Eros & psiché
Autora: Ree S.
Status: Em Andamento
Revisada por: Hata
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: LongFic - Comédia Romântica
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A priori
Mesmo com a preocupação de talvez não entregar um relatório no prazo me cegando de qualquer pequeno detalhe, não pude deixar de observar as pessoas passando pela rua, os casais abraçados compartilhando todo o amor um pelo outro sem se importar se pareceriam ridículos ou inapropriados. Porque era exatamente assim que eu pensava quanto a relacionamentos: são todos ridículos e inapropriados.
Não exatamente todos, pois acredito que existe, sim, amor. Dividido em Ágape, Storge, Philia e Eros – amor religioso, amor à família, amor aos amigos e amor entre duas pessoas (sendo pragmático ou não), respectivamente. Porém, depois de duas experiências intensas e fracassadas que tomaram anos da minha vida, passei a me questionar mais sobre esse Eros, e a conclusão foi de que não nasci para isso. Definitivamente, não. Não só por não alcançar o conhecido e desejado “final feliz”, mas por não conseguir compreender mais o sentido de namorar. Eu somente me lembrava das dores de cabeça, das brigas, das limitações que o envolvimento trazia. Lembrava também dos momentos felizes e todos os sentimentos bons que vinham agregados, contudo, agora, observando de longe, parecia uma parcela tão pequena que não sabia bem se valiam à pena. Apaixonar-se custa paciência e empenho, e eu não tinha mais isso. Eu não queria mais isso. Queria uma vida tranquila, um emprego legal e meus amigos e familiares ao redor, o que já me trazia dois tipos de amor. Metade é melhor que nada.
Para isso, eu me empenhava em não me distrair com as pessoas que passavam em frente à janela do escritório, logo ao lado da minha mesa. Meu chefe ficaria louco de raiva, se eu não entregasse as folhas de pagamento até o fim do expediente. Eu não era do tipo azarado nem atrapalhado, estava em tempo de encaminhar aos meus superiores, mas ainda assim fazia em mim mesma um pouco de pressão para que não diminuísse o ritmo e acabasse atrasada. Eu odiava atrasos, principalmente os meus – e aposto que Carl, meu chefe, também não gostava deles, embora fossem raros. Talvez eu até ganhasse uma bonificação no fim do ano por isso e pelo ótimo desempenho que estava obtendo.
Perto das seis, terminei, salvei e entreguei todas as folhas de pagamento. Como de costume no escritório, os dez últimos minutos eram liberados para os empregados se prepararem para voltar para casa, tomarem café, etc., exceto na sexta. Existia a tradição da sexta-feira livre, e sem a obrigação do terno/taieur, todos (sem exceções) usavam aqueles minutos para retocarem a maquiagem, fazer ligações e chamar de última hora alguns colegas para uma Happy Hour no bar da rua de baixo. Sempre as mesmas pessoas. Sempre o mesmo bar. Logicamente, sempre as mesmas histórias. Eu não reclamava, no entanto. Achava particularmente divertido ver Kyle Cox – chefe do departamento – lutando contra a solteirice na meia-idade ao tentar levar as novas estagiárias que se arriscavam a ir conosco para cama. Era quase uma iniciação: para permanecer no escritório por mais de três semanas e não sujar a carteira de trabalho, ou se transa com ele, ou se é mais esperta e consegue um jeito de enganá-lo a ponto de o próprio Kyle admitir a derrota. Para a minha sorte (ou nem tanta, porque, na verdade, eu estava gorda), a mentira de que eu estava grávida de três meses colou, e seis meses depois eu já estava efetivada. Sem filho, claro.
Seria a primeira Happy Hour depois das minhas férias e licença por motivos de saúde. Eu havia tido um colapso nervoso assim que voltei de Chipre, com meu até então noivo, Kenny – Kenneth Campbell –, pois descobri graças a um estranho gosto por arrumar malas que ele tinha uma amante. E que, pasmem, ela lhe dava cuecas novas. Uma atitude tão íntima quanto aquela não poderia vir da mãe dele, uma vez que ela havia falecido um ano antes, fazendo nosso casamento ser adiado. A relação tinha esfriado tanto por culpa da sua reclusão que eu não soube o que fazer, se não suportar quieta. Mas chegamos ao patamar da falta de tesão, então tentamos nos agarrar ao resto de sentimento que tínhamos pelo outro e arquitetamos a viagem, que tinha de tudo para reacender nossa vida sexual tão parada quanto o rosto da Donatella Versace. Os dez dias na ilha onde Afrodite vivera tiveram resultados extraordinários, até o fatídico dia em que achei a bendita samba-canção marrom – além de abusada, a vagabunda era brega; marrom não combinava nem um pouco com Kenny. Além de um dia inteiro de brigas e um vôo enjoativo de horas até Londres, tive de encarar o fim de um noivado que já durava dois anos e meio. Trinta meses perdidos e sem recuperação. Nem mesmo os presentes de noivado eu pude guardar, já que não casaria mais.
Estava morando sozinha desde então. Um apartamento espaçoso no subúrbio, longe o bastante dos meus pais para que eu não fosse perturbada o tempo todo sobre meu peso e meus problemas e perto o suficiente para que eles não sentissem tanto a minha falta e quisessem passar alguns dias me fazendo companhia. Também não gastava muito com passagens, o que poupava o meu Öyster, fora as lojas de conveniência, fast-foods e mercados ao redor. Recebia visitas ocasionalmente, quando se tratava dos meus amigos, e regularmente, quando era sobre Terence, Paget, Louise e Ramona – melhores amigos, irmã e sobrinha –, mais precisamente às terças, quintas e sábados. Abria exceção nas sextas somente em casos de emergência, como encontros duplos, fuga de pessoas indesejadas ou festinhas de pijama para Ramona. Como eu não havia sido avisada de nada do tipo, não ficaria em casa esperando por ninguém.
Enquanto se passavam os dez minutos, ao contrário das outras mulheres do escritório, que estavam enfurnadas no banheiro, eu comia uma barra pequena de chocolate. Desde minha crise de depressão, vinha me dando ao luxo de comer doces escondida, e obviamente vinha também ganhando peso com isso. Não que eu fosse neurótica por beleza e boa forma – sou péssima com dietas e exercícios, a propósito –, mas um pouco de vaidade nunca matou ninguém. A minha era que estava meio morta, ou só desaparecida. Além dos quilos extras, acho também que meu gosto para maquiagem havia adormecido; usava somente o essencial para não parecer uma ameixa seca. Kyle até tinha notado e desistido definitivamente de mim. Amém.
Sentada em um banquinho na pequena varanda da copa, lugar onde, normalmente, os fumantes ficam, eu comia e observava a pressa com que um ou dois colegas arrumavam seus pertences. Alguns ligavam para casa, outros conversavam, mas todos estavam apressados, decerto. E dentre todos os rostos que eu já conhecia até se não visse, existiam três novos. Uma menina – não “menina”, é só modo de ilustrar – ruiva, o rosto cheio de sardas e enormes olhos castanhos; falava pouco, assentia a praticamente tudo que lhe dissessem. Outra que parecia também ser nova, porém se vestia e falava com mais virilidade que metade do escritório, em contra-partida ao corpinho magrelo e rosto que aparentava vulnerabilidade. Por fim, um garoto que, fosse eu mais nova, ficaria com fogo só de olhar para ele. Seu rosto ainda era de moleque (devia ter no máximo uns vinte), mas se portava como um cavalheiro. Com toda certeza, ele também era o motivo das minhas colegas ainda estarem no banheiro. Carne fresca sempre é bem recebida com milhares de elogios às escondidas.
Dadas 6h, como se tivessem tacado água no formigueiro, uma enxurrada de pessoas começou a jornada em direção à saída, já que era necessária uma fila para esperar um dos três elevadores do edifício para descer e mais alguns metros para chegar ao bar, no meu caso e de mais alguns. Eu me sentia um pouco sociofóbica depois do meu retorno, na segunda-feira, pois nenhuma boa alma quis realmente conversar, causando em mim a reação de me retrair. Na verdade, eu nem mesmo sabia por que ia. Talvez esperança de que alguém puxasse assunto comigo e me fizesse esquecer metade dos problemas que passei, quiçá voltar ao mesmo ritmo de antes com todos. O que era certeza, mesmo, era de que eu havia tirado meus restinhos de motivação para ir, mas estava desistindo a cada minuto porque estava com medo. Poderia ser só paranóia minha, contudo, eu sentia que não estava ainda tão preparada assim para me envolver emocionalmente com pessoas novas ou até mesmo conhecidas, mas pouco. De forma alguma.
Ainda assim, eu estava ali, cercada por Kyle, Alexis, Betsy, Ceasar e duas das novas contratadas. Ainda que eu estivesse receosa, ansiosa e com uma enorme vontade de comer qualquer coisa que me aparecesse, não desviei do caminho ao atravessar a rua. Não fiquei como uma coruja, apenas olhando os outros conversando, por menos que eu falasse. Mesmo que minha vida estivesse estagnada no “inferno”, eu precisava ter força de vontade para seguir. Paget me disse isso, e ficaria orgulhosa de mim, se me visse.
Descobri que uma delas, a ruiva, era Lygia, e a outra, Nancy. Eram amigas de infância, moraram anos na mesma rua, tiveram as mesmas escolas, amigos e, agora, empregos. A única coisa diferente, além do sobrenome, era a idade, já que Lygia era dois anos mais velha. Descobri também, mas não através de conversas, e sim pela troca de olhares, que Alexis e Ceasar não eram mais somente colegas de trabalho. Eu conhecia aquele tipo de olhar furtivo e os segredinhos por trás das palavras para despistar os outros. Havia feito isso três anos antes, quando comecei a sair com Kenneth, e há um ano e meio, quando resolvemos nos casar. Com a exceção de que eu e ele não tivemos que esconder por muito tempo por culpa de uma política de empresa nunca cumprida; relacionamentos entre empregados não eram permitidos (a menos que você fosse chefe de departamento e um completo escroto).
Assim que chegamos ao restaurante – um lugar até agradável, que misturava várias culinárias e ornamentações sem ficar chamativo –, um dos garçons, que já conhecia o rosto de todo mundo, levou-nos até a mesa onde costumávamos nos sentar. Éramos os primeiros, então já pediríamos para não esperar tanto. Menos de dois minutos, a mesa já fervia com as conversas paralelas. Eu apenas olhava e assentia.
– Tina disse que o problema do marido dela era pedra nos rins – disse Betsy para Ceasar. – Uma delas tinha o tamanho de um caroço de feijão, você acredita?
– Nossa! – Alexis se meteu no assunto. – Ele operou?
– E vocês moram juntas? – Kyle, cheio de más intenções, perguntou a Lygia e Nancy.
– Há quatro anos e meio – respondeu Nancy, parecendo já entender aonde ele queria chegar. Parecendo não gostar nem um pouco, também. – Por quê?
– Não, por nada – disse Kyle, com um sorriso de falsa simpatia e verdadeira taradice. Nojento. – Só acho interessante amigas de tanto tempo compartilhando a vida inteira com a outra.
– Geralmente é isso que se faz em casamentos também, não é? – Lygia observou, sorrindo também. No entanto, seu sorriso era irônico. – Esse negócio de compartilhar a vida e tal.
– Eu acho que é, sim. – Nancy meneou a cabeça.
– Concordo – disse Kyle, sem perceber até onde elas queriam chegar. – Mas é importante ter amigos assim também, principalmente para as mulheres.
– Tenho sorte de ter alguém assim, então – Lygia afirmou. – Principalmente pelo fato de essa pessoa ser minha amiga E minha esposa.
Em alto e bom som, todos na mesa ouviram e pararam para esperar a reação de Kyle. Instantaneamente vermelho e sem graça, ele ficou quieto por uns instantes. Lygia e Nancy deram as mãos e as puseram sobre a mesa, mostrando o par de alianças douradas. Alexis e Ceasar trocaram olhares cúmplices e de admiração pelas novas colegas, e imagino que os dois pensavam sobre um dia fazer o mesmo. Betsy e eu apenas olhávamos ao redor; ela tentando entender todo o excesso de informações, eu as processando.
– Infelizmente teremos que tomar alguma providência quanto a isso... – ele começou, tentando se manter sério enquanto seu rosto continuava em tom de escarlate. Eu queria muito rir daquilo. – Não é permitido o envolvimento de funcionários--
– Dentro da empresa. – Nancy o interrompeu. – Sim, eu sei. Li o contrato antes de assinar e estou ciente de tudo isso.
– Além do mais – Eu finalmente tomei coragem para falar mais quem “sim”, “não” ou “é mesmo” –, por que iriam tomar uma providência, partindo do princípio de que o próprio chefe de departamento se envolve com as empregadas?
– Não sei do que você está falando, .
– Eu sei – Betsy, que havia se situado finalmente, disse. – E garanto que muitas outras ex-estagiárias também.
– Mas a gente pode esquecer isso, se você esquecer a união das meninas – Sugeri por fim, sendo apoiada pela parte feminina (e Ceasar).
Kyle passou de pena a ódio de mim em dois segundos. O que muito me agradou, já que eu não queria ser motivo de pena, muito menos que ele gostasse de mim. No momento em que ele iria soltar mais uma evasiva, outro grupo de pessoas do escritório chegou. Foram se espalhando, sentando e expandindo os assuntos do caminho até ali para a mesa. Sharon, única pessoa que tinha chegado mais perto de manter contato comigo por toda a semana, sentou ao meu lado, cheia de sorrisos. O motivo era claro. E tinha olhos , cerca de 1,80m...
– Ele está solteiro. – Foi a primeira coisa que ouvi. – O nome dele é , tem vinte e dois anos e é com-ple-ta-men-te solteiro!
– Investe, então – falei sem muito entusiasmo, dando de ombros. – Você também está solteira.
– Será que eu devo? – Ela parou para pensar, falando mais para si que para mim.
– O que custa? Só lembre depois de me contar como foi.
Agradecendo o meu incentivo com um sorriso, ela assentiu. Sharon não era feia, muito menos o tipo de beleza estonteante de fazer um cara cair de quatro. Estava mais para a bonitinha simpática que agrada qualquer cara. Seria fácil para ela conseguir alguma coisa com o tal . Os dois tinham a mesma faixa de idade, com certeza teriam gostos parecidos e várias pequenas coisas em comum. Eu a invejava por ter dez anos a menos que eu e toda a vida pela frente, porém, ao invés de lhe desejar o mal, ajudava-a em algumas escolhas, quando que era procurada. Como agora há pouco.
Depois de alguns drinks e a certeza de que Kyle não me encheria mais o saco pelo resto da vida, fui embora. Alexis e Ceasar saíram poucos minutos antes, cada um com uma desculpa. Aposto que ririam de todos, achando que ninguém havia descoberto sobre eles. Sharon tomou coragem – duas doses com azeitona, conhecidas como Martini – e foi até assim que eu disse que iria embora. Senti-me feliz por ela. De certa forma, via-a como eu mais nova – motivo pelo qual tinha tanto afeto por ela, mesmo que nos restringíssemos a conversar no trabalho –, e era bom me ver feliz. Ou ver a minha projeção de felicidade nos outros, quem sabe...
Tough
Louise e Ramona me esperavam no pé da escada de casa, sentadas. Minha irmã tinha parecia sem paciência, e minha sobrinha, triste. Ao me verem, apenas Louise esboçou alguma expressão, tornando-se aliviada enquanto caminhava até mim. Pagando ao motorista, mal tive tempo para me virar antes de ouvir “Tome conta dela por hoje, ela precisa de você”. Até mesmo parecia que eu era o pai ausente da vida da filha de doze anos, e apesar de eu não estar exatamente com ânimo para bancar a conselheira – isso era o que significava “ela precisa de você” –, concordei.
Enquanto Louise dava as costas, olhei para Ramona. Seu rosto inchado e vermelho, assim como seus olhos, denunciava o choro, coisa que vinha acontecendo constantemente, pelo mesmo denominador em comum com o meu: homens – no caso dela, garotos. Compreendendo seu olhar pedinte, ofereci a mão a ela, que a segurou e se levantou para entrarmos. Em um silêncio cúmplice, ela ligou a TV e eu mexi no termostato, pois a temperatura do lado de fora era 7°C. Retirando o casaco e jogando-o junto da minha bolsa no sofá menor, sentei ao seu lado e fiquei a examinando por alguns segundos, até que se acalmasse e se sentisse melhor para falar sem voltar a soluçar.
– O que minha mãe te disse? – perguntou, sem desviar os olhos da TV.
– Que você ia ficar aqui hoje.
Com um som de compreensão, Ramona voltou a se calar. Abaixou os olhos e encarou as mãos, ainda cobertas pelas luvas. Se ela soubesse a sorte que tem por ainda ter doze, e não trinta e dois. Se soubesse como seria mil vezes mais fácil encarar um fiasco amoroso com essa idade, e não com a minha. Se eu ainda tivesse doze anos...
– Você estava chorando, não estava? – voltei a despertar sua atenção, vendo-a assentir. – O que houve?
– É complicado... – disse ela, enfim despindo as roupas de frio.
– Descomplique – retorqui de imediato. – É alguma coisa a ver com Louise?
– Também. – Ramona suspirou. – Mas é bem mais a ver comigo.
– Vai falando... – peguei suas roupas e atirei sobre as minhas, no outro sofá.
– Lembra aquele garoto que te disse? Joshua? – Assenti a sua pergunta. Vinha ouvindo sobre esse garoto há dois meses, como não lembraria? – Nós saímos umas vezes, uns dias atrás, e de repente ele sumiu. No início eu juro que não liguei muito, até fiquei quieta pra não incomodar ninguém, mas machuca ver que eu tô sozinha sem saber o que eu fiz de errado.
– Se você não sabe, é porque não fez – comedi. – Nem tudo que acontece de ruim é exatamente culpa nossa.
– Mas dessa vez eu sei que a culpa foi minha – ela insistiu, a voz fina como um miado. – Ele não teria sumido do nada se eu tivesse feito tudo certo.
Não teria? Por algumas semanas me perguntei o mesmo sobre Kenneth, porém, a resposta era sempre tão vaga quanto a pergunta era incisiva. Ele não teria me deixado? Ele não teria arrumado outra? Ele não teria me enganado sem razão aparente? E de tudo que havia acontecido, o quanto eu sabia? O que acontecia que eu nem mesmo imaginava? Depois do término, e somente depois de muito refletir, percebi que, na verdade, eu não conhecia nada, não sabia de nada. Não havia meios de eu saber absolutamente tudo, muito menos sobre uma pessoa. Só queria ter descoberto de maneira mais simples.
Talvez até nem quisesse saber, para me poupar da frustração e da humilhação que viria a seguir. Quiçá fingir não saber, por mais que isso fosse me torturar aos poucos até que eu tivesse uma última reação, que me levaria a todo o mesmo estresse. Eu adiaria a dor e me sentiria melhor durante um tempo. No fim, a única alternativa realmente aceitável era a de não saber. O que os olhos não veem, o coração não sente; não saber de nada é melhor que tudo.
– Já ouviu falar que existe mais coisas entre o céu e a terra que não sabemos? – perguntei, rodeando um pouco. – Uma delas é o que se passa na cabeça de cada um. Não se pode saber o tempo todo o que todo mundo pensa. E também não se pode sacrificar a si mesmo porque você não consegue decifrar a mente dos outros. Da mesma forma que pensamos independentemente das pessoas ao redor, elas também fazem isso. E se ninguém te obriga a contar tudo que se passa, por que você deveria fazer isso, Mon?
– Onde você quer chegar?
– Aqui – apontei para seu coração – e aqui – apontei para sua cabeça. – Se ele te deixou, foi porque achou que se sentiria melhor e te faria melhor assim; ele provavelmente percebeu que algo não se encaixava na cabeça dele, antes mesmo de você se dar conta de que vocês acabariam mal com isso. Foi um infeliz acaso, eu sei, mas o que você poderia fazer? Forçar uma pessoa a ficar é o mesmo que pedi-la para fugir. Se isso acontecesse, seria a pior coisa que você faria com ele e contigo.
