Full On
Autora: Ana Beatriz
Status: Em Andamento
Revisada por: Lih
Categoria: McFly Fics
Sub-Categoria: Romântica/Drama
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Cap. 1 – First Date
Você já acordou um dia se sentindo tão minúscula e insignificante (Lê-se: EMO) que seria capaz de passar por outras pessoas sem ser percebida? E ficava com o pensamento que tudo estava fora de lugar? Como se a qualquer momento uma bomba relógio fosse explodir e destruir tudo... Ou apenas um branco enorme fosse surgir e te deixar isolada do mundo, de todos, dos sons. Um dia que você acorda... Pra baixo? (Emo, colega).
Eu estava sentada em uma cadeira mais afastada na sala, num desses dias. Felizmente, ainda não tinha tocado o sinal para a primeira aula. Uma sensação estranha tomava conta de mim, e para tentar me distrair, eu rabiscava na última folha do caderno, que já estava cheia de desenhos, riscos, números, partes de músicas e coisas indecifráveis. Os fones do meu Ipod estavam nos ouvidos, fazendo-me bater os pés no ritmo de My Generation.
Fechei os olhos e descansei o lápis que segurava na mesa, sussurrando a letra da música, completamente alheia. Quando voltei a abri-los, percebi alguém sentado na cadeira da frente, me observando com um sorriso.
- Ei. Bom dia, Derek. – Falei para o moreno sardento e de olhos espetacularmente verdes a minha frente.
- Ei, pequena. Bom dia. – Ele alargou o sorriso. – Sozinha aqui atrás, de novo?
Dei de ombros.
- Estou em um dos meus dias de fantasma. – Baixei a voz, desligando o Ipod e guardando-o na mochila.
- Ah, sei. Aqueles dias da " saí de perto e me deixa em paz”. – Derek me encarou, erguendo uma das sobrancelhas.
- É, esses dias – Rolei os olhos não podendo deixar de rir em seguida. Embora não gostar muito dele no começo, éramos amigos desde a quarta série, quando tivemos que apresentar um trabalho sobre o corpo humano em desenvolvimento – algo muito básico e fácil, nessa idade, principalmente para os garotos. Ele costumava fazer perguntas estúpidas e sacanas sobre o corpo das meninas.
- Vê se presta atenção na aula ao invés de se perder dentro dessa cabecinha cheia de coisa que é louca pra se desligar. – Como felicidade dura pouco, nós ouvimos o sinal tocar e Derek se levantou. Beijou minha testa e acenou, se afastando logo depois.
Fiquei olhando as pessoas se ajeitarem em suas cadeiras, enquanto a professora de História, e toda sua gordura exagerada, colocava o próprio material na bancada.
Meu celular, que estava no meu bolso, começou a vibrar. Toda minha preguiça e mau-humor me impediu de responder alguma mensagem. Provavelmente da Sarah reclamando de como era chato assistir aula e mais um monte de merda.
Eu não estava nem um pouco a fim de escutar o que a srta. Adams tinha pra falar e, na verdade, eu não estava nem um pouco a fim de ficar ali. Sempre fui meio inconstante. E como estava me sentindo totalmente uma estranha e com aquele melancólico desejo de desaparecer, uma enorme vontade de ver o mar e sentir o vento bagunçar os cabelos me apareceu.
Mas, obviamente, eu não queria ir sozinha. E já tinha em mente quem eu chamaria, só precisava de uma boa desculpa para sair de sala logo no primeiro horário. Esperaria alguns minutos mais passarem.
Se minha cabeça colaborasse, fato.
“Merda de aula de biologia. E aí como tá a situação? Ontem eu vi o ! Ele estava foda, muito lindo.”.
O bom de sentar isolada é que, geralmente quando você não é má aluna, nunca prestam atenção no que você está fazendo. O porém era que eu não queria responder a mensagem de Sarah, então apenas desliguei o celular e o joguei na bolsa junto ao Ipod. Não agüentei mais estar ali, mesmo mal tendo começado o dia, e ergui a mão, pedindo permissão para falar. Aprendi a ser educada assim na primeira série, beijos.
- Sim, ? – Srta. Adams franziu a testa ao me ver com o braço erguido e se aproximou, falando por cima do balburdio.
- Posso ir à coordenação? Não estou me sentindo bem. – O que não era totalmente mentira, se você parar pra pensar.
Escola é uma bosta.
Ela concordou com a cabeça e eu me levantei, indo até a porta.
Derek me olhou de onde estava sentado junto a alguns amigos, e eu apenas dei de ombros, saindo da sala.
Caminhei lentamente pelos corredores vazios, deixando que meus pensamentos fluíssem e vagassem, me fazendo companhia enquanto eu divagava. O ruim de estudar de manhã quando se tem um cérebro lerdo, é que você demora a digerir todas as informações. Então eu não me surpreendi quando vi a professora de Química se agarrando perto do banheiro masculino com o professor careca e oleoso de Psicologia.
Uma palavra: N-o-j-e-n-t-o.
Depois de fazer toda uma ceninha na coordenação, me deram uma autorização para ir embora. Peguei minha mochila na sala, entreguei a autorização à professora e saí da escola, me vendo andando nas ruas, um vento forte batendo no rosto, já que o dia estava cinzento e ventoso.
Um clima inconstante e devidamente inglês.
Andei até estar parada na porta de uma casa branca, coberta por poucas trepadeiras, comum, como todas as outras ao longo da rua, exceto pelo jardim bem cuidado e repleto de frufrus (Frufrus?). Toquei a campanhia e ninguém atendeu.
Após um tempo parada feito uma idiota, joguei minha mochila na grama bem cortada e, com a ajuda de alguns suportes (as trepadeiras), consegui subir até onde tinha uma janela. Comecei a bater, com cuidado para não cair.
- Porra, o que é? Não se pode nem dormir! – Um com voz rouca e cara de quem não vê uma cama há anos abriu a janela, estreitando os olhos por causa da luz.
- Bom dia pra você também.
- ?
- Não, a Madonna, olha que mágico. Claro que sou eu. – Ri. Era sempre bom ver o . – Agora, me deixe entrar! Está querendo que eu despenque?
- Entre, desculpe. E desculpe também não ter ido abrir a porta, eu estava com preguiça. E minha mãe não está em casa, então... – Ele tagarelou e se afastou, abrindo espaço para que eu entrasse no quarto bagunçado, que cheirava a uma mistura excêntrica de perfume masculino e cigarro. Foi o que fiz. – Oi.
- Oi! – Joguei os braços em volta do pescoço dele, apertando-o em um abraço. – Sabia que você não iria para a escola hoje.
- Ah é, espertinha? – fez uma careta, me soltando e me encarando debochadamente. – E como você sabia?
- Ah, intuição. Você saiu ontem e só deve ter chegado agora de manhã, pra variar.
- Bem... Ok, é justo. Mas não era para a senhorita estar na escola? – Ele continuou a me encarar. Os olhar fixo de reprovação em minha face me acanhando.
- Eu estava... Mas me deu vontade de ir à praia, então eu disse que não estava me sentindo bem e eles me deram autorização para sair e ir pra casa. – Expliquei.
- Ah, , então me diz: Você queria ir à praia. Por que veio aqui? – perguntou, e eu sabia que ele tinha a resposta.
- Pra te levar junto! – Respondi como se fosse o óbvio. – Além do mais, o carro da sua mãe está lá embaixo...
- Hein? Não, eu não vou à praia com você essa hora, com o carro da minha mãe. Não mesmo.
Sabe quando você está caminhando numa rua que seria deserta se não fosse uma ou duas pessoas, e você fica imaginando estar num filme, no seu filme, enquanto sua música preferida toca?
Eu me sentia assim. Só que na praia. E sem música. E com o !
Reflexões absurdas.
- O mar está feio hoje. O vento está atrapalhando. – Sibilei, movimentando os dedos dos pés nas pedrinhas frias.
- Sei que você está louca para dar um mergulho. – encarou o nada, colocando as mãos nos bolsos da calça, meio distraído.
- Não, obrigada. – Falei.
- Claro que você quer. – Ele encostou o cotovelo no meu, fazendo uma cara irônica.
- Não, .
- Sim, .
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Sim.
- Não. – soltou uma gargalhada com o erro, me abraçando de lado. – Vem, vamos dar um mergulho.
Soltei um gritinho exagerado, me afastando dele e ele ergueu a sobrancelha, mordendo o lábio inferior.
- Não queira que eu vá atrás de você. – Murmurou, sorrindo torto.
- Não quero. Você vai me jogar nessa água fria sem piedade. – Sorri em resposta, timidamente. Fui até ele, pulando em suas costas e envolvendo seu pescoço com meus braços, e seu corpo com minhas pernas – Vamos passear.
O cabelo do tinha aquele cheiro bom de quem acabou de tomar banho, embora eu duvidasse que ele o lavasse sempre.
- Passear?
- É. Você anda com os pés na água batendo em seu tornozelo, assim eu não preciso me molhar. – Expliquei sábia.
- Palhaça. – Riu – , quer sair hoje à noite?
- Sair... Eu, você e toda a galera? – Sussurrei, descansando meu queixo em seu ombro, enquanto ele segurava minhas pernas e começava a andar.
- Não. Apenas eu e você.
- Tipo... Um encontro?
- É. – respondeu baixinho.
– Quer? Eu estava sonhando ou estava me chamando para sair?
Desculpe?
- Eu... Acho que seria legal. – Respondi, sentindo meu coração acelerar.
Eu não sabia o que ia acontecer, e aquilo me assustava, causando-me um gelo no estômago que reconheci ser nervosismo.
- Legal. – continuou com a voz baixa. – Legal.
Nós ficamos em silêncio, eu me sentindo totalmente estranha. Em um minuto eu e ele estávamos conversando, e no outro tínhamos um "encontro", e parecia que havíamos ficado com vergonha, porque nenhum de nós se atrevia a dizer sequer uma palavra.
- Aonde você vai me levar? – Deixei escapar com uma risada.
- Isso é surpresa, eu acho.
Depois voltamos a não falar mais. Desci das costas dele, e enquanto caminhávamos um ao lado do outro, tomei coragem e segurei sua mão.
Era uma sensação diferente, nova, que causava um formigamento na minha pele. não me olhou, apenas sorriu e entrelaçou nossos dedos.
Me perturbava o fato que eu estava melhor em apenas ir à praia com ele, e o pior, que íamos sair. Eu gostava de . Bastante. Nos conhecíamos desde sempre, nos divertíamos desde sempre. Só que eu não sabia se estava confundindo as coisas, me deixando levar por aquela sensação prazerosa de estar prestes a descobrir algo novo. Ou talvez fosse coisa da minha cabeça lunática, e eu e iríamos perceber que estávamos apaixonados e fugiríamos para Vegas e casaríamos na mesma noite.
- ? – Chamei, e ele finalmente me encarou. – Me diz aonde você vai me levar. Por favor?
- Não, , se não vai ficar sem graça.
- Por favooooooor. – Tentei fazer cara de criança que perdeu doce, me esforçando para não rir do quanto deveria soar idiota.
- , eu não vou falar. – riu, soltando minha mão, se afastando um pouco e colocando os braços para cima. – Vou ser legal e contar até cinco. Você corre, e se eu te pegar, entramos no mar.
- Isso é injusto! E você sabe que eu não consigo correr na areia!
