Mais Do Que Eu Imaginava
Autora: Thais Cichovski
Status: Em Andamento
Revisada por: iza Caminada
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: Romance / Long Fic
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Capítulo 1
Meia noite. A lua cheia no céu sem estrelas, por causa da poluição, fazia pensar em tudo que estava acontecendo. Suas notas na escola haviam caído e o ano estava passando mais rápido do que o normal. Para uma menina de 16 anos, não era fácil suportar as pessoas fúteis com quem convivia a pelo menos quatro anos.
"Queria poder voltar para o Rio de Janeiro" - pensava ela, na varanda da casa de seus tios. No prédio em frente, uma adolescente vomitava pelo excesso de bebida, enquanto outra segurava seus cabelos. "Nada como não ter o que fazer em uma segunda-feira de feriado" - pensou. Até tinha uma festa na casa de um amigo, mas não estava em clima de festa. E por mais que tomasse seus remédios diariamente, continuava com aquele vazio confuso no coração.
- ? - disse Claúdia, sua mãe, entrando na varanda.
- Ah, oi, mãe - respondeu ela, desviando-se de seus pensamentos.
- Tem certeza de que não está com fome? A Amélia acabou de trazer um bolo de chocolate delicioso para a mesa!
- Eu imagino, os bolos da tia Amélia são os melhores! Mas eu realmente estou sem fome, mãe.
- Tem certeza?
fez que sim com a cabeça e olhou novamente para as duas adolescentes sentadas em um banco da área de lazer do prédio da frente.
- O que você está vendo de tão interessante? - perguntou a mãe, aproximando-se da filha.
- A festa parece estar divertida - disse ela, dando uma risada de leve.
- Minha nossa! A menina está passando mal mesmo! - assustou-se Claúdia, enquanto a observava vomitando mais e mais - Você não fica assim nas festas, né?
- É claro que não - riu um pouco, sem perder o olhar vazio.
- Estou te achando tão triste hoje, aconteceu alguma coisa?
- Eu estou bem, só um pouco preocupada com as notas.
- É, você precisa estudar mais.
- Eu sei - suspirou .
- Não sei por quê, mas sinto que não é só isso que está te encomodando. Acertei?
A menina pensou um pouco e olhou para as unhas pintadas de vinho.
- Não, é só isso mesmo.
- Espero que esteja sendo sincera, pois todos estão sentindo falta da sua animação hoje.
- Deve ser o sono - sorriu.
- Está bem - passou a mão nos cabelos da filha e olhou em seus olhos - Vou entrar. Se estiver com fome, já sabe.
- Ok, mãe.
- Amo você - beijou sua testa.
- Eu também.
A menina voltou a olhar para a festa. Nada além de pessoas andando em passos tortos. Seu pensamento já estava bem longe, quando decidiu entrar e comer o famoso bolo de chocolate de sua tia.
No prédio da frente, uma garota de também 16 anos era a responsável pela festa. Foram mais pessoas do que o esperado, a maioria desconhecidos, amigos de amigos de amigos. Esse era o caso de um menino que estava sentado cuidando de mais um bêbado.
- Eu te amo, ! - dizia o bêbado, confuso com as próprias palavras - Você é o meu "brother"!
- Eu sei, Ricardo, você já disse isso umas cem vezes!
- Eu nunca mais vou ficar bêbado, eu juro!
- Acredito em você - disse , mesmo sabendo que o amigo sempre dizia isso.
- Desculpa por ter beijado aquela menina.
- Que menina?
- A Giovana, sabe, aquela que você estava ficando?!
"Essa é novidade", pensou , mas logo lembrou do caso de dois anos atrás.
- O nome dela era Gabriela - corrigiu, mas nem deu tempo de Ricardo responder, que já estava vomitando toda a pizza que havia comido no jantar.
já estava acustumado com situações como aquela, em que o amigo passava mal, pedia desculpas e falava coisas sem sentido. Achava aquela uma ideia errada de diversão. Nunca precisou beber até cair para dizer que a noite valeu a pena. Mas acabou trocando a sua diversão pela de Ricardo.
A festa era boa, música boa, pessoas bonitas, mas sua insegurança o impedia de beijar qualquer menina. E no sábado seria igual. Imaginou-se na festa da Vanessa cuidando do amigo bêbado. Mas estava feliz, só não seguro.
Ricardo continuava pedindo desculpas e contando histórias de sua vida, mas a mente de permanecia longe. Estava faltando alguma coisa.
- , 5.9 - disse a professora de química, revelando as notas de mais uma prova.
- Eu desisto.
- Calma, , é quase um seis! - disse - Imagina eu, que tirei 3!
- Eu não aguento mais estudar! Faço isso o dia inteiro, mas não entendo por que tenho que saber tudo sobre uma coisa minúscula como um átomo!
- Para passar na faculdade, amiga.
- Odeio isso.
- Eu também, mas não tem jeito. Você está muito tensa ultimamente, precisa relaxar.
olhou para a melhor amiga como se já soubesse de alguma coisa.
- Qual é a festa e quem vai?
- Então - começou , colocando o cabelo para trás da orelha - Fiquei sabendo de uma festa de 15 anos esse sábado, da Vanessa Ribeiro, sabe?
- Não faço ideia.
- Eu só a conheço de vista, mas já arranjei três indispensáveis, para mim, para você, e para a .
levantou a sobrancelha, esperando que a amiga falasse o motivo de tanta animação.
- Tá legal, o Fernando vai.
- Sabia - disse ela, dando risada.
- Você vai, né? É sério, você anda muito desanimada.
- As notas estão me tirando do sério!
- Não é só isso, e você sabe bem. Depois que voltou da França, não te vejo mais alegre com nada. Essa não é a que eu conheço!
- Não é tão fácil assim - disse ela, com o olhar baixo.
- Tudo bem, o Jean é lindo e gentil, mas mora na França, você precisa entender...
- Eu sei disso, mas ele parecia tão perfeito até me trocar pela russa... E foi tudo tão do nada!
- Você não pode se culpar! Ele que foi idiota de te trocar pela ninfomaníaca!
- Mas a gente nunca brigava, estava tudo perfeito, e de repente... Ah, o resto você já sabe.
- Ele queria alguém que fizesse qualquer coisa que ele quisesse, e esse alguém foi a russa, porque ela não vale nada. Diferente de você.
ficou em silêncio e olhou para o chão. A professora continuava falando as notas, mas só conseguia prestar atenção na amiga, que tentava fingir que estava bem.
- Quem sabe você não se esquece um pouco dele.
- Eu quero muito.
Capítulo 2
Os dias se passaram rapidamente. Logo era sábado e estava chegando na casa de sua melhor amiga. Usava um vestido azul e parecia mais confiante do que no final de semana passado. usava um vestido rosa pink e unhas postiças grandes. Era a sua marca, sempre vaidosa e animada.
, uma recém-chegada no colégio, também combinou de ir junto com elas para a festa, tendo como local de encontro a casa de . As três eram muito amigas e sempre saíam juntas, mas desde que voltou da França, tem sido mais difícil convencê-la de sair para se divertir.
- , tira dessa música! - gritou , do banheiro, onde passava chapinha no cabelo - Coloca alguma mais animada!
- Ah, deixa só terminar, é tão linda... - disse ela, ao som de "Yellow" do Coldplay.
- É linda mesmo - concordou - Mas você precisa se animar, coloca alguma música eletrônica.
- Eu estou com um pressentimento muito bom - disse .
- Foi isso mesmo que eu ouvi? - assustou-se , saindo do banheiro - Você está com um pressentimento BOM?
- Sim.
- Você não sabe como é bom ouvir isso - disse a amiga.
- Só promete uma coisa pra gente - disse , parando de pentear o cabelo - Promete que vai esquecer esse francês, e que vai tirá-lo da cabeça? Não aguento mais te ver assim!
- Assim como?
- Promete? - ela insistiu.
- Prometo - suspirou - Por vocês.
As três se abraçaram por algum tempo e pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se bem.
- Agora, vamos nos arrumar, né? Já estamos atrasadas, pra variar! - gritou , correndo de volta para o banheiro.
O local da festa estava lotado, e cada vez mais convidados chegavam. Encontraram vários amigos, e sem que percebessem, já era meia noite. E a valsa começou.
Antes da aniversariante, quinze casais entraram na pista, enfileirados por ordem de tamanho. não conhecia nenhum, exceto Ricardo, um amigo de infância. E por mais que quisesse que ela se interessasse por alguém, nada acontecia. Não tirava o seu caso de férias da cabeça.
"Isso é ridículo" - repetia para si mesma - "Ele é só um garoto que eu conheci nas férias". Se Jean era realmente o problema, nem sabia. A depressão que crescia a cada dia parecia não ter fim, assim como as lembranças de seus doze anos. E além do mais, o medo de se machucar sempre fazia companhia.
Ricardo sorriu para ela. Eles não se viam há muito tempo, mas a amizade parecia permanecer.
O nono casal entrou na pista. Uma menina média e ruiva, acompanhada de um garoto alto e moreno, olhos pequenos e sorriso encantador. Era um menino bonito, mas não o bonitão do colégio. E talvez por isso tenha chamada a atenção de . Ele era exatamente o seu tipo, no jeito de andar, de sorrir, de olhar...
