Tempestade
Autora: Gijoka
Status: Finalizada
Revisada por: Tepy Loyola
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: Shortfic/Romance
Desafio: 8.
Comentários:
Capítulo 1
Ottawa. Segunda maior cidade de Ontário. Localizada a aproximadamente 400 quilômetros leste de Toronto, e a 190 quilômetros oeste de Montreal. Possui cerca de 812.000 habitantes, com 1.451.415 habitantes na sua região metropolitana, chamada oficialmente de Região da Capital Nacional, o que inclui a cidade vizinha de Gatineau, na província de Quebec. É a sétima capital de país mais fria do mundo.
E este último fato estava bem explícito naquele dia.
O paraíso de gelo era hipnotizante aos olhos de seu observador. As árvores nuas, uma vez tão esplendorosas, encontravam-se recobertas por grossas camadas de neve, que transformavam os galhos de seu anfitrião em perfeitas estalactites reluzentes; e o chão pedregoso da – agora – pacata cidade mal poderia ser visto ao olho nu, devido ao enorme cobertor congelado que a ele, de certa forma, aquecia.
Era bom estar de volta. O indivíduo, ainda dentro de seu veículo tingido de branco pela neve, não pôde deixar de sorrir ao ter essa linha de pensamentos invadindo sua mente. Fazia tempo que ele não voltava, e era sempre bom estar em casa.
Porém, o sujeito expirou desgostoso ao lembrar-se que visitar sua cidade natal não era a principal prioridade ali. Remexendo de maneira objetiva a maleta no banco passageiro, seu olhar não se desgrudou por nenhum segundo da estrada embaçada enquanto sua mão discava agilmente os números do celular, levando então o aparelho estrategicamente ao ouvido e esperando atenderem a ligação.
- Jones. – a voz conhecida ressoou de maneira cansada do outro lado da linha, fazendo-o rir com graça.
- Passando a noite em claro, sócio? – um resmungo pôde ser ouvido em resposta, abrindo mais o seu sorriso.
- Negócios. Sobre o seu show, aliás. – o suposto amigo respondeu, já com o humor cotidiano restaurando-se – Já conseguiu chegar ao estádio?
- Quem me dera. – seus olhos espremeram-se, como se isso pudesse ajudá-lo a enxergar melhor – Não há uma única alma viva por aqui, mas a neblina está impossível. Quanto tempo ainda tenho?
- Uma, duas horas. Depende do humor do diretor de palco. – ele bufou, revirando os olhos no processo – Aconselho a chegar logo.
- Te ligo quando conseguir ver um palmo à minha frente. – ouvindo a primeira e – consequentemente – a última gargalhada espalhafatosa da conversa, o estranho desligou o celular, jogando-o de qualquer maneira na pasta e voltando sua atenção à imagem à frente.
- Ok, . Concentração. – o motorista sussurrou para si mesmo, voltando a dirigir com certa cautela pela cidade fantasma. Os seus olhos encontravam-se cada vez mais cansados pelo esforço que exerciam e pela noite em claro que passara anteriormente; e a cada minuto a mais no volante, seu peito se enchia de temeridade, pois ele bem sabia que, naquelas estradas, a última coisa que queria era estar no meio da tempestade quando esta, de fato, chegasse.
Contudo, foi em meio à concentração forçada que seus pensamentos foram levados à infância. Seu olhar, de repente, pareceu desfocado enquanto sua mente trazia as memórias juvenis, de quando sua vida ainda era feliz e sem compromissos; bagunçada e sem grandes importâncias. E então todas as coisas que ele se esforçara para esquecer - para enterrarem suas lembranças - vieram à tona, o fazendo lembrar-se do inevitável; daquilo que nunca mais queria se recordar...
Fazendo-o lembrar-se dela.
- Mas o que... – suas orbes arregalaram-se, impossibilitando-o de terminar a frase ao ter seu veículo chocando-se com algo que, até um segundo atrás, não estava ali.
E ambos rodaram no asfalto.
O gelo do chão o impedia de controlar quaisquer movimentos do automóvel, inutilizando-o a realizar qualquer ação. Seu corpo encontrava-se estático enquanto observava, apreensivo, a paisagem girando descontroladamente à sua volta, causando-lhe enxaquecas inevitáveis. Suas pálpebras fecharam-se fortemente, esperando que o acidente acabasse logo, nem que fosse para acontecê-lo da pior maneira possível.
E quando menos esperava, acabou.
O sujeito esperou mais alguns segundos para ter certeza de que estava inteiro. Verificando-se com perícia e exatidão, ele finalmente percebeu que, sim, ele não sofrera nenhum arranhão, deixando-se sair do carro para, enfim, descobrir o que tinha acontecido.
- Então foi você o idiota que bateu no meu carro?
A voz feminina surgiu às suas costas, forçando-o a virar-se de acordo. Assim, ele só conseguiu enxergar um vulto difuso andando em sua direção, nada mais do que isso.
- Acho que o idiota aqui não sou eu, já que não fui eu que dirigi na contra mão. – sua voz elevou-se no mesmo tom que a da outra, deixando-o mais nervoso do que já se encontrava com toda aquela situação.
- Moro nessa cidade desde que me entendo por gente, então creio que sei onde é ou não a contra mão. – quanto mais a figura se aproximava, mais visível ficava. Porém, não se deixou levar pela imagem feminina que ela poderia ter, por mais formosa que fosse.
- Como se eu também não tivesse morado aqui a minha vida inteira! – sua face, ele pôde notar, tornava-se mais vermelha à medida que os acontecimentos se desenrolavam, acelerando seu coração de maneira instantânea. – Qual é a sua? Por acaso, quem você pensa que é?
Quando finalmente a dona da voz ficou nítida, ele não pôde deixar de arregalar os olhos, recebendo um riso sarcástico em troca.
Evidentemente, a sua ex.
Capítulo 2
Um silêncio de alguns segundos seguiu-se após a revelação inconveniente. Ambos sentiam-se desconfortáveis com toda aquela situação e esse fato estava claro em suas faces.
Ela havia mudado muito. Seus cabelos encontravam-se mais revoltosos do que na infância, mas, mesmo assim, sem perder o brilho que sempre o havia fatigado. Seus olhos, no entanto, tinham perdido um pouco daquele fogo que ele sempre admirara em sua pessoa, levando-o a imaginar o que será que havia acontecido com sua vida durante todos aqueles anos de distância...
- . – a mulher finalmente disse enquanto o analisava. Ele não estava nada mal... Seus cabelos haviam embranquecido quase invisivelmente e sua pele encontrava-se mais pálida, porém, além disso... Continuava o mesmo de sempre.
