O Único Diferente
Autora: Thais Cichovski
Status: Em Andamento
Revisada por: Luiza Caminada
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: Romance / Longfics
Comentários:
Capítulo 1 - Lugar errado.
Decidi me levantar, depois de ter colocado o despertador no modo soneca quatro vezes. Eram 6 e 20 da manhã, e eu não havia conseguido dormir nada no dia anterior. Passei a noite fazendo um maldito trabalho escolar sobre formigas, e tentando arrumar um jeito de fazer a minha mãe me tirar daquele colégio.
Não havia nada que eu odiasse tanto como aquele lugar.
Chegar la já me deixava com uma sensação horrível, como se eu estivesse no lugar errado. Mas não tinha como fugir.
"É um colégio tão bom! Não sei porque você implica tanto!", diz minha mãe, sempre que eu tento convencê-la do contrário.
Mas não adianta, ela nunca vai entender. Se nem eu entendo direito, imagine ela! Coitada, não tem culpa nenhuma disso tudo estar acontecendo. Eu simplesmente não consigo me encaixar. E pode ter certeza que já tentei de tudo. Até meus irmãos tentam me entender! E o meu pai...
Bom, ele não faz ideia disso. E se fizesse, reagiria muito pior do que a minha mãe. Eu só não vejo a menor graça em menosprezar os outros. Que culpa eu tenho?
- Mãe, eu vou ou não vou mudar de escola? - falei, colocando o cinto de segurança, a caminho do colégio.
- Nem pensar! Para de fazer drama, ! Isso é frescura sua. Olha só pro seu irmão: ADORA ir ao colégio.
- Dá pra parar de me comparar com ele? Eu odeio aquele lugar, e você sabe disso!
- Eu não vou discutir com você. Até porque, você mesma sabe o quanto isso é ridículo.
Fiquei quieta dessa vez. Não queria começar o dia brigando com a minha mãe, que apesar de não enxergar o quanto eu estou mal, me ama. Liguei o rádio em uma estação de música eletrônica qualquer e olhei para os carros em volta. A maioria era de pessoas que estudavam no mesmo colégio que eu. Já senti um mal estar.
- O que foi? - perguntou minha mãe. Olhei para o colégio logo em frente e senti mais enjôo.
- Esse lugar me dá nojo - somente essa frase foi suficiente para minha mãe surtar de vez.
- Qual é o seu problema, afinal? A culpa não é minha se você está tão infeliz!
- Eu nunca falei que a culpa é sua!
- Eu queria tanto que você fosse igual ao seu irmão! Sempre tão popular com os amigos! - passava a mão na testa, preocupada.
- Qual é o SEU problema? Meu irmão é um otário! Já viu como ele trata as pessoas que considera "inferior" a ele?
- Você mudou muito, não era assim antes! - repetia minha mãe, sem pensar em nada melhor para dizer.
- Assim como? Eu tenho vários amigos na escola, e você sabe bem que eu não sou nenhuma excluída. Eu só não aguento mais viver nesse mundo de falsidade, em que a marca do seu tênis importa mais do que o seu caráter!
- Eu não disse que você é excluída!
- Mas quis dizer, né? Caia na real, eu nunca vou ser como o meu irmão! - saí do carro e bati a porta com força.
Capítulo 2 - Skatista.
Às vezes ando de bicicleta no parque em frente à minha casa, para relaxar. Observo as crianças brincando, o lago cristalino e as aves voando de árvore em árvore, animando os casais de namorados que caminham abraçados. Não me sinto sozinha, só que as vezes é bom ter um tempo só para mim, sem a minha mãe dizendo o que é certo ou errado, me obrigando a ser o molde da filha perfeita. Sem aquelas pessoas falsas. E até mesmo sem a minha melhor amiga.
É, sem a minha melhor amiga.
Quer dizer, eu a amo. Muito. Mas não aguento o fato dela se tornar mais fútil a cada dia que passa. Comigo ela é uma pessoa, e com os outros... Totalmente diferente. Todo o seu mundo gira em torno de certas pessoas que não têm a menor noção da vida.
Eu precisava relaxar.
Estava passando perto do lago, depois da escola. Comprei um saco de pipoca e coloquei na minha bolsa de lado. Queria alimentar os patos, já que eu odeio pipoca. Principalmente aquelas que são vendidas em parques. Geralmente vem quase sem sal e ficam presas entre os dentes.
