Passado Desconhecido
Autora: Andressa Mendes
Status: Em Andamento
Revisada por: Renata L.B
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: Part Fic - Romance/Drama Adolescente/Terror/Fantasia/Mistério/Tragédia
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- Não me lembro de ter visto essa parte da chácara – Não me lembro das flores amarelas, nem de ter visto tantos bovinos na última vez que vim aqui.
- Acho que não tínhamos vindo aqui antes porque você era muito nova para saber que não se pode andar a cavalo por aqui – meu pai ria com a piada, mal formada, me deixa explicar, eu sempre gostei de andar a cavalo e ele não - e você estava sempre querendo andar com eles – Meu pai estava de bom humor hoje.
O campo estava a nossa frente, dava para ver a casa, um pontinho branco no topo da montanha, a casa de meu tio. O caminho que ainda precisávamos percorrer era grande, ainda bem que não tinha muito mosquito nessa época. Eu era alvo fácil deles.
Cerca de vinte passos a nossa frente tinha uma laranjeira. Meu pai adorava laranjas, ao contrário de minha mãe que não gostava nem um pouco. Eu por outro lado estava no meio termo, nem gostava nem deixava de gostar.
- Ajudem a levar algumas laranjas lá para dentro de casa – Disse meu pai quando chegamos ao pé da laranjeira.
- Para quê, Fabiano? - Minha mãe não gostou muito dessa idéia. Ela não gosta de ficar parada no mesmo lugar no sítio, chácara, sempre achei que era porque ela, como eu, era alvo fácil dos mosquitos – mas fomos ajudá-lo.
O sol já começava a se por quando eu e Cecília, minha mãe, nos demos por conta de que estava na hora de ir. Mas antes que pudéssemos fazer qualquer coisa ouvimos um uivo não muito ao longe do caminho que havíamos percorrido antes de chegarmos ali.
- Vamos, Fabiano, já está na hora de irmos – Minha mãe estava impaciente.
- Claro, só deixa eu pegar mais essa aqui, parece bem docinha, do jeito que eu gosto.
- Tudo bem, mas eu e Amanda já vamos indo – Cecília disse isso já me empurrando para frente.
Mais uivos, mais próximos que o primeiro.
- Anda logo, Fabiano! Temos que ir.
- Ok, estou logo atrás de vocês.
Saímos quase correndo na direção da casa. Mas eu tropecei em algo e caí no chão.
- Vá andando Cecília. Eu ajudo-a.
Meu pai veio em meu socorro. Conseguindo me levantar em poucos segundos. Voltamos a correr. Logo alcançamos mamãe.
- Ajuda. Cecília. Ajuda – Era a voz de... Meu pai. Assim que reconheci parei de correr. Minha mãe parou também. Olhamos para a origem do som das palavras.
Papai estava enroscado em um galho de uma árvore, cujo nome eu desconhecia. Suas feições estavam temerosas, preocupadas. Certamente não eram as que eu conhecia tão bem. As frutas que ele antes carregava, agora estavam jogadas no chão.
- Corre Amanda, continue correndo, eu volto pra ajudá-lo – Mal disse isso, Cecília voltou a correr, mas na direção contrária àquela em que estávamos antes. Ela estava indo na direção que papai estava. Ouviu-se mais uivos. Agora vindo da mata, pouco antes de aparecer eu já sabia o que era. Lobos, na verdade era um só. Estava andando calmamente na direção de meus pais.
- Mãe! Pai! Um lobo.
Mamãe continuou correndo como se não tivesse ouvido nada nem ninguém. O que eu faço? Corro ou grito novamente? Cecília ainda estava a uns dois metros de distância de Fabiano quando o lobo arregaçou as presas, revelando longuíssimos dentes afiados que me arrepiaram toda.
Mamãe notou a presença do lobo. Parou. Meu pai tentou se virar para ver o que havia assustado minha mãe. Ela me olhou – Amanda, corre, tudo vai ficar bem.
O lobo uivou novamente. E eu corri, corri para longe daquilo tudo, para longe de meus pais. Arrisquei uma rápida olhada para trás e vi. Meu pai ainda estava preso. Deve ter visto que olhei para eles pois disse em seguida:
- Cecília, corra, vá com nossa filha.
