindo apertar minhas coxas em resposta. Desci minhas mãos para a barra de sua camisa, adentrando-a e espalmando minhas mãos para sentir toda a extensão de sua barriga e tórax, levando a camisa para cima junto. Ele arrancou a camisa branca e voltou a me beijar ferozmente, somente nos separando para arrancar meu agasalho e camiseta. Então foi minha vez de receber beijos languidos no pescoço, me fazendo ofegar e arranhar levemente suas costas enquanto ele massageava meus seios por cima do sutiã.
Estava muito quente, como se estivesse pegando fogo, mas de dentro pra fora, e eu podia sentir o mesmo calor exalando de . Era tão bom estar em seus braços novamente, poder me sentir amada e senti-lo me desejar de uma forma não só carnal, mas além disso. Era tudo o que eu precisava para ser feliz: ele.
- Dream perfect has to be imperfect (Sonho perfeito tem que ser imperfeito) – ele cantou perto do meu ouvido, seguindo a música e me arrepiando por inteira. – I know that sounds foolish but it’s true (Eu sei que soa tolo mas é verdade).
Ele deslizou as mãos pelas laterais do meu corpo e grudou nossos lábios novamente, tirando meu tênis e meias ao mesmo tempo. Eu deslizei uma de minhas mãos até sua calça, comprovando que ela já estava ficando desconfortável para o volume dentro dela. Ele soltou um pequeno gemido quando eu acariciei a região e tirou minha mão dali, devolvendo a sua nuca. Ele me puxou pela cintura, me fazendo sentir o volume entre minhas pernas, o que fez com que um gemido escapasse de meus lábios. Ele desabotoou minha calça e a tirou, descendo os beijos por meu pescoço, colo e parando em meus seios. Sem aguentar mais, abri sua calça apressada, o deixando se livrar dela e dos sapatos. Ele podia não enxergar, mas podia me sentir muito bem.
voltou beijar meu pescoço, subindo aos poucos até alcançar meu queixo e dar uma mordidinha antes de voltar a invadir minha boca com sua língua. Quando dei por mim meu sutiã não estava mais ali, mas eu não ligava muito pra isso. Eu desci sua boxer e ele a tirou sem demora e sem interromper o beijo. Envolvi sua ereção com uma de minhas mãos, o fazendo gemer alto dessa vez. Ele se apressou em se livrar da minha calcinha, me deixando continuar com os movimentos de minha mão mais um pouco antes de tirá-la dali e me puxar pela cintura, me penetrando com vontade, porém o mais cuidadoso que pode. Eu gemi alto, o que só aumentava gradativamente, assim como os movimentos dele e seus gemidos.

- Eu tenho algo pra te falar – ele disse baixinho próximo ao meu ouvido.
Eu descansava minha cabeça em seu ombro agora. Nossas respirações já estavam normalizadas e mesmo com o frio que começava a se instalar em minha pele, eu me sentia tão confortável encostada a ele e recebendo uma caricia gostosa nas costas que não tinha coragem de me mexer.
- Hum – eu murmurei preguiçosamente.
- Quero que você venha morar comigo.
Eu demorei alguns segundos para assimilar as palavras dele e meus olhos se arregalaram.
- Que? – eu praticamente gritei, me afastando dele.
- Achei que você queria – ele fez uma carinha triste. Eu segurei nas laterais de seu rosto e juntei nossos lábios por demorados segundos. – Isso quis dizer que você quer ou que você sente muito? – ele perguntou confuso.
Eu lhe dei um tapa na cabeça. “É claro que eu quero, ” respondi sorrindo. “Mas o que te fez mudar de idéia?”.
- Andei pensando direito e acho que você estava certa – ele deu de ombros. – Eu só preciso me acostumar a não enxergar, por mais difícil que isso seja, eu não estou inválido, posso fazer muita coisa sozinho. Minha mãe contratou ajuda, tem alguns truques que ajudam bastante e eu só preciso prestar atenção nas coisas. Posso me virar e Roberta fazer o resto. O que me preocupa agora é você.
- O que tem eu?
- Bom, ao mesmo tempo que eu tenho medo de não conseguir cuidar de você, eu sei que as coisas devem estar difíceis para Rachel e Eric. Quero dizer, eles trabalham o dia inteiro, não podem lhe dar tanta atenção, e você está enlouquecendo lá sozinha pelo que percebi.
- Você não vai ter que cuidar de mim – agora o frio começava a me incomodar de verdade, mas eu mantive minhas mãos ao redor de seu pescoço na mesma posição enquanto conversávamos. – Eu só não posso fazer grandes esforços e de preferência ficar deitada, não tem nada de especial.
- Você está começando a tremer – ele disse alerta, se afastando para que eu pudesse descer do balcão. – Me ajuda a achar minha roupa também? Mamãe já deve estar chegando.
Ele se abaixou e achou a boxer e a calça facilmente enquanto eu me apressava em colocar minhas roupas. Joguei a camisa em suas mãos e peguei a minha, enfiando-a de qualquer jeito pela cabeça. Já estava colocando o casaco quando percebi que estava ao avesso, tendo que tirá-la novamente para desvirá-la.
- É incrível como todo mundo deixa pra fazer compras gigantescas aos domingos! – ouvi uma voz feminina ligeiramente grossa dizer segundos antes de sua dona entrar na cozinha.
Eu tinha estagnado meus movimentos, congelando com a blusa sendo desvirada em minhas mãos. Ela aparentava estar na casa dos quarenta, mas de certa forma, era bem conservada. Maquiada e bem arrumada, com os cabelos até os ombros em um corte bem feito, ela sorriu simpática para mim.
- Você deve ser a , namorada do , certo? – ela perguntou.
me abraçou pelas costas, só então provavelmente percebendo que eu estava sem minha blusa.
- Ahn, é ela sim.
Eu me apressei a colocar a camisa, me sentindo totalmente constrangida e com o rosto quente.
- O-olá – eu gaguejei, sem saber ao certo o que dizer. – Ahn, me desculpe…
- Não precisa ficar envergonhada, querida, eu sou a mãe de – ela começou a desempacotar as compras. – A única coisa capaz de me surpreender hoje em dia é uma garota me dizer que está grávida dele.
Eu acabei engasgando violentamente com o ar que não sabia mais para onde ir dentro da minha garganta, me fazendo tossir e tossir até que ela me ofereceu um copo d’água.
- Nós vamos lá pra sala – avisou, passando por mim e segurando minha mão.
- Peraí – me abaixei para pegar meu tênis e meias, dando um sorriso nervoso a Sra. antes de ir atrás dele.

- Eu queria ter visto a sua cara – riu e se deitou em meu colo e comecei a zapear os canais da TV.
- Hey! – dei um tapinha em seu braço. – Foi horrível, não ouse rir.
Seus lábios se tornaram uma linha, segurando a risada, o que lhe rendeu outro tapa.
- Eu estava pensando em você vir pra cá depois do Natal, o que você acha? – eu não resisti e comecei a fazer cafuné em sua cabeça. – Minha mãe vai embora antes do ano novo.
- Parece bom – respondi. – Mas será que a Rachel e o Eric vão concordar com isso? E minha mãe?
- Eu falo com eles se você quiser – ele propôs.
Eu me abaixei para lhe dar um selinho.
- Me deixe falar com Rachel e Eric primeiro, por favor. Seria bom se a sua mãe falasse com a minha, na verdade. Aliás, sua mãe sabe disso?
- Sabe, nós conversamos bastante sobre isso – ele respondeu com um sorriso infantil no rosto. – Recebi até um sermão sobre “toalhas em cima da cama acabam com qualquer casamento”.
Nós rimos baixinho e permanecemos alguns minutos em silêncio, apenas escutando uma música de um clipe qualquer que passava na MTV.
- Estamos dando um grande passo, não é – perguntei pensativa.
- Estamos – ele respondeu sério e tranquilo, como se tivesse pensado sobre muito sobre isso.
- Você está realmente preparado para isso? Quero dizer, nós ainda somos dois adolescentes e você talvez…
- Eu estou sempre preparado para você – ele me cortou. – Tenho certeza sobre o que estou fazendo e acho que podemos dar esse passo. Acho que precisamos dele, na verdade. Você está pronta?
- Estou – respondi seguramente, me abaixando novamente para alcançar seus lábios e deixando que nosso beijo se aprofundasse.
- Está pronto, crianças! – a mãe de avisou cerca de um minuto depois.
Eu dei vários selinhos em antes de nos levantarmos e irmos para a sala de jantar, que ficava ao lado da cozinha.
- Está ótimo, Sra. – eu elogiei sua comida com um sorriso sem dentes.
- Me chame de Kathy, por favor – ela pediu, devolvendo meu sorriso. – Quer ajuda aí, ?
comia uma topawer diferente, com divisórias para cada alimento. Era aquilo que ele usaria até se acostumar, porque pelo menos ali ele não derrubava as coisas. Era de cortar o coração vê-lo tentando comer sem conseguir ver o que pegava.
- Não precisa – ele disse um tanto mal-humorado.
Com a carne – já cortada – ele não tinha muitos problemas, mas com qualquer coisa menor já virava uma guerra.
- Estávamos pensando se você não iria querer passar o Natal conosco – Kathy disse casualmente, ignorando o mau-humor do filho. Ignorando não, compreendendo eu acho. – Vicky vai vir pra cá assim que o recesso da escola começar.
- Seria maravilhoso, obrigada pelo convite – respondi, me sentindo de certo modo tocada. – Mas eu vou passar com a família de Lauren, a casa onde estou morando.
- Podíamos passar todos juntos, o que acha? – ela propôs empolgada.
- Maravilhoso, vou falar com Rachel – eu sorri, pensando em como seria especial ter minhas duas famílias juntas. Quero dizer, a família de era especial pra mim, eu podia considerar isso, não podia?
- Tomara que eu consiga comer direito até lá – disse chateado, mexendo com o garfo dentro da topawer desanimado.
- Vou pegar uma colher pra você, querido – Kathy se levantou prontamente e buscou uma na cozinha, o que realmente fez diferença para .

- Oi querida – Rachel me cumprimentou assim que adentrei a sala, que por sinal estava uma bagunça. – Agradeceu a Kathy por te trazer?
Concordei com a cabeça enquanto tirava o agasalho e o larguei no sofá, próximo a… bolinha coloridas espelhadas?
- Quer nos ajudar aqui? – Eric perguntou, surgindo no meio de montinhos verdes de folha que parecia estar nascendo mutantemente do tapete.
- O que vocês estão fazendo? Isso é…
- Montando uma árvore de Natal, sua anta – recebi uma bundada de Lauren, que apareceu carregando uma caixa lotada de enfeites natalinos.
- Amor, eu não consigo deixar isso de pé, fica desequilibrando – Eric disse tentando manter o suporte da árvore em pé, bufando irritado em seguida.
- Garotas, porque não vão enfeitar as varandas? – Rachel propôs, indo até o marido para ajudá-lo.
Nós concordamos e subimos a escada estrondosamente. Claro que somente Lauren produzira os estrondos, subindo apressada a escada, enquanto eu me controlava ao máximo para não segui-la no mesmo ritmo. Eu já havia feito bastante esforço por um dia, era melhor não abusar.
Era divertido enfeitar as varandas junto com Lauren. Não era aquela coisa fria e que minha mãe fazia como se fosse uma obrigação antigamente, mas era uma coisa cheia de vida. Finalmente eu estava entendendo que o Natal era realmente especial, pois todos a minha volta estavam felizes e com boas expectativas. Era uma comemoração em família, e eu finalmente tinha uma.
Varandas impecáveis, descemos para ajudar a decorar a árvore, que agora estava erguida no meio da sala.
- Kathy nos convidou para passar o Natal com eles – eu disse, pendurando uma bolinha amarelo-ouro em um dos galhos verde-escuros da árvore, enquanto Lauren rodeava a árvore enrolando um longo cordão de plumas nela e cantarolava.
- Isso é ótimo querida! – Rachel disse sorrindo. – Ia ser difícil para você viajar conosco, estávamos preocupados, afinal, cinco horas em um carro não iria lhe fazer muito bem.
- Cinco horas em um carro? Pra onde nós íamos? – Eu me sentia realmente confusa. O que eu tinha perdido?
- Nós vamos para a casa dos meus pais, Lauren não te falou? – Rachel e eu olhamos para Lauren acusadoramente.
- Eu esqueci que ela não sabia – ela se defendeu. – Nós vamos pra lá todo ano, e de qualquer forma não é muito empolgante. – Ela deu de ombros e continuou a enrolar as plumas.
- Então pra que arrumam a casa? – Quero dizer, isso era um trabalho à toa se não estariam lá para o Natal, não é? Foi isso que minha mãe me ensinou pelo menos.
- É Natal, e nós só vamos para lá no dia – Rachel explicou.
Eric estava por fora de nossa conversa, por demais entretido em arrumar o cabo das luzinhas que parecia estar com mau-contato.
- Nós gostamos do Natal, é um clima feliz – Lauren disse, passando as pluminhas como um espanador no meu nariz, o que me fez espirrar, arrancando risadas.
- Passando o Natal aqui ou não nós temos que decorar a casa, é uma tradição – continuou Rachel.
- Amor, pega meu canivete, por favor? – Eric pediu, ainda agachado com o cabo na mão. – Ou pode ser uma faca mesmo.
Rachel foi em direção a cozinha, enquanto eu começava uma lutinha particular com Lauren para tentar fazê-la engolir as pluminhas.
- Não vale, você é mais forte – reclamou Lauren, virando o rosto para que eu não enfiasse as pluminhas na sua boca.
- Nada de esforço, lembra querida? – Rachel nos interrompeu, entregando uma faca para o marido, que murmurou um agradecimento.
Soltei Lauren de má vontade, voltando minha atenção agora para os enfeites brilhosos, como miniaturas de renas.
- Então não tem problema eu passar o Natal com a família do ?
- É claro que não – Rachel respondeu simpática.
- Mãe, posso passar com eles? Eu não quero ter que ver o vovô cuspindo comida de novo – Lauren reclamou manhosa, me ajudando com os enfeitinhos.
- É só você não olhar pra ele quando ele come – Eric se manifestou.
- Como se fosse possível…
- Seus presentes estarão lá – a voz de Rachel disse do outro lado da árvore. – Se quiser ganhá-los vai ter que abri-los lá.
- Mas…
- Lauren, ligue as luzinhas na tomada – o pai a cortou.
Ela bufou e eu mostrei a língua pra ela, que fez o que o pai pediu em seguida. As luzinhas não acenderam.
- Pode desligar. – Ele voltou a se concentrar no cabo.
- Eu posso sair e comprar alguma coisa pros pais dele se você quiser, querida – Rachel propôs. – Vou amanhã comprar os presentes pros meus pais, de qualquer forma.
- Obrigada – eu aceitei de bom grado.
- Acho que agora vai pegar, me ajudem aqui garotas – Eric nos deu o cabo branco cheio de mini-lâmpadas e nós os enrolamos em volta da árvore, tomando cuidado para que as luzinhas ficassem bem visíveis.
- Eba! Está linda! – eu comemorei orgulhosa assim que terminamos.
- Ainda não acabou – disse Rachel, voltando à caixa em cima do sofá. – Mas quem vai colocar a estrela?
- Nós vamos colocar juntas! – Lauren se manifestou, sumindo correndo da sala e voltando com uma cadeira em mãos.
Ela posicionou a cadeira em frente à árvore e eu subi nela cuidadosamente, Rachel ao meu lado por segurança.
- Eu te ajudo. – Eric colocou Lauren nos ombros e se levantou com ela, que sorria feliz. – Você tá cada vez mais pesada.
- Eu não tô gorda, pai – ela reclamou.
- Igualzinha a mãe, sempre entende errado – ele comentou, chegando com ela perto da árvore.
Rachel nos passou a grande estrela, provavelmente o maior enfeite daquela árvore. Cada uma com uma mão, nós encaixamos a estrela juntas no topo da árvore.
Quando me colocaram no chão novamente, eu estava tentando conter as lágrimas a todo custo, mas isso infelizmente não passou despercebido.
- O que houve? – Rachel me abraçou com urgência. – O que foi querida?
Agora todos me olhavam preocupados, enquanto as lágrimas começavam a escorrer, mas um sorriso insistia em meu rosto.
- Vocês são a melhor família do mundo – eu disse, me enterrando nos braços de Rachel.
- Own – Lauren gemeu baixinho, me abraçando por trás, seguida de Eric. – Nós também te amamos.
Eu sorri, feliz por ter um lugar no mundo, por ser realmente querida por alguém. Não era como ser amada por , apesar de ele me dar uma certa sensação de família também, mas isso era uma coisa diferente. Sempre disseram que família era uma coisa para a vida toda, para todas as horas, amor incondicional. Agora, finalmente, eu tinha minha família de verdade. Eu não poderia estar mais feliz com minha sorte e destino, apesar de tudo.

Capítulo 30
When I look at You

- Oi amor! - eu pulei nos braços de assim que ele abriu a porta, o sufocando com meus braços com apenas uma pequena parcela do que a saudade havia me sufocado durante uma semana e meia. É, eu tinha um certo problema de dependência quanto a ele.
Seus braços se fecharam fortemente ao redor de minha cintura, tirando meus pés do chão.
- Que saudade, pequena - sua voz grossa e rouca fez cócegas em minha nuca, me arrepiando ao ponto de me fazer estremecer. Ele riu, o que provocou mais uma onda de arrepios.
- Eu achei que ia morrer ontem de tanta ansiedade - choraminguei, apertando meus braços envolta de seu pescoço.
- Você tá me sufocando - sua voz saiu ligeiramente fraca.
- Desculpa. - Eu o soltei, me sentindo um pouco envergonhada.
- Você tá linda - ele disse com um sorriso de lado.
- Como você sabe? - Franzi o cenho.
- Você está com aquele agasalho preto fininho que compramos no shopping se não me engano e. - ele passou a mão pela minha cintura, a deslizando até a barra do meu vestido. - Qual é a cor desse vestido?
- Vermelho.
- Você fica perfeita de vermelho, combina com você. - Eu não pude evitar sorrir. Ele levou uma das mãos a minha cabeça, deslizando-a delicadamente pelo meu cabelo. - Está mais alta, deve estar de salto. Hey, você pode usar salto?
Revirei os olhos. "Rachel me trouxe de carro, eu só andei até o saguão do prédio".
- Só estou curioso de por que você está arrumada tão cedo. Ainda nem almoçamos.
- Na verdade eu fiquei com receio dela não gostar de mim - confessei, olhando para o chão.
- Mas minha mãe já te conhece - ele perguntou confuso.
- Sua irmã - murmurei.
Ele riu. "Quer que ela goste de você? Então não deixe ela te ver assim. Se vista como sempre, não tente entrar em nenhuma moda".
- HEY! - reclamei indignada. - Tá dizendo que minhas roupas são ruins?
- Eu amo o jeito como você se veste, diferente de todas as outras garotas. - Ele segurou as laterais do meu rosto e me deu um selinho. - Diferente dessas tendências idiotas. Você é perfeita.
Eu tentei continuar brava, mas não consegui evitar roubar um selinho dele. E outro.
- Vem, vamos aproveitar que minha irmã está no quarto dela pra você se trocar. Cadê suas coisas?
- Aqui. - Me abaixei e peguei a mochila mediana, gasta e desbotada que descansava contra a parede ao lado da porta.
segurou em minha mão, me dando uma última olhada ligeiramente vaga - coisa que eu tentava ignorar com todas as minhas forças, por mais que isso parecesse esmagar meu coração como uma massa de pão sendo sovada - e me levou para dentro do apartamento, onde sua mãe me recebeu calorosamente, permitindo que escapássemos de fininho em seguida para o quarto de .
- Eu coloquei essa foto na minha cabeceira também, esqueci de te contar. - Peguei o porta retrato que descansava na cabeceira ao lado da enorme e macia cama de casal onde dormia. - Mas a minha é em preto e branco, recortei do jornal da escola.
sorriu, tateando a borda da cama até encontrar minha perna e sentou ao meu lado. Me deu um beijo na bochecha e começou a fazer carinho em minha coxa.
- Se quiser eu peço pro conseguir uma colorida quando o recesso acabar. - Ele deu um beijinho em minha mordida, prosseguindo por meu pescoço.
- Não precisa. - Meus olhos involuntariamente se fecharam e eu comecei a fazer cafuné em seus cabelos. - Prefiro que tiremos uma hoje, o que acha?
- Uhum - ele murmurou contra meu pescoço, me puxando mais pra mais perto pela cintura.
- , o médico disse pra eu não abusar da sorte. - Era totalmente contra minha vontade interromper aquilo, mas eu não tinha muita escolha. - Sexo está incluso nas restrições de coisas em que não posso fazer muito esforço.
- Mas já faz mais de uma semana - ele reclamou, continuando a torturar meu sensível e indefeso pescoço.
Foco, , foco.
Eu tentei iniciar uma frase, mas seu perfume começava a embaralhar minha mente, enquanto sua boca tratou de dar outros afazeres a minha além de falar. Nossas línguas quentes brincavam de uma forma urgente, o gosto dele me fazia perder a noção de qualquer outra coisa. Ele inclinou o corpo sobre o meu, fazendo com que eu fosse vagarosamente me deitando contra a cama.


- - eu sussurrei quando minha cabeça encostou no travesseiro fofinho, o afastando delicadamente e totalmente contra minha vontade e desejos do meu corpo, que gritava ansiando por ele. - É sério.
Ele tirou uma das mãos de debaixo do meu vestido, encostando a cabeça contra meus seios, se dando por vencido, apesar de xingar baixinho. Continuei a fazer carinho em seu cabelo, até que achei uma parte mais elevada, estufada. Eu segui meus dedos sobre ela, estranhando, e ele reclamou de dor.
- O que é isso? - perguntei, afastando minha mão instintivamente.
- As cicatrizes - ele disse contra minha pele, como se aquilo fosse normal.
- Tadinho! - é, eu não pude evitar dizer isso. - Tem mais além dessa ainda?!
- Tem, mas já estão um pouco melhores. - Ele procurou minha pela cama, a pegando e devolvendo a sua cabeça, guiando meus dedos entre emaranhado (pelo qual eu era responsável) de seus cabelos até achar mais duas cicatrizes pequenas, uma no caminho entre a lateral direita de sua cabeça e a nuca e outra na parte superior de sua nuca. Mas a que realmente me assustava era a primeira que eu tinha achado, na lateral esquerda de sua cabeça, perigosamente perto de seu rosto. Era uma linha sinuosa que ia desde um pouco acima de sua orelha até quase o topo de sua cabeça. Eu fechei os olhos, respirando fundo e tentando controlar minhas emoções.
- Eu não tinha visto essa ainda, seu cabelo estava encobrindo - murmurei, roçando meus dedos com delicadeza em sua cicatriz novamente, tentando assimilá-la.
- É a intenção.
- É por isso. É por isso que você está. - Não consegui evitar engolir em seco, sentindo um nó na minha garganta. -. assim?
- Cego? - ele perguntou, e eu murmurei uma confirmação. - É, foi essa pancada que afetou minha visão. Mas, sabe, cego não é nenhum tabu ou palavrão.
- Desculpe - foi tudo que eu minha garganta, que parecia estar se fechando mais a cada segundo, me permitiu dizer sobre o assunto. - Acho melhor eu me trocar - minha voz saiu levemente esganiçada, e eu o tirei de cima de mim delicadamente, pegando minha mochila e me enfiando no banheiro da suíte antes que os soluços começassem a escapar de minha garganta.