- Um... – Fechou os olhos, a sombra do sorriso ainda nos lábios.
- !
- Dois...
- !
- Três, e é melhor começar a correr... Quatro...
Ergui as sobrancelhas.
Sério?
- Cinco. Vou te pegar.
Gritei, e antes que pudesse começar a correr, já havia me alcançado. Me segurou pela cintura, e caímos sobre as pedrinhas.
- ! Eu não vou mais sair com você! – Sentei rapidamente, cruzando os braços.
- Ai, , não faz drama. – Ele continuou deitado, tentando fazer uma voz mais afeminada para me divertir.
Deitei ao lado dele, virando a cabeça para poder olhá-lo, um tanto desconfortável. Senti coisinhas no estômago e minhas mãos suaram. Mas por quê? Era só o mesmo de sempre.
Ou deveria ser.
- Acho que está na hora de voltarmos. – Murmurei.
- Calma. Eu ainda preciso fazer uma coisa. – Ele resmungou, se aproximando e colocando uma das mãos na minha barriga, como se me impedisse de levantar, de fugir. Passeou o olhar por todo meu rosto, até parar onde queria.
- ... Acho que está na hora de voltarmos. – Sussurrei novamente, fechando os olhos. Eu não queria ir. Se eu ficasse ali, parada, eu talvez descobrisse o que iria acontecer, o que eu queria, afinal, que acontecesse.
Mas não foi como minha mente imaginara em rápidos segundos que passaram despercebidos. começou a fazer cócegas em mim.
E eu comecei a gargalhar de uma forma escandalosa. Ainda assim, era apenas aquilo que ele queria? Questionei-me, lutando para não sucumbir ao desaponto.
- , pare! Estou com falta de ar. – Berrei com dificuldade.
Ele riu. Toda vez que ele fazia aquilo, eu meio que me derretia por dentro.
Eu estava com a cabeça encostada na janela do ônibus, enquanto Wonderwall tocava em algum lugar da minha mente. Já passava das três e quarenta da tarde, e o dia havia ficado repentinamente mais cinza. Nuvens pesavam o céu, e provavelmente iria chover. Estava indo me encontrar com e mais alguns amigos, que eu não via há dias. Eles tinham marcado de se encontrar no cinema logo depois da escola, e iríamos assistir qualquer coisa.
Após algum tempo sentada no banco, me balançando levemente e esperando parar no meu destino, desci a algumas quadras do cinema principal da cidade. Vesti meu moletom cinza por cima da blusa, corri e entrei no local, procurando-os com os olhos.
- ! – Uma sorridente veio até onde eu estava parada desorientada. Me abraçou.
- Oi ! – Sorri, retribuindo o abraço.
- Que bom que chegou! Estamos pensando em assistir um filme de terror. Pode ser qualquer um. – Ela segurou minha mão afetuosamente, falando enquanto me puxava para um grupo de pessoas. – Ei, a chegou!
- ! – disse alegre, me puxando para um abraço rápido. – Oi estranha!
- Oi pra você também.
- Oi ! – riu, me abraçando quando me viu livre de .
- Oi gata.
- Ei . – acenou com a cabeça, segurando meu braço e beijando minha bochecha, como fazia desde sempre.
- Oi !
- . – esboçou um sorriso, satisfeito, talvez, apenas acenando de longe.
. Sempre .
- Ei ! – Cumprimentei um pouco tímida, encostando de leve a mão na dele ao me aproximar o suficiente. – E aí?
- Tudo bem. E com você?
- Estou bem.
- ! – disse, me puxando pela cintura e me abraçando por trás. – Oi, pequena.
- Oi esquisito – Sorri à insinuação (ex) implícita de nossa diferença de tamanho, culpada pelo apelido carinhoso.
Depois de todo esse alvoroço, compramos um ingresso para um filme que eu nem sabia qual era. Não me importava, era bom estar com eles. E eu ainda teria uma longa e curiosa noite pela frente com o ...
Cap. 2 – You know I’m no good
Eu disse "Repentinamente mais cinza"? "Provavelmente iria chover"? Que tipo de praga eu era que tudo de ruim que falava (Bem, quase tudo) acontecia?
A chuva lá fora era tão forte que eu estava vendo a hora o cinema cair. O pior de tudo: A única coisa que passava por minha cabeça era: Já são seis e meia. Tenho 60 minutos para ir pra casa e me arrumar. Caralho, mas como eu vou pra casa? Eu preciso pegar o ônibus e a parada é longe. E como eu e o vamos sair nesse "O dia depois de amanhã"?
Hilário!
Uma bosta.
- , pare de andar de um lado para o outro. Está me deixando com dor de cabeça. – resmungou, se encolhendo no banco que estava sentada. Esperávamos e , que tinham ido ao banheiro e logo depois seguidos por e perto de onde nós estávamos.
- , estou irritada. Se eu não andar vou descontar isso batendo em você. – Falei com rispidez, sentindo meu celular vibrar. Estava dentro da bolsa, não teria paciência ou a decência de pegá-lo.
- E por que você está tão irritada? – murmurou concentrado em amarrar os cadarços do Nike dunk.
Suspirei, sentando entre ele e . Abracei minhas pernas e descansei o rosto nos joelhos, cansada.
- Porque eu deveria estar em casa me arrumando. E porque essa chuva vai arruinar meu encontro. – Respondi baixinho, contrariada.
- Encontro? – ergueu as sobrancelhas, ainda encolhida.
Afirmei com a cabeça, abrindo a bolsa e pegando o celular. Tinha uma nova mensagem.
“Não responde mais minhas mensagens, não me liga mais, não me vê mais. Estou magoada.”.
Drama queen, Sarah.
“Meu dia hoje foi meio corrido, desculpe-me. Nos encontramos amanhã depois da aula, como de costume?” Mandei de volta, julgando absurdo o fato de estudarmos na mesma escola e não nos vermos com freqüência.
- Estou de carro, vou embora quando o resolver aparecer. Se quiser eu te levo, até parece que nunca fiz isso antes. – deu de ombros.
- Esse é o detalhe menos importante, ! Agora me diz, , fofa, com quem você ia sair se não fosse o fim do mundo? – riu.
- . – Sibilei.
- Uuui! Aquele muito bonitinho que tem a voz engraçada?
- É, , esse mesmo.
Meu celular vibrou novamente, porém dessa vez não era mensagem. apareceu na tela, e eu atendi um tempo depois, me afastando um pouco de e .
- Oi ! – Sorri de lado, afetada.
- Oi ! E então?
- O que? – Perguntei desentendida.
- Ainda está de pé? Digo, nosso encontro. Podemos marcar pra outro dia, o lugar que eu ia te levar não fica nem um pouco legal com chuva...
- Claro que está de pé, não vamos marcar pra outro dia! Que pergunta boba, . O que você acha de ir lá em casa? Assistir um filme, sei lá.
- Seria ótimo.
- Vou tentar ir pra casa o mais rápido possível. Estou no cinema com as meninas e os idiotas, mas disse que pode me levar. – Tagarelei.
- Ah. Ok, então. Às oito e meia?
- Às oito e meia.
- Te vejo mais tarde, .
- Ok! Beijos. – E desliguei. Patética, . Não seja patética. Guardei o celular na bolsa, saltitando de volta ao banco.
- Era ele? – fez uma careta maliciosa.
- Aham.
- Bem, eu vou deixar o aqui, ele sumiu. Eu te levo. – se levantou de súbito, colocando as mãos nos bolsos da jeans.
Meneei a cabeça, agradecendo com um sorriso. Beijei a testa de . - Diz aos outros que eu deixei um beijo. Bom, menos para o , ele é um mariquinha e gritou durante o filme todinho.
- ‘Tá bem, fofa. – Ela riu.
- Vamos? – olhou para o teto, e eu concordei. Acenamos para e saímos.
Ficamos em silêncio, naquele clima estranho e tenso, até chegarmos ao pequeno estacionamento e entrarmos no carro, quando ligou o som. Estava tocando Oasis.
- Eu gosto dessa música. – Comentei, cantando um pedaço de Don’t Go Away.
- Oasis é foda.
Saímos do estacionamento e a chuva começou a cair muito forte sobre o carro, deixando-me apreensiva.
- Então vai mesmo se encontrar com alguém? – Perguntou depois de um tempo, indiferença explícita na voz.
Eu estava olhando para o teto do carro, minha cabeça trabalhava a mil por hora. O que eu feria para alimentar a criança faminta que era o ? Qual filme assistiríamos? Qual roupa eu usaria para não parecer negligente demais ou puta demais?
- É. – Respondi vagamente, ainda com o olhar fixo no teto.
pareceu desconfortável, e ao mesmo tempo sem jeito. O encarei por alguns segundos. Ele batucava com os dedos na direção, atento a rua, já que estava difícil enxergar por causa do vidro embaçado.
Voltei a olhar para o teto, absorta, quando, alguns minutos depois, a voz dele me fez abandonar meus pensamentos. De novo.
- Como foi a aula hoje?
- Boa. – Mentirosa. Nem a aula assistiu.
- Ah. – E se calou.
O silêncio me fazia pensar ainda mais, a música havia acabado e o som sido desligado, contrastando o humor de . Eu estava tão nervosa! Era apenas o . Mas... Não seria apenas o . Era um tipo de encontro.
Me assustava.
Merda, iria dar tudo errado e eu iria querer morrer depois.
- Escreveu alguma música? – , novamente, tomou minha atenção.
- Na verdade, sim.
- Legal.
Aquela situação mostrava-se patética. Eu estava me irritando, ele já devia estar constrangido com minha falta de consideração, e eu queria mais que tudo chegar em casa.
Agradeci mental e culpadamente ao ver que estávamos em minha rua e encostei a cabeça no vidro, suspirando.
parou o carro em frente a minha casa, me olhando engraçado.
- Boa sorte no seu encontro. – Murmurou, erguendo a sobrancelha e fazendo cara de deboche.
- Obrigado, chatinho. – Beijei sua bochecha, descendo do carro e correndo até a porta. Entrei encharcada.
Risadas. Risadas invadiram meus ouvidos, fazendo-me tentar descobrir o que era tão engraçado.
Uma pista: Mãe e namorado.
- Oh, , querida, está de volta! – Minha mãe estava sentada em uma das poltronas vermelhas da sala, segurando uma taça de vinho, estranhamente elegante. O cômodo estava iluminado apenas por um abajur no canto do cômodo.
- Oi mamãe – Sussurrei.
- Boa noite, . – Mark balançou a cabeça.
Mark: Namorado da minha mãe, também conhecida como Stacy. Os dois estavam juntos há oito meses. Eu não tinha nada contra, embora Mark passasse todo o tempo livre na minha casa, sugando todo bom senso da minha mãe.
De qualquer forma, eu não me envolvia nesse caso e tudo o que eu sabia era o nome dele.
- Boa noite. – Revirei os olhos arrogantemente. – Er, eu vou tomar um banho, não quero ficar com essa roupa molhada.
- Tudo bem, meu amor, depois desça aqui. Sairemos para jantar em algum lugar. – Mamãe sorriu.
- Oh, não vai dar. Obrigada, mesmo assim. Mas eu vou receber um amigo. – Cocei a nuca, olhando para meus próprios pés.
- Hum... Desde que se comporte e se alimente...
- Claro, mãe. Agora, se me dão licença...