Logo depois dessa frase mamãe ficou parada pelo que pareceu um longo tempo, até que viu o lobo se aproximando do meu pai. Pareceu que só entendeu realmente o que Fabiano disse naquele momento, já que foi só ali que ela reagiu ao que havia sido dito. E saiu correndo atrás de mim, deixando papai sozinho com o lobo, e com a função de atrasá-lo para que pudéssemos pelo menos ganhar tempo e chegar a casa.
Estava chovendo forte desde o início da tarde, olhei para o relógio, esperava o ônibus há mais de meia hora. Nessa meia hora repassei os acontecimentos do dia, passara o dia todo na escola, tivera aula de biologia com seu colega super gato – e chato, ele nunca fala nada, só fica lá, na dele - Erik; discutira com Dany, sua melhor amiga...
O ônibus veio na minha direção, fiz sinal, mas ele não parou, xinguei o motorista. Sabia que era o último ônibus da noite. Agora só restava uma alternativa, e eu não gostava nem um pouco: teria de pegar uma carona com alguém, Dany está em uma festa essa hora, se eu ligasse para Dany com certeza ela poderia levar-me para casa, mas será que a amiga não ficaria chateada por ter que sair da festa essa hora?
Me virei para pegar o celular dentro da bolsa, já tinha resolvido: Ia sim ligar para Dany, Revirei a bolsa para encontrar o celular e sinto algo ou alguém se aproximando, vindo da direção em que o ônibus havia partido. Meus músculos se retesaram. Lentamente fui me virando.
Erik, meu colega da aula de biologia estava parado atrás de mim. Ele olhava-me com olhos que eu nunca vira antes, seus olhos eram negros, tão negros quanto a escuridão de uma noite sem lua, talvez fosse o reflexo de sua camisa preta e seus jeans escuros. Mas tinha algo mais, algo que eu não conseguia perceber mas que chamava e ansiava por minha descoberta...
- Oi – Erik disse num tom amigável e confiante. Sua roupa estava encharcada e seus cabelos pingando. Nunca tinha ouvido sua voz antes e ela agora ecoava por meus ouvidos. Embora elas parecessem notas musicais, percebi que ele tinha uma voz grossa e seu tom era meio arrogante.
- Oh oi, perdeu o ônibus, ele acabou de passar.
- Ah, não estou esperando o ônibus, só esperando a chuva acalmar um pouco, deixei o carro há dois quarteirões daqui.
Achei o celular, Dany, Dany, Dany... Achei! Tinha acabado de completar a chamada quando ouvi Erik perguntar:
- Se o ônibus acabou de passar, o que está fazendo aqui? Precisa de uma carona? – Um leve sorriso começou a se formar em seus lábios.
- Hã? Ah, não – Gaguejei - quer dizer, sim, sim preciso de uma carona, mas já estou resolvendo isso.
- Posso te dar uma carona, a chuva já esta reduzindo, só vou buscar o carro, não demoro. – Ele se virou para voltar para a chuva na direção que apontara como sendo o local onde estacionara seu carro, quando me dei por conta do que ele havia dito.
Tentei protestar, mas ele já estava muito longe para ouvir, então fiquei vendo-o correr, o balanço de seu corpo era tão perfeito, tão natural e tão surreal ao mesmo tempo, ele desapareceu numa rua lateral.
Não contei o tempo, mas tenho certeza de que não demorou nem três minutos e um carro – não sei muito de carros, mas este com certeza é o carro preto mais lindo que já vi, e tenho um bom palpite de que o mais caro também - parou ao lado do ponto de ônibus, a porta abriu-se. Hesitei. Dentro do carro pude ver que ele sorria, seus olhos tão escuros brilhavam, não falamos nada durante o caminho, a chuva já estava quase parando quando me dei conta de que não havíamos falado nada, nada sobre o caminho, sobre onde moro, sobre outras coisas também. Na verdade ficamos em completo silêncio, devia ser tão estranho pra ele quanto pra mim, mas de alguma maneira Erik sabia o caminho.
- Como, como sabe onde moro? – Pergunto assim que Erik estaciona o carro em frente a uma casa amarela de dois andares, minha casa.
- Moro por perto – Virou-se, notou que eu estava agitada. Deve ter pensado que eu estava atordoada só pelo fato de ele saber exatamente onde moro, mas na verdade eu estava mais preocupada era em saber o que diria a minha mãe quando entrasse em casa. Antes de poder responder qualquer coisa ouvi uma batida fraca vinda da janela ao meu lado.