-. – ele disse, franzindo levemente o cenho. Os dois nunca haviam se cumprimentado pelos sobrenomes antes.
- É agora. – a outra disse, erguendo a mão esquerda de forma vencedora. Ali, encontrava-se um anel de ouro fino; o que, para qualquer um, significaria um grande choque emocional.
Mas não para ele.
- Se eu fosse você, não ficaria me gabando por aí de ter casado com . – sua risada soou verdadeiramente sarcástica – Aliás, nem teria tido a coragem de me casar com ele, para começo de conversa. Admiro a sua força de vontade.
- Pode rir o quanto quiser. – ela disse, dando um passo à frente – Mas pelo menos ele soube estar aqui quando precisei.
Essa frase o fez calar-se de maneira inconsolável.
A mulher olhou para os lados como se nada houvesse acontecido há segundos atrás, estremecendo ao agarrar-se ainda mais ao casaco de lã que revestia o seu corpo. Quando percebeu que nada enxergaria, voltou-se mais uma vez ao ex.
- E agora, gênio? Alguma ideia brilhante de como sair daqui? – seu rosto traçava uma expressão forte, fria. Todas as lembranças dele que haviam sido enterradas em sua mente, agora, voltavam com força total e ela fazia um esforço absurdo para não demonstrá-lo em seu rosto.
- Depois sou eu o estrangeiro... – caçoou, porém, logo tratou de continuar, evitando uma eminente discussão – Há um albergue a umas cinco quadras. Está bem perto.
- Eu espero. – ela disse de maneira mimada, cruzando os braços enquanto sentava no capô de seu carro. Era como se somente pelo fato de ele estar ali a tornasse uma mera adolescente outra vez; e ela se odiava por isso.
- A neblina está muito forte. Eu posso não conseguir achar o caminho de volta. – com o silêncio que se seguiu da parte da outra, revirou os olhos – Ok então, se está disposta a estar aqui quando a tempestade, de fato, chegar, o problema é seu. Até mais ver.
Enquanto o ex se afastava, a mulher percebeu o quão certo o outro estava. Ela olhou novamente para os lados, constatando mais uma vez o progresso ágil do clima; e, sem realmente querer dar o braço a torcer, ela exclamou: - , espere.
Um calafrio percorreu pelo corpo masculino ao escutar o seu nome saindo dos lábios da antiga namorada. Fazia tanto tempo que não escutava o som de sua voz...
Assim que ela o alcançou, ambos retomaram a caminhada, o silêncio preenchendo o espaço entre os dois. O nevoeiro ficava, a cada segundo, em pior estado e o antigo casal esforçava-se ao máximo para acelerar o passo, sabendo o que aconteceria caso ficassem a mercê da tempestade. Em dado momento, percebendo a dificuldade feminina em enxergar qualquer coisa à sua frente, envolveu a mão dela com a sua; e esta, em nenhum momento, se opôs a essa ação.
No momento que chegaram ao albergue, contudo, a mulher tratou de separar seus dedos, por mais que seu coração se acelerasse somente por fazê-lo.
- Vamos, eu não tenho a noite toda. – ela disse enquanto passava pela porta. O outro expirou exaustivamente, fechando brevemente os olhos enquanto a seguia; porém, logo parou ao vê-la virar-se raivosamente em sua direção, a fúria tingindo os seus olhos.
- Você fez isso de propósito.
E quando ele foi lhe perguntar sobre o que se tratava tudo aquilo, deu mais uma olhada ao redor, arregalando os olhos ao se dar conta do que ela estava falando:
A época era de férias e o casal havia arranjado uma maneira de encontrarem-se às escondidas na calada da noite. As estrelas emolduravam os céus enquanto ambos jaziam deitados no telhado do albergue, um ao lado do outro, fazendo juras de amor e carícias em seus corpos. Os dois sorriam um para o outro como se não houvesse o amanhã; como se tudo o que lhes restava era aquele momento e nada mais. Eles estavam sozinhos no mundo e nada mudaria isso.
- Aquelas parecem um carrossel. – a menina disse, apontando para um conjunto de constelações. O garoto, então, fez uma careta, entrelaçando os seus dedos nas mãos da outra.
- De onde arranja tanta inspiração para dizer essas besteiras? – a namorada, em resposta, mostrou a língua, virando-se para o outro lado em gesto de birra.
- Bobo. – ela sussurrou ao mesmo tempo em que o outro ria e a abraçava por trás, causando reviravoltas em seu estômago – Pelo menos tenho mais criatividade do que enxergar somente um ET!
- Ei, ele era bastante convincente! Tinha olhos e tudo! – o adolescente resmungou, abraçando-a mais forte – Você sabe que eu estou só brincando, não sabe? – ele questionou após um período curto e silencioso, de certa forma preocupado se a havia realmente magoado.
Ouvindo um suspiro derrotado em resposta, o namorado deu um pequeno espaço para a adolescente virar-se em sua direção novamente, seus olhos repletos de mistério enquanto o encarava.
- Como posso saber se você me enxerga? – quando o outro franziu o cenho, evidentemente confuso, ela continuou – Tipo, de verdade?
O garoto, finalmente entendendo onde ela queria chegar com a conversa, elevou o seu queixo para que pudesse ver os seus olhos, dizendo:
- Não garanto que saberei sempre o que se passa nessa sua cabeça. – ele sorriu torto, finalizando – Mas posso garantir que sempre me esforçarei para sabê-lo.
Logo após essa revelação, ambos colaram os seus lábios, celebrando o amor que o casal pensara que duraria para o resto de suas vidas.
E esta seria a primeira vez em que eles passariam a noite juntos.
Capítulo 3
- Juro que nem pensei nisso quando sugeri virmos para cá. – ele disse após o fluxo de memórias perpassando por sua mente – De verdade.
- Nossa, me sinto muito melhor, obrigada! – ela disse, referindo-se a ele lembrar-se ou não de sua primeira noite juntos – Bom saber a marca que deixei em sua vida.
- O que você quer que eu diga? – de repente, agarrou os braços da outra, chocando-a levemente – Tudo o que falo ou faço parecem farpas aos seus ouvidos! Só me diga o que fazer, ! Qualquer coisa; menos aguentar esse seu jeito de falar e olhar para mim! Por favor.
Saindo do transe momentâneo, a mulher livrou-se de suas mãos, dizendo com veneno na voz:
- Deveria ter pensado nisso antes de me deixar, .
E foi com essa última frase que sumiu porta adentro.
esperou recuperar-se por alguns segundos antes de segui-la fielmente. Ele não conseguia dar-se por vencido, por mais que tivesse que aguentar as investidas da outra; ele fora o errado em partir e deixá-la para trás, essa era a verdade...
