Homecoming
Autora: Pamela Leão
Status: Finalizada
Revisada por: Cá Pardine
Categoria: McFLY
Sub-Categoria: Romance + Longfic
Comentários:
Prolouge
's text message
'Because before too long you'll be a memory
O1
Narrado por
O inverno era rígido, para mim parecia a melhor maneira de voltar às aulas. Do lado de fora da janela, o vento batia nas árvores fazendo com que elas dançassem um ritmo completamente diferente. Era algo assombroso demais para mim. A visão lá fora era escura, nem as íris quase negras poderiam captar claridade, mas não era por estar praticamente de noite, era pelas nuvens que encobriam qualquer parte mais clara do céu. E essas nuvens carregavam tempestade.
Pouco tempo depois os clarões começaram a tomar conta do céu, os estrondos assustavam qualquer um - inclusive a mim. Permaneci deitada, encolhida entre as cobertas, desejando que a chuva cessasse e o barulho de pingos contra minha janela sumisse. Nada era pior do que trovões, talvez somente chuva com trovões, o que acontecia em grande parte das vezes. Aquele barulho incessante de água caindo do céu estava mexendo com todos meus neurônios.
Apenas mais um ano, apenas mais um ano de tortura, indo para a escola todos dias e encarando todas aquelas pessoas que eu tanto odiava. Tanta futilidade, tanta hipocrisia reunida em um só lugar. Tanto fingimento, amizades feitas apenas para o próprio benefício. Nunca tive muitos amigos, no máximo foram colegas. Sabia que no meio escolar, maçante de todos os dias, eu não encontraria alguém que realmente valesse a pena.
Dezessete anos e sozinha, apenas com memórias de um passado distante. Uma família que não estava mais ali. Meu aniversário de dez anos com certeza havia sido inesquecível, como nenhum outro conseguira ser. Um acidente de carro levou as partes mais importantes de mim.
Meus olhos perdidos nas variadas fotos do mural que ficava a frente de minha cama, memórias de dias melhores que estava presos bem longe dali. Minha tia quem me criou, e com certeza, não foi uma boa companhia. Insensível, preocupada apenas com o próprio umbigo - nada além disso.
Ao completar dezessete anos fui autorizada a usar o dinheiro que meus pais haviam deixado para mim antes de sofrerem o acidente. Só eu sei o quanto isso incomodou Julliet, minha tia. Comprei meu apartamento, relativamente pequeno a todos os imóveis da região, não gosto de extravagâncias. Continuo estudando no colégio que frequentei por toda minha vida acadêmica. Ainda recebia uma certa ajuda de meus avós que moravam na Itália, o contato não era dos mais constantes, mas mantinha forte o vínculo criado quando criança.
Um aperto, como se uma mão pressionasse meu peito, me atingiu assim que vi uma foto isolada e sozinha naquele mural. Meio escondida entre os postais, fotos, cartões e pequenos papéis de recados. Eu e . , meu melhor amigo. Desde sempre. Durante toda a vida. Nós dois sorríamos, ele segurava a câmera e o vento fazia o serviço de bagunçar nossos cabelos. Por um breve momento minha vista embaçou, as estampas de meu edredom ficaram confusas e distorcidas, a luz fraca do abajur se tornou um pequeno ponto que apenas enfeitava o quarto. Algumas pestanejadas e tudo voltou ao normal. Mas eu sabia bem o que havia acontecido. Eram lágrimas, daquelas acumuladas por anos.
Estiquei a mão até o telefone colorido que ocupava minha mesa de cabeceira, tirei o aparelho da base e disquei alguns números que nunca haviam saído da minha memória.
Levei o telefone até o ouvido, senti meu corpo se remoer, e na metade do primeiro toque devolvi o aparelho ao gancho.
Sempre assim, como uma rotina, há dois anos eu discava o mesmo número e não tinha coragem de esperar para ouvir a voz de quem eu tanto sentia falta. Talvez o problema fosse a vergonha que eu sentia por ter sido tão egoísta. Assim que soube que iria embora me revoltei, deixei de falar com ele, como se a pessoa mais atingida naquilo fosse apenas e somente eu. Não havia como justificar, mas ele tentou. Com apenas quatorze anos não poderia ficar longe de seus pais, não seria apenas alguns quilômetros ou uma cidade de distância. Seria um oceano, a família foi embora para o Canadá. Não estavam levando apenas o filho, estavam levando a última parte que restava de mim.
Não dei ouvidos a nada do que disse, ignorei todas suas tentativas de se desculpar, para mim não eram apenas algumas palavras para curar aquilo.
Despertei das lembranças saudosistas e tristes que há tempos não resolvia remexer com o toque estridente do telefone ao lado da cama. Olhei no identificador e percebi que não conhecia os algarismos. Forcei a memória e nada. Quem sabe fosse , ou talvez meus avós. Tirei o telefone da base e, mais uma vez, levei a orelha.
- ? - como um baque senti que por segundos meu coração havia realmente parado de bater. Um frio anormal tomou conta de todo meu corpo. Meus dedos não moveram, meus braços não responderam ao comando de soltar o telefone. Minha respiração estava presa dentro dos pulmões, naquele momento inchados a ponto de romper minha caixa toráxica. Reconheceria aquele timbre em qualquer lugar. Mais rápido que o frio repentino, um calor me dominou. Minha boca abria e fechava na tentativa de responder ou pronunciar qualquer palavra, mas era impossível.
Escutei a respiração do outro lado da linha e fechei os olhos no intuito de guardar aquilo por mais tempo. Há dois anos ligava, às vezes era atendida, às vezes não, mas nunca me pronunciava. Muito menos recebia a ligação de volta. Nunca respondi suas cartas, nunca respondi seus e-mails, nunca soube como estava sua vida. Se me perguntassem não saberia dizer nem qual era sua aparência com dezessete anos também.
Por impulso, ou alguma outra razão inexplicável, devolvi o telefone ao devido lugar.
Covardia talvez.
Não era possível responder se eu havia ficado arrependida. Antes que isso tomasse conta de todos meus neurônios, levantei e fui em direção ao armário do quarto. Abri a porta, puxei um banquinho que ali perto ficava, subi no mesmo, vasculhei um pouco e tirei de lá de dentro uma pequena caixa de madeira. Presente antigo de mamãe antes de falecer. Ali dentro estavam todas minhas memórias, inclusive memórias de , desde cartas, até os bilhetes bobos que ele costumava deixar dentro de meus cadernos.
Sorri sozinha ao puxar, lá do fundo, um papel dobrado com uma flor já seca em seu interior.
And I'd give up forever to touch you
Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now
Parece idiota, não?
Eu não acho, as outras pessoas não me entenderiam da maneira que você entende.
Te amo, .
Apesar de declarações constantes de amor e carinho, sempre deixou bem claro que não conseguiria se relacionar como um namorado comigo. Namoro, esta palavra para ele estava completamente fora de cogitação quando se tratava de nós dois. Apertei o bilhete contra o peito esperando que aquilo me aquecesse de certa forma. Fechei os olhos com força. Joguei meu peso para trás e senti o leve impacto de minhas costas com o colchão, permaneci de olhos fechados, dessa maneira senti o peso de minhas pálpebras aumentar até que adormecesse.
Um maldito apito ecoava pelo quarto, sem parar, irritante, agudo. Joguei o braço direito contra o maldito barulho escutando um baque logo em seguida. Como aquele despertador sobrevivia a tantas agressões ninguém sabia dizer.
Sentei-me na cama, apoiada nos braços, fazendo um esforço enorme para abrir os olhos. Não havia claridade ainda, o sol iria aparecer tímido entre as nuvens do céu nublado de Londres. Era esse tempo mesmo, o melhor tempo para mim. Lancei os pés para fora da cama e consegui erguer o corpo logo em seguida. Estiquei-me até escutar todos os ossos estralados, fui até a porta branca e entrei no meu banheiro, minha higiene matinal era rápida, logo depois já estava no box. Sem ducha não teria condições de acordar.
Terminei meu banho, torci meus cabelos, tirei todo o excesso de umidade com uma toalha e a joguei longe. Voltei para o quarto, escancarei a janela e depois a porta do armário, tirei de lá o conhecido uniforme do King's Ford High School. Coloquei minha meia três quartos, a camisa branca social, a saia azul marinha com xadrez cinza, a gravata lisa, o blazer escuro com emblema de leões, a sapatilha. Faltava algo. Voltei ao banheiro, passei a toalha pelos cabelos mais uma vez, mas não foi suficiente. Abri o pequeno armário que ficava embaixo da pia e tirei de lá um secador. Agora sim. Voltei até a penteadeira e peguei o que faltava: o arco plástico que me deixava completamente diferente. Passei o lápis de olho, que não era permitido, e me senti finalmente bem.
Não era popular, mas sabia que algo em mim incomodava muitas pessoas naquele colégio. Alguns diziam que era a maneira como me comportava. Quieta, não me dava ao trabalho de conversar com ninguém ali, a não ser .
Caminhei até a bolsa com os novos livros e rumei para a cozinha. Apenas uma maçã me saciaria. Tirei o chaveiro da mesinha ao lado da porta, tranquei a mesma e saí em direção ao colégio.
King's Ford não era longe de minha casa, foi caminhando que percebi que minha saia subia mais que o normal.
- Nem todas as alunas do King's são vadias. - murmurei tentando abaixar a saia que insistia em subir mais do que devia.
Avistei bem perto o jardim do colégio que tanto amava, bufei lembrando que também amava incondicionalmente os alunos que ali estudavam. Permaneci na minha caminhada até passar pelos portões. Assim que as grandes grades estavam atrás de mim desacelerei meus passos. Vi, não muito longe, brincando com uma bolinha que parecia ser de borracha. Ergui minha mão discretamente e entrei no prédio no qual passaria mais um tortuoso ano. Fui até a secretária retirar meu horário e não pude deixar de reclamar.
- Biologia, Sr. Hawkins. Bela maneira de começar o ano. - Rapidamente as aulas entediantes vieram a minha memória, Hawkins era responsável pela Biologia em todo o ensino médio. O pobre homem era fanho, além de babar litros nas primeiras carteiras da sala.
Caminhei até meu antigo e conhecido armário. Girei o cadeado e coloquei todos os livros que estavam em minha bolsa ali dentro. Fiquei apenas com o necessário para a aula de Biologia. Continuei no caminho para a sala mesmo sabendo que faltavam longos minutos para a aula começar.
O mesmo cheiro de escola recém pintada, a sala de Biologia mantinha o mesmo aspecto natural de antes, com os milhões de organismos ao lado das bancadas, os quadros de ecossistemas que de nada me interessavam. Caminhei até a última bancada da sala, lado direito, banco da janela. Sentei-me e tirei o iPod do pequeno bolso que o blazer tinha, os fones brancos não poderiam passar despercebidos em contraste com o uniforme escuro. Deixei que o banco pendesse um pouco para trás e apoiei os pés na bancada, meus olhos analisavam cada detalhe daquela sapatilha, completamente distraída e alheia a qualquer movimento naquela sala. Aos poucos os alunos começaram a ocupar seus lugares a para minha sorte nenhum deles escolheu o lugar ao meu lado, normal.
A maneira esculachada como eu levava e tratava muitas pessoas intrigava todos, e eu tinha plena noção disso. Eu tinha potencial para ser popular, pode parecer prepotente, mas era a realidade. Era bem mais confortável me manter longe daquilo tudo.
Meus olhos seguiram até o garoto que entrava na sala, não deixei de sorrir - abertamente como poucas vezes. tinha sua mala jogada de qualquer maneira nas costas, atraindo olhares femininos de todas as alunas mais novas da sala, tirei os fones e ouvido e diminuí meu sorriso.
- Folgada como sempre. - disse analisando a posição na qual eu estava.
- Existem coisas que não mudam, caro . - Joguei o iPod sobre a bancada e este caiu bem ao lado do meu caderno. - Como foram suas férias?
- Tranquilas, nada de diferente. Um bom álcool e algumas festas por aí. - era um pouco mais social que eu, tinha seus amigos que mantinham festas enlouquecidas e selvagens na ausência dos pais.
- As minhas foram à mesma coisa de sempre. Nada novo.
- E por acaso eu perguntei? - Ele indagou me olhando com um olhar desdenhoso e a sobrancelha arqueada. Nossa relação era a mais estranha de todas, nos tratávamos a pontapés e indelicadezas de marca maior, mas no fundo ele não viveria sem mim, é.
- Idiota.
Ao término da aula de Biologia consultei mais uma vez meu novo horário.
- Segundo tempo livre. - joguei a bolsa no ombro e saí em direção ao banheiro. Andei sendo, como sempre, observada pelos alunos que estavam no corredor. Eles ainda achavam que eu não percebia. O banheiro se mantinha da mesma forma do ano anterior, visto de fora lindo e bem conservado, mas na verdade escondia das mais variadas pixações dentro das cabines.
Parei em frente ao espelho. Agarrei a maçaneta voltando ao corredor tumultuado graças à troca de aula, vi o inspetor responsável por meu andar sentado em frente a mesa. Andando rente aos armários cheguei a porta da escada de incêndio, empurrei de leve conseguindo adentrar a escuridão da escada de emergência. Mantive minha mão no corrimão para que não caísse naquela escuridão.
Minutos depois cheguei até meu destino, o alto do prédio. Dali de cima eu era possível enxergar todos. Pareciam mais formigas e isso me agradava profundamente. O vento gelado batia contra meu rosto e fazia meu cabelo sair do lugar. Abracei o próprio corpo na tentativa de aquecê-lo, inútil. Encostei as costas em uma das pilastras ali próximas e deixei meu corpo escorregar até encontrar o chão frio.
- Até que enfim. Procurei você por todo o prédio. - se aproximou falando mais alto, apenas rolei os olhos.
- Não. Você não procurou em todo o prédio. E além do mais você não é dependente da minha presença. - Sorri com minha própria frase. - Vamos, eu estou com fome.
A mesma selvageria de todos os anos, o refeitório se dividia em tribos e nenhuma delas me agradava, caminhei até a máquina de refrigerantes tirei uma Coca e fui até a mesa em que sempre me sentava, nos últimos anos contando com a presença de .
Um grupo de líderes de torcida passou lançando um papel sobre a mesa. Estendi a mão até alcançá-lo, virei do lado certo e apertei os olhos até conseguir ler as letrinhas escritas no papel rosa fluorescente. Festa de Boas Vindas.
- Você conhece bem essas boas vindas, não? - pendeu a cabeça para trás rindo.
- Sim, eu já apareci numa festa dessas e se você quer bebidas ilícitas, música ensurdecedoras e sexo liberado, é o endereço certo. - ele respondeu com um sorriso sarcástico nos lábios.
- Tentador, mas eu tenho algo mais interessante para esse fim de semana. - brincava concentrado com seu canudinho de refrigerante e ergueu os olhos no mesmo instante que me ouviu falar.
- Você com algo mais interessante para fazer?
- Meu quarto e uma bela bagunça no meu apartamento.
- Já era de se imaginar.
Duas aulas e um intervalo já passaram, pela frente ainda vinham mais quatro aulas. Uma delas segundo o horário era de Filosofia. Bela oportunidade segundo pesquisas entre os alunos para matar aula andando por todos os pátios.
A sala de Filosofia ficava no segundo andar do prédio, me fazendo sair do refeitório, caminhar um pouco e subir mais um lance de escadas. No meio de todo o tumulto formado por alunos, como durante todo aquele primeiro dia de aula me senti estranha. Como se estivesse sendo observada, paranóia talvez. Virei rapidamente o rosto e tive a impressão de ver um par de olhos azuis que não me eram estranhos, sacudi a cabeça afastando qualquer pensamento que pudesse tentar abordar minha mente. Comecei a achar que a pior coisa foi abrir aquela maldita caixa de lembranças. Dirigi-me até a sala, entrei e pedi licença para a professora, esta apenas acenou e tomou seu lugar frente à lousa.
- , eu estou com uma sensação estranha. - disse olhando para os lados e tentando ser discreta, tinha certeza de que algo não estava certo.
- Você está paranóica, já disse que drogas não são o caminho certo. - ele respondeu rindo dos meus olhares constantes.
- Imbecíl, eu não estou paranóica. Você não tem inteligência suficiente para entender mesmo. - a próxima aula seria a mesma para nós dois, Literatura.
Caminhávamos lado a lado no corredor, bem quietos por sinal. Eu insistia em pensar que algo não estava certo comigo. Era um pressentimento, algo iria acontecer e não seria nada bom.
- Entrem, entrem vocês dois, a coordenadora tem algo para dizer. - olhei de canto para e então aceleramos o passo, as únicas carteiras livres eram as do fundo, foi para lá que fomos.
- Bom dia, jovens. - a coordenadora com a mesma voz anasalada de sempre e aparência extremamente impecável começou o pequeno discurso. - Estou aqui para desejar um bom começo de atividades, um ano letivo agradável, de notas agradáveis e bom convívio. - o tédio já estava se instalando em minha cabeça. - Porém hoje não estou aqui só para isso. Vim na missão de apresentá-los um novo aluno, ele será companheiro de vocês neste último ano acadêmico. Entre, por favor.
Aquela mulher de postura ereta fez sinal para que o novo aluno entrasse na aula, aquilo não era algo que desviaria minha atenção, mas por algum motivo especial e inexplicado deixei minhas unhas de lado e olhei na direção da porta.
- Quem será o novato? - perguntou apoiando-se na própria mesa para chegar mais perto de meu ouvido.
A mesma sensação de estar sendo observada, que havia me acompanhado da metade do dia para cá, retornou mais forte que nunca. Meus olhos seguiram a sombra formada no chão pelo corpo parado na porta, dali meu olhar subiu centímetro por centímetro. Nos pés não estavam os mesmos sapatos que a maioria dos alunos - aqueles que seguiam as regras - usavam. Um par de All Star preto, surrado, sua calça mesmo sendo de alfaiataria parecia dois números maior, a camisa saía por baixo do terno, esse que não estava encaixado da melhor maneira em seu tronco, a gravata frouxa antecipou o que eu não queria ver.
Um frio absurdo desceu por minha espinha, continuei observando o menino, meu coração batia cada vez mais forte, eu podia sentir os movimentos sem nem tocar meu peito. Os lábios eram bem avermelhados, típicos de quem possuí pele clara demais, o nariz se encaixava perfeitamente nos traços de todo o rosto, só me faltava ver os olhos. Pisquei lentamente, mas quando voltei a abrí-los foi como um choque. Estava olhando diretamente nos olhos azuis. Prendi o ar dentro dos pulmões, para mim não era mais possível. O olhar dele virou em minha direção me fazendo estremecer por completo, uma expressão de susto tomou conta de sua face, um reflexo de meu rosto naquele momento.
- Alunos, esse é . Por gentileza, sente-se nessa carteira livre. Aproveite a aula - a coordenadora deixou a sala em silêncio e todos permaneceram da mesma maneira.
Era perigoso meus batimentos cardíacos serem ouvidos a quilômetros de distância. Seu rosto já não estava mais no alcance dos meus olhos.
O sinal parecia mais distante que nunca, eu observava suas costas e logo em seguida desviava os olhos para o relógio que o ocupava o alto da lousa. O barulho dos ponteiros ecoava em minha cabeça. O sinal, enfim.
Puxei minha bolsa de cima da mesa, nem havia tirado o material para a aula de lá de dentro. As coisas ditas pela professora entraram por uma orelha e saíram pela outra. Até escutei me chamar, mas não dei atenção, saí quase que voando de dentro sala. Sabia que não poderia sair pela entrada principal do colégio, logo tive a idéia de pular o muro mais próximo, atravessei o pátio quase correndo, cheguei a um jardim bem menos cuidado, avistei o muro - que não era dos mais altos -, arremessei minha bolsa sem nem pensar nos pertences que poderiam quebrar. Respirei fundo e apoiei os braços no concreto, impulsionei o corpo para cima. Ajeitei a roupa assim que caí do outro lado.
A campainha tocava insistentemente, larguei o controle da TV no sofá e, literalmente, me arrastei até a porta. A aula já deveria ter acabado a algumas horas, desde minha fuga não havia pensado em tudo o que aconteceu em um só dia, apenas cheguei em casa, joguei o material em qualquer lugar do quarto, coloquei uma calça moletom e uma baby look surrada e me esparramei no sofá, sequer havia almoçado.
Toquei a maçaneta e abri a porta. estava parado com uma mão apoiada no batente da porta, a outra estava no bolso de trás de sua calça e seus olhos focados no chão. Apenas mantive meu olhar em minhas pantufas.
- Agora pode me explicar o motivo da fuga? - meus olhos encontraram os dele.
- Ele está aqui.
- Ele quem?
- . Ele voltou, .
O2
deu espaço para que entrasse em seu apartamento. Fechou a porta lentamente e seguiu o menino até o sofá.
- Eu ainda não entendi. Você conhece aquele garoto, o aluno novo? - perguntou enquanto voltava da cozinha com duas pequenas garrafas de cerveja. A garota se jogou no sofá e abriu sua garrafa logo em seguida.
- Conheço, na verdade é uma longa história. - colocou os pés sobre a mesa de centro da sala e jogou a cabeça para trás.
- Tenho bastante tempo. - discretamente rolou os olhos e tomou fôlego antes de começar.
- Ok, eu e éramos melhores amigos. Nós quase nascemos juntos. Nossas mães eram muito amigas e consequentemente nós dois vivíamos grudados, sempre nos mesmo lugares, as mesmas festas, reuniões de amigos e família. - explicou tomando muito cuidado para não tocar em nenhuma parte que lhe fizesse desabar em frente ao amigo. Ainda restavam machucados. O terreno não era estável. - Ele era como um irmão, sabe? - assentia em silêncio enquanto dava pequenos goles na cerveja. - Nós passamos por tudo o que você pode imaginar quando estávamos juntos, foram anos de amizade, brigas, choro, xingamentos, e eu não deixava de me sentir a melhor pessoa do mundo ao lado dele.
- Isso tá com cara de romance.
- Cala a boca e me deixa terminar. - a garota respirou fundo mais uma vez. - No meu aniversário de dez anos eu perdi meus pais. Depois disso fui obrigada a ir morar com a minha tia, que era um saco, ainda odeio aquela mulher. Ela me proibiu de ver o , mas mesmo assim ele continuava aparecendo escondido para me visitar. Nossa amizade se manteve forte por muito tempo. A mais forte de todas. - aos poucos um nó lhe subiu a garganta, sua voz começou a embargar e uma ardência repentina tomou conta de seus olhos. - De repente, como uma bomba, os pais dele resolveram se mudar e bom, nós tínhamos quatorze anos, ele não podia fazer nada. Eu com esse maldito jeito egoísta briguei, chorei e deixei de falar com ele, como se a culpa fosse realmente dele. No fundo eu sempre soube que não era, mas eu simplesmente não conseguia suportar a idéia de perde-lo. Perdas novamente seriam demais para mim.
Tentando agir mais rápido que seus instintos, engoliu o choro que estava por vir e continuou a falar.
- Eu deixei ele ir e não consegui nem me despedir. Na primeira semana ele me ligou, me mandou e-mails, me mandou cartas e eu ignorei o quanto pude, afinal sou muito covarde. Chegou o dia em que não havia mais correspondências endereçadas a mim, não havia ligações perdidas no meu celular e minha caixa de e-mail estava com as mesmas coisas de sempre, nada novo. Foi nesse dia que tive a estúpida idéia de ligar para ele, era só para escutar sua voz, ou a respiração, o que fosse, não queria conversar, eu sabia muito bem que não seria capaz de falar nada. Só de saber que ele estaria do outro lado da linha, mesmo que em outro continente, me confortava de alguma maneira. Liguei durante dois anos, algumas vezes fui atendida, acredito que ele não sabia quem era, sempre desligava. - engoliu o restante da cerveja. - Ontem eu liguei mais uma vez, fazia tempo que eu não fazia isso, fora que estava chovendo tanto. Desliguei como sempre, mas logo em seguida o telefone voltou a tocar, eu nem imaginei quem podia ser, ele nunca ligava de volta, atendi e escutei ele dizer meu nome. Adivinha o que eu fiz?
- Desligou. Você é realmente covarde. - disse com naturalidade.
- Você veio aqui para em criticar?
- Você mesma disse que era covarde.
- Eu disse, mas você não pode dizer.
- Tá, tá. Isso parece estranho, é meio irreal. Você não imaginava que ele fosse voltar?
- Não, . Você não tem noção do tamanho do susto que eu levei ao ver quem era o aluno novo? Mesmo depois de tanto tempo, não tinha como não reconhecer os olhos. Ele mudou tanto.
- Então a senhora frieza tem sentimentos? Você gostava desse cara? - o olhar da menina perdido em algum ponto da sala pareceu mais escuro, como se caísse em um poço fundo.
- Sim.
- Ainda gosta?
- Não sei.
saiu com passos pesados da sala, as aulas estavam acabadas, sua cabeça trabalhava a mil, ainda não acreditava que depois de tanto tempo ela ainda estaria estudando ali. Sempre perguntou para seus amigos, especialmente , sobre a menina, se ainda estava por lá, como estava, com quem estava e as respostas eram sempre as mesmas: Larga disso, . Deixa essa menina pra lá. Ela anda sozinha, não fala com ninguém. Maldito arrependimento, ele sentia que não podia ter ido embora, não sabendo que ela não tinha ninguém. Abriu a porta para a coordenação.
- Como foi o primeiro dia de aula, Sr. ? – a secretária a quem ele deveria entregar a caderneta assinada por todos os professores perguntou.
- Bom. - deixou a mulher e a sala com cheiro fortíssimo de produtos de limpeza para trás e bateu a porta.
Não entendia a razão o sumiço da garota.
Talvez fosse bem óbvio e só ele não queria enxergar, ela ainda tinha raiva dele.
Rumou para fora dos portões do colégio em direção a casa de , estava morando com o amigo até conseguir um lugar para si.
- Dude, que cara é essa? - perguntou abrindo a porta.
- Lembra da menina de quem eu sempre perguntava?
- , aquela meio estranha? - o garoto fez cara de poucos amigos, mas mesmo assim confirmou.
- Ela ainda está aqui. Eu sei que ela ainda morava aqui, mas não queria acreditar que estava realmente tão diferente. Tive a impressão de que não gostou de me ver.
- Entra e explica isso direito.
jogou a mochila sobre o sofá e jogou o corpo logo em seguida.
- Você vai fugir por muito tempo? - perguntou olhando para os pés de no centro da mesa.
- Não, só preciso me situar. Falando em situar, preciso dar um volta, respirar outro ar, vou tomar uma ducha e trocar de roupas, volto rápido. a menina levantou do sofá que ainda tinha algumas garrafas longneek a sua volta. Entrou no banheiro, girou o registro do chuveiro deixando que as gotas de água quente batessem em seu corpo, não molhou o cabelo pois sabia que demorariam a secar e o tempo frio ainda lhe renderia uma bela gripe. Saiu do banho indo direto para o armário, tirou dali uma calça jeans, uma blusa de manga cumprida e uma de manga curta para colocar por cima, seu Vans já sujo de tanto usar. Mirou a janela no fundo do quarto e o frio merecia algo bem quente, puxou um sobretudo que cobria seu corpo até o joelho a deixando aquecida, pegou o mesmo cachecol que havia usado para ir ao colégio e ajeitou os fios do longo cabelo.
- Vamos?
- Bom, eu vou te acompanhar até a portaria, tenho que voltar pra casa. - ss dois saíram do apartamento e pouco tempo depois estavam enfrentando o frio. - Pense na vida, vale a pena às vezes. - se despediu com o beijo na testa da garota, algo que não costumava acontecer. Quem sabe estivesse com dó dela, ou havia ficado comovido com toda aquela estória.
sorriu sem mostrar os dentes, virou o corpo caminhando na direção contrária. Queria pensar em algum lugar bom para colocar as idéias no lugar, nenhum que lhe agradasse o suficiente veio a sua cabeça. Naquela mesma esquina sabia que havia um Starbucks, resolveu entrar na pequena loja e comprar alguma coisa.
Assim que saiu de dentro da pequena cafeteria com seu bolo de café e chocolate quente, sentiu falta do calor e cheiro que o lugar tinha. Com o saquinho de papel na mão, lembrou do parque próximo ao centro, apesar da proximidade do lugar mais agitado da cidade estava sempre vazio. Provavelmente, graça a seu ar de abandono.
- Ei, aonde você tá indo? - perguntou depois de ver colocar um outro casaco por cima de sua roupa e pegar sua carteira.
- Vou sair. Saudades de Londres.
O garoto fechou a porta e sentiu a rajada de vento gelado em sua direção. Não era possível descrever a saudade que sentia daquele lugar, das pessoas, da comida, do tempo. Virou a esquina daquele quarteirão ainda sem decidir para onde iria. Vinte minutos de caminhada e já estava perto do centro, avistou de longe os portões do Candance's Park.
Flashback - 4 anos atrás
- Você entendeu quando eu disse que estava te sequestrando? - perguntou para enquanto mantinha o braço sobre seus ombros.
- Você não é mal, logo não me sequestraria por maldade. Você fez isso apenas para me salvar da minha tia. - a menina respondeu com convicção e tom de que tem absoluta certeza de que não está errado. A poucos metros de distância era visível o portão acinzentado de um parque.
- Tem coragem? - parou a caminhada, entrando na frente do campo de visão de . - Entrar nesse parque, você sabe que ele está abandonado, não sabe?
- Claro que sei! E tenho coragem de entrar aí sim. - o menino gargalhou e saiu da frente para que continuassem a caminhar. Em frente ao gigante portão que estava entreaberto era possível ver várias folhas caídas e secas, um ar de abandono que deixava tudo mais sombrio. Já havia anoitecido fazia tempo, havia pulado o muro da casa da tia de e a tirado de lá. Alegou saudades que não podiam mais esperar.
encostou uma das mãos no portão o empurrando e ouvindo esse ranger, aquilo não havia contribuído para toda sua coragem continuar ali.
A única iluminação era feita por postes que resistiam ao tempo, suas lâmpadas já não garantiam a mesma luz de antes.
- Eu ‘tô com medo. - A menina disse sussurrando e agarrou o braço de logo em seguida.
- Quantas vezes eu vou ter que dizer que não vou deixar nada te acontecer?
End of flashback
O vento batia insistentemente e continuava a caminhar, agora com a idéia de entrar no parque, a noite ainda não havia caído, não havia problema. Fora que medo ele já não tinha mais.
Entrou pelo mesmo portão que diferente de quatro anos atrás, dessa vez estava completamente aberto.
O mesmo aspecto de anos atrás, as folhas secas e barulhentas no chão, os postes com tinta descascada, as árvores maiores que o normal. No mesmo centro do parque havia um lago, e perto da margem, naquele lugar vazio, uma silhueta podia ser vista. Como uma criança sentada em pernas de índio. O corpo só podia ser de uma menina, graças a delicadeza e os longos cabelos castanhos.
A insegurança não o deixava raciocinar, não sabia se chegava mais perto ou ficava apenas observando de longe.
escutou o barulho de galhos se quebrando e deduziu que alguém estava por ali. O barulho aproximava-se cada vez mais, virou o rosto lentamente e viu o que queria, mas também não queria. estava parado, poucos metros de distância dela, mordia o lábio inferior e observava atento a superfície lisa e intacta do lago.
Observou ele sentar na grama mais próximo a margem do que ela. Sentiu os olhos arderem, mas não podia chorar. Não novamente. A ação que havia se tornado tão constante, tão repetitiva, na verdade diária. Sentia que não precisava mais derramar uma lágrima que fosse, ele estava ali. Não era ao seu lado, não era abraçado a ela, mas estava ali. Já era alguma coisa.
Havia crescido tanto, não era o mesmo menino de três anos atrás, os cabelos tinham um jeito bagunçado, mas ao mesmo tempo arrumando, coisas que só fazia; as roupas, essas não mudaram, o mesmo jeito largado que a deixou boba durante toda a vida, e que por sinal ainda deixava. Segundos passavam, minutos passavam e dali a pouco, horas passariam, nenhum dos dois ousou mover um músculo, pronunciar uma palavra.
O silêncio não era incômodo, era necessário.
Cicatrizes não voltam a abrir, mas feridas sim, e foi isso que passou anos mantendo, feridas que não fecharam. Feridas que ainda doíam e não resistiriam ao simples toque. Não deixou o tempo, destino ou qualquer outro agente que quisesse cuidar daquilo. Queria ela mesma dar conta daquilo, mas era impossível.
Não sabia dizer a quanto tempo estava ali, não sabia se eram minutos ou horas. Tanto fazia, o vento era gelado e cortante, o menino se encolheu mais um pouco dobrando as pernas e abraçando-as, apoiou o queixo nos joelhos. O vento insistentemente trazia o perfume daquela que ele tanto sentira falta. Respirava fundo sentindo as narinas arderem, porém a satisfação era maior, o perfume entrava em seu corpo anestesiando seu cérebro. A pergunta ainda pairava em sua cabeça desde a hora em que avistou a meninas em uma das últimas carteiras da sala.
Como havia passado tanto tempo sem vê-la?
Não havia resposta que lhe parecesse boa o suficiente. Os argumentos para todos eram os melhores, para ele, os mais falhos. Não adiantaria passar o resto de sua vida refletindo sobre o assunto. Olhou para o céu e nuvens formavam chuva como na noite anterior, logo a mesma noite lhe voltou a cabeça.
Flashback - noite anterior
Ainda estava deitado na cama do quarto de hóspedes da casa de . Não queria morar de favor, mas era necessário, só assim conseguiu voltar a tempo do início do ano letivo. Sabia que tinha magoado sua mãe indo embora brigado com seu pai. Os pais do menino não concordavam com sua volta a Londres, mas mesmo assim bateu o pé, mostrando que a idéia era fixa e irreversível em sua cabeça.
Escutou o celular tocar, provavelmente no bolso de alguma calça, levantou da cama com preguiça e foi procurar o jeans mais próximo e o primeiro estava ali, em cima da cadeira. Foi caminhando até lá com uma má vontade vista de longe. Observou o visor e lá estava o número que sempre ligava, não sabia dizer porque sempre atendia, mesmo sem saber quem era. Há dois anos as mesmas ligações, diferentes intervalos de tempo, isso despertou a curiosidade do menino, quando pegou o celular o mesmo deixou de soltar o I Feel Good de sempre.
Fez o esforço de levantar e a pessoa não tinha ao menos esperado ele atender?
Voltou para a cama arrastando os pés e com o celular na mão, jogou o corpo contra o monte de almofadas que ali tinha. Fechou os olhos escutando a chuva que não era mais uma leve garoa como meia hora atrás. O barulho dos trovões sempre fazia sua memória resgatar coisas de três anos atrás, , a menina de seus pensamentos, ela tinha um medo enorme de trovões, não suportava o barulho por muito tempo, por um longo tempo esteve ali para confortá-la, mas nos últimos anos não.
Tudo o que olhava fazia a imagem da menina tomar conta de sua mente, tudo a lembrava, tudo se convertia em momentos que estavam bem distantes dali.
Foi assim que sua mente recebeu um lampejo repentino.
Levou a mão até o aparelho celular jogado sobre a cama, procurou o número que já estava até armazenado na agenda telefônica com um ponto de interrogação. Respirou fundo, não tinha certeza, mas era o que queria. Queria que fosse ela a pessoa anônima que não lhe respondia, que ligara durante todo esse tempo. Apertou o botão verde e esperou chamar, uma, duas e na terceira vez a chamada foi atendida.
- ? - sentiu um calor absurdo passar por todo seu corpo, só de pronunciar o nome da menina já sentia sensações estranhas que não sentia antigamente.
Escutou uma respiração se descompassar com os segundos que se passavam, não recebeu respostas, mas continuou ali, com o aparelho próximo a orelha, algo lhe dizia que era ela. Mais minutos e a respiração começava a tomar um ritmo normal, escutava aquilo como se fosse uma música.
Mas seu conforto foi interrompido, um barulho irritante tomou o lugar da respiração, quem quer que fosse havia desligado.
End of flashback
Uma garoa fina começou a cair, tirando o menino dos pensamentos. Sabia que seria como no dia anterior a chuva começaria fraca, mas logo viraria algo cheio de relâmpagos e trovões.
Pela primeira vez virou a cabeça no intuito de ver o rosto da menina, essa estava de cabeça baixa brincando com a barra da calça jeans. Resolveu que deveria saber qual a reação dela ao vê-lo perto, sabia que nos olhos que tanto conhecia, conseguiria ver se ela sentia raiva.
Levantou e caminhou com passos curtos até onde a menina estava, ela não levantou a cabeça, mas sabia que ele estava ali por perto. Abaixou ajoelhando em frente à que mantinha o corpo da mesma maneira, seus dedos continuavam brincando com o tecido e foi isso que resolveu interromper, levou sua mão de encontro a dela tocando os dedos gelados percebendo que o corpo da menina estremeceu, começou a brincar com os dedos dela.
A mão que ainda estava livre começou a mexer nas pontas do cabelo repicado, queria poder saber o que passava na mente dela, mas isso sempre foi um problema quando não estava olhando em seus olhos.
não sabia ao certo o que estava se passando dentro de seu corpo, o misto de sensações era tão grande que não tinha descrição. Com medo começou a levantar a cabeça encontrando um completamente mudado que mantinha o olhar fixo na brincadeira entre sua mão e os dedos da menina. O menino provavelmente sentiu o olhar da dela sobre ele e também levantou o olhar, ela não sabia o que fazer. Esperou tanto e tão inquieta por esse dia, ver mais uma vez ali, na sua frente.
Não sabia dizer o que o olhar do garoto significava ou queria dizer, parecia ter perdido a prática de adivinhar o que se passava naquela cabeça. Os olhos azuis estavam escuros e de certa maneira quentes, quentes como as mãos dele, que causaram um choque na menina ao primeiro contato. Sustentou o olhar, a proximidade dos rostos permitia a menina sentir o calor que emanava da pele dele. A chuva continua da mesma maneira, fina, mas como já caía a um certo tempo estava deixando o cabelo de visivelmente molhado. Um medo imensurável tomou conta da menina quando fez um leve movimento, as bocas podiam praticamente se tocar, o viu morder o lábio inferior deixando os dedos e as pontas do cabelo dela de lado, levando a boca até sua testa e depositando ali um beijo. Um arrepio tomou conta dela mais uma vez, aquela rotina de arrepios voltaria mais uma vez, talvez fosse aquilo do que mais sentira falta, o contato dos lábios de com sua pele.
O menino levantou, a deixando ali, sentada e observando os pés, sentindo a chuva engrossar, lentamente girou a cabeça pra trás e pode ver o menino quase saindo do parque com as mãos no bolso e a cabeça baixa.
Homecoming, I'm coming
My sweet mistake
Summer's over, hope it's not too late
I'm pacing, impatient
Up in my head
xx.
O3
Não demorou por ali. Levantou-se e guardou o celular no bolso, não havia ao menos capuz em seu agasalho, voltar para casa sob aquela garoa fina poderia lhe render um belo resfriado. Se ainda estivesse com a mesma sorte dos dias anteriores provavelmente acordaria com febre no dia seguinte. Já fazia tempo desde que saíra do parque, manteve seu caminho do centro direto para casa, sentindo a chuva engrossar a cada passo que dava.
Entrou no apartamento e deixou o casaco molhado sobre o aparador do hall, os tênis ficaram em um canto qualquer. Atravessou a casa correndo e em alguns segundos já estava embaixo da água quente do chuveiro. Faltavam algumas horas para que o sono aparecesse, não costumava dormir cedo. Depois de vestir um moletom G.A.P antigo sentou-se à frente do computador, não queria demorar, sua cama parecia bem mais confortável.
Não lhe faltava opções de filmes para assistir em sua prateleira, mas nada parecia satisfazê-la completamente. O travesseiro estava confortável, mas seus olhos não pesavam, o sono ainda não estava por perto.
O travesseiro fora criado com aquele propósito, fazer você refletir, com certeza por trás do conforto existia uma razão maior, quem o criou deveria ter problemas, queria pensar e não sabia como fazer isso sem se cansar muito. Não era possível que alguém duvidasse disso. Como um filme, flashes de toda sua vida começaram lentamente, em todos estava presente, sua imagem era pálida, mas não porque sua feição era assim. Aquela era a maneira como o via, a cada ano que passava as imagens tornavam-se mais ausentes, cada vez mais distantes. Um passeio em Bournmouth. Um almoço em família. Uma festa de aniversário. Um quarto de hospital. Uma mudança de casa. Uma tarde na praia. Uma tarde chuvosa. Dias de tristeza.
Tudo aquilo aparecia com um propósito, os acontecimentos - aquela linha do tempo - deveriam fazer sentido, deveria tirar alguma conclusão de tudo aquilo.
Mas esse era o grande problema.
Qual a conclusão?
Deveria agira para alguma coisa?
O destino é dono de pregar peças estranhas. Não sabia se deveria julgara a volta de como uma peça traiçoeira, uma brincadeira de mau gosto do destino. Poderia ser um recomeço. Acertar qualquer erro. Não se baseando no passado, seria tudo novo, como uma página virada. A única falha de antes que deveria levar para frente, a fim de nunca mais repeti-la, seria deixar de lado seu egoísmo, idiotice e medo.
Deixou o garoto ir embora sem ao menos uma despedida. Mas, com certeza, algo não havia mudado.
Ainda o amava.
Foram esses pensamentos que fizeram suas pálpebras, finalmente, pesarem.
Suas conclusões sobre má sorte, gripe e febre se dissiparam assim que acordou. Sentia-se mais disposta que em outros dias. Vestiu o uniforme e logo estava saindo de seu apartamento indo rumo ao colégio.
Bateu a porta do armário assim que confirmou seu primeiro horário: Sr. Clarkson.
Com o material de Geografia seguiu para a sala abafada do segundo andar.
Na frente da lousa o professor falava de maneira esbaforida sobre alguma importante jazida de minerais da América Latina quando cutucou com uma caneta.
- Ontem eu o encontrei. - disse próxima ao ouvido do garoto. Voltou a sentar em sua cadeira assim que o professor lançou-lhe um olhar torto.
- Como é o nome dele mesmo? - disse com um tom esnobe, parecia bem mais preocupado em copiar o conteúdo da lousa.
- O nome dele é . Fui até o parque do centro ontem.
- Não que me interesse o que você faz da vida, mas porque cargas d'água você foi a um parque abandonado? - perguntou, apesar de todo o escárnio em sua voz lá estava ele, querendo saber de tudo.
- Eu sei que você pouco se importa. - depois de mais uma pausa, respondeu. - Quando éramos crianças costumávamos brincar naquele parque. Me pareceu um bom lugar pra pensar...
- E ele, como nos filmes, apareceu no intuito de refletir. Os pombinhos se encontraram e o clima de romance está no ar. Lindo. - o menino manteve o tom sarcástico, estava acostumada, não preocupava-se mais em rebater.
- Não conversamos.
- Como? - deixou as anotações e olhou para a garota. - Vocês não estavam no mesmo lugar?
- E estar no mesmo lugar significa conversar?
O menino apenas concordou em silêncio e voltou a atenção para a lousa.
- Essa conversa vai ficar pra quando?
não respondeu. Não sabia a resposta. Sabia que em alguma hora teria que conversar com ele, mas não sabia quando.
O dia passou calmo.
saiu do colégio em direção a casa de , precisava de um lugar seu, urgentemente. A rotina era estranha, na verdade o estranho era não ter sua mãe o obrigando a comer, colocou apenas uma barrinha de cereal no estômago e subiu para seu quarto. Jogou o corpo contra o colchão e passou a olhar o teto, como se esse pudesse lhe explicar qualquer coisa. Aquela cama e a quantidade travesseiros sobre estava lhe fazendo pensar em algo que não queria. Apenas levantou e trocou o suéter do colégio por um moletom mais largo.
Não estava saindo completamente sem rumo. Os passos quase acompanhavam o ritmo da música que tocava alto nos fones de seu iPod. Caminhava no mesmo quarteirão de seu bem conhecido parque, os portões velhos que rodeavam o enorme espaço verde no centro poluído de Londres estavam ao seu lado. Se estivesse vestido de maneira qualquer poderiam dizer que ele não passava de um mendigo, encostado nas grades de maneira descompromissada no fundo tinha a esperança de que ela aparecesse. Não podia agradecer sempre, sua sorte não era das melhores. Naquele dia quem sabe, os deuses estivessem sendo-lhe propícios. De cabeça baixa, com os mesmos fones brancos, um G.A.P rosa, apenas sacudia a cabeça tentando tirar os fios de cabelo que o vento teimava em levar contra seu rosto. A cada passo ela estava mais próxima, observou como se o tempo aos poucos perdesse o ritmo normal, uma cena em câmera lenta. Ela estava ali, quase em sua frente.
O olhar da garota não demorou a cair sobre o de .
Esperou que ela entrasse no parque e saísse de seu campo de visão. Não sabia dizer ao certo, talvez fosse apenas impressão, seu olhar queria dizer algo, mas sem palavras. Deveria segui-la.
O parque continuava da mesma maneira que anos atrás. As folhas secas ao chão, os postes velhos, as luzes que a noite não acenderiam, os bancos não passavam de madeiras lutando contra o tempo para continuar em pé. Ela não estava no mesmo lugar da tarde anterior. A margem do lago desta vez estava vazia. Caminhou mais um pouco, o parque era realmente grande, existiam outros lugares para procura-la.
Um sorriso tímido apareceu assim que a viu próxima a ponte que enfeitava uma certa área do parque, sentada na grama brincava com um pequeno e frágil graveto.
Um barulho de passos bem semelhante ao do dia anterior ecoou por perto.
- Senta aí. - sua boca como maioria das vezes agiu sem eu consentimento. Não era do mais grave, não até o momento. O menino sorriu e se aproximou, sentou-se ao lado e o silêncio continuou. odiava o silêncio, principalmente naquelas situações.
- Quanto tempo, não? - o menino se pronunciou, apenas fechou os olhos assim que escutou sua voz. Muito tempo.
- Muito. Três anos e quarenta e três dias. - riu, completamente sem graça, ao perceber o que havia dito. Absurdamente sentimental, tão sentimental que não parecia ser ela. Chegava a ser patético, fez contas, mesmo que inconscientemente, de quantos dias já estava distante dele.
- Três anos e quarenta e quatro dias. Você não quis me ver no dia em que eu fui embora.
- Mesmo assim fui até sua casa. Vi você ir embora. - a fala da menina saiu um pouco ácida. sentiu como se uma mão feita de ferro apertasse seus pulmões e coração lentamente. Estava certo de que sua ida havia deixado danos.
A falta de sons era tão grande que ambas as respirações podiam ser escutadas.
- Erm... Posso fazer uma pergunta? - disse incerto. Abriu e fechou a boca por diversas vezes. Naquele momento não conseguia encontrar palavras que não o transformassem em um belo babaca.
- Pergunte.
- Queria saber... Você tem raiva de mim? - foi a vez de perder as palavras, já não eram muitas. Tentou encontrar novas, mas não teve sucesso, precisava de algo não a deixasse superficial.
- Raiva é muito forte. - respirou fundo. - Dizem que a gente só consegue ter raiva de quem ama. - soltou de uma só vez todo o ar que estava prendendo nos pulmões. - Talvez eu te amasse demais. - esta última parte foi dita como um sussurro, para que só ela ouvisse.
- Eu não queria ter ido.
- Eu também não quis escutar. - ambos sempre souberam o que esperar um do outro. - Desculpa. - aquele era o tipo de atitude que não se poderia esperar de . Foi mais inesperado para ele do que para ela, até aquele momento ele acreditava veemente que quem devia desculpas ali era ele. não era adepta dos pedidos de desculpas, orgulho demais.
- Eu te peço desculpas. - pela primeira vez naquele dia olharam diretamente dentro dos olhos um do outro. - Eu amadureci, agora sei de coisas que achei que nem fossem passar pela minha cabeça.
- Todos amadurecem, nem sempre no mesmo ritmo, mas amadurecem. Não esqueça que eu gosto muito de você.
- , eu também. - não queria se enrolar com as palavras. - Eu não era capaz de entender que nós dois podíamos...
- Deixa isso pra lá. - a menina sentiu os olhos arderem um pouco. Seguraria as lágrimas, fez isso por muito tempo, alguns minutos não seriam um problema. - Agora nós dois crescemos e a única coisa que eu preciso saber, por enquanto, é se você vai ficar aqui.
- Eu não vou te deixar de novo. - no fundo era aquilo que queria perguntar. Não havia recolhido coragem o suficiente para deixar sua armadura de pessoa sem sentimentos de lado. Se ele estava de volta, e ela já havia deixado que todas suas emoções viessem a tona, precisava, mais do que nunca saber se ele estaria ali para sempre. A menina sorriu de maneira doce, deixou que a cabeça ficasse sobre o ombro do garoto.
- Eu senti sua falta, . - sentiu o rosto esquentar e uma lágrima, tímida, escorreu pelo canto de seu rosto. Foi simples, simples e sutil a maneira como a mão do menino passou a alisar os cabelos dela.
- Eu também.
Naquele momento tudo parecia simples demais para quem havia sofrido tanto. Sabiam que não foi um sofrimento isolado. Foram praticamente três anos de sofrimento compartilhado, isso sim. Independente da distância derramaram as mesmas lágrimas. Mas o que se podia fazer? Era assim. Ninguém precisava de mais do que um pedido de desculpas, um daqueles bem sincero, um sorriso, daqueles que se vê além do brilho dos dentes.
- Seus pais estão aqui também? - os dois conversavam mais animados. A ponte servia de apoio para os corpos, as pedras eram jogadas, ocasionalmente, no lago coberto por folhas.
- Não, meus pais ficaram no Canadá. - o garoto respondeu pegando mais algumas pedras. - Na verdade eu vim contra a vontade deles.
- Como assim? E onde você tá morando?
- Com o . Não sei se lembra dele. Tô morando na casa dele até conseguir um lugar legal, que seja perto do colégio, que não seja muito caro, essas coisas. Coisas essenciais para quem viaja para outro continente contra a vontade dos pais. - aos poucos tudo se encaixava, a mania de fazer uma piadinha, mesmo que sem graça, aparecia tímida. - E você?
- Eu tenho minha casa. Comprada com uma parte dos fundos que meus pais criaram quando eu nasci, meus avós me ajudaram, tenho que admitir isso.
- Nada de Juliett?
- Nada de Juliett. - como se tirasse um peso de dez toneladas falava da tia. - Me livrei dela assim que fiz aniversário, não tem muito tempo, mas é uma sensação maravilhosa, acho que você não tem noção.
- Queria ser independente assim...
- Não é como se eu fosse muito independente. Meus avós pagam minhas contas e meu colégio.
- Há, estamos quase no mesmo barco então, meus pais não me deixaram na mão, apesar de tudo. - queria segurar sua língua, mas perder o medo fazia parte das metas que gostaria de atingir antes da vida adulta.
- Deixa o e vem morar comigo.
se surpreendeu. Apenas levantou o olhar e mostrou uma expressão surpresa.
- Estou falando sério. Meu apartamento é grande, é legal, tem um quarto sobrando, além disso conta com tudo o que se precisa para sobreviver.
- Não sei.
- Não é como se você pudesse recusar. Mas mesmo assim serei legal, como sempre, darei um tempo para você pensar. - o garoto apenas assentiu e voltou a observar a paisagem estática.
Há quanto tempo estavam ali?
Atirando pedras e observando as árvores sem trocar uma palavra?
Ninguém sabia ao certo. Não queriam palavras, queriam o silêncio, mas não aquele silêncio recheado de tensão como mais cedo. Bastava a presença, era uma recíproca verdadeira, bastava. decidiu que era hora de voltar para casa. Tomou um leve impulso contra a pedra.
- Promete que vai pensar no que eu disse? - perguntou tomando o caminho para fora do parque.
- Prometo, apesar de não achar necessário, eu posso achar uma casa.
- Você vai morar comigo. Não gosto de ficar sozinha. - rapidamente a expressão do menino assumiu um tom sofrido, pura culpa, arrependimento talvez. tentou se espancar mentalmente pela fala. - Não se culpe, eu sei que você não queria ter ido. Você voltou e será tudo como antes. De volta aos velhos tempos.
resolveu que acompanhar seria mais divertido. Os dois passaram pelos portões observando aqueles que saiam do trabalho rumo a suas casas, prontos para o jantar. O vento era mais gelado do que algumas horas antes. A menina não pensou duas vezes antes de apertar o casaco no corpo na esperança de que aquilo aqueceria. apenas passou seu braço sobre os ombros dela e a trouxe para perto, perto o suficiente para que o frio sumisse aos poucos.
apenas afundava o rosto, cada vez mais, no casaco do menino esperando inspirar sempre mais daquele perfume; mistura de sabonete de criança, menta e algo mais que só ele tinha.
- E afinal, onde tá morando? - ele perguntou, apertando um pouco mais o ombro da menina.
- Eu moro bem perto da escola, na Square. Dá pra ir a pé, alguma coisa como três quadras. - sorriu sozinha, em seus sonhos dos últimos anos estaria de volta, mas quem diria que seus sonhos um dia se transformariam em algo concreto. - Lembra quando éramos pequenos e você disse que quando fossemos grandes moraríamos juntos, afinal seria muito mais divertido do que adultos dizendo o que devíamos ou não fazer?
- Lembro. Está acontecendo, né? Nós dois sozinhos, nossas regras. Tenho medo disso.
- Acho que não deveria ter medo, sou uma ótima companheira de casa, ninguém nunca reclamou.
- Claro! Nunca teve ninguém morando contigo!
Eram somente alguns metros para que a entrada do condomínio da garota aparecesse. observava tudo com cuidado, as casas vizinhas, a paisagem, tudo tinha um ar familiar. Perto do condomínio as casas tinham seus jardins muito bem cuidados, algumas bicicletas próximas as garagens, roseiras que desabrochariam em alguns meses. Um casal de velhinhos, com casacos que cobriam até os pés, estava sentado em um banco de concreto embaixo de uma árvore enorme, sem folhas ou flores, culpa do outono.
- Você vai subir um pouco, né? - disse assim que chegaram a entrada do condomínio, revirou os bolsos até achar seu molho de chaves. Era estranho levantar a cabeça para que pudesse enxergar totalmente o rosto de , importante mudança essa. - Precisa conhecer sua nova casa... - disse com um olhar cheio de graça.
- Tudo bem. O que você não pede sorrindo que eu não faço...
- Sorrindo também, é claro. - ela completou antes que ele pudesse fazê-lo. Se todas as vezes que a menina fizesse caras e bocas ele cedesse fácil daquela maneira, onde as coisas iriam parar?
Os pensamentos do menino foram interrompidos assim que a mão, agora quente, de envolveu a sua o puxando para dentro da portaria.
No elevador a garota apenas apertou o número sete, que logo ficou vermelho. Após girar a chave a única coisa que se pode ouvir naquele andar foi o barulho da lingueta da porta. O apartamento era aconchegante, quente, familiar até.
- Quando eu comprei esse apartamento um quarto já estava mobiliado. Decidi ficar com o outro, gosto de fazer as coisas do meu jeito.
- Eu acho que você já sabia que eu viria.
- Desenvolvi minhas habilidades de vidente nesses últimos anos.
- Muito boa essa. - olhou o relógio no pulso. - Como eu disse que subiria rapidinho, já estou descendo, minha hora, tenho algumas coisas pra resolver.
encostou o corpo na bancada que dividia sala e cozinha.
- O que foi? - perguntou com as mãos nos bolsos de trás da calça.
- Nada. - ele respondeu. - Fazia tempo que eu não te via. Você cresceu. - aquilo soava como um pai falando com a filha. Outra coisa que odiava absurdamente, ser tratada como criança, ainda mais por . Viu o menino estender a mão para que ela segurasse. Estendeu a sua até que uma estivesse sobre a outra.
Não precisava esconder suas vontades perto dele. Naquele instante sua vontade era abraça-lo e foi o que fez. Deixou que os braços rodeassem o pescoço do menino e afundou seu rosto na curva do pescoço dele. Uma sensação quente tomou conta de seu corpo, mas nada de maldoso. Era apenas felicidade. apertou os braços em volta da cintura da menina e alguns minutos passaram.
- Amanhã a gente se vê. E eu também te dou uma resposta.
O maldito despertador estava apitando como todos os dias.
poupou a agressão diária e desligou o aparelho irritante delicadamente, algo realmente estranho. Não demorou muito a higiene matinal, um banho para despertar de vez, escovar os dentes, coisas normais. Foi somente parada em frente ao espelho que conseguiu perceber como sua expressão parecia melhor. De um dia para o outro, literalmente. Sua cabeça não pesava como antes, ele estava de volta. Tudo naquele momento girava em torno disso.
Com o uniforme devidamente vestido passou na cozinha antes de sair, forrou o estômago com apenas uma barrinha de cereais. Seus armários também não ofereciam muitas coisas, isso significava que para depois da aula ela já tinha um compromisso, compras.
Acenou discretamente com a cabeça para a o porteiro assim que fechou o portão da portaria.
Seria uma caminhada normal se não estivesse parado ali. O garoto estava encostado em um carro qualquer que ocupava uma vaga em frente ao condomínio. Julgando a maneira como estava, esperava por .
- O que você está fazendo aqui? - a menina perguntou com um tom de estranheza enfatizando o "você" e o "aqui". Aquilo não era nem de longe normal, nos poucos dois anos e meio que conhecia ele nunca havia a acompanhado até o colégio.
- Vai parecer absurdamente gay. Eu nem deveria dizer se quisesse manter a minha reputação de homem, mas eu fiquei curioso pra saber se você conseguiu chegar a alguma conclusão ontem. E hoje eu tô com vontade de ir andando com você, alguma problema?
- Problema nenhum, é até legal. - respondeu enquanto os dois começavam a curta caminhada até o colégio. - Acho que você não irá se surpreender se eu disse o que aconteceu ontem...
permaneceu em silêncio esperando que a menina continuasse.
- Eu falei com . - ela deu uma pausa e a falta de diálogo a fez continuar. - Está tudo digamos, resolvido. Ele virá morar comigo. - disse a frase com tanta convicção que era até possível acreditar que havia lhe dado uma resposta.
- Como assim morar com você? - chutava algumas pedrinhas pelo caminho enquanto tentava processar o que havia dito há pouco. - Ele acabou de chegar e vocês já resolveram isso?
- , eu nem tenho como explicar. Acontece meio que fora do meu controle. - os portões do colégio já estavam próximos.
- Reviravoltas do destino, sua vida seria um bom livro.
O terceiro tempo parecia ser o mais entediante daquele dia.
tirou os livros e suplementos do material necessários, o sinal bateria em alguns segundos e para mudar um pouco a rotina ela não estava atrasada. Fechou a porta e correu o corredor com os olhos atrás de alguma coisa que nem ela sabia dizer o que era. Só que existe um problema em procurar algo sem saber o que é, sempre se acaba encontrando o que não quer. estava numa conversa animada com Tess.
O nome da garota parecia atender ao clichê de líder de torcida e chefe do comitê de festas do colégio. Os cabelos ruivos, tingidos de maneira exagerada, pareciam pegar fogo para os olhos de quem chegasse perto demais. Tess não era flor que se cheire, qualquer um com um mínimo de inteligência sabia disso. Agora quem conseguia lembrar disso quando era posto bem em frente ao decote dela?
apenas balançou a cabeça negativamente. Era impossível concentrar a atenção em seguir para a aula enquanto parecia ser abduzido por Tess. O que formigava dentro de seu estômago naquele momento poderia ser descrito facilmente como ciúmes. Apertou o iPod entre os dedos e conseguiu mover o corpo para caminhar até sua sala de Filosofia.
- Bom dia! - alguém disse meio ofegante ao seu lado. Esse alguém era .
- Oi. - a menina sabia que não era necessário ser grossa.
- Tá tudo bem? - colocou a mão esquerda sobre o ombro direito da menina fazendo com que ela parasse de andar. Era estranho o esforço que ela fazia para não olhar nos olhos dele, sabia que ficaria claro que esta com ciúmes. Respirou fundo e forçou o tom de voz para um tom menos tenso.
- Tudo sim, desculpa. Existem coisas que você precisa ficar a par, uma dela é a minha bipolaridade. - respondeu num tom sarcástico. - Tess Smith. Ótimo começo de aulas.
- O problema é ela? - era visível a força que fazia para segurar sua risada. - Ela me chamou e eu fui ver o que era, só isso. Nada que possa despertar o seu instinto protetor.
- Convite da Festa de Boas Vindas. - disse assim que viu o papel colorido entre os dedos de .
- Sim. É nessa sexta, você vai?
- Não.
- E nem se eu te chamar pra ir comigo? - perguntou sorrindo completamente descompromissado.
- Tá aí mais uma coisa que você perdeu. Essas festas não são o tipo de programa que eu faço, ou seja, nem rola. - respondeu parada em frente a porta da sala de História, percebeu que o menino não se pronunciou sobre ir para outra sala e o encarou.
- Ah, depois a gente se vê. - antes que ele saísse e sumisse entre o monte de alunos, perguntou:
- Próximo tempo é livre? - o viu olhar para o papel já marcado pelas várias dobraduras e rir de lado.
- Não, mas isso não impede que seja. - sorriu com aquela resposta.
- Então vou te levar pra conhecer um lugar depois daqui.
O sinal bateu e logo levantou jogando as coisas que uma maneira qualquer na bolsa.
seguia em seu encalço enquanto andava rente aos armários, evitando ser vista por algum dos inspetores. Chamou o menino fazendo um sinal com a cabeça para que entrasse na escura escada de incêndio.
Empurrou a pesada porta, revelando um terraço conhecido por ela, mas não por .
- Você vem sempre aqui nos tempos livres? - a menina apenas deu de ombros, às vezes usava seu tempo livre para ficar pelo jardim.
- O único problema daqui é o vento, torna tudo mais frio. - disse apoiada no parapeito, observando as pessoas como formiguinhas. Em questão de segundos dois braços rodearam seu corpo causando-lhe alguns choques, apenas fechou os olhos e inspirou o perfume que tanto gostava.
- O frio não é mais problema. - disse com o queixo apoiado em seu ombro.
O maldito e assustador silêncio estava prestes a aparecer e tornar tudo desconfortável.
- Quer ouvir minha resposta para sua proposta? - girou o corpo ficando de frente para ele e um pouco sem-graça com a proximidade.
- Claro.
- É, eu vou morar com você.
- Sabia que não ia negar. - virou o corpo mais uma vez e abriu o sorriso. Dali para frente sua nova vida começaria.
O4
Narrado por
Girei a chave que estava acompanhada de milhões de outros chaveiros. A porta mal terminou de se abrir e eu dei de cara com uma bagunça digna de faxina. Não era aquela bagunçinha simples em que você junta as coisas, passa uma vassoura e fim. Era estranho porque eu realmente não conseguia saber como minha casa havia se transformado naquilo em apenas três ou quatro dias. Rolei os olhos e chutei a porta para que essa fechasse. Aquela bagunça não acabaria com a minha felicidade, felicidade essa que eu não sentia há muito tempo diga-se de passagem.
Pode parecer prepotente, mas eu sabia que não recusaria meu convite, não mesmo.
Deixei minha bolsa em um canto qualquer do quarto e voltei para cozinha, pensando no que era prático, rápido e poderia saciar minha fome.
Comi pensando em como limpar aquela sala. Parecia que eu estava vivendo ali, e não era bem assim.
Para o meu espanto uma vassoura, um pano e colocar as coisas no lugar certo resolveu o problema. Meu exagero pode ser evitado, essa nota mental deve ficar escrita por extenso, e bem próxima a mim de preferência. O tempo que eu havia levado, porém, deveria ser levado em conta. Provavelmente eu estava fora de forma, mas também existe uma outra possibilidade, eu nunca fui adepta das faxinas, limpezas ou coisa do tipo. Não que minha casa parecesse um chiqueiro, muito pelo contrário, era bem limpinha, mas somente graças a diarista que aparecia de vez em quando a mando dos meus avós, com toda a certeza.
O sol, que não deveria ser radiante como andava sendo, já estava bem mais calmo. Os raios não incomodavam, ou ardiam. Assim que vi todo o apartamento com as janelas abertas, lembrei de um cômodo especial. Parei em frente à porta de madeira escura onde ornamentos estavam gravados no trinco. Naquela maneira escura não era possível perceber, mas assim que alcancei as cortinas e janela e pude abrir ambos, as cores daquele lugar incomodaram minha vista. Não que o quarto fosse colorido e preenchido por cores radiantes, mas a quantidade de tons de verde era enorme. Deixei que minhas costas escorregassem na parede até que estivesse sentada no chão.
Apesar de quase vazio aquele quarto conseguia me fazer lembrar de . Na verdade maioria das coisas, por mais simples e idiotas que fossem, me fazia lembrar , em qualquer lugar, ou qualquer hora. Me intrigava um pouco a distância dos últimos anos, essa pode ter afetado muito meu conhecimento sobre as coisas bestas que faziam parte da vida dele. Eu não sei mais responder se ele ainda gosta de dar nome aos objetos que são importantes ou trazem alguma memória do passado. Também não sei se ele continua se dedicando a música como antes. Não me pergunte se ele perdeu o hábito de ouvir a mesma música, dezenas e dezenas de vezes, eu também não sei.
Por mais idiotas que pareçam, essas coisas importam para mim.
Meu quarto não ficava necessariamente de frente para o futuro quarto de , mas era praticamente de frente. Como já era de se esperar meu antro de repouso e meditação, ou só quarto, estava na mais impecável desorganização, mas isso pode ser explicado mais facilmente que a bagunça de horas antes em minha sala. Meu quarto é bagunçado de uma maneira organizada, isso significa que somente eu consigo encontrar as coisas ali.
Mal havia atirado o corpo sobre o colchão quando o telefone tocou.
Estiquei o braço de maneira preguiçosa e apalpei a mesa até achar o telefone. Meu desejo para aquele momento era dormir, quem sabe de noite dar uma volta. Levei o aparelho até a orelha e disse de maneira arrastada:
- Alô?
- Imaginei que estivesse em casa. - reconheci a voz de no mesmo instante que a primeira letra foi pronunciada. Virei o corpo, ficando de barriga para baixo.
- A que devo a honra da ligação? - perguntei com um tom de voz diferente, provavelmente fruto do sorriso besta que estava na minha boca.
- Tá a fim de sair hoje? - estava completamente desacostumada com essa maldita conexão, que poderia ser um acaso, mas eu preferia acreditar que nossas mentes estavam interligadas de alguma maneira.
- Eu estava pensando em sair mais tarde, dependendo do que você sugerir eu posso aceitar seu convite.
- Que tal Candycity? - Candycity era uma boate estranha de Londres, estranha porque tudo parecia de brinquedo, até as pessoas pareciam de brinquedo. Colorido demais, músicas animadas demais, bebidas com efeitos pra lá de estranhos, tudo contribuía para a impressão que eu tinha daquele lugar.
- Me diga o horário e eu estarei lá.
- As nove tá bom pra você? - ele perguntou e eu achei razoável.
- Pra mim está ótimo. Até mais. - depois de ele responder o mesmo desliguei o telefone.
Deixei o telefone jogado sobre a cama. Meus olhos permaneceram observando o teto. Depois de um bom e demorado banho eu pensaria no futuro daquela noite.
O relógio de parede marcava quinze para as oito, eu ainda não havia nem escolhido a roupa que usaria naquela noite. Como se esse fosse o grande problema, não havia escolhido a roupa, a maneira como usaria meu cabelo, maquiagem, droga nenhuma. Eu estava apenas de banho tomado e embrulhada em um roupão felpudo deitada sobre minha cama. Decidi levantar e abrir o armário a procura de alguma coisa que me agradasse no pouco tempo que me restava. Apenas um vestido me parecia bom, mas para usa-lo eu teria que passar frio antes de entrar na boate. Nada que fosse realmente o fim do mundo. Coloquei-o na frente do corpo e tentei todos os ângulos em frente ao espelho. Parecia ideal, o par de sapatos ficaria para depois, precisava tirar as ondas que meu cabelo costumava fazer assim que secava após o banho.