Chequei-me novamente no espelho e dei um leve sorriso. Agora eu estava sem dúvida mais confortável, apesar de menos glamorosa. Olhei para o all star jeans nos meus pés, me equilibrando para virar meus pés para dentro e para fora infantilmente. Eu adorava a forma como eles ficavam azuis na luz e praticamente pretos quando escurecia, e eles combinavam tão perfeitamente comigo e com minhas calças skinny jeans.
Dentro da casa o frio era muito pouco - Deus abençoe os aquecedores -, então eu podia vestir apenas uma blusa de manga comprida branca por baixo da minha blusa preta com uma estampa branca no peito dizendo "É nóis". Inevitavelmente eu ri. Era por isso que eu adorava essa camisa e por isso que a tinha escolhido agora, ela sempre me fazia rir.
- Vamos ver se você acertou agora - disse assim que sai do banheiro. Ele estava sentado na ponta da cama, uma lata de cerveja com gotículas de água escorrendo por fora em uma das mãos e me chamando para mais perto com a outra.
Ele passou a mão pela lateral do meu corpo, passando os dedos pela manga da minha camiseta e deslizando pela estampa, franzindo a testa e tentando entende-la.
- Eu acho que tem alguma coisa escrita, mas não consigo entender.
Segurei as costas de sua mão, deslizando sua mão propositalmente para a lateral da estampa, onde ele podia sentir meu seio.
- "É nóis" - expliquei. - Uma expressão brasileira, por assim dizer.
- Ah. E o que quer dizer?
- "Somos nós", seria o certo, mas assim é mais engraçado. Quer dizer coisas como "estou dentro", por exemplo, mas também é uma forma de zoar a educação precária que o Brasil tem em muitos lugares.
Ele fechou os olhos, me aliviando de seu olhar vago, e fazendo uma carinha que quase me fez pular em cima dele quando mordeu o lábio inferior. Deixá-lo excitado me excitava. Muito.
Agora eu não estava mais sobre o controle de sua mão, que massageava meus seios com vontade. Passei minhas pernas uma de cada lado de seu corpo, sentando em seu colo. Ele subiu a mão espalmada por meu colo, a deslizando para minha nuca e me puxando com urgência para um beijo intenso.
Eu me endireitei em seu colo, chegando mais para a frente de suas pernas, começando a provocá-lo como eu tanto gostava. Ele interrompeu o beijo e levantou a cabeça para cima, puxando o ar para respirar fundo. Seu pescoço exposto foi tentação demais para minha boca sedenta por ele, e eu não resisti a iniciar uma sessão de languidos beijos ali, mesmo sabendo que ele só fazia aquilo de levantar a cabeça quando estava tentando se controlar naquela situação. Mas, é claro, havia uma resposta mais forte logo abaixo de mim.
- , nós. - ele respirou fundo mais uma vez, e eu o senti engolir saliva enquanto mordiscava seu pescoço. - Eu não posso. quero dizer, você não pode.
- Ah, qual é - eu subi meus beijinhos até seu queixo. - Brincar um pouco não mata ninguém.
Um sorriso safado se instalou em meu rosto automaticamente. Ele deu um longo gole na lata de cerveja em sua mão e se abaixou um pouco de lado em seguida para deixá-la no chão. Ele pousou as duas mãos em minhas bochechas, gelando uma delas e me fazendo estremecer por um segundo. Ele riu, desenhando meu rosto com os dedos, lendo minha expressão. Ele abriu os olhos, devolvendo meu sorriso com a mesma malicia. Era tão estranho não ver mais aquele fogo em seus olhos cada vez que ele me olhava, aquela intensidade toda. Isso machucava.
Mas eu sabia, simplesmente teria que me acostumar.
- Crianças - a voz da mãe de ecoou no corredor segundos antes dela abrir a porta do quarto, tempo o bastante para eu pular fora do colo de . O que não foi a melhor das idéias, já que o deixou meio exposto. - Ou, desculpe - ela pediu sem graça, mas se recompondo rapidamente. - Está faltando algumas coisas pra fazer o jantar, será que vocês podiam ir comprar pra mim?
- Claro - eu aceitei com um sorriso, me levantando da cama e passando a mão pela camiseta, ilusoriamente desamassando-a.
- Ah, mãe, pede pra Vicky. - fez uma careta de preguiça, provavelmente porque estávamos começando a nos divertir a pouco.
Contive a vontade de rir, apenas mantendo o sorriso simpático de santinha que eu usava para todas as mães, apesar dele quase nunca enganar Rachel.
- Na verdade ela vai com vocês, mas eu não a quero andando sozinha por aí.
- Mãe, a senhora sabe que não tem com o que se preocupar mais - uma voz feminina reclamou alto, provavelmente do começo do corredor ou da sala.
- Mesmo assim eu prefiro que os dois vão com você - ela respondeu na direção do corredor, como colocando um ponto final.
- Como se fosse fazer muita diferença - resmungou baixinho, se levantando.
Eu notei que Kathy tinha escutado, mas fingiu que não. não podia ver a tristeza que perpassou em seus olhos com aquilo.
- Venha comigo, querida - ela me chamou, se recompondo. - Vou te dar a lista de compras.
Eu a segui pelo corredor, vendo na sala apenas os cabelos de uma garota no sofá, mas ela não se deu ao trabalho de se virar para que eu pudesse ver seu rosto. Eu queria saber se ela parecia com , com Kathy. Talvez com o pai deles, apesar de eu nunca ter visto uma fotografia, mas com certeza tinha puxado os traços da mãe.
E eu tinha que admitir, Kathy era uma pessoa forte. Ela já havia passado por muita coisa, e havia aprendido a mascarar seus sentimentos, se recompor de um deslize em segundos, esconder sua tristeza. Ela havia perdido o marido, vivendo sob a ameaça dos assassinos e ainda tendo que ver seus próprios filhos ameaçados. Ela teve de abandonar seu próprio lar e tudo que estava ligado a ele, obrigando sua filha a fazer o mesmo, se escondendo para sobreviver. Imagine como ela não se sentia com longe dela, em um lugar em que era um alvo fácil, totalmente sozinho e desprotegido.
Coloquei instintivamente a mão sobre a barriga, sentindo agonia apenas de imaginar sua dor, seu sentimento de incapacidade para cuidar de seus próprios filhos.
- Aqui - Kathy me estendeu um papel com a lista de compras. - Você está bem, querida?
Me dei conta de como minha expressão deveria estar e a recompus em um sorriso.
- Estou.
- Sabe, na verdade eu podia mandar Vicky sozinha, mas eu acho que precisa dar uma volta, não tem problema pra você?
- Não, ele realmente precisa de algum ar fresco.
Ela sorriu agradecida. "Você vai cuidar bem dele" ela passou a mão por uma mecha do meu cabelo. "Eu tenho certeza de que vai, mesmo eu achando que vocês ainda são muito jovens. Bom, é bem melhor do que ele ficar sozinho".
- Vai ser melhor pra mim também - eu sorri, dessa vez sincera.
- Para os dois, tenho certeza.
- Vamos? - chamou da sala.
- Vamos.
Me juntei a do lado de fora do apartamento, mais uma vez vendo apenas o cabelo da irmã de , que batia o pé impacientemente a espera do elevador.
- Achei que você escutaria sua mãe no corredor - eu disse meio distraída quando fechou a porta.
Ele riu. "Ainda estou me adaptando, amor. Eu não sou nenhum vampiro com super audição".
Eu ri e o puxei pela mão assim que o elevador abriu, dentro do qual ele me envolveu por trás com seus braços ao redor de meu pescoço, me dando um beijinho na bochecha. Inevitavelmente eu sorri.
Agora sim eu podia ver o rosto da garota ao meu lado, apesar de ela estar olhando para o painel que marcava os andares. Sem dúvida ela se parecia com : o mesmo formato de rosto, nariz, e alguns outros traços, apesar dos lábios não serem os mesmos e os olhos não terem muito em comum. Eu tinha a impressão de que o cabelo deles devia ser igual, mas era impossível definir com a tinta que o cobria assim como algum provável alisamento.
- Oi - eu murmurei sem graça, mas aquele silêncio todo estava me matando.
Ela me olhou surpresa. "Oi". Sem conseguir disfarçar muito, ela estava me medindo de cima abaixo.
Sua expressão até então não muito simpática se transformou em uma mais amigável.
- , quando você aprendeu a arranjar namoradas descentes? - ela brincou, me fazendo sentir bem mais confortável agora, quase me sentindo livre o bastante para responder "Desde que ele parou de frequentar o puteiro onde a Brooklie trabalhava", mas eu consegui me conter.
- Eu disse que você ia gostar dela - ele respondeu, me dando outro beijinho na bochecha.
- Seu cabelo é colorido? - ela se aproximou de mim, os olhos praticamente brilhando.
- Aham - eu o dividi em duas partes atrás e puxei para frente, deixando-a mexer nele.
- Dude, é super cool! - ela aprovou empolgada. - Eu quero fazer uma mexa rosa, mas ainda não consegui decidir em que parte do cabelo.
- Vai ficar legal - eu concordei.
- Não, ela vai ficar mais esquisita do que já é - se intrometeu.
Eu sabia que ele estava apenas implicando com ela, pois ela não era esquisita e uma mexa rosa ia ficar legal, mas eu tive que lhe dar uma cotovelada na barriga.
- Eu tenho cinco cores, isso me torna cinco vezes mais esquisita?
- Eu tava brincando - ele reclamou, tirando um dos braços que estava a minha volta e massageando as costelas.
A porta do elevador deslizou para o lado e nós saímos dele, Vicky rindo ao meu lado.
Nós andamos dois quarteirões até chegar ao supermercado, comigo guiando por todo o caminho. Era estranho ter que avisá-lo de cada degrau ou buraco, mas eu sabia que era ainda mais desconfortável para ele tentando nos acompanhar, os passos incertos no solo desconhecido.
- E aí, por onde quer começar, pelos chocolates ou bebidas? - Vicky perguntou casualmente a .
- Eu pego as bebidas, mas dessa vez você só vai virar refrigerante pirralha.
- Qual é, prometo que não vou exagerar como da última vez - ela fez carinha de piedade, mesmo que não pudesse ver, estava claro em sua voz.
- Você quer dizer que não vai vomitar como da última vez - ele corrigiu. - Nada feito, vá brincar com seus priminhos, viver sua infância pirralha.
- Tudo bem, eu pego escondido e você nem vai ver, ceguinho - ela debochou.
Ele não se deixou abalar pelo que ela disse. É, talvez eu estivesse encanada demais com essa palavra, ou com tudo isso. Ou talvez os dois vivessem se ofendendo feio mesmo.
- Se eu soubesse onde sua cabeça está você ia levar um pedala agora - ele retrucou. - Se bem que ela é tão grande que não deve ser tão difícil achar.
Eu ri. Pode parecer maldade de certo ângulo, mas estava ficando difícil não rir dos dois.
- Certo, fique com toda bebida, você talvez acabe apalpando a tia Beth dessa vez ao invés da nossa prima.
Ow, ow, ow, parou. A graça acabou pra mim agora. Que prima?
- Compre bastante chocolate pra substituir os namorados que te deram um pé na bunda no último mês. Compre sorvete também, aí você vai poder chorar na frente de seus filminhos bestas sobre romances que você nunca vai conseguir porque é esquisita demais pra alguém querer ficar com você.
- Pelo menos foi a minha ex-namorada que correu para os braços do meu melhor amigo assim que te meteu o pé na bunda porque era muito ruim.
- Pelo menos não foi sua ex-namorada? Resolveu assumir que é lésbica finalmente? Sabia que você era esquisita.
Certo, isso já estava me machucando. Eu queria dar um belo berro para os dois calarem a boca e entrarem de uma vez na droga do mercado, mas resolvi respirar fundo e mandar os dois se foderem mentalmente e caminhar para dentro do mercado, deixando os dois para trás. Eles que se virem.
Peguei a lista do bolso do meu agasalho e a desdobrei, iniciando minha busca pelos itens dela com um carrinho em mãos. Eu já estava colocando os fones no ouvido para me distrair um pouco quando o celular anunciou uma chamada. O volume estava meio alto, o que provocou a atração de muitos olhares pra cima de mim quando a música tocou nele. Droga, devia ter conectado a porra dos fones logo.
- Que foi? - atendi muito educadamente depois de ver que era quem me ligava.
- Nossa, oi pessoa feliz - ela respondeu ironicamente. - Acordou de mau humor, é?
- Não, mas discussões me estressam, ainda mais quando tem uma prima mal explicada no meio da história.
- Brigou com o ? - eu segurei o celular entre o ombro e a orelha para pegar duas embalagens de molho e colocá-las no carrinho.
- Não, tava assistindo ele discutir com a irmã.
- Hum. Mas então, você tá na casa?
- Não, num supermercado perto, por quê?
- Eu ainda não comprei o presente do e ele ainda não comprou o meu, então tava pensando em passarmos aí e irmos pra algum shopping por perto, você podia me ajudar.
- Eu também não comprei nada pro - eu disse pensativa. - Fiquei estocada naquele quarto e não comprei nada, mas acho que Rachel deve ter comprado alguma coisa. ou não. Melhor perguntar pra ela. Mas eu não entendi: você vai comprar alguma coisa pro com ele junto e vice-versa?
- É claro que não, depois eu que sou a lerda do grupo. Nós vamos pro shopping juntos, mas em lojas diferentes. E aí, a gente pode te buscar?
- É, seria uma benção ficar longe daqueles dois discutindo, obrigada.
Ela riu. "De nada". E então a voz saiu abafada ", você sabe onde fica o supermercado perto da casa dele?". Ele respondeu algo no fundo que eu não consegui escutar direito. ", como ele é?".
- Grande e amarelo.
Segurei novamente o celular entre a orelha e o ombro para poder pegar latas de leite condensado. Na lista ela pedia três, mas eu peguei cinco. Dá última vez eu não tinha tido a oportunidade de fazer o que queria com aquilo, já que o barco onde estávamos explodira, então essa me parecia uma ótima oportunidade. Hum. melhor pegar mais uma, Vicky pelo jeito gosta de chocolate.
- Tá, ele sabe onde é, te pegamos daqui quinze minutos aí na frente, pode ser?
- Tá, me dá um toque quando estiver na porta.
- Certo, tchau.
- Tchau - desliguei a chamada, coloquei o outro fone no ouvido e conectei no celular, agora sim tendo chance de escutar minhas músicas que eu tanto adorava.
Quando a música "Naturally" da Selena Gomez interrompeu a música "Le Disco" da Shiny Toy Guns que antes eu escutava eu já havia pegado a maior parte do que estava na lista de compras e jogado no carrinho.
- Vou procurar o e já encontro vocês aí na frente - eu disse atendendo pelo foninho do celular.
- Que? - a voz de soou extremamente alta em meus ouvidos.
Tá, eu nunca me dei bem em me comunicar pelo pequeno microfone no fio dos fones, então desconectei-os irritada e coloquei o celular na orelha.
- Tô indo, peraí.
- Tá - ela desligou e eu guardei o celular e o fone no bolso da calça, começando a vagar pelas estantes do mercado a procura de .
Eu o encontrei junto com Vicky, sendo guiada desde alguns metros pela discussão dos dois na sessão de bebidas.
- Porra Vicky, pega logo a droga da caixa de Heineken - dizia irritado.
- Não, odeio cerveja, escolhe outra coisa - ela insistiu.
- Mas eu gosto - ele continuou.
- Vocês estão discutindo até agora? - perguntei indignada me aproximando com o carrinho. - Aqui Vicky, só faltam essas últimas coisas - eu mostrei o final da lista. - E acho que você é muito nova pra ficar enchendo a cara, então. - eu peguei uma caixa de cerveja Heineken e coloquei no carrinho, a fazendo reclamar. Em seguida peguei duas garrafinhas de Sminorff e as coloquei no carrinho também. - E quando forem pegar chocolate, peguem algum que os dois gostem ou de dois tipos. , eu vou com a e o pro shopping, quer vir com a gente?
- Não, eu tenho que ajudar a Vicky a carregar as coisas - ele me chamou disfarçadamente com a mão e eu me aproximei. - Te amo pequena - ele deu um beijo em minha testa seguido de um selinho.
- Te amo - eu respondi baixinho, um sorrisinho em meu rosto e passei a mão por sua bochecha.
- Não vai pegar nada pra você? - ele se referia as bebidas.
- Não, tô de boa - na verdade eu não podia beber nada alcoólico mesmo e refrigerantes e sucos já tinham na casa dele.
- Ok - ele pegou a mão que estava em minha bochecha e a levou aos lábios, dando um beijo em sua palma.
Naturally voltou a soar alto de meu celular.
- Tchau - eu lhe dei outro selinho antes de me distanciar. - Tchau Vicky!
Ela acenou e eu rejeitei a ligação de , me apressando pelos corredores do supermercado até chegar à fachada amarela dele, onde encontrei o grande carro preto de bem à frente.
- Oi amora - me cumprimentou animada do banco do carona enquanto eu entrava no banco de trás.
- Oi - eu devolvi seu sorriso. - E aí ?
- E aí ?- ele deu partida no carro. - Por que não chamou o ?
- Ele ia ter que ajudar a Vicky com as compras - peguei meu celular do bolso, me lembrando de ligar para Rachel.
Sorte minha ter me chamado para as compras, pois o presente que Rachel havia comprado era uma carteira. As intenções eram boas em me ajudar e uma carteira não era exatamente ruim, mas eu queria lhe dar algo especial, afinal, ele vivia me dando presentes nada baratos sempre que tinha uma desculpa para tal, e Natal com certeza seria mais uma oportunidade para ele fazer isso novamente. Além disso, eu queria que fosse algo que ele fosse curtir, algo que lembrasse nós dois. Agora a dificuldade era descobrir o que podia ser tão especial para ele.
- Eu não consigo escolher, os dois são tão a cara do ! - , após uma hora e meia de procura em cinco lojas diferentes, finalmente tinha encontrado algo para dar a , mas agora não conseguia escolher entre a camisa quadriculada vermelha preta e branca e o agasalho azul da Hurley.
- Pense qual ele vai usar mais, a camisa ou o agasalho - sugeri.
- Depende do dia, como eu vou saber? - perguntou indignada.
- Ok, vamos fazer o seguinte - eu peguei a camisa vermelha de sua mão. - Eu dou pra ele a camisa e você o agasalho.
Ela me olhou com os olhos estreitos. "Você estava me usando para também achar um presente pra ele".
- Um presente de Natal é o mínimo que eu posso dar a ele depois de tudo que ele fez por mim, não acha? - eu disse marota indo até o balcão. - Pra presente, por favor - eu disse a atendente.
finalmente deu ombros, me acompanhando no balcão.
- Já decidiu o que vai dar para o ? - ela perguntou enquanto pagávamos.
- Não. Hey, você comprou alguma coisa pro e o ? Ou pra e a ? - perguntei tendo um estalo na mente.
- Não - ela disse igualmente pensativa.
- Podíamos presenteá-los juntas - eu sorri empolgada.
- Ótima idéia! - ela bateu palminhas, me fazendo rir.
- Hum, pra é fácil, maquiagem ou bolsa - eu disse pensativa. - Mas e pros outros?
- Já sei! Pra a gente podia dar um vestido, daqueles que seduzem, pra deixar o passando mal. Afinal ela não tem muitas roupas abertas, né?
- Cara, até que você pensa às vezes - eu zoei.
Ela revirou os olhos, pegando uma sacola do balcão enquanto eu pegava a outra.
- O que nós vamos dar pro ? - perguntei pensativa enquanto nos dirigíamos a outra loja de roupa.
- Boa pergunta.
- O que a vai dar pra ele?
- Um lagarto.
- Hum? - eu não devia ter entendido direito.
- Um lagarto - ela repetiu.
- De pelúcia?
- Não, de verdade. Depois eu sou a lerda.
- Um lagarto? Quem é que dá um lagarto a alguém?
- A - Nós duas rimos. - Você esperava que tipo de presente da namorada do ?
- De alguém que namora o eu devia ter esperado algo pior.
Nós rimos novamente, mas minha atenção foi imediatamente desviada para a vitrine de uma loja ao nosso lado. Andei apressada para ela, parando para olhar o manequim. Aquele casaco era perfeito para ele!
- É a cara do ! - disse empolgada.
Eu a puxei apressada para dentro da loja. Um garoto menos de cinco anos mais velho que nós e não exatamente muito atraente estava apontando para a jaqueta do lado de dentro da loja, e a vendedora a pegou. Ele colocou por cima da roupa e foi até o espelho para verificar.
- Já foram atendidas? - uma vendedora nos perguntou educadamente.
- Eu quero um daquele casaco de couro preto - eu disse apontando disfarçadamente para o rapaz que estava se olhando criticamente no espelho.
- Só um instante, vou verificar - ela foi em direção a um vendedor e perguntou algo, voltando a nos em seguida. - Desculpe, era o último no estoque. Mas temos outro modelo se a senhorita quiser dar uma olhada.
- Está certo, vou dar uma olhada - eu disse desconcertada, indo para as estantes na parede com em meu encalço.
- Talvez ele não compre, ele é muito magrelo, não ficou bom nele - disse baixo para mim.
Nós filmamos cada passo do rapaz, esperando ansiosamente que ele largasse o casaco, mas isso não aconteceu. Ele sorriu para a vendedora e entregou o casaco a ele, nós tínhamos nos aproximado o bastante para escutar que ele iria levar.
- Tenho um plano - sussurrou em meu ouvido. - Mas você vai ter que ser rápida.
Eu assenti e ela chegou mais perto do rapaz, parando em uma estante ao seu lado e olhando claramente para ele. Ele a analisou de cima abaixo, abrindo um sorriso discreto em seguida.
- Oi - ele disse encabulado.
- Oi.
começou a puxar conversa com ele, e eu observei a vendedora deixar o casaco em cima de um balcão, separando-o.
Me aproximei do balcão enquanto ela estava do lado como um cão de guarda.
- Hey, acho que aquela mulher estava te chamando - eu disse a ela apontando com a cabeça uma mulher de cabelos crespos castanhos no meio da loja.
Ela deu um sorrisinho agradecida e logo foi como um corvo atrás de uma comissão. Aproveitando a deixa, peguei sorrateiramente o casaco e o levei para o balcão do caixa, o cartão de crédito já em mãos. Olhei a etiqueta rapidamente. Era bem caro pra uma roupa, mas estava acostumado a roupas de marca, e afinal havia gastado bastante comigo da última vez. Eu podia dar conta de pagar.
- Em duas vezes, por favor - eu disse a caixa. É, duas vezes ou minha mãe come meu coro viva.
- Só isso? - ela perguntou lerdeando.
- Só. Olha, minha mãe tá me esperando no estacionamento, eu tô com um pouco de pressa - ela deu um sorrisinho tentando esconder o desdém mas pelo menos foi mais rápida, me dando logo o papel para assinar enquanto eu olhava ansiosamente para que ainda distraia o rapaz. - Obrigada.
- Quer que embrulhe pra presente?
- Não.
- Obrigada e volte sempre - ela disse de modo automático.
Eu peguei a sacola com pressa e andei apressada para fora da loja, fazendo sinal para , que dispensou o rapaz com um repentino tchau e me alcançou no corredor do shopping.
- Ufa, aquele cara era muito lesado - ela desabafou. - Conseguiu?
- É claro - eu tirei a peça de dentro da sacola, a abrindo e mostrando a ela.
Ela o pegou nas mãos e analisou. "Cara, o tecido é uma delicia! E é quentinha!" ela sorriu, procurando a etiqueta e seus olhos se arregalaram. "Uau, Armani? Por esse preço? Você deu sorte".
- Armani, jura? - eu tomei o casaco de sua mão e conferi na etiqueta. - Nem tinha visto. Acha que ele vai gostar?
- É claro! Vai até te pedir em casamento depois que ganhar - nós rimos, mas então sua feição se tornou séria. O shopping estava lotado, então ela teve de falar mais próxima ao meu ouvido para que não tivesse que falar alto. - Falando nisso, quando vai contar a ele?
Eu me surpreendi com a pergunta, demorando um pouco para formular uma resposta.
- Eu. eu não sei. Ele não anda muito bem, não sei quando devo contar.
- Bom, não é por mal, mas eu acho que sua barriga está começando a crescer, amora - ela disse meio sem graça. - Acho que quanto mais cedo melhor.
- Mas. e se ele. e se ele reagir mal?
Ela considerou por um instante. "Não se preocupe com isso, você só precisa achar o momento certo. Ou fazer o momento certo. Mas quanto mais rápido melhor".
Eu concordei com a cabeça, pensando naquilo.
- Vem - ela me puxou repentinamente, me arrancando de pensamentos importantes.
Logo foi explicado o porquê do puxão, assim que adentramos uma loja de roupas. Era hora de comprar o presente de . Coincidentemente, lá havia um sobretudo preto que me fez lembrar imediatamente do sobretudo de que eu havia estragado. Por que não dar um a ela, então? Eles procuraram no estoque e para minha sorte havia um modelo acinturado bege com grandes botões pretos. Era uma gracinha, e eu me senti satisfeita em poder dá-lo, assim como o lindo vestido preto básico que achamos para . Ele tinha detalhes com desenhos de flores perto da barra, era de alcinha e com uma aparência leve.
Os embrulhos eram de bonecos de neve e desenhava o nome delas com sua letra desenhada em cada cartão específico enquanto eu sugava meu milkshake de morango pelo canudinho do grande copo em minhas mãos. Nós estávamos agora na praça de alimentação, já que a grávida aqui não conseguia esperar até o jantar e tinha que fazer uma boquinha antes.
- Por que eu tenho que escrever? - reclamou.
- Porque você tem a letra melhor - respondi dando mais uma garfada na minha torta holandesa. - Quer? - eu a ofereci ainda de boca cheia.
Ela fez uma careta, mas não resistiu a roubar um pedaço da torta. nunca resisti a doces, principalmente se isso conter chocolate.
- Hey garotas - chegou e se esparramou na cadeira ao lado de , largando os pacotes de compras no chão. - Conseguiram tudo o que queriam já?
- Ainda não - respondeu de um modo provocante, se aproximando e beijando-o.
- Argh, tem crianças presentes! - reclamei, fazendo uma careta e os interrompendo.
- Com por perto não vá achando que essa criança não vá ver as coisas mais absurdas.
- ! - reclamei. - Por que todo mundo fica falando assim do ? Ele é tão comportado! - oi, eu minto.
riu alto, mas aquela área era barulhenta demais para que isso chamasse a atenção de alguém. "Então é a mãe que devemos culpar?".
Eu o fuzilei com o olhar.
- Qual é, só se a criança for cega pra não ter a inocência corrompida. - Eu a olhei com os olhos arregalados, pega de surpresa. - Oh, desculpe - ela se apressou a dizer, pegando minha mão por cima da mesa. - Foi sem querer, eu não pensei.
- Não, tudo bem, calma - eu me refiz, dando um sorrisinho torto. - Foi só o susto.
- Ainda bem que vocês me ligaram, eu achei umas coisas legais para o e o - mudou de assunto. - Espero que o que vocês compraram valha a pena, eu não quero meu nome em um presente ridículo. - Nós o olhamos com os olhos semicerrados. - Brincadeira, qual é - ele levantou as mãos em sinal de inocência.
- Brincadeira mais sem graça - comentou cruzando as pernas e pegando os pacotes nas sacolas de para escrever os nomes neles.
- Garotos - revirei os olhos.
- Garotos - me imitou com uma vozinha fina.
- Aaah! - exclamei irritada. - Cala a boca.
- Cala a boca - ele voltou a me imitar.
- Mas que saco! - eu cruzei os braços, irritada.
- Mas.
- Dá um tempo, - o cortou. - Vocês parecem duas criancinhas.
Eu não pude deixar de sorrir ao ouvir o tom maduro na voz de , assim como .
- Vai me ensinar a trocar a fralda do meu bebê também? - perguntei divertida.
- Eu estava te defendendo e ainda levo - ela reclamou, passando a outro pacote.
- Esse é do - avisou.
- Deixa eu escrever? - perguntei animada.
me olhou desconfiada por um instante, então me passou o pacote, dando de ombros.
- E aí, quando vai contar ao ? - perguntou tentando parecer casual.
Parei de escrever para lançar um olhar desconfiado a .
- Que foi, nós andamos discutindo o assunto - ela se defendeu.
- Percebi - voltei minha atenção ao pacote novamente. - Mas eu ainda não sei, . Quando for o momento certo.
- Qual é, - deu uma risadinha. - Ele tem dezoito anos, nunca vai haver um "momento certo" - eu o olhei um tanto assustada com a percepção. Ele tinha razão - ou você vai esperar até que ele tateei por sua barriga?
Soltei o ar pesadamente. "Acho que vocês estão certos".
- Você devia contar essa semana - soltou.
- Quê?
- É, quanto menos você pensar, só fazer o que tem que ser feito, é melhor. Se não você corre o risco de ficar protelando e isso não acabaria bem.
- Mas conte com calma, é claro - olhou torto para e depois tentou me passar compreensão pelo olhar. - Tente ser o mais compreensível possível, calma, entende?
- É, porque você já sabe que ele vai pirar, não é? - , doce .
Assenti com a cabeça. É claro que ele iria pirar.