Não conseguia parar de pensar na discussão com a minha mãe, e na agindo como uma otária. Acelerei. Andar rápido de bicicleta era muito bom, descontava a raiva. E o melhor é que o parque não estava nem de longe cheio. Só alguns skatistas fazendo manobras simples pela ciclovia.
E de repente, um deles deu de encontro com a minha bicicleta em alta velocidade. Caímos no chão, ganhei alguns arranhões e machucados, e a pipoca toda voou.
Odeio skatistas.
- Foi mal, mina. - disse o skatista, loiro com roupas largas, que provocou a queda.
- Foi mal, mina?! - indignei-me. Aquele realmente não era o meu dia!
- Você estava andando muito rápido, tem que tomar mais cuidado, gatinha!
EU tinha que tomar mais cuidado? Espera aí! ELE que não deveria ficar fazendo manobrinhas por ali! E gatinha? Se liga!
- A culpa não é só minha, tá legal?!
- Ou, ou, ou! - disse ele, dando um sorriso de lado - Irritadinha você, hein?
Olhei para a pipoca no chão e fiquei com mais raiva ainda. Talvez se aquele fosse qualquer outro dia, eu não ficaria tão irritada. Mas desde cedo tudo estava dando errado.
- Sai daqui, garoto! - ainda estava no chão, assim como ele. Meu joelho sangrava e seu cotovelo também, mas nenhum dos dois parecia ligar para a dor.
- É por causa da pipoca? Eu compro outra para você!
- Não! Eu nem gosto de pipoca! Eu estou bem, relaxa.
- Então por que você está tão irritada? - levantou-se.
- Só estou tendo um dia ruim. - comecei a colocar as coisas de volta na bolsa, com vontade de dar um soco na cara do primeiro que aparecesse.
- - ergueu a mão na minha direção - Meu nome é .
Podia surtar de raiva ali mesmo, mas ao invés disso, percebi o olhar sincero dele. Respirei fundo e segurei sua mão.
- - segurou forte e ajudou-me a levantar do chão.
- Vou comprar outra pipoca pra você.
- Não precisa - levantei a bicicleta.
- Faço questão.
Acabei aceitando, e alguns minutos depois estávamos dando pipoca para os patos. Era estranho, já que ele não era assim tão idiota.
- Você vem quase toda semana aqui? Como assim? Eu nunca te vi antes! - falei, jogando a pipoca no lago. Os patos brigavam pela comida.
- Pois é, mas eu já te vi várias vezes antes. Eu e os meus amigos.
- Sério?
- Eu sei, você deve olhar para nós e nos achar todos iguais.
- Não, não é isso, é só que... - olhei para ele e desisti de tentar negar - É, eu achava isso - ele riu, de um jeito descolado, bem de skatista.
- Irritadinha, sincera... - dei um tapa de leve em seu ombro - Brincadeira. Mas a menina meio loira da bicicleta só tem uma. Já skatistas... Vários.
- Ah, qual é! Eu nem sou loira!
Ficamos observando os patos. Meu joelho doía muito, e dava para perceber que o braço dele também, mesmo tentando disfarçar.
- É melhor a gente fazer um curativo nesses machucados, .
- Tudo bem, eu sempre me machuco quando ando de skate.
- Pode infeccionar.
- Quando eu chegar em casa eu dou um jeito.
- Não precisa, eu tenho merthiolate aqui. Algumas outras coisas também...
- Você anda com um estojinho de primeiros socorros na bolsa ou alguma coisa assim? - ele riu da minha cara.
- Eu ando de bicicleta quase todo dia, tá legal?!
- E se machuca sempre também? - continuava, com cara de gozação.
- É, ué!
- Não parecia que você estava tão acustumada assim na hora que a gente se tombou...
- Hm, isso não quer dizer nada!
Ok, qual é o problema com o meu estojo de primeiros socorros? É até útil!
Passei merthiolate no cotovelo do e depois fiz um curativo delicado, bem diferente do que se espera de um skatista.
- Valeu, .
Sorri e comecei a guardar tudo de volta na bolsa.
- E o seu?
- O meu o quê?
- Machucado! Tá bem pior do que o meu!