Não era com muita frequência que me maquiava, não sentia necessidade. Isso não significa que eu era digna de uma beleza grega, muito pelo contrário. Era apenas normal, às vezes até sem-graça. Isso poderia acabar comigo, mas eu confiava em mim. Uma pré-base, um pouco de pó, blush para dar cor ao meu rosto que andava precisando de alguns raios de sol. O lápis de olhos era a única coisa que estava presente em meu cotidiano, geralmente minha cara ao acordar não me permitia sair como se estive pronta para a passarela. Olhando aquele reflexo no espelho eu poderia dizer que estava bom.
Levantei pegando o vestido que estava sobre a pequena poltrona que ocupava um dos cantos do quarto. O ajeitei no corpo até que estivesse da maneira certa, não era nada muito difícil, o que me agradava era o balonê que formava depois da marcação feita logo abaixo dos seios. Coloquei os cabelos para frente dos ombros e sorri - de maneira um pouco forçada, devo admitir. O sapato de salto me fez sair com cuidado do quarto; aquele carpete que forrava o chão poderia ser mortal em certas situações.
Saltei do táxi assim que avistei uma fila considerável em frente a boate. Durante todo o caminho me deixei distrair pelas luzes que passavam rapidamente pelo vidro escuro do carro e acabei esquecendo de avisar a que estava próxima. Odiava procurar pessoas, ainda mais naquela bagunça em que se encontrava a entrada da boate.
- Por alguns minutos eu achei que tivesse preferido sua casa. - sorri assim que ouvi a voz de por perto. Ele estava bem vestido, de maneira que nunca havia visto, suas roupas não eram sofisticadas, apenas combinavam com ele, tinham total harmonia com seu corpo e jeito.
- Eu não ia furar e deixar você sozinho nesse antro de... - não terminei minha frase, não achei uma palavra boa o suficiente, apenas fiz uma careta.
- Você está bonita. - foi o que ele disse antes de pegar meu pulso e colocar uma pulseira vermelha. Apenas piscou antes de me guiar no meio de toda aquela gente.
Eu não sei dizer como passamos tão fácil pelos seguranças e toda aquela fila. Uma escada nos levou a uma espécie de mezanino.
Dali era possível ver toda a boate. As luzes que depois de alguns drinks seriam completamente desprezíveis, as pessoas dançando ao som de algo que eu não sabia dizer o que era. Também havia a parte louca da festa toda, onde garotas estavam completamente encharcadas, graças a um monte de espuma que jorrava de uma pequena fonte, localizada no meio de uma segunda pista de dança. Era por esses motivos que aquele lugar me assustava antes de eu ingerir uma dose considerável de álcool.
- Quer beber alguma coisa? - o espaço em que estávamos era bem diferente da parte inferior da boate. Sofás e mesas, um bar colorido e pessoas bem mais calmas. Eu ainda não estava achando graça naquela noite.
- O mesmo que você. - disse, deixando que ele mesmo escolhesse o que eu iria beber. Não era o tipo de coisa que eu faria com qualquer pessoa, minha desconfiança não permite isso.
Encostei com os braços cruzados, observando as pessoas dançarem na pista logo abaixo dos meus olhos. Era realmente tentadora - e quando concretizada fantástica - a sensação de se livrar de todos os problemas. Era exatamente o que aquelas pessoas faziam. Esqueciam que existe uma vida diferente e tumultuada depois daquelas portas. Certas estavam elas.
- Acho que vai gostar. - a bebida era vermelha e tinha um cheiro ótimo, uma mistura de morango com algo que eu não sabia dizer.
Bebi um gole e esperei alguns segundos. Era realmente bom. Comi a pequena cereja que enfeitava o alto do copo, depois de mais um pequeno gole eu poderia dizer que era vodka, morango e groselha talvez.
- Isso é bom. - dei meu parecer antes de voltar a observar a pista de dança.
Eu deveria estar no quarto copo daquela bebida que eu nem havia perguntado o nome. Meu rosto estava começando a parecer quente, efeitos do álcool. Coloquei a pequena taça sobre a mesa próxima e tentei manter meus pés - que mexiam no ritmo da música - discretos.
- Eu não sou o melhor dançarino, mas posso fazer esse favor. Estou vendo seus pés inquietos daqui. - sorri e agarrei seu pulso, para que chegássemos a parte inferior da boate.
Meus ouvidos não estavam incomodados com a altura da música. Algumas caixas de som, colocadas estrategicamente perto do DJ, pareciam se mexer, tamanha potência. Virei meu corpo ficando de frente para e aproximando, sem abusar de sua boa vontade, meu corpo do seu. Deixei que me abraçasse pela cintura e então passei os braços por seu pescoço, e finalmente movi meu corpo no ritmo da música.
Suas mãos se mexiam por meu corpo, mas com total pudor, como se um movimento brusco pudesse estragar tudo. Eu tinha vontade de rir disso, se fosse qualquer outra garota, ele se comportaria daquela maneira? Tenho certeza que não. Me afastei dançando mais livremente, na verdade evitando qualquer constrangimento que pudesse acabar com a tranqüilidade daquela noite.
Assim se passaram algumas músicas. Eu voltei a dançar junto a ele, mas o cuidado que ele tinha, a cautela que ela mantinha, estavam começando a me deixar incomodada. Não era como se as coisas fossem mudar da noite para o dia, mas eu realmente acreditei que não fosse necessário sublinhar que não havia mais nenhuma criança ali.
- A noite foi ótima, mas acho que já deu. - disse caminhando mais lentamente do que horas mais cedo, parcela de culpa do álcool, parcela de culpa do salto.
- Já são quase três da manhã. - olhou para o relógio um pouco atordoado. No dia seguinte eu tinha aula, e na mesma noite teria a tão esperada festa de boas vindas, patrocinada pelo time de futebol e o grupo de líderes de torcida.
- Amanhã eu só devo aparecer no terceiro tempo. - respirei fundo o ar frio que pairava do lado de fora da boate. - Preciso me recuperar.
- O mesmo serve para mim. - o táxi estava parado me esperando e eu realmente parecia enrolar para entrar no carro. Tentei me despedir normalmente, mas o impulso de abraça-lo foi mais forte. Inalei com vontade o perfume antes de soltá-lo e finalmente entrar no carro, rumo a minha casa.
Acenei com a cabeça e o vi levantar a mão discretamente fazendo o mesmo.
- Minha cara está tão amassada assim, ? - perguntei, esfregando os olhos em uma tentativa idiota de acordar algumas partes de mim que continuavam dormindo.
- Não diria amassada. Diria que você está com cara de ressaca. - ele rebateu de maneira simples.
- Isso que eu nem bebi muito ontem. - voltei a falar, a garçonete da cantina do colégio me entregou o lanche natural que eu esperava e então eu e caminhamos para a mesma mesa de sempre.
- Saindo durante a semana de aula. Produtivo. - sua piadinha irônica apenas me fez sorrir de maneira irônica, só para combinar.
- Assim que funciona a vida.
- Pronta para confraternizar com a parte acéfala de King's Ford? - tampando a boca cheia com o último pedaço de seu hambúrguer, perguntou. Apenas dei de ombros.
- Parte acéfala que você faz questão de carregar pra cima e pra baixo. Ou eu estou mentindo? - minha voz saiu num tom ácido, eu realmente não gostava de algumas amizades de , não por ciúmes, era só antipatia. Ele era legal demais para aquele tipo de gente.
- Eu apenas sei aproveitar oportunidades, . - com uma pose de quem entendia demais do assunto ele continuou. - Você deveria fazer o mesmo. É bonita, inteligente, às vezes irritante, mas podemos contornar isso, acho que deveria olhar para a quantidade de pessoas que vê potencial em você.
Aquelas palavras poderiam ter me tocado, na verdade parte delas tocou. Mas pensar que as pessoas que enxergavam algum potencial em mim, eram as mesmas que eu queria distância, não era tão agradável assim. Naquele momento de maneira tímida entrou no refeitório. A falta do terno do colégio e a camisa para fora da calça deixavam sua imagem agradavelmente descontraída. O vi acenar discretamente para a mesa onde Tess, e sua escudeira Tracie, estavam sentadas. Ignorei, ignorei e respirei fundo, arrumando a postura na cadeira e me preparando para apresenta-lo para .
Jurei ter visto um pingo de graça no olhar que lançou para mim ao perceber que estava próximo. Como sempre, meu hábito, ignorei. Antes que várias piadinhas começassem a se formar naquela cabeça cheia de sagacidade, acenei para e o vi se aproximar.
- Bom dia. - disse assim que ele aproximou-se da mesa e apoiou-se na mesma. - Esse aqui é . - fiz sinal com a cabeça para onde estava sentado com os pés sobre a cadeira à frente.
- . - disse seu próprio nome, depois de apertar a mão de em um cumprimento estranho, daqueles que apenas meninos entendem qual a força que se deve aplicar nas mãos e nos ombros.
O clima estava um pouco estranho, eu não diria pesado. Conhecendo poderia dizer que ele havia simpatizado com a cara de . Não podia ser diferente, era um cara insuportável em certos momentos, mas por muito tempo foi a única pessoa que trocou palavras comigo dentro daquela droga de escola. Já o parabenizei por ser o único que se aproximou; eu sabia muito bem o que as pessoas achavam. Até mesmo o grande amigo de , .
, a garota estranha, estudiosa, excluída e ainda por cima orfã.
Grande merda.
A conversa fluiu com um pouco de dificuldade, mas o tempo trataria disso. O sinal não demorou a tocar e logo estávamos os três indo para a aula de Literatura. Meu armário estava rodeado por grupinhos que mal sabiam o que estavam fazendo parados ali, evitei aquela aglomeração de gente e levei apenas meu caderno para a aula. Poderia passar despercebida a maneira como o grupo aspirante a Tess&Tracie olhou para mim, acompanhada de e , assim que entrei na sala, mas não. Eu percebi, e não deixei de bufar. Aquelas pessoas não faziam nada além de fofocar sobre a vida alheia, e eu sentia que a minha vida era o prato cheio para elas. Provavelmente, em alguns dias, o colégio inteiro estaria falando sobre a minha relação conjugal com os dois. Joguei o material sobre a mesa e coloquei o capuz do enorme agasalho que havia me emprestado sobre a cabeça, tirei os fones do iPod do bolso e os coloquei no ouvido.
A professora entrou na sala e com toda a certeza o barulho na sala diminuiu, mas eu não fui capaz de sentir diferença, McFearless e sua bateria viciante tocavam alto nos fones. A aula monótona como sempre, apenas me preocupei em copiar o conteúdo extenso que era passado na lousa. Enquanto escrevia de maneira qualquer, sem me preocupar com a qualidade da caligrafia, meu celular vibrou no bolso do casaco. Tirei o aparelho de lá tentando ser discreta ao ver o que era.
"Já decidiu se vai a festa hoje à noite?"
Li a mensagem enviada por . Eu estava muito relutante quanto a ir a tal festa ou não ir. Mudar não soava de maneira ruim. Era apenas arriscado para alguém que estava na mesma monotonia há anos.
"Talvez. Você vai? Novatos costumam sofrer lavagens cerebrais, cuidado."
Não pude ouvir ou ver a reação dele para a minha resposta.
"Para que isso não aconteça, o aluno novo deveria ter companhia, não acha?"
"Você é carne fresca, garotas com boa vontade não faltam. Já avaliou suas opções?"
Eu não deixava de ter razão. Pessoas naquele colégio se cansavam fácil uma das outras, mas isso não as fazia largar as amizades interessantes. Era uma troca de favores, sempre fora e continuaria sendo, para sempre.
"Não sei, talvez a Tess"
"Wow, começar com a dona da festa. Você pensa grande. Talvez se de bem com ela."
Talvez minha acidez pudesse transbordar pela tela do pequeno aparelho.
"Você sabe que é brincadeira, vai a festa comigo?"
Deveria negar que fiquei contente com aquele convite?
Para minha própria segurança, sim.
"Vou pensar. Agora pare com essas mensagens, preciso copiar o que está na lousa."
O último tempo estava começando. Mais uma vez eu estava sentada ao lado de . Estranhei não ter ouvido uma palavra sequer de sua boca em todo o caminho para o laboratório de Biologia.
- Discreto seu diálogo com o , não? - disse assim que terminamos de vestir o avental obrigatório para a entrada na aula.
- Ciúmes, ? - perguntei, achando graça naquela pergunta, e apertando as bochechas dele.
- Você não faz meu tipo, garota.
Uma missa poderia ser mais barulhenta que aquela aula. As instruções sobre o que deveria ser feito com os materiais sobre as bancadas eram ouvidas de maneira atenta por todos. Nenhum acidente terrível, até porque quem fez todos os experimentos foi , me mantive responsável pelo relatório escrito, a única coisa da qual eu tinha certeza que não sairia machucada naquela aula.
Eu não tinha vontade de almoçar.
Sextas eram dias péssimos no colégio. Não bastava nosso horário normal. As aulas do período especial ocupavam quase toda a tarde.
Sentei de maneira largada, graças ao cansaço, na cadeira e mordi a maça que estava guardada em minha bolsa até aquela hora. parecia preocupado com nada, seu olhar vazio demonstrava isso. Já , de cotovelos apoiados sobre a mesa, olhava de maneira atenta para um único ponto naquele enorme pátio. Assim que meus olhos seguiram para o ponto que atraía tanto sua atenção, uma espécie de ânsia subiu a minha garganta.
- Tess. O que ela tem demais? - perguntei mais para mim do que para qualquer um dos dois daquela mesa.
- Hã? - acordou de seu transe, e depois percebeu que eu falava de Tess. - Boa pergunta, não sei bem o que ela tem. Algo que chama atenção.
- Garotos têm a atenção chamada por qualquer coisa. - aquilo era definitivo. Mordi a maçã de maneira violenta e vi que havia mudado sua ocupação, agora era muito mais interessante manter a tampa da garrafa girando entre os dedos.
- Já decidiu se vai a festa comigo? - perguntou. O olhar de que lançara possuía um certo brilho malicioso, e ele não conseguia esconder como se esforçava para segurar a risada.
- Se eu disser que sim, você para de me infortunar com essa festa? - perguntei num ritmo acelerado, isso porque eu tinha mais coisas para falar, por exemplo como aquela festa era insignificante e servia apenas para que uns se exibissem para os outros mostrando tudo o que tem.
- Vou.
- Ok, então eu vou com você. - disse acabando com aquele impasse. Levantei da mesa, arrumei o uniforme e saí com apenas um aceno. Mas não deixei de ouvir.
- Ela não muda.
- Pois é, boa sorte.
O5
Era a segunda vez em menos de dois dias que a garota encontrava-se parada em frente ao guarda-roupa completamente confusa, sem saber o que vestir. Nunca havia sentido falta de confiança. Parecia até uma falta de afirmação. Era apenas uma festa fútil, na qual não gostaria de estar vale a ressalva, mas já que estava indo, se comportaria como sempre fizera.
Os cachos que seu cabelo formava ao chegar nas pontas estavam bonitos, tão bonitos a ponto da garota apenas jogá-los para trás. Deixou as bochechas com um tom mais natural e passou o lápis de olhos para que esses ficassem marcados e escuros. Tirou o roupão assim que, finalmente, escolheu a roupa que vestiria, uma skinny de lavagem não tão escura, acompanha por uma regata branca e um sapato de salto alto. A noite não estava fria, logo deixou o pequeno blazer sobre a cama e apenas colocou o celular no bolso de trás da calça.
Antes que saísse do quarto sentiu-se obrigada a voltar a frente do espelho. Talvez aquilo bastasse aos olhos da classe popular de King's Ford.
Escutou a campainha tocar duas vezes, antes de abrir a porta mirou-se no espelho do hall e ficou satisfeita com o que via. Em apenas alguns minutos havia observado seu reflexo mais vezes do que em um dia inteiro. Não deixaria de dizer que aquilo não passava de precaução. Insegurança é para os fracos. Mal ela sabia quem eram os fracos da história.
Assim que abriu a porta sentiu sua saliva descer pela garganta de maneira incomoda, era quase como engolir seco. estava mais bonito que o normal, a camisa pólo branca, por cima desta um suéter listrado, calças que diferentemente do dia-a-dia estavam caindo, um tênis surrado para acabar com a seriedade daquela roupa. Parado com uma mão sobre o batente da porta, e outra no bolso da frente de sua calça, esperava de maneira descompromissada. Abriu um sorriso contagiante e despreocupado, que logo contagiou a menina que seguiu seu exemplo e sorriu abertamente - coisa que não era comum de se ver. Inúmeras vezes o garoto levou a mão aos cabelos os arrumando de maneira bagunçada, e extremamente atraente.
O caminho feito de táxi não demorou muito, foram alguns minutos que passou distraída com a paisagem que passava rapidamente pelo vidro. A veículo parou próximo a casa de Tess, já que era impossível um carro estacionar próximo a entrada da casa da garota. Vários rostos, conhecidos ou não transitavam pela calçada. Alguns já trançavam as pernas, outras ainda tentavam manter o controle.
- Não será tão difícil assim, bebida de graça. - foi o que disse antes de descer do táxi e ter seus ouvidos invadidos pelo som alto que vinha de dentro da casa e de fora também. Deu risada ao dar de cara com a expressão hesitante do rosto de .
Tudo carregava um tom diferente. O jardim bem cuidado, com esculturas de arbustos, bancos, pequenas fontes, lembrava em muito um cenário de filmes. As portas pesadas de madeira estavam abertas e nada era possível de se enxergar. Bem perto, pode reconhecer os acordes de Somebody Told Me. O cheiro de cigarro, álcool e outras coisas que nenhum pai ali gostaria de saber, impregnava o lugar.
- . Não esperava te ver aqui. - voltou a sentir a bile subir-lhe a boca quando a voz de Tess ecoou perto de seus ouvidos. - Você, novato. Escolha certa em aparecer, aposto que não vai se arrepender. - jurou ter escutado um tom de indecência por trás daquelas palavras, apenas ficou por rolar os olhos e entrar na casa.
ainda dava atenção as perversidades de Tess quando percebeu que já não estava mais ao seu lado. Olhou para os lados deixando a mente completamente distante da voz estridente da garota a sua frente e não a encontrou. Sem que ele visse, deixou a conversa idiota de Tess por ali e entrou na casa sendo quase expulsa pelo cheiro incômodo de maconha. Atravessou a sala observando algumas pessoas dançarem, mas essas dançavam como se aquela fosse a última festa de suas vidas. Sabia bem que não dançavam porque tinham uma vontade tão grande assim, era apenas mais um efeito do álcool, perder completamente a noção da intensidade de suas vontades.
O primeiro cômodo, que não parecia fazer parte da mesma casa, que achou foi a cozinha. Essa quase vazia, e ainda limpa. Abriu a geladeira a procura de alguma bebida que pudesse forrar sua garganta e a fazer esquecer que aquele lugar não a agradava tanto assim. Tirou uma garrafa de Heineken de dentro da geladeira e fechou a porta com o pé, aquela não era sua bebida favorita, mas serviria.
Não sabia dizer ao certo em que garrafa estava, o vento que de vez em quando batia em seus cabelos era agradável, desde que deixara conversando com Tess não vira mais o menino, isso já fazia tempo. A pequena grade onde estava encostada dava-lhe uma visão completa de todo o jardim, inclusive da piscina onde pessoas pulavam de roupa e com copos descartáveis nas mãos.
- Sozinha? - a voz de soou próxima a seu ouvido. - E por que me deixou sozinho ouvindo Tess e aquela conversa chata?
- Aposto que a conversa não estava tão ruim assim. - rolou os olhos e voltou a observar as casas distantes daquela. - Sozinha, talvez seja por isso que não vejo graça alguma nessas festas.
- Vem comigo. - olhou para a mão do garoto estendida e tentou fazer silenciar o conflito que estava acontecendo dentro de sua cabeça. Sabia bem que poderia confiar nele, poderia segurar sua mão e ir pra onde quer que fosse, mas nada poderia ser seguro com sentimentos tomando cada vez mais controle.
Se deixasse suas preocupações de lado, nem que por uma noite somente?
Talvez a vida não fosse tão sem graça.
Colocou sua mão sobre a mão do menino e deixou que ele a puxasse levando-a para dentro da casa. Sabia que perto dele estaria segura independente do lugar ou situação, não precisaria se controlar, nem raciocinar, os passos calculados não seriam necessários. Era hora de deixar o fluxo normal tomar conta dela.
- Sabe dançar, não sabe? - o garoto perguntou assim que os dois chegaram ao centro da sala onde várias pessoas dançavam, sorriu e não respondeu. Se perguntassem qual a música que tocava no momento não saberia responder. O momento ia além da música, o barulho era alto, apenas uma batida era clara, e era essa que seguiam.
tomou o último gole de sua garrafa e a deixou em algum lugar próximo, sorriu e puxou a menina para mais perto, colocando as duas mãos em sua cintura. não sabia dizer se o sorriso era bobo ou bêbado, apenas gostava daquilo, era bom estar ali, daquele jeito, mantinha convicta a decisão de manter-se despreocupada por uma só noite. Esqueceria as decisões presentes com medo do futuro, o futuro era incerto e não somente para ela, para todos. Poderia construir sua história com bem quisesse, bastava acertar os passos.
Já haviam alternado a bebida e a dança por várias vezes, os corpos cansados apenas pediam por um lugar macio para descansar.
- Eu 'tô cansada, .
- Tudo bem, eu também quero ir pra casa. - os dois saíram da casa sem se despedir de , era difícil, afinal ele estava atracado a uma garota qualquer.
O táxi andava lentamente, as ruas estavam desertas e parecia passar das duas e meia da manhã. encostou a cabeça no vidro gelado, vendo sua respiração embaçar o vidro, alguns efeitos de tanta bebida começavam a tomar conta de seu corpo. Todos os reflexos estavam desaparecidos. O veículo parou em frente a entrada de seu condomínio, fez menção de pegar algumas notas que ainda tinha no bolso para pagar a corrida, mas não permitiu. Deu de ombros e desceu do carro. Mantinha os passos lentos para que nenhum acidente acontecesse, mas isso foi esquecido assim que contou alguma piada estúpida, sem graça alguma, mas que fez os dois rirem escandalosamente enquanto caminhavam até o edifício certo.
O hall mais quente que o lado de fora do prédio era também mais acolhedor. A menina arfava com uma mão sobra a barriga que doía de tanto rir, com a cabeça apoiada sobre o ombro de observou o visor sobre o alto do elevador indicar que poderia subir. Apertou o botão do sétimo andar antes de ser puxada e sentir os braços dele a envolveram em um abraço desajeitado.
Destrancou a porta e entrou no apartamento rindo novamente, dessa vez por nada, e ainda mais alto. continuava ali, em um meio abraço, acompanhando o riso da garota. jogou a chave sobre a mesa e respirou fundo, colocou o dedo próximo ao rosto e disse:
- Banho e depois cama. - como se fosse uma criança, ainda rindo.
- Fica aqui. - disse. Sentiu suas pernas, aos poucos, voltarem a se movimentar, e só pararem quando suas costas tocaram o móvel mais próximo.
- Não vai sentir minha falta, preciso de um banho.
- Já disse, fica aqui. - pendeu o corpo para frente, com cuidado, e encostou o nariz em sua bochecha. De tão próximas as duas respirações poderiam misturar-se e não era diferente do que acontecia com o calor que emanava de ambos os rostos. viu os olhos de se fecharem e sua boca estar próxima como nunca antes. Com um simples e pequeno movimento poderia tocar a boca que sempre foi-lhe convidativa. Sem dar tempo para que seu cérebro agisse, e a fizesse pensar se deveria ou não, deslizou as mãos até os ombros do garoto deixando tudo mais próximo do que o possível, para acabar com aquela pequena, mas tortuosa distância.
Viu os olhos de se abrirem e um olhar hesitante encarou o seu. Prendeu o lábio inferior entre os dentes e deixou que sua cabeça encostasse no peito do menino.
Não sentia raiva, sabia que havia deixado a emoção tomar conta de seus atos. Como não deveria ter deixado.
- Ainda sou a mesma criança, não é? - não conseguiu deixar a pergunta presa no fundo de sua garganta, sabia bem que ele ainda a enxergava como uma criança, aquela com quem fora criado, sua irmã, sua melhor amiga. Aquilo sim a irritava.
Em um impulso saiu do espaço que ocupava entre a estante e o corpo de . Caminhou até seu quarto sem olhar para trás e jogou os sapatos em um canto qualquer. Parou em frente ao espelho e observou seu reflexo, agora mais cansado do que antes. Tirou o aparelho celular e algumas libras do bolso e colocou sobre a pia, abriu a porta de vidro de seu box e girou o registro. A água caia de maneira violenta e batia forte contra sua pele, o corpo ainda coberto pelas roupas escorregou até que se sentasse e deixasse escorrer tudo de si junto com a água que descia pelo ralo.
deixou o apartamento sentindo-se mais sóbrio. Caminhava pelas ruas de iluminação fraca, com as mãos no bolso e pensamentos preenchendo qualquer espaço livre de sua cabeça. No primeiro dia de aula a visão que ainda guardava dela fora substituída por outra, uma que nunca imaginara possível. Essa não era confortável, fazia suas pernas perderem o equilíbrio normal, suas mãos suarem, seu corpo formigar, seu estômago dar voltas. Tudo estava prestes a mudar.
Flashback - 5 anos atrás
- Isso é injusto, nós temos a mesma idade . Porque você pode beijar alguém e eu não? – a menina perguntava revoltada depois de saber que havia beijado Alice, uma menina da mesma sala que os dois, que por sinal não era sua colega, muito menos amiga, e o pior foi saber que só fora informada daquilo naquele momento.
- para de infantilidade. Parece criança! – ele respirava fundo, enquanto os dedos apertavam as têmporas, um gesto que via seu pai fazer com frequência. Não sabia como explicar que não a deixaria beijar qualquer garoto, pois sabia que um panaca qualquer acabaria se aproveitando dela. – Você é uma menina, vão se aproveitar de você!
- Ah! Lógico, meninos se aproveitam de meninas, então você se aproveitou da Alice? Huh, o que me diz agora? – ela estava de braços cruzados e encarava o menino esperando uma resposta. Ele por sua vez procurava uma resposta decente o suficiente.
- Eu não vou discutir com você!
- E se eu dissesse que quero um beijo seu, iria ser como os outros meninos, iria se aproveitar de mim? – o menino ficou estático com a fala da menina, não imaginava que ela fosse capaz de falar uma coisa daquelas. A petulância em sua voz era proposital, a raiva era descontada naquelas palavras.
A proximidade dos dois fazia a menina tremer um pouco, mas mesmo assim mantinha o olhar confiante, queria e conseguiria uma resposta.
O conflito dentro da cabeça de acabou no instante em que decidiu que faria a menina se calar. Aproximou-se rapidamente, de uma maneira tão rápida que chegou a ser brusca, segurou seu rosto entre as mãos e juntou as bocas rapidamente, e mais rápido ainda distanciou-se. Segurou seu sorriso ao ver que a expressão de arrogância havia sido trocada por um rosto surpreso.sa.
- você é... - soltou um grunhido ao invés de terminar a frase. Deixou o menino sozinho dando-lhe as costas.
End of flashback
sabia que conseguiria dormir tranquilo, por enquanto. Sua cabeça parecia ter sido dividida em dois lados, e esses dois conflitavam fervorosamente. Desde quando a menina despertava aquelas sensações nele? Queria poder explicar pra si mesmo o que estava acontecendo, mas não sabia como. Em pouco tempo estaria mais próximo dela que o normal, debaixo do mesmo teto, precisava estar com a cabeça em ordem antes disso.
I think we have an emergency
It’s really not your fault
When no one cares to talk about it
Can we talk about it?
abriu a porta de casa deixando para trás o ar gelado que o acompanhara desde a saída da casa de .
Percebeu que ainda não estava em casa, o amigo avisou que saíria e não sabia a que horas estaria de volta. Aquela liberdade de morar com alguém da mesma idade era agradável, na casa dos pais não poderia fazer o mesmo. Subiu as escadas arrastando o corpo cansado, implorava por uma cama, mas também precisava de um banho. Foi direto para se banheiro e alguns minutos depois já andava pelo quarto com uma toalha enrolada na cintura e com outra secava os cabelos. Vestiu sua boxer e uma bermuda qualquer antes de descer novamente, durante a ducha seu estômago pareceu protestar por comida. A única coisa que encontrou ao abrir a geladeira foi um daqueles sanduíches de microondas, ligou o aparelho e esperou os dois minutos que a embalagem indicava.
Sentou-se à mesa e mastigou o hámburguer que mais parecia borracha, controlou a vontade de cuspir na lata de lixo próxima, e forrou o estômago com aquilo. Seu olhar, por outro lado, continuava fixo em algum ponto perdido daquela cozinha. Não sabia ao certo o que acontecia em sua cabeça, apenas sentia uma confusão formando-se. Desde o dia em que foi embora, esperou impacientemente para voltar, aquela distância era tortuosa, mas nada material o prendia a cidade natal - nem mesmo o fato de ser sua cidade natal. O que o prendia ali tinha nome e definição. Parte vital. Aquela que nunca fora mais bonita que as outras, mas que era engraça, companheira, compreensiva, amorosa e o mais importante, amiga.
Mas e naquele momento? O que ela era?
Do sanduíche só restavam os farelos. O menino colocou a cabeça entre as mãos e tentou organizar seus pensamentos. Não era bom aceitar que as coisas mudavam a ponto de parecer-lhe uma opção de garota, antes de tudo ela era como uma irmã. Escutou o barulho de chaves e deixou os pensamentos de lado por um instante.
- Já chegou? - perguntou assim que entrou na cozinha. - Imaginei que fosse voltar só amanhã, pô, era sua primeira festa de volta ao King's! - aquela animação toda não contagiou , que continuava sentindo-se estranho. - Ei, 'tá acontecendo alguma coisa? - indagou novamente, jogando as chaves em um canto qualquer. - Quer conversar?
- Pode ser. - respondeu relutante.
- Explica o que houve?
- É - o garoto respirou fundo, tentando também encontrar alguma maneira de começar. - Você sabe que eu e a éramos muito próximos, não? - o amigo assentiu e ele sentiu que poderia continuar. - Quer dizer, mesmo depois de tudo estamos voltando ao normal. O problema é que eu 'tô meio confuso, não sei. Hoje a gente foi juntos pra festa da Tess, e depois de um tempo, e bebida, e animação, eu senti vontade de beijá-la.
- E desde quando isso é necessariamente um problema? - interrompeu com uma careta abismada, poderia ser engraçado, mas no momento não conseguia achar graça em nada.
- O problema é que ela é ela. A . - respondeu tentando dar ênfase ao nome.
- E ela é uma menina, até onde sabemos. - recebeu um olhar de repreensão graças ao tom de ironia que usou. - Cara, chega. Vamos conversar como dois homens, como somos. A não ser que queira me dizer que é gay, mas acredito que isso não vai acontecer. Que tal parar com essa lenga de "Oh, frágil, minha irmãzinha".
- Estamos falando dela, não de qualquer uma.
- Porra, eu sei que não é qualquer uma, mas isso não a torna um alien ou uma virgem do paraíso. Qual o problema em querer ficar com ela, ter vontade de beijá-la, vocês não estão mais no jardim de infância, .
- Eu nunca senti vontade. - escutar aquilo tudo vindo de fez a idéia parecer um pouco mais aceitável, mas não totalmente.
- Pra tudo existe uma primeira vez.
Parecia não existir argumentos suficientes.
- Uma pergunta. - começou. - Quem não quis? Você ou ela?
- Eu.
- Puta merda, você gay. - lamentou antes de levantar da mesa e subir as escadas.
O6
Ligar ou não ligar. Ligar ou não ligar. Ligar ou não ligar. Ligar.
Não sabia nem quanto tempo fazia que não sentia aquela sensação estranha. Aquela expectativa boba, sempre que brigava com quase morria de ansiedade no momento em que decidia ligar para se explicar, ou pedir explicações. Adorava lembrar como tudo sempre acabava bem.
- Alô? - escutou a voz lenta e rouca de quem havia acabado de acordar do outro lado da linha.
- Acho que te acordei, bom, depois eu ligo. - disse com um certo charme na voz, até cogitou a idéia de ele estar dormindo, mas mesmo assim resolveu ligar.
- ? - perguntou assim que despertou por completo. Pensou que depois da noite anterior teria ele mesmo que ligar para amenizar o clima pesado que se instalara. - Não, eu já acordei.
- Na verdade eu te acordei, mas tudo bem. Erm, eu liguei pra pedir desculpas, fui meio grossa e infantil. - era absurdamente estranho pedir desculpas, aquele tipo de coisa que não se está acostumado a fazer sempre parece errado na primeira vez.
- Não, você não fez nada, eu que fui bêbado e meio gay. - a menina apenas soltou um riso tímido do outro lado da linha. Você ligou só pra pedir desculpas? - perguntou na expectativa de saber se ela lembrava que naquela tarde ele mudaria para sua casa.
- Não, na verdade queria saber que horas você vêm.
- E então, conseguiu guardar todas aquelas roupas? - estava realmente assustada com a quantidade de roupas que tinha, o guarda roupa do menino arriscava ser maior que o seu.
- Já! Tudo no devido lugar. - ele jogou o corpo sobre o sofá caindo ao lado dela. - Assistindo o que? - quase saltou do sofá ao ouvir a pergunta, suas bochechas assumiram um tom vermelho somente de pensar na possibilidade de ter percebido que seus olhos estavam presos a camiseta branca um pouco justa do menino.
- Erm, não sei. - respondeu, precisava sair dali o mais rápido, o calor de seu rosto indicava que o rubor de seu rosto ainda não havia passado. - 'Tá com fome?
- Um pouco, quer ajuda?
- Não precisa. - saiu em disparada pegando todos os ingredientes para o bom e velho hámburguer, mesmo ela negando a ajuda, lá estava pegando os igredientes restantes. Pouco tempo depois estava pronto e o necessário era apenas catchup e mostarda. Sentou a mesa com a apetitosa e saudável janta a sua frente, percebeu que não estava mais ali, virou e deu de cara com um dedo cheio de catchup em seu nariz. Foi instantâneo, o biquinho que sempre fazia quando estava brava tomou conta de sua boca e dava sua discreta risada que não havia mudado com o tempo. Como duas crianças logo estavam com os potes de molho apontados um pro outro, encarando o oponente. Brincadeiras infantis que não mudavam com o tempo.
- Porra, ! 'Tô toda suja, olha isso! Vou ter que tomar outro banho.
- Senta aí, menina. Come e depois toma outro banho, qual o problema? - e assim, sujos, os dois sentaram a mesa e terminaram de comer.
Depois de deixar a mesa emburrada, batendo o pé, tomou um outro banho, dessa vez mais rápido, trocou de roupa e voltou a sala.
- Até parece que foi sacrifício tomar outro banho. - brincou, de banho tomado, sentado ao lado da menina no sofá.
- Continua besta com sempre, não é?
- Continuo, e você gosta.
Instaneamente um silêncio tomou conta da sala e a única voz que se escutava era a de algum Vj que apresentava a para de clipes na televisão.
- As coisas estão acontecendo rápido demais?
- Que coisas?
- Oras, eu acabei de voltar de outro país, passei três anos fora e achei que nunca mais fosse falar comigo. Agora? Olha isso, eu estou morando na sua casa.
- Agora é nossa casa. Não acredito que achou possível eu não voltar a falar com você. De verdade.
O garoto apenas puxou a menina fazendo com que a mesma deitasse a cabeça em seu ombro, colocou os dedos entre as mechas de cabelo dela que ainda estava úmido. Sabia que desde pequena não aguentava acordada assim que mexiam em seu cabelo.
- Eu vou dormir. - ela disse.
- Dorme, ué. - sentiu a menina acomodar-se, arrumando o corpo ao lado do seu, continuou com a mão em seu cabelo.
Minutos depois percebeu que já estava dormindo, sorriu tirando alguns fios que teimavam em cair sobre seu rosto. Levantou do sofá fazend esforço para não acorda-la, passou um bracço por baixo da articulação do joelho e o outro envolveu a parte de cima do tronco.
- Realmente você cresceu.
Caminhou com cuidado e com a menina no colo até chegar ao quarto dela. Empurrou a porta com o pé indo em direção a cama da menina. Colocou sobre o edredom roxo e a viu resmungar, sorriu como andava fazendo em excesso nas últimas horas, abaixou o rosto até que os lábios pudessem tocar o rosto dela.
- Boa noite, .
acordou e percebeu que estava em sua cama e coberta por seu edredom roxo, não lembrava de ter ido dormir no quarto na noite anterior. Deu ombros e se preocupou com o despertador que continuava a tocar, desligou o mesmo e foi direto para o banho.
Saiu do quarto já vestida com o uniforme e pegou a bolsa que estava em cima da cadeira de seu quarto. Sentiu um cheiro de comida na cozinha, coisa que não era comum às sete da manhã por ali. Colocou a bolsa sobre a bancada e encostou a lateral do corpo na parede. Aqela visão não era rotineira, mas era a melhor que poderia ter àquela hora da manhã. estava de costas, vestia apenas a calça do uniforme - para variar fora do lugar -, um par de meias e o cabelo ainda pingava do banho. sorriu e entrou de vez na cozinha, seguindo o cheiro que fazia seu estômago roncar.
- Olha só, desenvolveu dotes culinários? - perguntou, sentando sobre a pia bem ao lado do menino que tomava o máximo de cuidado com as panquecas que fazia.
- Eu tenho dotes, e não são culinários. - o viu segurar o riso e apenas rolou os olhos em tom de desprezo.
- Você não vai mal por ficar cabulando aula? - perguntou assim que chegou ao último andar do prédio, havia procurado a garota por todo o colégio e nada, concluiu que estaria lá.
- Não, os professores gostam de mim.
Ambos permaneceram quietos, o dia não estava frio como sempre. O sol era tímido entre as nuvens, queria aparecer, não conseguia, mas os raos ali existentes eram suficientes para aquecer um pouco.
- Como era no Canadá? - quase se assustou ao ouvir a voz da menina que estava quieta.
- Era bom, em partes.
- Partes?
- Era frio, me fazia lembrar daqui. A escola era fácil, eu podia sair quando bem quisesse, as meninas gostavam de mim, os meninos eram bons colegas.
- Meninas dando em cima de você? Você mesmo dizia que elas corriam de você.
- Acho que melhorei um pouco.
- Namorou com alguma delas? - a menina perguntou, conseguia sentir um pingo de ciúmes em sua voz.
- Erm, sim. - sentiu a hesitação na resposta dele.
- E foi legal?
- Não.
- Por que?
- Elas não eram tão legais. - a verdade é que durante todo o tempo não conseguia corresponder. Taylor gostava muito mais dele, do que ele dela. Isso não poderia funcionar.
Era sexta feira, saiu do colégio junto com mas este havia ficado no shopping e ela seguiu sozinha para casa, estava ali deitada em sua cama há horas sem pensar em nada, momentos de mente vazia, isso acontece com todos. Entregou na tarde anterior uma cópia da chave para , logo não se assustou com o barulho da porta da sala sendo aberta.
- ? Você 'tá aí? – escutou a voz do menino a chamar e resolveu espantar aquela preguiça que praticamente a engolia.
- Aqui no quarto! – caminhou até o espelho debruçando-se na penteadeira e observando o rosto, aquilo visto de longe parecia um bocado narcisista. Mas não era atrás de beleza que a menina estava, ela gostava de si, estava atrás de mudanças. Sabia que não podia contar nos dedos as várias que havia sofrido nos últimos tempos, o cabelo agora era bem mais escuro, na frente o repicado batia na altura do seio e nas costas ia até sua cintura, virou adepta do lápis marcante nos olhos, sem eles se sentia nua. Também tinha feito uma tatuagem, riu sozinha imaginando a reação dos pais se vissem a menina daquela maneira.
Quando pequena andava como um repolho, cheia de fitas, presilhas e brilhos. Com Milla, sua boneca inseparável.
- Não se preocupe, 'tá linda. – sentiu um calor instantâneo na maçã do rosto, virou o corpo e lá estava a razão de tudo, encostado no batente da porta de seu quarto com os braços cruzados na altura do peito. – Não precisa ficar com vergonha, foi um elogio.
- Obrigada. – voltou o corpo para frente do espelho e esperou o rubor de seu rosto desaparecer. – Você devia lembrar que eu fico sem graça com elogios.
- Achei que isso também tivesse mudado. – agora a voz estava mais próxima, pelo espelho viu que ele estava escorado no armário.
- Com o tempo você se acostuma, e também acha as mudanças. – a menina abriu a porta do armário à procura de uma roupa que pudesse usar a noite.
Bateu a porta logo depois não iria conseguir achar uma roupa, não com ali.
- Você não tem mais nada pra fazer, além de ficar me encarando? – perguntou já sentindo que ia começar a rir.
- Na verdade não.
- Argh! Que saco eu odeio quando ficam me olhando! – o menino fez uma cara de assustado, mas logo começou a rir.
- Tudo bem, você vai se acostumar. – piscou e saiu porta afora deixando a menina estática olhando para o mesmo lugar onde ele estava há pouco tempo.
Os dois entraram no Pub que estava escuro, uma luz vermelha era forte no lugar. chegou a conclusão de que eles queriam reproduzir o... Inferno? Continuou andando agora sendo conduzida por , já havia sumido com Megan, garota do segundo ano, simpática até.
falava no telefone provavelmente com , esse disse que os encontraria lá. Finalmente um espaço livre no meio de todas aquelas pessoas. e sentaram no sofá redondo e vermelho berrante, no centro havia uma pequena mesa de vinil, o lugar era escuro por estar em um canto ainda mais afastado de todos.
Não muito tempo depois apareceu.
- Cara que lugar cheio! Achei que não fosse encontrar vocês! – o menino respirava apressadamente. Cumprimentou e logo depois deu um beijo na bochecha de . – Esse lugar é literalmente um inferno. – os dois riram e continuaram a observar as pessoas dançando.
- Eu vou pegar cerveja, alguém mais quer algo? – perguntou, na mesa agora estavam todos , Megan, e .
- Me traz um Blood Mary, por favor, ? – disse recebendo um olhar assustado de , viu virar os olhos.
- Blood Mary não é muito forte pra você não? – perguntou e somente negou.
A mesa estava cheia de garrafas e taças, ninguém sabia responder quantas doses todos já tinham tomado. se atracava com Megan sem nem ligar para a presença dos outros. olhou para eles, para a pista, para eles novamente.
- Ok, eu não vou ficar sozinho. – levantou indo em direção a uma menina que estava perto do bar.
- Sobramos, pra variar. – disse.
- Quer dançar?
O dia amanheceu nublado, nos dois quartos os dois se encontravam enrolados em edredons dormindo calmamente. Era sábado e ninguém teria nada pra fazer, abriu lentamente os olhos e viu que a cortina do quarto estava aberta, lembrou que não havia fechado na noite anterior, o clarão que vinha de fora não era de sol. Era de um tempo branco, as nuvens não eram carregadas de chuva, mas cobriam o céu azul, deixando Londres branca.
Colocou o edredom de lado, jogando as pernas para fora da cama, a dor de cabeça não era forte, ainda não precisava de um remédio. Saiu do quarto e viu a porta do quarto de à frente, aos poucos colocou a cabeça pra dentro do quarto. Escorou o corpo na porta, esta não estava totalmente aberta. A menina tinha alguns fios do cabelo sobre o rosto, seu peito subia e descia conforme o ritmo da respiração, naquele momento teve plena certeza de que tinha feito a escolha certa ao voltar. Encostou a porta e foi para a cozinha.
- Bom dia. – a menina disse quando entrou na cozinha, estava sentado à mesa com um copo de leite e um sanduíche.
- Bom dia. – o menino respondeu ainda olhando para o nada. – Tem alguma coisa pra gente fazer hoje?
- Hum, num sábado, acho que nada, . – a menina respondeu puxando uma cadeira da mesa e sentando com as torradas e o leite. O silêncio continuou, os dois já haviam terminado o café e colocava os pratos e xícaras na pia. Passou por lhe dando um tapinha leve na cabeça.
- Ei garota! Eu 'tô de ressaca. – disse colocando a mão na cabeça.
- Aprende a beber. – ouviu a voz da menina distante.
O ano letivo caminhava de maneira tranqüila, na verdade eram poucos os que se preocupavam com o colégio, o próximo ano seria a faculdade e ninguém ligava pra isso.
Os dois estavam no sofá, ainda de pijamas, chovia, e na TV passava Um Lugar Chamado Nothing Hill, estava encostada no braço do sofá, do lado oposto do sofá não prestava a mínima atenção no filme.
Por diversas vezes viu a menina enxugar simples lágrimas que caiam com qualquer ação do protagonista. Ria disso, como meninas conseguiam chorar tão facilmente com coisas como aquela?
No caso de era mais fácil vê-la chorar com um filme do que com qualquer outra coisa.
O filme estava nos minutos finais, e não muito tempo depois estava nos créditos. aos olhos de , um insensível, já tinha dormido.
- Acorda, ! – o menino sentiu alguém chuta-lo, não um chute forte. – Acorda!
- Hum...
- Acorda! – falava aumentando o volume da voz aos poucos. – ACORDA!
- Que foi, ? – levantou o tronco, mas não abriu os olhos, os mantinha fechados com força, apenas resmungando, odiava ser acordado aos berros.
- Não dorme.
- Eu 'tô com sono.
- Mas se você dormir eu não vou ter com quem conversar. – a menina mantinha o rosto apoiado nos joelhos que abraçava, e balançava junto com o resto do corpo.
- Ok. – o menino disse abrindo os olhos e os esfregando. – Estou acordado, pra te dar atenção. – acabou sorrindo e assim passaram o resto da noite conversando, cercados de pipocas e caixas de DVD.
O7
O sinal da quinta aula havia batido há pouco. e conversavam e ao mesmo tempo tentavam desviar de todas aquelas pessoas que trafegavam no corredor abarrotado. Apenas com o olhar a garota procurava por algum sinal de , que não estava no lugar de costume no horário de entrada.
- Minha aula é Geografia, te vejo no almoço. - se despediu com um beijo na testa de . Aquela era uma das poucas aulas em que não estavam juntos. Viu aos poucos o menino se afastar e sumir no meio dos colegiais barulhentos e apressados.
- , desgraçado. Falta e nem pra avisar. - disse para si mesma enquanto arrumava a mochila nos ombros, tomou o rumo para a sala de Álgebra, entrou e como sempre ocupou a última carteira.
Todos já ocupavam seus lugares, o professor preparava o material sentado em sua cadeira. apenas pegou seu material e guardou os fones de ouvido, apesar de ouvir música na maioria das aulas existiam aquelas em que era impossível prestar atenção e cantar. Com atenção circulava os exercícios que deveriam ser feitos, porém alguém ao seu lado desviou sua atenção.
- Desculpe, todas as mesas estão ocupadas. Se importa se eu sentar aqui? - pronunciou a garota que estava parada, hesitante, em frente ao lugar vago bem ao lado de . Ruiva de cabelos longos e repicados, olhos grandes que davam a impressão de sempre estarem pedindo alguma coisa, o uniforme arrumado de maneira impecável. - Prazer, sou Haylie. - disse seu nome enquanto ainda balançava o corpo, segurando os livros junto ao peito.
- Oi. - respondeu um pouco anestesiada, hesitante, não era normal alguém dirigir a palavra, ainda mais para sentar ao seu lado. Se não havia lugar, era mais aceitável - e comum - trazer uma carteira de outra sala, mas nunca sentar ao lado de . - Pode sentar, erm, Haylie.
Nunca teve problemas para falar, podia até ser bem articulada quando queria, o problema era quanto era pega de surpresa. Gostava de pensar o quanto era astuta, mas em certos aspectos deixava a desejar, esse era um deles. Não estava acostumada a conversar com qualquer pessoas que fosse diferente de e no momento. Mas forçou seu lado social e tentou ser o mais simpática possível, rezando para que não soasse falso.
- Valeu. - a menina mantinha um sorriso animado nos lábios e isso era de certa forma contagiante. - , certo?
- Isso. - disse ainda sentindo-se estranha. - Erm, eu nunca te vi por aqui. - achou aquela frase uma maneira completamente frustrada de puxar assunto, voltou a resolver as inequações do papel sem esperar uma resposta.
- Ah, talvez seja porque eu mudei meus horários umas três vezes desde o início das aulas, acho que agora acertei. Sem contar que minha mãe está reformando minha casa e deixando aquele lugar de ponta cabeça, sempre acaba sobrando pra mim. - percebeu que se desse trela a garota falaria pelos cotovelos. Voltou a atenção para os exercícios e respondia algumas perguntas que eram feitas ao longo da aula.
Não podia dizer que a conversa fluía como se fossem melhores amigas, mas a garota era simpática, conseguia ser diferente de todas os tipinhos aos quais estava acostumada. E com o jeito diferente a garota foi capaz de até tirar alguns risos de . Era a primeira vez que enxergava alguém diferente dentro de King's Ford.
O refeitório estava cheio - mantendo a rotina de sempre. Ocupava a mesa de sempre e terminava de saborear seu brownie, a única coisa que realmente agradava dentro do cardápio daquele lugar.
- , razão da minha vida. - escutou a voz de antes de sua bochecha ser surpreendida por um beijo.
- Não fale mais isso, você não é bom com esse tipo de agrado. - ria enquanto via a careta, completamente fingida, do garoto na cadeira a frente.
- Como foi a aula? - ele podia não ser o melhor em demonstrações de afeto, mas seu diferencial estava ali, com simples ações sempre mostrava o quanto se preocupava com as pessoas, e esse poderia ser um grande problema, sempre se preocupando demais com os outros. Mas no caso dos dois, existia uma recíproca, e essa era totalmente verdadeira.
- Tranquila. faltou mesmo, e eu para compensar sua ausência eu fiz uma espécie de "nova amizade". - ao ver a surpresa estampada no rosto do menino, continuou - Conheci na aula de cálculo, se chama Haylie.
- Uma garota... Curioso. Achei que odiasse qualquer espécie desse colégio.
- Eu também achava, mas ela é diferente, foi simpática, não ficou me analisando, e também é divertida.
Quase um mês já havia se passado.
procurava as chaves de casa na bolsa enquanto esperava escorado a parede.
- Finalmente me sinto informado de tudo o que aconteceu. - disse o garoto sentindo-se mais confortável em saber de tudo o que havia perdido nos últimos anos. - Mesmo assim muita coisa aconteceu, dá pra perceber. - jogou a mochila nos pés do sofá e em seguida o jogou o corpo sobre o mesmo. - E sua tia? Teve alguma notícia?
- , pra mim aquela mulher morreu. Assim que fiz aniversário saí correndo daquela casa, era o que eu mais queria desde o maldito dia em que me colocaram naquele lugar.
Poderia reconstruir com facilidade e perfeição, passo a passo toda sua história dentro da casa da tia, se em algum lugar existia discórdia pura, era entre aquelas paredes. Ódio, desafeto, era fácil dizer que dentro daquela casa não se sentia amada, talvez na cozinha, onde passava maior parte do tempo, junto a Maria, governanta da casa. Julliet, sua tia, não era irmã de sangue de sua mãe, foi adotada logo que nasceu e também posta a par de tudo isso cedo, talvez seja por isso que guardou tanta inveja de Claire, mãe de . Sabia bem que sua mãe havia tratado a irmã adotiva com todo o amor, sempre, como fazia com todos a sua volta.
- E aquele filho dela?
- Nunca entendi esse menino. Sempre distante, alheio, fechado. Você sabe bem o que ela fazia, não me deixava chegar nem perto dele. - a menina respondeu sentando na ponta livre do sofá e sendo obrigada a mergulhar em um mundo de lembranças rancorosas.
Flashback - 7 anos antes
Não havia maneira de tirar aquele maldito dia da memória.
Minha mudança foi uma das piores experiências de toda a minha vida. Eu não tinha opção, ou era aquilo, ou era aquilo. Meus avós não poderiam cuidar de mim, eles estavam em outro país e eu não sairia da Inglaterra. Marie, mãe de , não conseguira minha guarda. Minha única opção era Juliett, minha temida tia. E não só temida, horrenda. Os arrepios que aquela mulher me causava eram inexplicáveis, como se me culpasse por sua tia ser infeliz como era. Todos sempre souberam de seu casamento mal-sucedido, não era segredo.
A frieza da casa me contagiou no mesmo instante em que coloquei meu pequeno pé no mármore do piso.
- Existem coisas que você precisa ter bem claras na sua cabecinha a partir de hoje. - Sua ironia me machucava, eu não estava ali porque queria. - Você perdeu seus pais e está sobre minha responsabilidade. - Meus olhos já estavam úmidos por lágrimas que não demorariam a brotar pelos cantos dos olhos. Pequena demais, observava a autoridade que ela usava para discursar dentro de sua casa, seu território. Aquele foi o primeiro momento em que a vi sem a companhia do marido e do filho.
- Eu já disse que quero meus avós! - Minha voz, fina graças ao choro engasgado, não saiu da maneira que eu pretendia. Com dez anos parecia bem difícil empostar minha voz e mostrar o que eu realmente queria. Puxei as mangas do vestido preto para as mãos e sequei o rosto.
- Você não quer nada, você não fala nada a partir de hoje. Daqui pra frente apenas obedece. - A voz estridente daquela mulher, magra demais e de olheiras fundas demais, voltou a tomar conta de todo o quarto, sem esquecer de penetrar minha mente. - Você terá seu quarto, e é aqui que deve ficar. Não quero você perambulando pela casa, muito menos perto do meu filho. Na hora do jantar, sem questionamentos ou rebeldia, você estará sentada à mesa conosco. Para evitar trabalho continuará estudando no mesmo colégio, mas trate de desmanchar seus planos com o filho dos , direi apenas uma vez: Não quero vê-la na companhia daquele moleque.
Como se as palavras dela fossem navalhas levei minha mão ao peito. Ali meu coração aos poucos parava, uma pancada de cada vez. Antes frenético e agora lento, lutando bravamente para manter a ritmia que me mantinha viva. Poderiam terminar de me tirar tudo, já haviam me tirado tudo. Só restava , como seria sem ele?
- Quando o jantar estiver na mesa Maria virá te chamar.
End of flashback
- Eu nunca soube o que pensar de . No fundo eu sabia que ela não era igual a mãe, mas se sentia obrigado a ser. A maldade de Juliett é transmitida de geração a geração.
- Esquece isso, quem toma conta de você agora sou eu. - disse a abraçando, tornando mais uma vez, aparentemente indestrutível o laço que unia os dois.
e voltavam da loja de doces próxima ao colégio, a menina contava como conhecera Haylie. As duas estavam dando-se bem, costumavam almoçar juntas nos dias em que a educação física dos dois amigos coincidia com o horário de intervalo delas.
Entraram no condomínio e desceram as várias alamedas até chegarem a frente do prédio de .
Certos dias não há como explicar a sintonia do pensamento de duas pessoas. Todos eram testemunha da relação estranha dos dois, hora aos pontapés, hora aos xingamentos, nunca em um momento neutro. Eram extremos, sempre. Mas onde é que está escrito que uma amizade de verdade precisa ter mel escorrendo por todos os lados?
- Vamos ficar por aqui? - perguntou e logo os dois estavam sentados atrás do prédio, em frente a um jardim minúsculo e escondido. - E cadê o ? - indagou novamente olhando para o céu completamente branco de nuvens, enquanto sua mão segurava uma pedra que riscava o chão repetidamente.
- Acho que foi na casa do . - a menina que estava sentada da mesma maneira aos poucos pendeu o corpo para o lado e em segundos estava deitada no chão de barriga para cima e as pernas flexionadas. - Por que?
- Por nada. - olhou para o rosto de , que tinha a cabeça apoiada em sua perna. - Só é estranho você estar aqui comigo e não com ele.
pensou em milhões de respostas para aquela fala, maioria delas mal educadas, mas era inteligente o suficiente para saber que naquele momento não deveria ser grossa. Pensou por um breve momento ter ouvido um tom de ciúme mesclado a voz do amigo.
- Vim dar atenção ao meu amigo que precisa de atenção. - disse brincando com um sorriso fraco nos lábios, sentiu, sutilmente, uma fina mecha de seu cabelo mexer. Percebeu então que a mecha encontrava-se entre os dedos de .
- Eu não sou carente. - protestou. Logo depois mordeu a língua tentando segurar as palavras que a todo custo tentavam deixar sua boca. Não seria má idéia dizê-las. - Às vezes você faz falta, antes eu não era obrigada a dividir sua atenção com ninguém.
De boca aberta, olhou para cima e encontrou um se bochechas completamente vermelhas e olhar desviado.
- Quem é você e o que fez com o ? - perguntou tentando quebrar o clima estranho que havia se instalado. - Você tem minha atenção, não fale como se não tivesse.
- Você passa a vida reclamando que eu sou mal-educado, isso e aquilo outro. Quando eu sou um pouco mais legal, você também reclama. Não espere que o legal volte. - um calor confortável até se instalou em ambos depois aquilo. Era sinal de que o pequeno constrangimento havia passado. Sentia que era seu dever protegê-la, como ninguém andava fazendo. Desde quando isso?
- Prefiro você chato, mas também gosto de você assim. - a menina disse rindo.
apenas sorriu, mas seu sorriso não trazia felicidade, era algo que lembrava muito mais uma melancolia guardada há muito tempo.
- Bom dia, terceiro ano. - a coordenadora adentrou a sala com sua voz empostada com o objetivo de conseguir respeito. - Silêncio, por favor, tenho um comunicado a vocês.
- Vocês não ouviram? Silêncio. - berrou a professora de História tentando parecer um pouco mais autoritária em frente a autoridade, pobre dela que acreditava que fora daquela sala sua aula não tinha a fama de aula mais desperdiçada pelos alunos.
- Obrigada, professora. O recado é simples. Hoje recebemos um aluno novo, ele veio transferido de Anne's Catholic School. - o burburinho logo começou, aquele colégio além de rival do King's era um dos mais respeitados de todo o país. - Em alguns instantes ele entrará e espero que sejam atenciosos e receptivos. Somente isso, até mais.
Bastou a coordenadora fechar a porta para o burburinho aumentar até virar um grande falatório dentro da sala. Os três amigos, mais Haylie que estava quase inclusa no círculo, eram os únicos desinteressados no tal novato.
- Não 'tá meio tarde pra começar ser transferido? - perguntou.
- Normal, nossas provas ainda não começaram. - respondeu, porém muito mais interessado em picar papeizinhos.
Faltavam poucos minutos para o primeiro sinal tocar, mas isso não aliviava nem de longe o tédio dos alunos, aquela era apenas a primeira aula de uma dobradinha de História.
- Eu estou começando a ficar curiosa quanto a esse novo aluno. - Haylie disse um pouco baixo, em uma conversa paralela, evitando que e ouvissem.
- Pra mim tanto faz, como tanto fez. - respondeu indiferente. - me empresta seu agasalho? - como era dia de treinos sabia que estava com o moletom do uniforme, usado apenas para os dias de Educação Física.
Evitou inalar o perfume daquela blusa, jogou o capuz sobre a cabeça e voltou a rabiscar a folha em branco do caderno. De maneira sutil, mas rápida sentiu a atmosfera a sua volta mudar, a sala inteira silenciou, e pararam de falar e Haylie pareceu prender a respiração.
- Ele tinha razão quando disse que não demoraria até vocês se encontrarem. - escutou a voz de próxima a seu ouvido e um arrepio estranho desceu-lhe a espinha.
Flashback - 10 meses atrás
Finalmente havia chegado o dia, o tão esperado dia em que sairia daquela casa e poderia ver-se livre de sua tia. Seu aniversário de dezessete anos, sua chave para a liberdade. Acordou cedo, recolheu todas as coisas, apagou qualquer tipo de lembrança que pudesse deixar de sua passagem por aquele lugar, despediu-se de Maria, sua grande amiga nos últimos anos e faltava apenas esperar pelo táxi.
- Então você vai mesmo embora? - levou a mão ao peito com o susto que tomou, não estava acostumada a ouvir aquela voz. Virou-se e encontrou na porta de seu quarto, , seu primo.
- Chegou minha hora. - disse conferindo se a última mala estava fechada. Sem que pedisse o menino entrou no quarto e pegou duas de suas malas, apenas agradeceu com um olhar de gratidão. Os dois desceram as escadas juntos e encontraram Juliett sentada na sala, lendo sua revista. lançou um olhar preocupado, afinal até aquele instante sua mão não sabia da partida da menina. apenas o tranquilizou com um aceno, Juliett não poderia fazer mais nada quanto a isso.
- O que é isso? Onde pensa que vai? - a mulher perguntou com a voz duas oitavas acima do normal.
- Ela 'tá indo embora, mãe.
- Embora, como assim embora?
- O acordo acaba aqui. Hoje, não sei se lembra, é meu aniversário, em outras palavras estou livre de você. - sorriu passando pela tia e sendo acompanhada por . O táxi já a esperava.
- Então é isso... - colocou as mãos nos bolsos assim que fechou o porta-malas do carro.
- É isso. - os dois permaneceram quietos, com olhares fixos ao chão, moravam juntos há três anos e nunca conversaram direito. Por questão de educação falavam estritamente o necessário, em um gesto inesperado puxou a menina para um abraço.
- Feliz aniversário e boa sorte.
- Obrigada.
- Acho que não vai demorar muito até nos vermos de novo. - disse o menino encerrando o abraço e abrindo a porta do táxi para ela. Lá estava indo para seu novo começo.
End of flashback
- Eu 'tô cansada disso. - foi o que disse ao ver o primo dentro da sala. Estava diferente, mais bonito, pode perceber assim que seus olhares se encontraram.
Quantos mais iriam aparecer? Por que? Qual era a graça daquilo? Qual o prazer do destino em trazer pessoas de volta sem mais nem menos?
Perguntas martelavam a cabeça da menina. O viu sentar-se junto a Josh, Tess, Tracie e Brittany, em uma das primeiras carteiras.
- Eu perdi alguma coisa? - perguntou assim que sentiu o clima tenso e o olhar de , preocupado, sobre .
- Temos mais um conhecido de volta. - disse aumentando o tamanho do ponto de interrogação na cabeça de .
O8
Flashback - 6 anos atrás
Maria, empregada da família, havia acabado de deixar o quarto de . O clima na da tia, pela primeira vez desde que chegara, era agradável, mas por obviedade havia um motivo especial por trás disso.
Da janela de seu quarto, a menina conseguia ver todas as mesas decoradas com toalhas azuis e brancas, painéis coloridos, letras enormes formavam o nome do menino: . Era seu décimo primeiro aniversário, e aquela festa havia sido inteira organizada por Juliett.
Na intenção de sair do quarto acabou por passar em frente ao espelho, voltou alguns passos para ver seu reflexo, observou o corpo míudo e magro dentro do vestido lilás. Aquilo até lembrava sua mãe. Balançou a cabeça tentando afastar memórias como aquela.
Deixou o quarto e desceu as escadas pulando alguns degraus, caminhou até a cozinha e puxou a barra do uniforme de Maria. Com um sorriso no rosto, essa abaixou-se até ficar na altura da menina.
- Tenho uma seurpresa pra você. - disse, visivelmente, escondendo algo atrás das costas.
- O que, Maria? - a pequena perguntou levando o indicador até a boca.
- Algo que você gosta muito.
- É de comer? - disse rindo, às vezes parecia que só pensava em comida.
- Também. - Maria gargalhou ao ver a cara assustada que a menina fez.
Em um movimento lento, de total suspense, entregou a ela uma caixa de brownies, e em cima dessa estava um bilhete.
Sei como sua tia é difícil, mas vou te ajudar.
Suba na casa da árvore assim que os convidados começarem a chegar.
xx. Sue
Um sorriso enorme tomou conta do rosto da menina, viu Maria piscar e logo em seguida ouviu a campainha da cada tocas. Sem esperar saiu correndo, atravessou o enorme jardim, olhando para os lados de vez em quando para certificar-se de que ninguém estava vendo.
Subiu a pequena escada de cipó e madeira, empurrou a pequena porta e abaixou a cabeça para entrar no cubículo de madeira. Viu o pequeno melhor amigo sentado, riscando o chão com um graveto. Num sussurro o chamou.
- ? - o menino ergueu o rosto e ela encarou os olhos azuis de sempre. - Como veio parar aqui?
- Ajuda da Maria. - um pequeno silêncio instaurou-se, mas logo foi quebrado pelas risadas de ambos.
End of flashback
- Por que saiu quase voando da escola? - escutou perguntar do outro lado da linha. Logo que o sinal bateu, arrastou para fora do colégio. Os dois se assustaram ao ver ali, e tinha um pressentimento bobo de que ele iria atrás dela.
- Desculpa. Precisei ir embora, e rápido. - olhou de canto para que chutava algumas pedras pelo caminho.
- Aconteceu alguma coisa? - respirou fundo antes de responder, teria mais uma história para explicar.
- A história é longa. - disse entrando no elevador depois de . - Amanhã eu te explico, prometo.
- Tudo bem. Alguém 'tá tocando a campainha, deve ser meu pai. Amanhã a gente se fala. - respondeu o amigo e desligou o aparelho celular.
abriu a porta e a menina entrou logo depois, foi direto para seu quarto, sem dizer uma palavra. Negou o almoço que ofereceu, queria ficar sozinha, apenas isso. Largou o material em um canto qualquer e foi procurar por seu edredom no armário, puxou ao invés dele uma manta de tinha desde pequena. Tirou as sapatilhas do colégio e caminhou até a pequena varanda, sabia que o chão estaria gelado, mas isso não a impediu, enrolou a manta de lã no corpo de sentou-se.
Sentia de vez em quando um vento gelado bater contra seu rosto.
No quarto ao lado, terminou o dever e jogou o corpo contra o colchão. Desde que chegaram do colégio estava naquele quarto, não tinha ao menos almoçado. Uma espécie de aflição o atingia sempre que sentia que a garota estava sofrendo por algum motivo. Sabia que na verdade ela estava confusa, com a mente abarrotada de coisas, primeiro sua volta depois de anos, agora seu primo, elo próximo com sua odiada tia. Levantou e foi até a cozinha atrás que algo que pudesse distraí-la por um tempo, curto, que seja. Achou uma caixa do chocolate preferido dela, foi ao fogão e preparou um chocolate quente.
A porta do quarto estava apenas encostada, não pediu licença, apenas entrou em silêncio e a viu enrolada em uma manta. Colocou as canecas no chão e sentou-se ao lado dela. Sutilmente a puxou pela cintura para que sentasse entre suas pernas com as costas encostadas em seu peito, estendeu-lhe a xícara fumegante e depois a caixa de chocolates.
- Por que as coisas estão mudando assim? Tão do nada. - segurou a xícara entre as duas mãos encolhendo o corpo.
- Shh... - sussurrou com os lábios encostados no alto de sua cabeça.
Acordou com o rotineiro toque do despertador, não lembrava como havia ido parar na cama, mais uma vez. Isso estava acontecendo com uma certa frequência. Sua cabeça latejava, e com um tapa desligou o despertador. O silêncio voltou a prevalecer dentro do quarto. Puxou o edredom de cima do corpo a fim de levantar e tomou um susto ao perceber que ainda estava de uniforme, o uniforme do dia anterior. Colocou o dedo sobre a tela do celular, sobre a cabeceira, e constatou que tinha tempo suficiente para um bom e demorado banho.
Bastou a porção de água cair sobre sua cabeça para lembrar-se de tudo.
A luz batia em seu rosto, mostrando que finalmente o sol havia parado de se esconder atrás das nuvens.
ao chegar puxou para uma conversa, o garoto explicou-lhe tudo, quem era o aluno, e qual era sua real ligação com . Apenas pediu que não comentasse nada com ela, era mais seguro deixar que ela falasse por conta própria.