Capítulo 31
Let it Snow

Desde que saímos do estacionamento do shopping a neve caia espessa e branquinha por todos os lados. Era a coisa mais mágica que eu já havia visto, mas que não podia tocar. De carro fomos direto para dentro do estacionamento do prédio de , mas eu tentei não parecer emburrada ou chateada com isso e resisti arduamente à vontade de abrir a janela e tentar pegar um floco de neve pelo caminho todo, afinal, seria muito caipira da minha parte. Todos ali haviam crescido com a neve caindo sobre suas cabeças todo ano, seria ridículo eu demonstrar o quanto àquilo era impressionante e excitante para mim. Não que fosse minha culpa não nevar no Brasil (com exceção do Rio Grande do Sul, se não estava enganada), mas eu me sentiria um tanto incomodada.
e subiram comigo, me impedindo de escapulir para fora do prédio ou alguma parte descoberta dele, para cumprimentar e a família, da qual parecia íntimo. Bem íntimo. Do tipo que bagunçou de modo implicante o cabelo de Vicky e falava com Kathy abertamente e os dois até riam enquanto ele experimentava algo que ela preparava na cozinha. No sofá estavam três pessoas que eu não fazia idéia de por que estavam ali, mas que logo as apresentou. Sua tia Beth e o marido Clark, e um primo de segundo grau de sua mãe, Roberto.
Todos sorriram simpáticos e eu tentei ser igualmente simpática. arrumou os pacotes na base da árvore antes de almoçarmos. Quando ela e se despediram ela prometeu entregar todos os presentes hoje, exceto o de , que entregaria amanhã. E, é claro, ela fez questão de sussurrar em meu ouvido um “Conte logo” enquanto me abraçava forte.

Logo eu descobri que Roberto era um cara divertido, mas o casal Beth e Clark eram do tipo conservadores e fizeram uma careta ao perceber as mechas coloridas em meu cabelo. Eles tinham uma filha de doze anos e com certeza eu era um pesadelo pra eles. Isso porque eles não sabiam nem metade da história.
Mas a filha estava na casa de outra tia de , cujas não se deram ao trabalho de passar aqui, apenas fizeram rápidas ligações. É claro, o casal também já estava de saída, só vieram almoçar e já estava indo para a casa da outra irmã de Kathy, onde passariam o natal.
Roberto era o único que permaneceria. Ele tinha vinte e quatro anos, mas parecia ter a idade de enquanto os dois riam alto na sala.
Beth já passava dos quarenta, assim como o marido, e era bastante inconveniente em suas perguntas a , as quais pareciam conseguir sempre desviar o caminho para sua cegueira e como ele pretendia ter algum futuro daquele jeito.
Eles não faziam idéia de que eu iria morar com em pouco tempo. Ninguém naquela sala sabia que eu estava grávida. E mesmo as perguntas conseguiam ser tão maldosas e cortantes para mim quanto para ele.
Eu não conseguia pensar em algo para livrar da conversa com seus tios, e ele devia sentir saudade deles, de alguma forma. Então tudo o que eu me resumi a fazer foi sentar em um canto afastado da sala em frente à janela e observar a neve cair pelo vidro embaçado. Eu queria tanto poder tocá-la. Mas meus pensamentos logo estavam longe dos pedaços macios de céu que caiam graciosamente.
Eu estava começando a sentir o peso daquilo tudo, começando a entender o que iríamos enfrentar. O que maldição eu estava pensando, que tudo seriam flores e dois adolescentes totalmente despreparados e inconseqüentes, sem quase nenhuma experiência de vida e um deles ainda sendo cego, criariam uma criança sem qualquer problema? Como eu podia ter sido tão burra a ponto de engravidar?
Talvez eu esperasse que soubesse o que estava fazendo na hora, já que ele era o mais experiente por ali. Talvez tivesse sido apenas o calor do momento, a ansiedade e a insanidade que ele me causava. Mas, com toda certeza, eu não esperava que aquilo acontecesse comigo.
E agora eu estava começando a pensar no que iria acontecer. Desastres, obviamente.
- Cólica? – uma voz grossa me sobressaltou.
- Ahn? – eu perguntei confusa, retomando o fôlego.
Rodrigo se sentou a meu lado no carpete, cruzando as pernas.
- Perguntei se você está com cólica – ele repetiu, me olhando atentamente. Ele tinha uma voz que lembrava vagamente a de , porém era mais grossa e menos rouca, parecia reverberar no ar a nossa volta, apesar de não poderem nos ouvir do sofá. Ele tinha as mesmas sobrancelhas e formato do rosto parecido, mas todo o resto era diferente. – Você não pára de esfregar a barriga.
Arregalei os olhos um pouco, tirando imediatamente a mão dali.
- Mania – respondi, me recompondo e tentando parecer descontraída.
Ele riu. Era uma risada simples, nada escandalosa como a de .
- Você é esquisita – ele deu um sorriso de lado. – Deve ser por isso que ele se apaixonou por você.
De primeira eu me senti ligeiramente ofendida, mas não pude evitar sorrir.
- Isso era para ser um elogio?
- Supostamente.
Nós rimos.
- Achei que vocês eram do tipo de família grande que passaria o Natal juntos – disse após algum tempo de conversa.
- Nós éramos, mas as coisas mudaram desde o último Natal. A família se afastou.
Eu franzi a testa. “Mas pelo que entendi estão todos indo passar o Natal na casa de uma da outra tia, por que eles não?” Roberto me olhou de modo triste, e então eu percebi. “Oh, é por minha causa, não é?”.
Ele sorriu de modo triste também.
- Não, não é por sua causa. Os não foram sequer convidados.
O olhei confusa. “Por que não?”.
- Você não iria querer saber das coisas que andaram acontecendo, é complicado.
Rolei os olhos. “Com certeza eu sei mais do que você, não me venha com essa. Desembuche”.
Ele me olhou surpreso. “Você deve gostar realmente dele para estar aqui então”.
- Mais do que possível – eu respondi séria.
- Como você deve imaginar, todos estão com medo de fazerem contanto com eles. Imagine ter eles em sua própria casa, podendo se tornar ainda mais um alvo? Me surpreende que Beth e Clark tenham vindo, se você quer saber.
- Mas eles não trouxeram a filha – observei.
- Exatamente – ele tirou um maço de cigarro do bolso e pescou um, colocando-o na boca.
- Então por que você veio? – perguntei curiosa.
Seus olhos azuis pareceram acender labaredas por detrás.
- O pai de era como um pai pra mim – ele respondeu, tirando o cigarro da boca. – Eu quero que aquele canalha venha atrás de mim. Eu não vou errar o tiro.
Eu não pude evitar estremecer violentamente com os fleches de lembrança que invadiram minha mente.
- Bebé, eu pedi para você não falar sobre isso – o repreendeu, nos sobressaltando.
- Estou bem – eu disse, mas minha voz estremeceu.
- Vem cá – me chamou com a mão estendida e me ajudou a levantar.
Eu o abracei apertado, afundando o rosto em suas roupas, me drogando em seu perfume. Sentindo-me segura novamente.
Roberto acendeu o cigarro com um isqueiro grande e prateado, com o desenho de uma mulher nua.
- Sua mãe não se incomoda de fumarem aqui dentro? – eu perguntei antes que pudesse me conter.
- Roberto, apaga essa porra.
- Vou apagar no seu carpete.
- E eu te jogo pelo buraco de lixo do corredor.
- Onde sua mãe te jogou quando você nasceu? Soube que eles demoraram mais de uma semana pra se lembrar de você. Sobreviveu sugando lixo.
- Vá se foder e apaga essa porra logo.
- Vou lá pra fora – ele se levantou. – Você vem?
me guiou até a porta, seguindo-o. Quero dizer, me empurrava ligeiramente enquanto me abraçava por trás e eu conduzia a direção, apesar de ele conhecer em parte o caminho mentalmente.
Pegamos nossos grossos casacos e descemos até o salão de jogos do prédio, onde havia uma mesa de sinuca e só então percebi que tinha duas latas de cerveja na mão. Entregou uma a Roberto.
- Tá afim de jogar? – Roberto perguntou, já indo até os tacos.
- Não imbecil, como é que eu vou jogar – retrucou irritado. – A não ser que esse taco seja pra enfiar no seu…
- Não estava falando com você – Roberto o cortou. – Estava falando com a dama.
Ele me ofereceu um taco curto com um sorriso.
- Vá dar encima da sua mãe, desgraçado – xingou.
Eu aceitei o taco, rindo.
- Não, a sua é mais gostosa.
- , pega um taco pra mim. Eu vou quebrar na sua cabeça.
- Você vai tatear até me achar? Podemos brincar de gato mia se quiser.
- Não, eu já brinquei com a sua irmã, obrigado.
Eu abri a boca, ofendida.
- Eu tô esperando a sua crescer.
- Eu não tive que esperar a sua pra comer ela.
- É, ela me contou o quanto você é ruim de cama.
- Não, é sério cara – disse e então fez-se um silêncio total. – Foi à melhor de todas, se isso ajuda.
Ele tinha uma expressão séria no rosto, e eu não me preocupei em olhar para Roberto. Ele… ele… O QUÊ?
Em menos de três segundos, o taco em minha mão cortou o vento zunindo, acertando em cheio a barriga de . Eu taquei o taco no chão, furiosa, enquanto ele se curvava de dor. A risada de Roberto ecoava pela sala enquanto eu saia batendo os pés de punhos cerrados.
Eu entrei no elevador, que se fechou enquanto gritava alguma coisa por cima das gargalhadas de seu primo.
Entrei no apartamento chorando de raiva, mas tentando passar despercebida. No quarto peguei minha mochila e a taquei nas costas, voltando rapidamente para a porta. Minha cabeça estava a mil, e eu quase gritei com o susto que levei ao dar de cara com .
- Saí da minha frente – eu rosnei alto.
- Onde você pensa que vai? – ele franziu a testa. – Era só brincadeira, não acredito que você me bateu.
- Ah, agora era brincadeira? – eu tentei passar por debaixo de seu braço, mas ele segurou meu pulso, pegando minha mochila das costas e a tacando na parede oposta do quarto. – ! Eu vou para a minha casa com ou sem mochila, saia do caminho agora mesmo.
- Claro, você vai a pé sem dinheiro até a casa dos Molking só para dar de cara com a porta. Está nevando, se você não percebeu. E você está doente.
- Eu não estou doente, sou muito bem capaz de ir pra casa. SAIA DO MEU CAMINHO!
- Esta é sua casa agora, você não pode simplesmente me bater com um taco por uma brincadeira qualquer e depois fugir daqui. Vê se cresce.
- Vá se foder , não preciso ouvir o quanto comer sua prima foi bom. Eu quero ficar longe de você.
Eu estava morrendo de raiva, e ele estava ficando cada vez mais furioso. Seu aperto, agora em meu braço, era inquebrável, mas não me machucava. Eu olhei em seus olhos, querendo socá-lo, mas no mesmo momento toda a minha raiva se esvaiu. Seus olhos flamejavam em minha direção. Ainda era um olhar vago, mas havia emoção neles.
- Eu nunca transei com a minha prima, . Só estávamos brincando, é assim que fazemos – eu continuei calada. Minhas lágrimas agora eram de emoção. Havia emoção em seus olhos! – ? – silêncio. – Hey, não faça isso, você sabe que eu odeio. Eu te amo e essa é sua casa agora – seus olhos pediam para que eu respondesse, pediam o que ele verbalizou: - Fique.
Eu entrelacei meu braço livre em seu pescoço e me estiquei para beijá-lo. Ele se surpreendeu, mas logo estava correspondendo a meu beijo agressivamente, cheio de desejo. Ele me empurrou para trás, fechando a porta atrás de si com um chute e me deitando na cama. Eu o puxei comigo, mostrando que eu também queria aquilo.
Ele desceu sua mão para minha cintura, logo a deslizando por debaixo de minha blusa e acariciando meu seio. A outra estava enterrada em meus cabelos, me fazendo delirar com o aperto em minha nuca.
Retirei nossos casacos, logo me apressando a tirar-lhe a blusa também. Passei as mãos espalmadas por seu peitoral, seguindo com uma para suas costas para lhe arranhar enquanto a outra se preocupou em começar as provocações por baixo de sua calça.
Ele levantou minha blusa e eu a tirei enquanto ele beijava meus seios e depois sugava meu pescoço. Poucas mordidas em seu pescoço e ele já estava me arrancando as calças. E logo eu as suas.
Eu rolei por cima dele, fazendo movimentos provocantes com um sorriso provocante no rosto. Ele fechou os olhos e apertou minha cintura, começando a seguir o caminho para dentro de minha calcinha quando… a porta se abriu repentinamente, nos fazendo gritar com o susto e eu logo puxei a coxa para cima de meu corpo, tentando me cobrir.
- Oh, desculpe! – a mãe dele pediu, indo para trás da porta. respirava forte e aceleradamente, tanto por antes e mais ainda pelo susto. Meu coração estava na boca. – Ouvimos vocês brigando e quando tudo silenciou eu achei que tivesse acontecido alguma coisa.
- Estamos bem, mãe! – reclamou, furioso.
- Desculpem – Kathy repetiu, fechando a porta.
Escondi o rosto na colcha, morrendo de vergonha.
- Hey, – me chamou, puxando a colcha e procurando meu rosto com a mão, para acariciá-lo em seguida – tudo bem, pequena.
- Como é que eu vou sair daqui agora? – murmurei, constrangida.
Ele me deu um beijo na bochecha.
- Não se preocupe, mamãe não liga pra isso.
- Mas eu ligo – retruquei.
- O que ela achou que eu ia fazer afinal, te matar? – ele riu. – Que merda, podia ter pelo menos batido.
- Concordo – voltei a sentar em seu colo, dando-lhe um selinho.
Ele me beijou, e eu interrompi o beijo para lhe lamber o pescoço, descendo uma das mãos para sua calça novamente.
- Sério, ? – perguntei desanimada e mal acreditando.
- Qual é, foi minha mãe que acabou de invadir o quarto, o que você esperava que acontecesse? – ele se defendeu, e então sussurrou em meu ouvido: - Mas você pode me animar de novo rapidinho.
Rolei os olhos e apenas lhe dei um selinho antes de levantar.
- Ah, , volta aqui – ele pediu, manhoso.
- Onde foi parar minha blusa? – eu o ignorei.
- Procura a minha? – ele pediu, se dando por vencido.

Capítulo 32
Iris

Três quadras depois estávamos em uma humilde pracinha, cujas árvores estavam depenadas e cobertas pela neve, assim como todo resto. Levei até um dos bancos e ele o limpou para sentarmos. Minha bunda congelou, assim como meu rosto fizera desde que havíamos deixado o condomínio. me puxou para mais perto, me abraçando, e eu descansei confortavelmente a cabeça em seu braço.
Muitos minutos se passaram em silêncio, apenas nossas mãos se acariciando.
- Eu nunca tinha visto neve – desabafei, minha voz ligeiramente rouca.
- Sério? – franziu a testa por alguns instantes, pensando, e então sua face se iluminou. – Ow, no Brasil não neva, né?
- Não – disse tristonha. – E justo agora que eu saio, a droga da neve parou de cair.
Ele riu alto da minha desgraça, recebendo um tapa no braço em resposta – o qual não deve ter doido nada, amortecido pelo grosso casaco.
- Ah, qual é – ele me abraçou mais forte, sorrindo encantadoramente pra mim, apesar de debochado. – Neve é o que não deve faltar aqui!
Eu olhei em volta. Tudo branco.
- Acho que sim… - eu disse com um tom infantil e uma careta. – Mas eu queria sentir ela caindo do céu.
- Ná, é mais legal quando ela já está no chão! – e lá estava a criança feliz ressuscitando dentro dele novamente, fazendo seus olhos brilharem e um sorriso doce desenhar seu rosto. – Vem! – ele me puxou pela mão, levantando-se do banco, e começou a passar o pé na frente do corpo. Sua perna estranhamente me lembrava um detector de metais.
- O que você está tentando fazer?
- Você vai ver – ele continuou a rastrear alguma coisa com os pés, até achar um monte de neve acumulada perto de uma árvore. Deveria haver pelo menos uns trinta centímetros de neve em todo lugar, mas ali era um montinho acumulado de pelo menos mais doze centímetros.
- , o que você… - tarde demais. Ele se jogou no montinho de neve, me puxando junto. Afundamos na gelada e estranha coisa branca, e eu não sei por que sentia como se fosse me afogar. – FICOU MALUCO? – eu gritei cuspindo cabelo e o tirando do rosto. – Isso daqui tá me congelando! – eu fiz menção de me levantar. Ele sentiu e me puxou com força de volta a neve, gargalhando.
- Relaxa amor. É neve! – ele pegou um punhadinho com a mão e jogou para o alto, fazendo-a cair sobre nós.
Minha irritação queria protestar, mas eu senti aquela coisa escorregadia e gelada cair em meu rosto, me fazendo rir. Minhas mãos sem luva estavam doendo de tão geladas, mas eu não ligava.
- Neve! – eu guinchei feliz, jogando mais neve para o alto.
- Neve! – ele repetiu, jogando neve novamente em direção ao céu.
Ele virou a cabeça para mim, me olhando vagamente e sem me ver, e começou a movimentar o corpo de um jeito estranho. Levantei a cabeça e percebi o que ele fazia.
- Anjinho de neve! – minha voz era aguda e alta.
Eu comecei a mexer meus braços e pernas também, rindo alto de tão feliz que me sentia.
- Anjinho de neve! – ele repetiu com um enorme sorriso.
Eu me sobrepus a seu corpo, desenhando dois chifrinhos sobre sua cabeça.
- Agora você não é mais um anjinho, só eu! – eu disse, voltando a deitar e movimentar meus membros e dar forma a meu anjinho.
- Ah, você estragou meu anjinho! – ele reclamou, como uma criança que tem o desenho rabiscado por outra. – Vou corromper seu anjo! – ele rolou e pôs seu corpo sobre o meu, me fazendo cócegas em seguida. Eu ri alto, me debatendo. – Fala, quem é o cara mais lindo do mundo? Quem, quem?
- Nããão – eu me recusava a ceder, e ele aumentou ainda mais as cócegas. – Tá bom! É você! É você!
Eu continuei rindo depois que ele parou. Assim que consegui me controlar, ele me deu um selinho. E mais outros. E um longo e molhado beijo. Ou será que era minha roupa que estava molhada? Acho que os dois. A diferença é que sua boca estava deliciosamente quente.
- Me desculpe por hoje mais cedo? – ele perguntou, interrompendo o beijo.
- É claro que sim – eu disse sorrindo e lhe dei outro selinho.
- Eu te amo, sabia? – ele me disse com um sorriso nos lábios e nos olhos.
Nos olhos.
- Eu te amo ainda mais – respondi tentando conter a emoção e euforia, descontando ambos em um beijo caloroso.
- Hey, isso tudo é um plano pra corromper meu anjinho? – eu disse quando já estávamos sem ar.
Ele riu. “Também” respondeu com um sorriso maroto. “Melhor voltarmos pra casa, nossas roupas estão ficando encharcadas”.
- E eu estou mais congelada do que carne no congelador – ele me ajudou a levar, e eu tremi de frio instantaneamente sem seu corpo cobrindo o meu, apesar de não estar mais na cama de gelo em que estávamos deitados antes.
Ele riu e me abraçou fortemente contra si, tentando me esquentar. “Comparação bem próxima essa, mas eu me sinto mais como aquele Chester que mamãe está preparando. Ele passou meses no freezer”.
- Pobre animal – declarei, mas só de ouvir sobre aquela maravilhosa carne que Kathy deveria estar preparando meu estômago parecia repentinamente vazio como se eu não comesse há dois dias, sendo que eu havia comido há menos de três horas.