Acenei para os dois e subi as escadas com passos largos, precisos e cuidados. Ao entrar, tranquei a porta do quarto e joguei o moletom e blusa molhados no chão, liguei o som – Meu CD dos Strokes já estava lá - tirei o Adidas velho e surrado e o deixei na entrada do banheiro. Me despi por completo, ligando o chuveiro na água quente, e relaxei, esquecendo todo o resto por uns minutos. Não demorei tanto no banho, umas três músicas, talvez, mas foi o bastante para perceber o quanto estava nervosa. Borboletas no meu estômago, e se eu não estivesse molhada, minhas mãos estariam suando ainda mais, e todas aquelas besteirinhas.
Me enrolei na toalha e fui até o armário, dançando meio desajeitada e de forma hilariante. Revirei algumas roupas, analisando-as por um tempo, peguei meu moletom vermelho e uma calça confortável, indiferente. Eu estaria confortável e não morreria de frio ou de vergonha.
Ou sim.
- , já estamos indo! – Ouvi Stacy berrar.
Desci as escadas enquanto amarrava o cabelo, saltitando alegremente.
– Bom jantar, divirtam-se e não se molhem. – Parei a alguns metros da porta, sorrindo com afeto.
Mamãe concordou, entrando na brincadeira, e soltou um beijo no ar, saindo apressada com Mark.
Tranquei a porta e corri até a cozinha, no minuto em que o telefone tocou. Atendi, alvoroçada.
- Alô!
- , tudo bem?
- Pai! – Me sobressaltei, numa mistura de surpresa e felicidade. – Oi! Como estão as coisas na França?
- Ótimas, na verdade eu só liguei pra dar um oi e avisar que chegaremos a Paris em meia hora.
- Ansioso?
- Deixe de besteiras, sabe que já fui a Paris milhões de vezes. Não sou muito encantado por essa cidade...
- Desculpe, pai, se eu nunca sequer saí da Inglaterra. – Soltei uma exclamação indignada e fingi uma falsa censura. Meu olhar caiu sobre o relógio na parede oposta a que eu estava e eu me desesperei: Precisava preparar alguma coisa. Estava frio, bom para uma massa... Ou não.
Tanto faz! Algo não complicado... Resolvi colocar uma pizza de quatro queijos no forno e preparar chocolate quente.
Praticidade.
- , fale mais devagar, dessa forma não entendo nada. – Ele reclamou.
- Ah, desculpa, é que eu ‘tô um pouco ocupada...
- Com o quê? O namorado da sua mãe está aí?
- Não, eles saíram. E não use esse tom de voz, pai, do mesmo jeito que você pode ter uma namorada, ela pode sair com outros caras. – Gargalhei, irritando-o, e o ouvi murmurar um “Você é muito nova pra entender qualquer coisa”. – É que eu estou esperando uns amigos. – Menti. No fim das contas, ele continuava sendo meu pai. – As garotas e quem sabe , , ... Lembra-se deles?
- E como esqueceria? Aqueles pestes. Então tudo bem. Eu te ligo amanhã, . Boa noite e não faça nada que eu não faria. – Brincou, mesmo um tanto sério, e desligou.
Meu pai é uma história para mais tarde.
Uns dez minutos depois a campainha tocou. Meu coração deu um pulo absurdo e eu respirei fundo, caminhei lentamente até a entrada e abri a porta.
Minha respiração falhou, mas não pude deixar de abrir um sorriso.
Oh, é.
se balançava numa tentativa de se aquecer, o cabelo molhado caía sobre o rosto, onde tinha um sorriso desajeitado e convidativo estampado.
Completamente doce e também cheio de subentendidos.
- Posso entrar? Ainda está caindo água em mim. – Riu.
Eu corei, como uma perfeita idiota. Estava na hora do desastre. Eu estava horrível. Eu estava ansiosa.
E no segundo seguinte eu não estava mais.
Definitivamente, eu não era boa o bastante para ele.
Cap. 3 – Tequila Shots
- Oh, merda, odeio essa cena! – Falei, colocando as mãos sobre os olhos. Ao meu lado, riu. Estávamos deitados no tapete da sala, rodeados de almofadas. O gigante prato de pizza só tinha farelos, e havia duas canecas perto do sofá, uma bagunça completa.
Previsível, até.
- É a melhor. E Orlando Bloom nem trabalha tão mal nesse filme – Ele disse, julgando-se sábio.
- Desculpe? Desde quando Orlando Bloom trabalha mal? Você só está com inveja porque ele é famoso, tem dinheiro e pode pegar qualquer garota, até mesmo Paris Hilton!
- Ew, Paris Hilton? – fez cara de nojo, me divertindo. – Não, obrigado. Paris Hilton que fique com... Orlando Bloom.
- Você é malvado! O que tem ela? – Sentei e cruzei os braços na frente do corpo, erguendo a sobrancelha desafiadoramente.
- Não preciso da Paris Hilton feia do jeito que é tendo você aqui. – Respondeu, também sentando e ficando perigosamente próximo. Veja bem. Perigosamente.
- , isso foi cafona. – Eu ri. Ele deu de ombros, olhando para a janela. O vidro estava embaçado e ainda chovia.
- Aaah, não fica chateado! Foi bonitinho! – Eu ri ainda mais, descruzando os braços e segurando uma das mãos dele.
abaixou os olhos para observar nossas mãos juntas com um sorriso torto, entrelaçando nossos dedos.
- , eu gosto de você. – Murmurou, encarando qualquer coisa que não fosse... Eu.
- Eu sei, e eu também gosto de você. Teríamos um encontro decente, se não estivesse chovendo. Mas aqui estamos, assistindo O Senhor dos Anéis. - Comentei sem pensar, minhas bochechas queimando logo depois. Baixei os olhos, acanhada.
levou a mão livre até meu queixo para levantar meu rosto. Alargou o sorriso.
- Confesso que estou me divertindo mais aqui do que estaria se tivéssemos saído. – Falou.
Me senti corar mais. Como era possível ele já estar tão próximo? Fechei os olhos quando o nariz gelado dele encostou-se ao meu, toda a respiração de batendo no meu rosto e pescoço, me fazendo ter arrepios agradáveis. Conseguia sentir todo aquele cheiro do cabelo e do perfume dele.
Era bom.
Meu estômago revirou, num nervosismo estranho e decidido.
roçou os lábios de leve nos meus, delicadamente, como se estivesse primeiro pedindo algum tipo de permissão. Estavam doces por conta do chocolate quente.
- Que susto, merda! – Gritei quando um barulho alto veio da TV, e me afastei dele, que tossiu constrangido. Peguei o controle e apertei no botão de pausa.
Ele me olhou e começou a rir subitamente, meneando a cabeça.
- O que? Eu me assustei, certo? – Ergui as sobrancelhas, mudando a expressão para uma de desdém.
- Isso quebrou todo o clima.
- Ah, legal. – Disse me levantando e ficando em pé.
- Aonde você vai?
- Descer pelo cano da pia, deve ser menos vergonhoso.
- , deixa de drama.
- Não é drama, . – Revirei os olhos.
- Então vem pra cá, vamos assistir ao filme. – Ele colocou a mão no espaço vazio ao lado dele, indicando que era para eu sentar ali.
Está vendo? Completamente doce e cheio de subentendidos.
- Droga. – Choraminguei fazendo bico – Espere, tenho uma idéia melhor! Podemos tomar banho de chuva!
- Ficou maluca, ?
- Ah, por favor!
- Você vai ficar doente.
- Não ligo. Vamos? Por favor?
- Não quero que você pegue uma doença, fica muito manhosa. Vem, vamos assistir ao filme. – Cortou, me puxando pelas pernas.
- Você é muito chatinho.
- Muito. – Me derrubou ao lado dele, rindo. Ficamos bastante próximos. De novo.
sorriu, afagando meu rosto. Em resposta ao toque sutil, fechei os olhos, minha respiração falhando, as malditas borboletas de volta no meu estômago.
- Tonight is only you and me. - O ouvi sussurrar, parando com as mãos nas minhas. Senti seus lábios se pressionarem delicadamente contra os meus. Eles eram macios, e ao mesmo tempo não eram.
Sei lá, e de repente lá estava ele me beijando daquele jeito todo meiguinho e calmo de ser, me fazendo esquecer de tudo, deixar aquela sala. Perdi a noção de quanto tempo permanecemos ali, até que ele se afastou.
Me olhou desajeitado, e ao mesmo tempo satisfeito. Só éramos capazes de ouvir o barulho das gotinhas se chocando contra o vidro, nossas respirações ofegantes, e talvez até mesmo meu coração, que batia alto e absurdamente descontrolado no meu peito.
Minhas bochechas queimaram novamente, e eu me senti nervosa, estranha e patética.
Me senti .
- É... Acho que é mesmo melhor voltarmos a assistir ao filme. – Falei de uma forma quase inaudível, olhando para a TV e pegando o controle. Ele apenas concordou com um aceno de cabeça, encostando-se no sofá. Me juntei a ele, e por mais que achasse aquela situação esquisita e um tanto quanto constrangedora, descansei minha cabeça no peito dele, sendo envolvida por seus braços. Me encolhi como uma criança, sentindo-o beijar o topo da minha cabeça.
Coloquei para o filme continuar.
Certo, não era tão estranho assim. Era bom. Era ali comigo.
O relógio do DVD marcava onze e meia, e a sala (ou qualquer outro cômodo da casa) estava assustadoramente escura.
Eu ainda estava aninhada nos braços do , nós dois esparramado no tapete. Eu não tinha processado o fato que ele tinha me beijado, e que tínhamos assistido O Senhor dos Anéis como se nada tivesse acontecido. Eu não fazia a mínima idéia do que falar, e aquele silêncio instalado desde as dez e quinze já estava me enlouquecendo.
- ? ‘Tá acordado? – Em resposta, ele resmungou alguma coisa. – Está com fome?
- Você está?
- Ah... Não sei. Quer ir à cozinha?
- Preguiça. – Eu o senti e ouvi rir baixinho.
Eu sorri inconscientemente. Num piscar de olhos, passou por minha cabeça “E se minha mãe chegar agora?”. Mas ah. Ela deveria estar muito ocupada com o Mark na casa dele, era sempre igual: Se ela não desses as caras até as dez, iria passar a noite fora.
- Mas você não está com fome? – Perguntou, afagando meu cabelo.
- Não. Estou bem assim. – Sibilei. Queria ficar ali nos braços dele pra sempre, como se mais nada existisse.
Ele continuou a afagar meu cabelo, e eu fechei os olhos, num misto de sensações tão boas que me consumia por dentro! Eu nem parecia à mesma de manhã.
- Acho que está tarde, é melhor eu ir. – sussurrou. - Não, fica mais um pouco. – Também sussurrei. Levantei minha cabeça para poder encará-lo. Foi meio difícil, já que estava escuro. Procurei os lábios dele, e ao encontrá-los, os beijei levemente. – Não me importo de perder aula amanhã.
- Já perdeu hoje, .
- Você está louco para ir embora. Tudo bem, eu deixo.
- Não, se eu pudesse passava o resto da noite aqui com você. – Confessou da forma mais brega, tosca e adorável que podia.
- Então passe.
- . – Ele riu divertido, ao mesmo tempo num tom de alerta.
- Tudo bem, eu te entendo. – Falei contrariada, me afastando e sentando. fez o mesmo e ficamos em pé.
- Compreensiva. – Me puxou pela cintura, e eu envolvi seu pescoço com os braços.