Assim que viu os dois amigos afastarem-se puxou Haylie para que sentassem sob a sombra da macieira do pátio.
- Você pretende falar com esse menino?
- Sim, mas não agora. Não tenho nada contra ele na verdade, ele apenas me traz más lembranças.
A aula de Geografia parecia acontecer normalmente, sem levar em conta os olhares tortos de em direção a . O clima estranho do lugar parecia acumular-se sobre as costas de , e assim resolveu achar uma maneira de deixar a sala.
- Professor, posso ir a enfermaria? Estou com um pouco de dor de cabeça. - o homem gordo e suado, dono do lencinho amassado e nojento a encarou com um olhar desconfiado, a simpatia que todo o corpo docente tinha por ela não era aplicada a ele.
- Vá.
A garota deixou a sala e no mesmo instante levantou-se pedindo ao professor para ir ao banheiro. tomou impulso para levantar, mas foi impedido por que o segurou contra a carteira e fez com que ficasse sentado. Por mais que não quisesse, sabia que os dois tinham algo para conversar.
Assim que saiu da sala fez o caminho contrário ao da enfermaria, abriu com cuidado a porta da escada de incêndio e não viu que sabia onde ela estava indo.
Inspirou com calma o ar mais leve daquele lugar e não se assustou ao perceber que não estava sozinha.
- Desde ontem eu tenho a impressão de que não gostou de me ver.
- Por que não gostaria? Isso é impressão sua. - encarou de maneira séria o menino que estava ao seu lado. - Você não deveria estar aqui em cima.
- Você também não. - respondeu sagaz e rapidamente.
- Vai dizer o que está fazendo nesse lugar? - perguntou referindo-se ao colégio.
- Eu saí de casa. - a menina voltou a encará-lo, dessa vez um pouco surpresa.
- Como assim? Não consigo te imaginar fora da barra da saia da sua mãe. - disse em um tom provocativo.
- Meus pais se separaram, minha mãe está insuportável. Resolvi morar com meu pai, mas ele já tinha a vida encaminhada para depois da separação, agora está na Alemanha. Não queria ser um empecilho, por isso fiquei por aqui. - percebeu que bastou ela sair daquela casa para tudo se transformar. Chegou a sentir um pingo de dó, mas o sentimento foi embora na mesma velocidade que apareceu.
- Percebi que está diferente. Largar sua mãe te fez bem. - disse vendo um sorriso malandro surgir nos lábios do menino.
- Talvez. Você também 'tá mudada, será a volta do ? - ficou quieta, apenas rindo da maneira ágil do menino.
Flashback - 3 anos atrás
balançava o corpo para frente e para trás, o olhar perdido em algum ponto do céu que estava especialmente azul naquele dia. A cor se mantinha, mas era quase que invisível para ela. O céu há dias havia se tornado cinza, ela não saia mais de casa, não atendia telefonemas, não comia direito. Lembrava como se acontecesse há segundos atrás, com algumas lágrimas acumuladas nos olhos, tentando lhe dizer algo. Ele iria embora, e ela nada podia fazer.
observou a menina descer do quarto e atravessar o jardim, há dias a via cabisbaixa. Ouviu a mãe e o pai comentando que o amigo da menina iria embora para outro país, ligou isso a situação atual da menina. Provavelmente aquela era a razão da tristeza imensurável na qual ela se encontrava.
- , o que tanto você olha nessa janela? – escutou a voz da mãe em seu quarto. Resolveu tirar os olhos da menina.
- Por que ela está daquele jeito mãe? – viu a mãe sentar em sua cama, a mulher procurava uma resposta.
- Ninguém nunca a entendeu, . Ninguém.
A mente do menino começou a trabalhar. Por que não entender a menina? Ela parecia tão inofensiva, desde sua chegada poucas foram as vezes que falou com ela. Nunca havia visto ninguém tão mal por uma separação. Talvez aquela fosse a situação em que a palavra que havia aprendido a pouco se encaixava. Apaixonada. Talvez fosse isso.
End of flashback
batucava na mesa e trocava o olhar entre a porta do refeitório e a mão com vida própria em cima da mesa. não voltou mais para a sala, isso não era problema, era até normal. O problema estava no novato, , que também não havia voltado.
, que apesar de não demonstrar, também estava impaciente e levantou da mesa.
- Eu já volto. – saiu do refeitório e foi em direção à biblioteca, entrou no lugar e com o olhar vasculhou, nada. Mais uma vez saiu, dessa vez tinha destino certo. Entrou no corredor e empurrou a porta da escada de incêndio. Chegou ao alto do prédio e viu um corpo, nem de longe era .
- Cadê a ? – perguntou para o menino de costas.
- Desceu já faz tempo. Preocupado ? – que já estava de costas pronto para descer e percorrer mais metade do colégio atrás de voltou. Qual era a daquele menino? – A deixa sozinha, volta e quer pagar de superprotetor?
- E o que você tem a ver com isso?
- Eu? Nada. – virou de frente para , havia uma grande distância entre os dois. Se não houvesse aquela distância, teria respondido a ironia de com um belo soco na cara. – Só que é interessante, diferente, ver vocês assim, tão próximos. Quem viu como ela ficou não diria que ela olharia na sua cara.
apenas engoliu seco tudo o que tinha escutado, uma mão forte, de aço, apertou seu peito o fazendo sentir uma repentina falta de ar. Abaixou a cabeça e rumou de volta para os corredores do colégio que estavam movimentados mais uma vez.
Haylie esbarrou no ombro do garoto o fazendo acordar para a realidade e para as pessoas que quase o atropelavam.
- Ah, era você mesmo que eu procurava. foi embora. Deve ter pulado o muro, malandrinha. – a menina disse coçando a cabeça. apenas assentiu e tirou o celular do bolso enquanto caminhava para a próxima das cansativas aulas que ainda teria.
Foi pra casa sem me esperar?
Depois a gente se fala.
xx.
O relógio apontava quase nove da noite. estava deitada sobre a cama vestindo apenas o conjunto de peças íntimas pensando em algo para usar naquela noite, sabia que em pouco tempo os amigos chegariam. Esticou-se até a ponta oposta da cama a fim de pegar a calça jeans.
- - entrou no quarto que tinha a porta apenas encostada. Apenas silenciou e permaneceu olhando a garota.
- Fala, . - o menino apenas sorriu sem graça ao ser pego olhando indiscretamente para o colo descoberto dela. Ela apenas riu e chamou sua atenção mais uma vez. - Aqui, .
- Erm, desculpa. - ele podia sentir o calor acumulado em seu rosto. - Eu só queria... Erm, queria... Esquece. - um pouco envergonhado tentou sair do quarto o mais rápido possível.
- Ei, volta aqui. - voltou a cabeça para dentro do quando e encontrou em pé, próxima a cama chamando-o. - Vem cá, não mordo. - aos poucos, as pequenas mãos da menina dirigiram-se ao seu cabelo ainda úmido. - Não gosto dele assim, você fica mais bonito quando penteia pro outro lado. - fazia caretas enquanto esculpia novamente o penteado do menino.
- Valeu. - voltou a acelerar os passos para fora do quarto.
- Gostei da sua roupa. - a menina ainda disse antes que ele estivesse longe.
- Huh, eu acho que você deveria colocar uma. - gargalhou antes de fechar a porta.
A campainha tocou pela segunda vez e atravessou toda a casa correndo para atender quem chegava. entrou falando alto e chamando a atenção de que estava na cozinha. A menina voltou a mexer nas garrafas de cerveja que estavam gelando desde o fim da tarde.
- , querida. Boa noite. - escutou a voz agradável de enquanto esse a puxava para o beijo estalado na bochecha. Precisa de ajuda? - o menino perguntou, pegando impulso e sentando-se sobre o gabinete da cozinha.
- Ah, relaxa. Acho que o já foi ligar pra pizzaria. - tirou duas pequenas garrafas de cerveja e estendeu uma para o amigo.
- Vamos aproveitar pra conversar enquanto ele não volta aqui.
- O que quer perguntar, ? - perguntou de maneira certeira, mas ainda assim com um sorriso brincalhão.
- 'Tá tudo tranquilo entre você e o ? Quero dizer, sem tensões ou estranhamentos.
A menina apenas confirmou com a expressão um pouco confusa.
- Só pergunto isso porque sabia que ele 'tava meio apreensivo pra essa volta. Nada demais. - aquele também era um pretexto, mas as últimas conversas com mostraram o quanto seria difícil conviver com a menina, ainda mais naquele momento, em que as coisas haviam mudado drasticamente.
Mais uma vez a campainha tocou. puxou o amigo de cima da bancada e caminhou com ele até a sala.
Haylie e adentraram o apartamento fazendo barulho. Os sofás afastados e a mesa de centro agora estava de canto. Os cinco esparramados no chão e sofá conversavam e riam sentindo em alguns momentos o leve efeito da quantidade de cerveja que já haviam ingerido.
- Vou pegar mais cerveja. - disse, indo em direção a cozinha.
- EI. - ouviu a voz da amiga, Haylie, e instantaneamente apoiou o corpo sobre a pia rindo as alturas. - 'Tá rindo do que?
- Hay - arfou, tomando de volta o fôlego. -, a maneira como você olha pro . Parece que vai comer o menino com os olhos. Ele já deve ter percebido, sua besta.
- É... - a menina disse baixo - Mas me diz, o que acha dele?
- O que eu acho? - reforçou a indagação. - Minha opinião não é a melhor, quer dizer, eu não sou a melhor pessoa pra responder. Você deveria perguntar para alguém mais imparcial, mas como não tem, eu digo. Ele é bonito, vive fazendo charme pras pessoas, maioria cai de primeira, mas ainda assim ele é simpático, inteligente, fofo, meio estúpido, mas isso é só comigo.
- Tento?
- Por que não? - as duas voltaram com as mãos repletas de pequenas garrafas.
Já passava das três e meia quando pela décima vez bocejou.
- Acho que 'tá na minha hora... Até o chato do já foi embora. - disse irônico, levantando e esticando o corpo que estava sentado há horas.
- Tchau, . - abraçou a garota pela cintura de uma maneira mais carinhosa que o normal. Provavelmente a primeira vez em séculos. soltou o amigo um pouco envergonhada, e encontrou um de olhar frio sobre ela.
Abriu a porta para os amigos enquanto ouvia o companheiro de casa recolher algumas coisas da sala.
- O que foi isso? - o garoto perguntou sem olhar diretamente em seu rosto.
- O que?
- Você sabe, agora, com .
- Não era nada. - deveria parar por ali, mas sentiu o corpo um pouco quente e seu cérebro pressionou sua calma. - E mesmo que fosse. Qual o problema?
- Realmente, não é da minha conta. - apenas o viu dar as costas e ir para seu quarto.
Chovia como no dia anterior. A semana havia passado mais lenta que nunca. A garota mais uma vez estava deitada sobre as cobertas assistindo uma besteira qualquer que passava na televisão naquele momento. havia saído antes de todo o temporal, uma queimação estranha crescia e regredia constantemente dentro de seu peito.
Flashback - alguns dias atrás
Os dois garotos estavam preparando o projeto para a próxima feira de Ciências. A sala parecia ter sido vitima de um furacão. Papeis, lápis, materiais dos mais diversos espalhados pelo cômodo.
- , você vai sair com a Tracie? – perguntou medindo o tamanho de uma fita com a régua.
que antes estava completamente absorto aos cálculos do livro, levantou a cabeça e mirou a parede. Não sabia ao certo se iria sair com a garota da sala de Biologia, ela era legal, mas mesmo assim algo lhe dizia que aquilo podia trazer conseqüências maiores.
- Ainda não sei.
- Eu acho que você devia ir. – Por que diabos estava dizendo aquilo? Desde a reunião de amigos, e a cena de total insinuação para , em sua opinião, a aproximação dos dois voltou à estaca zero.
- Vou ver. – ficou quieto pelo resto da tarde.
End of flashback
Tracie. Raiva. Agora era possível dizer o que estava sentindo.
Escutou o barulho de chaves destrancando a porta, aumentou um pouco o volume da TV.
- Noite. - o menino disse animado, enquanto tirava o agasalho molhado.
- Cuidado pra não molhar tudo. - disse ríspida, o suficiente para ele perceber.
- Eu disse, oi. - repetiu.
- Eu ouvi, só disse pra tomar cuidado e não molhar a casa toda. - replicou, em um tom seco. riu com um tom de desdém e observou o pote de sorvete sobre a mesa da sala.
- Que bicho te mordeu? Quando saí você não 'tava assim. - perguntou sentando sobre o braço do sofá.
- Bicho nenhum, .
- Cacete. Você pode explicar? Eu saio e você está bem, quando eu volto você está mal-humorada e me chama pelo nome. - com um pulo sentou ao lado dela no sofá. - O que aconteceu?
- Não faz diferença, você 'tá feliz com o seu encontro e se divertiu. Agora me deixa quieta. - a menina pronunciou de maneira direta.
- Então o problema é Tracie.
- Problema? Que diferença aquela garota faz na minha vida? Quer dizer, você pode ficar todo ofendido com um abraço do . - levantou do sofá deixando a sala, antes que o menino a seguisse, disse: - Me deixa sozinha.
Assim que chegou no quarto de outro cômodo era possível escutar a porta bater com violência. O quarto estava escuro, jogou o corpo na cama e esticou o braço até o botão do abajur. Grande coisa. Lá estavam o quase breu, os barulhos da chuva junto com trovões, a televisão alta no cômodo vizinho. Não iria se arrepender de pedir para que ele não fosse atrás dela. Ou talvez até fosse.
O9
Naquele momento o que mais queria era ter dedos suficiente, nas mãos e nos pés, para enumerar seus defeitos. Poderia ter aprendido a ser menos impulsiva, menos explosiva, menos ciumenta. Tudo em sua opinião poderia ser menos, a intensidade com a qual tratava quase tudo em sua vida, pessoas, coisas, ainda a prejudicaria muito. Isto só faltava estar escrito em um muro, assim que saísse de casa veria como é preciso sempre se acalmar, sempre respirar fundo. Mas será que uma pessoa é só feita de defeitos?
Não era possível.
Se fosse tudo aquilo que tentou enumerar, não teria uma relação tão boa com . Seus defeitos eram o tipo de coisa que não mudaria seu jeito de conviver com o menino. ainda tratava com repudia a vaga idéia de outra garota ao lado dele. Talvez pudesse ter encomendado uma placa de ouro com o nome do garoto gravado. A companhia de era algo seu, soava absurdamente egoísta, mas era a verdade. Não queria outra garota ali, tentando roubar seu lugar. Era perigoso demais uma pessoa entre os dois. Alguém que a fizesse sentir-se importante; alguém que o faria rir quando ela não conseguisse; alguém que o acompanharia a todo o lugar que quisesse; alguém que não se incomodaria com a mania de fazer barulhos repetitivos com a boca durante um momento de silêncio; alguém que fizesse cafuné melhor que ela; alguém melhor que ela.
Naquele momento queria ter certeza de que um banho iria melhorar tudo.
Deixou as gotas grossas e quentes baterem em suas costas, no começo pareciam mais pesadas que o normal, um peso a mais sobre ela.
Poderia pedir que junto com a chuva que caía forte do lado de fora, um raio também viesse e a eletrocutasse. Bom saber que isso seria extremamente desastroso, dramático e exagerado. Desligou o chuveiro e com cuidado se esticou até que pegasse a toalha nas mãos. O espelho estava totalmente embaçado, passou a mão sobre a superfície acabando com a má visibilidade. Olhou seu reflexo e soltou o coque frouxo que prendia o cabelo.
Lá estava jogada na cama mais uma vez. Quanto tempo havia se passado? A chuva ao invés de diminuir, com o tempo parecia aumentar. Para a audição de os trovões eram mais barulhentos, talvez pudessem abalar a estrutura do prédio. Olhava para os leves clarões que apareciam com pequenos intervalos, encolhida e mordendo a manga de seu agasalho velho do Mickey.
Impressionante como várias pessoas tem coisas de lá, sem ao menos ter visitado uma vez. Ela era uma dessas pessoas, talvez visitar a Disney fosse um dos sonhos que alimentava desde pequena.
Flashback - 7 anos atrás
Era seu aniversário. O carro cruzava o centro movimentado, era sábado, dia em que Londres não parava. Os pedestres atravessavam as ruas como em hora de almoço num dia de trabalho, era possível ver as mais diversas manifestações de arte pela rua. Bandas de Jazz se apresentavam em calçadas e esperavam recompensas caírem em seus cases.
apoiava um cotovelo em cada banco da frente do carro, ficando entre os pais, sorrindo de orelha a orelha e acompanhando junto ao pai a melodia que tocava no rádio. Mesmo nova podia reconhecer aquele som que estava sempre presente em sua casa.
- Oh yeah, I’ll tell you something... – Edward, seu pai começou a letra esperando que ela acompanhasse. – I think you’ll understand...
- When I say that something... – levantou os olhos para sua mãe e incentivou que essa os acompanhasse... – I wanna hold your hand...
Os três interromperam o coro assim que Edward desligou o carro, assim que desceu subiu o olhar pela alta e elegante construção que estava para em frente. Sentiu um leve empurrão e sorriu para sua mãe.
Há alguns anos tinha visto pela primeira vez um programa na TV que falava sobre a Disney, desde então aquele havia se tornado seu sonho. Sonho que foi compartilhado com os pais, e esses não hesitaram ao tentar realiza-lo.
Uma mulher de estatura baixa e óculos fundo de garrafa apareceu na pequena sala de espera e pronunciou:
- Sr. e Sra. ? – os pais da menina levantaram e incentivaram a pequena a levantar junto, assim que se pôs de pé segurou na mão de cada um.
Na TV da sala impecavelmente arrumada, um vídeo fazia um tour completo por toda a extensão dos parques. A todo tempo recebia sorrisos carinhosos de sua mãe, que segurava em sua mão enquanto suas pernas balançavam de maneira inquieta na pequena cadeira.
- Então estamos acertados. As passagens serão entregues logo mais. – a pequena senhora apertou a mão do pai de .
A felicidade provavelmente não cabia no peito da menina. Mais uma vez estavam os três caminhando juntos de mãos dadas, Edward ligou o carro e manobrou sua saída do estacionamento.
O cruzamento não era dos mais movimentados, o final da tarde já havia passado e a noite estava ali. Os postes iluminavam a extensão de todas as avenidas. O sinal estava verde, as faixas acompanhadas do “Look right, look left” não estavam tão próximas.
- Edward! – escutou sua mãe gritar num tom agudo e alto demais para a situação, sentiu enjôo assim que seu pai girou o volante e o carro começou a rodopiar, uma luz branca e forte lhe fez doer os olhos, invadiu o carro e sua mente, pode até ouvir o estilhaço dos vidros e ao fundo mais um último grito agudo.
End of flashback
Escutou a porta ranger, até se assustou, mas ao perceber quem era rolou os olhos e sentiu uma leve queimação no peito.
- Vem pra cá. – ele disse num tom quase inaudível graças ao barulho de chuva.
- Pode deixar eu estou bem aqui.
- Não, não está. – ele abriu a porta por completo. – Já não chega dessa manha? – ali estava ele, sentado ao seu lado. – Eu te conheço. Conheço melhor que você mesma. – tinha um medo profundo daquela afirmação. – Não gosta de chuva. Vai ficar aí sozinha?
A menina começou a ponderar as alternativas: ficar ali ou ficar ao lado de . Talvez ao lado dele fosse melhor.
- Ah, você vai aceitar, anda levanta. – pela primeira vez a menina olhou para o lado. Viu já a puxando e seu cérebro mais uma vez cedendo.
O quarto dele parecia mais quente, parecia não. Era. O viu sentar na cama e a puxar, soltou o peso e ficou ao seu lado. Estavam os dois, um ao lado do outro, olhando para o teto, passou o braço sobre o ombro de trazendo-a mais para perto, com a cabeça sobre o peito dele, ela não conseguiu conter a língua:
- Como foi seu dia?
- Deixa isso pra lá, . – não queria ser rude, mas enquanto tentava esquecer e afastar qualquer coisa que fosse motivo de briga, ela parecia sempre cutucar.
- ‘Tô perguntando numa boa.
- Foi legal.
- Vai sair com ela de novo? – ouviu o menino segurar o riso. – Não ria.
- Não sei. Vai continuar com ciúmes?
- Isso vai te impedir de sair com ela?
- Não.
- Então pronto, só me responda.
- Talvez, mas ela não é tão legal como você. – sentiu ele aperta-la ainda mais naquele abraço desajeitado. Sorriu por dentro e por fora.
- Para de ser puxa saco. – disse soltando junto a ele uma risada que lembrava os velhos tempos.
Oh, she makes me feel like shit
But I can’t get over it
‘Cause she’s everything I ask for
Everything I ask for
And just a little bit more
O relógio digital da cabeceira de indicava que passava da uma da manhã. finalmente tinha caído no sono, a chuva também não era mais a mesma.
O garoto olhava para o teto enquanto sentia a respiração dela bater em seu pescoço, só ele podia dizer como era bom. Baixou um pouco os olhos e encontrou a mão da menina sobre sua barriga. Ali com ela dormindo ao seu lado podia perceber o quão indefesa e delicada ela conseguia parecer. Mesmo não sendo. Assim, finalmente sentiu os olhos pesarem.
- , que horas são? – perguntou entrando na cozinha.
- Quase onze, por que? – ao ouvir a resposta o menino bateu a mão na própria testa. Deixou um palavrão escapar-lhe. largou a louça que lavava e olhou para o menino, só conseguiu vê-lo correndo.
Deu ombros e terminou o que fazia antes, abriu o congelador e tirou dali um pote de sorvete. O dia podia ser tão depressivo.
entrou no quarto ainda revoltado consigo mesmo por ter perdido a hora. Do longo tempo que passou acordado durante a noite pensou em várias maneiras de se desculpar com . De acordo com o comportamento normal ele não devia desculpas, mas para ele era imperdoável deixa-la sozinha em casa para se divertir com outra garota. Pegou o telefone e discou o número de .
Assim que desligou o telefone correu até o banheiro e tomou uma ducha. Trocou de roupa e foi à sala procurar pela garota, queria avisa-la que iria sair. A TV estava ligada e na pequena mesa de centro só restava o pote vazio de sorvete e uma colher. Correu até o quarto dela, nada. Puxou um papel roxo do pequeno bloco e um caneta qualquer da caixinha, apoiou o corpo contra a mesinha e começou a escrever:
Cadê você? Moramos na mesma casa e eu não te acho!!!
Ok, to saindo, vou voltar no final da tarde. Quero você arrumada.
Vamos sair.
xx.
Colou o pequeno papel na porta branca do banheiro. Saiu em disparada, ainda teria que achar os ingressos.
Na sacada do apartamento escutou a porta bater, gritou o nome de , em vão. Bufou e tirou o corpo que estava apoiado ali, atravessou a porta de vidro e estava de volta sala, recolheu o pote de sorvete e foi para seu quarto. Encontrou fazendo contraste com a porta branca de seu banheiro um bilhete roxo berrante. Correu os olhos pela caligrafia fina e inclinada dele, rapidamente começou a pensar: Para onde eles iriam naquela noite?
Ótimo, pelo menos a noite estava mais quente que as anteriores. Talvez aquilo abrilhantasse a idéia genial de . Bateu com a mão no bolso de trás da calça certificando-se de que os ingressos estavam ali. O relógio marcava seis horas, era final de tarde e começo de noite, o crepúsculo podia ser visto claramente de lugares altos, para ele era somente um tom púrpura distante.
Será que ela estava pronta? Será que tinha achado o bilhete? Distraída do jeito que era.
Tirou do pequeno molho de chaves aquela que abria a porta da sala. Encontrou tudo apagado, apenas uma luz acesa, vinha de seu quarto. Lentamente empurrou e encontrou balançando as pernas e passando o polegar sobre um pequeno retrato que ficava em sua cabeceira. Tentou manter se manter silencioso, mas ela o escutou.
A menina levantou num pulo e bateu as mãos na calça.
- Desculpa. Tava olhando, essa foto é bem antiga. – disse tentando explicar a razão de estar ali. apenas balançou a cabeça mostrando que não tinha problema. Percebeu que a menina estava arrumada. Logo, até ali seu plano estava indo bem.
- Então... Vamos?
- Oh! Verdade. Aonde você vai me levar? – perguntou tentando esconder a curiosidade sem sucesso.
- Você vai gostar. – ele respondeu puxando a mão dela para que saíssem do quarto.
O táxi os deixou a uma quadra do parque. O vento batia em seus rostos, se gelado poderia ser cortante. Um sorriso tímido surgiu nos lábios da menina assim que percebeu onde estava. tirou os ingressos do bolso e abriu em forma de leque.
- Meu Deus, . – disse já de braços entrelaçados no pescoço dele. se sentia bem melhor só de ver o sorriso sincero nos lábios dela.
- Vem, vamos entrar. – os dois saíram correndo em direção a entrada do parque para receber o carimbo de livre acesso para todos os brinquedos.
O parque estava todo iluminado, já que a noite havia caído. Não muito longe era possível ver as luzes acessas da London Eye, vários eram os carrinhos de pipoca, algodão doce e cachorro quentes. parou bruscamente. Por onde começar?
- Chapéu mexicano? – ela perguntou.
- Vou vomitar. – ele disse pousando a mão sobre a boca do estômago. Riu da cara de nojo dela. – Que tal uma coisa mais leve?
- Não. Nós vamos no elevador e depois você escolhe. – sem esperar uma resposta pegou pelo braço saindo em direção à torre. De longe ele observou um pouco receoso o movimento de queda livre do brinquedo.
- , a gente não pode escolher um outro brinquedo não?
- Não, vem comigo! – os dois atravessaram a pequena grade.
Encostado em uma das divisórias das filas observava a garota completamente dominada por ansiedade. Sorria sozinho. Mais um grupo despencou em menos de quatro segundos e a fila andou, atrás deles um grupo de garotos se aproximou. Seu corpo, de repente, pareceu alerta, manteve o olhar fixo no grupo que se aproximava. Bagunceiros e barulhentos chamaram a atenção de .
- Opa! ‘Tá sozinha? – um deles se aproximou dela falando mais alto que o normal. No mesmo instante o corpo de enrijeceu. – Tão bonita... – o garoto disse incentivando o outro que vinha logo atrás a se aproximar.
lançou um olhar desesperado para o amigo e segurou de maneira firme a grade, quase se fundindo a ela.
Os dois meninos estavam muito próximos e num movimento rápido puxou , ela bateu com as costas em seu peito, apertou os braços junto aos dele que envolviam sua cintura. Podiam passar como namorados. , levantou uma sobrancelha e viu os dois se afastarem. Aproximou a boca do ouvido dela e disse:
- Não gosto de te imaginar sozinha por aí.
- , você 'tá verde! – falou assim que soltou os milhões de cintos de segurança, viu o menino apoiar os braços nos joelhos e respirar fundo.
- Acho que devemos ir no castelo encantado. – ele disse interrompendo o ataque de risos dela.
- Como?
- Agora-nós-vamos-ao-castelo-encantado.
- Erm... Tudo bem. – concordou segurando o riso e segurando também a mão dele. Era legal fazer papel de namorados.
Com passos lentos e sincronizados atravessaram toda a extensão necessária do parque.
- , quero algodão doce... – ela arrastou a voz puxando levemente a blusa do garoto. Ele sorrir com a mania infantil dela de se comportar como criança quando queria algo.
Passaram em frente ao carrinho, apontou para o algodão azul, o homem idoso de jaleco colorido e maquiagem de palhaço entregou-lhe o doce e sorriu. tirou a quantia necessária da carteira e pagou o homem. Passou um braço sobre o ombro dela e tirou um pequeno pedaço de algodão doce.
Os barcos eram ocupados por duplas, abraçados esperavam sua vez. Uma senhora de baixa estatura e olhos castanhos bondosos demais os examinou discretamente, percebeu e sorriu sem mostrar os dentes. A mesma velhinha cutucou seu acompanhante, o homem carregava quase a mesma quantidade de rugas no rosto, tinha o mesmo olhar bondoso.
- Olhe Paul, eles me lembram nós dois. – o tom de sua voz era doce e delicado, assim como seus gestos. A fala da senhora despertou a atenção de , que no mesmo instante acumulou um tom vermelho nas bochechas. – Nós dois, em nossa juventude... Bons tempos.
- Belo casal vocês dois. – o senhor completou as palavras da esposa, automaticamente a mão que repousava no ombro de foi parar em seu bolso. A garota abaixou a cabeça decepcionada. – Não tenha vergonha do que sente, meu jovem. – o senhor terminou aconselhando e tocando o ombro de .
- Por favor, próximas duplas.
viu passar na sua frente de maneira seca.
- , espera...
Os dois caminhavam relativamente distantes, caminhavam pela cidade alta do parque, era quase meia noite. Já tinham ido a todos os brinquedos, sem saber ao certo a razão pararam de caminhar. A vista era bonita dali.
Com um impulso sentou na pedra, seu olhar estava preso no rosto de . A maneira violenta como o vento batia ali fazia os cabelos chicotearem seu rosto.
- Qual o problema?
- Eu gosto da sua companhia. – como em câmera lenta os lábios de se movimentavam, sentia o mesmo olhar sobre si. – Mais do que deveria.
mantinha a mão próxima a cintura dela, como se a segurasse para não cair.
- Mais uma vez, qual o problema?
- Eu não sei se isso é bom. – não era possível medir a profundidade que os olhos azuis tinham naquele momento. Com um novo impulso a garota desceu colocando o corpo entre a pedra e ele.
- Você sabe que é bom... Pra você e pra mim. – com a mesma velocidade que a luz, sentiu seu corpo esquentar quando os dedos frios de tocaram a pela de sua cintura por baixo da blusa, os joelhos vacilaram e suas mãos começavam a suar. Pela primeira vez não tinha medo da aproximação, podia analisar cada traço do rosto dela. Inalava o perfume que mesmo acostumado sempre lhe dava uma sensação diferente, era como um vício. Traçou desenhos com a ponta do nariz na bochecha dela, queria que seu rosto avançasse. Percebeu que queria aquilo, mas simplesmente não conseguia. Como um bloqueio.
- Talvez não seja hora. – queria negar as palavras que saiam da boca dele, mas não podia. Ele tinha razão, afastou o rosto puxando o ar gelado. – Podemos esperar.
- Eu posso esperar.
- Obrigada por hoje, . – disse tirando o agasalho e pendurando ao lado da porta.
- Você não precisa agradecer. – caminhou até a cozinha, abriu a geladeira à procura do refrigerante. – E... Tudo o que eu faço por você nunca vai ser o suficiente e nunca pense que outra garota vai tomar o seu lugar. Boa noite, . – depositou um beijo na testa da menina e voltou para a sala.
Era possível finalmente entender que a vida é feita por esses momentos.
10
Pela milésima vez, já havia perdido a conta, naquela semana fechava os livros e quase dormia em cima das capas duras. Como aquilo podia ser tão cansativo? Talvez não desse para expressar em palavras o quanto queria se ver livre daquilo. O olhar, sem querer, se direcionou para o monte de envelopes amontoados, eles e seus emblemas sofisticados demais, seus nomes sofisticados demais, seus conteúdos – difíceis – e sofisticados demais. Sacudiu a cabeça e bufou. Para onde olhasse daria de cara com algo que lembrava que sua vida não seria o colegial para sempre. Esticou a mão até a pequena lata de refrigerante que estava sobre a mesa de estudos e matou o líquido que restava. Queria poder adiar o máximo possível a decisão sobre o que faria em sua vida, mas infelizmente precisava fazer algo, precisava ser alguém. Provavelmente sua avó já estava arquitetando planos para sua vida depois do colégio. Algo como assumir seu lugar no comando dos negócios da família. Como se quisesse isso, sabia que nem ligavam para o que queria. Apenas tinha que fazer.
Sabia que para ser alguém não é preciso o nome em uma classe de uma importante faculdade, basta ser você, saber o que faz, saber para o que veio. Se para sua família fosse assim estaria bom, mas não era. Se pudesse transformaria seu jeito de viver em doutrina para todos: Foda-se. O seu jeito de viver é o seu jeito certo de levar SUA vida.
Rodou com a cadeira que estava à frente de seu notebook até se sentir tonta. Sorriu idiota. Poderia ser assim.
Com cuidado observou alguns dos retratos que estavam sobre a mesa.
- , adivinha. Adivinha quem chega amanhã? – Quase pulou da cadeira assim que escutou chamarem. A voz de invadiu o quarto e o menino já estava jogado sobre sua cama. Levou a mão ao coração e não pensou na resposta.
- Não faço a menor idéia. – Disse tirando os óculos de grau e os colocando sobre um dos livros. – Talvez a rainha?
- Como você é sarcástica, não? – Não havia sido sarcástica de propósito, deu de ombros e esperou até que ele respondesse. – Se vamos falar de uma rainha, que seja minha rainha...
- Sua mãe? , sua mãe está vindo? – Ele assentiu freneticamente com os dentes prendendo o lábio inferior.
- Nós iremos busca-la no aeroporto, certo? – confirmou e sorriu junto a .
Marie, mãe do garoto, era importante demais para ela. Era como uma segunda mãe. Marie estudou com sua mãe e as duas se tornaram grandes amigas, daquelas inseparáveis. Logo depois da morte de Claire, Marie lutou pela guarda de , mas acabou que a menina foi obrigada a morar com a tia.
Acordou tranqüila. Precisava tomar um banho e se arrumar, logo mais iria com até o aeroporto para que buscassem Marie. Levantou e foi logo para o banheiro. Sobre a pia estavam espalhadas milhões de coisas, maquiagens, escova de dente, perfumes, até um maço de cigarros estava ali. Ignorou a bagunça e girou o registro deixando que a água morna corresse pelo azulejo do piso enquanto tirava o pijama. Esfregou os cabelos com o shampoo de melancia que costumava usar, brincou um pouco com a espuma formada e logo deixou que o condicionador desembaraçasse um pouco dos fios de cabelo.
Enrolou-se na toalha roxa e foi em direção ao armário.
Pela janela podia ver que o clima não estava frio, nem quente, estava ameno. Tirou uma meia-calça preta de dentro da gaveta, seu short jeans surrado, o All Star maltratado, uma camiseta mais larga e por fim um dos coletes que tinha. Desembaraçou os cabelos e deixou o quarto.
- Pronto? – Perguntou para assim que entrou na sala. O garoto terminava de se arrumar em frente ao enorme espelho do hall do apartamento. Aproximou-se e puxou a calça do garoto pra cima, onde deveria ficar. – Preocupe-se com isso, sabe como ela odeia essas suas roupas que caem.
O saguão do desembarque do aeroporto mais parecia um formigueiro. Em pouco tempo começaria a cuspir pessoas para fora dali. esperava voltar com seu café enquanto nem se preocupava com os olhares tortos das mulheres responsáveis pela ordem no aeroporto, colocou os pés sobre a cadeira estofada da sala de espera e continuou a morder o canto da unha.
Escutou a voz – para ela – assustadora da mulher que anunciava a chegada, partida e afins dos vôos. Naquele momento a voz anunciava a chegada do vôo vindo do Canadá. No mesmo instante que estava no meio do caminho olhou em dúvida para ela e para a porta de vidro, de onde dentro de segundos sua mãe sairia. fez sinal para que fosse atrás de sua mãe e deixasse o café para lá. Por Deus, era sua mãe o café que explodisse. Deixou que um sorriso aberto tomasse conta de seu rosto assim que viu Marie largar as malas e abrir os braços para . Ela que não era dona de uma altura privilegiada se esticou, mas fez questão de levantar a mãe do chão e faze-la rir alto no meio do saguão.
Por um instante sentiu uma saudade maior que a normal de sua própria mãe.
Viu finalmente soltar Marie e apontar para onde ela estava sentada. Marie sorriu como sempre fazia. levantou e pegou sua bolsa da cadeira ao lado, caminhou um pouco e foi recebida pelos braços da madrinha. Aconchegou-se no abraço quente e confortável de Marie e sentiu os olhos arderem, sinal de que algumas lágrimas queriam cair.
Percebeu, assim que se soltou do abraço, que os olhos de Marie estavam um pouco inchados, sua aparência era cansada, sua pele um pouco pálida, muitas diferenças desde a última vez que a viu. Não deixou de ouvir o suspiro pesaroso da mulher.
- Como você mudou, querida. – Marie disse segurando a mão de . – Nem parece mais aquela menina que Claire enchia de lacinhos, já é uma mulher.
Puxou para perto e respirou fundo abraçada aos dois.
- Lar doce lar. Sinto como se nunca tivesse saído daqui.
Os três caminharam para o táxi que os levaria até o restaurante preferido de Marie.
Desde o momento em que sentaram a mesa os três falaram sem parar, Marie explicava como foi ficar sem depois que o menino decidiu voltar para Londres, contou sobre uma história que nem sabia, uma briga entre ela e Juliett há poucos meses atrás. Como se alguém tivesse apertado o botão de silenciar, as vozes cessaram logo depois de perguntar sobre seu pai.
- Filho... Eu voltei para Londres para falar sobre isso. – Ela disse séria, pela primeira vez naquele dia. Repousou os talheres sobre o prato e fez o mesmo. mais parecia uma espectadora.
- O que aconteceu? – Escondido, muito bem escondido, em sua voz estava um certo tom de desespero.
- Eu e seu pai estamos nos divorciando.
A frase foi dita assim. Simplesmente. Marie sabia muito bem que já era grande o suficiente para que não houvesse aquele papo besta de querido, espero que entenda as razões da mamãe. Marie sempre os tratou como adultos.
Mas será que estava pronto para por toa sua maturidade em prática?
O garoto permaneceu estático, abriu e fechou a boca por vezes, mas parecia não encontrar as palavras certas. encontrou a mão do menino sobre a mesa, esticou a sua para que pudesse segura-la.
- Quando isso aconteceu? – Perguntou tentando manter forte a postura.
- Poucas semanas depois de você vir para cá. – Marie respondeu. – , faça as perguntas que quiser, você, mais que todos, tem direito de saber o que aconteceu.
- Qual foi o motivo?
- As coisas já não estavam bem quando você partiu. Sabíamos que você havia percebido. Não queríamos tomar nenhuma decisão sem você ali, mas se tornou impossível quando descobri que seu pai...
- Meu pai e Michelle... – sussurrou mais para ele do que para os outros na mesa. Marie olhou um pouco surpresa, mas logo deixou seus olhos baixos novamente.
- Você percebeu antes de mim... Fiquei intrigada logo depois que peguei você e seu pai discutindo na biblioteca em uma noite. A traição de seu pai foi a gota d’água, .
Como se tivesse acontecido na noite anterior a discussão como o pai lhe voltou a cabeça. Naquele dia percebeu que seu pai não era mais seu herói. Não era mais o homem do qual deveria se orgulhar.
Levantou da mesa e foi até a mãe. A abraçou forte como fez todas as vezes na vida.
- Você não sabe como é bom contar com você, meu filho.
- Você sempre poderá fazer isso. – Soltou-se do abraço e voltou ao seu lugar. – Isso está meloso demais. Vamos voltar a falar, você precisa saber de muitas coisas.
- Então vamos lá, me coloquem a par de tudo. – Recolocou o sorriso contagiante no rosto e voltaram ao almoço como se há pouco não tivesse acontecido um momento tenso e emocionante. – Como está o colégio, a vida, as festas, as garotas, os amigos. Sou uma senhora mais moderna do que imaginam, quero saber de tudo, e preciso que me ensinem a mexer nesse tal de iPod.
- O colégio vai bem, nossas provas estão chegando. Estamos aproveitando a vida, adolescentes normais. – disse naturalmente.
- Como está o , filho? Não acredito que a casa continue de pé com vocês dois morando juntos. – Marie perguntou enquanto cortava mais um pequeno pedaço de carne. permaneceu em silêncio e lançou um olhar discreto e cúmplice para a garota ao seu lado. – O que eu perdi?
- Acho que nas nossas últimas conversas eu não comentei que não estou morando mais com o ... Estou morando com a . – a mão do menino abriu a boca em tom de espanto.
- Eu nunca acreditei que isso fosse realmente acontecer.
As duas estavam paradas no saguão do apartamento esperando apenas achar as chaves de casa nos bolsos. Assim que encaixou a pequena chave em sua fechadura lançou um olhar apreensivo para . Havia convidado sua mãe para conhecer sua casa e nem sabia se estava tudo arrumado. A garota apenas o encorajou, tinha certeza de que a casa estava apresentável.
- Crianças – Marie chamou enquanto olhava os detalhes da casa. -, isso é adorável, simplesmente adorável. O condomínio, o apartamento, tudo. – disse apoiada na bancada que dividia a sala da cozinha.
- Que bom que gostou. – disse jogando o corpo no sofá.
já havia jogado os tênis de canto e deitou no sofá, apoiando sua cabeça nas pernas de . Marie ocupou a outra ponta do sofá, que formava um L na sala. A postura de continuava completamente relaxada, cotovelo no braço do sofá e cabeça apoiada na mão direita.
- Filho, você não em disse como vão as garotas. – Automaticamente o garoto enrijeceu o corpo. – Os pais de Brittany perguntaram de você.
- De mim? – Tentou desconversar, mas pareceu difícil. – Meninas? – Os dedos não paravam quietos, brincavam insistentemente com um enfeite que saia do bolso de sua bermuda. – Nada demais.
- Conta pra sua mãe, Dan. – disse com uma certa acidez.
- Contar o que? – Marie perguntou e quase, quase, por um triz, ele xingou . Deixou para fazer isso mentalmente.
- Eu estou saindo com uma garota.
apenas rolou os olhos. Era bom saber que classificava Tracie como uma garota. Se era garota, era normal, se era normal, não queria nem de longe se parecer com aquilo. Precisava de alguns requisitos para a aparência física se assemelhar, mas se fosse atrás desses seria mais fácil de fantasiar de prostituta. Pensou sozinha.
- , querida. Diga, essa garota com quem está saindo... É uma boa garota? – A menina soltou um riso sarcástico, característico, olhou de cima para e voltou seu olhar para Marie. Resolveu deixar tudo o que havia acabado de pensar guardado em seu consciente.
- Quem sou eu para influenciar as escolhas do seu filho, não é Marie? Ninguém melhor que ele pra responder. – Marie sorriu com aquilo.
- Tracie é... Que diferença faz? 'Tá bom assim pra vocês? – respondeu perdendo a paciência, as duas não perderam o hábito de discutir sua vida como se ele nem estive por perto, ouvindo tudo.
- Melhor mudarmos de assunto... – A mãe do menino disse. – Acredito que vou precisar de ajuda para escolher minha nova casa por aqui.
- Casa? Você vai mudar pra cá? – levantou num pulo.
- Pensei que tivesse entendido. Não volto mais para o Canadá. Daqui pra frente minha vida será aqui. Com vocês.
Os dois acompanharam Marie até a portaria do condomínio, essa pegou um táxi e não permitiu que os dois a acompanhassem até o hotel onde se hospedaria. se jogou sobre o sofá assim que voltaram ao apartamento.
- Por que disse aquilo pra minha mãe? – O garoto perguntou alto da cozinha.
A menina afundou o rosto no sofá, tentou abafar o riso, assim que se sentiu recuperada voltou à posição normal.
- Aquilo o que? Sobre a Tracie? – Rebateu naturalmente.
- Isso mesmo. – Já na sala se acomodou no braço do sofá bem na frente de . – Ela não precisava saber. Não é como se eu estivesse namorando a Tracie ou coisa do tipo. – Observou ela se sentar próxima a ele.
- Você está saindo com a menina já faz mais de semanas, não é o suficiente para sua mãe saber? Ela estava longe de você, queria alguma novidade. Achei legal contar pra ela. – disse um pouco desdenhosa, arqueou uma das sobrancelhas mostrando que aquilo era simples. Virou o rosto para a televisão e vasculhou o sofá atrás do controle remoto. – Você não me disse nada sobre Brittany...
- Você está com ciúmes? – se aproximou, entrelaçou as mãos na cintura da menina e encostou sua testa no rosto dela.
- Talvez. – encarou todas as cores da íris de . – Você sabe o que eu acho da Tracie, por exemplo.
- Olha pra mim... – Com cuidado, colocou o cabelo da menina para trás. – Se eu te disser que ela não significa nada para mim, você acredita?
- Infelizmente sim.
entrou no quarto de e não fez questão de apagar o cigarro que estava em sua boca. Aquele não era um hábito, acontecia apenas de vez em quando, precisava esfriar a cabeça, se distrair, acendia um cigarro. Sabia que tinha sorte por não ser um viciado. Jogou o corpo sobre a cama do amigo e deixou que os olhos se confundissem na quantidade de estrelas pixadas no teto do quarto. Estava em paz, uma semana sem qualquer discussão idiota com , nem Tracie conseguira acabar com aquela tranqüilidade. Escutou se movimentar pela primeira vez desde o momento em que adentrou o quarto.
- Qual é a desse seu rolo com a Tracie? – O amigo perguntou arremessando uma pequena bolinha de papel pra trás. tragou o cigarro e esperou alguns segundos antes de soltar a fumaça.
- Eu não sei. – Deixou o que fumava de lado e respirou fundo. – Preciso acabar com isso logo.
- Ela é gostosa, você não precisa acabar com isso logo.
- O problema é que não a quero do meu lado...
- Isso tem a ver com a ? – perguntou. – Parece tão complicado pra você fazer o que faz com outras garotas com a . Ela é normal, uma garota normal até onde eu sei, claro. Se for esse seu problema, caminhe algumas quadras e bata na porta da Tracie. Acabe com tudo, vá pra cama com ela uma última vez e volte feliz pra casa. – sorriu depravado. Era engraçado pensar que as coisas podiam ser realmente fáceis como havia acabado de dizer.
Talvez fosse realmente fácil, só ele não percebera.
- Foda-se, não vou conseguir resolver isso agora. Tenho que voltar pro colégio. – Levantou e apenas bateu nas costas de assim que passou por ele. O caminho não seria longo, mas não estava com vontade alguma de andar. Subiu em um ônibus que o deixaria na mesma quadra que estava o colégio. Estava matando aula, não parecia muito com ele, Londres tinha dessas, traz a tona algumas coisas que você nem sabe que faz.
Apoiou o corpo na mureta do colégio esperando por um sinal de no meio daquela multidão de alunos. Depois da aula estava combinado que os dois iriam encontrar com Marie. Ela, ao telefone, disse ter uma surpresa para os dois.
- Oi. – Foi apenas o que disse antes que passasse por ele.
- Matando aula? Muito bom. – A garota respondeu irônica. – Eu mato aula, mas pelo menos continuo dentro dos domínios da escola.
- Estava com .
- Tem idéia do que sua mãe quer hoje? – mudou de assunto naturalmente, até deu a parecer que nem se importava com as saídas do menino.
- Não.
Os dois encontraram com Marie em uma cafeteria próxima do hotel onde ela estava hospedada. Pelo que foi possível entender ela já tinha uma casa, havia achado na tarde anterior, fechou o contrato e já comprou o imóvel pronto para recebe-la.
- Prontos para conhecer a nova residência ? – o táxi parou em frente a uma linda casa amarela. O jardim bem cuidado, uma calçada de pedras, a porta de uma madeira escura e um puxador dourado.
- Mãe, é impressão minha ou...
- Sim, a casa de vocês fica no quarteirão de trás. – A mãe continuava com o sorriso estampado. – Antes que mostre sua enorme felicidade em saber que eu mudei de outro continente para a rua da frente, tenho uma surpresinha. Talvez amoleça seu coração.
Os três caminharam para dentro do jardim e o portão automático começou a revelar uma enorme garagem.
- , você tem carteira de motorista, não tem? – Marie perguntou enquanto revirava a bolsa a procura de alguma coisa.
- Tenho, mãe.
- Então está tudo certo. – A mãe estendeu uma chave envolta em um laço azul. – Presente de aniversário adiantado.
pegou as chaves na mão e as olhou sem reação. Com calma apertão o maior botão que estava no chaveiro. Um alarme familiar soou de dentro da garagem e logo os faróis de um carro piscaram. Sorriu para a mãe. Aquele era o carro que queria desde que havia completado seus 16 anos.
- Vá, , é seu.
11
Olá, desaparecida.
Acho que faz tempo que não saímos juntos.
Eu e você. Sem ninguém - mais chato que nós - pra incomodar.
Tenho uma surpresa.
Te pego às oito.
xx.
Segurou o riso nos lábios assim que leu a mensagem de . O garoto estava sentando a exatas três carteiras de distância. Respondeu a mensagem apenas confirmando e guardou o aparelho no bolso da frente da bolsa. Distraída com tudo aquilo só voltou a prestar atenção no que acontecia na sala de aula quando percebeu uma tensão diferente entre e o professor.
- Não gostou? Então foda-se. - escutou o menino dizer. As palavras deixaram sua boca como se fossem facas afiadas.
Não era sempre que se via alguém descarregar palavras tão cheias de ódio para alguém que aparentemente não tem outra função a não ser te irritar. Observou o menino bater a porta com violência e olhou de canto para Haylie que acompanhava tudo de maneira assustada. Não demorou muito para que uma bolinha de papel lhe acertasse.
"O que esse menino tem? O que ele quer da vida?"
Apenas olhou para amiga e levantou os ombros mostrando que nada entendia daquilo tudo. Guardou o papel entre algumas folhas em branco do caderno e voltou a atenção a lousa. Novamente algo lhe acertou.
"Ficou sabendo sobre a festa da Tracie?"
Sempre que ouvia, lia, pensava ou qualquer coisa relacionada aquele nome acontecia, uma sensação estranha de repugnância e uma bile ácida lhe subia a garganta. Se aconteceria outra festa, com total certeza, já estava convidado. Sabia que ele nunca prometera não sair com a menina, mas aquela idéia ainda a incomodava. Escutou o sinal e recolheu o material que estava sobre a mesa antes de sair e esperar Haylie.
Não muito longe de seu campo de visão estava , escorado na parede da sala da diretoria, muito mais concentrado em algo em suas mãos. Naquele momento preferia não saber do que se tratava. saiu da sala um pouco apressado, mas ainda sim apertou o nariz da menina e piscou de maneira engraçada. Já fazia tempo que não via o garoto daquele jeito. Presumiu que se saísse com ele saberia o motivo de tanta felicidade.
- Os meninos vão almoçar com a gente? - Haylie perguntou enquanto caminhavam em direção aos respectivos armários.
- Vão sim. deve estar vindo, agora não vejo desde a hora em que chegamos. - O almoço não poderia ser calmo. A fila estava quilométrica e as duas apenas rolaram os olhos ao verem isso.
Não demorou para que os dois entrassem fazendo um certo barulho no refeitório.
- Queridas! - disse passando os braços pelos ombros de ambas e depositando um beijo na bochecha de cada uma.
- Qual foi o bicho que te mordeu? - Hay perguntou entrando na brincadeira.
O salão barulhento e abarrotado de alunos não foi a escolha dos quatro. Passaram pela porta que os levaria ao jardim do colégio onde sobravam mesas livres. Infelizmente a natureza e ar livre não compensavam a presença de certos núcleos desagradáveis da escola, podemos citar o topo da cadeia alimentar. Josh, Tracie, Tess e Chris.
- Hey, ! - Reconheceu o timbre ardido de Tracie. Mas não foi isso que a incomodou, o desagradável foi ouvi-la chamar pelo apelido que apenas ela usava. Chegou a ver um olhar de medo nos olhos do menino, mas ignorou. Evitou a ânsia de vômito que sempre sentia e puxou o chá com dose extra de limão com uma força desnecessária pelos canudinhos. Agradeceu por estar de costas para a garota. - , e vocês dois. Aqui estão os convites da minha festa. - colocou os papéis dourados sobre a mesa. - Vai ser bem divertido.
A menina deixou a mesa e um silêncio tomou seu lugar. deixara todo o pedaço de pizza no prato e divertia-se apenas com os canudinhos de seu chá, completamente mordidos, graças a tensão. e Haylie iniciaram uma conversa na tentativa de melhorar a situação por ali. apenas levantou da mesa levando sua bandeja para adentro do prédio.
Os corredores para sua sorte ainda estavam vazios. Repetiu o mesmo ritual de sempre e subiu até o alto do prédio.
Era uma bela situação a que estava metida. Observava o papel dourado em suas mãos, alguns lutariam por aquilo como se fosse um ticket premiado para a Fantástica Fábrica de Chocolates. Será que era com ela que ele iria ficar? Preferia ela? E era melhor para assim? Apenas rolou os olhos ao perceber como estava sendo ridícula, ridícula como uma garotinha apaixonada pelo capitão de futebol do último ano.
- Foi convidada também? - A mesma voz que mais cedo havia se exaltado falava calma. sentou ao seu lado.
- Pois é. Você vai? - Perguntou indicando com a cabeça o papel dourado que saía de seu bolso.
- Talvez. Vamos ver se as pessoas desse colégio sabem fazer festas. - Disse distraído cutucando um calo em sua mão. puxou discretamente um maço de cigarros de dentro do bolso. Nos últimos dias andava tão nervosa que estava consumindo aquilo de maneira intensa. Não era uma viciada, fumava quando sentia a cabeça tumultuada. Viu o que o roxo do rosto de não passava de uma sombra.
- O que aconteceu para você ser suspenso aquele dia?
- Não tenho paciência para pessoas folgadas como Josh. Ele até foi legal comigo quando cheguei, mas logo depois já estava com aquele papo de superioridade e novatos e tarefas bestas. Tive que avisa-lo que não estamos mais na sétima série. - Rolou os olhos. - Daqui pra frente terei que ajudar a banda da escola.
Olhou o céu já escuro pela janela do quarto. Antes de trocar tentou comer alguma coisa, mas só conseguiu engolir algumas bolachinhas. Olhou a roupa uma última vez e deixou o quarto.
- , 'tô saindo. Não sei que horas eu volto. - disse já fechando a porta. Ao chegar a calçada agradeceu pelo agasalho que colocara, o frio batia forte. Acenou discretamente para o porteiro antes de atravessar a guarita. Ergueu a sobrancelha esquerda ao ver . - Deus, qual foi o banco que você assaltou? - perguntou assim que reconheceu o modelo caro e moderno em que o menino estava encostado.
- Há, imaginei que iria isso. - Afastou-se e fez questão de abrir a porta para a menina. - Mademoiselle?
- Eu não quero nem saber o que aconteceu com o meu . - Sorriu abertamente ao ouvir e deu a volta entrando no carro também.
- Não é a primeira vez que diz isso. Quanto ao carro, foi presente do meu pai. - Colocaram os cintos e assim deixaram a casa dela para trás.
Mais alguns metros e entrariam na estrada.
- O que você quer fazer? - perguntou enquanto aguardava o semáforo mudar de cor.
- Você me chamou pra sair. Imaginei que tivesse algo planejado. - Ele concordou.
- Eu até tenho, mas talvez você quisesse fazer alguma outra coisa. Estou aberto a sugestões.
- Acho que confio no que tinha escolhido. - Respondeu.
- Faz tempo que não te vejo ser tão educada. Não tem hora para voltar para casa, né?
- Não.
Com isso apenas sorriu e voltou a acelerar o carro.
Era alguma música do Gym Class Heroes que tocava no rádio, mais uma vez mexeu contrariada nos botões e esperou encontrar algo que a agradasse mais. Não perguntou mais nenhuma vez para onde estavam indo. Sabia que estava na estrada que os levaria ao litoral, e pelo tempo que estavam no carro não demorariam a chegar.
Foi quando ele finalmente estacionou o carro que percebeu que estava em um lugar familiar. Bournemouth.
Puxou o ar para os pulmões lentamente e relaxou ao sentir o cheiro de maresia. O menino desde pequeno ia para a cidade quando queria ficar sozinho. Sua vó ainda morava por ali.
- Melhor você tirar os sapatos. - Ele disse já jogando os tênis no banco do motorista. A menina não demorou a fazer o mesmo, observou o céu limpo, onde as estrelas eram todas visíveis. Era a primeira vez que ia a praia à noite.
Aceitou a mão que estendeu-lhe e colocou hesitante o primeiro pé na areia.
- Você costuma vir para cá? - Perguntou enquanto sentava de pernas cruzadas como índio.
- Eu venho desde pequeno. Minha vó por parte de pai, Sally, ainda mora aqui. - o menino parecia mais do que distraído com a pequena quantidade de água que ainda chegava até eles.
- Há muito tempo não venho a praia. - disse sem perceber. No fundo lembrava bem, como se fosse no dia anterior, a última vez em que foi a praia.
Flashback - 4 anos atrás
Mais trezentos e sessenta e cinco dias passaram. Naquela semana contaria mais um ano desde a morte de seus pais. Era a primeira vez que pisava em areia desde o dia do acidente. Na verdade poderia afirmar que aquele era o ano em que retomava sua vida, voltava a fazer as coisas que um adolescente normal deveria fazer. Estava deixando de lado o cheiro de suas almofadas e voltando a inalar com vontade o ar do mundo fora da casa onde vivia. As ondas, quase desfeitas por inteiro, alcançavam seus pés de maneira tímida. Os dedos traçavam formas estranhas na areia e não muito longe dali e Phoebe brincavam com um disco plástico.
Distraída, despertou quando Phoebe deitou ao seu lado parecendo manter os olhos grandes olhos castanhos em algum ponto no horizonte que separava a enorme porção de água do céu nublado. Fez um pouco de carinho na cadela Golden, enquanto lentamente, voltava para onde havia largado os tênis. Sentiu o menino envolver seus ombros no abraço desajeitado, mas ainda assim quente e confortável. Com algumas gaivotas fazendo barulho sobre suas cabeças lembrou de uma conversa que sempre tinha com sua mãe.
- Minha mãe acreditava em vida após a morte. Dizia que eu, por acaso, poderia ter sua um pássaro em outra vida. - Iniciou, olhando para o grupo de pássaros que voavam em círculos. - Não sei qual a ligação que ela via entre eu e um pássaro, mas sempre voltava a dizer isso.
- Outra vida... Nunca acreditei nisso. - O menino rebateu.
- Reencarnação, . Agora faz total sentido pra mim, talvez porque eu precise me apegar a algo, não sei, mas é reconfortante saber que de alguma maneira eles não foram realmente embora. Podem estar aqui, podem estar em qualquer lugar. - Tentou explicar, e seus motivos realmente tinham sentido.
- Por que um pássaro?
- Pássaros parecem livres. - apenas sorriu com a resposta. Segurou a menina pela cintura e a fez deitar a cabeça em seu ombro. - Você também pode ser um pássaro se quiser. - ela disse divertida. Com os lábios encostados no alto da cabeça dela disse:
- Se você é, eu também sou.
End of flashback
A paisagem movimentava-se rápida pelo vidro escuro do carro. O cheiro de maresia aos poucos tornava-se mais fraco. O tom escuro que dominava o céu quando saiu de casa já não estava mais presente. Como manchas de um píncel outras cores apareciam, mostrava que o dia já estava perto de nascer. desencostou o rosto do vidro gelado e formulou sua pergunta.
- , você já gostou de alguém? - Não queria que saísse tão direta, mas círculos não resolveriam muito. O menino estranhou a pergunta, mas ainda sim pensou em uma boa resposta.
- Que papo é esse? Gostar de alguém como?
- Você sabe bem do que eu 'tô falando. Gostar de alguém... - Procurava um exemplo em sua cabeça quando foi interrompida.
- Como você gosta do ? - Riu ao vê-la rolar os olhos.
- Não era esse o exemplo que eu queria, mas é de algo assim que eu falo.
- Já. - Foi apenas o que ele disse. Uma resposta tão curta e direta que não pareceu ter vindo da pessoa que há pouco havia feito um leve rodeio para responder.
- Segundo leis femininas eu não deveria ser tão direta, afinal quando uma amiga sua diz que acha um amigo seu interessante, você não pode simplesmente falar. Mas eu não vejo outro jeito de abordar o assunto, entende? - A menina disse seguindo uma linha de raciocínio complexa.
- Haylie?
- Como sabe?
- Oras, ela é a única amiga. Pelo menos a única que eu saiba.
Pessoas de rápido raciocínio podem ser absurdamente irritantes, além de perigosas.
Manteve o silêncio até o carro do garoto estacionar em frente a seu condomínio.
- Pronto, entregue sã e salva.
- Pense no que eu tentei dizer, mas você já sabia. - Disse antes de despedir-se do amigo.
O visor do elevador mostrava que passava das cinco e meia da manhã. Sorriu lembrando há quanto tempo não aproveitava a companhia de alguém como havia feito durante a noite. Bateu as mãos no jeans tentando livrar-se de algum vestígio de areia que continuasse em sua roupa. Ao abrir a porta de casa ouviu o barulho da televisão ligada. Viu apenas o braço de caído fora do sofá. Na TV passava um episódio qualquer de "Coragem, o cão covarde", o menino dormia completamente desajeitado, o que lhe renderia uma bela dor nas costas. Ao vê-lo daquela maneira cogitou a possibilidade de não acorda-lo.
- , acorda. - Sacudiu de leve seu ombro. - , acorda.
- Vai me acordar assim todos os dias?
- Levanta daí. Vai acabar com uma dor nas costas. - Ao ver a menina com a mesma roupa da noite anterior assustou-se.
- Chegou agora? - Perguntou. - Não deixarei mais sair com .
- Vai dormir.
12
- Querida não acho que deva, realmente, se preocupar. - Marie disse para em um tom singelo. Talvez seus olhos deixassem transbordar bondade. - Desde sempre ele sabe o que é certo para ele. Só falta aceitar.
- Infelizmente eu não vou esperar a vida toda. - a menina respondeu. Viu a mãe do menino parar em sua frente.
- Coloque um sorriso nesse rosto. Deixe qualquer pensamento negativo que esteja dentro dessa cabecinha para lá. - com o queixo da meninas nas mãos, terminou: - Saiba que se depender de mim tem a pessoa certa para passar o resto da vida. - sorriu abertamente com a piscada de olho divertida de Marie. - Falando nisso ele já deveria estar aqui.
- Você 'tá falando sério? – perguntou mais uma vez para tentando confirmar o que tinha acabado de escutar. – Escrever? Juntos?
- É isso mesmo. Música. É disso que eu estou falando. – o amigo confirmou sorrindo. – Quem sabe um dia nós não montamos uma banda?
- Você sabe que eu topo! Mas vamos ter que falar disso depois, eu já devia estar no shopping, combinei com a minha mãe e a . – disse colocando carteira e celular nos bolsos e se despedindo do amigo. – Falou, dude.
Bateu a porta do carro e ligou o som, procurou alguma estação que lhe agradasse, mas perecia impossível. O shopping que tinha combinado com sua mãe não era o mais próximo de onde estava, parecia que existiam dias certos para maioria das coisas dar errado. A preferência pelo shopping mais distante se deu graças ao restaurante preferido das duas, tanto sua mãe quanto . Chegava a ser engraçado o número de semelhanças entre as duas.
O trânsito não queria colaborar com sua pressa. Girou mais uma vez o botão do rádio procurando por uma música decente. A melodia era legal, mas no momento não fazia questão de saber o nome. Continuou batucando os dedos no volante até se ver perto do destino.
Parou em frente à porta do restaurante e tirou o capuz do moletom da cabeça.
- Garotas da minha vida. Esperaram muito por mim? – disse dando um beijo na bochecha de cada uma.
- Garota? – a mãe disse apontando para ela mesma. – Depois disso eu perdôo seu atraso .
O garoto sorriu e puxou sua cadeira ao lado de .
- Como foi com o ? – a menina perguntou. – Eu queria ter ido, mas sua mãe me chamou para uma volta no shopping e isso pareceu muito mais tentador.
- Foi bem legal. – respondeu acenando com a cabeça para o garçom que colocava o vinho em sua taça. – Ele me chamou pra escrever umas músicas com ele, legal não?
- Músicas? Isso é maravilhoso, filho. – Marie disse sorrindo. – Me lembro que você andava com aquele violão velho e capenga pra cima e para baixo.
- Eu realmente gostava daquele violão mãe, até você joga-lo fora. – disse falsamente abalado. - Ele planeja tocar em alguns pubs da cidade, conhece alguns donos e bom, disse que precisava de ajuda. Resolvi aceitar.
O cardápio era repleto de massas, molhos e comidas extremamente calóricas e apetitosas. Não demorou muito a fazerem seus pedidos e voltarem a conversar.
- , eu ainda espero o dia em que você vai aprender a cozinhar massa pra mim. – disse tomando o suco de laranja a sua frente.
- Isso não vai demorar. – sorriu e se afundou nos olhos da garota esquecendo completamente da presença da mãe na mesa. – Tem algo que você precisa saber. E você também. – voltando o olhar para a mãe. – Eu não estou mais com a Tracie.
- Como? – a garota colocou o copo de volta na mesa.
- Isso mesmo. – disse com um sorriso enviesado nos lábios e os olhos brilhando. – Eu disse que iria resolver aquilo.
- Filho, isso aconteceu há quanto tempo?
- Uns dias aí. – respondeu com naturalidade.
- Uns dias aí? Você só 'tá me contando agora? – levantou a voz uma oitava e logo tratou de baixar o tom e olhar espantada para . – Acho que eu devia saber disso faz tempo.
- O que importa é que eu não estou mais com ela.
- E isso significa?
- Ai, cansei. - jogou o corpo contra o colchão, largou os cadernos na cama, resumos de Biologia eram desprezíveis, nunca ficavam como deveriam, pequenos. rodava sem parar na cadeira da escrivaninha olhando algumas fotos soltas do mural.
- Ah, finalmente largou isso. - ele disse assim que a cadeira parou de frente para a cama da menina, sorriu de uma maneira que ela conhecia bem.
- Conheço essa sua cara. - apoiou o corpo sobre os cotovelos assim que viu o garoto levantar e caminhar com passos lentos até a beira da cama. - Ah, sai de cima de mim, vou morrer sufocada. - até tentou debater-se para que ele saisse dali, mas no fundo não queria.
- 'Tá me chamando de gordo?
- É sério, sai. - com muxoxos na voz a menina ainda implorava que pelo menos ele saísse de cima dela. Ao invés disso ele apenas apoiou um cotovelo de cada lado de seu corpo. Ela apenas fez o que podia sem despertar nenhum reação que o tirasse daquele momento, segurou de maneira sutil a barra da blusa dele.
- Ainda quer eu eu saia? - perguntou com a boca próxima de seu maxilar. Sentiu vontade de rir com a respiração dela que aos poucos tornava-se descompassada, mas sabia que seria malvado se o fizesse.
Os lábios um pouco frios do menino tocaram a pele descoberta do pescoço dela, transformando a antítese de sensações em um rebuliço no estômago da menina. Aos poucos os pequenos beijos foram subindo, postos em seu maxilar e em direção ao seu ouvido. Lá estavam seus dentes cravados ao lóbulo da orelha dela, surpresa apenas segurou um gemido baixo que fazia força para sair de sua boca. Com as coisas pareciam ter o efeito triplicado ou mais. Beijos e beijos em seu rosto até chegar em seu queixo. Ali depositou uma mordida. Sentiu-se satisfeito assim que a viu de olhos fechados, era impossível descrever o quanto gostava daquilo, a maneira como era estranho e incômodo transformava aquilo em algo bom. Podia sentir o calor que saia da pele dela pela proximidade, os lábios estavam praticamente juntos, sabia que ela iria abrir os olhos a qualquer momento, aproveitou a deixa e encostou de maneira leve e lenta as duas bocas. Um frio na espinha percorreu-lhe assim que sentiu a maciez dos lábios dela, esperou por aquilo, quase não podia mais esconder a vontade que tinha de fazer aquilo. Devagar separou os lábios e soltou o peso do corpo ao lado dela.
Sorriu assim que a viu virar a cabeça em sua direção.
