The Valley

Autora: Renata L.B.
Status: Em Andamento
Revisada por: Reh
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: Long Fic - Romance/ Ficção
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Capítulo 1 – I don’t see everything as right. It’s not right.


Nova Iorque estava sombria. O frio de dezembro parecia querer adentrar minha pele, e meu casaco não estava dando conta de me proteger. Ao sair do colégio, já tarde da noite devido a estudo exagerado, tive que pegar o metrô para chegar em casa. Era sempre assim, se estava frio ou calor demais, meu pai não saía de casa, porque calor e frio o lembravam de minha mãe.
Porém Nova Iorque não estava sombria por causa do frio. O frio já é rotineiro. Mas estava com um ar de mistério, aquele ar que sempre temos ao assistir a um filme de terror. A sensação do medo do desconhecido, daquilo que não podemos ver, que sentimos ao ficarmos no escuro. Eu sempre tinha esses pressentimentos, e geralmente eles estavam certos. Eu realmente desejei que meus pressentimentos de que algo ruim aconteceria estivessem errados naquela noite.
Do colégio ao metrô, fui o mais rápido possível, verificando sempre se havia alguém me perseguindo. O metrô estava com um número razoável de pessoas. Havia uma menininha, de aparentemente 4 anos de idade, encoberta por casacos que ficava dançando para sua mãe, a qual sorria com um brilho nos olhos.
Uma mulher já de idade, cuja trança de cabelo era loira e longa, observava algum outro mundo em sua mente, com os olhos vagos. Um homem de terno estava chorando. Duas outras garotas, da minha idade talvez, sorriam e conversavam alegremente, pude ouvir uma delas dizer que iria para Harvard fazer Direito.
Por um momento me pus a pensar no quanto é preciosa essa diversidade do nosso mundo, e que a todo momento podemos estar deixando de conhecer pessoas maravilhosas, e de ajudar muitas outras. O trem acabou que ficou lotado, as portas iriam fechar-se. Então, um garoto, alto e forte, da minha idade provavelmente, me pegou pela mão enquanto eu ia me sentar, a mão dele estava gelada.
- Saia agora, você precisa sair daqui. – ele disse. Tudo o que eu consegui fazer foi uma cara de medo, ele continuava segurando a minha mão e insistindo para que eu saísse dali. Consegui me soltar e fui para o fundo do trem, no último banco. Ele sentou-se no banco a minha frente, sempre me observando, e com um olhar apreensivo.
Tentei controlar meu medo dele. Ele não parecia ser um psicopata, estuprador ou qualquer outra coisa ruim, na verdade, ele era até bonito. Mas isso não ganhava minha confiança. Coloquei meus fones de ouvido e tentei ignorar a existência dele. E consegui. Por um momento eu pude sentir uma onda de calor, fiquei relaxada, com sono talvez. Mas então percebi que estava desmaiando.
Quando olhei ao meu redor, enxergava tudo embaçado. Tudo estava ficando leve demais e então consegui ver o tal garoto se aproximar de mim.
- Assim será melhor, confie em mim. – ele disse, pegou minha mão novamente. Mas eu não tinha forças para rejeitar, a música do meu iPod parecia apenas um som distante demais, só lembro de sentir um cheiro de canela, e tudo ficar cada vez mais leve...e leve...leve demais. Desmaiei.
Ouvi um barulho de metal se chocando, mas parecia ser muito longe, eu estava de olhos fechados, como se estivesse em um outro mundo, um surreal. Não sabia quanto tempo havia se passado, parecia pouco, eu não queria, não conseguia acordar. Senti um frio na barriga como se estivesse em uma montanha russa, não sentia meus pés no chão. Na verdade, eu não conseguia sentir meu próprio corpo. Desmaiei novamente.
Quando acordei, percebi que havia acordado pra valer, sentia meu corpo. Sentia minha cabeça doer, tudo estava escuro demais, com apenas uma luz. A luz no fim do túnel, literalmente. Tinha muita poeira no ar, mal conseguia respirar.
Silêncio.
Apesar da visão ainda embaçada, vi algo se movendo em minha direção. Era uma pessoa. Um garoto. Ele se aproximou, ajoelhou ao meu lado e acariciou meu rosto. Eu não conseguia falar, estava com dor demais para ao menos tentar. Não conseguia identificar qualquer traço em sua face, mas ele parecia estar ileso.
- Não dessa vez, querida. – ele disse, se levantou e andou em direção a luz. Tentei chamá-lo de volta, clamando por socorro, mas minha voz não saía. Ele desapareceu.
Sentei-me com dificuldade, tossindo, minha costela doía. Quando olhei ao meu redor, pude ver corpos. Muitos corpos, e sangue, metal. O trem parecia ter sido destruído. Será que... o trem descarrilou? Eu não conseguia pensar direito, pensar doía. Levantei-me com dificuldade, minhas pernas doíam. Ok, tudo doía.
Caminhar por entulhos era difícil, e sem querer acabava esbarrando em algum cadáver. Pessoas mutiladas, não conseguia identificar se alguma delas estava viva e não cheguei perto para verificar. Mas com certeza aquelas que estavam decapitadas não estavam vivas, foi esse o pensamento mais inteligente que pude ter no momento. Segui, com dificuldade, em direção a luz do fim do túnel, deixando de lado toda a ironia do momento. Correndo ao me aproximar, com esperança de encontrar ajuda. Quando cheguei perto demais da luz, desmaiei novamente.

