Fair Play

Autora: Pamela Leão
Status: Em Andamento
Revisada por: Pamela Leão
Categoria: McFLY Fics
Sub-Categoria: Romance - LongFic
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PRÓLOGO
28 de Janeiro de 2009

"Querido diário. Essa é a primeira página de mais um caderno onde mais um ano da minha vida ficará registrado. Eu realmente pensei que não fosse mais fazer isso. Por favor, há dois dias completei dezessete anos, não tenho mais idade para isso. Infelizmente, percebi que o único meio de me livrar de pensamentos infortunos, idéias mal desenvolvidas, conflitos inexplicáveis e sentimentos estranhos, é essa. Minha nova vida vai começar, creio que deve ser com o pé direito, não preciso de mais coisas desastrosas, como pro exemplo, minha mudança. Meu novo colégio se chama Marie Durst, mamãe o escolheu por ser tradicional e também porque isso parece ser a única coisa que importa para ela. Admito que gostei da escolha afinal e Lizzie, minhas melhores amigas, estudam por lá. Acho que para um primeiro relato isso está ótimo, agora vou me trocar e tomar um café. Preciso de energias para hoje. xx ."

CAPÍTULO 1
HORA DE RECOMEÇAR

Não abri meus olhos, mas podia saber de tudo o que acontecia a minha volta. Desde o barulho de passos no corredor, até os apitos baixinhos que indicavam que meu celular já estava totalmente carregado. Abri apenas o olho esquerdo, virei meu rosto e dei de cara com os números vermehlos e digitais do relógio de cabeceira. Despertador para mim era algo biológico, nunca tinha erro. Todos os dias, sem excluir finais de semana - a não ser aqueles em que voltava digasse de passagem tarde com -, acordava no mesmo horário, sete e meia em ponto.
Na cama, grande demais para um pessoa só, puxei os lencóis de cima do corpoe lancei as pernas para fora dali. Estiquei os braços acima da cabeça e pude ouvir o barulho de alguns ossos estralando. Inspirei fundo e, finalmente, abri os dois olhos. As batidas na porta já eram conhecidas.
- ? Está acordada? - Ouvi Joanne perguntar do outro lado da porta. Às vezes era como se as pessoas naquela casa não conhecessem meus hábitos.
- Estou acordado, Jo. - Disse usand uma oitava a mais, mas não gritando, aquilo estava longe do meu alcance logo de manhã.
Levantei e observei a bagunça que estava meu quarto. Naquele final de semana eu havia trabalho exaustivamente em uma partitura, fui completamente absorvida por aquelas notas e esqueci que estava quase vivendo dentro de um chiqueiro. Chutei o pequeno caderno que estava caído bem ao lado da cama. Se não me falhava a memória eu estava escrevendo nele antes de ser abduzida pelo sono e pelo cansaço.
Meu reflexo no espelho não era nada agradável, como sempre um rosto sem emoção alguma. Abri a torneira, formei uma concha com as mãos, esperei que estivesse cheia de água e joguei contra o rosto. Coloquei a pasta especial para dentes sensíveis na escova de dentes e fiz minha higiene matinal. Talvez comida pudesse melhorar minha expressão sem sal. Banho quente, roupão. Corri até a porta de meu quarto, como de costume do outro lado, pendurado no trinco estava o uniforme do colégio. Passado e engomado, com o cheiro de amaciante que costumava ficar assim que Joanne me trazia. As peças eram um pouco diferentes do uniforme que costumava usar no antigo colégio.
Eu realmente odiava saias pregueadas, me deixavam com um corpo estranho. Vesti tudo sem voltar a reclamar, mas se pudesse não usaria aquela camisa para dentro. Abri a caixa onde guardava acessórios para o cabelo e tirei dali um arco, provavelmente o preto ficaria bom, combinaria as cores sérias daquele uniforme. Borrifei meu perfume favorito e desci as cansativas escadas.
- Bom dia, Bela Adormecida. - Minha mãe disse num tom indiferente, como sempre. Sentada em sua poltrona, comia algumas bolachinhas que estavam sobre uma das bandeijas de prata.
- Bom dia, mãe. - Minha voz saiu um pouco arrastada e não era por sono. A maneira como minha mãe conseguia ser superficial certas vezes, realmente me tirava do sério. Dei as costas e caminhei até a cozinha à procura de comida, fácil e rápida. Joanne andava com passinhos acelerados de um lado para o outro, aplicava algumas ordens para as outras empregadas e corrigia possíveis falhas.
Apoiei o corpo sobre o gabinete da cozinha e puxei a caixa de cereal próxima. Despejei os pequenos flocos de milho na tijela e antes que pedisse, Jo já havia colocado a garrafa de leite bem na minha frente. Chegava a ser engraçada a maneira como ela lidava com a casa toda. Não era tão grande, uma cobertura no centro de Londres.