- Nós não temos mais oito anos. – disse quase rindo. A viu morder o lábio inferior e assentir com a cabeça.
- Eu sei. – levantou da cama, calçou as pantufas e saiu do quarto.
O que ele podia fazer? Rir. Um sorriso bobo tomou conta de seu rosto, pronto para levantar a viu mais uma vez na porta, cada braço apoiado em um lado da madeira.
- Ok, eu faço o sanduíche. – ele disse, além de tudo ainda era escravo.
A festa de Tracie estava razoavelmente perto, já era certo que não pretendia aparecer depois do desastre que foi sua tentativa – de início pacífica – de terminar com o suposto “rolo”. Fazia planos com sobre o que fazer naquela noite que seria divertida para todos menos ele. O sinal bateu fazendo ele e levantarem para a próxima aula.
As provas começariam naquela semana, o colégio estava movimentado demais graças a isso. Aulas extras, alunos exaltados, professores ignorantes. Por que passar por aquilo mesmo?
mantinha os livros presos a frente do corpo num abraço forte, caminhava com passos curtos e rápidos pelos corredores agora silenciosos do King’s Ford. Não longe dali era possível escutar o som de instrumentos musicais, na verdade um só. Aos poucos diminuiu o ritmo dos passos e parou em frente a sala de música que ficava, diferente de todas as outras disciplinas extracurriculares, em seu prédio. A porta era de uma madeira pesada, talvez não fosse possível empurra-la sem fazer barulho. Postou os livros em um dos braços e com um pouco de força e a ajuda de seu corpo apoiado contra a porta conseguiu fazer essa se movimentar. Não era a primeira vez que entrava lá, escura, cheia de armários, instrumentos dos mais diversos. De costas para ela estava a pessoa que há pouco fazia os acordes que ecoavam para fora da sala. Sabia bem quem era, já estava acostumada a sua silhueta.
- É isso que acontece quando se briga no meio do corredor? – perguntou deixando os livros em uma mesa não muito longe dali. virou seu rosto e sorriu para a menina.
- Não pense que eu me sinto feliz em ajudar a banda da escola. – respondeu voltando sua atenção para as cordas.
avistou um piano no final da sala, caminhou até lá e puxou seu banquinho, sentou-se e continuou a observar brincar com as notas como se essas fossem velhas conhecidas.
Sabia que deveria estar na aula de Geometria, mas quem ligaria para sua presença. Nenhum dos outros amigos estaria lá, logo, não teria assunto e também não estava com a mínima vontade de resolver expressões quilométricas que não lhe serviriam de nada. Deixou que o som grave que ecoava pela sala entrasse em seus ouvidos, lentamente encaixou as batidas do pé ao ritmo. Como se fosse um imã suas mãos se dirigiram as teclas do piano, com calma levantou a tampa um pouco empoeirada e mirou as teclas. Mais uma vez esperou até seus ouvidos se acostumarem com a melodia e começou a deslizar os dedos – enferrujados – pela superfície. Com pouco tempo as duas mãos já estavam adaptadas novamente. parecia não ter ligado para a intromissão em seu pequeno treino.
Dali a poucos minutos o sinal da próxima aula tocaria, ao lembrar disso parou de tocar devagar e voltou a olhar o menino. Ele também não demorou a parar.
- Agora quando não me achar nas aulas já sabe onde procurar. – disse colocando o instrumento em seu case. Os dois deixaram a sala e seguiram cada um seu caminho.
- O que você disse para ele? Meu Deus, ele não faria isso sem mais nem menos. – Haylie surtava em frente a na mesa ao ar livre no pátio do colégio.
- Eu não falei nada. Seria mais fácil se ao invés de gritar você me explicasse o que ele falou. – era óbvio que ela sabia o que tinha dito, mas era bem mais divertido ouvir da boca da amiga.
- Ele me chamou pra ir com ele na festa da Tracie, tipo eu e ele, ele e eu, no carro dele. – Haylie disse com gritinhos entre as palavras. – Isso foi coisa sua, não foi? Ele nem olhava na minha cara direito.
- Olhava, você quem não percebia. – lançou um pequeno olhar para trás e avistou os meninos. – Agora tente não dar bandeira do seu êxtase.
Os quatro mais uma vez repetiam ali o hábito, lanchar juntos falando coisas inúteis. Havia dias que Tracie não dirigia a palavra a , se não falava com ele por que ela vinha caminhando na direção da mesa dos quatro? Com certeza ela não tinha assunto com ninguém ali, fora .
- , será que eu posso falar com você? – a loira perguntou visivelmente sem graça de estar ali. – Não se preocupe, não tem nada a ver com aquilo. – era visível também sua vergonha de ter sido chutada.
lançou um olhar indecifrável para e essa assentiu com a cabeça, não demorou e levantou seguindo a menina para uma mesa vazia.
- Pode falar Tracie.
- Eu preciso da sua ajuda. – ao ver a cara de quem não tinha entendido apressou-se em explicar. – Eu preciso de alguém para me acompanhar no jantar da empresa do meu pai. – ao ver também que o menino abria a boca para falar, continuou. – , eu já entendi que você não quer mais nada comigo, mas eu realmente preciso que você vá comigo. Eu não quero minha irmã e minha mãe falando mais uma vez que eu estou sozinha e...
- Só um jantar, Tracie?
- Só um jantar, .
- Eu posso fazer isso por você.
- Obrigada. – ela disse baixo demais e sem espera-lo levantou da mesa.
Acabava naquele momento o clipe do Mayday Parade, estava deitada na sala com a mesma roupa que dormiu, era mais um sábado entediante, tinha saído cedo e sabe-se lá pra onde. Na verdade ela sabia, ele até tinha a chamado pra ir junto, mas de birra ela não quis. O barulho de chaves não a assustou, já era hora, afinal a tarde caia e começava a escurecer.
O menino entrou e não disse nenhuma palavra. Não era estranho, bipolar do jeito que era ela simplesmente não se preocupava mais.
Teddy Geiger? Bonitinho até, moreno dos olhos azuis, dono daquelas musiquinhas mela-cueca trilha sonora de reconciliações em seriados estilo colegial americano.
- Oi. – como um espectro apareceu sentado na ponta do sofá em que a menina estava deitada. Respondeu com um ‘oi’ murcho. Percebeu que a atenção dele se voltou para a televisão.
Então era aquilo que prendia a atenção dela? Um cantor de sucessos mela-cueca dignos de seriado colegial americano? Francamente.
Mais uma vez olhou para a menina, mas decidiu não falar nada. Não seria trocado por um videoclipe tosco com cara de ‘lets make better in this summer’. Puxou a perna da menina para cima de seu colo, enquanto uma mão segurava a panturrilha dela, sua mão livre fazia círculos no osso de seu tornozelo. Tinha certeza de que em pouco tempo teria sua atenção.
Olhou e lá estava ela o encarando. Riu e soltou sua perna, esticou a mão até o controle e abaixou o volume da TV, ninguém precisa do cantor mela-cueca. Rápido demais estava com o corpo sobre o dela.
- francamente, eu não caio mais nessas suas brincadeirinhas. – tudo caminhava bem, até ele aceitar a maldita proposta de Tracie.
- Ok, então deixa a TV de lado. – riu alto da cara-de-pau do menino, tirar da musica típica de seriado colegial americano para lhe dizer aquilo. As brincadeiras de nunca acabavam com um bom resultado. Pelo menos não bom pra ela.
- Eu gostei da música e você está realmente atrapalhando. – disse tentando tirar o corpo do menino de cima dela. Sem sucesso.
- Vai dizer que eu não sou bem mais legal?
- Não. Você não é mais legal. Depois que caiu naquela conversa furada da Tracie tenta em agradar com essas brincadeirinhas bobas e no fim me deixa com cara de idiota. Cansei. – respondeu virando o rosto e tentando pegar o controle da mão dele. Ouviu a risada de grudada ao seu ouvido. Podia estar cansada daquilo, mas não significa que não lhe causava arrepios. Ele completamente ciente disso, continuou.
- Você não cansou não. Eu percebi, ta respirando assim por que?. – passava os lábios perto da orelha da menina, ela logo cederia.
- Quando você vai fazer toda essa cena valer realmente a pena? – perguntou, cerrando os olhos e sentindo a respiração quente dele bater em seu ouvido.
- Se você tiver paciência, tudo isso vai realmente valer a pena.
- Antes de você chegar eu ia pra escola a pé, todas as manhãs! – disse mexendo no porta luvas do carro de – Nós moramos a dois quarteirões!
- Eu te acostumo mal, não é? Antes você ia a pé, agora não vive sem a minha carona. – riu. – Acho que eu não faço bem. – desviou o olhar para a menina curiosa futucando em suas coisas. – Ei! Para de ser curiosa.
- Há, o que você esconde aqui? – no mesmo instante uma fileira de pacote de preservativos caiu na mão de , a menina segurava o riso, mas parecia impossível. por sua vez estava vermelho. – Pelo menos você não pretende transformar sua mãe em avó tão cedo. Não precisa mudar de cor não.
- Engraçadinha. E para a festa da Tracie, a senhora já tem companhia?
- Bom, já que a Tracie jogou um balde de água fria nos meus planos de ir com você. Você aceitou fazer parte dessa patacoada. para felicidade da nação convidou Haylie. Eu, logo posso concluir que tenho duas opções.
- Duas opções? Você não acabou de fazer um drama. Achei que não tinha ninguém pra ir. – com cara de poucos amigos ela pediu para continuar com seu raciocínio.
- Em minhas alternativas, aceito o convite do , ou aceito o convite totalmente tentador de Josh. Ele mesmo Josh Harris.
- Prefiro . – aquilo soou extremamente gay, não demorou a se corrigir. – Prefiro , porque nunca fui com a cara do Josh. – apenas sorriu e desceu do carro.
Aquilo era extremamente infantil, tinha noção disso, mas ao ver suas esperanças se esvaindo assim que aceitou aquela proposta ridícula de Tracie foi a gota d’água. Já que detestava Josh, seria com Josh que ela iria a festa.
13
- Você já sabe como vai vestido nesse tal jantar? - apareceu na sala e se juntou a no sofá. O garoto estava jogado e apenas zapeava os canais sem conseguir assistir um só por mais de dois minutos.
- Roupa? - seu olhar indicava que esse detalhe havia passado despercebido. - Não tinha pensado nisso.
- É claro, você nunca pensa nesse tipo de coisa. Levanta daí, vamos comprar alguma coisa pra você. - ela disse e logo levantou do sofá levando consigo o pacote de cookies que estava sobre a mesa de centro.
- Eu não sei se deveria perguntar, mas desde quando você aceita tão bem essa história do jantar? - disse apoiado ao gabinete da cozinha. Viu a menina girar sobre os calcanhares, olhando em sua direção.
- Eu tenho algum tipo de escolha? - indagou. - Eu só espero você fazer tudo isso valer a pena.
Ela deixou a cozinha e foi para o quarto atrás de uma roupa para que saíssem a procura de um terno para o garoto.
Estudos já diziam que shoppings são uma verdadeira arma contra o psicológico de pessoas consumistas. As luzes claras sempre refletindo contra o piso que por sua vez parecia refletir as vitrines. Tudo extremamente chamativo e tentador.
- Essa loja parece ser boa. - apontou para a vitrine de uma loja de alta costura masculina, entrelaçou seu braço ao de e o puxou para dentro da loja. - Você vai comprar algo bonito, pelo amor de Deus. - sussurrou antes que fossem abordados por ma vendedora bem vestida e bonita demais.
Ele foi discreto ao olhar para as curvas do corpo dela que pareciam mais acentuadas com aquele uniforme. Seus olhos, infelizmente, avistaram rapidamente uma aliança gigantesca e além de tudo reluzente no dedo da moça. Desestimulante.
- No que posso ajuda-los? - perguntou solicita.
- Eu procuro algum terno, mas nada com cara de gente mais velha, sabe? Eu já não gosto de ternos... - até se enrolou, mas foi compreendido com facilidade pela vendedora.
- É difícil que jovens como você procurem a loja, mas para sua sorte acho que tenho alguns ternos que ficarão bem em você.
sentou-se na poltrona que ficava bem a frente da porta do provador. Viu a vendedora entregar cinco diferentes ternos a . Ainda contrariado ele entrou no provador e colocou a primeira opção.
- Não. - ela disse logo de cara, assim que o viu vestido em um terno cinza. - Cara de velho.
- Também não. - repetiu assim que o menino apareceu vestindo um terno preto, com gravata da mesma cor. - Cara de motorista.
A menina tentava segurar o riso, mas era difícil. Chamou a vendedora por um minuto e pediu que essa pegasse um terno da vitrine, junto com uma gravata cinza que era exibida em um manequim.
- , esse é o sexto terno. - disse rolando os olhos ao receber o terno das mãos da vendedora.
- Confia em mim, seis é um bom número.
Minutos depois puxou a porta do provador. O terno estava perfeito, o corte e a cor da gravata. Depois de pagar, e parecer satisfeito, acompanhou até a praça de alimentação que para variar estava cheia.
- Vai mesmo com o Josh? - tentou parecer indiferente ao perguntar.
- Sim. - ela respondeu certeira.
- Eu não gosto desse cara.
- O fato de eu não gostar da Tracie fez alguma diferença pra você?
- Não vou voltar a repetir que é um simples acordo. Achei que tivesse entendido.
- Entender não significa concordar.
A semana passou com velocidade. Já era sexta e parecia um pouco perdido.
- Sábia, sua mãe. Bem disse que você ainda não aprendeu a se vestir. - disse deitada de lado sobre a cama de . O garoto cruzava o quarto inúmeras vezes, passando a mão pelos cabelos, tirando e colocando camisas, aquilo apenas a deixava nervosa. - Você pode parar de andar? 'Tá me dando nervoso!
- Acho que 'tô esquecendo alguma coisa. - respondeu, parando no meio do quarto, olhando para o espelho como se esse fosse lhe dizer o que estava acontecendo. até queria ajudar, mas estava muito mais ocupada olhando para o abdômen que, felizmente ou não, estava descoberto graças a camisa aberta.
- Sapato, ok. Calça, ok. Camisa, ok. - ela disse checando. - Terno e gravata, cadê?
- Meu Deus, a gravata. - o garoto tratou de fechar a camisa e abriu o armário para pegar a gravata. Surpreendentemente ele sabia dar o complicado nó. Bagunçou o cabelo, na tentativa de arruma-lo, uma última vez.
- Boa sorte. - foi apenas o que disse antes de receber um beijo no rosto.
Para ele pensar que no fim de tudo, ela estaria o esperando, poderia melhorar a perspectiva que tinha daquela noite. Depois de sair do condomínio não demorou a chegar a casa de Tracie, mesmo em uma sexta-feira a noite, as ruas estavam vazias.
Se aquilo era apenas um trato, não precisava agir como se realmente quisesse aquilo. Tirou o celular do bolso e discou o número da menina.
- Estou aqui na porta.
Segundos depois a garota abriu a porta, apareceu com um vestido que acordou algumas partes do cérebro de .
- Olá, . - ela disse simples ao entrar no carro. Colocou o cinto e fechou a pequena bolsa.
- Bom, me diz, onde fica a casa dos seus pais?
- Na saída 5 da estrada principal. Pero do Vale.
A estrada principal era fácil para qualquer pessoa em qualquer lugar daquela cidade. tamborilava os dedos no volante enquanto sentia sua mão suar. O caminho foi silencioso, apenas alguns comentários sobre a música do rádio ou a semana da escola. Uma grande indicou a saída 5 da estrada. O condomínio era luxuoso, algumas casas chagavam a ser assustadoras.
- Aquela é a casa. - Tracie disse apontando para uma mansão iluminada, com um lago logo a frente.
Alguns carros mais luxuosos que o de estavam parados ali, os pais de Tracie eram donos de uma das grandes redes hoteleiras do Reino Unido. Antes de descerem do carro a menina puxou o ar.
- Obrigada mais uma vez.
- Por nada. Pronta? - desceu do carro e ofereceu seu braço para que ela passasse o dela. Ao entrar na casa foram abordados por um garçom que servia o que parecia ser champagne.
- Vamos achar meus pais e depois podemos ir para o jardim. - ele assentiu e seguiu a menina que de vez em quando cumprimentava algumas pessoas. - Papai, mamãe. - ela disse para um casal que conversava.
- Querida! Estava preocupada pensando se viria ou não. - a senhora disse abraçando Tracie. - Não vai me apresentar esse lindo moço?
- Ah, esse é .
- Claro, prazer, sou Stelle, mãe de Tracie. Esse é Victor, meu marido. - cumprimentou a senhora e logo depois apertou a mão do pai de Tracie, tentou ser discreto quanto à dor que sentiu em seus ossos.
Seu desconforto não poderia ser descrito em palavras. Victor já havia feito um enorme discurso que pelo que parecia não havia causado sono só a ele. Dos quarenta pratos que serviram, quarenta e um precisavam de um esforço sobrenatural para serem comidos. A sobremesa pelo menos era familiar, um belo petit gateu.
- Então, meu jovem, me esqueci de seu nome. - o pai da garota disse.
- , senhor. - disse, tentando passar um pouco que fosse de simpatia.
- ... Seria uma das quatro famílias do Western Bank? - o homem perguntou com um repentino interesse no sobrenome do garoto.
- Sim, senhor. - respondeu. Sua família, mais a de e outras duas formavam um grupo acionário importante no país. Seu antepassados fundaram um dos maiores bancos da Europa.
Percebendo o rumo da conversa, Stelle, resolveu intervir.
- Querida, por que não mostra seu antigo quarto ao ? Creio que ele adoraria conhecer. - sugeriu, e Tracie um pouco sem graça levantou levando consigo. As escadas de vidro cobertas por um tapete vermelho, levou os dois ao andar superior.
De antigo aquele cômodo- Esse quarto não tem cara de ser seu. - disse tentando quebrar o silêncio.
- A casa passou por uma reforma. Há dois anos esse quarto parecia mais um parque de diversões. - a menina riu.
sentou-se na beirada da cama analisando todo o quarto. Quase não percebeu quando Tracie já estava acomodada ao seu lado, olhando para sua mão que repousava sobre a coxa dele.
- Por que não tentamos de novo, ? - ela perguntou. Ele apenas voltou o olhar para ela e tentou achar uma resposta eficaz.
- Tracie, achei que já tivesse entendido.
- Não consigo concordar com isso. Eu sei que você terminou comigo por ela. Mas, será que não é possível esquece-la? Quer dizer, vocês moram na mesma casa, se ainda não estão juntos é porque não é pra acontecer. Só você não vê.
- Não é assim...
- , não pense nisso. Em todo o tempo que esteve morando longe daqui ela estava muito bem com . - aquilo de uma certa forma atingiu o menino. - Eu posso estar do seu lado sempre, porque eu quero estar. - estrategicamente ela se aproximou do pescoço de menino, terminando seu discurso falsamente apaixonado com palavras que chegaram quase sussurradas ao ouvido dele.
Álcool, hormônios, dúvida. Tudo estava somado. Lá estava ele caindo mais uma vez nas garras dela. Não saberia se depois de tudo culparia o álcool, os hormônios e a dúvida, mas naquele instante decidiu deixar que os lábios dela aprofundassem o beijo, suas mãos tirassem suas roupas e seu corpo o livrasse da realidade.
- Acho que vou dormir, querido amigo. - não gostava de conversar por uma câmera, nunca sabia ao certo o que fazer e se sentia vigiada. Naquela noite não tinha o que fazer, havia deixado o garoto que gostava nas garras de um ser que julgava ser santa.
- Você não tem nada melhor para fazer numa sexta a noite? - perguntou.
- Não, nem esperar voltar do maldito jantar eu vou.
- Já disse que fica bonita com o cabelo assim? - olhou discretamente para o espelho mais próximo e não viu nada demais, apenas um coque mal feito, preso com uma caneta e com alguns fios que teimavam em escapar. - Ah, esqueci. Não posso te elogiar, corro risco de vida. Já pensou se o novato/drogado/primo vem atrás de mim?
- Por que não cai morto, Haz? - a menina perguntou sarcasticamente. - Não fala assim do , ele é bem legal, e não é drogado, pelo menos eu acho. - pode ver que ria.
- Vai dizer que nunca reparou naqueles rolinhos que ele vive colocando no bolso?
- O time de futebol inteiro anda com aqueles rolinhos.
- Não vou discutir família com você. Alguém me disse que vai a festa com o Josh...
- Este alguém se chama , por acaso? - riu. - Sim, eu vou com ele.
- Não se esqueça, ele faz parte do time de futebol, logo anda com rolinhos no bolso. - o menino disse rindo escandalosamente.
- Já pedi pra você cair morto hoje?
- Já. - ele respondeu. - Você apenas diz, seu que não viveria sem mim.
- Claro. Bom, eu vou dormir. Vai ficar aí?
- Acho que não, talvez eu ainda saia para algum lugar.
- Boa noite.
- Noite.
Esticou o corpo, fechou o pequeno notebook e se colocou sob as cobertas. Surpresas a esperavam no dia seguinte. Quem sabe esperar dar valor aos sentimentos não tenha sido uma boa idéia.
14
Narrado por
A única fresta aberta da cortina do meu quarto trazia toda a claridade do dia para aquele ambiente escuro. Ao poucos abri os olhos e empurrei o edredom quente que ainda me cobria. O relógio marcava quase uma da tarde, saltei assustada e não tentei entender porque havia dormido tanto em um sábado comum. Só tive o trabalho de lavar o rosto e escovar os dentes, apertei o rabo de cavalo e nem troquei de roupa. Saí do quarto e não deixei de perceber que a porta de estava entreaberta, com cuidado espiei o cômodo e constatei que ele não estava ali, mas as roupas sociais jogadas sobre a cama mostravam que ele havia voltado do jantar. Menos mal.
Ao chegar a cozinha o encontrei de costas para a porta, ocupado com alguma coisa no fogão. Tentando não fazer barulho me aproximei e o abracei, descansando a cabeça em seu ombro.
- Bom dia. - disse, sentindo-o se contorcer para dar um beijo em minha testa. Esticando o pescoço tentei espiar o que havia na panela, não estava com fome, então não me interessei, mas por outro lado algo chamou minha atenção. Algumas marcas roxas no pescoço dele. Me soltei de seu corpo e caminhei até a geladeira para tomar pelo menos um copo de suco. - Como foi ontem?
Minha voz era áspera, e provavelmente ele percebera.
- Bom. - respondeu sem ânimo.
- Era de se imaginar. - coloquei o conteúdo da jarra no copo e xinguei mentalmente por não ter segurado minha língua. Deixei a cozinha indo em direção a sala, na TV nada que despertasse minha atenção passava. Ouvi seus passos quase silenciosos no cômodo e não me dei o trabalho de dar-lhe atenção.
- Você já pensou que as coisas podem ter mudado, e que não são mais como há anos atrás?
- As coisas mudaram. - coloquei meu copo sobre a mesa, o que serviu de intimato para que ele sentasse ao meu lado no sofá. - Sabe qual é a única coisa que eu penso desde que você voltou? Eu penso na minha incompetência. Tudo que eu jurei ter me livrado, esquecido, apagado, curado, ou seja lá o que for, continua aqui. Estava apenas de lado. Eu ocupei minha cabeça com outras coisas. O que eu sentia voltou a tona, e não foi de uma maneira sutil. É como se eu nunca tivesse sofrido, só uma dor que continuou. - dei uma pausa para mim mesma, não queria que minhas palavras saíssem sem controle. - Não pense que era minha vontade gostar de você da maneira que eu gosto. Seria até bom se você não tivesse medo de mim.
- Eu não tenho medo de você. - foi a primeira vez que ele pronunciou algo. - Só medo de alimentar algo que não esteja a sua altura, que não seja o suficiente pra você. Eu te amo. Não adianta agir como se não soubesse disso.
- Só saber que você não tem medo de alimentar qualquer coisa por mim já seria o suficiente pra me fazer sofrer menos. Você não consegue dizer que me ama da mesma maneira que eu digo pra você. - o vi fechar os olhos como se tivesse sido derrotado por aquelas palavras. - As coisas mudaram e você não vai conseguir fugir disso por muito tempo, e eu não vou estar aqui pra sempre.
15
Toda sua atenção estava presa ao barulho reproduzido por sua caneta que batia insistentemente na madeira da carteira. O movimento da mão era automático e ficar naquela sala era entediante. A voz do professor não passava de um chiado no fundo dos pensamentos. Levou a mão que segurava o caderno aos primeiros botões do uniforme, abriu a camisa sutilmente e sentiu por um momento alívio. Se concentrasse a audição apenas no relógio poderia ouvir o barulho dos ponteiros que demoravam demais para dar uma volta completa. Não tarde demais o sinal tocou.
- Vai descer agora? - ouviu perguntar. Olhou e sorriu de maneira simples, não poderia fazer muito.
- Vou juntar meu material e já estou descendo.
Já do lado de fora e atravessavam o pátio conversando calmamente. De longe avistaram encostado em seu carro do lado de fora dos portões do colégio.
- Ei, amigão! - disse animadamente esperando parecer descontraído e assim não chamar a atenção do porteiro para o que estava fazendo, saindo dos limites do colégio.
- Opa, opa, os dois voltem aqui. - socou o ar discretamente e desacelerou os passos.
- Vamos ali fora falar com o , ex-aluno, lembra? - o menino arriscou chantagear o homem.
- Sério, só vamos conversar, estamos na frente da escola não tem como ir embora sem você ficar sabendo e contar pra coordenadora. - disse. - Assim que bater o sinal voltamos.
Com um sorriso derrotado o inspetor deixou que os dois passassem pelo portão. Os três meninos se cumprimentaram, encostou-se no muro do colégio, e permaneceram apoiados a lataria do carro.
- Eu 'tô com uns problemas. - começou olhando para o chão.
- Diz pra gente, quando você não tem problemas? - disse rindo e foi acompanhado por .
- Essa foi boa, cara.
- Eu 'tô falando sério. - rapidamente os semblantes tornaram-se sérios. - Eu e a Tracie, nós...
- Voltaram? - arriscou. - Isso ficou meio evidente pelo jeito como ela te deu bom dia hoje cedo.
- Eu acabei transando com ela. - a fala de saiu baixa, talvez seu próximo passo fosse encontrar um buraco onde pudesse enfiar a cabeça.
- O que você fez? - indagou em um tom próximo ao da alteração.
- Eu transei com ela. - repetiu.
- Eu achei que isso já tinha acontecido, ela não tem cara de presidente do celibato. - disse com um pouco de sarcasmo.
- E a , como fica nisso? - tomou frente da conversa colocando o amigo contra a parede. - Você não gosta dela? - bufou e pressionou as têmporas. - Eu tenho vontade de te socar. Alguém pode me explicar como ela gosta de você?
- Calma. - tentou apaziguara situação. apenas permanecia com o rosto entre as mãos visivelmente arrependido do que tinha feito. - Isso foi na noite do jantar?
- Foi.
Sem jeito e também sem paciência para as perguntas, explicou tudo o que acontecera na noite do jantar. O intervalo estava quase acabando e parecia mais calmo.
- Depois dessas notícias vou embora, combinei de encontrar com a Stacie. - a garota era uma velha conhecida de todos e agora trabalhava em uma famosa loja de instrumentos. - E eu achando que a emoção tinha acabado...
Sem saber a razão da frase, e olharam para trás e não assimilaram bem a visão. atravessava o pátio abraçada a . Mas não eram apenas os três meninos que observavam a cena boquiabertos, todo o colégio fazia o mesmo.
- Você também ‘tá com a impressão de que todos olham pra gente? – perguntou, de maneira engraçada o menino riu e confirmou com a cabeça.
- Espero que continuem só olhando. – os dois fizeram as curva que dava acesso a entrada do prédio. – Pega suas coisas e aí nós levamos pro meu carro.
- , você não vai conseguir sair com o carro sem ser visto. – a menina disse.
- Quem disse que nós vamos sair de carro? – ele colocou a mochila nas costas e desceu as escadas.
Alguém deveria alertar a direção do colégio que aquelas grades que cercavam o estacionamento não eram capazes de contar os alunos. Os dois voltaram a se abraçar assim que chegaram ao outro lado do muro.
- E seu carro que ficou pra trás?
- Depois eu volto e pego. – soltou os ombros da menina e segurou sua mão. – Vamos dar uma volta por outro lugar.
Os dois continuavam caminhando até que parou bruscamente fazendo trombar com seu corpo. Estavam os dois em frente a um beco escuro, daqueles molhados, com canos estourados, goteiras e caixas de papelão.
- Me segue. – ele disse e de repente sumiu. Uma onde de pânico tomou conta dela.
- , aonde você vai? – perguntou, para como estátua, no mesmo lugar. Nenhuma resposta, lentamente moveu a perna direita e depois a esquerda, com passos silenciosos e delicados foi caminhando. Sentiu uma mão em sua cintura e antes que pudesse gritar outra mão se chocou contra sua boca a fazendo calar o grito.
- Não grita sua maluca, a gente nem devia estar aqui. – sentiu seu peito assumir um ritmo mais calmo assim que ouviu a voz de . – Vai na minha frente. – mais alguns passos e se viu em frente a uma parede. Novamente apareceu na sua frente e puxou uma escada bem acabada. – Sobe.
- Erm... Eu to de saia, melhor você subir na frente. – disse sem graça.
- Por Deus, , eu não vou olhar nada. E se eu olhar você nem vai ficar sabendo. – rolando os olhos e bufando a menina colocou as mãos nas laterais da escada e apoiou o primeiro pé. Aos poucos centímetros que subiu pode sentir a claridade tomar conta de sua vista. Tomou um susto ao terminar de subir a velha escada.
Segundos depois lá estava se equilibrando atrás dela. Dali do alto era possível ver quase toda a extensão da cidade, os telhados das casas que de noite como todos sabiam servia de abrigo para os gatos. O menino ofereceu sua mão para , que a segurou tentando se equilibrar enquanto o seguia pelos muros e telhados.
As telhas que revestiam aquele telhado, em especial, eram cinzas, a incentivou para que continuasse andando, com o corpo curvado pelo fácil desequilíbrio, ela segurou na chaminé ali próxima e conseguiu sentar-se no telhado. Pouco depois sentou ao seu lado.
- Maneiro, né? – perguntou enquanto arrumava o corpo no desconfortável lugar. Colocou os braços sobre os joelhos e começou a brincar com a pulseira que envolvia um de seus pulsos.
- Como você descobriu isso aqui? Quer dizer, como você veio parar aqui em cima? – perguntou, algum motivo ele devia ter para começar a andar como um gato pelos telhados das casas vizinhas. Com certeza foi uma das escolhas mais inteligentes que ele podia ter feito, já que a vista era linda. Podia passar horas observando a cidade dali.
- Às vezes eu tinha vontade de desaparecer um pouquinho. Comecei a subir pra cá, logo depois que você se mudou. Foi quando meus pais entraram no fundo do poço. Eles resolviam brigar e então eu saia e voltava quando dava vontade. – rindo dos próprios pensamentos continuou. – Uma vez eu dormi fora, minha mãe quis morrer.
- Julliet. – ela disse mantendo um pequeno silêncio. – Aquela que é quase incompreendida.
- No fundo eu te entendo, nem eu fui capaz de entender o que se passa na cabeça da minha mãe. – disse encostando as costas nas telhas ásperas. – Ela queria que eu fosse de um jeito completamente diferente.
- Ela sempre quis mudar todos. Talvez quem precisasse de mudanças fosse ela.
Se soubesse medir a hora pelo movimento do sol diria que estavam ali há muito, muito tempo. As gargalhadas das piadas de foram interrompidas pelos roncos dos estômagos de ambos.
- Eu não devia ter deixado você sem comer por tanto tempo. Há quantas horas nós saímos do colégio?
- Várias horas. – ela respondeu prontamente.
- ‘Tá a fim de ver uma velha conhecida? – perguntou a ela.
- Velha conhecida?
- A dona dos melhores brownies da cidade. – ele respondeu, e logo lhe veio a imagem de Maria, com seu uniforme, mexendo com todos os itens da cozinha como se esses fossem velhos conhecidos e fizessem parte dela.
- Mas e Julliet? – ele negou.
- Não se preocupe, ela só chega às nove. Temos algumas horas até lá. Pronta?
aceitou a mão que lhe ofereceu e levantou num impulso total de seu corpo. Pela estreita calha do telhado foi caminhando com um pé na frente do outro. Com um salto pequeno foi parar sobre um muro e sentiu seu corpo pender para o lado, cairia se não fosse , este segurou sua cintura e a manteve no mesmo lugar, com um leve empurrão a fez continuar o caminho com cuidado. Alguns minutos depois lá estavam eles pulando o muro e caindo quase que de joelhos nos jardins bem cuidados da casa de Julliet. Com um sinal de cabeça ele pediu que ela o seguisse, a casa não tinha mudado nem um pouco. A porta que dava acesso direto do lado externo para a cozinha estava aberta. de repente saiu correndo e entrou ali. Um grito pode ser ouvido e logo depois gargalhadas, gargalhadas bem características de Maria.
- Maria, tenho uma surpresa pra você?
- Oh querido, já não basta ter aparecido. Não tenho um coração tão forte assim.
- Pare de besteira. Aposto que vai gostar, já volto. – o menino saiu correndo e pegou pelo pulso, com delicadeza a levou para dentro da casa. Escondida pelo corpo de , pisou com cuidado no azulejo branco que revestia a cozinha. Olhou por cima do ombro do menino e não pode conter o sorriso.
- Meu Deus, é você? – com a mão sobre a boca, era possível ver toda a surpresa nos olhos de Maria. – Não acredito, venha cá, me dê um abraço.
Correndo ela quase se jogou nos braços de Maria, apertou o corpo da senhora tentando transmitir ali toda a saudade que sentia. Sentiu a mão dela alisar seus cabelos, as lágrimas subiam em direção aos olhos, e sua garganta começava a embargar.
Maria afastou a menina, e segurou suas mãos a olhando. Via como ela estava diferente, como tinha crescido desde que decidiu sair daquela casa.
- Como pode, senhor. Você já é uma mulher. – tentava esconder o sorriso, mas simplesmente não podia. Era mais forte que ela, como sentia falta de tanto amor em volta de si. Somente o abraço de Maria trazia todos os sentimentos positivos que existiam e que estavam para ser descobertos.
Sentaram os três à mesa, Maria contava animada tudo o que tinha acontecido, disse que seu neto como já era esperado tinha ingressado na faculdade, que sua casa agora era bem maior. e riam alto de todas as histórias, em um certo momento a senhora se levantou e disse que iria preparar o chocolate quente e os brownies preferidos dos dois. Conversa ia e conversa vinha, ninguém percebeu o tempo passar. O susto de ao olhar o relógio despertou todos das lembranças saudosistas, mas maravilhosas que estavam tendo.
- , acho que está na nossa hora. – o relógio marcava dez para as nove. levantou num pulo seguido por ele. Maria desmanchou o sorriso e entortou a boca num bico. – Maria, qualquer dia desses passo aqui e trago a comigo.
apenas sorriu. Maria não a deixou ir embora sem que ela levasse pedaços de brownie para casa.
- Aqui está meu telefone e meu endereço. Um dia em que a megera te liberar aparece lá. – a menina disse antes de sair pela porta. ainda rindo a empurrou pelo jardim. – Eu acho que não dá pra pular esse muro.
- Tudo bem, vamos sair pelo portão de trás. Vem.
No instante em que contornavam o quarteirão viram o carro de Julliet passar.
A casa que morava e que também já tinha sido lar de não ficava longe do colégio. Perguntou as horas para o menino que respondeu: 21h00. Apenas assentiu e continuou seguindo seus passos. O colégio ainda não estava fechado, o horário certo para as luzes se apagarem era 21h30, pelos cálculos daria tempo de chegar até lá pegar o carro e xavecar o porteiro.
assim que entrou no carro ligou o som. tirou o celular da bolsa e constatou 13 ligações perdidas.
- , não?
- Provavelmente.
- Você vai entrar, não vai? – a menina disse na porta do condomínio.
- Eu não acho uma boa idéia. .
- Ah, por Deus. ‘Tá com medo do ?
- Não é medo, é que eu sei que ele não vai com a minha cara. Eu sumi com você por um dia inteiro... Então, fica meio chato. – sorrindo ela apertou as bochechas dele.
- Que gracinha. Vamos, você vai subir. – sem escolha foi puxado até os elevadores.
16
Narrado por
Além de não gostar de chuvas e trovões, tenho uma certa antipatia com elevadores.
Para minha felicidade o visor de cristal líquido mostrou em números digitais que meu andar havia chegado. Com o canto dos olhos vi que continuava relutante em sair do elevador, apenas o empurrei não dando escolha. Vamos lá, não mordia. Quem sabe ladrasse, mas não mordia. Ainda assim era engraçado, nunca imaginei essa cena: com medo . Épico.
Conhecendo bem a pessoa que mora comigo, presumi que a porta estaria aberta. estava bem atrás de mim, abri a porta pronta para gritar pelo nome de . Falando nele, lembro que na semana que passou Haylie me disse: "A pior coisa que fez foi ignorar o fato de que preferiu voltar com Tracie a ficar com você". Segundo ela eu não tenho amor próprio. O que eu respondi? Nada.
Pro inferno ela com as lições de moral e auto-estima super elevada. Sei que a pior coisa que faço é tentar passar por cima das coisas fingindo que não acontecem, mas já basta eu pensando isso, me culpando por erros patéticos. Meus pensamentos revoltosos demais foram interrompidos pela voz de .
- ! Por onde você andou? - a maneira como estava sentando era tensa. - Eu fiquei preocupado. - um tom familiar de superproteção estava presente em sua voz, e aquilo me fez sorrir, mesmo que por dentro. Poderia ser uma noite harmoniosa, poderia.
Bem ao lado de estava Tracie, rolando os olhos. O que aquela biscate fazia sentada no sofá da minha sala? Quer dizer, agora também é de , mas ainda assim, volto a frizar, minha sala. Meu sofá! Que diabos ela fazia ali? Ah, mas como eu pude esquecer? Mais uma vez ela estava grudada como um carrapato no pescoço de . Meus segundos de silêncio acabaram naquele momento.
- Estava por aí, na verdade fui ver a Maria. - disse com um sorriso falso, porém convincente. A maneira como andava repetindo aquilo me levava a acreditar que eu estava ficando boa naquilo. - Pode entra, . - Foi possível transmitir minha felicidade ao dizer isso? Estúpido, eu sei, mas não deu para evitar. Se estava tenso antes, depois de ver então. Sorri mais uma vez. - Acho que você 'tá ocupado, vou lá pra dentro.
Ainda no corredor pude ouvir a voz de Tracie.
- O que foi isso? - ela começou. - Você a idolatra tanto, fica tão preocupado e no fim ela estava passando a tarde com outro... Não imaginei que ela fosse dessas, mas...
- Meça suas palavras perto de mim. - respondeu seco. Fechei os olhos e senti um alívio descomunal me invadir.
- Bem vindo, é aqui que a magia acontece. - disse rindo, entrou e jogou o corpo sobre minha cama.
- Você não gostou de vê-la aqui? - ele perguntou, encostei a porta e me joguei sobre a cama sentando e cruzando as pernas como índio logo depois.
- Tão visível assim? - ele apenas assentiu, sua expressão mostrava tudo o que eu precisava naquele momento, tranquilidade. - Será que ele não percebe que ela não passa de uma vadia? Quer dizer, não estou dizendo que sou melhor, mas por que ela?
- Isso quem pode te responder é ele, e somente ele. Eu só posso conversar com você e ouvir tudo o que você quiser falar sobre isso. – ele respondeu. Naquele momento me senti livre o suficiente para falar tudo o que precisava.
Fim da narração
Já eram quase nove horas e ela não estava pronta. Não que faltasse muito, mas algo ainda não estava certo. Roupa, cabelo, perfume. Não imaginou que fosse ir a festa de sua atual arqui-rival. Parou em frente ao espelho e virou seu corpo de perfil, deslizou as mãos por toda a extensão do vestido que usava, mangas compridas e dois palmos acima dos joelhos. Justo em cima e solto embaixo. Sentia-se incrivelmente confortável. Poderia sair, caminhou até sua escrivaninha e pegou seu convite, o colocou na bolsa e saiu fechando a porta atrás de si.
Dentro de seu quarto lutava contra a gravata, o que faltava para terminar de se arrumar e sair para pegar Tracie na casa dela. Viu aparecer apenas com a cabeça para dentro do quarto, fez uma careta típica de quando não conseguia resolver coisas que ele jurava saber fazer.
- Ô gênio, o nó está errado. Assim nunca vai dar certo mesmo. – disse arrumando.
- E desde quando você entende de nó de gravata?
- Entendo várias coisas que você nem imagina. – respondeu segurando o riso, terminou de arrumar a gravata perto da gola colocando os braços envoltos no pescoço de . Aquela proximidade não passou despercebida por ela. Queria saber controlar os sinais de seu nervosismo com uma simples aproximação. Terminou e deu tapinhas nos ombros dele. – Olha, Josh já está lá embaixo me esperando. Nos vemos por lá. – ele apenas entortou a boca e concordou.
- , - a chamou antes que saísse. – você está bonita.
respirou aliviada assim que saiu do carro de Josh. O perfume ali dentro podia ser incrivelmente tentador. Sem nem perguntar o garoto já havia lançado o braço envolta de sua cintura. Mais uma vez puxou o ar para os pulmões, poderia caminhar sem respirar até a entrada da boate, inalar aquele perfume poderia ser fatal. Quem sabe respirar fundo a ajudasse.
Algum hip-hop quase estourava as caixas de som, ela observava o ambiente à procura de alguém conhecido. Para chegar perto das pessoas que dançavam era necessário atravessar uma passarela. O time de futebol todo já esperava Josh do outro lado, tentou esconder o rosto, mas foi impossível. Barulhentos como só eles, gritaram e se cumprimentaram da mesma maneira selvagem que faziam antes dos jogos. Ou seja, todo o dia, fica a sua escolha.
Batia os pés insistentemente embaixo da mesa, a impaciência começava a se tornar maior que o volume da música por ali. Onde estavam seus amigos?
Como um chamado acenou discretamente do outro lado da boate. Um sorriso apareceu e a impaciência sumiu. Discretamente se aproximou do ouvido de Josh e disse:
- Vou falar com alguns amigos. – em resposta o menino piscou. Aquilo poderia a ter convencido de ficar ali.
Voltou a colocar um sorriso natural no rosto assim que chegou a mesa dos amigos. Aceitou a bebida que lhe estendeu e riu da recepção de , Haylie apenas acenou timidamente e voltou a brincar com o canudo de sua bebida. Aquilo era realmente estranho, Haylie sempre estava fazendo festa e em alguns momentos chegava a ser irritante. Por debaixo da mesa chutou a perna da amiga e fez sinal para que saíssem dali.
As duas caminhavam entre as pessoas e não demoraram a chegar em um lounge bem mais silencioso.
- Acho que aqui podemos conversar. – começou com medo do que poderia ouvir, Haylie nunca havia aparecido triste daquele jeito.
- Não tem o que conversar, nós viemos aqui pra nos divertir. – respondeu num tom ríspido, daqueles que se costuma usar quando quer evitar chegar em algum ponto.
- Haylie, olha pra sua cara de bunda e me diz... Não tem o que conversar?
- Na boa, o já me perguntou, o já me perguntou, meio mundo já me perguntou e eu não falei. Por que falaria agora? – disse aos poucos aumentando o tom de voz, quem sabe o ar livre tivesse sido uma escolha melhor.
- Fala baixo, quer que pensem que está rolando um barraco aqui? – respirou e continuou – Você falaria agora porque nenhuma das pessoas que te perguntou antes de mim já te escutou antes como eu escutei, Haylie, só por isso. Se não for muito difícil, você pode falar logo?
- Tem horas que você consegue ser grossa como o , pelo amor...
- Espera, você não veio assim no carro, né? Com essa cara de velha ranzinza. – perguntou.
- Meu humor só piorou depois que chegamos aqui, satisfeita? – Haylie respondeu rolando os olhos.
- Viu algo que não queria? – quem saber pisar aos poucos no terreno desconhecido que podia ser o stress de Haylie fosse o melhor a fazer.
- Ouvi algo que não queria. – logo tudo ficou claro.
- O que falou?
- Ele me chutou, só isso, me chutou. Quer dizer, ele começou com aquela conversa de ‘talvez seja melhor continuarmos amigos, não quero me envolver com você’. Se ele queria dizer, não garota você não faz meu tipo, falasse na minha cara.
Então era isso, aquela cara de quem comeu e não gostou era por isso?
- Haylie, ele não fez por maldade. Ele só quis ser educado, nem que fosse uma vez na vida...
- ‘Eu não sou o melhor cara pra você’. Ah, por favor, me poupe. – terminou revoltada.
- Nunca imaginei falando isso.
- Não está meio óbvio? Alguém chegou antes de mim!
Rapidamente a lembrança do passeio até a praia lhe ocorreu.
Flashback
A paisagem passava rápido pelo carro, o cheiro de mar aos poucos se distanciava. O céu não tinha mais o tom escuro, agora já tinha se tornado mais claro, mas não o suficiente para avisar que o som esta por vir. Talvez aquele fosse o melhor momento.
- , você já gostou de alguém? – pego de surpresa pigarreou e tentou manter a concentração na estrada à frente.
- Que papo é esse menina?
- Ah, você sabe muito bem do que estou falando. Gostar de alguém, tipo...
- Como você gosta do ?
- Não era bem este o exemplo. Mas me responda, já gostou de alguém?
- Já. – aquela resposta foi tão direta que nem pareceu ter vindo da mesma pessoa que há poucos segundos atrás fazia rodeios para falar.
End of flashback
Assim que voltaram para a parte animada da boate começaram músicas do 30h!3, as duas sorriram, fez sinal para que a amiga fosse dançar e procurar alguém.
Voltou sozinha para a mesa dos amigos. e ainda falavam animadamente, Stacie havia aparecido e a cumprimentou.
- Foi conversar com a Haylie? – perguntou. A garota apenas assentiu tomando um gole da bebida que estava na mesa. – E o que ela tinha? Eu perguntei e ela não quis falar.
- Caro , ninguém gosta de levar um fora. – discretamente olhou para que apenas levou a mão até a nuca e se fez de desentendido. Cínico como sempre.
- chegou, você viu. – ele podia ser muito chato quando queria.
- Como eu ia ver se estava em outro lugar? – ele apenas sorriu satisfeito por levar uma patada.
Olhou para o centro onde todos os populares se encontravam, estava ali, totalmente desconfortável. Com as mãos nos bolsos balançava o corpo como costumava fazer quando estava desconfortável em alguma situação. Aos poucos ele virou e respirou aliviado, disse algo no ouvido de Tracie e veio caminhando na direção da mesa.
- Abandonou a abelha rainha? – perguntou com toda a acidez assim que ele chegou a mesa.
- Um pouco. – revirou os olhos com a resposta, viu encostar na parede e beber o líquido claro de sua garrafa. Apoiou os braços na mesa e levantou mais uma vez, sem satisfações foi até onde ele estava.
- Pelo jeito você não esta se divertindo, não é? – ele falou perto de seu ouvido num tom mais alto graças à música que tornava quase impossível qualquer diálogo num volume normal.
- Você sabe que pra eu me divertir as coisas deveriam estar um pouco diferentes. – respondeu na mesma altura, tomou a garrafa que o menino segurava e virou um gole. Queimando, o líquido desceu a fazendo pigarrear um pouco.
- Se você der importância pra isso, não poderá aproveitar mais nada. Sabe disso, não é?
- Pretendo não me importar mais.
- Então vamos ao primeiro passo. – ele a puxou pela mão até onde maioria das pessoas dançava, todos completamente perdidos, alucinados pela bebida talvez. A concentração de calor sem dúvida era maior, continuou com a mão firme em sua bebida e com a outra envolveu a cintura dela. Rindo e completamente sem graça aos poucos se soltou e seguiu o ritmo da música que ela mal sabia qual era. Seu corpo já estava leve nos braços de , ria das idiotices que ele falava enquanto músicas passavam e passavam.
Voltou a rir assim que encarou os olhares assustados dos amigos que a encaravam. podia ser bem mais divertido em certos momentos. Uma mão tocou seu ombro, assim que virou encontrou os olhos de Josh. Seu sorriso de canto de boca podia ser extremamente mortal. Por incrível que pareça ele não dirigiu a palavra a de começo.
- Será que eu posso? – perguntou para que sorriu e confirmou, de repente ele já não estava mais ali na sua frente, porém não foi embora antes de dizer perto do ouvido de . - Aproveite para não se importar mais. – rindo sumiu entre as pessoas.
Josh não era tão delicado quanto , suas mãos a seguravam com força, mas mesmo assim ainda era bom. A música e a bebida pareciam ter efeito só naquele momento, ou seria o perfume dele? A distância com ele não era das maiores, e se tornou nula em certo momento da música que ele aproveitou para puxá-la para ainda mais perto. Podia sentir o hálito dele batendo contra sua boca e aquilo era bem, bem provocador. Podia esquecer de outras coisas com aquilo, aquilo mais bebida, perfume e música. Sua boca encostou lentamente em seu maxilar e foi subindo aos poucos até chegar próxima a sua boca. Fechou os olhos e deixou que a música dopasse seu cérebro e que seu corpo agisse como bem entendesse.
17
- Eu já disse que não gosto do Josh? - perguntou de braços cruzados encostado na lateral da porta do quarto de .
- Eu já disse que não gosto da Tracie? - rebateu sorrindo, retocava o brilho labial em frente ao espelho de sua penteadeira. Fechou o pequeno tubo e foi até a cama onde uma bolsa a esperava. - Não precisa se preocupar. Sei me cuidar sozinha. - disse próxima ao garoto.
Saiu dali direto para a sala, olhou para o cômodo uma última vez e lançou um beijo para . Ele apenas fingiu que pegou e assim que a porta bateu, jogou o corpo contra o sofá. Fechou os olhos colocando os dedos nas têmporas. Passaria a noite sozinho, provavelmente com cervejas e algum jogo de futebol. Seus pensamentos que vagavam atrás de alguma opção interessante e não tão cheia de tédio foram interrompidos pelo toque alto do celular que estava no bolso de trás de sua bermuda. Rolou os olhos assim que viu o nome que estava escrito no visor, respirou fundo e atendeu.
- Alô. ‘Tá tudo bem. Nada, não to fazendo nada. Sair? Não, não to afim. Na boa Tracie, não vou sair. Eu não quero. Sim, vou ficar aqui sozinho. Para de insistir, já disse que não ‘tô afim. Chama a Tess e aquelas outras amigas suas e sai, eu NÃO quero ir. Meu Deus, só um pouco de paz. Me esquece, só hoje!
Assim que disse a última resposta as perguntas insistentes e chatas da namorada jogou o celular na outra ponta do sofá vendo o aparelho quicar. Levantou e arrastou os pés até a cozinha.
Olhou para as panelas e sorriu idiotamente.
- Você precisa aprender a se planejar melhor, . - disse para si mesmo. Só porque tinha pedido que ele aprendesse a cozinhar, fez questão de aprender. Pra mostrar o quanto tinha se esforçado preparou o macarrão que ela mais gostava, surpresa, ela não estava lá para comer. Quem pode julga-la? Talvez não tivesse percebido, mas desde a hora em que começou a se arrumar a mesa estava posta para dois.
Depois de minutos absorto em pensamentos, colocou a travessa de talharim na mesa e se serviu.
A garota caminhava com passos pequenos, mas rápidos em direção a portaria do condomínio. Por várias vezes seus órgãos pareciam se comprimir e depois darem voltas intermináveis. Tudo aquilo era emoção ou medo?
Chegou a portaria do prédio e encontrou Josh bem vestido e encostado no carro importado, diferente daquele em que a levou para a festa de Tracie, provavelmente presente do pai. Assim que o cumprimentou sentiu a vista escurecer e quase caiu para trás graças ao maldito, cheiroso e atraente perfume dele. Para melhorar sua situação o silêncio parecia instaurado para nunca mais acabar. Ele apenas encostou a mão na dela e brincou com seus dedos.
- Vamos? - perguntou, assim que a menina assentiu abriu a porta do passageiro.
dava pequenos goles no suco que estava na sua frente enquanto brincava de enrolar e desenrolar os fios de massa em seu talher, aquilo não podia estar mais decadente. Deixou a cabeça se apoiar no pulso e largou o talher no prato.
Josh deu partida no carro e logo em seguida ligou o cd player, a música estava baixa o suficiente para passar despercebida. Olhou para ela como quem queria dizer alguma coisa e apenas sorriu, ela retribuiu o sorriso e voltou a apertar a mão sentindo as unhas fazerem pressão na palma.
- Achei legal não ter recusado meu convite. - disse com os olhos fixos na rua. Desta vez sorriu mostrando os dentes, como poucas vezes fazia. Voltou a olhar a paisagem que passava pela janela. Aos poucos o carro foi diminuindo sua velocidade, o que podia haver de tão interessante naquela rua?
Definitivamente não conseguiria comer. Levantou da mesa e levou seu prato até a pia, despejou todo o macarrão que havia restado no pequeno lixo. Voltou a mesa e pegou a travessa e levou até o forno. Seu final de noite parecia, mais uma vez, promissor.
- . Posso ter chamar assim, ou prefere ? - Josh perguntou quase cuspindo todo o charme que era enrustido nele. Ela apenas assentiu perdendo aos poucos as palavras. Nunca tinha agido daquela maneira, como uma garota idiota na frente do ídolo do colégio. Naquele mesmo instante sua mente voou para o colégio. Com tantas garotas lá, qual foi a razão para escolher bem ela? A garota excluída que não falava com ninguém a não ser , e . Nos últimos meses Haylie foi adicionada a lista restrita de amigos. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Josh mais uma vez. - Eu estava pensando... - cada vez mais ele se aproximava. Como as coisas são rápidas no primeiro encontro dos dias de hoje, não? Na verdade aquele não era o primeiro encontro afinal ele já tinha levado a festa de Tracie. -, na verdade ando te observando a algum tempo. Tão bonita e diferente das outras, não devia perder seu tempo andando ao lado do ... Não acho que ele seja o cara ideal para você. - podia sentir seu hálito de balinhas batendo contra seu rosto.
Sentado na cama, dedilhava alguma melodia no violão, completamente distraído. Frases começaram a se formar conforme trocava os dedos de casa, parou por um instante e pegou uma caneta na cabeceira da cama e um caderno.
- Josh... - ainda não conseguia entender qual era o real motivo da fala do garoto. -, não tente me dizer quem é certo pra mim. - sabia que andar com seus amigos e era a melhor coisa que fazia. Ficou um pouco abismada com a cara de pau do menino, a chamar para sair e ainda querer dar pitáco em sua vida. Por favor.
- É sério, . Olha só pra ele. – ele agora tinha o tronco praticamente todo sobre a menina. Delicadamente os dedos dele tiraram uma mecha que caia em seu rosto e a colocaram atrás da orelha de . Aquilo podia ser um empecilho enorme para a sanidade mental dela, tudo que aquele cara fazia soltava charme. De maneira quase imperceptível colocou as mãos contra o peito dele no intuito de o afastar. Quase sussurrando ele disse: - Eu posso te oferecer coisas que ele não pode. - nesse mesmo instante ele juntou os lábios aos dela com uma certa força, a prendendo entre o banco e seu corpo, uma mão deslizou com destreza até sua cintura, não demorou a fazer o contorno dos lábios dela com a própria língua pedindo passagem para o beijo.
Relutante ela ainda tentava dizer:
- S-sai, sai Josh! - sua força parecia nula perto dos braços fortes do garoto que a envolviam de maneira impossível de sair. Sim, seu esforço era inútil. Correspondia de maneira forçada, queria se livrar, mas parecia impossível. Aos poucos as mãos dele sentiram-se livres o suficiente para passear por todo o corpo dela. A pressão que as palmas de suas mãos fazia sobre as pernas dela mostrava a falta de pudor daquilo tudo. Queria gritar, mas simplesmente não conseguia.
- Para quieta garota! – ele disse arfante do esforço que fazia para mantê-la parada, o que estava lhe dando um baita trabalho. Com muito esforço ela conseguiu tirar o celular do bolso traseiro da calça enquanto o menino parecia muito mais preocupado em marcar seu pescoço, e despreocupado com os empurrões inúteis dela.
cantarola baixo algumas palavras enroladas que em seu pensamento logo formariam uma música. Parou de imediato assim que ouviu Miles Apart tocar, alguém estava ligando. Levantou correndo atrás do celular que tinha deixado jogado na sala. Apertou o botão verde e levou o aparelho a orelha, não ouviu nada. Desligou estranhando o nome de no visor, ela estava com Josh, não estava?
Sentiu-se derrotada assim que o visor mostrou um pequeno telefone vermelho indicando chamada encerrada. Aquilo não a fez desistir de tentar empurrar o garoto para longe dela. Seu pescoço já doía e com certeza já estava marcado graças as mordidas e chupadas sem medida alguma.
- PÁRA! PÁRA JOSH! – ela juntou fôlego e gritou perto demais da orelha dele o irritando profundamente. Sentiu os lábios do menino longe de sua pele por um instante, talvez pudesse ter ficado aliviada. Os olhos dele a encaravam com um misto de ódio e raiva. Talvez lâminas não fossem tão letais quanto aqueles olhos.
- Eu não vou falar pra você ficar quieta mais uma vez. – com aquilo lágrimas se acumularam nos olhos de , e seu corpo perdeu completamente a força deixando a cargo de Josh fazer o que bem entendesse.
Estava preocupado com aquele telefone mudo. Ela não era de fazer essas coisas. Metade da folha esta cheia de frases e palavras soltas.
Não precisa se preocupar. Eu sei me cuidar sozinha.
Estava claro que ela não sabia. Por que ser tão teimosa? Por que não escutar ?
...
- Eu acho que esse pode ser nosso código. – ele disse balançando os pés enquanto brincava com os dadinhos da pulseira da menina.
- 6? - perguntou sem entender o sentido do número.
- Sim, pode ser nosso número, ou sei lá. Algo que só nós dois saibamos o significado.
Para alguns podia parecer extremamente ridículo, mas para eles era apenas mais um ato sem significado concreto que só existia naquele mundo, o mundo deles.
O celular ainda estava preso a sua mão como se estivesse colado, seus dedos pareciam não querer obedecer aos comandos de seu cérebro. Queria e precisava de forças para apertar as teclas certas.
- Atenção! Eu vou bater a foto meninos! – e sorriam de orelha a orelha, vestiam uniformes de baseball exatamente iguais, os dois nas cores azul e branco com um número 6 bem grande na frente, podiam se passar por irmãos. A mãe de fez sinal para que se preparassem pois iria bater a foto. – Digam “xis”!
- XIS!
A mão de Josh passeava por baixo de sua blusa, apertou o botão verde, últimas chamadas, lá estava o celular de ; digitar mensagem; o gosto salgado das lágrimas já tinha chegado a sua boca. 66.
Deu um pulo assim que escutou dessa vez o toque de mensagens do celular.
text message.
6
Seus olhos pararam de imediato na foto que ocupava espaço em sua cabeceira. Ele e abraçados vestindo uniformes de baseball, iguais...
Deixou um palavrão escapar e levantou num pulo, colocou o primeiro tênis que encontrou, pegou as chaves do carro e saiu com um passo mais que acelerado. Estava correndo.
Bateu a porta do carro e colocou sua chave no contato. Socou o volante assim que percebeu que não tinha a mínima idéia de onde ela estaria. Ou talvez até tivesse.
- Pra onde ele vai te levar? – perguntou de uma maneira paternal demais.
- Não sei. Talvez o Jeffrey’s. – ele a levaria para sair e iria para o Jeffrey’s, ele precisava urgentemente aprender a agradar uma garota.
Escutou os pneus queimando quando entrou na rua à direita. Não demorou a enxergar o carro familiar, encontrava aquele carro todos os dias no estacionamento do colégio. Brecou fazendo barulho, e ao mesmo tempo Josh tomou um susto com o som dos pneus. não se deu o trabalho de fechar a porta quando desceu, travou os dedos na maçaneta da porta do carro prata e importado. Também não se deu o trabalho de tomar cuidado ao puxar Josh para fora do carro pelo colarinho, arfou antes de acertar sua mão fechada no olho do garoto. Não era o suficiente. Estava cego de ódio. Socou e deu chutes fortes demais no estômago de Josh. Perderia a noção do tempo naquela rua vazia enquanto esmurrava Josh que apenas soltava gemidos de dor. Parou assim que lembrou de dentro do carro. Lá estava ela encolhida, tremendo com os olhos cheios de lágrimas.
- Eu to aqui. – colocou-a envolvida em seus braços e beijou sua testa. – Eu to aqui, pequena.
A menina veio todo o caminho dormindo, sem dificuldade a colocou no colo e levou até o quarto. Sentou-se ao lado dela e levou as mãos à cabeça, com a testa apoiada na palma das mãos pensou... Como pode deixar aquilo acontecer? Deixou o corpo cair e encostou a cabeça no travesseiro. Podia passar o resto da vida a vendo dormir. Podia passar o resto da vida ao lado dela.
Acomodou o corpo ao seu lado, passou a mão entrelaçando os dedos ao cabelo dela. Não iria dormir. Iria esperar amanhecer, e iria resolver sua vida.
Aproveitei que você ainda estava dormindo e saí.
É rápido, só vou resolver umas coisas pendentes.
Te amo.
xx.
Após tatear a cama encontrou o pedaço de papel com a caligrafia de . Sentiu o corpo protestar pela maciez do colchão, poderia dizer que um caminhão tinha passado pro cima de si. Prendeu o cabelo num coque frouxo, esfregou os olhos e apertou os mesmo para enxergar a hora no relógio. Quatro da tarde? Como assim quatro da tarde? Por quanto tempo tinha dormido?
Lançou os pés para fora da cama e cambaleou até a porta do banheiro.
Pouco depois da casa de , estava a casa de Tracie. Estacionou o carro e desceu, teria firmeza para acabar com tudo. Balançou o corpo, respirou fundo e apertou a campainha.
- ? – Tracie arregalou os olhos assim que viu o menino parado na sua porta, com as mãos no bolso e uma expressão de dúvida. – O que você ta fazendo aqui?
- Erm... – ele realmente estranhou a reação da menina. – Eu quero conversar com você. Pode ser?
- Tem que ser rápido. – disse fechando a porta atrás de si e saindo para falar com .
- Eu não posso entrar? Não é algo tão simples assim.
- Eu to meio ocupada, . – Tracie disse colocando todo o nervosismo a mostra. Sem querer ao puxar a blusa deixou aparecer o pequeno borrão de sangue em sua blusa.
- Tracie, o que é isso? - perguntou apontando para a barra da blusa da garota - Isso é sangue?
- Não. – agora era claro que suas mãos estavam suando e que o nervosismo não iria ficar despercebido. - Não é nada.
Sem esperar por mais qualquer possível pergunta, abriu a porta e deu de cara com Josh esparramado e aparentemente dormindo no sofá da sala da garota. Olhou para trás procurando por ela e a encontrou com a mão na cabeça encostada no batente da porta.
- Eu posso explicar. - ela apenas sussurrou.
- Explicar o que Tracie? O que ele ta fazendo aqui? – disse as palavras tão lentamente que quase as soletrava, em volta do garoto que estava jogado no sofá havia diversos remédios, curativos e toalhas. O rosto carregava as marcas dos socos da noite anterior.
- Ele chegou aqui... – ela sacudia as mãos de forma desesperada. – Você não podia bater nele desse jeito!
- Não podia? Esse animal... – mordeu o lábio inferior e abaixou o tom de voz. – Eu não gosto nem de pensar.
- Ela mereceu. – foi pego de surpresa. Voltou o olhar para a garota e permaneceu atônito. Como assim ela mereceu?
- O que você quer dizer com isso? – ele perguntou tentando camuflar a raiva que estava borbulhando em suas veias. Pegou a menina pelos ombros e sacudiu sem muita força. – Tracie, o que você quis dizer com isso? - ela apertou os olhos e comprimiu os lábios.
- FUI EU! EU PEDI PARA ELE SAIR COM ELA, EU PEDI PARA ELE CONQUISTA-LA, EU QUERIA ELA LONGE DE VOCÊ! – a menina gritou escorregando até se sentar no chão, seu choro havia se transformado em soluços altos. – Foi só porque eu te amo. Foi por amor. Foi porque ela não te merece, amor. Por favor me perdoa.
passou as mãos pelos cabelos e sentiu - por um breve segundo - sua visão escurecer. Afastou-se com passos curtos do lugar onde Tracie chorava desesperadamente, naquele momento qualquer um que passasse por ali teria pena da garota chorosa no chão. Para ele o único sentimento que cabia a cena era nojo, repulsa.
- Fica longe de mim.
Primeira parte do seu plano de resolução de problemas que apenas pesavam em sua vida estava resolvida. Tracie já não era mais um problema, agora era apenas um fantasma. Parou o carro em uma rua vazia bem embaixo de uma árvore. Colocou os pés sobre o banco e levou as mãos até a cabeça. O que tinha feito para receber aquilo?
Tracie mal o conhecia quando começou a mostrar um interesse diferente das outras garotas. Conversaram durante as aulas, conversaram nos intervalos, aulas de laboratório, atividades obrigatórias de tarde no colégio. Ela parecia ser legal, apenas se assemelhava a um camaleão quando estava em determinadas situações. Isso se mostrou verdade no dia em que saíram pela primeira vez, naquele dia ela parecia extremamente possessiva. Qualquer menina por perto era motivo para reações estranhas. Bateu na testa assim que percebeu que um dos grandes erros foi te caído nas garras dela. Ter retribuído o primeiro beijo foi o mesmo que assinar o contrato com o diabo.
Por várias vezes se referia a de maneira esnobe, não só a ela, mas também aos outros amigos. Certos momentos também conseguia ser uma menina normal, legal. Naquele momento só podia ter uma certeza: Tracie era doente.
destrancou a porta e entrou no apartamento, antes de ir atrás de e seu real objetivo, passou na cozinha e tomou um pouco de água. Assim que encostou o corpo na pia sentiu um choque graças ao contraste de temperaturas. Seu coração batia num ritmo dez mil vezes mais rápido que o normal. Tinha certeza do que faria, só dependeria dela. Queria ter certeza de que ela também queria. Colocou o copo na pia, respirou fundo soltando todo o ar pela boca e finalmente começou a caminhar em direção ao quarto onde a tinha deixado dormindo.
- Pensei que você não voltaria hoje. – a menina disse assim que ele apareceu no quarto. – Espera ai, vou tomar um banho. - assim que leu o bilhete de lavou o rosto e voltou a se encolher na cama, por motivos maiores não sentia segurança nem ao menos para se mover de onde estava. Não saiu do quarto até voltar.
Para os ouvidos dele até os ponteiros do relógio sobre a cama dela eram barulhentos demais, quase podia sentir seus neurônios trabalhando.
saiu do banho e encontrou no mesmo lugar, observando algo do lado de fora pela janela, um pouco embaçada devido o frio exterior e o ar abafado dentro do quarto. O garoto se mantinha tão concentrado que talvez fosse mesmo possível ele enxergar algo naquela escuridão. Passou por ele e deixou o corpo cair e suas costas se encostarem no estrado de madeira da cama, podia abraçar os joelhos e manter em seu corpo a temperatura do banho recém tomado, mas não, apenas começou a formar desenhos desconexos na coxa com a unha que estava um pouco cumprida. Mais uma vez, seguindo a rotina, o hábito que já estava em sua vida, olhou para ele. O pequeno feixe de luz de luar o atingia transformando sua imagem em algo que deveria ser guardado pro resto da vida.
- Eu queria fazer uma coisa. – ele disse tirando o olhar da rua e olhando para a menina distraída e de cabeça baixa. – Mas eu preciso da sua ajuda.
Depois de ouvir as palavras de , levantou a cabeça, se mantinha apreensiva, levou a mão direita à boca e involuntariamente começou a mordiscar o canto do dedo indicador.