*****


Acordei em um lugar com paredes verdes. Havia um barulho irritante, como um apito. Provavelmente havia sido esse o motivo de eu ter acordado. Minha visão ainda não estava me ajudando muito, via mais pontos brancos do que o mundo ao meu redor. Havia um tubo de sangue ao meu lado, conectado em minha veia. Então eu estava no hospital? Como eu havia parado aqui?
Um barulho de porta se abrindo ecoou, um vulto apareceu, não conseguia enxergar direito mas aquela barba me parecia familiar.
- Filha, você acordou! – ele exclamou, animado, e chegou mais perto de mim, colocando sua mão sobre a minha. Meu pai não era de demonstrar afeto, desaprendera quando minha mãe se fora.
- É, acordei... – quando falei minha voz saiu fraca demais.
- Shh, não fala nada, não faça esforço.
- Hm, mas... Como que...
- Descansa, filha, depois a gente conversa. – ele acariciou a minha cabeça e isso doeu.
Não conseguia persistir em ficar acordada, estava realmente muito cansada, dormi.

Quando abri meus olhos novamente, estava tudo escuro. O quarto só estava iluminado pela luz da lua, que adentrava pela janela. No sofá ao lado da minha cama, havia uma pessoa. Não parecia ser meu pai, nem ninguém que eu conhecesse. Era um garoto. Ele ficava me encarando, eu não sabia o que fazer ou falar. Então ele se levantou, ele era alto e aparentemente forte, caminhou lentamente em direção a porta e se foi. Sentei-me com dificuldade e procurei algum interruptor para acender a luz. Cliquei em um botão, ele fez minha cama subir. Cliquei em outro, a luz se acendeu. No sofá em que o garoto estava sentado, havia um papel em formato de origami. Meu corpo doía só de pensar em me levantar para pegar o tal papel. Sem perceber, dormi.