Mas ele não era o único errado dessa história.
- Como assim não há mais quartos? – ele conseguiu escutar a voz da ex do outro lado do salão – Você espera que façamos o que? Fiquemos aqui, na recepção? Ou espera que voltemos aos nossos carros e congelemos na tempestade?
esforçou-se para não rir. Ela, por dentro, era a mesma de sempre.
- Vejo duas opções. – o recepcionista disse, parecendo entediado com toda aquela discussão – Dormir aqui, o que não é uma opção, na verdade; ou dividir o quarto presidencial, que é o único que sobrou. Mas aí vocês terão que pagar a mais, como qualquer hóspede faria.
- Nem pensar! – a mulher exclamou, sua face tornando-se escarlate enquanto falava – Você acha que vou dividir meu quarto com ele? Se você pensa que...
- Nós aceitamos. – ele disse, tirando um chumaço de dinheiro do bolso e o entregando ao funcionário à frente – Vocês podem nos dar mais um par de travesseiros e cobertores, por favor?
- O que pensa que está fazendo? – sussurrou enfaticamente quando o estranho virou-se para atender aos pedidos exigidos.
- Arranjando um lugar para dormir. – seu olhar parecia mais sério, mais centrado, que o de antigamente e isso, de alguma forma, foi o suficiente para assustá-la – Eu posso dormir no chão ou em qualquer outro lugar que senão a cama. Assim ta bom?
A ex afirmou com a cabeça levemente antes de o recepcionista chegar com a chave e os outros objetos requeridos.
- Segunda porta à esquerda. – ele disse, direcionando um olhar sujo à mulher antes de a mesma partir com o outro hóspede.
- Só espero que meu café da manhã não venha envenenado. – ela sussurrou para si mesma, o que fez o outro sorrir torto em resposta.
O quarto não era aquele luxo que se esperava de uma cabine presidencial; contudo, também não era uma suíte mundana e comum. Além da cama de casal, havia uma pequena mesa de cabeceira e um mediano sofá-cama, o outro lado se constituindo apenas de uma pequena porta que daria ao banheiro do espaço.
dirigiu-se ao toalete sem dizer uma única palavra e também não se dispôs a quebrar o silêncio. Logo ele adentrou o quarto, tratando de avançar à televisão para ver se havia algo de útil passando nos canais.
- Parece que já começou. – ele sussurrou para si mesmo, referindo-se ao clima enquanto recebia somente estática em resposta. Vencido pelo eletrodoméstico, ele dirigiu-se ao sofá para rapidamente começar a arrumar o lugar onde passaria o resto da noite.
Então, finalmente pôde deitar-se. No começo, seu olhar focava-se no teto, pela falta do que fazer; porém, quando o som do chuveiro não pôde mais ser ouvido, sem saber exatamente o motivo, suas orbes se viraram em direção à porta do banheiro, que estava localizada exatamente à sua horizontal.
Foi aí que ele percebeu que a porta era semitransparente.
Seus olhos não conseguiam se desviar da entrada; e muito menos suas pálpebras eram capazes de fecharem-se. Os contornos de mulher eram quase nítidos na posição em que se encontrava: agilmente, suas íris passaram por sua cabeça, seios, quadril, coxas...
- Sua vez. – a mulher disse ao abrir a porta, veneno escorrendo por sua voz enquanto o falava. O outro riu, para aliviar a própria culpa, e disse antes de entrar completamente:
- Nada que eu já não tenha visto antes.
Capítulo 4
Meia hora depois e ambos já se encontravam trocados com seus devidos roupões, aquecidos e confortáveis. passava de canal em canal, não dando o braço a torcer ao destino, e já se encontrava a um passo da loucura por causa disso.
- Dá para parar? – ele a encarou eficientemente – O sinal não vai voltar de uma hora para outra.
Bufando contrariada, a ex jogou o controle remoto de qualquer maneira na cabeceira ao lado, cruzando os braços de encontro ao peito e fechando a cara.
- Não me lembro de você sendo tão mimada assim. Foi o “Girafa” que destruiu toda a sua boa educação? – a outra o fuzilou com os olhos ao ouvi-lo chamar o marido com o seu antigo apelido de escola.
- Ele já parou de crescer. Não há mais sentido chamá-lo dessa maneira. – ela descruzou os braços, virando o corpo em sua direção – E você também não era nem um pouco baixinho, pelo que eu me lembro.
- Nem um pouco baixinho em outros sentidos, você quer dizer. – ele sorriu torto, recebendo uma jogada de travesseiro em resposta.
- Idiota. – ela disse, esforçando-se para não rir.
- Nossa, você ainda tem bom humor? – após fazer uma expressão dramática, concluiu em exclamações – Alguém chame a imprensa! Ela se casou com e ainda consegue sorrir!
- Pára! Não fale assim dele! – rindo, ela jogou outra almofada em sua direção, errando por poucos milímetros – é ótimo marido. Carinhoso, preocupado...
- Aposto que é ruim de cama. – ele disse, levando, outra vez, um travesseiro na cara.
- Já falei para parar! – ela disse, arfando de tanto rir.
- E você bem sabe que não se pode me atacar sem esperar um contra-ataque. – ele disse antes de avançar para cima dela, fazendo cócegas em seus pontos mais sensíveis.
- Ok, eu me rendo! – expirou entre as gargalhadas espalhafatosas. E enquanto ele se jogava ao seu lado, ela continuou – Como ainda se lembra? Faz tanto tempo...
- Como não me lembrar? Você chorava toda vez que eu tocava nesses lugares! - eles riram mais um pouco antes de ele finalizar com um suspiro – Eu me lembro de muitas coisas, . Coisas que eu nunca vou ser capaz de esquecer.
Outra quietude desconfortável seguiu-se após essas palavras, porém, foi interrompida mais rapidamente pela parte da mulher, que não queria, de nenhuma forma, permanecer daquela maneira.
- Conseguiu tudo o que queria nessa vida, ?
Ambos viraram as cabeças ao mesmo tempo, encarando-se nos olhos.
- Me virei bem. – ele disse, virando sua atenção para o teto novamente enquanto balançava os ombros em descaso – Virei artista de respeito. Ganhei prêmios. Vivo andando de lá para cá...
- Sempre soube que seria assim. – ela sorriu torto, virando-se para o teto também – Você sempre teve esse espírito aventureiro. Nunca conseguiu ficar parado em um só lugar. – a antiga namorada sentou-se, terminando a frase em um sussurro – Talvez tenha sido para o melhor mesmo.