Terminei rapidamente o cereal, pelo visto meu pai ainda não havia retornado da viagem a França. Coloquei a bolsa no ombro direito e não deixei a cozinha antes de me despedir de Joanne.
- Pámela, o motorista foi buscar algumas coisas que sua mãe pediu. Tem algum problema em ir para a escola de táxi? - ela perguntou com a mesma voz mansa de sempre.
- Não, problema nenhum. Vou descer antes que me atrase. - Dei um beijo estalado em sua bochecha e deixei a cozinha. - Até mais tarde. - Foi apenas o que disse para minha mãe que continuava compenetrada em sua leitura de cultura, provavelmente, inútil.
O elevador que lembrava o estilo antigo dos prédios indicou que o primeiro andar estava pronto para me receber. Deixei o cubículo de metal e caminhei com passos rápidos até a rua. Acenei para o primeiro táxi que apareceu, para meu azar este estava ocupado. Logo em seguida, mais um virou a esquina, acenei e este parou.
O caminho rotineiro passou rapidamente pelas janelas. Saltei do táxi e olhei meu uniforme uma última vez. Os portões de entrada estavam, como era de se esperar, cheios de alunos, cada grupo conversando sobre seus assuntos. Os colégios católicos não costumavam dar tanta liberdade, não podíamos nos diferenciar dos outros na maneira de nos vestir, por exemplo. A única alternativa que nos restava era encontrar as pessoas que melhor nos agradavam. Esbarrando em alguns e outros, passei sã e salva por aquele aglomerado. e Lizzie estavam sentadas na borda da grande fonte que enfeitava o jardim ainda desconhecido.
- Chegando de táxi. Que menina mimada. - Lizzie disse com um tom de ironia.
- Pois é - Sabia muito bem que meus pais me mimavam demais. - Meu pai ainda não voltou, logo tive que vir de táxi. Mas acho que até o final da tarde ele já está de volta.
- Não sei porque Lizzie está falando que você é mimada - abriu a boca pela primeira vez. - É ela quem vem com um motorista todos os dias.
O sinal tocou e nós três nos levantamos. Atravessamos o grande e bem cuidado jardim rumo a um dos vários prédios.
- Sua cara não está muito boa. - disse assim que sentamos na mesa que dividiamos na aula de Educação Religiosa.
- Eu passei o final de semana ensaiando aquela partitura que eu havia comentado na semana passada - disse esfregando os olhos. - Achei que o banho e a comida tivessem disfarçado um pouco.
- Sinto dizer, mas não - ela respondeu tirando da bolsa os livros necessários para a aula. - Então você trocou a festa do Mathew por ensaios incansáveis de piano. Legal.
Eu podia sentir a ironia quase transbordando por sua voz. Apenas rolei os olhos e peguei minhas anotações. Antes que o professor começasse eu poderia manter um diálogo estável.
- E então, o que tem para me contar da grande festa do Mathew? - perguntei usando meu, fracassado,talento para a ironia. Mathew era um conhecido de todas nós, galante como maioria dos meninos, mas ainda assim parecia mais delicado que todos eles. Sem vontade de passar limites. Eu realmente tinha uma simpatia por ele.
- Foi divertida. Até o momento em que o apareceu com a Jullie. - alimentava uma admiração sem tamanho por , e por seus amigos também. Qual era a graça deles?
Todos eles viviam andando pelos corredores, esnobando todos e encarando a vida como uma brincadeira. Eles poderiam ser legais, mas aos meus olhos não passavam de um bando de babacas. Com uma batida discreta na porta algum aluno atrasado pedia permissão para entrar. Ok, devo admitir que não tenho histórico para falar deles, aquele era o primeiro ano de convivência, mas tudo o que e Lizzie contavam me fazia pensar que todos os quatro, contanto agora com e , não passavam de babacas metidos a alguma coisa.
- Professor, com licença. - disse. Agarrou o terno de seu amigo inseparável e o puxou para dentro da sala. Sorri sarcástica e voltei a falar com .
- E você entrou em uma fossa sem fim, como sempre, por causa disso? - perguntei, enquanto começava a copiar as anotações que o professor fazia na lousa.
- Quem sou eu para competir com Jullie Hankins.
Assim funcionava o mundo em que eu vivia. Sempre os subordinados sofrendo com seu complexo de inferioridade. Balancei a cabeça negativamente, os dois ocuparam a mesa da diagonal. Por idiotice e falta de cuidado percebeu que eu ainda olhava para ele. Uma onda de nervoso passou por todo meu sistema, abaixei o olhar e voltei a rabiscar coisas inúteis naquela folha. Infelizmente aquele incômodo não passaria tão cedo.