- Também preciso saber se você quer. – uma luz do lado de fora começou a atrair a atenção de . Iria se fixar ali, ou não. Ao olhar para ela percebeu o quão brilhantes estavam seus olhos, talvez mais brilhantes que a luz que a pouco o atraíra. Caminhou e sentou na ponta oposta da cama, ainda olhando para ela. Viu a menina mexer a cabeça, assentindo, incentivando-o a continuar e fazer o que tanto queria. – Vem aqui.
Num movimento lento a garota apoiou o peso do corpo nos dois joelhos, um à frente do outro chegou mais perto. Abaixou mais uma vez na altura dele.
- Confia em mim? – perguntou já sabendo a resposta, não era prepotência, apenas sabia que a menina lhe confiaria a vida se preciso. A viu fechar as pálpebras lentamente e mais uma vez assentir.
Tão confiante.
Será que deveria mesmo? Deveria colocar tudo em jogo?
Deveria, não iria voltar atrás em algo que o consumia.
Ao vê-ela abrir os olhos, uma ansiedade começou a tomar conta de seu corpo, iria manter-se calmo.
Narrado por
Eu tinha saído de um banho quente há pouco tempo, porém pude perceber que a pele dele era mais quente que a minha, o calor passou para mim assim que senti sua mão tocar de maneira delicada a lateral do meu rosto, sua outra mão aproximou meu corpo do seu com um puxão leve. Mantinha minhas mãos no mesmo lugar. Por que diabos minhas mãos nunca tiveram um rumo certo nessas horas?
Queria ter certeza do que estava por vir, tinha quase certeza do que estava por vir. Um beijo quase que silencioso perto do meu ouvido despertou todos os meus sentidos, podia ouvir com clareza sua respiração bem ali. Ela seguia o mesmo ritmo que a minha.
Aquele calor natural que emanava dele me dava calafrios, sentia um frio inexplicável na barriga. Não queria que aquilo mudasse, enquanto me aproximasse dele e sentisse aqueles arrepios estaria feliz. Continuei de olhos fechados, se olhasse diretamente naqueles olhos provavelmente desmaiaria.
Seu lábios estavam tão perto dos meus que eu podia senti-los sem nem mesmo tocar. Ele ficou assim por um tempo, tempo esse que pareceu torturante. Mais uma vez deslizaram pelos meus, sem que eu percebesse ele prendeu meu lábio inferior entre os deles e finalmente juntou nossas bocas. Pressionadas de maneira calma e carinhosa, sua língua contornou toda sua extensão e eu abri minha boca deixando que aquilo continuasse. Depois de tanto tempo aquilo não podia parecer tão certo. Podia sentir a cumplicidade daquilo, a calma, o ritmo perfeito. Podia me sentir feliz por ter esperado. Não tão tarde pude decidir o que fazer com minhas mãos, as coloquei nos ombros dele e assim os movimentos começaram a mudar, estavam mais rápidos e não eram tão singelos como antes. Uma mão se prendeu a parte de trás da minha nuca e começou a brincar de maneira descontraída com meus cabelos. A outra que ainda estava em minha cintura me pressionou ainda mais ao seu corpo. Subi as mãos aos poucos as coloquei em seu pescoço, não queria me desgrudar dele.
O ritmo foi voltando ao de antes e sua dentes prenderam meu lábio. Aquela era a hora em que pararíamos para respirar.
Fim da narração
Os dois se afastaram completamente contra vontade, um rubor tomou conta das bochechas de , permanecia a olhando com uma expectativa. Ela podia dizer algo, iria alivia-lo.
O olhar dela caiu sobre o seu, já imaginava que agora ela não falaria nada, seria ele a falar:
- Eu esperei por isso.
arregalou os olhos. Como assim ele tinha esperado por isso? Quem esperou a vida toda por aquilo foi ela.
- Você quer esperar? – não queria perguntar isso, mas era preciso. infelizmente não era tão impulsivo como ela.
Ele a puxou para que ficassem abraçados, colou os lábios no topo da cabeça dela.
- Se for certo... Será eu e você.
Your world is my world
And my fight is your fight
My breath is your breath
And your heart…
18
Narrado por
A cada vez que me mexia naquela cama me sentia mais confortável, o sono ainda me consumia de maneira árdua, tinha certeza de que não conseguiria abrir os olhos, mover a boca, ou soltar palavras que fizessem sentido. Parece que por mais que dormisse nunca me recuperaria da noite fatídica. Apenas parecia, cada movimento meu durante a noite resultava em um contato direto do meu corpo com o dele. Por vezes - sonhando ou não - senti sua mão afagar meus cabelos esparramados no travesseiro, acariciar meu rosto, tirando um sorriso - alucinado ou não - dos meus lábios.
Podia sentir a luz dos raios matinais invadirem meu quarto, mas não queria abrir os olhos. Apenas me mexi mais uma vez, sabia que ele estava ali, que ainda estava comigo. A palma de sua mão envolveu meu rosto de um jeito diferente de todas as outras vezes que tinha feito isso, sua boca tocou a pele do meu rosto e então senti o peso do colchão mudar. Aquilo tinha sido tão leve, tão suave que talvez fosse imaginação. Rolei para o outro lado da cama, percebi que não poderia mais adiar a decisão de abrir os olhos e sentir ardor graças a claridade. Meu quarto não podia estar mais normal, tudo parecia tão normal.
Depois de anos de expectativa, agora não seria o momento em que corações alados começariam a explodir em volta da minha cabeça?
Balancei a cabeça negativamente, não é assim que as coisas devem ser, . Deve ser natural. Mas será que podia ser natural?
Eu esperei tanto tempo para vê-lo daquela maneira, para senti-lo me beijar daquela maneira, para que ele mesmo dissesse que queria me beijar. Levei a mão a cabeça e enrolei o cabelo num coque mal feito. Joguei as pernas para fora da cama e caminhei meio cambaleante até o banheiro. Meu reflexo estava melhor do que na última vez que acordei de horas seguidas de sono. Lavei o rosto e escovei os dentes. A água podia fazer muito por uma pessoa na hora em que ela acorda.
Encaixei as pantufas nos pés e sai do quarto. Um cheiro ótimo vinha da cozinha e na mesma hora fez meu estomago protestar por comida, sem entrar na cozinha reconheci: torradas. A visão de cozinhando podia ser extremamente agradável. Encostei o corpo na parede, entrada da cozinha, e não pronunciei uma palavra. Observar era bem melhor. Vê-lo de costas me lembrou como me assustei ao perceber que ele estava crescendo absurdamente rápido, mas continuava com as mesmas manias, tipo o hábito de colocar a mão na nuca quando não sabia o que fazer. Ri sem fazer barulho e encontrei seus olhos assim que ele virou, um sorriso enviesado em seus lábios me atraiu como um imã. Antes que pudesse me desgrudar da parede ele já estava na minha frente. Suas mãos envolveram minha cintura e sua testa colou na minha. Minhas mãos foram até seus ombros que por um acaso que estavam descobertos. Essa mania de levantar e andar pela casa apenas de bermuda podia ser letal.
Mais suaves que na noite anterior seus lábios tocaram os meus num selinho demorado. Fechei os olhos e só voltei a abri-los quando senti falta de sua boca, seus olhos me observavam enquanto seus dentes prendiam o canto do lábio,
- Bom dia. - ele disse num tom de voz baixo. Apenas movimentei a boca sem pronunciar som repetindo a mesma fala. - Dormiu bem? - assenti. Suas mãos me soltaram e eu caminhei até a mesa. - Deve tá com fome, né?
- Um pouco. - ele voltou a me olhar e corrigi. - É, estou com fome.
- Imaginei. - disse rindo e colocando o prato cheio de torradas douradas sobre a mesa. Não me aguentei e logo peguei duas colocando-as no prato. Leite na caneca, estendi a mão até o achocolatado.
Como é bom encher a barriga de coisas nada saudáveis. Passei a refeição toda sendo observada, não me preocupei em falar nada. Não naquele momento. Afastei a cadeira, levantei e recolhi as coisas da mesa. Morar com mais uma pessoa não significa que sua casa precisa ser uma bagunça. Recolher as coisas da mesa já era um começo, não iria lavá-las naquele momento. Assim que passei pelo fogão reparei que tinha algo no forno que eu não tinha deixado lá. Levantei uma sobrancelha e com as mãos na cintura me virei para e apontei para o forno. Ele fez um bico e levantou os ombros.
- Eu tinha planejado minha conclusão de curso culinário. - ele estava brincando, não é? Ele realmente tinha aprendido a cozinhar? - Era talharim.
Senti o corpo mole depois daquilo, não pelo talharim, mas sim pelo fato dele ter aprendido a cozinhar meu prato preferido. Eu nem estava falando sério naquele dia. Ele se aproximou e eu senti meu corpo bater na pia.
- Precisa aprender a comer sem se sujar, tem farelo de torrada na sua blusa. - disse batendo sobre as pequenas migalhas da torrada que estavam sobre a minha barriga. Sua mão parou do lado direito do meu pescoço e seus lábios foram quase imperceptíveis assim que me beijaram. Coloquei os braços em volta do seu pescoço assim que senti sua língua passar pela minha boca. - Fico feliz de te ver assim. - disse me abraçando pela cintura. Era meio óbvio que ele estava se referindo a noite com Josh. Somente aquele nome me fazia sentir a bile subir a garganta. - Pela programação da TV vai passar Across The Universe. Vai ficar aqui parada?
- Tem certeza? - perguntei, por mais que aquilo fosse o que sempre quis, sabia muito bem o problema que tinha com pessoas. Mais precisamente o problema que ele tinha com público. Tinha certeza de que ele não precisava se sentir obrigado a estar comigo na frente de todos. O bem estar dele fazia total diferença na minha vida.
- Absoluta. - disse sorrindo, tirou a chave do contato, esticou o corpo para pegar a mala no banco de trás e no meio do caminho puxou meu rosto. - Agora pouco me importa o que vão dizer sobre isso.
Antes que pudesse pegar minhas coisas no banco de trás ele já estava quase ao lado da minha porta, logo que coloquei o material no colo ele abriu a porta para mim. Olhei para seu rosto, ele sabia bem como eu odiava que me tratassem com esse tipo de coisa. Desci do carro e assim que fechei a porta foi surpreendida por um beijo bem diferente do anterior. Por pouco não deixei a bolsa cair assim que seu braço passou por trás da minha cintura, me afastei e puxei o oxigênio próximo. Sua mão me segurou com mais firmeza e o pátio nunca tinha parecido ser tão grande.
me soltou assim que paramos na frente de seu armário, nossas aulas eram diferentes, me despedi e segui correndo para o meu armário.
- Posso ver que resolveu sua vida. - olhei por cima da porta do armário para saber quem estava falando aquilo, era , para minha diversão seu armário ficava bem ao lado do meu. Ri e continuei a procura do livro de química. - Eu não tenho conselhos tão ruins assim, pelo que pude ver, claro.
- Você não tem conselhos tão ruins assim.
- Sou um ótimo conselheiro e posse servir de oráculo se precisar. - ele piscou. - Sorte pra vocês dois - ele estava saindo, mas resolveu parar e voltar para onde estava. -, só não se esqueça de que agora ele é "ex" da Tracie. Vai realmente precisar de sorte. - a maneira como falou aquilo podia passar despercebida. Quem sabe a tranquilidade ainda não estivesse realmente para ficar de vez.
Desisti de procurar o maldito livro, já estava atrasada. Subi correndo as escadas e entrei na sala, o professor ainda não tinha começado a aula, apenas me alertou do quase atraso. Haylie sacolejava as mãos de maneira exagerada. Caminhei até o fundo da sala e sentei na cadeira vaga ao seu lado.
- Conta! Quando eu cheguei aqui o grupinho aspirante a Tracie&Tess estava fofocando horrores. Disseram que o te deu um beijo de cinema no meio do estacionamento hoje de manhã... Verdade? - a animação em sua voz fez o favor de me animar também, óbvio que eu não costumava transparecer excitação daquele jeito. Haylie respirava ansiedade.
Olhei para os lados antes de responder.
- É verdade. - abri o caderno tentando agir naturalmente como se nada de fenomenal tivesse acontecido.
- No way... Me explica isso direito, pare de se fazer de coração gelado. - ela disse suplicando, sorri abertamente e me virei totalmente na cadeira.
- Acho que eu e estamos... não sei... namorando talvez? - seus olhos brilhavam e eu jurei ver minha felicidade refletida ali. Era tão bom dizer aquilo.
- Quando e como aconteceu isso? Certeza que não foi de uma hora pra outra. - meu estomago embrulhou assim que lembrei da noite que antecedeu a realização do meu sonho.
- Foi depois do meu desastre pessoal com... - minha voz foi interrompida pelo chamado do professor.
- e Haylie Addams, já chega. A aula começou se vocês duas ainda não perceberam.
Olhei para Haylie e fiz um sinal de depois te conto. Voltei a atenção a maldita matéria que o professor começava a escrever na lousa.
O sinal pareceu bater numa velocidade aceitável, meu tédio podia classificar a velocidade certa para uma aula acontecer.
- Não pense que vai fugir. Venha comigo e me conte tudo. - a pequena mão de Haylie pareceu grudar em meu punho me arrastando para o primeiro banheiro que apareceu. - Aqui é seguro, todas as cabines estão vazias e neste momento vou trancar a porta!
Ri daquelas medidas preventivas contra fofoqueiras e me sentei na pia.
- Eu não sei se quero falar da primeira parte, vulgo encontro com o Josh. - disse apertando a mão. - Vamos direto ao ponto. - ela apenas assentiu - Quando voltamos pra casa eu fui tomar um banho e... Merda, não tem como contar isso sem contar a primeira parte.
- O que tanto te impedi de me contar a primeira parte? Você está tão relutante.
- Foi meio desagradável. - eu podia minimizar os reais efeitos daquilo. Antes que pudesse continuar, ela se sentou ao meu lado na pia, cruzou as pernas como índio e esperou que eu começasse. - As coisas não aconteceram como eu queria com Josh... Pra falar a verdade eu nunca quis que acontecesse algo, o que sinto por é muito forte para sumir com um simples capitão de futebol. - respirei mais um pouco.
"Ao invés de me levar para sair como era o combinado, ele parou o carro no meio do caminho. Começou com umas conversas do tipo ”Por que o , eu sou melhor que ele...".”
Meus pés balançavam e eu sentia um nó subir para minha garganta.
- Ele pareceu não ficar feliz com um não e começou a dificultar um pouco as coisas pra mim. - pela expressão no rosto dela, já tinha entendido o que eu quis dizer. - Não sei o que podia ter acontecido se não tivesse aparecido.
- apareceu pra te salvar? Tipo em filmes de princesa? - apenas dei de ombros, quem sabe fosse como em filmes de princesas.
- Quando voltamos pra casa eu adormeci e só acordei no outro dia de tarde, ele tinha saído. Quando voltou, eu não sei explicar, tinha algo diferente. No jeito dele falar, de se mover, é estranho. Ele me beijou e foi realmente bom. Está sendo melhor do que eu pensei.
- , você não sabe como eu fico feliz por isso, sério. Só tome cuidado...
- Com Tracie. Já me alertaram sobre isso.
Aquela conversa no banheiro resultou em um atraso enorme para a aula de Física. Mas quem aqui ligava?
Depois daquela aula voltei ao meu armário e continuei procurando a droga do livro de química.
Onde estava o maldito livro quando eu mais preciso?
Procurava fazendo uma bagunça ainda maior em meu armário que era um bom exemplo de como esconder coisas para que nunca mais fossem achadas, bufei e apoiei os braços nas laterais de metal. Droga. Bela maneira de começar a semana. Um atraso e um livro perdido.
Um perfume bem conhecido estava por perto, senti a respiração de alguém bater em meu pescoço bem onde a pele não estava coberta pelos meus cabelos.
- ... - tentei manter o mesmo tom de voz, aquele controlado, mas parecia impossível, ao invés de me ajudar e apenas atender o chamado da minha voz ele deu continuidade ao primeiro beijo, começou a distribuir vários, leves da mesma maneira, na parte de trás do meu pescoço.
- - ele finalmente respondeu, desgrudando por segundos a boca da minha pele, infelizmente, para azar da minha sanidade mental, eu já sentia falta do maldito toque. -, perdeu alguma coisa? - precisava responder, mas antes teria que processar toda aquela séries de palavras. Podia parecer absurdamente simples para todas, mas para mim era letal, uma vez que ele pronunciasse meu nome, tão baixo e tão perto do meu ouvido seria o suficiente para não responder por meus atos.
- Eu... - reorganizei o pensamento e corrigi a postura - estava procurando meu livro de Química, não acho de maneira alguma e já estou atrasada. - com um movimento rápido e certo ele colocou o livro no meu campo de visão.
- Estava comigo. - sem nem olhar eu podia saber que ele estava sorrindo. - Vem comigo até meu armário, juro que não vai se atrasar mais. - assenti e deixei que puxasse minha mão a segurando forte.
O armário dele ficava no final do corredor, ou melhor, logo na entrada do próximo corredor. Assim que nos aproximamos pude ouvi-lo sussurrar:
- Eu não deixei assim. - a porta estava praticamente escancarada, deixei que soltasse minha mão e fosse até lá, assim que seu rosto sumiu atrás daquela porta de metal pude ver Spankins, o inspetor, entrar correndo no prédio.
Estiquei o pescoço e pude ver que o armário estava vazio, apenas a tinta azul e vermelha que já descascava aparecia no fundo daquela caixa de metal. A não ser pelo papel que eu tomei da mão de .
xoxo, tracie
Amassei aquilo e joguei no chão, no mesmo instante pude ver Spankins ao nosso lado. Olhei um pouco receosa para , já podia imaginar que sobraria para alguém, e não seria para Tracie.
- Sr. , o que seu material faz no pátio 2? - ele perguntou ofegante, apoiando as mãos nos joelhos. - E daquele jeito? - permaneceu quieto sem entender, tomei a liberdade de perguntar qual era o tal estado do material.
- Daquele jeito como?
- Flamejando, Srta. , flamejando. - admirava a capacidade de lembrar os sobrenomes de quase todos os alunos daquela escola enorme. Troquei olhares com mais uma vez, ele franzia o cenho completamente descrente. Alguém deveria ensinar a ele o tipo de pessoa com quem estava ligando.
Fiz sinal com a cabeça para que fosse logo até o pátio ver o estado do material, eu não queria estar perto, podia sentir desde aquele momento meu sangue borbulhando. Tracie me tirava ainda mais do sério a cada dia que passava. Esperei sumir da minha vista e virei sobre os calcanhares, o esperaria na sala da diretoria, pois tinha certeza que Spankins o mandaria pra lá. Engraçado como o colégio nunca é justo o suficiente com você. Alguém precisava de prova maior para saber quem tinha sido responsável por aquilo, colocar fogo no material de alguém, por Deus.
Os corredores estavam vazios ainda, faltavam mais de quarenta minutos para o intervalo, espiei a sala onde e Haylie estavam tendo aula, os dois estavam de papo enquanto o professor de Geografia cuspia nas primeiras carteiras. A diretoria estava no final daquele corredor. Acelerei o passo antes que algum outro inspetor que deveria estar rodando o colégio viesse me perguntar o que eu fazia fora da aula.
Com cuidado para não fazer barulho, empurrei a porta da sala onde Katherine costumava atender aqueles que desejavam falar com o diretor. Katherine era o bom exemplo de funcionária apaixonada pelo trabalho, desde que entrei naquele colégio Katherine ocupa aquela mesa, foram poucas às vezes, em anos, que fiquei sabendo que ela faltará. As cadeiras da fria recepção estavam vazias. Escolhi a que estava mais próxima do vaso de plantas enormes, quem sabe com muita sorte eu passaria despercebida por ali. Para minha infelicidade a cadeira rangeu assim que sentei.
- Olá, . - ela disse baixando os óculos meia-lua. - A que devo a honra de sua presença? - me senti extremamente sem-graça. O plano era passar despercebida.
- Bom dia, Katherine. Eu... eu, na verdade estou esperando pelo .
- Alguma razão especial? Afinal você deveria estar na aula de Química, não é? - admirável era também todo o controle que ela tinha sobre o colégio e seus alunos, ela não precisou olhar para o livro de Química que, por acaso, eu ainda carregava. Ela tinha como saber que eu deveria estar na aula de Química.
- Provavelmente, daqui alguns minutos, vai irromper por essa porta sendo seguido pelo inspetor Spankins. - disse baixo abrindo o livro no colo, nunca o bolo de folhas me pareceu tão interessante.
- Jovens, jovens. - ela voltou a escrever em alguns papéis que estava sobre sua mesa que era tampada por um balcão, eu realmente não me interessava pelo conteúdo daqueles papéis. - , a senhorita já viu o quadro colocado no corredor da sala de música? - ela voltou a me observar, às vezes fico tão irritada com essa mania de chamar as pessoas pelo sobrenome.
- Não, não vi.
- Se eu fosse você passaria por lá. - ela disse perdendo olhar na parede atrás de mim. - Seu pai está naquele quadro. O antigo time de futebol foi escolhido para estampar o fundo da estante de troféus do colégio.
Sorri sem mostrar os dentes, como de costume, meu pai comentava sobre isso. O nerd que jogava futebol. Ele já havia deixado claro que o que não lhe permitiu ascender na disputa realeza do King's Ford foi o fato de tirar ótimas notas e cuidar do laboratório no tempo livre. Não adiantava ser jogador do time de futebol e cuidar do laboratório, aquilo não dava status.
Despertei com o barulho da porta sendo aberta. Como eu previ entrou sendo seguido por Spankins.
- Como a senhorita ali me disse... - Katherine disse tirando os óculos e os deixando cair sustentados pela cordinha que os mantinha preso a seu pescoço. - Sala do diretor, . - ele apenas passou os olhos por mim e seguiu até a porta que possuía a placa dourada.
Spankins deixou a sala naquele momento, Katherine voltou a por os óculos no rosto. Me esparramei na cadeira e coloquei o livro de Química na frente do rosto.
- Srta. , o que o aprontou? Esqueci de perguntar a ele. - ela perguntou para mim, apenas abaixei o livro e disse:
- Não queira saber, Katherine. Jovens.
Eu esperei demais, esperei e não saiu da sala do diretor enquanto eu estava ali esperando. Escutei o sinal do intervalo do lado de fora e sai daquela sala fria e sufocante. Os corredores aos poucos começavam a encher, me apoiei na porta que dava acesso ao jardim disputado pelos estudantes em dias de sol. Haylie e apareceram logo.
- Fazendo o que ai, ? - Haylie perguntou.
- Esperando , depois conto o que aconteceu. - disse encarando Tess que estava no final do corredor, Tess confidente e metade de Tracie.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou dessa vez.
- Relaxem, acho que no final não deu em nada. Só vou esperar pelo e já vou lá pra fora. - os dois deram os ombros e saíram para o jardim.
Sorri assim que apareceu no meu campo de vista rolando os olhos com uma cara engraçada. O esperei se aproximar e então o abracei pelo pescoço.
- Qual foi o final?
- Comprar materiais novos... - ele disse indiferente, - E não partir o coração de alguém popular e vingativa como Tracie. - disse mais indiferente ainda.
- Você explicou TUDO para o diretor? - perguntei segurando sua mão e finalmente saindo para o sol do jardim do King's.
- Claro, sinceridade acima de tudo! - rindo sentando-se à mesa em que e Haylie comiam conversando algo provavelmente relacionado à próxima festa.
- Finalmente meu querido, agora explique... Qual foi o bafão? - perguntou usando aquela expressão naturalmente.
- Queimaram meu material. - como tudo podia sair tão naturalmente da boca daquele menino?
- Como assim queimaram? Tipo, como fogo? - Haylie indagou mordendo a maça.
- Como você acha que queimam alguma coisa, high inteligence? - perguntei rindo daquilo.
- É, Haylie. Queimaram com fogo. - a respondeu sorrindo.
- Não preciso dizer quem foi responsável por isso, não é? - disse olhando para a mesa da alta realeza. Tracie, Tess, Josh, Marcus e Mark. O mundo podia estar na mão deles, e aquilo seria o fim.
Os intervalos eram tão calmos. Tão calmos que passavam lentamente. Naquele dia, foi diferente, o tempo estava voando e nossos trinta e cinco minutos estavam quase acabando.
- Ela não vai continuar nos atormentando, ela só é aquele tipo de garota que não suporta ser abandonada. - disse baixo e aleatoriamente enquanto brincava com a barra do suéter que eu usava, eu estava ali, de pé bem na sua frente brincando com os fios de cabelo que teimavam cair em sua testa.
- Tenho certeza de que ela não vai mais encher nossa paciência. - respondi mordendo a língua, queria dizer que eu faria questão de dar um corretivo naquela garota. Apenas sorri e deixei que ele me puxasse pra mais perto, senti o banco da mesa na altura dos meus joelhos e resmunguei. Estava feliz de estar ali abraçada com ele na frente de todos, quem diria, na frente de todos. Inclusive Tracie, que cruzava e descruzava as pernas, parecendo nervosa, sentada sobre a mesa do jardim do colégio. Nunca gostei de gente me encarando e aquilo se estendia até Tracie. Chegava a salivar só de imaginar como seria legal e divertido ver a cara de derrotada dela. Quem sabe minha vingança não poderia começar agora.
Assim que terminou de responder e voltou a olhar para mim, fiz questão de me concentrar tentando me livrar de qualquer vestígio de vergonha. Minha mão se enroscou nos cabelos da parte de trás de sua cabeça com uma facilidade admirável. Comecei a me inclinar e quase coloquei tudo a perder, queria rir da cara de assustado que ele estava, não iria perder o foco. Juntei meus lábios aos dele e eu mesma dei continuidade àquilo tudo. Segurei seu rosto com cuidado com a outra mão e senti sua língua me pedir passagem. Apoiei os joelhos no banco e fiquei na sua altura, seriam bem mais fácil.
Puxei seu lábio inferior entre os dentes e sorri.
- Uou... - ele disse perto de mim. Voltei a posição de antes e sorri abertamente com a cara de ódio que Tracie exibia, quem sabe eu pudesse ouvir seu cérebro entrando em pane, seu sangue borbulhando e seu coração em taquicardia. Esperei atender o chamado de mais uma vez e tirei uma das mãos da cabeça dele, por algum motivo eu me sentiria muito bem em quebrar a cara daquela menina, mas sabia que aquele não era o momento. Já estava bom por um dia só. Nem prestava atenção na conversa dos garotos, estava mais preocupada com aqueles olhares da Tracie. Levei a mão até a boca e mandei um beijo estalado pra ela.
Eu sabia que ainda teria a chance de fazer algo pra ela. Algo bem ruim para aquele mundo de vidro em que ela vivia.
Fim da narração
bateu a porta e jogou a mochila com os únicos dois livros restantes no sofá. apertou o botão que piscava indicando mensagens na secretária eletrônica.
Garotos, tenho uma notícia ótima. Na verdade uma proposta. Fiquei sabendo que vocês terão um recesso escolar logo depois dos simulados e pensei... “Será que eles não gostariam de ir com os amigos para a antiga casa de campo de Hill Valley”. Agora cabe a vocês me responderem, me liguem quando puderem. Amo vocês.
Um apito finalizou a mensagem da mãe de . Sue não perdia o hábito de falar rápido como se o mundo fosse acabar, o que demoraria pra dizer, Sue conseguia falar em nove segundos. O garoto envolveu em um abraço a apoiou seu queixo no ombro dela.
- Casa de Hill Valley? Pensei que nem existisse mais. – com um risinho baixo apertou o “delete” do aparelho. Ela sorriu
- Seria legal, não? Podíamos chamar o , a Haylie e o Thomas. O que você acha?
- Eu acho que podemos pensar nisso depois. – caminhou até que estivessem próximos a estante. Viu um sorriso de dúvida surgir nos lábios dela, sabia bem o que queria. Já que tinha finalmente vencido todas as barreiras que o impediram de fazer aquilo antes, aproveitaria ao máximo. Queria provar todas as formas de sentir a boca dela.
Narrado por
Suas mãos pressionaram minha barriga fazendo com que batesse as costas em seu peitoral, senti um arrepio que mexeu até com o último fio do meu cabelo. Pude sentir sua respiração bater no alto de minha cabeça, virei meu corpo mais devagar que o normal. Nunca tinha presenciado esse lado de . Eu nunca tinha sido "a" garota de . Suas mãos ainda estavam fortes em minhas costas, podia sentir o calor que emanava de seu corpo, seu hálito batia em minha boca, seus dentes puxaram meu lábio me fazendo esquecer qualquer tipo de nervosismo ou qualquer tipo de sanidade. Sua mão subiu até minha nuca, seus dedos se enrolaram agilmente em meus cabelos. Minhas mãos praticamente voaram até seus ombros e finalmente perdi minha paciência. Juntei nossos lábios.
Como podia ser tão diferente? Na primeira vez não havia todo aquele desejo crescente. Sua boca fez o contorno da minha, em resposta abri a minha deixando que nossas línguas se encontrassem. Ele explorava minha boca como se a vida dependesse daquilo, apertou as mãos em minha cintura descontando ali a tensão que se acumulava a cada movimento, as mãos deslizaram para baixo da minha camisa do colégio. Continuaria ótimo enquanto suas mãos se movessem daquele jeito.
Nós dois precisávamos de ar, o contato de nossos corpos nos deixava assim. As mãos dele percorrem minha cintura, minhas costas e minha barriga sem perder a velocidade, ao contrário de suas mãos o beijo foi perdendo velocidade, fazendo assim o ar voltar aos meus pulmões.
Beijei o canto de sua boca, seu queixo, seu maxilar. Senti um maldito calor, e eu nem precisava beija-lo pra isso. Somente o barulho da respiração batendo perto do meu ouvido me fazia sentir malditas explosões pelo corpo. Minha respiração era alta, alta e constrangedora. Ele percebeu, e também riu, ruidosamente. Puxei um pouco sua camisa e acabei com aquilo, selinhos lentos até que estivéssemos completamente calmos.
Fim da narração
- Erm... – a menina pronunciou de maneira quase inaudível. Uma decisão rápida.
Com a testa encostada à dela, falou:
- Eu não devia perguntar onde você aprendeu isso. – disse ainda segurando a menina pela cintura.
- Há. Não se sinta ofendido, mas é bom que saiba que não é o primeiro. – a menina disse colocando a mão direita no rosto do menino e depositando um beijo na bochecha esquerda.
- Não fico feliz, mas daqui pra frente você é só minha. – repetiu o gesto da menina.
levou os dedos até os lábios que a pouco estavam grudados nos de .
- Mamãe? – disse ao telefone. Pela primeira vez desviou a atenção da TV para ouvir o que ele falava. Seu olhar encontrou o dele e o viu piscar. – Eu e a escutamos o seu recado. O que acha de jantar com a gente amanhã? – Oh, tudo bem. – Então, amanhã às oito e meia no Memphis. – Também te amo. – Beijo.
Voltou sua atenção para a TV, mas sem sucesso, logo sentiu a ponta de seus dedos na pele debaixo da barra da camisa do colégio. Ele continuava lá, brincando com a barra de sua blusa. Virou o corpo ficando de barriga pra cima.
- Vamos sair amanhã? – perguntou.
- Sim, preciso contar umas coisas para minha mãe. – ele se aproximou. – Sobre uma certa garota. – sorriu com selinho, mas logo ele se afastou. – , hoje eu vou na casa do Thomas. Quer vir comigo?
- Só preciso tomar um banho e tirar esse uniforme.
- Primeiro as damas, . Você é mesmo um ogro. – Thomas disse assim que abriu a porta dando passagem para . – Tudo bem, cara? – ele perguntou fechando a porta. – Tenho umas coisas super maneiras pra te mostrar.
- Suas desilusões amorosas rendem tanto assim, Thomas? – perguntou rindo e pegando no ar a garrafa de cerveja que o amigo havia lhe arremessado. fez o mesmo, mas não arriscou o baseball de garrafas que rolava entre os dois.
- Você não tem noção! – os dois começaram a falar sem parar e por incrível que pareça sem deixar a menina de fora.
Thomas voltou a cozinha para pegar mais cervejas e nesse meio tempo puxou a menina que estava na outra ponta do sofá pra perto do corpo, a menina que mesmo sentada ainda sentia a diferença de altura começou a se esticar. Quase rindo de seu sacrifício ele abaixou facilitando tudo. Logo a mão que estava livre se dirigiu até atrás do pescoço dele o puxando pra ainda mais perto. Por um momento realmente esqueceram da existência de Thomas, a não ser pelo pigarro dele.
- Ei, vocês vão ter um filho no meu sofá? – disse sentando e colocando as garrafas sobre a mesa. – AH, ESPERA! – ele abriu a boca e arregalou os olhos. – Vocês estavam se beijando?
- Depende do seu conceito de beijo, Thomas. – respondeu.
- Pra mim são pessoas mexendo suas línguas insanamente dentro da boca de outra pessoa. Vocês estavam fazendo isso? No meu sofá?
O silêncio perdurou até ser interrompido pelo risinho histérico de .
- Vocês estão juntos! QUE MARAVILHA! Vocês querem minha benção ou não precisa, porque se não precisar eu vou subir pra pegar meu violão. – os dois negaram e então Thomas terminou. – Não estraguem meu sofá, eu demoro menos de dois minutos.
Os dois ainda riam quando Thomas voltou com um violão e vários papéis rabiscados.
- Dêem uma olhada nisso e me digam o que acham... – ele disse. Arrumou o violão no colo e começou a tirar os primeiros acordes, animados demais para uma música que segundo provavelmente vinha de uma dor de cotovelo.
Went out with the guys
Saí com meus amigos
And before my eyes
E diante dos meus olhos
There was this girl she looked so fine
Estava esta garota, ela era tão linda
And she blew my mind
E ela me surpreendeu
And I wish that she was mine
E eu desejei que ela fosse minha
And I said 'hey wait up ‘cos I'm off to speak to her'
E eu disse "ei, esperem porque eu vou falar com ela."
balançava a cabeça quase que sem perceber, por sua vez batia os dedos na perna e batia seu pé no ritmo que Thomas ditava, era realmente boa.
We spoke for hours
Nós conversamos por horas
Took off my trousers
Ela tirou minhas calças
Spent the day laughing in the sun
Passamos o dia rindo no sol
We had fun
Nós nos divertimos
And my friends they all looked stunned Yeah Yeah
E meus amigos pareciam surpresos
Dude she's amazing and I can't believe you've got that girl
Cara, ela é demais e eu não acredito que você pegou aquela garota
Esperaram a música terminar e bateram palmas para o amigo que começou a fazer poses de agradecimento para um público que nem existia, ainda.
- Cara, isso é ótimo. Sério mesmo. – disse tomando nas mãos o papel onde Thomas rabiscou a letra e os acordes.
- Porém todos nós sabemos quem é essa garota, não é Thomas? – disse espiando o papel que lia. – Não deu certo?
- Não. – ele disse meio cabisbaixo. – Mas não se preocupe, ela me deu inspiração pra mais milhões de músicas! – terminou sorrindo e arrumando mais uma vez o violão em seus braços.
19
- Estava daquele papo na casa do Thomas. Aquele papo de que a irmã da Tracie é exatamente como ela. Será que é de família? - perguntou enquanto tirava o cinto de segurança. Thomas havia convivido com a irmã de Tracie, afinal era um ano mais velho que os dois. Já era de noite e os dois voltavam do supermercado.
- Por que você estava lembrando disso? - perguntou abrindo o porta malas e tirando de lá de dentro algumas sacolas.
- Sei lá, às vezes eu me pego pensando nos problemas dos outros. - acumulou algumas, das poucas, sacolas na mão esquerda e esperou até que fizesse o mesmo. - Besteira minha.
- Realmente, acho isso besteira. - ele voltou a dizer assim que bateu a porta do carro e alcançou os passos curtos da menina. Apertou o botão que chamaria o elevador, que pelo visor se encontrava no sétimo andar. - Eu tenho certeza de que ela é louca, sabe disso, não é? - perguntou ignorando o fato de que a loucura de Tracie poderia ser genética. - Mas dane-se a Tracie, você liga pra ela? Eu não ligo, então está tudo ótimo! Acho que você não deveria ficar pensando nela. - concluiu. Continuava com a mesma mania, quando queria mudar de assunto iniciava um diálogo consigo mesmo. Fazia as perguntas, as respondia e depois mergulhava em um completamente assunto diferente.
- Realmente eu não ligo, - voltou a dizer - mas acho que ela é, e pode ser, um problema tanto pra mim quanto pra você. - enquanto ela terminava sua fala um apito anunciou que o elevador havia chegado ao térreo.
A garota entrou esperando que também entrasse, assim que a grossa porta de metal se fechou virou-se para o espelho a fim de arrumar a franja. Viu pelo reflexo o garoto se aproximar e encostar a boca no topo de sua cabeça.
- Não precisa se preocupar, o que ela podia ter feito já fez e mesmo que tente mais alguma coisa não vai adiantar. - ela escutou tudo aquilo em silêncio, não precisava responder, já estava entendido, ela acatava tudo aquilo e esperava que fosse verdade. O silêncio foi interrompido pelo som do elevador mais uma vez, nesta anunciando que o andar havia chegado.
- A segurança com que você fala as coisas é tão legal. - voltou a falar colocando as compras sobre a bancada.
- Você sabe que isso é um dom, não sabe? - rebateu repetindo o gesto da menina. - Esse negócio de confiança nasce com você, você apenas aperfeiçoa durante a vida. Poucos têm esse poder. - atravessou a cozinha dizendo aquilo. A cara extremamente fingida só fazia a garota rir.
- Você não é um bom ator. - ela disse lançando os braços em volta do pescoço dele. - Eu vou tomar um banho, o dia hoje foi cheio e sério, não sei se consigo ficar de pé por mais tempo.
- Tudo bem. - juntou as bocas rapidamente antes da menina sair correndo da cozinha. No silêncio que a casa ainda estava escutou fechar a porta do banheiro com uma batida forte, provavelmente sem querer.
Aos poucos tirou todos os itens comprados mais cedo no supermercado, separou o que devia colocar na geladeira, o que devia colocar no armário, o que seria da dispensa e o que iria para a área de serviço. Nada que ocupasse muito de seu tempo, as compras sempre eram pequenas na casa dos dois. Apagou a luz assim que deixou o cômodo, pensou em sentar para assistir o jogo que estaria passando no canal de esportes, mas deu meia volta sobre os calcanhares e foi até seu quarto. Deixou a camiseta pelo caminho e entrou no banheiro. Fechou os olhos assim que sentiu as primeiras gotas de água quente colidirem com sua cabeça.
Amarrou uma toalha na cintura e com a pequena que servia para secar seu rosto esfregou os cabelos molhados. Esperava que aquele atrito os secasse mais rápido. Vestiu a primeira cueca que encontrou na gaveta e o mesmo fez com a bermuda.
A porta do quarto de estava aberta, deduziu que a garota já estava pronta para dormir já que essa disse que não sabia se aguentaria ficar em pé depois de um banho.
- ? - chamou enquanto empurrava de leve a porta encostada. Apenas cravou o olhar no reflexo da expressão de . Ela fechou os olhos como crianças fazem assim que aprontam algo. A pequena regata do pijama que ela passava pela cabeça pronta para vestir parou no meio do caminho. Ao invés de responder, ou se pronunciar apenas deixou que os olhos deslizassem pelo resto das formas da menina. O corpo descoberto contava apenas com duas peças e meia, o sutiã colorido, a calcinha e a blusa que estava posta pela metade.
Tentou desviar o olhar para se desculpar por entrar assim no quarto, mas não conseguiu. No fundo de sua mente sabia que não deveria pedir desculpas, não fazia nada de absurdamente errado. Estava apenas observando o que estava em seu campo de visão.
- Desculpa... - tentou dizer fechando a porta logo em seguida.
- , volta aqui! - a menina chamou com um pingo de autoridade na voz. Aos poucos ele voltou a abrir a porta. - Não é nada que você nunca tenha visto em todas as vezes que nós fomos à praia. - disse naturalmente. - Te constrange o fato de não ser um biquíni e sim minhas "roupas de baixo" como diria minha vó?
- Não é isso. - tentou argumentar, mas infelizmente as bochechas já entregavam a verdade. - Eu deveria ter batido antes de entrar.
- Uau, que educação! - assim que colocou a blusa por inteiro se analisou no espelho enquanto falava. - Não posso esquecer de dar os parabéns para sua mãe. - caminhou com passos normais até o menino e o abraçou pela cintura. - Dorme aqui comigo?
- Com medo? - indagou passando os braços em volta dos braços dela. - Já tá meio grandinha, não acha?
- Idiota. - disse colocando um bico enorme na boca. - Só estava pedindo. Isso não significa que eu esteja, ou tenha medo. - soltou o abraço e deslizou as mãos até que pudesse entrelaçar os dedos aos dele. - Se não quiser tudo bem.
- Eu realmente vou sair negando convites pra dormir abraçado com a minha namorada. - disse rindo e rolando os olhos. - Só você pra dizer uma coisa dessas. - a palavra namorada causou um pequeno choque no corpo de . Não sabia bem se podia se considerar namorada de alguém sem receber um pedido do tipo, estou de joelhos na sua frente, acho que agora você deve colocar esta aliança no dedo e contar para seus pais que é minha namorada. Sorriu de uma maneira diferente, uma maneira boba diga-se de passagem. Caminhou até sentir a parte de trás dos joelhos se chocarem com a cama. Deixou que ele subisse na mesma e a abraçasse colando o peito em suas costas e com cuidado entrelaçasse as pernas nas dela.
O relógio acabava de terminar de contar o tempo para que a experiência surtisse efeito. ao lado do liquido meio esverdeado continuava trocando outros líquidos de lugar sem saber ao certo no que aquelas misturas poderiam dar. Pela décima quinta vez, somente naquela aula, as lentes de seu óculos de proteção ficavam embaçadas. Olhou para o lado torcendo os lábios numa careta de desaprovação. Viu seu parceiro fazer uma careta nada agradável assim que a solução, agora verde musgo, soltou seu odor. Torceu o nariz e o tampou, repetindo o gesto do amigo.
- , eu vou vomitar. - afastou o rosto daquela água verde. - Eu não estou brincando.
O garoto ria enquanto tentava tampar o nariz e atrair a atenção do professor. Resolveu ir chamar o homem de avental de perto.
- Senhor... - o esperou terminar de escrever o que queria no quadro. -, nós terminamos, mas tenho quase certeza de que não chegamos ao resultado certo. O cheiro está horrível e ainda por cima borbulha!
O professor não o esperou terminar de falar e saiu praticamente correndo entre as bancadas até o becker de alta periculosidade fazendo sinal para que todos se afastassem de todos os vidros próximos.
- Quem foi o gênio que colocou o liquido vermelho aqui? - a voz irritante do professor atravessou o silêncio de expectativa de todos. encolheu o corpo e tentou levantar o braço.
- Acho que fui eu... - disse baixo, mas não baixo o suficiente.
- Srta. , eu disse bordô, não vermelho sangue como é esse aqui. - ela apenas estreitou os olhos e depois os rolou, virou as costas e praticamente arrancou o avental do corpo. Seguiu para a pia especial que havia no laboratório e abriu a torneira apertando em seguida o suporte de sabonete anti-séptico.
Secou as mãos e saiu furiosa de dentro da sala. Sabia que não era motivo para isso, mas nunca errava, uma vez era motivo para escarcéu quanto as cores dos malditos líquidos dos malditos vidros, todos iguais por sinal. Sabia que estava em seu encalço.
- Ainda bem que não vou seguir essa maldita carreira de química. - disse jogando o avental dentro do armário.
- Ainda bem mesmo, quase explodiu um laboratório. - cerrou o olhar em direção ao garoto.
- Você deveria estar me ajudando com aquela merda ao invés de passar os cinquenta minutos da aula desenhando claves de sol pela folha do relatório. - esbravejou e se irritou ainda mais com o sorrio divertido que brincava nos lábios dele.
- Poderia muito bem ser uma arma de destruição em massa. - ele terminou caminhando um pouco mais rápido. apenas deixou os ombros caírem e alcançou o menino. - Falando em ser - voltou a falar quando ela já estava ao seu lado mais uma vez. -, já decidiu o que vai fazer depois do colégio? Quer dizer, estamos no último ano, as coisas começam a tomar um rumo mais sério.
Os corredores do colégio ainda estavam vazios.
- Eu já pensei em várias coisas, . - com uma pausa esticou o olhar até a sala onde Haylie ainda tinha aula. - Milhões de possibilidades e opções já passaram pela minha cabeça, mas eu realmente não sei o que pode ser melhor pra mim.
- Mas você já recebeu as respostas, você já mandou as cartas, certo?
- Já mandei, e recebi respostas ótimas, mas sei lá...
- Pelos menos você pode se orgulhar das suas notas. E eu? Falando sério, você já viu minhas notas?
- Você ainda tem tempo, quer dizer. Já estamos na metade do ano, nos saímos de férias e logo voltamos para terminar e ano letivo. Você pode recuperar suas notas e ser chamado por uma boa faculdade daqui. - conversando daquela maneira atravessaram quase toda a extensão do prédio sem nem perceber.
- Quem sabe. Não sei nem o que quero da vida, quem dirá qual faculdade seria melhor pra mim. - ele disse e acabou chutando a bolinha de papel que parecia ter saído do primeiro ano. O jardim que era cenário de vários intervalos já podia ser visto.
- Eu tenho cartas legais, ainda vou decidir meu curso. - o sol era realmente convidativo, mas os dois mudaram o caminha voltando para dentro do prédio e seguiram para o refeitório assim que ouviram o estridente sinal. O som do sinal fez pensar em uma possibilidade diferente para aquele dia. - O que acha de passar o intervalo comigo e os meus amigos, ? - perguntou de maneira rápida.
- Eu?
- Tem mais alguém aqui? - rebateu irônica.
- Não, não... - começou - Acho melhor não. - terminou relutante. A idéia de se juntar aos amigos inseparáveis de chegava a dar pânico. Quem sabe eles pudessem ser legais como ela, mas quem sabe também pudessem odiá-lo.
- Vai dizer que é mais legal ficar preso naquela sala de música, ao invés de jogar um pouco de conversa fora com pessoas legais?
O garoto mordeu o canto da boca pensando se aceitava a proposta ou não.
- Tudo bem, eu vou. Mas não garanto que seus amigos irão gostar de mim. - parados em frente à sala de Biologia esperaram sair para acompanha-los.
O som estridente do sinal parecia despertar o instinto e lado selvagem de todos aqueles adolescentes. Toda a zona de todos os dias estava formada, eram alunos gritando, correndo, até se batendo. Todos prontos e aliviados para a meia hora de liberdade antes das últimas e massacrantes aulas do dia. Os dois seguiram para a sala de Geometria onde estava guardando o material.
- - chamou assim que o menino saiu da sala com a mochila nas costas. -, o vai ficar com a gente no intervalo. - disse com os braços em volta de seu pescoço. A notícia causou um pouco de surpresa, mas essa logo sumiu. sabia que deveria ser gentil, apenas o sorriso da menina ao falar aquilo o fazia ver que no fundo as coisas estavam e poderiam ser diferentes.
Ele assentiu lentamente e estendeu a mão para o garoto tímido que assistia tudo encostado no armário.
- Acho que podemos nos conhecer decentemente agora. - sorriu divertido - Prazer, .
- . - os dois apertaram as mãos, completamente diferente do que aconteceu da primeira vez que se encontraram.
Flashback
- Você vai passar aqui? É sério, eu preciso te ver e preciso de companhia. - a menina disse mais manhosa que o normal. Naquele dia seriam oito dias desde que tinha se mudado para a casa da tia. Na única vez que foi visitá-la combinou o horário com dias de antecedência. A antipatia não era só por sua parte. Julliet não fazia questão de vê-lo.
- Tudo bem, me dê quinze minutos e eu chego ai. - disse mudando o caminho, virou a primeira esquina, aquilo encurtaria o caminho até a nova casa de . Se despediu e voltou a guardar o celular no bolso. Seriam poucos quarteirões até aquela rua.
- Você é quem a espera? - uma mulher com trajes de empregada perguntou assim que o grande portão de ferro foi aberto.
- Isso.
- Você pode entrar, subir a escada e bater na primeira porta a esquerda. - a mulher disse dando passagem para o garoto, colocou as mãos nos bolsos e seguiu o caminho até a entrada da casa.
Atrás daquela porta o luxo poderia assustar alguém que não esperasse aquilo da casa de Julliet. infelizmente já conhecia bem a tia de e sabia bem o que esperar. Hesitou em subir todos aqueles degraus. Com cuidado colocou o pé direito sobre o primeiro da série de degraus. Não seria difícil, poderia muito bem chegar rapidamente ao quarto de e ninguém saberia dele por ali.
- Ei, o que tá fazendo aqui? - quase pulou assim que escutou a voz não muito grossa falando com ele, sabia que aquele timbre não pertencia a Julliet. Virou o rosto lentamente e deu de cara com , o filho da megera.
- Erm...
- Hein? O que faz aqui? - o garoto voltou a indagar.- Você deve ser . - concluiu sozinho, por vezes escutou a mãe dizer que aquele era o único amigo de . continuava com a boca entreaberta sem saber se deveria responder ou ignorar a falta de educação do garoto.
- Eu o chamei aqui, pode deixar. - para seu alívio saiu de seu quarto tomando conta da situação. Com um breve aceno com a cabeça chamou . Ele apenas seguiu confuso, não sabia dizer a razão dos olhos de quase o fuzilarem. Ódio de graça podia muito bem ter uma recíproca verdadeira.
End of flashback
Os três seguiram para o refeitório do colégio. Sabiam que os outros, Haylie e os encontrariam ali. Comidas em bandejas poderiam ser legais, a menos que seu refeitório estivesse abarrotado de adolescentes sedentos de diversão. Isso te obrigava a comprar um belo lanche natural e seguir para as mesas que ficavam do lado de fora. Realmente, antes mesmo e já tinha visto como o sol estava convidativo apesar de não ser o melhor amigo de nenhum dos dois.
- Uma vez a chegou a comentar que você toca baixo, é verdade? - começou o assuntou enquanto brincava com a tampa da garrafa de suco de . Enquanto mordia o sanduíche sentiu uma vontade absurda de sorrir. Sabia muito que estava se esforçando para aquilo e nada podia a deixar mais feliz.
- Erm, sim... Eu toco. - disse simplesmente. Aquela conversa precisava fluir.
- Mas assim... Faz tempo?
- Mais ou menos. Eu comecei a tocar por causa do meu pai, ele sempre gostou dessas coisas e eu acabava copiando ele em tudo que ele fazia. Ele me ensinou o básico e depois eu fui sozinho. Já tem uns cinco anos. – contou e sorriu no final do breve relato sobre como começou a tocar baixo.
- Isso é bem legal. Acho que música é a melhor coisa a se fazer. – os dois partiram para uma conversa sobre o assunto que tinham em comum, o que deixou a menina totalmente de fora. se preocupou bem mais em brincar com a gravata de que já estava folgada.
Estava concentrada em arrumar o nó da gravata do menino, o uniforme podia ser ruim, mas ainda tinha que ser usado da maneira certa. Por cima do ombro de pode ver a cara de assim que chegou ao jardim e viu os dois meninos naquela conversa tranquila. Lançou um olhar receoso para o menino que apenas transmitiu o que pensava pelo olhar. O que esse cara faz ai?
- Achei que não fosse mais sair da aula. – disse assim que já estava perto o suficiente. – Senta ai, eu e o estávamos falando sobre uns cd’s. – percebeu que respirou fundo antes de sentar. Talvez fosse difícil pra ele dar o braço a torcer.
- Eaí , tudo bem? – o medo de sumiu e então ela pode deixar o sorriso tomar conta de seus lábios, ao mesmo tempo em que tomava conta de seus olhos
A passada na Blabous tinha sido combinada por telefone. Já era final de tarde e , e caminhavam em direção a famosa sorveteria. Quase todo o dia era possível ver grande parte dos jovens que estudava no King's tomando sorvetes por ali.
- Eu liguei pra Haylie e chamei, mas ela disse que não rolava vir não. - disse fazendo uma careta discreta. Não era nada normal de Haylie recusar convites, não mesmo. Ao telefone a amiga alegou uma cólica monstruosa que não permitia nem que ela levantasse. - Na verdade são problemas de menina.
Os dois garotos soltaram risinhos pelos narizes e não responderam, apenas passou o braço livre pela cintura da menina a trazendo para mais perto. Passaram os três pela porta da sorveteria fazendo com o que o sininho balançasse. Escolheram a mesa mais próxima ao fundo da loja e próxima a janela também.
Chuck, atendente conhecido de todos, chegou deslizando sobre os patins que faziam parte do uniforme dos funcionários.
- Mas olha só, resolveram dar as caras por aqui. - disse brincalhão assim que brecou os patins, se abaixou até que pudesse apoiar os braços sobre a borda da mesa. - Como um atendente legal, no que posso ajuda-los. Ou melhor, o que vocês vão querer pra hoje?
- Eu quero uma taça grande e bem caprichado de Cookies com um pouco de Marshmellow, e vocês? - perguntou.
- Uma taça grande de Menta. - pediu depois de fechar o pequeno cardápio que ficava em todas as mesas.
- Uma taça de Chocolate com Crispies. - disse por último. - Mas antes, rola trazer uma batata frita e uns refrigerantes?
- É pra já. - Chuck disse voltando a passear com os patins.
colocou os pés sobre o estofado que formava um "L" em volta da mesa. Esticou a mão até o paliteiro e dali tirou alguns palitos e quebrou.
- , liga pro Thomas. Ele está em casa, não está? - disse brincando com o canudo do enorme copo de refrigerante.
- Acho que sim. – tirou o aparelho do bolso e discou o número do amigo. Depois de minutos de conversa desligou. – Daqui a pouco ele aparece ai.
A porção de batatas fritas já estava acabada, as taças de sorvete quase todas pela metade. Todos olharam para a porta assim que o costumeiro sininho fez barulho.
- Desculpa a demora. – Thomas disse assim que sentou à mesa.
- Antes de você contar como foi a conversa com Jason, eu preciso falar um negócio. – virou a lata de refrigerante e continuou – O nosso recesso vai ser de duas semanas, logo depois do simulado, como essas são nossas férias e o tempo vai estar quente pensei se vocês não estariam a fim de uns dias em Hill Valley?
- Casa de campo? – Thomas perguntou.
- De praia é que não é, animal. – respondeu com a típica mania de rolar os olhos. Thomas apenas bufou e ficou quieto.
- Minha mãe disse que a casa está em ordem e sei lá, não teremos nada pra fazer a não ser que alguém já tivesse planos.
Os dois meninos apenas negaram. Era óbvio que aceitariam.
- Depois avisamos a Haylie, ela decidiu ficar com gracinha e não vir. – terminou. – Agora antes que o Thomas morra, vamos deixar ele falar!
Era visível a felicidade nos olho do garoto, aquilo só confirmava que a conversa com Jason havia sido boa.
- Bom, ele disse que queria um som diferente por lá... E bom, eu ofereci os nossos serviços musicais, . – ele disse pegando as últimas e pequenas batatas do centro da mesa.
- Sério, cara? E o que ele disse?
- Que ele não quer um som de dois violões ele quer uma coisa com cara de banda. – a expressão de murchou naquele momento. – Precisamos de um baterista... quem sabe a banda pode ser ‘power trio’ por enquanto, não sei. A proposta dele é realmente muito boa, não podemos perder a oportunidade, precisamos de alguém rápido.
O olhar de que se mantinha preso no saleiro do canto da mesa correu para que tamborilava os dedos na mesa olhando para fora.
- É ISSO! – todos os olhares se prenderam nele. – , você toca bateria, não toca? – o menino perguntou depois de seu surto repentino.
- Toco... – com a sobrancelha esquerda para cima terminou a resposta -, mas nunca me juntei com ninguém pra tocar se por um acaso essa é sua próxima pergunta.
Thomas rapidamente entendeu o que queria dizer e pegou a deixa para arrastar o menino para a aventura musical.
- Cara, era você que estávamos procurando. Você é legal, nosso amigo e toca o instrumento que falta para podermos tocar. – ele falou perdendo o fôlego, mas assim que o recuperou terminou. – Você é o cara!
A casa de era a mais próxima da sorveteria, os quatro saíram de lá a pé e tomaram o caminho da casa do menino. Durante todo o caminho Thomas explicou como deveriam ser as coisas. Não teriam muito trabalho e isso tratou de animar todos. Tinham letras suficientes para um pequeno show, como queria Jason. Dali para frente teriam que dar musicalidade a todas aquelas letras esculachadas em papéis.
- Até o momento é nisso que pensamos. Eu, você, , Thomas e . – disse para Haylie que estava sentada a sua frente. Aquele lugar não podia estar mais entediante, as várias folhas que estavam caídas sobre as mesas que ficavam espalhadas pelo jardim serviam de distração para as duas.
- Eu vou ver, mas acho que posso ir. Vai ser legal mudar os ares. – Haylie já não parecia mais tão cabisbaixa por causa de , segundo ela já estava de olho em seu próximo alvo. Aquilo estava bem mais para fala de pistoleira, mas foi algo que decidiu deixar somente em sua cabeça.
Por um momento percebeu que estava praticamente acabando uma fase de sua vida. Olhou ao redor e viu como poderia sentir, bem no fundo, falta de tudo aquilo. Certa época do ano o colégio podia ser extremamente acolhedor, principalmente o telhado do prédio onde tinha aulas. A época em que o clima não permitia você de desperdiçar todo o tempo em frente a TV. As diferentes tribos que nunca fizeram questão de acolhe-la também. Na semana anterior havia pegado sua mente voando aos tempos em que brigava com as mesmas meninas que hoje namoravam os capitães dos times de baiseball e futebol.
Uma delas inclusive já havia tentado, sem sucesso, tomar seu namorado. Não se arrepende de nunca ter tentado socializar com aquelas pessoas, como sempre pensou estavam lá, todas elas, apenas interessadas em ser conhecidas. Todas ali queriam ser lembradas. Como aquela que foi adorada, aquela que foi eleita a rainha do baile, aquela que conseguiu o professor de educação física para si. Aquele que foi dono do maior porre, aquele que foi comandante da vitória massacrante contra o maior rival do colégio. Típico de colegial, típico de uma vida adolescente normal.
Ali estava o que poderia ter sido uma diferença absurda em sua vida. Ter sido uma adolescente normal. Daquelas que gasta toda a mesada em tardes de compras no shopping com o mesmo grupo de amigas que colavam e cabulavam aulas. Foi bom lembrar que não podia generalizar, sabia que dentre aquelas intermináveis números de chamada haveria alguma garota que se identificaria com ela. Podiam não ter se conhecido, mas pelo menos eram comuns em alguma coisa.
Olhou para frente e sentiu seu coração apertar, uma delas estava ali. Ela havia conhecido, se identificado e achado um espaço em coração. Haylie conseguia ser a melhor amiga que pedir, podia às vezes parecer com todas as descerebradas que faziam grande parte de seu colégio, mas nunca a abandonaria, nunca a trocaria por interesse, nunca a deixaria na mão e nunca a trocaria por uma festa. Ou talvez até trocasse, mas nenhuma festa ainda foi capaz de provar isso.
Sentiu sua garganta apertar como há muito tempo não sentia. Nunca soube o que foi chorar de felicidade. Ali em frente estava Haylie. Em seu pulso a prova de que podia ser um ótimo amigo quando queria. Todos os dias perto dela como ninguém mais estava . Thomas lembrava exatamente um lado paternal que lhe fazia uma enorme falta. E quem ela nunca imaginou que fosse fazer diferença em sua vida. , ele que sempre pareceu mais recluso a um mundo paralelo que ela.
Podia dizer que finalmente tinha tudo o que precisava. Antes que o nó em sua garganta se transformasse em lágrimas que lhe escorreriam o rosto sem pedir permissão, sentiu o perfume familiar de que fez toda aquela nostalgia se dissipar e rapidamente se transformar em uma alegria que não cabia dentro de si.
- Ei – a voz que por vezes a fazia parar o que estava fazendo para acalmar todas as reações que sentia disse próxima de seu ouvido -, que cara é essa?
levantou o rosto olhando diretamente nos olhos de e sorriu discretamente, juntou a boca com a dele e respondeu:
- Nada. Só estava pensando. – deitou a cabeça no ombro do menino enquanto esse puxava suas pernas pra cima de seu colo.
- E eu posso saber no que?
- Nada demais, se eu contar você vai achar extremamente estranho. – os barulhinhos que ele costumava fazer com a boca quando estava em dúvida começaram. – Não comece com esses barulhinhos, vou falar. Estava pensando em como isso tudo pode me fazer falta um dia.
- O colégio? – ela apenas assentiu. – Juro, nunca imaginei você dizendo que o colégio pode te fazer falta, quer dizer, você sempre abominou qualquer possibilidade de passar mais tempo aqui que o necessário.
- Estranho, né?
- Bom, você é nova demais para se preocupar em não mudar seu ponto de vista sobre as coisas.
- Sim. – brincando com a gravata do garoto que pra variar estava fora do lugar certo, mudou de assunto – Que horas vamos encontrar com a sua mãe mesmo?
- Às oito e meia. Esteja pronta, de tarde vou sair com o Thomas e quando voltar só vou tomar um banho rápido e nós já saímos.
- Sim, senhor.
2O
O silêncio mostrava que já havia deixado o banho. jogou a pequena bolsa sobre o sofá e caminhou até o enorme espelho que ficava no pequeno hall do apartamento. Com um olhar cuidadoso analisou por um todo a maneira como estava vestida. Sorriu discretamente e puxou os cabelos para que caíssem sobre os ombros. Talvez a meia calça roxa berinjela pudesse protege-la um pouco que fosse do frio, afinal o vestido sozinho não o faria. O barulho de passos chamou sua atenção. saía do corredor terminando de abotoar a camisa, que por acaso havia sido presente dela. Sorriu e esperou que chegasse até ela.
- Você ficou muito bem com essa camisa. - disse arrumando a gola da camisa branca que possuía um aspecto amassado.
- Fiquei bem porque você tem um bom gosto. - respondeu calmo, passou os braços pela cintura da menina e a virou, assim abraçando-a por trás. - Eu acho que somos um casal bem ajeitadinho. - disse enquanto ria pelo nariz. O reflexo dos dois era completamente harmonioso.
Encostou o queixo sobre o ombro dela e continuou observando a imagem no espelho.
- Ajeitadinhos. É um bom adjetivo.
- Você é realmente linda, eu apenas me viro. - ela riu de maneira anasalada com o comentário, ao seu ver, completamente errado. - Faz tempo que não tiramos uma foto juntos. ‘Tá com a câmera na bolsa? - a menina assentiu e correu até o sofá para pegar a câmera dentro da bolsa.
- Vem aqui. - disse abraçando-a mais uma vez antes de bater a foto. Virou a pequena câmera verde limão na vertical para que pudessem sair com o corpo quase inteiro. - Pronto. A propósito... Você ‘tá linda.
- Muito grata pelo elogio - grudou os lábios num selinho rápido. - Agora acho que deveríamos ir andando antes que fique mais tarde.
deixou-se distrair pela luzes que passavam rapidamente pelo vidro escuro do carro.
Starlight tocava no rádio e isso só contribuiu para que deixasse a mente ainda mais longe.
Desceram do carro assim que as luzes do restaurante escolhido por Sue apareceram. deu a volta no veículo e entregou as chaves para o manobrista. Segurou a mão de e seguiram para dentro do restaurante.
- Posso ajudá-los? - a recepcionista jovem e incrivelmente bonita perguntou assim que os dois entraram. tentou disfarçar o olhar sobre a menina e provavelmente conseguiu.
- Na verdade nós vamos nos sentar com a minha mãe, acho que ela já chegou, Sue . - disse e esperou até a moça encontrasse o nome da mãe no meio dos outros nomes.
- Vamos, vou levá-los até a mesa. - caminharam atrás da recepcionista até chegarem a uma mesa para quatro pessoas, Sue deixou seu drink de lado e levantou para cumprimentá-los.
- Filho, , que bom que chegaram. - disse dando um beijo carinhoso no rosto de cada um, observou os dois de mãos dadas, mas não intrigou-se, desde pequenos tinham aquele hábito. - Vamos, sentem-se, quero saber como anda a vida de vocês!
- Pois é, também gostaria de saber por que não aparece mais em casa, senhora Sue? - indagou com um pouco de graça. Discretamente chamou o garçom para poder fazer o pedido de bebidas.
- Ah, , não sei nem como justificar. Eu realmente deveria aparecer mais. Mas como explicar, eu ando realmente ocupada com o trabalho.
- Tudo bem, eu e a também não paramos muito em casa. Ela corre no colégio e eu nos ensaios com os meninos. - disse sorrindo. - Falando nisso você pode aparecer no show que faremos em um pub do centro, não é?
- Mas já estamos assim, meu filho fazendo shows. - Sue voltou a falar animada como sempre. - Você sabe como eu apóio isso, mas espero que isso não atrapalhe seus estudos filho.
- É claro que não vai mãe. - apesar de sentados e continuavam com as mãos dadas. - , fala alguma coisa. - incentivou a menina que estava quieta até aquele momento.
- Verdade, tão quietinha, . O que tem para me contar? O colégio, as faculdades, os paquerinhas.... - ao ouvir a última parte a menina mordeu o canto da boca e olhou de lado para que olhava, discretamente, para baixo. - O que houve?
- Nada, tia. - desconversou. - Então, o colégio vai muito bem, eu praticamente passei de ano, então estou relaxada. As universidades são um problema, não sei como vou lidar com isso.
- Eu andei pensando, você recebeu muitas cartas, eu não me importaria de passar um dia com você para te ajudar com isso. - Sue disse empolgada.
- Seria ótimo. - respondeu com quase a mesma empolgação. O silêncio estava prestes a reinar sobre a mesa, algo bem raro.
- Meninos, eu tenho a sensação de que perdi alguma coisa. - a mãe de começou. - Vocês não estão precisando me contar nada? - os dois trocaram um olhar discreto e então apertou de leve a mão de .
- Bom, eu e a , nós... É... Os dois... Juntos
- , fale direito. - Sue disse estranhando a demora para que o filho conseguisse formar a frase que quisesse.
- Eu e a , já faz um tempinho, por isso você não ficou sabendo, não pense que eu escondi de você, estamos... Bem, estamos juntos. - disse finalmente, colocou as mãos entrelaçadas sobre a coxa de e esperou que a mãe respondesse alguma coisa.
- Juntos? - ela voltou a indagar. - Juntos, de que maneira? Como namorados?
- Isso. - afirmou. - Como namorados.
mantinha o rosto baixo e pressionava os dentes sobre o lábio inferior.
- Eu, confesso que já imaginava que um dia isso fosse acontecer, mas, nunca me preparei para esse dia. - Sue disse juntando as mãos sobre a mesa. - Apesar, da pequena surpresa, eu realmente estou feliz. - quase se pode ouvir soltando o ar que estava preso nos pulmões. - Eu realmente estou feliz. - Sue finalmente abriu o sorriso que sempre a acompanhava.
O intervalo corria naturalmente, estava sentada na grama com as costas encostadas no peitoral de , o tempo e a aparência das árvores mostravam que o meio do ano já estava passando. Somente mais poucas semanas e a tão esperada semana de recesso chegaria.
- ... - chamou o menino distraído com os fones de ouvido.
- Oi, amor. - ele respondeu tirando o fone direito para que pudesse ouvir o que ela tinha a dizer.
- Você não acha rápida essa aproximação da Haylie e do ? - perguntou baixo, quase sussurrando. Os dois amigos brincavam no banco próximo. Haylie nunca tinha sorrido tanto em poucas semanas. - Ela está se envolvendo, é claro.