Ramona, interessada e intrigada com o que eu dizia, abriu seus enormes olhos cor de ocre como os de Louise.
– Há também o detalhe de que vocês dois são mais novos. E mesmo que sua mentalidade esteja à frente das outras meninas (aliás, na sua idade eu ainda brincava de boneca), você é totalmente inexperiente. Nem mesmo eu, que já tive uma lista considerável de caras com quem saí, sei lidar bem com términos. Esse não é o ponto forte da nossa família.
– Até hoje minha mãe não gosta de falar sobre ela e meu pai... – comentou Ramona.
– E nem vale esquentar a cabeça com isso – adverti. – Do jeito que ela é, só vai querer conversar daqui a vinte anos. Ou mais.
Concordando com um riso fraco, minha sobrinha, mais tranquila e tão pensativa quanto antes, se esticou pelo sofá e pôs as pernas sobre a mesa de centro. Eu decerto não tinha acabado com todas as suas perguntas e preocupações, mas havia aliviado grande parte. Ramona nunca precisou muito de conselhos, na verdade, somente de um norte para refazer suas ideias. Geralmente eu que a fazia achar esse norte, por mais que minha própria vida andasse meio sem rumo. Em alguns casos eu até descobria mais sobre mim que achava que sabia.
O que não havia acontecido neste, uma vez que eu já havia descoberto, aprendido e aplicado.
– Então, Mon, o que a gente vai fazer? – tornei a puxar assunto, levantando-me e a encarando.
– Hoje é sexta, sexta é dia de comida tailandesa – disse ela, com um sorriso largo.
– Você não é Sheldon Cooper, não começa com essa de “dia de x coisa” – repreendi, fingindo mau humor. – Além do mais, já passa das dez e o restaurante deve estar fechando.
– O que tem pra comer?
– Comida congelada – respondi por instinto. Sempre sobrava metade de um Gouda, vidros de ketchup e mostarda e qualquer tipo de comida pré-cozida no congelador, no fim do mês. Terence e Paget que costumavam abastecer minha geladeira com fast-foods e refrigerante regularmente.
– Tipo...?
– Não sei, torta de frango, acho. – Dei de ombros. Ramona reagiu com contrariedade, mas no fim aceitou a opção.
– Vou baixar algum filme, enquanto isso.
Concordei, vendo-a se levantar e ir até o meu quarto. Sua pequena e magrela silhueta não negava que ela era filha de Louise. Na aparência, as duas eram idênticas, ao contrário da personalidade, cuja influência até hoje é um mistério. Talvez para a sorte de Lou, nada em Ramona lembrava o pai, que as deixou no primeiro mês de vida de Mon. A razão de sua partida não era nem um pouco secreta: Dave, um aspirante a ator, era genioso, vaidoso e cafajeste demais. Ele e Louise até haviam tentado manter uma relação saudável, e conseguiram durante cinco meses – tempo máximo que ela pôde esconder a gravidez, antes de a barriga ficar notavelmente grande, mesmo debaixo de roupas largas. Contudo, por ainda terem vinte e poucos anos, as carreiras ainda estarem no começo e a pressão ao redor deles, a cada mês que se seguia seus laços se desfaziam. Pior que perder o noivo de uma vez, como eu, seria vê-lo te deixando aos poucos, como ela. Eu entendia perfeitamente sua mágoa. Sua vontade de esconder de Ramona o pai relapso que Dave sempre fora antes de se mudar para Los Angeles para tentar a vida. E acatava seu pedido para não dizer uma palavra sobre o acontecido.
Por essa razão, toda vez que mãe e filha discutiam, uma tocava a ferida aberta e a outra a punha para fora – no caso, para minha casa.
– , você é dois anos mais nova, não é? – ouvi Ramona gritar.
– Aham – respondi alto, indo até o outro cômodo após pôr a torta para assar.
– Escolhe um dos sete pecados – ela continuou o questionário.
– Não sei... Luxúria? – era o único que eu me lembrava.
– Racional ou passional?
– Por que isso? – indaguei da porta, fazendo-a olhar para trás em reflexo.
– É um quiz, responde – ordenou Ramona.
– Passional. – olhei por cima do seu ombro, tentando descobrir sobre o que ela respondia e por que com os meus dados. – Sobre o que é isso?
– Espera, já vem o resultado... – Novamente entretida com o tal quiz, ela mal me olhou. – Da mitologia grega, você é... Eros & Psiché! “Eros (o cupido, filho de Afrodite) e Psiché (jovem de tamanha beleza que despertou a inveja da Deusa do Amor) viveram um amor intenso, até que ela o traiu por querer saber como realmente era seu amado. Para recuperá-lo, Psiché teve de passar por três desafios propostos por Afrodite, mas no fim a jovem mortal superou-os. Eros e Psiché voltaram a viver juntos e tiveram uma filha, Prazer.”
– Três perguntas chegaram a isso? – perguntei, cética. Nem mesmo sabia sobre essa história, achava que Eros era só o tipo de amor e Psiché era aquele conceito da Psicologia sobre a mente.
– Três mais sete – disse Ramona, em tom de riso. – Fiquei em dúvida nas últimas.
– Ah, sua engraçadinha! – estrilei. – Por que não fez de você mesma?
– Eu fiz – respondeu ela. – Sou a lenda de Ícaro, aquele que o pai criou asas pra fugir de Creta, mas o idiota voou muito perto do Sol e se espatifou.
– Pelo menos o meu final é feliz – constatei, levando-a a concordar. – E qual filme vamos ver?
– Que tal Cabaret? – Concordei com a cabeça. – Aqui no quarto, por favor. Sua cama é mais confortável. Aliás, vou dormir contigo hoje, ok?
– Definitivamente, preciso arrumar um namorado – comentei, olhando-a com os olhos semi-cerrados. – Dividir a cama com uma pentelha metida a adulta cansa.
– Pensamento positivo, vai que você encontra seu Eros?
– Do jeito que esse “Eros” parece gostar de mim, é mais fácil eu encontrar uma Psiché.
– Não tenho nada contra! – Ramona ergueu as mãos, ausentando-se de qualquer culpa.
– Eu só tenho uma coisa contra: mulheres não têm pênis. Pênis de verdade; pau, benga, caralho, sabe? – expliquei, gesticulando exageradamente. – Porque é disso que eu gosto.
– ! – Ramona me censurou, envergonhada. Não que não conversássemos sobre sexo, só o fazíamos de forma mais civilizada e educativa, e menos chula também. – Falar assim chega a ser abusivo!
– Quando se é mais novo ainda há grande distinção do que é abusivo ou não; o nome disso é pudor. Depois dos vinte, isso é exclusividade dos religiosos.
– Vou lembrar disso daqui a uns anos – disse Ramona, entre risos.
– Lembre e dê meus créditos – alertei. – Não quero meus poucos pensamentos inteligentes soltos por aí sem nenhum reconhecimento.
– Sem problemas – concordou ela, rindo novamente.
Disguised
As semanas se estenderam e minha relação com meus colegas de trabalho já havia passado do estágio de estranheza a normalidade – vários “Bom dia” e conversas de corredor durante o dia. Tinha conseguido até contar a Alexis e Ceasar que já sabia sobre os dois, o que rendeu mais confissões: ela estava grávida, e assim que ele conseguisse um novo emprego, pediria as contas para fugir de qualquer problema. Tinha também conversado mais com Lygia e Nancy, que tentavam uma adoção e eram criaturas adoráveis. Kyle não me olhava e só passava tarefas quase impossíveis em prazos inacreditavelmente curtos, sinal óbvio de seu sentimento bem alimentado de ódio por mim. (Eu nem mesmo me mostrava incomodada, na verdade. Ocupava minha cabeça e meu tempo.) Já Sharon e ... Eu não sabia, na verdade, porém, desconfiava que os dois continuassem saindo pelo jeito que andavam cheios de sorrisos – ele mais discreto, ela nem um pouco. Mal nos falávamos, pois Sharon ia embora correndo, sem nem se despedir.
No escritório eles já não eram mais novidade. Mal se comentava, aliás, a menos que fosse direcionado à inveja que sentiam de Sharon, uma das empregadas mais jovens e que teve a sorte de fisgar o novo contratado. Comum e previsível.
Durante o almoço, passava as duas horas com Alexis e Ceasar. Ao invés do mesmo restaurante, preferíamos andar um pouco mais para ter mais privacidade para conversarmos sobre o que quiséssemos – caso contrário, a cada mesa haveria um rosto conhecido. Nunca tinha notado como era agradável a presença deles antes do convite de Lexus, apelido que ela insistia que eu chamasse. Até mesmo marcamos de sair no fim de semana, com meus amigos e uns amigos deles, tamanha compatibilidade. Em partes, estava mais animada para trabalhar por causa dos intervalos. Parecia até que eu havia voltado ao colegial, de certa forma, contando os minutos para escapar do trabalho duro.
A diferença era que eu podia beber ao meio-dia, coisa que não faria nem louca, se tivesse quinze anos. Uma das regalias que a idade trás. Não que eu fosse a favor do avanço dela, já que a lei da Gravidade vinha junto e era cruel, mas o que eu poderia fazer contra?
(Aliás, um brinde à cosmética, grande aliada da mulher moderna nessa árdua batalha!)
Em homenagem à minha independência e experiência de vida (sinônimos de contas para pagar e velhice), tomava uma taça de Chardonnay enquanto esperava meu pedido chegar, fazendo inveja em Alexis. Ela e Ceasar foram forçados pelas circunstâncias a escolherem entre chá gelado e suco, uma vez que álcool é terminantemente proibido em razão do bebê e refrigerante só aumenta ainda mais os gases das grávidas, que já não são poucos. Logicamente, os dois não iriam querer arruinar a noite com – serei educada – flatulências.
Estávamos sentados na última mesa, encostados à parede, eu de frente para a entrada. Vez ou outra desviava o olhar para fora, quando percebia outras pessoas entrando, para aproveitar a deixa e destilar o veneno sobre elas – uma arte que domino bem, a propósito. E em uma dessas, não pude deixar de comentar:
– O novo casal vinte descobriu nosso esconderijo.
– Quem? – Alexis olhou na mesma direção que eu, curiosa e com uma pitada de preocupação.
Vi de soslaio Ceasar soltando sua mão, também se virando para ver Sharon e ainda na recepção.
– Querem que eu os chame? – perguntei por educação. Achava essa a melhor saída, uma vez que não tinha como ignorá-los ou apenas cumprimentar à distância sem que causássemos má impressão e desconforto.
– Não sei bem... – disse Ceasar, pedindo ajuda a Alexis para decidir.
– Se ninguém os chamar, vai ser bastante indelicado, afinal de contas, a gente passa o dia inteiro no mesmo lugar – argumentei. – Um pouco de educação nunca matou ninguém, não é?
– Tem razão – Alexis me apoiou, dirigindo-se a Ceasar. – Peça ao garçom para chamar os dois, por favor.
Com o pé atrás, ele atendeu ao pedido da namorada. Sorrindo mais que aquela garota da Disney que Ramona adora, Demi alguma coisa, Sharon chegou até nós com atado à sua mão. Poderia até dizer que em vez de caminhar, ela bancou a gazela e veio quicando. Era do seu feitio.
– Não acredito que era aqui que vocês se escondiam! – disse com animação, sentando-se.
– Faz uns dias, já – observei, sorrindo por simpatia. – Se você não me esnobasse, saberia.
– Tenho andado um pouco ocupada. – Lancei um olhar sacana para , ironizando o que tinha ouvido. – Com o trabalho, juro.
– Então nos conte o porquê – Ceasar instigou, com o mesmo ar de deboche que eu.
– Ordens superiores – respondeu ela. – Do chefe da empresa. Lygia, Nancy e precisam apresentar um projeto de melhorias até o final do mês, e eu serei a supervisora. Se o projeto for aprovado pela banca dos associados, eles serão efetivados, e eu, promovida.
Inconscientemente, senti inveja. A carreira de uma recém-formada deslanchava com mais facilidade que a minha, sendo que eu estava no meio há anos. E mesmo que soubesse que levaria tempo até me aparecer uma oportunidade como aquela pelo tempo que passei afastada e pelo próprio Kyle, não consegui controlar. Eu queria um motivo de alegria, ver todas as pessoas ao meu redor obtendo sucesso despertava esse sentimento sem que eu pensasse, entrando em conflito com o entusiasmo pelo primeiro avanço de Sharon. Como na física, uma força anulou a outra e acabei me tornando indiferente. Por sorte, não estava sozinha e outras pessoas também estavam interessadas no assunto.
– E o que vocês fizeram até agora? – perguntou Alexis.
– Estamos tentando fortalecer mais a equipe – explicou , já sentado. – Uma espécie de tutoria por parte dos empregados mais experientes durante o período de estágio dos mais novos, com reuniões regulares para controle do andamento. Isso em todas as áreas.
– Mas isso não pode correr pelo escritório – alertou Sharon rapidamente. – Como o projeto ainda não foi finalizado e apresentado, não podemos deixar outras pessoas saberem e influenciarem. Vocês são os primeiros.
– Me sinto honrada por isso – comentei sem emoção, logo levando à boca a taça. Estava explicado o motivo para eu não saber de nada por parte de Lygia e Nancy. Confiáveis elas eram, pelo menos.
– E vocês dois, hein? – ouvi Alexis dizer, voltando a tomar minha atenção. Fazia tanto tempo que não conversava decentemente com Sharon que tinha de ouvi-la contar suas novidades por alto. Quanto retrocesso.
– A gente tem se conhecido melhor – respondeu Sharon, contendo o sorriso.
– Também é melhor esperar para dizer mais – encerrou o assunto, sem parecer envergonhado, intimidado ou nervoso.
– Depois te conto – Sharon sussurrou. – Ele tem essa mania de ser reservado.
Assenti, conformada. Mais uma vez ficaria de fora, reclamando para mim mesma mentalmente, como uma velha. Ver Sharon cheia de toques com chegava a ser irritante, e apostava que não só para mim, mesmo que não pelos mesmos motivos. Empertigada, almocei e me arrependi por querer ser educada. Não que eu gostasse de ficar sobrando, mas entre dois casais e um só, preferia um só, sendo ele Ceasar e Alexis. Mesma faixa etária, mesmos problemas, mesmos assuntos. Compatibilidade perfeita.
Na volta para o escritório, fui sozinha. Sentia-me sufocada por ser a única solteira, sinal evidente da crise dos trinta, por mais que eu negasse admiti-la. Ou simplesmente mau humor, que, quando amanhecia em mim, fazia qualquer coisa se tornar incômoda, até mesmo reclamar da vida. A segunda opção era mais plausível, percebi um tempo depois, enquanto tive de revisar todas as fichas dos funcionários terceirizados a pedido de Kyle. Uma tarefa maçante e desnecessária, e exatamente por isso atribuída a mim.
Entendendo como uma provocação, comprometi-me a terminar tudo no mesmo dia, ainda que fizesse hora extra. Eu seria bonificada, no fim das contas, querendo ele ou não. Além do mais, não teria ninguém me esperando para entrar, quando eu chegasse em casa. Portanto, ative-me às pilhas de papel de forma a não me interessar por mais nada; fiquei cega e surda para o mundo. Além dos dados dos funcionários, na minha cabeça só havia o coeficiente de raiva reprimida pelo encarregado de me encher o saco. Eu não demonstraria o mínimo sinal de rancor, no entanto, porque, para Kyle, seria um sinal de fraqueza. Seria indiferente, para desestabilizá-lo na tentativa de me forçar a sair. Pelo tempo que eu estava na empresa, com a vida já equilibrada com base no salário que recebia, não iria embora por uma babaquice.
Ao pensar dessa forma, lembrei-me de Paget e seu discurso motivador inspirado em livros de autoajuda. Como se houvesse um lembrete sobre a minha mesa escrito em letras maiúsculas, sublinhadas e em negrito “FAÇA. VOCÊ CONSEGUE”. Eu conseguiria, sim, se quisesse. Eu queria, sim, se não entrassem de cinco em cinco segundos para perguntar se eu não iria embora. Eu iria, sim, se terminasse. Mas para isso acontecer, precisava que as outras sentenças não fizessem o mesmo.
Mais uma vez abriram a porta, e me negando a dar atenção, mal deixei de olhar a ficha em minhas mãos. Logo a porta se fechou novamente, porém, em vez de sozinha, estava dividindo minha sala com alguém. A pessoa se aproximou com passos leves, e eu apenas vi que era um homem, pelos sapatos à frente da mesa.
– Te atrapalho? – disse ele, cauteloso. Levantei meu rosto, vendo ali.
– Se eu responder, serei rude. Ou mentirosa – respondi com apatia.
– Ajuda? – ofereceu-se ele, sem se importar com meu tom.
– Ah, por favor – piei, agradecida e instantaneamente mis calma. – Me desculpe o mau humor, meu dia não tem sido o melhor.
– Tudo bem, nem o meu tem sido – confessou ele, sentando-se à mesa e analisando os papéis ao meu redor. – O que eu tenho que fazer?
– É só checar os dados desses funcionários – expliquei, voltando a abaixar o rosto. – Essa pilha é dos que já olhei, essa, não – acrescentei, apontando sem nem mesmo olhar.
– E quais os erros que eu tenho que procurar? – separando um pequeno grupo de folhas, disse. Ri sem vontade da sua pergunta, mas não por ele tê-la feito.
– Digitação – respondi. – Rasuras, borrões e coisas superficiais que geralmente estagiários fazem, e não quem já trabalha há anos aqui.
– Deve ter sido por isso que fui mandado pra cá dez minutos antes de acabar o expediente – ele observou, da mesma forma que eu.
– Kyle te fez isso? – indaguei com empatia, deixando de lado a cegueira por terminar, afinal, eu teria ajuda.
– Parece que ele não quer aumento no efetivo – constatou ele, dizendo nada além da verdade.
– Ultimamente, ele não quer é aumento do nível de testosterona por aqui – consertei, ouvindo-o rir baixo. – Aliás, a quantas anda o projeto?
– Já finalizamos, na verdade – continuava sereno como no momento em que entrou. – Mas Sharon às vezes fala um pouco além do necessário, então Lygia, Nancy e eu preferimos não levar tudo a ela agora. Quando estivermos mais perto do prazo, mostraremos.
– Entendo sobre esse ponto de Sharon falar demais e vocês quererem esperar, mas não é muito seguro fazer isso – ponderei, deixando a caneta que segurava sobre a mesa. Ele mudou as feições, indagador. – O motivo para ela ser a supervisora é porque ela também vai ser avaliada, e pra isso Sharon precisa estar a par de tudo. Fora que pode haver furos no projeto que ela, por trabalhar aqui há mais tempo, daria um jeito.
– Fazia parte do projeto não contar a ninguém antes do anúncio final, mas ela contou. Podia ter inventado qualquer coisa, até que estávamos juntos o tempo todo, mas não – retorquiu , apesar de parecer considerar o que lhe disse. – Ficamos receosos de ela acabar espalhando por aí e perdermos a chance de entrar pra H&G.
Por mais insensato e infantil que parecesse o plano dos três ao se olhar de fora, fazia sentido. Não fora por simpatia ou predestinação que fiquei sabendo de grande parte da vida de Sharon; nós ainda nem havíamos saído juntas fora do expediente ou daquelas horinhas de happy hour, conversávamos somente no escritório. Entretanto, eu não poderia ser a favor de algo que a prejudicaria sem que uma voz insistente e chata ficasse martelando na minha cabeça, levando-me a contar ou à loucura.
– Querem ajuda? – ofereci-me sem nem pensar, no fundo, surpreendendo-me comigo mesma. – No que estiver ao meu alcance, podem pedir. E acredite, sei de histórias daqui que ninguém imaginaria, guardar um segredo por algumas semanas é fácil.
