Everywhere

Autora: Reh
Status: Em Andamento
Revisada por: Reh
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: LongFic/Drama/Romance
Comentários:




Introdução


"E foi que, na primeira vez que eu me lembro de ter ido com a minha mãe em Versailles, no estado de Indiana, Papaw me avisou para ficar longe da cisterna abandonada nos fundos da casa da fazenda, que estava coberta com uma placa velha de compensado, e que ele estava esperando uma escavadeira que viria enchê-la de terra.
Só que eu tinha acabado de ler Alice no País das Maravilhas e, é claro, estava obcecada com qualquer coisa que se assemelhasse a uma toca de coelho.
Então, é claro que tirei o compensado de cima da cisterna, e fiquei lá parada na beiradinha, olhando para o buraco fundo e escuro, imaginando se ele levava ao País das Maravilhas e se eu realmente poderia ir até lá.
E daí a terra da beirada cedeu, e eu caí no buraco.
Só que eu não fui parar no País das Maravilhas. Muito longe disso.
Não me machuquei nem nada, e no fim consegui sair, agarrando-me a algumas raízes que cresciam na lateral do buraco. Coloquei a placa de compensado de volta no lugar em que estava e voltei para casa, abalada, fedorenta e suja, mas ilesa. Nunca contei para ninguém o que eu tinha feito, porque sabia que Papaw simplesmente ficaria bravo comigo. E, por sorte, ninguém nunca descobriu. Mas o negócio é que, desde que eu falei com o Michael no domingo, estou me sentindo como se estivesse sentada no fundo daquele buraco de novo. De verdade. Como se eu estivesse lá embaixo, olhando para o céu azul lá no alto, totalmente sem saber como é que eu tinha me metido naquela situação.
Só que, desta vez, não tinha nenhuma raiz para me ajudar a me firmar e sair do buraco. Eu estava empacada lá no fundo. Enxergava a vida normal passando lá em cima - gente rindo, se divertindo; o sol brilhando; os passarinhos e as nuvens no céu - mas não conseguia voltar para me juntar àquilo. A única coisa que eu podia fazer era observar, do fundo daquele enorme buraco escuro.
[...]
Ele disse: "Ás vezes, na vida, a gente cai em buracos dos quais não consegue sair sozinho. É para isso que os amigos e a família servem - para ajudar. Mas eles só podem ajudar se você informar a eles que está lá embaixo."
Fiquei olhando estupefata para ele mais um pouco. Foi realmente estranho, mas... eu não tinha pensado nisso. Eu sei que parece idiota. Mas a ideia de pedir ajuda nunca tinha me ocorrido.
"Então, agora que sabemos que você está lá no fundo", o dr. Loco prosseguiu, com sua fala cantada de cauboi, "que tal você nos deixar dar uma ajuda?"
O negócio era que... eu não tinha certeza se alguém podia me ajudar. A sair daquele buraco, quer dizer. Eu estava tão no fundo, e tão cansada... mesmo que alguém me jogasse uma corda, eu não tinha certeza se teria forças para me agarrar a ela.
"Acho", eu disse, fungando, "que seria bom. Quer dizer, se der certo."
"vai dar certo", o dr. Loco afirmou com muita certeza."
O Diário da Princesa (9 - Princesa Mia) - Meg Cabot pg. 81/82.
Certo, sei. Quer dizer, pode até dar certo - pra ela, isso sim. Acontece que ela - a Mia, do livro - é sortuda e não sabe, muito sortuda e não sabe, assim como não sabe valorizar o que ela tem. Além de toda a questão dela ser uma princesa, ter uma família aparentemente perfeita e toda essa coisa real; ela tem o Michael, ela tem as amigas dela. Bem, ok, não vou dizer que a vida dela é perfeita, porque eu tenho um ódio particular pela burrice dela além de que cada um sabe do seu sofrimento e mais ninguém, assim como não temos como medir sofrimento e nem quem sofre mais que quem - até porque se eu estivesse no lugar dela eu também sofreria assim. Enfim, sem mais delongas: eu invejo ela às vezes.
Por quê?
Ela não vê o quanto ela é sortuda por, nesse momento de crise, realmente ter alguém para pedir ajuda. Mas e se, assim como eu, ela não tivesse? E se, assim como eu, ela não saísse ilesa do buraco? Eu não tenho nenhuma raíz, nenhuma corda, nenhum alguém e nem posso procurar alguém. Quem me entenderia sem eu precisar contar tudo? Tudo o que eu não quero contar para alguém porque as pessoas simplesmente ficariam bravas comigo - do mesmo jeito que Papaw teria ficado com Mia.
Ok, que tal parar com o exemplo surreal do livro? Sim, obrigada.
Eu sempre pensei serem ridículas aquelas garotas - que eu achava patéticas - que sofrem por garotos, que o mundo para por causa de um coração partido. Mas eu dizia isso porque eu nunca havia passado por qualquer situação... não-desejada com algum garoto. Na verdade, eram eles que passavam por isso comigo. Só que quando a gente bate de cara com o problema, a gente entende em um segundo todas aquelas garotas que agora sabemos que não são patéticas. Se você pensa hoje como eu pensava antes, pode ser porque você nunca passou por isso ou, se passou, não foi uma dor tão profunda assim. Ou então você simplesmente tem sorte e não se importa mesmo com qualquer garoto... só que então você realmente está na minoria.
Ok, que tal começar a contar tudo? Sim, muito obrigada.

one;



Tudo iria dar certo. É, eu sabia disso, não aconteceria nada de interessante. A única coisa que eu tinha que fazer era fingir e aguentar até o final da manhã. Iria ser fácil, acho. Mas então por que eu não conseguia dormir? Daqui a três horas eu teria que levantar para me arrumar e ir para a escola, até lá eu tinha um tempo pra dormir. Mas por que não conseguia se eu estava morrendo de sono e se não tinha dormido nem um minuto desta madrugada? Desisti de tentar dormir e fiquei fazendo nada, literalmente. Meu nervosismo não tinha razão. Não haveria nada a temer na escola, nunca tive medo de escola, nem no primeiro dia de aula da minha vida quando eu era criancinha. Na verdade, eu lembro que fiquei bem alegre com o primeiro dia de aula e tive que consolar o meu irmão mais velho, isso sim. Mas esse ano... eu tinha a impressão de que seria tudo novo, não só pelo fato de que todas as minhas amigas saíram do colégio.
Me levantei e fiz tudo o que tinha que fazer antes de ir pro colégio, na maior lerdeza claro, e ainda faltavam 3 horas para eu ter que sair de casa. Ótimo. Saí de casa mesmo assim, pra onde eu iria nessa hora era um mistério, mas não me importava.
Passando pela pracinha principal dessa mini-cidade, eu vi que só havia uma pessoa lá. Claro, eram umas seis horas da manhã, ter uma pessoa além de mim é um milagre. Sentei no banco e coloquei uma música pra tocar no meu iPod: Love Seat - The Red Jumpsuit Apparatus. É, esse shuffle começou bem. Observei a única pessoa presente além de mim - um garoto vestido com uma camisa preta, calça jeans rasgada em alguns pontos, all star preto totalmente surrado e com coisas ilegíveis escritas, casaco xadrez preto e cinza e uma munhequeira. Além disso, ele tinha o cabelo preto, e um cigarro na mão.
Automaticamente eu tive o instinto de não olhar mais pra ele porque ele poderia olhar de volta se sentisse o meu olhar sobre ele - dizem que isso acontece. E eu não queria mesmo que ele olhasse para mim, não sei por que mas eu tive medo desse ato. Talvez fosse melhor sair dali, eu pensei, mas eu realmente não tinha outro lugar para ir por enquanto a não ser voltar para casa - coisa que eu não iria fazer. Concentrei na música mas era inevitável não olhar, eu nunca havia o visto aqui e eu já conheço todo mundo dessa cidade, e ele era a única pessoa ali além de mim e isso atrai a atenção como não tinha mais nada a se fazer a não ser observar. Por que será que ele está ali? Insônia, como eu?
Ele percebeu a minha presença, pois olhou para mim. Percebi que seus olhos eram de um bem profundo e o rosto com contornos... bem, devo que admitir bem lindos, mas foi só o que percebi até meu instinto gritar para eu parar de olhar pra ele e eu desviei o olhar. Depois de um tempo, vi ele jogar o cigarro fora e procurar no bolso da calça por outro. Sua cabeça estava começando a se movimentar como se fosse olhar para mim e eu desviei minha atenção para o meu iPod.
- Ei, você tem fogo? - ele perguntou. Não entendi, com quem ele estava falando? Comigo? Como? Por quê? Não conseguia encontrar a minha voz e o pior é que eu nem sabia por que eu estava assim, com medo. Eu tenho fogo? O que é fogo? Ele quis dizer que eu tenho um fogo. Como assim?! Ele está incinuando alguma coisa sobre mim, é. Eu nem conheço ele, como ele se atreve a falar alguma coisa dessas pra mim?! Passou-se um segundo nesse pensamento até eu notar o cigarro na mão dele. Ah sim, é esse tipo de fogo que ele quer.
- Ahn...hm...não. - Será que ele ouviu o quanto a minha voz saiu abalada, tremida, com medo...(?)
- Ah que pena, acho que então nada de cigarro agora.
- É...acho que não. - falei mais pra mim do que pra ele.
- O que você faz aqui nessa hora? - ele perguntou como se fôssemos velhos amigos. Instinto alertou forte o meu medo.
- O que você faz aqui nessa hora? Esse já é meu lugar, você que é o intruso, quem é você aliás? - comecei a hiperventilar, ficar sem ar, asma atacada. Peguei minha bombinha na bolsa e aliviei com ela a minha respiração enquanto ele olhava de um jeito curioso.
- Você está bem?
- Sim. Quem é você?
Ele se levantou do outro banco que estava a poucos metros do meu e veio em minha direção. Será que eu conseguia correr? Minhas pernas pareciam muito bambas ali na hora, talvez... talvez eu devesse pegar o meu spray de pimenta na bolsa, ficar preparada sabe. Mas as minhas mãos estavam trêmulas. Bombinha de novo. Ele sentou-se ao meu lado. É, ele era bonito. Não, lindo.
- Me chame de . Você se chama...
- . Mas você ainda não respondeu quem você é. - Era estranho ter um estranho falando tão perto assim comigo.
- Me mudei pra cá agora, vivendo com meus tios.
- E eles são...
- Os Donovan.
- Ah sim, conheço. São boas pessoas. - Realmente, família bem conhecida aqui, respeitável. De vez em quando minha mãe ia à casa da Srª Donovan, elas eram amigas até.
- Agora que você sabe que sou de uma família boa, você pode parar de tremer e ficar com a respiração acelerada? - Pensei que só eu tinha reparado na minha histeria, sério.
- Hm, acho que não dá, eu não tenho muito controle sobre mim às vezes.
- E por que você está... com medo de mim?
- Na verdade, nem eu sei. Como eu disse: não tenho muito controle sobre mim. - ele me olhou com uma sombrancelha erguida como sinal de desconfiança. Problema é dele, eu queria era sair dali. Eu não saí de casa com o espírito preparado para qualquer conversa, eu iria me preparar nessas três horas de espera. #fail
- Você ainda não respondeu o que você faz aqui nessa hora. - um meio sorriso apareceu no rosto dele. De onde tinha saído isso eu não sei. Quer dizer, ele não deveria ser legal comigo quando o meu instinto gritava pra eu não ser legal com ele.
- Insônia.
- Faz sentido.
- E o que você faz aqui?
- Vamos dizer que é insônia. - levantei uma sombrancelha, imitanto o seu ato, como sinal de desconfiança. - Na verdade eu não gosto muito de dormir.
- Ah sim, porque isso explica tudo.
Ele apenas sorriu seu meio sorriso.
O silêncio contrangedor rompeu o lugar e ele observava o balanço se mexendo com o vento.
- Está frio hoje, né? - ele comentou.
- É, um pouco.
- Um pouco? Pra mim é muito.
- Eu estou acostumada, e até gosto.
- Pois eu não, não sou acostumado nem gosto.
- Hum...
Silêncio contrangedor por mais alguns minutos.
- O que você está ouvindo? - apontou para o meu iPod.
- Nesse momento, Keeper do Yellowcard.
- Posso ouvir com você?
- Pode. - dei um fone pra ele.
- Wish there was something inside me to keep you inside meeee.. - ele cantou de um jeito que me fez rir. Minha mão aliviou um pouco no quesito alerta on. - Ah eu canto bem, vai.
- Eu não disse nada. - ri. Ele riu.
- Oh, essa música também é legal. - ele disse quando mudou para Everywhere, também do Yellowcard. Ele me olhou como se perguntasse se eu concordava e eu apenas sorri. Ele riu um riso interno.
- Por que você riu?
- Nem te conto. - ele falou brincando daquele jeito quando a gente finge que é algo que 'é melhor não saber', entende?
- Não queria saber mesmo. - ele riu.
Ficamos por um tempo apenas ouvindo as músicas, em silêncio de novo, só que dessa vez nada constrangedor.
- Por que você se mudou pra cá, veio morar com seus tios?
- É a família que me quer. - disse como se fosse insignificante o fato de que alguma outra família possa não querer ele.
- Como assim?
- É complicado e longo. A história, quero dizer.
- Eu sou bem inteligente e ainda temos duas horas.
- Hã? Por que duas horas?
- Por que depois dessas duas horas eu vou para a escola.
- Ahn sim...
- Enfim, me conte. - ele riu. Por quê?
- Bem, meus pais não me querem nem meus avós, sobraram os meus tios. Eles sempre foram legais comigo, eu tento retribuir.
- Mas por que nem seus pais nem seus avós te querem?
- Nem te conto. - ele brincou de novo.
- Ah vai, conta. Eu sou curiosa. Começou, termina.
Ele respirou bem fundo. - Eu não sou um filho/neto exemplar, digamos assim.
- Hum, mas então seus pais desistiram fácil assim de você, seu mau exemplo? - tentei brincar com ele.
- Ninguém disse que foi fácil.
- Hm... e o que te faz ser tão mau pra eles então?
- Me diga você. Era você que estava tremendo de medo e com falta de ar.
- Eu já disse que não sei o porquê, foi só um instinto do meu corpo.
- Talvez o instinto estivesse certo. - com esse aviso dele, aí sim que meu alerta gritou. Uma voz dizia que eu devia dar uma desculpa e sair dali, outra dizia que não era nada demais e que eu deveria ficar. - Mas não precisa começar a tremer de novo. - ele riu. - Eu não mordo. Não vou te fazer mal.
- Hm, não estava com medo. - menti.
- Sei.
- Me diz por que o instinto talvez estivesse certo.
- Ah deixa pra lá, não é nada demais, são meus pais que faziam grande caso com isso.
- Com o quê?
- Não vou contar, meu segredinho. - ele sorriu; eu sabia que ele não iria me contar agora. - Mas falemos de você.
- Não não, nãão, não, NÃo! - falei, histérica, enquanto automaticamente ia me levantando do banco.
- Ei, calma. - ele me puxou pra sentar no banco de volta. Sentei. - Você tem tanto medo que saibam de você assim?
- Não, é que eu não gosto de falar sobre mim. Nem um pouco.
- Ok então... só achei que, se eu te contei sobre mim, talvez você devesse fazer o mesmo...
- Na verdade, você não me contou nada a mais do que eu descobriria sozinha. Só me deixou com mais perguntas.
- Então ficamos na mesma.
- É...
Ficamos ouvindo as músicas, às vezes comentando sobre algumas, às vezes ele que pegava o iPod da minha mão e fuçava as músicas, com um meio sorriso no rosto. Eu já nem estava com o meu alerta tão inquieto assim, ele parecia completamente normal pra mim. Quer dizer, normal não porque as roupas dele não eram o que todos os meninos usavam por aí - a camisa preta com um "Avenged Sevenfold" na frente denunciava isso, assim como seu all star com os escritos que agora eu conseguia ler: nomes de bandas como Guns N' Roses. Normal não também pelo fato dele estar sendo relativamente legal comigo apesar de eu ser uma completa estranha pra ele, o que não era nada normal.
As duas horas passaram-se mais rápido do que eu imaginava que passariam.
- Ei, tenho que ir. Escola.
- É, vou pra casa.
- Hm, ta bom então... é... bom te conhecer, .
- Digo o mesmo, . - ele sorriu.
- Tchau.
Saí em direção à escola enquanto ele foi para o sentido oposto. Realmente, a manhã começou bem estranha.

two;