A balada começou, e em poucos minutos todos os garotos já tinham tirado o palitó e a gravata, e alguns até colocaram calça jeans. estava conversando com o barman, quando sentou-se perto da mesa de doces e começou a comer balas de iogurte.
- Você prometeu - disse , sentando-se ao lado da amiga.
- Faz exatamente um mês.
- Ok, faz um mês. E? - observou-a comer mais e mais balas - Você não pode parar a sua vida por isso! Sabe, , você é linda, gente boa, muito diferente de metade das meninas que estudam com a gente! Não quero ver você assim!
sorriu e, ao olhar para a mesa cheia de papéis de bala, percebeu o quanto estava desperdiçando o seu tempo.
- Olha só a quantidade de meninos lindos por aqui! - continou - Algum deles também pode ser maravilhoso, talvez até mais que o Jean. E eles não moram do outro lado do oceano.
pensou no quanto ficaria mal se visse uma de suas amigas assim. Tanta perda de tempo ficar mal por causa de um garoto qualquer!
- Você tem razão! - animou-se, abraçando a amiga - Eu vou curtir, já perdi muito tempo por causa de um francês!
- Isso mesmo!
- E quer saber? Eu vou ficar com outro! - levantou-se da cadeira e viu de longe o menino que havia gostado - E vai ser ele.
olhou para os lados, sem saber de quem a amiga estava falando, mas mesmo assim ficou feliz. Há muito tempo não via tão decidida, ou até mesmo fazendo qualquer coisa que nao fosse chorar.
- Você não sabe o quanto eu fico feliz de te ver assim!
As duas abraçaram-se, fazendo com que as pessoas que passavam ao lado achassem que elas estavam fazendo as pazes.
- Ainda está com o pressentimento bom?
- Mais até do que antes - respondeu , puxando a amiga para a pista de dança.
- O que aconteceu? - perguntou , mais animada do que o normal, abraçando as amigas em meio aos diversos tipo de luz jogados pelo DJ.
Uma coisa era certa para elas naquele momento. Não importa o que acontecesse, teriam umas as outras para confiar, ajudar e amar.
Ricardo sempre foi apaixonado por , desde seus nove anos, quando ambos estudavam juntos. Mas ao contrário dele, a menina jamais quis algo além de amizade. Depois que mudou-se para um colégio mais perto de sua casa, perderam um pouco o contato, e as saídas eram mais raras. Mas eles jamais esperaram encontrar-se na festa de Vanessa, sete anos depois.
- RICARDO? - gritou , no meio da pista de dança.
- Não acredito! ! - disse ele, surpreso pelo tempo ter passado tão depressa - Há quanto tempo não te vejo!
O resultado foi um abraço longo e cheio de segundas intenções.
- A está aqui!
- Eu sei, vi enquanto dançava a valsa! Vocês duas estão ainda mais bonitas!
A loira ficou completamente vermelha, principalmente pelo fato de que seu amigo de infância, antes gordinho e baixinho, estava alto e forte, e acabara de elogiá-la.
- Como você mudou! - disse ela, abraçando-o mais uma vez.
- Você também! - sempre foi bonita, mas quando pequena, ainda não havia tingido seus cabelos, nem ao menos usava maquiagem - Perdemos totalmente o contato! Como isso é possível?
- Eu não sei, é tão estranho!
- Eu cheguei a ver a algumas vezes, mas você sumiu!
Ambos olharam-se por alguns segundos, surpreendidos pelo quanto ainda se gostavam.
- Ricardo! - gritou , aparecendo de surpresa.
- ! - deu risada enquanto abraçava a amiga - Vocês... Não tenho nem palavras para explicar.
- Ah, essa é a nossa amiga, .
- Oi, tudo bom? - a cumprimentou e continuou sem tirar os olhos de .
- Bom, nossa amiguinha aqui anda muito triste ultimamente, sabia? - disse ela, referindo-se à .
- Não acredito! Vamos parar já com isso! Não é por causa de menino, né? Só o que faltava!
- Pior que é, Ricardo!
- Mas ela já se interessou por um aqui! - confessou .
- Quem? Nem eu estava sabendo disso! - surpreendeu-se .
- Não sei quem é, mas foi um dos quinze!
- QUEM? - perguntou Ricardo, curioso.
- Aquele ali, olha! - mostrou - Aquele que está conversando com o barman.
- O ?
- Sei lá, eu não o conheço.
- Vou falar com ele.
- NÃO! Ricardo, não faz isso! - puxou o amigo pelo braço.
- Relaxa, ele é o meu melhor amigo.
Desistiu de impedí-lo. Por mais que não o visse há muito tempo, conhecia-o muito bem, e sabia que mesmo que o segurasse pela festa toda, ele daria algum jeito de apresentá-los.
- O Ricardo não muda mesmo.
Viu de longe os dois conversando e olhando disfarçadamente para elas. "Que vergonha" - pensou, mas depois decidiu fingir que não estava vendo nada e voltou a dançar com as amigas.
- Ele está vindo para cá - comentou .
- Olhando para você - disse , rindo.
- Não, não, não - repetia para si mesma.
Mas em questão de segundos, alguém segurava a sua mão e a puxava delicadamente para perto. Olhou nos olhos dele e antes que pudesse pensar em qualquer coisa, já estavam se beijando. Não era o primeiro menino que beijava depois de Jean, mas era o primeiro que a fazia sentir-se feliz.
Logo eles já estavam juntos há duas horas. Era estranho como pareciam íntimos, sendo que nem se conheciam. Ricardo aparecia de 15 em 15 minutos, cada vez mais bêbado, dizendo coisas sem sentido. Mas quando deu quatro horas da manhã, os dois foram interrompidos por .
- Desculpa, gente, mas não dá mais para cuidar dos dois sozinha - disse ela, desesperada.
- O que?
- A e o Ricardo.
- Eles estão bêbados, ?
- Sei que não é novidade, mas eles já até vomitaram. E se os pais da aniversariante virem isso, não quero nem pensar!
e Ricardo sempre enchiam a cara em seus plenos 17 anos. Eram um problema para seus amigos.
- - começou - Por que você ainda faz isso?
- Eu, eu, eu - gaguejou, e logo em seguida deu uma risada perdida - Eu sou uma estrela cadente!
Os dois se olharam preocupados. Mas como situações como aquelas aconteciam com frequência, nenhum deles se desesperou.
- Vamos levar eles para o banheiro - disse , levantando a amiga.
- Ela vai ficar bem?
- , isso sempre acontece - respondeu ela, enquanto a menina repetia frases sem sentido.
No fim da festa, estava vomitando no banheiro feminino, e Ricardo no masculino. E, como sempre, e cuidando deles.
- É sempre assim com você também? - perguntou , segurando a lixeira para seu amigo vomitar.
- Sempre - respondeu , rindo - Eu nem devia estar rindo, mas fazer o quê?!
- Rir para não chorar.
sorriu e continuou ajudando a amiga. Alguma coisa naquele sorriso fazia esquecer de tudo. Era um sorisso simples e sincero, mas que conseguia deixá-lo sem palavras, coisa que ele jamais imaginaria.
- , meu motorista chegou, vamos? - disse , já sem os sapatos de salto.
- Ok - levantou e a apoiou no seu ombro - Tchau, ! Fala para o Ricardo que apesar disso eu adorei ter visto ele.
- Claro, quando ele estiver melhor eu falo - sorriu e por alguns segundos ficou olhando para ela.
- Ok, tchau - sorriu aquele sorriso e virou-se.
não tirava os olhos dela, e nas vezes que ela olhava para trás, ele acenava pensando se alguma vez a veria novamente.
Duas e meia da tarde. dormia tranquilamente, até jogar-se em cima dela.
- Bom dia, dorminhoca!
- Bom dia - sussurrou ela, tentando levantar-se.
- Você dorme demais!
- Eu sei - limpou os olhos e despertou - Lembra de alguma coisa?
- Lembro de você e do amigo do Ricardo - começou , sentando se em um dos colchões - Por falar nisso, você viu o Ricardo? Minha nossa! Ele está o maior gostoso!
- É, vocês combinam bastante, por falar nisso.
- Combinam, né? - comentou - Bêbados.
- Ah, gente, não é bem assim...
As duas olharam para a amiga com ironia.
- Não é bem assim?
- Ah, ok, desculpa!
- Achei o facebook do menino que a beijou! - gritou , ampliando a foto de - Sua sortuda, ele é bonito!
- Deixa eu entrar no meu facebook - disse , tirando o computador das mãos de . Digitou seu login e senha e a primeira coisa que viu foram três novos pedidos de amizade.
O primeiro era de Ricardo, o segundo de um desconhecido e o terceiro era do .
- O me adicionou!
As duas começaram a pular de felicidade pela amiga.
- Ele gostou de você!
- Ah, para com isso! Ele só me adicionou, não quer dizer nada.
Em alguns segundos uma janela do chat de aparecereu. Era .
- "Ah, para com isso! Ele só me adicionou, não quer dizer NADA" - imitou-a - E isso, quer dizer o que?