Imediatamente, sentou-se também, obrigando-a a fita-lo de volta.
- Você realmente quer saber por que eu fui embora? – ele perguntou, convicto.
E ela somente assentiu com a cabeça.
O final das férias rapidamente se aproximava, assim como o dia do casamento. andava distraído pelas ruas da cidade, seus pés somente sendo guiados pela intuição e pela harmonia que o garoto sentia em seu peito. O dia que tanto esperara por dois anos e meio finalmente se aproximava; e ele mal podia esperar para, finalmente, se comprometer com aquela que amava.
Mas ele nunca poderia prever o que aconteceu em seguida.
Ali. Bem na sua frente. Sua noiva – agora ex – aos braços de “Girafa”.
Seu mundo ruiu ao redor. De repente, foi como se ele não tivesse mais chão; como se tudo aquilo que acreditava ser verdade, fosse mera ilusão.
Mera mentira.
E foi assim que ele se virou para ir embora e nunca mais voltar:
Com o coração quebrado e a mente destruída.
- ... – a ex disse, aparentemente sofrida – Não é o que...
- Você perguntou se eu consegui tudo o que queria nessa vida, não é? – ele a cortou com um riso forçado – A resposta é não. E quer saber por quê? Porque eu sei que não deveria ter ido embora. Eu sei que meu lugar é e sempre foi ao seu lado. – sua mão esquerda acariciou o rosto feminino enquanto finalizava – Eu deveria ter ficado e lutado por você. E é disso que eu me arrependo todas as noites.
Outra quietude. Mais harmoniosa, desta vez.
- Não deveríamos fazer isso. – ela disse, deixando os lábios entre abertos.
- Eu sei. – ele respondeu, inclinando o corpo em sua direção.
- É errado. – fechava parcialmente os olhos enquanto seus rostos de aproximavam – E me ama.
- Eu também. – sua mão circundou a cintura da outra, fazendo-a arfar – Isso não conta?
Foi com certo choque e desespero que suas bocas se colaram.
Um nunca sentiu tanta saudade do outro quanto nesse momento. Era como se o toque, o beijo, a respiração na pele fossem precisos para a própria sobrevivência; como se, por mais que se beijassem, eles não conseguissem satisfazer essa necessidade um pelo outro.
Ali, eles eram um só. Nada mudaria isso.
Há quanto tempo ela não se sentia verdadeiramente amada? já havia perdido as contas anos atrás. E há quanto tempo ele não ficava com uma mulher que realmente o fazia se sentir bem? não lembrava se, ao menos, houve alguma, senão aquela à sua frente.
A partir daí, não houve mais volta. E voltar, para eles, nunca foi uma opção.
Capítulo 5
A manhã surgiu lenta, preguiçosa. A agora-não-tão-ex espreguiçou-se sonolentamente onde se encontrava, sorrindo ao fazê-lo.
No entanto, sua expressão desapareceu ao notar que estava sem roupas. E, consequentemente, ao lembrar-se da noite anterior.
- . – ela sussurrou ao corpo ao seu lado, que ainda dormia profundamente.
- Hm. – o outro resmungou, sem prestar muita atenção.
- Levanta. – a mulher exigiu ao se erguer e começar ela mesmo a trocar-se. O outro se espreguiçou, não convencido a obedecê-la.
- Só mais cinco minutinhos... – ao sentir um travesseiro atingir o rosto, ergueu-se prontamente – Ouch! Quando foi que ficou tão agressiva?
- A vida me ensinou a ser assim. – ela respondeu, fria como no dia anterior – Agora anda, antes que alguém acabe por nos ver...
- E daí se nos vir? – ele questionou levemente alterado, levantando-se como estava e andando em sua direção – É motivo de vergonha?
- Quando se é casada... – pondo ênfase na última palavra, ela finalizou – Sim.
Alguns segundos se passaram antes de ele agarrar sua mão decisivamente e dizer, encarando-a nos olhos:
- Vem comigo.
- Como? – ela gargalhou com vontade – Só pode estar brincando.
- Pareço estar? – manter a expressão fechada foi o suficiente para fazê-la afrouxar o sorriso.
- Para onde iríamos? Onde moraríamos? – sua voz estremecia cada vez que saia de sua garganta.
- Isso importa? Paris, Londres, Roma... Podemos até morar na Disney, se você quiser. – ajoelhando-se no chão, completou – Por favor.
- Eu... – ela balançou a cabeça, afastando-se enfaticamente – Não posso.
- Por quê? – à medida que ela se afastava, ele se aproximava - Tem filhos? Algo que te prenda aqui?
- Responsabilidades, . Sabe o que isso significa? – seus olhos estavam a ponto de transbordar lágrimas – Ser adulto. É o mundo onde moramos. Não se pode fugir dele para sempre.
- Não vê que não é isso o que estou tentando fazer? – de alguma forma, ele conseguiu apoiar ambas as mãos em seu rosto – Me fixar? Montar uma família? – sua voz abaixou-se outra vez – Não percebe que só posso fazer tudo isso com você ao meu lado? – as lágrimas já percorriam pelo rosto feminino – Não me interessa montar toda uma vida com outra pessoa. A única com quem consigo me imaginar daqui a 70 anos, com uma barbicha no lugar do queixo, é com você. E ninguém mais.
- Como saber se posso confiar em você de novo? – ela questionou entre soluços – Depois de tudo o que fez?
Decisivamente, se afastou, erguendo a mão direita em sua direção. - Acho que você vai ter que confiar em mim.
Alguns minutos se passaram depois da proposta. Em sua mente, lutava contra sua mente e seu coração: afinal, qual era a escolha certa a se fazer? O instinto ou a razão? O amor ou a obrigação?
Não. Ela não escolheria o sofrimento outra vez. Ela já havia cometido esse erro no passado e uma coisa era certa: um erro é perdoável; agora, errar duas vezes no mesmo assunto é simplesmente uma burrice.
- Vê se não me decepciona desta vez, . – ela disse enquanto apoiava sua mão na do outro, fazendo-o sorrir.
- Pode deixar Sra. – ele respondeu, recebendo somente um sorriso em resposta.
E enquanto ambos saiam já devidamente arrumados em direção a um novo futuro, a mulher lhe confessou:
- que veio para cima de mim. – o novamente namorado a encarou, esperando-a continuar – Eu não correspondi em nenhum momento.
Deixando um breve selinho nos lábios da outra, ele disse:
- Nós nos amamos. É isso o que importa.
Com o amor preenchendo seus peitos, ambos partiram, seus dedos entrelaçados carinhosamente, sem sequer olhar para trás.