- Eu dou um jeito nisso em casa. Tenho que ir agora - coloquei a bolsa no braço.
- Ah, tá legal, a gente se vê por aí?
Peguei a bicicleta e subi com cuidado para não machucar meu joelho.
- É... a gente se vê por aí! - comecei a pedalar rápido, mas estava muito mais leve do que algumas horas antes. Toda aquela irritação havia sumido.
Capítulo 3 - Caiu direitinho?
- Alô? - atendi o telefone. Se houvesse uma divisão de tarefas em casa, a de atender o telefone provavelmente seria minha. Parece que eu sou a única aqui que faz isso. Meu irmão pode estar a trinta centímetros do telefone, mas não atende. Aquele barulho insuportável fica lá, tocando sem parar. Até eu decidir dar a volta na casa para atender.
- Alô? É da casa do Maurício? - a menina do outro lado da linha tinha voz de choro.
- É sim, mas ele saiu com uns amigos.
- Faz muito tempo?
- Muito.
O silêncio tomou conta da linha, até que a menina desabou no choro. Eu não sabia como reagir.
- Você está bem?
- Eu... eu... - ela soluçava como uma criança quando chora - Fala pro seu irmão que ele é um canalha! - e desligou o telefone na minha cara.
Era comum meninas ligarem atrás do meu irmão, mas chorarem ao telefone? Essa era novidade.
Pensei que teria paz, mas logo meu celular tocou.
- Alô?
- ? - uma voz de menino perguntou.
- Eu? - não fazia ideia de quem era do outro lado.
- É o , sabe? Do parque!?
Precisei de alguns segundos para respirar e voltar à realidade.
- Ah, oi, ! Como você conseguiu o meu número?
- É... então, você esqueceu sua carteira.
- Minha carteira?
- É. Você saiu com a bolsa aberta e sua carteira caiu. Eu tentei te chamar, mas acho que você não me ouviu.
- Nossa, eu nem dei falta! Como assim?
- Pois é, achei que você estivesse louca atrás disso.
- Nossa, obrigada mesmo.
- Então, parque amanhã? Eu preciso te devolver a carteira, né?
- Pode ser.
- Mesmo horário de hoje?
- Claro!
- Ok, então, beijo.
- Beijo - desliguei o celular, ainda abismada com o que acabara de acontecer. Como eu não havia percebido que deixei minha carteira cair?
- Maninha! - nesse momento, meu irmão chegou em casa, um pouco bêbado e alterado. Me abraçou e deu um beijo na minha buchecha. Sabe aquele cara de dezessete anos, bonito, alto, forte e galinha? Esse é o meu irmão.
- Uma menina te ligou - olhei para ele - De novo.
- E...? - queria socar o rosto dele! Como assim "E...?"?
- Ela chorou ao telefone.
- É a Letícia - deitou-se no sofá.
- Como você sabe?
- Conheci a menina semana passada. Bonitinha, sabe? Bem iludida, coitada. Falei que era para a gente se encontrar às oito horas na frente do clube.
Olhei para o relógio: eram quase onze e meia.
- E você não foi?
- Claro que não! Me convidaram para um churrasco hoje, o que você acha que é melhor?
- Você é um otário.
- Qual é?! , você é muito sonsa! Se seguisse o meu exemplo, ia ser muito mais feliz.
- Não consigo acreditar que a gente é da mesma família! - levantei-me e parti em direção ao meu quarto.
Minha bolsa continuava em cima da cama, eu nem sequer a tinha aberto. Sentei-me na cama e olhei para a minha foto com a , há dois anos atrás, no porta-retrato roxo em cima da bancada.
Antes tudo era muito diferente.
Abri a bolsa e comecei a tirar as milhões de coisas inúteis de lá. Tirei o estojo de primeiros socorros e dei de cara com a minha carteira!
É, minha carteira.
Ali mesmo, bem na minha frente.
Abri-a e vi um papel azul perto das moedas. Não lembrava de ter colocado nenhuma notinha de restaurante ali, mas quando abri, bem perto dos números da conta, estava escrito, com caneta azul e uma letra bem desleixada:
"Caiu direitinho, né, menina lolita da bicicleta?"
Capítulo 4 - Longe de tudo.
- Ele é um skatista, - disse , digitando alguma coisa no celular - Só quer te comer.