Minha mãe, Cecília, estava parada ao lado do carro de braços cruzados. Olhei para meu relógio - atrasada, treze minutos.
- Estou atrasada para o jantar. Nos vemos amanhã na aula.
Abri a porta rápido demais para ele poder dizer algo, qualquer coisa que ele pudesse falar com certeza não melhoraria em nada meu humor nem me salvaria do interrogatório que sabia que estava por vir. Mas ele foi esperto o suficiente para saber que palavras não teriam nenhum efeito em mim, naquele momento, inesperadamente Erik pegou minha mão, levou-a aos lábios.
- Esperarei ansioso.
- O que você estava fazendo no carro daquele estranho? – Cecília perguntou quando já estavam dentro de casa.
- Ele não é estranho, é meu colega na aula de biologia. E ele só estava sendo gentil me dando uma carona depois que eu perdi o ônibus. – Não sabia que ia ter um interrogatório tão completo, parece até que sou uma criminosa.
- Seu COLEGA DE BIOLOGIA? E desde quando você pega uma carona com seu colega de biologia? E ele definitivamente não parecia um simples colega de biologia... Posso saber desde quando está saindo com esse cara?
- Não estou saindo com ele. Já disse, ele só me deu uma carona pra casa – Até parece que ela ainda não tinha feito um discurso como esse, anos antes.
- Você nunca pegou carona com ninguém, foi sempre uma garota independente, Amanda. Qual o nome dele? – Cecília exigiu saber.
- Erik. – E completei antes que minha mãe pudesse dizer algo mais – posso jantar agora? Estou morrendo de fome.
- Claro. O jantar está no micro-ondas – Cecília bocejou – Vou lá para cima tomar um banho e me deitar, boa noite.
- Boa noite, mãe.
Trim, trim.
Trim, trim.
O despertador estava tocando. O relógio anunciava que eram 6:00 a.m.
Trim, trim.
Desligo o despertador, tenho que me arrumar para o colégio. Quando desço, encontro minha mãe na cozinha, terminando seu café.
- Amanda – Cecília falou calmamente – me desculpe pelo meu comportamento ontem à noite. Eu não devia ter agido daquela forma. Sabia que um dia você iria começar a namorar, só não esperava que fosse agora que completou dois anos desde que seu pai nos deixou... – Ela continuou falando, mas eu estava tão comovida com a sinceridade em suas palavras, que não ouvi mais nada.
- Desculpas aceitas, mas nós não saímos – eu e Erik - na verdade ele só me deu uma carona, nada mais.
- Sim, eu me lembro de quando eu e Marcos começamos a sair... – Cecília e olhou para o relógio na parede que começou a anunciar que eram 07:00 horas – Tenho que ir, ou vou me atrasar para o trabalho.
Cecília saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos.
No pátio da escola, estava falando com Danielle quando consigo, finalmente, encontrar Erik, ele estava sentado do outro lado do pátio. Conversava com outro garoto, Scott, era novo na escola, mas eu já havia ouvido muitas garotas falarem dele, dando descrições do tipo: alto, moreno, forte, lindo, sarado...
- Oi! – Disse Beatriz, interrompendo meus pensamentos – Em que está pensando, Amanda? – Bia já estava dando beijinhos nelas quando consegui enfim encontrar uma resposta que desviaria o assunto por completo.
- Na festa que vai ter no sábado, ainda não sei o que vou vestir.
Só agora percebi que Danielle havia cortado seu cabelo preto e estava com algumas mechas mais claras. Bia por outro lado estava como sempre vai para a escola, com seu cabelo em uma linda trança que caída perfeitamente sobre seu ombro direito.
- Estava perguntando para a Amanda, Bia, se vocês gostariam de ir a uma festa perto do lago Greth. – Amanda agradeceu mentalmente a Dany por ter anunciado o assunto. Conhecia Bia desde sempre, e sabia que ela não largava uma boa fofoca. Se ela percebesse que eu peguei uma carona com Erik, sabe-se lá o que ela fria com essa informação. Mas Bia adorava festas, não, o correto seria dizer que ela adora os garotos das festas.
- Sim, sim, sim – Bia já estava feliz quando chegou à escola, mas agora ela dava pulinhos de alegria – Não precisava nem perguntar né, amiga. Quando vai ser a festa?