– E você vai ter tempo? – novamente olhou ao redor, indicando-me por entrelinhas que Kyle estava nas minhas costas, chicoteando-me com trabalhinhos desnecessários.
– Já estava na hora de mudar as minhas prioridades, mesmo. – dei de ombros, sorrindo como se não ligasse. Uma mentira, a propósito, pois eu teria de arrumar um pretexto para mandar meu chefe tomar no cu para o espaço.
– Se é assim, então aceito – agradecido, ele sorriu também, e eu pude concordar com os comentários da primeira semana em que o vi: dentes perfeitos, bem alinhados, brancos e harmônicos. Combinavam com seus olhos bastante .
– Quando podemos começar? – perguntei, empolgada com a ideia de sair daquele ambiente, mesmo que fosse para trabalhar mais. Eu duvidava muito que Kyle iria conferir ficha por ficha da maneira que eu estava fazendo até então, ele já devia estar bem longe dali.
Cheer me up, turn me on
Assim que acertamos a forma que eu ajudaria, ligamos para Lygia e Nancy para marcar a primeira reunião – decidida por que seria de urgência. Dez minutos depois, estávamos a caminho da casa delas, onde estavam todas as planilhas e relatórios. A ideia de me envolver em algo diferente do habitual criava uma nova perspectiva, cujo futuro – e até mesmo o presente – parecia mais promissor. Por mais que a maioria dissesse o contrário, eu gostava de trabalhar, interagir com as pessoas e o ambiente. Principalmente quando não me havia nada para ocupar a mente, uma vez que eu estava saindo para outros lugares tanto quanto tinha tempo livre no trabalho, ou seja, nada.
Tomamos o metrô das sete para Ladbroke Grove, conversando sobre ambições pessoais e comparando nossa vida hoje e dez anos atrás – a minha era parecida com a de atualmente, e a dele soava bem familiar com a de Ramona. Não me surpreendia que houvesse histórias de ex-namoradas loucas que tentaram “amarrá-lo”, os hormônios sempre foram inimigos fatais das mulheres, mesmo que elas não percebam que só estão agindo em razão deles – experiência própria. Já no meu lado do assunto, evitei falar sobre antigos amores e dei ênfase aos casos engraçados da minha família (como a vez em que meu pai, de férias, ligou para minha mãe, trabalhando, para saber se o controle da TV estava com ela, quando, na verdade, ele havia deixado cair atrás do sofá). Bom ouvinte, prestou atenção e reagiu positivamente, e até comentou que eu não parecia ser o tipo de pessoa com a vida tão hilária. Ele só não me conhecia, tinha tantas histórias que umas chegavam a ser trágicas, de tão cômicas.
Chegando à estação, percebi que estava morta de fome – o mau costume de comer antes de ir para casa fazia efeito. Usando como desculpa não saber que horas terminaríamos, pedi a que me acompanhasse enquanto eu procurava algumas besteiras para levar, na loja de conveniência ali perto, que, aliás, estava bem movimentada. Logo na entrada – que também era saída –, o fluxo de pessoas – garotas de quinze anos cheias de maquiagem, de salto alto e decote para fingirem serem adultas e comprarem bebidas – era intenso, de modo que tivemos de entrar em fila indiana, e tive a impressão de senti-lo pondo a mão sobre meu quadril enquanto as aprendizes de vadia o olhavam de cima a baixo. Porém, o momento fora tão curto que mal pude verificar, apenas ouvi burburinhos antes de a porta se fechar.
– O que é melhor levar? – ele perguntou, parado ao meu lado enquanto eu encarava fileiras de porcarias comestíveis.
– Uma barra de chocolate, pra dar uma despertada; pizza, que dá pra todos nós – falava ao mesmo tempo em que pegava. – Sorvete, porque todo mundo ama... Ah, essas balas de goma são uma delícia, já experimentou? – sem esperar resposta, continuei: – E preciso de algo para beber, qualquer coisa de Cranberry serve. Acho que é só.
– Só? – novamente perguntou, e só depois percebi ter o usado como carregador de peso, que não era pouco.
– Oh, desculpe a empolgação – tentei me redimir, tirando dele as minhas compras. – Como demais quando fico ansiosa, e ultimamente só tenho comido coisas assim, por causa da Ramona.
– Sua filha? – Indicando com a mão para que eu fosse à sua frente, ele quis saber. Caminhamos em direção ao caixa.
– Não, sobrinha – respondi rápido, como se fosse absurdo eu ter dado à luz a uma filha aos vinte, vetando o fato de que Louise fora quem fizera isso. – Não tenho filhos. Não cheguei nem perto de ser casada, que dirá ter um.
– Se bem que, hoje em dia, ter filhos e casamento é quase questão de múltipla escolha com só uma resposta correta – ele riu, levando-me a fazer o mesmo. – Meus pais mesmo, nasceram uma geração antes e aderiram à moda do divórcio.
– Deve ser ruim passar por isso – comprimi os lábios em sinal de compreensão, procurando minha carteira dentro da bolsa. – Tanto pros seus pais quanto pra você.
– Eles são mais amigos separados que casados. – explicou com bom humor. – E eu achava o máximo ter duas casas, um monte de brinquedos e meio-irmãos. Ser filho único cansa.
– Quando eu era pequena, dava tudo pra ser a única – ri comigo mesma. – Mas ao mesmo tempo gostava de ter Louise, principalmente na adolescência. Assunto de meninas, sabe como é...
– Entendo – disse ele. – Você ou ela é a mais nova?
– Eu, dois anos – respondi. – E não, não tenho neuroses com a idade – comentei em seguida, fazendo-o rir. – Tenho trinta e dois.
– Isso é bom, seus amigos não devem sofrer pensando no que te dizer no seu aniversário – ele supôs, com resquícios de riso.
– Basicamente – concordei. – Prefiro poupá-los e implicar com o meu reflexo, sozinha.
– Você não deve fazer isso nunca, então – observou com naturalidade, e ao entender o que ouvi, ri nervosamente. Não sabia reagir bem a elogios espontâneos quando não estava flertando de volta.
– Pelo contrário, acho um motivo diferente pra reclamar todo dia, de manhã – retorqui, desfazendo o contato visual e a ideia de que pensei “”, “flertando” e eu como a pessoa passiva a isso. Era ridículo, ele só estava sendo gentil.
– Mulheres veem coisas onde não há – disse ele por fim.
– Não é verdade – insisti infantilmente, vendo-o me questionar com suas expressões. – Vemos o que encontramos de novo e incômodo em nós mesmas, coisas que os homens não veem a mínima diferença se está ali ou não.
– Nós vemos, mas não damos tanta importância quanto vocês – foi sua defesa, que fazia algum sentido, mas não satisfazia.
– Deviam, porque em grande parte fazemos sacrifícios por vocês – rebati, finalmente alcançando o caixa após uma pequena fila.
– Engraçado, nunca pedi pra ninguém fazer.
– Você é tão chato e insistente, – alfinetei, desdenhando.
– Não fui eu quem continuou querendo se justificar. – Ele parecia simplesmente não se incomodar, tampouco importar com minha reatividade. Estava o tempo todo, desde o momento em que entrou em minha sala, sereno e equilibrado quando entrávamos em divergências ou discordâncias. Paciência de ouro, devo admitir.
– Não é que eu queira me justificar – comedi. – Há coisas que não adianta discutir, simplesmente são assim. Você que não quer aceitar.
– Temos visões diferentes até mesmo nisso – ele afirmou, cansando-me.
– Desisto, você é impossível e cansa a minha beleza, que já não é muita.
– Outra coisa que discordamos – ouvi comentar em tom mais baixo, ou tive a impressão de ouvir, uma vez que a atendente me perguntou ao mesmo tempo “Crédito ou débito?”. Pensei em pedi-lo para repetir, para calar minha vaidade com a provável resposta absurdamente diferente que ele diria. Eu precisava de um choque de realidade, de uma razão para encerrar a curiosidade de saber por que Sharon andava tão feliz por aí. Ela estava com , eles combinavam. Eu era a intrusa da história.
Passaram-se horas desde que começamos a reunião, apesar de ser sexta-feira e, no fundo, estivéssemos todos rezando para que o trabalho se fizesse sozinho e acabasse, deixando-nos livres para descansar. Metade das comidas que eu havia levado tinham sido consumidas – por sugestão minha –, fora os snacks que Nancy deixou sobre a mesa de jantar para que não precisássemos parar. E em certo momento esquecemos o que realmente deveríamos fazer para jogar conversa fora, por isso já beirava a meia-noite e ainda tínhamos planilhas à nossa frente.
Assim que ouvimos o relógio do escritório badalar, lá longe, dizendo que já estávamos no primeiro minuto de sábado, Lygia se levantou e deu por encerrada nossa reunião.
– Amanhã a gente continua – disse. – Tô exausta e não vou conseguir pensar nas próximas dez horas.
– Eu também, confesso – disse Nancy, as mãos sobre os joelhos, ambos paralelos.
– Pelo menos grande parte já foi acertada – comentei, distraída com um gráfico que olhava.
– Graças a você, . Muito obrigada – Nancy, doce como sempre, sorriu para mim. Deixei a folha sobre a mesa de centro, retribuindo.
– Não me agradeça, vocês que me salvaram do tédio mortal – comentei em tom de riso. – Aliás, eu quero vocês na equipe, não podia deixar passar, sabendo que podia ajudar.
– Se conseguirmos a efetivação, seremos eternamente gratos – se pronunciou com delicadeza palpável. A propósito, no fim da noite eu havia descoberto o quão educado, sensível e de porte ele era. Sharon era realmente sortuda por ter encontrado tão facilmente um cavalheiro (o que nos dias de hoje é raríssimo).
– “Eternamente gratos” pode ser substituído por “sairemos pra comemorar juntos”, acho melhor – dei a sugestão. – Mas, por enquanto, me levar até a porta é suficiente. Vocês devem estar cansadas de me ver aqui.
– Sim, claro – Lygia concordou, rindo com ironia pelo duplo sentido. Nancy e se aprumavam. – Vai também, ?
– Vou, sim – ele respondeu, retirando de vez a gravata que afrouxara horas antes, guardando a mesma na pasta que carregava durante o dia. – Já tá um pouco tarde, tenho um compromisso pela manhã.
Consentindo sem questionar ou pensar duas vezes, a julgar que o mais interessado em ficar ali tinha sido , após terminarmos de juntar nossos pertences e aliviarmos a bagunça que fizemos, as anfitriãs nos levaram à porta.
– Sem querer ser indelicada, mas já sendo, esse compromisso amanhã é com Sharon? – perguntei por curiosidade, na tentativa de puxar algum assunto enquanto caminhávamos para fora do pequeno condomínio residencial.
– Ah, não – ele riu baixo. – Um dos meus sobrinhos tem uma apresentação da banda dele no colégio, prometi que estaria lá.
– Que bonitinho, um tio presente – disse em tom de admiração, gabando-me nas entrelinhas.
– Você não é a única no mundo, – soou bem humorado.
– – falei rápido, vendo-o franzir a testa. – Me chame de , pelo menos fora do escritório. Formalidade é algo que eu dispenso da vida pessoal.
– Pensei que estivéssemos tratando de negócios até agora há pouco – ele observou com perspicácia, expondo minha contradição.
– Eu já não estou trabalhando mais, e você? – escapei rapidamente, levando-o a concordar com meu pensamento. – Qual linha você pega pra ir pra casa?
– É meio tarde pra você andar sozinha por aí – paternal, ele disse. Ri da sua atitude, olhando-o de canto.
– Já sei me cuidar, papai.
– Só isso não garante muita coisa – continuou , sem dar atenção ao meu sarcasmo. – Eu não gostaria de saber que você estava andando sozinha, à noite, se fosse minha namorada.
– Não tenho ninguém pra se importar com isso, por que eu mesma deveria? – indaguei, inexpressiva.
– Eu me importo – disse ele, dando de ombros.
– Então dê uma boa solução pra esse problema – retorqui, olhando-o diretamente, agora. Segundos sem resposta fizeram valer meu sorriso de vitória. – Foi o que pensei.
– Vamos dividir um táxi – o ouvi sugerir. – Passamos primeiro na sua casa, dividimos o preço até lá e o caminho até minha casa fica por minha conta, é claro.
– Você realmente se preocupa com isso? – perguntei com um quê de surpresa, porém, muito mais admirada.
– Claro que sim, eu ia querer que fizessem o mesmo pela minha namorada, irmã ou amiga – respondeu ele. – Vamos ver algum ponto de táxi por aqui, antes que fique mais tarde.
Concordei, lisonjeada (mais uma vez naquele dia), prendendo entre os lábios um sorriso bobo. O que aumentava minha admiração por naquele momento era, principalmente, a carência afetiva que sentia desde meu rompimento, pois desde aquela época não me envolvia com alguém. Nem ao menos casos de uma noite só – estava triste demais para sair. Aliás, ele tinha todo potencial para ser um caso de uma noite só. Não era justo Sharon ter chegado primeiro, muito menos a lembrança de que eu a incentivei a investir em aparecer, e ainda menos ele me tratar tão bem. poderia ter sido indiferente desde o início, porque até mesmo se me repudiasse, com aquele porte e aquela beleza recém-feita, eu me interessaria. E é tão inconveniente querer e saber que não posso.
Vi-me obrigada a compará-lo com outros, para tirar da cabeça a vontade de conhecê-lo mais a fundo. não era maduro como Kenneth, seu nome não soava tão bem; seus olhos podiam até ser , mas não eram tão vivos quanto os de Kenny; como casal, não combinávamos visualmente. tinha a irritante mania de erguer as sobrancelhas enquanto falava – e eu já tinha reparado até mesmo nisso! –, parecendo arrogante e prepotente. (E sexy.)
Kenneth me completava. não havia me traído. Mas se me atrevesse a beijá-lo, eu o levaria a ser tão igual a Kenneth quanto ele não deveria. Além disso, tinha a dúvida sobre ele estar ou não flertando, se estava apenas sendo educado ou mostrando gratidão. Era difícil enxergar o que ele queria me passar.
Consternada comigo mesma, quando conseguimos um táxi, tentei formar diálogos inocentes que não me fizessem mostrar interesse, muito menos que gerasse algum elogio vindo da parte dele ou da minha.
O caminho para Stanford Hill estava interditado em razão de um acidente, então o taxista pegou um retorno que ele dizia ser mais rápido, mas que para mim parecia mil vezes mais longo – portanto, mais caro – e cheio de curvas. Observando as ruas através da janela, reconheci a vizinhança que passávamos e o cruzamento em que paramos, e ao lado, o prédio de três andares em cor de tijolo. A janela maior do segundo andar mostrava a luz acesa, que atravessava a persiana fina. Olhar aquilo e reacender as memórias sobre os dias que passei ali me deu o único motivo que faltava para deixar de lado a ética e os bons costumes: Kenny poderia ser ótimo, mas não estava nem estaria mais na minha vida. Ele tinha seguido em frente, enquanto fiquei parada no tempo e só agora começava a pensar em dar os primeiros passos. E ao contrário dele, que não se aproximaria mais de mim, estava ali, ao meu lado. Convidativo, compreensível, impecável, delicado e muitos outros adjetivos que eu já havia pensado durante o dia.
Desviando o olhar da janela, não o encarei de imediato. A vontade que crescia em mim de acabar com toda aquela cordialidade superficial era equiparada ao bom senso. Eu iria simplesmente me jogar para cima dele e esperar que ele retribuísse? Não havia sequer uma constatação concreta de que ele queria algo. Mas ele é do sexo oposto, já não era o suficiente? Homens não dispensam sexo fácil, mesmo que de caridade. Não que eu quisesse que ele fizesse sexo comigo por pena, pelo contrário, era somente um exemplo.
– Você tá fazendo aquilo de novo – ouvi dizer, chamando minha atenção. Virei em sua direção, as expressões confusas.
– Hã?
– Você tá fazendo aquilo de novo – repetiu ele, parecendo divertido. – Murmurando um monte de coisas pra si, sem nem perceber.
Senti cada extremidade minha gelar.
– Não fiz isso, não – neguei inutilmente, pois minha voz aguda pelo nervosismo me denunciou.
– Fez, sim – ele riu, confirmando com um aceno de cabeça. – Não sei exatamente o que era, mas você parecia bem concentrada.
– Você ouviu alguma coisa específica? – investiguei, preocupada em não parecer (ainda mais) louca. fez que não. – Ainda bem.
– Embaraçoso demais?
– Um pouco... – Burra, burra, burra. Estúpida. Infantil. Maluca.
– O que é? – perguntou ele, curioso.
– Não é nada de mais, você não vai querer saber – soltei um riso fraco, fazendo pouco caso.
– Quero, sim – ele foi direto. – Se não é nada de mais, não tem problema eu saber. Pode até ser engraçado.
– Não é engraçado – repliquei, implorando por dentro para que ele deixasse de lado aquela história.
– Não tem problema – ele treplicou. Continuei com o mesmo semblante. – Vamos lá, , eu te contei minha vida quase toda, o que tem demais você me contar?
Tentei, juro que tentei dar um bom argumento, mas nenhum pareceu satisfatório, no mínimo.
– É que... – Resignada, suspirei com cansaço. – Queria estar no lugar de Sharon agora.
– Sozinha em casa, emburrada por que eu tive que ficar depois do horário trabalhando e amanhã não vou vê-la? – questionou, e havia sinal de desdém em sua voz.
– Mas no fim, é pra ela que você volta – observei. – É nesse lugar que eu queria estar, pois saberia que ia ter alguém pra me fazer esquecer os motivos pra estar chateada. Mesmo que só por uma noite.
Envergonhada, mal notei quando desviei do seu olhar, fitando minhas unhas curtas e com esmalte descascando – ainda andava um pouco desleixada com pequenos detalhes assim.
– Mesmo que o motivo pra você estar chateada fosse a pessoa em questão? – o ouvi em tom de compreensão.
– Principalmente – respondi. – Quando chegasse, nós íamos discutir ou ficar indiferentes, até a hora que ninguém mais aguentaria e cederia. Depois iríamos resolver nosso pequeno impasse no quarto durante a noite toda, e pela manhã não teríamos do que reclamar.
– Parece perfeito.
– Mas sempre tem um pequeno problema quando as coisas são perfeitas, né? – ri com ironia. – No meu caso, falta alguém.
– Não precisa faltar, a menos que você queira.
Voltei meu olhar para . Havia um sorriso enviesado querendo se mostrar por trás daquela máscara de autoconfiança, como se ele estivesse pensando da mesma forma que eu que era errado, mas ele não se importava. Foi naquele exato momento que eu pensei “Dane-se”.
Mas eu não podia me jogar para cima dele ainda. Se estivesse falando de outro, um amigo que quisesse me apresentar, eu quebraria a cara bem feio, a ponto de não conseguir olhá-lo no escritório. Já bastava estar bancando a solteirona carente para conseguir sua atenção.
– Mesmo? – perguntei, vendo-o assentir. – Eu quero alguém pra hoje, e não ficar esperando aparecer uma boa oportunidade.
– Você realmente não tá enxergando a sua oportunidade?
Da última sílaba pronunciada por ele para o segundo em que começamos a nos beijar não foi muito tempo. Toda a segurança de era presente até no jeito como me tocava, firme, sem hesitação. Seus lábios secos encaixavam-se com harmonia aos meus, que não se importaram em umedecê-los. O frisson que sentia serviu para duplicar – ou até mesmo triplicar – minhas sensações, fora a ansiedade para chegar logo em algo mais... Carnal.
Porém, por mais que eu jurasse a mim mesma ter esquecido esse nem um pouco pequeno detalhe, estávamos dentro do táxi. E o motorista havia sido bastante enérgico ao nos fazer lembrar disso, com uma pigarreada que seria capaz de pôr suas amígdalas para fora. A princípio, não desviei meu olhar para o retrovisor, para encarar o taxista; muito menos encarei , embora fosse sua boca que meus olhos estavam fixados. Aguardei um pequeno espaço de tempo para que eu me acostumasse com a ideia de que eu estava com alguém, depois de tantos meses. De verdade.