- VOCÊ ESTÁ TENTANDO MATAR A MENINA?
Os gritos de Kathy eram tão altos e histéricos que todo o prédio provavelmente era capaz de ouvir. Vicky e Roberto conveniente haviam sumido desde que Kathy botara os olhos em mim quando adentrei a porta toda molhada e congelando. Meus dentes batiam freneticamente e eu mal conseguia respirar direito, meu pulmão parecia congelado dentro de mim tanto quanto minhas mãos doloridas.
E como eu me sentia em relação a isso? Feliz. Como o peru que Kathy havia tirado do congelador hoje, mas ainda assim uma ave feliz.
Minha cabeça estava começando a doer, mas o que mais me incomodava eram os gritos de Kathy. não devia estar levando tamanho esporro, ele só estava fazendo a namorada feliz. Só éramos um pouco… irresponsáveis às vezes.
Certo, muitas vezes.
Eu havia tentado explicar que ele não tinha culpa alguma, mas Kathy não queria me ouvir. Ela praticamente havia arrancado minha roupa no banheiro e quase me jogou na banheira com água pelando.
- ELA ESTÁ PROIBIDA DE FAZER ESFORÇOS E A PRIMEIRA COISA QUE VOCÊ FAZ QUANDO ELA CHEGA AQUI É TENTAR TRANSAR COM ELA – eu arregalei os olhos. Ela estava gritando mesmo essas coisas a plenos pulmões? Oh My God. – VOCÊ BRIGA COM A MENINA EM PLENA NOITE DE NATAL. ESTRESSÁ-LA NÃO VAI AJUDAR-LA A SE CURAR !
Afundei mais uma vez na água quentinha, tremendo levemente ao fazê-lo e com esperança de que os gritos desaparecessem, mas não aguentei muito tempo submersa.
- O QUE VOCÊ ESTAVA PENSANDO? QUE BRINCAR NA NEVE SERIA DIVERTIDO? ROMÂNTICO? VOCÊ QUER QUE ELA VÁ PARAR EM UM HOSPITAL EM PLENO NATAL? VOCÊS DOIS ENLOUQUECERAM?
- Mas, mãe, ela nunca tinha visto a neve – ele choramingou pra ela. Sua voz era doce e tudo o que eu queria era poder abraçá-lo naquele momento.
- Ah, certo, aí você resolveu afogá-la na neve e voltarem pra casa encharcados nesse maldito frio com apenas os casacos? Como eu posso confiar em vocês morando aqui sozinhos desse jeito? Vocês não têm responsabilidade nenhuma! São só duas crianças inconsequentes!
- Imagina quando ela souber sobre você – eu sussurrei para Little , acariciando minha barriga que se distorcia pelas leves ondinhas da água. Eu sorri, achando aquilo divertido, tentando ignorar a parte ruim.
- Nós sabemos muito bem nos virar sozinhos, não se preocupe – ele respondeu, provavelmente por impulso.
- ESTOU VENDO! E não me responda novamente! VAI TIRAR ESSA ROUPA E TOMAR BANHO ANTES QUE VOCÊ TAMBÉM FIQUE DOENTE – alguns segundos de silêncio. – O QUE VOCÊ ESTÁ ESPERANDO?
- Você me dá licença – sua voz estava próxima agora, vinda do quarto.
A porta do quarto foi fechada com um estrondo e eu voltei a afundar na água, me sentindo angustiada de repente, culpada. Brigas com pais eram um ponto sensível, me faziam sentir depressiva. Eu rezei para conseguir fazer Little nunca ter dúvida do quanto eu o amava. Ou a amava.
- ? Cadê você? Você se escondeu? – eu emergi ao ver as mãos de tateando acima da água, enxugando meus olhos com as mãos e encarando-o, que agora estava com as mãos em meus cabelos encharcados e grudados. – Ah, você está aí – ele sorriu agachado ao lado da banheira e beijou minha testa. Seus lábios estavam congelados, e então reparei que estavam azulados também.
- Meu Deus, , você precisa se esquentar!
Ele fez uma careta. “, sério?”.
- Ah, foi mal. É que sua mãe ficou repetindo…
Sua expressão era tristonha. “Eu devia ter cuidado melhor de você”.
- , não seja ridículo. Eu estou ótima – Inconscientemente eu dei uma fungadinha.
Ele deu uma risadinha. “Estou vendo”.
- Anda, tira logo essa roupa e vem pra água quentinha. Tá uma delicia – eu sorri infantilmente.
- Hum, curti o convite – e lá estava seu sorriso pervertido. Eu gargalhei.
- Adoro diferenças de temperatura – eu brinquei.
- Sério? – ele começou a se despir. É, lá estava eu com cara de bocó (como sempre) encarando aquele maravilhoso peitoral descoberto. – Isso me dá algumas idéias… - Agora não era apenas seu sorriso pervertido, era uma expressão inteira. – Você podia ter me contado antes.
Quando ele entrou na banheira e suas mãos geladas tocaram a minha pele, que se esquentava gradualmente, era como se um fogo gelado queimasse por todo meu corpo. A água parecia conduzir os choques do contato entre nós com ainda mais intensidade, e eu me dei conta de que eu não precisaria dizer a ele que aquilo havia sido apenas uma brincadeira. Choques de temperatura podiam realmente ser muito excitantes; nós estávamos comprovando aquilo deliciosamente.

Cerca de uma hora depois, houveram batidas insistentes na porta do banheiro.
- O que foi? – perguntou com um tom ligeiramente grosso.
- Morreu afogado? E onde está ? – Kathy perguntou do outro lado da porta, tentando abri-la, mas graças a Deus havia a trancado.
Aquilo me irritou profundamente.
- Estou bem aqui – respondi irritada.
- Oh, desculpe querida, vou procurar .
- Eu tô aqui, mãe – é, ele estava estressado.
Os segundos seguintes de silêncio foram tensos.
- , o que eu disse para você? Será que vou ser obrigada a ligar para Rachel buscar a menina? Você…
Eu franzi a testa, indignada.
- , ela realmente sabe que nós vamos morar juntos? – eu disse para ele por baixo do sermão dela.
Ele me apertou mais forte contra si. “É claro que sabe, deve ser por isso que está surtando”.
Eu sentei em seu colo, começando mais uma vez a beijar seu pescoço. Ele passou a mão por entre meus cabelos molhados e ligeiramente emaranhados, apertando um pouco minha cabeça em aprovação.
- …como posso confiar em você desse jeito. Ande, venha logo se vestir… - Kathy continuava como uma música irritante e insistente de um apartamento vizinho.
- MAS QUE DROGA MÃE, ME DEIXA EM PAZ! – berrou.
Eu me afastei dele assustada. Seu rosto estava vermelho e veia de sua garganta estava minimamente saltada.
Kathy se calou, parecendo finalmente nos deixar em paz.
- Calma, – eu disse com a voz calma, tentando encobrir que aquilo me irritava tanto quanto a ele. Afastei a franja grudada de sua testa. – Sua mãe só está preocupada comigo.
Ele segurou meu pulso antes que eu o abaixasse. “Eu posso cuidar de você sozinho. E eu não estou te machucando, estou?”.
Eu observei a preocupação em seu rosto me sentindo um tanto emocionada, como sempre. Era tão bom saber o quanto ele se preocupava comigo, isso mostrava que eu era importante para ele.
- Você sabe que não está me machucando, e também sabe que eu te avisaria caso estivesse.
Ele sorriu, sua expressão totalmente suavizada.
- Então tá – e me puxou contra ele subitamente, me beijando tão intensamente que a água que já começara a esfriar pareceu começar a ferver a nossa volta.

Capítulo 33
Do ya

Nós enrolamos dentro do quarto quanto pudemos, mas não podíamos ficar ali para sempre. Kathy já havia ido ao quarto pelo menos cinco vezes durante aquelas duas horas, mas nós falávamos que ainda estávamos nos arrumando ou o que viesse na cabeça. Eu não me importava de ir logo para a sala, mas sabia que ainda estava um tanto irritado, então o deixei esfriar um pouco a cabeça até que não houve mais jeito.
- Mamãe disse que vai cortar a cabeça dos dois se não estiverem na mesa de jantar em um minuto – Vicky informou, abrindo a porta.
suspirou enquanto eu o puxava alegremente pelo braço, meu humor recuperado. Ao ver a mesa posta eu podia sentir o brilho reluzindo em meus olhos, refletindo minha fascinação. Há duas horas atrás, tudo estava ainda um tanto bagunçado, apesar da árvore de Natal estar magnífica; mas agora tudo estava perfeitamente arrumado, decorado, uma mesa posta com tanta classe e fartura que era de se esperar que pelo menos dez ou quinze pessoas fossem se sentar ali.
De repente, isso me deu uma certa tristeza. Eles deviam estar acostumados a realmente ter a mesa de Natal lotada, com crianças barulhentas correndo em volta, conversas e risadas altas, não a uma família tão reduzida. Eu queria poder fazer algo por eles, mas não podia. Eu sabia que o membro mais importante que ali faltava não poderia ser sequer convidado. Estava claro enquanto Vicky encarava tristemente a cadeira vazia ao lado de sua mãe o quanto seu pai lhe fazia falta.
- O que foi? – perguntou preocupado.
Eu fui pega de surpresa, só então me dando conta do quanto estava tensa, apertando sua mão com certa força.
Eu sorri para ele com falsa alegria, tentando ignorar o fato de que ele não poderia ver meu sorriso forçado. “Nada amor. A mesa está tão linda! E esse cheiro…”. Meu estômago roncou baixinho em concordância, quase me fazendo rir.
- Finalmente! – Kathy disse, interrompendo sua conversa com Roberto. – Você está linda, querida – ela me elogiou com um sorriso materno e sincero, me fazendo corar levemente.
- Dá uma voltinha pra gente! – incentivou Roberto.
- Hey, hey, nada de voltinhas na frente desse maníaco – interveio sério, fazendo todos rirem e Vicky finalmente despertar de seu triste devaneio com um sorriso.

Aquele não era um Natal com uma imensa família reunida na mesa com crianças correndo por todos os lados, os mais velhos dando sermões e contando histórias repetidas, irmãos se chutando por baixo da mesa e primos conversando. Aquele era um natal simples, apesar de farto e delicioso, isso não era o que contava pra mim. Todos ali estavam machucados por dentro, com feridas não cicatrizadas, com traumas que não esqueceríamos por uma vida. Todos ali sentiam falta de alguém.
Mas todos sorriam. Todos estavam tão animados que não se percebia suas dificuldades. Todos estavam felizes, mais unidos do que qualquer outra família que eu já tivesse conhecido. O calor entre nós era tão forte que eu cheguei a me esquecer que aquela não era originalmente minha família.
Família sempre fora uma coisa que eu considerava ruim, algo que só nos trazia sofrimento e decepção, assim como o amor. Hoje eu percebi que as coisas não eram assim, elas tinham outro lado, um lado do qual eu gostava, que me fazia sentir especial e amada. Feliz. E eu só podia dever isso a , por me apresentar coisas tão maravilhosas.
Nós abrimos os presentes com empolgação, mas Vicky com certeza nos superou nesse quesito. Ela rasgava os pacotes como uma criança feliz, geralmente dando curtos guinchos de felicidade e abraçando o presente - o que me levava a crer que ela havia consumido umas duas Smirnoff Ice escondido da mãe ao longo da noite – e ainda se atrevia a roubar os pacotes da mão de todas as vezes que ele tinha dificuldade em fazê-lo sozinho – ou seja, todas as vezes que ele tentou abrir algum pacote.
Me surpreendi quando um dos últimos presentes foi entregue a . A embalagem era enorme e os nomes de todos os nossos melhores amigos estavam escritos na caixa de papelão, por baixo do papel de presente, em cola plástica preta, o que possibilitava sentir o nome deles em alto relevo. Meu nome também estava escrito ali, apesar de eu não fazer idéia do que a caixa continha.
Havia uma grande mensagem no final que dizia “COME BACK!”, o que na verdade me deixava ainda mais confusa.
De repente parecia um tanto bravo com aquilo, abrindo a caixa. De dentro da caixa ele tirou algo em uma capa preta. Ele bufou nervoso, enquanto sua mãe parecia estar soltando fogos de felicidade.
Ele abriu a capa, revelando uma reluzente guitarra preta.
- Inacreditável – ele reclamou, deslizando os dedos pelas cordas com leveza. – A vadia ainda afinou!
- ! – Kathy ralhou.
- Mas eu já disse que não posso entrar na banda! – ele defendeu, colocando a guitarra no chão. – Não é como se eu simplesmente não quisesse, mas não tem como!
- Que banda? E quem afinou a guitarra? – eu perguntei um tanto desesperada por informação.
- O afinou, é lógico – ele disse, se virando para mim. – Eles querem montar uma banda, e não param de me atormentar me pedindo para entrar.
- O e quem mais?
- O e o , quem mais seria?
- Não sei, poderia ser a ou a ou qualquer um daquela escola.
- Elas sabem tocar alguma coisa? – ele perguntou surpreso.
Revirei os olhos como de costume. “Não, foi um exemplo. A mas amarra os próprios cadarços sem tropeçar e a …”
Mas Vicky começou a rir tão alto que nos assuntou, interrompendo nossa pseudo-discussão.

Já eu tive a incompetência de levantar uma blusa que havia ganhado de para que todo mundo visse. Kathy delicadamente me perguntou se não estava um pouco grande, e logo foi cortada por Vicky falando que era enorme. Eu logo tratei de guardá-la, dando um sorrisinho e falando que a trocaria.
- é sempre exagerada – eu brinquei, fingindo não ver que dentro do pacote havia uma segunda blusa.
- Deve ser mesmo, você teria que estar uma bola pra caber naquilo! – Vicky disse alto.
Eu sorri, respirando fundo. É, adeus corpinho de líder de torcida, eu estava prestes a virar uma bola. Obrigada Vicky, você animou meu dia.
- Ela já está virando uma depois desse jantar! – Roberto brincou se esticando no chão para dar dois tapinhas na minha barriga.
Eu gelei, prendendo a respiração.
- Beto, deixe a pobre garota em paz! – Kathy chamou sal atenção, estendendo-lhe um pacote com seu nome.
Eu estava ligeiramente zonza, sentindo um ligeiro desespero.
- Hahá, a menina está até pálida! – Vicky estava quase rolando no chão de tanto rir da minha cara. É, acho que haviam sido mais de duas Smirnoff Ice.
- Qual é, , você sabe que não está gorda – me defendeu, puxando-me para perto em um abraço de lado.
- É, foi brincadeira – Roberto disse me observando.
Eu voltei a mim e sorri.
- Ah, certo – dei uma risadinha, voltando aos meus presentes.
Aliás, eu nunca havia recebido tantos presentes na minha vida. Dessa vez eu fui mais cuidadosa ao abri-los, agradecendo mentalmente por isso quando me deparei com uma roupinha de bebê azul super fofa em um dos pacotes. Era de . Meus olhos se encheram de água, e eu tive que escapar para o banheiro para que ninguém percebesse, aproveitando para levar o pacote e escondê-lo no caminho. Ma não sem antes espiá-lo novamente. Era quentinho e macio, como uma toalhinha. Eu reparei que ali havia também uma toca e um par de luvinhas tão pequenas que não davam metade da minha mão. Era um conjunto lindo.
Parei em frente ao espelho no quarto de e levantei meu vestido, prendendo-o com o queixo e mostrando a roupinha para minha barriga. Para Little Jones.
- Eu sei que é azul, mas isso não quer dizer que você vá ser um menino – eu sussurrei. – Você pode ser uma linda princesinha que veste azul, como a Cinderela. Mas eu não gosto da Cinderela, então não seja como ela.
Eu mirei minha imagem no espelho. De repente eu me sentia gorda. Talvez eu tivesse comido demais realmente ou minha barriga estava realmente enorme daquele jeito?
- Coisinha espaçosa – eu brinquei, acariciando minha barriga.
- Com quem você está falando? – uma voz grossa perguntou da porta.
Eu me assustei dando um pulo e escondendo automaticamente a roupinha atrás de mim, até me dar conta de que era e ele não veria. Me senti aliviada, correndo para o guarda-roupa e enfiando a roupinha no fundo da minha mala que estava ali dentro.
- É esse casaco da minha mala, ele é tão espaçoso! – eu menti.
- Certo, me dê ele aqui que eu o penduro no cabide pra você – ele ofereceu, seguindo o som da minha voz.
- Não precisa – eu me apressei a dizer já fechando o guardarroupa. – De qualquer jeito – por que você não quer formar uma banda com eles? Eu achei que eles tocavam bem, assim como você.
- É claro que eles tocam bem, mas eu não posso entrar na banda porque, não sei se você já chegou a perceber , eu estou inválido – ele disparou.
- Você está o que? – eu perguntei com a voz estridente.
- Inválido – ele repetiu sem medo de morrer. Ele deveria ter, pois eu estava ficando realmente estressada.
- Você está brincando comigo, ? – minha voz estava aumentando o tom e ficando ainda mais estridente. – O que você quer dizer com inválido? Você não tem nada de inválido, só de burro! Você precisa da droga dos seus olhos pra tocar? Até onde eu lembro você mal olhava pra guitarra quando enxergava, por que agora isso?
- E você acha o que? Que a banda teria algum futuro com um cara como eu e ainda por cima cego? Nós nem conseguiríamos uma gravadora desse jeito. Como poderíamos ter fãs? Eu estaria apenas empacando a vida deles – ele cruzou os braços no peito, a cara fechada e a testa franzida.
- Quer dizer que todo o seu talento, sua voz maravilhosa, o jeito como você toca e seu carisma não contam, não valem de nada?
- Não nos dias de hoje.
- Então você vai desistir de tudo que mais ama assim facilmente, sem ao menos tentar? Então nós nunca conseguiríamos ter um futuro também, nunca poderíamos ser felizes e ter uma família feliz juntos porque você é cego?
- Uma família? – ele descruzou os braços, parecendo achar graça. – Você acha que eu conseguiria cuidar de outra pessoa sendo que mal consigo andar na minha própria casa sem tropeçar? Eu mal consigo cuidar de você! Não estou desistindo de nada, só não há pelo que lutar no meu estado.
Aquilo me atingiu com impacto, enchendo meus olhos de lágrimas, mas eu não o iria deixar senti-las em minha voz.
- Eu não preciso que você cuide de mim! – protestei indignada. – Isso é a ultima coisa que eu iria querer, posso muito bem me virar sozinha! Obrigada por me informar que eu estou investindo nesse relacionamento sozinha, obrigada mesmo. Por que eu deveria continuar com você com essa proposta tão promissora de vida? Determinação é o que não parece te faltar.
- É uma coisa que eu também não entendo, porque você está comigo.
Eu caminhei para sair do quarto, mas ele estava na porta e segurou meu braço assim que percebeu o que eu iria fazer.
- Não foi isso que eu quis dizer, – ele disse arrependido. – É algo que eu não entendo mesmo, mas não foi nesse sentido.
- Eu estou com você porque eu te amo, isso é mais do que óbvio – eu respondi recuando um passo enquanto ele me soltava. – E eu amo muitas coisas em você, mas uma coisa que não combina com você é essa auto-piedade. Isso simplesmente não faz parte do que você é, então pare com isso. O homem por quem eu me apaixonei nunca diria essas coisas, nunca deixaria algo vencê-lo. Você devia repensar se você realmente quer desistir de tudo e se deixar afundar ou se você quer lutar por nós e pelos seus sonhos. Me desculpe, , mas eu só vou poder estar ao seu lado para te ajudar em uma das suas escolhas. Nossos problemas estão só começando, você já devia saber disso.

No decorrer da noite eu fui esquecendo o fato de estar escondendo algo tão importante daquela família que me acolhia com tanto carinho, podendo sorrir mais sincera, me sentindo novamente segura. Esquecer talvez não fosse exatamente o caso, pois estava cada vez mais difícil não pensar em como aquela criaturinha que estava dentro de mim estava crescendo. Eu estava tentando ignorar apenas, fingir que era algo normal. Eles iriam saber... Um dia.
Nós só notamos que já estava mais do que tarde quando Vicky apagou no sofá. Ela havia escapado mais duas vezes para a cozinha e sempre voltava sorrindo, o que só me dava mais certeza de que ela provavelmente havia pegado mais bebida do que deveria no mercado sem que visse.
Eu, Roberto e Kathy apenas nos preocupamos em guardar a comida na geladeira antes de nos dirigirmos a nossos respectivos quartos – com Vicky babando nos braços de Roberto enquanto ele a carregava para o dela.
Kathy tentou insistir em me fazer dormir separada de , alegando que eu não podia fazer esforços e ele não me deixava em paz, mas ele apenas se jogou na cama e começou a roncar alto em menos de um minuto, me dando o argumento de que ele não conseguiria me perturbar nem que quisesse no momento. Ela lançou um olhar suspeito ao corpo de , mas acabou suspirando cansada e desejando uma boa noite.
Coitada, quem vê até pensa que não sou eu que na metade das vezes é quem começa a arrancar as roupas dele.
Vesti meu pijama apenas com a pressa de deitar logo e, quando o fiz, senti que meus ossos estavam moídos.
- Finalmente ela nos deixou em paz – sussurrou em meu ouvido na escuridão, me fazendo sobressaltar na cama como um golfinho.
- Que droga , você sabe que eu odeio que me assustem! – eu puxei as cobertas para mim, sabendo que isso o descobriria um pouco.
- Shhh – ele reclamou, puxando os edredons de volta e também a mim, me abraçando por trás. – E desde quando você tem esse ódio todo por sustos? Eu vivia fazendo isso na escola!
- É porque você é um idiota – respondi brava, o que na verdade soou um pouco choroso, e abracei um pedaço do edredom.
- Hey amor, você tá bem? – ele me abraçou mais forte, juntando seu corpo no meu e eu agarrei seu braço que estava ao meu redor com força, com certa urgência. – O que você tem? Por que você tá assim?
- Você sabe que eu odeio que fiquem me perguntando isso quando eu não to bem! – meus olhos estavam começando a acumular água e aquilo estava me irritando. Imagens das coisas que eu havia passado há um mês corriam em flashes na minha mente, me deixando perdida e assustada.
Ele passou as mãos por meu cabelo, me virando para ficar de frente a mim e me abraçou fortemente.
- Você não tem com o que se preocupar mais, sabe disso – ele sussurrou contra meus cabelos, me deixando aninhar em seu peito.
- Isso não é verdade – eu tentei manter minha voz firme, mas ela acabou por falhar.
- Mas nós estamos bem, aquilo tudo já passou.
- Não, , eu não sinto como se já tivesse passado. É como se tudo estivesse ainda ao meu redor, tentando me sufocar!
- Hey, hey, querida, olhe para mim – ele levantou meu queixo, se afastando para que eu pudesse ver seu rosto. Ver teoricamente, eu quero dizer, já que eu só tinha uma fraca visão em meio a aquela escuridão, da qual provavelmente ele não havia se dado conta. Tudo sempre devia ser escuro para ele. – As coisas podem estar parecendo um pouco instáveis pra você, mas nada de ruim vai nos acontecer mais, eu prometo.
- E como você pode ter tanta certeza?
- Ah, amor, você nunca ouviu falar que cegos desenvolvem ainda mais os outros sentidos? Então, eu estou desenvolvendo o meu sexto sentido, como a esquisita da .
Algumas lágrimas ainda escorriam próximas a minha boca, mas eu não pude evitar gargalhar e dar um tapinha em seu peito.
- , coitada da , ela não é esquisita! – eu a defendi, ainda rindo.
- Qual é, ela não te assusta, não? – ele ria junto comigo, aproveitando minha distração para morder minha bochecha.
- Aí! E não, ela não me assusta, eu devia é escutá-la mais.
- Hmm – agora a mordida havia sido trocado por curtos beijos em meu pescoço, os quais me arrepiavam inevitavelmente. – Mas voltando ao assunto – ele sussurrou contra meu pescoço –, eu acho que estou desenvolvendo uns sentidos bem legais.
- Ah é, quais? – eu infiltrei minha mão em seus cabelos, acariciando-os.
- Olfato – ele passou o nariz suavemente por meu pescoço, respirando meu perfume. – Paladar – ele fez uma trilha de beijinhos subindo para meu maxilar e minha boca, invadindo meus lábios sem precisar de permissão. – Tato – ele sussurrou em meio ao beijo, descendo uma mão até minha bunda e a apertando.
Eu não pude deixar de rir, mas tentando não interromper o beijo. É claro, logo estava ficando empolgadinho, mas eu tive que cortá-lo. O problema é que eu também já estava empolgadinha.
- – eu chamei, tentando afastá-lo um pouco.
- Droga – ele reclamou meio choramingo enquanto se afastava, ainda com os braços ao meu redor, e soltava o ar pesadamente.
- Desculpa – eu sussurrei, me sentindo péssima.
- Vou fingir que não te escutei pedindo desculpas por isso – ele disse parecendo bravo. – Sua doença não é culpa sua.
- Doença? – eu disse sem pensar, levando minha mão à barriga. – Não fale isso.
- Estado, recuperação, seja o que for. Aliás, eu ainda não entendi o que há de tão errado…
- Vou no banheiro, já volto – foi a primeira desculpa na qual pude pensar para interromper a conversa, o que infelizmente me fez sair da cama confortável.
Eu enrolei no banheiro o quanto pude, o que me deu muito tempo para me observar no espelho. Eu estava com uma aparência um tanto cansada, olheiras ficando visíveis. Isso abaixou um pouco minha auto estima, ainda mais quando eu pensei em como o resto do meu corpo estaria em pouco tempo. Como eu iria esconder minha barriga? Como eu iria lidar com ela? Não, o pior de era: como iria lidar com ela?
Antes que percebesse eu estava assoando meu nariz. Não, eu não estava chorando, apesar de meus olhos arderem com a vontade. Eu estava ficando doente.
Por um instante, isso me apavorou. Eu tive que respirar bem fundo para relaxar um pouco e perceber que seria apenas um resfriado. Se eu me cuidasse, meu bebê ficaria bem. Pelo menos ao ir me deitar já estava roncando – o que teria dificultado meu sono se eu não estivesse tão cansada.