E eles nunca se arrependeriam de tê-lo feito.
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Ottawa. Segunda maior cidade de Ontário. Localizada a aproximadamente 400 quilômetros leste de Toronto, e a 190 quilômetros oeste de Montreal. Possui cerca de 812.000 habitantes, com 1.451.415 habitantes na sua região metropolitana, chamada oficialmente de Região da Capital Nacional, o que inclui a cidade vizinha de Gatineau, na província de Quebec. É a sétima capital de país mais fria do mundo.
E este último fato estava bem explícito naquele dia.
O paraíso de gelo era hipnotizante aos olhos de seu observador. As árvores nuas, uma vez tão esplendorosas, encontravam-se recobertas por grossas camadas de neve, que transformavam os galhos de seu anfitrião em perfeitas estalactites reluzentes; e o chão pedregoso da – agora – pacata cidade mal poderia ser visto ao olho nu, devido ao enorme cobertor congelado que a ele, de certa forma, aquecia.
Era bom estar de volta. O indivíduo, ainda dentro de seu veículo tingido de branco pela neve, não pôde deixar de sorrir ao ter essa linha de pensamentos invadindo sua mente. Fazia tempo que ele não voltava, e era sempre bom estar em casa.
Porém, o sujeito expirou desgostoso ao lembrar-se que visitar sua cidade natal não era a principal prioridade ali. Remexendo de maneira objetiva a maleta no banco passageiro, seu olhar não se desgrudou por nenhum segundo da estrada embaçada enquanto sua mão discava agilmente os números do celular, levando então o aparelho estrategicamente ao ouvido e esperando atenderem a ligação.
- Jones. – a voz conhecida ressoou de maneira cansada do outro lado da linha, fazendo-o rir com graça.
- Passando a noite em claro, sócio? – um resmungo pôde ser ouvido em resposta, abrindo mais o seu sorriso.
- Negócios. Sobre o seu show, aliás. – o suposto amigo respondeu, já com o humor cotidiano restaurando-se – Já conseguiu chegar ao estádio?
- Quem me dera. – seus olhos espremeram-se, como se isso pudesse ajudá-lo a enxergar melhor – Não há uma única alma viva por aqui, mas a neblina está impossível. Quanto tempo ainda tenho?
- Uma, duas horas. Depende do humor do diretor de palco. – ele bufou, revirando os olhos no processo – Aconselho a chegar logo.
- Te ligo quando conseguir ver um palmo à minha frente. – ouvindo a primeira e – consequentemente – a última gargalhada espalhafatosa da conversa, o estranho desligou o celular, jogando-o de qualquer maneira na pasta e voltando sua atenção à imagem à frente.
- Ok, . Concentração. – o motorista sussurrou para si mesmo, voltando a dirigir com certa cautela pela cidade fantasma. Os seus olhos encontravam-se cada vez mais cansados pelo esforço que exerciam e pela noite em claro que passara anteriormente; e a cada minuto a mais no volante, seu peito se enchia de temeridade, pois ele bem sabia que, naquelas estradas, a última coisa que queria era estar no meio da tempestade quando esta, de fato, chegasse.
Contudo, foi em meio à concentração forçada que seus pensamentos foram levados à infância. Seu olhar, de repente, pareceu desfocado enquanto sua mente trazia as memórias juvenis, de quando sua vida ainda era feliz e sem compromissos; bagunçada e sem grandes importâncias. E então todas as coisas que ele se esforçara para esquecer - para enterrarem suas lembranças - vieram à tona, o fazendo lembrar-se do inevitável; daquilo que nunca mais queria se recordar...
Fazendo-o lembrar-se dela.
- Mas o que... – suas orbes arregalaram-se, impossibilitando-o de terminar a frase ao ter seu veículo chocando-se com algo que, até um segundo atrás, não estava ali.
E ambos rodaram no asfalto.
O gelo do chão o impedia de controlar quaisquer movimentos do automóvel, inutilizando-o a realizar qualquer ação. Seu corpo encontrava-se estático enquanto observava, apreensivo, a paisagem girando descontroladamente à sua volta, causando-lhe enxaquecas inevitáveis. Suas pálpebras fecharam-se fortemente, esperando que o acidente acabasse logo, nem que fosse para acontecê-lo da pior maneira possível.
E quando menos esperava, acabou.
O sujeito esperou mais alguns segundos para ter certeza de que estava inteiro. Verificando-se com perícia e exatidão, ele finalmente percebeu que, sim, ele não sofrera nenhum arranhão, deixando-se sair do carro para, enfim, descobrir o que tinha acontecido.
- Então foi você o idiota que bateu no meu carro?
A voz feminina surgiu às suas costas, forçando-o a virar-se de acordo. Assim, ele só conseguiu enxergar um vulto difuso andando em sua direção, nada mais do que isso.
- Acho que o idiota aqui não sou eu, já que não fui eu que dirigi na contra mão. – sua voz elevou-se no mesmo tom que a da outra, deixando-o mais nervoso do que já se encontrava com toda aquela situação.
- Moro nessa cidade desde que me entendo por gente, então creio que sei onde é ou não a contra mão. – quanto mais a figura se aproximava, mais visível ficava. Porém, não se deixou levar pela imagem feminina que ela poderia ter, por mais formosa que fosse.
- Como se eu também não tivesse morado aqui a minha vida inteira! – sua face, ele pôde notar, tornava-se mais vermelha à medida que os acontecimentos se desenrolavam, acelerando seu coração de maneira instantânea. – Qual é a sua? Por acaso, quem você pensa que é?
Quando finalmente a dona da voz ficou nítida, ele não pôde deixar de arregalar os olhos, recebendo um riso sarcástico em troca.
Evidentemente, a sua ex.
Capítulo 2
Um silêncio de alguns segundos seguiu-se após a revelação inconveniente. Ambos sentiam-se desconfortáveis com toda aquela situação e esse fato estava claro em suas faces.
Ela havia mudado muito. Seus cabelos encontravam-se mais revoltosos do que na infância, mas, mesmo assim, sem perder o brilho que sempre o havia fatigado. Seus olhos, no entanto, tinham perdido um pouco daquele fogo que ele sempre admirara em sua pessoa, levando-o a imaginar o que será que havia acontecido com sua vida durante todos aqueles anos de distância...
- . – a mulher finalmente disse enquanto o analisava. Ele não estava nada mal... Seus cabelos haviam embranquecido quase invisivelmente e sua pele encontrava-se mais pálida, porém, além disso... Continuava o mesmo de sempre.