– Isso foi... – comecei, tentando me certificar de que não teria reações extremas, como gaguejar, rir desesperadamente ou algo do tipo. – Muito bom, admito.
– Espere até ver o resto – disse ele em tom sugestivo e convencido, fazendo-me rir baixo. Ainda próxima a ele, mirei seus olhos, fazendo uma de minhas mãos subir por sua coxa, deslizando pela calça de linho com facilidade. Alcançando sua virilha, ameacei retornar ao seu joelho. me reprovou com um som por trás dos lábios fechados. – Não faça isso, .
– Por quê? – perguntei como quem não queria nada. Havia deixado de encará-lo para contornar seu rosto com o meu suavemente, nunca encostando mais que o centro dos meus lábios e a ponta do nariz.
– Só a ideia de fazer amor com você dentro de alguns minutos já é tentadora demais – respondeu ele –, não me faça te despir aqui mesmo – completou em um sussurro, bem no momento em que minha orelha estava perto de sua boca.
– Só tem um problema nisso tudo – adverti, afastando-me bruscamente, fazendo-o se mostrar confuso. – Não vamos fazer amor, vamos fazer sexo. Quero que isso fique bem claro.
– Me desculpe, então – ele riu, talvez por eu ter levado esse detalhe tão a sério, erguendo as sobrancelhas daquela mesma maneira irritante. – Só não quis soar vulgar logo de cara.
Tornei a me aproximar, subindo minha mão por sua perna mais uma vez.
– Lembre-se que não tenho a mesma idade das garotinhas que você conheceu – fui levemente ácida. – Não me engano tão fácil assim com palavras pensadas. Além do mais, já vi e fiz coisas que talvez nem você tenha visto pessoalmente.
Era um blefe completo; nunca tinha sido o tipo promíscua durante o colegial, muito menos aventureira durante a faculdade ou ninfomaníaca durante os vinte. Minhas experiências mais extremas tinham acontecido pormuita insistência, muito incentivo dos meus ex, inclusive o único ménage da minha vida – não que exista algum arrependimento por ser o único, mas pelas pessoas, uma vez que eu mais me peguei com Linda que com Jeremiah, e descobri mais tarde que tinha transado com a outra namorada do meu namorado. Mas se de uma coisa eu estava certa, era que soar como a Deusa do Sexo atraía bem mais os homens. Principalmente se você o acaricia enquanto prende sua atenção e desperta sua curiosidade. Era como amarrá-lo por todos os membros, sendo as pernas o físico e os braços o psicológico.
Fazia movimentos circulares sobre seu membro coberto, alternando o ritmo e pressão, sentindo-o em “meia bomba”. Por culpa do taxista, não podia beijá-lo, o que não o deixava totalmente em minhas mãos, já que seus olhos estavam muito bem abertos, avaliando-me. E ele sustentava prepotência em seu olhar, desafiando, instigando-me. Respondendo a sua atitude, fingi inocência ao chegar ao zíper de sua calça, abrindo-o lentamente para que o barulho não despertasse a atenção do motorista – no fundo, bem no fundo, estava torcendo para que ele fosse um pervertido e ficasse apenas nos observando, assim não incomodaria. Deslizei minha mão para dentro da peça de , recebendo um sorriso de aprovação. Com uma camada a menos de roupa, conseguia sentir sua pulsação mais forte e sua sensibilidade maior ao meu toque. Ele se ajeitou sobre o banco, abrindo mais as pernas para ficar mais confortável e, por consequência, facilitar meu trabalho. Contornei seu pênis com meus dedos o máximo que pude, esfregando-o repetidas vezes. Meus olhos não se desprendiam dos dele, que já não pareciam mais tão confiantes quanto antes, mas, sim, apreensivos. Quem estava manipulando quem, agora?
Com certa dificuldade, puxei de partes em partes a cueca de , até que minhas mãos encostassem-se à sua pele. Sentindo sua respiração bater forte em meu rosto, vi uma de suas mãos se pôr sobre a minha, do lado de fora, guiando o ritmo exato em que ele queria. Mordi meu lábio inferior devagar, querendo beijar sua boca entreaberta a qualquer custo. Mas por um instante de sensatez, desviei meu foco para a janela, vendo minha vizinhança. Retirei num impulso minha mão de sua pélvis, procurando minha bolsa pelo banco.
– Estamos chegando – expliquei a , desnorteado com minha ação relâmpago. – O prédio no fim da rua, por favor.
O Sr. Amídalas-garganta-a-fora apenas me olhou pelo retrovisor, parecendo furioso. Ortodoxos... Não sabem o que é uma diversão.
– Você é louca – murmurou, numa mistura de surpreso e admirado. Sorri de forma sedutora (ou eu achava que era, pelo menos).
– A culpa é sua, você me incentivou. – Busquei minha carteira dentro da bolsa. – Feche o zíper, ninguém além de mim precisa ver o que tem aí, hoje.
– Serviço incompleto? – ele zombou, fazendo o que mandei.
– Espere até ver o resto. – Pisquei de um jeito sacana, levando-o a rir.
Assim que o táxi parou, estendi setenta libras para o motorista e praticamente expulsei do carro, para que eu pudesse sair em seguida. Ao ouvir o homem protestar de dentro do automóvel, respondi a ele para que ficasse com o troco, uma recompensa por não empatar tanto. fingia ajeitar seu terno, escondendo sua animação.
– Vai na frente – ordenou quando estávamos sozinhos novamente. Concordei, subindo a pequena escadaria até o hall, tendo-o em meu encalço. Enquanto caçava a chave da porta, fui abraçada por trás, desconcentrando-me. – Dificuldade aí?
– Vai se divertindo, – respondi à sua pergunta irônica. – Eu já vou te lembrar quem é que ri por último por aqui.
– Isso é uma ameaça?
– Entenda como quiser. – Finalmente abri a porta, caminhando em passos largos até meu apartamento, através do corredor que pareceu três vezes mais comprido. Não era como se eu estivesse louca de tesão, o problema era que a roupa que eu usava não me ajudava a suportar o frio que já fazia àquela hora, ao contrário da temperatura mais amena por volta das seis. E assim como vontade de ir ao banheiro, quanto mais perto de casa ficava, mais aumentava.
Bastou eu pôr os pés na sala para o telefone tocar. A julgar o horário e a inconveniência, seria um dos meus amigos mais próximos. Murmurei um “Fique à vontade” para antes de correr para o telefone, retirando os sapatos pelo meio do caminho.
– Onde você esteve?! Passei o dia inteiro te ligando! – O discurso era digno da minha mãe, porém, era Ramona.
– Fiquei trabalhando até tarde – falei despreocupada –, por quê?
– Preciso de você amanhã, às nove, pronta e na minha casa – ela não deu opções.
– Para...?
– Joshua vai se apresentar com a banda dele amanhã, no meu colégio, e eu preciso muito que alguém me leve – choramingou, tentando algum tipo de chantagem emocional. – Ele disse que o tio dele vai também, é uma boa oportunidade.
– Ah, jura? – Liguei os pontos rapidamente, olhando de soslaio para , que, de costas para mim, acertava o termostato.
– Sério, – Ramona interpretou diferente meu tom de voz, forçando-se a soar apelativa. – Por favor, por favor! Fico te devendo uma.
– Eu vou cobrar, acredite – fiz-me de séria. – Mas pode deixar, amanhã às nove apareço por aí.
– Muito, muito, muito obrigada, ! Te amo – disse ela por fim. – Até amanhã.
– Até, Mon. – Desliguei o telefone, despindo-me do blazer. – Aconteceu um imprevisto.
– O quê? – frustrado, perguntou. Após se virar e caminhar em minha direção, reparei que já estava sem sua pasta. – Tem alguém vindo?
– Não, isso não. – Retirei minhas pulseiras e anéis, reparando só depois que fazia o mesmo ritual dos dias comuns. – Parece que vamos ter que dar uma de cupido amanhã.
– Como assim? – ele continuou a questionar, sentando-se quando eu fiz o mesmo e dei leves batidas no sofá para que me acompanhasse.
– Qual o nome do seu sobrinho? – indaguei, segurando a lapela do seu paletó.
– Joshua, por quê? – O vi arquear a sobrancelha, confuso. Soltei a lapela para invadir seu paletó, induzindo-o a tirar a peça.
– Acabei de descobrir que minha sobrinha, Ramona, quer ir a um showzinho de uma banda do colégio dela amanhã. Quantas escolas da cidade estariam promovendo o mesmo evento, no mesmo dia? – expus a coincidência, e suas expressões se suavizaram. Pus minha mão sobre o segundo botão de sua camisa para abri-lo, pois o primeiro já estava aberto desde o momento que ele retirara a gravata. – Quer ficar aqui?
– Pra dormir? – pareceu não se incomodar por eu estar conversando enquanto retirava sua roupa. Geralmente, com Jeremiah, bastava eu baixar a voz e mostrar um pouco mais o decote para ele praticamente explodir minhas roupas e me fazer calar a boca. Não só ele, a propósito.
– Passar a noite seria o termo ideal – corrigi, puxando sua camisa para cima, libertando-a da calça. – Amanhã teremos de ir ao mesmo lugar, não vejo mal nisso.
– Por mim, tudo bem. – Ele não esperou que eu retirasse a peça, fazendo-o sozinho. – Só quero saber por que só eu tô tirando a roupa por aqui.
– Você é a visita, quero te deixar confortável – disse em tom de brincadeira, fazendo o dedo indicador e médio “caminharem” por seu tórax.
– Ficaria mais à vontade se não fosse o único pelado por aqui – ele disse da mesma forma, inclinando-se na minha direção. Ri antes de voltar a beijá-lo, agora com mais intensidade e liberdade. Meus dedos em seus cabelos; seus dedos invadindo minhas roupas. Minhas unhas arranhando sua pele; seus braços me cercando, apertando, arrepiando. Bastaram alguns minutos até que a blusa e a saia estivessem no chão, o cinto de aberto, ele sentado no meio do sofá e eu em seu colo, dominando-o.
Segurando firmemente seus fios de cabelo pela raiz, puxei a cabeça de para o lado, beijando seu pescoço e pressionando minha pélvis contra a dele, provando-o e sentindo sua pulsação. Ele segurava minhas nádegas, não me deixando sair de perto, até que escorregou uma de suas mãos para dentro da minha calcinha, um pouco úmida pela animação de nós dois. Arqueei minhas costas quando senti seus primeiros estímulos em minha vulva; rápido e enérgico, movia dois dedos maravilhosamente. Concentrada em reagir a ele, mal me lembrei do que estava fazendo momentos antes.
– É assim que você gosta? – o ouvi perguntar próximo ao meu ouvido, fazendo-me assentir. – E se eu for mais fundo? – dito isso, ele me penetrou com os dedos. Ajeitei-me sobre seu colo, aumentando o contato.
– Mais forte – fui incisiva, sem nem mesmo o olhar, as pálpebras pressionadas umas contra as outras.
girou, deitando-me e retirando seus sapatos. Masturbou-me com mais força, como eu havia pedido, e ao abrir os olhos, encontrei os dele, que me encaravam com o mesmo tesão que havia visto dentro do táxi. Sustentei seu olhar enquanto meu peito subia e descia mais rápido, às vezes mordia o lábio inferior quando ele tocava minhas áreas mais sensíveis. Ele avançou sobre mim, tirando meu sutiã com sua mão livre e o auxílio das minhas, que em seguida o trouxeram de volta para os meus lábios. Quando estava bem molhada, foi a vez da minha calcinha de ir embora, e esfregou toda minha intimidade para lubrificá-la. Naquele momento, eu o queria dentro de mim muito mais que antes.
– Camisinha – falei contra seus lábios, com certa dificuldade. – Você tem?
– A gente realmente precisa disso? – murmurou ele, frustrado.
– Claro que sim – ralhei sem aumentar o tom de voz (não conseguiria nem se quisesse). Arfava incessantemente, era difícil até mesmo pensar. Não que eu estivesse o fazendo muito. – Banheiro... Primeira gaveta.
Entendendo rapidamente minha mensagem, ele se levantou e sumiu pelo corredor. Não era muito difícil achar o banheiro, mas só o tempo que ele levou para ir até lá me fez segui-lo. Entrando no pequeno cômodo, encontrei-o meio atrapalhado, pois as calças estavam escorregando por sua perna, alcançando já o meio das coxas. Sorri com maldade no rosto, balançando a cabeça levemente para os lados ao vê-lo naquele estado; riu, erguendo as mãos como se ausentasse da culpa. Puxei-o pelo quadril contra mim, retirando sua boxer – como vim a descobri só naquela hora – junto da calça, masturbando-o pela segunda vez. Abaixei-me até que minha boca estivesse à altura do seu pênis, que chupei uma única vez, só para fazer ficar com vontade. Estendi a mão para que ele me desse a camisinha, porém, ele se negou a me entregar.
– Vamos acabar logo com isso, – pedi, entediada. Estávamos perdendo um tempo precioso.
– Já vamos fazer isso – ele disse, alcançando-me pela cintura e me encostando no balcão. – Mas vamos fazer um teste antes. – Então ergueu uma das minhas pernas, encaixando-se em mim. Relutei contra sua atitude, embora minha repreensão tenha sido somente um gemido baixo. – Assim é fraco demais pra você, não é? – perguntou, e nem formular uma resposta eu conseguia. Seria contraditório demais dizer para ele parar, sendo que eu queria que ele continuasse. – Você gosta que eu vá com mais força, não é, ?
estocou mais forte, chocando minha lombar com o tampo do balcão. Já tinha perdido meu equilíbrio mental, não conseguia falar nada, por mais que tentasse. O único jeito com que eu protestava era apertando-o em mim, uma saída tão falha que tinha efeito contrário e o fazia ir e vir ainda mais vezes. Espalmei minhas mãos em suas costas para me segurar, pois a diferença de altura me fazia ficar na ponta do pé, e eu não estava exatamente em condições de bancar o Saci. , notando o que eu havia feito, segurou minha outra perna, fazendo-me enlaçá-lo pela cintura. Apoiei minha cabeça em seu ombro, agradecida.
– Onde é o quarto? – indagou com a voz falha, provavelmente por estar me carregando. Eu não era lá tão leve assim.
– Última porta – respondi, segurando-o dentro de mim o máximo que pude.
Zonza de prazer, não percebi em que momento chegamos à cama, apenas que já estávamos desforrando tudo. As pernas de estavam entrepostas às minhas, assim como seus braços estavam mais próximos do meu tronco que os meus próprios. Eu não tinha o costume de abrir os olhos durante o sexo, mas com ele eu me esforçava em mantê-los semicerrados, pelo menos. A imagem de nu, seu corpo sobre o meu, nossos perfumes e nossas respirações se misturando, fora suas investidas na medida certa, deixavam-me extasiada. Para um garoto novo, ele dava um banho em muitos com quem já saí.
– ... – sussurrou ele, mordendo o lábio inferior com força. – Eu tô quase lá.
Dei-lhe um beijo breve, dispensando palavras para que lhe dissesse que não tinha problema.
– Me dá – pedi por impulso, não ligando se pareceria vulgar. franziu o cenho, e eu via que estava se controlando ao máximo. – Eu quero engolir.
Ele pareceu surpreso ao entender o que tinha dito, mas ainda assim aceitou. Pôs-se de joelhos sobre o colchão, enquanto eu tive de ficar de quatro à sua frente para chupar somente sua glande. Masturbando-se, finalmente se deixou chegar ao ápice, gozando em minha boca enquanto arfava, aliviado. Não fiz a mínima questão de ficar muito tempo com o gosto do seu esperma em minha língua, então logo o engoli, lambendo a ponta do seu pênis para mostrá-lo que já tinha dado um fim àquilo. Erguendo meu olhar de encontro ao seu, vi seu sorriso satisfeito.
– Deita – disse ele, soando sensual. Concordei, retornando à posição que estava, observando-o se colocar entre minhas pernas. – Agora é sua vez, ok? Quero ouvir essa sua voz linda.
Assenti, fechando os olhos mais uma vez. Tão mágico quanto os dedos de era o oral que ele fazia. Além dos movimentos circulares, ele massageava meu clitóris de vez em quando, chupando-o e arrancando gemidos involuntários do fundo da minha garganta. Tive de apertar o edredom entre meus dedos fortemente quando comecei a sentir espasmos e arquear minhas costas. Respirar era quase impossível. Quando senti que estava próxima do clímax, mordi com firmeza meu próprio lábio e cerrei ainda mais os olhos.
– Não, não, não faz isso – ouvia dizer, distante. – Olha pra mim – obedeci com dificuldade, vendo-o próximo do meu rosto, reparando que ele me tocava mais uma vez. – Isso, agora geme, não precisa ter vergonha – completou, para em seguida distribuir beijos pelo meu colo, pescoço e rosto. Novamente o obedeci, deixando sons agudos e ofegos saírem pela minha boca, até que senti a exaustão chegando aos poucos.
Respirando fundo, soltei o edredom, meus dedos todos dormentes. tornou a me beijar, mais calmo – e cansado. Pôs uma de suas pernas para fora das minhas, deitando-se ao meu lado.
– Meu Deus... – murmurei, sorrindo abestalhada. Olhava para o teto, que parecia mais escuro que o normal.
– O que foi? – se apoiou no cotovelo para me enxergar melhor, fazendo-me virar em sua direção.
– Como eu consegui ficar tanto tempo sem isso? – perguntei em retórica, rindo comigo mesma.
– Que mal lhe pergunte, faz quanto tempo? – Ele tinha o cenho franzido, numa expressão estranha que me parecia engraçada, naquela hora.
– Não lembro exatamente, agora – menti. Sabia bem que era mais de um mês, algo que estava me fazendo subir pelas paredes. Sexo fazia muita falta. – E você – beijei-lhe rapidamente – tá de parabéns, .
– Obrigado – ele riu, acariciando meu rosto. – Você foi ótima, , principalmente no fim.
– Modéstia à parte, eu sou ótima – disse em tom de brincadeira, fazendo-o rir.
– Nós somos – corrigiu ele.
– Tudo bem, nós somos – consenti, abraçando-o. – Mas agora chega desse papo de dupla dinâmica, preciso vestir alguma coisa.
– Por quê? – questionou, segurando-me quando fiz menção de me levantar. – Acabei de te ver nua, te carreguei no colo desse jeito, não acha que já vi tudo que tinha pra ver?
Pensei novamente, concordando com ele. Rendi-me a ele, voltando para seus braços, apesar de ser uma atitude perigosa. Somente após ter feito o convite que refleti sobre o espaço que estava dando a ele dentro do meu mundo. Nós tínhamos acabado de transar, trair a confiança de Sharon e quebrar a política da empresa, não podíamos voltar atrás agora que a merda já estava feita, mas ainda assim, devíamos deixar claros os limites entre o que havia acontecido momentos atrás e o que aconteceria segunda-feira, no escritório. tinha sido apenas uma distração, uma forma fácil que encontrei para liberar tantos desejos impróprios reprimidos por tantas semanas. E mesmo que ele fosse surpreendente na cama e um cavalheiro fora dela, tínhamos reputações e empregos para zelar. E eu não podia nem cogitar a possibilidade remota de me apegar. Não mesmo.
Olhei para o lado, pronta para fazer um discurso sobre como iríamos tratar futuramente todo o ocorrido, contudo, já tinha os olhos fechados e uma expressão serena, sua respiração profunda e periódica. Ri fraco, ele deveria estar tão exausto quanto eu, e eu ainda querendo conversar... Desisti por aquele instante do que havia pensado por não sei tanto tempo – apesar de desconfiar não ter sido muito –, abraçando-o mais forte antes de me ajeitar para dormir, cobrindo-me até a altura do busto com a roupa de cama. Nossa discussão de relacionamento, ou qualquer coisa que fôssemos agora, ficaria para amanhã. Abrindo parênteses, devia assumir para mim mesma que, mesmo que efêmero, tinha gostado bastante do nosso caso. Ele não era nem de longe como Kenneth ou Jeremiah; eu estava agradecida por isso.