- Sou, e muito. – Satirizei.
- Palhaça. – Segunda vez que ele me chamava assim apenas em um dia. Me abraçou forte. – Onde estão meus tênis?
Acendi a luz e me espreguicei, observando-o calçar o Nike azul e branco. O levei até a porta alguns minutos depois.
- Bem, boa noite, .
- Boa noite. – Ele me beijou de leve algumas vezes, me deixando com cara de boba. Riu e correu até onde o carro que havia roubado do pai estava estacionado, demorando a entrar.
Algo passou por minha cabeça.
Duas coisas irônicas e engraçadas: Reviravoltas e mudanças. As provas que tudo é possível. Mesmo sendo favoráveis, mesmo não sendo, beijos. - ! – Gritei, achando meio difícil (e patético) acreditar que aquilo tinha realmente acontecido. Me fazia querer voar, sair por aí gritando coisas idiotas, saltitando que nem uma gazela.
- Oi? – Ele gritou de volta.
Fiz gestos exagerados com as mãos, indicando que era para ele voltar.
- Diga, diga. – Murmurou, ofegante pela corrida, parando na minha frente.
- Quer fazer algo estúpido e diferente? – Sorri ao vê-lo assentir. - Eu conheço um restaurante de uns amigos mexicanos da minha mãe que fica aberto até as quatro da manhã. Nas quintas à noite eles têm tango e tequila! – Pude ver, pelo brilho nos olhos dele, que estava imaginando vários shots e música alta. – Que tal?
- Hum... Não sei, não... – Hesitou.
- Vamos! Pra salvar esse encontro. Eu só preciso trocar de roupa. – Avisei, já dando as costas e correndo até a escada.
- Tudo bem! – Ele cedeu, gritando para que eu pudesse escutá-lo do andar de cima. – Mas não pense que você vai conseguir me fazer dançar!
Cap. 4 – We're so confused and I wish that there was some way that I could tell you
- Já me decidi, eu vou alargar a orelha!
Enquanto eu ouvia Sarah cair numa crise de riso, virei o rosto para poder encarar Derek com uma expressão cética devido a minha parcial fadiga e falta de sobriedade. As bochechas vermelhas o delatavam: Ele estava completamente irritado com a reação dela.
- Quem já viu, Derek, você quer ficar que nem índio? Pondo cano na orelha, mas que absurdo! – Sarah censurou.
- Você fala igual a minha mãe, só está faltando o “Vai pro Xingu viver com índio, marmota”. – Ele murmurou, riscando a foto que indicava o capitalismo financeiro na época da segunda revolução industrial.
- Eu acho que é legal. – Me pronunciei, voltando a atenção para o quadro da sala das aulas de Geografia, uma das únicas matérias que cursávamos os três juntos. – Sei lá, eu gosto. Mas não tenho coragem de pôr um alargador.
- Você não precisa, , sua orelha já é uma peneira. – Nós ainda estávamos rindo desse último comentário quando o sinal das três e quinze bateu e todos agradeceram pelo tempo que teriam livres até a tortura do dia seguinte.
- O que vão fazer agora à tarde? – Sarah perguntou, descendo as escadas na frente.
- Eu vou sair com o Alex e o Sam, não que você precise saber. – Derek desdenhou, arqueando as sobrancelhas arrogantemente.
Ela me olhou com certo desaponto.
- Não me diga que você vai sair com seus outros amigos? - Eu? Ah, eu vou... Hoje é sexta. – Entortei a boca, meio apreensiva. – Mas ei, você conhece a ! E o ! Não quer vir?
- Não estou segura que aquela sua amiga goste muito de mim.
- Você também não precisa ficar dando em cima do cara que ela “pseudo” gosta! – Revidei entre risadas, sentindo o sol queimar minha face no segundo que saímos do prédio e chegamos ao gramado.
Inconstância inglesa.
- Que culpa eu tenho se ele é gostoso, ?
- Certo, certo... Se controlem, por favor. – Derek interrompeu. – Vejo vocês na segunda, não aprontem até lá.
- Boa viagem, Brown! – Dissemos em coro, fazendo-o dar o dedo médio e se afastar com um sorriso estampado.
Meneei a cabeça.
- E você, fofa, o que vai fazer? – Questionei.
- Pensei em ir ao cinema. Me liga amanhã?
- Claro, se eu não tiver entrado em coma alcoólico. – Nos despedimos rapidamente e eu corri para fora da escola, meio animada e ansiosa. A casa de ficava a algumas quadras e os pais dele tinham viajado com o objetivo de ir ao casamento de um primo distante da Sra. que o Sr. considerava um “Babaca-comedor-de-prostitutas-porra-louca-que-estava-prestes-a-casar-com-uma-vadia-usurpadora-do-dinheiro-dele”.
A casa seria nossa pelo resto do fim de semana.
Peguei o Ipod na mochila e coloquei os fones nos ouvidos, abrindo a pasta "Cobra Starship". Tocava o fim da quarta música da pasta quando eu me vi parada na porta da casa dos .
Era uma casa comum, como tantas outras da rua, em tom um tanto escuro. O pequeno jardim não era dos mais bem cuidados, mas não podia ser considerado o pior, apenas dava ao lugar certa melancolia. Mas me causava uma nostalgia que me lembrava da época que éramos crianças e corríamos e jogávamos bola ali, amassando os vestígios de grama nova, quando ainda éramos apenas eu, , e . Fazia uns bons anos, de qualquer forma.
Toquei a campanhia, mas ninguém atendeu, e eu deduzi que eles não tinham chegado. Me sentei no batente da entrada, guardei o Ipod e mandei uma mensagem para minha mãe, em tempo de ver parar na minha frente com um sorriso estonteante nos lábios, a respiração ofegante, as roupas amassadas e a mochila nas costas.
- , seu otário, não valeu! Você me empurrou! – Ouvi gritar, aproximando-se com dificuldade.
Ainda me analisando com curiosidade, replicou: - Se conforme que eu sou melhor que você em tudo, .
- Mas deve existir algo que você não seja bom! – continuava a gritar inconformado.
apenas aumentou o sorriso, notando minha expressão maliciosa.
- E aí, , quer uma cerveja? Me levantei com a ajuda dele e nós entramos na casa conversando alto, os protestos revoltados de nos fazendo rir. largou a mochila perto da escada e se arrastou para a cozinha cantando o refrão de First Date, enquanto eu e íamos até a sala e nos jogávamos no sofá, brincando de trocar insultos e beliscões.
Brincando.
- Cadê os outros? – Perguntei quando consegui fazê-lo implorar por uma trégua e entrou segurando uma latinha de cerveja.
- ia encontrar alguém e as meninas tinham sei lá o quê. Educação física ou tanto faz. Ei, pára com isso. Você vai matar esse idiota.
Suspirei, soltando os cabelos de e em agradecimento ele parou de morder meu braço, e me distraí observando ligar o som: The Cure começou a ecoar pelo cômodo.
- Alguma idéia do que vamos fazer?
- Strip poker!
- Cala a boca, . – Ri desdenhosa. – Deixe isso pra quando todos estiverem aqui.
- Sua covarde!
- Você já viu tudo o que precisava, .
- E você percebeu o quanto soou puta?
- Seus imbecis. – rolou os olhos. – Já tenho uma idéia melhor.- , pegue o Johnnie Walker pra’gente virar. Vamos jogar 21.
Eu nem tinha tempo de sair de uma ressaca e já precisava entrar em outra.
- , eu desisto! – berrou, se enrolando com as palavras. – Desse jeito eu nunca vou conseguir chegar ao 21!
- Já desisti faz tempo. – Declarei, levantando do chão para quase cair novamente, e corri até o som, aumentando o volume. Era hora do Queen. – I GOTTA BE COOL, RELAX, GET HIP!
Explodimos em gargalhadas, de súbito, e eu massageei as têmporas, sentindo tudo girar e meu estômago revirar. Ouvi desafiar e no segundo seguinte os dois estavam correndo para o lado de fora. Vasculhei minha mochila, esperando encontrar algo novo no celular, mas a única coisa nova que tinha era uma chamada perdida de minha mãe.
Guardei o celular no bolso e saltitei para a porta, podendo ver meus dois amigos rolando de rir por nada enquanto os primeiros acordes de We Will Rock You chegavam a meus ouvidos. Me juntei a eles e, quando finalmente cansamos, caímos exaustos na grama seca, como costumávamos fazer porém não fazíamos há tempos, suspirando e respirando todos no mesmo ritmo.
- Cansei. – confessou, sentando. – E aí, estão com fome? Vou pedir uma pizza do Domino’s e aproveitar pra ligar pra ... E pro . – E sumiu para dentro de casa.
Fechei os olhos por alguns minutos, escutando apenas o som dos carros que passavam, a respiração descompassada de e a música que vinha da casa. Senti que eu poderia adormecer ali mesmo, com a luz fraca do fim do dia indicando que estava perto das dez da noite, quando a voz de ecoou baixa e rouca.
Me arrepiei involuntariamente.
- Eu... Ia dizer... Quer um cigarro? – Murmurou, procurando o demasiado familiar maço Malboro nos bolsos da jeans.
- Pode ser. Você sabe, , que esse ainda vai ser o motivo da nossa morte.
- É claro.
Nós ficamos num silêncio de palavras agradável, tragando o cigarro que dividíamos e vez ou outra cantando um pedaço da música. Arrisquei analisar o perfil de muitas vezes, que continuava deitado na grama, distante, e suspirei inconformada. Ele andava tão estranho e disperso, e mesmo assim eu não podia deixar de notar sua beleza.
- Tem alguma coisa que você queira me dizer, ? – Sussurrei sem querer, logo depois sentindo minhas bochechas queimarem.
Ele virou os olhos para me encarar, num misto de curiosidade e apreensão. E, como se já tivesse planejado, levantou o corpo de forma que pudesse ficar sentado e livrou-se do cigarro, e eu precisei levantar o rosto ligeiramente para não quebrar o contato visual.
Nós tínhamos um tipo de relação que eu nunca iria entender.
- Eu quero te fazer uma proposta, na verdade.
Concordei com a cabeça. inclinou o corpo para frente, me fazendo me afastar inconscientemente, e abriu os lábios num sorriso doce, prestes a falar algo. O hálito e a respiração dele tocavam minha face. Meu estômago despencou com tal proximidade.
Mas, como toda a minha vida é uma bosta previsível, meu celular começou a tocar. Meu coração palpitou ao pensar que talvez fosse querendo discutir sobre a noite passada, apenas para se desapontar ao ver que era só Stacy.
- Oi, mãe. – Sussurrei, observando ficar em pé e se afastar, saindo para lugar nenhum bagunçando os cabelos num gesto confuso que eu conhecia bem. Me dei conta de quanto estava com fome, me dei conta de que ele deveria ter planejado aquilo já fazia um tempo, de quanto tinha um significado para ele. – É claro que já estou voltando pra casa, aconteceu alguma coisa? Eu te conheço, Stacy, você me parece nervosa. Tudo bem, fique calma, mamãe. Eu já estou indo.
Finalizei a ligação e guardei de novo o celular no bolso, esforçando-me para levantar. Para não sucumbir à culpa que eu sentia.
Era o meu drama, eu tinha o direito de exagerar.
- Ei, . – chamou da porta, com a voz preocupada. – Cadê o ?
- Deve voltar mais tarde. Mas agora ele saiu...