Mais estranho que essa manhã era o meu pensamento naquele momento - eu estava desejando ter o aqui caminhando para a escola comigo, pelo menos ele seria um possível amigo nessa escola onde eu não tenho mais nenhum.
Cheguei no pátio tão conhecido que eu desejava nunca mais ver, estudar no mesmo lugar a vida inteira pode ser um tanto irritante depois de um tempo, acredite. Caminhei pelo pátio que já estava com as mesinhas cheias de gente já que era o primeiro dia de aula. Enquanto eu passava, eu sentia os olhares sobre mim, só que não me virei para observar - já sabia de quem eram os olhares: da escola inteira. Não, eles não estavam me olhando porque gostavam de mim, estavam olhando porque sentiam pena de mim. Desde que houve o acidente de carro e meu pai morreu (janeiro), eles simplesmente acham que eu sou uma coitada, orfã de pai. O que, para mim, é horrível. Não é que eu não gostava do meu pai, quer dizer, ele era um bom pai, mas a gente simplesmente não tinha afinidade nenhuma. Ele me visitava, me dava presente de aniversário, natal, mas nunca foi um pai presente. E eu não o culpo por isso, eu fiquei bem a vida inteira. Só que eu não sou tão coitada quanto as pessoas pensam, tudo bem que ele era um pai, meu pai, mas também não é por isso que eu devo chorar lágrimas de sangue o tempo todo quando eu mal o conhecia. E não é que eu fique alegre com a morte dele, não, cruz credo, eu já chorei, já tive o meu momento mal, mas isso passa. Mas, pelo visto, não passa para as pessoas de fora da história.
Cheguei na portaria e apertei o sininho para chamar a recepcionista, tinha que pegar meus horários.
- Bom dia..hm.. eu queria o meu horário, o meu nome é . - a recepcionista me olhou com o famoso olhar de pena quando ouviu meu nome. Isso está começando a me irritar.
- Ahn...sim, claro. - ela imprimiu uma folha do computador e me entregou.
- Obrigada.
- De nada. Hm, moça...- ela me chamou quando já estava me virando para ir embora. - Eu sinto muito.
- Sinto muito por quê? - não estava entendendo, meu momento lerdeza hoje estava demais. Olhei para minha folha, vai que ela estava sentindo muito por eu ter álgebra no primeiro horário, se fôr isso, me taco da janela, sério mesmo.
- Pelo seu pai. - ¬¬
- É muita gentileza sua, obrigada. Tchau. - e saí. Já disse que isso está começando a me irritar?
Fui para o laboratório de biologia - ufa, tudo menos álgebra no primeiro horário - e sentei-me na última mesa, bem no fundo da sala, esse seria meu refúgio. As pessoas começaram a entrar e se acomodar na sala, com aquele barulho, e eu coloquei minha cabeça sobre a mesa, esse sono está caindo em cima de mim agora e eu sentia que iria deixar ele me absorver. Alguém sentou do meu lado, nunca tenho a sorte de sentar sozinha. Bom, espero que seja uma pessoa bem nerd que não tente puxar assunto comigo e faça todos os trabalhos, porque esse ano...
- Oi. - alguém me cutucou. Levantei a cabeça e vi . Eu só podia estar tendo alucinações, certeza, e quando eu acordar delas eu vou ver o tão esperado nerd.
- Ah, oi!
Ele sorriu e o professor começou a falar. Sempre as mesmas babozeiras de começo de ano: espero que vocês estudem, sejam felizes, administrem seu tempo, blá blá blá. Isso realmente estava me estressando mais ainda, só que, por incrível que pareça, ficar ali do lado do tinha alguns efeitos diagnósticos: eu ficava mais relaxada. O medo que eu estava no começo da manhã dele, agora já não dava as caras, talvez fosse pela ilusão de que estar com muitas pessoas por perto fosse seguro, ou talvez porque o meu corpo finalmente entendeu que não tem nenhum perigo, pelo menos não vindo dele.
- Então... mal cheguei na escola e já sei de tudo que acontece na vida de muitas pessoas daqui.
- E como você sabe?
- Aquela recepcionista gosta de conversar, digamos assim.
- Acho que ela queria mesmo era puxar assunto com você, ser sua... digamos que amiga. - com certeza ela se interessou por ele, ele é interessante e ela é uma mulher de 30 anos com aparência de uma de 17 bem bonita. Acha que me engana...
- Huuum... e o que você acha disso?
- Hã?
- Nada.
- Eu nem te conheço e você já me irrita.
- Eu sei.
- Então... sobre quem vocês conversaram?
- Sobre você.
A esta altura do campeonato, a gente já estava se inclinando na diração do outro, já que qualquer suspiro um pouco alto seríamos expulsos de sala. Bem, pelo menos esse era o meu motivo por estar me enclinando na direção dele.
- E o que ela te disse sobre mim?
- Ela me falou do seu pai.
Suspirei profundamente, bem profundamente, sem me importar em ser expulsa de sala, até porque eu queria isso.
- Srtª , algum problema?
- Não não, asma atacada, só isso. - peguei a minha bombinha para fingir e me ajeitei na cadeira. Viu como eu estava falando sério sobre o suspiro?
- Olha, , eu entendo qu...
- Shiu. Não fala nada, quero prestar atenção na aula. - menti.
- Se é o que você quer...
E passei o resto da aula fingindo que estava atenta em algo que não fosse os rabiscos no meu caderno. Estava cheia das pessoas comentando do meu pai, comentando de mim ou de qualquer coisa relacionada à minha pessoa. Um semestre era só o que eu conseguiria aguentar e esse um semestre acabou há um mês atrás e mesmo assim tenho que aturar todo santo dia os olhares das pessoas quando eu vou ao mercado. Cidade pequena é uma bostinha, sério mesmo.
Saí de sala quando o sinal bateu, sem prestar atenção em nada, nem mesmo no , por puro e verdadeiro esquecimento, eu simplesmente estava acostumada com essa rotina. Eu estava no meu mode automático.
Fui para a próxima aula, escapei da álgebra no primeiro horário, agora a sorte já estava indo demais e eu infelimente tive que ir pra sala de álgebra que ficava do outro lado do prédio do colégio. Sentei no fundo de novo.
- Posso me sentar aqui? - perguntou apontando para a cadeira ao meu lado.
- Por que você está me seguindo?
- Quem disse que eu estou te seguindo? A gente só tem os mesmos horários.
- Aliás, você mentiu pra mim mais cedo. Disse que ia pra casa mas aqui está você.
- E eu fui pra casa, pegar uma coisa lá, mas vim logo em seguida.
- E ainda assim teve tempo de conversar com a recepcionista.
- Faço amizades bem rápido, como você já percebeu, amiga.
- Ahahahaha, quem disse que eu sou sua amiga?
Por que eu estava sendo arrogante eu não sei. Existem muitas coisas nesse mundo que são um mistério para mim, fato.
- Acho que não vou sentar aqui afinal. - e foi para uma outra cadeira também no fundo da sala mas do outro lado. Ótimo. Como se eu estivesse afogada de amigos pra sair dispensando algum.
O tempo da aula não tinha acabado e já não tinhamos nada a fazer, não que eu fosse fazer se tivesse mas para os interessados era como um tempo livre. Tempo livre que eu simplesmente queria passar dormindo, o sono estava me atacando forte agora. - Ei. - alguém falou. - ! - olhei para a direção do som (cadeira da frente) e vi uma garota loira com um quilo desnecessário de maquiagem que lembrei se chamar Lindsey, ela estava mudada... algo diferente no nariz... ah sim, plástica!
- Eu.
- Então... como foram as férias? - Mais um pra minha lista de mistérios: por que ela estava falando comigo se ela nunca olhou para mim a não ser pra falar algo ruim?
- Ótimas. - disse sarcástica.
- Ah sim, desculpa, claro que não foram boas... seu pai... sinto muito. - percebi o tom de indiferença na voz dela, ela com certeza não sentia muito.
- Cala a boca. - eu sinceramente não aguentei. Mas ela levou na esportiva acho, parece que ela pensou que eu estava brincando ou algo assim pois ela sorriu.
- Bem, eu vi você conversando com o aluno novo... o tal de ... vocês são o quê? - mistério resolvido.
- Nada, conheci hoje.
- Hum, então será que eu devo falar com ele? Fazer... amizade?
- Acho que sim.
- Ok então. xoxo. - sim, ela disse "EX""OU""EX""OU", só faltou ela dizer Gossip Girl no final, sério, ela falou i-gual-zi-nho.
E essa eu tinha que observar. Ela tentar ser amiga dele, quero dizer. Ela não faz muito o tipo dele, acho. Nossa, eu estou ficando louca, como que eu poderia saber qual é o tipo dele? Que estúpida que eu sou.
- Oi, prazer, eu sou a Lindsey, mas pode me chamar de Li.. ou Linda. - ela disse pra ele com uma expressão atrevida. Que bom que a sala era pequena e eu ouvia tudo.
- Legal. - ele respondeu super desinteressado enquanto mexia no celular.
- Hum, eu soube que você vem da Flórida...
- É, também soube que vim da Flórida.
- Hahahaha, você é tão engraçado. - ela deu uma risada histérica e deu um tapinha no ombro dele.
- Legal. - ele levantou as sombrancelhas totalmente desinteressado, se eu o conhecesse melhor, poderia dizer até que ele estava um tanto estressado.
- Eu estava pensando... - ela se sentou na mesa dele - a gente poderia ser amigos... começando com a amizade hoje à noite lá em casa, o que acha?
- Péssimo.
- Na sua então? - ele desviou a atenção do celular e agora olhava pra ela atentamente nos olhos.
- Eu já percebi como é cada pessoa daqui e eu tinha um dúvida sobre a sua personalidade mas agora já esclareci, obrigado.
- E qual é a minha personalidade então? - ela ainda sorria.
- Você parece ser superficial, que não se importa com ninguém além de si mesma e nos meios de satisfazer seu desejo inssaciável por garotos. Usando um eufemismo muito eufemismado, se você me desculpa o neologismo, você é extrovertida demais. - agora ele sorria e ela estava confusa.
- Eufe o quê? Só diga que sim e onde, vai. - bateu o sinal. Ele pegou a mochila e se levantou.
- Não. - e saiu, ouvi ele dizendo ainda um "ridículo" baixinho.
U-a-u. Nunca, nesses 16 anos da minha vida, eu tinha visto alguém recusar a Lindsey. Ele só pode ser gay.

three;



Saí da sala também. Eu tinha que falar com ele, não queria, mas precisava. Quer dizer, não precisava, mas algum impulso em mim dizia que eu tinha que ir atrás dele. Corri até ele que andava apressado pelo corredor, e o puxei (ou tentei puxar) pelo braço, ele se virou.
- Uau, ela vai ficar até amanhã se perguntando o que é eufemismo e neologismo pra depois esquecer como se escreve. - eu disse.
Ele apenas levantou uma sombrancelha e me deu as costas e voltou a andar. Andei atrás dele. Puxei o braço dele de novo.
- Ei, me desculpa sobre aquele negócio de 'não sou sua amiga'.
Ele só ficou parado, quieto, então eu continuei.
- É que eu não sou muito boa em lidar com pessoas.
Nada ainda.
- Olha, tecnicamente, nós não somos amigos ainda mas.. se você quiser... porque eu quero ter um amigo.
Ele suspirou e saiu andando.
Eu vou chorar. Tá, nem vou. Mas eu achava que ele era legal, acho que a Lindsey realmente estressou ele, ok, acho que eu realmente estressei ele, pra falar a verdade.
Fui para a aula de História Americana, sentei no fundo de novo, só que ele não tinha esse horário igual ao meu, aparentemente. Não prestei atenção na aula, de novo, só fiquei rabiscando umas coisas no meu caderno, desinteressada. Tivemos outro tempo livre e uma garota desconhecida veio falar comigo.
- Olá! - disse a menina com cabelos cachiados loiros, olhos verdes, toda animada. - Meu nome é Lauren e você se chama , não é?
- Sim. Olha, se você veio falar sobre o meu pai você está perden..
- Ah eu sei dele, sinto muito aliás, mas não vim aqui por isso. - ela me interrompeu. Olhei para ela como incentivo para que ela continuasse. Se não era sobre meu pai, estamos aí! - Eu vim porque você parece legal e parece que vai ser uma boa amiga.
Isso foi estranho.
- Hum, é..legal, obrigada. - ajeitei a minha franja que não tinha nada de franja já que ela estava enorme (fazia isso quando ficava nervosa, inquieta, com vergonha ou algo assim). - E você quer ser minha amiga?
- Ah sim, obrigada! Você é um doce. - hm, estranho. Essa vai para a lista de coisas estranhas que aparecem na minha frente. Mas ela parece ser legal, bem diferente do resto das pessoas desse colégio.
- Então... você é de onde? - puxei assunto.
- Baltimore, Maryland. E você? - ela estava animada.
- Nova Iorque.
- Lugar legal lá.
- Um pouco. - eu certamente não estava compartilhando do mesmo intusiasmo que ela.
- E você vive aqui desde quando?
- Desde os meus 11 anos...
- Uau, aqui é um lugarzinho bom... e calmo, percebi.
- Tinton Falls pode se tornar bem irritante com o passar do tempo, acredite em mim. - e eu poderia dizer perfeitamente o quanto.
- Pelo menos agora eu tenho uma amiga. - ela sorriu.
Só depois de um certo tempo que eu entendi que ela se referia à mim. Coloquei na mente que recusar dois amigos na mesma manhã já era demais, até porque eu me arrependi de "recusar" o , e sorri o máximo de sorriso que eu conseguia - o que ainda foi pouco.
- É bom isso, porque esse ano parece que eu não farei outras amizades além da sua. - meu pensamento foi atrás do novamente. shoot me now, estava sendo ridículo esse voo de pensamento o tempo todo, eu nem o conhecia! - Desculpa, eu não estou menospresando nem nada a sua amizade, não foi isso que eu quis dizer, eu só..
- Eu sei. - ela interrompeu o meu momento e sorriu com um ar de bondade.
- É que eu não sei falar com as pessoas. - mexi na minha franja de novo.
- Que bom que eu entendo as pessoas até pelo olhar então. - ela me confortou com seu sorriso. Ela era legal.
Conversando com ela, tive a impressão de que a aula passou mais rápido já que, antes que eu notasse, o sinal bateu.
Refeitório. Eu esperava fielmente que dessa vez tivesse mais opção de comida pra comprar do que no ano passado, porque eu já estava enjoada de leite, uma fruta e um sanduíche natural. Se eu fosse ter que aturar isso por mais um ano, juro que tacava um extintor na minha cabeça. Ou na cabeça da cozinheira. É.
Eu e Lauren sentamos em uma mesa, sozinhas, e fomos comprar lanche. Uau, hamburger. Algum milagre andou acontecendo nessa escola.
Estava tranquila, animada até, pegando meu hamburger e apareceu do meu lado. Mas não falou comigo, ele estava ocupado demais pegando o hamburger dele, acho. Mas aí eu percebi que ele nem olhava na minha direção. Bem, o hamburger estava bem bonito mesmo, mais bonito do que eu, então tudo bem ele não olhar pra mim. Sim, eu estava tentando me iludir com isso, mas a verdade era que ele ainda estava chateado comigo. Nossa, mas ele é muito sentimental, hein? Fala sério!
Ele saiu dali. Hum, eu queria chorar. Ta, nem queria.
Fiquei observando ele andar até a mesa mais afastada no refeitório, que estava vazia, e sentar-se. Ele andava de um jeito diferente que parecia que dizia "eu não ligo pra ninguém".
Bonito.
- Ele é um gato, não? - Lauren disse quando viu para onde o meu olhar havia se direcionado. Estávamos a caminho da nossa mesa e eu ainda estava com o olhar preso no .
- Hum, é... bonitinho.
- Bonitinho é apelido. Mas... beleza não é tudo.
- Isso é. - concordei. Já estávamos sentadas na mesa e meu hamburger gritava "me coma!".
- Mas ele não é uma pessoa boa, pelo o que eu já ouvi hoje.
- Ele parecia ser uma pessoa boa.
- Hã?
- É que eu já conversei com ele. Parecia normal. - omiti a parte que ele não era tão normal assim e a parte que ele disse que era um tanto perigoso. - Mas o que 'as pessoas" andam dizendo? - Estavam dizendo que ele é um vampiro? Hello-o, Edward Cullen não tem bronzeado e não teria vivido na Flórida, o lugar onde nunca há chuva!
- Ele foi expulso da casa dos pais e da mansão dos avós, parece que ele dava muitos problemas ou algo assim.
- É, ele me contou algo do tipo. - tentei parecer indiferente mas a verdade era que eu estava mais que interessada nesse assunto.
- Ele tem umas amizades estranhas pelo o que disseram e aí esses "amigos" apresentaram as drogas à ele. - ela olhava para com olhar de pena. - Ah, que disperdício!
- Hum... total. - Sem comentários. Como assim ele é um drogado? - E quem te contou isso?
- Bem, eu ouvi uns garotos comentando e aquela tal de Lindsey estava junto.
- Então está explicado o boato. - ela me olhou confusa. - É que a Lindsey levou um fora do hoje.
- Como que você sabe que é um boato?
- Eu não sei se é. Mas prefiro nem pensar. - Total.
Bateu o sinal depois de algumas outras conversas sobre assuntos variados. Mas nesse meio tempo eu apenas cobria a Lauren de "aham", "pois é" e "certeza", porque a minha mente havia estacionado na conversa sobre o .
Eu preferia nem pensar, mas era impossível.
Lauren segiu para a aula dela e eu para a minha. Ele estava na aula de Escrita Criativa, hum... e o único lugar vago era ao lado dele. Esse destino às vezes me irrita, assim como me encanta ao mesmo tempo.
nota mental: entrar mais cedo nas salas de aula para poder escolher o meu lugar e não ter que sentar onde não quero. Onde acho que não quero.
Sentei. As carteiras eram mais próximas do que eu pensava. Agora puxar assunto ou não? Eis a questão. Naah, melhor rabiscar coisas no caderno, é.
- Se eu te contar mais sobre mim, você vira minha amiga? - levei um susto ao ouvir a voz de falando comigo e dei um sobressalto na cadeira. Ainda bem que ninguém notou.
- Hum... se você me contar o que eu ainda não sei, a gente pode tentar. - ele sorriu seu meio sorriso. - aliás, não ligue muito para o que eu falo, ok? - mexi na minha franja. - Eu não sei lidar com as pessoas, às vezes eu faço comentários bestas sem pensar. Desculpa.
- Hum... ok, acho que consigo viver com isso. - meio sorriso de novo. aai.
- Então me conte coisas. - ele sorriu e ficou sério, hesitou um pouco.
- Eu perdi minha namorada há um ano.
- Por quê? Ela se cansou de você? - eu sorri, achei que ele estava brincando. De onde que eu estava tirando esse humor sombrio?
- Não, ela morreu. - shoot me now, a thousand times please.
- Hm, sinto muito, mesmo. Qual era o nome dela?
- Casey. - ele pegou o celular no bolso. - É ela. - eu vi a foto do papel de parede do celular. Era ele com uma garota loira de olhos azuis, linda. Eles pareciam apaixonados.
- Ela era linda! - falei surpreendida.
- Sim.
- Como ela... morreu?
- Acidente de carro. E foi minha culpa.
- Hein? - Hã?
- A gente estava em crise. Tínhamos terminado um mês antes do acidente e a gente ficava provocando um ao outro, saíndo com outras pessoas, pra fazer ciúmes. - ele respirou fundo. - Antes do acidente, ela me viu com uma garota que, aliás, nem lembro o nome. E aí ela ficou com um cara qualquer aí. Só que, ela foi embora com ele e ele estava bêbado... e fim.
O que dizer a alguém que acabou de confessar que o amor da sua vida morreu?
- Mas na verdade não foi sua culpa. - eu disse numa tentativa falha de consolá-lo. Eu poderia doar um abraço se ele quisesse. - Quer dizer, a culpa foi do tal garoto bêbado.
- Mas se eu não tivesse ficado com outra, ela estaria viva agora e eu nem estaria aqui.
- Ou não.
- Hein?
- Quer dizer, se ela foi idiota o suficiente para sair de carro com um cara bêbado no volante então logo ela faria qualquer outra idiotice que fizesse ela morrer.
- Ou não. - ele falou com a voz arrogante e um olhar mortal. - Sabe, dizer tudo o que pensa pode magoar as pessoas. Você não a conhecia, então nem ouse dizer que ela foi idiota. Lembre-se disso.
E ele simplesmente ficou olhando para o quadro negro como se prestasse atenção no que estava escrito nele. Eu fiquei tão chocada com a arrogancia dele que fiquei de boca aberta por um bom tempo e depois voltei a prestar atenção nos rabiscos do meu caderno, eles sim mereciam minha atenção.
Ele realmente era muito sentimental. E estranho. Por que ele estava me contando aquelas coisas assim de cara? Tá legal que eu pedi pra ele me contar sobre a vida dele, mas as coisas tristes a gente geralmente não conta pra alguém desconhecido assim do nada. Mas em compensação ele foi simpático por tentar ser meu amigo. Será que eu fui rude falando mal da namorada, quer dizer, ex-namorada dele?
- Lembra quando eu falei para você não ligar muito para o que eu digo? - falei com o . - Então...
Ele deu seu meio sorriso. Acho que fui perdoada.
- Me conte de você!
- Mas você não terminou de me contar sua história!
- Me conte de você. - ele insistiu. Eu bufei. Ele continuou com seu meio sorriso.
- Quando eu tinha 11 anos de idade, minha família e eu viemos de Nova Iorque pra cá e só. Minha vida não é interessante.
- Você parece bem interessante para mim.
- Então você não tem uma boa percepção.
E só nessas duas últimas falas, a gente já tinha se inclinado uma na direção do outro. Quando notei, voltei ao meu lugar e, involuntariamente, corei.
Ficamos em silêncio, prestando atenção na aula. Ou melhor, fingindo. Pelo menos eu, que fiquei pensando no e o vermelho não saía do meu rosto. Às vezes eu ouvia um riso interno vindo de mas não sabia o porquê. Queria ler mentes. O sinal bateu.
Fiquei alegre ao vê-lo andando ao meu lado no corredor, mesmo que em silêncio. Tudo estava bem contanto que ele mantivesse o meio sorriso no rosto.