Fiquei muito tempo pensando no que minha amiga acabara de dizer. Desde quando falava coisas assim?
- Será? Ele é muito legal comigo.
- Você está interessada nele ou alguma coisa assim? - o jeito como ela falava era totalmente irritante, como se ela estivesse fazendo força demais para dizer qualquer coisa.
- Claro que não! - arregalei os olhos como faço quando fico irritada - Eu só não entendo isso, sei lá!
- Você é muito confusa! - virou-se em direção às meninas que ela fazia de tudo para ser igual e sorriu para elas, voltou-se para mim - Odeio elas.
Nem respondi. Iria falar o quê? Aquilo era ridículo! Se as odiava, porque tentava ser amiga delas a todo custo? Apenas abaixei o olhar e levantei-me da mesa.
- Preciso dar uma volta.
parecia não se importar muito, apenas continuou digitando mensagens no celular e sorrindo para as meninas que dizia odiar.
Passei pelos corredores e cumprimentei meus amigos. Olhei para algumas meninas sentadas sozinhas, lendo algum livro com capa desconhecida e olhando assustadas para todos que passavam, como se tivessem medo de alguma coisa.
Pensei em minha mãe.
É claro que ela acha que eu sou assim, intimidada, excluída, despreparada. Me senti humilhada. Senti também uma pena indescritível dessas garotas. Podia ouvir algumas pessoas as chamando de entranhas, ou simplesmente as olhando com cara de nojo.
Queria que só por cinco minutos alguém ali naquele lugar se importasse com alguém. Só por cinco minutos.
~~~~~~~~~~~
Subi na bicicleta e comecei a pedalar pelo parque. Observei mais uma vez toda aquela paisagem de filme de romance. Mesmo que quisesse, não conseguia me imaginar no lugar de qualquer um daqueles casais. Tudo o que me vinha na minha cabeça era a minha mãe esfregando na minha cara o quanto eu era um nada, o quanto inútil eu poderia ser.
Avistei de longe um garoto loiro sentado num banco, com o skate apoiado em sua perna. Não sabia se deveria ser simpática ou não. Afinal, eu estava ali porque queria andar de bicicleta, ou porque queria vê-lo?
- Sabia que viria - disse , levantando-se do banco. Estacionei a bicicleta e fechei a cara.
- Quem disse que eu vim só para te ver? - coloquei as mãos na cintura.
- Tem algum outro motivo? - levantou uma das sobrancelhas.
Fiquei alguns segundos pensando em alguma resposta aceitável e, sem sucesso, mudei de assunto.
- Tá legal, eu não achei nada engraçada aquela sua brincadeirinha, só para começar! E depois, eu não vim aqui só para te ver!
- Veio por que então?
- Você sabe muito bem que eu sempre ando de bicicleta aqui!
- Mas se você quisesse me evitar não viria aqui. Ainda mais hoje. - cruzou os braços e sorriu sarcasticamente.
- Você me irrita, sabia?
- Essa é a graça - peguei a bicicleta, ameaçando ir embora.
- Não, não, não! - disse ele, levantando-se do banco - Eu estava só brincando, .
Fiz cara de brava enquanto ele olhava para mim, sorrindo. Não consigo explicar o quanto eu mudo da água para o vinho quando o vejo.
- Era só uma brincadeira, vai dizer que você caiu!?
Continuei séria e ele começou a rir.
- Estou até te imaginando vasculhando a bolsa para ver se a carteira estava lá! - enquanto pensava, ria mais ainda. Continuei séria e peguei a bicicleta - Não! Ok, sério, eu vou parar!
Continuei com o olhar sério.
- Só uma chance? - perguntou ele, com cara de cachorro sem dono.
- O que você quer?
- Não sei, é legal conversar com você - começou a brincar com o skate.
- Ahn?! - estava confusa. Nós erámos o oposto total.
- Sei lá, você é diferente, é sincera...
- Vai ver eu sou a única que tem coragem de dizer na sua cara o quanto você é irritante - falei, brincando, e ele riu.
Passamos mais duas horas andando pelo parque, rindo dos foras que dávamos, e tentando apostar corrida. Aprendi que andar de skate não é tão fácil quanto parece! E, apesar do fato dele ser completamente irritante, foi até divertido. Na verdade, foi ótimo ficar longe de todo aquele mundo em que vivo, mesmo que tivesse sido só por algumas horas.