- Tá acordada? – uma voz rouca sussurrou em meu ouvido, e eu não sabia se eu ainda estava sonhando ou se estava acordada, pois eu me sentia extremamente aquecida e protegida. Era uma sensação boa demais para se pensar na palavra realidade.
- Não sei – respondi sinceramente.
Ele soltou uma risada próxima a meu ouvido, o que me arrepiou, e tossiu em seguida. Sem perceber, eu tossi também.
- Você está bem? – ele perguntou, me abraçando em conchinha e acariciando minha cintura por debaixo do edredom.
- Estou ótima – respondi com a voz rouca.
Ele depositou beijinhos por meu pescoço, afastando meu cabelo par continuar o caminho por minha nuca. Fiz um som de satisfação, quase ronronando.
- , você me ama? – ele perguntou, tossindo alto em seguida.
Eu me virei para ele, preocupada.
- Você está bem? - Ele, que tinha se sentado para tossir, voltou a deitar, me chamando para deitar sobre seu peito. Me aninhei ali sem protestar, logo notando sua respiração um tanto presa. – , você tá doente! – eu o repreendi, me ajeitando em seu ombro agora para encará-lo. E então foi minha vez de tossir.
Ele riu da minha cara. “Você também”.
Eu pigarreei, percebendo então que ele estava certo. Agora que eu havia me dado ao trabalho de me mexer, tudo parecia mais pesado, meu corpo dolorido, inclusive minha garganta.
- Droga – reclamei com a voz pesada, sentindo minha garganta doer.
- Desculpe – ele pediu sincero, encarando meu nariz. Mas eu sabia que a intenção eram meus olhos.
- Não seja absurdo , não é sua culpa.
- É sim.
- Não, sua mãe colocou isso na sua cabeça, mas não é. Eu vou ficar bem, é só uma dor de garganta, e você está tão ruim quanto eu.
- Nós vamos mesmo discutir? Porque cada palavra dói... – ele não finalizou, apenas fez uma careta meio morta.
- Nós não estamos discutindo! – protestei ofendida.
Ele sorriu convencido. “Agora estamos”.
- Idiota – eu respondi rindo levemente.
- Estressada – ele retrucou, segurando minha cabeça e dando um beijo estalado em minha testa. Meio babado também, por sinal.
- Saai, você tá babando na minha testa! – eu reclamei, empurrando ele.
- Ah, você rejeita minha baba agora? – ele continuou segurando minha cabeça e passou a língua pela minha testa.
Eu queria xingar ele, mas não conseguíamos parar de rir, mesmo que isso incluísse tosses que arranhavam nossas gargantas.
Quando nos acalmamos e deitamos novamente, voltou a ficar sério.
Era realmente uma sorte que ele fosse sexy sério, já que ele vivia ficando assim de repente. Mas ainda assim nada se comparava ao quanto seu sorriso era luminoso para mim.
- Não, é sério , você me ama? – ele me encarou, dessa vez focando melhor meus olhos.
- É claro que eu amo – eu respondi, acariciando seu rosto. – Mais do que tudo, .
- De verdade?
- Totalmente.
- E você acha que me amar está – ele parou para tossir – está valendo à pena?
- Cada segundo – eu respondi, passando a ele toda a certeza e segurança que eu tinha sobre isso.
- Mas você está comigo porque me ama? É simples assim?
- É claro que sim, achei que também era assim pra você.
- É assim, mas você... é diferente você conseguir me amar com tanta facilidade com tudo isso, todos os meus problemas.
- , não é como se fosse simplesmente fácil, mas é simplesmente impossível não te amar. – Eu senti minhas bochechas esquentarem em meu sorriso. – As coisas estão mais difíceis agora em nossas vidas por causa de todas essas mudanças, mas isso não muda o que eu sinto por você.
- Mas eu acho que também mudei, eu não mais exatamente quem você conheceu...
- E descobrir como você realmente é tem que ser uma coisa ruim? Porque cada coisa nova que eu descubro em você a cada dia só me faz me apaixonar ainda mais por você, se é que isso é possível.
Ele sorriu. “Sei como é, parece que todos os dias você acha um novo jeito de me fazer apaixonar por você novamente”.
Eu sorri largamente de volta, vendo-o se espreguiçar erguendo um pouco o corpo, e então cair pesadamente de novo na cama. “Ainda está com sono?” perguntei baixinho.
- Uhum – ele respondeu sem abrir os olhos, apenas me puxou para que eu deitasse a cabeça em seu ombro.
Sem mais palavras, apenas poucas tosses, nós voltamos a dormir.
Meu plano no momento era apenas continuar deitada ali até não agüentar mais, dormir nos braços de e apenas ter um dia calmo de preguiça, tendo ignorar o quanto pudesse meus problemas.
Bom, esse era meu plano, mas parece que tudo conspira contra minha paz, mesmo que ela fosse apenas ilusória no momento. Bom, talvez nem tudo conspirasse contra mim, somente uma parte da minha vida. Minha família.

Capítulo 34
Papa Don’t Preach

Algum barulho diferente me despertou, e eu vagarosamente identifiquei na mesma cama que eu. Em poucos dias, eu estaria morando ali, acordaria ao lado dele assim todas as manhãs, e isso me fez sorrir. Acariciei seu cabelo com cuidado para não acordá-lo – se é que acordá-lo tão facilmente era possível.
Quando o som do telefone ecoou da sala pelos corredores até chegar ao nosso quarto, identifiquei que havia sido o que me acordara.
Nosso quarto, me dei conta de como havia pensado enquanto colocava a camisa que havia usado ontem e estava jogada no chão. Mesmo sendo minha primeira noite ali, eu me sentia estranhamente confortável e familiarizada.
- Oi – atendi sonolenta, esfregando os olhos.
- ? – a voz da minha mãe chamou do telefone. – Onde você está? Que histórias são essas que você tem deixado no meu correio de voz?
Eu demorei alguns segundos para assimilar, não só pelo sono, mas pela falta de costume com a língua portuguesa.
Eu dei um longo bocejo antes de responder, tendo que me esforçar um pouco para formular a resposta em português, enferrujada e sonolenta. “Estou na casa do , mãe, meu namorado, tá lembrada?”.
- E você acabou de acordar? Você dormiu aí? Onde está a mãe desse garoto? – ela disparou, forçando meu cérebro a acordar e trabalhar para conseguir acompanhar todas as perguntas. – Vocês não dormiram no mesmo quarto, certo? Onde está Rachel?
- Qual das perguntas você quer que eu responda primeiro? – É, minha mãe me estressa.
- Não tenho tempo para gracinhas, – ela reclamou, nervosa.
- Você quer explicações? Certo, lá vai: Estou na casa do meu namorado junto com a mãe dele e a irmã; mas, de qualquer forma, é aqui que vou morar daqui alguns dias, mas você parece estar ocupada demais pra me ouvir esses dias. Ou melhor, semanas.
- O tal do ? Mas esse garoto não estava cego? E.. o que? Como assim a senhorita acha que vai morar com ele? Há, essa é boa: “Vou morar com ele” – ela ironizou irritantemente.
- É ele mesmo, e não me importa se ele está cego, paraplégico ou morrendo, eu vou ficar com ele de qualquer forma. Se chama amor, mamãe, talvez você devesse experimentar isso qualquer dia. E eu não acho que eu vou morar com ele, eu vou! – a raiva já falava mais alto em minha voz, me tirando qualquer senso, pois como sempre, ela era uma das poucas que conseguia fazer isso comigo.
- Você não vai morar com um garoto cego, ficou maluca?! Nem que ele estivesse enxergando, isso não é aceitável, você acabou de terminar o ensino fundamental e acha que é dona do próprio nariz? Imagine quando Rachel e Eric ficarem sabendo do seu planinho infantil como não vão se sentir.
- Não me importa o que você pensa sobre isso, eu vou morar com ele e pronto. Eu sou dona do meu nariz desde que deixei o Brasil, se você ainda não percebeu, eu já aprendi muito bem a me virar sozinha. E, só para o seu governo, Rachel e Eric já estão sabendo disso.
- Mas isso é um absurdo! Nunca que eu vou deixar você ir morar com esse garoto que nunca vi antes na vida! – ela gritava esganiçada do outro lado do telefone. – Por que raios você iria fazer uma coisa dessas? Você ainda nem cresceu direito, não sabe do que está falando. É só mais um daqueles seus planinhos idiotas adolescentes pra me tirar do sério…
- Nem tudo gira ao seu redor! – gritei, começando a sentir lágrimas de ódio queimarem meus olhos. Eu não iria chorar, não mesmo.
- Olha como fala comigo sua pirralha desgraçada e mal agradecida, ainda sou sua mãe! – ela ralhou do outro lado, quase me engolindo pelo telefone. – Você está sob restrição médica, como um ceguinho iria cuidar de você? No mínimo, ele não bate bem da cabeça. Vocês têm praticamente a mesma idade, são duas crianças. Você acha que pode juntar suas coisinhas e ir morar na casa de um cara que você mal conhece só porque ele diz que supostamente te ama e tudo bem? Isso nunca vai dar certo, você está fora de si. Se continuar a insistir nessa bobagem vai ter que voltar pro Brasil!
- Ficou maluca? – disse estupefata. – Você me manda pra um país diferente, longe de você e de todos que eu conheço e agora vem dar uma de mãe protetora e fingir que se importa comigo? Não, eu não tenho que ouvir essas coisas. Você mal cuidava de mim quando eu morava aí! E não fale do assim, você não o conhece para julgá-lo. Ele é mil vezes melhor do que você. E você não pode me mandar voltar para o Brasil, não estou mais sob sua guarda.
- Cala a boca! E eu posso falar o que eu quiser desse pirralho, ele só deve estar te usando, assim como Jack fazia. Você vai voltar para o Brasil essa semana, maldita, e vai ficar de castigo pelo resto da sua vida! E esse garoto não te ama, encare isso. Você está sendo é iludida como a pirralha inútil e incompetente que é. Você parece não viver nesse mundo. Depois de toda a lábia do Jack você vai cair na dele agora? Talvez, afinal, o problema não fosse Jack então. Fosse você.
Era assim sempre, ela adorava atacar minhas feridas. Eu tive que tampar o telefone para não deixá-la ouvir meus soluços de choro. Eu nem havia percebido que havia começado a chorar antes. Eu me sentia desolada, com uma raiva infinita.
- Castigo? Você nunca teve autoridade sobre mim, não queira tentar agora, está ficando feio pra você – eu funguei alto sem querer. – Ele me ama sim! E eu não sou uma pirralha inútil e inco-o-ompetente – gaguejei, tendo engolir o choro para continuar a falar. – Eu não estou sendo iludida. Se você nunca conseguiu o cara que amou e quebrou a cara, se meu pai fugiu de você, isso não quer dizer que todos os homens tenham problemas e sejam iguais. Quer dizer que ele não te suportava, assim como nem eu nem ninguém te suporta! – eu fechei os olhos, sem conseguir conter o choro em minha voz.
- Cala boca sua idiota, você não pode falar assim comigo!
- Vá para o inferno! – eu não segurava minha língua e o respeito entre nós havia morrido há muito. – Eu te odeio! Fique longe de mim! Eu estou grávida e vou morar com o pai do meu filho e sou bem mais madura que você! Vou ser uma mãe de verdade para ela, não o que você foi pra mim. Adeus. E, ah, Feliz Natal.
Quase quebrei o telefone ao colocá-lo de volta na base e me joguei no sofá a alguns passos de mim, afundando minha cabeça nas almofadas para abafar meus gritos de ódio, enquanto eu chorava e soluçava incontrolavelmente. Minha mãe não me apoiava, ela me odiava desde sempre. Ela não entendia o quanto tudo aquilo era difícil para mim? Por que minha mãe não podia me amar? Era assim tão difícil alguém me amar, mesmo ela sendo minha mãe? Eu soquei o sofá, tentando extravasar minha raiva, mas o que eu queria mesmo era socar o nariz de alguém, ou pelos menos ter forças para isso. Só quando o telefone voltou a tocar foi que me dei conta de que eu não estava mais soluçando e sim sufocando.
Madita! Maldita! Mil vezes maldita!
E eu me odiava ainda mais por estar assim por causa dela, mesmo depois de todos esses anos de brigas e tudo o mais. Como eu podia ser tão fraca e tê-la deixado me atingir assim novamente com suas palavras, sempre penetrando na carne viva?
Fui para o chão e me arrastei até o telefone. O coloquei na orelha, desejando mais que tudo que ela dissesse algo que me acalmasse.
- SUA VACA MALDITA, COMO ASSIM ESTÁ GRÁVIDA?! – ela berrou do outro lado do telefone, me ensurdecendo. – SUA VADIA, COMO OUSA. Isso é tudo pra me atacar, não é? Não é possível, eu te mando aí achando que o Jack estava te maltratando aqui e você engravida de um vagabundo qualquer, que ainda está cego! Pare de fazer gracinha, garota – ela exigiu, se referindo ao meu sufocamento e choro. - Acha que vai conseguir cuidar dessa criança? Eu estou indo aí essa semana e nós vamos cuidar disso…
Eu estava totalmente tonta e, assim que o telefone foi tirado de minha mão, eu me arrastei pelo carpete de costas até encostar contra o sofá, sufocando entre o choro, desesperada por algum ar. Meu bebê estava dentro de mim, eu não queria sufocar, eu tinha que respirar. Mas nada vinha a minha mente para me acalmar, tudo que tinha ao meu redor parecia me sufocar e apertar com suas palavras duras e maldosas.
- ESTÁ TENTANDO MATAR ELA?! – gritou em inglês para o telefone, me pegando de surpresa.– Quem é? - segundos de silêncio. – E O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO COM ELA? O... o que? – mais alguns instantes de silêncio. Eu estava achando que iria morrer a qualquer segundo por falta de oxigênio, meu corpo escorregava lentamente para o chão. – Eu não consigo entender porra nenhuma. Ora, quer saber, volte para o inferno!
Eu gritei de dor, não fazendo idéia de onde eu havia conseguido ar. Eu só sabia que doía dentro de mim, algo além do meu corpo.
tropeçou até mim, me puxando para seu colo. - Se acalme, meu amor, já passou – Ele apoiou meu tronco mole contra seu peito, segurando minha cabeça para cima. – Respire meu amor, respire! – ele pedia tentando controlar seu desespero. Eu tentava puxar o ar, mas ele não entrava. – Eu estou aqui, meu anjo, por favor. Nós estamos juntos, pense nisso. Se acalme, estou aqui. – Ele deu um beijo em minha testa. – Se concentre apenas na minha voz, está bem? Such a long long way to go – ele cantou, com a voz nervosa e meio dura, mas eu me esforcei para concentrar nela. – Where I’m going I don’t know…
Ele cantou para mim até que eu me acalmar lentamente, deitando minha cabeça em seu peito, fungando baixinho. “Eu te amo” ele sussurrou contra meus cabelos, me dando um beijo na testa.
Um sorriso sincero se formou em meus lábios e eu o abracei pela nuca, afundando minha cabeça em seu pescoço.
- Obrigada, , por existir – eu agradeci sincera.
- Você sabe que eu vou estar do seu lado pra tudo – ele me apertou forte em seus braços. – Você é minha pequena e eu vou sempre estar aqui pra te proteger.
Eu me senti inimaginavelmente tocada e amada naquele momento. era tudo o que eu precisava, e eu o tinha. Nós o tínhamos.
- Eu te amo, – foi tudo que consegui responder, deixando que algumas lágrimas de emoção rolassem por meu rosto até sua pele descoberta.
Eu estava feliz por estar calma novamente, tão segura em seus braços. Mas, é claro, ela não desistia tão fácil assim da minha infelicidade, e o telefone voltou a tocar. Eu me encolhi nos braços de , sentindo as lágrimas voltarem a queimar meus olhos, prontas para saltarem para fora deles. me tirou de seu colo, ignorando minha tentativa de mantê-lo ali, e se levantou furioso. Ele pareceu ainda mais furioso por ter que ir tão devagar em direção ao telefone, tentando não tropeçar nos próprios pés. Eu me encolhi contra o encosto do sofá, fechando os olhos, na torturante espera pelos gritos, mas não foi esse o som que eu ouvi. Foi de algo maciço batendo forte contra outra superfície. Assustada, percebi que fora o som do telefone batendo contra a parede. Um pedaço dele havia soltado, e permanecia parado ao lado do mesinha onde o objeto estivera a segundos atrás. Ele respirava profundamente, as mãos fechadas em punho.
- Quem era, ? – disparou pra mim, ainda de costas. Seu tom fez com que eu me encolhesse ainda mais.
- Minha mãe – eu choraminguei.
- Sua… o que? – ele se virou na minha direção, o olhar direcionado para o topo da minha cabeça. Sua voz então se tornou mais preocupada do que nervosa – O que ela falou pra você? Por que você está assim?
Ele se juntou a mim novamente, me colocando em seu colo novamente. Eu não respondi, apenas voltei a soluçar contra seu peito. Ele me apertou com mais força, fazendo carinho em meu cabelo.
- O que está acontecendo? – Kathy perguntou atrás de mim. – Meu Deus, você está bem? Eu estava no banho, e ouvi aqueles gritos.
- Shh – pediu a mãe, segurando minha nuca para que eu não me virasse para ela. – Está tudo bem mãe, eu cuido dela.
Eu não pude deixar de sorrir levemente ao ouvir isso, tentando segurar o choro na presença de Kathy. O que não foi uma boa idéia, pois aquilo dificultou minha respiração, e eu levei mais algum tempo até conseguir me acalmar.
- Aqui – Vicky me estendeu um rolo de papel higiênico de repente, me fazendo sorrir. Eu o peguei um pedaço e assoei meu nariz, sentindo minha respiração mais limpa finalmente.
Eu sibilei um agradecimento para Vicky, que se afastou sem dizer mais nada, deixando o rolo de papel higiênico ali no chão. passou as mãos por meu rosto, afastando os cabelos de meu rosto tão molhado quanto seu peito nu.
- Ainda tem papel aí? – ele pediu, e eu destaquei um pedaço para ele e enrolei antes de lhe dar. Ele assoou o nariz com tanta força quanto eu havia feito. – Valeu.
Eu passei a mão por seu rosto, sorrindo feliz apenas por tê-lo ali. Sua pele estava anormalmente quente.
- – de repente eu estava alerta colocando a mão em sua testa. – Acho que você está com febre.
- Não, eu estou bem – ele direcionou os olhos para mim, sorrindo docemente e me dando um selinho.
- Certo, se você não está com febre está tão quente por quê? Está virando um lobisomem?
Ele riu. “Não, é só a calefação que está me esquentando”.
- Sério? Porque eu não estou quente assim e estou na mesma casa. Você acha realmente que eu vou engolir essa?
Ele fez uma careta, como se tivesse esperança que sim. Eu me levantei, irritada – o que na verdade era só para que ele me obedecesse porque eu estava preocupada – e o puxei comigo, o levando para o quarto e fazendo com que ele se deitasse. Seus protestos eram de que ele não estava com sono nem com fome, mesmo assim eu o ficar na cama enquanto eu ia na cozinha fazer um chocolate quente e pegar algum remédio.
- Você está melhor, querida? – Kathy apareceu na cozinha, me sobressaltando.
Eu confirmei com a cabeça, respirando fundo para acalmar meu coração. Até um pequeno susto me abalava após minhas crises.
- Kathy, me perdoe pelos gritos, eu realmente sinto muito – eu disse envergonhada, queria enterrar minha cabeça no andar debaixo.
- Tudo bem querida, com quem você estava falando? Está tudo bem agora? – ela soava realmente preocupada apesar da curiosidade também estar ali.
- Ah, era minha mãe – eu respondi sem pensar, e então vi a cara dela, provavelmente chocada que eu gritasse daquele jeito com minha própria mãe. – Nós temos uma relação difícil, desculpe. Prometo não gritar mais aqui. Onde está o leite? – Eu estava totalmente perdida naquela geladeira lotada de comida da noite passada.
- Se eu gritasse daquele jeito com minha mãe… - dessa vez foi Vicky quem me sobressaltou, fazendo então um sinal com a unha riscando a própria garganta, indicando que Kathy a mataria.
- As caixas de leite estão naquele armário ali embaixo – Kathy a interrompeu, fazendo uma cara brava para ela, como se ela tivesse sido mal educada.
- Obrigada. – Eu abri o armário e tirei uma caixa de leite de lá. – Minha mãe também me mataria se ela pudesse – aquilo soou mais dramático do que eu pretendia.
- Oh, não fale uma coisa dessas querida! – Kathy disse indignada.
Eu sorri tristemente, desejando que minha mãe fosse como ela ou Rachel.
- Você não a conhece.
- Por que vocês estavam brigando? – Vicky perguntou curiosa.
- Ah, ela não está muito feliz com essa história de eu vir morar com meu namorado, disse que ia me levar de volta pro Brasil, mas eu duvido. Ela só está irritada, provavelmente acha que ele é como Jack. Ela não sabe nem que estou… doente. Ela não iria me querer lá se soubesse que ia ter que cuidar de mim.
- Quem é Jack? Seu ex-namorado? – Kathy arriscou. – O que havia de errado com ele?
Eu soltei o ar pesadamente, colocando o leite na panela e ignorando as lágrimas que me surpreenderam ao queimar meus olhos.
- É, e minha mãe não gostava muito dele – eu disse, escondendo o fato de que ele era um maldito psicopata. – Ela não entende que é diferente de todos os outros homens.
- Se você quiser eu posso conversar com ela, querida – Kathy ofereceu.
- Obrigada – eu agradeci sincera. – Mas provavelmente ela não entenderia metade do que a senhora fala, ela não é muito boa em inglês. Eu tenho que ficar traduzindo as conversas dela com Kathy.
- Haha, aposto que você nem tira proveito disso, né? – Vicky ironizou e Kathy fechou a cara para ela novamente. – Que?
- Bom, você pode traduzir nossa conversa então – ela insistiu.
Eu concordei. Aquilo não podia ser tão ruim… Era o que eu achava.