- RESPONDE! - gritou .
havia pedido o seu MSN, e claro que ela passou.
- Você merece, amiga.
- Gente, eu o conheci em uma festa. Sabe quais são as chances disso dar certo?
- A gente não está falando sobre dar certo, - disse - A gente só quer que você se divirta um pouco!
"O que vai fazer sábado?", subiu a janela no MSN.
- Viu só?!
"Nada, e você?", respondeu .
"Cinema às sete?"
parou de digitar e começou a observar o computador.
- Responde, !
- Será que é mesmo uma boa ideia?
- O que você tem a perder?
a encarou e sorriu ironicamente.
"Claro!", respondeu ela.
Capítulo 3
nunca ia àquele shopping. Era muito raro. A maior parte do tempo, ficava olhando disfarçadamente para as garotas que passavam com bolsas 'Louis Vuitton'. A maioria olhava para todos com desprezo e passava as unhas gigantes pelo cabelo perfeito.
Obviamente olharam para ela com desprezo. Não sentiu nada.
Há muito tempo convivia com pessoas assim, e ao contrário de antes, não se intimidava mais.
De longe, pôde ver esperando em frente à uma loja. Usava calça jeans, tênis e uma camisa xadrez. Ainda não tinha percebido que ela estava ali, estava entretido demais no celular. Nem se mexeu quando uma menina de vestido azul parou na sua frente. Ela tossiu.
- ! - levantou-se rapidamente e a cumprimentou - Desculpa, eu estava meio... hm, distraído.
- Tudo bem - disse ela, sorrindo - Eu percebi.
- Então, vamos ao cinema?
estava usando um vestido azul, assim como na primeira vez que se viram. Isso fazia com que não conseguisse parar de olhar, mas sempre ficava sem graça e então desviava o olhar.
Nenhum filme bom estava em cartaz no cinema, então a escolha foi assistir alguma comédia romântica.
- O final é sempre o mesmo - disse ele, colocando o refrigerante no braço da cadeira.
- Como assim?
- Você nunca percebeu? Todos esses filmes começam e terminam do mesmo jeito!
- Ah, não é bem assim.
- Pode ver, eu nem sei qual é a história desse filme, mas tenho quase certeza de que é sobre um homem e uma mulher que se conhecem de alguma forma engraçada, e que começam a se odiar, mas no fim, acabam gostando um do outro - abriu a barra de chocolate - É quase sempre assim.
parou para pensar e percebeu o quanto ele tinha razão. Adorava comédias românticas. A química é sempre maior quando um casal não se dá bem no começo. É como ódio e amor.
- É verdade.
- Viu só?
- Mas eu continuo amando esses filmes - deu uma risada sincera, aquela que deixava sem ar.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, até que as luzes do cinema apagaram e os traillers começaram a passar. Logo, estavam encostados um no outro, e no fim das contas, a escolha do filme não fez muita diferença, já que eles mal assistiram.
Mas estava certo. Era um filme sobre duas pessoas que se odeiam e se amam.
Nove horas, o shopping continuava cheio de gente, e os dois andavam abraçados e rindo. Talvez quem os visse, os achariam muito infantis, dando risada de coisas bobas e falando besteiras. Mas para eles, era como se tudo em volta não importasse tanto. Estavam se divertindo.
- Não acredito que você vem aqui toda semana e ainda se perde! - disse , rindo.
- É que tudo sempre muda de lugar! E eu também não sou muito bom com essas coisas.
- Tá legal, eu vou perguntar para a segurança.
- Não, esquece - disse ele, segurando sua mão - Eu tenho certeza de que é para aquele lado.
- Como assim? Claro que não! A sorveteria é para o outro lado!
- Eu lembro, é perto daquela loja!
- Eu também lembro, e é daquele lado!
- Você é teimosa, hein?
sorriu sarcasticamente, mas mesmo assim, gostava da situação. Era bom discordarem de alguma coisa. Na maior parte do tempo concordavam com tudo.
- É por ali! - segurou as suas costas e a arrastou para frente, em direção à alguma loja de bebês.
- Não, não, não! - disse ela, tentando andar para trás.
- Você é forte, mas não o suficiente - empurrava com mais força.
- Ah, você que pensa!
Os dois mal saíam do lugar. Algumas pessoas os encaravam com ar de superioridade, mas eles nem percebiam.
- Ok, eu desisto! - disse ele, a soltando - Você venceu!
- Certo, eu tenho certeza que é por ali!
Andaram um pouco e mais rápido do que imaginavam encontraram a sorveteria.
- Falei que eu sabia - disse ela, sorrindo sarcasticamente novamente.
- Como assim? Não é possivel! - deu uma risada.
- Ah, mas por quê? - perguntou ela, indignada de uma forma engraçada.
- Deixa para lá, - continuava rindo, e virou-se para a vendedora - Duas casquinhas de chocolate, por favor.
- Você é muito sínico - a forma como ela o encarava era engraçada. Tentava esconder um sorriso, mas não conseguia.
Pegaram o sorvete e passearam pelos corredores do shopping.
- E como ficou a sua amiga?
- Ah, ela ficou bem, mas...
- Eu sei como é, cansa.
- Eu não posso deixá-la, sabe? Eu já disse tantas vezes, mas ela continua fazendo isso!
- O Ricardo também. Mas tenta esquecer um pouco, .
Era bom ter alguém que a fizesse esquecer de alguns problemas. A maior parte do tempo só pensava neles e tentava buscar uma solução, mas nunca conseguia. Com , ela se sentia livre.
- Não sei como você consegue.
- O quê?
- Ah - parou para pensar em uma resposta, mas ficou com vergonha - Nada.
- Sério, o quê?
Olhou para ele. Sua boca estava suja de sorvete, e não conseguiu segurar a risada.
- O que foi?
- Sua boca - ficou sem graça. Tentou limpar a boca, mas não conseguiu - Calma, deixa que eu limpo.
pegou um guardanapo e limpou delicadamente onde estava sujo de sorvete. Enquanto isso, olhava para os seus olhos, tão que podia ficar horas os observando.
- Seus olhos são muito lindos.
- O quê? - ficou surpresa, parando de limpar sua boca.
não respondeu, simplesmente chegou mais perto e a beijou.
O resto da noite foi assim. Beijos, abraços e conversas engraçadas. chegou em casa pulando de felicidade. E , sem ar, simplesmente deitou-se na cama e ficou horas relembrando da noite.
Segunda-feira. contava todos os detalhes do que havia acontecido, enquando e animavam-se.
- Ele é um fofo!
- Eu sei! - disse .
Você é tão sortuda, ! - suspirava .
- Quando vocês vão se ver de novo? - perguntou , lixando as unhas.
Sexta a gente marcou se ir jantar junto com vocês. O Ricardo - olhou ironicamente para - e mais um amigo deles.
- Como é esse tal amigo?
- Relaxa, , eu falei para ele levar algum amigo pelo menos apresentável.
- Pelo menos apresentável? Eu odeio vocês.
- Mas a gente te ama - pulou em cima de , e fez cócegas.
- Tá legal! Tá legal! Eu vou! - concordou, cruzando os braços - Agora podem parar com isso.
Capítulo 4
Já haviam se passado quase dois meses, e e se falavam todos os dias, principalmente pelo computador. A cada dia que passava, superava mais os antigos problemas de aceitação. Não era fácil chegar todos os dias no colégio, tendo que aguentar pessoas que mal a conheciam, tratando-a como lixo.
Nunca entendeu bem por que as coisas eram assim. No começo se culpava. Não conseguia enxergar um defeito assim tão insuportável para ser tratada assim. Na verdade, eles nem a conheciam! Como podiam julgá-la desse jeito?
Vivia fingindo estar doente, para não ter que ir para o colégio. Andava de cabeiça baixa, sentia-se inferior a todos. Durante um bom tempo, andava pelo condomínio para esfriar a cabeça, para tentar ao menos entender porque tudo era daquele jeito. Mesmo quando chovia, colocava o gorro do casaco e passeava, acenando para os seguranças, que jamais poderiam imaginar o quão infeliz ela era.
"Quantas vezes eu vou ter que dizer o quanto você é linda?", dizia o bilhete mandado por .
- Linda? - perguntava a si mesma.
nunca fora feia. Quando era mais nova, não sentia necessidade de passar muita maquiagem, e de qualquer coisa do tipo. Vivia brincando de pega-pega, polícia e ladrão, e diversar outras brincadeiras de criança. Se divertia demais. Descia do prédio e jogava futebol com os amigos, ia na piscina, tinha paixões de criança, e acima de tudo, era inocentemente feliz. Não sabia o que era status social até mudar de colégio, aos doze anos.
As garotas andavam sempre muito arrumadas e tinham quase sempre o mesmo celular, a mesma marca de estojo, a mesma marca de mochila. Eram cópias. Diferentemente de . Os cabelos mal-cuidados eram motivo de zuação, e a maneira mais infantil de ver a vida também. Talvez infantil não seja a palavra certa. Mas, de qualquer forma, tudo o que saía de sua boca recebia um julgamente crucial.
Doía.