The same tricks that once fooled me


CAPÍTULO 2
APARÊNCIAS


Minha casa não era tão distante do colégio, ao lembrar disso fiz questão de esquecer de ligar para o motorista que minha mãe sempre mandava para me buscar nos dias em que meu pai não podia, ou até ela não podia me buscar. havia pedido para que eu esperasse junto com ela na frente dos portões do colégio até que sua mãe chegasse, sabendo que como voltaria de metrô não existiria problema algum, fiquei por lá.
Coloquei os materiais em cima do pequeno muro que apenas servia de enfeite para a arquitetura do colégio e me sentei ao lado.
- , minha mãe comentou alguma coisa sobre um jantar ou reunião hoje. Tá sabendo de alguma coisa? - ela perguntou enquanto procurava por alguma coisa dentro do bolso pequeno que enfeitava a bolsa.
- Hoje? - indaguei com um pinguinho de curiosidade. - Não que eu saiba. - Nossas mães sempre estavam em contato combinando reuniões, ou jantares que na realidade não serviam para muita coisa, apenas para ostentar tudo que todos já sabiam que tínhamos.
- Pois é, eu escutei ela falando com alguém no telefone. - disse depois de achar o que procurava, o celular. - Pelo papo que ela estava tendo presumi que fosse sua mãe, ou alguma amiga dela. Daquelas que a gente bem conhece. - riu abertamente.
As amizades que as duas cultivavam não eram das melhores.
Porém, se todos fossem parar para pensar e analisar o mundo em que vivíamos, nada era dos melhores. Posso garantir que nunca conheci alguém que valesse a pena, a não ser , claro. No caso ela já era praticamente minha irmã, logo, ninguém mais havia entrado no meu universo tão desconhecido para tantos, e muito menos me feito ver aquele mundo cheio de falsidade e ostentação de uma maneira diferente.
A buzina do carro da mãe de chamou minha atenção, eu ainda ria da maneira como víamos todas aquelas pessoas entediantes. Me despedi com um beijinho em sua bochecha e assim que seu carro praticamente arrancou deixando a entrada do colégio, saltei daquele muro e coloquei a alça da bolsa no ombro direito.
A estação estava vazia, o que era um milagre. Olhei no relógio e constatei que a hora do almoço já havia praticamente acabado, talvez fosse a razão para a falta de movimento. Me sentei com os pés sobre o banco do vagão, tirei os fones brancos da bolsa e os encaixei na orelha aumentando o volume logo em seguida. Eu ainda continuava com a meta de escutar todas as músicas no modo aleatório sem pular para a seguinte uma vez que fosse. Estava indo bem, até perceber que era hora de saltar.
- Joanne? - gritei ainda saindo do elevador que dava acesso direto para o hall da cobertura em que vivíamos.
- Na cozinha, querida. - deixei a bolsa sobre a mesa, onde sempre havia um arranjo de flores diferente, assim que passei por ela. Percebi que havia um clima diferente por ali. Mais empregados que o normal, especificamente. Olhei desconfiada para Joanne que apenas largou os braços como se não pudesse mais fazer nada. - Sua mãe pediu para que eu não avisasse até que chegasse o dia.
- Típico. - rolei os olhos e desisti da idéia de almoçar. Ver todos aqueles canapés sendo separados para mais uma droga de jantar me dava um pouco de enjoo. - Jo, eu vou subir, mais tarde eu como alguma coisa. - pisquei e voltei para o hall, pronta para subir as escadas e me trancar em meu quarto.
Assim que abri a porta larguei a bolsa no chão mesmo e joguei o corpo contra o colchão. Caso me esforçasse bastante poderia encostar as pontas dos dedos nas beiradas da cama. Com um impulso deixei as brincadeiras idiotas e fui para o banheiro tomar um banho.
O pequeno trajeto até o chuveiro me fez perceber como tudo estava arrumado, completamente diferente do que havia deixado antes de sair para o colégio.
Deixei que a água quente batesse em minha cabeça molhando meu corpo e cabelos por igual. Só saí de lá quando meus dedos estavam bem enrugados. Era absurdamente chato sair de um banho tão bom e não saber o que fazer depois. Coloquei a roupa mais confortável que pude achar o armário e fui arrumar minha partitura sobre o piano.
Tocar a ponta dos dedos naquelas teclas tinha um efeito avassalador sobre mim. Era como ficar alheia a tudo que acontecesse fora da bolha que era meu quarto.
O tempo deveria passar com a vontade e velocidade que quisesse, estava tão desligada que só parei de tocar quando ouvi as batidas na porta do meu quarto.
- Pode entrar. - gritei para quem que estivesse lá fora ouvisse, fechei a partitura e sentei de frente para a porta.
- Querida? - escutei a voz de meu pai e logo vi sua cabeça aparecer dentro do meu quarto. Saltei do pequeno banco estofado e corri de encontro à porta.
Com o trinco na mão abri totalmente, pulando no colo do meu pai logo em seguida. Afundei o rosto na curva de seu pescoço e inalei todo o cheiro que eu costumava sentir falta. Todas as vezes que ele dizia ter negócios para resolver meu coração apertava um pouco, ninguém poderia me fazer falta como meu pai.
- Tantas saudades assim? - ele perguntou assim que me colocou no chão. Arrumei a roupa e sorri abertamente.
- Claro, pensei que já tivesse se acostumado. - disse voltando ao quarto, ele estaria no meu encalço. Sentei com pernas de índio sobre a cama e esperei que fizesse o mesmo.
- Todas essas viagens valem a pena quando chego em casa e você me recebe assim, filha. - sentou-se na poltrona que ocupava um dos cantos do quarto e apoiou os cotovelos nos joelhos. - , você sabe me dizer o que vai acontecer aqui hoje?
Torci a boca e rolei os olhos, pobre dele, bastava uma viajem de três dias para que minha mãe criasse alguma maneira de colocar pessoas fúteis dentro da nossa casa.
- Eu não sei, apenas cheguei com todos esses empregados andando pra cima e pra baixo, e ainda por cima esse vestido que eu mal sei de onde saiu. - apontei para a capa preta que estava pendurada do lado de fora da porta do meu banheiro. - Imaginei que tivesse combinado isso antes de você viajar.
- , até parece que não conhece sua mãe. Ela não diria, pois sabia muito bem que eu não concordaria. - ele inspirou profundamente e levantou da poltrona rosa e salmão. - Vou tomar um banho, essas viagens muito rápidas são as mais cansativas. Provavelmente já tenho roupas para hoje me esperando. Desculpe por não ficar com você, querida, mas estou realmente exausto.
- Tudo bem, pai. - disse saltando da cama. - Vá descansar, provavelmente vou me pendurar no telefone com a até a hora do teatro social. - meu sarcasmo foi herdado do meu pai, era extremamente curiosa a maneira como ele conseguia suportar minha mãe por tantos anos como vinha fazendo. Os dois não podiam ser mais opostos.
Assim que meu pai deixou o quarto, joguei o corpo contra o colchão e alcancei o telefone na beira da cama. Algumas horas no telefone não faria mal, mesmo sabendo que não teria muito tempo, logo minha mãe estaria batendo na porta, histérica como sempre, me pedindo para que abrisse a porta para o cabeleireiro.