- Oi – minha mãe atendeu do outro lado da linha normalmente quando liguei para o telefone fixo de casa. É claro, só porque ainda não sabia quem era.
- Mãe…
- É VOCÊ SUA VAGABUNDA? COMO OUSA DESLIGAR NA MINHA CARA E DESLIGAR ESSE TELEFONE?
Eu teria desligado naquele mesmo momento se Kathy não estivesse me observando de frente. Respirei fundo e apertei o viva-voz do telefone agora rachado e com pedaços faltando.
- Kathy quer falar com você, mas eu vou ter que traduzir – disse tentado parecer indiferente aos gritos dela.
- QUEM DIABOS É KATHY?
- É a mãe de , agora, se você puder parar de gritar eu iria agradecer.
- PERGUNTE ENTÃO A ELA COMO VOCÊ PODE ENGRAVIDAR EMBAIXO DO NARIZ DELA, QUE TIPO DE MÃE É…
- Pare de gritar! – eu aumentei um pouco o tom de voz para me fazer ouvir, mas eu não iria gritar na frente de Kathy. Vicky estava sentada a meu lado, observando calada. – Ela é uma ótima mãe, com certeza melhor do que você. – Ela voltou a gritar, mas eu apenas ignorei. – Agora eu vou traduzir a conversa de vocês. Pode falar Kathy.
- Dê um oi pra ela – Kathy disse, tentando sorrir pra mim.
- Ela disse oi pra você – eu traduzi.
- Oi.
- Oi – eu respondi para Kathy.
- Bom, eu queria dizer que é um ótimo menino, e que aqui na Inglaterra as coisas devem ser bem diferentes do Brasil. Aqui está tudo bem, eu estou de olho em vocês dois e você está sendo muito bem cuidada – Kathy disse e eu traduzi para minha mãe, que murmurou coisas que eu ignorei, pedindo para Kathy prosseguir. – E Rachel também tem feito isso muito bem, ela está se preocupando á toa. E vocês dois também já não são mais crianças, estão bem acostumados a se virar. Não há com o que se preocupar, tudo está melhorando aqui aos poucos, se reajustando.
- É só isso que ela tem pra me dizer? – minha mãe parecia ainda mais irritada. – Que vocês estão sendo bem cuidados? É, posso ver mesmo. E o que ela pretende fazer quanto a sua gravidez? Como as coisas podem estar se reajustando? Essa mulher só pode estar louca.
- Ela não é louca, tudo aqui está perfeitamente bem, você que está pirando. Tudo está bem aqui, eu não preciso de nada a mais, está tudo mais que perfeito aqui!
- EU ESTOU PIRANDO? COM QUEM VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FALANDO SUA CRETINA? EU JÁ LIGUEI PRO SEU PAI, MAS ELE TAMBÉM TRABALHA. O QUE DIABOS VOU FAZER COM VOCÊ? VOU LIGAR PARA RACHEL TE LEVAR AO AEROPORTO ASSIM QUE O DINHEIRO DA PASSAGEM CAIR NA CONTA DELA…
- VOCÊ O QUE??? - eu berrei tirando o telefone do viva-voz. – MEU PAI? MEU PAI? EU NÃO TENHO PAI!
- Não seja estúpida, é claro que você tem, e é com ele que você vai morar assim que tirarmos essa coisa de dentro de você, porque eu não posso mais te suportar aqui, não com você sendo essa vadia inútil…
Eu fiquei paralisada, sem conseguir nem ao menos respirar. Como ela podia, depois de dezessete anos, resolver contatar meu pai? Do que ela afinal estava falando?
- Eu não vou morar com ninguém no Brasil! Eu vou ficar onde estou, com meu namorado e… o que? Essa coisa? Tirar? VOCÊ ESTÁ FALANDO DO SEU NETO! COMO PODE SEQUER… SEQUER PENSAR NISSO? É MEU FILHO E EU SOU EMANCIPADA, VOCÊ NÃO PODE TOMAR DECISÕES POR MIM E RACHEL NUNCA IRIA ME MANDAR DE VOLTA PARA O BRASIL…
- ENTÃO EU VOU TER QUE TE BUSCAR PELOS CABELOS!
- VOCÊ PODE TENTAR, MAS VOCÊ VAI TER QUE LIDAR COM A POLÍCIA! NÃO QUERO VOCÊ PERTO DE MIM NUNCA MAIS! EU TE ODEIO!
Eu bati o telefone com força contra o gancho, o choro vindo a tona e totalmente fora de controle, eu sentia vontade de morrer, era o que eu mais queria, menos pelo fato de que isso afetaria meu bebê. E, nesse momento, eu já havia corrido de volta para o quarto de , que estava mancando até a porta e me abraçou assim que eu me joguei contra ele, sufocando descontroladamente. Meu bebê e era tudo o que mais me importava e, apesar de saber que me protegeria, eu ainda sentia medo das ameaças de minha mãe. Falar de meu pai… E se me abandonasse como ele? Eu o apertei ainda mais, tremendo de medo apenas pela idéia.

- Pelo amor de Deus , você tem que me contar o que está acontecendo – disse, acariciando meu cabelo depois que eu me acalmei. Mais uma vez eu tive que me desculpar com Kathy e dessa vez também ganhei um chocolate quente igual ao que tinha feito para antes da ligação. Igual sem contar o fato de que esse era infinitamente mais saboroso.
Eu queria lhe contar sobre o bebê. Meu maior desejo era ouvi-lo dizer que cuidaria de nós dois e nunca deixaria ninguém me tirar de perto dele, não importando o que acontecesse. Eu queria saber que ele queria aquele bebê tanto quanto eu, que ele o amaria acima de tudo, que nós ficaríamos juntos para sempre.
Mas a possibilidade de ele nos abandonar parecia agora mais real do que nunca. Se meu pai havia feito isso, quais eram as chances dele não fazer?
- Meu pai – foi a primeira coisa que eu pude pensar em dizer. – Minha mãe quer que eu volte para o Brasil imediatamente, e agora veio com essa história do meu pai. Por que infernos, depois de dezessete anos, ela está fazendo isso comigo? Ela quer que eu volte para o Brasil e vá morar com ele! Um estranho… um estranho que me abandonou – eu estava alterada, mas a ultima parte inevitavelmente foi sussurrada.
- Para o Brasil? Por que ela iria querer isso, você está tão bem aqui! Achei que ela não soubesse que você está doente…
- Ela não sabe, mas ela sabe que você está cego e quando eu disse que íamos morar juntos ela simplesmente surtou! – Eu respirei fundo, contendo minha vontade de lhe contar toda verdade. – Ela só não pode nos entender, ela não entende o que temos. Eu não quero voltar para o Brasil , lá é tão… Só de pensar em lá eu lembro do Jack…
- Hey, hey, calma – Eu estava deitada em seu colo de costas para ele, que me abraçou mais forte. – Você não tem porque voltar para o Brasil, ela não vai te tirar de mim. Ninguém vai. Nós vamos ficar bem, pequena, está bem? Ela não pode de forçar a nada, e logo você vai ter dezoito, só mais alguns meses. Nós vamos nos casar quando terminarmos a escola e você vai poder ter seu visto permanente. Eu vou cuidar de você.
Eu sorri, e fechei os olhos, ignorando minhas novas lágrimas. Eu sabia que era só uma questão de tempo para que ele descobrisse que eu estava grávida e provavelmente mudar de idéia sobre ficarmos juntos, mas eu estava feliz por ele estar finalmente se mostrando forte novamente apenas para me fazer sentir segura.

Capítulo 35
Goodbye Lullaby

Nos dias restantes que se passaram Kathy tentou me dar todo o apoio que podia, tentando entender o que estava acontecendo entre mim e minha mãe, mas logo chegou a hora dela e Vicky irem para casa. A solidão me abateu de uma forma estranha, eu me sentia depressiva a maior parte do tempo, perguntas e medos rondando minha cabeça. Era como se paz e tranquilidade estivessem distantes o bastante para que eu não conseguisse vê-las.
As aulas tinham voltado para todos que conhecia, menos para mim e de certo modo. Nós estudávamos em casa durante algumas horas, mas era algo cansativo e anormal. Era difícil ajudar nos estudos, mas ele se recusava a estudar mais que duas ou três vezes por semana no instituto que frequentava.
Rachel me visitava às vezes depois do trabalho, notando sem demora minha ausência de felicidade. Por dentro eu estava enlouquecendo, eu queria minha vida de volta, eu queria ser uma adolescente normal, com pais amáveis e um namorado que pudesse dizer o quanto eu estava linda todos os dias. Parecia que cada dia que passava eu estava mais encurralada, e o silêncio de minha mãe apenas me deixava mais preocupada, sem saber qual seria seu próximo bote.
Minha mãe podia ser como um inimigo para mim muitas vezes, mas eu tinha sorte de ter Rachel. No mesmo dia em que trouxe um pedaço de torta de morango para mim e , ela resolveu me levar no médico, tendo marcado o mesmo há duas semanas. Por sorte estava no instituto, me deixando mais tranquila para sair de casa.
Pequenas esperanças são difíceis de não se ter, mas minhas expectativas estavam realmente baixas ao adentrar o consultório. Só torcia pra que Little Jones estivesse bem, mas não vi isso chegando.
Apesar de todo o meu emocional abalado, eu estava bem. Eu estava mais do que a bem, estava saudável de verdade. Eu e Little Jones.
Segundo o médico, após exames, eu havia me recuperado extremamente bem, provavelmente por ser jovem ainda. Eu ainda não estava em um estado perfeito, tinha alguns cuidados a tomar e muitas vitaminas a serem tomadas sem falta, mas eu podia ser considerada quase uma grávida normal.
Isso queria dizer apenas duas coisas em minha mente: Sexo e escola.
Eu poderia ter minha vida normal de volta. Ou, pelo menos, parte dela.

Ao chegar em casa esperava que fosse ficar tão feliz quanto eu com a notícia, mas isso não aconteceu. Ele sorriu, mas de um jeito deprimido, arrancando meu ânimo sem ao menos se dar conta disso.
- , por que você está assim? Por que não está feliz por mim? – Me recostei na parte de trás do sofá, tentando ler algo em seu rosto. Ele soltou o ar pesadamente, deixando sua tristeza transparecer.
- Me desculpe, , não é isso, eu estou feliz por você. Estou feliz que finalmente esteja melhor.
- É, sua alegria é visível até do outro lado do Tâmisa.
- Mas eu já disse que estou feliz por você e estou mesmo.
- , eu não sou cega, posso ver a sua... – me calei, percebendo a besteira que havia acabado de falar. Sua feição se tornou oscilou para nervosa enquanto ele passava a mão pelo rosto. – , desculpe, não foi o que eu quis dizer…
- Pode não ter sido o que você quis dizer, mas é o que eu estou tentando te dizer. Você pode não ser cega, mas eu sou. Isso quer dizer que você vai ficar longe de mim, e eu não posso fazer nada quanto a isso. Quer dizer que você vai voltar para a escola, lembrar como é ter uma vida normal, enquanto eu vou ficar aqui. Sozinho.
- Você pode voltar pra escola, . Eles são obrigados a te aceitar.
Ele riu ironicamente.
- Não, eu não posso. Como seria um estudante perdido naquele lugar? Eu mal consigo andar pela minha própria casa sem bater nas coisas, como você espera que eu sobreviva naquele lugar?
- , você não vai estar sozinho, têm pessoas pra te ajudar.
- E quem vai querer ficar do meu lado? Eu não sou mais popular como era, ninguém iria ficar comigo lá.
- Eu estava me referindo a nossos amigos, aqueles que continuam do seu lado porque gostam de vocês. Estava me referindo a mim mesma, sua namorada, lembra?
- Por que você não pode continuar aqui comigo? Pra que voltar pra escola?
- , nossas notas estão caindo cada vez mais! Você não sente falta de lá?
- É claro que sinto! Muita!
- Então você é realmente egoísta a ponto de estar me fazendo sentir culpada por querer voltar! – Balançando a cabeça indignada, comecei a me afastar dele em direção ao quarto.
- Eu aposto que você realmente deve estar feliz em me abandonar. Finalmente vai se livrar do peso nas suas costas, não é? – Eu podia sentir a raiva vibrar em suas cordas vocais, esquentando meu sangue com isso. – Finalmente uma chance para ficar longe de mim.
Eu parei na metade próxima ao corredor, tentando assimilar suas palavras.
- Você está falando sério? – perguntei me virando para ele lentamente. – Que depois de tudo que eu venho aguentando, você está me acusando de querer me livrar de você? Agora? – eu cerrei meus dentes, tentando me segurar para não gritar. Ele só podia estar de brincadeira com a minha cara.
- É claro que estou. Mas eu entendo como você se sente, só não esperava isso de você. Exatamente depois de tudo o que nós passamos eu esperava que você pelo menos considerasse ficar.
- Só para sua informação, eu não estava planejando te abandonar. Eu iria frequentar as aulas, mas vir aqui sempre que pudesse. Você não entende coisa nenhuma como eu me sinto, você não faz ideia!
Ele deu uma risada.
- Se eu sou o peso na sua vida, eu sei exatamente como você se sente com a chance de se livrar disso.
- Você não é um peso, você é apenas estúpido! Você não tem noção de como eu em sinto porque passou todas essas semanas ocupado demais sentindo pena de si mesmo para prestar atenção em como eu estava!
- Do que você está falando, eu estive sempre do seu lado!
- Somente quando eu não conseguia manter calada o que sentia, mas a não ser que eu gritasse você não se importava em checar como eu estava. Isso porque você está realmente cego; cego de egoísmo e pena de si mesmo. Mas adivinhe? Você não é a única preocupação na minha vida, eu tenho que prezar por coisas mais importantes! Você não é o centro do universo!
Quando me dei conta, os olhos dele brilhavam molhados, sua feição triste.
- Eu esperava ser o centro do seu como você é do meu – ele respondeu. As lágrimas vieram aos meus olhos, tentando embaçar minha visão. – Eu só não entendo por que você quer tanto ir, por que não pode ficar mais aqui comigo, pelo menos mais um pouco.
Eu tive que respirar fundo para engolir o choro. A resposta era porque minha barriga estava começando a crescer, e eu podia escondê-la com roupa, mas não podia escondê-la vivendo com . Eu queria poder ficar mais ali com ele, mas ele estava me sufocando. Era muita coisa pra minha cabeça tomar conta dele e me preocupar com o bebê que eu tentava esconder. Cada dia que se passava o circulo se apertava para mim e eu estava começando a me sentir enforcada. A melhor maneira seria esconder até que ele estivesse pronto, nós estivéssemos.
E minha vontade era contar-lhe ali mesmo a verdade, mas o medo tomou conta de mim. Eu arruinaria sua vida, acabaria com o pouco de esperança de futuro que ele ainda tinha, mesmo que não visse isso. O que eu mais queria era correr para seus braços, deixar que ele me abraçasse forte até que conseguisse parar o choro que iniciei. Eu podia estar acusando ele de ser egoísta, mesmo que eu tivesse causado parte do afastamento dele, mas eu não conseguiria ser egoísta a esse ponto. Não com ele.
- Você não precisa entender, só queria que você desejasse me ver feliz. Acho que está na hora de seguir em frente com minha vida, não acha?
- O que você quer dizer com “seguir em frente”? – eu podia sentir o medo em sua voz me cortando por dentro.
- … - E, apesar de não querer destruir a vida dele, eu não conseguia destruir a minha tão facilmente também. O que era complicado, pois ele era minha vida agora. Há algum tempo, na verdade. A única coisa feliz que eu já tive. – Eu acho que preciso de um tempo – foi o máximo que consegui dizer, apesar de não saber como havia conseguido dizer isso.
- … - Fechei meus olhos, sua voz me cortando novamente. Aquilo me machucava tanto que eu não sei como ainda respirava sem morfina.
- Não faça isso mais difícil do que é, por favor – E, sem ter coragem de encarar seu rosto novamente, voltei a trilhar meu caminho até o quarto, onde me tranquei chorei pelo resto do dia, até dormir abraçada com o travesseiro dele.

Naquela mesma noite Rachel me ligou, dizendo que já havia conseguido acertar tudo com a escola. Meu dormitório estaria esperando por mim amanhã quando ela viria me buscar para a escola. Eu senti um aperto no peito ao pensar que a partir dali eu teria que começar a me afastar de , mas minha decisão estava tomada. Eu tinha que pensar no que era melhor para ele, melhor para nosso bebê. Não que o melhor para Little Jones fosse ficar longe do pai, mas também não seria bom para ele ter alguém com a vida acabada. tinha chances de crescer na vida, mas com certeza não comigo por perto, eu sabia disso. Agora eu só tinha que pensar em minhas opções no futuro, o que poderia fazer para cuidar de Little Jones e de mim ao mesmo tempo. Eu tinha algumas ideias, mas a mais fácil para criar bem meu bebê era também a mais difícil para mim. Mas afinal, eu teria que encarar as consequências. Só não agora.
Eu continuei deitada, com a luz apagada, mas não conseguia mais dormir. A porta estava destrancada e se deitou ao meu lado com dificuldade, deixando um braço em minha cintura casualmente.
Me levantei após alguns segundos, eu não podia ficar ali.
- Ah, , vai continuar com isso? Volta aqui vai.
Eu deixei apenas seu suspiro para trás quando fui pra sala, onde passei a noite vendo televisão sem realmente me importar com o que estava passando.

Foi bom abraçar Rachel e ela ficou surpresa quando eu pedi pra deixar uma de minhas malas em sua casa.
- Eu achei que você fosse voltar mais para a casa do Daniel nos fins de semana, o que houve? – ela perguntou preocupada. – Vocês brigaram?
- Eu só acho melhor não irmos tão rápido – foi o melhor que eu pude responder.
- É, vocês ainda são jovens demais. – Ela sorriu tentando me encorajar. – Mas vão acabar se acertando, não se preocupe.
- É, acho que sim. – Dei de ombros e entrei no carro, sendo atacada por Lauren e seu abraço sufocante.
- Meu Deus, você está congelando! – ela reclamou, me soltando. – Parece que acabei de abraçar um iceberg.
- Estou congelando junto com Londres inteira, o que você esperava, que eu tivesse uma fogueira interna?
- O que foi, meninas? – Rachel entrou no carro após fechar o porta malas, ligando a ignição.
- Ela está congelando mãe, acho que está querendo ficar doente de novo para ficar com .
- Nada a ver Lauren, eu só não achei que estaria tão frio assim fora de casa.
- Está nevando! – ela protestou.
- Mas lá dentro estava tão quentinho! – eu choraminguei.
- A calefação devia estar alta. Aqui, querida – Rachel me estendeu um par de luvas e um cachecol. – Eu tenho isso no meu armário no trabalho, não se preocupe.
Eu sorri sem graça agradecendo e coloquei as luvas enquanto Lauren tentava me enforcar com meu cachecol.

A maioria das pessoas sorria para mim enquanto eu voltava mais uma vez aos corredores com os armários degastados da escola que eu tanto senti falta, e eu sorria de volta, feliz por estar onde devia novamente, apesar de parecer faltar um pedaço de mim, como se um órgão tivesse sido arrancado de mim. Eu não sabia o que era não estar com desde… eu mal podia me lembrar com certeza, tentando ignorar a dor que tentava apagar minha felicidade como seu sorriso havia se pagado ontem. Quando fechava meus olhos por mais de três segundos eu podia ainda sentir seu perfume em meu casaco.
- ? Você esta bem? – ouvi me chamar, mas eu não estava com coragem o bastante para desencostar a cabeça do armário aberto e abrir os olhos. Eu queria continuar sentindo o cheiro dele e fingindo que ele viria me abraçar de surpresa como sempre fazia. – Dude, eu sei que você sentiu falta da escola, mas não precisa ficar aí nesse romance todo com o armário, assim as pessoas vão ter certeza que você ficou retardada depois do incidente.
Eu desencostei do armário com os olhos arregalados.
- Eu tinha esquecido que eles sabiam. – Suspirei. – É por isso que estão todos sorrindo para mim tão amigáveis.
- Amigáveis? Oh, essa é nova. – Ela disse e eu a encarei, pedindo explicação. – Quero dizer, a Brooklie não tem ajudado muito quanto aos boatos sobre o que realmente aconteceu.
Respirei profundamente, tentando manter a calma. Brooklie, eu havia esquecido desse pequeno defeito da escola diante de toda minha empolgação.
- O que aquela vadia está dizendo dessa vez? – perguntei e ela apenas estalou os lábios. – , fica escrito na sua testa quando você tenta enrolar, desembucha.
- Ela disse que você tinha ficado retardada por causa do trauma e estava sendo tratada. - me surpreendeu, me dando um forte abraço. – É claro que o resto da população dessa escola fez questão de aumentar um pouco as coisas pelo caminho, sabe como é. Já me disseram até que você tinha perdido metade do cérebro, acredita? – ela riu, mas eu não achei graça.
- ! – repreendeu.
- Está tudo bem, isso não faz diferença – peguei meus livros e tranquei meu armário. – Minhas melhores amigas não sorriem pra mim com pena, isso que importa. Falando nisso, onde está a ?
- Ahn, ela deve estar com respondeu enquanto me seguia.
- É, isso, com concordou, passando um braço por meus ombros e sorrindo. – Estamos feliz que você voltou.
- Eu também estou feliz por ter voltado, – E mais olhares se voltaram para mim, me fazendo sentir um tanto acuada por tanta atenção. – Eu acho.
- Mas você devia ter me avisado que vinha para a escola, seu cabelo está horrível. Qual foi a ultima vez que foi ao cabeleireiro? – passava a mão pelo meu cabelo com cara de nojo.
– Acho que já está na hora de retocar as cores em – Linha começou a mexer do outro lado do meu cabelo.
- Meu cabelo é última preocupação que eu tenho no momento.
- Mas deveria ser a primeira, como de toda mulher que se preze – me cortou. – Vou mais tarde ao seu quarto pra pelo menos cortar essas pontas duplas…
se animou imediatamente, e eu me esforcei pra me distrair com o que elas falavam, tentando ignorar o quanto eu sentia minha mão fria, independente da luva, sem a mão de para esquentá-la.

Logo na primeira aula eu fui recebida por um longo abraço de , com direito a rodopio no ar. Ele me abraçava com tamanha intensidade que eu mal podia respirar. Eu fiquei feliz de vê-lo, de verdade. Aquele vazio que cada canto daquela escola me fazia sentir ao trazer recordações de desde que eu pisara lá pareceu diminuir consideravelmente. era o amigo mais amável e atencioso que eu podia sequer desejar ter, e isso era reconfortante. E talvez o fato de eu mal ter tempo pra respirar entre as conversas com ele ao longo do dia e todas as tarefas atrasadas que eu tinha e matérias pra estudar fosse o que eu precisava. Não ter tempo pra pensar era realmente bom, assim eu não ficava remoendo os meus problemas.
Mas, é claro, meus amigos não demoraram a remoê-los por mim. Como e , cuidando da minha aparência, o que incluía agora o fator roupas. Eu tinha sorte de estar inverno, pois minha barriga já estava aparecendo bastante agora, mas com todas as roupas e casacos de inverno isso conseguia passar despercebido. Mas elas queriam se certificar, então eu consegui trocar a oferta delas de cortar meu cabelo pra que elas usassem o tempo pra comprar algumas roupas pra mim, e enquanto isso eu ficava em meu quarto estudando quietinha.
Isso tudo foi combinado durante o almoço, onde não estava presente, assim como . É claro que o olhar de Brooklie recaiu sobre mim, mas ela não pareceu surpresa. Eu sabia que alguém já deveria ter fofocado para ela algo sobre mim, mas ainda assim foi inesperado ser poupada dos comentários maldosos que ela adorava fazer. Mesmo assim eu senti ódio ao ver ela e lembranças terríveis vieram a minha cabeça. Encostei minha cabeça em e tentei me distrair o mais rápido possível.