-. – ele disse, franzindo levemente o cenho. Os dois nunca haviam se cumprimentado pelos sobrenomes antes.
- É agora. – a outra disse, erguendo a mão esquerda de forma vencedora. Ali, encontrava-se um anel de ouro fino; o que, para qualquer um, significaria um grande choque emocional.
Mas não para ele.
- Se eu fosse você, não ficaria me gabando por aí de ter casado com . – sua risada soou verdadeiramente sarcástica – Aliás, nem teria tido a coragem de me casar com ele, para começo de conversa. Admiro a sua força de vontade.
- Pode rir o quanto quiser. – ela disse, dando um passo à frente – Mas pelo menos ele soube estar aqui quando precisei.
Essa frase o fez calar-se de maneira inconsolável.
A mulher olhou para os lados como se nada houvesse acontecido há segundos atrás, estremecendo ao agarrar-se ainda mais ao casaco de lã que revestia o seu corpo. Quando percebeu que nada enxergaria, voltou-se mais uma vez ao ex.
- E agora, gênio? Alguma ideia brilhante de como sair daqui? – seu rosto traçava uma expressão forte, fria. Todas as lembranças dele que haviam sido enterradas em sua mente, agora, voltavam com força total e ela fazia um esforço absurdo para não demonstrá-lo em seu rosto.
- Depois sou eu o estrangeiro... – caçoou, porém, logo tratou de continuar, evitando uma eminente discussão – Há um albergue a umas cinco quadras. Está bem perto.
- Eu espero. – ela disse de maneira mimada, cruzando os braços enquanto sentava no capô de seu carro. Era como se somente pelo fato de ele estar ali a tornasse uma mera adolescente outra vez; e ela se odiava por isso.
- A neblina está muito forte. Eu posso não conseguir achar o caminho de volta. – com o silêncio que se seguiu da parte da outra, revirou os olhos – Ok então, se está disposta a estar aqui quando a tempestade, de fato, chegar, o problema é seu. Até mais ver.
Enquanto o ex se afastava, a mulher percebeu o quão certo o outro estava. Ela olhou novamente para os lados, constatando mais uma vez o progresso ágil do clima; e, sem realmente querer dar o braço a torcer, ela exclamou: - , espere.
Um calafrio percorreu pelo corpo masculino ao escutar o seu nome saindo dos lábios da antiga namorada. Fazia tanto tempo que não escutava o som de sua voz...
Assim que ela o alcançou, ambos retomaram a caminhada, o silêncio preenchendo o espaço entre os dois. O nevoeiro ficava, a cada segundo, em pior estado e o antigo casal esforçava-se ao máximo para acelerar o passo, sabendo o que aconteceria caso ficassem a mercê da tempestade. Em dado momento, percebendo a dificuldade feminina em enxergar qualquer coisa à sua frente, envolveu a mão dela com a sua; e esta, em nenhum momento, se opôs a essa ação.
No momento que chegaram ao albergue, contudo, a mulher tratou de separar seus dedos, por mais que seu coração se acelerasse somente por fazê-lo.
- Vamos, eu não tenho a noite toda. – ela disse enquanto passava pela porta. O outro expirou exaustivamente, fechando brevemente os olhos enquanto a seguia; porém, logo parou ao vê-la virar-se raivosamente em sua direção, a fúria tingindo os seus olhos.
- Você fez isso de propósito.
E quando ele foi lhe perguntar sobre o que se tratava tudo aquilo, deu mais uma olhada ao redor, arregalando os olhos ao se dar conta do que ela estava falando:
A época era de férias e o casal havia arranjado uma maneira de encontrarem-se às escondidas na calada da noite. As estrelas emolduravam os céus enquanto ambos jaziam deitados no telhado do albergue, um ao lado do outro, fazendo juras de amor e carícias em seus corpos. Os dois sorriam um para o outro como se não houvesse o amanhã; como se tudo o que lhes restava era aquele momento e nada mais. Eles estavam sozinhos no mundo e nada mudaria isso.
- Aquelas parecem um carrossel. – a menina disse, apontando para um conjunto de constelações. O garoto, então, fez uma careta, entrelaçando os seus dedos nas mãos da outra.
- De onde arranja tanta inspiração para dizer essas besteiras? – a namorada, em resposta, mostrou a língua, virando-se para o outro lado em gesto de birra.
- Bobo. – ela sussurrou ao mesmo tempo em que o outro ria e a abraçava por trás, causando reviravoltas em seu estômago – Pelo menos tenho mais criatividade do que enxergar somente um ET!
- Ei, ele era bastante convincente! Tinha olhos e tudo! – o adolescente resmungou, abraçando-a mais forte – Você sabe que eu estou só brincando, não sabe? – ele questionou após um período curto e silencioso, de certa forma preocupado se a havia realmente magoado.
Ouvindo um suspiro derrotado em resposta, o namorado deu um pequeno espaço para a adolescente virar-se em sua direção novamente, seus olhos repletos de mistério enquanto o encarava.
- Como posso saber se você me enxerga? – quando o outro franziu o cenho, evidentemente confuso, ela continuou – Tipo, de verdade?
O garoto, finalmente entendendo onde ela queria chegar com a conversa, elevou o seu queixo para que pudesse ver os seus olhos, dizendo:
- Não garanto que saberei sempre o que se passa nessa sua cabeça. – ele sorriu torto, finalizando – Mas posso garantir que sempre me esforçarei para sabê-lo.
Logo após essa revelação, ambos colaram os seus lábios, celebrando o amor que o casal pensara que duraria para o resto de suas vidas.
E esta seria a primeira vez em que eles passariam a noite juntos.
Capítulo 3
- Juro que nem pensei nisso quando sugeri virmos para cá. – ele disse após o fluxo de memórias perpassando por sua mente – De verdade.
- Nossa, me sinto muito melhor, obrigada! – ela disse, referindo-se a ele lembrar-se ou não de sua primeira noite juntos – Bom saber a marca que deixei em sua vida.
- O que você quer que eu diga? – de repente, agarrou os braços da outra, chocando-a levemente – Tudo o que falo ou faço parecem farpas aos seus ouvidos! Só me diga o que fazer, ! Qualquer coisa; menos aguentar esse seu jeito de falar e olhar para mim! Por favor.
Saindo do transe momentâneo, a mulher livrou-se de suas mãos, dizendo com veneno na voz:
- Deveria ter pensado nisso antes de me deixar, .
E foi com essa última frase que sumiu porta adentro.
esperou recuperar-se por alguns segundos antes de segui-la fielmente. Ele não conseguia dar-se por vencido, por mais que tivesse que aguentar as investidas da outra; ele fora o errado em partir e deixá-la para trás, essa era a verdade...