Deslizei as mãos por todo o vestido uma última vez. A peça deixava grande parte de minhas pernas a mostra, algo que não me incomodava, mas que com certeza incomodaria meu pai. Olhei o reflexo uma última vez e deixei o quarto, tocando o interruptor. Todas as outras portas dos outros cômodos estavam fechadas, o que mostrava que meus pais já estavam lá embaixo. O barulho também me indicava isso, afinal o tilintar de taças de champagne podia ser ouvido do andar superior.
Respirei fundo uma última vez e vesti a mesma máscara de sempre.
- Boa noite. - disse baixo por várias vezes para diversas pessoas estranhas que eu nunca mais veria. Vasculhei a sala com um olhar rápido e encontrei ao lado dos pais. Comecei a caminhar com passos curtos e rápidos até ela.
- Boa noite, Lauren. Boa noite, Addam. - cumprimentei os pais de como de costume. - Você não precisa que eu te dê boa noite. - disse indiferente, mas logo depois rindo. - Vocês se importam se eu roubá-la só um pouquinho?
Minha pergunta foi em tom de brincadeira, sabia muito bem que os pais dela não se importariam, afinal nós duas passávamos mais tempo juntas do que com nossas respectivas famílias.
- Não se preocupe, . Vamos nos juntar aos pais de Ewan. - com a mesma voz delicada de sempre a mãe de disse para mim, tocando meu antebraço e saindo logo em seguida.
- Tenho a leve impressão de que se você pedisse para me levar para uma zona de meliantes da cidade minha mãe nem se importaria. - comentou, soltando o mesmo risinho anasalado de sempre. Aproveitei que um dos vários garçons que passavam por ali estava com a bandeja cheia de taças de champagne para pegar uma taça para cada uma de nós.
- Eu já devia imaginar que era com a minha mãe que a sua estava falando ao telefone. - disse assim que paramos de andar entre os convidados. Com cuidado encostei o corpo na mesa de flores que enfeitava a sala e dei um gole pequeno na taça.
- Pelo menos nós temos uma a outra para esse momento de teatro social. - com uma piscadinha ela repetiu a ação de dar um gole no champagne e voltou a prender o olhar nas pessoas que transitavam sem parar pelo hall de casa.
Uma sensação de quem sabe o que vai acontecer se manifestou de leve deixando-me alerta, com o canto dos olhos lancei um olhar discreto para .
- Vamos, puxe um assunto, minha mãe está vindo. - disse aflita, num quase sussurro.
- Acho que não dá mais tempo. - lamentou e no mesmo momento senti uma vontade de largar os ombros e sair dali. Mais alguns segundos e eu seria exibida como um troféu novamente.
A mão fria e magra de minha mãe tocou meu ombro. Era sempre o mesmo choque. Parecia que as temperaturas corporais mostravam exatamente a diferença entre eu e ela. A maneira como sempre analisou a vida, minuciosamente, interessada nos lucros futuros, tirando vantagem de quem não poderia se defender das maneiras de estratégia dela. Tudo aquilo podia ser representado com maestria pelo gelo.
- Querida, gostaria que conhecesse a família . - ela disse completamente serena, mas precisamente coberta pela falsidade que eu estava acostumada a ver. - Como nossas famílias andam muito próximas, novos projetos, a empresa de seu pai, achei que devesse conhecê-los.
Sorri bem discretamente, o que me exigiu esforço, e estendi a mão a fim de cumprimentar o casal.
- Seu pai nos convidou para seu último concerto. - o homem alto e aparentemente jovem começou, não duvidava de que ele deveria ter a mesma idade que meu pai.
- Foi adorável. - a senhora da família acrescentou, sorri e agradeci.
- Oh, como pude deixar. - minha mãe exclamou num agudo extremamente empolgado, eu não conseguia ver o que havia de tão merecedor de empolgação por ali. - Devemos apresentar nossos filhos. , querido?
Foquei meu olhar para fora daquela conversa pela primeira vez, atrás do casal que comigo há pouco conversava estava alguém mais jovem, alguém como eu. O sobrenome não era estranho aos meus ouvidos, eu já deveria ter associado. Se a família havia começado negócios com a minha família, provavelmente pertenciam ao mesmo círculo social. Agora até o corpo - mesmo que de costas - me parecia familiar.
- Filho - o Sr. o chamou. -, cumprimente essa linda moça.
A maneira como seus olhos me analisaram causaram um certo enjoo em mim. Mantive a postura um pouco tensa, afinal meu incômodo podia ser colhido naquela atmosfera a nossa volta. Seus olhos finalmente pararam em meu rosto e me encararam, de verdade, pela primeira vez. Íris que diziam tudo que eu precisava saber. Exatamente como imaginava, talvez pudesse colocar toda aquela soberba dentro de uma garrafinha.
Engoli a grosseria que estava pronta para sair de minha garganta.

Minha mãe chegou a cutucar meu braço de leve e discretamente, mas ignorei.
- Obrigada, mas já nos conhecemos. - ignorei também a mão do garoto estendida para mim. - Se me derem licença vou encontrar uma amiga.
- . - ouvi minha mãe chamar distante, mas já estava longe para atendê-la.
A sacada vazia era o lugar certo para me refugiar de toda aquela gente.
- Sua mãe está soltando fogo pelas narinas, imagino que tenha algo a ver com isso. - escutei a voz de interferir no silêncio daquele lugar, provavelmente o único lugar vazio.
Soltei um risinho pelo nariz e apoiei os braços na pedra que esculpia aquela sacada.
- Você me deixou sozinha com ela. - disse um pouco birrenta, pareceu ter tomado uma chá de sumiço assim que os pais da família se aproximaram. - Você viu como aquele cara é prepotente? - voltei a dizer indagando e alimentando ainda mais minha curiosidade pelo orgulho excessivo daquele menino.
- , ele nem abriu a boca. - tentou disfarçar, ou justificar, ou defendê-lo, não sei.
- E precisava?
Não é da minha natureza julgar as pessoas sem nem ao menos conversar e conhecê-las de verdade. Porém, ao meu ver, ações conseguem dizer bem mais que palavras, e quando você testemunha essas certas ações que simplesmente abomina, é simples: Palavras tornam-se desnecessárias.

I'm not so naive


- Agora que todos foram embora acho que podemos conversar sobre essa noite, . - dava um dos últimos goles no achocolatado quando ouvi a voz de minha mãe adentrar a cozinha, pelo silêncio que a casa se encontrava eu poderia jurar que ela estava dormindo.
Sua postura ereta e seus braços cruzados indicavam que algum sermão estava por vir, isso era certo, e ficou mais certo ainda quando seus olhos se abaixaram e ela puxou o ar para dentro dos pulmões.
- Sobre esta noite? - indaguei fingindo não saber exatamente sobre o que ela falava, mas seria completamente vão continuar com aquilo. - O que não saiu de acordo com seus planos dessa vez? - não precisaria poupar minha acidez, sabia que minha mãe usaria deste recurso em dobro.
- Você já conhecia o filho dos ? - perguntou, colocou as mãos dentro dos bolsos do roupão e me encarou esperando uma resposta.
Tomei o último gole do achocolatado e voltei a colocar a caneca sobre um dos gabinetes da cozinha.
- Imaginei que já soubesse, costuma saber tanto sobre a vida das pessoas que se aproximam da nossa família. - respondi áspera e tentando dar um ponto final àquela conversa que mal tinha se estabelecido. - Estudamos no mesmo colégio.
- Isso significa que vocês têm um contato, vamos dizer, direto. Certo?
Rolei os olhos e observei um certo brilho esperançoso em seus olhos, algo que não me agradava.
- Mãe, por favor, me diz o que quer saber de uma vez. - pedi num tom de tédio bem mais alto que a súplica que podia se esconder naquelas palavras. - O que quer com essa conversa?
- , só gostaria de deixá-la consciente de que os são nossos amigos e parceiros, logo a maneira ríspida e sem classe com qual você trata o filho dele deve acabar nesse momento.
Uma leve náusea incomodou-me depois de ouvir aquele discurso fútil e digno dela. Quantos zeros deveriam estar envolvidos em toda aquela doçura com a família dos ?
- Eu espero que não volte a se repetir, pro seu bem e pro bem da nossa família. - disse terminando com tudo antes que eu pudesse rebater.
Típico, eu já estava acostumada a ouví-la dar a última palavra e virar as costas antes que alguém pudesse dar uma resposta, repetia aquilo sempre na esperança de manter sua palavra firme a ponto de ser obedecida. Bufei e deixei a caneca que ainda estava sobre o gabinete dentro da pia. Subi as escadas em direção ao meu quarto.