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Decidi me levantar, depois de ter colocado o despertador no modo soneca quatro vezes. Eram 6 e 20 da manhã, e eu não havia conseguido dormir nada no dia anterior. Passei a noite fazendo um maldito trabalho escolar sobre formigas, e tentando arrumar um jeito de fazer a minha mãe me tirar daquele colégio.
Não havia nada que eu odiasse tanto como aquele lugar.
Chegar la já me deixava com uma sensação horrível, como se eu estivesse no lugar errado. Mas não tinha como fugir.
"É um colégio tão bom! Não sei porque você implica tanto!", diz minha mãe, sempre que eu tento convencê-la do contrário.
Mas não adianta, ela nunca vai entender. Se nem eu entendo direito, imagine ela! Coitada, não tem culpa nenhuma disso tudo estar acontecendo. Eu simplesmente não consigo me encaixar. E pode ter certeza que já tentei de tudo. Até meus irmãos tentam me entender! E o meu pai...
Bom, ele não faz ideia disso. E se fizesse, reagiria muito pior do que a minha mãe. Eu só não vejo a menor graça em menosprezar os outros. Que culpa eu tenho?
- Mãe, eu vou ou não vou mudar de escola? - falei, colocando o cinto de segurança, a caminho do colégio.
- Nem pensar! Para de fazer drama, ! Isso é frescura sua. Olha só pro seu irmão: ADORA ir ao colégio.
- Dá pra parar de me comparar com ele? Eu odeio aquele lugar, e você sabe disso!
- Eu não vou discutir com você. Até porque, você mesma sabe o quanto isso é ridículo.
Fiquei quieta dessa vez. Não queria começar o dia brigando com a minha mãe, que apesar de não enxergar o quanto eu estou mal, me ama. Liguei o rádio em uma estação de música eletrônica qualquer e olhei para os carros em volta. A maioria era de pessoas que estudavam no mesmo colégio que eu. Já senti um mal estar.
- O que foi? - perguntou minha mãe. Olhei para o colégio logo em frente e senti mais enjôo.
- Esse lugar me dá nojo - somente essa frase foi suficiente para minha mãe surtar de vez.
- Qual é o seu problema, afinal? A culpa não é minha se você está tão infeliz!
- Eu nunca falei que a culpa é sua!
- Eu queria tanto que você fosse igual ao seu irmão! Sempre tão popular com os amigos! - passava a mão na testa, preocupada.
- Qual é o SEU problema? Meu irmão é um otário! Já viu como ele trata as pessoas que considera "inferior" a ele?
- Você mudou muito, não era assim antes! - repetia minha mãe, sem pensar em nada melhor para dizer.
- Assim como? Eu tenho vários amigos na escola, e você sabe bem que eu não sou nenhuma excluída. Eu só não aguento mais viver nesse mundo de falsidade, em que a marca do seu tênis importa mais do que o seu caráter!
- Eu não disse que você é excluída!
- Mas quis dizer, né? Caia na real, eu nunca vou ser como o meu irmão! - saí do carro e bati a porta com força.
Capítulo 2 - Skatista.
Às vezes ando de bicicleta no parque em frente à minha casa, para relaxar. Observo as crianças brincando, o lago cristalino e as aves voando de árvore em árvore, animando os casais de namorados que caminham abraçados. Não me sinto sozinha, só que as vezes é bom ter um tempo só para mim, sem a minha mãe dizendo o que é certo ou errado, me obrigando a ser o molde da filha perfeita. Sem aquelas pessoas falsas. E até mesmo sem a minha melhor amiga.
É, sem a minha melhor amiga.
Quer dizer, eu a amo. Muito. Mas não aguento o fato dela se tornar mais fútil a cada dia que passa. Comigo ela é uma pessoa, e com os outros... Totalmente diferente. Todo o seu mundo gira em torno de certas pessoas que não têm a menor noção da vida.
Eu precisava relaxar.
Estava passando perto do lago, depois da escola. Comprei um saco de pipoca e coloquei na minha bolsa de lado. Queria alimentar os patos, já que eu odeio pipoca. Principalmente aquelas que são vendidas em parques. Geralmente vem quase sem sal e ficam presas entre os dentes.