"Tem alguma coisa em você, no seu jeito, não sei bem... Só o que eu sei é que não consigo parar de pensar em você", continuou lendo, com os olhos brilhando. tinha depressão, tomava remédio diariamente. Pensava no que havia nela de tão especial assim. Como aquele garoto conseguiu enxergar isso? Jamais imaginou que poderia ser tão feliz. Já não tinha mais medo de ninguém, e nem sequer se importava com o que os outros pensavam dela, já que aquele menino gostava, e muito.
"Eu nunca vou cansar de você, ok?", leu as últimas linhas, "Com amor, ".
Nunca?
Capítulo 5
- ELE O QUÊ? - gritou , apertando a almofada em formato de coração.
- Isso mesmo que você ouviu. - repetiu - O terminou comigo.
- Não é possível! Até alguns dias atrás ele era louco por você! - jogou a almofada para a parede - Eu não entendo os homens.
- Nem eu.
voltara a ser insegura, cabisbaixa, e até mesmo depressiva. Nenhuma das amigas sabia o que fazer para melhorar aquilo tudo.
- Por que ele fez isso? Não faz sentido!
- Foi por causa do Gabriel Salamea.
- Quem? - perguntou , completamente confusa.
- Gabriel Salamea.
- Quem é esse cara?
- O quê? Aquele baixinho horroroso que se acha lindo? Você só pode estar brincando, né? - já havia agarrado outra almofada, e suas unhas compridas e fortes pareciam quase rasgá-la.
- Isso mesmo - segurava o colar com a inicial , enquanto algumas lágrimas saíam de seus olhos - O baixinho horroroso que se acha lindo falou para o que eu sou muito, hm... zuada.
- O QUE? - a almofada roxa havia rasgado - Ah, desculpa pela almofada. Mas o que esse menino tem na cabeça? Zuada, você?
- Eu mesma.
- , você é linda, não liga para esse idiota!
- É! Além disso, eles ainda conversaram sobre o fato de eu não ser, bom, do nível deles.
- DO NÍVEL DELES? Ok, já chega! Esse é um idiota!
- Eu concordo totalmente com a . Isso não é normal!
- Ele dizia todas as noites: "Eu nunca vou cansar de você", e por causa de um idiota qualquer, tudo acabou.
- Não! Por causa de DOIS idiotas! - agarrou outra almofada.
- Gente que liga tanto para status social não merece a sua atenção, amiga - segurou sua mão, tirando o colar com suas iniciais, da mãe de - Você vale muito mais do que qualquer ou Gabriel Salamea, sei lá como se pronuncia!
- Isso mesmo! - a menina apertou a almofada com mais força - Nenhum menino tem o direito de fazer isso com você!
- Nenhum!
- Ok, meninas, obrigada pela ajuda. Mas é informação demais para um dia só. Eu preciso ficar um pouco sozinha, com licença. - caminhou em direção ao quarto de hóspedes da casa de .
- , volta aqui!
- Não se preocupem, é sério. Eu só quero ficar um pouco sozinha, tentar colocar a cabeça no lugar - fechou a porta do quarto.
- Eu odeio esse ! - continuava com a almofada apertada pelas unhas.
- Ele é gay, só pode ser isso - brincou - Agora por favor, solta essa almofada antes que você a rasgue.
Capítulo 6
Dois meses se passaram, e continuava entrando todos os dias no perfil de em todas as redes sociais possíveis. Chorou quando ele mudou sua foto do facebook. Antes era a que ela havia escolhido, a agora apenas uma qualquer. Tudo a deixava para baixo. Tentava se distrair, mas as lembranças persistiam.
- Precisamos fazer alguma coisa, .
As duas amigas estavam sentadas em uma mesa da praça de alimentação do Shopping Center. Sabiam que a depressão da amiga persistia e, por mais que ela tentasse fingir que estava bem, era óbvio que não estava.
- Eu sei, . Mas eu acho que agora que estamos de férias será mais fácil.
- Mais fácil por quê? A gente precisa ajudá-la a ter mais auto confiança!
- Ela precisa tirar esse idiota da cabeça! Precisa se distrair!
- Já sei - já estava no terceiro brigadeiro de tanto nervosismo - Uma festa!
- Uma festa?
- É, uma festa - quarto brigadeiro - Na casa dela!
- O quê? Você está louca, né?
- Não precisa ser no apartamento dela! Pelo menos no salão de festas, ou qualquer coisa assim.
- Não sei se é uma boa ideia...
- Não custa tentar, !
No sábado, toda a festa estava pronta. O DJ já havia chegado, o salão estava escuro com milhares de luzes piscando, o bar estava repleto de bebidas alcóolicas. A cada, mais e mais pessoas chegavam. Amigos, amigos de amigos, e amigos de amigos de amigos.
olhava para tudo e lembrava das festas que às vezes frequentava. Alguém sempre saía machucado, ou até mesmo ia parar no hospital. Não queria que isso acontecesse na sua casa, sob sua responsabilidade.
- , será que foi uma boa ideia? Eu sei lá... E se der algo errado?
- Tipo o que? - segurou as mãos da amiga e olhou em seus olhos - Eu quis fazer isso para você se distrair, não para se preocupar. Relaxa, e curte!
A quantidade de pessoas que chegavam era inacreditável. Não conhecia metade delas, mas todas a cumprimentavam. Enxergou de longe, Danniel, um amigo que conheceu na praia. Não o via há mais de um ano!
- Danniel! - gritou, correndo para abraçá-lo.
- Não acredito, você mudou tanto, ! Estou até impressionado! Tá linda demais!
- Para com isso, Danniel! Você que está um fofo!
- Esse aqui é o meu amigo, !
era muito parecido com , mas apenas fisicamente. Cabelo escuro, olhos pequenos e sorriso encantador. Ficou perplexa e o cumprimentou numa velocidade mínima.
- Ok, divirtam-se, garotos! - deu meia volta ainda perplexa, tentando fingir naturalidade.
Depois de duas horas, quase todos estavam bêbados. passava mal, como de costume, e teve que ajudá-la.
- Quer ajuda? - perguntou , enquanto segurava a amiga.
- Não precisa, mas obrigada. Ja estou acostumada!
- Tem certeza?
- Absoluta - sorriu - Qual é o seu nome mesmo?
- .
congelou, não sabia como reagir até que ele deu uma risada.
- Brincadeira, meu nome é . Já me falaram que eu sou muito parecido com o seu ex.
- Ah, vocês não são assim tãããão parecidos...
escorregou e por pouco não caiu no chão. Graças a ajuda de .
- Obrigada.
- Tudo bem, mesmo você não lembrando o meu nome - sorriu, daquele jeito meio desajeitado.
- Qual é?! - deu sua primeira risada depois de tanto tempo - Você também não lembra do meu.
- Claro que lembro.
- Lembra nada, então qual é?
- .
Olharam-se por alguns segundos e sorriram como bobos.
- Eu quero vomitar! - gritou , totalmente inconsciente.
- Ai, meu Deus!
- Calma, eu tomo conta dela a partir daqui! - apareceu e segurou . Sabia que estava rolando um clima entre a amiga e o garoto, então decidiu dar uma força.
- Tem certeza?
- Relaxa, , eu sei cuidar dela - confirmou , puxando a amiga para o banheiro feminino.
não sabia se era bom ou ruim ficar conversando com o garoto que parecia o seu ex. Talvez fosse bom se distrair, nem que fosse só por uma noite.
- Ela sempre fica assim? - perguntou ele, ainda com o sorriso desajeitado.
- Sempre!
Riram, e enquanto conversavam sobre qualquer coisa, sentaram-se no sofá perto do bar.
- Você não vai beber?
- Não, eu nem posso.
- Por quê?
- Tomo remédio - sentia-se desconfortável em contar aquilo para alguém que mal conhecia.
- Ah, sim. Eu também quase não bebo. Não vejo graça.
- Não?
- Não.
- Você só pode estar brincando comigo.
- Por quê? Só por que eu não vejo graça em ficar tonto e falar o que eu quiser? Eu posso fazer isso sem ficar bêbado!
- Você está certo! Mas sei lá... - mexeu no anel do dedão da mão - É difícil achar alguém que não beba hoje em dia.
- Você e eu.
- É...
olhou para o chão, envergonhada, e ao olhar de volta para ele, seus olhos estavam em perfeita conexão. Não importava mais o que acontecia em volta deles, tudo o que ela queria era beijá-lo. A vontade era tanta, que o seu rosto quase chegava mais perto inconscientemente.
Sem dizer nada, aproximou-se dela, e como num filme, beijou-a como se ninguém estivesse olhando. Foi assim pelo resto da festa inteira. Os dois conversaram, riram, e se beijaram. Era uma química quase que perfeita. Às cinco e meia da manhã, todos já haviam ido embora, mas ficou para ajudá-la a arrumar a bagunça deixada pelos bêbados. Até assim se divertiam, jogando as garrafas de vodka vazias no lixo, pegando os objetos esquecidos, e olhando as fotos tiradas por Danniel.
Às seis e meia, voltou para casa, despedindo-se dela com um beijo. Um beijo de quero mais.
deitou-se em sua cama e pensou na noite maravilhosa que havia tido. Mas depois parou para pensar se tinha se encantado com ou com o fato dele ser muito parecido com seu ex.