Mas ele não era o único errado dessa história.
- Como assim não há mais quartos? – ele conseguiu escutar a voz da ex do outro lado do salão – Você espera que façamos o que? Fiquemos aqui, na recepção? Ou espera que voltemos aos nossos carros e congelemos na tempestade?
esforçou-se para não rir. Ela, por dentro, era a mesma de sempre.
- Vejo duas opções. – o recepcionista disse, parecendo entediado com toda aquela discussão – Dormir aqui, o que não é uma opção, na verdade; ou dividir o quarto presidencial, que é o único que sobrou. Mas aí vocês terão que pagar a mais, como qualquer hóspede faria.
- Nem pensar! – a mulher exclamou, sua face tornando-se escarlate enquanto falava – Você acha que vou dividir meu quarto com ele? Se você pensa que...
- Nós aceitamos. – ele disse, tirando um chumaço de dinheiro do bolso e o entregando ao funcionário à frente – Vocês podem nos dar mais um par de travesseiros e cobertores, por favor?
- O que pensa que está fazendo? – sussurrou enfaticamente quando o estranho virou-se para atender aos pedidos exigidos.
- Arranjando um lugar para dormir. – seu olhar parecia mais sério, mais centrado, que o de antigamente e isso, de alguma forma, foi o suficiente para assustá-la – Eu posso dormir no chão ou em qualquer outro lugar que senão a cama. Assim ta bom?
A ex afirmou com a cabeça levemente antes de o recepcionista chegar com a chave e os outros objetos requeridos.
- Segunda porta à esquerda. – ele disse, direcionando um olhar sujo à mulher antes de a mesma partir com o outro hóspede.
- Só espero que meu café da manhã não venha envenenado. – ela sussurrou para si mesma, o que fez o outro sorrir torto em resposta.
O quarto não era aquele luxo que se esperava de uma cabine presidencial; contudo, também não era uma suíte mundana e comum. Além da cama de casal, havia uma pequena mesa de cabeceira e um mediano sofá-cama, o outro lado se constituindo apenas de uma pequena porta que daria ao banheiro do espaço.
dirigiu-se ao toalete sem dizer uma única palavra e também não se dispôs a quebrar o silêncio. Logo ele adentrou o quarto, tratando de avançar à televisão para ver se havia algo de útil passando nos canais.
- Parece que já começou. – ele sussurrou para si mesmo, referindo-se ao clima enquanto recebia somente estática em resposta. Vencido pelo eletrodoméstico, ele dirigiu-se ao sofá para rapidamente começar a arrumar o lugar onde passaria o resto da noite.
Então, finalmente pôde deitar-se. No começo, seu olhar focava-se no teto, pela falta do que fazer; porém, quando o som do chuveiro não pôde mais ser ouvido, sem saber exatamente o motivo, suas orbes se viraram em direção à porta do banheiro, que estava localizada exatamente à sua horizontal.
Foi aí que ele percebeu que a porta era semitransparente.
Seus olhos não conseguiam se desviar da entrada; e muito menos suas pálpebras eram capazes de fecharem-se. Os contornos de mulher eram quase nítidos na posição em que se encontrava: agilmente, suas íris passaram por sua cabeça, seios, quadril, coxas...
- Sua vez. – a mulher disse ao abrir a porta, veneno escorrendo por sua voz enquanto o falava. O outro riu, para aliviar a própria culpa, e disse antes de entrar completamente:
- Nada que eu já não tenha visto antes.
Capítulo 4
Meia hora depois e ambos já se encontravam trocados com seus devidos roupões, aquecidos e confortáveis. passava de canal em canal, não dando o braço a torcer ao destino, e já se encontrava a um passo da loucura por causa disso.
- Dá para parar? – ele a encarou eficientemente – O sinal não vai voltar de uma hora para outra.
Bufando contrariada, a ex jogou o controle remoto de qualquer maneira na cabeceira ao lado, cruzando os braços de encontro ao peito e fechando a cara.
- Não me lembro de você sendo tão mimada assim. Foi o “Girafa” que destruiu toda a sua boa educação? – a outra o fuzilou com os olhos ao ouvi-lo chamar o marido com o seu antigo apelido de escola.
- Ele já parou de crescer. Não há mais sentido chamá-lo dessa maneira. – ela descruzou os braços, virando o corpo em sua direção – E você também não era nem um pouco baixinho, pelo que eu me lembro.
- Nem um pouco baixinho em outros sentidos, você quer dizer. – ele sorriu torto, recebendo uma jogada de travesseiro em resposta.
- Idiota. – ela disse, esforçando-se para não rir.
- Nossa, você ainda tem bom humor? – após fazer uma expressão dramática, concluiu em exclamações – Alguém chame a imprensa! Ela se casou com e ainda consegue sorrir!
- Pára! Não fale assim dele! – rindo, ela jogou outra almofada em sua direção, errando por poucos milímetros – é ótimo marido. Carinhoso, preocupado...
- Aposto que é ruim de cama. – ele disse, levando, outra vez, um travesseiro na cara.
- Já falei para parar! – ela disse, arfando de tanto rir.
- E você bem sabe que não se pode me atacar sem esperar um contra-ataque. – ele disse antes de avançar para cima dela, fazendo cócegas em seus pontos mais sensíveis.
- Ok, eu me rendo! – expirou entre as gargalhadas espalhafatosas. E enquanto ele se jogava ao seu lado, ela continuou – Como ainda se lembra? Faz tanto tempo...
- Como não me lembrar? Você chorava toda vez que eu tocava nesses lugares! - eles riram mais um pouco antes de ele finalizar com um suspiro – Eu me lembro de muitas coisas, . Coisas que eu nunca vou ser capaz de esquecer.
Outra quietude desconfortável seguiu-se após essas palavras, porém, foi interrompida mais rapidamente pela parte da mulher, que não queria, de nenhuma forma, permanecer daquela maneira.
- Conseguiu tudo o que queria nessa vida, ?
Ambos viraram as cabeças ao mesmo tempo, encarando-se nos olhos.
- Me virei bem. – ele disse, virando sua atenção para o teto novamente enquanto balançava os ombros em descaso – Virei artista de respeito. Ganhei prêmios. Vivo andando de lá para cá...
- Sempre soube que seria assim. – ela sorriu torto, virando-se para o teto também – Você sempre teve esse espírito aventureiro. Nunca conseguiu ficar parado em um só lugar. – a antiga namorada sentou-se, terminando a frase em um sussurro – Talvez tenha sido para o melhor mesmo.
Imediatamente, sentou-se também, obrigando-a a fita-lo de volta.