Não conseguia parar de pensar na discussão com a minha mãe, e na agindo como uma otária. Acelerei. Andar rápido de bicicleta era muito bom, descontava a raiva. E o melhor é que o parque não estava nem de longe cheio. Só alguns skatistas fazendo manobras simples pela ciclovia.
E de repente, um deles deu de encontro com a minha bicicleta em alta velocidade. Caímos no chão, ganhei alguns arranhões e machucados, e a pipoca toda voou.
Odeio skatistas.
- Foi mal, mina. - disse o skatista, loiro com roupas largas, que provocou a queda.
- Foi mal, mina?! - indignei-me. Aquele realmente não era o meu dia!
- Você estava andando muito rápido, tem que tomar mais cuidado, gatinha!
EU tinha que tomar mais cuidado? Espera aí! ELE que não deveria ficar fazendo manobrinhas por ali! E gatinha? Se liga!
- A culpa não é só minha, tá legal?!
- Ou, ou, ou! - disse ele, dando um sorriso de lado - Irritadinha você, hein?
Olhei para a pipoca no chão e fiquei com mais raiva ainda. Talvez se aquele fosse qualquer outro dia, eu não ficaria tão irritada. Mas desde cedo tudo estava dando errado.
- Sai daqui, garoto! - ainda estava no chão, assim como ele. Meu joelho sangrava e seu cotovelo também, mas nenhum dos dois parecia ligar para a dor.
- É por causa da pipoca? Eu compro outra para você!
- Não! Eu nem gosto de pipoca! Eu estou bem, relaxa.
- Então por que você está tão irritada? - levantou-se.
- Só estou tendo um dia ruim. - comecei a colocar as coisas de volta na bolsa, com vontade de dar um soco na cara do primeiro que aparecesse.
- - ergueu a mão na minha direção - Meu nome é .
Podia surtar de raiva ali mesmo, mas ao invés disso, percebi o olhar sincero dele. Respirei fundo e segurei sua mão.
- - segurou forte e ajudou-me a levantar do chão.
- Vou comprar outra pipoca pra você.
- Não precisa - levantei a bicicleta.
- Faço questão.
Acabei aceitando, e alguns minutos depois estávamos dando pipoca para os patos. Era estranho, já que ele não era assim tão idiota.
- Você vem quase toda semana aqui? Como assim? Eu nunca te vi antes! - falei, jogando a pipoca no lago. Os patos brigavam pela comida.
- Pois é, mas eu já te vi várias vezes antes. Eu e os meus amigos.
- Sério?
- Eu sei, você deve olhar para nós e nos achar todos iguais.
- Não, não é isso, é só que... - olhei para ele e desisti de tentar negar - É, eu achava isso - ele riu, de um jeito descolado, bem de skatista.
- Irritadinha, sincera... - dei um tapa de leve em seu ombro - Brincadeira. Mas a menina meio loira da bicicleta só tem uma. Já skatistas... Vários.
- Ah, qual é! Eu nem sou loira!
Ficamos observando os patos. Meu joelho doía muito, e dava para perceber que o braço dele também, mesmo tentando disfarçar.
- É melhor a gente fazer um curativo nesses machucados, .
- Tudo bem, eu sempre me machuco quando ando de skate.
- Pode infeccionar.
- Quando eu chegar em casa eu dou um jeito.
- Não precisa, eu tenho merthiolate aqui. Algumas outras coisas também...
- Você anda com um estojinho de primeiros socorros na bolsa ou alguma coisa assim? - ele riu da minha cara.
- Eu ando de bicicleta quase todo dia, tá legal?!
- E se machuca sempre também? - continuava, com cara de gozação.
- É, ué!
- Não parecia que você estava tão acustumada assim na hora que a gente se tombou...
- Hm, isso não quer dizer nada!
Ok, qual é o problema com o meu estojo de primeiros socorros? É até útil!
Passei merthiolate no cotovelo do e depois fiz um curativo delicado, bem diferente do que se espera de um skatista.
- Valeu, .
Sorri e comecei a guardar tudo de volta na bolsa.
- E o seu?
- O meu o quê?
- Machucado! Tá bem pior do que o meu!
- Eu dou um jeito nisso em casa. Tenho que ir agora - coloquei a bolsa no braço.