You've got a face for a smile, you know."


Mais uma aula se passou, só que nessa eu estava "sozinha", e o último sinal bateu. Aleluia!
- Ei - me chamou Lauren pelo corredor. Ela estava com trocentos papéizinhos na mão.
- Oi. O que ser isso? - apontei para a mão dela.
- Ah, telefones, e-mails, twitter de algumas pessoas.
- Uuu Lauren popular. - brinquei.
- Frutos da minha investigação.
- Que investigação?
- Sobre o . - O quê?
- Por que você está investigando sobre ele? - Hã? - Você está afim dele?
- Nossa, você precisa ver sua cara de choque! Não bobinha, não estou afim dele!
- Então por que...
- Porque você parece interessada nele.
- Não pa-pareço não.
- Ah é? Então porque você está vermelha?
Fiquei de boca aberta, literalmente e novamente. Será que ela lia a mente das pessoas pra saber conclusões que nem a própria pessoa havia tido ainda?
- Hum... é calor.
- Aham, no inverno de 32ºF, calor. Com certeza. [n/a: pra quem não sabe, 32ºF é o mesmo que 0ºC, mas é que nos EUA eles usam o Fahrenheit.]
- Tá, você venceu. Me interessei nele sim mas só como amigo.
- Aham, sei.
- É sério! Mas então... o que você descobriu?
- Que ele tem um irmão e uma irmã.
- Quem te disse isso?
- Ah, nem lembro. Mas parece que os tios dele comentaram bastante sobre a vinda dele pros vizinhos... e sabe como tudo se espalha em cidade pequena...
- Hum. Eu conversei com ele.
- Uuu.u. Sério?
- É, ele me disse que vai me contar mais sobre ele.
- uuu.u. Então ele também se interessou por você?
- Não... ele perdeu a namorada...
- Sério?
- É, ela morreu. - Lauren fez uma cara triste e depois uma expressão animada.
- Como você disse: "ele perdeu a namorada". Isso não significa que ele não possa achar outra.
Ela sorriu, arqueou uma sombrancelha para mim como incentivo e saiu andando. E eu simplesmente não pude evitar um meio sorriso e sair correndo atrás dela depois disso.

four;



Andando de volta para casa sozinha e no frio me fez lembrar do quanto eu queria me mudar de Tinton Falls. Não é que o lugar me trazia más lembranças, mas também não me trazia ótimas lembranças. Tédio, esse era o sobrenome desse lugar.
Quando passei pela pracinha perto da minha casa, vi que ela não estava vazia. estava lá. Não sabia se ia até ele ou se seguia direto para casa. Oh, dúvida cruel. Percebi que ele estava prestes a me olhar e segui meu caminho. Melhor falar com ele quando eu tivesse certeza de que não teria um ataque de asma, mesmo não sabendo se esse dia chegaria.
Entrei dentro de casa e segui para a cozinha. Fome deveria ser meu sobrenome. Assim que adentrei a cozinha, minha mãe invadiu o recinto.
- O que você acha dessa roupa? - me perguntou, apontando para seu corpo vestido com uma saia de cintura alta balonê preta, meia-calça, sapato scarpan e uma blusa rosa shock com um decote maior do que o Monte Everest.
- "Oi filha querida que eu amo tanto. Como foi sua aula?" "Ah, foi legal, obrigada por perguntar." - eu disse, ironizando a falta de interesse que ela tem por mim.
- Ah tá, tudo bem. Ooi. Agora, o que acha da minha roupa?
- Aonde você vai assim?
- Você não respondeu a minha pergunta.
- Está legal a roupa, decotada demais talvez. Mas aonde você vai?
- A um encontro? - ela abriu um mega sorriso.
- Com um homem? Tipo de namorados?
- Não, com a sua avó! Deer, claro que com um homem, que possivelmente será meu namorado.
E essa foi a terceira vez no dia que eu fiquei de boca aberta. Como assim ela ia a um encontro? Com um homem? Só tinha uma semana que ela havia terminado com meu "padrasto". Tá legal que a fila anda, mas ela é uma mãe de família! Bem, pelo menos de fachada, porque eu que cuido dela e não o inverso. Mas ela quer por um acaso ficar falada na cidade? Porque é isso que vai acontecer. - Mas já? Você não tem senso? Quer dizer, você não pode sair com outro assim tão rápido!
- Não posso por quê? EU sou a mãe aqui, ok? Parti pra outra!
- Ah é? Agora você é a mãe? Na hora que eu preciso de ajuda, cadê você? É pra isso e outras coisas que a mãe serve!
- Ai, para de drama. Você nunca precisou da minha ajuda.
- Porque você nunca se importou comigo e nunca quis perceber quando eu precisava de ajuda!
- Nunca me importei com você? Se não fosse por mim, você nem estaria viva hoje, você sabe disso. Eu te salvei daque...
- Nem ouse falar disso! Você sabe muito bem que você não me salvou porque se importava comigo mas sim porque se importava com você! - a interrompi.
- Calúnia! Você sabe que é importante pra mim e...
Saí de casa sem me importar se ela estava falando comigo. Nossas conversas sempre se resumiam a isso e mesmo assim todas elas me deixavam abalada, acho que nunca irei me acostumar com brigas, mesmo que com as mais bestas. Segui para a pracinha, não iria voltar para casa enquanto ela estivesse lá dentro, mesmo que eu estivesse prestes a morrer de fome. Sentei no meu banquinho preferido da praça, com os joelhos juntos ao corpo, coloquei o iPod pra tocar.

"You never did give a damn thing, honey, but I cried, cried for you. And I know you wouldn't told nobody if I die, die for you. Die for you"


A música não poderia estar mais precisa no momento do que aquilo, sério.
estava ali no banco ao lado, como pela manhã antes da escola, ele estava com um cigarro na mão. “Nossa, esse garoto e uma chaminé”, pensei comigo mesma e ri da desgraça alheia.
- Por que você riu? - ele falou comigo de longe, com um sorriso no rosto.
- Ah, - eu não estava esperando que ele fosse falar comigo. Talvez ele estivesse louco quando conversou comigo e contou confidências pela manhã, não sei, mas por algum motivo meu coração começou a acelerar. - era nada demais.
- Mas eu quero rir também. - ele saiu do banco em que estava e se sentou no meu banco, ao meu lado... Percebi que o banco agora parecia pequeno demais, nos estávamos perto demais um do outro.
- Só que não era uma piada tão boa assim. - sorri um fraco sorriso.
- Tudo bem então. Hum... Hoje você me disse que nada de interessante aconteceu na sua vida, mas você às vezes parece triste então algo deve ter acontecido.
- Ou não, tédio também entristece. - arqueei uma sombrancelha pra ele e ele suspirou fundo.
- É injusto, eu estou aqui disposto a me abrir pra você e você não quer me contar mais da sua vida... - ele estava sorrindo e esse sorriso era tão contagiante que eu sorria também.
- Ai ... É que eu não gosto de falar de mim.
- Tudo bem, por enquanto. Eu conto de mim pra você então, ok?
- Siim!
Ele sorriu. O sorriso dele era lindo, dentes certinhos e branquinhos... A Casey era uma menina de sorte... Ta, nem tanto porque ela morreu.
- Bem, depois que a Casey morreu, eu tive uns dias bem sombrios. - o riso sem graça nenhuma que ele deu foi sombrio, isso sim. - Uns meses sombrios... Aí meus pais me mandaram pros meus avós, na roça! - ele riu.
- Que bom hein? - eu disse.
- É. Nem meu irmão se importou com isso, nem minha irmãzinha... Pelo visto eu estava beem chato. - ele riu. - Aí eu fui pros meus avós... E não me dei bem com a roça e voltei pros meus pais... Aí eles me enviaram pra cá, com meus tios...
- E você gosta deles?
- Sim... Pronto, contei da minha vida.
- Posso te fazer uma pergunta? Promete que não vai ficar bravo?
- Ta, eu prometo. - ele sorriu.
- É verdade o que as pessoas estão dizendo sobre você usar drogas?
- As pessoas estão falando de mim?
- Sim.
- Mas por quê?
- Porque você é a novidade da cidade, mas sou eu quem faz as perguntas aqui! - ele riu.
- Bem... Acho que é verdade sim, na última vez que eu chequei...
E depois dessa revelação, o silêncio constrangedor apareceu. Eu não sabia o que dizer disso, é tão decepcionante ver as pessoas desperdiçando a vida por causa da tristeza...
- O que você está pensando? - ele perguntou.
- Na tristeza.
- Viu como algo aconteceu na sua vida!?
- Não é na minha tristeza que eu estou pensando...
- Ou seja, você pode não estar pensando na sua tristeza, mas ela existe.
- É complicado.
- Eu sou bem inteligente. - ele fez biquinho, tentando ser fofo, e conseguiu. Por um momento eu tive o impulso de me esticar ate aquele biquinho e... Ai, nem conto.
- É que depois que meu pai morreu e minha irmã se mudou, eu fiquei sozinha.
- E a sua mãe?
- Ela praticamente não existe. - ele riu.
- Nossa, isso porque é a sua mãe! Imagina se não fosse... - ele brincou.
- É né... Mas é sério. Eu mal a vejo e quando a vejo, ela é tão desinteressada por mim que é incrível!
- Sinto muito...
- Acho que no fundo ela queria que eu não tivesse sobrevivido naquele acidente...
- Hã? Que acidente?
- No que o meu pai morreu... Ela me tirou do carro antes dele... - respirei fundo. - explodir. O carro, quero dizer.
- Nossa.
- É, foi assim que ele morreu. Meio Hollywood, não?
- É, mas acontece na vida real...
- É, aconteceu.
- E ela te salvou, isso não é prova de que ela se importa com você?
- Não, isso só prova que ela se importa com ela mesma. - ele fez cara de desentendido. - É que sem mim, a vida dela não anda... Quem iria alimentá-la, arrumar a casa, tentar colocar juízo na cabeça dela?
- Hum... Entendi. Esses pais de hoje em dia, hein! - ele brincou.
- É...
- É por isso você é triste?
- Não diria triste, só entediada. Ah, é que não é só ela, sabe? É todo mundo: minha irmã, meus avós... Olha lá, - apontei para a minha mãe que saia de casa, se esquecendo de trancar a porta. - Eu vou ter que ir trancar a...
- Porta.
- É... Você quer ir...
- Com você?
- Aham.
- Quero sim. - ele apagou o cigarro na grama e ali deixou.
- Poluição é crime, sabia? - brinquei.
- Eu sou meio fora da lei, ainda não percebeu? - ele riu.
- Então não posso ficar perto de você, vai que você resolve me levar para o mal caminho...
- Ah, que droga, você descobriu a minha única intenção.
- Aham, sou esperta.
Entramos dentro da minha casa, liguei o aquecedor central da casa e o regulei para 77°F [25°C], tiramos os casacos.
- Quero conhecer seu quarto.
- Eu não levo garotos pro meu quarto logo no primeiro encontro.
- Isso não é um encontro.
- É sim, você que não sabe. Encontro não significa que é necessariamente romântico.
- Tem razão.
- Por que você quer conhecer meu quarto? - olhei travessa pra ele e ele sorriu um sorriso mais travesso ainda.
- Só porque eu acredito que o quarto de uma garota diz tudo sobre ela, apenas isso. - ele disse.
- Você não pode ir lá no meu quarto, senão você vai ver os cadáveres e as correntes e símbolos estranhos e vai ter medo de mim.
- Haha, não, eu vou ter medo se tiver muito rosa, isso sim.
- Então vamos subir...
Ele foi subindo as escadas atrás de mim, eu simplesmente odeio subir escada com alguém atrás, não sei por quê. Abri a porta do meu quarto e dei passagem para ele entrar. Ele ficou observando tudo bem atentamente, com uma cara de crítico.
- Você já ganhou um ponto.
- É, em que?
- Você não tem nenhum poster na parede, tipo um dos Jonas Brothers.
- Qual é o problema que os garotos tem com os Jonas Brothers?
- Ah, é que eles são gays..
- E você tem preconceito com os gays?
- Não. - ele pensou por um instante. - ei, você acabou de admitir que acha eles gays!
- Ah não, nem vem, você me confunde e fica colocando coisas na minha boca.
Ele pensou por mais um instante e começou a rir.
- Coisas na sua boca?
- Ai , cala a boca. - eu ri com ele.
Ele observou o quarto por mais uns instantes.
- Outro ponto: não achei nada rosa aqui.
- Prefiro outras cores.
- É, percebi.
Meu quarto era bem organizado, nada mesmo fora do lugar, eu era um tanto perfeccionista quanto a isso. Uma das paredes era verde puxado para o azul, as outras eram brancas. Meu quarto não era tão grande, então minha cama era de solteiro e ficava encostada na parede colorida, com uma colcha roxa. Tinha uma porta branca para o closet (que era pequeno - cidade pequena não exige um guarda roupa tão variado), criado-mudo branco com um abajour azul em cima e uma mesa de escrever com meu lap top vermelho e alguns cadernos, um tapete lilás sobre o piso de madeira, minha guitarra vermelha pendurada em uma das paredes.. E realmente, não havia nada rosa no meu quarto, nunca havia reparado nisso.
- Mais um ponto: essa guitarra.
- É, imaginei que isso fosse me dar outro ponto.
- Posso pegar? - ele estava tão próximo de mim que a minha mente maliciou esse pedido.
- Ah, sim, claro.
Ele pegou a guitarra, sentou na minha cama e ficou a admirando como se ela fosse uma garota, os olhos dele até brilharam um pouco, juro! Mas minha guitarra era linda mesmo, ela merecia ser olhada desse jeito por um garoto como o . E isso me fez lembrar que ele não era um garoto tão exemplar assim e que eu estava com um drogado no meu quarto.
- Les Paul?
- Hã? Ah, sim. 1969 Gibson Les Paul Gold Top.
- Ah, nome sobrenome, data de nascimento, agora vai me dizer quem é o marido da guitarra e os filhinhos? - ele brincou.
- Ai malvado, é que eu tenho orgulho dela e gosto de falar o nome todo dela.
- Eu sei, estou brincando... Eu também tenho isso com a minha guitarra.
- Hum... Ei, eu ganhei vários pontos pelo meu quarto, certo?
- Certo, mas não só pelo seu quarto. - ele ficou me olhando, isso meu deu um nervoso tão grande que eu fiquei me balançando que nem uma retardada.
- Então eu ganho algum prêmio pelos pontos? - perguntei.
Ele se levantou da cama, colocou a guitarra no lugar e chegou bem perto de mim, mais um centímetro para frente e minha cabeça tocaria no pescoço dele (altinho ele...).
- Você escolhe o prêmio. - ele disse. Não sei por que mas eu comecei a ter o mesmo ataque de asma que tive bem cedo de manhã. Empurrei ele bem de leve com a mão, encostando no peito dele, e me encaminhei para a gaveta da mesa, onde tinha outra bombinha dentro. Eu tinha dessas bombinhas espalhadas por toda a casa. Aliviei minha respiração e continuei usando a bombinha por prevenção.
- Por que você tem asma?
- Ei, não sei, não escolhi nascer assim.
- Ah, é mesmo. Mas que prêmio você quer?
- Uma resposta como prêmio. - eu disse.
- Mas você quer gastar seu prêmio com algo que eu posso te dar sem precisar pedir?
- Tanto faz. Me dá uma sugestão então.
- Geralmente as garotas pedem beijo.
- E beijo seria uma coisa que você não me daria sem eu precisar pedir, então?
Ele sorriu travesso.
- Não sei, ainda não te conheço.
- É, e eu não pediria isso como prêmio, ainda não te conheço.
- É.
- Vai que você é chato e só está legal agora porque está alto e tal.
- Eu não estou alto.
- Então vai que você beija mal... Melhor não arriscar pedindo beijo como prêmio.
- A Casey nunca reclamou dos meus beijos.
- Gente apaixonada perde o senso de tudo, vai que ela estava louca?... - eu provoquei.
- Você só vai saber se ela estava louca quando experimentar. - ele disse isso enquanto chegava mais perto de mim. Eu fiquei olhando nos olhos dele, fiquei perdida ali naquele mar . Mas me dei conta de que estava começando a hiperventilar e afastei ele com a mão como antes e saí de perto.
- Foi você que disse que não me beijaria pois não me conhece. Mas eu sei que prêmio eu quero: comida. Estou morrendo de fome, vamos na cozinha.
Descemos as escadas, adentrei na cozinha e me lembrei de que não tinha feito compras ainda, muito menos a minha mãe, ou seja, não havia comida em casa.
- Hum... Vamos ter que comer no único restaurante dessa cidade! Sem comida em casa.
- Eu acho que você está tentando me seduzir a um encontro.
- Calúnia! - eu disse.
- Haha, não vamos no restaurante, vamos pra casa dos meus tios. Lá sempre tem comida.
- Eeeu acho que é cedo demais pra você ir me apresentando à sua família. - sorri travessa e ele também.
- Na verdade, eles já te conhecem né, mas tudo bem. E não há nada demais em levar a amiga para filar comida.
- Amiga? Filar comida? Tá bom, né.
Ele riu. Por que ele tinha que se drogar quando ele parecia totalmente perfeito assim sóbrio?
Abri a porta e assim que fiz isso, dei de cara com Lauren logo ali prestes a tocar a campanhia.
- Oi, descobri onde você mora! Eu tenho novidades sobre o... - ela observou quem estava logo atrás de mim. - ! Oi.
- Oi, te conheço? - ele disse, mas não arrogante, eu ri.
- Não, mas eu te conheço. Tá, todos daqui te conhecem. Então... O que vocês estavam...
- Conversando. - dissemos juntos, isso poderia até ser suspeito se não fosse realmente isso o que estávamos fazendo.
- E agora a gente vai na minha casa. - disse e colocou a mão em meu ombro, isso me surpreendeu e eu até arregalei os olhos e devo ter ficado corada, pois senti meu rosto queimar.
- Ah sim, eu já estava de saída mesmo. - Lauren disse, o que foi bem estranho já que ela nem estava lá antes, muito pelo contrário, ela acabara de chegar. me olhou com o mesmo olhar de “ela e louca?” que eu lancei a ele. - Então tchau né... Depois a gente se fala, .
- É, tchau...
- Tchau amiga da .
- Lauren. - ela disse.
- Ah tá, tchau Lauren. - ele corrigiu.
E ela foi andando pela rua, olhando para trás de vez em quando para nos checar. Tranquei a porta e seguimos pela rua no sentido oposto ao que Lauren fora.
- Legal a sua amiga.
- Você não foi irônico agora, foi?
- Não, é sério.
- Então tá.
Andamos em silêncio, mas ele mantia o meio sorriso no rosto, isso mantia um meio sorriso no meu. Paramos em frente a uma casa branca que eu já tinha visto e até entrado muitas vezes.
- E ae? Pronta?
- Por que não estaria?
- Ah sei lá.
- E por que esse suspense antes de entrar?
- Ah sei lá.
A gente riu, seguimos para a porta e ele a abriu.
- Tia! Tio! Estou em casa... E com uma visita bonita! - ele disse relativamente alto para que eles pudessem ouvir e sorriu para mim. Naquele momento, só pensei em lembrar se tinha trazido minha bombinha de asma comigo, porque parecia que eu ia precisar muito dela dali pra frente.