- Pra onde? A pizza...
- Não sei, ! Eu não sei.
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Você já acordou um dia se sentindo tão minúscula e insignificante (Lê-se: EMO) que seria capaz de passar por outras pessoas sem ser percebida? E ficava com o pensamento que tudo estava fora de lugar? Como se a qualquer momento uma bomba relógio fosse explodir e destruir tudo... Ou apenas um branco enorme fosse surgir e te deixar isolada do mundo, de todos, dos sons. Um dia que você acorda... Pra baixo? (Emo, colega).
Eu estava sentada em uma cadeira mais afastada na sala, num desses dias. Felizmente, ainda não tinha tocado o sinal para a primeira aula. Uma sensação estranha tomava conta de mim, e para tentar me distrair, eu rabiscava na última folha do caderno, que já estava cheia de desenhos, riscos, números, partes de músicas e coisas indecifráveis. Os fones do meu Ipod estavam nos ouvidos, fazendo-me bater os pés no ritmo de My Generation.
Fechei os olhos e descansei o lápis que segurava na mesa, sussurrando a letra da música, completamente alheia. Quando voltei a abri-los, percebi alguém sentado na cadeira da frente, me observando com um sorriso.
- Ei. Bom dia, Derek. – Falei para o moreno sardento e de olhos espetacularmente verdes a minha frente.
- Ei, pequena. Bom dia. – Ele alargou o sorriso. – Sozinha aqui atrás, de novo?
Dei de ombros.
- Estou em um dos meus dias de fantasma. – Baixei a voz, desligando o Ipod e guardando-o na mochila.
- Ah, sei. Aqueles dias da " saí de perto e me deixa em paz”. – Derek me encarou, erguendo uma das sobrancelhas.
- É, esses dias – Rolei os olhos não podendo deixar de rir em seguida. Embora não gostar muito dele no começo, éramos amigos desde a quarta série, quando tivemos que apresentar um trabalho sobre o corpo humano em desenvolvimento – algo muito básico e fácil, nessa idade, principalmente para os garotos. Ele costumava fazer perguntas estúpidas e sacanas sobre o corpo das meninas.
- Vê se presta atenção na aula ao invés de se perder dentro dessa cabecinha cheia de coisa que é louca pra se desligar. – Como felicidade dura pouco, nós ouvimos o sinal tocar e Derek se levantou. Beijou minha testa e acenou, se afastando logo depois.
Fiquei olhando as pessoas se ajeitarem em suas cadeiras, enquanto a professora de História, e toda sua gordura exagerada, colocava o próprio material na bancada.
Meu celular, que estava no meu bolso, começou a vibrar. Toda minha preguiça e mau-humor me impediu de responder alguma mensagem. Provavelmente da Sarah reclamando de como era chato assistir aula e mais um monte de merda.
Eu não estava nem um pouco a fim de escutar o que a srta. Adams tinha pra falar e, na verdade, eu não estava nem um pouco a fim de ficar ali. Sempre fui meio inconstante. E como estava me sentindo totalmente uma estranha e com aquele melancólico desejo de desaparecer, uma enorme vontade de ver o mar e sentir o vento bagunçar os cabelos me apareceu.
Mas, obviamente, eu não queria ir sozinha. E já tinha em mente quem eu chamaria, só precisava de uma boa desculpa para sair de sala logo no primeiro horário. Esperaria alguns minutos mais passarem.
Se minha cabeça colaborasse, fato.
“Merda de aula de biologia. E aí como tá a situação? Ontem eu vi o ! Ele estava foda, muito lindo.”.
O bom de sentar isolada é que, geralmente quando você não é má aluna, nunca prestam atenção no que você está fazendo. O porém era que eu não queria responder a mensagem de Sarah, então apenas desliguei o celular e o joguei na bolsa junto ao Ipod. Não agüentei mais estar ali, mesmo mal tendo começado o dia, e ergui a mão, pedindo permissão para falar. Aprendi a ser educada assim na primeira série, beijos.
- Sim, ? – Srta. Adams franziu a testa ao me ver com o braço erguido e se aproximou, falando por cima do balburdio.
- Posso ir à coordenação? Não estou me sentindo bem. – O que não era totalmente mentira, se você parar pra pensar.
Escola é uma bosta.
Ela concordou com a cabeça e eu me levantei, indo até a porta.
Derek me olhou de onde estava sentado junto a alguns amigos, e eu apenas dei de ombros, saindo da sala.
Caminhei lentamente pelos corredores vazios, deixando que meus pensamentos fluíssem e vagassem, me fazendo companhia enquanto eu divagava. O ruim de estudar de manhã quando se tem um cérebro lerdo, é que você demora a digerir todas as informações. Então eu não me surpreendi quando vi a professora de Química se agarrando perto do banheiro masculino com o professor careca e oleoso de Psicologia.
Uma palavra: N-o-j-e-n-t-o.
Depois de fazer toda uma ceninha na coordenação, me deram uma autorização para ir embora. Peguei minha mochila na sala, entreguei a autorização à professora e saí da escola, me vendo andando nas ruas, um vento forte batendo no rosto, já que o dia estava cinzento e ventoso.
Um clima inconstante e devidamente inglês.
Andei até estar parada na porta de uma casa branca, coberta por poucas trepadeiras, comum, como todas as outras ao longo da rua, exceto pelo jardim bem cuidado e repleto de frufrus (Frufrus?). Toquei a campanhia e ninguém atendeu.
Após um tempo parada feito uma idiota, joguei minha mochila na grama bem cortada e, com a ajuda de alguns suportes (as trepadeiras), consegui subir até onde tinha uma janela. Comecei a bater, com cuidado para não cair.
- Porra, o que é? Não se pode nem dormir! – Um com voz rouca e cara de quem não vê uma cama há anos abriu a janela, estreitando os olhos por causa da luz.
- Bom dia pra você também.
- ?
- Não, a Madonna, olha que mágico. Claro que sou eu. – Ri. Era sempre bom ver o . – Agora, me deixe entrar! Está querendo que eu despenque?
- Entre, desculpe. E desculpe também não ter ido abrir a porta, eu estava com preguiça. E minha mãe não está em casa, então... – Ele tagarelou e se afastou, abrindo espaço para que eu entrasse no quarto bagunçado, que cheirava a uma mistura excêntrica de perfume masculino e cigarro. Foi o que fiz. – Oi.
- Oi! – Joguei os braços em volta do pescoço dele, apertando-o em um abraço. – Sabia que você não iria para a escola hoje.
- Ah é, espertinha? – fez uma careta, me soltando e me encarando debochadamente. – E como você sabia?
- Ah, intuição. Você saiu ontem e só deve ter chegado agora de manhã, pra variar.
- Bem... Ok, é justo. Mas não era para a senhorita estar na escola? – Ele continuou a me encarar. Os olhar fixo de reprovação em minha face me acanhando.
- Eu estava... Mas me deu vontade de ir à praia, então eu disse que não estava me sentindo bem e eles me deram autorização para sair e ir pra casa. – Expliquei.
- Ah, , então me diz: Você queria ir à praia. Por que veio aqui? – perguntou, e eu sabia que ele tinha a resposta.
- Pra te levar junto! – Respondi como se fosse o óbvio. – Além do mais, o carro da sua mãe está lá embaixo...
- Hein? Não, eu não vou à praia com você essa hora, com o carro da minha mãe. Não mesmo.
Sabe quando você está caminhando numa rua que seria deserta se não fosse uma ou duas pessoas, e você fica imaginando estar num filme, no seu filme, enquanto sua música preferida toca?
Eu me sentia assim. Só que na praia. E sem música. E com o !
Reflexões absurdas.
- O mar está feio hoje. O vento está atrapalhando. – Sibilei, movimentando os dedos dos pés nas pedrinhas frias.
- Sei que você está louca para dar um mergulho. – encarou o nada, colocando as mãos nos bolsos da calça, meio distraído.
- Não, obrigada. – Falei.
- Claro que você quer. – Ele encostou o cotovelo no meu, fazendo uma cara irônica.
- Não, .
- Sim, .
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Sim.
- Não. – soltou uma gargalhada com o erro, me abraçando de lado. – Vem, vamos dar um mergulho.
Soltei um gritinho exagerado, me afastando dele e ele ergueu a sobrancelha, mordendo o lábio inferior.
- Não queira que eu vá atrás de você. – Murmurou, sorrindo torto.
- Não quero. Você vai me jogar nessa água fria sem piedade. – Sorri em resposta, timidamente. Fui até ele, pulando em suas costas e envolvendo seu pescoço com meus braços, e seu corpo com minhas pernas – Vamos passear.
O cabelo do tinha aquele cheiro bom de quem acabou de tomar banho, embora eu duvidasse que ele o lavasse sempre.
- Passear?
- É. Você anda com os pés na água batendo em seu tornozelo, assim eu não preciso me molhar. – Expliquei sábia.
- Palhaça. – Riu – , quer sair hoje à noite?
- Sair... Eu, você e toda a galera? – Sussurrei, descansando meu queixo em seu ombro, enquanto ele segurava minhas pernas e começava a andar.
- Não. Apenas eu e você.
- Tipo... Um encontro?
- É. – respondeu baixinho.
– Quer? Eu estava sonhando ou estava me chamando para sair?
Desculpe?
- Eu... Acho que seria legal. – Respondi, sentindo meu coração acelerar.
Eu não sabia o que ia acontecer, e aquilo me assustava, causando-me um gelo no estômago que reconheci ser nervosismo.
- Legal. – continuou com a voz baixa. – Legal.
Nós ficamos em silêncio, eu me sentindo totalmente estranha. Em um minuto eu e ele estávamos conversando, e no outro tínhamos um "encontro", e parecia que havíamos ficado com vergonha, porque nenhum de nós se atrevia a dizer sequer uma palavra.
- Aonde você vai me levar? – Deixei escapar com uma risada.
- Isso é surpresa, eu acho.
Depois voltamos a não falar mais. Desci das costas dele, e enquanto caminhávamos um ao lado do outro, tomei coragem e segurei sua mão.
Era uma sensação diferente, nova, que causava um formigamento na minha pele. não me olhou, apenas sorriu e entrelaçou nossos dedos.
Me perturbava o fato que eu estava melhor em apenas ir à praia com ele, e o pior, que íamos sair. Eu gostava de . Bastante. Nos conhecíamos desde sempre, nos divertíamos desde sempre. Só que eu não sabia se estava confundindo as coisas, me deixando levar por aquela sensação prazerosa de estar prestes a descobrir algo novo. Ou talvez fosse coisa da minha cabeça lunática, e eu e iríamos perceber que estávamos apaixonados e fugiríamos para Vegas e casaríamos na mesma noite.
- ? – Chamei, e ele finalmente me encarou. – Me diz aonde você vai me levar. Por favor?
- Não, , se não vai ficar sem graça.
- Por favooooooor. – Tentei fazer cara de criança que perdeu doce, me esforçando para não rir do quanto deveria soar idiota.
- , eu não vou falar. – riu, soltando minha mão, se afastando um pouco e colocando os braços para cima. – Vou ser legal e contar até cinco. Você corre, e se eu te pegar, entramos no mar.
- Isso é injusto! E você sabe que eu não consigo correr na areia!
- Um... – Fechou os olhos, a sombra do sorriso ainda nos lábios.
- !
- Dois...
- !