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Mesmo com a preocupação de talvez não entregar um relatório no prazo me cegando de qualquer pequeno detalhe, não pude deixar de observar as pessoas passando pela rua, os casais abraçados compartilhando todo o amor um pelo outro sem se importar se pareceriam ridículos ou inapropriados. Porque era exatamente assim que eu pensava quanto a relacionamentos: são todos ridículos e inapropriados.
Não exatamente todos, pois acredito que existe, sim, amor. Dividido em Ágape, Storge, Philia e Eros – amor religioso, amor à família, amor aos amigos e amor entre duas pessoas (sendo pragmático ou não), respectivamente. Porém, depois de duas experiências intensas e fracassadas que tomaram anos da minha vida, passei a me questionar mais sobre esse Eros, e a conclusão foi de que não nasci para isso. Definitivamente, não. Não só por não alcançar o conhecido e desejado “final feliz”, mas por não conseguir compreender mais o sentido de namorar. Eu somente me lembrava das dores de cabeça, das brigas, das limitações que o envolvimento trazia. Lembrava também dos momentos felizes e todos os sentimentos bons que vinham agregados, contudo, agora, observando de longe, parecia uma parcela tão pequena que não sabia bem se valiam à pena. Apaixonar-se custa paciência e empenho, e eu não tinha mais isso. Eu não queria mais isso. Queria uma vida tranquila, um emprego legal e meus amigos e familiares ao redor, o que já me trazia dois tipos de amor. Metade é melhor que nada.
Para isso, eu me empenhava em não me distrair com as pessoas que passavam em frente à janela do escritório, logo ao lado da minha mesa. Meu chefe ficaria louco de raiva, se eu não entregasse as folhas de pagamento até o fim do expediente. Eu não era do tipo azarado nem atrapalhado, estava em tempo de encaminhar aos meus superiores, mas ainda assim fazia em mim mesma um pouco de pressão para que não diminuísse o ritmo e acabasse atrasada. Eu odiava atrasos, principalmente os meus – e aposto que Carl, meu chefe, também não gostava deles, embora fossem raros. Talvez eu até ganhasse uma bonificação no fim do ano por isso e pelo ótimo desempenho que estava obtendo.
Perto das seis, terminei, salvei e entreguei todas as folhas de pagamento. Como de costume no escritório, os dez últimos minutos eram liberados para os empregados se prepararem para voltar para casa, tomarem café, etc., exceto na sexta. Existia a tradição da sexta-feira livre, e sem a obrigação do terno/taieur, todos (sem exceções) usavam aqueles minutos para retocarem a maquiagem, fazer ligações e chamar de última hora alguns colegas para uma Happy Hour no bar da rua de baixo. Sempre as mesmas pessoas. Sempre o mesmo bar. Logicamente, sempre as mesmas histórias. Eu não reclamava, no entanto. Achava particularmente divertido ver Kyle Cox – chefe do departamento – lutando contra a solteirice na meia-idade ao tentar levar as novas estagiárias que se arriscavam a ir conosco para cama. Era quase uma iniciação: para permanecer no escritório por mais de três semanas e não sujar a carteira de trabalho, ou se transa com ele, ou se é mais esperta e consegue um jeito de enganá-lo a ponto de o próprio Kyle admitir a derrota. Para a minha sorte (ou nem tanta, porque, na verdade, eu estava gorda), a mentira de que eu estava grávida de três meses colou, e seis meses depois eu já estava efetivada. Sem filho, claro.
Seria a primeira Happy Hour depois das minhas férias e licença por motivos de saúde. Eu havia tido um colapso nervoso assim que voltei de Chipre, com meu até então noivo, Kenny – Kenneth Campbell –, pois descobri graças a um estranho gosto por arrumar malas que ele tinha uma amante. E que, pasmem, ela lhe dava cuecas novas. Uma atitude tão íntima quanto aquela não poderia vir da mãe dele, uma vez que ela havia falecido um ano antes, fazendo nosso casamento ser adiado. A relação tinha esfriado tanto por culpa da sua reclusão que eu não soube o que fazer, se não suportar quieta. Mas chegamos ao patamar da falta de tesão, então tentamos nos agarrar ao resto de sentimento que tínhamos pelo outro e arquitetamos a viagem, que tinha de tudo para reacender nossa vida sexual tão parada quanto o rosto da Donatella Versace. Os dez dias na ilha onde Afrodite vivera tiveram resultados extraordinários, até o fatídico dia em que achei a bendita samba-canção marrom – além de abusada, a vagabunda era brega; marrom não combinava nem um pouco com Kenny. Além de um dia inteiro de brigas e um vôo enjoativo de horas até Londres, tive de encarar o fim de um noivado que já durava dois anos e meio. Trinta meses perdidos e sem recuperação. Nem mesmo os presentes de noivado eu pude guardar, já que não casaria mais.
Estava morando sozinha desde então. Um apartamento espaçoso no subúrbio, longe o bastante dos meus pais para que eu não fosse perturbada o tempo todo sobre meu peso e meus problemas e perto o suficiente para que eles não sentissem tanto a minha falta e quisessem passar alguns dias me fazendo companhia. Também não gastava muito com passagens, o que poupava o meu Öyster, fora as lojas de conveniência, fast-foods e mercados ao redor. Recebia visitas ocasionalmente, quando se tratava dos meus amigos, e regularmente, quando era sobre Terence, Paget, Louise e Ramona – melhores amigos, irmã e sobrinha –, mais precisamente às terças, quintas e sábados. Abria exceção nas sextas somente em casos de emergência, como encontros duplos, fuga de pessoas indesejadas ou festinhas de pijama para Ramona. Como eu não havia sido avisada de nada do tipo, não ficaria em casa esperando por ninguém.
Enquanto se passavam os dez minutos, ao contrário das outras mulheres do escritório, que estavam enfurnadas no banheiro, eu comia uma barra pequena de chocolate. Desde minha crise de depressão, vinha me dando ao luxo de comer doces escondida, e obviamente vinha também ganhando peso com isso. Não que eu fosse neurótica por beleza e boa forma – sou péssima com dietas e exercícios, a propósito –, mas um pouco de vaidade nunca matou ninguém. A minha era que estava meio morta, ou só desaparecida. Além dos quilos extras, acho também que meu gosto para maquiagem havia adormecido; usava somente o essencial para não parecer uma ameixa seca. Kyle até tinha notado e desistido definitivamente de mim. Amém.
Sentada em um banquinho na pequena varanda da copa, lugar onde, normalmente, os fumantes ficam, eu comia e observava a pressa com que um ou dois colegas arrumavam seus pertences. Alguns ligavam para casa, outros conversavam, mas todos estavam apressados, decerto. E dentre todos os rostos que eu já conhecia até se não visse, existiam três novos. Uma menina – não “menina”, é só modo de ilustrar – ruiva, o rosto cheio de sardas e enormes olhos castanhos; falava pouco, assentia a praticamente tudo que lhe dissessem. Outra que parecia também ser nova, porém se vestia e falava com mais virilidade que metade do escritório, em contra-partida ao corpinho magrelo e rosto que aparentava vulnerabilidade. Por fim, um garoto que, fosse eu mais nova, ficaria com fogo só de olhar para ele. Seu rosto ainda era de moleque (devia ter no máximo uns vinte), mas se portava como um cavalheiro. Com toda certeza, ele também era o motivo das minhas colegas ainda estarem no banheiro. Carne fresca sempre é bem recebida com milhares de elogios às escondidas.
Dadas 6h, como se tivessem tacado água no formigueiro, uma enxurrada de pessoas começou a jornada em direção à saída, já que era necessária uma fila para esperar um dos três elevadores do edifício para descer e mais alguns metros para chegar ao bar, no meu caso e de mais alguns. Eu me sentia um pouco sociofóbica depois do meu retorno, na segunda-feira, pois nenhuma boa alma quis realmente conversar, causando em mim a reação de me retrair. Na verdade, eu nem mesmo sabia por que ia. Talvez esperança de que alguém puxasse assunto comigo e me fizesse esquecer metade dos problemas que passei, quiçá voltar ao mesmo ritmo de antes com todos. O que era certeza, mesmo, era de que eu havia tirado meus restinhos de motivação para ir, mas estava desistindo a cada minuto porque estava com medo. Poderia ser só paranóia minha, contudo, eu sentia que não estava ainda tão preparada assim para me envolver emocionalmente com pessoas novas ou até mesmo conhecidas, mas pouco. De forma alguma.
Ainda assim, eu estava ali, cercada por Kyle, Alexis, Betsy, Ceasar e duas das novas contratadas. Ainda que eu estivesse receosa, ansiosa e com uma enorme vontade de comer qualquer coisa que me aparecesse, não desviei do caminho ao atravessar a rua. Não fiquei como uma coruja, apenas olhando os outros conversando, por menos que eu falasse. Mesmo que minha vida estivesse estagnada no “inferno”, eu precisava ter força de vontade para seguir. Paget me disse isso, e ficaria orgulhosa de mim, se me visse.
Descobri que uma delas, a ruiva, era Lygia, e a outra, Nancy. Eram amigas de infância, moraram anos na mesma rua, tiveram as mesmas escolas, amigos e, agora, empregos. A única coisa diferente, além do sobrenome, era a idade, já que Lygia era dois anos mais velha. Descobri também, mas não através de conversas, e sim pela troca de olhares, que Alexis e Ceasar não eram mais somente colegas de trabalho. Eu conhecia aquele tipo de olhar furtivo e os segredinhos por trás das palavras para despistar os outros. Havia feito isso três anos antes, quando comecei a sair com Kenneth, e há um ano e meio, quando resolvemos nos casar. Com a exceção de que eu e ele não tivemos que esconder por muito tempo por culpa de uma política de empresa nunca cumprida; relacionamentos entre empregados não eram permitidos (a menos que você fosse chefe de departamento e um completo escroto).
Assim que chegamos ao restaurante – um lugar até agradável, que misturava várias culinárias e ornamentações sem ficar chamativo –, um dos garçons, que já conhecia o rosto de todo mundo, levou-nos até a mesa onde costumávamos nos sentar. Éramos os primeiros, então já pediríamos para não esperar tanto. Menos de dois minutos, a mesa já fervia com as conversas paralelas. Eu apenas olhava e assentia.
– Tina disse que o problema do marido dela era pedra nos rins – disse Betsy para Ceasar. – Uma delas tinha o tamanho de um caroço de feijão, você acredita?
– Nossa! – Alexis se meteu no assunto. – Ele operou?
– E vocês moram juntas? – Kyle, cheio de más intenções, perguntou a Lygia e Nancy.
– Há quatro anos e meio – respondeu Nancy, parecendo já entender aonde ele queria chegar. Parecendo não gostar nem um pouco, também. – Por quê?
– Não, por nada – disse Kyle, com um sorriso de falsa simpatia e verdadeira taradice. Nojento. – Só acho interessante amigas de tanto tempo compartilhando a vida inteira com a outra.
– Geralmente é isso que se faz em casamentos também, não é? – Lygia observou, sorrindo também. No entanto, seu sorriso era irônico. – Esse negócio de compartilhar a vida e tal.
– Eu acho que é, sim. – Nancy meneou a cabeça.
– Concordo – disse Kyle, sem perceber até onde elas queriam chegar. – Mas é importante ter amigos assim também, principalmente para as mulheres.
– Tenho sorte de ter alguém assim, então – Lygia afirmou. – Principalmente pelo fato de essa pessoa ser minha amiga E minha esposa.
Em alto e bom som, todos na mesa ouviram e pararam para esperar a reação de Kyle. Instantaneamente vermelho e sem graça, ele ficou quieto por uns instantes. Lygia e Nancy deram as mãos e as puseram sobre a mesa, mostrando o par de alianças douradas. Alexis e Ceasar trocaram olhares cúmplices e de admiração pelas novas colegas, e imagino que os dois pensavam sobre um dia fazer o mesmo. Betsy e eu apenas olhávamos ao redor; ela tentando entender todo o excesso de informações, eu as processando.
– Infelizmente teremos que tomar alguma providência quanto a isso... – ele começou, tentando se manter sério enquanto seu rosto continuava em tom de escarlate. Eu queria muito rir daquilo. – Não é permitido o envolvimento de funcionários--
– Dentro da empresa. – Nancy o interrompeu. – Sim, eu sei. Li o contrato antes de assinar e estou ciente de tudo isso.
– Além do mais – Eu finalmente tomei coragem para falar mais quem “sim”, “não” ou “é mesmo” –, por que iriam tomar uma providência, partindo do princípio de que o próprio chefe de departamento se envolve com as empregadas?
– Não sei do que você está falando, .
– Eu sei – Betsy, que havia se situado finalmente, disse. – E garanto que muitas outras ex-estagiárias também.
– Mas a gente pode esquecer isso, se você esquecer a união das meninas – Sugeri por fim, sendo apoiada pela parte feminina (e Ceasar).
Kyle passou de pena a ódio de mim em dois segundos. O que muito me agradou, já que eu não queria ser motivo de pena, muito menos que ele gostasse de mim. No momento em que ele iria soltar mais uma evasiva, outro grupo de pessoas do escritório chegou. Foram se espalhando, sentando e expandindo os assuntos do caminho até ali para a mesa. Sharon, única pessoa que tinha chegado mais perto de manter contato comigo por toda a semana, sentou ao meu lado, cheia de sorrisos. O motivo era claro. E tinha olhos , cerca de 1,80m...
– Ele está solteiro. – Foi a primeira coisa que ouvi. – O nome dele é , tem vinte e dois anos e é com-ple-ta-men-te solteiro!
– Investe, então – falei sem muito entusiasmo, dando de ombros. – Você também está solteira.
– Será que eu devo? – Ela parou para pensar, falando mais para si que para mim.
– O que custa? Só lembre depois de me contar como foi.
Agradecendo o meu incentivo com um sorriso, ela assentiu. Sharon não era feia, muito menos o tipo de beleza estonteante de fazer um cara cair de quatro. Estava mais para a bonitinha simpática que agrada qualquer cara. Seria fácil para ela conseguir alguma coisa com o tal . Os dois tinham a mesma faixa de idade, com certeza teriam gostos parecidos e várias pequenas coisas em comum. Eu a invejava por ter dez anos a menos que eu e toda a vida pela frente, porém, ao invés de lhe desejar o mal, ajudava-a em algumas escolhas, quando que era procurada. Como agora há pouco.
Depois de alguns drinks e a certeza de que Kyle não me encheria mais o saco pelo resto da vida, fui embora. Alexis e Ceasar saíram poucos minutos antes, cada um com uma desculpa. Aposto que ririam de todos, achando que ninguém havia descoberto sobre eles. Sharon tomou coragem – duas doses com azeitona, conhecidas como Martini – e foi até assim que eu disse que iria embora. Senti-me feliz por ela. De certa forma, via-a como eu mais nova – motivo pelo qual tinha tanto afeto por ela, mesmo que nos restringíssemos a conversar no trabalho –, e era bom me ver feliz. Ou ver a minha projeção de felicidade nos outros, quem sabe...
Tough
Louise e Ramona me esperavam no pé da escada de casa, sentadas. Minha irmã tinha parecia sem paciência, e minha sobrinha, triste. Ao me verem, apenas Louise esboçou alguma expressão, tornando-se aliviada enquanto caminhava até mim. Pagando ao motorista, mal tive tempo para me virar antes de ouvir “Tome conta dela por hoje, ela precisa de você”. Até mesmo parecia que eu era o pai ausente da vida da filha de doze anos, e apesar de eu não estar exatamente com ânimo para bancar a conselheira – isso era o que significava “ela precisa de você” –, concordei.
Enquanto Louise dava as costas, olhei para Ramona. Seu rosto inchado e vermelho, assim como seus olhos, denunciava o choro, coisa que vinha acontecendo constantemente, pelo mesmo denominador em comum com o meu: homens – no caso dela, garotos. Compreendendo seu olhar pedinte, ofereci a mão a ela, que a segurou e se levantou para entrarmos. Em um silêncio cúmplice, ela ligou a TV e eu mexi no termostato, pois a temperatura do lado de fora era 7°C. Retirando o casaco e jogando-o junto da minha bolsa no sofá menor, sentei ao seu lado e fiquei a examinando por alguns segundos, até que se acalmasse e se sentisse melhor para falar sem voltar a soluçar.
– O que minha mãe te disse? – perguntou, sem desviar os olhos da TV.
– Que você ia ficar aqui hoje.
Com um som de compreensão, Ramona voltou a se calar. Abaixou os olhos e encarou as mãos, ainda cobertas pelas luvas. Se ela soubesse a sorte que tem por ainda ter doze, e não trinta e dois. Se soubesse como seria mil vezes mais fácil encarar um fiasco amoroso com essa idade, e não com a minha. Se eu ainda tivesse doze anos...
– Você estava chorando, não estava? – voltei a despertar sua atenção, vendo-a assentir. – O que houve?
– É complicado... – disse ela, enfim despindo as roupas de frio.
– Descomplique – retorqui de imediato. – É alguma coisa a ver com Louise?
– Também. – Ramona suspirou. – Mas é bem mais a ver comigo.
– Vai falando... – peguei suas roupas e atirei sobre as minhas, no outro sofá.
– Lembra aquele garoto que te disse? Joshua? – Assenti a sua pergunta. Vinha ouvindo sobre esse garoto há dois meses, como não lembraria? – Nós saímos umas vezes, uns dias atrás, e de repente ele sumiu. No início eu juro que não liguei muito, até fiquei quieta pra não incomodar ninguém, mas machuca ver que eu tô sozinha sem saber o que eu fiz de errado.
– Se você não sabe, é porque não fez – comedi. – Nem tudo que acontece de ruim é exatamente culpa nossa.
– Mas dessa vez eu sei que a culpa foi minha – ela insistiu, a voz fina como um miado. – Ele não teria sumido do nada se eu tivesse feito tudo certo.
Não teria? Por algumas semanas me perguntei o mesmo sobre Kenneth, porém, a resposta era sempre tão vaga quanto a pergunta era incisiva. Ele não teria me deixado? Ele não teria arrumado outra? Ele não teria me enganado sem razão aparente? E de tudo que havia acontecido, o quanto eu sabia? O que acontecia que eu nem mesmo imaginava? Depois do término, e somente depois de muito refletir, percebi que, na verdade, eu não conhecia nada, não sabia de nada. Não havia meios de eu saber absolutamente tudo, muito menos sobre uma pessoa. Só queria ter descoberto de maneira mais simples.
Talvez até nem quisesse saber, para me poupar da frustração e da humilhação que viria a seguir. Quiçá fingir não saber, por mais que isso fosse me torturar aos poucos até que eu tivesse uma última reação, que me levaria a todo o mesmo estresse. Eu adiaria a dor e me sentiria melhor durante um tempo. No fim, a única alternativa realmente aceitável era a de não saber. O que os olhos não veem, o coração não sente; não saber de nada é melhor que tudo.
– Já ouviu falar que existe mais coisas entre o céu e a terra que não sabemos? – perguntei, rodeando um pouco. – Uma delas é o que se passa na cabeça de cada um. Não se pode saber o tempo todo o que todo mundo pensa. E também não se pode sacrificar a si mesmo porque você não consegue decifrar a mente dos outros. Da mesma forma que pensamos independentemente das pessoas ao redor, elas também fazem isso. E se ninguém te obriga a contar tudo que se passa, por que você deveria fazer isso, Mon?
– Onde você quer chegar?