Estávamos sentados na mesa com os tios dele. Não podia dizer que a reação deles com a minha “visita” tinha sido espetacular, mas eles não pareceram bravos nem nada... Mas eles pareciam estar preocupados com algo, não poderia dizer o que era.
- Então... Como vai sua mãe? - a Sra. Donovan perguntou.
- Vai bem, hoje ela foi a um encontro.
- Ai ai, ela não para hein? - ela riu. - Diga pra ela vir aqui me visitar, faz tempo que não a vejo, aí você pode vir junto já que você e o são... Amigos.
A gente se entreolhou, ele estava sentado ao meu lado, em volta da mesa.
- É né...
- Então... Vocês se conheceram quando?
- Hoje, oras. - disse. - a gente tem algumas aulas juntos.
- É...
- Hum, legal. - o tio de disse.
- Aham. - eu disse.
Comemos em silêncio, tecendo leves comentários ao longo disso. Terminamos de comer e me olhou e perguntou baixinho.
- Você quer ir embora?
- Tanto faz.
- Ah então você não vai embora não. Er, tia... A gente vai subir... Ir lá pro meu quarto.
- A gente vai? - eu perguntei.
- Sim. - ele sorriu.
- Ah tudo bem. - a tia dele disse. - Juízo.
- Sempre. - disse. Que estranho ela dizer isso né, mas tudo bem.
Subimos as escadas, a casa dos Donovan era linda, sempre que eu ia ali eu ficava a admirando. A Sra. Donovan tinha bom gosto. Entramos no quarto que agora era dele.
- Agora é a sua vez de avaliar o meu quarto. - ele disse.
- Ah ta bom, deixa eu ver... - fiz a mesma cara de crítica que ele havia feito, enquanto observava o quarto dele. As paredes eram brancas, havia uma cama de casal na parede ao lado da que tinha uma janela, uma colcha preta sobre ela. Um tapete xadrez vermelho e preto sobre o piso de madeira clara, duas portas que eu não sabia o que eram, a guitarra dele, o violão, uma mesa com um computador preto, criado-mudo branco com umas coisas estranhas e um abajour preto em cima. Na mesa dele também haviam coisas que eu não sabia o que eram ou pra que serviam, algumas folhas e acho que só. De certo modo, o quarto dele era simples, porém com muito bom gosto. Com certeza deve ter sido a tia dele quem decorara o quarto.
- E aí? - ele perguntou. - ganhei algum ponto?
- Ah não sei... Acho que não.
- O quê? Meu quarto é lindo, como ele não ganha ponto nenhum?
- Ah eu te dou um ponto pela guitarra, outro pelo violão e mais outro pelas coisas em vermelho. Gosto de vermelho.
- Ah malvada.
- Se contente com os pontos que ganhou, bobo! Já sabe que prêmio quer?
- Aaah! - ele exclamou e sorriu.
- Isso foi bem estranho. - ele riu.
- É, eu sei. - ele se aproximou de mim, meu coração começou a acelerar. - Eu quero respostas.
- Não, você não me deixou escolher isso então você também não pode!
- Eu não deixei você escolher isso porque não tinha necessidade já que eu estou disposto a te contar tudo o que você quiser saber, mas você não me conta nada do que eu quero saber, então você será obrigada a contar. É isso o que eu quero.
- Malvado. Mas tá, o que você quer saber?
- Tudo. - ele deu um olhar e sorriso safados. Eu revirei os olhos e ele se sentou na cama e bateu com a mão nela, ao lado dele, indicando para eu me sentar e assim fiz. - Agora comece a me contar da sua vida.

* Untouchable - Taylor Swift

five;



- O que você quer saber, necessariamente? - perguntei.
- Tudo.
- Taaa, eu já entendi, mas eu não sei como eu começo.
- Ta, eu vou fazendo perguntinhas. - ele deitou na cama, com a cabeça no travesseiro, estava bem sexy naquela posição. - Você é de onde?
- Nova Iorque.
- E veio pra cá com 11 anos, né?
- Aham.
- Por quê?
- Porque meus pais quiseram.
- Mas por que eles quiseram isso?
- Eles disseram que era porque eles preferiam uma cidade um pouco menor, mas eu sei que meu pai trouxe a gente pra cá pra limitar um pouco as chances da minha mãe ter um amante.
- E por que eles se separaram? Quer dizer, eles estavam separados antes do seu pai... Explodir? Desculpa.
- Que isso, não precisa se desculpar, ele explodiu mesmo. - a gente riu, que humor sombrio o nosso. - Mas sim, eles já estavam separados. Eles haviam se separado porque meu pai estava sendo chifrado e muita gente sabia e ele não aguentava mais.
- Hum... E depois que eles se separaram? Como você ficou?
- Fiquei com a minha mãe, bem até, e aprendi a cuidar de mim e dela. Meu pai ia me visitar sempre no começo mas depois ele foi esquecendo... Aí ele passou a mandar correspondências no meu aniversário e a me ligar de 2 em 2 meses.
- E onde ele morava?
- Ele voltou para Nova Iorque.
- Ahn sim... E a sua irmã?
- O nome dela é Clarice, ela foi viver com meu pai e de vez em quando liga. Ela é 3 anos mais velha que eu e meu irmão é 1 ano mais velho.
- Ah, você tem um irmão? - Sim, o nome dele é Jack mas ele não mora com a gente faz tempo, antes mesmo dos meus pais se separarem, é que ele tinha ganhado uma bolsa numa escola na Irlanda e foi, até hoje não voltou mas ele liga de vez em quando.
- Ah, mas você sente falta da sua irmã?
- Não, ela não sente a minha falta mesmo. - ele riu um riso interno. - Ai isso é estranho, parece até que isso aqui é uma entrevista.
- Se você quiser chamar assim...
- Você tem mais perguntas, repórter?
- O que vocês estavam fazendo quando seu pai morreu e tal?
- A gente estava indo ao cinema, eu, minha mãe e meu pai. Acho que ela queria reconciliar com ele e eu tive que ir junto como pretexto. Aí o carro bateu em outro e tal... Aí a minha mãe conseguiu sair e meu pai e eu estávamos desmaiados aí ela foi e me tirou e então o carro explodiu. - ele se levantou, ficando sentado ao meu lado de volta. Ele estava me olhando com pena, justo o olhar que eu tanto recusava dos outros. Ele encostou de leve a mão dele na minha mão que estava sobre a minha perna e tirou a mão dele da minha rapidamente logo em seguida. Considerei isso um consolo vindo dele.
- Eu sinto muito.
- Hey, você já me disse isso hoje. Muitas pessoas me disseram isso hoje sendo que o acidente aconteceu há sete meses. Isso fica um pouco chato com o decorrer do tempo. Na verdade, muito chato e irritante.
- Ok, então não vou mais dizer isso.
- Que tal parar com essa minha entrevista, está na hora do repórter ser entrevistado. - arqueei uma sombrancelha pra ele e sorri.
- Não, ninguém mais será entrevistado... Pelo menos não por hoje.
- Então o que a gente vai fazer agora?
- Ah sei lá... Quer me mostrar a cidade?
- Ahn... Essa cidade não tem muita coisa a se mostrar, só uns 3 parques e casas.
- Ok, me mostre as casas.
- Você é estranho. - eu brinquei.
- É, eu sei, é que eu não gosto de ficar no meu quarto quando alguém tipo a minha tia acha que a gente está fazendo algo errado.
- Mas a gente está aqui inocentemente...
- Quem disse? - ele deu um sorriso safado. - Estou brincando.
- Mas a sua tia tem razão em se preocupar... Você nem me conhece, eu nem te conheço... Vai que você é um psicopata maníaco drogado serial killer que me seduziu até aqui para me estuprar e me matar?
- Ah... Você descobriu meu plano! - eu realmente fiquei com medo depois disso. - Estou brincando, ok? - ele me abraçou. - Por que alguém iria querer matar alguém como você? Estuprar eu até entendo mas matar? - ele riu. - Estou brincando.
Ele se tocou que o contato físico ali havia sido estranho e parou de me abraçar.
- Não sei... Eu sou tão boazinha...
- É... Ei, a gente pode ver filme, lá na sala.
- Ah ok. Que filme?
- Que tal aquele do Tim Burton...
- Er, qual? Ele fez tantos filmes...
- Aquele do barbeador que... Ah.
- Sweeney Todd?
- É! Isso aí! Quer?
- Aham. Adoro filmes do Tim Burton.
- Oh, eu também. Tenho quase todos.
- Ai que perfeito.
- É, eu sei que sou perfeito.
- Er, você é bobo mesmo! - disse porém não neguei que parte do que ele havia dito era verdade. Ele seria perfeito se não fosse drogado.
Ele riu, pegou alguma coisa em uma gaveta da mesa, que vi que era o filme e me chamou para descer.
Sentamos no sofá da sala de TV, após ele colocar o filme no DVD.
- Ah, vão ver filme é? - a tia de perguntou, sendo que era uma pergunta meio óbvia já que estávamos ali e o filme estava rodando já na parte “Pirataria é crime”.
- Sim. - eu respondi e sorri para ela.
- Quer ver com a gente? - perguntou, um tanto irônico, o que foi falta de educação.
- Não, eu vou sair. Vou à Macedonia. - É uma cidade próxima de Tinton Falls.
- Ah então ok. - disse. - Tchau.
E ela saiu, ou seja, estávamos sozinhos em casa, já que o tio dele também havia saído.
O filme começou e nós assistimos em silêncio, filmes do Tim Burton realmente prendem a atenção, teve momentos em que eu até esquecia que estava acompanhada. Por um garoto. Desconhecido. Drogado.
Porém quando me lembrava disso, ficava pensando nessa situação por uns bons minutos, e eu olhava para ele e ele olhava de volta para mim e sorria. Mega estranho. E teve vezes em que eu olhei para ele e ele já estava olhando para mim e logo em seguida desviava o olhar. Mega estranho.
- A Casey nunca gostou desses filmes, tipo do Tim Burton. - ele disse.
- É?
- É, ela gostava mais de outros tipos de filmes, os de aventura, não tão legais assim.
- Hum...
- Na verdade, ela não gostava muito das mesmas coisas que eu, mas os opostos se atraem.
- E os parecidos se repelem. Por isso acho que... Ah!
- Ah, fala. - ele pediu.
- Por isso acho que a gente não vai se dar muito bem.
- Ah, de repente essa “lei” sobre repelir e tal talvez não esteja tão certa.
- É, talvez.
Ficamos em silêncio assistindo o filme por mais alguns instantes. Às vezes eu sentia que ele estava me olhando, mas não me atrevi a olhá-lo também.
- Às vezes dá vontade de poder ler o seu pensamento. - ele disse.
- Ah, não dê uma de Edward Cullen, por favor.
- Haha, ok. Mas você bem que podia me dizer o que você pensa. Tipo... O que você pensa quando olha pra mim...
- Muitas coisas, depende do momento.
- Ahn... E o que você estava pensando quando olhava para mim durante o filme?
- Eu sei lá... Acho que estava pensando no fato de estar sozinha com um cara que eu nem conheço direito.
- Ah, não ganhei sua confiança ainda?
- Confiança não se ganha, se conquista com o tempo.
- Profundo, profundo... - ele disse rindo. - ah, vamos pra um lugar público então, sei lá.
- Ok. - sorri e ele sorriu também.
Saímos da casa dos tios dele sem nem mesmo ter visto o final do filme, mas isso não importava, já havia assistido aquele filme umas milhares de trocentas vezes mesmo. O frio estava intenso, o que era estranho pois estávamos em pleno verão de primeiro de Agosto. Andamos pela cidade (deserta aliás, fator cidade não tão grande + frio), até um parque que ficava na Sycamore Ave., o parque Village Green (Town Square) que era perto da casa dele.
Olhei para e ele estava com os braços envolvendo si mesmo, com o maxilar tremendo de frio e os lábios um tanto roxos. Ao vê-lo desse jeito, tive que reprimir um impulso instantâneo que tive de abraçá-lo e aquecê-lo, de esquentar um pouquinho aqueles lábios roxos. E reprimi com dificuldade, pois mesmo congelando ele era sexy, mas reprimi.
- Tadinho de você! - eu disse. - Você está congelando.
- É-é. - ele balbuciou com dificuldade.
- Também pudera né, você só está com essa camisa preta e esse casaco!
- É-é.
Nos sentamos em um banco e eu me aproximei mais um pouco dele, para garantir uma transmissão de calor mínima. Não reprimi um impulso meu e o abracei.
- Não estranhe, só quero te aquecer. - eu avisei.
Ele se acomodou melhor no meu abraço, de forma que ele acabou com o rosto no meu pescoço. Senti um arrepio com o contato do nariz congelado dele em meu pescoço quente. E esse arrepio foi seguido de um calor tremendo, como se eu estivesse em brasas, sendo que quem tinha que se aquecer ali era ele.
- Ei, a gente pode voltar pra casa pra você se agasalhar melhor. - eu disse.
- Dá muito trabalho e o seu abraço nem é tão ruim assim. - ele riu um riso interno.
- Mas você está mega gelado.
- Então me abraça melhor.
Ele se acomodou mais ainda no meu abraço, o que eu achava que era meio impossível já que já estávamos muito colados e já que estávamos sentados. Em um banco. Em um parque público. Deserto, porém era um parque público. De uma cidade relavitamente pequena. Onde quase todos me conheciam (ta, não muitas pessoas mas com certeza alguém que me conhecia poderia aparecer ali do nada). Ok, resolvi parar de pensar nisso pois poderia estragar meu pequeno momento de alegria. Ele começou a cheirar meu pescoço de um modo delicado que me agradava e muito.
- Você é bem cheirosa.
- Ah, nem sou eu, é o sabonete, o creme e perfume e essas coisas.
- Não não, não é cheiro artificial. É o seu cheiro mesmo, que é bom.
- Você está ficando louco.
- É, talvez.
Ele continuou me cheirando, coisa de drogado mesmo, pensei comigo e dei um riso interno. Ele riu também mesmo sem saber o motivo do meu riso. E então, como se fôssemos amigos coloridos e há muito tempo, ele deu um leve selinho no meu pescoço. Foi leve mas eu conseguia identificar um toque de um lábio. E esse simples gesto fez meu corpo responder de forma violenta, como se o tivesse me beijado meeesmo e não só esse negocinho de nada. As malditas borboletas no estômago apareceram, pelo menos era isso que eu achava que era, nunca sentira isso antes. E aliás, não pareciam meras borboletas e sim pássaros, morcegos, não sei, mas algo bem maior do que pequeninas borboletas. E aí veio os outros sintomas, como o coração acelerado. Nos meus quase 17 anos de vida, eu havia aprendido que coração acelerado era seguido de respiração descompassada e, no meu caso, seguida de asma. E eu tive tempo de me preparar emocionalmente ali, esperando pelo ataque de asma, e esperando, e esperando, e ele não vinha. Algo de errado, ou melhor, de certo estava acontecendo ali. Não sei o porquê mas sei que gostei de ter esses sintomas sem nem mesmo precisar usar minha bombinha.
E enquanto pensava tudo isso, o tempo parecia que havia sido parado, pois percebi que não havia passado tanto tempo naquele “sub-mundo de sintomas” do que pensava, na verdade, haviam-se passado meros segundos.
Ele deu outro mini do mini do minúsculo selinho no meu pescoço e levantou a cabeça de modo a me olhar nos olhos, e bem de perto aliás. E então minha respiração começou a acelerar mesmo, e eu estava me direcionando ao ataque de asma, sabia disso. E ele também, pois ele se afastou de mim para me dar espaço para respirar.
- Cadê a sua bombinha? - ele perguntou com os olhos ansiosos.
- Eu. - respirei fundo. - esqu.
- Esqueceu? - ele perguntou.
- É. - respirei fundo novamente.
- O que eu faço pra ajudar? Quer que eu corra até sua casa e ...
Dei sinal com a mão para ele se acalmar, pois eu estava me acalmando já. Respirei fundo por mais alguns instantes, com dificuldade. Era simplesmente horrível puxar o ar e não sentí-lo abastecendo os pulmões. Alvéolos pulmonares hey, não se esqueçam que eu preciso respirar para viver! Voltei a respirar normalmente e chegou mais perto de mim, devagar.
- Me desculpa. - ele disse.
- Ei, você não fez nada.
- Ah, sei lá, é que eu te deixei meio sem ar, sabe? - ele riu.
- É, que você estava tão perto que respirou todo o oxigênio do ar com esse seu big nariz! - zoei ele.
- Aaah malvada e mentirosa, meu nariz é pequeno!
A gente se levantou do banco e começamos a andar na direção que parecia ser da minha casa.
- É sério que meu nariz é grande? - ele perguntou sério.
- Não! Estava brincando, você tem um mini nariz. - eu ri. O nariz dele era pequeno, quer dizer, normal. - Bobo.
- É, eu sei.
- Ah então por que perguntou??
- Sei lá! - ele riu e eu também.
Chegamos em frente a minha casa e paramos na porta.
- Eu vou para casa. Está escurecendo e tal. - ele disse. Isso me desanimou um pouco, eu estava totalmente alheia ao tempo passando, e estava até um pouco acostumada com a presença dele. Eu não conversava com uma pessoa por longas horas como com ele por acho que anos.
- Ah.... - não consegui disfarçar o meu momento decepção, estava estampado na minha cara. - Tudo bem.
Ele deu um meio sorriso e estava hesitante em ir embora.
- Sabe, você até que é legal. - ele disse.
- Você também...
E por um segundo desse momento me veio à mente cenas de filmes, onde o casal se dispede na porta da casa da protagonista e tal. Bem clichê, mas não deixava de ser uma cena bonitinha.
E se eu pudesse ler o pensamento dele ali naquela hora, acho que ele estaria pensando o mesmo que eu havia pensado. Ele foi se aproximando aos poucos de mim, eu ficava me perguntando se ele queria mesmo tornar real a cena de algum filme, e ele se aproximou mais. Chegou tão perto que eu pude sentir o cheiro do hálito dele, bom. E ele ficou parado ali, naquela expectativa de eu me mover um centímetro e tocar meus lábios nos dele, e era isso que eu queria também. Ele estava tão lindo ali de olhos fechados, tão vulnerável. Em um milésimo de segundo, senti que não teria energia nem para me mover aquele um centímetro, e no milésimo seguinte eu já estava com os meus lábios nos dele.
Nós continuamos naquele selinho demorado, beijinho de criança, por um bom tempo. Os lábios dele eram macios, carnudos, mas delicados. E o toque daquelas preciosidades nos meus lábios, foi mágico. Não era um super beijo aquilo, mas era perfeito. Eu sentia os pássaros e os morcegos no meu estômago, o coração pulando, mas o ataque de asma de afastando. Ele colocou uma mão na minha cintura e outra no meu rosto, segurando de leve a minha bochecha. A mão dele era mágica, tudo nele parecia magia. E isso explicava muito bem como ele era. Com esse novo toque, veio uma nova sensação: a fraqueza. Senti as minhas pernas bambas, meus braços moles mas suficientemente fortes para ficar envoltos no pescoço dele. Era horrível, aqueles filmes e livros e fics estavam todos errados, sentir as pernas bambas e todos esses outros sintomas da paixão não era nada bom como eles diziam, e sim o terror! Me senti mega vulnerável ali. Mas ele não, parecia que ele ficava cada vez mais forte, como se a minha força tivesse sido repassada a ele, ele me beijou com um pouco mais de força e eu senti a língua dele percorrendo os meus lábios, como se pedisse passagem. E como eu sou bem educada, dei passagem. Nossas línguas mal se tocaram, mal começaram a dança, e ele me afastou com as mãos. E eu me senti forte naquele mísero segundo e tentei puxá-lo de volta para mim, mordendo de leve o lábio inferior dele. Mas não adiantou muita coisa, pois ele se afastou mesmo assim, retirando então as mãos de mim.
- Me desculpa. - ele disse.
- Desculpa por quê? - eu estava meio desorientada.
- Tipo, você nem me conhece e eu fui te agarrando assim e ...
- Você nem me agarrou! E eu deixei. E correspondi, aliás.
- É, mas eu sei que você não quis fazer isso, foi impulso...
- Hã?
- Eu acho que a gente deve esquecer isso, ser só amigos. - ele disse rápido e eu fiquei mais desorientada ainda com o que ele disse. Como assim só amigos? O cara acabara de me beijar e vem dizendo isso? Ele só podia ser gay.
- Ok então. - eu só consegui consentir, não pensei direito.
- É, esquecer. Tchau.
- Tchau.
E ele foi andando em direção a casa dos tios dele, meio apressado, e nem deu uma pequena olhada para trás. Eu entrei dentro de casa, fechei a porta e nela me apoiei. Cena de filme de novo, mas totalmente verdadeira. Eu não queria esquecer o que acabara de acontecer, e mesmo se quisesse, sabia que não conseguiria.
Minha mãe ainda não havia chegado em casa e eu não queria esperá-la. Subi para meu quarto, meio zonza ainda, pensando no beijo. Eu nunca havia contado para ninguém, mas eu era BV. Sim, quase 17 anos e BV. Então tecnicamente eu havia acabado de perder o BV. Que alegria eu estava sentindo, ao mesmo tempo que sentia tristeza. Por que ele ficou daquele jeito? Será que ele não gostou do meu beijo? Me perguntava, mas sabia que perguntar a mim mesma não traria respostas. Fui tomar banho, ainda nas nuvens. Entrei debaixo do chuveiro e fiquei parada ali, deixando a água quente, quer dizer, fervente, me molhar. De repente me toquei que estava dando pulinhos e batendo pequenas palmas (n/a: narcejaaaa *clap clap clap*), com um sorriso no rosto. Eu estava parecendo uma criança ao ver um brinquedo, ou até pior do que isso. Me controlei e deixei minha felicidade se transpassar apenas pelo sorriso, assim já estava bom. E daí que ele parou o nosso beijo no melhor momento? E daí que ele pediu para eu esquecer aquele beijo, meu primeiro beijo? E daí que ele saiu sem dizer mais nada? E daí? A reação dele após o beijo e interrompendo o mesmo era algo que eu iria me preocupar e me deteriorar depois. Naquele momento tudo o que eu queria era sorrir, nunca havia sorrido tanto assim, pelo menos não que eu me lembre. O era lindo e eu havia descoberto que beijar era muito bom, ainda mais sendo com ele.