Afinal, em quem ela estava pensando? ou ?
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Meia noite. A lua cheia no céu sem estrelas, por causa da poluição, fazia pensar em tudo que estava acontecendo. Suas notas na escola haviam caído e o ano estava passando mais rápido do que o normal. Para uma menina de 16 anos, não era fácil suportar as pessoas fúteis com quem convivia a pelo menos quatro anos.
"Queria poder voltar para o Rio de Janeiro" - pensava ela, na varanda da casa de seus tios. No prédio em frente, uma adolescente vomitava pelo excesso de bebida, enquanto outra segurava seus cabelos. "Nada como não ter o que fazer em uma segunda-feira de feriado" - pensou. Até tinha uma festa na casa de um amigo, mas não estava em clima de festa. E por mais que tomasse seus remédios diariamente, continuava com aquele vazio confuso no coração.
- ? - disse Claúdia, sua mãe, entrando na varanda.
- Ah, oi, mãe - respondeu ela, desviando-se de seus pensamentos.
- Tem certeza de que não está com fome? A Amélia acabou de trazer um bolo de chocolate delicioso para a mesa!
- Eu imagino, os bolos da tia Amélia são os melhores! Mas eu realmente estou sem fome, mãe.
- Tem certeza?
fez que sim com a cabeça e olhou novamente para as duas adolescentes sentadas em um banco da área de lazer do prédio da frente.
- O que você está vendo de tão interessante? - perguntou a mãe, aproximando-se da filha.
- A festa parece estar divertida - disse ela, dando uma risada de leve.
- Minha nossa! A menina está passando mal mesmo! - assustou-se Claúdia, enquanto a observava vomitando mais e mais - Você não fica assim nas festas, né?
- É claro que não - riu um pouco, sem perder o olhar vazio.
- Estou te achando tão triste hoje, aconteceu alguma coisa?
- Eu estou bem, só um pouco preocupada com as notas.
- É, você precisa estudar mais.
- Eu sei - suspirou .
- Não sei por quê, mas sinto que não é só isso que está te encomodando. Acertei?
A menina pensou um pouco e olhou para as unhas pintadas de vinho.
- Não, é só isso mesmo.
- Espero que esteja sendo sincera, pois todos estão sentindo falta da sua animação hoje.
- Deve ser o sono - sorriu.
- Está bem - passou a mão nos cabelos da filha e olhou em seus olhos - Vou entrar. Se estiver com fome, já sabe.
- Ok, mãe.
- Amo você - beijou sua testa.
- Eu também.
A menina voltou a olhar para a festa. Nada além de pessoas andando em passos tortos. Seu pensamento já estava bem longe, quando decidiu entrar e comer o famoso bolo de chocolate de sua tia.
No prédio da frente, uma garota de também 16 anos era a responsável pela festa. Foram mais pessoas do que o esperado, a maioria desconhecidos, amigos de amigos de amigos. Esse era o caso de um menino que estava sentado cuidando de mais um bêbado.
- Eu te amo, ! - dizia o bêbado, confuso com as próprias palavras - Você é o meu "brother"!
- Eu sei, Ricardo, você já disse isso umas cem vezes!
- Eu nunca mais vou ficar bêbado, eu juro!
- Acredito em você - disse , mesmo sabendo que o amigo sempre dizia isso.
- Desculpa por ter beijado aquela menina.
- Que menina?
- A Giovana, sabe, aquela que você estava ficando?!
"Essa é novidade", pensou , mas logo lembrou do caso de dois anos atrás.
- O nome dela era Gabriela - corrigiu, mas nem deu tempo de Ricardo responder, que já estava vomitando toda a pizza que havia comido no jantar.
já estava acustumado com situações como aquela, em que o amigo passava mal, pedia desculpas e falava coisas sem sentido. Achava aquela uma ideia errada de diversão. Nunca precisou beber até cair para dizer que a noite valeu a pena. Mas acabou trocando a sua diversão pela de Ricardo.
A festa era boa, música boa, pessoas bonitas, mas sua insegurança o impedia de beijar qualquer menina. E no sábado seria igual. Imaginou-se na festa da Vanessa cuidando do amigo bêbado. Mas estava feliz, só não seguro.
Ricardo continuava pedindo desculpas e contando histórias de sua vida, mas a mente de permanecia longe. Estava faltando alguma coisa.
- , 5.9 - disse a professora de química, revelando as notas de mais uma prova.
- Eu desisto.
- Calma, , é quase um seis! - disse - Imagina eu, que tirei 3!
- Eu não aguento mais estudar! Faço isso o dia inteiro, mas não entendo por que tenho que saber tudo sobre uma coisa minúscula como um átomo!
- Para passar na faculdade, amiga.
- Odeio isso.
- Eu também, mas não tem jeito. Você está muito tensa ultimamente, precisa relaxar.
olhou para a melhor amiga como se já soubesse de alguma coisa.
- Qual é a festa e quem vai?
- Então - começou , colocando o cabelo para trás da orelha - Fiquei sabendo de uma festa de 15 anos esse sábado, da Vanessa Ribeiro, sabe?
- Não faço ideia.
- Eu só a conheço de vista, mas já arranjei três indispensáveis, para mim, para você, e para a .
levantou a sobrancelha, esperando que a amiga falasse o motivo de tanta animação.
- Tá legal, o Fernando vai.
- Sabia - disse ela, dando risada.
- Você vai, né? É sério, você anda muito desanimada.
- As notas estão me tirando do sério!
- Não é só isso, e você sabe bem. Depois que voltou da França, não te vejo mais alegre com nada. Essa não é a que eu conheço!
- Não é tão fácil assim - disse ela, com o olhar baixo.
- Tudo bem, o Jean é lindo e gentil, mas mora na França, você precisa entender...
- Eu sei disso, mas ele parecia tão perfeito até me trocar pela russa... E foi tudo tão do nada!
- Você não pode se culpar! Ele que foi idiota de te trocar pela ninfomaníaca!
- Mas a gente nunca brigava, estava tudo perfeito, e de repente... Ah, o resto você já sabe.
- Ele queria alguém que fizesse qualquer coisa que ele quisesse, e esse alguém foi a russa, porque ela não vale nada. Diferente de você.
ficou em silêncio e olhou para o chão. A professora continuava falando as notas, mas só conseguia prestar atenção na amiga, que tentava fingir que estava bem.
- Quem sabe você não se esquece um pouco dele.
- Eu quero muito.
Capítulo 2
Os dias se passaram rapidamente. Logo era sábado e estava chegando na casa de sua melhor amiga. Usava um vestido azul e parecia mais confiante do que no final de semana passado. usava um vestido rosa pink e unhas postiças grandes. Era a sua marca, sempre vaidosa e animada.
, uma recém-chegada no colégio, também combinou de ir junto com elas para a festa, tendo como local de encontro a casa de . As três eram muito amigas e sempre saíam juntas, mas desde que voltou da França, tem sido mais difícil convencê-la de sair para se divertir.
- , tira dessa música! - gritou , do banheiro, onde passava chapinha no cabelo - Coloca alguma mais animada!
- Ah, deixa só terminar, é tão linda... - disse ela, ao som de "Yellow" do Coldplay.
- É linda mesmo - concordou - Mas você precisa se animar, coloca alguma música eletrônica.
- Eu estou com um pressentimento muito bom - disse .
- Foi isso mesmo que eu ouvi? - assustou-se , saindo do banheiro - Você está com um pressentimento BOM?
- Sim.
- Você não sabe como é bom ouvir isso - disse a amiga.
- Só promete uma coisa pra gente - disse , parando de pentear o cabelo - Promete que vai esquecer esse francês, e que vai tirá-lo da cabeça? Não aguento mais te ver assim!
- Assim como?
- Promete? - ela insistiu.
- Prometo - suspirou - Por vocês.
As três se abraçaram por algum tempo e pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se bem.
- Agora, vamos nos arrumar, né? Já estamos atrasadas, pra variar! - gritou , correndo de volta para o banheiro.
O local da festa estava lotado, e cada vez mais convidados chegavam. Encontraram vários amigos, e sem que percebessem, já era meia noite. E a valsa começou.
Antes da aniversariante, quinze casais entraram na pista, enfileirados por ordem de tamanho. não conhecia nenhum, exceto Ricardo, um amigo de infância. E por mais que quisesse que ela se interessasse por alguém, nada acontecia. Não tirava o seu caso de férias da cabeça.
"Isso é ridículo" - repetia para si mesma - "Ele é só um garoto que eu conheci nas férias". Se Jean era realmente o problema, nem sabia. A depressão que crescia a cada dia parecia não ter fim, assim como as lembranças de seus doze anos. E além do mais, o medo de se machucar sempre fazia companhia.
Ricardo sorriu para ela. Eles não se viam há muito tempo, mas a amizade parecia permanecer.
O nono casal entrou na pista. Uma menina média e ruiva, acompanhada de um garoto alto e moreno, olhos pequenos e sorriso encantador. Era um menino bonito, mas não o bonitão do colégio. E talvez por isso tenha chamada a atenção de . Ele era exatamente o seu tipo, no jeito de andar, de sorrir, de olhar...