Os corredores aos poucos se enchiam de alunos desesperados por um lugar no refeitório. Eu nunca fui fã de refeitórios, além de fechados sempre me traziam a sensação de estranheza; isso porque eram muitas as pessoas em um mesmo lugar, algo como claustrofobia. O sinal havia tocado há pouco e eu finalmente poderia conversar com calma com e Lizze. Deixei a sala de Literatura e não muito longe estavam as duas, escoradas as portas dos armários. Acelerei os passinhos curtos e cheguei até elas.
- No próximo horário, depois do almoço, temos aulas juntas, certo? - Perguntei assim que recostei minhas costas na porta metálica do armário.
- Certo. É até bom por que precisamos por algumas notícias em dia, você deve um relato completo do sermão que sua mãe deve ter te dado logo depois do jantar. - A maneira falsamente gentil como Lizzie referia-se a minha mãe sempre me fazia rir.
- Se eu disser que ela achou indelicada a maneira como tratei o filho dos , vocês acreditam? - Indaguei, já desacreditada da estupidez da minha mãe, usando uma leve pitada de sarcasmo, como quase sempre.
- Indelicada? - replicou, a porta de seu armário foi batida logo em seguida.
- Você ficou sabendo, não ficou? - Me dirigi a Lizze dessa vez. - Falando nisso, achei completamente indigno da sua parte não aparecer.
- Ah, desculpe. Eu estava falando sobre isso com a agora mesmo. Meus pais discutiram mais uma vez, essa crise do casamento deles acaba me tirando do sério e eu perco o ânimo pra várias coisas. - Ela respondeu um pouco cabisbaixa. - Realmente ficou complicado eu sair de casa, ainda mais com aqueles chiliques da minha mãe.
- Tudo bem. - Apoiei.
- Mas explique, o que seria indelicado vindo de você? - Ela voltou ao mesmo tom bem humorado de antes.
- Minha mãe 'tá sempre pronta pra me criticar. Deixei bem claro que tenho meus motivos para ser rude com o . - Observava minhas sapatilhas enquanto falava, só alguns segundos de silêncio depois, o que não era comum entre nós três, percebi que algo estava errado. Infelizmente já era tarde quando percebi qual era o motivo.
- Te encontramos na sala. - sussurrou.
- Eu ficaria muito grato em saber quais são seus motivos pra me tratar tão mal, como fez no jantar. - A voz soou tranquila, entretanto escondia uma certa acidez que não passou despercebida por meus ouvidos. Soltei lentamente o ar que ainda estava preso em meus pulmões e girei, ainda mais lentamente, sobre os calcanhares. Deveria confessar, ou talvez anotar no meu patético diário, que o impacto daqueles olhos sobre alguém, de uma maneira próxima como aquela, era um pouco desconfortável. - Realmente não me lembro de ter dado motivos para ser rude comigo, Leão.
- Por que está falando bem comigo, ? - Cruzei os braços e perguntei. - Acho isso tão estranho. Nas poucas vezes em nos vimos nunca fui digna da sua, tão importante, atenção; sempre passei despercebida. - Voltei a indagar, soando de maneira petulante, devo admitir. Usar aquela entonação era somente um pretexto para me manter estável.
- Despercebida? - Me questionou firmemente. Nunca havia escutado sua voz tão próxima, e naquele tom, que dentro dos meus ouvidos parecia propositalmente envolvente. - Quem disse essa besteira? - Apertei os lábios, um contra o outro, e sorri de maneira cínica.
- Meus motivos só interessam a mim, e ser me der licença, já me atrasei bastante... - Fui interrompida enquanto tentava desviar de seu corpo que bloqueava meu caminho.
- Se você tem algo contra mim, sinto te dizer, me interessa sim, mas sei que você terá bastante tempo pra me dizer o que é. - Ele tirou do bolso interno do terno do uniforme uma espécie de envelope. - Seus pais já devem ter recebido um desses, mas decidi entregar pessoal para você. O brunch será no sábado de manhã. Sei que você irá.
Antes que eu pudesse responder ele já estava caminhando na direção oposta. Inspirei, na esperança de me sentir normal mais uma vez, mas logo tive uma irremediável vontade de socar a própria cara. O perfume dele ainda pairava como se ele estivesse ali. Abri meu armário, guardei o convite dentro da bolsa e tentei acelerar os passos para o refeitório, ainda me sobravam alguns minutos de almoço.