- Sábado às 20:00 horas – Respondo automaticamente. Muito embora eu não tenha prestado atenção no que a Dany dissera, não pude deixar de pegar algumas frases soltas e entender, em parte, seu sentido. Danielle parecia super empolgada com a festa.
Enquanto Dany e Bia discutiam sobre o que iriam vestir no sábado, procurei Erik, mas não o vi em lugar nenhum.
O sinal soou.
Eu tinha aula de literatura no primeiro período. Quando cheguei à sala, vi Scott, sentado na carteira ao lado da minha, estranho, eu nem ao menos sabia que ele estava no primeiro ano.
Sentei-me ao seu lado com um leve cumprimento de cabeça. Ele sorriu – Oi, importa-se de eu me sentar aqui? – Seu sorriso era tão encantador que me fez perder o sentido das palavras.
- Hã, desculpe, o que você disse? – Perguntei sem jeito. Nunca tinha visto um sorriso como aquele. O sorriso de Scott fez com que me sentisse mais leve. Seu sorriso era sereno, repleto de alegria. Era como se só nós dois estivéssemos naquela sala, isso me deixou intrigada.
- Posso sentar-me ao seu lado? – Não respondo, Scott fixou seus olhos azuis nos meus. Vendo que não fiz menção de responder falou – Sou novo na escola, não conheço ninguém nesta sala e este lugar me chamou atenção, talvez seja pela parceira que terei ser tão bonita. – O modo como ele falou a palavra “parceira” me incomodou, era como se ele já tivesse planejado isso, como se eu não pudesse dizer não.
Assenti - não confiava em minhas palavras naquele momento – quando a professora, Clara, entrava na sala.
Scott permaneceu em silencio absoluto durante toda a aula, embora olhasse para mim uma vez ou outra, duas vezes nossos olhares se cruzaram e pude sentir arrepios de pavor e prazer atravessarem seu corpo e entrar no meu através do olhar.
Quando o sinal soou novamente, levantei calma e silenciosamente da cadeira e fui em direção a porta, para minha próxima aula, biologia.
Entrei na sala no último minuto, a primeira coisa que reparei foi que Erik não estava na sala. Andei até meu lugar de sempre, tentando me lembrar de que eu não podia ficar pensando nele e no porquê de ele não estar na sala.
Não vi Erik nas horas que se seguiram. Estou pensando nele mais do que deveria, abalada com meus próprios pensamentos corei ligeiramente enquanto passava pelo portão do colégio.
À noite, quando chego à rua de casa, vejo um carro preto, bem parecido com o de Erik, a única diferença é que este tem um arranhão na traseira.
Não, não era parecido com o de Erik, era o carro dele, percebo quando o motorista arrastou-se para fora do carro tendo uma visão completa de onde estou. De dentro do carro, um vulto negro e musculoso sai e anda em minha direção. Começo a ser tomada por um impulso de sair correndo, mas não consigo mover minhas pernas. Ele já está a menos de 20 passos de mim. Será que é Erik? Porque ele não foi à aula de biologia? O que ele está fazendo aqui...
O homem falou.
- Oi, você deixou isto cair dentro do meu carro na noite passada.
Erik. Era ele, Erik. Estendeu um envelope em minha direção, relutante, pego o embrulho. Minha mente está distante, tento clareá-la, mas volto ao normal assim que vejo o que estava dentro do envelope. Minha foto, a foto que sempre fica dentro da bolsa, aquela em que estou pronta para a formatura, aquela que tirei enquanto esperava minha mãe terminar de se aprontar. Na foto estou com um vestido preto justinho e uma sandália – também preta – com quase 10 cm de altura.
- Obrigada, acho – Hesito, não sei o que dizer, tenho algumas perguntas, mas não quero que pareça que dei muita importância para o fato de ele não ter ido à aula – não vi você hoje na aula de biologia.
- Tive que sair mais cedo. Problemas de família.
Um sorriso travesso atravessa seu rosto, e percebo que estou corando, tudo o que eu menos queria. Pronto, agora ele sabe que eu me importei por ele não ter ido à aula hoje.
Problemas de família, é claro que não era nada de mais. Como não pensara nisso antes? Mas alguma coisa me incomoda, parece que estou ouvindo algo que insiste para que eu preste mais atenção. Mas não consigo entender o que é.
- Espero que não seja nada grave – Digo de leve, tentando brincar um pouco.