A luz me acordou. Meu pai estava ali com a enfermeira e o médico.
- Como você está se sentindo? – o médico perguntou.
- Bem.
- Com dores?
- Não agora. – respondi.
- O que você lembra? Porque pelo modo como seu cérebro foi atingido, pode ter havido uma perda de memória. – o médico perguntou, se aproximando.
- Bem... – eu não tinha parado pra pensar no que eu lembrava, até aquele momento. – Não sei. Eu não lembro de muita coisa, eu... só lembro que estava andando em direção ao metrô, e... – Nova Iorque estava sombria. Disso eu lembrava, mas não era algo importante a se contar.
- Não lembra do que aconteceu? De mais nada? Nenhuma coisa importante? – meu pai perguntou, apreensivo. Por que era importante eu saber algo? Quer dizer, seja lá o que aconteceu, é passado, certo?
- Nada. – respondi.
- Srt. , você teve uma certa amnésia, três costelas quebradas, o pulso também e um corte profundo na coxa. Estamos te dando os medicamentos adequados, e logo terá alta. Quanto à memória, não depende de mim, com o tempo talvez a senhorita lembre.
- Mas o que aconteceu?
- Um policial deseja falar com a senhorita. – a enfermeira disse.
- Policial? Por que? O que aconteceu? – perguntei, já me exaltando. Será que eu fiz algo de ruim? Por que não me contam logo de uma vez?
- Fique calma, querida, são apenas algumas perguntinhas. – meu pai disse, afagou meu cabelo e saiu com o medico e a enfermeira.
Em seguida, um homem de farda entrou no quarto. Ele era gordinho, mas muito alto. Muitas rosquinhas entregas na delegacia talvez?
- Srt. ? Eu sou o oficial Turner, posso te fazer umas perguntas? – ele se aproximou, cautelosamente.
- Claro, se você responder a minha. O que aconteceu?
- Bem, era justamente isso que eu esperava que a senhorita me respondesse. – ele suspirou.
- Como assim?
- O trem que a senhorita estava foi descarrilado, sendo você a única sobrevivente.
- O que? – eu? Apenas eu? Mas... mas... isso parecia errado e eu não lembrava o porquê.
- Sim, apenas você, todos os outros 145 passageiros morreram.
- E o que eu tenho a ver com... vocês da policia? – perguntei.
- Bem, o acidente foi há uma semana atrás e...
- O que? UMA semana? Eu dormi por uma semana? – o interrompi.
- Creio que sim, porém o caso é que os estudos técnicos do acidente apontaram não a falha do trem ou do trilho, mas sim um acidente proposital.
- Como assim proposital?
- Aparentemente, alguém implantou uma bomba nos trilhos. E as câmeras foram destruídas, então não há evidência de quem pode ter feito isso.
- E o que eu posso ajudar?
- Bem... – ele hesitou. – A senhorita se lembra de alguém suspeito... antes de embarcar... ou até mesmo dentro do trem?
Eu não me lembrava, mas sabia que precisava recordar de algo, alguém.
- Não, não lembro de nada. – respondi.
- Nada mesmo? Nenhum detalhe? Nenhuma coisa importante? - ele me olhava de um jeito misterioso.
- Nada. Só o que lembro é de sair do colégio.
- Tudo bem. Se a senhorita se lembrar de mais alguma coisa, por favor, nos comunique. – ele me entregou um cartão com o telefone da policia (er, 911) e seu nome. – Bom dia.
- Er, bom dia.
Ele saiu, batendo a porta, provavelmente estressado por não ter conseguido tirar nada de mim. No segundo seguinte, lembrei do tal origami do garoto misterioso que estava no meu quarto. Quando olhei para o sofá, não havia nada ali.
Eu me lembrava vividamente do papel, será que foi uma ilusão? Provavelmente, mas não parecia.
Querida.
Essa palavra veio na minha mente, do nada. Não entendi o porquê. Eu era estranha demais. Meu pai entrou novamente no quarto, sentando-se no sofá que antes estava o tal garoto.
- Hm, pai? Quem foi que... estava aqui um dia desses, de noite?
- Provavelmente eu.
- Não, não era você.
- Então acho que foi só coisa da sua cabeça. - Não, não tinha nenhum papel nem nada no sofá em nenhum momento que estive aqui.
- Hm... tudo bem.
Amnésia e agora estava ficando louca. Eu já era anormal demais pra ter mais problemas.
- Quando eu tenho alta?
- Dois dias.
- Ok...
E ficamos em silêncio até o anoitecer. Era sempre assim, meu pai não conversava e eu não era de puxar assunto. Ficamos assistindo a qualquer coisa que passava na TV, sem muitos comentários. Jantei, me deram mais remédios porque eu já sentia dor, e sem perceber eu dormi.