CAPÍTULO 3
CURIOSIDADES


Não havia prestado atenção no que minha mãe havia dito a minha porta antes que dormisse.
Demorou muito até que o sono realmente me derrubasse. Segurei aquele convite dourado entre os dedos por minutos seguidos, quase horas. Minha mãe queria minha presença, meu pai, por sua vez disse que não era tão necessário. Seria apenas uma reunião boba, onde ele e o pai de conversariam sobre os negócios enquanto outros bobos da corte se aproveitavam do vasto e requintado buffet. Por outro lado o que mais me incomodava não era a chatice daquelas pessoas, o que martelava minha cabeça era a gentileza de ao me trazer um convite em seu nome. Sua curiosidade em saber meus motivos para odiá-lo também me deixava curiosa. O relógio marcava sete da manhã e mais alguns minutos. Levantei da cama, caminhei até o banheiro e deixei meu pijama no chão. O convite dizia dez e dez da manhã. Teria tempo suficiente para me arrumar.
Cobri o corpo com um roupão e enrolei os cabelos em uma toalha. Deixaria que meu cabelo secasse, aí chamaria Joanne, ela sempre sabia o que fazer com ele. Não tinha idéia do que vestir até abrir o closet e me deparar com um Pinafore champagne, tinha os sapatos e a bolsa perfeita para aquele vestido. Ainda enrolada no roupão, desci as escadas a procura de Joanne. Ela estava na copa, próxima a mesa onde meus pais conversavam. Passei por eles tentando ignorar o olhar curioso de minha mãe.
- Jo, você poderia me ajudar com o meu cabelo daqui a pouco. - Perguntei, tentando falar baixo para que minha não escutasse. Apesar de distante, ela perceberia que eu não estava indo àquele brunch a toa. Passei pela cesta de frutas e peguei uma maçã dali.
- ... - Antes que pudesse subir as escadas ouvi a voz de minha mãe. - Bom dia para você também.
- Imaginei que não quisesse ir, filha. - Meu pai disse amistoso.
- Se soubesse que realmente iria teria chamado algum cabeleireiro pra arrumar seu cabelo. - Ela concluiu.
- Não precisa, eu decidi que iria agora quando acordei. - Disse antes de subir as escadas.
Fechei a porta e caminhei até as pequenas caixas de som onde meu iPod estava conectado. A melodia baixa de Daughters de John Mayer começou a tocar, corri até uma das gavetas escolhendo uma calcinha e um sutiã e logo depois coloquei o vestido. Os sapatos eram de uma coleção comportada de Paris Hilton, um verdadeiro milagre. Joanne bateu na minha porta mais tarde e me ajudou, escovou meus cabelos e colocou um pequeno enfeite prendendo minha franja, quase que da mesma cor do vestido. Observei meu reflexo no espelho e cheguei a conclusão de que estava pronta. Desci as escadas e entrei no carro junto aos meus pais. O hotel onde seria realizado o brunch não era longe, digamos que próximo as Casas do Parlamento.
Entrei no salão depois de meus pais. Cumprimentei algumas das pessoas que se aproximavam, meu desinteresse parecia crescer a cada saudação simples que dizia. Vasculhei todo o lugar, discretamente, com os olhos, não havia sinal de . Era estranho, eu nunca me imaginara esperando para vê-lo. Sentei em uma mesa próxima a porta que dava acesso ao saguão do hotel; meu pai já conversava com alguns conhecidos; minha mãe parecia mais uma gralha, futricando com as esposas desocupadas. Aceitei a pequena taça de espumante e voltei a observar o lugar entediada, me ocorreu de repente que poderia falar com , talvez ela soubesse de algo mais interessante para se fazer.
- Entediada? - Por um breve segundo meu cérebro deixou de prestar atenção nas palavras que enviava para . Sua voz já era, de certa maneira, irreconhecível. Seu perfume vinha logo em segundo lugar. Não sabia se realmente tinha motivos para sentir o coração acelerar daquela maneira. Virei lentamente meu pescoço, encontrando agaixado, com um dos braços sobre o encosto de minha cadeira.
- Eu diria que sim. - Respondi simples. Ele sorriu, o canto de sua boca levantou de uma maneira engraçada. Me atentei aquilo, afinal era difícil manter o foco em seus olhos por muito tempo. Graças a proximidade eu conseguia enxergar cada mudança de tom em suas íris.
- Quer sair daqui? - Ele perguntou. Eu estava bem mais acostumada com garotos que fariam aquela pergunta de uma maneira mais sugestiva, mas não; ele fez de uma maneira simples, como quem queria o mesmo, sair dali. Assenti e o vi levantar e apontar para a porta que daria acesso ao saguão. Eu não sabia bem para onde estávamos indo, mas percebi que minha dúvida seria sanada assim que o vi virar-se mais uma vez para mim.
- O que quer fazer? - mais uma vez perguntou. O clima estava agradável por ali, sem a mesma tensão do jantar em minha casa ou do encontro no dia seguinte no corredor do colégio, entretanto alguma coisa persistia em me incomodar.
- Por que me chamou até aqui, ? - Comecei sutil. - Nunca nos falamos na vida e de repente você parece estar presente em todo lugar. - Disse, e por um instante pude sentir que o meu incômodo havia ficado vísivel em minhas palavras.
- Vim aqui porque estava escrito na sua testa o quão entediada vocês estava. - Ele fez uma pausa e olhou diretamente em meus olhos. - E estou disposto a mudar a visão que tem de mim. Não sou o garoto mimado que você pensa.
- E por que quer que eu mude minha visão sobre você? - Minha voz saiu um pouco apelativa, meus pensamentos se enganiçavam. Que diabos aquele menino queria? Poderíamos muito bem continuar desconhecidos. A presença dele chegava a me incomodar, mas não por ser desagradável.
- Eu quero te conhecer, mas não posso enquanto você se mantiver tão fechada, achando que eu não valho a pena. - Ele riu. - E não me pergunte porque quero te conhecer... Apenas quero. - Engoli algumas palavras bobas que queria dizer, respirei fundo e retribuí seu olhar. - Ainda quer sair daqui?
- Pra onde vai me levar? - Seu sorriso não o entregou, mas minhas pernas por segundos recusaram-se a sustentar o peso do meu corpo.