Untouchable. Burning brighter than the sun.
And when you're close I feel like coming undone...
You gotta come on, come on. Say that we'll be together.
Come on, come on, little taste of heaven.


six;



Deitei na cama com o objetivo de dormir, mas o sono não vinha.
Só que com o passar dos minutos minha mente se cansara de relutar e se entregara ao cansaço, me levando ao mundo dos sonhos que, obviamente, era rodeado em torno do .

Na manhã seguinte, acordei derrotada, tudo que eu desejava era mais algumas horas de sono e sonho. Os sonhos eram melhores que a realidade, na maioria das vezes.
Levantei, me arrumei, despertei. E tudo com um capricho especial. Estava vestida para matar, ok, matar não, conquistar. Mas sem nenhum exagero, estava bonita, simples, mas bonita. Se o por algum motivo queria esquecer o nosso beijo, eu o faria querer lembrar sempre.
Bem, pelo menos era essa a minha intenção, não que ele fosse acatá-la.
Comi e saí de casa, dei uma olhada na praça e esta estava vazia, nada dele ali. Segui meu caminho para o colégio no frio intenso e estranho de Tinton Falls. Ao passar pela esquina da rua principal, a Tinton Avenue, avistei . Ele estava lindo como no dia anterior, talvez mais, e estava conversando com quatro garotos que eu nunca tinha visto antes na cidade.
Não era como se eles fossem amigos ou estivessem tentando criar uma amizade, eles estavam sérios, o que era mais estranho ainda. Quem seriam esses garotos? O que o queria com eles?
Bem, seja lá o que fosse, eu não iria lá perguntar. Os garotos eram estranhos demais e chegavam a dar medo. E … Bem, ele também era estranho e às vezes dava medo. Passei reto como se não tivesse os visto, mas notei quando o olhar de me acompanhou, seguido dos olhares dos quatro garotos medonhos.
Cheguei no colégio e fui para a sala, sentei no fundo novamente. Ainda era cedo, coloquei meu fone de ouvido e cliquei no play do meu iPod. Stand Too Close – Motion City Soundtrack me fazia bem. E como sempre, as músicas pareciam ter alguma conexão com algo na minha vida, mesmo que bem pouquinho.

"If I stand too close I might fall in. But if I’m too far gone I’ll never win. If you believe in me, I might just wanna spend some time with you again."