- Eu não acho rápido. Se você olhar de vários ângulos, eles combinam perfeitamente. - disse com o queixo no ombro da menina. - Os dois precisam de alguém... Quero dizer, esse tipo de alguém.
- Verdade. - apertou os braços sobre os braços dele. - O ensaio hoje é depois do colégio?
- Sim. Segundo tem comida pra todo mundo.
Narrado por
Eu estava tão confortável naquele sofá, ou melhor, projeto de sofá. Haylie me estendeu o pacote de salgadinhos e eu enchi minha mão, já fazia duas semanas que eu e todos os outros só nos alimentávamos de besteiras, bem mais preocupados em ensaiar para a pequena apresentação no pub do centro.
- Para. – falou no microfone. parou subitamente. Thomas apenas se jogou no mesmo sofá em que eu estava totalmente largada. – É a quinta vez, só hoje, que nós passamos a mesma música e nunca sai boa o suficiente. Na moral, acho que existe alguma coisa que a gente ainda não entendeu.
Todos permaneceram quietos, estava certo, mas quem ali estaria disposto a dar o braço a torcer e mostrar que haviam se enganado.
- Eu não preciso nem falar o que falta para vocês, não é? – disse interessada em minhas unhas.
- Eu concordo com a , vocês sabem muito bem o que está faltando ai. - olhei com o canto do olho para Haylie, o comentário foi mais empolgado do que eu imaginava.
- Então diga senhora esperteza, o que falta para a nossa humilde banda acertar? - disse com o cinismo de sempre. Apenas rolei os olhos para o que já estava acostumada e desviei o olhar de minhas unhas. - O que falta está no terceiro ano, mas especificamente na mesma sala de Literatura de vocês.
Todos permaneceram em silêncio. Não queriam dar o braço a torcer, mas podia ser uma opção.
- Ele toca super bem e ainda é legal. Precisam de mais o que? - continuei - Garanto que não vão se arrepender.
- Mas , a essa altura do campeonato você acha que aceitaria uma coisa assim?
- Não custa tentar, vocês podem pedir pra que ele faça um teste ou coisa assim. - Haylie sugeriu com os olhos brilhando. Eu conhecia bem aquele filme. Se dependesse de minha boa vontade e apoio e Haylie poderiam se juntar bem rápido.
apenas largou os ombros, um. Thomas pendeu a cabeça para o lado, dois. entortou a boca, três. Garotos são extremamente previsíveis.
- Eu falo com ele. - disse largando o instrumento.
Fim da narração
- Bom cara, não é nada muito difícil. - disse para assim que o menino deixou seu case no chão. - Nós temos umas seis músicas prontas e são essas que vamos tocar no dia. Você conseguiu pegar aquela que eu te mostrei no intervalo? - assim que aceitou fazer um teste para mostrar o que sabia para os garotos e entrar na banda lhe mostrou uma das seis músicas. O garoto disse que não seria difícil e que até o dia do teste - lê-se: três dias depois - estaria com ela na ponta dos dedos.
- Consegui, você mesmo disse, nada impossível de se fazer. - e Haylie estavam sentadas no sofá agarradas a seus pacotes de salgadinhos esperando o resultado daquilo, pelos barulhos na escada Thomas e estavam próximos. - Como vai ser? - apenas levantou a mão em um sinal de espera.
- Dois, o está aqui. Como vai ser? - Thomas colocou a mão sobre o peito e aos poucos voltou a respirar normalmente.
- Não imaginei que aquela bagunça no porão fosse dar tanto trabalho. Nós podemos descer e então o pode mostrar a que veio. - todos concordaram e mais uma vez pegou o case e rumou escadas abaixo.
- Bom, vamos lá cara. Mostra o que você sabe. - disse acomodado no banquinho da bateria. As duas meninas já estavam jogadas, como de costume, no sofá. Thomas e ocuparam os dois braços laterais do móvel e esperaram até que começasse.
Aos poucos já em seu devido lugar o menino começou a movimentar os braços conforme o ritmo lhe pedia, parecia haver uma intimidade não escrita entre ele e as notas que saiam dali. já o tinha visto tocar, porém ali parecia completamente diferente. Ele parecia tocar ainda melhor. Haylie ao seu lado, mexia o corpo inquietamente, com o canto dos olhos pode ver que o olhar da amiga brilhava.
, Thomas e olhavam perplexos, a música que Thomas havia escrito estava sendo tocada, mais do que perfeitamente, por um garoto que nunca tinha ensaiado perto deles, ou realmente escutado a música. entortou a boca e olhou para os outros dois amigos, teria que dar o braço a torcer. Ele realmente tinha talento. Aos poucos as notas se tornaram mais suaves e a música acabou.
As duas começaram, instantaneamente, a bater palmas empolgadas para a nano apresentação de .
- Parabéns cara, acho que você tocou nossa música melhor que nós mesmos. - Thomas disse cumprimentando o menino. Os outros dois não demoraram a fazer o mesmo e o silêncio se instalou no porão.
- Acho que não tem como dizer que não, não é? - palpitou em um volume mais baixo. Quem sabe ele não quisesse que aquilo fosse audível a todos. - Eu voto sim.
- E também. - Thomas disse.
- Sem dúvidas. Bem-vindo a banda, .
Aos poucos, naquela tarde mesmo, os três mostraram as outras músicas para o novato e disseram como deveriam ser tocadas, no outro dia ensaiariam mais uma vez e quem sabe as coisas realmente começassem a se encaixar.
- Alguém está com fome? - perguntou. Na mesma hora todos pararam o que estavam fazendo e olharam para o garoto. - É, pelo visto vocês estão com fome. Vamos subir, lá no armário deve ter alguma coisa que alimente vocês. - era certo de que dali para o final do dia não haveria mais ensaio nenhum, eles lanchariam e depois sabe-se lá quando pensariam em levantar. As coisas estavam arrumadas e organizadas, aos poucos todos foram subindo, menos e .
- Como se sente, novo membro da banda? - perguntou levantando do sofá e pegando o agasalho que estava jogado por ali.
- Eu me sinto bem, acho que finalmente encontrei pessoas legais. E uma ocupação decente. - rindo subiram as escadas e encontraram todos bagunçando completamente a cozinha da casa de .
- Cuidado! - o menino gritou antes que Thomas abrisse um armário. - Da última vez que eu abri esse armário várias coisas caíram em cima de mim.
- Vai ser legal dizer pras pessoas que eu entrei em uma banda. - dizia sentado no chão da sala, próximo a perna de Haylie, devorando seu sanduíche. - Mas uma curiosidade... A banda tem nome?
olhou, para Thomas, que olhou para , que voltou a olhar para . Belo detalhe esse que tinha sido esquecido. O nome.
- A banda não tem nome, é isso? - ele voltou a perguntar.
- Acho que é isso. A banda não tem nome. - continuou.
- Alguém sabe como bandas escolhem seus nomes? - Haylie perguntou - Eu sempre quis saber como funciona isso.
- Deveria ser algo que todos vocês tem em comum, que vocês gostem, que seja legal, que pegue fácil e que não seja zoado pelo amor de Deus. - disse tentando incentivar, uma faísca que fosse, o cérebro dos meninos.
- Eu gosto de cerveja.
- Eu gosto de futebol.
- Eu gosto de foguetes.
- Eu gosto de cricket. - Pelo jeito a escolha levaria séculos.
- Na boa, não vamos conseguir pensar em nada hoje. - Thomas disse assim que levantou para levar mais latinhas de refrigerante para a cozinha.
- Eu também desisto. - disse.
- Vocês já sabem se vão comigo e a para Hill Valley no primeiro final de semana do recesso? - perguntou. - Você também está convidado . - esticou os braços para abraçar a lateral do corpo de . - Vai ser maneiro, nós descansamos uma semana, nos entrosamos, voltamos, aproveitamos a festa do Thomas e depois tocamos no pub.
- Eu vou!
- Também!
- Você sabe que eu estarei lá, !
- Erm, por mim tudo bem. - disse coberto de timidez.
21 – Parte 1
O sol estava a pino e o sinal tocaria em poucos segundos. Avisos pregados nos murais espalhados pelos corredores avisavam que naquele dia começaria o tão esperado recesso. Duas semanas fora da rotina maçante do último ano de colégio, tempo livre para fazer tudo que estava pendente, ou para apenas se divertir, o que todos queriam e achavam que jovens deveriam fazer. sorriu para Haylie que estava a apenas duas carteiras de distância. O ponteiro de segundos do relógio que ficava sobre a lousa começava uma nova volta, a última volta antes do sinal.
Abriu o zíper da mochila e colocou todos os livros que havia usado durante a aula ali dentro. Assim que fechou a mochila mais uma vez o sinal soou, finalmente. Levantou e torceu a cara, a sala mais parecia um campo de guerra. Alunos de outra sala já estavam ali dentro, o chão cheio de papéis, um barulho infernal.
Saiu de lá junto com Haylie em direção ao jardim principal e que também era entrada do colégio. O alto da cabeça poderia arder com todo aquele sol, afrouxou bastante o nó da gravata e abriu os primeiros botões. O começo de agosto possuía o clima mais chato na opinião da garota. Tudo era motivo para sentir calor, os lugares mais legais sempre estavam cheios, a cidade virava um inferno, os turistas estavam por todos os lugares, impossível.
A enorme fonte do colégio serviu de banco para as duas enquanto nenhum dos amigos aparecia no meio da multidão de alunos que jogava circulares e provas para o ar.
- Empolgada para viajar? - perguntou para a amiga que provavelmente procurava entre as pessoas.
- Eu estou, ainda mais agora que eu sei que não preciso de muito pra passar de ano. - Haylie respondeu rindo. - Essa viagem pode ser bem legal. - continuou colocando os braços sobre os joelhos.
- Eu espero que seja. - finalmente pode ver os três garotos deixando o prédio das salas de aula. Sorriu e puxou para perto assim que o viu próximo o suficiente. - Que demora, meu Deus!
- Impossível sair de lá. - respondeu. - Por que a pressa em me ver, saudades?
- Claro que não! - riu batendo no ombro dele. - Eu simplesmente queria meus óculos de volta, sem contar que alguém tem que me levar pra casa, não é? - terminou piscando os olhos esperta. Tirou os óculos do rosto do menino colocando em si e o beijou.
- Só sirvo pra isso, então? Te levar pra casa. - ele poderia fingir o drama que quisesse, mas estava bem claro que no fundo estava achando graça de tudo aquilo. - Bom saber disso.
- Vocês dois! - chamou enquanto tirava a gravata. - Que horas a gente se encontra? - todos combinaram na tarde anterior que iriam voltar para suas respectivas casas depois da aula, resolveriam tudo o que tinham para resolver, terminariam de arrumar as malas e pegariam a via expressa no final da tarde, provavelmente.
- Seis horas, tá bom pra todo mundo? - perguntou.
- Pode ser na minha casa. Acho que é a mais próxima da saída pra estrada. - disse rodando as chaves do carro no dedo indicador.
- Acho que está ótimo assim. - Haylie encerrou levantando num pulo. - , pode me dar uma carona? Minha mãe não vai poder passar aqui e eu não estou tão a fim de pegar um táxi.
- Sem problemas. - respondeu apontando com as duas mãos para o carro que não estava muito longe dali. - Então, nos vemos de tarde. - disse antes de sair em direção ao estacionamento. Haylie se despediu e seguiu o mesmo caminho do menino, mas não sem antes piscar discretamente para .
Para o período de uma semana até que sua mala tinha coisas demais. andava com passos curtos em volta da mala tentando pensar em algo que poderia tirar dali. Mordeu o dedo e voltou a abrir a mala de rodinhas.
- Tudo bem, acho que um par de tênis está bom. Pra que dois, não é verdade? - dialogava consigo mesma até ser interrompida por .
- Falando sozinha? - o menino perguntou encostado no batente da porta. - Terminei minhas coisas e por um acaso já estou pronto. Você pelo jeito nem terminou as malas. - disse balançando a cabeça em negação.
- Eu terminei e estou pronta, só preciso saber se tenho que tirar mais alguma coisa da mala.
- Economizando espaço? - voltou a perguntar dessa vez rindo.
- Há, não. Acho que estou levando coisas demais para apenas alguns dias. - olhou mais alguns segundos para a mala e largou os ombros derrotada. - Quer saber de uma coisa? Vou levar isso e pronto. Não estou mais com paciência para analisar cada coisinha que tem aqui dentro. - agachou em frente à mala e bufou. Colocou a pequena malinha de pé e correu até sua penteadeira.
Olhou para a porta e fez um sinal de espera para . Escovou os cabelos uma última vez e amarrou o scarff no pescoço.
- Agora sim.
O caminho até a casa de não era longo, cuidou de abastecer o carro mais cedo. O único carro diferente em frente à casa do amigo era o conversível azul, pouco conhecido por todos. Ali mesmo na frente da casa, mais precisamente na pequena varanda, estavam e conversando animadamente.
- Olá, olá! - disse assim que subiu a pequena escada de no máximo quatro degraus. - Como estão meus amigos? - perguntou enquanto cumprimentava cada um. Abraçou por último e impulsionou o corpo sentando sobre a varanda.
- Só esperando Haylie e . - disse tranqüilo.
Sem muita demora os últimos chegaram, com seu carro e Haylie deixada pela mãe. Provavelmente ela iria no carro de , por razões que todos sabiam, mas não iriam comentar.
- Tudo pronto?
A via expressa estava vazia. Provavelmente todos pegariam a estrada ainda mais tarde, o céu já não era mais tão claro, a paisagem daquele lugar permitia que todos vissem o céu quase por inteiro. A cada metro que andavam o horizonte parecia mais próximo e o laranja e roxo do céu mais acentuados. abriu a janela do carro até onde era permitido, como a claridade já era quase nula, tirou os óculos escuros de armação branca. Praticamente emparelhado com o carro de estava o carro de . Com os olhos presos as mãos do menino que se mantinham firmes ao volante, percebeu como ele podia parecer atraente sem estar sendo mal-educado. Apesar de que a graça de tudo aquilo era o jeito dele, a maneira como era mal-educado em um momento e completamente dócil em outro. Acompanhou em silêncio o movimento que ele fez para tirar o WayFarer e deixou-se olhar para os botões abertos da camisa pólo. Com a leve interferência no rádio do carro de acordou dos pensamentos que dali alguns segundos poderiam de tornar extremamente libidinosos.
Hill Valley não era tão afastada da cidade, mas era completamente diferente. As ruas em forma de pequenas alamedas, as casas com uma grande distância, a quantidade de quadras e pequenos espelhos d'água espalhados pela região. Todos comentavam sobre as festas, divertidas e sem hora pra acabar, a pequena cidade era o retiro de férias de muitos jovens que preferiam o campo, ao invés da praia e a agitação de Bournemouth.
arregalou os olhos assim que terminou de manobrar o carro dentro da garagem que tinha espaço para os exatos quatro carros. A casa estava muito diferente. Quando era pequena, aquele lugar tinha muito mais cara de campo do que via naquele momento. A sala era repleta de móveis de mogno escuro combinados com eletrônicos de última geração.
- Minha mãe estava bem certa quando disse que isso estava demais. - o menino disse, também não reconhecia o lugar.
- Não imaginei que no campo tivesse TV a cabo. - Haylie disse assim que parou em frente a enorme tela plana presa a parede.
- Nós não estamos exatamente no campo. - respondeu deixando de puxar a mala.
- Roça seria Bolton. - disse entrando na conversa.
- Na boa, enquanto vocês decidem o que é roça, e o que não é roça, eu vou achar um quarto pra mim. - disse deixando a discussão de Haylie e sobre os reais conceitos de urbanização de Londres para trás. riu e puxou a alça para poder arrastar sua mala. Enquanto continuava caminhando pela casa teve certeza de que não se lembrava de nada, quando era pequena passou alguns finais de semana por ali a convite dos pais de , mas aquilo tinha muito tempo. Das poucas recordações que tinha nenhuma era parecida com a realidade da casa.
Seguiu até o cômodo em que ele entrou. O quarto era grande, grande e diferente, os papéis de parede eram listrados, a mobília toda branca deixava tudo claro demais, tinha que se acostumar, nem todos os quartos eram como o seu. caminhou até a janela e puxou as cortinas para que a claridade de fora entrasse no quarto.
- Que bom que mamãe mandou alguém limpar isso aqui, não quero nem imaginar como estava. - disse jogando o corpo na cama.
- Eu não me lembro de absolutamente nada daqui. - falou enquanto abria a mala, tirou dali uma outra blusa e um short jeans.
- Haha, bons tempos. - ele falava como se fosse realmente muito velho. - Eu lembro de tudo, nós brincávamos de caça ao tesouro. Minha mãe escondia as coisas pelo jardim e nós ficávamos procurando igual dois idiotas. A Jane também fazia uns bolos bem maneiros, meu pai costumava acender uma fogueira lá trás perto da piscina. A Phoebe gostava daqui.
Aquela era uma memória que há muito tempo não vinha a mente de . Phoebe, a antiga cadela da família de .
- Mas as coisas estão bem diferentes aqui, não estão?
- Sim, meus pais fizeram uma reforma. Não sei dizer quando, mas fizeram. - o menino a observou sentada na beirada da cama. - Vem aqui.
não hesitou e deitou ao lado do menino, ele a puxou a envolvendo em um abraço meio desajeitado. Beijou o topo de sua cabeça. Poderia ficar o resto dia daquele jeito.
- Vamos ficar aqui no quarto ou vamos aproveitar lá fora? - perguntou num tom de brincadeira.
- Você quem sabe... O quarto pode trazer benefícios bem legais, inclusive o bom uso da cama. - disse com as mãos espalmadas nas costas da garota.
- E você já pode parar de pensar nisso. Quem sabe se eu for muito legal com você!
Hill Valley podia ser muito bem um retiro para jovens mimados, daqueles que bebem para afogar as mágoas de uma vida completamente cheia de dinheiro e luxo. Todos ali agradeciam por não serem desse tipo, a sensação daquele recesso era viajar para outro país, viajar para a praia, tudo menos o campo. Escolher o rejeitado podia ser muito bom.
Sentados na grama do jardim da casa bem próximos da piscina todos conversavam e riam alto de piadas completamente desconexas. Faltava pouco para que seguissem caminhos diferentes. Ninguém ali sabia se a banda daria certo, todos acreditavam nisso, mas nada garantia. Haylie e não tinham uma banda, teriam que ir para a faculdade, trabalhar, se virar, viver a própria vida longe do ninho pela primeira vez.
A experiência de viver fora do ninho não era tão estranha para , assim que perdeu os pais não tinha mais de quem sentir falta. A não ser , claro. Fora isso todas as opções sumiram. Não era apegada a tia, nem ao tio, os avós eram distantes. Os únicos que restavam eram seus amigos, aqueles que não iria querer distância nunca.
Ficariam ali conversando até o sol sumir e no lugar dele um azul escuro tomasse conta do céu.
- , - chamou meio grogue graças ao sono - ainda não dormiu?
Os movimentos e sussurros do garoto não passaram despercebidos pela menina. Já era tarde, madrugada e ele ainda não tinha pregado os olhos, precisava tirar as frases que tinha acabado de formar em sua cabeça. Se não o fizesse não dormiria. Por isso odiava compor músicas, elas não saiam de sua cabeça depois de prontas.
- Dorme, . - disse afagando os cabelos da menina que estava de costas para ele. - Daqui a pouco eu vou dormir também.
poderia até tentar fechar os olhos novamente, mas seria bem difícil.
- Que horas são? - ela perguntou.
- Três e meia. - sussurrou, no mesmo instante a menina virou, lentamente, apertou os olhos e tentou abri-los. - Eu disse pra dormir, eu só estou pensando, pensando até demais por isso não consigo dormir.
A garota rolou até ficar de barriga para baixo e apoiou o corpo nos cotovelos.
- Posso saber no que está pensando? - perguntou.
- Sabia que você não voltaria a dormir. - riu silenciosamente. - Algumas frases estão na minha cabeça... Elas ficam rodando, e são realmente boas. Só que de tanto pensar nelas não consigo dormir.
- Tire as da cabeça, ué.
- Se tirar acho que não volto a lembrar nunca mais. - disse batendo a mão na testa.
girou até poder jogar os pés pra fora da cama, caminhou até o móvel onde tinha visto alguns papéis e uma caneta. Voltou para a cama e estendeu ambos para .
- Escreva assim poderá dormir, quando acordar, elas ainda estarão ai. - o menino sorriu e pegou as folhas junto com a caneta.
Captivated by the way you look tonight the light is dancing in your eyes
Times like these we'll never forget
Staying out to watch the sunset,
I'm glad I shared this with you
You set me free
Showed me how good my life could be...
- Posso ver? - perguntou tentando espiar por cima do braço do garoto o que ele tinha escrito.
- Não... - rolou os olhos de um jeito engraçado. - Quantas vezes vou ter que dizer? Um dia você verá, mas só quando estiverem boas o suficientes. Quando forem famosas talvez.
- Isso significa que irei saber quais e como são as letras junto com o resto do mundo. Qual a graça disso? - disse fazendo bico, rolou na cama ficando de barriga para baixo e corpo apoiado sobre os cotovelos. - Achei que tivesse meus privilégios.
- Você tem privilégios. Por exemplo, agora eu pretendo chamar você pra uma volta lá no jardim. Acha que eu chamaria qualquer garota as três da manhã para isso? - aos poucos as bochechas dela assumiram um tom avermelhado. Seus olhos ficaram um pouco mais brilhantes que o normal. - Vamos, calce alguma coisa, estou falando sério, vamos dar uma volta.
Além das pantufas ainda pegou um agasalho que estava sobre a cadeira, era de , assim que o vestiu e fechou o zíper sentiu o perfume característico invadir suas narinas. O dia tinha sido quente, mas nada podia garantir que a noite também seria. A casa estava tomada pelo silêncio, poderiam passar sem serem percebidos, e foi isso que aconteceu. A porta foi fechada com cuidado e logo os dois estavam em pé um ao lado do outro bem debaixo dos sininhos que enfeitavam a porta. pegou a mão da menina.
- Você quer ficar por aqui, digo, no jardim? - perguntou enquanto a conduzia em direção aos paralelepípedos que faziam um caminho até o jardim.
- Pode ser, você falou como se tivesse outra idéia. - ela respondeu balançando a mão que segurava a dele, conseqüentemente fazendo os dois braços balançarem.
- Pensando bem, você ta mesmo a fim de andar? – perguntou freando os passos. – Estavam pensando em outra coisa, mas só se você quiser.
- Pode falar... – a menina respondeu um pouco hesitante, confiaria plenamente em , mas suas idéias certas vezes eram um pouco absurdas.
- Vem, vamos pra piscina. – disse puxando a mão dela entrelaçada a sua na direção oposta àquela que seguiam. Atrás da enorme casa estava a piscina, onde todos passaram a tarde conversando enquanto planejavam o que fazer nos dias livres daquela viagem.
O céu ainda mantinha o tom escuro que relaxava os olhos, as estrelas em uma quantidade bem maior que o normal distribuíam-se de maneira desordenada, a diferença de poluição tornava muito mais fácil o admirar da noite.
- Acho melhor tirar essas pantufas... – disse soltando a mão de pela primeira vez. Com um movimento delicado e silencioso, sabia que todos estavam dormindo profundamente, mas seu instinto agia assim, tirou as pantufas que havia posto para caminhar com o garoto.
Não vestia as roupas adequadas para entrar na piscina, por isso mantinha na cabeça a idéia de sentar próxima a borda e conversar, observar a noite, relaxar, nada de água. Na borda oposta a que estava, colocava um pé dentro da água, provavelmente, certificando-se de que a temperatura ainda estava quente, afinal o dia mais cedo havia sido muito quente.
Sentou-se na espreguiçadeira e cruzou as pernas como índio, sorriu para o menino que fez uma cara em tom de interrogação.
- Não vai entrar? – ele perguntou.
- Não, eu estou de pijama, não sei se percebeu. – disse como se fosse óbvio que não cairia naquela loucura toda de aventura durante a madrugada.
- Tudo bem, a água está ótima e eu, ao contrário de você, vou aproveitar isso. – num movimento rápido livrou-se da camiseta e entrou dentro da piscina. Nada de pulos monstruosos, com uma mão na borda colocou o corpo para dentro da água rapidamente.
Poucos segundos depois emergiu do lado oposto, o mesmo lado em que estava sentada e distraída. Com os braços sobre a borda de pedra e o queixo sobre as mãos manteve o silêncio que já perdurava desde o último pequeno diálogo.
- , sem gracinhas, por favor. – disse assim que os pingos de água a acertaram. – Você pode se comportar, e puxar algum assunto de preferência.
- Chata, às vezes você parece mais velha do que é. – rebateu num tom brincalhão. – Tão bonita e certas vezes tão controlada. Acho que devia viver mais intensamente, .
- Intensamente?
- Você não entendeu o sentido, eu não quis dizer intensamente como aqueles comerciais mostram, eu quero dizer que não precisa ficar segurando sua vontade de fazer as coisas, sempre pensando nas conseqüências que podem vir, faça e depois pense nas conseqüências, pelo menos agora, que ainda é jovem e pode aproveitar. Daqui alguns anos você será velha demais para fazer o que quer.
- No fundo, bem no fundo, você deve ter razão, mas infelizmente eu ainda sou cautelosa com tudo o que eu faço. Meu medo das conseqüências não me permite ser tão intensa como você. – disse a última frase com um pouco de ironia na voz. – Esse seu discurso bonito tem algum tipo de relação com a minha falta de vontade de entrar na água com você?
- Quem sabe... – o sorriso de lado mostrava como metade do discurso havia sido pensada apenas para que ela entrasse na água.
- Eu vou até ai, mas só vou molhar minhas pernas, não me venha com mergulhos de pijama. – disse levantando da espreguiçadeira e caminhando até a borda.
- Eu não me importaria se você quisesse tirar o pijama. – respondeu naturalmente.
- Como você é brincalhão, não ? – com calma colocou as pernas para dentro da água morna assim que se sentou na borda de pedras ásperas da piscina. – Satisfeito?
- Ainda não, mas você entrará na água ante de voltarmos para dentro. – disse certo de que sua vontade se realizaria até o final da noite. – Tem certeza de que não vai entrar?
- , achei que soubesse que eu tenho uma certa aversão à água. – disse balançando os pés e seguindo as pequenas ondas que se formavam.
- Aversão à água? – perguntou. – Isso soou muito estranho, se alguém que não te conhece ouvisse isso, com certeza, acharia que você não é fã de banho, por exemplo.
- Não vou perguntar se dormiu com um palhaço pra estar tão... Sei que nem dormir essa noite dormiu. – rebateu mostrando a falta de graça nas piadas de . – Eu nem sei em que altura do meu corpo bate a água dessa piscina, não vou entrar. Não sei se você está na ponta dos pés, não sei se está apenas apoiado nessa borda, não confio na água.
Com cuidado, se encaixou entre as pernas da menina, apoiando as mãos em sua cintura.
- Eu não estou me apoiando na borda, e a piscina, certamente, da pé pra você. Já pode parar de frescura e entrar na água de uma vez. – ainda relutante deu-se por vencida e apoiou as mãos na beira da piscina. Com as mãos em sua cintura, a puxou para dentro da água. – Olha só, não foi o fim do mundo, e nem um pedaço de você caiu.
- Não vou voltar a repetir como você consegue ser sem graça. – aliviada encostou os pés no fundo da piscina e relaxou um pouco os músculos que estavam tensos.
- Você deveria achar seu namorado engraçado, é absurdamente divertido passar um tempo com ele. – disse próximo a clavícula. – Com essas coisas de banda e você tão preocupada com a faculdade eu percebi que mesmo morando na mesma casa não passamos mais tanto tempo juntos.
colocou os braços em volta do pescoço do garoto e inspirou o ar.
- Você tem razão. Essa semana teremos tempo pra nós, não é?
- Com certeza, é pra isso que viemos, tempo para nós, tempo para os amigos... Tudo que não conseguimos mais fazer. – disse com uma certeza na voz, certeza essa que deu certeza para de que aquilo seria verdade.
- Te amo. – disse sem emitir som, apenas movimentando os lábios.
- Se me ama, confia em mim, certo? – perguntou com os lábios sobre os da menina.
respondeu com um aceno de cabeça.
Aos poucos suas costas se uniram ao azulejo da piscina, os movimentos de eram tão leves que passariam despercebidos. Segurando firme na cintura de , levou a trilha de beijos do pescoço até seu maxilar. Sutilmente e propositalmente. O silêncio em que se encontravam apenas deixava evidente o som dos batimentos cardíacos da garota, que tentava em vão disfarçar qualquer sensação exacerbada.
Deixou que o perfume natural de invadisse suas narinas e as queimasse arduamente. O toque macio dos lábios dele só não passou despercebido porque fazia parte das poucas sensações que ela maia amava; sentir os lábios dele tocando os dela.
Aos poucos esqueceu que estava dentro da piscina, que poucos minutos antes estava reclamando por ter que entrar na água. Segurou o cós da bermuda de acabando com qualquer distância. Sentiu seu cabelo ser segurado firmemente pela mão direita do garoto, puxou lentamente o lábio inferior e soltou o ar que prendia.
- Obrigada. – ela disse com a cabeça enterrada na curva do pescoço de e os lábios juntos a pele dele.
21 – Parte 2
Narrado por
- , você tem certeza de que quer ir nessa festa? - perguntei tentando esconder o tom diferente em minha voz, vacilante.
- Você estava tão empolgada. - ele respondeu, terminou de colocar a camiseta e caminhou até a porta do banheiro do quarto. - Aconteceu alguma coisa? Você não quer ir?
Desviei os olhos do reflexo de seu rosto, apoiei os braços na pia e respirei fundo o ar quente que ainda parava graças ao vapor do banho.
- Foi só uma pergunta. Nós vamos a essa festa sim. - como se tivesse tomado uma injeção de ânimo, saí do banheiro e fui até a cômoda pegar uma blusa. - É a última coisa que faremos, amanhã já iremos voltar, então vamos aproveitar.
A festa não era longe, digamos que do outro lado do residencial. Cada um saiu em seu carro e já passava das dez e meia.
Num curto espaço de tempo chegamos a casa onde acontecia a tal festa. O som alto parecia não incomodar os vizinhos. Algumas garrafas estavam jogadas pela calçada, e algumas pessoas também, diga-se de passagem. Era estranho pra eu dizer que era absurdamente constrangedor chegar em um lugar onde não se conhecia ninguém, repito, ninguém mesmo. Quer dizer, conhecer as pessoas nunca havia sido um problema para mim, a única vez que me senti assim foi no colégio assim que o ensino médio começou. Dei uma olhada para antes de passar por cima de uma montanha de copos de plástico vermelhos.
Tudo era uma verdadeira zona. E para melhorar, ninguém percebeu nossa presença. Coloquei minha mão para trás na esperança da encontrar a mão de , rapidamente senti seus dedos em minha mão e os segurei forte.
Eu até gostava de festas daquele jeito, me lembravam as festas que eu costumava ir com no ano passado.
A música ao fundo parecia ser Damn, you look good and I’m drunk do Cobra Starship, ela podia ser facilmente confundida com os gritos, palavrões e risadas daquela sala. Uma menina completamente bêbada esbarrou em mim, tive que segurá-la para que não caísse sobre mim e . Olhei de esgueira com uma cara que mistura terror e graça.
- Os forasteiros vieram até a mina de ouro. - ouvi a voz que parecia falar conosco. Virei e dei de cara com Josh de braços abertos e em uma das mãos uma garrafa de vodka já pela metade. A bebida parecia não ter afetado seu jeito espalhafatoso natural.
Duncan fora a única pessoa diferente que conversou comigo, e os outros. Ele era animado demais, disse que ele devia usar algo, afinal ninguém poderia ser ligado nos 220W vinte e quatro horas como ele parecia ser.
Apesar de ser um estranho para nós, ele parecia ser muito, muito legal, diferente de todas as pessoas em Hill Valley.
- Eu achei que não viriam. - disse depois de cumprimentar um por um de nós seis.
- Festa é uma coisa que não costumamos perder, cara. - eu não tirava a razão de em momento nenhum.
- É de gente assim que eu gosto. - ele apoiou e voltou a dar um gole na garrafa de vodka. - Amigos, fiquem à vontade. Mi casa es su casa. Bebidas na cozinha, garota pela casa e se quiserem outras coisas também vão achar.
Eu sabia que não tinha sido a única que havia entendido muito bem aquela última frase. Era mais do que claro que poderia achar tudo o que quisesse naquela casa.
- O que vamos fazer? - perguntei para .
Eram dezenas de latinhas de cerveja amontoadas sobre a mesa em que estávamos sentados em volta. Todos já falavam alto e davam risadas estridentes. A piscina estava logo ao lado, algumas pessoas se jogavam ali dentro e outras pareciam desmaiadas.
Atravessei o jardim para voltar a casa e pegar mais algumas garrafas de cerveja. Assim que entrei na cozinha meus olhos reagiram a claridade, aquele parecia ser o único cômodo realmente iluminado. Abri a geladeira e como em todas as vezes que eu havia feito isso, o espaço interno estava preenchido por garrafas de Erdinger.
- Cuidado. - uma voz estranha soou na cozinha que, por milagre, estava vazia. - Uma garota bonita e bêbada por aqui pode ser perigoso.
Estranhei aquilo. Continuei abaixada com algumas garrafas nas mãos. Lentamente me levantei e fechei a porta com o pé antes de me virar e ver quem estava falando comigo.
Os olhos verdes não me eram estranhos, assim como os traços do rosto. Mas devo levar em conta que aquela não era a primeira garrafa de cerveja que eu tomava naquela noite. Permaneci quieta, analisando cada detalhe daquele garoto, eu não estava admirando, estava apenas tentando buscar em minha memória de onde o conhecia. O efeito do álcool não estava me ajudando.
- Eu já tinha te visto, mas achei que não podia ser... - meu cérebro entrou em parafuso por alguns segundos. - Depois de alguns anos e algumas coisas não esclarecidas... - mantive os dedos firmes caso alguma das garrafas quisesse seguir os princípios da gravidade e ir de encontro ao chão.
Fazia muito tempo, minha memória é boa, como a de um elefante, dizia a minha mãe. Eu teria me lembrado assim que o vi.
- Você não se lembra de mim, ou devo atribuir isso a bebida? - ele perguntou se aproximando e apoiando a lateral do corpo na geladeira. Aquele jeito de tentar aproximar a presa a cada palavra não pode passar despercebido.
Eu não tinha mais dúvida. Ethan estava bem ao meu lado.
- Como eu poderia esquecer? - disse rompendo o silêncio.
Flashback - 4 anos atrás
O famoso almoço promovido pela família estava para começar. As coisas estavam diferentes há três anos. Dois dos herdeiros não estavam mais ali. Claire e Edward Crawford estavam mortos depois de um fatal acidente de carro. A única sobrevivente, , a futura herdeira.
A direção de um dos maiores bancos da Europa era tradição de décadas, havia começado na mão dos tataravós de . A família era a verdadeira administradora e dona de tudo aquilo. Fazer parte daquele império se assemelhava a fazer parte de um círculo social a parte.
Tudo podia parecer confuso visto de fora, mas não era bem assim. Eram quatro famílias, todas tradicionais.
, proveniente da nata londrina. Fundadora do West Bank Of London. Os atuais gestores de tudo eram os avós de e , filhos de Claire e Juliett respectivamente. Juliett era filha adotiva e casou-se com Joseph. Desde sempre Katherine e Darius planejaram a vida das filhas, principalmente de Claire, se tudo seguisse de acordo com o plano, nenhuma preocupação viria nas próximas gerações.
Rosemberg, respeitados no norte da Inglaterra se juntaram aos com o propósito de expandir os negócios e manter o controle nas mãos de ambas as famílias. Acreditaram que se casassem Claire e Joseph, filho único, manteriam tudo sob controle. Só não contavam que Claire se apaixonaria por Edward, um simples garoto de família da classe média, e que no final das contas, Joseph se casaria com Juliett, a filha adotiva. Da união dos dois nasceu , primo de .
, próximos a família desde sempre. Marie, única herdeira, cresceu ao lado de Claire. As duas eram melhores amigas, conseqüentemente seus filhos seguiram com o mesmo laço, e . Marie era madrinha de , mas não pôde assumir a guarda da menina assim que o acidente matou Claire e Edward.
Delacoure, a última, mas não menos importante. Franceses, sua penúltima geração havia sido criada na Inglaterra. Refinados, eram responsáveis pelos grandes jantares e festas da cidade. Fleur e Pierr tiveram apenas um filho: Ethan Delacoure.
O futuro das quatro crianças ainda estava distante. Esses poderiam continuar se preocupando com os problemas e benefícios da pré-adolescência.
- Pronto para mais um domingo tedioso? - perguntou para assim que o garoto apareceu ajeitando o suéter e a gravata. Era nítido que aquele não era o traje preferido dele.
- Eu estou, já acostumei, há anos essa mesma chatice. E você, está pronta? - rebateu a pergunta.
- Claro. Quem sabe depois a gente possa sair? - rodou em frente ao espelho analisando o cumprimento do vestido. - Starbucks?
- Opa! - estendeu a mão para que pegasse e os dois pudessem descer as escadas de vidro. - O vestido ficou bonito.
- Obrigada. - a menina agradeceu tímida, mas sincera.
A mesa estava posta, alguns convidados já estavam ocupando seus lugares.
Os lugares já eram os mesmos há muito tempo, nos domingos de almoço se afastava da tia e sentava-se ao lado de Marie e .
- Você ficou linda, querida. - Marie disse cochichando. - Imaginei que o vestido lhe cairia perfeitamente.
- Obrigada, tia. - agradeceu próxima ao ouvido de Marie. - O vestido que tinham escolhido para mim era pavoroso.
As duas riram discretamente e voltaram a atenção para o avô de , que tomava a ponta da mesa e pedia silêncio.
- Mais uma vez, como de costume, gostaria de agradecer a todos pela presença. Antes de tudo, algo deve ser dito. - o senhor puxou o ar e continuou. - Esta conversa já deveria ter acontecido, mas confesso que não consegui. Saber que minhas palavras não se aplicariam a Claire, minha filha, e Edward meu genro que com muito custo aprendi a admirar, me causavam um enorme desgosto. Finalmente creio que consegui superar isso, passei por cima destas lembranças que teimavam em atrapalhar a caminhada.
"Hoje minhas palavras são destinadas aos jovens que estão nessa mesa, jovens que um dia tomarão conta de tudo que no momento está sob nossas mãos. Meus netos, e . , como um neto para mim também. E não menos importante, Ethan. Quero que a partir de hoje, vejam a vida como ela realmente é. Vocês estão entrando em um fase onde verdades começam a aparecer, o mundo começa a pregar peças. Um dia vocês, alguns de vocês, todos vocês, estarão no meu lugar, e no lugar de seus pais. Espero que pensem nisso com seriedade e responsabilidade."
Todos escutaram as palavras de Darius em silêncio, mas assim que o discurso acabou, palmas foram ouvidas.
Tudo correu na mais santa paz. Nenhuma desavença, nenhuma resposta atravessada. Principalmente entre Juliett e Marie, entre elas isso costumava acontecer com uma freqüência mais do que anormal. Logo depois da sobremesa, Petit Gateau, e trocaram olhares cúmplices e levantaram da mesa.
- Mãe, vou dar uma volta com a . - Marie apenas assentiu e os dois saíram do jardim e depois da casa.
End of flashback
- Alguns anos passaram, por pouco não te reconheci. - disse relaxando os músculos que estavam tensos graças a minha falta de memória de alguns segundos.
- Verdade, não imaginei que fosse ficar tão bonita. - Ethan disse sorrindo. Se eu não estivesse com , e não fosse realmente apaixonada por ele, teria deixado as garrafas caírem naquele instante.
- Você resolveu seguir os passos do seu pai? - perguntei um pouco petulante, ele deveria estar acostumado, a família inteira dele agia assim. - Tratar todas com esse charme barato?
- Barato? - ele rebateu. - Acredito que você não saiba do que está falando, afinal nunca teve a oportunidade de passar mais do que um almoço comigo.
- Te garanto que não seria necessário. - aquela troca de farpas era estimulante.
Ninguém nunca tirou da minha cabeça que os pais de Ethan tinham alguma coisa com o acidente de carro que matou meus pais há alguns anos. Minha antipatia tinha algum fundamento pelo menos.
- Legal te ver. - disse pronta para sair dali.
- Acho que vamos nos ver com freqüência - ele falou antes de acenar e virar as costas.
Respirei fundo e girei sobre os calcanhares.
Fim da narração
- Você demorou. - disse assim que chegou na mesa.
- Sério? - ela rebateu tentando mudar de assunto. Estava conturbada.
Pegou uma das garrafas e abriu com cuidado. Depois do pequeno gole prendeu o olhar na entrada da cozinha que agora era distante.
De onde tinha surgido Ethan? O que ele fazia em Hill Valley? Por que disse que se encontrariam com freqüência?
Pensou ter ouvido chamar por seu nome. Mas a maneira como estava presa aos pensamentos não lhe deixou descobrir se ele tinha feito isso. Colocou a garrafa sobre a mesa e levantou saindo dali.
No dia seguinte estaria de volta para casa, estaria calma novamente.
22
Narrado por
- Haylie, anda logo! - gritei próxima a porta do meu banheiro. Olhei para o relógio e bufei, já passava das nove e eu nem estava pronta. Abri mais uma vez a porta do armário.
- Caramba, pronto! - ela exclamou assim que saiu da sauna que havia virado meu banheiro. - Lavar e desembaraçar minhas longas madeixas dá trabalho você sabia?
Voltei minha atenção para a busca pela blusa. O combinado era que pouco antes da festa na casa de , e passariam na minha casa para pegar nós duas.
- Você reclama do tempo que eu levo no banho, mas até agora também não está pronta. - Haylie podia ser bem chata quando queria. - Até as dez temos que estar prontas! Anda logo também!
Com muita indecisão acabei pegando uma baby look com o nome do The Clash na frente. Por uma coincidência bem grande havia ganhado aquela camiseta do .
- Será que eles já estão vindo? - Haylie voltou a falar sentada na cama com uma certa dificuldade para colocar a bota. - Você já escolheu seus sapatos? Sabe como é, pra agilizar o processo.
Olhei para minha saia de um jeans escuro, a baby look cinza, quem sabe uma sapatilha ou um All Star? All Star, sabia que dentro do meu armário e dentro de uma caixa estava um par novinho dos calçados na cor branca. Fui rápida ao pegar o tênis, logo depois corri até o espelho para passar o simples do meu estojo de maquiagem. Com cuidado apliquei o delineador nas pálpebras superiores, o lápis, o gloss. Aquilo já era suficiente. Meu cabelo já estava quase seco, apenas o escovei novamente e sorri para o espelho.
- Acho que finalmente estou pronta. - procurei o relógio e constatei que já eram dez horas. Passei pela sala e a TV ainda estava ligada no MTV Hits, desliguei o aparelho e escutei o telefone tocar. Já sabia quem era, apenas assenti e desliguei.
A noite estava quente, pude perceber assim que cheguei ao lado de fora do condomínio. Sorri e andei numa velocidade incrível deixando Haylie para trás. Lancei os braços ao redor do pescoço de , suas mãos pararam em minhas costas me trazendo pra mais perto, engraçado como eu poderia sentir uma saudade absurda dos lábios dele.
- Ei, nem fiquei tanto tempo fora. - ele disse puxando meu lábio entre os dentes, - Wow, isso tudo é pra festa?
- Gostou? - perguntei olhando para baixo. - Achei que você fosse falar do tamanho da minha saia. - suas mãos me puxaram fazendo com que minhas mãos colidissem com seu peito.
- Não preciso falar, todos já estão sabendo que você é só minha. - quem sabe até meus cabelos tivesse ficado em pé assim que ouvi aquilo. Ao me afastar um pouco vi e Haylie conversando perto do carro, logo atrás estava .
- Olá meninos! - disse sorrindo para ambos. sorriu e acenou. Pude ver como ele realmente ficava bonito com aquela blusa e o cachecol xadrez. Os olhos intrigantes de sempre pareciam bem mais brilhantes daquela maneira. Entrei no carro e coloquei meu cinto.
- Hora de ir. - disse enquanto ligava o som, aumentou o volume e abriu os vidros. Don't trust me começava a tocar, apenas sorri para ele e recebi um sorriso malicioso em troca. - I'm not your boyfriend, baby - sabia que meus olhos estavam completamente presos ao movimento da boca dele assim que pronunciava as palavras.
Parado no sinal se aproximou de mim, mais precisamente do meu pescoço, seu celular infelizmente começou a tocar. O vi bufar e atender o aparelho.
- Antes de chegar na casa do vire a esquerda, vamos comprar umas bebidas. - pude escutar claramente o que disse antes de desligar o celular. Antes da casa de existia um pub, não era dos melhores, nem dos mais famosos, mas servia para achar qualquer tipo de bebida que deixaria todos totalmente loucos. O carro de foi o primeiro a parar, eu realmente não pretendia descer, não pretendia até de me puxar pra fora do veículo.
- Quer uma cerveja também? - perguntou assim que desceu de seu carro. assentiu e me puxou contra seu corpo que estava encostado no carro, minhas costas se chocaram contra seu peito.
- Eu não vejo a hora de chegar na casa do . - levantei um pouco a cabeça para ver seu rosto. - Não pude fazer o que eu quero até agora. - seus dentes se cravaram em meu lóbulo me causando arrepios.
- Casal ternura, hora de ir pra festa! - podia parecer bêbado sem ter ingerido uma só gota de álcool. Sua risada treslouca me assustou, mas logo voltei para o carro.
Todo o quarteirão da casa de estava rodeado por carros, alguns bebiam em cima dos capôs, outros largados de maneira despreocupada na calçada. Balancei a cabeça de maneira negativa, não eram nem onze e meia da noite. estacionou o carro e descemos juntos com os outros, assim que passamos pelo pequeno jardim lotado de pessoas ele passou seu braço pela minha cintura atraindo a atenção de várias pessoas. parecia completamente louco assim que veio falar conosco.
- Trouxemos bebida de verdade... - disse colocando alguns engradados de bebidas sobre o balcão da cozinha. - agora a festa começou!
- Há, venham conhecer o Jason!
- Eu já volto... - me disse.
Peguei uma pequena garrafa de Heineken e me encostei ali no balcão mesmo. Com um sorriso esperto Haylie se aproximou.
- , tá que tá, não é? - apenas sorri depois de um pequeno gole. - Sabe... - ela começou a balançar o corpo e eu já sabia que aquilo queria dizer. - o é bem legal.
- Você está esperando o quê? - ela sorriu.
- Nada. - como um vulto saiu do meu lado. Vi se aproximar mais uma vez.
- Acho que agora podemos "conversar". - ele disse. Sua mão segurou a minha e me tirou dali. Ele conhecia bem todos os lugares da casa de , apenas o deixei me levar.
Os corredores estavam vazios, diferente do normal em festas, com um olhar que podia ver através de mim me puxou para perto da escada.
- O que você tá querendo fazer? - meu tom de voz não podia sair claro.
- O que eu quero fazer desde a hora que você saiu de casa. - pôs meu corpo de encontro ao seu. Não havia porta nenhuma ali perto, rapidamente me esqueci da real importância de um quarto assim que sua mão apertou minha cintura com mais força que o normal e me prensou contra a parede. Completamente no controle da situação ele fez questão de começar a brincar com a minha impaciência. Suavemente seus lábios tocaram a pele descoberta de meu pescoço, se não estivesse apertando seus ombros para conter meus impulsos acreditaria que aquilo não passava de imaginação. Brincar comigo não tinha graça, eu levava aquela aproximação dele a sério. Puxei sua nuca finalmente acabando com aquela brincadeira sem graça. A mão de já estava firme em meus cabelos comandando completamente quais seriam meus movimentos.
- Mal aê! - cutucou as costas de o fazendo morder minha boca com um pouco de força. - Sem querer ser empata foda, mas já sendo... chega aí. - o vi se afastar totalmente sem graça, pelo jeito não seria hoje.
Voltei a cozinha e fui atrás da geladeira para pegar mais uma cerveja. A porta dos fundos estava aberta e por ali passavam várias pessoas, algumas sorriam e me cumprimentavam, eu mal sabia quem eram apenas sorria tentando parecer simpática. O jardim da parte de trás da casa de , era extremamente agradável, tenho certeza que também podia ser adorável sem aqueles adolescentes bêbados, seminus e depravados. No fundo, bem distante, havia uma árvore com um banco de pedra, caminhei próxima ao muro desviando de todos aqueles que não sabiam nem onde estavam. Apenas um pequeno poste, centímetros mais alto que eu, iluminava o lugar, se me sentasse ali podia passar despercebida. Foi o que fiz.
Minha pequena garrafa de Erdinger não estava nem na metade, coloquei as pernas esticadas sobre o banco frio e me arrepiei com o contato. Mais um gole na cerveja.
A piscina não era enorme, mas podia ser bem legal num dia de sol. Vários ali à volta já pensavam em se jogar lá dentro. Sai fora, a noite podia estar abafada, mas em certos momentos um vento frio passava arrepiando todo o corpo. Mais uma vez aquele vento passou por mim, mesmo com a garrafa na mão apertei os braços no tronco. Que diabos fazia com que não aparecia? Pensando bem ele não poderia me ver se eu continuasse ali, dei os ombros e me acomodei melhor naquele banco. Ri baixinho assim que percebi meus pensamentos saudosistas voltando, eles andavam me perturbando de uma maneira assustadora. De hora em hora me flagrava pensando alto, ou pensando em um tempo que jamais pensei que sentiria falta.
- Sozinha? - sua voz era inconfundível, seu cheiro também, por mais perdido que ele estivesse que conseguia identifica-lo. Sorri e rapidamente articulei uma resposta.
- Talvez não estivesse, se você não tivesse sumido. - um beijo parou logo abaixo da minha orelha, virei o rosto dando de cara com apoiado no banco. Encostei rapidamente meus lábios nos dele e esperei sua reação. Maldita mania que tinha de sorrir, seu sorriso como maioria das vezes fazia meus olhos se perderem e demorarem anos para voltarem ao foco normal. Era tudo harmonioso até demais, o branco do sorriso, o jeito como seus lábios se moviam pro lado, seu maxilar, o nariz, a cor dos olhos. - Pra onde te levou?
- Estávamos ensinando algumas pessoas a beber. Eu, ele, e . - abri a boca em tom de espanto, cheguei a levantar o dedo como se fosse o reprimir, mas ele foi mais rápido segurou meu indicador que já estava na altura de seu peito e levou até sua boca. - Como veio parar aqui?
- Sei lá, eu tava andando e olhando essas pessoas loucas. Resolvi sentar aqui e esperar você e o terminarem o que estavam fazendo. - disse tentando fazer manha pelo fato de ter me deixado sozinha
- O que eu estava fazendo com você estava bem mais interessante. - ri e me mexi no banco dando espaço para que ele sentasse ali. Seus braços passaram pela minha cintura fazendo com que encostasse minhas costas em seu corpo, seu queixo parou em meu ombro. - Eu escrevi uma música bem aqui. Enquanto ainda estava morando com o .
- Sério? - me virei para olha-lo de frente. - Gostaria saber porque nunca me mostra suas músicas?
- Uma razão simples, quase todas elas falam de você, ou quase todas. - senti minhas bochechas mudarem de cor, eu podia desviar o olhar e voltar à posição que estava, mas parecia simplesmente impossível. O olhar de era como um imã. E eu preferia ficar presa a todo aquele magnetismo. - Não me sinto confortável em mostrar as coisas que eu escrevo sobre você, sei lá o que você pode achar. - de uma maneira fofa ele levantou os ombros me fazendo rir.
- Realmente eu posso ficar muito brava se descobrir o que você fala de mim nessas músicas. - ainda hesitando resolvi pedir. - Canta uma delas pra mim? - ele olhou um pouco confuso
- Não acho que você vá gostar, estão tão patéticas... No dia que forem sucessos nas rádios você saberá. - resolvi não pedir de novo, ele podia ser extremamente envergonhado quanto a essas coisas. – ‘Tô me sentindo meio tonto.
- O que você bebeu, ?
- Cerveja, vinho e realmente não sei o que era o outro. - um grunhido saiu de sua boca. - Acho que eu não sei mais jogar vira.
- , você foi jogar vira? - exclamei - Por Deus, até parece que você não sabe as consequências disso.
Flashback - 4 anos atrás
- , meus pais não ficariam contentes em saber que você me leva para essas festas. Nós temos 13 anos! - dizia sentada em minha cama. - Mas antes de você me explicar como vai ser isso... Como você entrou aqui? - perguntei ainda agarrada a minha almofada.
- Você sabe como a Maria gosta de mim. Sabe que eu sou um ninja. Sua tia nunca iria imaginar que nesse momento eu estou aqui no seu quarto. - ele sorriu completamente prepotente. - Um menino no seu quarto as nove da noite. Ela ficaria louca.
- Que bom que você sabe. Então trate de falar mais baixo, antes que ela perceba que você está aqui. - voltei a jogar o corpo contra todas as almofadas que forravam minha cama, assim que apareceu quase pendurado na janela levantei assustada. - De quem é a festa?
- A festa é da Melanie. Aquela garota do time de cheerleaders. - olhei com desdém. - Eu sei que...
- Eu tenho cara de quem vai pra festa de cheerleader, ? Tenho?
- Não tem, mas vai ser legal, vai estar lá e mais uns amigos meus...
- Amigos que pra variar não vão com a minha cara. - cruzei os braços e deixei meu bico ir até o chão.
- Não tenho culpa se você não quer ser social, eles acham que você só quer estudar, estudar e estudar. - soltei um gritinho histérico. Eu não queria só estudar. - Isso grita bem alto. - ironizou.
- Vai termine.
- O mais importante, eu vou estar lá. Isso vai ser o mais legal. Você precisa ir a uma festa de verdade . - rolei os olhos e suspirei, aquelas amizades de ainda o levariam para um caminho nada agradável.
- Tudo bem, mas eu preciso me trocar. - levantei e fui em direção ao armário. - Espere dez minutos, quietinho. - puxei uma calça jeans, uma baby look branca e um pequeno agasalho de zíper. Ao lado da porta do banheiro estava meu par de tênis surrados. Aquilo estava bom, entrei no banheiro e fechei a porta.
Fechei a tampa do vaso sanitário e joguei as roupas ali. Apoiei o corpo na pia e observei o reflexo por alguns segundos. Lavei meu rosto tendo em mente que a água me daria energias para sair dali, eu estava completamente desanimada para qualquer tipo de contato com o mundo exterior. Abri a gaveta e puxei uma escova qualquer, penteei os cabelos até que estivessem todos os fios no devido lugar, separei uma mecha e prendi com uma presilha. Meu lápis de olho estava pequeno já, mas daria para usar, passei sentindo o olho lacrimejar um pouco. Tirei o pijama que estava vestindo e aos poucos fui colocando todas as peças que tinha separado há pouco. Assim que coloquei o agasalho tirei, se meu quarto estava quente não queria nem imaginar como estava lá fora, ficaria somente com a baby look. Puxei os cabelos para frente e sorri de maneira exageradamente falsa para o espelho.
- Está pronta? - ele despertou assim que sai do banheiro, sentado em minha cama observava algumas das minhas anotações. - Está ótima. Juro que você não vai se arrepender!
Neguei com a cabeça completamente descrente na probabilidade de me divertir um pouco que fosse. A casa de Melanie não ficava longe da casa da minha tia, caminhamos em silêncio. me conhecia, ele sabia que eu não estava confortável. Nem um pouco confortável. Os novos amigos de me incomodavam e essa não é a primeira vez que eu digo isso.
- Você pode ficar tranquila, eles não mordem. - foi um movimento delicado, ele pegou minha mão e me levou pra dentro daquela casa barulhenta. Todos me olhavam como se fosse uma estranha. Abaixei a cabeça e a mantive os olhos ligados à ponta dos pés, não olharia nos olhos de ninguém, não deixaria que aqueles que ainda não tinham me visto percebessem minha presença.
- Eae, cara! - senti a mão de se desligar da minha, pelo que disse conclui que estava cumprimentando algum dos amigos. - Essa é a sua amiga? Como é o nome mesmo?
- , ela mesma. - a mão dele voltou a encostar-se na minha. - , este é .
Obrigada, eu já sabia bem quem era . O garoto um ano mais velho que nós. Aquele que vivia sendo expulso da sala, eu escutava quase todos os dias a porta do andar de cima bater e sua risada escandalosa tomar conta do prédio. Os dedos de apertaram um pouco mais os meus e percebi que teria que levantar o rosto e sorrir para o "amigo" dele.
- Olá. - disse tímida, meus olhos se confundiram um pouco assim que os dentes do menino apareceram, emoldurados por um sorriso alegre.
- Prazer, . - ele apertou minha mão e eu aumentei um pouco o sorriso. - Cara, fica a vontade, tem bebida na cozinha e música. Se divirta!
se afastou entre os jovens que dançavam pela sala e bebiam em copos descartáveis vermelhos.
- Viu só? Ele não é tão ruim. - coloquei a cabeça para o lado sem dar uma resposta, ele até podia ter razão. - Acho que você não bebe. Vou pegar uma cerveja pra mim, já volto!
Ele não demoraria, a cozinha era do lado da sala e para facilitar estávamos encostados perto da porta. Algumas meninas passavam e me encaravam sem nem desviar o olhar. Qual era o propósito daquilo?
O que as fazia me ver de um jeito diferente?
O fato de eu ser amiga, ou melhor, quase irmã de ? Aquele que todas elas estavam cobiçando desde que passamos da sexta para a sétima série. Por favor.
- Ei, que olhar perdido é esse? - sorri sem mostrar os dentes. - Não quer um gole. - me estendeu a pequena garrafa de cerveja, dei de ombros e biquei a bebida. De primeira não pareceu muito agradável. Vamos deixar claro que aquele era o primeiro gole de algo alcoólico que eu tomava na minha vida. - Seu pai não gostaria de ver eu fazendo isso. Não mesmo.
- Tenho certeza que um dia ele irá te castigar. - devolvi a garrafa e voltei a observar as pessoas por ali, relaxei um pouco, mas mantive as costas na parede. não parava de olhar para os cantos, em um movimento sucinto sua mão livre se apoiou bem ao lado de meu rosto. Com o canto do olho vi que era aquilo mesmo, sua mão estava apoiada na parede, perto do rosto. Aquele movimento fez com que seu corpo pendesse um pouco para frente.
As coisas estavam estranhas e estavam acontecendo rapidamente também. passou naquele mesmo corredor e entregou a garrafa já vazia em sua mão. Seu corpo no mesmo instante estava bem próximo do meu, não era a proximidade que estávamos acostumados. Era algo novo. Sua mão repousou na minha cintura fazendo um arrepio correr por toda minha espinha. Pude sentir sua respiração bater na lateral do meu rosto.
- o que é isso? - perguntei com uma certa aflição escondida na voz.
- Calma. - sua voz era arrastada. Aos poucos seu corpo foi descolando do meu, foi imediata a vontade de protestar contra. - Eu não ia comentar, mas seu perfume é realmente muito bom. - ele sorriu de lado discretamente.
- O que deu em você? Senhor, mantenha distância de mim. - perguntei petulante.
- Não gosto de ver o Black olhando pra você.
Olhei o relógio de pulso e constatei que passava das uma e meia da manhã. Na casa da minha tia todos estavam dormindo e eu aposto que não deram falta da minha pessoa. Será que tia Marie sabia que havia vindo para uma festa tão adulta para nós?
O pior era saber que estava quase caindo em cima de mim, bêbado. Olhava para os lados quase entrando em pânico.
- , já disse que te amo. - ele disse me olhando com uma cara totalmente infantil.
- Já disse, e fez o favor de repetir isso inúmeras vezes na última hora. - disse rolando os olhos. - Não sei porque vim pra cá, olha isso. Como você vai voltar pra casa?
- Relaaaaaaaxa. - sua voz também estava enrolada. Quantas vezes eu tinha dito pra não beber daquele jeito, pra não misturar coisas daquele jeito.
Vi passar por ali e saltei do sofá, corri atrás dele desviando das pessoas que estavam do mesmo jeito ou até piores que .
- , preciso de ajuda. ‘tá meio mal, o que eu faço? - ele apenas levantou uma sobrancelha.
- Onde ele está?
- Na sala. - disse quase desistindo da possível ajuda dele.
- Tudo bem, vamos lá.
Soltei o ar aliviada, vi passar na minha frente e então o segui, ao ver no sofá, começou a rir de maneira estridente. Rolei os olhos. Como garotos conseguiam ser patéticos em horas erradas?
Com um certo cuidado colocou os braços de sobre seu ombro e meu ombro. Resmungos saíram da boca de , até parece que ele estava em condições de reclamar. Bufei e segui , ao subir as escadas e passar por uma ou duas portas chegamos ao que parecia ser seu quarto.
- , o banheiro é logo ali. Abre o chuveiro na água fria e enfia a cabeça dele lá embaixo. - meus olhos se arregalaram, que culpa tenho eu, nunca tinha lidado com bêbados. - Que foi?
- Nada. - disse mais pra mim do que pra ele, chamei que continuava soltando seus muxoxos. - Você tá pesado.
O banheiro de era todo azul, todo azul mesmo, chegava a doer os olhos. Girei o registro dentro do box e tentei controlar a temperatura da água. já estava sentado no vaso olhando pra minha cara como se fosse retardado. Coloquei as mãos na cintura e respirei fundo antes de levanta-lo mais uma vez.
- Tá frio! - foi o que ele disse assim que entrou na água gelada. Poderia ser fácil pra mim, poderia ser seco. Eu realmente não queria sair molhada de toda aquela experiência.
- Para, ! - gritei assim que recebi pingos gelados de água no rosto.
- Acho que está bom. - disse na porta do banheiro me estendendo uma toalha. - Desculpa, não vou ficar enxugando marmanjo. - apenas ri e tomei a toalha. Realmente parecia ter efeito àquela história da água fria, ele parecia sonolento.
Assim que terminei de seca-lo percebi um deslize mortal. Roupas.
Sai com ele do banheiro e nos esperava perto do armário, por sorte, com uma camiseta e uma bermuda nas mãos. Fiz sentar na cama e voltei a secar sua cabeça.
- Acho que ele não pode voltar molhado pra casa, não é? - afirmei e passei as roupas para o meu querido bêbado. - Vocês são amigos faz tempo?
Estava um pouco distraída com tirando a camiseta, mas acordei a tempo de responder.
- Sim. Quer dizer, nossas mães se conheciam... - sorri sem mostrar os dentes. Apesar dos treze para catorze anos não estava mal.
- Se conheciam? - voltou a perguntar.
- Minha mãe morreu... Três anos atrás. - engraçado, aquilo saiu de maneira natural.
- Sinto muito. - não sinta querido. Eu podia ver trocando a calça jeans pela bermuda, mas não. Seria melhor virar de costas. - Vocês têm uma relação diferente.
- Diferente como? - não pude deixar de me sentir atraída pela afirmação dele.
- É, a maneira como ele cuida de você. Não somos tão velhos assim, ele cuida de você como se... Não sei, fosse parte dele. - me senti extremamente estranha ao ouvir aquilo. Mantive meu silêncio. - Acho que é hora de levar o bebê para casa.
- Quem vai fazer isso?
- Eu. Acho que não vão destruir minha casa se pegarmos um táxi e deixarmos ele em casa. - disse de forma natural.
- Não se preocupe, eu pego um táxi o deixo lá e depois vou pra casa. Não precisa e nem deve abandonar sua casa, não com toda essa gente pior que ele solta por aqui.
End of flashback
- , isso foi há muito tempo, saiba você que desde então eu não tive muitos porres. - disse de forma natural. A maneira como estávamos sentados fazia minhas costas ficarem encostadas em seu peito. Pendi a cabeça para o lado.
- Você quem sabe. - ele riu baixo. Sabia que meus conselhos simplesmente não serviam para ele. Sua mão estava se movendo tão leve e lentamente por baixo de minha blusa que eu podia não ter nem percebido. Às vezes se arriscava a subir até um pouco além do meu umbigo, mas logo recuava.
- Ei, - sua voz soou colada ao meu ouvido, podia permanecer ali sentindo o cheiro de perfume, álcool e menta que ele carregava pelo resto da vida. - eu te amo.
Virei meu rosto para olha-lo bem nos olhos, com a boca quase junta a sua repeti suas palavras, que para mim, soavam ainda mais fortes.
Ele sabia muito bem que eu não sabia dançar, ou melhor, não era a melhor na arte de coordenar braços e pernas de maneira aceitável, mas ele insistia. Insistia. Cedi para variar, péssima idéia. Ele já estava bêbado, bem do jeito que eu havia alertado para não ficar. Por que me ouvir?
- Garotão, você não está bem. - disse assim que batemos em uma parede, culpa dele, dele e de seu peso. - Você consegue ficar quietinho aqui, eu já volto. - ele mordeu o lábio inferior e assentiu freneticamente, assim como crianças fazem.
Pensando bem... não ficaria incomodado se pagássemos o quarto que até pouco tempo estava usando. Isso se ninguém tivesse chegado antes de nós. Girei meus calcanhares de volta para onde me esperava.
- Vamos subir.
O quarto era extremamente simpático. Claro e confortável. Podia ser até mais legal que o quarto lá de casa.
- Eu posso saber porque nós subimos? - antes que pudesse me habituar ao quarto, me puxou para perto. Seu sorriso não era tão fofo como sempre, era diferente, algo como predador preparado para o ataque. Retribui seu sorriso.
- Não sei, quem sabe possamos aproveitar bem mais aqui. - disse segurando a barra de sua camiseta e caminhando devagar para a porta que ficava no fundo do quarto. Será que ele estava tão mal a ponto de não perceber que estávamos indo para o banheiro? Repito, banheiro.
Meus pensamentos têm a capacidade de atrair coisas.
- Banheiro, . - ele disse com as sobrancelhas próximas. Como podia ser tão lesado? - Desde quando você é assim?
- Você precisa ficar a par de muitas coisas. - disse grudada a seu lóbulo. Puxei sua blusa para cima e, facilitando todo meu trabalho, ele levantou os braços. - Por favor, você realmente acha que eu vou fazer alguma coisa com você desse jeito? - rolei os olhos. - Você precisa de uma bela água fria.
- Esse tipo de coisa não se faz, não se faz. - ele disse enquanto soltava gemidos baixos graças à água fria. Apenas ri. - Ri, isso ri mesmo, ri bastante.
Continuei com meu risinho estridente pronta para fechar a porta do box.
- Ah, você acha que é assim. - foi rápido demais, ele me puxou para baixo da água e minha risada se transformou em grito. - Eu posso estar meio mal, mas continuo vingativo da mesma maneira.
Larguei os ombros completamente derrotada, eu realmente espero que tenham sobrado roupas naqueles armários.
- Não é coisa que se faça, . - disse rindo quando saí do banheiro ensopada. Com uma toalha tentava secar meus cabelos.
- Você é exagerada, isso sim. - como se estivesse em casa, começou a abrir os armários procurando alguma coisa... provavelmente roupas. Peguei a blusa molhada que ele havia jogado e levei de volta para o banheiro. - Onde estão as malditas roupas que o cismava em deixar aqui? Quando eu preciso somem.
Encostei no móvel do quarto esperando que ele achasse algo pra mim, sinceramente eu não ficaria molhada.
- , acho que isso serve pra você. - jogou uma camiseta preta e enorme junto com uma boxer. Olhei para aquilo e voltei a olhar para ele.
- Só tem isso?
- Só. - pela segunda vez em menos de uma hora larguei os ombros e desisti. Minha blusa querida, a levantei sem cerimônia alguma, se me preocupasse em torcê-la a quantidade de água caberia em um balde. Antes que pudesse vestir a blusa que havia jogado para mim, o peguei olhando diretamente pra mim.