- Ah, tá legal, a gente se vê por aí?
Peguei a bicicleta e subi com cuidado para não machucar meu joelho.
- É... a gente se vê por aí! - comecei a pedalar rápido, mas estava muito mais leve do que algumas horas antes. Toda aquela irritação havia sumido.
Capítulo 3 - Caiu direitinho?
- Alô? - atendi o telefone. Se houvesse uma divisão de tarefas em casa, a de atender o telefone provavelmente seria minha. Parece que eu sou a única aqui que faz isso. Meu irmão pode estar a trinta centímetros do telefone, mas não atende. Aquele barulho insuportável fica lá, tocando sem parar. Até eu decidir dar a volta na casa para atender.
- Alô? É da casa do Maurício? - a menina do outro lado da linha tinha voz de choro.
- É sim, mas ele saiu com uns amigos.
- Faz muito tempo?
- Muito.
O silêncio tomou conta da linha, até que a menina desabou no choro. Eu não sabia como reagir.
- Você está bem?
- Eu... eu... - ela soluçava como uma criança quando chora - Fala pro seu irmão que ele é um canalha! - e desligou o telefone na minha cara.
Era comum meninas ligarem atrás do meu irmão, mas chorarem ao telefone? Essa era novidade.
Pensei que teria paz, mas logo meu celular tocou.
- Alô?
- ? - uma voz de menino perguntou.
- Eu? - não fazia ideia de quem era do outro lado.
- É o , sabe? Do parque!?
Precisei de alguns segundos para respirar e voltar à realidade.
- Ah, oi, ! Como você conseguiu o meu número?
- É... então, você esqueceu sua carteira.
- Minha carteira?
- É. Você saiu com a bolsa aberta e sua carteira caiu. Eu tentei te chamar, mas acho que você não me ouviu.
- Nossa, eu nem dei falta! Como assim?
- Pois é, achei que você estivesse louca atrás disso.
- Nossa, obrigada mesmo.
- Então, parque amanhã? Eu preciso te devolver a carteira, né?
- Pode ser.
- Mesmo horário de hoje?
- Claro!
- Ok, então, beijo.
- Beijo - desliguei o celular, ainda abismada com o que acabara de acontecer. Como eu não havia percebido que deixei minha carteira cair?
- Maninha! - nesse momento, meu irmão chegou em casa, um pouco bêbado e alterado. Me abraçou e deu um beijo na minha buchecha. Sabe aquele cara de dezessete anos, bonito, alto, forte e galinha? Esse é o meu irmão.
- Uma menina te ligou - olhei para ele - De novo.
- E...? - queria socar o rosto dele! Como assim "E...?"?
- Ela chorou ao telefone.
- É a Letícia - deitou-se no sofá.
- Como você sabe?
- Conheci a menina semana passada. Bonitinha, sabe? Bem iludida, coitada. Falei que era para a gente se encontrar às oito horas na frente do clube.
Olhei para o relógio: eram quase onze e meia.
- E você não foi?
- Claro que não! Me convidaram para um churrasco hoje, o que você acha que é melhor?
- Você é um otário.
- Qual é?! , você é muito sonsa! Se seguisse o meu exemplo, ia ser muito mais feliz.
- Não consigo acreditar que a gente é da mesma família! - levantei-me e parti em direção ao meu quarto.
Minha bolsa continuava em cima da cama, eu nem sequer a tinha aberto. Sentei-me na cama e olhei para a minha foto com a , há dois anos atrás, no porta-retrato roxo em cima da bancada.
Antes tudo era muito diferente.
Abri a bolsa e comecei a tirar as milhões de coisas inúteis de lá. Tirei o estojo de primeiros socorros e dei de cara com a minha carteira!
É, minha carteira.
Ali mesmo, bem na minha frente.
Abri-a e vi um papel azul perto das moedas. Não lembrava de ter colocado nenhuma notinha de restaurante ali, mas quando abri, bem perto dos números da conta, estava escrito, com caneta azul e uma letra bem desleixada:
"Caiu direitinho, né, menina lolita da bicicleta?"
Capítulo 4 - Longe de tudo.
- Ele é um skatista, - disse , digitando alguma coisa no celular - Só quer te comer.
Fiquei muito tempo pensando no que minha amiga acabara de dizer. Desde quando falava coisas assim?