- Três, e é melhor começar a correr... Quatro...
Ergui as sobrancelhas.
Sério?
- Cinco. Vou te pegar.
Gritei, e antes que pudesse começar a correr, já havia me alcançado. Me segurou pela cintura, e caímos sobre as pedrinhas.
- ! Eu não vou mais sair com você! – Sentei rapidamente, cruzando os braços.
- Ai, , não faz drama. – Ele continuou deitado, tentando fazer uma voz mais afeminada para me divertir.
Deitei ao lado dele, virando a cabeça para poder olhá-lo, um tanto desconfortável. Senti coisinhas no estômago e minhas mãos suaram. Mas por quê? Era só o mesmo de sempre.
Ou deveria ser.
- Acho que está na hora de voltarmos. – Murmurei.
- Calma. Eu ainda preciso fazer uma coisa. – Ele resmungou, se aproximando e colocando uma das mãos na minha barriga, como se me impedisse de levantar, de fugir. Passeou o olhar por todo meu rosto, até parar onde queria.
- ... Acho que está na hora de voltarmos. – Sussurrei novamente, fechando os olhos. Eu não queria ir. Se eu ficasse ali, parada, eu talvez descobrisse o que iria acontecer, o que eu queria, afinal, que acontecesse.
Mas não foi como minha mente imaginara em rápidos segundos que passaram despercebidos. começou a fazer cócegas em mim.
E eu comecei a gargalhar de uma forma escandalosa. Ainda assim, era apenas aquilo que ele queria? Questionei-me, lutando para não sucumbir ao desaponto.
- , pare! Estou com falta de ar. – Berrei com dificuldade.
Ele riu. Toda vez que ele fazia aquilo, eu meio que me derretia por dentro.
Eu estava com a cabeça encostada na janela do ônibus, enquanto Wonderwall tocava em algum lugar da minha mente. Já passava das três e quarenta da tarde, e o dia havia ficado repentinamente mais cinza. Nuvens pesavam o céu, e provavelmente iria chover. Estava indo me encontrar com e mais alguns amigos, que eu não via há dias. Eles tinham marcado de se encontrar no cinema logo depois da escola, e iríamos assistir qualquer coisa.
Após algum tempo sentada no banco, me balançando levemente e esperando parar no meu destino, desci a algumas quadras do cinema principal da cidade. Vesti meu moletom cinza por cima da blusa, corri e entrei no local, procurando-os com os olhos.
- ! – Uma sorridente veio até onde eu estava parada desorientada. Me abraçou.
- Oi ! – Sorri, retribuindo o abraço.
- Que bom que chegou! Estamos pensando em assistir um filme de terror. Pode ser qualquer um. – Ela segurou minha mão afetuosamente, falando enquanto me puxava para um grupo de pessoas. – Ei, a chegou!
- ! – disse alegre, me puxando para um abraço rápido. – Oi estranha!
- Oi pra você também.
- Oi ! – riu, me abraçando quando me viu livre de .
- Oi gata.
- Ei . – acenou com a cabeça, segurando meu braço e beijando minha bochecha, como fazia desde sempre.
- Oi !
- . – esboçou um sorriso, satisfeito, talvez, apenas acenando de longe.
. Sempre .
- Ei ! – Cumprimentei um pouco tímida, encostando de leve a mão na dele ao me aproximar o suficiente. – E aí?
- Tudo bem. E com você?
- Estou bem.
- ! – disse, me puxando pela cintura e me abraçando por trás. – Oi, pequena.
- Oi esquisito – Sorri à insinuação (ex) implícita de nossa diferença de tamanho, culpada pelo apelido carinhoso.
Depois de todo esse alvoroço, compramos um ingresso para um filme que eu nem sabia qual era. Não me importava, era bom estar com eles. E eu ainda teria uma longa e curiosa noite pela frente com o ...
Cap. 2 – You know I’m no good
Eu disse "Repentinamente mais cinza"? "Provavelmente iria chover"? Que tipo de praga eu era que tudo de ruim que falava (Bem, quase tudo) acontecia?
A chuva lá fora era tão forte que eu estava vendo a hora o cinema cair. O pior de tudo: A única coisa que passava por minha cabeça era: Já são seis e meia. Tenho 60 minutos para ir pra casa e me arrumar. Caralho, mas como eu vou pra casa? Eu preciso pegar o ônibus e a parada é longe. E como eu e o vamos sair nesse "O dia depois de amanhã"?
Hilário!
Uma bosta.
- , pare de andar de um lado para o outro. Está me deixando com dor de cabeça. – resmungou, se encolhendo no banco que estava sentada. Esperávamos e , que tinham ido ao banheiro e logo depois seguidos por e perto de onde nós estávamos.
- , estou irritada. Se eu não andar vou descontar isso batendo em você. – Falei com rispidez, sentindo meu celular vibrar. Estava dentro da bolsa, não teria paciência ou a decência de pegá-lo.
- E por que você está tão irritada? – murmurou concentrado em amarrar os cadarços do Nike dunk.
Suspirei, sentando entre ele e . Abracei minhas pernas e descansei o rosto nos joelhos, cansada.
- Porque eu deveria estar em casa me arrumando. E porque essa chuva vai arruinar meu encontro. – Respondi baixinho, contrariada.
- Encontro? – ergueu as sobrancelhas, ainda encolhida.
Afirmei com a cabeça, abrindo a bolsa e pegando o celular. Tinha uma nova mensagem.
“Não responde mais minhas mensagens, não me liga mais, não me vê mais. Estou magoada.”.
Drama queen, Sarah.
“Meu dia hoje foi meio corrido, desculpe-me. Nos encontramos amanhã depois da aula, como de costume?” Mandei de volta, julgando absurdo o fato de estudarmos na mesma escola e não nos vermos com freqüência.
- Estou de carro, vou embora quando o resolver aparecer. Se quiser eu te levo, até parece que nunca fiz isso antes. – deu de ombros.
- Esse é o detalhe menos importante, ! Agora me diz, , fofa, com quem você ia sair se não fosse o fim do mundo? – riu.
- . – Sibilei.
- Uuui! Aquele muito bonitinho que tem a voz engraçada?
- É, , esse mesmo.
Meu celular vibrou novamente, porém dessa vez não era mensagem. apareceu na tela, e eu atendi um tempo depois, me afastando um pouco de e .
- Oi ! – Sorri de lado, afetada.
- Oi ! E então?
- O que? – Perguntei desentendida.
- Ainda está de pé? Digo, nosso encontro. Podemos marcar pra outro dia, o lugar que eu ia te levar não fica nem um pouco legal com chuva...
- Claro que está de pé, não vamos marcar pra outro dia! Que pergunta boba, . O que você acha de ir lá em casa? Assistir um filme, sei lá.
- Seria ótimo.
- Vou tentar ir pra casa o mais rápido possível. Estou no cinema com as meninas e os idiotas, mas disse que pode me levar. – Tagarelei.
- Ah. Ok, então. Às oito e meia?
- Às oito e meia.
- Te vejo mais tarde, .
- Ok! Beijos. – E desliguei. Patética, . Não seja patética. Guardei o celular na bolsa, saltitando de volta ao banco.
- Era ele? – fez uma careta maliciosa.
- Aham.
- Bem, eu vou deixar o aqui, ele sumiu. Eu te levo. – se levantou de súbito, colocando as mãos nos bolsos da jeans.
Meneei a cabeça, agradecendo com um sorriso. Beijei a testa de . - Diz aos outros que eu deixei um beijo. Bom, menos para o , ele é um mariquinha e gritou durante o filme todinho.
- ‘Tá bem, fofa. – Ela riu.
- Vamos? – olhou para o teto, e eu concordei. Acenamos para e saímos.
Ficamos em silêncio, naquele clima estranho e tenso, até chegarmos ao pequeno estacionamento e entrarmos no carro, quando ligou o som. Estava tocando Oasis.
- Eu gosto dessa música. – Comentei, cantando um pedaço de Don’t Go Away.
- Oasis é foda.
Saímos do estacionamento e a chuva começou a cair muito forte sobre o carro, deixando-me apreensiva.
- Então vai mesmo se encontrar com alguém? – Perguntou depois de um tempo, indiferença explícita na voz.
Eu estava olhando para o teto do carro, minha cabeça trabalhava a mil por hora. O que eu feria para alimentar a criança faminta que era o ? Qual filme assistiríamos? Qual roupa eu usaria para não parecer negligente demais ou puta demais?
- É. – Respondi vagamente, ainda com o olhar fixo no teto.
pareceu desconfortável, e ao mesmo tempo sem jeito. O encarei por alguns segundos. Ele batucava com os dedos na direção, atento a rua, já que estava difícil enxergar por causa do vidro embaçado.
Voltei a olhar para o teto, absorta, quando, alguns minutos depois, a voz dele me fez abandonar meus pensamentos. De novo.
- Como foi a aula hoje?
- Boa. – Mentirosa. Nem a aula assistiu.
- Ah. – E se calou.
O silêncio me fazia pensar ainda mais, a música havia acabado e o som sido desligado, contrastando o humor de . Eu estava tão nervosa! Era apenas o . Mas... Não seria apenas o . Era um tipo de encontro.
Me assustava.
Merda, iria dar tudo errado e eu iria querer morrer depois.
- Escreveu alguma música? – , novamente, tomou minha atenção.
- Na verdade, sim.
- Legal.
Aquela situação mostrava-se patética. Eu estava me irritando, ele já devia estar constrangido com minha falta de consideração, e eu queria mais que tudo chegar em casa.
Agradeci mental e culpadamente ao ver que estávamos em minha rua e encostei a cabeça no vidro, suspirando.
parou o carro em frente a minha casa, me olhando engraçado.
- Boa sorte no seu encontro. – Murmurou, erguendo a sobrancelha e fazendo cara de deboche.
- Obrigado, chatinho. – Beijei sua bochecha, descendo do carro e correndo até a porta. Entrei encharcada.
Risadas. Risadas invadiram meus ouvidos, fazendo-me tentar descobrir o que era tão engraçado.
Uma pista: Mãe e namorado.
- Oh, , querida, está de volta! – Minha mãe estava sentada em uma das poltronas vermelhas da sala, segurando uma taça de vinho, estranhamente elegante. O cômodo estava iluminado apenas por um abajur no canto do cômodo.
- Oi mamãe – Sussurrei.
- Boa noite, . – Mark balançou a cabeça.
Mark: Namorado da minha mãe, também conhecida como Stacy. Os dois estavam juntos há oito meses. Eu não tinha nada contra, embora Mark passasse todo o tempo livre na minha casa, sugando todo bom senso da minha mãe.
De qualquer forma, eu não me envolvia nesse caso e tudo o que eu sabia era o nome dele.
- Boa noite. – Revirei os olhos arrogantemente. – Er, eu vou tomar um banho, não quero ficar com essa roupa molhada.
- Tudo bem, meu amor, depois desça aqui. Sairemos para jantar em algum lugar. – Mamãe sorriu.
- Oh, não vai dar. Obrigada, mesmo assim. Mas eu vou receber um amigo. – Cocei a nuca, olhando para meus próprios pés.
- Hum... Desde que se comporte e se alimente...
- Claro, mãe. Agora, se me dão licença...