- Não é. Nenhum osso quebrado, ataques cardíacos, nem nada do tipo. – Os olhos de Erik atravessaram os meus. Como se esperasse alguma reação.
Noto uma ponta de tristeza em seu rosto. Queria poder abraçá-lo, confortá-lo, beijá-lo.
O pensamento é tão forte, tão intenso...
Dou um passo – involuntário - para trás. Tropeço. Sinto-me sendo invadida por uma escuridão que me cerca e me prende, sou incapaz de fugir até que me esforço para abrir meus olhos, mas não consigo.
Sinto algo me segurando, me puxando para perto do calor. Agora me dou conta de que além de escuro estava gelado. Os braços de Erik me envolvem e sou tirada de meus pensamentos, agora eles estão voltados para o homem musculoso que está parado diante de mim, me protegendo do que quer que fosse o abismo.
- Você está bem? – Sussurrou Erik, tão perto, posso até sentir seu cheiro, uma mistura de sabonete com água quente. De hortelã com cerveja. Peraí! Eu disse “água quente”? Como pode ter cheiro de água quente?
Assenti uma vez, não podia me dar ao luxo de ser pega assim por minha mãe, não depois de ter convencido – ou quase convencido – ela de que nós não estávamos saindo. O que ela iria pensar se nos visse assim, tão próximos? Tão à vontade.
Afasto-me tão subitamente de seus braços, que o olhar de Erik muda de confortável e carinhoso para assustado e confuso. Aproveito o momento de confusão e entro correndo em casa. Sem olhar para trás. Sei que se olhasse, provavelmente voltaria pedindo desculpas e me atiraria em seus braços.
Fecho a porta quando passo e sento-me escorada na parede esperando o som do carro afastando-se pela rua escura.
Estava assistindo a um filme na TV quando minha mãe chega em casa, meia hora depois do incidente com Erik ter acabado.
Cecília prepara a pipoca e senta-se comigo no quarto. Ficamos vendo filme a noite toda. Era quase três horas da manhã quando finalmente consegui dormir.
Olho pela janela do quarto, a que tem vista para a entrada do terreno, e vejo o carro de Erik parado na calçada. Ele estava encostado na lataria do carro, olhando para a casa. Ele me vê. Sorri. Seu sorriso era encantador, quase como o de Scott, a única diferença era que o de Scott tinha um toque assustador que Erik não tinha. Então ele aponta para o carro, ele está me chamando para sair!
Balanço a cabeça afirmativamente e vou me arrumar. Estava saindo do banho, quando ouço uma batida na porta do banheiro. Não pode ser. Não tem ninguém em casa. Mamãe saiu faz mais de duas horas. Termino de me vestir e ouço novamente batidas, mas dessa vez elas ecoam pela porta vinda do corredor.
Entro em pânico.
- Quem está aí?
Silêncio. Alguns minutos se passaram.
- Tem alguém aí? – Mal termino de falar e ouço mais duas batidas na porta.
O silêncio foi tomando conta da casa. Esperei um tempo até que tenho certeza de que não escutara nada. Que tudo tinha sido minha imaginação que sempre fora muito fértil. Abri a porta. Nada. Ninguém. A casa está em absoluto silêncio.
Vou até a janela e olho para baixo, Erik não está mais lá, só o carro. A porta da frente bateu, eu grito assustada. Scott estava na porta do meu quarto com uma faca na mão. Como ele conseguiu entrar? O que ele está fazendo aqui? Mamãe devia ter chaveado a porta, ela sempre tranca a casa toda.
A porta da frente bate de novo, entro em pânico, alguém mais está aqui. Scott não parecia ter notado que a porta lá em baixo havia batido, a não ser que ele estivesse esperando por mais alguém. Scott deu dois passos em minha direção. Um homem - não o reconheci - adentrou silenciosamente o quarto.
O homem pulou. Veio em minha direção. E... Arrancou a faca de Scott. Jogando-o no chão. Eles começaram a brigar. Vi Scott recuperar a faca e apunhalar o homem bem no meio das costelas. O homem sangrava, Scott ria e eu, desesperada, gritava.
Erik entrou no quarto cambaleando, sem ser notado pelos outros que ainda brigavam. O homem misterioso havia arrancado a faca e agora apontava ela na direção do pé esquerdo de Scott. Erik envolveu-me protetoramente com seus braços e sussurrou palavras sem sentido em meu ouvido. E a escuridão me pegou.