– Aqui – apontei para seu coração – e aqui – apontei para sua cabeça. – Se ele te deixou, foi porque achou que se sentiria melhor e te faria melhor assim; ele provavelmente percebeu que algo não se encaixava na cabeça dele, antes mesmo de você se dar conta de que vocês acabariam mal com isso. Foi um infeliz acaso, eu sei, mas o que você poderia fazer? Forçar uma pessoa a ficar é o mesmo que pedi-la para fugir. Se isso acontecesse, seria a pior coisa que você faria com ele e contigo.
Ramona, interessada e intrigada com o que eu dizia, abriu seus enormes olhos cor de ocre como os de Louise.
– Há também o detalhe de que vocês dois são mais novos. E mesmo que sua mentalidade esteja à frente das outras meninas (aliás, na sua idade eu ainda brincava de boneca), você é totalmente inexperiente. Nem mesmo eu, que já tive uma lista considerável de caras com quem saí, sei lidar bem com términos. Esse não é o ponto forte da nossa família.
– Até hoje minha mãe não gosta de falar sobre ela e meu pai... – comentou Ramona.
– E nem vale esquentar a cabeça com isso – adverti. – Do jeito que ela é, só vai querer conversar daqui a vinte anos. Ou mais.
Concordando com um riso fraco, minha sobrinha, mais tranquila e tão pensativa quanto antes, se esticou pelo sofá e pôs as pernas sobre a mesa de centro. Eu decerto não tinha acabado com todas as suas perguntas e preocupações, mas havia aliviado grande parte. Ramona nunca precisou muito de conselhos, na verdade, somente de um norte para refazer suas ideias. Geralmente eu que a fazia achar esse norte, por mais que minha própria vida andasse meio sem rumo. Em alguns casos eu até descobria mais sobre mim que achava que sabia.
O que não havia acontecido neste, uma vez que eu já havia descoberto, aprendido e aplicado.
– Então, Mon, o que a gente vai fazer? – tornei a puxar assunto, levantando-me e a encarando.
– Hoje é sexta, sexta é dia de comida tailandesa – disse ela, com um sorriso largo.
– Você não é Sheldon Cooper, não começa com essa de “dia de x coisa” – repreendi, fingindo mau humor. – Além do mais, já passa das dez e o restaurante deve estar fechando.
– O que tem pra comer?
– Comida congelada – respondi por instinto. Sempre sobrava metade de um Gouda, vidros de ketchup e mostarda e qualquer tipo de comida pré-cozida no congelador, no fim do mês. Terence e Paget que costumavam abastecer minha geladeira com fast-foods e refrigerante regularmente.
– Tipo...?
– Não sei, torta de frango, acho. – Dei de ombros. Ramona reagiu com contrariedade, mas no fim aceitou a opção.
– Vou baixar algum filme, enquanto isso.
Concordei, vendo-a se levantar e ir até o meu quarto. Sua pequena e magrela silhueta não negava que ela era filha de Louise. Na aparência, as duas eram idênticas, ao contrário da personalidade, cuja influência até hoje é um mistério. Talvez para a sorte de Lou, nada em Ramona lembrava o pai, que as deixou no primeiro mês de vida de Mon. A razão de sua partida não era nem um pouco secreta: Dave, um aspirante a ator, era genioso, vaidoso e cafajeste demais. Ele e Louise até haviam tentado manter uma relação saudável, e conseguiram durante cinco meses – tempo máximo que ela pôde esconder a gravidez, antes de a barriga ficar notavelmente grande, mesmo debaixo de roupas largas. Contudo, por ainda terem vinte e poucos anos, as carreiras ainda estarem no começo e a pressão ao redor deles, a cada mês que se seguia seus laços se desfaziam. Pior que perder o noivo de uma vez, como eu, seria vê-lo te deixando aos poucos, como ela. Eu entendia perfeitamente sua mágoa. Sua vontade de esconder de Ramona o pai relapso que Dave sempre fora antes de se mudar para Los Angeles para tentar a vida. E acatava seu pedido para não dizer uma palavra sobre o acontecido.
Por essa razão, toda vez que mãe e filha discutiam, uma tocava a ferida aberta e a outra a punha para fora – no caso, para minha casa.
– , você é dois anos mais nova, não é? – ouvi Ramona gritar.
– Aham – respondi alto, indo até o outro cômodo após pôr a torta para assar.
– Escolhe um dos sete pecados – ela continuou o questionário.
– Não sei... Luxúria? – era o único que eu me lembrava.
– Racional ou passional?
– Por que isso? – indaguei da porta, fazendo-a olhar para trás em reflexo.
– É um quiz, responde – ordenou Ramona.
– Passional. – olhei por cima do seu ombro, tentando descobrir sobre o que ela respondia e por que com os meus dados. – Sobre o que é isso?
– Espera, já vem o resultado... – Novamente entretida com o tal quiz, ela mal me olhou. – Da mitologia grega, você é... Eros & Psiché! “Eros (o cupido, filho de Afrodite) e Psiché (jovem de tamanha beleza que despertou a inveja da Deusa do Amor) viveram um amor intenso, até que ela o traiu por querer saber como realmente era seu amado. Para recuperá-lo, Psiché teve de passar por três desafios propostos por Afrodite, mas no fim a jovem mortal superou-os. Eros e Psiché voltaram a viver juntos e tiveram uma filha, Prazer.”
– Três perguntas chegaram a isso? – perguntei, cética. Nem mesmo sabia sobre essa história, achava que Eros era só o tipo de amor e Psiché era aquele conceito da Psicologia sobre a mente.
– Três mais sete – disse Ramona, em tom de riso. – Fiquei em dúvida nas últimas.
– Ah, sua engraçadinha! – estrilei. – Por que não fez de você mesma?
– Eu fiz – respondeu ela. – Sou a lenda de Ícaro, aquele que o pai criou asas pra fugir de Creta, mas o idiota voou muito perto do Sol e se espatifou.
– Pelo menos o meu final é feliz – constatei, levando-a a concordar. – E qual filme vamos ver?
– Que tal Cabaret? – Concordei com a cabeça. – Aqui no quarto, por favor. Sua cama é mais confortável. Aliás, vou dormir contigo hoje, ok?
– Definitivamente, preciso arrumar um namorado – comentei, olhando-a com os olhos semi-cerrados. – Dividir a cama com uma pentelha metida a adulta cansa.
– Pensamento positivo, vai que você encontra seu Eros?
– Do jeito que esse “Eros” parece gostar de mim, é mais fácil eu encontrar uma Psiché.
– Não tenho nada contra! – Ramona ergueu as mãos, ausentando-se de qualquer culpa.
– Eu só tenho uma coisa contra: mulheres não têm pênis. Pênis de verdade; pau, benga, caralho, sabe? – expliquei, gesticulando exageradamente. – Porque é disso que eu gosto.
– ! – Ramona me censurou, envergonhada. Não que não conversássemos sobre sexo, só o fazíamos de forma mais civilizada e educativa, e menos chula também. – Falar assim chega a ser abusivo!
– Quando se é mais novo ainda há grande distinção do que é abusivo ou não; o nome disso é pudor. Depois dos vinte, isso é exclusividade dos religiosos.
– Vou lembrar disso daqui a uns anos – disse Ramona, entre risos.
– Lembre e dê meus créditos – alertei. – Não quero meus poucos pensamentos inteligentes soltos por aí sem nenhum reconhecimento.
– Sem problemas – concordou ela, rindo novamente.
Disguised
As semanas se estenderam e minha relação com meus colegas de trabalho já havia passado do estágio de estranheza a normalidade – vários “Bom dia” e conversas de corredor durante o dia. Tinha conseguido até contar a Alexis e Ceasar que já sabia sobre os dois, o que rendeu mais confissões: ela estava grávida, e assim que ele conseguisse um novo emprego, pediria as contas para fugir de qualquer problema. Tinha também conversado mais com Lygia e Nancy, que tentavam uma adoção e eram criaturas adoráveis. Kyle não me olhava e só passava tarefas quase impossíveis em prazos inacreditavelmente curtos, sinal óbvio de seu sentimento bem alimentado de ódio por mim. (Eu nem mesmo me mostrava incomodada, na verdade. Ocupava minha cabeça e meu tempo.) Já Sharon e ... Eu não sabia, na verdade, porém, desconfiava que os dois continuassem saindo pelo jeito que andavam cheios de sorrisos – ele mais discreto, ela nem um pouco. Mal nos falávamos, pois Sharon ia embora correndo, sem nem se despedir.
No escritório eles já não eram mais novidade. Mal se comentava, aliás, a menos que fosse direcionado à inveja que sentiam de Sharon, uma das empregadas mais jovens e que teve a sorte de fisgar o novo contratado. Comum e previsível.
Durante o almoço, passava as duas horas com Alexis e Ceasar. Ao invés do mesmo restaurante, preferíamos andar um pouco mais para ter mais privacidade para conversarmos sobre o que quiséssemos – caso contrário, a cada mesa haveria um rosto conhecido. Nunca tinha notado como era agradável a presença deles antes do convite de Lexus, apelido que ela insistia que eu chamasse. Até mesmo marcamos de sair no fim de semana, com meus amigos e uns amigos deles, tamanha compatibilidade. Em partes, estava mais animada para trabalhar por causa dos intervalos. Parecia até que eu havia voltado ao colegial, de certa forma, contando os minutos para escapar do trabalho duro.
A diferença era que eu podia beber ao meio-dia, coisa que não faria nem louca, se tivesse quinze anos. Uma das regalias que a idade trás. Não que eu fosse a favor do avanço dela, já que a lei da Gravidade vinha junto e era cruel, mas o que eu poderia fazer contra?
(Aliás, um brinde à cosmética, grande aliada da mulher moderna nessa árdua batalha!)
Em homenagem à minha independência e experiência de vida (sinônimos de contas para pagar e velhice), tomava uma taça de Chardonnay enquanto esperava meu pedido chegar, fazendo inveja em Alexis. Ela e Ceasar foram forçados pelas circunstâncias a escolherem entre chá gelado e suco, uma vez que álcool é terminantemente proibido em razão do bebê e refrigerante só aumenta ainda mais os gases das grávidas, que já não são poucos. Logicamente, os dois não iriam querer arruinar a noite com – serei educada – flatulências.
Estávamos sentados na última mesa, encostados à parede, eu de frente para a entrada. Vez ou outra desviava o olhar para fora, quando percebia outras pessoas entrando, para aproveitar a deixa e destilar o veneno sobre elas – uma arte que domino bem, a propósito. E em uma dessas, não pude deixar de comentar:
– O novo casal vinte descobriu nosso esconderijo.
– Quem? – Alexis olhou na mesma direção que eu, curiosa e com uma pitada de preocupação.
Vi de soslaio Ceasar soltando sua mão, também se virando para ver Sharon e ainda na recepção.
– Querem que eu os chame? – perguntei por educação. Achava essa a melhor saída, uma vez que não tinha como ignorá-los ou apenas cumprimentar à distância sem que causássemos má impressão e desconforto.
– Não sei bem... – disse Ceasar, pedindo ajuda a Alexis para decidir.
– Se ninguém os chamar, vai ser bastante indelicado, afinal de contas, a gente passa o dia inteiro no mesmo lugar – argumentei. – Um pouco de educação nunca matou ninguém, não é?
– Tem razão – Alexis me apoiou, dirigindo-se a Ceasar. – Peça ao garçom para chamar os dois, por favor.
Com o pé atrás, ele atendeu ao pedido da namorada. Sorrindo mais que aquela garota da Disney que Ramona adora, Demi alguma coisa, Sharon chegou até nós com atado à sua mão. Poderia até dizer que em vez de caminhar, ela bancou a gazela e veio quicando. Era do seu feitio.
– Não acredito que era aqui que vocês se escondiam! – disse com animação, sentando-se.
– Faz uns dias, já – observei, sorrindo por simpatia. – Se você não me esnobasse, saberia.
– Tenho andado um pouco ocupada. – Lancei um olhar sacana para , ironizando o que tinha ouvido. – Com o trabalho, juro.
– Então nos conte o porquê – Ceasar instigou, com o mesmo ar de deboche que eu.
– Ordens superiores – respondeu ela. – Do chefe da empresa. Lygia, Nancy e precisam apresentar um projeto de melhorias até o final do mês, e eu serei a supervisora. Se o projeto for aprovado pela banca dos associados, eles serão efetivados, e eu, promovida.
Inconscientemente, senti inveja. A carreira de uma recém-formada deslanchava com mais facilidade que a minha, sendo que eu estava no meio há anos. E mesmo que soubesse que levaria tempo até me aparecer uma oportunidade como aquela pelo tempo que passei afastada e pelo próprio Kyle, não consegui controlar. Eu queria um motivo de alegria, ver todas as pessoas ao meu redor obtendo sucesso despertava esse sentimento sem que eu pensasse, entrando em conflito com o entusiasmo pelo primeiro avanço de Sharon. Como na física, uma força anulou a outra e acabei me tornando indiferente. Por sorte, não estava sozinha e outras pessoas também estavam interessadas no assunto.
– E o que vocês fizeram até agora? – perguntou Alexis.
– Estamos tentando fortalecer mais a equipe – explicou , já sentado. – Uma espécie de tutoria por parte dos empregados mais experientes durante o período de estágio dos mais novos, com reuniões regulares para controle do andamento. Isso em todas as áreas.
– Mas isso não pode correr pelo escritório – alertou Sharon rapidamente. – Como o projeto ainda não foi finalizado e apresentado, não podemos deixar outras pessoas saberem e influenciarem. Vocês são os primeiros.
– Me sinto honrada por isso – comentei sem emoção, logo levando à boca a taça. Estava explicado o motivo para eu não saber de nada por parte de Lygia e Nancy. Confiáveis elas eram, pelo menos.
– E vocês dois, hein? – ouvi Alexis dizer, voltando a tomar minha atenção. Fazia tanto tempo que não conversava decentemente com Sharon que tinha de ouvi-la contar suas novidades por alto. Quanto retrocesso.
– A gente tem se conhecido melhor – respondeu Sharon, contendo o sorriso.
– Também é melhor esperar para dizer mais – encerrou o assunto, sem parecer envergonhado, intimidado ou nervoso.
– Depois te conto – Sharon sussurrou. – Ele tem essa mania de ser reservado.
Assenti, conformada. Mais uma vez ficaria de fora, reclamando para mim mesma mentalmente, como uma velha. Ver Sharon cheia de toques com chegava a ser irritante, e apostava que não só para mim, mesmo que não pelos mesmos motivos. Empertigada, almocei e me arrependi por querer ser educada. Não que eu gostasse de ficar sobrando, mas entre dois casais e um só, preferia um só, sendo ele Ceasar e Alexis. Mesma faixa etária, mesmos problemas, mesmos assuntos. Compatibilidade perfeita.
Na volta para o escritório, fui sozinha. Sentia-me sufocada por ser a única solteira, sinal evidente da crise dos trinta, por mais que eu negasse admiti-la. Ou simplesmente mau humor, que, quando amanhecia em mim, fazia qualquer coisa se tornar incômoda, até mesmo reclamar da vida. A segunda opção era mais plausível, percebi um tempo depois, enquanto tive de revisar todas as fichas dos funcionários terceirizados a pedido de Kyle. Uma tarefa maçante e desnecessária, e exatamente por isso atribuída a mim.
Entendendo como uma provocação, comprometi-me a terminar tudo no mesmo dia, ainda que fizesse hora extra. Eu seria bonificada, no fim das contas, querendo ele ou não. Além do mais, não teria ninguém me esperando para entrar, quando eu chegasse em casa. Portanto, ative-me às pilhas de papel de forma a não me interessar por mais nada; fiquei cega e surda para o mundo. Além dos dados dos funcionários, na minha cabeça só havia o coeficiente de raiva reprimida pelo encarregado de me encher o saco. Eu não demonstraria o mínimo sinal de rancor, no entanto, porque, para Kyle, seria um sinal de fraqueza. Seria indiferente, para desestabilizá-lo na tentativa de me forçar a sair. Pelo tempo que eu estava na empresa, com a vida já equilibrada com base no salário que recebia, não iria embora por uma babaquice.
Ao pensar dessa forma, lembrei-me de Paget e seu discurso motivador inspirado em livros de autoajuda. Como se houvesse um lembrete sobre a minha mesa escrito em letras maiúsculas, sublinhadas e em negrito “FAÇA. VOCÊ CONSEGUE”. Eu conseguiria, sim, se quisesse. Eu queria, sim, se não entrassem de cinco em cinco segundos para perguntar se eu não iria embora. Eu iria, sim, se terminasse. Mas para isso acontecer, precisava que as outras sentenças não fizessem o mesmo.
Mais uma vez abriram a porta, e me negando a dar atenção, mal deixei de olhar a ficha em minhas mãos. Logo a porta se fechou novamente, porém, em vez de sozinha, estava dividindo minha sala com alguém. A pessoa se aproximou com passos leves, e eu apenas vi que era um homem, pelos sapatos à frente da mesa.
– Te atrapalho? – disse ele, cauteloso. Levantei meu rosto, vendo ali.
– Se eu responder, serei rude. Ou mentirosa – respondi com apatia.
– Ajuda? – ofereceu-se ele, sem se importar com meu tom.
– Ah, por favor – piei, agradecida e instantaneamente mis calma. – Me desculpe o mau humor, meu dia não tem sido o melhor.
– Tudo bem, nem o meu tem sido – confessou ele, sentando-se à mesa e analisando os papéis ao meu redor. – O que eu tenho que fazer?
– É só checar os dados desses funcionários – expliquei, voltando a abaixar o rosto. – Essa pilha é dos que já olhei, essa, não – acrescentei, apontando sem nem mesmo olhar.
– E quais os erros que eu tenho que procurar? – separando um pequeno grupo de folhas, disse. Ri sem vontade da sua pergunta, mas não por ele tê-la feito.
– Digitação – respondi. – Rasuras, borrões e coisas superficiais que geralmente estagiários fazem, e não quem já trabalha há anos aqui.
– Deve ter sido por isso que fui mandado pra cá dez minutos antes de acabar o expediente – ele observou, da mesma forma que eu.
– Kyle te fez isso? – indaguei com empatia, deixando de lado a cegueira por terminar, afinal, eu teria ajuda.
– Parece que ele não quer aumento no efetivo – constatou ele, dizendo nada além da verdade.
– Ultimamente, ele não quer é aumento do nível de testosterona por aqui – consertei, ouvindo-o rir baixo. – Aliás, a quantas anda o projeto?
– Já finalizamos, na verdade – continuava sereno como no momento em que entrou. – Mas Sharon às vezes fala um pouco além do necessário, então Lygia, Nancy e eu preferimos não levar tudo a ela agora. Quando estivermos mais perto do prazo, mostraremos.
– Entendo sobre esse ponto de Sharon falar demais e vocês quererem esperar, mas não é muito seguro fazer isso – ponderei, deixando a caneta que segurava sobre a mesa. Ele mudou as feições, indagador. – O motivo para ela ser a supervisora é porque ela também vai ser avaliada, e pra isso Sharon precisa estar a par de tudo. Fora que pode haver furos no projeto que ela, por trabalhar aqui há mais tempo, daria um jeito.
– Fazia parte do projeto não contar a ninguém antes do anúncio final, mas ela contou. Podia ter inventado qualquer coisa, até que estávamos juntos o tempo todo, mas não – retorquiu , apesar de parecer considerar o que lhe disse. – Ficamos receosos de ela acabar espalhando por aí e perdermos a chance de entrar pra H&G.
Por mais insensato e infantil que parecesse o plano dos três ao se olhar de fora, fazia sentido. Não fora por simpatia ou predestinação que fiquei sabendo de grande parte da vida de Sharon; nós ainda nem havíamos saído juntas fora do expediente ou daquelas horinhas de happy hour, conversávamos somente no escritório. Entretanto, eu não poderia ser a favor de algo que a prejudicaria sem que uma voz insistente e chata ficasse martelando na minha cabeça, levando-me a contar ou à loucura.