Por volta das sete horas da noite alguém bateu a minha porta enquanto eu lidava com minhas lições de física. Falei para que entrasse.
- Hey hermana – Lauren me cumprimentou e sentou na cama de . – É assim que vocês falam lá, não é?
- Não Lauren, hermana é somente em espanhol, em português é irmã – eu corrigi, me virando na cadeira da escrivaninha para ela.
Ela tentou pronunciar, mas não soou muito bem, então ela prosseguiu com outro assunto.
- Como foi seu dia Five Colours desbotada? – ela riu, mas eu senti algo ruim com aquilo. – O que foi? Achei que já tinha ouvido isso hoje.
- O problema é que eu acho que eu já ouvi, mas minhas cores não estão tão desbotadas assim, estão? – fui até o espelho checar meu cabelo. Bom, nem todas estavam tão desbotadas, só a azul que tinha desbotado para verde, a roxa para lilás e a vermelha se tornado laranja.
- , você tem que parar de ser tão inocente – a voz de me sobressaltou, então ela e adentraram o quarto carregando sacolas. Muitas, aliás.
- Inocente? E eu mato vocês se essas sacolas todas forem pra mim.
- Bom hermana, vou descer pra jantar, mais tarde a gente se fala, certo? – Lauren acenou ao sair do quarto, eu apenas acenei de volta sem prestar muita atenção.
- Não estão te chamando assim porque as cores do seu cabelo estão desbotadas, - continuou, como se não tivesse sido interrompida – estão te chamando de desbotada porque você parece acabada, não tem mais aquele brilho. Querem dizer que você se tornou mais uma menina comum e sem graça. – Eu pisquei, tentando assimilar a sinceridade dela. – Desculpa, achei que você devia saber. – Ela sorriu forçadamente antes de sair do quarto com algumas sacolas na mão.
Eu me sentei na cama, atordoada.
- O que foi isso? – perguntei a ela, os olhos marejados contra minha vontade.
- Ah amora, não fica assim – me abraçou de lado, sentando ao meu lado.
- Por que todo mundo me trata com tanto ódio ou indiferença o tempo todo? – Sim, eu já estava chorando no ombro de . – Eu não fiz nada pra ela!
- Ela só está com ciúmes, vai passar – afagou minha cabeça, me consolando.
Desencostei de seu ombro, esquecendo um pouco do choro.
- Ciúmes? Ciúmes de quem meu Deus?
- Do , é claro – esclareceu. – Toda a atenção dele era voltada pra ela, de repente você volta e ganha toda a atenção dele de volta, da pra entender até, eu provavelmente não iria gostar muito também se alguém ficasse tão próxima do . Ainda mais considerando um certo histórico né...
Eu a encarei, piscando repetidamente, na tentativa tanto de assimilar quanto de apagar o absurdo que eu acabara de ouvir.
- Você não pode estar falando sério, é meu melhor amigo! – soltei o ar indignada. – Sem contar que vocês são minhas melhores amigas, é bem óbvio que nenhuma de nós jamais chegara perto do namorado de outra amiga com segundas intenções. Ela sequer considerar a possibilidade é uma ofensa!
- Calma
- Calma? – Aquilo subiu a minha cabeça de tal forma que eu não conseguia conter a raiva. – Você acaba de falar que uma das minhas melhores amigas não confia em mim e que você também não confiaria em tal situação. Isso é ridículo. Sem contar o fato de que eu já tenho o , e eu jamais o trairia. Será que algo passou despercebido? Oh sim, espere, eu estou carregando um filho dele na minha barriga nesse momento. Qual o problema com vocês duas?
- Bom, não está aqui agora, o que quer dizer que tem algo errado entre vocês dois, não é? – ela perguntou receosa.
Eu a encarei intensamente.
- Você não ouviu uma palavra do que eu acabei de dizer, não é? – Me levantei revoltada, me controlando pra não empurrá-la. – E meus problemas não são mais da sua conta, já que não é minha amiga.
Com isso sai do quarto batendo a porta com força, dando de cara com Brooklie no corredor.
- Oh, eles estão deixando novamente as aberrações entrarem nessa escola mesmo? – ela disse alto, chamando a atenção de algumas meninas no corredor.
- Sim, desde que você começou a estudar aqui se não me engano – rebati, tentando continuar meu para as escadas, mas Brooklie o barrou.
- Ah querida, você parece meio abatida, devia voltar pra casa, pros braços do seu garoto cego.
- E você devia voltar pro inferno, de onde nunca deveria ter saído, vadia.
- Do que você me chamou? – ela exigiu, toda espalhafatosa.
Eu não estava realmente com humor para aguentá-la.
- De vadia vira-lata, sua cretina. – Sem pensar, eu a empurrei pra fora do meu caminho, seguindo pelo corredor.
- Talvez eu devesse ligar pro seu namorado, aquele brasileiro, pra ele vir te ensinar a ter bons modos.
Aquela foi a ultima que eu podia aguentar, e eu não me segurei. Voltei até ela a passos largos e a joguei contra a parede, forçando meu braço direito contra seu pescoço com força, a outra mão próxima ao bolso de minha calça que guardava um canivete.
- Eu acho bom você pensar duas vezes antes de mexer comigo – eu falei quase cuspindo na cara dela.
Ela tentou sorrir falsamente, mas meu braço dificultava sua respiração.
- Você é quem deveria ter medo de mim, pirralha, começando pelo fato que seu namorado pode estar cego, mas ele ainda pode ser meu alvo. Além disso, onde está o tal do Jackie? Ele não devia estar com você agora?
- Acho que você não é tão bem informada, afinal – eu sorri pra ela, apertando ainda mais seu pescoço. Então sussurrei em seu ouvido: - Jackie está morto, e eu não vou pensar duas vezes antes de te machucar tanto que nem plástica poderá te colar de volta, entendeu?
Ela ficou um tanto paralisada quando eu a soltei, mas eu não sabia se isso era devido a algum medo que eu tivesse conseguido colocar em sua mente ou apenas a noticia sobre Jackie.
É claro que sequer pensar em Jackie me embrulhava o estomago ao mesmo tempo em que dava certo aperto no coração. Eu podia sentir um desespero fechar minha garganta ao pronunciar seu nome, mas eu não iria deixar aquilo transparecer a ela. Eu precisava respirar, urgentemente, antes que eu quebrasse minha mão socando a parede. Ou alguém.

Acabei indo parar no lugar em que vi pela primeira vez. Agora na noite escura as estrelas brilhavam, mesmo não enchendo o céu. Eu já havia chorado, mas chega um certo ponto em que você apenas pensa, como se seus olhos não tivessem mais lágrimas para soltar, mas você continuasse chorando por dentro, um sentimento angustiante corroendo por dentro.
O tempo estava úmido e frio, algumas nuvens carregadas ao longe vinham lentamente em minha direção. Eu não me importava de estar congelando ali por não ter sequer lembrado de pegar um agasalho antes de deixar o prédio, eu mal sentia a brisa cortante. O que eu sentia dela, me fazia até bem, na verdade. Mas o que estava em minha mente era forte demais para que eu prestasse atenção.
Já haviam se passado alguns dias desde que eu voltará para aquela escola, e as coisas pareciam apenas pior cada vez mais.
Mas, ao ficar ali, eu conseguia ver tudo acontecendo novamente. Eu podia vê-lo correndo pelo campo de um lado pro outro, o sol que batia em meu rosto e no corpo dele. Me lembrava das tantas vezes que ele me dizia que eu era linda, do quanto ele me amava. De quando eu reclamava dele estar me observando assim que eu acordava, toda descabelada e horrível, e ele insistia que era a melhor visão que já tivera e que poderia me observar pra sempre. Eu queria abraça-lo agora e saber que tudo ficaria bem.
Ele não podia mais ver agora se eu estava realmente bonita ou não. Não podia ver o quão horrível eu estava. Não poderia ver o quão lindo nosso bebê seria. Não podia ver o sol e não poderia estar observando as mesmas estrelas que eu naquele momento.
sentou ao meu lado na grama, como fizera na noite anterior, ao descobrir que eu estava lá. Mas ontem ele não havia dito uma palavra, apenas me abraçado e ficado ali. Hoje ele colocou um pacote de papel pardo em meu colo, e eu sabia que ele não ficaria quieto por muito mais tempo.
Eu não queria ir até a cantina pra jantar, eu estava evitando contato com pessoas o máximo que podia. Ele devia apenas ter chutado o fato óbvio de que eu estava sempre faminta, apesar de nem todas as vezes comer. A não ser é claro que a comida brotasse assim na minha frente, aí era simplesmente demais para que eu resistisse.
Ele esperou até que eu terminasse de comer e me aconchegasse a ele para finalmente falar.
- Sabe, hoje fomos ensaiar no apartamento do – ele começou, e eu respirei fundo. – E, , eu estou preocupado.
- Com ele? O que houve? – eu perguntei desesperada, me distanciando de seu ombro para olhá-lo.
- O cara tá uma bagunça, sem contar que ele só canta músicas meio fúnebres. – Ele disse. – Não é nada grave pra esse desespero todo, apesar de que eu jamais vi alguém tão mal… além de você.
Aquela angústia novamente me atacava por dentro.
- Eu não sei o que fazer, .
- Estou preocupado com você, de verdade. O que vocês tem me parece um tanto doentio às vezes. Eu achei que você estivesse assim pelo que está acontecendo aqui e seu bebê e tudo mais, mas pelo estado daquele cara é óbvio que tem algo errado entre vocês dois. Aliás, por que você tem se isolado tanto? Só consigo te ver nas aulas, você some o resto do tempo. Eu sei que é muita coisa pra lidar, mas você tem a mim e as suas amigas, não precisa fazer isso sozinha.
Eu ri tristemente.
- Não , eu não tenho mais amigas. A Lauren é a única menina confiável por aqui.
- O que houve? – Ele franziu a testa e afastou uma mecha de cabelo do meu rosto.
- Sua namorada não te contou, não? Achei que ela tinha te proibido de falar comigo a essa altura.
- Como assim?
- Ela está com ciúmes, e pra ajudar a disse que se estivesse no lugar dela também se sentiria assim. Quero dizer, você é meu melhor amigo, isso é absurdo! Elas não confiam em mim, isso é ridículo.
Ele olhou para frente, me deixando sem uma resposta. Parecia bem pensativo.
Resolvi ignorar isso e continuar a desabafar.
- Quero dizer, é o único pra mim e a é sua paixão desde sempre, não é? Como ela não vê isso?
Ele sorriu de modo triste, me olhando de relance e então ficou encarando as estrelas.
- O problema é que ela vê as coisas que você não vê. Ela não tem a mesma inocência que você.
- O que eu não vejo?
- Você não vê que pode ser o único que você enxerga, mas ele não é sua única possibilidade. Você não vê que a foi sim minha paixão desde muito tempo, mas não vê que as coisas mudaram com esse tempo. Eu conheci uma garota incrível e, mesmo estando com a , eu não consigo tirar essa menina da minha cabeça.
- O que? Tem outra garota nessa história? Isso explica um pouco o ciúme da , mesmo que ela não devesse descontar em mim. Mas quem é ela? E o que ela pode ter que a não tem pra você mais?
Ele sorriu pra mim, e então deu um beijo em minha testa.
- Pergunte a si mesma, arco-íris.
Ele se levantou então e me deixou lá na grama, confusa.

Capítulo 36
The Kill

É claro que eu não era tão lerda a ponto de não entender até o dia seguinte. Eu levantei com a resposta em mente e, vencendo o sono absurdo que eu vinha começado a sentir ultimamente, me levantei, determinada a socar a cara de . Quem ele pensava que era pra fazer isso comigo, com a e, pior ainda, com ele mesmo? Ele não podia estar falando sério, simplesmente não podia.
perguntou onde eu estava indo cedo demais para a aula, mesmo eu já estando de uniforme, mas a ignorei. Eu não dizia a pessoas que não confiassem em mim onde eu estava indo, ainda mais quando esse lugar inclui ver uma pessoa inclusa em toda essa desconfiança.
As portas dos prédios haviam acabado de abrir, e não havia ninguém em meu caminho até o prédio masculino. Lá apenas dois garotos estavam no corredor, livros na mão, provavelmente tinham prova hoje. Mas com tamanha raiva que eu estava me esforcei ao impulso de não chuta-los.
Subi as escadas até finalmente achar a porta do quarto dele. Eu não me importei em bater, apenas a escancarei e a bati em seguida atrás de mim.
- O que você está pensando? – perguntei entre dentes, pouco me importando por estar resmungando sobre tê-lo acordado. já estava bem acordado, sentado com seu notebook no colo. – Você não pode simplesmente me dizer o aquilo e me deixar nessa situação. Eu amo e você namora a . Se você não gosta dela o mínimo que deveria fazer é parar de iludi-la. Você é meu melhor amigo e isso é o máximo a que conseguimos chegar e vai continuar assim, por que você é como um irmão pra mim – ele me olhou confuso e eu tomei como tristeza, respirando fundo. – Desculpe , você é realmente especial pra mim, mas não desse jeito.
- Ahn, pronto? – ele perguntou com a expressão ainda mais confusa, algo estranho.
- Sim. Desculpe se isso te magoa, mas achei melhor vir e falar isso de uma vez, já tem coisa demais me sufocando.
- O desbotada – me chamou e eu o fuzilei com o olhar pelo apelido. – Desculpe – ele se apressou a dizer. – De qualquer jeito, eu não entendi isso muito bem, mas você acha que está afim de você?
- Bom, ele me disse isso ontem – eu respondi e então caiu na gargalhada. Ele riu tão profundamente que parecia que iria rir para sempre. – O que foi? O que tem de engraçado nisso?
- , você lembra que está grávida, não é? – ele disse, tentando conter a risada. – Quero dizer, pelo menos pra si mesma você já contou isso, certo?
- E o que isso tem a ver? – perguntei cruzando os braços a minha frente.
- É que, o fato de que você está parecendo uma bola de futebol sendo cheia de ar lentamente, apesar de seus seios estarem melhores, não costuma atrair muito caras. E, certo, pode ser bem esquisito, mas não a ponto de querer adotar uma criança. Acho que você devia rever o quanto está desesperada para…
- Chega, interrompeu, chamando minha atenção para ele. – Desculpe , mas é melhor você ir agora, mais tarde conversamos, pode ser?
Meus olhos estavam marejados, e tudo o que eu queria fazer era abraçar ele e chorar.
- Não pode vir tomar café da manhã comigo?
- Desculpe, vou ter que encontrar a , sabe como é. – Ele deu um sorrisinho triste. – Mas é melhor mesmo você ir.
- Certo – eu respirei fundo, me recuperando para sair dali.
E foram nesses segundos de silêncio que eu percebi um ruído. Era um ruído de chuveiro vindo do banheiro, que estava com a porta fechada. Eu olhei para e então para . Os dois tinham namoradas. As portas dos prédios haviam sido abertas pouquíssimo tempo antes de eu deixar o prédio, e ninguém viria a essa hora da manhã tomar banho no quarto deles, a não ser que tivesse dormido aqui. Acontece que as respectivas namoradas dos dois que eu encarava tinham dormido no prédio feminino, eu as havia visto após o toque de recolher em nosso corredor.
- Quem está aí dentro? – questionei séria.
coçou a garganta.
- A – ele respondeu, se ajeitando na cama.
- Sério? – Ergui as sobrancelhas. – Que bom, estava mesmo morrendo de saudade dela.
Abri a porta do banheiro contrariando os protestos dos garotos e dei de cara com a ultima pessoa que esperava no mundo.
Não, não era a Brooklie. Brooklie é alguém que você já espera encontrar no quarto de algum garoto. Ela seria até um conforto comparado a isso. Pois agora não era uma pessoa com a qual me decepcionar, eram duas.
Eu a encarei, que havia parado a esponja que passava nos ombros e me encarava também. Eu não consegui reagir.

- Ahn, oi hermana? – ela tentou.
- , não é… - começou, na porta do banheiro, mas eu o interrompi com a mão, o empurrando para o lado e saindo do quarto batendo a porta.
Ficara tão perdida com a cena que não tinha palavras, pois não sabia o que sentir. Aquilo era insano, minha mente simplesmente não suportava tal acontecimento.
Voltei a meu quarto, sem coragem de encarar o mundo tão certo. Eu sabia que não estava ajustada ainda as matérias, mas não podia ir para a aula de física e encarar . Era pedir demais.
Então eu encarei o teto do meu quarto, ignorando novamente as perguntas de e, pouco após ela deixar o quarto e o sinal tocar, eu adormeci.

É claro, o mínimo que deveria se esperar é que eu fosse correndo contar a , afinal, ela estar tão ciumenta pra cima de mim fazia algum sentido, e ela era uma das minhas melhores amigas.
Mas eu não conseguia. Depois do intervalo fui para a aula de inglês e me escondi na hora do almoço no banheiro feminino. Sim, foi lá que eu almocei. No banheiro.
Bom, era o único lugar que me veio na cabeça que não poderia me importunar e, claro, o resto das pessoas, se eu permanecesse trancada dentro de alguma cabine.
E pode parecer nojento, mas o banheiro até que era limpinho. E eu ainda podia ler escutando música depois de me alimentar.
Extremo? Não, nem um pouco. Muito menos quando as pessoas riem de você na sua cara. Eu sabia que algo estava errado entre mim e o resto da escola, mas eu estava com medo de saber exatamente o que. Porque, no fundo, eu já sabia.
Agora, as pessoas que antes me olhavam com pena, me julgavam novamente. Mais do que julgavam, me acusavam com o olhar. Eu sabia que elas estavam falando alto propositalmente para que eu escutasse durante as aulas ou nos corredores, mas eu estava com tanto medo dos rumores, que apenas colocava os fones de ouvido no volume máximo nos corredores e me escondia na última carteira da sala, o capuz do casaco sempre sobre os cabelos desbotados e escrevendo compulsivamente. Com o capuz eu podia esconder os fones de ouvido também, conseguindo assim não ouvir nada além de música quando todos começavam a conversar entre as pausas dos professores.

Como de costume, fui para a aula de teatro à tarde, a única que eu realmente vinha apreciando ultimamente.
A maioria dos alunos já estava lá espalhada pelo palco quando me sentei em uma das poltronas da primeira fila, à espera da professora, “The Kill” do 30 Seconds To Mars estourando meus ouvidos através dos fones.
Somente quando a professora entrou no meu campo de visão subindo ao palco foi que desliguei a música, me juntando a roda que se formava.
Iniciamos nossos exercícios básicos de voz e respiração, pegando em seguida o roteiro e repassando-o verbalmente.
- Muito bom, gente – a professora sorriu, mexendo dentro de sua bolsa. – Não estou achando o CD com as musicas de fundo que queria mostrar a vocês, devo ter esquecido no carro. – Ela se levantou. – Façam uma pausa enquanto vou buscar, está bem, crianças?
Nós concordamos e ela deixou o local, as conversas se iniciando imediatamente entre todos.
Eu fiquei apenas olhando para as cortinas recolhidas nas laterais, mergulhada em pensamentos, até que Cheryl, a garota com cabelos castanhos com luzes avermelhadas, chamou minha atenção vindo sentar ao meu lado.
- Então , como você está? – ela sussurrou.
- Estou bem, e você? – ela era a primeira pessoa com quem eu falava depois de , e minha voz pareceu meio falha por falta de uso.
- Tem certeza? – ela insistiu. – Quero dizer, você anda meio esquisita pelos corredores, está parecendo um fantasma. Eu sei que tudo que está acontecendo deve ser difícil pra você, ainda mais depois o que fiquei sabendo hoje, mas você não pode deixar se abater assim. Saiba que tem um ombro amigo se precisar.
Eu a encarei, piscando. E mesmo querem evitar ao máximo saber o que estavam realmente falando de mim, minha boca se moveu mais rápido do que minha capacidade de me manter calada.
- O que você soube hoje?
Então eu notei que os zunidos da conversa haviam parado, mesmo que ela estivesse falando baixo comigo.
- Bom… - ela pareceu sem graça. – Você sabe . Toda a escola já está sabendo.
Eu franzi o cenho pra ela, um tanto irritada, pronta pra negar que não sabia do que ela estava falando.
- O Jones é o pai? – a garota de cabelo loiro-branco perguntou em voz alta, empolgada, congelando meu sangue. – Porque dizem que o é o seu ex-namorado, aquele tal de Jack, mas como a Cheryl disse, não teria dado tempo de sua barriga crescer assim…
- Amanda! – Cheryl a repreendeu. – Desculpe , só estamos curiosos, não queremos nos intrometer na sua vida.
Os segundos que se seguiram deixaram o ar pesado, eu não conseguia me mover.
- , você está bem? – Allan se manifestou, me trazendo de volta do choque.
Eu estava ferrada.
- Eu não sei de onde vocês tiraram essas ideias absurdas! – Minha voz saiu alta e estrangulada, ecoando pelo teatro. – Como podem acreditar em algo tão absurdo?! Eu… grávida? Tenho dezessete anos!
Todos me encararam estáticos enquanto eu deixava o teatro, jogando o script pelo caminho. A professora esbarrou comigo perto da porta, perguntando pra onde eu estava indo.
- ESTOU FORA! – Gritei, minha voz ainda ecoando dentro do teatro quando eu sai.

Eu estava pronta para chorar, mal conseguindo me segurar até chegar ao meu quarto, quando me deparo com dentro dele. Ela me perguntou se eu estava bem e quando eu voltei pelo corredor ela foi até a porta, me chamando, mas eu comecei a correr, atropelando outras estudantes nas escadas. Ao chegar à saída do prédio feminino eu já não conseguia mais conter as lágrimas, e me encontrei sem rumo. Eu precisava de alguém, eu não conseguia suportar aquela dor e desespero sozinha. E o que mais doía dentro de mim era, sem dúvida, a saudade.
Eu deixei o prédio, caminhando em direção ao meu velho esconderijo nos gramados, mesmo sabendo que iria haver gente lá essa hora. Talvez eu conseguisse algum canto onde pudesse ficar invisível ou abaixar minha cabeça com capuz pra que ninguém percebesse meu choro.
Mas antes que eu conseguisse avançar alguns metros, alguém me abraçou forte. Eu me virei e através da minha vista embaçada me deparei com . Minha primeira reação foi estapeá-lo e dizer pra ele me soltar, sem forças pra gritar ou empurrá-lo. Ele me apertou com mais força contra ele, até que eu desisti de brigar com ele e me deixei chorar contra seu peito.
Ele me arrastou para as sombras entre os prédios e continuou a me abraçar ali, esperando que eu me acalmasse.
- O que houve arco-íris? – ele perguntou olhando em meus olhos, afastando o cabelo grudado em meu rosto.
- Eles sabem, , a escola inteira sabe! – Eu solucei. – Logo também vai saber, o que eu vou fazer, como vou convencer ele de que isso é mentira se não consigo convencer nem o grupo de teatro?
Ele respirou fundo, segurando meu rosto para que nosso contato visual continuasse.
- , você não pode fazer isso. Não posso acreditar que você está pensando em negar!
- E o que mais eu posso fazer? – eu choraminguei. – Eu não quero acabar com a vida dele, ele não precisa passar por isso como eu!
- É claro que ele precisa! Ele é o tão responsável pela existência dessa criança quanto você! E você sabe que ele jamais iria deixar você passar por isso sozinha, não há por que. Você precisa contar a verdade pra ele, agora mais do que nunca, antes que ele descubra por outra pessoa.
Eu o encarei, sem reação, podia sentir o sangue deixando meu rosto. Era hora da verdade, e eu sabia que nada disso podia dar certo.

Como ainda não tinha seu próprio carro, ele me arrastou até para pedir carona. Eu estava cada vez mais relutante e aterrorizada. Tentei convencê-los a esperar até o fim de semana, mas eles insistiam que isso não podia mais esperar, que não havia por que.
Eu tinha um mau pressentimento sobre tudo isso, ou talvez fosse o medo mesmo, eu não sabia mais dizer, não sabia mais dizer nada. passou o caminho inteiro batucando no volante, o que estava me irritando bastante.
- Dá pra parar? – eu pedi, segurando a mão dele contra o volante em um sinal fechado. – Isso está me deixando louca.
- Você consegue enlouquecer mais? – ele riu, mas eu não estava com humor para sequer sorrir. – Está bem eu paro, só gosto de ensaiar a batida no meu volante, desbotada.
- Você também? – disse indignada, mas ele não entendeu. – Enfim, ensaiando para o que?
- Pra tocar com a banda, ué – ele sorriu descontraído, feliz como uma criança. – Achei que você sabia do nosso projeto de banda, não te contou?
- Eu não falo com desde que sai da casa dele – respondi seca. – Que banda é essa?
- Temos ensaiado juntos por essas semanas, mas ainda não temos um nome, já que não sabemos se vai dar muito certo. insiste que não pode levar isso pra frente, que temos que arranjar alguém para colocar em seu lugar. Mas ele tem tocado melhor do que nunca, você tem que ver. Até anda compondo escondido.
- Por que colocar alguém no lugar dele, ele canta tão bem – eu disse, e um sorriso bobo tomou minha face sem que eu pudesse evitar. – Quem mais está na banda. E, hey, se ele está compondo escondido, como você sabe?
Ele riu alto.
- Aí baixinha, você é mais lerda que uma tartaruga manca. e estão na banda também e obviamente sempre se sente o deficiente da história, não vejo a hora de ele parar com esse negócio de dó de si mesmo, isso já me irritou. E eu o ouvi tocando antes de tocar a campainha. São ótimas, apesar de melosas e tristes, mas acho que esse é o único tipo de inspiração que ele enxerga no momento.
Eu suspirei, me sentindo culpada. Como eu podia ter me afastado tanto dele em uma hora tão crítica? Eu não o merecia, certamente. Tudo bem que eu estava tentando esconder minha gravidez o máximo possível e não aguentava mais falar com ele tendo que mentir e esconder isso, e sabia que me prender a ele podia estragar o resto de esperança que ele ainda podia ter para vida – apesar de ele não ter essa esperança, eu conseguia ver muito para ele – e eu tinha meus próprios problemas para lidar, mas isso ainda não me conformava como sendo uma desculpa. Nada pode desculpar abandonar a pessoa que mais se ama nos maus momentos. Nada.
Ao emergir de meus pensamentos, lá estava batucando novo.
- Maldição , eu vou ter um colapso nervoso se você continuar com isso! – reclamei.
- Você está tendo um colapso nervoso faz tempo, – ele retrucou, mas parou os dedos quietos no volante enquanto fazia a curva para a entrada do prédio de .
Antes que ele conseguisse fazer metade da curva, um carro vinha acelerado pelo portão aberto, cortando ele e tendo que subir na calçada para não bater. O ar sumiu de meus pulmões enquanto a cena se desenrolava. havia freado bruscamente, mas o outro veiculo não fez sequer menção de parar, apenas acelerou mais até que estivesse cantando pneus para o fim da rua.
Eu olhei para chocada, mas ele tinha algo a mais no rosto, o que só confirmava o que eu mais temia: ele também reconhecera o grande carro de vidros fumês.
Ele já virava o carro para perseguir o outro, mas eu o implorei que não.
- – eu repeti desesperada. – Temos que ver se ele está bem.
Ele hesitou entre perseguir o carro ou ir para dentro do prédio, até que por fim cedeu a minhas lágrimas e direcionou para a garagem.