E então ele entrou pela porta e eu desviei meu olhar rapidamente como a mostrar que não pensava na companhia dele, quando isso era mentira, porque eu o queria sentado ao meu lado. Até porque eu tinha acabado de descobrir que adorava o estilo de roupa metalero dele. Ele estava com uma camisa preta do Metallica, calça jeans escura e um casaco vermelho, junto com seu all star preto surrado. Perfeito.
E então ele se sentou ao meu lado, afinal, era o único lugar disponível na sala mesmo.
- Oi! - ele disse e eu o respondi com um leve “oi” mas sem o olhar pois saberia que havia grandes chances de eu ficar hipnotizada.
Desliguei meu iPod quando percebi a presença do professor na sala de aula, aula essa que eu não prestaria a mínima atenção.
Eu sabia que toda a minha energia anti-olhares estaria desgastada logo, portanto decidi acabar com isso de uma vez e olhá-lo com vontade, e assim o fiz. E ele me olhou de volta e eu apenas sorri um sorriso tímido.
- Como foi a noite? – ele perguntou e sorriu.
- Normal. E a sua?
- Bem ótima, na verdade.
- Por quê? Algo de diferente aconteceu? – Jesus deveria permitir que ele estivesse passado a noite pensando no nosso beijo.
- Não que eu me lembre, a noite foi estranhamente boa, só isso. – sim, ele não se lembraria, porque ele mesmo disse que era melhor esquecer, né? Irritante.
- Que bom. – fiz a cara mais sarcástica que conseguia e comecei a rabiscar coisas estranhas no meu caderno.
- Posso ir à sua casa hoje? - ele provavelmente não percebera o ódio no meu coração mas ok.
- Hm… pode, acho.
- Ok, eu vou então depois do almoço.
- Tudo bem.
Pra quê ele queria ir à minha casa? Pra jogar xadrez? Porque nada mais poderia acontecer, pelo o que ele deu a entender ontem à noite.
- Eu levo algum filme, sei lá.
- Tudo bem.
- Hum, você está quietinha… - ele disse.
- Estamos em aula.
- Então você vai ter que passar o intervalo comigo pra gente conversar.
- Tem a Lauren.
- Ué, ela fica com a gente também.
- Hm… tudo bem, acho. - ele deu seu meio sorriso. Droga de meio sorriso lindo.
Eu simplesmente não conseguia entender por que os meus sentimentos por ele estavam crescendo tão rapidamente assim. Afinal, havíamos nos conhecido no dia anterior. Tudo estava correndo dentro de mim. Eu nem tinha motivos pra sentir que talvez fosse especial. O que ele era? Um simples drogado, metalero, estranho, maravilhoso, lindo e que beijava muito bem? Danem-se todas as coisas superficiais, eu queria encontrar algum motivo concreto por estar apaixonada por ele. Só porque ele foi a única pessoa que foi amigável comigo nos últimos seis meses? Fora a Lauren, claro. Isso tinha que ser alguma outra coisa, essa minha obsessão por ele tinha que ser apenas loucura da minha mente carente. Só isso.
A aula se passou sem mais novidades até que o sinal bateu e me acompanhou pelo corredor até a próxima aula, que também era com ele e que ele novamente se sentou ao meu lado. Ficamos em silêncio, e não era incômodo, pelo menos não para mim.
Fiquei rabiscando meu caderno de novo durante a aula, se eu continuasse assim, não conseguiria passar de ano. E quanto mais tempo eu ficasse na escola, mais tempo até eu ir para a faculdade, sendo assim, mais tempo com a minha mãe.
Mas dane-se, começaria a me importar com isso outro dia, não hoje que os meus rabiscos tinham a atenção especial do . Ele parecia estar gostando dos meus rabiscos, sendo que eu nem tinha prestado atenção no que estava rabiscando ali, ele estava com seu meio sorriso no rosto então resolvi prestar atenção neles.
E foi aí que eu fiquei corada, ou melhor, mais vermelha que pimenta. No meio de riscos sem rumo e oitos escritos, estavam palavras sem nexo e alguns nomes. Nomes como Lauren, Robert (meu pai), Molly (minha mãe), Clarice e, claro, . Só que, em volta do nome dele, havia corações.
Malditos corações.
Imediatamente, olhei para ele, chocada com os meus rabiscos, e ele arqueou uma sobrancelha e começou a rir, e depois a prender o riso porque senão o professor brigaria com ele. Que desgraçado, ele estava rindo da minha desgraça! Quer dizer, dos meus infelizes segredos não tão secretos assim, que foram revelados pelos meus rabiscos. Eu deveria prestar mais atenção no que eu faço, é.
Então eu arranquei a folha do caderno e rasguei em muitos pedaços, mas ele já tinha visto os corações então não adiantaria de nada maltratar o papel, mas assim o fiz, queria queimar esse papel e depois jogar as cinzas no inferno. Me contentei levantando-me, pegando todos os pedacinhos dos vestígios dos meus sentimentos, e indo em direção à lixeira sem me importar com o professor. E quando voltei ao meu lugar, fingi que nada havia acontecido e ele fingiu que se esqueceu dos corações e ficou sério até bater o sinal.
Ele seguiu para a aula dele e eu fui para a aula de História Americana, onde Lauren estaria também. Só que ela não estava e quando fui perguntar para a professora onde Lauren estaria, a Sra. Weber me respondeu que ela havia mudado o horário dela e que nesse momento ela estaria na aula de Literatura. Essa é a aula que eu teria de tarde, afinal, terças e quintas tínhamos aula a tarde, portanto eu ficaria sozinha agora e a tarde? Que bom, como eu adoro ficar sozinha! Er, não.
Durante essa aula, fiquei bem longe de possíveis locais para rabiscar.
Era a hora do intervalo e segui sozinha para o refeitório, encontrando e Lauren caminhando juntos pelo corredor, não sei se senti ciúmes ou raiva mas que eu não tinha gostado de vê-los juntos era certo. Apressei o passo até chegar neles, que estavam entretidos em uma conversa animada.
- Hey! - chamei-os e eles se viraram para mim. - Oi!
- Ah, … oi… - impressão minha ou ela fez uma cara de desapontada com a minha presença ao dizer um oi muxoxo?
- Oi, . - disse. - Então… vamos?
- Aonde, ? - perguntei.
- Ué, você me chamou pra lanchar com vocês, não lembra?
Eu realmente não me lembrava, estava com a mente no porquê de eles estarem juntos, eles nem se conheciam! Ok, eu também não conheço o mas a gente já se beijou, diferente deles… será que eles já se beijaram? Argh, estava ficando paranóica. Me internem.
- Ahn… é mesmo. - andamos para o refeitório. - Mas então… vocês estavam fazendo o que juntos?
- Somos amiguinhos agora. - Lauren disse. - Algum problema?
- Não, que isso! - ri para disfarçar meu nervosismo, a risada deve ter soado mais como uma cena de filme de terror. - Só perguntei porque vocês nem se conheciam e… ah, só por perguntar, ué.
- A gente tem aula de Literatura juntos e viramos amigos. - ele sorriu e me pegou de leve pelo braço, me direcionando a uma mesa mais no fundo do refeitório. - Vamos sentar ali.
Sentamos-nos, eu no meio dos dois e então o silêncio constrangedor apareceu. Quer dizer que ela me abandonou para fazer aula de Literatura com ele? Quer dizer, não que o motivo da transferência de aula tenha sido o mas que era uma incrível coincidência isso era!
- Hum… vamos ali pegar algo pra comer? - perguntei torcendo pelo hambúrguer de ontem.
- Vamos. - disse levantando-se.
- Eu trouxe minha maçã. - Lauren disse retirando um embrulho da bolsa. - Espero vocês aqui.
Andamos até a bancada, e foi interessante, andar ao lado dele era estranho, parecia que ele era um imã porque eu ficava me esbarrando nele sem querer. Totalmente sem querer, se é que você me entende.
Estava pegando meu hambúrguer tranqüilamente até que desapareceu do meu lado, e quando notei isso fui surpreendida por uma mão. Ele estava atrás de mim, como se fosse falar algo em meu ouvido. Congelei e, imediatamente, senti um calor dos infernos. Ele colocou a mão nas minhas costas, não muito em cima, não muito em baixo, no meio, e então um frio passou pela minha coluna e eu até me arrepiei. Que ódio desses sintomas da paixão. Opa, não, paixão não, loucura.
- Você vai querer suco de laranja ou refrigerante? - ele perguntou ao meu ouvido. Não creio que ele fez toda essa cena pra me perguntar uma coisa banal como essa! Ok, essa grande cena foi só na minha mente, porque ele não sabia dos efeitos dos atos dele em mim, portanto tudo não passava de atos normais para ele, acho.
- Ahn… é… refrigerante. - respondi e ouvi um riso interno vindo dele, estranho.
Ele pegou as bebidas e seguimos para o nosso lugar, onde Lauren nos esperava.
- Por que você está vermelha? - Lauren me perguntou assim que eu sentei.
- Eu estou?
- Demais. - disse e riu seu riso interno.
- Está um pouco calor aqui! - respondi e comecei a comer meu lindo hambúrguer.
- Não está não. – ela disse. Será que ela continuaria com esse sorriso no rosto se eu tacasse minha bebida nela?
Não estava entendendo mesmo porque eu estava mais na defensiva com Lauren, afinal ela agora era minha única amiga. Mas... Será que ela era minha amiga mesmo?
Conversamos demais durante o intervalo, parecia que o assunto nunca acabaria entre nós três, a Lauren era muito animada e simpática e o estava incrivelmente gentil, receptivo e tagarela. E eu estava ali no meio dos dois, só rindo do que eles falavam, porque não sabia se quando eu abrisse a boca falaria algo legal como eles ou não, me restringia a leves comentários. Eles formariam um casal bonitinho se ele já não fosse meu. Ok, ele não era meu, ele nem me queria mas tudo bem. E não, eu também não o queria. É, acho.
O sinal bateu alertando o fim do intervalo e seguimos para as nossas aulas, que antes eu tinha a companhia só do em Escrita Criativa mas que agora eu tinha também a companhia de Lauren que havia pedido transferência para nossa aula. Não sabia se agüentaria a animação deles por mais uma aula, eu simplesmente não era assim. Para mim, silêncio era gostoso às vezes, eu pensava melhor, e com eles o silêncio parecia impossível de surgir.
Na sala, havia um lugar ao lado de e outro a duas fileiras de distância, eu esperei para ver onde Lauren sentaria, se ela se sentasse ao lado dele, recolheria minha insignificância para duas fileiras de distância mesmo. Ela olhou para como se estivesse dizendo algo e ele afirmou. Espera aí, eles lêem pensamentos é? E então ela se sentou a duas fileiras de distância e ele fez sinal para que eu me sentasse ao lado dele e assim o fiz.
Enquanto estava escrevendo meu texto lindo sobre bullying e o quanto essa prática (sempre feita pelos jogadores de futebol e pelas lideres de torcida da escola) me irritava, senti uma coisa batendo em meu cabelo, era um pedaço de papel. O peguei no chão e olhei para Lauren, que me lançou um olhar de cúmplice de crime, eu realmente não tinha o porquê de ter ciúmes, ela era tão adorável!
Abri o papel com cuidado, não sabia se poderia ler. Mas também ele estava entretido demais com seu texto para prestar atenção em qualquer outra coisa. Em uma caligrafia gordinha, estava escrito:
Espero que não se importe, mas me disse que vocês vão assistir a um filme hoje na sua casa, e me convidou também. Tudo bem pra você? Porque você sabe que pode me dizer qualquer coisa.
Senti um ódio mortal reinando em minhas veias, mas respondi com calma.
Sem problemas. Nada como um filme com amigos.
Estava me odiando pela minha resposta, porque na verdade o que eu queria responder era Não! Ele é só meu! Eu disse só meu!”, como uma pessoa bem normal responderia.
E ficou por isso mesmo. Estava sentindo que essa tarde não seria nada agradável.
Passaram-se mais duas aulas, e o sinal da saída bateu. Estava chovendo bastante, coloquei meu capuz e saí correndo pela chuva como uma louca, sem nem esperar por e Lauren. Na verdade, eu nem lembrava de ter visto os dois saindo da sala comigo, já que estava em um outro mundo, o meu lindo mundo dos sonhos, no qual passo 99% do meu tempo.
Cheguei em casa e novamente me dei conta de que comida e cozinha não eram sinônimos na minha casa há muito tempo. Então peguei meu guarda-chuva xadrez roxo/azul lindo, e o dinheiro do porco (cofrinho), e adentrei na chuva para ir ao mercado. Esse ano definitivamente Tinton Falls se superara no quesito tempo desproporcional, já que o inverno não fora tão frio e o verão de Agosto estava chuvoso e frio.
Cheguei no mercado, peguei um miojo (minha especialidade) e uma latinha de coca-cola. Só que me dei conta que disponibilidade e vontade de voltar aqui no mercado de novo para fazer compras mais decentes eu não teria nem tão cedo, então resolvi fazer compras de verdade, depois pediria que entregassem lá em casa. Inclusive, tive que comprar coisas para meus "amiguinhos" comerem hoje de tarde ou eles morreriam de fome. Hm, pensando bem, eu deveria os deixar morrer de fome, mas minha educação me impedia. Depois de escolher tudo e colocar no carrinho de supermercado, fui para o caixa. A atendente já me conhecia, sabia meu nome, sobrenome, minha vida, tudo, e eu não sabia nada sobre ela, e sempre tinha que olhar o crachá que dizia que o nome dela era Melanie. Melanie estava conversando com outra atendente que eu não sei o nome, o engraçado de ir ao mercado mesmo era ouvi-las fofocando.
- Mas você viu? Eles são tão arrogantes. Deu vontade de bater naquele loiro metido. - Melanie disse, gesticulando. - Ah, oi , quanto tempo! Como anda a sua mãe?
- Hm, muito bem. - É, ela anda bem, em algum lugar provavelmente agarrando algum novo namorado, com certeza ela está melhor do que eu. Eu não poderia dizer isso a ela, claro. Se bem que creio que nada conseguiria manchar mais ainda a imagem da minha mãe. - Será que tem como você pedir pra entregarem lá em casa as compras? Exceto pelo miojo e a coca, isso eu levo agora.
- Claro, querida! - Ela me chamava de querida como se eu fosse uma criança, sendo que na verdade eu sou apenas 1 ano mais nova que ela. Ela começou a passar os produtos e empacotá-los. - Mas então, , você viu aqueles quatro garotos novos que vieram pra cá?
- Pra cá onde? - Eu, sendo lerda.
- Bem, eles se mudaram pra essa região aqui de Tinton Falls, justo essa região caseira, quando eles são pessoas horríveis!
- Nossa, então você já os conhece? - perguntei, não sou muito de aturar pessoas falando mal daquilo que não conhecem por isso estava ficando meio sem paciência.
- Eles vieram aqui, são até bonitinhos, mas arrogantes! - a outra atendente falou. - Acredita que eles derrubaram a pirâmide de bombons que eu montei com tanto sacrifício? Imbecis.
- Hm, sinto muito. Eu ainda não os vi, acho. Melanie terminou de passar os produtos, paguei, peguei minha sacola com o meu lindo almoço, me despedi sem mais delongas e fui embora. Eu hein, o que deu agora nesse bairro que todo mundo parece que resolveu se mudar pra cá? Aqui nem é tão legal assim. Bem, chega de fazer amizade com pessoas, principalmente pessoas que parecem ser estranhas, então eu não queria mesmo conhecer esses novos garotos que se mudaram e que derrubaram a tão especial pirâmide do mercado.
Andando pela rua, minha fome foi aumentando mais ainda, meu estômago parecia que gritava, e a chuva resolveu apertar, me molhando mesmo com o guarda-chuva. Ao tentar destrancar a porta da minha casa, notei que havia pessoas na pracinha ali em frente, minha curiosidade notou que uma delas era e as outras pessoas eram os mesmos quatro garotos que estavam conversando com ele logo pela manhã. Eu, de novo, não iria cumprimentá-lo, mas então o ouvi chamando o meu nome, e quando me virei, ele e os garotos estavam vindo ao meu encontro. Senti medo até, todos eles estavam de preto e eram muito assustadores. Havia um cara loiro, um ruivo, e dois morenos bem parecidos, todos muito bonitos. Só então me toquei que eles deveriam ser os mesmo garotos de quem as atendentes do mercado estavam falando, e comprovei o que eu já pensava antes: não quero ser amiga deles. Eles dão medo e eu senti que estava ficando sem ar.
- Já venho. - disse meio sem ar quando eles chegaram perto de mim e disse um "oi". Entrei dentro de casa e peguei uma das minhas bombinhas (que vivem espalhadas por todos os cantos da casa) na gaveta mais próxima, e ouvi dizendo "às vezes ela tem umas crises de asma". Eu sinceramente queria fechar a porta e não voltar lá pra fora pra falar com eles (meu estômago estava cada vez mais nervoso), mas voltei. - Er, oi.
- Então linda, deixa eu te apresentar eles. - disse enquanto colocava suas mãos sobre meus ombros, permitindo que eu sentisse um cheiro muito forte de maconha. É um imbecil mesmo, por usar drogas, tenho tanto ódio de quem usa drogas. Mas eu não conseguia odiá-lo apesar disso, na verdade, devo admitir que provavelmente um dos motivos por eu ter me interessado por ele foi justamente o fato de que ele faz coisas proibidas. - Esse é John, Riley, Drake e Jacob. - disse ele apontando para o ruivo, os morenos, e o loiro, respectivamente.
- E eles são seus amigos? - perguntei a .
- Hm... é, acho que sim né? - ele lançou um olhar interrogativo e misterioso aos garotos.
- Claro. - um dos morenos, Riley, disse, com um sorriso perverso no rosto. Um sorriso medonho que me fez precisar da bombinha novamente. Eu queria ir pra dentro da minha casa segura e quentinha.
- E você é a pequena , irmãzinha da Clarice? Ora ora. - O loiro, Jacob, disse com um sorriso tão assustador quanto o de Riley e colocou sua mão em minha mão, beijando-a. Bombinha de novo. Mas espera aí, ele disse Clarice? A minha irmã Clarice? Como que...
- C-como que v-você sabe da m-minha irmã? - gaguejei, congelei praticamente.
- Ah, como eu sou mal-educado. Deixe me apresentar melhor. - Jacob disse. - Eu sou Jacob, mas me chame de Jake, sou o namorado de Clarice.
Ele disse com muita confiança, o que deveria ter me deixado mais calma, mas não me deixou.
- Como assim? Ela... Cadê ela? - perguntei, chocada.
- Ah, ela não pôde vir, ela queria muito, mas disse que viria outro dia. Mas relaxa, eu sou quase da família! - Ele disse, mas não consegui relaxar.
- Que família? Porque a família que eu acreditava que existia, a qual eu pertencia, já desmoronou há muito tempo, então... Jacob - falei o nome dele com mais ênfase. - Você não é quase da família, porque a "família" - e fiz as aspas com as mãos - não existe. - Me direcionei à porta da minha casa, me desvencilhando do "abraço" de , me desviando dos olhares intrigados de todos. - Aliás, diga à Clarice que ela não precisa se importar em vir aqui outro dia, eu não sinto saudades dela. - entrei em casa e fechei a porta. Tranquei todas as trancas existentes e fechei as cortinas, queria me isolar do mundo.
De onde eu tinha arranjado coragem de dizer aquilo pra alguém que eu nem conheço, eu não sei, provavelmente era a minha loucura atacando novamente.
Sentei no sofá e eu não consegui controlar minhas lágrimas. Quem era esse Jacob realmente? Quer dizer, como assim ele é o namorado de Clarice? E o que ele veio fazer aqui, se ela não está junto? E aliás, por que ela não veio junto? Tantos anos sem vê-la nunca parecia ter me feito algum mal, mas isso porque eu realmente nunca pensava nela. Sempre que ela atormentava meus pensamentos, eu fazia qualquer outra coisa, ocupava minha mente até com limpeza de casa, menos com ela. E agora, sem eu nem estar preparada, tudo foi jogado pra cima de mim. Pensar que a própria irmã não gosta da "família" o suficiente para visitá-la, ou até mesmo telefonar de vez em quando, era simplesmente insuportável. E toda aquela história de garotos novos na cidade, o cheiro de maconha de , a Lauren e ele sendo amiguinhos, e o tal de Jacob sendo namorado de Clarice, era simplesmente muito estranho, estranho demais para aceitar.
Na verdade, o dia havia sido muito estranho. A palavra que resumia a vida naquele momento era: estranho.

three;