Estávamos os dois parados em frente a uma porta comum, na verdade igual a todas as outras daquele corredor. O elevador havia nos deixado no décimo primeiro andar do hotel. Meus olhos estavam presos ao número dourado que fazia contraste com o tom escuro da madeira da porta quando a mesma foi aberta. entrou de uma vez, sem ao menos me dizer que diabos estávamos fazendo ali. Ainda segurando a porta estava um de seus amigo, ; ele vestia uma cueca e apertava os olhos como se acabasse de acordar. Não me movi, apenas fiquei encarando aquilo tudo. já dentro do quarto acenou me incentivando a entrar também; ainda relutante coloquei o primeiro pé dentro da enorme suíte. Ouvi a porta se fechar e logo depois se jogar sobre a cama onde uma garota seminua estava deitada.
- Você podia avisar que estava subindo. - Ele disse deitado, colocando os braços atrás da cabeça. - E que estava acompanhado.
Aquilo foi engraçado. Ele estava preocupado em ser avisado com antecedência sobre a minha presença, entretanto eu entrei no quarto e ele ao menos colocou a calça. Não que eu estivesse incomodada, ele realmente não era de se jogar fora.
- Desde quando eu preciso avisar que vou entrar no meu quarto? - perguntou presunçoso. - Vai ficar aqui o dia todo? - Voltou a perguntar, dando a volta no pequeno bar que a suíte possuía e tirando uma pequena garrafa de Endinger dali.
- Não. - O amigo respondeu, e tudo realmente funcionava como se eu não estivesse por ali. - Alguma coisa pra fazer hoje?
- É sábado, sempre vamos ter o que fazer. - Eu continuava se pé, completamente excluída de tudo. se aproximou e sentou em uma das cadeiras da mesa que ficava logo em frente do balcão, mais uma vez aceno para mim, indicando a mesa para que eu sentasse. Um pouco desconfortável afastei as costas da parede e me sentei na cadeira a sua frente.
- A festa do Dempsey é hoje, não? - perguntou. Algum feixe de luz iluminou sua cabeça e ele resolveu levantar e com isso vestir pelo menos uma calça. A garota que estava deitada na cama, muda como eu, a única diferença é que dormia, até o momento resolveu se mover. a encarou com um olhar que misturava humor e escárnio, algo bem difícil de se fazer. - Erm... Kim...
- Meu nome é Brittany. - Ela disse seca. Fechei os olhos e tentei segurar meu riso, mas isso não passou despercebido por . Aproveitei que estava de costas para e perguntei a :
- Esse era seu plano pra acabar com o meu tédio? - Ele pareceu pensar um pouco antes de responder.
- Infelizmente você não parece ser como as outras garotas, se fosse nós estaríamos nos agarrando no banheiro, provavelmente. - Ouvi um suspiro irônico, e sorri sem mostrar os dentes. - Hoje nós vamos a festa do Dempsey, quer ir com a gente?
- Quando você diz a gente está dizendo...
- , e , mais eu e você, claro. - A porta bateu de maneira violenta atrás de nós e presumi que fosse Britanny. Assenti ao convite de e permaneci quieta. - Passo na sua casa às nove.

QUATRO
POR ÁGUA ABAIXO


- Então quer dizer que agora você e o são amigos? - Ouvi a voz de , com um pingo de ironia, do outro lado da linha. Observei meu reflexo no espelho, estava largada sobre a cama ainda pensando em que roupa usaria em algumas horas.
- Não somos amigos, ele quer que eu mude minha opinião sobre ele e eu aceitei, só isso. - Levantei e caminhei até o grande espelho sobre a pia do banheiro, abri algumas gavetas a procura de um elástico para prender meu cabelo antes de entrar no banho. - Sem contar que festa não faz mal pra ninguém. Vou tomar meu banho, já estou atrasada, amanhã te ligo para contar como foi!
- Ligue mesmo! - Com aquilo desliguei. Deixei a roupa que usava pelo chão do banheiro, e tomei o segundo banho do dia. Meu relógio acusava oito e vinte da noite. O combinado era ele aparecer às nove, eu não costumava demorar para me arrumar, mas estava mais lenta que o normal. Com uma razão em especial: receio. Eu mal conhecia . Não costumava ser tão maleável, entretanto ele pareceu ser uma pessoa com eu. Esse talvez fosse o real problema, nem eu me conhecia; em alguns momentos era tranquila, em outros me deixava levar e fazia tudo o que tinha vontade. Diria que sou incostante. O incômodo era não me sentir mal em ficar incontrolável perto dele.
Pelo vento que de vez em quando invadia meu quarto eu pude sentir que a noite era amena, nem calor, nem frio. Íamos a uma festa e eu nem perguntara como deveria me vestir, até disse que eu poderia me vestir como no dia a dia, afinal as festas daquele colégio estavam sempre mais concentradas em álcool do que em roupas. Abri meu closet e encontrei um short jeans, eu geralmente usava esse tipo de coisa com uma meia-calça, mas resolvi mudar; na parte de blusas agarrei uma regata justa e branca, mais uma camisa xadrez; se colocasse um salto teria que trocar toda a roupa, não combinaria, acabei escolhendo uma bota de cano baixo de Marc Jacobs. Caminhei até o espelho do banheiro e escovei os cabelos para deixá-los soltos, passei um lápis delineador na parte inferior dos olhos e borrifei um pouco de Lola, mais uma vez, Marc Jacobs.
Depois de tanta indecisão meu quarto estava uma verdadeira zona, mas pelo menos eu estava pronta na hora. Ouvi batidinhas leves na porta, olhei para o relógio e vi que já eram nove e dez, presumi que já estaria lá embaixo; gritei para quem batera na porta entrar.
- Querida, um garoto está esperando você lá embaixo. - Meu pai disse encostado na porta. - É o filho dos , não é?
- Sim, papai. - Respondi, caminhei até a cama e apanhei minha bolsa, joguei meu celular ali antes de colocá-la no braço. - Não se preocupe, apenas vamos a uma festa. Só não me espere acordado. - Disse, enquanto praticamente o expulsava do meu quarto e fechava a porta.
- Não me preocupar... - Ouvi murmurar. - Você cresceu, e agora estou te perdendo para os caras que passam. - Apenas dei risada daquilo.
- Você não está me perdendo para nenhum garoto, sempre serei sua filhinha querida. - Disse antes de descer as escadas. - Agora vá aproveitar que não estarei em casa, você e a mamãe. Alguém precisa adoçar o humor dela... - Vi meu pai rir discretamente e balançar a cabeça. "Boa festa", o ouvi dizer antes de entrar em seu escritório.
Parado em minha sala, sentado com os cotovelos sobre os joelhos estava . Vestia uma camiseta branca, e sobre esta uma camisa xadrez de flanela, uma calça jeans surrada com a boca justa aos tornozelos e um Vans. Assim que me viu levantou e arrumou as mangas da camisa. Seu sorriso enviesado me atraiu de certa forma, mais do que quando ele tentou ser simpático ao me tirar do tédio mais cedo. Me aproximei e percebi que com aquele sapato ficava mais baixa que ele por alguns bons centímetros.
- Estava aqui pensando: Qual será a roupa que ela vai vestir? - Ele disse num tom irônico. - Pensei que fosse descer as escadas em um vestido de gala. - Apenas ergui uma das sobrancelhas ao ouvir aquilo. Se ele queria mudar a imagem que eu tinha dele, eu também queria mudar a minha. - Estamos quase iguais.
- Você mal me conhece, . - Disse antes de caminhar até o elevador.