– Querem ajuda? – ofereci-me sem nem pensar, no fundo, surpreendendo-me comigo mesma. – No que estiver ao meu alcance, podem pedir. E acredite, sei de histórias daqui que ninguém imaginaria, guardar um segredo por algumas semanas é fácil.
– E você vai ter tempo? – novamente olhou ao redor, indicando-me por entrelinhas que Kyle estava nas minhas costas, chicoteando-me com trabalhinhos desnecessários.
– Já estava na hora de mudar as minhas prioridades, mesmo. – dei de ombros, sorrindo como se não ligasse. Uma mentira, a propósito, pois eu teria de arrumar um pretexto para mandar meu chefe tomar no cu para o espaço.
– Se é assim, então aceito – agradecido, ele sorriu também, e eu pude concordar com os comentários da primeira semana em que o vi: dentes perfeitos, bem alinhados, brancos e harmônicos. Combinavam com seus olhos bastante .
– Quando podemos começar? – perguntei, empolgada com a ideia de sair daquele ambiente, mesmo que fosse para trabalhar mais. Eu duvidava muito que Kyle iria conferir ficha por ficha da maneira que eu estava fazendo até então, ele já devia estar bem longe dali.
Cheer me up, turn me on
Assim que acertamos a forma que eu ajudaria, ligamos para Lygia e Nancy para marcar a primeira reunião – decidida por que seria de urgência. Dez minutos depois, estávamos a caminho da casa delas, onde estavam todas as planilhas e relatórios. A ideia de me envolver em algo diferente do habitual criava uma nova perspectiva, cujo futuro – e até mesmo o presente – parecia mais promissor. Por mais que a maioria dissesse o contrário, eu gostava de trabalhar, interagir com as pessoas e o ambiente. Principalmente quando não me havia nada para ocupar a mente, uma vez que eu estava saindo para outros lugares tanto quanto tinha tempo livre no trabalho, ou seja, nada.
Tomamos o metrô das sete para Ladbroke Grove, conversando sobre ambições pessoais e comparando nossa vida hoje e dez anos atrás – a minha era parecida com a de atualmente, e a dele soava bem familiar com a de Ramona. Não me surpreendia que houvesse histórias de ex-namoradas loucas que tentaram “amarrá-lo”, os hormônios sempre foram inimigos fatais das mulheres, mesmo que elas não percebam que só estão agindo em razão deles – experiência própria. Já no meu lado do assunto, evitei falar sobre antigos amores e dei ênfase aos casos engraçados da minha família (como a vez em que meu pai, de férias, ligou para minha mãe, trabalhando, para saber se o controle da TV estava com ela, quando, na verdade, ele havia deixado cair atrás do sofá). Bom ouvinte, prestou atenção e reagiu positivamente, e até comentou que eu não parecia ser o tipo de pessoa com a vida tão hilária. Ele só não me conhecia, tinha tantas histórias que umas chegavam a ser trágicas, de tão cômicas.
Chegando à estação, percebi que estava morta de fome – o mau costume de comer antes de ir para casa fazia efeito. Usando como desculpa não saber que horas terminaríamos, pedi a que me acompanhasse enquanto eu procurava algumas besteiras para levar, na loja de conveniência ali perto, que, aliás, estava bem movimentada. Logo na entrada – que também era saída –, o fluxo de pessoas – garotas de quinze anos cheias de maquiagem, de salto alto e decote para fingirem serem adultas e comprarem bebidas – era intenso, de modo que tivemos de entrar em fila indiana, e tive a impressão de senti-lo pondo a mão sobre meu quadril enquanto as aprendizes de vadia o olhavam de cima a baixo. Porém, o momento fora tão curto que mal pude verificar, apenas ouvi burburinhos antes de a porta se fechar.
– O que é melhor levar? – ele perguntou, parado ao meu lado enquanto eu encarava fileiras de porcarias comestíveis.
– Uma barra de chocolate, pra dar uma despertada; pizza, que dá pra todos nós – falava ao mesmo tempo em que pegava. – Sorvete, porque todo mundo ama... Ah, essas balas de goma são uma delícia, já experimentou? – sem esperar resposta, continuei: – E preciso de algo para beber, qualquer coisa de Cranberry serve. Acho que é só.
– Só? – novamente perguntou, e só depois percebi ter o usado como carregador de peso, que não era pouco.
– Oh, desculpe a empolgação – tentei me redimir, tirando dele as minhas compras. – Como demais quando fico ansiosa, e ultimamente só tenho comido coisas assim, por causa da Ramona.
– Sua filha? – Indicando com a mão para que eu fosse à sua frente, ele quis saber. Caminhamos em direção ao caixa.
– Não, sobrinha – respondi rápido, como se fosse absurdo eu ter dado à luz a uma filha aos vinte, vetando o fato de que Louise fora quem fizera isso. – Não tenho filhos. Não cheguei nem perto de ser casada, que dirá ter um.
– Se bem que, hoje em dia, ter filhos e casamento é quase questão de múltipla escolha com só uma resposta correta – ele riu, levando-me a fazer o mesmo. – Meus pais mesmo, nasceram uma geração antes e aderiram à moda do divórcio.
– Deve ser ruim passar por isso – comprimi os lábios em sinal de compreensão, procurando minha carteira dentro da bolsa. – Tanto pros seus pais quanto pra você.
– Eles são mais amigos separados que casados. – explicou com bom humor. – E eu achava o máximo ter duas casas, um monte de brinquedos e meio-irmãos. Ser filho único cansa.
– Quando eu era pequena, dava tudo pra ser a única – ri comigo mesma. – Mas ao mesmo tempo gostava de ter Louise, principalmente na adolescência. Assunto de meninas, sabe como é...
– Entendo – disse ele. – Você ou ela é a mais nova?
– Eu, dois anos – respondi. – E não, não tenho neuroses com a idade – comentei em seguida, fazendo-o rir. – Tenho trinta e dois.
– Isso é bom, seus amigos não devem sofrer pensando no que te dizer no seu aniversário – ele supôs, com resquícios de riso.
– Basicamente – concordei. – Prefiro poupá-los e implicar com o meu reflexo, sozinha.
– Você não deve fazer isso nunca, então – observou com naturalidade, e ao entender o que ouvi, ri nervosamente. Não sabia reagir bem a elogios espontâneos quando não estava flertando de volta.
– Pelo contrário, acho um motivo diferente pra reclamar todo dia, de manhã – retorqui, desfazendo o contato visual e a ideia de que pensei “”, “flertando” e eu como a pessoa passiva a isso. Era ridículo, ele só estava sendo gentil.
– Mulheres veem coisas onde não há – disse ele por fim.
– Não é verdade – insisti infantilmente, vendo-o me questionar com suas expressões. – Vemos o que encontramos de novo e incômodo em nós mesmas, coisas que os homens não veem a mínima diferença se está ali ou não.
– Nós vemos, mas não damos tanta importância quanto vocês – foi sua defesa, que fazia algum sentido, mas não satisfazia.
– Deviam, porque em grande parte fazemos sacrifícios por vocês – rebati, finalmente alcançando o caixa após uma pequena fila.
– Engraçado, nunca pedi pra ninguém fazer.
– Você é tão chato e insistente, – alfinetei, desdenhando.
– Não fui eu quem continuou querendo se justificar. – Ele parecia simplesmente não se incomodar, tampouco importar com minha reatividade. Estava o tempo todo, desde o momento em que entrou em minha sala, sereno e equilibrado quando entrávamos em divergências ou discordâncias. Paciência de ouro, devo admitir.
– Não é que eu queira me justificar – comedi. – Há coisas que não adianta discutir, simplesmente são assim. Você que não quer aceitar.
– Temos visões diferentes até mesmo nisso – ele afirmou, cansando-me.
– Desisto, você é impossível e cansa a minha beleza, que já não é muita.
– Outra coisa que discordamos – ouvi comentar em tom mais baixo, ou tive a impressão de ouvir, uma vez que a atendente me perguntou ao mesmo tempo “Crédito ou débito?”. Pensei em pedi-lo para repetir, para calar minha vaidade com a provável resposta absurdamente diferente que ele diria. Eu precisava de um choque de realidade, de uma razão para encerrar a curiosidade de saber por que Sharon andava tão feliz por aí. Ela estava com , eles combinavam. Eu era a intrusa da história.
Passaram-se horas desde que começamos a reunião, apesar de ser sexta-feira e, no fundo, estivéssemos todos rezando para que o trabalho se fizesse sozinho e acabasse, deixando-nos livres para descansar. Metade das comidas que eu havia levado tinham sido consumidas – por sugestão minha –, fora os snacks que Nancy deixou sobre a mesa de jantar para que não precisássemos parar. E em certo momento esquecemos o que realmente deveríamos fazer para jogar conversa fora, por isso já beirava a meia-noite e ainda tínhamos planilhas à nossa frente.
Assim que ouvimos o relógio do escritório badalar, lá longe, dizendo que já estávamos no primeiro minuto de sábado, Lygia se levantou e deu por encerrada nossa reunião.
– Amanhã a gente continua – disse. – Tô exausta e não vou conseguir pensar nas próximas dez horas.
– Eu também, confesso – disse Nancy, as mãos sobre os joelhos, ambos paralelos.
– Pelo menos grande parte já foi acertada – comentei, distraída com um gráfico que olhava.
– Graças a você, . Muito obrigada – Nancy, doce como sempre, sorriu para mim. Deixei a folha sobre a mesa de centro, retribuindo.
– Não me agradeça, vocês que me salvaram do tédio mortal – comentei em tom de riso. – Aliás, eu quero vocês na equipe, não podia deixar passar, sabendo que podia ajudar.
– Se conseguirmos a efetivação, seremos eternamente gratos – se pronunciou com delicadeza palpável. A propósito, no fim da noite eu havia descoberto o quão educado, sensível e de porte ele era. Sharon era realmente sortuda por ter encontrado tão facilmente um cavalheiro (o que nos dias de hoje é raríssimo).
– “Eternamente gratos” pode ser substituído por “sairemos pra comemorar juntos”, acho melhor – dei a sugestão. – Mas, por enquanto, me levar até a porta é suficiente. Vocês devem estar cansadas de me ver aqui.
– Sim, claro – Lygia concordou, rindo com ironia pelo duplo sentido. Nancy e se aprumavam. – Vai também, ?
– Vou, sim – ele respondeu, retirando de vez a gravata que afrouxara horas antes, guardando a mesma na pasta que carregava durante o dia. – Já tá um pouco tarde, tenho um compromisso pela manhã.
Consentindo sem questionar ou pensar duas vezes, a julgar que o mais interessado em ficar ali tinha sido , após terminarmos de juntar nossos pertences e aliviarmos a bagunça que fizemos, as anfitriãs nos levaram à porta.
– Sem querer ser indelicada, mas já sendo, esse compromisso amanhã é com Sharon? – perguntei por curiosidade, na tentativa de puxar algum assunto enquanto caminhávamos para fora do pequeno condomínio residencial.
– Ah, não – ele riu baixo. – Um dos meus sobrinhos tem uma apresentação da banda dele no colégio, prometi que estaria lá.
– Que bonitinho, um tio presente – disse em tom de admiração, gabando-me nas entrelinhas.
– Você não é a única no mundo, – soou bem humorado.
– – falei rápido, vendo-o franzir a testa. – Me chame de , pelo menos fora do escritório. Formalidade é algo que eu dispenso da vida pessoal.
– Pensei que estivéssemos tratando de negócios até agora há pouco – ele observou com perspicácia, expondo minha contradição.
– Eu já não estou trabalhando mais, e você? – escapei rapidamente, levando-o a concordar com meu pensamento. – Qual linha você pega pra ir pra casa?
– É meio tarde pra você andar sozinha por aí – paternal, ele disse. Ri da sua atitude, olhando-o de canto.
– Já sei me cuidar, papai.
– Só isso não garante muita coisa – continuou , sem dar atenção ao meu sarcasmo. – Eu não gostaria de saber que você estava andando sozinha, à noite, se fosse minha namorada.
– Não tenho ninguém pra se importar com isso, por que eu mesma deveria? – indaguei, inexpressiva.
– Eu me importo – disse ele, dando de ombros.
– Então dê uma boa solução pra esse problema – retorqui, olhando-o diretamente, agora. Segundos sem resposta fizeram valer meu sorriso de vitória. – Foi o que pensei.
– Vamos dividir um táxi – o ouvi sugerir. – Passamos primeiro na sua casa, dividimos o preço até lá e o caminho até minha casa fica por minha conta, é claro.
– Você realmente se preocupa com isso? – perguntei com um quê de surpresa, porém, muito mais admirada.
– Claro que sim, eu ia querer que fizessem o mesmo pela minha namorada, irmã ou amiga – respondeu ele. – Vamos ver algum ponto de táxi por aqui, antes que fique mais tarde.
Concordei, lisonjeada (mais uma vez naquele dia), prendendo entre os lábios um sorriso bobo. O que aumentava minha admiração por naquele momento era, principalmente, a carência afetiva que sentia desde meu rompimento, pois desde aquela época não me envolvia com alguém. Nem ao menos casos de uma noite só – estava triste demais para sair. Aliás, ele tinha todo potencial para ser um caso de uma noite só. Não era justo Sharon ter chegado primeiro, muito menos a lembrança de que eu a incentivei a investir em aparecer, e ainda menos ele me tratar tão bem. poderia ter sido indiferente desde o início, porque até mesmo se me repudiasse, com aquele porte e aquela beleza recém-feita, eu me interessaria. E é tão inconveniente querer e saber que não posso.
Vi-me obrigada a compará-lo com outros, para tirar da cabeça a vontade de conhecê-lo mais a fundo. não era maduro como Kenneth, seu nome não soava tão bem; seus olhos podiam até ser , mas não eram tão vivos quanto os de Kenny; como casal, não combinávamos visualmente. tinha a irritante mania de erguer as sobrancelhas enquanto falava – e eu já tinha reparado até mesmo nisso! –, parecendo arrogante e prepotente. (E sexy.)
Kenneth me completava. não havia me traído. Mas se me atrevesse a beijá-lo, eu o levaria a ser tão igual a Kenneth quanto ele não deveria. Além disso, tinha a dúvida sobre ele estar ou não flertando, se estava apenas sendo educado ou mostrando gratidão. Era difícil enxergar o que ele queria me passar.
Consternada comigo mesma, quando conseguimos um táxi, tentei formar diálogos inocentes que não me fizessem mostrar interesse, muito menos que gerasse algum elogio vindo da parte dele ou da minha.
O caminho para Stanford Hill estava interditado em razão de um acidente, então o taxista pegou um retorno que ele dizia ser mais rápido, mas que para mim parecia mil vezes mais longo – portanto, mais caro – e cheio de curvas. Observando as ruas através da janela, reconheci a vizinhança que passávamos e o cruzamento em que paramos, e ao lado, o prédio de três andares em cor de tijolo. A janela maior do segundo andar mostrava a luz acesa, que atravessava a persiana fina. Olhar aquilo e reacender as memórias sobre os dias que passei ali me deu o único motivo que faltava para deixar de lado a ética e os bons costumes: Kenny poderia ser ótimo, mas não estava nem estaria mais na minha vida. Ele tinha seguido em frente, enquanto fiquei parada no tempo e só agora começava a pensar em dar os primeiros passos. E ao contrário dele, que não se aproximaria mais de mim, estava ali, ao meu lado. Convidativo, compreensível, impecável, delicado e muitos outros adjetivos que eu já havia pensado durante o dia.
Desviando o olhar da janela, não o encarei de imediato. A vontade que crescia em mim de acabar com toda aquela cordialidade superficial era equiparada ao bom senso. Eu iria simplesmente me jogar para cima dele e esperar que ele retribuísse? Não havia sequer uma constatação concreta de que ele queria algo. Mas ele é do sexo oposto, já não era o suficiente? Homens não dispensam sexo fácil, mesmo que de caridade. Não que eu quisesse que ele fizesse sexo comigo por pena, pelo contrário, era somente um exemplo.
– Você tá fazendo aquilo de novo – ouvi dizer, chamando minha atenção. Virei em sua direção, as expressões confusas.
– Hã?
– Você tá fazendo aquilo de novo – repetiu ele, parecendo divertido. – Murmurando um monte de coisas pra si, sem nem perceber.
Senti cada extremidade minha gelar.
– Não fiz isso, não – neguei inutilmente, pois minha voz aguda pelo nervosismo me denunciou.
– Fez, sim – ele riu, confirmando com um aceno de cabeça. – Não sei exatamente o que era, mas você parecia bem concentrada.
– Você ouviu alguma coisa específica? – investiguei, preocupada em não parecer (ainda mais) louca. fez que não. – Ainda bem.
– Embaraçoso demais?
– Um pouco... – Burra, burra, burra. Estúpida. Infantil. Maluca.
– O que é? – perguntou ele, curioso.
– Não é nada de mais, você não vai querer saber – soltei um riso fraco, fazendo pouco caso.
– Quero, sim – ele foi direto. – Se não é nada de mais, não tem problema eu saber. Pode até ser engraçado.
– Não é engraçado – repliquei, implorando por dentro para que ele deixasse de lado aquela história.
– Não tem problema – ele treplicou. Continuei com o mesmo semblante. – Vamos lá, , eu te contei minha vida quase toda, o que tem demais você me contar?
Tentei, juro que tentei dar um bom argumento, mas nenhum pareceu satisfatório, no mínimo.
– É que... – Resignada, suspirei com cansaço. – Queria estar no lugar de Sharon agora.
– Sozinha em casa, emburrada por que eu tive que ficar depois do horário trabalhando e amanhã não vou vê-la? – questionou, e havia sinal de desdém em sua voz.
– Mas no fim, é pra ela que você volta – observei. – É nesse lugar que eu queria estar, pois saberia que ia ter alguém pra me fazer esquecer os motivos pra estar chateada. Mesmo que só por uma noite.
Envergonhada, mal notei quando desviei do seu olhar, fitando minhas unhas curtas e com esmalte descascando – ainda andava um pouco desleixada com pequenos detalhes assim.
– Mesmo que o motivo pra você estar chateada fosse a pessoa em questão? – o ouvi em tom de compreensão.
– Principalmente – respondi. – Quando chegasse, nós íamos discutir ou ficar indiferentes, até a hora que ninguém mais aguentaria e cederia. Depois iríamos resolver nosso pequeno impasse no quarto durante a noite toda, e pela manhã não teríamos do que reclamar.
– Parece perfeito.
– Mas sempre tem um pequeno problema quando as coisas são perfeitas, né? – ri com ironia. – No meu caso, falta alguém.
– Não precisa faltar, a menos que você queira.
Voltei meu olhar para . Havia um sorriso enviesado querendo se mostrar por trás daquela máscara de autoconfiança, como se ele estivesse pensando da mesma forma que eu que era errado, mas ele não se importava. Foi naquele exato momento que eu pensei “Dane-se”.
Mas eu não podia me jogar para cima dele ainda. Se estivesse falando de outro, um amigo que quisesse me apresentar, eu quebraria a cara bem feio, a ponto de não conseguir olhá-lo no escritório. Já bastava estar bancando a solteirona carente para conseguir sua atenção.
– Mesmo? – perguntei, vendo-o assentir. – Eu quero alguém pra hoje, e não ficar esperando aparecer uma boa oportunidade.
– Você realmente não tá enxergando a sua oportunidade?
Da última sílaba pronunciada por ele para o segundo em que começamos a nos beijar não foi muito tempo. Toda a segurança de era presente até no jeito como me tocava, firme, sem hesitação. Seus lábios secos encaixavam-se com harmonia aos meus, que não se importaram em umedecê-los. O frisson que sentia serviu para duplicar – ou até mesmo triplicar – minhas sensações, fora a ansiedade para chegar logo em algo mais... Carnal.