Sequei minhas lágrimas após um bom tempo de choro e lembranças de uma época em que 'família' e 'eu' eram palavras que se assemelhavam. Durante tanto tempo eu pensei que não me importava com isso, mas quando me permito lembrar o passado, percebo que eu queria acordar de manhã com alguém me desejando um bom dia, voltar para uma casa que tenha alguém dentro, ter um jantar em família de vez em quando, um natal realmente decente. Só que concluo que isso não faz parte da minha vida mais, e que almejar isso com lágrimas não é nada bom e não adianta de nada.
Então eu fiz meu miojo, almocei enquanto assistia a mais uma reprise de Gilmore Girls (minha série favorita). Eu realmente tinha me esquecido de que Lauren e viriam assistir a algum filme comigo, quando a campanhinha tocou. Respirei fundo depois de ver pelo olho mágico que eram eles mesmos ali, e abri a porta.
- Olá, ! - Lauren praticamente gritou, sorrindo e me abraçando. Estranho demais se pensarmos que eu a vi há poucas horas atrás.
- Oi! - Disse, tentando fingir uma pequena animação, e tentando largar do abraço dela.
- Oi, . - me abraçou delicadamente depois que Lauren me soltou. Será que ele se esqueceu da pequena cena que eu fiz há pouco tempo com os amigos dele, assim como ele se esqueceu do nosso beijo? Aliás, ele não estava mais com cheiro de maconha, e sim com um cheiro de sabonete muito gostoso. Pelo menos isso, né.
- Então, o disse que você gosta de filmes do Tim Burton, então eu aluguei um para assistir, eu meio que duvido que você já tenha visto, , porque pouca gente que eu conheço já assistiu. - Lauren disse e se sentou no sofá, abrindo sua bolsa rosa.
- Qual é? - Sinceramente, eu duvidava muito não ter assistido ao filme, quer dizer, eu acreditava fielmente que já havia assistido a todos os filmes do Tim Burton, afinal eu era fã do trabalho dele.
- É O Cavalheiro Sem Cabeça. - respondeu . Minha vontade foi de rir, porque eu já havia assistido a aquele filme umas 30 vezes.
- Mas é óbvio que eu já vi! - eu disse.
- Eu falei pra ela isso, mas ela não acreditou em mim, então... - falou, se sentando no sofá. - Vamos assistir de novo, não tem problema.
Ele estava sentado ao lado de Lauren, eu realmente tentei ocupar a minha mente pra eu não lembrar que eu não gostava nem um pouco dos dois juntos, então sentei ao outro lado de depois de colocar o filme no DVD.
colocou o braço em volta do meu ombro, aquele movimento estava muito perigoso, a qualquer momento eu poderia me descontrolar e pular em cima dele. Por que ele insistia em insistir nessas coisas perigosas quando ao mesmo tempo ele insistia em esquecer o nosso lindo beijo? Estava começando a acreditar que o beijo só havia acontecido na minha mente mesmo. Então eu notei que o outro braço de estava em volta de Lauren, e aí eu queria muito pular em cima dos dois e tacar a cabeça de um na do outro, mas me controlei.
- Hm, eu acho que vou fazer pipoca. - Me levantei, torcendo muito para se levantar comigo e me acompanhar, para não ficar sozinho com Lauren.
- Quer ajuda? - ele perguntou.
- Ahn... pode ser!
Ele se levantou e foi pra cozinha comigo, e Lauren ficou vendo os trailers, sorridente. Tinha que me conscientizar de que ela não estava fazendo nada demais, que o ciúme era coisa da minha mente... mas será que era só coisa da minha mente mesmo? Peguei a pipoca em uma das sacolas do mercado (já haviam entregado minhas compras antes deles chegarem) e coloquei pra fazer no micro-ondas.
- Sabe, colocar uma pipoca no micro-ondas não é tão difícil assim, então se você quiser voltar lá pra sala... - eu falei.
- Não, eu te faço companhia. - ele sorriu seu sorriso tímido. Queria apertar ele.
Ficamos em um silêncio um tanto constrangedor até que ele se aproximou de mim, colocando as mãos na minha cintura. Eu olhei rapidamente para a sala para ver se Lauren estaria observando, não sei o porquê, mas ela estava entretida demais com o trailer pra notar qualquer coisa. Ele estava perto demais, tão perto que o peito dele estava colado no meu, e eu sentia a respiração dele. Isso era muito estranho, nunca havia chegado tão perto assim de um garoto, era como se 17 anos da minha vida tivessem sido em vão e só agora eu percebera o quanto eu perdi a minha vida inteira.
- Então... você está bem? - ele perguntou. Bem, se descontarmos o fato de que eu estava surtando por causa da nossa proximidade, estava tudo bem.
- C-claro, por que não estaria?
- Por causa de mais cedo. O Jacob te pegou de surpresa ao falar da sua irmã, né?
- Ah, isso. - eu estalei meus dedos como se tivesse lembrado algo, e me afastei dele, me arrependendo logo em seguida disso. - A gente ainda precisa conversar sobre isso.
- OK, vamos conversar então.
- Não agora! - olhei para a sala novamente. - A gente não está sozinho.
- E por que a gente precisa ficar sozinho pra conversar? - ele se aproximou de mim novamente, e então ele aproximou seu rosto no meu pescoço, roçando seus lábios ali. O que ele estava fazendo?? Ele queria me deixar louca? Pra que tudo isso? Ele não tinha esquecido o nosso beijo, não disse que nós dois não era certo, que ele não podia? Céus! Esqueci até o rumo da minha vida ali naquele mínimo toque.
- Porque... Porque sim!
- Porque sim não é resposta.
- Pra mim é. - me afastei dele de novo. - E, por favor, não faça isso novamente, você não quer esquecer? Então esqueça qualquer impulso seu de chegar perto assim de mim de novo. - Wow, eu estava atacada, mais louca do que nunca pra dizer isso, quando na verdade o que eu mais queria era ele perto. O micro-ondas apitou, e eu tirei a pipoca lá de dentro, coloquei em um pote enorme pra pipoca. - Pega as latinhas de refrigerante aí na geladeira, por favor.
Sentei-me ao lado de Lauren, de tal modo que só poderia sentar-se ao meu lado. O filme começou e eu sinceramente não estava afim de assistir, fiquei vagando pelo meu mundo imaginário, sem prestar atenção.
Tudo estava sendo uma loucura pra mim. Minha vida era simplesmente normal demais para, de um dia para o outro, mudar assim. Agora eu estava sentada ao lado de um cara que era drogado e que há alguns minutos estava me seduzindo na cozinha, e com uma amiga. Isso mesmo, amiga. Quem diria que eu voltaria a ter amigos. Isso sem contar no Jacob, que aparentemente é meu cunhado, namorado de uma irmã que não dá a mínima para sua "família".
E falando nessa loucura, estava duvidando muito que esse Jacob fosse meu cunhado. Quer dizer, ele não havia me mostrado provas de que era namorado de Clarice, provas de que ao menos a conhecia. Aliás, de onde eles se conheceram, se é que se conheceram? Até porque qualquer um poderia ter dito a ele que o nome da minha irmã é Clarice e que ela não vem pra casa há anos, todos sabem disso. A questão é: por que alguém mentiria sobre isso? Será que era só uma piadinha infeliz?
Cheguei à conclusão que só quem poderia, realmente, responder a essas perguntas seria a própria Clarice. Eu só tinha que abandonar o meu orgulho e telefoná-la. Só que isso era muito difícil, e eu não tinha a mínima coragem, pra dizer a verdade.
Reparei que estava prestando tanta atenção no filme quanto eu, ou seja, não estava prestando atenção. Ele estava observando a minha casa e às vezes olhava no celular, como se estivesse com pressa pra algo ou esperando alguma ligação. Resolvi observar a minha casa também, vai que estava tudo bagunçado e eu não havia reparado nisso ainda. E realmente estava. Ok, nem tudo estava bagunçado, mas haviam livros, folhas e lápis no outro sofá, algumas contas sobre a mesa (provavelmente eram contas não pagas, pois minha mãe nunca lembra de pagá-las), alguns casacos em lugares que eu nem sabia que era possível pendurar casaco. Bem, dane-se, eu que não iria arrumar a casa só para recebê-los. Quanto me toquei, estava me olhando. E então ele me passou o celular dele. Fiquei meio sem entender por alguns poucos segundos, o que ele queria em me passar o celular dele? Mas aí eu vi que ele havia escrito alguma coisa ali. Hoho, adoro conversas secretas.
Sua casa me lembra muito a casa da Casey, a minha ex.

Ta, o que eu iria responder? Obrigada? Nem sabia se isso era um elogio! Talvez não fosse, dizer que a minha casa é igual a de uma pessoa que morreu não parece ser legal.
E isso é bom?

Ele ficou um tempo lendo aquilo, pensando talvez, e então ele suspirou.
Eu realmente não sei, por um lado sim, mas sei lá.

Ah, isso foi muito esclarecedor. Eu meio que senti que ele estava triste, devia ser difícil mesmo perder alguém que se ama tanto. Eu já me senti assim, quando meu pai morreu, mas não sei, parecia que o laço de e dessa Casey era mais profundo, talvez doesse mais quando a gente tem bastante contato com a pessoa e ela fosse embora para sempre, eu nunca tive tanta afinidade com meu pai pra saber. Bem, eu queria arranjar algum jeito de confortá-lo, mas só o que eu consegui fazer foi sorrir de leve pra ele, e ele me retribuiu com seu meio sorriso. Esse meio sorriso que sempre me hipnotizava, era simples, mas parecia que era o mais sincero existente, o que dizia tantas coisas ao mesmo tempo em que não queria dizer nada. Eu adorava isso, eu tinha que admitir, talvez eu estivesse mesmo apaixonada. O que havia de mal nisso? Não conseguia pensar em nada naquela hora.
Após algum tempo, notei que estava novamente vagando, provavelmente vagando nas lembranças da Casey, então eu coloquei minha cabeça no ombro dele de leve, e peguei a mão dele. Talvez isso o fizesse sentir melhor.
- Ei, não fica triste. - sussurrei.
- Eu vou ficar bem. - ele sussurrou de volta. Eu sabia que isso era mentira. E então me pus a pensar no porquê de ele usar drogas, talvez fosse pela Casey. Talvez isso o fizesse menos depressivo. Mas mesmo assim, isso não justificava muita coisa, para ele talvez sim, mas eu não conseguia entender. Porque eu nunca, mesmo se estivesse no lugar dele, usaria drogas. Bem, pelo menos era isso que eu sempre achava, só que a gente só sabe o que é mesmo sofrer quando a gente sente a dor.
O filme parecia estar bem emocionante, pelas caras de Lauren, então passei a prestar atenção. Quando chegou na cena da árvore das cabeças, se levantou. Foi até um tanto cômico na minha mente, pensar que ele estava se levantando porque estava com medo ou com nojo da cena do filme, mas ele estava sério.
- Vou ter que sair. - ele falou apressado. Lauren deu pause no filme.
- Mas por quê? - ela perguntou.
- Eu preciso ir embora.
- , está tudo bem? - eu perguntei, estava ficando até um tanto preocupada com o jeito apreensivo dele.
- Está sim. - ele ficou me olhando por alguns segundos, sério, como se ele tentasse me dizer alguma coisa, só que eu simplesmente não conseguia decifrar expressões faciais, ou ler pensamentos, nunca consegui, não ia ser naquela hora que eu iria aprender.
- Quer que a gente vá com você até a sua casa, ou seja lá pra onde você estiver indo? - perguntei.
- Não precisa, eu quero mesmo ficar sozinho. - ele respondeu e deu um beijo na bochecha de Lauren e um beijo (que pra mim foi muito demorado, já que deu tempo até de eu surtar em pensamento) na minha testa. Argh, queria que tivesse sido na minha boca, mas aquele toque foi bom do mesmo jeito. Eu o acompanhei até a porta e ele saiu apressado pela minha rua vazia. É, então restara eu e a tão-animada-Lauren.
- Wow, isso foi estranho. - ela disse quando eu fechei a porta.
- Nem me diga. - sentei ao lado dela novamente, a casa parecia mais fria depois que ele fora embora.
- Então... agora que ele foi embora...me conta tudo! - ela falou, animada.
- Tudo o quê?
- Não finja que você não se lembra do que aconteceu na cozinha, eu vi!
- Ahn... - eu senti meu rosto se aquecer. - ele meio que me abraçou, foi estranho, acho que hoje ele está carente demais.
- Não foi só um abraço aquilo! Quero detalhes!
- É, ele meio que... não sei o que foi aquilo, mas acho que ele beijou meu pescoço. - ela estava com os olhos brilhando, e sorridente. Imagina se eu contasse do beijo de ontem, o que eu não contaria.
- Ah, , deixa de segredos! - ela disse e apertou minha mão.
- Como assim?
- Eu já sei de tudo!
- De tudo o quê?
- Uma andorinha me contou que você e o se beijaram ontem! - ela meio que gritou, animada.
- Ahn... é, mas ele quer esquecer...
- Não parece, já que foi ele a andorinha fofoqueira!
- Ele que te contou? - perguntei realmente surpresa, então ele não fingiu que havia esquecido, não fingiu pra ela pelo menos. Ela só assentiu com um sorriso de cúmplice de crime. - E ele te contou todo o resto?
- Wow, então aconteceu mais coisa? Isso está melhor que filme!
- Nem está, não aconteceu mais coisa nesse sentido, ele só disse pra mim que era melhor esquecer que o beijo havia acontecido e seguir em frente.
- Ah sim, ele me contou.
- Nossa, e vocês se tornaram melhores amigos? - estava com ciúmes disso, confesso.
- Basicamente. Ele até que é legal para um drogado, rebelde, que a família já até largou de mão.
- É, eu sei. - eu sei, e ele é só meu!
- E sabe o que mais ele me disse?
- Não.
- Ele disse que você é muito bonita! - ela me olhou de um jeito engraçado. - Safadinha, você conquistou ele bem rapidinho.
- Conquistei nada. - ela ficou rindo. - Meu beijo deve ter sido muito ruim, isso sim, pra ele querer até esquecer!
- Ai, , deixa de ser boba. Ele com certeza gostou, senão ele nem teria vindo aqui hoje.
- Você acha?
- Eu tenho certeza, confie em mim, eu sei do que estou falando.
- Nossa, e você é tão experiente assim? - brinquei.
- Nem te conto. - ela fez um olhar de safadinha, ri demais da cara dela, não conseguia sentir raiva de alguém tão adorável, mesmo que eu esteja corroída de ciúmes.
Voltamos a assistir o restante do filme, agora comentando em todas as cenas, como verdadeiras amigas fazem. Assim era bem mais divertido. Só que de vez em quando eu me pegava pensando em como o estaria, se ele estaria em casa ou não, se ele estaria com aqueles quatro garotos. E me matava pensando em qual seria a ligação entre e Jacob e os outros três garotos. Era estranho, uma estranha coincidência ser amigo do namorado da minha irmã. Me toquei que ele havia ido embora sem ao menos conversamos sobre esse negócio da minha irmã, eu tinha que arranjar um jeito de falar com ele. Na verdade, eu não tinha, mas eu queria e muito falar com ele, ele conseguia fazer eu me sentir confortável. Quando eu estava com ele, era como se eu tivesse voltado de uma viajem de muito tempo, para uma casa querida e especial, como se ele fosse aquela chuva no final da tarde, mansa e refrescante. Eu não conseguia parar de pensar nessas analogias para descrevê-lo, talvez eu estivesse me apaixonando cada vez mais. Eu não queria isso, porque eu nem sabia se era possível.
O celular de Lauren tocou, o toque dela era o início da música Shake Tramp do Marianas Trench, e simplesmente era muito engraçada, sempre ria quando assistia aquela parte do clipe. assista ao clipe aqui!
Ela ficava só repetindo "aham", "ta mãe", calma de início, mas então ela gritou um "ta bom, já estou indo, que droga!" e eu não consegui evitar rir da agressividade dela. Ela desligou o celular e se levantou.
- Bem, acho que vou ter que ir. - ela fez biquinho, fiz também, ela estava sendo uma boa amiga.
- A gente se vê amanhã. - a levei até a porta.
- Aham, mas eu te ligo mais tarde!
- OK! - Resolvi não comentar sobre o fato de que eu odiava falar ao telefone.
Ela me deu um abraço e foi embora, a rua estava tranquila como sempre e vazia, estava escurecendo, talvez fosse um tanto perigoso para ela ir sozinha para casa, apesar da criminalidade em Tinton Falls ser quase inexistente. Nunca se sabe, né.
- Ei, Lauren! - gritei, chamando-a, ela voltou. - Pede pra sua mãe vir te buscar, é meio perigoso você ir sozinha!
- Não tem problema, eu estou com meu spray de pimenta.
- Não adianta muita coisa, sabe?
- Eu sei, mamãe , mas é mais perigoso eu ver minha mãe brava porque eu cheguei em casa tarde, então eu vou agora.
- Me liga pra avisar que você chegou.
- Ok. - ela foi embora de novo.
- Se você não me ligar em dez minutos eu vou chamar a polícia hein?! - gritei.
- Ta bom, mãe!
Quando eu fui fechar a porta da minha casa, uma mão me puxou. Meu intuito foi de gritar, mas quando eu fui fazer isso, colocaram uma mão sobre a minha boca e falaram "shhhiu". Só depois percebi que era , mas isso não me acalmou. Ele me soltou.
- Isso são modos?! Você me assustou! - coloquei minha mão no peito, meu coração estava super acelerado, e eu estava ficando sem ar. Corri pra dentro de casa, e peguei minha bombinha, usei-a. já havia entrado junto comigo e fechado a porta.
- Me desculpa, não queria te assustar.
- Tudo bem, já passou. - eu falei, mais pra mim mesma do que pra ele. - O que você veio fazer aqui?
- A gente ainda nem conversou direito hoje, por isso que eu vim. - ele chegou mais perto de mim, ainda bem que eu estava com a minha bombinha na mão. Eu pude perceber que os olhos dele estavam vermelhos, ele andou fumando. Que droga! Não gostava de ver alguém desperdiçando a vida.
- Ah sim. - o peguei pela mão, levando-o para o meu quarto. O que provavelmente eu não deveria fazer, já que eu mal o conhecia, e se ele me estuprasse? Na hora eu nem pensei nas possibilidades ruins, só queria livrá-lo de qualquer mal, como se ele fosse algum filho meu.
Entramos e eu fechei a porta do meu quarto, que por sinal estava bagunçado. Eu fiz um sinal para ele pedindo para ele ficar ali na porta, enquanto eu tirava minhas roupas que estavam jogadas pelo chão (céus, tinha até roupa íntima ali, ainda bem que ele não viu) e as jogava no cesto de roupa suja, mesmo elas não estando sujas. Depois peguei novamente pela mão e o sentei na minha cama.
- Por que você foi embora daquele jeito mais cedo? - perguntei, impressão minha ou minha voz soou um tanto chorosa? Ele suspirou fundo.
- Eu não estava muito bem, estava passando mal e tal. - Mentira, eu sabia disso. Sentei melhor na cama, colocando meus pés para cima, e então eu sorri para ele e tirei seus all stars pretos, puxando as pernas dele pra cima da cama também. Ele riu seu riso interno. Meu dia estava ganho com isso.
- Ok, agora você pode começar a ser sincero comigo. - ele arqueou uma sobrancelha.
- Eu estou sendo sincero. - disse.
- Não está não. Você fumou alguma coisa, sei lá? - eu disse e ele riu. Não tinha graça.
- Se sim, você vai me odiar eternamente?
- Claro que não, se você disser que sim, que você fumou, eu vou tentar te ajudar. - Mostrar que a pessoa pode se curar, passo número um.
- Acho que ninguém pode me ajudar.
- Ai ai, você já me disse isso antes, muda de disco! - ele riu. - Eu posso te ajudar sim.
- Ah esquece, eu não vim aqui para conversar sobre os meus problemas, e sim sobre os seus.
- Eu sou uma garota bem sem graça, nem problemas eu tenho.
- Isso com certeza não é verdade. A Clarice, ela...
- Isso! Eu tenho dúvidas sobre isso, de onde você conhece o Jacob, que disse que é namorado de Clarice? - o interrompi.
- Mas eu disse que vim aqui pra falar de você e não sobre mim.
- Acontece que eu só vou ficar bem quando eu souber de tudo, de toda a verdade. - eu suspirei. - Porque parece que... Eu não sei, mas eu não acreditei muito no Jacob... Eu não quero acreditar nele porque... Porque se eu acreditar que ele namora a Clarice, eu vou ter que acreditar que ela não quis vir me ver e... Isso não é bom. - estava me controlando para não chorar.
- Entendo... - ele apertou minha mão. - Eu conheço o Jacob, e os outros da Califórnia mesmo.
- Eles são seus amigos mesmo?
- Mais ou menos, eles... bem, lembra quando eu contei que eu fiquei mal quando a Casey morreu e criei umas amizades meio estranhas? Então, eles foram minhas amizades estranhas.
- Que usam drogas também, né.
- Sim.
- E você já sabia antes que o Jacob namora a minha irmã ou ele mentiu?
- Eu nunca soube de nada. É que não éramos tipo melhores amigos, entende?
- E você não contou hoje ou ontem que eu tenho uma irmã que nunca vem pra casa, pra ele mentir assim?
- Eu não.
- E por que eles vieram pra cá?
- Eles não vão ficar por muito tempo, sabe.
- Mas por que eles vieram?
- Eu não sei, realmente não sei, eles só disseram que tinham que fazer uma coisa muito importante aqui, mas não disseram o quê.
- Só? Não disseram mais nada?
- Bem, eles disseram que tinham que agitar essa cidade um pouquinho. Não entendi nada, pra falar a verdade.
- Muito menos eu.
- Só sei que... se tratando deles, boa coisa não pode ser. - ele disse e depois sorriu de leve pra mim, não entendi. Será que eu deveria sentir medo? - Relaxa, nem vai dar em nada, esquece que eles existem.
Ele acariciou meus cabelos, e eu apoiei minha cabeça no ombro dele. Só depois de um minuto em um silêncio até agradável, notei que Lauren ainda não havia ligado, foi como se eu despertasse de um pesadelo, de tão agitada que eu levantei da cama.
- O que foi? - perguntou, se levantando também, preocupado. Peguei o telefone, e busquei pelo meu celular o número de Lauren.
- A Lauren. Pedi pra ela me ligar quando chegasse em casa e ela ainda não ligou.
Estava chamando, na casa dela, e nada de me atenderem. Até que uma mulher atendeu.
- Alô, a Lauren está?
- Não, ela foi na casa de uma amiga.
- Sim, sou eu, ela veio aqui, mas ela disse que tinha que ir embora, então ela ainda não chegou?
- Não. Mas ela disse que depois que fosse na sua casa ela tinha que ir ver um amigo, ela não contou?
- Não. Então ela está com esse amigo dela?
- Sim, sim, ela acabou de me ligar.
- Então ok, só liguei pra saber se estava tudo bem mesmo. Obrigada.
- Ah que isso, boa noite.
- Boa noite.
Estranho. Ela disse que tinha que ir para casa, por causa da mãe, e não que tinha que ir à casa de um amigo.
- Tudo bem? - perguntou.
- É, acho que sim né. - me sentei na cama novamente, ainda preocupada. - Acha que eu devo ligar pro celular dela?
- Acho que não, se disseram que ela está com um amigo, ela deve estar bem, e talvez nem queira ser atrapalhada. - ele arqueou uma sobrancelha.
- Acho que você tem razão.
- Sim. - ele olhou no relógio. - Bem, acho que devo ir.
- Não! - ele riu com o meu espanto.
- Já está ficando tarde, sua mãe pode chegar...
- Nem, não a vejo desde ontem, nem sei se ela dormiu em casa na noite passada.
- Mesmo assim, e se ela vier hoje?
- Ela não vai fazer nada.
- Mas eu tenho que ir, meus tios podem ficar preocupados e tal.
Fiz biquinho, mas desci com ele, o acompanhando até a porta.
- Então tchau né.
- É, tchau. - ele me deu um beijo na bochecha. Não gostei da despedida de hoje, todos os dias ele poderia se despedir de mim com um beijo na boca, eu realmente não me importava. - Até amanhã.
- Se cuida.
- Você também, linda.
Surtei por alguns segundos com esse "linda" dele, enquanto ele ia embora. E então fechei a porta rapidamente, com medo de que mais alguma mão pudesse me puxar.
Não conseguia evitar de ficar preocupada com e com Lauren, os dois estavam estranhos hoje. Lauren mentindo e indo pra casa de um amigo misterioso, e sendo ele mesmo. Eu não sabia se acreditava que pudesse estar gostando de mim, como algo a mais. Sempre pensei ser impossível alguém se apaixonar por mim. Talvez estivesse confundindo tudo, ele não gostava de mim, ele só estava carente. Eu não me importava de ser o ombro consolador dele, mesmo, só que eu queria que ele gostasse de mim pelo o que eu sou. Eu sabia que ele só estava me aturando e perguntando toda hora sobre os meus problemas, porque ele queria esquecer dos problemas dele! Ele não gostava de mim, ele gostava do que eu podia representar, do efeito que eu podia ter nas lembranças ruins dele. Ele não estava se apaixonando por mim, e não tinha nada que eu podia fazer. Porque eu simplesmente não queria me afastar dele, apesar de tudo. Eu não conseguia me afastar dele. Tinha que parar de pensar nisso.
Resolvi assistir um pouco de Tv, ainda era cedo e não havia nem dever de casa, ou seja, estava nas mãos do tédio. Ia começar a assistir a uma reprise de Pushing Daisies e ouvi um barulho na porta. E em seguida, um barulho maior ainda. Estava com medo de atender à porta. Será que eu deveria correr para o meu quarto? Eu não sabia, só sabia que minhas pernas estavam bambas demais para isso, e a minha bombinha estava longe demais, eu sentia que em alguns instantes estaria tendo um ataque de asma, só que eu não conseguia pegar minha bombinha.
Então, a porta se abriu.