Naquele dia acordo mais tarde do que o normal, e por consequência perdi o primeiro período de aula. Enquanto ia para a escola, lembro-me de ter sonhado com Erik durante a noite, mas não lembro o que acontecera no sonho.
Chego na escola dez minutos antes do sinal do segundo período tocar. Enquanto aguardava, fui andando em direção à minha próxima aula, biologia. Ao passar pelo banheiro masculino, vejo uma figura sair de lá. Erik estava com uma mochila nas costas. Parecia que ele também havia perdido o período.
- Passou bem a noite? - Erik sorriu.
- É, acho que sim – Respondi confusa, as palavras relutavam em sair – e você?
- Também, embora não tenha dormindo muito – Ele sorriu como se isso fosse uma piada particular.
Notei que ele não tinha olheiras muito profundas. Naquele instante o sinal tocou. Esperamos que todos saíssem antes de Erik segurar a porta aberta e fizesse sinal para que eu passasse primeiro.
Sentamos lado a lado em nossos lugares. Erik não tirara os olhos de mim até aquele momento. Devolvo o olhar, esperando que ele percebesse que isso estava me incomodando. Mas esta pequena ação teve um efeito inesperado. Erik sorriu – aquele sorriso que me deixa hipnotizada – não consegui desviar os olhos até que o professor chamou a atenção de todos.
- Na aula de hoje, quero que vocês interajam com seus parceiros e busquem saber mais de sua vida. Quero um relatório escrito a mão amanhã sobre o que descobrirão.
Fico quieta, Erik olha ao redor da sala e então volta a olhar para mim.
- Então? – Erik perguntou – Não sei de você, mas eu não estou nem um pouco a fim de fazer nada agora. O que você acha de a gente sair pra jantar e aí fazer o trabalho?
Fico muda. Não sei o que responder. De qualquer jeito minha mãe não estaria em casa, então eu podia sim ir jantar e ela nem ficaria sabendo. O único problema era que eu não sabia se queria sair sozinha com Erik. Afinal, eu não sabia nada sobre ele, mas também não estava a fim de falar nada agora.
- Ta.
- Vai querer que eu te pegue em casa? – Ele sorriu, percebi na hora o duplo sentido daquelas palavras.
- Só vou querer uma carona. Às oito da noite pra mim está OK.
- OK. Estarei lá às oito.
Passei o restante da aula pensando e fantasiando como seria a noite. Já Erik, pegou uma folha do caderno e começou a desenhar.
No final da aula dei uma espiada discreta por cima de seu ombro só pra ver o que ele estava desenhando, mas Erik notou meu olhar antes mesmo de ele chegar à folha de papel. E guardou o desenho, mesmo eu implorando para que ele me mostrasse o que estivera desenhando ele não disse nada. Nem mostrou o desenho.
A noite se aproximava, já eram quase sete horas quando fui me arrumar para o jantar. Não sei por que, mas uma saia rosa – que não vestia há mais de dois meses - estava chamando minha atenção, resolvi colocá-la. Ficou ótima principalmente agora que estava mais justinha.
Acabei escolhendo uma blusa branca não muito decotada, mas que combinou perfeitamente com a saia. A campainha soou me fazendo pular. Não esperava por isso, na verdade Erik não parecia o tipo de pessoa que encantava as mães das namoradas. Se bem que eu não estou namorando com ele para ele ter que encantar minha mãe – Eu esperava que ele desse uma buzinada com seu carro.
- Já vai! – Grito enquanto pego a bolsa que havia ganhado no natal passado.
Desço a escada correndo e abro a porta. Erik estava lindo, na verdade, ele parecia um Deus, com uma jaqueta de couro preta e uma calça jeans azul marinho. Ah, e ele estava com um óculo super escuro, tão escuro que eu não conseguia nem ver o brilho de seus olhos por trás deles.
- Oi, Você está linda – Ele parecia sincero ao dizer essas palavras, mas deduzi que estava simplesmente elogiando como os garotos sempre elogiam as garotas.
- Oi, hm, você também. – De repente fico nervosa, não sabia o que fazer em seguida. Mas não foi preciso pensar. Erik falou.
- Podemos? – Seu sorriso se amplia quando balanço a cabeça afirmando.
Fecho a porta e o sigo até o carro. Erik abre a porta do carona e faz sinal para que eu entre. Rapidamente, entro no carro, sentindo a insegurança do primeiro encontro.