Porém, por mais que eu jurasse a mim mesma ter esquecido esse nem um pouco pequeno detalhe, estávamos dentro do táxi. E o motorista havia sido bastante enérgico ao nos fazer lembrar disso, com uma pigarreada que seria capaz de pôr suas amígdalas para fora. A princípio, não desviei meu olhar para o retrovisor, para encarar o taxista; muito menos encarei , embora fosse sua boca que meus olhos estavam fixados. Aguardei um pequeno espaço de tempo para que eu me acostumasse com a ideia de que eu estava com alguém, depois de tantos meses. De verdade.
– Isso foi... – comecei, tentando me certificar de que não teria reações extremas, como gaguejar, rir desesperadamente ou algo do tipo. – Muito bom, admito.
– Espere até ver o resto – disse ele em tom sugestivo e convencido, fazendo-me rir baixo. Ainda próxima a ele, mirei seus olhos, fazendo uma de minhas mãos subir por sua coxa, deslizando pela calça de linho com facilidade. Alcançando sua virilha, ameacei retornar ao seu joelho. me reprovou com um som por trás dos lábios fechados. – Não faça isso, .
– Por quê? – perguntei como quem não queria nada. Havia deixado de encará-lo para contornar seu rosto com o meu suavemente, nunca encostando mais que o centro dos meus lábios e a ponta do nariz.
– Só a ideia de fazer amor com você dentro de alguns minutos já é tentadora demais – respondeu ele –, não me faça te despir aqui mesmo – completou em um sussurro, bem no momento em que minha orelha estava perto de sua boca.
– Só tem um problema nisso tudo – adverti, afastando-me bruscamente, fazendo-o se mostrar confuso. – Não vamos fazer amor, vamos fazer sexo. Quero que isso fique bem claro.
– Me desculpe, então – ele riu, talvez por eu ter levado esse detalhe tão a sério, erguendo as sobrancelhas daquela mesma maneira irritante. – Só não quis soar vulgar logo de cara.
Tornei a me aproximar, subindo minha mão por sua perna mais uma vez.
– Lembre-se que não tenho a mesma idade das garotinhas que você conheceu – fui levemente ácida. – Não me engano tão fácil assim com palavras pensadas. Além do mais, já vi e fiz coisas que talvez nem você tenha visto pessoalmente.
Era um blefe completo; nunca tinha sido o tipo promíscua durante o colegial, muito menos aventureira durante a faculdade ou ninfomaníaca durante os vinte. Minhas experiências mais extremas tinham acontecido por
Fazia movimentos circulares sobre seu membro coberto, alternando o ritmo e pressão, sentindo-o em “meia bomba”. Por culpa do taxista, não podia beijá-lo, o que não o deixava totalmente em minhas mãos, já que seus olhos estavam muito bem abertos, avaliando-me. E ele sustentava prepotência em seu olhar, desafiando, instigando-me. Respondendo a sua atitude, fingi inocência ao chegar ao zíper de sua calça, abrindo-o lentamente para que o barulho não despertasse a atenção do motorista – no fundo, bem no fundo, estava torcendo para que ele fosse um pervertido e ficasse apenas nos observando, assim não incomodaria. Deslizei minha mão para dentro da peça de , recebendo um sorriso de aprovação. Com uma camada a menos de roupa, conseguia sentir sua pulsação mais forte e sua sensibilidade maior ao meu toque. Ele se ajeitou sobre o banco, abrindo mais as pernas para ficar mais confortável e, por consequência, facilitar meu trabalho. Contornei seu pênis com meus dedos o máximo que pude, esfregando-o repetidas vezes. Meus olhos não se desprendiam dos dele, que já não pareciam mais tão confiantes quanto antes, mas, sim, apreensivos. Quem estava manipulando quem, agora?
Com certa dificuldade, puxei de partes em partes a cueca de , até que minhas mãos encostassem-se à sua pele. Sentindo sua respiração bater forte em meu rosto, vi uma de suas mãos se pôr sobre a minha, do lado de fora, guiando o ritmo exato em que ele queria. Mordi meu lábio inferior devagar, querendo beijar sua boca entreaberta a qualquer custo. Mas por um instante de sensatez, desviei meu foco para a janela, vendo minha vizinhança. Retirei num impulso minha mão de sua pélvis, procurando minha bolsa pelo banco.
– Estamos chegando – expliquei a , desnorteado com minha ação relâmpago. – O prédio no fim da rua, por favor.
O Sr. Amídalas-garganta-a-fora apenas me olhou pelo retrovisor, parecendo furioso. Ortodoxos... Não sabem o que é uma diversão.
– Você é louca – murmurou, numa mistura de surpreso e admirado. Sorri de forma sedutora (ou eu achava que era, pelo menos).
– A culpa é sua, você me incentivou. – Busquei minha carteira dentro da bolsa. – Feche o zíper, ninguém além de mim precisa ver o que tem aí, hoje.
– Serviço incompleto? – ele zombou, fazendo o que mandei.
– Espere até ver o resto. – Pisquei de um jeito sacana, levando-o a rir.
Assim que o táxi parou, estendi setenta libras para o motorista e praticamente expulsei do carro, para que eu pudesse sair em seguida. Ao ouvir o homem protestar de dentro do automóvel, respondi a ele para que ficasse com o troco, uma recompensa por não empatar tanto. fingia ajeitar seu terno, escondendo sua animação.
– Vai na frente – ordenou quando estávamos sozinhos novamente. Concordei, subindo a pequena escadaria até o hall, tendo-o em meu encalço. Enquanto caçava a chave da porta, fui abraçada por trás, desconcentrando-me. – Dificuldade aí?
– Vai se divertindo, – respondi à sua pergunta irônica. – Eu já vou te lembrar quem é que ri por último por aqui.
– Isso é uma ameaça?
– Entenda como quiser. – Finalmente abri a porta, caminhando em passos largos até meu apartamento, através do corredor que pareceu três vezes mais comprido. Não era como se eu estivesse louca de tesão, o problema era que a roupa que eu usava não me ajudava a suportar o frio que já fazia àquela hora, ao contrário da temperatura mais amena por volta das seis. E assim como vontade de ir ao banheiro, quanto mais perto de casa ficava, mais aumentava.
Bastou eu pôr os pés na sala para o telefone tocar. A julgar o horário e a inconveniência, seria um dos meus amigos mais próximos. Murmurei um “Fique à vontade” para antes de correr para o telefone, retirando os sapatos pelo meio do caminho.
– Onde você esteve?! Passei o dia inteiro te ligando! – O discurso era digno da minha mãe, porém, era Ramona.
– Fiquei trabalhando até tarde – falei despreocupada –, por quê?
– Preciso de você amanhã, às nove, pronta e na minha casa – ela não deu opções.
– Para...?
– Joshua vai se apresentar com a banda dele amanhã, no meu colégio, e eu preciso muito que alguém me leve – choramingou, tentando algum tipo de chantagem emocional. – Ele disse que o tio dele vai também, é uma boa oportunidade.
– Ah, jura? – Liguei os pontos rapidamente, olhando de soslaio para , que, de costas para mim, acertava o termostato.
– Sério, – Ramona interpretou diferente meu tom de voz, forçando-se a soar apelativa. – Por favor, por favor! Fico te devendo uma.
– Eu vou cobrar, acredite – fiz-me de séria. – Mas pode deixar, amanhã às nove apareço por aí.
– Muito, muito, muito obrigada, ! Te amo – disse ela por fim. – Até amanhã.
– Até, Mon. – Desliguei o telefone, despindo-me do blazer. – Aconteceu um imprevisto.
– O quê? – frustrado, perguntou. Após se virar e caminhar em minha direção, reparei que já estava sem sua pasta. – Tem alguém vindo?
– Não, isso não. – Retirei minhas pulseiras e anéis, reparando só depois que fazia o mesmo ritual dos dias comuns. – Parece que vamos ter que dar uma de cupido amanhã.
– Como assim? – ele continuou a questionar, sentando-se quando eu fiz o mesmo e dei leves batidas no sofá para que me acompanhasse.
– Qual o nome do seu sobrinho? – indaguei, segurando a lapela do seu paletó.
– Joshua, por quê? – O vi arquear a sobrancelha, confuso. Soltei a lapela para invadir seu paletó, induzindo-o a tirar a peça.
– Acabei de descobrir que minha sobrinha, Ramona, quer ir a um showzinho de uma banda do colégio dela amanhã. Quantas escolas da cidade estariam promovendo o mesmo evento, no mesmo dia? – expus a coincidência, e suas expressões se suavizaram. Pus minha mão sobre o segundo botão de sua camisa para abri-lo, pois o primeiro já estava aberto desde o momento que ele retirara a gravata. – Quer ficar aqui?
– Pra dormir? – pareceu não se incomodar por eu estar conversando enquanto retirava sua roupa. Geralmente, com Jeremiah, bastava eu baixar a voz e mostrar um pouco mais o decote para ele praticamente explodir minhas roupas e me fazer calar a boca. Não só ele, a propósito.
– Passar a noite seria o termo ideal – corrigi, puxando sua camisa para cima, libertando-a da calça. – Amanhã teremos de ir ao mesmo lugar, não vejo mal nisso.
– Por mim, tudo bem. – Ele não esperou que eu retirasse a peça, fazendo-o sozinho. – Só quero saber por que só eu tô tirando a roupa por aqui.
– Você é a visita, quero te deixar confortável – disse em tom de brincadeira, fazendo o dedo indicador e médio “caminharem” por seu tórax.
– Ficaria mais à vontade se não fosse o único pelado por aqui – ele disse da mesma forma, inclinando-se na minha direção. Ri antes de voltar a beijá-lo, agora com mais intensidade e liberdade. Meus dedos em seus cabelos; seus dedos invadindo minhas roupas. Minhas unhas arranhando sua pele; seus braços me cercando, apertando, arrepiando. Bastaram alguns minutos até que a blusa e a saia estivessem no chão, o cinto de aberto, ele sentado no meio do sofá e eu em seu colo, dominando-o.
Segurando firmemente seus fios de cabelo pela raiz, puxei a cabeça de para o lado, beijando seu pescoço e pressionando minha pélvis contra a dele, provando-o e sentindo sua pulsação. Ele segurava minhas nádegas, não me deixando sair de perto, até que escorregou uma de suas mãos para dentro da minha calcinha, um pouco úmida pela animação de nós dois. Arqueei minhas costas quando senti seus primeiros estímulos em minha vulva; rápido e enérgico, movia dois dedos maravilhosamente. Concentrada em reagir a ele, mal me lembrei do que estava fazendo momentos antes.
– É assim que você gosta? – o ouvi perguntar próximo ao meu ouvido, fazendo-me assentir. – E se eu for mais fundo? – dito isso, ele me penetrou com os dedos. Ajeitei-me sobre seu colo, aumentando o contato.
– Mais forte – fui incisiva, sem nem mesmo o olhar, as pálpebras pressionadas umas contra as outras.
girou, deitando-me e retirando seus sapatos. Masturbou-me com mais força, como eu havia pedido, e ao abrir os olhos, encontrei os dele, que me encaravam com o mesmo tesão que havia visto dentro do táxi. Sustentei seu olhar enquanto meu peito subia e descia mais rápido, às vezes mordia o lábio inferior quando ele tocava minhas áreas mais sensíveis. Ele avançou sobre mim, tirando meu sutiã com sua mão livre e o auxílio das minhas, que em seguida o trouxeram de volta para os meus lábios. Quando estava bem molhada, foi a vez da minha calcinha de ir embora, e esfregou toda minha intimidade para lubrificá-la. Naquele momento, eu o queria dentro de mim muito mais que antes.
– Camisinha – falei contra seus lábios, com certa dificuldade. – Você tem?
– A gente realmente precisa disso? – murmurou ele, frustrado.
– Claro que sim – ralhei sem aumentar o tom de voz (não conseguiria nem se quisesse). Arfava incessantemente, era difícil até mesmo pensar. Não que eu estivesse o fazendo muito. – Banheiro... Primeira gaveta.
Entendendo rapidamente minha mensagem, ele se levantou e sumiu pelo corredor. Não era muito difícil achar o banheiro, mas só o tempo que ele levou para ir até lá me fez segui-lo. Entrando no pequeno cômodo, encontrei-o meio atrapalhado, pois as calças estavam escorregando por sua perna, alcançando já o meio das coxas. Sorri com maldade no rosto, balançando a cabeça levemente para os lados ao vê-lo naquele estado; riu, erguendo as mãos como se ausentasse da culpa. Puxei-o pelo quadril contra mim, retirando sua boxer – como vim a descobri só naquela hora – junto da calça, masturbando-o pela segunda vez. Abaixei-me até que minha boca estivesse à altura do seu pênis, que chupei uma única vez, só para fazer ficar com vontade. Estendi a mão para que ele me desse a camisinha, porém, ele se negou a me entregar.
– Vamos acabar logo com isso, – pedi, entediada. Estávamos perdendo um tempo precioso.
– Já vamos fazer isso – ele disse, alcançando-me pela cintura e me encostando no balcão. – Mas vamos fazer um teste antes. – Então ergueu uma das minhas pernas, encaixando-se em mim. Relutei contra sua atitude, embora minha repreensão tenha sido somente um gemido baixo. – Assim é fraco demais pra você, não é? – perguntou, e nem formular uma resposta eu conseguia. Seria contraditório demais dizer para ele parar, sendo que eu queria que ele continuasse. – Você gosta que eu vá com mais força, não é, ?
estocou mais forte, chocando minha lombar com o tampo do balcão. Já tinha perdido meu equilíbrio mental, não conseguia falar nada, por mais que tentasse. O único jeito com que eu protestava era apertando-o em mim, uma saída tão falha que tinha efeito contrário e o fazia ir e vir ainda mais vezes. Espalmei minhas mãos em suas costas para me segurar, pois a diferença de altura me fazia ficar na ponta do pé, e eu não estava exatamente em condições de bancar o Saci. , notando o que eu havia feito, segurou minha outra perna, fazendo-me enlaçá-lo pela cintura. Apoiei minha cabeça em seu ombro, agradecida.
– Onde é o quarto? – indagou com a voz falha, provavelmente por estar me carregando. Eu não era lá tão leve assim.
– Última porta – respondi, segurando-o dentro de mim o máximo que pude.
Zonza de prazer, não percebi em que momento chegamos à cama, apenas que já estávamos desforrando tudo. As pernas de estavam entrepostas às minhas, assim como seus braços estavam mais próximos do meu tronco que os meus próprios. Eu não tinha o costume de abrir os olhos durante o sexo, mas com ele eu me esforçava em mantê-los semicerrados, pelo menos. A imagem de nu, seu corpo sobre o meu, nossos perfumes e nossas respirações se misturando, fora suas investidas na medida certa, deixavam-me extasiada. Para um garoto novo, ele dava um banho em muitos com quem já saí.
– ... – sussurrou ele, mordendo o lábio inferior com força. – Eu tô quase lá.
Dei-lhe um beijo breve, dispensando palavras para que lhe dissesse que não tinha problema.
– Me dá – pedi por impulso, não ligando se pareceria vulgar. franziu o cenho, e eu via que estava se controlando ao máximo. – Eu quero engolir.
Ele pareceu surpreso ao entender o que tinha dito, mas ainda assim aceitou. Pôs-se de joelhos sobre o colchão, enquanto eu tive de ficar de quatro à sua frente para chupar somente sua glande. Masturbando-se, finalmente se deixou chegar ao ápice, gozando em minha boca enquanto arfava, aliviado. Não fiz a mínima questão de ficar muito tempo com o gosto do seu esperma em minha língua, então logo o engoli, lambendo a ponta do seu pênis para mostrá-lo que já tinha dado um fim àquilo. Erguendo meu olhar de encontro ao seu, vi seu sorriso satisfeito.
– Deita – disse ele, soando sensual. Concordei, retornando à posição que estava, observando-o se colocar entre minhas pernas. – Agora é sua vez, ok? Quero ouvir essa sua voz linda.
Assenti, fechando os olhos mais uma vez. Tão mágico quanto os dedos de era o oral que ele fazia. Além dos movimentos circulares, ele massageava meu clitóris de vez em quando, chupando-o e arrancando gemidos involuntários do fundo da minha garganta. Tive de apertar o edredom entre meus dedos fortemente quando comecei a sentir espasmos e arquear minhas costas. Respirar era quase impossível. Quando senti que estava próxima do clímax, mordi com firmeza meu próprio lábio e cerrei ainda mais os olhos.
– Não, não, não faz isso – ouvia dizer, distante. – Olha pra mim – obedeci com dificuldade, vendo-o próximo do meu rosto, reparando que ele me tocava mais uma vez. – Isso, agora geme, não precisa ter vergonha – completou, para em seguida distribuir beijos pelo meu colo, pescoço e rosto. Novamente o obedeci, deixando sons agudos e ofegos saírem pela minha boca, até que senti a exaustão chegando aos poucos.
Respirando fundo, soltei o edredom, meus dedos todos dormentes. tornou a me beijar, mais calmo – e cansado. Pôs uma de suas pernas para fora das minhas, deitando-se ao meu lado.
– Meu Deus... – murmurei, sorrindo abestalhada. Olhava para o teto, que parecia mais escuro que o normal.
– O que foi? – se apoiou no cotovelo para me enxergar melhor, fazendo-me virar em sua direção.
– Como eu consegui ficar tanto tempo sem isso? – perguntei em retórica, rindo comigo mesma.
– Que mal lhe pergunte, faz quanto tempo? – Ele tinha o cenho franzido, numa expressão estranha que me parecia engraçada, naquela hora.
– Não lembro exatamente, agora – menti. Sabia bem que era mais de um mês, algo que estava me fazendo subir pelas paredes. Sexo fazia muita falta. – E você – beijei-lhe rapidamente – tá de parabéns, .
– Obrigado – ele riu, acariciando meu rosto. – Você foi ótima, , principalmente no fim.
– Modéstia à parte, eu sou ótima – disse em tom de brincadeira, fazendo-o rir.
– Nós somos – corrigiu ele.
– Tudo bem, nós somos – consenti, abraçando-o. – Mas agora chega desse papo de dupla dinâmica, preciso vestir alguma coisa.
– Por quê? – questionou, segurando-me quando fiz menção de me levantar. – Acabei de te ver nua, te carreguei no colo desse jeito, não acha que já vi tudo que tinha pra ver?
Pensei novamente, concordando com ele. Rendi-me a ele, voltando para seus braços, apesar de ser uma atitude perigosa. Somente após ter feito o convite que refleti sobre o espaço que estava dando a ele dentro do meu mundo. Nós tínhamos acabado de transar, trair a confiança de Sharon e quebrar a política da empresa, não podíamos voltar atrás agora que a merda já estava feita, mas ainda assim, devíamos deixar claros os limites entre o que havia acontecido momentos atrás e o que aconteceria segunda-feira, no escritório. tinha sido apenas uma distração, uma forma fácil que encontrei para liberar tantos desejos impróprios reprimidos por tantas semanas. E mesmo que ele fosse surpreendente na cama e um cavalheiro fora dela, tínhamos reputações e empregos para zelar. E eu não podia nem cogitar a possibilidade remota de me apegar. Não mesmo.
Olhei para o lado, pronta para fazer um discurso sobre como iríamos tratar futuramente todo o ocorrido, contudo, já tinha os olhos fechados e uma expressão serena, sua respiração profunda e periódica. Ri fraco, ele deveria estar tão exausto quanto eu, e eu ainda querendo conversar... Desisti por aquele instante do que havia pensado por não sei tanto tempo – apesar de desconfiar não ter sido muito –, abraçando-o mais forte antes de me ajeitar para dormir, cobrindo-me até a altura do busto com a roupa de cama. Nossa discussão de relacionamento, ou qualquer coisa que fôssemos agora, ficaria para amanhã. Abrindo parênteses, devia assumir para mim mesma que, mesmo que efêmero, tinha gostado bastante do nosso caso. Ele não era nem de longe como Kenneth ou Jeremiah; eu estava agradecida por isso.