- Será? Ele é muito legal comigo.
- Você está interessada nele ou alguma coisa assim? - o jeito como ela falava era totalmente irritante, como se ela estivesse fazendo força demais para dizer qualquer coisa.
- Claro que não! - arregalei os olhos como faço quando fico irritada - Eu só não entendo isso, sei lá!
- Você é muito confusa! - virou-se em direção às meninas que ela fazia de tudo para ser igual e sorriu para elas, voltou-se para mim - Odeio elas.
Nem respondi. Iria falar o quê? Aquilo era ridículo! Se as odiava, porque tentava ser amiga delas a todo custo? Apenas abaixei o olhar e levantei-me da mesa.
- Preciso dar uma volta.
parecia não se importar muito, apenas continuou digitando mensagens no celular e sorrindo para as meninas que dizia odiar.
Passei pelos corredores e cumprimentei meus amigos. Olhei para algumas meninas sentadas sozinhas, lendo algum livro com capa desconhecida e olhando assustadas para todos que passavam, como se tivessem medo de alguma coisa.
Pensei em minha mãe.
É claro que ela acha que eu sou assim, intimidada, excluída, despreparada. Me senti humilhada. Senti também uma pena indescritível dessas garotas. Podia ouvir algumas pessoas as chamando de entranhas, ou simplesmente as olhando com cara de nojo.
Queria que só por cinco minutos alguém ali naquele lugar se importasse com alguém. Só por cinco minutos.
~~~~~~~~~~~
Subi na bicicleta e comecei a pedalar pelo parque. Observei mais uma vez toda aquela paisagem de filme de romance. Mesmo que quisesse, não conseguia me imaginar no lugar de qualquer um daqueles casais. Tudo o que me vinha na minha cabeça era a minha mãe esfregando na minha cara o quanto eu era um nada, o quanto inútil eu poderia ser.
Avistei de longe um garoto loiro sentado num banco, com o skate apoiado em sua perna. Não sabia se deveria ser simpática ou não. Afinal, eu estava ali porque queria andar de bicicleta, ou porque queria vê-lo?
- Sabia que viria - disse , levantando-se do banco. Estacionei a bicicleta e fechei a cara.
- Quem disse que eu vim só para te ver? - coloquei as mãos na cintura.
- Tem algum outro motivo? - levantou uma das sobrancelhas.
Fiquei alguns segundos pensando em alguma resposta aceitável e, sem sucesso, mudei de assunto.
- Tá legal, eu não achei nada engraçada aquela sua brincadeirinha, só para começar! E depois, eu não vim aqui só para te ver!
- Veio por que então?
- Você sabe muito bem que eu sempre ando de bicicleta aqui!
- Mas se você quisesse me evitar não viria aqui. Ainda mais hoje. - cruzou os braços e sorriu sarcasticamente.
- Você me irrita, sabia?
- Essa é a graça - peguei a bicicleta, ameaçando ir embora.
- Não, não, não! - disse ele, levantando-se do banco - Eu estava só brincando, .
Fiz cara de brava enquanto ele olhava para mim, sorrindo. Não consigo explicar o quanto eu mudo da água para o vinho quando o vejo.
- Era só uma brincadeira, vai dizer que você caiu!?
Continuei séria e ele começou a rir.
- Estou até te imaginando vasculhando a bolsa para ver se a carteira estava lá! - enquanto pensava, ria mais ainda. Continuei séria e peguei a bicicleta - Não! Ok, sério, eu vou parar!
Continuei com o olhar sério.
- Só uma chance? - perguntou ele, com cara de cachorro sem dono.
- O que você quer?
- Não sei, é legal conversar com você - começou a brincar com o skate.
- Ahn?! - estava confusa. Nós erámos o oposto total.
- Sei lá, você é diferente, é sincera...
- Vai ver eu sou a única que tem coragem de dizer na sua cara o quanto você é irritante - falei, brincando, e ele riu.
Passamos mais duas horas andando pelo parque, rindo dos foras que dávamos, e tentando apostar corrida. Aprendi que andar de skate não é tão fácil quanto parece! E, apesar do fato dele ser completamente irritante, foi até divertido. Na verdade, foi ótimo ficar longe de todo aquele mundo em que vivo, mesmo que tivesse sido só por algumas horas.