- Como foi a tarde? – A voz de Erik estava tão sedutoramente melosa que acabo sentindo os pelos da nuca se arrepiar.
- Boa. E a sua? – Estava tentando não parecer tão nervosa quanto estava, mas naturalmente não conseguiu esconder muito bem meu nervosismo, pois Erik me lançou aquele sorriso encantador.
- Não sou cachorro, não mordo. – Assim que terminou de dizer isso arrependeu-se, meus olhos encheram-se de lágrimas. Ele pega minha mão delicadamente e a aperta suavemente. – Que houve? Disse alguma coisa errada?
Demoro a responder. Quase não conseguindo segurar as lágrimas que ameaçavam escorrer por meu rosto. Ele foi paciente, esperando eu me recompuser.
Quando consigo controlar as lágrimas falo.
- Meu pai – Será que posso contar para ele? Será que consigo? – Há dois anos, eu, minha mãe e meu pai. Estávamos passeando na chácara do meu tio. No final da tarde ouvimos um barulho que parecia um uivo. E corremos. Eu caí, tropecei em uma pedra. Meu pai foi me ajudar a levantar. Voltamos a correr – Erik parecia fascinado com a história, tirou os óculos e olhou-me, me dando apoio – Estávamos correndo tão rápido que mal ouvimos meu pai gritar por ajuda. A roupa dele havia se enroscado em um galho de árvore. Minha mãe disse para eu continuar correndo, que logo estaríamos na casa do meu tio. Eu corri, fiz o que ela pediu. Ela voltou correndo para ajudar meu pai. Então vi o lobo que havia uivado. Gritei alertando-os. Mas não acho que ela tenha ouvido... – Minha voz foi sumindo até quase não se escutar mais, quando percebi isso parei de falar para me recuperar. As lágrimas escorriam por meu rosto, as lágrimas que evitei por tanto tempo finalmente escaparam do meu controle.
- Calma, calma. Está tudo bem. Vem cá – Ele me puxou para seu peito e eu fui. Estava tão arrasada. Nunca havia contado essa história para ninguém.
Quando me perguntavam de meu pai, eu só dizia que ele não morava mais comigo e mudava de assunto, normalmente as pessoas notavam que eu não queria falar nisso e aceitavam de bom grado o novo assunto.
- Minha mãe não chegou perto de papai a tempo. Quando o lobo uivou novamente ela parou e olhou para mim. Gritou para que eu corresse que tudo ia ficar bem. Mas meu pai ainda estava preso em um galho. Ele gritou por minha mãe de novo, levando a direção dos seus pensamentos para ele. Ele gritou ‘Cecília, corre, vá com nossa filha’. Ela ficou parada por um tempo...
Ele começou a acariciar meus cabelos. Um leve sorriso aparece em meus lábios, mas vejo que não é o seu sorriso habitual, zombeteiro, era um sorriso leve que mandava uma mensagem silenciosa que expressava muito mais que palavras que pudessem ser ditas naquele momento.
- Ela ficou parada por um tempo, enquanto o lobo se aproximava por trás de meu pai. Mas logo em seguida ela entendeu o que papai havia falado. E saiu correndo atrás de mim, deixando papai distraindo o lobo para que tivéssemos tempo para entrar na casa antes que alguma coisa acontecesse conosco. – Lágrimas brotaram em meus olhos, mas já não escorriam mais – Sinto orgulho de meu pai por seus esforços em nos salvar, mas...
Erik me abraçou com força. Quando finalmente percebi que não estava mais chorando, olhei para o relógio do painel. 20:45 PM. Desvencilhei-me devagar de seus braços.
- Tudo bem – Ele não parecia irritado por termos perdido tanto tempo – quer ir jantar?
- Claro. – sorri, nunca tinha pensado que contaria sobre meu pai, muito menos para meu namorado. Quer dizer, para minha companhia da noite. Para meu colega de biologia, acho que fica melhor.
Não demorou nem vinte minutos e já tínhamos chegado ao restaurante. Era um daqueles restaurantes que minha mãe nunca me levaria. Minha mãe é uma daquelas pessoas que tentam economizar em tudo. Mas esse restaurante, nossa, Erik parecia encantado em ter me surpreendido.
- Não sabia se você já tinha vindo aqui, mas parece que ainda não.