Acenei para os dois e subi as escadas com passos largos, precisos e cuidados. Ao entrar, tranquei a porta do quarto e joguei o moletom e blusa molhados no chão, liguei o som – Meu CD dos Strokes já estava lá - tirei o Adidas velho e surrado e o deixei na entrada do banheiro. Me despi por completo, ligando o chuveiro na água quente, e relaxei, esquecendo todo o resto por uns minutos. Não demorei tanto no banho, umas três músicas, talvez, mas foi o bastante para perceber o quanto estava nervosa. Borboletas no meu estômago, e se eu não estivesse molhada, minhas mãos estariam suando ainda mais, e todas aquelas besteirinhas.
Me enrolei na toalha e fui até o armário, dançando meio desajeitada e de forma hilariante. Revirei algumas roupas, analisando-as por um tempo, peguei meu moletom vermelho e uma calça confortável, indiferente. Eu estaria confortável e não morreria de frio ou de vergonha.
Ou sim.
- , já estamos indo! – Ouvi Stacy berrar.
Desci as escadas enquanto amarrava o cabelo, saltitando alegremente.
– Bom jantar, divirtam-se e não se molhem. – Parei a alguns metros da porta, sorrindo com afeto.
Mamãe concordou, entrando na brincadeira, e soltou um beijo no ar, saindo apressada com Mark.
Tranquei a porta e corri até a cozinha, no minuto em que o telefone tocou. Atendi, alvoroçada.
- Alô!
- , tudo bem?
- Pai! – Me sobressaltei, numa mistura de surpresa e felicidade. – Oi! Como estão as coisas na França?
- Ótimas, na verdade eu só liguei pra dar um oi e avisar que chegaremos a Paris em meia hora.
- Ansioso?
- Deixe de besteiras, sabe que já fui a Paris milhões de vezes. Não sou muito encantado por essa cidade...
- Desculpe, pai, se eu nunca sequer saí da Inglaterra. – Soltei uma exclamação indignada e fingi uma falsa censura. Meu olhar caiu sobre o relógio na parede oposta a que eu estava e eu me desesperei: Precisava preparar alguma coisa. Estava frio, bom para uma massa... Ou não.
Tanto faz! Algo não complicado... Resolvi colocar uma pizza de quatro queijos no forno e preparar chocolate quente.
Praticidade.
- , fale mais devagar, dessa forma não entendo nada. – Ele reclamou.
- Ah, desculpa, é que eu ‘tô um pouco ocupada...
- Com o quê? O namorado da sua mãe está aí?
- Não, eles saíram. E não use esse tom de voz, pai, do mesmo jeito que você pode ter uma namorada, ela pode sair com outros caras. – Gargalhei, irritando-o, e o ouvi murmurar um “Você é muito nova pra entender qualquer coisa”. – É que eu estou esperando uns amigos. – Menti. No fim das contas, ele continuava sendo meu pai. – As garotas e quem sabe , , ... Lembra-se deles?
- E como esqueceria? Aqueles pestes. Então tudo bem. Eu te ligo amanhã, . Boa noite e não faça nada que eu não faria. – Brincou, mesmo um tanto sério, e desligou.
Meu pai é uma história para mais tarde.
Uns dez minutos depois a campainha tocou. Meu coração deu um pulo absurdo e eu respirei fundo, caminhei lentamente até a entrada e abri a porta.
Minha respiração falhou, mas não pude deixar de abrir um sorriso.
Oh, é.
se balançava numa tentativa de se aquecer, o cabelo molhado caía sobre o rosto, onde tinha um sorriso desajeitado e convidativo estampado.
Completamente doce e também cheio de subentendidos.
- Posso entrar? Ainda está caindo água em mim. – Riu.
Eu corei, como uma perfeita idiota. Estava na hora do desastre. Eu estava horrível. Eu estava ansiosa.
E no segundo seguinte eu não estava mais.
Definitivamente, eu não era boa o bastante para ele.
Cap. 3 – Tequila Shots
- Oh, merda, odeio essa cena! – Falei, colocando as mãos sobre os olhos. Ao meu lado, riu. Estávamos deitados no tapete da sala, rodeados de almofadas. O gigante prato de pizza só tinha farelos, e havia duas canecas perto do sofá, uma bagunça completa.
Previsível, até.
- É a melhor. E Orlando Bloom nem trabalha tão mal nesse filme – Ele disse, julgando-se sábio.
- Desculpe? Desde quando Orlando Bloom trabalha mal? Você só está com inveja porque ele é famoso, tem dinheiro e pode pegar qualquer garota, até mesmo Paris Hilton!
- Ew, Paris Hilton? – fez cara de nojo, me divertindo. – Não, obrigado. Paris Hilton que fique com... Orlando Bloom.
- Você é malvado! O que tem ela? – Sentei e cruzei os braços na frente do corpo, erguendo a sobrancelha desafiadoramente.
- Não preciso da Paris Hilton feia do jeito que é tendo você aqui. – Respondeu, também sentando e ficando perigosamente próximo. Veja bem. Perigosamente.
- , isso foi cafona. – Eu ri. Ele deu de ombros, olhando para a janela. O vidro estava embaçado e ainda chovia.
- Aaah, não fica chateado! Foi bonitinho! – Eu ri ainda mais, descruzando os braços e segurando uma das mãos dele.
abaixou os olhos para observar nossas mãos juntas com um sorriso torto, entrelaçando nossos dedos.
- , eu gosto de você. – Murmurou, encarando qualquer coisa que não fosse... Eu.
- Eu sei, e eu também gosto de você. Teríamos um encontro decente, se não estivesse chovendo. Mas aqui estamos, assistindo O Senhor dos Anéis. - Comentei sem pensar, minhas bochechas queimando logo depois. Baixei os olhos, acanhada.
levou a mão livre até meu queixo para levantar meu rosto. Alargou o sorriso.
- Confesso que estou me divertindo mais aqui do que estaria se tivéssemos saído. – Falou.
Me senti corar mais. Como era possível ele já estar tão próximo? Fechei os olhos quando o nariz gelado dele encostou-se ao meu, toda a respiração de batendo no meu rosto e pescoço, me fazendo ter arrepios agradáveis. Conseguia sentir todo aquele cheiro do cabelo e do perfume dele.
Era bom.
Meu estômago revirou, num nervosismo estranho e decidido.
roçou os lábios de leve nos meus, delicadamente, como se estivesse primeiro pedindo algum tipo de permissão. Estavam doces por conta do chocolate quente.
- Que susto, merda! – Gritei quando um barulho alto veio da TV, e me afastei dele, que tossiu constrangido. Peguei o controle e apertei no botão de pausa.
Ele me olhou e começou a rir subitamente, meneando a cabeça.
- O que? Eu me assustei, certo? – Ergui as sobrancelhas, mudando a expressão para uma de desdém.
- Isso quebrou todo o clima.
- Ah, legal. – Disse me levantando e ficando em pé.
- Aonde você vai?
- Descer pelo cano da pia, deve ser menos vergonhoso.
- , deixa de drama.
- Não é drama, . – Revirei os olhos.
- Então vem pra cá, vamos assistir ao filme. – Ele colocou a mão no espaço vazio ao lado dele, indicando que era para eu sentar ali.
Está vendo? Completamente doce e cheio de subentendidos.
- Droga. – Choraminguei fazendo bico – Espere, tenho uma idéia melhor! Podemos tomar banho de chuva!
- Ficou maluca, ?
- Ah, por favor!
- Você vai ficar doente.
- Não ligo. Vamos? Por favor?
- Não quero que você pegue uma doença, fica muito manhosa. Vem, vamos assistir ao filme. – Cortou, me puxando pelas pernas.
- Você é muito chatinho.
- Muito. – Me derrubou ao lado dele, rindo. Ficamos bastante próximos. De novo.
sorriu, afagando meu rosto. Em resposta ao toque sutil, fechei os olhos, minha respiração falhando, as malditas borboletas de volta no meu estômago.
- Tonight is only you and me. - O ouvi sussurrar, parando com as mãos nas minhas. Senti seus lábios se pressionarem delicadamente contra os meus. Eles eram macios, e ao mesmo tempo não eram.
Sei lá, e de repente lá estava ele me beijando daquele jeito todo meiguinho e calmo de ser, me fazendo esquecer de tudo, deixar aquela sala. Perdi a noção de quanto tempo permanecemos ali, até que ele se afastou.
Me olhou desajeitado, e ao mesmo tempo satisfeito. Só éramos capazes de ouvir o barulho das gotinhas se chocando contra o vidro, nossas respirações ofegantes, e talvez até mesmo meu coração, que batia alto e absurdamente descontrolado no meu peito.
Minhas bochechas queimaram novamente, e eu me senti nervosa, estranha e patética.
Me senti .
- É... Acho que é mesmo melhor voltarmos a assistir ao filme. – Falei de uma forma quase inaudível, olhando para a TV e pegando o controle. Ele apenas concordou com um aceno de cabeça, encostando-se no sofá. Me juntei a ele, e por mais que achasse aquela situação esquisita e um tanto quanto constrangedora, descansei minha cabeça no peito dele, sendo envolvida por seus braços. Me encolhi como uma criança, sentindo-o beijar o topo da minha cabeça.
Coloquei para o filme continuar.
Certo, não era tão estranho assim. Era bom. Era ali comigo.
O relógio do DVD marcava onze e meia, e a sala (ou qualquer outro cômodo da casa) estava assustadoramente escura.
Eu ainda estava aninhada nos braços do , nós dois esparramado no tapete. Eu não tinha processado o fato que ele tinha me beijado, e que tínhamos assistido O Senhor dos Anéis como se nada tivesse acontecido. Eu não fazia a mínima idéia do que falar, e aquele silêncio instalado desde as dez e quinze já estava me enlouquecendo.
- ? ‘Tá acordado? – Em resposta, ele resmungou alguma coisa. – Está com fome?
- Você está?
- Ah... Não sei. Quer ir à cozinha?
- Preguiça. – Eu o senti e ouvi rir baixinho.
Eu sorri inconscientemente. Num piscar de olhos, passou por minha cabeça “E se minha mãe chegar agora?”. Mas ah. Ela deveria estar muito ocupada com o Mark na casa dele, era sempre igual: Se ela não desses as caras até as dez, iria passar a noite fora.
- Mas você não está com fome? – Perguntou, afagando meu cabelo.
- Não. Estou bem assim. – Sibilei. Queria ficar ali nos braços dele pra sempre, como se mais nada existisse.
Ele continuou a afagar meu cabelo, e eu fechei os olhos, num misto de sensações tão boas que me consumia por dentro! Eu nem parecia à mesma de manhã.
- Acho que está tarde, é melhor eu ir. – sussurrou. - Não, fica mais um pouco. – Também sussurrei. Levantei minha cabeça para poder encará-lo. Foi meio difícil, já que estava escuro. Procurei os lábios dele, e ao encontrá-los, os beijei levemente. – Não me importo de perder aula amanhã.
- Já perdeu hoje, .
- Você está louco para ir embora. Tudo bem, eu deixo.
- Não, se eu pudesse passava o resto da noite aqui com você. – Confessou da forma mais brega, tosca e adorável que podia.
- Então passe.
- . – Ele riu divertido, ao mesmo tempo num tom de alerta.
- Tudo bem, eu te entendo. – Falei contrariada, me afastando e sentando. fez o mesmo e ficamos em pé.
- Compreensiva. – Me puxou pela cintura, e eu envolvi seu pescoço com os braços.
- Sou, e muito. – Satirizei.