****


A musica estava alta, as pessoas dançavam valsa alegremente no salão. As mulheres com seus vestidos longos e de saias esvoaçantes de época giraram pelo salão, guiadas por seus parceiros. Dançar, nunca fora de dançar. Eu tropeçava no meu próprio pé, enquanto descalça, então quem dirá com salto.
Resolvi sair dali antes que alguém tentasse me convidar para dançar. O que seria algo bem provável de acontecer. Não porque eu sou bonita mas sim porque eu estava sentada no lugar mais elevado do salão, era como se um holofote estivesse apontado para mim, não sabia por qual motivo. Me encaminhando para a porta que, misteriosamente, eu sabia que daria para os jardins, passei por um grande espelho. Fiquei estonteada com meu vestido estonteante. Ele era de uma seda rosa clara com pequenas flores bordadas com renda ao longo da saia esvoaçante. Meus cabelos estavam com cachos, e a maquiagem maravilhosa. Era como se eu estivesse no século XIX, e eu tive a impressão de que isso era verdade. Tive a comprovação quando olhei o grande pano erguido sobre a escada, com o escrito “Feliz 1845”. Era ano novo?
Disfarcei minha surpresa com a minha beleza estranha e com a data estranha, saindo pela grande porta. Senti uma mão me puxar delicadamente, uma mão fria. Quando me virei, percebi que era um rapaz alto e aparentemente forte. Ele tinha o cabelo um tanto longo, preto, penteado corretamente, sem deixar nenhum fio fora do lugar. Estava com um terno bonito, como um cavaleiro. Ele sorriu, mostrando seus dentes bonitos. Ele ficava mais bonito quando sorria.
- Não dessa vez, querida. – ele disse, com sua voz forte mas com sinais de fraqueza, como se ele quisesse mas ao mesmo tempo hesitasse em falar comigo.
Eu senti que o conhecia, mesmo que eu nem ao menos soubesse o que eu estava fazendo ali. Não sabia ao certo nem quem eu era, aquela pessoa linda do espelho não podia ser eu. Eu ri um riso interno. Como? Era como se eu não estivesse com poder sobre mim mesma.
- Me concedes uma dança? Seria uma honra ter sua maravilhosa companhia. – ele, ainda segurando minha mão, fez uma leve reverência. – Sim, a senhorita não tem outra escolha senão aceitar.
- Realmente pretendes dançar comigo na frente de toda a sociedade? – eu senti um frio na barriga, como se estivesse em uma montanha russa. Me deu uma sensação de deja vu. O que era estranho, já que no século XIX nem existia montanha russa, se eu não me engano.
- Não vejo nenhum infortúnio nisso. – ele respondeu, com um olhar intrigante, e eu apenas sorri. Não sabia o que mais fazer, deixei-o levar-me de volta para o salão, mais especificadamente para o centro do mesmo.
A musica antes agitada parou e começou uma mais calma. Ele colocou uma mão em minha cintura, e eu coloquei uma em seu ombro, e a outra em sua outra mão. Não entendia como era possível, mas eu sabia dançar. E ele também. Todos os olhares do salão estavam voltados para nós dois. Fiquei corada e ouvi um riso interno vindo dele.
- Não precisas ter vergonha, uma dança inocente não indica nada. – ele disse, perto demais de meu ouvido, meu coração acelerou.
- Para o senhor talvez não, mas amanhã as colunas sociais estarão vangloriando essa nossa dança inocente.
- Não me importo com colunas sociais. Mas e para a senhorita? Indica algo? – ele perguntou, e me olhou nos olhos. Não havia reparado mas eram olhos azuis, mas não um azul claro, e sim escuro, talvez um azul marinho. Peculiar. Talvez pelo fato de ser um azul marinho, me afoguei ali por alguns segundos.
Tínhamos parado de dançar, estávamos apenas em pé no meio do salão, com todos os olhares nos vigiando. Porém, naquele momento senti como se estivéssemos a sós.
- Então? Indica algo para a senhorita, essa nossa dança? – ele insistiu.
- Não. - respondi. – É apenas uma dança inocente, sem compromisso ou intenção alguma, certo?
- Certo. – ele respondeu frio e voltou a me conduzir na valsa.
Senti um cheiro de canela, e me senti leve. Leve demais.

*****


Abri meus olhos, estava no quarto verde e já era manhã. Eu sonhara algo, lembrava disso. Lembrava que no sonho estava dançando. Sozinha? Não sabia dizer. Não lembrava de mais nada.
Não dessa vez, querida.
Essa frase veio em minha mente. Eu sabia que era algo que eu deveria me lembrar, mas não sabia dizer o porquê.
Havia algo em minha mão. Um origami. Olhei melhor, era um pássaro... sentindo um pouco de dor enquanto tentava sentar-me, desfiz o origami, abrindo o papel, e vi que era... um desenho a tinta?
Com cores fortes, ao redor da trilha haviam flores. Logo mais acima, na trilha de grama, havia uma escada. Só o que eu conseguia pensar era em estar ali e sentir, de novo, a sensação de deja vu. Eu conhecia aquele lugar.



CONTINUA


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