- Que foi?
- Nada... - seus dentes pressionaram a lábio, pude ver isso perfeitamente. Apenas dei de ombros e peguei a blusa preta. A coloquei e aí sim, fui para o banheiro.
Sai de lá com a boxer que havia me arremessado e os cabelos um pouco úmidos. Ele já estava deitado na cama com uma bermuda, suas mãos estavam atrás da cabeça, o que fazia os músculos - não muito grandes - de seus braços saltarem um pouco. Subi de joelhos na cama e me sentei bem ao seu lado. Uma das mãos largou a posição e foi mexer com as pontas do meu cabelo. Sorri com aquilo.
Seu sorriso era doce, aquele que estava costumada a ver, podia me transmitir milhões de sentimentos e sensações ao mesmo tempo. Daquelas que eu só sentia quando comia... algo tipo marshmellows. Comparação extremamente tola, mas real ao meu ver.
Suas mãos puxaram as minhas fazendo com que deitasse com a cabeça sobre seu peito. Obedeci, como sempre fazia. Tudo que me pedia eu atendia, atendia com uma rapidez que deixava alguns dos mais fiéis subordinados no chinelo. Com um beijo no alto da minha cabeça ele passou os braços em volta do meu corpo, aninhando-me ali. Estava pronta para dormir.
- Bom dia, flor do dia. - disse alto demais para todas as cabeças do recinto. Eu ainda disputava fervorosamente a panqueca com , rabugento e de ressaca. Tudo para uma boa e acirrada disputa por comida.
- , fala baixo, pelo amor de Deus. - disse assim que chegou a cozinha. Inclinou o corpo sobre a mesa e me beijou rapidamente. Puxou uma das cadeiras que continuava livre.
- Ok, , engole essa droga de panqueca. - disse me esticando para pegar um dos waffles que estava no centro da mesa.
Sem eu nem ver puxou a massa gratinada de mim, continuei parada. Aquilo era demais. Ressacas me faziam perder a esportiva.
- Vocês conseguem me irritar, por Deus. - levantei da mesa e dei a volta, minha cabeça não deveria estar doendo como a cabeça de , mas podia começar a pulsar a qualquer momento.
- Ei, espera! A gente tava só brincando. - me puxou de volta me prendendo em um abraço de urso. Sorri. Voltei ao lugar que estava sentada na mesa e beijei a bochecha de que só sorriu sem mostrar os dentes.
Faxinar uma casa, como a de , depois de uma festa, como a de ontem, não é legal. Não mesmo. Cheguei a conclusão de que sirvo apenas para aproveitar a festa, não para arrumar a bagunça que ela deixa. Me joguei exausta no sofá. Se uma lâmpada surgisse por ali, pediria: meu chuveiro, minha casa e minha cama. sentou no sofá também, um pouco mais perto da ponta. Estiquei o corpo e o chamei.
- Vamos pra casa? - perguntei.
- Vamos. - ele disse, levantou e foi falar com os outros.
Nunca o caminho no carro tinha sido tão silencioso. As ruas estavam calmas, a tarde no final de semana não parecia estar sendo muito animada. Minha testa deveria estar marcada pelo tempo que estava encostada no vidro do carro. Me afastei e passei os dedos sobre a região massageando. Minha dor de cabeça não em incomodava mais, não era tão forte para deixar resquícios. Virei minha cabeça e observei o rosto de rígido. Estiquei uma mão e coloquei sobre sua perna. Ele apenas olhou para ela e voltou a olhar para frente. O trânsito não precisava de tanta atenção assim. Praticamente não existiam carros na rua.
- O que foi? - perguntei baixo demais.
- Nada. - ele respondeu olhando no meu rosto pela primeira vez desde que entramos no carro.
- Tem certeza? - voltei a questionar. não era de ficar com esse silêncio todo. A noite tinha sido tão divertida, as coisas estavam fluindo tão bem.
- Só um pouco de dor de cabeça. - disse trocando mais uma vez a marcha do carro. Bufei discretamente.
- Dor de cabeça. - disse num volume quase inaudível. Voltei a olhar para fora do carro. As árvores não passavam na velocidade que eu desejava, podíamos chegar em casa logo para eu poder desfrutar do meu chuveiro, a coisa que eu mais precisava. Naquele momento quem estava começando a ficar com dor de cabeça era eu.
- Que foi, ? Dor de cabeça, ué. - ele disse dessa vez. Provavelmente ele escutou meu resmungo de segundos atrás. Minha cabeça latejou, e não foi de dor.
- , eu te conheço o suficiente para saber que dor de cabeça não é. - disse dura e voltei a colocar o olhar na paisagem que passava.
- Eu tenho meus problemas, satisfeita?
- Imagino que tenha seus problemas mesmo.
Lar doce lar, como é bom estar de volta. Tirei o All Star e deixei perto da porta da sala mesmo, virei para trás esperando encontrar , o silencioso. Pelo barulho ele estava na cozinha, estava lá e eu nem tinha percebido. Dei de ombros e fui para meu quarto. Desde o dia em que chegamos de Hill Valley eu não tinha passado tanto tempo no meu quarto. Sentia tanta falta daquele cômodo.
Meu chuveiro podia fazer uma diferença absurda, me sentia extremamente aliviada depois de usa-lo.
Joguei as roupas no chão do banheiro e girei o registro esperando a água quente bater em minhas costas. No começo cada pingo parecia não surtir efeito, mas aos poucos a água foi deixando meu corpo mais leve. Até meu cabelo parecia estar mais pesado que o normal, coloquei a porção de xampu na palma da mão e comecei a passar na cabeça, o cheiro daquela espuma me deixava mais feliz. Eu não era fã de melancia, mas o xampu de melancia me atraia absurdamente. Com calma desliguei o chuveiro e puxei o roupão que estava pendurado do lado de fora do box. Amarrei a peça felpuda e coloquei o chinelinhos de borracha. O chão do meu quarto podia ser mortal.
Desembaracei os fios que teimavam em não obedecer ao condicionador. Sobre a cômoda estava um short jeans e uma camiseta. Fui até lá e vesti as duas peças.
A TV da sala estava ligada em algum jogo de futebol, aquilo lembrava muito bem maridos que não tinham o que fazer no domingo a tarde, a não ser assistir futebol, tomar cerveja e coçar. Acomodei o corpo no sofá e encostei a cabeça no ombro de . Podíamos ter momentos de stress, mas esses costumavam passar bem rápido.
Seu corpo no mesmo momento enrijeceu, voltei a posição normal e fitei seu rosto. Já estava escuro, a luz da sala apagada, a única luz que me ajudava a ver a expressão dele era a luz que vinha da TV. Eu não guardava ressentimentos de discussões com ele. Por favor, eu não conseguia ficar com raiva dele. O que me deixava nervosa eram as reações estúpidas e sem nexo nenhum. Antes de abrir a boca tinha que ter certeza de que estava calma.
- Ei, - o chamei baixo - o que foi? - ele apenas negou e continuou olhando a TV como se fosse obcecado por ela.
Não, não o cacete. Desde quando ele era daquele jeito. Estou acostumada com senhor dono das satisfações. Desculpe se a sua ressaca por algum acaso ainda não foi curada.
- Certeza?
- Eu já disse que não tenho nada. - sua resposta foi ríspida de uma maneira que eu nunca tinha visto. Fechei os olhos e tentei desacelerar o nó que começava a se formar em minha garganta. Encolhi o corpo abraçando os joelhos e voltei a olhar a TV que por acaso estava se tornando embaçada para os meus olhos. Sabia que ele estava olhando para mim. Não olhei de volta, não iria retribuir até que ele se acalmasse e resolvesse me dizer o que estava acontecendo. - Eu não queria ter sido mal educado.
- Mas foi - agora quem não queria conversa era eu. Incrível como só uma palavra dele dita com um pouco mais de acidez podia me deixar vulnerável a qualquer tipo de agressão. Se ele falasse mais alto comigo eu perderia todo aquele respaldo que me fazia parecer forte e resistente aos olhos de todos.
- Desculpa. - bufei ao escutar aquela palavra. Eu não gostava de pedidos de desculpa, eu odiava pedidos de desculpa. Me virei para olha-lo novamente.
- Eu fiz alguma coisa? - não podia deixar de perguntar. Do jeito que sempre deixava alguma coisa sair do meu controle era muito fácil a culpa daquele mal humor ser minha.
- Não.
- Então qual a razão da ignorância?
- Nenhuma. - senti meu corpo agir por vontade própria.
- Quando resolver conversar como um adulto e parar de manter seus segredinhos que te deixam estúpido desse jeito, me chame. - levantei, mas antes de atravessas a porta pronta para ir para meu quarto, um nome me chamou a atenção.
- .
- Hã?
- Às vezes o jeito como vocês ficam juntos me incomoda, só isso. Satisfeita? - cruzei os braços e fiquei esperando que continuasse. - Eu tenho a impressão de que...
- De que? De que eu gosto mais dele? - prendi os braços de maneira mais forte ao meu corpo. - Não , não estou satisfeita. - respirei fundo pronta para soltar os braços do corpo. - Desde quando é motivo pra isso? Eu realmente achei que você fosse maduro o suficiente para diferenciar as coisas. Ou melhor, achei que realmente soubesse como são as coisas entre eu e . Afinal ele foi a única pessoa do meu lado nos últimos anos. Aliás, como consegue ficar do lado do tanto tempo e pensando essas coisas? Falsidade?
Eu já havia perdido a linha, não aceitaria aquele tipo de coisa. Vi seus dentes trincarem e seu punho se fechar.
- Eu não tenho problemas com ... - seu tom de voz aumentou uma oitava me fazendo começar a espumar de raiva. - tenho problemas quanto a você.
- Quanto a mim? Qual é o seu problema agora?
- , para de distorcer as coisas! - ele voltou a gritar. - Quanto a você com outras pessoas.
- Distorcer? Quem está distorcendo o que aqui? - podia sentir lágrimas subindo em direção aos meus olhos. - Quem foi rude de graça? Quem teve um ataque de ciúmes estúpido? Quem se nega a explicar as coisas porque tem vergonha de se achar em desvantagem?
- Desvantagem? Tá querendo dizer que eu tenho medo... Medo que prefira o a mim?
- Você mesmo deixou isso bem claro. - fechei os olhos e respirei fundo.
- Aonde você vai? - ele perguntou, sua voz ainda parecia alterada, apenas virei as costas e fui até meu quarto. Procurei minha bolsa e joguei ali dentro celular, agasalho, iPod e carteira. Coloquei uma camisa de flanela xadrez sobre a blusa branca que eu estava e calcei o tênis rapidamente. Voltei a sala e encontrei no mesmo lugar, passei por ele sem trocar uma palavra. Abri a porta e fiz questão de batê-la.
Naquele momento não tinha certeza se sabia bem onde poderia achar abrigo.
23
Diminuiu o ritmo dos passos e parou no meio da calçada. O céu estava nebuloso e o movimento das nuvens não ajudava em nada. Para onde iria? Saiu tão depressa de casa que nem pensou se poderia achar alguém onde pensou em ir. Pelo menos sentia um alívio correndo por seu corpo ao mesmo tempo que a raiva ainda estava em ebulição pelas veias. Era bom saber que depois de muitos anos sem ter pra onde correr, teria algumas opções.
Respirou fundo e sentiu as narinas arderem graças ao ar frio. Olhou para os lados com o canto dos olhos, as ruas já estavam escuras. Aquilo não seria suficiente para faze-la voltar. Foi até o meio fio e esticou o braço acenando para o primeiro táxi que via virando a esquina.
Entrou no veículo e disse o endereço para o motorista sem nem olhar para seu rosto, queria continuar perdida na bagunça que estava sua cabeça.
- A senhorita está bem? - acordou do transe que aquela janela estava causando. Olhou pela primeira vez para o rosto do condutor daquele carro, era um senhor com suas marcas de expressão acentuadas, provavelmente causadas pelo excesso de trabalho. Todos sabiam que taxistas trabalham demais. Em sua cabeça havia mais cabelos brancos do que castanhos. apenas assentiu de maneira que deixava toda a mentira daquilo a mostra.
Era claro que não estava bem, era óbvio que não estava bem.
O senhor voltou a atenção para as ruas vazias. Já era tarde, não sabia bem que horas era, mas sabia que estava tarde.
- A noite está bem fria hoje. - ele tinha razão. Não era pra estar tão frio assim, talvez o clima viesse a calhar com a situação. Naquele momento sentia o corpo totalmente gélido, a idéia de longe e as coisas não tão bem esclarecidas a deixava assim. - Uma moça jovem e bonita com a senhorita não devia estar andando sozinha a essa hora. - aquela conversa podia ser no mínimo estranha. Um estranho diria que aquele velhinho com cara bondosa estava tentando alguma coisa. Mas não, era apenas bondade demais, como não era comum. As pessoas não eram mais assim.
- Estava de cabeça quente quando saí de casa. Não prestei atenção na hora. - disse baixo, mas alto o suficiente para ser ouvida pelo senhor.
- Brigou com a mãe? - adolescentes de cabeça quente sempre remetiam a briga com pais. negou.
- Minha mãe já faleceu faz tempo. - pode ouvir um som vindo da boca do motorista, aquele som de espanto que costumamos fazer quando percebemos que falamos algo errado.
- Eu sinto muito. - no fundo gostaria de responder "não sinta", mas apenas deu de ombros. - Geralmente quando vejo adolescentes assim nervosas logo penso que brigaram com os pais.
- Isso é normal. - riu com o nariz e curvou os lábios levemente para cima. - Sou uma adolescente anormal.
- Anormal?
- Adolescentes normais brigam com os pais, brigam por não poder ir ao shopping, não poder ir a festas, não poder comprar bolsas, não poder viajar sozinhas com os amigos. Poucas delas brigam por motivos que não sejam tão fúteis.
- Você briga por amor? - ele perguntou com convicção.
- Talvez. - na verdade a briga aconteceu por uma desconfiança. De fato envolvia amor. Envolvia o questionamento do amor que sentia por ele.
- São poucos os humanos que brigam por amor. Colocar o amor a prova é ser humano, senhorita. Hoje em dia não se vê mais esse tipo de ação. Por vezes coloquei o amor daquela que realmente me amava a prova. Por vezes me arrependi tremendamente. - ele suspirou de maneira pesarosa. - Hoje não a tenho mais para pedir as desculpas que sempre quis.
- O que aconteceu com ela? - deixou a leve onda de curiosidade se sobressair.
- Ela se cansou, cansou dos meus problemas e bloqueios na hora de acreditar que a verdade era que ela me amava. Quando dei por mim já a tinha perdido, e perdido de maneira irremediável. A perdi para a eternidade, só me restou guardar, para mim, as desculpas que devo e sempre deverei a ela. - mais uma vez ele focou os olhos em que observava os joelhos de maneira perdida. - Finalmente achei alguém que mereça ouvir o que tenho a dizer.
O olhar da menina encontrou o olhar do velho motorista.
- Não deixe que ninguém duvide do que realmente sente. - não precisava assentir ou dizer com palavras claras que tinha entendido bem o que ele tinha dito. Era claro em seus olhos que havia recolhido pra si aquelas palavras. Respirou fundo ao perceber que já estava na frente da casa de Haylie. Esticou o pescoço a fim de ver o valor da corrida. O senhor apenas abanou o ar dizendo que não era preciso. - Acredito que nossa conversa valeu por todas as corridas do meu dia. - sorriu mais uma vez e abriu a porta do carro.
Assim que colocou os pés sobre a calçada e o táxi saiu dali lentamente sentiu um desapontamento enorme. As luzes da casa de Haylie estavam apagadas. Aquilo mostrava que provavelmente a amiga não estava em casa. Soltou os ombros completamente derrotada, apenas a luz que ficava sobre a porta da frente estava acesa, os degraus dali pareciam extremamente convidativos. Caminhou até eles e sentou sobre as pedras geladas que davam forma a escada.
Apoiou a cabeça sobre a mão e começou a bater o pé direito freneticamente, aquele era um sinal claro de seu nervosismo. O vento começou a se mostrar mais forte, aquele era sinal de chuva, amaldiçoou quem fosse o ser que mandasse nas chuvas daquela cidade e abriu a bolsa para pegar seu agasalho. O capuz era bem grande e fazia o favor de cobrir até sua testa.
Precisava de uma companhia urgentemente, precisava de alguém para desabafar, alguém que não dirigisse um táxi. Não que estivesse infeliz por ter tido uma conversa tão produtiva com um taxista no caminho de sua casa para a casa de Haylie. Não podia falar tudo para um taxista, não mesmo. Os primeiros pingos de chuva começaram a marcar a calçada deixando o ar mais gelado que antes.
Esticou a outra mão até alcançar uma pedra pontiaguda que estava beirando o degrau. Com um pouco de força pode começar a rabiscar coisas desconexas no chão. Maioria dos desenhos lembravam a forma de um xis. Propício, não?
Aos poucos sua respiração foi ficando acelerada, aquilo só acontecia quando sentia que iria chorar. Não errou. A garganta começou a ficar apertada, um nó estava se formando, um incômodo absurdo. Se falasse sua voz já sairia embargada, forçou a pedra em sua mão achando que aquilo frearia todas suas reações emocionais.
Apertou os olhos e sentiu a primeira lágrima escorrer quente por sua bochecha, comprimiu os lábios implorando para que aquilo não continuasse. Não gostava de chorar, não queria chorar. Assim que aliviou a pressão nos lábios e sentiu o gosto salgado da lágrima, aquilo só serviu para desencadear uma porção abundante e sem fim de lágrimas. Lágrimas daquelas que arrancam soluços. Uma dor aguda na palma da mão desviou sua atenção, percebeu então a força absurda que estava fazendo sobre a pedra. Um pequeno corte estava ali, pulsando e prestes e jorrar sangue. Praguejou o primeiro ser que lhe veio a cabeça. Fechou a mão e pode ver o último e mais visível desenho no chão. Uma letra, letra que dava início ao nome que mais queria esquecer naquele momento.
Não queria esquecer por raiva ou ódio, queria esquecer porque era essencial para que parasse de derramar lágrimas. Ela havia o deixado duvidar, ela havia errado em alguma coisa.
Despertou de tudo aquilo com o barulho de passos acelerados se aproximando, passou a mão que não estava machucada no rosto tentando enxugar ou disfarçar as lágrimas, tanto fazia. Apesar de que quem quer que fosse não tinha nada com aquilo. Os barulhinhos já estavam próximos o suficiente para saber que a pessoa estava praticamente ao seu lado.
- Ei... ? - soltou o ar aliviada ao escutar a voz de Haylie. - O que você tá fazendo aqui? Sentada com essa chuva. - a menina passou as costas da mão pelo rosto mais uma vez e pigarreou antes de responder. - Espera, você está chorando?
- Erm, eu preciso de alguém pra conversar. - por mais que não quisesse já sentia as lágrimas voltando.
- Vem, levanta daí. - a puxou pela mão e procurou a chave da porta dentro da bolsa. - Você vai me contar agora, qual é o motivo desse choro. Você não é de chorar por aí.
- Antes eu preciso de um pouco e água...
- Claro, claro.
- E um band-aid. - terminou a frase. Haylie virou o rosto e arregalou os olhos.
- Você tentou se matar, ?
- Se eu quisesse me matar tentaria uma faca, não uma pedra. - respondeu baixo.
- Anyway, acho que no banheiro da minha mãe tem uma dessas bolsinhas de primeiros socorros com um curativo pra isso aí.
Haylie deixou as bolsas no sofá e pendurou o agasalho que usava perto da porta, chamou para que subissem as escadas. O quarto da mãe de Haylie era o último do corredor.
A menina acendeu as luzes do cômodo e revelou um quarto extremamente elegante e espaçoso.
- Ela vai dormir fora... Pra variar. - Haylie comentou com a voz emburrada. - Ela com esse namorado novo. Realmente não sei o que faço.
- Deixe que ela viva a vida dela. A adolescente aqui é você, Hay.
A menina bufou e seguiu para o banheiro acendendo as luzes ali também e abrindo os armários procurando a bolsa com curativos. olhou seu reflexo no grande espalho que ficava sobre a pia. Estava realmente acabada. Haylie ainda abaixada, levantou o braço e colocou a bolsinha sobre a pia.
Com uma mão abriu o estojo e tirou o que precisava. Abriu a torneira e hesitou em colocar a mão debaixo da água corrente.
- Vamos, . Você não tem mais seis anos. Coloque o sabão e nem vai arder.
Um band-aid não daria conta do machucado, Haylie cortou um pedaço de gaze e algumas tiras de esparadrapo.
As duas voltaram a sala e Hay, jogou o corpo sobre o sofá. apenas caminhou e sentou com pernas de índio. Como se o mundo fosse realmente cor-de-rosa, Haylie virou de barriga para baixo e perguntou:
- O que aconteceu?
- .
- ... - incentivou com um aceno de cabeça. -, fez o que?
- Ele ficou com ciúmes de mim e nós acabamos brigando, é, foi isso. - Haylie levantou a sobrancelha esquerda com uma cara de interrogação graças a velocidade na qual falou aquilo. - Que cara é essa? Você acha que brigar com não é motivo para chorar.
- Não, nada disso. Não quis dizer isso. É que... não parece ser do tipo que demonstra esse tipo de reação, ciúmes, não sei. Ainda mais a ponto de vocês brigarem o que é mais chocante. Qual foi o nível da coisa?
- Eu não sei se foi bem exagerado, ou se eu exagerei... Ele estava com uma cara horrível desde que acordamos na casa do hoje de manhã. - começou a contar tudo de seu ponto de vista. - Quando chegamos em casa ele estava com uma cara ainda pior.
- Isso é verdade, de manhã ele já estava com cara de quem comeu e não gostou. - Haylie levou a mão até a boca em um segundo. - Desculpa, não foi nesse sentido. Quer dizer eu nem sei se ele comeu... PAREI! Continue.
- Quando eu fui perguntar o que era ele começou com aquele "Não foi nada", eu burra insisti em perguntar e então ele foi grosso demais. Ele nunca é grosso comigo. Eu acabei perdendo a cabeça, bati a porta e saí sem rumo.
- Você ainda não disse de quem ele estava com ciúme. - rolou os olhos e olhou mais uma vez para Haylie, será que não era óbvio a única pessoa do sexo oposto próxima o suficiente para fazer sentir ciúmes. - ?
- Só pode. Ele disse que não gosta do jeito como eu e o estamos próximos certas vezes. Como ele pode achar que eu tentaria ou cairia em alguma das cantadinhas baratas que o joga pra cima de todas as garotas que ele conhece? Por Deus, fora que o não tentaria nada comigo, ele sabe muito bem o tamanho da linha que separa qualquer tipo de aproximação desse tipo de nós dois. - a menina disse e logo depois deixou a cabeça cair sobre as mãos.
- não dúvida do que você sente, ele pode ser inseguro, como você, já pensou nisso? - Haylie perguntou. - Vou fazer chocolate quente, quer?
levantou a cabeça e sorriu, tirou os tênis e seguiu Haylie até a cozinha.
- Eu acho que você não quer voltar para casa hoje, não é? - apenas assentiu. - Eu tenho pijama pra te emprestar, minha cama tem um colchão extra e meu quarto é cheio de DVD's legais.
Pela janela do quarto de Haylie já era possível ver que o dia estava claro, aquele era o último fim de semana antes da volta do recesso.
O teto parecia uma companhia extremamente agradável. O cobertor que estava sobre seu corpo não esquentava mais, na verdade não era mais necessário, o dia já tinha sol, dali a pouco tempo o calor já estaria invadindo a casa de Haylie. Todo o imóvel era gelado, mas com o calor de agosto nem aquele tipo de casa passava livre. Sua unha fazia um barulhinho engraçado assim que batia na madeira da cama em que estava dormindo, os pequenos sons às vezes eram rápidos, às vezes lentos. Estava completamente distraída com aquilo, o problema de deixar sua mente se distrair era que naquela situação em que estava sua mente sempre voaria até sua casa. Pensava como havia dormido, como havia acordado, ou se já havia acordado, como ficou assim que ela bateu a porta. Tão boba. Ciúmes podem estragar as pessoas, era o que sua mãe dizia. Sabendo que causam ciúmes em alguém, certas pessoas podem se aproveitar de maneira exagerada disso. O ciúme pode te deixar extremamente confiante, com uma auto-estima demasiadamente elevada, mas também pode inchar seu ego de tal maneira que não há como remediar.
não tinha seu ego inchado pelo ciúme de . Tinha um pouco de felicidade guardada, afinal, esperou tanto tempo para ser namorada dele, era digno que o ciúme a mostrasse como tudo aquilo havia dado certo.
Com cuidado levantou da cama, calçou os chinelos que Haylie havia lhe emprestado e deixou a amiga sozinha no quarto. A casa estava silenciosa, os raios de sol mudavam a cor dos cômodos. Passou pelo escritório, pela sala de TV, pelos banheiros, pela cozinha, e finalmente chegou até a porta que dava acesso aos fundos da casa.
A chave estava ali pendurada, apenas girou e abriu lentamente a porta. Devagar, quase parando, atravessou o deck que a levaria até a borda da piscina. Tirou as sandálias de borracha e agachou para colocar as pernas para dentro da água. Naquele horário a água já estava gelada novamente, demoraria a esquentar, afinal o sol tinha nascido a pouco. Os aquecedores estavam desligados. Não se arrependeu de por quase metade das pernas naquela água gelada. Os movimentos não faziam ondas, eram discretos e pequenos. Por algum motivo lembrou de um dos verões na casa dos .
Flashback - 4 anos atrás
- Vocês dois vão acabar se machucando! - Marie gritou fazendo o caminho de volta da churrasqueira até a mesa. - Nem ofereça, Paul. Eles não vão querer comer agora. - disse para o pai de que comandava a churrasqueira. - Parecem duas crianças.
Aquela devia ser a décima volta seguida na piscina. corria atrás de , a borda de pedra molhada só tornava a brincadeira mais perigosa. O sol estava alto e quente, todas as folhas das árvores e arbustos que cercavam o deck da casa da família estavam verdes. O dia perfeito. Como um flash derrapou fazendo chegar até ela muito mais rápido. Antes que a menina caísse com a força do impacto, a puxou para dentro da piscina. Assim que pode voltar a superfície procurou em seu campo de visão pronta para reclamar.
- Eu disse que não queria entrar na água ainda. Eu não tirei o short, olha só, ficou ensopado. - falou mais alto nadando de volta para a borda.
- Você preferia ter quebrado o nariz no chão a molhar seu short jeans? - perguntou forçando a voz irritante insinuando que aquela era a voz da menina.
- Crianças não comecem com isso. , eu e seu pai vamos entrar, não esqueça de passar o protetor solar de novo. Caso contrário, depois estará como um camarão. - o menino apenas rolou os olhos e imitou a mãe movendo a boca. - Não se esqueça, tente adiantar.
Aquele último aviso de Marie não tinha muito sentido se fosse comparado com o resto da conversa, mas passou despercebido aos ouvidos de .
- Por favor, pare de me chamar de criança. - viu a mãe e o pai saírem de perto da piscina e voltou a olhar para , ela continuava emburrada sentada na borda da grande piscina. - Você não vai me dizer que ficou realmente chateada com esse negócio do short, não é?
- Não, eu não fiquei, . - a menina pulou para dentro da água novamente e afundou, voltando a superfície segundos depois. Percebeu que mantinha os olhos em seu rosto de uma maneira estranha.
- Que foi? - perguntou baixo.
- HÁ! - rápido demais ele se aproximou e pegou a garota pela cintura a levando para baixo d'água. Com um impulso mais forte os dois já estavam, quase chegando ao fundo da piscina, ele ainda estava a empurrando e com o corpo sobre o dela, o que dificultava qualquer tentativa de saída e dava a ela a impressão de falta de ar.
Sem pensar, de uma só vez, ela soltou todo o ar que estava em seus pulmões e apertou os braços em volta do pescoço dele. No mesmo instante percebeu que tinha feito a brincadeira errada, apertou as mãos na cintura da menina e com um impulso contra o fundo da piscina voltou a superfície. Assim que o pouco vento que estava no ar naquele dia de sol bateu contra seu rosto, se aproximou da borda enquanto ela continuava com os braços firmes num abraço apertado.
- ? - nada em resposta. - ? - ele voltou a chamá-la e, finalmente, ela começou a afrouxar os braços que ainda o apertavam. - Você tá bem? Meu Deus, me desculpa. - ele dizia enquanto tentava ver o rosto da menina que ainda estava afundado em seu pescoço. - Eu não devia ter feito isso, como eu sou burro. Me perdoa? - disse ofegante. - ? Me perdoa?
- HÁ! - ela gritou saindo do espaço que ocupava entre a borda da piscina e o corpo de .
- Sua... - ele começou, mas foi interrompido.
- Melhor amiga! - disse abraçando o menino por trás e mordendo seu ombro. - Não pense que é só você quem pode fazer brincadeiras de mau gosto por aqui. - voltou a dizer soltando-o e nadando até a escada que a ajudaria a sair dali.
- Você é muito esperta pro meu gosto. - ele voltou a dizer nadando até onde estava sentada, a escada.
- Eu sou um poço de inteligência.
De repente o silêncio se instaurou por ali. Só podia se ouvir o barulho da cadela da família brincando ali por perto. Mais uma vez estava olhando para ela sem falar nada.
- Não sei se eu devo perguntar o que foi... - ela disse com um pouco de cautela e um sorriso brincalhão no rosto.
- É só que... Nós estamos mudando. Quer dizer, você está mudando, tá tão diferente. - ele disse se aproximando e mantendo-se perto graças as mãos que seguravam o corrimão de aço da pequena escada.
- Por que eu estou mudando e você não? - ela questionou deixando que ele se encaixasse entre suas pernas.
- Você está começando a ficar parecida com as meninas do ensino médio... Tipo, fisicamente. - ele riu pelo nariz um pouco sem graça pelo que tinha acabado de dizer.
- Você gosta delas?
- Erm, mais ou menos. Eu só...
- Acha elas gostosas?
- Basicamente. - ele respondeu com uma expressão sabida no rosto. - O problema é que outros garotos também gostam delas, e você se tornando parecida com elas, vira alvo desses mesmos meninos.
- Você não gosta que outros meninos me achem interessante, é isso?
- Basicamente.
- , se você não quer tem quem queira. - disse petulante caindo no riso logo depois.
- Eu vou estar aqui para acabar com cada um deles. Não ache que vai ser fácil assim. - aquela frase foi dita num volume um pouco mais baixo, ele não aprecia ter tanta certeza de que estaria ali.
- Meu pai ficaria orgulhoso desse tipo de coisa.
- Ele realmente iria gostar de saber que eu cuido de você, e dos engraçadinhos.
- Eu fico mais feliz de saber que você cuida de mim. - disse segurando o rosto do menino entre as mãos. Inclinou-se e beijou sua testa.
End of flashback
Sorriu com a memória e quebrou o graveto com qual brincava. Não sabia dizer quantas horas já haviam passado. Seus dedos já estavam enrugados, mas nem ligava pra isso.
Haylie, de sua janela, já observava a amiga há um certo tempo.
Percebeu que pelo desânimo de , ela não iria correr atrás de uma solução para aquilo. Deu uma última tragada no cigarro e amassou o mesmo no cinzeiro sobre a cômoda. Deixou a janela de lado e foi até o pequeno telefone celular que estava jogado sobre a cama, cruzou as pernas sobre o colchão e acessou a agenda telefônica procurando por um número especial.
Esperou que chamasse. Enquanto isso os toques estridentes acordaram quem dormia profundamente.
- Alô? - uma voz rouca e sonolenta perguntou do outro lado da linha.
- ? - sabia que era , mas vai que por via das dúvidas o menino não dormiu em casa, pra variar.
- Quem é? - a voz continuou se arrastando, provavelmente o garoto ainda não estava acordado.
- Sou eu, Hay. Hora de acordar, não acha?
- Ah, é você. - em seu quarto completamente escuro graças as cortinas que não deixavam um só raio de luz penetrar no ambiente, sentou-se com dificuldade e puxou o lençol bagunçado para cima das pernas. - Tenho certeza de que não ligou pra me acordar. O que você quer?
- Sua delicadeza me impressiona, de verdade. - Haylie decidiu por não se prolongar. - O que eu quero é simples. Preciso de um favor. Não especificamente para mim.
- Por Deus, Haylie. Por que você tá me ligando pra pedir um favor que nem é pra você?
- Não é pra mim, mas eu acho que você se importa com a .
- O que aconteceu?
- Preciso que você tenha uma conversa com . - a garota disse. Alguns segundos de silêncio reinaram e logo depois os típicos barulhinhos da boca de começaram.
- E por que eu preciso falar com ele? - era estranho aquele pedido. Convivia muito com , tocavam na mesma banda, o que podia acontecer e ele não perceber?
- nesse exato momento está chorando no meu jardim. Eles brigaram ontem depois que chegaram da casa do .
- E onde eu entro nessa história. Não gosto muito de me meter na relação dos outros.
- Você é a razão da briga, .
Dessa vez o silêncio durou um pouco mais de tempo. levantou e caminhou até a porta do quarto.
- O que eu fiz exatamente? - ele perguntou mais uma vez, nessa mais cauteloso.
- Ciúmes, ao que tudo indica. parece ter uma pontinha de ciúmes de você. - Haylie respondeu como se fosse óbvio. - Só me prometa que não vai saber que eu te contei isso, que me contou isso e que agora ela está aqui em casa.
- Vou ver o que posso fazer. - sem nem esperar Haylie responder, desligou o telefone e jogou o aparelho sobre o sofá da sala. - Merda. - foi apenas o que disse antes de entrar na cozinha e procurar alguma coisa para forrar seu estômago antes que tentasse conversar com .
O relógio da sala apontava quase meio-dia. Recolheu o aparelho celular do sofá e subiu as escadas de dois em dois degraus.
Seu quarto não estava tão escuro quanto antes. Entrou no banheiro e ligou o chuveiro morno, depois ligaria para e combinaria um lugar para conversarem.
Arrumava a gola da camisa pólo escura em frente ao espelho. Borrifou o perfume antes de sair e pegou o telefone.
- ?
- Tá fazendo alguma coisa?
- Topa ir até o Memphis almoçar?
- Tô saindo de casa.
Memphis, pub onde a banda tocaria dali alguns dias não ficava longe.
brincava com os cubos de gelo quase derretidos dentro do copo de refrigerante, até pediria uma cerveja, mas não se sentia bem, depois de sair da casa de ainda escolheu sair com Kristen. O pub estava praticamente vazio, como todos costumavam ficar na hora do almoço, apenas algumas universitárias que trabalhavam cedo para estudarem durante a noite.
- Fala aí, . - despertou da brincadeira assim que ouviu a voz de bem atrás de si. - Esperou muito? - perguntou puxando o banco que estava ao lado do menino e sentou-se, chamou a garçonete com um breve aceno.
- Não, cheguei agora. - queria poder esconder o desconforto que sentia em falar sobre . - Desculpa por te chamar num domingo, mas acho que precisamos conversar um pouco. - coçou a nuca demonstrando todo o nervosismo.
- Ela foi falar com você? - perguntou, inclinou a cabeça para baixo e esperou até que confirmasse ou não.
- Não, não necessariamente. Eu fiquei sabendo por outra pessoa.
- Você sabe pelo menos onde ela está? - indagou com um nó discreto se formando na garganta. - Ela não atende o celular, ela não me liga de volta, saiu sem dizer pra onde ia. E eu não tenho nem idéia do que fazer.
se manteve calado, sabia que estava na casa de Haylie, mas não sabia se a menina gostaria que soubesse disso.
24
Narrado por
(coloque Miserable At Best - Mayday Parade para carregar e quando a letra for citada dê play)
O inferno estava de volta, e junto com ele a rotina maçante de aulas vinha meu inferno pessoal, completamente particular. Eu sentia falta dele, de uma maneira mais intensa do que antes. Aqueles três anos de distância pareciam uma simples brincadeira comparado aos dias que vieram depois que bati a porta de casa. A maneira como ele já era parte de mim não me permitia mais voltar a ser como antes; absolutamente essencial para mim.
A maldita sensação de observação a todo instante me acompanhava. Qual era o problema em chegar a pé, e ainda por cima atrasada no primeiro dia de aula após o recesso escolar? Não poderia ir até minha casa sem ter certeza de que já estaria a caminho da escola. Isso me resultou em um belo atraso e meu nome acabou escrito - mais uma vez - no caderno de capa preta da coordenação. Mas eu tinha quase certeza de que a sensação de ser observada, não era graças a maneira como cheguei, mas sim pelo fato surpreendente, e excitante para alguns, de eu não estar de mãos dadas com ele.
Não havia uma descrição certa para aquele dia. Tudo parecia lento demais, mórbido demais. O caminho para o refeitório pareceu absurdamente longo naquele dia. Eu já havia conseguido aceitar que a falta que ele me fazia era enorme e horrível, me fazia sentir vazia, talvez oca. O primeiro passo é a aceitação, como diria a psicóloga a qual fui obrigada a frequentar por alguns anos após o acidente de meus pais, mas aceitar não me fazia mudar a idéia de que eu não estava errada. Como na maioria das vezes que discutia com . Eu estava bem certa e meu real problema era que ele visse como quão frágil eu poderia parecer sem ele por perto. Orgulho? Talvez sim, talvez não. Orgulho poderia ser substituído por insegurança, mas não era hora de pensar em qual sensação ou sentimento se encaixaria melhor a minha situação. Era hora de colocar em prática algum dos ensinamentos fúteis daquele lugar. Vesti minha máscara e me tornei indiferente a tudo que me convinha.
Respirar fundo não estava resolvendo muito. Eu já podia enxergar tanto ele, quanto meus amigos na mesma mesa de sempre. Caminhei com passos curtos e firmes e me sentei bem ao lado de , não foi para causar uma situação ruim, só restava aquele lugar, e eu me sentia bem ao lado dele; e não podia fazer nada quanto a isso. Se realmente me entendesse como sempre dizia, teria que se conformar com aquilo. Dentro daquele refeitório a sensação de ser observada era ainda pior, talvez graças aquelas paredes que tornavam o lugar fechado. Afrouxei um pouco o nó da gravata e afastei a gola alguns centímetros da pele de meu pescoço. E pior que ser observada era ter a sensação de surdez. Ninguém ousou abrir a boca depois que me sentei a mesa. Por favor, desde sempre a mesa do intervalo era como um universo paralelo onde ninguém ligava para o que os outros alunos ao redor falavam ou faziam; conversávamos quando tudo era silêncio; ríamos quando nada tinha graça e naquele momento tudo parecia uma coisa só.
- O silêncio vai durar quanto tempo? - perguntei, voltando a colocar minha cabeça numa altura que pudesse enxergar todos os rostos. - Já não bastam os burburinhos que estou desde que cheguei nessa merda hoje de manhã?
Além de perder as primeiras aulas, pelo jeito havia perdido também o momento em que me torno a vilã da história. Podia ouvir o som da ebulição de meu sangue em minhas veias. Eu não tinha problema algum em ser analisada ou julgada pelos outros, estava acostumada com isso, e também, eles que se danassem, mas meus amigos, eles não poderiam fazer aquilo comigo.
- Quem vai ser o primeiro a falar o que eu fiz de tão errado, ou melhor, quem vai ser o primeiro a sair em defesa dele? - indaguei em alto e bom som, explodindo. Não era tristeza, era revolta, pura e simples revolta. O que havia de tão errado em brigar com alguém? No caso o que havia de errado em eu brigar com alguém? O que podia ser tão errado em não me submeter a um ciúme idiota?
Antes que alguém pudesse responder, ou até mesmo contestar, levantei e saí dali sem dizer uma só palavra. Os corredores todos vazios, naquele momento todos desfrutavam dos poucos minutos de descanso, menos eu. Não havia um inspetor que fosse perto da famigerada porta de acesso as escadas de incêndio. Chorar na frente dos outros poderia mostrar como sou fraca e dependente dele. Mas chorar sem que ninguém testemunhasse apenas mostraria para mim a verdade, já cansativa, a verdade que eu conhecia muito bem. Não conseguiria me manter afastada dele de maneira sadia. O sol se tornara escuro, o brilho que emanava e esquentava o terraço não era bom o suficiente aos meus olhos. Encolhi o corpo na mesma parede que sempre ficava, abracei as pernas e deixei que a escuridão tomasse conta não só do meu céu, mas também da minha mente.
- Já pensou que as desculpas dele podem estar presas na garganta, como as coisas que você disse na mesa?
Um arrepio incomodo desceu por minha espinha assim que ouvi a voz de , cada palavra dita já se repetia automaticamente dentro da minha cabeça. Minha angústia já não aumentava gradativamente, quem sabe a dormência que sentia, era graças a isso.
- Vocês dois não precisam disso, e você sabe muito bem disso. - engoli meu choro ao ouvi-lo continuar a falar, minha cabeça encostada na parede parecia pesar toneladas. As palavras dele conseguiam ter a intensidade de quem vivia a situação.
- Já imaginava que estaria a par de tudo quando chegasse aqui. - murmurei mais para mim do que para ele, minha risada irônica foi mais alta do que as próprias palavras. - Parece que só eu enxergo as coisas de uma certa maneira por aqui.
- Eu já estou a par das coisas a mais tempo do que imagina. - me senti idiota ao ouvir aquilo, senti como se o mundo inteiro tivesse escolhido falar sobre mim pelas minhas costas. - E não vou conversar com você, como conversaria com uma criança. - sabia, mesmo sem ver, que naquele momento ele estaria de olhos fechados, xingando-se mentalmente por ter tido a estúpida idéia de subir até ali e conversar comigo. - Uma chance para conversar e esclarecer as coisas teria sido o suficiente. Você foi radical demais.
- Eu... - não queria ser grossa novamente, queria me policiar, mas parecia a única maneira de me sentir bem, apertei as têmporas, exercendo força demais sobre elas. - Eu não acho que seja a melhor pessoa para dar palpites na minha vida.
- Não pense que está me atingindo, ou que estou me sentindo abalado por isso. Sei bem que não quer ser grossa e mal-educada como está sendo. - disse calmamente, quebrando minhas pernas. - Só não deixe essa crise de infantilidade tomar conta de seus atos. - inspirei o máximo de ar possível e o prendi nos pulmões.
- Você subiu aqui para jogar toda minha infantilidade na minha cara? Por que se foi, não se dê ao trabalho, . - conseguiria descontar nas palavras toda a minha raiva. - Deixe que da minha vida cuido eu.
- Vou deixar. - pude ouvir sues pés se chocando contra o chão, o que me fez chegar a conclusão de que ele estava sentado sobre algumas carteiras antigas deixadas por ali. - Estarei esperando até que volte a falar como adulta.
Não olhei para trás até ter certeza de que ele não estava mais ali.
Qualquer outra aula me faria mal, qualquer segundo a mais dentro daquele colégio me faria mal. O universo todo conspirava contra mim. Não, eu não era a vítima. Não, eu não estava me fazendo de vítima. Só queria que o tempo mudasse na medida certa, com um tempo que me deixasse livre de feridas que não fecharam, e livre também de feridas que poderiam vir. Era estranho não ouvir os comentários bobos sobre a aula de Literatura, era ainda mais estranho não ouvir as palavras idiotas que ele sempre falava quando bem entendia.
O olhar que senti atravessar meu corpo assim que entrei na sala era do tipo mutilador. Graças a carga enorme de melancolia presente nele.
O ensaio seria na casa de naquela tarde, eu sabia bem disso. Com isso disse a Haylie que não iria junto com ela para cara depois da aula, precisava passar na minha casa e pegar alguns materiais para as aulas da semana e roupas, sem esquecer de uniformes. Minha estadia na casa dela não parecia estar próxima de acabar. Com dificuldade encontrei minha chave dentro daquela mochila. Abri a porta e me deparei com tudo da mesma maneira que havia deixado há dias atrás. Não podia demorar, por isso fui com passos acelerados até meu quarto e o encontrei como o resto da casa, intacto, a não ser pelo perfume dele, que era extremamente forte ali dentro. Inalar aquilo me deixava zonza, e eu sabia que não era por enjoo. Era necessário para que conseguisse fazer o que devia no tempo certo. Afastei as cortinas e abri as janelas. O vento instantaneamente afastou aquele perfume de mim, não sabia se deveria agradecer.
Minha escrivaninha era uma bagunça a parte, procurei em meio aqueles papéis os livros que precisaria para a prova de Biologia do dia seguinte. Vários rascunhos de redações, vários resumos para provas, várias fotos que deveriam ter sido pregadas ao mural - mas não deu tempo. Os livros finalmente apareceram e os coloquei dentro da bolsa. Dentro do meu armário as camisas estavam passadas de maneira impecável, graças a lavanderia, com cuidado tirei peças do uniforme dali de dentro e essas começaram a encher minha mochila. Por ali estava terminado, me restava tomar um copo de água e sair dali.
Somente enquanto despejava o líquido da jarra em um copo percebi como parecia uma fugitiva ou sei lá o que. Entrar e sair correndo da própria casa para não ser vista. Ri sem graça alguma e senti a água descer gelada por minha garganta, voltei a encher o copo e voltei a virá-lo na boca. O barulho de fechadura sendo destrancada quase me fez soltar a jarra de vidro, e essa partiria em milhões de pedacinhos. Rapidamente, esperando que uma proeza acontecesse e eu não fosse vista, coloquei o copo dentro da pia e guardei a jarra na geladeira. Arrumei a saia e tentei acelerar o passo, mas não sairia dali a tempo, não sem antes trombar com ele. Prendi o pouco ar que me restava dentro dos pulmões e senti meu corpo colidir com o dele.
- Você. Saindo correndo, por que? - perguntou olhando profundamente em meus olhos, sua voz desbaratinou completamente meu cérebro.
- Nada demais, tenho algumas coisas pra fazer. - tentei sair daquele bloqueio que ele fazia com o próprio corpo.
- Será que uma delas não seria voltar para casa? - os olhos continuavam ali, fixos em mim. E as palavras? Doeram, mas não porque eu tinha vontade de voltar para casa, mas sim por causa da acidez depositada em cada letra.
- Não é hora de falar disso.
- Por que não? - ele perguntou, projetando o corpo levemente para frente me fazendo dar pequenos passos para trás. A verdade é que eu estava com medo.
- Você... - tentei impor algum tipo de respeito ali, tentei dizer que nem ele, nem ninguém, tinha o direito de me infernizar daquela maneira.
- Sabe, só assim que pude perceber como é extremamente atraente o jeito de criança que você tem certas vezes. - não poderia mais dar passos na tentativa de fugir, assim que a bancada de mármore chocou-se contra minhas costas, aquela era a segunda vez que me chamavam de criança no mesmo dia sem nem se preocupar. - E não adianta dizer que é mentira. - a maneira suave com a ponta de seus dedos deslizava por meu braço apenas me fazia pensar que tudo não passava de uma alucinação.
- , sai de perto de mim. - aquelas foram as palavras mais doídas que eu já havia dito. Desde quando, em completa sanidade, eu diria que queria longe de mim?
- Sair? Imaginei que fosse pedir isso. - ele disse enquanto desenhava algo desconexo em minha bochecha com a ponta de seu nariz. - Qual vai ser a próxima? Vai dizer que me odeia?
- Eu... - não pretendia dizer aquilo, em hipótese alguma, apenas queria sair dali.
- Você não vai conseguir dizer. - senti sua respiração bater na pele atrás de minha orelha e seu nariz deslizar por alguns centímetros da pele do meu pescoço. - Não vai conseguir, afinal não é verdade.
Não estranhei quando senti minha vista escurecer e logo voltar ao normal, as coisas saírem de foco e logo voltarem ao normal, efeitos típicos daquela proximidade. A mão de segurava a lateral do meu corpo de uma maneira diferente, o jeito como a íris brilhava e contrastava com o resto das coisas a nossa volta era diferente. A outra mão deslizou sorrateira, sem que eu nem percebesse, para baixo da barra da minha camisa.
Todas as palavras anteriores sussurradas ao pé do meu ouvido queriam dizer alguma coisa. Ainda tinha dúvidas se naquela altura do campeonato ele já estaria se vangloriando por ouvir minha respiração pesada e afetada. Assim que sua língua tocou meu lóbulo, um arrepio me desceu a espinha. E foi esse mesmo arrepio que me fez acordar. Espalmei as mãos em seu peito e o afastei com uma certa dificuldade.
- Não é assim que as coisas funcionam. - disse antes de me virar e sair de casa, mais uma vez. Ele estava diferente, era impossível não perceber. Aquela briga havia mudado alguma coisa, e eu não deixei de notar, mas não me senti mal, pela primeira vez não me senti a irmã-melhor-amiga, me senti a garota pela qual ele usaria de todas as armas para ter de volta.
Seria assim, passaria todas as aulas desviando os olhares, definitivamente. Eu me sentia uma criança. Eu poderia muito bem tem um surto de maturidade, voltar pra casa, encarar as coisas de frente, mas não. Era bem fácil, bem mais cômodo, convenhamos. Facilitando toda minha abstinência, havia sonhado com ele na noite anterior, mas isso só aconteceu depois de horas, afinal o sono demorou muito para bater em minha porta.
Assim que o sinal soou, levantei quase correndo da carteira.
O corredor abarrotado de alunos quase me sufocou, mas não me impediu de ouvir longe alguém chamar meu nome.
- ! – assim que me virei percebi que era Haylie, antes de qualquer coisa eu precisava jogar pelo menos uma água no rosto, acordar e tentar melhorar o aspecto em que se encontrava meu rosto. Meu mal estar estava passando dos limites.
Ergui a mão pedindo para que esperasse e logo em seguida apontei para o banheiro, ela assentiu e mudou de caminho. Voltei a fazer o trajeto até o primeiro banheiro que apareceria na minha frente.
Coloquei a bolsa sobre a pia de mármore e me inclinei sobre a mesma. Eu estava com uma cara péssima. Estava me deixando levar, estava abatida, estava deixando que os malditos sentimentos tomassem frente a razão. Bufei alto e abri a torneira brilhante, última da seqüência que preenchia a grande pia.
Nunca respeitei o aviso que ficava sobre aquela coisa enorme de onde tiramos o papel para secar as mãos, quer dizer, usar duas folhas, se o papel fosse de qualidade e absorvesse como deveria eu até poderia pensar em usar somente duas folhas.
Fui tirada de todo aquele pensamento quando ouvi a porta trancar e o eco soar por todo o banheiro. Meus olhos rapidamente reconheceram o reflexo que pude ver olhando discretamente pelo espelho. Tracie.
- Acho que temos um papinho rápido pra bater. – ela disse antes mesmo que eu pudesse soltar alguma resposta bem dada, daquelas que até arrepiam de tão mal-educadas.
- Engraçado, eu não acho o mesmo. – respondi mantendo o tom de voz uniforme, não iria me exaltar com aquele tipo de pessoa. Não ela.
- Percebi que você está meio distante do ...
- Percebeu? – eu já estava próxima a porta, podia muito destrancar aquela droga e sair dali, mas não. – Quando precisar que você cuide da minha vida, não se preocupe, eu irei te avisar.
- Calma, darling. Não precisamos de grosserias. – ela disse levantando a mão em sinal de calma. – Só estou surpresa, me pareceu que você não soube segurar o que teoricamente era seu...
Senti meu sangue ferver, ódio de verdade.
- Escuta aqui – não me senti insegura para colocar o dedo bem no meio da cara daquela garota. -, eu não tenho o mínimo problema em quebrar cada osso desse seu rostinho.
- Achei que não tivesse coragem pra isso. – respondeu prepotente. – Apesar de que sempre me pareceu mais menino do que menina.
- Eu não to brincando, minha paciência acabou. – segurei seu queixo de maneira bruta e falei praticamente entre os dentes. – Eu acabo com você. - soltei seu rosto vendo a marca vermelha no lugar que antes era pressionado por meus dedos. - Ah, ajeita essa maquiagem barata, 'tá parecendo uma vadia.
Destranquei a porta e deixei o banheiro sem nem saber se Tracie havia se dado o trabalho de responder. Fui atrás de Haylie para saber o que queria, mas acabou que não era nada, apenas esperamos o resto das aulas e fomos para casa dela, minha atual moradia.
A escuridão que o dia havia adquirido não era nem um pouco esperada, a mesma escuridão já havia tomado conta de toda a sala, e a única luz que fazia aquele cômodo parecer seguro era a que saía da televisão onde algum filme romântico e meloso passava e prendia a atenção de Haylie. Mais uma vez, tentando ser discreta, eu olhava para o relógio em meu pulso, os ponteiros iluminados pela luz néon que se ativava no escuro pareciam girar mais lentamente que o normal, como em câmera lenta. O que eu sentia não era tédio, muito menos cansaço, era uma ponta de desespero que me perseguia em todas as vezes em que gotas começavam a cair do céu. Haylie parecia alheia a tudo o que acontecia, mas não. Tirou a almofada que ocupava espaço em seu colo e me deixou colocar a cabeça ali. Daquela maneira eu parecia mais uma criança, e não deixava de me comportar como uma. Um clarão invadiu todo o cômodo, me fazendo encolher ainda mais o corpo. Haylie mexia em meu cabelo, isso me acalmaria se o céu não estivesse negro e o barulho de chuva não estivesse tão alto. Sabia que se contasse alguns segundos após o último clarão um estrondo brutal invadiria meus ouvidos, e foi instantâneo, levei as mãos até os ouvidos e os tampei. Eu esperava que Haylie a qualquer momento dissesse que eu já estava grande para aquele tipo de coisa, mas mal ela sabia que havia sido num dia assim que ele foi embora.
's flashback - 3 anos atrás
Aquele fim de semana não poderia se tornar mais estranho. Em muito tempo, por alguma intervenção divina, Juliett havia concordado em permitir que passasse alguns dias comigo e meus pais. O dia havia sido exaustivo, o sol e a piscina deixaram meu corpo remoído. O relógio marcava quase duas da manhã. Distraído, mantendo meus braços atrás da cabeça, percebi que ela não estava ali. Levantei e calcei os chinelos que estavam ao lado do colchão esparramado no chão. Atravessei a casa escura esperando escutar algum som que me levasse até onde ela estava. Sentada sobre o deck na piscina estava ela.
Quando mais próximo pude escutar um choro baixo. Depois de quatro anos eu arriscava dizer que ela estava completamente recuperada. Talvez completamente seja um exagero da minha parte, mas que muito melhor, isso ela estava. Não andava mais com o cabelo preso em um rabo de cabelo frouxo e descuidado, sua aparência não era mais magra e frágil demais. Como se estivesse morta por dentro. Um pouco mais de vivacidade aparecia em seus olhos, e era o suficiente para me manter mais tranquilo.
Aquele som deixava meu coração apertado, esperei tempo demais para dar a notícia que nem eu queria acreditar. Eu iria me mudar. Deixaria para trás toda minha vida. Não falando apenas dos quatorze anos que vivi ali, dos amigos que eu tinha, das coisas que eu guardava. Estava falando de uma pessoa que estava do meu lado desde o dia em que nasci. Alguém que dividiu todos os momentos, todas minhas felicidades, sem se esquecer das tristezas. Eu sabia que fazia parte da vida dela, tanto quanto ela da minha, e sabia também que ela só tinha a mim. Minha já havia me alertado mais cedo, eu só teria aquele fim de semana para contar. Na terça-feira seguinte, logo cedo, já estaria em um vôo a caminho do Canadá. Uma lágrima desceu livre por meu rosto e respirei fundo, chamando a atenção dela.
- Você. - Sua voz sussurrou. Aquele tom baixo não teve o mesmo efeito em meus ouvidos. Eu ainda não sabia porque ela chorava, mas esse era o tipo de coisa que eu evitava perguntar. Só não queria ter a certeza que depois de alguns minutos ela estaria chorando ainda mais.
Sentei ao seu lado e senti como um chute no estômago o reflexo daquela imagem frente aos meus olhos.
Seus olhos estavam inchados, suas unhas roídas. Uma aparência diferente dolorida. Antes que pudesse falar a ouvi pigarrear.
- , você tem alguma coisa pra me falar, não tem? - Sua pergunta não carregava exatamente indagação, era como se ela tivesse certeza. - Hoje mais cedo sua mãe te olhou de uma maneira estranha. Como se te alertasse. Você vai me contar o que é?
Prendi o ar nos pulmões e deixei que meu cérebro trabalhasse, sobre pressão, tentando achar uma maneira de falar o que era necessário.
Aquela dor não seria só minha, eu não era egoísta a ponto de achar seria o único machucado naquela história. Minha dor ao pensar nisso, não era nem de longe suportável.
- , eu não disse antes porque não sabia como falar. Eu juro que foi só por isso. - passei a mão sobre o rosto e comecei. - Não pense que eu não te disse por dó, sei como você odeia isso. Eu realmente não sabia como te contar. - o único olhar que foi direcionado a mim estava cheio de pressa. - Eu vou me mudar.
- Ahn... Mudar pra onde? - ela perguntou olhando confusa. - Isso não é realmente o fim do mundo. A gente ainda pode se ver.
- Eu vou pro Canadá. - disse, mas só percebi que estava chorando quando uma gota salgada chegou até meus lábios.
Katie, don't cry, I know
Katie, não chore, eu sei
You're trying your hardest
Você está tentando seu máximo
And the hardest part is letting go
E a parte mais difícil é deixar pra trás
Of the nights we shared
As noites que nós partilhamos,
Ocala is calling and you know it's haunting
Ocala está chamando. E você sabe que isso é assustador
But compared to your eyes, nothing shines quite as bright
Mas comparado aos seus olhos, nada brilha tanto
And when we look to the sky, it's not mine, but I want it so
E quando nós olhamos para o céu, não é meu, mais eu quero tanto
Let's not pretend like you're alone tonight (I know he's there)
Então, não vamos fingir que você está sozinha hoje (Eu sei que ele está aí)
You're probably hanging out and making eyes (While across the room, he stares)
Você provavelmente saiu pra se divertir e está paquerando (Enquanto do outro lado da sala, ele a admira)
I bet he gets the nerve to walk the floor
Eu espero que ele tenha coragem para andar pelo salão
And ask my girl to dance, she'll say yes
E chamar minha garota pra dançar, ela dirá que sim
Um soluço saiu de sua garganta e seu corpo se curvou ainda mais. Tentei tocar seu braço, mas ela se afastou e levou a mão até a boca, tentando controlar os soluços mais altos que antes, seus olhos fechados com força me impediam de ver a dor que estava estampada ali, e eu realmente não queria ver. Ainda precisando me esforçar, abracei seu corpo sentindo-a baixar a guarda e encaixar o rosto em meu peito e segurar firme minha camiseta.
Because these words are never easier for me to say
Porque essas palavras nunca são fáceis pra eu dizer
Or her to second guess
Ou para ela adivinhar
But I guess
Mas eu acho
That I can live without you but
Que eu posso viver sem você mas
Without you I'll be miserable at best
Sem você eu serei miserável ao máximo
You're all that I hoped I'd find
Você é tudo que eu esperava encontrar
In every single way
Em todos os sentidos
And everything I could give
E tudo que eu pude dar
Is everything you couldn't take
Foi tudo o que você não pode receber
'Cause nothing feels like home, you're a thousand miles away
Porque nada parece como casa, você está há mil milhas longe
And the hardest part of living
E a pior parte de ir embora
Is just taking breathes to stay
É respirar para sobreviver
Não ouvi uma só palavra durante todo o tempo que fiquei abraçado a ela. Queria conforta-la, mas sabia que isso era impossível. Compartilhávamos da mesma dor. Só Deus sabia o quanto tentei convencer minha mãe do contrário, tentei mostrá-la que mais do que a vida ali, não poderia deixa-la para trás. Funguei mais uma vez, juntando os lábios ao topo de sua cabeça.
Sutil demais, soltou minha blusa e passou a mão pelo rosto em uma tentativa de enxuga-lo. Era possível ver como ela não queria ouvir mais nenhuma palavra. Em um movimento diferente a vi tirar do pulso uma pulseira, a pulseira que eu havia dado de presente. Ela apenas colocou a peça brilhante ao meu lado, em contraste com a madeira, levantou-se lentamente e me deixou ali. Sozinho.
Because I know I'm good for something
Porque eu sei que sou bom para alguma coisa
I just haven't found it yet
Eu só não descobri o quê ainda
But I need it
Mas eu preciso descobrir
Deitei sobre o deck e as lágrimas reprimidas tomaram conta de mim em questão de segundos. As estrelas tornaram-se pontos embaçados e meu pulmão não recolhia o ar suficiente. Eu só queria ter dito o quanto eu a amava, e que independente da distância estaria com ela. Talvez dizer também o quanto eu torcia para que tudo desse certo na minha ausência. Dizer que era a pessoa mais importante da minha vida, dizer que eu deixava com ela um pedaço com vida do meu coração. Que eu rezaria por ela e sonharia com ela. Que eu guardaria sua voz. O perfume que costumava usar.
Tudo isso foi substituído por uma memória triste. Uma garota corroída por tristeza e sofrimento.
And this will be the first time in a week
E essa será a primeira vez na semana
That I'll talk to you
Que eu conversarei com você
And I can't speak
E eu não consigo falar
It's been three whole days since I've had sleep
Fazem três dias inteiros desde que eu dormi
Because I dream of his lips on your cheek
Porque eu sonho com os lábios dele em sua face
And I've got the point that I should leave you alone
E eu cheguei ao ponto em que eu deveria te deixar em paz
But we both know that I'm not that strong
Mas nós dois sabemos que eu não sou tão forte assim
And I miss the lips that made me fly
E eu sinto falta dos lábios que me faziam voar
Um frio insistia em tentar me tirar daquele universo de pensamentos em que eu estava. Tudo era úmido e gotas microscópicas molhavam minha pele. Ainda era possível chorar, e seria possível enquanto eu lembrasse dela. Segurei forte o pingente ligado a corrente de prata, fria contra minha pele, ela não havia me entendido. Ela achava que eu estava a deixando sem ao menos tentar.
Quando amanhecesse não a encontraria. Não teria mais uma chance de me despedir. Busquei um pouco mais de ar.
Because these words are never easier for me to say
Porque essas palavras nunca são fáceis pra mim dizer
Or her to second guess
Ou para ela adivinhar
But I guess
Mas eu acho
That I can live without you but
Que eu posso viver sem você mas
Without you I'll be miserable
Sem você eu serei miserável ao máximo
And I can live without you
E eu posso viver sem você
But without you I'll be miserable
Mas sem você eu serei miserável ao máximo
And I can live without you
E eu posso viver sem você
Oh, without you I'll be miserable at best
Mas sem você eu serei miserável ao máximo
"Eu não sei o que nos liga, mas sei que é forte o suficiente para nunca nos separar. Qualquer coisa, qualquer distância, independente do quanto tudo conspire contra. Eu não vou te deixar. Não porque sei que você precisa de mim. Vai além disso, quem precisa de você sou eu."
Naquele momento suas palavras soavam com uma mentira.
End of flashback
Fui puxada de volta à realidade assim que ouvi a campainha tocar. No momento em que Haylie fez menção de levantar, levantei antes e dei espaço para que ela saísse do sofá e fosse até o olho mágico espiar quem estava do outro lado. A vi equilibrar o corpo na ponta dos pés e logo depois olhar para mim com uma expressão não muito animadora.
- É pra você. - escutei dizer. Se ela sabia que quem quer que fosse do outro lado da porta estaria querendo falar comigo, só poderia significar uma coisa. A pessoa do outro lado da porta era ele. Pela manhã no horário normal do colégio não havia o visto, e foi até que confortável. Hesitei em levantar do sofá e calçar o par de tênis que estava ali do lado.
Vesti o agasalho que estava sobre a mesa de centro e ajeitei o capuz sobre a cabeça. Voltei a olhar para Haylie que apenas sorriu em um gesto de apoio, eu sabia bem que ela queria dizer que em qualquer momento eu poderia entrar correndo e me trancar em seu quarto. Eu não sabia se minha mão estava fria, ou o trinco da porta que congelava. Inspirei e prendi todo o ar possível dentro dos pulmões, eu realmente deveria fazer aquilo.
Não olhei para ele. O que realmente me chamou atenção foi a maneira violenta como a água batia contra a pequena cobertura sobre o hall de entrada da casa. Um vento frio, insistente, passava com pequenos intervalos e me fez apertar o agasalho contra o corpo na tentativa de manter o frio distante. Dentro dos bolsos minhas mãos eram inquietas, os dedos se entrelaçavam e pressionavam a palma. Só depois de tentar me familiarizar com aquele ambiente incômodo reuni uma coragem que não existia e olhei para seu rosto. Por alguns segundos ele pareceu mais desconfortável que eu, e isso poderia me tranquilizar, mas não, foi apenas uma idéia boba. Comprimi os lábios assim que ouvi sua respiração indicando que logo ele iria falar.
- Nós podemos conversar? - não estranhei ele começar sem ao menos uma saudação. Ele estava tão nervoso quanto eu, sua voz havia deixado a boca de maneira falha e sua íris não era tão atrativa como costumava ser.
- Acho que sim. - respondi simples, sem esboçar qualquer tipo de emoção, coisa fácil que eu vinha fazendo nos últimos dias. - O que você quer falar?
- Não acho que temos muita escolha - ele começou. -, apenas um assunto parece mal resolvido entre nós dois. Queria saber quando vai voltar para casa? - aquela pergunta era repetitiva, eu mesma a fazia. Não sabia realmente quando deixaria de ter medo de enfrentar a situação, voltaria para casa e resolveria tudo. Era tão difícil responder.
- Eu - vacilei por alguns segundos. - Eu não sei. - o vi soltar o ar de maneira irônica, rolar os olhos e então me olhar de uma maneira tão firme que me fez estremecer e apoiar o corpo na parede mais próxima.
- Você não acha que isso tudo 'tá indo longe demais? - ele perguntou perdendo o controle da voz por um momento. - Você está fora de casa já faz dias, eu mal te vejo no colégio e isso tudo por um mal entendido que você poderia ter resolvido, mas você escolheu bater a porta na minha cara e sair correndo. - escutava tudo aquilo de cabeça baixa e não apenas me sentindo humilhada. - Você não é mais uma criança. - ele disse baixo demais, perdendo a vontade de argumentar. - Eu não quero que você fique longe, mas não posso te tratar como trataria uma criança de dois anos, daquelas que faz birra para comer o almoço. Você cresceu e eu também, e como você sempre quis eu estou do seu lado, mas se você não consegue suportar uma coisa normal como o ciúme, quem dirá...
- Se é pra jogar na minha cara todos os defeitos que eu sei que tenho você veio na hora errada, . - disse firme.
Eu poderia entrar de volta e bater mais uma vez a porta, mas seria repetitivo, e demasiadamente infantil. Eu não queria parecer com nada daquilo que ele havia acabado de apontar. Apertei os dentes e passei por ele deixando a casa de Haylie para trás. O choque dos primeiros pingos de água contra meu corpo, mesmo que por cima do grosso agasalho, me amedrontaram. Como se não fosse suficiente um trovão ecoou longe. Aos poucos o capuz caiu de minha cabeça e meus cabelos em segundos estavam encharcados, acelerei os passos sentindo o corpo frio e pesado. Uma corrida não me faria mais aquecida e eu não tinha forças pra isso. Queria estar distante o suficiente para chorar alto o suficiente e assim talvez algumas das minhas mágoas se desmanchassem. À frente dos meus olhos tudo não passava de um borrão e com muito esforço reconheci a placa que indicava um cruzamento. Virei a esquina vendo apenas muros escuros e altas árvores cercando tudo. Eu mal sabia o quanto já tinha corrido, meus tênis estavam ensopados e meu agasalho me incomodava, com muito esforço andei mais alguns metros e me encostei no muro áspero de pedras. Tirei o agasalho o jogando no chão e vendo minha blusa parecer tão fina que não me protegeria de nada. A corrente fria de ar me fez tremer até o último nervo, meu choro já não era perceptível, primeiro pelo barulho da chuva e depois pelas gotas que se confundiam a ele sobre meu rosto. Apoiei as mãos nos joelhos me abaixando e sentindo uma dor horrível no peito, eu não estava superando um pavor ao sair correndo sob a chuva torrencial que caia, eu apenas tentava camuflar mais uma vez. Como uma bola de neve, um problema sobre o outro, nenhuma solução em vista e mais aglomeração de sofrimentos.