A balada começou, e em poucos minutos todos os garotos já tinham tirado o palitó e a gravata, e alguns até colocaram calça jeans. estava conversando com o barman, quando sentou-se perto da mesa de doces e começou a comer balas de iogurte.
- Você prometeu - disse , sentando-se ao lado da amiga.
- Faz exatamente um mês.
- Ok, faz um mês. E? - observou-a comer mais e mais balas - Você não pode parar a sua vida por isso! Sabe, , você é linda, gente boa, muito diferente de metade das meninas que estudam com a gente! Não quero ver você assim!
sorriu e, ao olhar para a mesa cheia de papéis de bala, percebeu o quanto estava desperdiçando o seu tempo.
- Olha só a quantidade de meninos lindos por aqui! - continou - Algum deles também pode ser maravilhoso, talvez até mais que o Jean. E eles não moram do outro lado do oceano.
pensou no quanto ficaria mal se visse uma de suas amigas assim. Tanta perda de tempo ficar mal por causa de um garoto qualquer!
- Você tem razão! - animou-se, abraçando a amiga - Eu vou curtir, já perdi muito tempo por causa de um francês!
- Isso mesmo!
- E quer saber? Eu vou ficar com outro! - levantou-se da cadeira e viu de longe o menino que havia gostado - E vai ser ele.
olhou para os lados, sem saber de quem a amiga estava falando, mas mesmo assim ficou feliz. Há muito tempo não via tão decidida, ou até mesmo fazendo qualquer coisa que nao fosse chorar.
- Você não sabe o quanto eu fico feliz de te ver assim!
As duas abraçaram-se, fazendo com que as pessoas que passavam ao lado achassem que elas estavam fazendo as pazes.
- Ainda está com o pressentimento bom?
- Mais até do que antes - respondeu , puxando a amiga para a pista de dança.
- O que aconteceu? - perguntou , mais animada do que o normal, abraçando as amigas em meio aos diversos tipo de luz jogados pelo DJ.
Uma coisa era certa para elas naquele momento. Não importa o que acontecesse, teriam umas as outras para confiar, ajudar e amar.
Ricardo sempre foi apaixonado por , desde seus nove anos, quando ambos estudavam juntos. Mas ao contrário dele, a menina jamais quis algo além de amizade. Depois que mudou-se para um colégio mais perto de sua casa, perderam um pouco o contato, e as saídas eram mais raras. Mas eles jamais esperaram encontrar-se na festa de Vanessa, sete anos depois.
- RICARDO? - gritou , no meio da pista de dança.
- Não acredito! ! - disse ele, surpreso pelo tempo ter passado tão depressa - Há quanto tempo não te vejo!
O resultado foi um abraço longo e cheio de segundas intenções.
- A está aqui!
- Eu sei, vi enquanto dançava a valsa! Vocês duas estão ainda mais bonitas!
A loira ficou completamente vermelha, principalmente pelo fato de que seu amigo de infância, antes gordinho e baixinho, estava alto e forte, e acabara de elogiá-la.
- Como você mudou! - disse ela, abraçando-o mais uma vez.
- Você também! - sempre foi bonita, mas quando pequena, ainda não havia tingido seus cabelos, nem ao menos usava maquiagem - Perdemos totalmente o contato! Como isso é possível?
- Eu não sei, é tão estranho!
- Eu cheguei a ver a algumas vezes, mas você sumiu!
Ambos olharam-se por alguns segundos, surpreendidos pelo quanto ainda se gostavam.
- Ricardo! - gritou , aparecendo de surpresa.
- ! - deu risada enquanto abraçava a amiga - Vocês... Não tenho nem palavras para explicar.
- Ah, essa é a nossa amiga, .
- Oi, tudo bom? - a cumprimentou e continuou sem tirar os olhos de .
- Bom, nossa amiguinha aqui anda muito triste ultimamente, sabia? - disse ela, referindo-se à .
- Não acredito! Vamos parar já com isso! Não é por causa de menino, né? Só o que faltava!
- Pior que é, Ricardo!
- Mas ela já se interessou por um aqui! - confessou .
- Quem? Nem eu estava sabendo disso! - surpreendeu-se .
- Não sei quem é, mas foi um dos quinze!
- QUEM? - perguntou Ricardo, curioso.
- Aquele ali, olha! - mostrou - Aquele que está conversando com o barman.
- O ?
- Sei lá, eu não o conheço.
- Vou falar com ele.
- NÃO! Ricardo, não faz isso! - puxou o amigo pelo braço.
- Relaxa, ele é o meu melhor amigo.
Desistiu de impedí-lo. Por mais que não o visse há muito tempo, conhecia-o muito bem, e sabia que mesmo que o segurasse pela festa toda, ele daria algum jeito de apresentá-los.
- O Ricardo não muda mesmo.
Viu de longe os dois conversando e olhando disfarçadamente para elas. "Que vergonha" - pensou, mas depois decidiu fingir que não estava vendo nada e voltou a dançar com as amigas.
- Ele está vindo para cá - comentou .
- Olhando para você - disse , rindo.
- Não, não, não - repetia para si mesma.
Mas em questão de segundos, alguém segurava a sua mão e a puxava delicadamente para perto. Olhou nos olhos dele e antes que pudesse pensar em qualquer coisa, já estavam se beijando. Não era o primeiro menino que beijava depois de Jean, mas era o primeiro que a fazia sentir-se feliz.
Logo eles já estavam juntos há duas horas. Era estranho como pareciam íntimos, sendo que nem se conheciam. Ricardo aparecia de 15 em 15 minutos, cada vez mais bêbado, dizendo coisas sem sentido. Mas quando deu quatro horas da manhã, os dois foram interrompidos por .
- Desculpa, gente, mas não dá mais para cuidar dos dois sozinha - disse ela, desesperada.
- O que?
- A e o Ricardo.
- Eles estão bêbados, ?
- Sei que não é novidade, mas eles já até vomitaram. E se os pais da aniversariante virem isso, não quero nem pensar!
e Ricardo sempre enchiam a cara em seus plenos 17 anos. Eram um problema para seus amigos.
- - começou - Por que você ainda faz isso?
- Eu, eu, eu - gaguejou, e logo em seguida deu uma risada perdida - Eu sou uma estrela cadente!
Os dois se olharam preocupados. Mas como situações como aquelas aconteciam com frequência, nenhum deles se desesperou.
- Vamos levar eles para o banheiro - disse , levantando a amiga.
- Ela vai ficar bem?
- , isso sempre acontece - respondeu ela, enquanto a menina repetia frases sem sentido.
No fim da festa, estava vomitando no banheiro feminino, e Ricardo no masculino. E, como sempre, e cuidando deles.
- É sempre assim com você também? - perguntou , segurando a lixeira para seu amigo vomitar.
- Sempre - respondeu , rindo - Eu nem devia estar rindo, mas fazer o quê?!
- Rir para não chorar.
sorriu e continuou ajudando a amiga. Alguma coisa naquele sorriso fazia esquecer de tudo. Era um sorisso simples e sincero, mas que conseguia deixá-lo sem palavras, coisa que ele jamais imaginaria.
- , meu motorista chegou, vamos? - disse , já sem os sapatos de salto.
- Ok - levantou e a apoiou no seu ombro - Tchau, ! Fala para o Ricardo que apesar disso eu adorei ter visto ele.
- Claro, quando ele estiver melhor eu falo - sorriu e por alguns segundos ficou olhando para ela.
- Ok, tchau - sorriu aquele sorriso e virou-se.
não tirava os olhos dela, e nas vezes que ela olhava para trás, ele acenava pensando se alguma vez a veria novamente.
Duas e meia da tarde. dormia tranquilamente, até jogar-se em cima dela.
- Bom dia, dorminhoca!
- Bom dia - sussurrou ela, tentando levantar-se.
- Você dorme demais!
- Eu sei - limpou os olhos e despertou - Lembra de alguma coisa?
- Lembro de você e do amigo do Ricardo - começou , sentando se em um dos colchões - Por falar nisso, você viu o Ricardo? Minha nossa! Ele está o maior gostoso!
- É, vocês combinam bastante, por falar nisso.
- Combinam, né? - comentou - Bêbados.
- Ah, gente, não é bem assim...
As duas olharam para a amiga com ironia.
- Não é bem assim?
- Ah, ok, desculpa!
- Achei o facebook do menino que a beijou! - gritou , ampliando a foto de - Sua sortuda, ele é bonito!
- Deixa eu entrar no meu facebook - disse , tirando o computador das mãos de . Digitou seu login e senha e a primeira coisa que viu foram três novos pedidos de amizade.
O primeiro era de Ricardo, o segundo de um desconhecido e o terceiro era do .
- O me adicionou!
As duas começaram a pular de felicidade pela amiga.
- Ele gostou de você!
- Ah, para com isso! Ele só me adicionou, não quer dizer nada.
Em alguns segundos uma janela do chat de aparecereu. Era .
- "Ah, para com isso! Ele só me adicionou, não quer dizer NADA" - imitou-a - E isso, quer dizer o que?
- RESPONDE! - gritou .
havia pedido o seu MSN, e claro que ela passou.
- Você merece, amiga.