A porta do apartamento estava escancarada, mas a fechadura não estava arrombada, o que eu achei bem estranho e ainda mais preocupante. Eu corri por todo o apartamento gritando por , vasculhando tudo comigo. Aquilo estava um holocausto. Tudo estava revirado, a televisão estava no chão, o sofá com seu estofado rasgado, a porta da geladeira quebrada, todas as gavetas jogadas no chão com seus itens espalhados, o box com o vidro quebrado, assim como grande parte das janelas. Mas o que mais me assustou foi quando voltei a sala e olhava pela vidraça da sala. Todas as enormes janelas que tomavam toda uma parede dela estavam destruídas, e ele olhava para baixo.
- Oh meu Deus, não – eu arfei, encarando .
Ele me olhou alerta, as mãos no bolso.
- O que foi? – ele perguntou preocupado, olhando em volta.
- Como assim o que foi? Não jogaram ele daí ou coisa assim, não é?
Ele riu. Sério, ele riu em uma situação dessas.
- Não, eu estava só admirando a passagem. – Eu cruzei os braços, indignada. – Relaxa, não tem nada lá embaixo.
- Mas se ele não está no apartamento, onde ele está? – minha voz saiu estrangulada.
Ele franziu o cenho, se virando para a porta então.
- Vamos atrás dele. Deveríamos ter seguido aquele maldito carro...
Eu corri em seu encalço, e assim que a porta do elevador abriu, não consegui ter uma reação imediata, havia perdido toda a linha de raciocínio.

Capítulo 37
Renegade

Eu pisquei incessantemente e então tudo se desenrolou de forma brusca. Ele saiu do elevador socando ,enquanto o mesmo gritava para ele se acalmar e tentando segurá-lo.
- Você está louco, dude? – reclamou , segurando o pulso dele. – Você sai do elevador assim socando as pessoas? E se eu fosse uma velhinha incapacitada?
- Achei que você era um dos caras – ele disse, relaxando os ombros. – Foi mal.
- Não seja tão burro. Como se eles fossem andar sozinhos ou desarmados. Você já estaria morto se eles ainda estivessem aqui. Onde está sua arma?
- Eu deixei no apartamento. Fui somente à vizinha de cima pedir pra usar o telefone, já que a minha linha ficou muda de repente e eu não achava meu celular. Ouvimos os barulhos e eu fiquei lá até ela dizer que o carro tinha ido embora. Mas por que você está aqui? – Seu rosto então se retorceu em desespero. – É a ? Ela está bem? O que houve?
- Estou bem, – respondi tímida.
Seu rosto se virou em minha direção, e eu pude ver que ele não andará cuidando muito bem de si mesmo ultimamente. Eu nunca o vira com barba antes, ainda mais tão espessa. Seus olhos não estavam visíveis – ele passará a usar óculos escuros. O que eu achava um pecado, conhecendo o paraíso que se escondia por trás deles. Mas mesmo com seus olhos invisíveis, eu ainda tinha todas as outras partículas de seu corpo para retirarem o ar de meus pulmões. Estremeci, tentando resistir a pular em seu pescoço e sentir novamente o gosto de seus lábios nos meus.
- ? – ele perguntou, parecendo não conseguir processar o fato de eu estar ali. – O que? O que... você está fazendo aqui?
Me retrai, pega de surpresa.
- Bem, eu… - olhei para , tentando suplicar que ele ficasse quieto e me deixasse ir embora sem mais palavras. – Só viemos checar como você estava.
levantou as sobrancelhas pra mim. sorriu.
- Eu senti sua falta – ele disse baixinho, esticando a mão até alcançar meu rosto e então o acariciando. – Por que você não atendeu nenhuma das minhas ligações?
- … - Eu suspirei, sem saber ao certo o que dizer. Eu queria dizer como me sentia. O quanto o amava e como cada dia longe dele foram os mais difíceis da minha vida. Mas eu não podia, era o melhor para ele. – Eu tenho que voltar para o colégio, para a aula de teatro.
- Sério ? – se intrometeu, e eu me segurei para não usar as habilidades que ele havia me ensinado contra ele. – Ela veio aqui por que tem algo pra te contar.
Eu o fuzilei com o olhar.
- , deixa que eu cuido disso – eu tentei deixar subentendido o que queria realmente dizer. – Você não vê quantos problemas ele tem pra lidar agora? Eu posso cuidar de mim mesma, não há nada que ele precise saber.
- Se você não contar, eu conto – disse sério.
- O que diabos está acontecendo aqui? – quis saber.
Eu olhei suplicante para , sibilando um “por favor”. Ele apenas negou com a cabeça.
- tem algo pra te contar, acho melhor vocês dois irem conversar em algum canto da casa enquanto eu ligo pra Roberta e tentamos dar um jeito nesse apartamento.
Eu assenti, derrotada, pois sabia que se não fosse a contar para , logo outra pessoa seria.

entrelaçou nossas mãos enquanto eu o guiava em meio à bagunça para nosso quarto. Meu corpo tremia, mesmo que eu tentasse respirar fundo e ser positiva. Fechei a porta e sentamos na cama, em meio às gavetas e todo o resto revirado.
- O que foi ? Me explica o que está acontecendo – começou após quase um minuto de silêncio.
Minha atenção se virou para o porta retrato com o vidro quebrado, a foto do jornal. Ele jurara tantas vezes estar comigo não importando o que acontecesse, sempre provando seu amor por mim. Afinal, como eu podia ter tanto medo da rejeição?
É claro, nunca fui honesta dizendo que era somente sobre não querer prejudica-lo. Eu não queria, de modo algum, mas meu segredo não se devia somente a isso. Pura insegurança, eu sabia. Mas eu era uma prova do que acontecia com crianças de adolescentes. Meu pai, como meu registro de nascimento o rotula, se recusou a me criar.
levou a mão ao meu rosto, notando então minhas lágrimas e as secando. Isso me fez sentir estupida por estar comparando ele com meu pai. Meu pai era o ser mais egoísta e imaturo que eu sabia existir, mesmo não o conhecendo pessoalmente. jamais fora assim, jamais seria. O que estava feito, não podia ser mudado. Eu o amava tanto, confiava tanto nele, que não conseguia agora, olhando em seus olhos, duvidar que ele estaria ao meu lado. Ficaria tudo bem, nós daríamos um jeito. Se eu estivesse com ele, tudo acabaria bem.
Se.
Eu tirei então delicadamente os óculos escuros de seu rosto, revelando aqueles olhos que limpava minha mente, uma dose de morfina para a dor que vinha me consumindo durante todo esse tempo distante. Eu desejei que ele pudesse me ver nesse momento, ver o estrago que eu estava sem que eu precisasse lhe dizer como me sentia, e ajudasse a me recuperar.
- Você não devia usar isso – eu disse, largando os óculos na cama. – Não tem sentido.
- Parece que costuma deixar as pessoas mais confortáveis – ele deu de ombros.
- Não a mim.
Ele sorriu. Um sorriso triste e ao mesmo tempo agradecido.
Aquilo foi demais para meu coração aguentar, me obrigando a pressionar meus lábios contra os seus. Ele correspondeu com a mesma vontade, abrindo a boca com urgência e puxando meu corpo de encontro ao seu, o que me levou a colocar uma perna de cada lado de seu corpo, facilitando nosso aperto.
Automaticamente eu tentei encolher minha barriga e afastar um pouco, mas ele pareceu nem perceber e meio ao desespero de me beijar e me pressionar contra si. Seus beijos salientes desceram para minha garganta, me fazendo puxar os cabelos de sua nuca – mais compridos e bagunçados do que eu jamais o vira permitir. Um gemido escapou de meus lábios e foi a deixa para ele arrancar minha blusa sem cuidado algum. Seus lábios então desceram até meus seios enquanto desabotoava e arrancava meu sutiã, os lambendo e sugando, o que o mantinha distraído do fato de que eu passara a segurar suas mãos desde que ele começou o caminho de minhas costas em direção a minha barriga com elas.
Ele me abraçava de forma protetora e carinhosa, até mais forte do que o usual, enquanto movimentava seu corpo contra o meu, sussurrando que sentira minha falta enquanto mantinha seu rosto suado próximo ao meu, me dando beijinhos de vez em quando, até que nenhum dos dois pudesse mais resistir a chegar ao ponto mais alto de prazer.
Ele continuou em cima de mim até recuperar um pouco de sua respiração, deitando ao meu lado então e me chamou com a mão para mais perto. Deitei com a cabeça em sua barriga, deixando que ele afagasse meus cabelos, e fiquei encarando seu rosto, aproveitando a paz que ele me trazia.
Aproveitamos aquele o máximo que pudemos, confortáveis pela companhia um do outro.
Mas a realidade sempre bate a nossa porta mais cedo do que desejamos, e nesse caso ela tinha uma voz grossa também.
- Roberta disse que está vindo, perguntou se você prefere comida japonesa ou alguma outra hoje – disse do outro lado da porta.
- Não, qualquer outra coisa, mas não aguento mais comida japonesa, pelo amor de Deus – reclamou. – Fala pra ela pegar em qualquer restaurante pelo caminho.
- Eu quero comida japonesa, ! – gritei, empolgada.
- Começou o abuso! – ele reclamou do corredor, sua risada se distanciando.

Nós tentamos fazer nossa paz durar por mais tempo, mas ambos sabíamos que havia algo, agora que haviam nos acordado para a realidade novamente, e não poderíamos continuar com aquele silêncio.
- Acho que está na hora – começou, ainda afagando meus cabelos. – De me dizer o que está acontecendo.

- Bom, eu tenho mesmo algo pra te contar – minha voz saiu quebrada e rouca, me forçando a pigarrear. Eu tomei grande fôlego para dizer de uma vez, antes que eu desistisse. – Eu tive medo por nós dois, por seu estado, por seu futuro. Quero dizer, você já tem problemas suficientes, mas eu não tenho mais escolha. Me desculpa. – Ele franziu o cenho, e eu não conseguia mais pronunciar nada, estava preso em minha garganta.
- , fala logo, você está me assustando – ele sentou, as costas contra a parede, me obrigando a sentar na cama de frente para ele.
Eu apertei sua mão e fechei os olhos. Não conseguia dizer o que precisava, ainda me parecia como uma sentença de morte, pois eu sabia que, após pronunciar as palavras, não haveria mais volta. Ele apertou minha mão de volta.
- Fale.
Eu puxei sua mão a caminho de minha barriga, parando na metade do caminho.
- Você me ama? – perguntei, fechando meus olhos.
- É claro que te amo, você sabe disso.
- O quanto você me ama? Até onde você está disposto a ficar comigo? – eu não conseguia esconder o desespero em minha voz.
- Eu te amo mais do que tudo, pequena, e eu vou estar com você sempre, não importa o que aconteça. Pra sempre.
- Jura?
- Juro. Agora me diga , o que está acontecendo? Fale de uma vez! – ele estava nervoso, ansioso, com medo, eu podia ouvir em sua voz, mas ainda não podia abrir meus olhos.
Levei então sua mão a minha barriga, deixando que ele percebesse o evidente formato arredondado que estava começando a tomar.
- Tôgravida – eu soltei finalmente, atropelando as palavras presas por tanto tempo.
- O que? – ele perguntou atordoado.
Abri meus olhos, vendo o choque em seu rosto.
- Estou grávida, .
Sua boca se abriu e ele paralisou. Parecia que não estava respirando, como uma estátua de mármore, branco e imóvel daquela forma.
Eu não sabia mais o que dizer, sua falta de reação também me deixou sem uma.
- Eu... eu… - demorei mais alguns segundos pra continuar. – , fala alguma coisa.
Seus olhos sem foco pareciam agora duas pedras de gelo voltadas para mim.
- Quanto tempo? – algum tempo depois ele perguntou com a voz dura.
- Por volta de quatro meses.
Ele voltou a seu silêncio, e apesar de mal poder ouvir sua respiração, eu podia praticamente ouvir seu cérebro trabalhando, cada peça se encaixando vagarosamente em seu lugar.
- Você me escondeu isso por quatro meses? – ele perguntou, e então continuou antes que eu pudesse pensar em uma resposta, sua face tomando feições ferozes. – E resolveu me contar isso agora pra que? Você tem noção do que você fez? , ainda estamos no colegial!
- Eu… eu… - então eu lembrei as palavras de Tom, sobre não ser a única culpada da história. – Hey, não ouse falar como se a culpa fosse minha! Eu confiei em você, achei que soubesse o que estava fazendo naquele maldito barco. Eu não escolhi isso!
- Eu não sei se você já percebeu garota, mas eu estou cego! Você esperava que eu cuidasse dessa criança como, se nem de mim consigo cuidar sozinho?
- , melhor do que ninguém eu sei exatamente como você está e isso nunca me importou ou atrapalhou, eu só te deixei por medo de destruir sua vida! Mas eu não posso mais carregar essa responsabilidade sozinha, é demais pra mim!
Ele me olhou com tal raiva que eu jamais havia visto em seus olhos antes.
- , eu não posso assumir uma criança se não posso cuidar dela. E você terá que carregar sim essa responsabilidade sozinha, não há nada que eu possa fazer para ajudar além de te dar dinheiro, e você já sabia disso quando veio até aqui, não sabia? Então se é disso que você precisa, eu te mando quanto você quiser, mas eu não quero que essa criança saiba que tem um pai defeituoso. Você vai ter que se virar sozinha. – Ele segurou as laterais de meu rosto, me fazendo olhar para ele. – Eu não quero que você venha mais atrás de mim, é o melhor para todos, você está me entendendo?

Aquilo não foi como um soco no estômago, não foi como uma pancada inesperada na cabeça. Aquilo, toda aquela dor, não podia ser comparada a nada. Cada célula minha doía, cada partícula minha se retraia em desespero e solidão. Afinal, ele não me amava como jurara minutos atrás, ele não estaria comigo não importando o que acontecesse. O para sempre era uma mentira, jamais existira, jamais significou algo de verdade. Outra crise estava ali, eu mal conseguia respirar, mas eu sabia, nada podia concertar aquilo dessa vez. Ele não cantaria para me acalmar, ele não estaria ali mais. Ele não me queria, muito menos a nosso bebê que eu tanto amava, e que, agora, tanto amaldiçoava. Eu tentei segurar sua mão quando ele se afastou, mas ele apenas a soltou, deixando a cama e saindo do quarto.
Me deixando, saindo da minha vida.
- Você deve achar alguém que possa cuidar de vocês dois. – Eu percebi, ele estava chorando. - Eu não posso. Você tem que se manter longe de mim, esquecer que eu existo.
Antes que eu percebesse, eu estava gritando coisas sem sentido, minha voz rasgando minha garganta. Abandonada, renegada. Meu bebê desprezado pelo próprio pai, amaldiçoado como eu. Eu não podia suportar me deixando. Não me importava com mais nada, eu precisava de , não podia perdê-lo. Eu o amava mais do que jamais pensei ser possível amar alguém, e não havia possibilidade de sobreviver sem ele. O que seria de mim, da minha vida? Como eu podia continuar a viver sabendo que ele nunca mais estaria comigo?
Tudo o que eu queria era ele e, se eu não pudesse o ter, eu não queria mais viver. Não havia ponto, não havia sentido no futuro.

Eu mal soube como me tirou daquele apartamento, carregada, eu acho. Em algum ponto então eu me encontrei em meu quarto da escola, sozinha em minha cama. fechara a porta dizendo algo sobre buscar água com açúcar.
Pro inferno com a água com açúcar, eu tinha tudo o que precisava bem ali, em meu banheiro, que foi onde me tranquei ao perceber que minhas pernas mais uma vez me obedeciam. Minha vista embaçada tanto pela tontura quanto pelas lágrimas, minha cabeça rodava ligeiramente, mas eu sabia exatamente onde estava o que eu precisava. Uma navalha, a qual Natália havia trazido na tentativa de cortar meu cabelo, no armário embaixo da pia.
Eu me olhei no espelho. Eu me odiava, odiava mais que tudo no mundo.
Eu era incompetente, uma maldita filha de uma mulher que a odiava, abusada pelo ex-namorado, nem minhas amigas me suportavam, nenhuma delas. Nem as do Brasil nem as daqui, nem atravessando um oceano eu conseguia que alguém gostasse o bastante de mim, que deixasse de zombar de mim. E o único que gostara de mim de verdade era um psicótico maldito que deram por morto há algumas semanas. Eu não conseguia mais acompanhar as matérias da escola, minhas notas caiam tão rapidamente que era incrível que ainda não tivessem me reprovado. Eu era a desbotada, mais do que isso, eu não tinha cor alguma. Porque eu era vazia, inútil, sem brilho algum. Apenas mais uma menina pior do que comum.
Puxei um maço de cabelo em frente ao espelho, passando a gilete nele. Eu podia sentir cada fio se partindo com a o fio da gilete, tentando me livrar de mim mesma. Mais uma mecha desbotada na qual eu passei a gilete, e mais uma, e outra, até que finalmente as cinco mechas, uma vez com cinco cores, estavam espalhadas pelo chão e pela pia.
Me encarei. Mesmo sem as mechas, eu ainda me odiava, aquilo não era nem de longe o bastante.
Desejei que tivesse deixado que me matassem quando me sequestraram, ou que tivessem conseguido me explodir no maldito barco, quando eu ainda era feliz. Resisti até aqui para que? Para nada, como sempre. Felicidade era uma coisa que eu só havia conhecido quando encontrei , e agora eu o havia perdido. Como eu pude ser tão burra? Mais cega do que ele?
Eu faria qualquer coisa para tê-lo de volta, mas não havia nada a ser feito. Aquilo doía tanto, que eu não conseguia suportar. Meu estômago revirou e eu não tentei segurar, vomitando então na pia. O gosto de bile era nojento, assim como aquele cheiro, mas eu sentia como se merecesse coisas ruins assim. Então eu percebi que havia apertado a navalha em minha mão quando vomitara, e agora ela estava sangrando.
O interessante é que a dor me agradou. Ela não fazia a dor que eu sentia por dentro ir embora, mas a amenizava, minimante, por alguns segundos.
Eu precisava me acalmar, respirar um pouco para, quem sabe, talvez acordar e perceber que tudo não passará de um pesadelo, que eu ainda estava dormindo na barriga de .
Voltando ao quarto, procurei meu remédio, escondido entre as roupas na gaveta. As pílulas dentro ocupavam metade dele mas, mesmo depois de praticamente esvaziá-lo, eu sabia que o efeito demoraria demais, e eu não podia aguentar nem mais um minuto daquilo.
Continuei a vasculhar a gaveta, me lembrando de um remédio prescrito há muito tempo, apenas para situações de emergência e que eu nunca usara antes, pois nunca lembrava de carregar na bolsa.
O líquido ocupava todo o frasco. A médica falara algo sobre apenas algumas gotas, mas eu não estava raciocinando muito bem, e nem queria. Eu não me importava com o que estava fazendo, simples assim, arranquei o conta-gotas e derramei o líquido para minha garganta.

Voltei ao banheiro, trancando novamente a porta, e logo a tontura me atingiu. Talvez eu tivesse exagerado nos remédios, mas eu realmente não me importava. Se eu não podia tê-lo, não havia porque continuar a viver.
É claro, eu estava ciente da crianturinha dentro de mim. A criatura responsável por me deixar, assim como eu fui a razão de meu pai deixar minha mãe. Agora eu podia entender porque ela me odiava tanto, porque me mandará para tão longe ao invés de tomar conta de mim e enfrentar Jack. Eu estaria ajudando a mim, a minha mãe, e a criança dentro de mim agora. Minha mãe não teria mais que se preocupar comigo ou se incomodar, seria um alívio para ela. Meu bebê não teria que vir a este mundo para sofrer, eu estaria poupando uma vida inocente de crescer para ser infeliz. Por mais absurdo que aquilo me parecera antes, agora fazia total sentido.
Viver não valia a pena.
Só queria que aquela dor me deixasse, queria os braços de a minha volta. As imagens de cada momento junto com , de todas as vezes que ele me protegeu, que disse que me amava, que me beijava, que fazíamos amor, que ele segurava minha mão, que sussurrava em meu ouvido, era tudo no que eu conseguia pensar enquanto me sentava no chão, fraca demais para continuar de pé.
As palavras de ecoavam em minha mente, todas nossas conversas. Deitei então, me sentindo um tanto aérea, a voz de ecoando suas ultimas palavras para mim pareciam estar sendo gritadas tão alto, novamente e novamente, sem parar, que eu não me preocupei em dar atenção a voz fora de minha mente, a que gritava e esmurrava a porta do banheiro.
Eu não estava chorando mais, não havia por que. Eu estava me livrando de tudo aqui, logo toda a dor que me consumia acabaria, e eu poderia estar em paz. É isso que vão dizer mais tarde, não é? Descanse em paz?

Os estrondos da porta ficavam mais fortes ao mesmo tempo em que pareciam mais distantes. Eu estava tão tonta e sonolenta que era como se pudesse sentir a vida me deixando. Eu queria que ela me deixasse mais rápido, pois alguém me sacudia.
- Fica comigo! FICA COMIGO! – O idiota que havia me feito contar tudo a gritava para mim, e eu o olhei vagamente. Eu não queria ficar com ele, eu queria ir pra longe daquilo tudo. Queria que a dor interna me deixassem livre, eu implorava por um pouco de paz. – Liga pra emergência, RÁPIDO! – Ele gritou para alguém enquanto me pegava no colo, mas aquilo não fez muito sentido pra mim.
Entre solavancos eu estava ficando puta, queria que parassem de me mexer tanto, apenas me deixassem morrer em paz.
Mas então minha mente já não acompanhava muito bem o que acontecia com meu corpo. Tudo o que estava em minha cabeça era . e eu estávamos na ensolarada praia na costa britânica novamente. Ele cantava para mim, tocando violão e sorrindo. Seu sorriso ofuscava o sol e sua voz era mais linda que o barulho das ondas do mar quebrando. Então estávamos tomando nosso sorvete favorito juntos, rindo, provocando um ao outro, nos beijando. Houve alguma discussão, e então estávamos pegando fogo no chão do quarto, movimentando nossos corpos até que chegássemos a nossos limites. Ele me abraçou para dormir, assim como sempre fez.
Minha ultima lembrança foi de quando havia dito que me amava após a peça, de quando nossa foto que ficava em sua cabeceira foi tirada. De quando eu vivia em nosso conto de fada deturbado, mas quando, apesar de tudo, estávamos juntos e ele me amava. A última coisa em que pensei foi nisso, e em nosso beijo, antes de tudo ficar pesado e escuro demais para que eu continuasse a pensar. Eu me deixei afundar no vazio.




CONTINUA



Xoxo, Thamih (Bittencourt) Jones
Outras fics da autora:
Look at The Sky [McFly/Andamento]
Our Secret Party [Hot Fics/ Finalizadas]
Our Secret Party [Hot Fics/ Em andamento]
Se encontrou algum erro, seja ele qual for, envie um e-mail diretamente para mim (pamelalleao@gmail.com), ou um tweet, indicando-o e o nome da fic. Obrigada!

Volte ao topo para comentar!


Fechar a janela para voltar ao POP