eight;


Eu não sabia se gritava ou se pegava a manta que fica sobre o sofá para me esconder sob ela. Optei por ficar apenas parada, em estado de choque.
Quando vi quem havia aberto a porta, me odiei por ter sentido medo, já que era a minha mãe. Com um homem. Que eu certamente nunca havia visto antes, mas que me olhava firmemente enquanto minha mãe ria na cozinha, sem nem perceber a minha presença.
Limpei minha garganta de um jeito forçado – muito forçado – para chamar a atenção dela e nem assim ela me olhou.
- Hm, baby, a garota... – o cara falou, apontando para mim. E só assim minha mãe me olhou, de um jeito surpreso.
Eu não sabia como deveria agir, pois na última vez que nos vimos as coisas simplesmente não saíram tão boas já que o que fiz foi bater a porta atrás de mim. Não sabia também como agir porque havia um homem ali, o que era estranho porque ela saía com muitos homens mas nunca os trazia para casa. Sem contar que ele era um homem desconhecido que havia acabado de chamar minha mãe de “baby”.
Eu queria brigar com ela, eu estava com raiva que ela não conseguia agir como uma mãe nem por um segundo da vida dela, ela nunca optava por tentar fazer alguma amizade comigo e ao invés disso trazia homens estranhos para casa. Só que minha educação gritou forte para eu não brigar, afinal, o homem talvez fosse legal mesmo e ser rude seria totalmente contrário às regras de bom convívio da sociedade. Mas também eu sabia que não conseguiria tratá-lo bem, porque quando eu me aproximei dos dois e realmente parei para observá-lo, algo me dizia que ele não era uma boa pessoa.
Ele era alto, magro nas condições normais de magreza, com cabelos grisalhos, olhos verdes, estava vestido com calça social, uma camisa social azul escura e um blazer por cima. Veja bem, ele parecia ser uma pessoa completamente não-assustadora, e até era bonito para a idade dele – ele teria o que? Uns 50 anos? – só que havia algo no olhar dele, um brilho um tanto sombrio e profundo. E enquanto olhava para ele para tentar desvendar o segredo dele (sem nem saber se ele tinha algum segredo macabro mesmo), talvez se eu observasse muito eu conseguisse ler a mente dele, não sei, me senti tonta. E ele sorriu, assustadoramente.
- Dan, essa é a minha filha, . esse é Dan, ele é meu... – minha mãe o olhou com uma expressão interrogativa.
- Namorado. – ele a completou, e ela sorriu um sorriso muito largo, que não via ela fazer há muito tempo. Desde o acidente do meu pai, quando ela estava sorrindo no banco do passageiro, na possibilidade de voltarmos a ser uma família.
- Ahn, desde quando vocês se conhecem? – perguntei, realmente chocada. Eles se entreolharam, talvez sem saber a resposta.
- Não faz muito tempo, sabe. – ela respondeu.
- Quando? – perguntei novamente.
- Hm, uma semana, eu acho. – minha mãe deu uma risada forçada e nervosa e foi para a cozinha se servir de uma taça de vinho. Uma semana só? E já estão namorando? Isso era tipo um grande ‘não é possível’ no meu entender das coisas, será que eles não estavam indo um pouco rápido demais? Eu resolvi não me meter, pois minha regra com a minha mãe era: quando menos palavras trocadas, melhor.
- Bem... eu vou pro meu quarto então... er, boa noite. – disse, já me virando em direção às escadas, mas então uma mão me puxou. O que deu nas pessoas que agora todas querem ficar puxando minha mão?
- Foi um prazer te conhecer. – o cara, o tal de Dan, disse, de um jeito um tanto apreensivo mas ainda com um sorriso medonho no rosto. Talvez ele estivesse só querendo ser amigável com a filha da... namorada dele? Bem, tudo o que sabia era que eu queria sair daquele recinto naquele instante. Me desvencilhei da mão dele, com um certo nojo inexplicável.
- Ahn, o prazer foi todo meu. – disse e peguei meu celular no sofá da sala, desliguei a TV e subi correndo as escadas, me trancando no quarto.
Eu esperava fielmente que o tal do Dan não fosse dormir com a minha mãe ali, no mesmo terreno que eu, na mesma rua, cidade, estado, país, continente, mundo. Sei lá, mas eu queria vê-lo longe de mim, algo me dizia que ele não era uma ótima pessoa. E mesmo se a minha mãe acreditasse que ele é um homem maravilhoso, duvidaria, pois além dela não ser uma boa pessoa em escolher homens, ele não transmitia confiança e aliás, ela nem o conhecia direito pra saber realmente.
Após tomar banho, me entreguei ao tédio. Isso não era algo muito rotineiro na minha vida, pra falar a verdade, eu sempre tinha algo a fazer. Ou me matar estudando, ou assistir televisão, ou ler algum livro, ou ficar tocando violão e escrevendo musicas, ou ir na internet. Ou qualquer outra coisa. Mas naquele momento, parecia que nada era legal o suficiente para me motivar a agir. Então resolvi tentar dormir, e justo quando estava me encaminhando para o mundo dos sonhos (ou pesadelos, provavelmente), eu escutei um barulho muito... peculiar, digamos assim.
Pensei ter sido ilusão, talvez eu estivesse ouvindo coisas, já que eu andava achando que estava ficando louca mesmo. Mas então eu ouvi de novo, eu simplesmente não estava acreditando naquilo. Eram gemidos. E não pareciam gemidos de dor, muito pelo contrário.
Não era possível que minha mãe e o tal de Dan estavam... estavam fazendo... aquilo. Aqui em casa? Não... ela não seria capaz. Seria? Mas então os gemidos aumentavam, se tornando constantes. Eu que não iria mais ficar ali. Coloquei minha jaqueta e saí pela janela do meu quarto, para sentar-me no telhado. Estava aquele frio incomum, mas pelo menos estava silêncio do lado de fora.
A rua estava vazia, como sempre, principalmente a noite. Acho que não havia nenhuma chance de alguém tentar atirar em mim pelo lugar que eu estava, então eu me sentia segura. Voltei ao meu quarto, peguei uma coberta, me enrolei nela, e voltei para o telhado. Ainda bem que o telhado não era inclinado, mas sim reto, e grande, ou então teria caído. Deitei, e sob a luz do luar e das estrelas, adormeci.
Acordei com o sol em meus olhos, olhei no celular e eram 6 horas da manhã. Ouvi um barulho de porta de carro se fechando, e logo em seguida um carro saiu de frente da minha casa, indo embora, pude ver que era o homem namorado da minha mãe. Ué, ele já foi embora? Voltei ao meu quarto, me arrumei, tomei café. Estava pronta para ir embora para algum outro lugar até dar o horário de ir para a escola, quando minha mãe desceu pelas escadas com sono aparente.
- O Dan já foi? – ela perguntou.
- Já.
- Hm... será que eu deveria ficar chateada porque ele foi embora?
- Não, você mereceu. – falei e saí de casa, batendo novamente a porta atrás de mim. Era rotina as nossas conversas terminarem assim.
Sim, ela merecia, uma mulher que traz um homem para a casa conhecendo-o por apenas uma semana, dá pra ele com a própria filha estando em casa... bem, creio que ela merece sim.
Assim que olhei para a pracinha, desejei ver ali, mas meu desejo não foi realizado. Coloquei meu fone de ouvido e Walk In The Sun – McFly para tocar e assim me encaminhei para a escola. Cheguei cedo demais, tanto que não haviam aberto as portas ainda. Sentei-me em um dos bancos que haviam em frente à escola e ali fiquei, por muito tempo, sem ver nenhuma alma passando.
Me pus a pensar em Clarice, novamente. Eu nunca soube exatamente o motivo, mas desde o acidente do meu pai, a nossa convivência se tornou mais distante do que antes. Lembrava muito bem que no enterro do meu pai, ela não me abraçou ou trocou qualquer palavra comigo que não fosse “pegue água para mim”. E eu podia jurar que algumas vezes tinha visto um olhar de ódio dela em minha direção, mas... eu não conseguia me lembrar por que. Só lembrava que quando éramos criança, ela odiava que eu encostasse nas balas que minha mãe só dava a ela, me lançava esse mesmo olhar de ódio mas logo em seguida me oferecia as balas. Me perguntava se algum dia ela voltaria a me oferecer balas, metaforicamente falando. Talvez nunca mais.
Quando me dei por conta, estava sentado ao meu lado. Levei um susto e ele riu, eu realmente sou desligada.
- Bom dia! – ele disse animado, se aproximando de mim e me dando um beijo na bochecha.
- Er, bom dia, acho. – respondi, entorpecida pelo cheiro bom dele. O cheiro dele era inexplicável, inconfundível e irreconhecível, mas maravilhoso.
- Por que você acha?
- Ah, porque sei lá. Não é um bom dia, só um dia, pronto.
- Dormiu bem?
- Aham.
Ok, isso obviamente era mentira, e creio que ele percebeu isso depois que eu bocejei, pois ele riu sua risada interna. Avistei um ponto loiro saltitante vindo em nossa direção, era , sorridente demais.
- Olá pessoas. Como vocês estão? – ela nos perguntou.
- Estamos ótimos, e você? - respondeu por nós dois, só que o detalhe era: eu não estava ótima.
- Muito bem! – ela respondeu.
- Hm, sem querer parecer psicótica ou algo assim, mas ontem você disse que iria para casa e não foi, fiquei preocupada! – eu disse. Ela e se entreolharam. Não entendi o porquê.
- Ah é que um amigo meu ligou quando eu estava indo para casa e pediu pra eu passar na casa dele. Só isso.
- Ahn... – começamos a andar em direção a porta do prédio do colégio que haviam acabado de abrir. – E quem é esse amigo? – tentei não parecer estar pressionando ela a me responder, tentando esconder minha curiosidade, sem muito sucesso provavelmente. olhou novamente de um jeito estranho para . Isso estava ficando suspeito, deveria eu sentir ciúmes ou algo assim?
- Você não o conhece! – ela falou apressadamente. – Mas enfim, vocês querem ir na minha casa hoje, fazer qualquer coisa? – estava explícita a vontade dela de mudar de assunto.
- Não. – respondi enquanto sentava na cadeira. – Quer dizer, não posso, tenho que fazer umas coisas que minha mãe pediu há um tempo e eu não fiz ainda. – Mentira minha.
- Ah, então... , você vai né? – ela perguntou.
- É, não sei, acho que não, . – ele respondeu e sentou-se na cadeira ao meu lado. Agradeci e dei pulos mentalmente por ele não ter aceitado ficar a sós com ela. Ciúme.
Então, os outros alunos chegaram bem como o professor, e começou a aula. O estava com um bom humor peculiar, ele ficava sorrindo e mexendo nas minhas coisas. Percebi que ele estava escrevendo alguma coisa na última página do meu caderno. Tentei olhar e ele me impediu, segurando minhas mãos e sussurrando “Você lê depois, linda.” com uma voz que me fez ir no céu e voltar. Fiquei tão hipnotizada que nem me preocupei em continuar tentando ler o que ele havia escrito.
Bateu o sinal e ele se levantou largando meu caderno. Eu ia ler a última página, mas de novo ele me impediu. Sorrindo, ele guardou minhas coisas e me pegou pela cintura, me levando para fora da sala.
- Por favor, só leia quando você estiver sozinha. – ele pediu. Do jeito que a voz dele soou melosa, eu só sabia obedecê-lo.
- Sim, senhor. – ele riu.
Nos encaminhamos para a próxima aula e, novamente, sentou-se ao meu lado. O bom humor dele continuou a aflorar, e isso me contagiava, tanto que nem percebi o tempo passando e a aula ficando para trás. O sinal bateu novamente e fomos para outra aula, que também passou rápido, e depois era o intervalo.
Quando chegamos ao refeitório, havia uma agitação peculiar tomando o lugar. Todas as mesas estavam mais próximas umas das outras, todas ao redor de uma mesa central, na qual estavam sentados os quatro garotos medonhos: John, Riley, Drake e Jacob. Lindsay também estava ali com eles, caindo em cima de Jacob do jeito mais indecente possível. Só que o que mais me chocou foi ver . Incrivelmente, todos no refeitório estavam satisfeitos com essa disposição das mesas, comendo felizes. Olhei para para ver se ele estava tão surpreso quanto eu, e aparentemente não estava impressionado mais sim com um olhar misterioso nos olhos.
- Veja só, meu amigo - Jacob disse alto, sobrepondo as vozes do resto dos alunos. – Venha cá, sente-se conosco... chame minha cunhadinha gata também.
hesitara, houve intensa troca de olhares entre ele e Jacob, mas foi derrotado. Me pegou pela mão e nos sentamos na mesa.
- Muito bem, agora podemos conversar sobre o quanto sua irmã te ama! – Jacob disse em minha direção, baixo de modo que só eu pudesse escutar, mas todos podiam ver seu sorriso irônico esboçando mentiras.



CONTINUA



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N/a: Capítulo minúsculo esse, não é? Mas a fic já estava parada há tanto tempo que resolvi postar o que tinha aqui até minha criatividade voltar. Me cobrem, mesmo, eu preciso de incentivo.
Qualquer coisa me gritem aqui: lb_renata@hotmail.com / reh.djm@popfics.com
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