- Gente, eu o conheci em uma festa. Sabe quais são as chances disso dar certo?
- A gente não está falando sobre dar certo, - disse - A gente só quer que você se divirta um pouco!
"O que vai fazer sábado?", subiu a janela no MSN.
- Viu só?!
"Nada, e você?", respondeu .
"Cinema às sete?"
parou de digitar e começou a observar o computador.
- Responde, !
- Será que é mesmo uma boa ideia?
- O que você tem a perder?
a encarou e sorriu ironicamente.
"Claro!", respondeu ela.
Capítulo 3
nunca ia àquele shopping. Era muito raro. A maior parte do tempo, ficava olhando disfarçadamente para as garotas que passavam com bolsas 'Louis Vuitton'. A maioria olhava para todos com desprezo e passava as unhas gigantes pelo cabelo perfeito.
Obviamente olharam para ela com desprezo. Não sentiu nada.
Há muito tempo convivia com pessoas assim, e ao contrário de antes, não se intimidava mais.
De longe, pôde ver esperando em frente à uma loja. Usava calça jeans, tênis e uma camisa xadrez. Ainda não tinha percebido que ela estava ali, estava entretido demais no celular. Nem se mexeu quando uma menina de vestido azul parou na sua frente. Ela tossiu.
- ! - levantou-se rapidamente e a cumprimentou - Desculpa, eu estava meio... hm, distraído.
- Tudo bem - disse ela, sorrindo - Eu percebi.
- Então, vamos ao cinema?
estava usando um vestido azul, assim como na primeira vez que se viram. Isso fazia com que não conseguisse parar de olhar, mas sempre ficava sem graça e então desviava o olhar.
Nenhum filme bom estava em cartaz no cinema, então a escolha foi assistir alguma comédia romântica.
- O final é sempre o mesmo - disse ele, colocando o refrigerante no braço da cadeira.
- Como assim?
- Você nunca percebeu? Todos esses filmes começam e terminam do mesmo jeito!
- Ah, não é bem assim.
- Pode ver, eu nem sei qual é a história desse filme, mas tenho quase certeza de que é sobre um homem e uma mulher que se conhecem de alguma forma engraçada, e que começam a se odiar, mas no fim, acabam gostando um do outro - abriu a barra de chocolate - É quase sempre assim.
parou para pensar e percebeu o quanto ele tinha razão. Adorava comédias românticas. A química é sempre maior quando um casal não se dá bem no começo. É como ódio e amor.
- É verdade.
- Viu só?
- Mas eu continuo amando esses filmes - deu uma risada sincera, aquela que deixava sem ar.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, até que as luzes do cinema apagaram e os traillers começaram a passar. Logo, estavam encostados um no outro, e no fim das contas, a escolha do filme não fez muita diferença, já que eles mal assistiram.
Mas estava certo. Era um filme sobre duas pessoas que se odeiam e se amam.
Nove horas, o shopping continuava cheio de gente, e os dois andavam abraçados e rindo. Talvez quem os visse, os achariam muito infantis, dando risada de coisas bobas e falando besteiras. Mas para eles, era como se tudo em volta não importasse tanto. Estavam se divertindo.
- Não acredito que você vem aqui toda semana e ainda se perde! - disse , rindo.
- É que tudo sempre muda de lugar! E eu também não sou muito bom com essas coisas.
- Tá legal, eu vou perguntar para a segurança.
- Não, esquece - disse ele, segurando sua mão - Eu tenho certeza de que é para aquele lado.
- Como assim? Claro que não! A sorveteria é para o outro lado!
- Eu lembro, é perto daquela loja!
- Eu também lembro, e é daquele lado!
- Você é teimosa, hein?
sorriu sarcasticamente, mas mesmo assim, gostava da situação. Era bom discordarem de alguma coisa. Na maior parte do tempo concordavam com tudo.
- É por ali! - segurou as suas costas e a arrastou para frente, em direção à alguma loja de bebês.
- Não, não, não! - disse ela, tentando andar para trás.
- Você é forte, mas não o suficiente - empurrava com mais força.
- Ah, você que pensa!
Os dois mal saíam do lugar. Algumas pessoas os encaravam com ar de superioridade, mas eles nem percebiam.
- Ok, eu desisto! - disse ele, a soltando - Você venceu!
- Certo, eu tenho certeza que é por ali!
Andaram um pouco e mais rápido do que imaginavam encontraram a sorveteria.
- Falei que eu sabia - disse ela, sorrindo sarcasticamente novamente.
- Como assim? Não é possivel! - deu uma risada.
- Ah, mas por quê? - perguntou ela, indignada de uma forma engraçada.
- Deixa para lá, - continuava rindo, e virou-se para a vendedora - Duas casquinhas de chocolate, por favor.
- Você é muito sínico - a forma como ela o encarava era engraçada. Tentava esconder um sorriso, mas não conseguia.
Pegaram o sorvete e passearam pelos corredores do shopping.
- E como ficou a sua amiga?
- Ah, ela ficou bem, mas...
- Eu sei como é, cansa.
- Eu não posso deixá-la, sabe? Eu já disse tantas vezes, mas ela continua fazendo isso!
- O Ricardo também. Mas tenta esquecer um pouco, .
Era bom ter alguém que a fizesse esquecer de alguns problemas. A maior parte do tempo só pensava neles e tentava buscar uma solução, mas nunca conseguia. Com , ela se sentia livre.
- Não sei como você consegue.
- O quê?
- Ah - parou para pensar em uma resposta, mas ficou com vergonha - Nada.
- Sério, o quê?
Olhou para ele. Sua boca estava suja de sorvete, e não conseguiu segurar a risada.
- O que foi?
- Sua boca - ficou sem graça. Tentou limpar a boca, mas não conseguiu - Calma, deixa que eu limpo.
pegou um guardanapo e limpou delicadamente onde estava sujo de sorvete. Enquanto isso, olhava para os seus olhos, tão que podia ficar horas os observando.
- Seus olhos são muito lindos.
- O quê? - ficou surpresa, parando de limpar sua boca.
não respondeu, simplesmente chegou mais perto e a beijou.
O resto da noite foi assim. Beijos, abraços e conversas engraçadas. chegou em casa pulando de felicidade. E , sem ar, simplesmente deitou-se na cama e ficou horas relembrando da noite.
Segunda-feira. contava todos os detalhes do que havia acontecido, enquando e animavam-se.
- Ele é um fofo!
- Eu sei! - disse .
Você é tão sortuda, ! - suspirava .
- Quando vocês vão se ver de novo? - perguntou , lixando as unhas.
Sexta a gente marcou se ir jantar junto com vocês. O Ricardo - olhou ironicamente para - e mais um amigo deles.
- Como é esse tal amigo?
- Relaxa, , eu falei para ele levar algum amigo pelo menos apresentável.
- Pelo menos apresentável? Eu odeio vocês.
- Mas a gente te ama - pulou em cima de , e fez cócegas.
- Tá legal! Tá legal! Eu vou! - concordou, cruzando os braços - Agora podem parar com isso.
Capítulo 4
Já haviam se passado quase dois meses, e e se falavam todos os dias, principalmente pelo computador. A cada dia que passava, superava mais os antigos problemas de aceitação. Não era fácil chegar todos os dias no colégio, tendo que aguentar pessoas que mal a conheciam, tratando-a como lixo.
Nunca entendeu bem por que as coisas eram assim. No começo se culpava. Não conseguia enxergar um defeito assim tão insuportável para ser tratada assim. Na verdade, eles nem a conheciam! Como podiam julgá-la desse jeito?
Vivia fingindo estar doente, para não ter que ir para o colégio. Andava de cabeiça baixa, sentia-se inferior a todos. Durante um bom tempo, andava pelo condomínio para esfriar a cabeça, para tentar ao menos entender porque tudo era daquele jeito. Mesmo quando chovia, colocava o gorro do casaco e passeava, acenando para os seguranças, que jamais poderiam imaginar o quão infeliz ela era.
"Quantas vezes eu vou ter que dizer o quanto você é linda?", dizia o bilhete mandado por .
- Linda? - perguntava a si mesma.
nunca fora feia. Quando era mais nova, não sentia necessidade de passar muita maquiagem, e de qualquer coisa do tipo. Vivia brincando de pega-pega, polícia e ladrão, e diversar outras brincadeiras de criança. Se divertia demais. Descia do prédio e jogava futebol com os amigos, ia na piscina, tinha paixões de criança, e acima de tudo, era inocentemente feliz. Não sabia o que era status social até mudar de colégio, aos doze anos.
As garotas andavam sempre muito arrumadas e tinham quase sempre o mesmo celular, a mesma marca de estojo, a mesma marca de mochila. Eram cópias. Diferentemente de . Os cabelos mal-cuidados eram motivo de zuação, e a maneira mais infantil de ver a vida também. Talvez infantil não seja a palavra certa. Mas, de qualquer forma, tudo o que saía de sua boca recebia um julgamente crucial.
Doía.