- Você realmente quer saber por que eu fui embora? – ele perguntou, convicto.
E ela somente assentiu com a cabeça.
O final das férias rapidamente se aproximava, assim como o dia do casamento. andava distraído pelas ruas da cidade, seus pés somente sendo guiados pela intuição e pela harmonia que o garoto sentia em seu peito. O dia que tanto esperara por dois anos e meio finalmente se aproximava; e ele mal podia esperar para, finalmente, se comprometer com aquela que amava.
Mas ele nunca poderia prever o que aconteceu em seguida.
Ali. Bem na sua frente. Sua noiva – agora ex – aos braços de “Girafa”.
Seu mundo ruiu ao redor. De repente, foi como se ele não tivesse mais chão; como se tudo aquilo que acreditava ser verdade, fosse mera ilusão.
Mera mentira.
E foi assim que ele se virou para ir embora e nunca mais voltar:
Com o coração quebrado e a mente destruída.
- ... – a ex disse, aparentemente sofrida – Não é o que...
- Você perguntou se eu consegui tudo o que queria nessa vida, não é? – ele a cortou com um riso forçado – A resposta é não. E quer saber por quê? Porque eu sei que não deveria ter ido embora. Eu sei que meu lugar é e sempre foi ao seu lado. – sua mão esquerda acariciou o rosto feminino enquanto finalizava – Eu deveria ter ficado e lutado por você. E é disso que eu me arrependo todas as noites.
Outra quietude. Mais harmoniosa, desta vez.
- Não deveríamos fazer isso. – ela disse, deixando os lábios entre abertos.
- Eu sei. – ele respondeu, inclinando o corpo em sua direção.
- É errado. – fechava parcialmente os olhos enquanto seus rostos de aproximavam – E me ama.
- Eu também. – sua mão circundou a cintura da outra, fazendo-a arfar – Isso não conta?
Foi com certo choque e desespero que suas bocas se colaram.
Um nunca sentiu tanta saudade do outro quanto nesse momento. Era como se o toque, o beijo, a respiração na pele fossem precisos para a própria sobrevivência; como se, por mais que se beijassem, eles não conseguissem satisfazer essa necessidade um pelo outro.
Ali, eles eram um só. Nada mudaria isso.
Há quanto tempo ela não se sentia verdadeiramente amada? já havia perdido as contas anos atrás. E há quanto tempo ele não ficava com uma mulher que realmente o fazia se sentir bem? não lembrava se, ao menos, houve alguma, senão aquela à sua frente.
A partir daí, não houve mais volta. E voltar, para eles, nunca foi uma opção.
Capítulo 5
A manhã surgiu lenta, preguiçosa. A agora-não-tão-ex espreguiçou-se sonolentamente onde se encontrava, sorrindo ao fazê-lo.
No entanto, sua expressão desapareceu ao notar que estava sem roupas. E, consequentemente, ao lembrar-se da noite anterior.
- . – ela sussurrou ao corpo ao seu lado, que ainda dormia profundamente.
- Hm. – o outro resmungou, sem prestar muita atenção.
- Levanta. – a mulher exigiu ao se erguer e começar ela mesmo a trocar-se. O outro se espreguiçou, não convencido a obedecê-la.
- Só mais cinco minutinhos... – ao sentir um travesseiro atingir o rosto, ergueu-se prontamente – Ouch! Quando foi que ficou tão agressiva?
- A vida me ensinou a ser assim. – ela respondeu, fria como no dia anterior – Agora anda, antes que alguém acabe por nos ver...
- E daí se nos vir? – ele questionou levemente alterado, levantando-se como estava e andando em sua direção – É motivo de vergonha?
- Quando se é casada... – pondo ênfase na última palavra, ela finalizou – Sim.
Alguns segundos se passaram antes de ele agarrar sua mão decisivamente e dizer, encarando-a nos olhos:
- Vem comigo.
- Como? – ela gargalhou com vontade – Só pode estar brincando.
- Pareço estar? – manter a expressão fechada foi o suficiente para fazê-la afrouxar o sorriso.
- Para onde iríamos? Onde moraríamos? – sua voz estremecia cada vez que saia de sua garganta.
- Isso importa? Paris, Londres, Roma... Podemos até morar na Disney, se você quiser. – ajoelhando-se no chão, completou – Por favor.
- Eu... – ela balançou a cabeça, afastando-se enfaticamente – Não posso.
- Por quê? – à medida que ela se afastava, ele se aproximava - Tem filhos? Algo que te prenda aqui?
- Responsabilidades, . Sabe o que isso significa? – seus olhos estavam a ponto de transbordar lágrimas – Ser adulto. É o mundo onde moramos. Não se pode fugir dele para sempre.
- Não vê que não é isso o que estou tentando fazer? – de alguma forma, ele conseguiu apoiar ambas as mãos em seu rosto – Me fixar? Montar uma família? – sua voz abaixou-se outra vez – Não percebe que só posso fazer tudo isso com você ao meu lado? – as lágrimas já percorriam pelo rosto feminino – Não me interessa montar toda uma vida com outra pessoa. A única com quem consigo me imaginar daqui a 70 anos, com uma barbicha no lugar do queixo, é com você. E ninguém mais.
- Como saber se posso confiar em você de novo? – ela questionou entre soluços – Depois de tudo o que fez?
Decisivamente, se afastou, erguendo a mão direita em sua direção. - Acho que você vai ter que confiar em mim.
Alguns minutos se passaram depois da proposta. Em sua mente, lutava contra sua mente e seu coração: afinal, qual era a escolha certa a se fazer? O instinto ou a razão? O amor ou a obrigação?
Não. Ela não escolheria o sofrimento outra vez. Ela já havia cometido esse erro no passado e uma coisa era certa: um erro é perdoável; agora, errar duas vezes no mesmo assunto é simplesmente uma burrice.
- Vê se não me decepciona desta vez, . – ela disse enquanto apoiava sua mão na do outro, fazendo-o sorrir.
- Pode deixar Sra. – ele respondeu, recebendo somente um sorriso em resposta.
E enquanto ambos saiam já devidamente arrumados em direção a um novo futuro, a mulher lhe confessou:
- que veio para cima de mim. – o novamente namorado a encarou, esperando-a continuar – Eu não correspondi em nenhum momento.
Deixando um breve selinho nos lábios da outra, ele disse:
- Nós nos amamos. É isso o que importa.
Com o amor preenchendo seus peitos, ambos partiram, seus dedos entrelaçados carinhosamente, sem sequer olhar para trás.
E eles nunca se arrependeriam de tê-lo feito.