O cheiro de álcool ali dentro era forte. Já estava naquela casa há alguma horas. havia sumido com , na verdade foram chamos pro Patrick, conhecido como "negociante" dentro do colégio; uma maneira mais sútil de dizer que ele fornecia coisas ílicias para os alunos. Estava esparrama em um sofá qualquer, com as pernas sobre as almofadas, de um lado estava , um dos amigos de - bem mais preocupado em praticamente engolir a garota que estava sobre seu colo. Do meu outro lado estava , com uma garrafa de cerveja como a minha nas mãos e um dos braços sobre meus ombros. Ele contava algumas histórias desconhecidas sobre pessoas "importantes" da escola.
- No fim das contas Summer só gosta de transar comigo. Eu até prefiro assim, ela faz favores pra mim e eu pra ela. - Provavelmente minha cara para aquela declaração não foi das melhores. - Você não está acostumada a ouvir isso, né? - Algumas pessoas preferiam manter a primeira imagem que tinham de mim, uma boneca de porcelana, criada em uma redoma de vidro, onde tudo o que acontece do lado de fora é impuro.
- Estou mais do que você imagina. - Respondi num tom engraçado, que o fez abrir os olhos um pouco mais.
- Falando nisso e você e o ? - Ele perguntou. Parei minha garrafa no meio do caminho entre meu colo e minha boca. Arqueei uma sobrancelha e olhei para .
- Eu entendi bem? Você relacionou sexo a mim e o ? - Indaguei tentanto ter certeza de que era aquilo mesmo. - Desculpe, não sou como essa tal Summer.
- Infelizmente. - Ele disse, talvez tentara soar como um sussurro. - De qualquer maneira, escolheu bem. - Aquilo soou como uma rotina, como se eu fosse a mais nova presa de , o que não era verdade, até onde eu sabia, é claro. - Ouvi falar que você curte umas pianelas, é verdade?
- Você quer saber se eu toco piano? - Perguntei e o vi assentir enquanto dava um longo gole em sua cerveja. - Sim, toco desde pequena.
- Meus pais assitiram você tocar na mansão dos Donovan. - Estiquei o corpo para colocar minha garrafa sobre uma pequena mesa daquela sala. - Pra mim isso é coisa de gente velha.
- Bom, isso é você quem diz. - Respondi com um pequeno sorriso. Ele fez o mesmo. Apesar de certas vezes parecer somente interessado em sexo, era legal. Voltamos a conversar sobre alguma coisa alheia quando apareceu em nossa frente.
- Eu e achamos que essa festa já deu, vamos pro lago Western...
- O lago da represa? - Perguntei na defensiva, já passava da uma da manhã, aquele lugar não parecia o mais seguro àquela hora.
- Com medo? - surgiu atrás de , apoiando o braço nos ombros do amigo. Voltei a arquear uma das sobrancelhas como havia feito antes e encarei o sorriso de como um desafio.
A represa de Western não ficava longe do centro, algo como meia hora. O que havia demais lá às duas da manhã é que eu não sabia. Como era sábado as ruas estavam relativamente movimentadas, pessoas deixavam os pubs a caminho de casa, outras imendavam algum outro destino como eu, e os amigos fazíamos no momento.
Todos os carros estavam estacionados lado a lado. O lugar estava completamente vazio. Vasculhei toda a área com os olhos e realmente não havia uma alma viva. Olhei com o canto dos olhos para e esse caminhava até uma espécie de deck sobre o enorme lago.
- É aqui que passamos o tempo quando não temos o que fazer. - Disse.
- Desfrutando da mercadoria de Patrick, aposto. - Respondi e vi seu sorriso.
- Às vezes.
e estavam sentados, enquanto Tom ainda se atracava com a mesma garota da festa. Sentei na beira do deck e tirei o par de botas. A pequena construção de madeira que passava sobre o lago era baixa, meus pés podiam tocar a água, o que me levou a conclusão de que o lago não era fundo. A água estava agradável, pelo menos. Olhei para trás e vi tirar a camisa e a calça que usava, continuei olhando, curiosa para saber o que iria fazer e também admirando sua forma física. O garoto tomou um pouco de distância e saiu correndo em minha direção; virei o rosto e fechei os olhos. Apenas ouvi o barulho do ímpacto contra a água e senti alguns pingos de água me atingirem. Ele voltou a superfície e sacudiu a cabeça deixando os cabelos desarrumados.
Ouvi e darem risada da minha expressão paralisada. Parte de meu corpo estava totalmente molhada graças ao calor desnecessário de . Estava prestes a levantar, colocar minhas botas e ficar longe daquela água quando ouvi falar comigo.
- Tem coragem? - Já de pé, virei meu rosto para ele e perguntei:
- O que? Entrar nessa água? - Dei uma risada irônica e curta. - Nem pensar.
Nadando, ele se aproximou do deck e apoiou os braços ali.
- disse que você parecia corajosa. - Estranhei aquilo e olhei para , ele apenas levantou os ombros como se não soubesse de nada. Curvei meu corpo e chamei .
- Ele disse isso? - Perguntei. - Pena que ele mal me conhece para saber. - O sorriso de foi realmente maldoso, antes que pudesse voltar a minha posição e calçar minhas botas, suas mãos molhadas agarraram meus braços e me puxaram para dentro da água. Mal tive tempo de impedir.
As risadas de e mais uma vez chegaram aos meus ouvidos. Voltei a superfície e cuspi um pouco da água que quase havia engolido. Apertei os olhos e minha visão voltou ao normal. também ria e como estava mais próximo foi o primeiro que acertei com um tapa nas costas.
Bufei e apoiei os braços sobre o pequeno deck para sair dali.
- Não teve graça, . - Disse ríspida enquanto tirava a camisa e tentava torcê-la.
- Ah, teve sim! - apenas mantinha o sorriso no rosto, entretanto seus olhos pareciam mais interessados na transparência de minha blusa. Ignorei aquilo com um sorriso cheio de escárnio. - Quer ir embora? - Ele perguntou e eu apenas assenti em silêncio. Como eu voltaria para casa daquela maneira... Eu não sabia.




CONTINUA


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