"Tem alguma coisa em você, no seu jeito, não sei bem... Só o que eu sei é que não consigo parar de pensar em você", continuou lendo, com os olhos brilhando. tinha depressão, tomava remédio diariamente. Pensava no que havia nela de tão especial assim. Como aquele garoto conseguiu enxergar isso? Jamais imaginou que poderia ser tão feliz. Já não tinha mais medo de ninguém, e nem sequer se importava com o que os outros pensavam dela, já que aquele menino gostava, e muito.
"Eu nunca vou cansar de você, ok?", leu as últimas linhas, "Com amor, ".
Nunca?
Capítulo 5
- ELE O QUÊ? - gritou , apertando a almofada em formato de coração.
- Isso mesmo que você ouviu. - repetiu - O terminou comigo.
- Não é possível! Até alguns dias atrás ele era louco por você! - jogou a almofada para a parede - Eu não entendo os homens.
- Nem eu.
voltara a ser insegura, cabisbaixa, e até mesmo depressiva. Nenhuma das amigas sabia o que fazer para melhorar aquilo tudo.
- Por que ele fez isso? Não faz sentido!
- Foi por causa do Gabriel Salamea.
- Quem? - perguntou , completamente confusa.
- Gabriel Salamea.
- Quem é esse cara?
- O quê? Aquele baixinho horroroso que se acha lindo? Você só pode estar brincando, né? - já havia agarrado outra almofada, e suas unhas compridas e fortes pareciam quase rasgá-la.
- Isso mesmo - segurava o colar com a inicial , enquanto algumas lágrimas saíam de seus olhos - O baixinho horroroso que se acha lindo falou para o que eu sou muito, hm... zuada.
- O QUE? - a almofada roxa havia rasgado - Ah, desculpa pela almofada. Mas o que esse menino tem na cabeça? Zuada, você?
- Eu mesma.
- , você é linda, não liga para esse idiota!
- É! Além disso, eles ainda conversaram sobre o fato de eu não ser, bom, do nível deles.
- DO NÍVEL DELES? Ok, já chega! Esse é um idiota!
- Eu concordo totalmente com a . Isso não é normal!
- Ele dizia todas as noites: "Eu nunca vou cansar de você", e por causa de um idiota qualquer, tudo acabou.
- Não! Por causa de DOIS idiotas! - agarrou outra almofada.
- Gente que liga tanto para status social não merece a sua atenção, amiga - segurou sua mão, tirando o colar com suas iniciais, da mãe de - Você vale muito mais do que qualquer ou Gabriel Salamea, sei lá como se pronuncia!
- Isso mesmo! - a menina apertou a almofada com mais força - Nenhum menino tem o direito de fazer isso com você!
- Nenhum!
- Ok, meninas, obrigada pela ajuda. Mas é informação demais para um dia só. Eu preciso ficar um pouco sozinha, com licença. - caminhou em direção ao quarto de hóspedes da casa de .
- , volta aqui!
- Não se preocupem, é sério. Eu só quero ficar um pouco sozinha, tentar colocar a cabeça no lugar - fechou a porta do quarto.
- Eu odeio esse ! - continuava com a almofada apertada pelas unhas.
- Ele é gay, só pode ser isso - brincou - Agora por favor, solta essa almofada antes que você a rasgue.
Capítulo 6
Dois meses se passaram, e continuava entrando todos os dias no perfil de em todas as redes sociais possíveis. Chorou quando ele mudou sua foto do facebook. Antes era a que ela havia escolhido, a agora apenas uma qualquer. Tudo a deixava para baixo. Tentava se distrair, mas as lembranças persistiam.
- Precisamos fazer alguma coisa, .
As duas amigas estavam sentadas em uma mesa da praça de alimentação do Shopping Center. Sabiam que a depressão da amiga persistia e, por mais que ela tentasse fingir que estava bem, era óbvio que não estava.
- Eu sei, . Mas eu acho que agora que estamos de férias será mais fácil.
- Mais fácil por quê? A gente precisa ajudá-la a ter mais auto confiança!
- Ela precisa tirar esse idiota da cabeça! Precisa se distrair!
- Já sei - já estava no terceiro brigadeiro de tanto nervosismo - Uma festa!
- Uma festa?
- É, uma festa - quarto brigadeiro - Na casa dela!
- O quê? Você está louca, né?
- Não precisa ser no apartamento dela! Pelo menos no salão de festas, ou qualquer coisa assim.
- Não sei se é uma boa ideia...
- Não custa tentar, !
No sábado, toda a festa estava pronta. O DJ já havia chegado, o salão estava escuro com milhares de luzes piscando, o bar estava repleto de bebidas alcóolicas. A cada, mais e mais pessoas chegavam. Amigos, amigos de amigos, e amigos de amigos de amigos.
olhava para tudo e lembrava das festas que às vezes frequentava. Alguém sempre saía machucado, ou até mesmo ia parar no hospital. Não queria que isso acontecesse na sua casa, sob sua responsabilidade.
- , será que foi uma boa ideia? Eu sei lá... E se der algo errado?
- Tipo o que? - segurou as mãos da amiga e olhou em seus olhos - Eu quis fazer isso para você se distrair, não para se preocupar. Relaxa, e curte!
A quantidade de pessoas que chegavam era inacreditável. Não conhecia metade delas, mas todas a cumprimentavam. Enxergou de longe, Danniel, um amigo que conheceu na praia. Não o via há mais de um ano!
- Danniel! - gritou, correndo para abraçá-lo.
- Não acredito, você mudou tanto, ! Estou até impressionado! Tá linda demais!
- Para com isso, Danniel! Você que está um fofo!
- Esse aqui é o meu amigo, !
era muito parecido com , mas apenas fisicamente. Cabelo escuro, olhos pequenos e sorriso encantador. Ficou perplexa e o cumprimentou numa velocidade mínima.
- Ok, divirtam-se, garotos! - deu meia volta ainda perplexa, tentando fingir naturalidade.
Depois de duas horas, quase todos estavam bêbados. passava mal, como de costume, e teve que ajudá-la.
- Quer ajuda? - perguntou , enquanto segurava a amiga.
- Não precisa, mas obrigada. Ja estou acostumada!
- Tem certeza?
- Absoluta - sorriu - Qual é o seu nome mesmo?
- .
congelou, não sabia como reagir até que ele deu uma risada.
- Brincadeira, meu nome é . Já me falaram que eu sou muito parecido com o seu ex.
- Ah, vocês não são assim tãããão parecidos...
escorregou e por pouco não caiu no chão. Graças a ajuda de .
- Obrigada.
- Tudo bem, mesmo você não lembrando o meu nome - sorriu, daquele jeito meio desajeitado.
- Qual é?! - deu sua primeira risada depois de tanto tempo - Você também não lembra do meu.
- Claro que lembro.
- Lembra nada, então qual é?
- .
Olharam-se por alguns segundos e sorriram como bobos.
- Eu quero vomitar! - gritou , totalmente inconsciente.
- Ai, meu Deus!
- Calma, eu tomo conta dela a partir daqui! - apareceu e segurou . Sabia que estava rolando um clima entre a amiga e o garoto, então decidiu dar uma força.
- Tem certeza?
- Relaxa, , eu sei cuidar dela - confirmou , puxando a amiga para o banheiro feminino.
não sabia se era bom ou ruim ficar conversando com o garoto que parecia o seu ex. Talvez fosse bom se distrair, nem que fosse só por uma noite.
- Ela sempre fica assim? - perguntou ele, ainda com o sorriso desajeitado.
- Sempre!
Riram, e enquanto conversavam sobre qualquer coisa, sentaram-se no sofá perto do bar.
- Você não vai beber?
- Não, eu nem posso.
- Por quê?
- Tomo remédio - sentia-se desconfortável em contar aquilo para alguém que mal conhecia.
- Ah, sim. Eu também quase não bebo. Não vejo graça.
- Não?
- Não.
- Você só pode estar brincando comigo.
- Por quê? Só por que eu não vejo graça em ficar tonto e falar o que eu quiser? Eu posso fazer isso sem ficar bêbado!
- Você está certo! Mas sei lá... - mexeu no anel do dedão da mão - É difícil achar alguém que não beba hoje em dia.
- Você e eu.
- É...
olhou para o chão, envergonhada, e ao olhar de volta para ele, seus olhos estavam em perfeita conexão. Não importava mais o que acontecia em volta deles, tudo o que ela queria era beijá-lo. A vontade era tanta, que o seu rosto quase chegava mais perto inconscientemente.
Sem dizer nada, aproximou-se dela, e como num filme, beijou-a como se ninguém estivesse olhando. Foi assim pelo resto da festa inteira. Os dois conversaram, riram, e se beijaram. Era uma química quase que perfeita. Às cinco e meia da manhã, todos já haviam ido embora, mas ficou para ajudá-la a arrumar a bagunça deixada pelos bêbados. Até assim se divertiam, jogando as garrafas de vodka vazias no lixo, pegando os objetos esquecidos, e olhando as fotos tiradas por Danniel.
Às seis e meia, voltou para casa, despedindo-se dela com um beijo. Um beijo de quero mais.
deitou-se em sua cama e pensou na noite maravilhosa que havia tido. Mas depois parou para pensar se tinha se encantado com ou com o fato dele ser muito parecido com seu ex.
Afinal, em quem ela estava pensando? ou ?