- Palhaça. – Segunda vez que ele me chamava assim apenas em um dia. Me abraçou forte. – Onde estão meus tênis?
Acendi a luz e me espreguicei, observando-o calçar o Nike azul e branco. O levei até a porta alguns minutos depois.
- Bem, boa noite, .
- Boa noite. – Ele me beijou de leve algumas vezes, me deixando com cara de boba. Riu e correu até onde o carro que havia roubado do pai estava estacionado, demorando a entrar.
Algo passou por minha cabeça.
Duas coisas irônicas e engraçadas: Reviravoltas e mudanças. As provas que tudo é possível. Mesmo sendo favoráveis, mesmo não sendo, beijos. - ! – Gritei, achando meio difícil (e patético) acreditar que aquilo tinha realmente acontecido. Me fazia querer voar, sair por aí gritando coisas idiotas, saltitando que nem uma gazela.
- Oi? – Ele gritou de volta.
Fiz gestos exagerados com as mãos, indicando que era para ele voltar.
- Diga, diga. – Murmurou, ofegante pela corrida, parando na minha frente.
- Quer fazer algo estúpido e diferente? – Sorri ao vê-lo assentir. - Eu conheço um restaurante de uns amigos mexicanos da minha mãe que fica aberto até as quatro da manhã. Nas quintas à noite eles têm tango e tequila! – Pude ver, pelo brilho nos olhos dele, que estava imaginando vários shots e música alta. – Que tal?
- Hum... Não sei, não... – Hesitou.
- Vamos! Pra salvar esse encontro. Eu só preciso trocar de roupa. – Avisei, já dando as costas e correndo até a escada.
- Tudo bem! – Ele cedeu, gritando para que eu pudesse escutá-lo do andar de cima. – Mas não pense que você vai conseguir me fazer dançar!
Cap. 4 – We're so confused and I wish that there was some way that I could tell you
- Já me decidi, eu vou alargar a orelha!
Enquanto eu ouvia Sarah cair numa crise de riso, virei o rosto para poder encarar Derek com uma expressão cética devido a minha parcial fadiga e falta de sobriedade. As bochechas vermelhas o delatavam: Ele estava completamente irritado com a reação dela.
- Quem já viu, Derek, você quer ficar que nem índio? Pondo cano na orelha, mas que absurdo! – Sarah censurou.
- Você fala igual a minha mãe, só está faltando o “Vai pro Xingu viver com índio, marmota”. – Ele murmurou, riscando a foto que indicava o capitalismo financeiro na época da segunda revolução industrial.
- Eu acho que é legal. – Me pronunciei, voltando a atenção para o quadro da sala das aulas de Geografia, uma das únicas matérias que cursávamos os três juntos. – Sei lá, eu gosto. Mas não tenho coragem de pôr um alargador.
- Você não precisa, , sua orelha já é uma peneira. – Nós ainda estávamos rindo desse último comentário quando o sinal das três e quinze bateu e todos agradeceram pelo tempo que teriam livres até a tortura do dia seguinte.
- O que vão fazer agora à tarde? – Sarah perguntou, descendo as escadas na frente.
- Eu vou sair com o Alex e o Sam, não que você precise saber. – Derek desdenhou, arqueando as sobrancelhas arrogantemente.
Ela me olhou com certo desaponto.
- Não me diga que você vai sair com seus outros amigos? - Eu? Ah, eu vou... Hoje é sexta. – Entortei a boca, meio apreensiva. – Mas ei, você conhece a ! E o ! Não quer vir?
- Não estou segura que aquela sua amiga goste muito de mim.
- Você também não precisa ficar dando em cima do cara que ela “pseudo” gosta! – Revidei entre risadas, sentindo o sol queimar minha face no segundo que saímos do prédio e chegamos ao gramado.
Inconstância inglesa.
- Que culpa eu tenho se ele é gostoso, ?
- Certo, certo... Se controlem, por favor. – Derek interrompeu. – Vejo vocês na segunda, não aprontem até lá.
- Boa viagem, Brown! – Dissemos em coro, fazendo-o dar o dedo médio e se afastar com um sorriso estampado.
Meneei a cabeça.
- E você, fofa, o que vai fazer? – Questionei.
- Pensei em ir ao cinema. Me liga amanhã?
- Claro, se eu não tiver entrado em coma alcoólico. – Nos despedimos rapidamente e eu corri para fora da escola, meio animada e ansiosa. A casa de ficava a algumas quadras e os pais dele tinham viajado com o objetivo de ir ao casamento de um primo distante da Sra. que o Sr. considerava um “Babaca-comedor-de-prostitutas-porra-louca-que-estava-prestes-a-casar-com-uma-vadia-usurpadora-do-dinheiro-dele”.
A casa seria nossa pelo resto do fim de semana.
Peguei o Ipod na mochila e coloquei os fones nos ouvidos, abrindo a pasta "Cobra Starship". Tocava o fim da quarta música da pasta quando eu me vi parada na porta da casa dos .
Era uma casa comum, como tantas outras da rua, em tom um tanto escuro. O pequeno jardim não era dos mais bem cuidados, mas não podia ser considerado o pior, apenas dava ao lugar certa melancolia. Mas me causava uma nostalgia que me lembrava da época que éramos crianças e corríamos e jogávamos bola ali, amassando os vestígios de grama nova, quando ainda éramos apenas eu, , e . Fazia uns bons anos, de qualquer forma.
Toquei a campanhia, mas ninguém atendeu, e eu deduzi que eles não tinham chegado. Me sentei no batente da entrada, guardei o Ipod e mandei uma mensagem para minha mãe, em tempo de ver parar na minha frente com um sorriso estonteante nos lábios, a respiração ofegante, as roupas amassadas e a mochila nas costas.
- , seu otário, não valeu! Você me empurrou! – Ouvi gritar, aproximando-se com dificuldade.
Ainda me analisando com curiosidade, replicou: - Se conforme que eu sou melhor que você em tudo, .
- Mas deve existir algo que você não seja bom! – continuava a gritar inconformado.
apenas aumentou o sorriso, notando minha expressão maliciosa.
- E aí, , quer uma cerveja? Me levantei com a ajuda dele e nós entramos na casa conversando alto, os protestos revoltados de nos fazendo rir. largou a mochila perto da escada e se arrastou para a cozinha cantando o refrão de First Date, enquanto eu e íamos até a sala e nos jogávamos no sofá, brincando de trocar insultos e beliscões.
Brincando.
- Cadê os outros? – Perguntei quando consegui fazê-lo implorar por uma trégua e entrou segurando uma latinha de cerveja.
- ia encontrar alguém e as meninas tinham sei lá o quê. Educação física ou tanto faz. Ei, pára com isso. Você vai matar esse idiota.
Suspirei, soltando os cabelos de e em agradecimento ele parou de morder meu braço, e me distraí observando ligar o som: The Cure começou a ecoar pelo cômodo.
- Alguma idéia do que vamos fazer?
- Strip poker!
- Cala a boca, . – Ri desdenhosa. – Deixe isso pra quando todos estiverem aqui.
- Sua covarde!
- Você já viu tudo o que precisava, .
- E você percebeu o quanto soou puta?
- Seus imbecis. – rolou os olhos. – Já tenho uma idéia melhor.- , pegue o Johnnie Walker pra’gente virar. Vamos jogar 21.
Eu nem tinha tempo de sair de uma ressaca e já precisava entrar em outra.
- , eu desisto! – berrou, se enrolando com as palavras. – Desse jeito eu nunca vou conseguir chegar ao 21!
- Já desisti faz tempo. – Declarei, levantando do chão para quase cair novamente, e corri até o som, aumentando o volume. Era hora do Queen. – I GOTTA BE COOL, RELAX, GET HIP!
Explodimos em gargalhadas, de súbito, e eu massageei as têmporas, sentindo tudo girar e meu estômago revirar. Ouvi desafiar e no segundo seguinte os dois estavam correndo para o lado de fora. Vasculhei minha mochila, esperando encontrar algo novo no celular, mas a única coisa nova que tinha era uma chamada perdida de minha mãe.
Guardei o celular no bolso e saltitei para a porta, podendo ver meus dois amigos rolando de rir por nada enquanto os primeiros acordes de We Will Rock You chegavam a meus ouvidos. Me juntei a eles e, quando finalmente cansamos, caímos exaustos na grama seca, como costumávamos fazer porém não fazíamos há tempos, suspirando e respirando todos no mesmo ritmo.
- Cansei. – confessou, sentando. – E aí, estão com fome? Vou pedir uma pizza do Domino’s e aproveitar pra ligar pra ... E pro . – E sumiu para dentro de casa.
Fechei os olhos por alguns minutos, escutando apenas o som dos carros que passavam, a respiração descompassada de e a música que vinha da casa. Senti que eu poderia adormecer ali mesmo, com a luz fraca do fim do dia indicando que estava perto das dez da noite, quando a voz de ecoou baixa e rouca.
Me arrepiei involuntariamente.
- Eu... Ia dizer... Quer um cigarro? – Murmurou, procurando o demasiado familiar maço Malboro nos bolsos da jeans.
- Pode ser. Você sabe, , que esse ainda vai ser o motivo da nossa morte.
- É claro.
Nós ficamos num silêncio de palavras agradável, tragando o cigarro que dividíamos e vez ou outra cantando um pedaço da música. Arrisquei analisar o perfil de muitas vezes, que continuava deitado na grama, distante, e suspirei inconformada. Ele andava tão estranho e disperso, e mesmo assim eu não podia deixar de notar sua beleza.
- Tem alguma coisa que você queira me dizer, ? – Sussurrei sem querer, logo depois sentindo minhas bochechas queimarem.
Ele virou os olhos para me encarar, num misto de curiosidade e apreensão. E, como se já tivesse planejado, levantou o corpo de forma que pudesse ficar sentado e livrou-se do cigarro, e eu precisei levantar o rosto ligeiramente para não quebrar o contato visual.
Nós tínhamos um tipo de relação que eu nunca iria entender.
- Eu quero te fazer uma proposta, na verdade.
Concordei com a cabeça. inclinou o corpo para frente, me fazendo me afastar inconscientemente, e abriu os lábios num sorriso doce, prestes a falar algo. O hálito e a respiração dele tocavam minha face. Meu estômago despencou com tal proximidade.
Mas, como toda a minha vida é uma bosta previsível, meu celular começou a tocar. Meu coração palpitou ao pensar que talvez fosse querendo discutir sobre a noite passada, apenas para se desapontar ao ver que era só Stacy.
- Oi, mãe. – Sussurrei, observando ficar em pé e se afastar, saindo para lugar nenhum bagunçando os cabelos num gesto confuso que eu conhecia bem. Me dei conta de quanto estava com fome, me dei conta de que ele deveria ter planejado aquilo já fazia um tempo, de quanto tinha um significado para ele. – É claro que já estou voltando pra casa, aconteceu alguma coisa? Eu te conheço, Stacy, você me parece nervosa. Tudo bem, fique calma, mamãe. Eu já estou indo.
Finalizei a ligação e guardei de novo o celular no bolso, esforçando-me para levantar. Para não sucumbir à culpa que eu sentia.
Era o meu drama, eu tinha o direito de exagerar.
- Ei, . – chamou da porta, com a voz preocupada. – Cadê o ?
- Deve voltar mais tarde. Mas agora ele saiu...
- Pra onde? A pizza...
- Não sei, ! Eu não sei.