De maneira firme e fria uma mão segurou meu braço. Ergui o rosto e vi encharcado como eu. Os olhos fechados, a testa franzida, a respiração ofegante e uma força absurda sobre os dedos que me seguravam. Contra minha vontade meus soluços se tornaram mais altos e meu desespero cresceu. Com um pouco menos de força, mas ainda assim firme, ele me colocou a altura de seu rosto. Não olhava diretamente para mim e seus lábios avermelhados demais tremiam de maneira discreta.
- Eu não vou desistir de você. - ele disse. - Não como você pensa que vou. - sua outra mão com cuidado segurou meu pescoço e me fez olhar em seus olhos, as íris que voltavam a me atrair. - Por favor, me perdoa. Eu não queria te magoar, eu não queria duvidar de você. Eu nunca duvidei. Tenho certeza que ninguém me ama mais que você e foi estúpido da minha parte colocar isso a prova. Não era minha intenção. Eu vou repetir, quero que você entenda e nunca mais me deixe. Eu não vou desistir de você.
Minha boca pareceu quente. Fechei os olhos e deixei que aquele choro caísse no esquecimento. Senti seus lábios próximos e logo sua língua pedindo passagem, antes tarde. A saudade que eu tinha sentido não era pequena, e também não era descritível. Deixei que minhas mãos deslizassem até que finalmente pudessem se firmar em seus cabelos, e seus braços apertaram minha cintura acabando com a distância entre nós. Eu só podia e só queria agradecer.
Ele era meu mais uma vez.
25
- O que sua vó queria hoje mais cedo? - perguntou, jogou o corpo exausto de mais um dia de ensaio sobre o sofá.
- Ela 'tá vindo pra cá. - ouviu como resposta. - Algo não 'tá certo, eu perguntei do meu avô e ela disse que conversaríamos melhor quando chegasse aqui. - logo a menina já estava na sala, ocupou o lugar vago ao lado dele.
- Por que algo estaria errado. É normal, sua vó mora longe, em outro país, não vejo problema em ela querer te visitar. - respondeu tranquilo.
- Ela perguntou se eu tenho conversado com Juliett. - disse.
- Juliett? - indagou. - E que tipo de conversa você poderia ter com aquela mulher?
- Algo relacionado ao . Provavelmente relacionado ao banco. - lembrou. Sempre acompanhara a rotina dos avós na gestão do grande patrimônio da família, sabia bem que os eles planejavam seu futuro, o do primo, , também. Os mais velhos da família não idealizavam um futuro de fotografia, ou bandas de rock. Imaginavam a continuação do império, os netos administrando seu legado. Legado esse que era divido com mais duas famílias, e Delacoure.
- Acho que a separação dos meus pais contribuiu pra que eu me afastasse, ou me afastassem, desse futuro patético.
- Patético, mas você não pode negar que seria um futuro promissor. - a menina deu continuidade. - Nossas famílias constroem isso há décadas, mas acho que não nascemos para continuar esse trabalho.
- Talvez eles tenham mais sorte com o filho dos Delacoure. - disse e no mesmo instante cessou as risadas. - O que foi? - perguntou, ao ver o silêncio repentino da menina. apenas desviou o olhar e percebeu que não tinha contado a ele que encontrou com Ethan Delacoure.
- Eu acho que esqueci de comentar uma coisa com você... - começou, confusa. - Lembra do fim de semana em Hill Valley? - viu assentir e continuou. - Na volta você comentou que percebeu meu silêncio na última festa que fomos lá... Bom, eu não sei porque não contei, mas não me ocorreu, quer dizer, eu realmente não vi necessidade.
- O que você não contou?
- Ethan estava lá. - revelou. - Ele veio falar comigo em uma das vezes que fui buscar garrafas de cerveja. Disse que nos veríamos em breve.
- Por que não contou antes? Por que não contou na hora?
- Eu já disse, não sei. - respondeu um pouco aflita. - Não me agrada a idéia dele por aqui, próximo da gente, ou pior, próximo dos meus avós. , eu ainda não esqueci, pra mim a família dele estava envolvida no acidente que matou meus pais. - com calma o garoto a puxou para seu colo.
- Não volte a pensar nessas coisas. Não agora.
Uma vez, em um passado não tão distante, sentira medo. Medo de verdade, medo da morte. Apenas um carro preto, apenas um segundo. Esse foi o tempo necessário para que levasse o maior susto de sua vida. Voltava sozinha do colégio, algumas esquinas antes de casa. Uma brecada de pneus chamou sua atenção e rápido demais dois homens a colocaram em um carro. Tudo era escuro, e assim permaneceu até que chegasse a uma casa velha. Um cheiro de mofo e o barulho de goteiras incomodavam. De longe pode ouvir um sotaque francês e isso não despertou sua atenção de início. Entre choramingos e fungadas ouviu chaves com metal e logo uma luz forte demais atingiu seus olhos. O mesmo carro preto, a mesma esquina. Lá estava ele, suja e machucada, mas de volta a normalidade.
- Minha vó chega amanhã.
- Amanhã? - perguntou.
- Sim, vou buscá-la no aeroporto e então vamos almoçar. - a menina começou a dizer os planos para o dia seguinte. - Eu vou chegar no ensaio só de noite, mas eu estarei lá, não se preocupe.
- Se não der tempo você não é obrigada a se desdobrar para ir. Só quero que esteja lá no sábado. De resto...
- Obrigada. - disse aproximando a boca à dele.
Alguns barulhos característicos incomodavam a garota naquele momento.
Naquele dia levantara mais tarde, deixou de ir para o colégio para ter tempo de se arrumar, adiantar algumas coisas e esperar a chegada do vôo da avó. Infelizmente Elizabeth tinha um olhar minucioso para certas coisas. Ouviu uma pequena interferência dos auto-falantes, uma voz feminina anunciou a chegada de mais um avião vindo de Roma. Levantou-se da cadeira onde esperava e passou a prestar atenção na porta de vidro, onde letras amarelas formavam a palavra "desembarque".
Com um sorriso discreto acenou para a avó.
- Olá, vovó. - disse assim que deixou o abraço da senhora. - Estava com saudades.
- Posso dizer o mesmo. - analisou a menina da cabeça aos pés. - Como o tempo passou, querida. Já é uma mulher.
- Realmente, o tempo passou, vovó.
- Não me diga isso. - a senhora respondeu, dando leves batidinhas nas maçãs do rosto. - O táxi já nos espera?
- Sim, senhora.
Ambas caminharam até a saída do aeroporto e esperaram até que o motorista colocasse a mala de Elizabeth no porta-malas. Pelo tamanho da bagagem deduziu que a vó não ficaria por muito tempo, talvez alguns dias. O restaurante estava vazio, apesar do horário de almoço na cidade. Com calma foram conduzidas até a mesa reservada por a pedido da avó e ocuparam seus lugares.
Ainda degustavam da pequena entrada quando decidiu quebrar o silêncio que havia se instalado.
- Então, a que devo a honra da visita? - viu por alguns segundos a avó acomodar-se melhor na cadeira estofada e repousar os talheres de maneira cuidadosa.
- Creio que chegou a hora de resolvermos alguns assuntos de família, e outras coisas também. - a maneira como a senhora abordara o assunto deixou a menina um pouco preocupada.
- Que tipo de assuntos a senhora fala?
- Seu futuro. - ela respondeu. - Acredito que isso seja de grande importância tanto para mim quanto para você. - ao ouvir a resposta apenas recolheu para os pulmões o máximo de ar possível, realmente estava certa. - Com seu aniversário de dezoito anos próximo, eu e seu avô voltamos a nos preocupar com a sucessão do banco. Você deve saber, creio que Sue tenha explicado a você e , como isso irá funcionar.
- Ela comentou. - lembrou-se de um almoço junto a e sua mãe, onde Sue comentou sobre como funcionaria a eleição de sucessão assim que todos os herdeiros chegassem a maioridade.
- Isso me poupa de alguma explicações. Você é a herdeira majoritária, sabe disso? - a menina apenas assentiu. - vem em segundo lugar, por ser nosso neto, mas não de sangue, apesar de o considerarmos assim, é claro. Depois de vocês dois vem , e por último o filho dos Delacoure, Ethan.
- Seria melhor se a senhora me dissesse o que será necessário que eu faça. - a menina disse um pouco impaciente.
- Será necessário que se prepare. Seu futuro será esse, infelizmente, por uma casualidade infeliz do destino seus pais faleceram. Eu poderia permitir que Juliett assumisse os negócios assim que eu e seu avô nos afastássemos, mas não posso. Toda a hierarquia daquela instituição sempre foi baseada em laços sanguíneos, e Juliett não os têm. Nesse caso temos você como opção.
- Vó, imagino que saiba que não é isso que eu imagino para mim...
- Fui informada sobre suas cartas de aprovação em algumas faculdades. Fico feliz por isso. Tenho certeza de que começar a assumir seu lugar na administração do banco não afetará seus estudos. Você poderá muito bem seguir com a faculdade sem nenhum problema.
- Eu mal sei o que quero fazer... - por alguns segundos Elizabeth manteu-se calada.
- Você sabe da importância disso, não sabe? - a menina assentiu. - Pelo que sei e não estão muito interessados em tudo isso. Só me resta você. É uma questão de orgulho, eu realmente não gostaria de entregar tudo isso aos Delacoure.
- Vó, eu posso não ser a pessoa mais informada do mundo, mas até onde sei a gestão sua e do vovô só acaba daqui quatro anos. - disse em uma tentativa de acalmar a pressa da avó.
- Não sei se teremos tempo.
- Tempo? - indagou. - Vó, por que vovô não veio com você?
- Imaginei que fosse perguntar. - realmente, a garota sempre alimentou um laço muito maior com o avô. - Querida, as coisas mudaram um pouco nos últimos anos.
- Eu só quero uma resposta, vó.
- Pouco tempo depois o acidente que matou seus pais, diagnosticamos alguns problemas na saúde do seu avô.
- Diagnosticamos? Como assim diagnosticamos? - a menina questionou um pouco exaltada. - Por que só está me dizendo isso agora?
- Você havia acabado de perder seus pais, pensei que não estivesse preparada.
- Estava esperando o que pra me contar? O que pior acontecer? - a maneira rude como colocou suas palavras assustou sua vó de início. - O que ele tem?
- Câncer. - Elizabeth disse e viu a menina colocar o rosto entre as mãos. tentava respirar fundo, mas parecia impossível. - Nós precisamos de você. - ainda conturbada com a notícia, levantou-se da mesa.
- Tenho que ir pra casa. - disse, deixando a avó sozinha.
O vento era frio. Apertou o casaco contra o corpo e tirou o celular da bolsa. Com pressa discou alguns números e esperou os toques com um pouco de agonia.
- , você pode vir me buscar? - disse com a voz já embargada.
Era certo. Os tempos difíceis estavam começando.
A turbulência da semana estava mais amena. tentava de todas as maneiras manter a garota distraída. Elizabeth já havia ido embora.
Era sábado e finalmente o show iria acontecer. e Haylie já ocupavam seus lugares próximas do palco. A cada minutos que passava mais pessoas enchiam o pequeno pub. A banda finalmente tinha um nome, na verdade foi um acordo entre todos, o nome seria McFLY. Jason, dono do pub subiu ao palco, enrolando-se um pouco em meio aos vários cabos.
- Boa noite. Hoje apresento a vocês uma nova banda que tocará por aqui. Senhoras e senhores: McFLY. - e Haylie trataram de gritar e bater palmas de maneira histérica, e os outros presentes também o fizeram. De maneira tímida foi o primeiro a subir no palco, seguido por , e .
O nervosismo não estava escrito em suas testas como era de se imaginar. Com o barulho das baquetas, iniciaram a contagem, e logo as guitarras já soltavam seus acordes. Iniciaram o show com a música escrita por , que recebeu o nome de That Girl. Ao escutarem os aplausos positivos partiram para outra, Obviously. Mais algumas, especificamente seis, e o show estava teoricamente terminado. Os garotos deixaram o palco com aplausos calorosos.
Para o engano de todos o show não havia acabado. Os garotos voltaram ao palco minutos depois e assumiram suas posições mais uma vez, improvisaram um cover do Queen, fazendo toda a platéia, que no momento contava com vários alunos do King's e alunos de outros colégios, levantar-se e acompanhar a música. Foram muitos os aplausos, e quando estes terminaram a banda desceu do palco e cumprimentou os novos admiradores que os esperavam ali perto. Não demoraram e logo foram de encontro as duas garotas que os esperavam próximas ao bar.
- Parabéns! - Haylie disse alto, num tom que misturava euforia com orgulho.
- Para novatos vocês mandaram muito bem! - seguiu parabenizando os amigos e lançado os braços envolta do pescoço do namorado. , por sua vez, postou as mãos em suas costas e a puxou para perto.
- Gostou? - perguntou, em resposta recebeu um pequeno beijo. - Preciso beber alguma coisa.
virou-se e pediu uma cerveja para o garçom que cuidava do pequeno bar.
- Aqui. - estendeu a pequena garrafa para e voltou a tomar a sua. - Eles têm planos pra agora? - questionou, indicando os amigos que conversavam animadamente bem ao lado dos dois.
- Na verdade eu não sei... - esticou-se para colocar a garrafa sobre o balcão e voltou a aproximar dela. - Mas nós podíamos sair daqui, não? - a garota não respondeu, apenas permitiu que o arrepio causado pela proximidade dos lábios de de seu ouvido percorresse todo seu corpo. Com um olhar tímido assentiu e entrelaçou os dedos aos dele.
- Mas espera aí, pra onde nós vamos? - parou quase que bruscamente e perguntou. Viu olhar a sua volta e assumir uma expressão de incerteza. - Já imaginei, não temos pra onde ir.
- Você é apressada demais. - sem dizer o que fariam depois daquilo, voltou a conduzir a namorada para fora do pub.
O trajeto de carro não foi demorado. Em menos de meia hora os dois já haviam estacionado o carro na garagem do prédio e esperavam o elevador chegar ao subsolo.
- Eu podia jurar que você iria me oferecer o banco de trás do seu carro. - disse enquanto abria a porta de casa.
- Não seria má idéia. - ele disse, e a menina reconheceu que aquela fala contava com um pouco mais de experiência do que ela poderia imaginar.
- Será que eu precisava mesmo imaginar quantas garotas você já levou para um carro desde que descobriu pra que serve isso tem entre as pernas? - perguntou com um tom de sarcasmo. Agarrada a ele, fechou a porta com um dos pés e voltou a dar-lhe curtos selinhos.
- Eu sempre soube. - respondeu próximo ao ouvido dela. Por um instante novos arrepios atravessaram toda a extensão do corpo dela.
Sem qualquer aviso o garoto conduziu-a até o sofá, que não estava distante. Com cuidado para que seu corpo não caísse com força sobre o dela, inclinou-se, prensando-a, mas não a fazendo deitar-se totalmente. Convivendo tanto ao lado dele, sentiu-se um pouco surpreendida, mas não deixou que ele percebesse, queria saber até onde iria. O sentiu segurar sua nuca e sugar seu lábio inferior lentamente, de uma maneira que não poderia ser julgada como inocente. O riso quase silencioso mostrou suas intenções melhor que palavras. Sem sentir-se afobada ou muito menos adiantada, ela segurou firme os cabelos de e permitiu que a língua dele adentrasse sua boca, começando um beijo diferente de todos já dados. Qualquer distância entre os corpos soava como um tipo de ofensa, com uma das mãos ela puxava os cabelos dele e outra pressionava suas costas. Sentiu a mão dele deslizar pela lateral de seu corpo de maneira forte, talvez possessiva, parando em sua cintura, onde aplicou um pouco mais de força, e voltando a trilhar um caminho até sua coxa, colocando-a sobre seu próprio quadril. Suavemente os dedos de deslizaram por ali, levando o tecido de seu vestido, e deixando suas pernas completamente descobertas.
Podia ouvir a respiração da menina de uma maneira mais alta e forte que o normal e isso apenas o fez pensar até onde poderia ir com aquelas provocações.
Aproximou a boca do ouvido dela e deixou que sua própria respiração ecoasse de maneira ruidosa, aos poucos a mão dela que se encontrava em sua nuca pressionou levemente a região, fazendo-o sorrir discretamente. Passou a espalhar beijos pela pele exposta dela, começando próximo ao maxilar; depois próximo ao ouvido; prendeu os dentes ao lóbulo de maneira suave e deslizou a língua pela pele próxima a seu ouvido. - O que foi? - perguntou, e assim fez questão de dar uma risada baixa e maliciosa, fazendo seu hálito quente bater contra o pequeno rastro de saliva. Sentiu as mãos da menina adentrarem sua camiseta, sua perna que estava presa entre as pernas dela pressionou-se contra seu corpo, resultando num movimento ousado, sem deixar de ser sugestivo. As unhas de , um pouco cumpridas, arranharam de maneira leve a pele, fazendo um gemido baixo escapar-lhe da garganta. Parar não era exatamente o planejado.
- ... - ela disse um pouco ofegante, sentiu algumas mordidas leves atingirem seu pescoço, o que a impedia de concluir o raciocínio. - Estamos num sofá.
- Eu sei... - ele disse rouco, e de maneira forte apertou sua coxa. - O que foi? - perguntou, mas ainda assim não desistia de espalhar beijos por seu pescoço.
- Eu... - por mais que tentasse dizer, uma parte impulsiva de seu cérebro não permitia. Num movimento rápido, passou a camiseta do menino por seu pescoço, o deixando nu do tronco para cima. - Eu... Nunca... - aos poucos sentiu as mãos dele cessarem os movimentos por seu corpo; a respiração poderia finalmente voltar ao ritmo normal.
- Você... - por um momento perdeu as palavras. - Você é virgem? - sem nenhuma palavra ela apenas assentiu timidamente. Com um movimento rápido ele se ajoelhou entre as pernas dela. - Meu Deus... Por que eu nunca te perguntei isso?
- Nunca houve necessidade... Talvez. - ela respondeu cautelosa.
- Desculpa. Desculpa, de verdade, eu não percebi... Eu... Que merda. - a menina olhou para ele com um olhar de censura. - É que... Realmente parecia que você... Que você já tinha... É. - com um olhar confuso era óbvio que ela se segurava muito para não rir.
- Isso deve ser bom... - disse, colocando um sorriso no rosto logo em seguida. , com cuidado voltou a se inclinar sobre o corpo dela.
- Você sabe que eu não te forçar a nada, não sabe? - ela, mais uma vez, assentiu.
As mãos de encontraram-se atrás do pescoço dele, e com um leve movimento ela estava sentada com as pernas envoltas na cintura dele. Com calma juntou os lábios e iniciou um beijo muito mais calmo, calmo e sincero. retribuiu da mesma maneira carinhosa, pressionando as bocas em um selinho antes de voltar a olhar para o rosto da menina.
- Você tá com um corpinho bem em cima pra quem não faz nada além de cantar e tomar cerveja. - ela disse rindo, e arrancando mais risadas dele.
apenas puxou a garota e deitou de maneira mais confortável, com ela sobre seu corpo.
26
As semanas pareciam voar. O grande calendário colorido sobre a porta do refeitório mostrava que faltava pouco mais de um mês para a formatura. Já eram duas semanas desde o primeiro show no Memphis, o que pequeno pub. Graças ao sucesso da primeira apresentação, era certo, tocariam todas as sextas. O próprio Jason prometeu falar com alguns amigos de gravadoras, chamá-los para assistir a um show. Os olhares dentro do colégio eram completamente diferentes. A atenção das garotas então, mudara da água para o vinho.
, deitada na cama de observava os diversos móbiles pendurados no teto. Alguns rodavam graças ao vento, que de vez em quando invadia o quarto de maneira mais forte, balançando também as cortinas. O garoto lia distraído o livro que seria tema da próxima prova de Literatura, com um dos braços envolvendo o corpo dela de certa maneira, brincava com as pontas de cabelo que estavam ao seu alcance. Aquela era uma das poucas tardes livres, todos decidiram por resolver coisas pendentes, os ensaios ocupavam quase todo o tempo que antes era ocioso.
- Sabe o que eu decidi? - A menina começou. fechou o livro e colocou sobre a mesa de cabeceira. - Vou pra Itália depois da formatura. Preciso ver meu avô.
- Eu acho uma boa idéia. Ficou bem claro que ele não está em condições de sair de lá, tanto que nem veio com a sua avó. - Ele respondeu, abraçando-a pela cintura, dessa vez. - Minha mãe contou sobre a reunião do conselho. É chato dizer, mas tudo está nas suas mãos. Todos sabem que eu e estamos fora dessa.
- Imaginei que fosse ser assim. - Ela finalizou cabisbaixa. Ele afastou as poucas mechas que insistiam em cair sobre o rosto dela e aproximou os lábios suavemente.
- Não precisa se preocupar. Independente de qualquer coisa, eu sempre vou estar aqui. - passou os braços pelos ombros dele e selou os lábios num beijo calmo. - Sem desânimo. Vai se arrumar, afinal você sempre demora horas, hoje vamos aproveitar a noite na Funhouse. - A garota levantou num pulo e foi até seu quarto. Sentou sobre a cama e mirou a porta do guarda-roupa, imaginando algo que ficasse bem para aquela noite. Foi ao banheiro e largou as roupas em um canto qualquer, antes de girar a chave do registro e deixar a água cair contra sua cabeça.
Abriu a porta do banheiro esperando que todo o vapor saísse dali e sua imagem se tornasse nítida no espelho sobre a pia. Secou os cabelos com um secador e escolheu um arco discreto. A roupa que pensava em usar era simples, a maquiagem poderia ser também. Apenas aplicou uma máscara de volume nos cílios, blush e um batom. Finalmente deixou o banheiro e voltou ao quarto, o relógio marcava quase nova da noite. Abriu o armário e observou algumas peças ainda em dúvida. Escolheu uma blusa branca de mangas bem curtas com uma estampa estilizada de Audrey Hepburn; decidiu por uma saia de cintura alta que cobriria até metade das coxas e uma ankle boot. Deu uma última olhada no espelho, tirando o arco e bagunçando a franja de um jeito descontraído.
- Uou! - disse assim que a viu chegar a sala.
- Obrigada, mas vamos logo. Quero beber e dançar!
Funhouse era conhecida pelo público, próxima a Piccadilly Circus, na Shaftesbury Avenue, reunia as pessoas mais legais da cidade. Na verdade sua localização contribuía com isso. Aquela região parecia nunca parar. Kristen era o contato de todos lá dentro, trabalhava como barmaid e sempre os colocava para dentro da festa. e Stacie já conversavam ao lado do bar.
- Hey! - apoiou-se sobre o balcão e chamou Kristen. - Kit, quero a bebida mais forte e colorida desse bar. Viu a amiga sorrir abertamente e balançar a cabeça. Depois de algum tempo de costas para o balcão, Kristen entregou a taça com um líquido verde limão para .
- Aqui o que você precisa! - ela disse, e apenas riu ao ver a amiga virar a bebida de uma só vez e fazer uma careta em resposta.
- Nossa, isso é realmente forte.
Em menos de uma hora todos estavam reunidos, ocupando uma mesa sobre o mezanino, conversando e bebendo. A sequência alternativa da pista de dança havia sido trocada por musicas mais dançantes. Haylie chamou a amiga para dançar, os meninos pareciam muito mais atentos a conversa sobre o futuro da banda e coisas do tipo.
e Haylie já dançavam a quinta música consecutiva. A pista de dança estava cheia e era quase impossível mover-se sem esbarrar em alguém. voltou a ter a impressão de que estava sendo observada, ainda que de longe. Era estranho, afinal sabia que não era , ele estava no andar de cima bebendo e conversando com os amigos. Havia mais um bar ali dentro, este propositalmente localizado, dançar e beber ao mesmo tempo parecia normal. Olhou naquela direção e tomou um leve susto, diria leve apenas por sua reação não ser exagerada. Sentiu o corpo parar lentamente, os músculos retesarem. Colocou a mão sobre o pulso de Haylie e a amiga parou de dançar no mesmo instante.
- Vamos subir... - disse sem qualquer explicação. Sabia do olhar indagador da amiga, mas ainda assim continuou caminhando em direção a afunilada escada que daria acesso à parte de cima.
O olhar que a seguia desviou-se por alguns segundos, entretanto apenas para deixar a garrafa de cerveja sobre o balcão. Ethan cruzou a pista na mesma velocidade que a menina, pronto para alcançá-la. chegou a pequena escada, mas não poderia subir, como uma jogada maldosa do destino , e desciam no mesmo instante. "Merda", sussurrou.
- O que 'tá acontecendo? - ouviu a voz de Haylie, já confusa e irritada, perguntar.
- Fugindo? - Ethan perguntou assim que a alcançou. Seu sorriso, ainda que discreto, era sarcástico. - Que surpresa te ver por aqui. Lembro de ter dito que não demoraria até que nós encontrássemos de novo.
- ? - chamou, estranhando a posição estática da namorada em frente a escada. - Ethan? - perguntou, esperando alguma confirmação. Era verdade que não precisava, mesmo que um pouco diferente, era visível que se tratava de Ethan Delacoure.
- Uou, encontro movimentado. - Ethan disse. - Jones, quanto tempo.
apenas se aproximou de e passou um braço por sua cintura. Acenou com a cabeça de maneira discreta.
- Nós já estamos indo, né? - a menina perguntou, tentando deixar a indireta no ar, na verdade direta para . Viu uma expressão de confusão no rosto dele e rezou, sozinha, para que ele entendesse que por qualquer motivo que fosse aquilo não cheirava bem e eles deveriam sair logo.
- Pressa? - Ethan perguntou, dessa vez colocando todo seu sarcasmo em palavras. - Eu realmente queria falar com você. - a mão dele tocou o braço de , e antes que ela pudesse afasta-lo seus dedos já estavam presos ao antebraço dela.
- Me solta. - sussurrou. Viu olhar cauteloso para e . Como se não ouvisse nada, Ethan permaneceu segurando a garota. - Me solta. - praticamente rosnou.
Rápido demais, apareceu bem na frente do corpo dela. Cara a cara com Ethan.
- Solta ela, cara. - ele disse, ainda que discretamente, de maneira pacífica.
Soava muito mais como um desafio. Ethan soltou o braço de , porém aproximou o corpo de , desafiando-o. Dessa vez, em câmera lenta, empurrou Ethan e em troco recebeu um soco no ombro, que provavelmente era direcionado ao seu rosto. que estava ao lado de se apressou em tentar separar os dois garotos, que miravam socos e pontapés um no outro. puxou as duas meninas, mas viu levantar cambaleante com um corte sobre a sobrancelha com a boca e nariz sangrando.
- Vamos embora! AGORA! - puxou pelo braço e apenas lançou um olhar estranho para .
estava sentado sobre a cama de , na verdade era obrigado, a menina parecia soltar fogo pelas narinas. Ouvia barulho de portas batendo, enquanto ela procurava por alguma coisa. Viu a menina voltar ao quarto e sentar em seu colo, com uma perna de cada lado; sorriu discretamente.
- Como você fez aquilo? - ela perguntou, indignada. - Bastava ter saído andando. Você não precisa ter socado a cara dele. - parecia dialogar sozinha. - E também não precisava sair machucado.
embebedou um algodão com uma solução estranha e gemeu assim que a menina colocou aquilo contra sua pele. Ela fez aquilo sobre todos os machucados e depois os cobriu com pequenos curativos.
- Obrigado. - ele disse, envergonhado.
- Espero que isso não aconteça de novo. - respondeu. Delicado, segurou sua nuca e aproximou os rosto, beijando-a logo em seguida.
correspondeu, passando os braços pelo pescoço dele, e aos pouco sentindo seu corpo ser inclinado junto ao dele. Ele sentia um pouco de dor graças aos machucados e partes doloridas, mas ainda assim insistia. Aos poucos deixou a nuca dela, sua mão percorreu um caminho pela lateral do corpo dela, até alcançar suas pernas, onde aplicou mais força, num carinho de más intenções. Baixo, resmungou, parando o beijo.
- , será que você só pens...
- Só penso em sexo? - ele indagou, sem entender a parada súbita. - Nós só estávamos nos beijando, não sei se você percebeu...
- Eu percebi. E percebi também que sempre de algum jeito você tenta... Argh
- O que eu posso fazer? Eu sou cara e tenho minhas necessidades. Você é virgem, eu não.
- Pensei que não fosse me sentir pressionada a nada. - ela disse num tom ressentido. Por mais simples que fosse a frase, doía. Então se ela não o atendesse, ele poderia muito bem procurar outra que o fizesse? Foi bem o que entendeu...
- Eu nã...
- Me dá um tempo. - disse antes de deixar o quarto.
Era estranha a sensação de saber que em segundos tudo fora por água abaixo.
Raramente deixava o despertador de lado. Infelizmente não possuía um relógio biológico, e se deixassem, dormiria pelo resto da vida. Os leves e baixos apitos de seu celular mostravam que a bateria estava recarregada. Afastou o lençol do corpo, estava acostumada a dormir sozinha; acostumou-se, mesmo que por alguns meses a dormir acompanhada, e novamente estava acordando sozinha. Apenas bufou ao perceber o quão frágil sua vida amorosa era. O clima dentro do apartamento era tenso, e parecia irremediável. Sem quebra de resistência. Nenhum dos lados daria o braço a torcer, era incômodo, mas ainda assim necessário. Não era marcação de território, apenas embate de personalidades.
Terminou a higiene matinal e seu banho em cerca de quarenta minutos. A noite de sono, apesar de sozinha vale ressaltar, havia sido boa. Estava descansada e isso graças as obrigações, naquela manhã realizaria os últimos testes do ano. As aprovações dependiam daquelas provas, que como sempre, fariam fumaça sair da cabeça dos alunos de King's Ford. Evitou espiar o quarto de assim que passou pelo mesmo. Não sabia ao certo onde o menino havia dormido, e pelo jeito continuaria sem saber. Abriu o armário escolhendo um sabor qualquer de barras de cereal e saiu para a escola. Era bom ir a pé. Ouvir músicas inteiras, sentir o vento fraco da manhã, o cheiro de folhas típico do fim de primavera. Aquilo tudo chegava a soar poético de uma maneira enjoativa.
Alguns grupos de alunos se aglomeravam no pátio, os exames começariam às nove. caminhou até o prédio onde faria os exames do dia, deixou o blazer do uniforme dentro do armário, a temperatura amena daquele dia lhe permitia isso. Observou Haylie atravessar o pátio esbaforida e apenas acenar, provavelmente já atrasada. Observou o relógio analógico do corredor e constatou os poucos minutos que faltavam para o início da prova. Sozinha dirigiu-se até a sala onde costumava ter aulas de História. Uma carteira a esperava, seu nome impresso em uma pequena etiqueta marcava seu lugar. Um lápis, uma borracha e uma caneta esferográfica para o gabarito estavam sobre a pequena mesa. Nos últimos anos as medidas contra colas tornaram-se mais incisivas, mas não resolviam o problema como deveriam.
Observou entrar na sala, piscar discretamente e ocupar sua cadeira, do lado oposto da sala.
As letras já se tornavam embaralhadas, assim que um texto chegava a metade ela perdia toda a concentração. Olhou no relógio de pulso e contou, estava ali há mais de duas horas e meia. Faltavam apenas cinco questões. Por um breve momento fechou os olhos e respirou fundo, tentou imaginar o que faria assim que saísse daquela sala, naquele momento extremamente aterrorizante, atraindo instintos claustrofóbicos enrustidos, poderia comprar um bom refrigerante gelado. Poderia subir até o alto do prédio; poderia pular o muro e voltar pra casa, ou podia apenas esperar o dia passar lentamente como sempre. Realmente, o muro do colégio poderia ser a opção mais atrativa. Voltou a concentração as perguntas e rapidamente conseguiu assinalar tudo com firmeza no que fazia. Passou as últimas questões para o gabarito, assinou e levantou-se. O professor responsável pela sala lia um jornal ao invés de prestar atenção na disciplina da sala. Entregou o papel que carregava sua futura nota e saiu da sala, rapidamente a alcançou do lado de fora.
- Eu falei pra você. A 15 de Literatura era C. - o garoto disse, retirando o suéter de lã, guardando no armário e arregaçando com cuidado as mangas da camisa de linho do uniforme. apenas fez um sinal negativo com a cabeça. Havia estudado Literatura uma tarde inteira, sabia bem que não iria mal.
- Não era , era E. - respondeu rolando os olhos. Sabia que estava certa, mas não iria discutir. O esperou guardar as coisas e seguiu para seu armário. Deixou a pequena bolsa ali dentro, olhou a bagunça e fechou a porta. Virou o corpo e encostou as costas no metal frio da porta. Sentiu o sono bater e bocejou exageradamente, o que não deveria, chamando a atenção de .
- Sono?
- Um pouco. - olhou para o extenso corredor, completamente vazio. Não entendia a razão do bocejo, realmente não deveria sentir sono. A noite havia sido tranquila, mas ainda assim a fraqueza começava a despertar em si. - O que temos pra agora?
- Bom, nada. Podemos ficar sentados olhando as nuvens mudarem de lugar, ou podemos comprar quilos de balas, daquelas que grudam no dente, e encher a barriga pro resto do dia. - como de costume a cabeça de trabalhou em busca de um lugar vazio. O mesmo velho conhecido lhe veio à mente.
- Vamos o inspetor deve estar dormindo.
O famigerado alto do prédio estava vazio, como sempre. deixou para trás e apoiou-se contra o parapeito. O vento um pouco mais forte por ali, balançou suavemente seus cabelos, e de certa maneira refrescou seu corpo. O dia estava claro, mas não graças a raios de sol e a falta de nuvens no céu. Os poucos feixes de luz passavam tímidos entre as nuvens que forravam o azul. Um barulho baixo de tranca chamou sua atenção. Virou o pescoço e encontrou com a mão sobre a maçaneta e um olhar intrigado.
- Não sabia que essa porta trancava por dentro. Interessante. - a garota apenas esboçou um sorriso pelo comentário sem sentido - pelo menos para ela - do amigo. Como sempre, deslizou as costas pela parede áspera e sentou-se no chão; abraçou as pernas e sentiu o sono incomodar rapidamente mais uma vez seu sistema nervoso. Apoiou a cabeça sobre os joelhos e deixou as pálpebras fecharem por vontade própria.
- Você parece com sono mesmo. - disse. Conseguia sentir a proximidade da voz, o que levou a pensar que o amigo já estava sentado ao seu lado. Abriu apenas o olho esquerdo e constatou que ele realmente estava ali. Sentado de maneira esparramada, brincava com um isqueiro. Passava o dedo sobre a pequena chama repetidamente, completamente distraído.
- Eu pensei que tinha dormido bem. - disse em forma de resmungo.
- Se vai dormir, melhor endireitar esse corpo, não quero ninguém reclamando de dor nas costas o resto do dia. - a garota levantou a cabeça sucintamente e arqueou a sobrancelha. afastou o corpo da parede e olhou para o próprio corpo, provavelmente culpando-se por deixar o agasalho no armário e no momento não ter nada para servir de travesseiro. - Vem aqui. - disse. não sabia ao certo o que fazer. O viu deitar e colocar as mãos atrás da cabeça, servindo de apoio. Observou discretamente a maneira como as mangas da blusa ficaram justas e sua blusa pareceu perfeitamente encaixada sobre as formas, também discretas, do corpo dele. - Ah, não é todo o dia em que eu sou tão legal, e ainda mais, deixo o meu lindo e escultural corpo servir de travesseiro pra você. Anda, deita aí. - naquele instante ficou evidente o quanto ela ficara sem graça.
Percebendo, retirou uma das mãos de trás da cabeça e puxou a menina, fazendo com que se aninhasse e apoiasse a cabeça sobre seu peitoral. tinha que admitir que o corpo de era absurdamente confortável, sem contar macio e aquecido. A mão, cuidadosa como raramente, dele alisou aos poucos os cabelos dela, sem saber estava deixando-a cada vez mais entorpecida e a mercê do sono.
- Você usa xampu de melancia? - perguntou de repente. Como resposta ouviu apenas um murmúrio. Inspirou o perfume das mechas mais próximas de seu rosto e chegou a uma conclusão. - É bom.
- E você lá gosta de melancia, Haz. - disse deixando um riso discreto participar de suas palavras.
- Eu sei, agora que falei que é bom, vou aparecer na sua e o armário do seu banheiro vai estar repleto de vidros de xampu com cheiro de melancia. Sem contar que você provavelmente vai procurar um perfume que tenha melancia na fragrância. Devo imaginar que melancia entrará pro seu cardápio também. Eu sinto a influência que tenho sobre a sua vida. - ele disse rindo das próprias conclusões.
- Cala a boca. Você é um ótimo travesseiro de boca calada. - ela voltou a dizer.
- Ah, então eu sou ótimo, obrigada, mas eu já sabia. - sentia há dias que estava estranha, calada, cabisbaixa. - Está tudo bem entre você e o ? - um silêncio breve pairou entre os dois.
- Eu diria que já tivemos dias melhores. - a garota respondeu.
- Sabe o que você precisa? - ela o indagou com um murmúrio. - Sair. Esfriar a cabeça, se divertir, beber, dançar, não sei. Vamos sair nós dois. Tenho uma festa legal nesse fim de semana. Você vai gostar.
27
Narrado por
- Você vai sair com os meninos? - perguntei assim que passei pela sala com caminho já traçado para a cozinha.
- Vou sim. Daqui a pouco vou me arrumar, vou pra casa do Thomas antes. - pela maneira como falou não havia desviado sua atenção da televisão para falar comigo.
Voltei da área de serviço com a blusa que procurava e estava da mesma forma. Jogado no sofá com uma latinha de energético em uma das mãos. Talvez o barulho do salto alto dos meus sapatos tenha chamado sua atenção.
- Está bonita. - ele disse antes de endireitar a postura. - Vai sair?
- Vou. - respondi apenas. - Com o , vamos a uma festa.
Sua expressão não se alterou em nada. Nem mesmo por eu citar o nome de .
Voltei ao meu quarto e coloquei a blusa que procurei tanto. Na cabeceira da cama meu celular se movia, provavelmente era avisando que já havia chegado. Olhei mais algumas coisas no espelho e me senti satisfeita, se continuasse ali encontraria algum defeito que me faria trocar toda a roupa. Parecia que eu estava mais preocupada com isso do que o normal. Apenas peguei meu celular e coloquei no bolso de trás do short jeans.
- Já vou. - foi apenas o que disse assim que passei pela sala e abri a porta pronta para descer.
A noite estava estranha. Não era quente nem frio, não era bom nem ruim. Um formigamento estranho me abordou enquanto eu caminhava com passos normais para a portaria do condomínio. Puxei todo o ar possível para dentro dos pulmões e depois soltei, ótimo ritual para momentos de estranheza como aquele.
estava encostado de maneira descontraída em seu carro. Assim que me viu deu um leve impulso com o corpo e se dirigiu a seu lugar como motorista. Eu não me incomodava nem um pouco com o fato de ele não ser delicado como os outros e abrir a porta para mim. Era , o que mais eu poderia esperar? Estava mais do que acostumada. Entrei no carro e engoli seco ao perceber o quão bonito ele estava.
- Oi. - foi apenas o que ele disse. Respondi o mesmo e senti o carro arrancar. - Sabe aonde vamos?
- Não. - a janela do carro estava aberta. O vento batia de maneira forte contra mim, e meus cabelos que deram um certo trabalho estavam apenas entregues a toda aquela ventania. - Você pode me dizer.
- Uma festa, bem legal por sinal. - seus braços pareciam não fazer esforço algum na direção do carro. - Isso acho que você já sabia.
- Você me disse. Quem vai estar nessa festa? - perguntei simplesmente. Relaxei ao perceber que não teria vontade de fechar os vidros.
- Você não conhece maioria. Digamos que estava mais preocupada em se recolher do mundo. - a maneira sarcástica como suas palavras soaram não me incomodaram. - Alguns são do colégio, outros não. Apenas fique calma, ninguém é aquele tipo que você odeia.
O tipo ao qual ele se referia era o básico: jogadores de futebol, líderes de torcida, projetos de popularidade e afins.
Não trocamos muitas palavras mais. Apenas voltei a realidade - me desligando das luzes que passavam rápido demais por meus olhos - quando o som alto de algum hip-hop desses que costumava tocar no rádio invadiu meus ouvidos. Não que a melodia me incomodasse, depois de algumas garrafas de cerveja e outras bebidas eu me deixaria levar por aquilo, nada de espantoso. A casa praticamente cuspia pessoas pra fora.
Meu objetivo? Apenas um, beber e me divertir a ponto de não lembrar de qualquer coisa que fosse.
Desci do carro junto com e percebi que ele estava ao meu lado como se fosse realmente meu acompanhante. Nunca nos comportávamos daquela maneira. Discretamente analisei todo seu corpo. A maneira descontraída como estava vestido me chamou a atenção. Eu já havia me acostumado a vê-lo com o uniforme de alfaiataria do colégio, e sempre que estávamos fora do período de aulas suas roupas não deixavam de ser alinhadas demais.
Uma camiseta branca que era coberta por uma camisa de flanela xadrez, a calça jeans não era larga como de costume, estava justa o suficiente para não parecer gay, o tênis surrado era a única coisa que me lembrava nosso dia-a-dia. Agarrei a garrafa gelada que me estendeu. Estávamos dentro da casa e eu mal havia percebido, distraída demais com a minha análise.
- Hoje pode fazer o que quiser. - ele disse depois de um longo gole. - Ninguém aqui vai te julgar, nem eu.
Sorri ao ouvir aquilo. Ele sabia que mesmo que não quisesse eu sempre me policiava na frente de todos.
Saltei e me sentei sobre uma bancada que até antes eu usava para me apoiar. Ele estendeu o cigarro para que eu acendesse um para mim. Já fazia dias desde a última vez que eu havia fumado, eu mal sabia onde estava meu maço. Aceitei e aproximei o cigarro preso entre meus lábios do dele e esperei até que o fogo, quase invisível, estivesse suficiente. Traguei e voltei a observar as pessoas, meu hábito. Observar tudo. O cheiro daquele lugar me fazia sentir a vontade, não era dos melhores, para deixar claro. Cigarro, álcool, maconha, mentol, cevada, todos os cheiros se misturavam e no fim me faziam bem. continuava próximo a mim, mas isso não significa que toda sua atenção era minha.
Naquele momento ele estava mais interessado em conseguir a diversão para o resto da noite. A garota que conversava - preferível deixar esta palavra entre aspas - com ele apenas balançava o corpo como uma criança, talvez aquilo fizesse parte do incrível jogo de sedução dela. Ri com escárnio quase transbordando de mim. Saltei daquele balcão e deixei a pequena bituca que restara do meu cigarro em um copo.
Meu destino? Um garoto que já me encarava fazia tempo. Ele estava escondido entre a enorme quantidade de pessoas que dançava numa pista improvisada, que em dias normais deveria ser uma sala.
O desconhecido, até aquele momento, não esperou que eu chegasse até ele. Segurou minha mão e me deixou próxima a ele. Eu não sabia ao certo qual a música que tocava, mas como eu havia dito mais cedo, depois de qualquer gota de álcool eu me deixaria levar por qualquer música. A letra desconexa aos meus ouvidos, como todas aquelas vozes eu me contentava em prestar atenção na batida que já fazia meu quadril se mover por conta própria.
Fechei os olhos e senti a respiração de alguém, que com certeza era o garoto desconhecido, bater em meu pescoço. Seu braço já havia passado por minha cintura mantendo minhas costas coladas ao seu peitoral. Era fácil, eu mal sabia o nome dele, mas a maneira como ele segurava meu corpo e forçava a mão contra minha coxa estavam me deixando bem, continuei movendo o corpo e sentindo sua respiração contra meu pescoço. Estrategicamente, ele afastou as mechas de cabelo que ainda ocupavam aquele lugar e passou a distribuir beijos mal-intencionados, não precisei de muito para perceber.
- Justin, caso você precise saber. - ouvi dizer baixo demais para mim. Aquele devia ser seu nome, mas não fazia muita diferença, naquele momento eu estava mais preocupada em sustentar o olhar estranho que lançava sobre mim. A cena podia ser engraçada, a garota que antes interpretava uma criança ao lado dele estava preocupada em deixar marcas em seu pescoço, mas parecia não fazer cócegas. Ele não estava preocupado com ela, presumi que ainda olhava para mim por nunca me ver com outra cara da maneira que eu estava. Dei risada e voltei a me preocupar com o desconhecido, que agora era conhecido, Justin.
Minha ocupação por alguns segundos poderia ter sido ele, mas não foi. Alguém tomou seu lugar antes mesmo que eu dissesse meu nome. Fiquei feliz ao perceber quem era. Aos mãos foram mais delicadas, mas não piores. Uma delas tocou minha cintura, mas para a minha infelicidade seus lábios não decidiram trilhar o mesmo caminho da pessoa anterior. era bem mais cuidadoso.
Cuidadoso porque ele parecia atiçar. Queria deixar que você pedisse por ele.
Tipo de coisa que eu não faria. Não pediria nada.
Virei meu corpo e deixei que suas mãos se postassem em minhas costas me pressionando contra ele. Apoiei uma das mãos em seu ombro, a outra deixei que se perdesse entre os curtos fios de cabelo de sua nuca.
- Deixou aquela garota sozinha? - perguntei ainda me movendo conforme a música.
- Deixei, ela precisava encontrar alguém que tem paciência pra coisas de criança. - juro que senti um arrepio passar por mim. A maneira como ele disse aquelas palavras me fez perceber como ele era diferente de , e isso o tornava absurdamente atraente. Atraente de uma maneira que eu nunca havia visto.
Suas mãos estavam espalmadas em meu quadril e aos poucos coordenaram os movimentos que deveriam fazer.
Estávamos dançando, apenas. Quem assistia de fora poderia encontrar alguma tensão sexual, eu até consegui imaginar, mas não era bem assim. Talvez eu precisasse de mais alguns goles para me soltar a ponto de achar que poderia me levar para a cama.
Eu já tinha perdido a conta de quantas cervejas e vodkas havia tomado. Sabia que ainda não estava trocando palavras e tropeçando nos próprios pés. por acaso estava sumido, talvez encontrara alguma garota adulta o suficiente para ele. Me ocupei em aceitar um cigarro de outro estranho e permanecer aproveitando a festa. Aproveitar consistia em dançar, fumar, beber, trocar olhares com alguns bêbados e ser cantada por outros mais bêbados. Uma garota tentou me fazer subir as escadas com ela. Tentador, se nenhum garoto conseguia chegar perto de mim, por que não? Simples, porque aquele não era o dia de experimentar.
Dei risada assim que vi aparecer um pouco atordoado arrumando a camisa. Uma cara de quem havia fumado coisas que iam além de um cigarro, mas mesmo assim não deixava de estar lindo, na verdade parecia ainda mais bonito.
- Vamos? - ele perguntou parado ao meu lado. Olhei para seu relógio de pulso e vi que passava das duas e meia.
Eu não estava mais animada com aquele lugar. Apenas assenti e caminhamos lado a lado até seu carro.
- Você pode subir, ou prefere que eu te leve? – perguntou diminuindo gradativamente a velocidade do carro. Encostei a cabeça no encosto do banco e puxei o ar gelado para dentro dos pulmões. Aquilo ardia um pouco, meu nariz já havia passado por muito pra uma noite apenas. Deixei meu olhar cair sobre seu rosto e respondi:
- Não sei se quero ir pra casa. – Minha voz não carregava a firmeza de sempre, totalmente naquele clima retardado em que meu estado nervoso estava coloquei um biquinho idiota no rosto e o vi sorrir idiotamente. Resultado das doses de álcool. Eu sentia minhas bochechas quentes, podia sentir o calor emanando delas.
Quase que imperceptivelmente voltou a acelerar o carro e virou seu volante esperando que o portão da garagem abrisse.
As noites de fim de primavera eram agradáveis, meu corpo estava quente e aquela blusa, mesmo que com o tecido fino, estava me fazendo passar um certo calor. Arregacei suas mangas e continuei caminhando pela garagem, naquele momento, silenciosa. Aquela caixa metálica, elevador, não me fazia sentir confortável. mesmo sabendo que era proibido tirou um cigarro de seu maço e fez menção de acende-lo ali dentro. Cerrei os olhos e com cuidado tirei o cigarro de sua boca, já não bastava ser um elevador, ele ainda estava com vontade de colocar fogo naquela droga.
As várias garrafas longneek de cerveja e vodka só poderiam ter um resultado ruim sobre minhas ações. Tudo o que eu fazia, ou tentava fazer, parecia lento demais, escolhi por encostar o lado direito do corpo no espelho que fazia fundo em uma das paredes do elevador. Um pequeno choque percorreu meu corpo, mas não fez acabar com o contato agradável do frio do vidro com o quente do meu rosto. Minha cabeça rodava um pouco, encolhi o corpo numa ação involuntária.
Apenas abri meus olhos e senti ao meu lado. Sua aproximação me fez perceber que ele também estava quente, emanando calor, não era algo refrescante como eu precisava, mas me atraia de uma maneira irritante. Projetei levemente, de maneira quase imperceptível, meu corpo para frente, acabei por encaixar meu rosto na curva de seu pescoço e sentir seu abdome encostado em mim.
Seus olhos estavam fechados assim que olhei para cima, ele não estava dormindo, era efeito da bebida. Voltei a me esconder nele e respirei fundo. Uma coisa que eu não deveria ter feito.
O perfume era uma mistura de Pólo Black, álcool, cigarro e menta. Viciante. Viciante e agradável.
Um pequeno veneno circulando por meu corpo, estava mais dopada que antes. Era um problema magnético. Encostei os lábios sobre a pele descoberta de seu pescoço, forcei os dedos sobre a barra de sua camisa e continuei, trilhando um caminho estranho até seu maxilar. Pela primeira vez senti uma reação sua, seu corpo contraiu, ele soltou o hálito quente quase contra minha boca. Sua mão deslizou calma e precisa até minha cintura, apertando-a com um pouco de força. Era como se ele estivesse se segurando, se controlando.
- Não faça assim. – Disse baixo, antes de ser conduzida com cuidado até a porta de seu apartamento. Sua respiração batia no alto da minha cabeça.
Me soltei de seu corpo assim que entrei no apartamento. Cambaleei um pouco até me encostar no sofá e analisar os detalhes daquela sala.
- Então é aqui sua casa. – Balancei meu corpo antes de cair sobre o sofá.
- Onde me escondo. – Ouvi sua voz um pouco distante. Observei uma garrafa de tequila sobre a mesa de centro.
- Parece que alguém bebeu antes de me buscar. – Com a garrafa nas mãos pude ver seu rótulo e analisar a quantidade restante na garrafa. – Isso não me parece prudente.
- Não sei fazer isso do jeito certo. – Girei a garrafa e inalei o perfume do álcool ali de dentro.
- Meu plano para hoje era encher a cara, de um jeito que eu não faço faz tempo.
– Você pode me ensinar, não me incomodo.
Escutei sua voz perigosamente perto do meu ouvido. Devaneios passaram com flashes em minha cabeça, tão rápidos que me fizeram perder a noção sobre o que estava falando.
- Você sabe bem o que tem que fazer...
- Estou falando da tequila. – Abri os olhos e resgatei um dos últimos pingos de sanidade que ainda me restava.
- Traga o limão, o sal e dois copos.
Mais um pouco de bebida não me mataria, talvez me fortalecesse. Tirei os sapatos e os deixei largados ao lado do sofá. Puxei a pequena mesa para perto e me ajoelhei bem em frente. colocou os copos, o limão e o sal sobre a mesa. Olhei para ele, quis dizer que ele deveria prestar atenção.
Despejei uma quantidade de tequila no copo. Coloquei a quantidade de sal necessária na boca, sem esperar virei o copo de tequila e depois chupei o pedaço de limão. Senti minha garganta queimar por alguns instantes, mas logo depois veio uma sensação leve. repetiu meus gestos, não com a mesma destreza no início, mas logo depois do quarto copo os movimentos já estavam quase apurados. Ele bateu o copo uma última vez sobre o vidro fazendo um barulho estridente. Ri besta, e me afastei do pequeno móvel. O sofá me serviu de apoio por alguns instantes.
repetiu. Sentou-se ao meu lado e usou o sofá de apoio para as costas. Seus dedos brincavam com o pequeno pingente que estava pendurado em minha pulseira. Com cuidado levantou meu antebraço e observou de perto o pequeno círculo, que ele mesmo havia me dado de presente. Seus olhos pareciam fundos. Como se eu pudesse ver além deles. Suas íris me atraiam.
- Eu também posso te ensinar uma coisa. – Seu sorriso não era meigo. Era mistura de seriedade e intimidação, mas no fundo ainda me cativava enquanto olhava.
Tentei parecer indiferente àquela fala. Dei de ombros, mantendo o olhar perdido na parte desfiada de meu short jeans onde meus dedos brincavam. Sua respiração batia em meu ouvido, com isso sutilmente meus batimentos cardíacos mudaram de ritmo, aceleraram, e eu apenas rezava para que ele não tivesse percebido. Encostou seus lábios que estavam gelados no meu lóbulo causando um maldito choque térmico.
Ele riu baixinho no meu ouvido, com certeza porque viu no meu rosto uma expressão de confusão e hesitação. Arqueei minha sobrancelha e mordeu o lábio, com uma malícia que eu pude ver assim que olhei para suas íris. A maneira insistente como ele tentava corromper minha – insignificante - vontade de resistir estava começando a me atrapalhar. Com um cuidado que nunca o vi ter, segurou alguns fios de meu cabelo entre os dedos e fez com que minha cabeça pendesse levemente para trás. passou a língua bem suavemente sobre meus lábios, sem se intimidar com minhas reações falsamente camufladas, deslizou por meu maxilar, pescoço, atrás da minha orelha. Era tão sutil que eu cheguei a pensar em uma alucinação, completamente sem sentido. Poderia deixar que ele fizesse aquilo por todo meu corpo, tamanho o controle que estava tendo sobre mim. Eu saberia dizer se o álcool estava contribuindo com aquilo, mas não estava, era apenas uma reação natural a aquela proximidade tentadora.
Desajeitada levei uma das mãos de encontro com sua nuca e a apertei, sentindo um gemido contra minha pele. A destreza com a qual sua mão se encaixou na minha cintura me fez imaginar a quantidade vezes que ele já não tinha feito aquilo com dezenas de garotas. Pouco me importava isso. As unhas curtas tentaram deixar marcas assim que chegaram a minha coxa, apenas senti o contato, sabia que minhas unhas teriam um resultado mais eficiente em seu pescoço.
Mais uma vez ele repetiu o maldito truque de perda de controle passando a língua sobre meus lábios. Minhas mãos, agindo por vontade própria, foram de encontro com seus ombros e finalmente sua língua invadiu minha boca, um beijo tenso, completamente diferente de todos que eu já havia provado. Sem aplicar muita força suas mãos se ocupavam de um carinho mal-intencionado em minha cintura e pernas.
Tentando fazer aquilo mais fácil ele encaixou a mão bem na dobra do meu joelho me levando para seu colo. Em nenhum momento deixou que nossas bocas se separassem e assim me trouxe pra perto, colada em seu corpo. Cravou os dentes no meu lóbulo de maneira tentadora e assim entrei completamente naquele jogo onde ele queria tirar qualquer coisa que fosse da minha cabeça, me fazendo focar somente nele, nele e em tudo o que fazia.
Minhas mãos pararam sobre a barra de sua blusa, mais esperto que eu, rapidamente, tirou a camiseta branca puxando pelo pescoço. Aquela era uma das poucas vezes que o via sem uma de suas peças. Passei as unhas sobre seu abdômen enquanto sentia sua boca marcar meu pescoço, beijava o lugar com tanta força que certamente marcas ficariam por ali. Sentindo o corpo leve como há muito tempo não sentia, tirei minha blusa, jogando a peça em algum canto que eu não sabia ao certo qual era.
- Aqui não. – Ele disse contra minha boca. Com uma habilidade que tenho até medo de saber de onde veio, levantou me mantendo com ele. Envolvi os braços em seu pescoço e apenas fui guiada pela casa, quase que toda escura. Minhas costas colidiram com algo sólido que eu julguei ser uma parede, ou uma porta. Com as mãos na parte interior das minhas coxas, me fez tomar impulso e passar as pernas por sua cintura.
Na única vez que desviei meus olhos para olhar diretamente para ele percebi como seu olhar poderia me fazer desmaiar em questão de segundos, como um leão esperando pelo momento mais vulnerável de sua presa, pronto para atacar. Minhas costas colidiram, pela primeira vez suavemente, contra o colchão de sua cama. Eu poderia dizer que já não sabia mais onde estava, sabia bem o que acontecia, mas parte de meus sentidos já havia sofrido danos. O carinho que seus dedos faziam em minha cintura era completamente mal-intencionado e fui capaz de sentir isso assim que suas mãos deslizaram até minhas coxas e as apertaram sem qualquer preocupação com o pudor.
Na intenção de cessar qualquer espaço entre nós dois, deixei que minha mão se enroscasse dentre seus cabelos e minha outra mão pressionasse suas costas, na intenção de acabar com qualquer espaço. Avidamente seus lábios percorreram meu pescoço, e quase sem que eu percebesse, ele se livrou do short jeans que eu ainda vestia. Não demorei a fazer o mesmo e deixar que ficasse igual a mim. Apenas com as peças íntimas que me restavam, a corrente de ar frio que passou pelo quarto me fez encolher o corpo numa ação involuntária. O olhar libidinoso que me lançou fez com que o frio passasse e uma sensação estranha tomasse conta de meu estomago, eu sabia o que era, não medo, mas sim excitação. Eu já havia pensado naquela possibilidade, em dias que o juízo fugia de mim e a figura de se mostrava mais atraente que o normal.
Aos poucos senti as últimas peças de roupa deixarem meu corpo e o mesmo aconteceu com , já havia deixado tudo de lado. Percebi isso depois que o frio que suas investidas causaram em meu ventre se transformaram em algo muito mais intenso e seu corpo caiu cansado ao lado do meu, eu ainda ofegava, mas tentava ser discreta, tudo deixava o outro plano e voltava aos poucos a ocupar seus devidos lugares em minha cabeça. Foi sutil a maneira como o leve lençol branco cobriu meu corpo, sutil também foi a maneira como me vi cair no sono nos braços de .
Os raios de sol já batiam insistentemente contra meus olhos ainda fechados, tomei um certo cuidado ao abri-los, não estava pronta para aquela claridade. Uma respiração quente ainda batia contra meu pescoço, como na noite anterior. Seu braço não era tão firme em minha cintura, mas me fazia sentir indescritivelmente confortável. Por mais que no fundo eu não quisesse. Tentei sair da cama sem acordá-lo, mas não tive sucesso. Sua mão que antes ocupava lugar em minha barriga, segurou meu punho com calma. Deixei que as pálpebras fechassem.
- Acordou... – ouvi sua voz um pouco rouca dizer.
- Bom dia. – tentei dizer alto, mas pareceu impossível. Minha voz era inaudível e eu não sabia justificar.
- ... – ele chamou e eu realmente temi que seu objetivo fosse falar sobre a noite anterior. Levantei agilmente e vesti as peças que estavam jogadas perto da cama.
- Podemos falar... Talvez depois, . – minha voz saiu sofrida, como se doesse dizer que eu não estava pronta para conversar, era como se eu estivesse desprevenida, abordada sem argumentos de defesa. Não sentia culpa, sentia felicidade, havia sido ótimo, mas realmente não estava em meus planos.
- Eu não vou tentar te tirar do . Não vou competir com ele. Não vou tentar chamar sua atenção. Não vou gastar minhas forças a toa, . – ele disse olhando fundo demais nos meus olhos, quem sabe seu objetivo fosse ver além deles, a maneira como seus olhos se tornaram intensos naquele momento amoleceu a rigidez que estava tomando conta do meu coração, se alastrando como um maldito vírus.
Antes de deixar o cômodo, caminhei até ele que permanecia deitado sobre a cama, com um lençol cobrindo seu corpo da cintura para baixo. Tentei ser delicada ao tomar seu rosto em minhas mãos e juntar nossos lábios com calma. Ele apenas retribuiu, sem querer nada em troca, era visível. , mesmo naquele momento, conseguia ver o que minha cabeça relutava a aceitar. Soltei seus lábios e desencostei minha testa da sua. O deixei no quarto e procurei por minha blusa e sapatos antes de sair. Ele saberia que eu já não estava mais lá assim que a porta batesse.
A maneira perdida como eu caminhava pela calçada, a roupa amarrotada, os sapatos na mão, o cabelo em partes desgrenhado, a maquiagem que não era mais como antes, só me mostravam como eu deveria deixar que a água do chuveiro caísse em minha cabeça até que eu reorganizasse todos os pensamentos. Passei pela portaria do condomínio e o porteiro não reparou muito em minha aparência, não era nada que ele nunca vira na vida. Continuou indiferente, lendo seu jornal de pernas cruzadas sobre a mesa. O piso frio do elevador me causou um leve choque. Observei meu reflexo no espelho e me achei deplorável, com os dedos tentei colocar os cabelos sobre a mancha que era visível em meu pescoço. Assim que o apito do elevador anunciou que eu já estava em meu andar, apenas caminhei até o pequeno tapete e tirei uma chave debaixo do tapete. Eu temia que pela hora já estivesse acordado.
Não estava errada.
Nossos olhares apenas se encontraram, nenhuma palavra, sua aparência não estava muito diferente da minha, mas seus olhos mostravam que sua cabeça estava bem mais tranqüila que a minha.
- Dia. – o ouvi dizer, respondi baixo.
Fechei os olhos e senti a garganta fechar.
O inferno estava pronto para começar. E eu poderia dizer que no meu caso, os fins justificam os meios.
28
Ela deveria estar sentada ali há mais de uma hora. A água do chuveiro batia insistentemente contra sua cabeça, o corpo ainda assim continuava pesado; nem mesmo a água que sempre lhe aliviava hoje funcionava. Queria ter controle da enorme quantidade de besteiras que fazia. Até quando? Era uma pergunta que martelava sua cabeça constantemente, principalmente nas últimas horas. Declaradamente, ela não sabia quem era. Estava mais do que perdida, sem identidade. Ir do céu ao inferno em dias não é uma experiência que se deve recomendar aos outros. Ninguém parecia solicito o suficiente para ajudar. Como se nunca tivesse acontecido, mais uma vez, o orgulho falou mais alto que seus próprios pensamentos. Não havia nada que pudesse ser feito, seria assim durante toda a vida. Ela queria ajuda, só não sabia como pedir. Nunca soube. Seria bom se ainda restassem lágrimas também, mas nem isso. Além de ajuda também queria chorar. Para falar a verdade, queria tantas coisas. Jogar tudo para o alto era uma delas.
Ouvira sua vó dizer uma vez que sua personalidade lembrava muito a de sua mãe. Sentia uma espécie de pena da própria mãe. Sua personalidade estava à beira de um precipício, se é que isso era possível. Indecisão, segundo após segundo. Orgulho, quase saltando para fora. Estava certa de que sua mãe desempenharia a função que agora era sua muito bem. Estava parcialmente decidido. A palavra parcialmente servia apenas para minimizar a proporção de tudo aquilo. Era certo, assumiria os negócios da família dentro de alguns meses, talvez alguns meses depois de se formar. Decidira que logo depois da formatura iria a Roma, visitar seu avô era uma boa idéia, mal sabia qual era a real situação, depois disso todos os planos começariam. Planos. Nunca dela, sempre dos outros. não passa de uma peça. Tudo não passa de uma grande jogo de xadrez. Por outro lado, era possível sentir orgulho do que lhe aguardava, representaria seus avós, sua família, o que um dia também fora de sua mãe.
Quantas vezes a palavra orgulho passara por sua cabeça nos últimos minutos?
havia acabado de chegar. Ainda colocava algumas sacolas sobre o balcão da cozinha quando adentrou o cômodo levando sua toalha molhada para a área de serviço. A noite já havia caído e alguma besteira passava na televisão. O menino pigarreou discretamente, chamando a atenção dela.
- Você parece bem melhor do que ontem de manhã. - ele disse, referindo-se a manhã anterior, quando viu a menina chegar completamente acabada. - Você dormiu desde a hora que chegou até agora?
- Quase isso. - respondeu sem graça. - Acordei algumas vezes.
- Estava quase indo lá ver se ainda estava viva. - ele voltou a falar. - Trouxe comida, quer?
- O que você trouxe? - perguntou, apoiada sobre o gabinete da cozinha, ainda tentando amenizar a estranheza daquele clima.
- Comida chinesa. - ele respondeu, tirando algumas pequenas caixinhas de porções individuais das sacolas. - Na verdade acho que devemos comemorar... - observou a menina colocar uma expressão intrigada no rosto. - Entregamos nossa demo pra uma rádio. É um concurso, a banda vencedora toca no Winter Festival.
- Nossa, isso é muito bom, mas esse festival não é dia 21 de dezembro? - ela perguntou enquanto o ajudava a levar a comida para a sala.
- É, esse é um problema, se ganharmos, não sei como irei a formatura. - apenas assentiu a resposta do menino enquanto ligava a televisão e começava a comer seu frango. - Está tudo certo para a formatura, não é? Apesar de tudo...
- Claro, já estava planejado há muito tempo, será como combinamos. - assim que deixou a oitava série prometeu que acompanharia em sua última formatura no colégio. - Tem mais algum prêmio além de tocar do Winter, caso ganhem o concurso?
- Ah sim, um contrato com uma gravadora. Ainda não sabemos qual, eles disseram que é surpresa, mas não deixa de ser legal, né?
- Com certeza.
Na televisão passava "A Procura da Felicidade", desviava os olhos da tela para sua comida, apenas tentava ser discreto ao observar a menina, a maneira como estava estranha desde a manhã anterior.
- Gosto tanto desse filme. - ela disse, por conta própria, coisa que não havia feito desde que começaram a comer. O menino apenas murmurou em resposta. Seria invasão demais perguntar o que ela tinha? Por que se encolhia sempre que ele se mexia? Por que estava tão estranha?
- , aconteceu alguma coisa? - como se tivesse levado um susto, lentamente levou a mão ao peito e respirou fundo algumas vezes, definitivamente estranho. deixou os palitos que usava para comer de lado e encostou o corpo no sofá esperando uma resposta. Viu por vezes a garota abrir e fechar a boca; seu rosto coberto pelo cabelo não permitia que vissem a lágrima que escorria tímida pelo canto de um de seus olhos. Ela apenas negou, entretanto não negava que algo acontecia, apenas não queria falar. - Tudo bem. Só queria fazer uma pergunta. Nós não estamos mais juntos, né? Nossa relação era amizade acima de tudo e antes de tudo, não quero que as coisas fiquem estranhas.
- Acho que um tempo significa isso. - como se uma pedra gigantesca caísse sobre si, sentiu os pulmões pararem de funcionar e o coração desacelerar. Ele ainda se preocupava se existia algo entre eles. Ela ao menos fez isso. - Espero que seja a melhor escolha.
Não se ouvia mais nada na sala de aula, nem mesmo o barulho de um lápis chocando-se incontroladamente contra a madeira da mesa. O relógio soava de uma maneira diferente para cada aluno ali presente. Era o último dia de aula. Todos esperavam ansiosamente por seus resultados, alguns aflitos, outros tranquilos. O orador também seria anunciado e deveria preparar um bom discurso para a noite de colação de grau. fazia caretas para tentando arrancar de alguma maneira um sorriso, por mais tímido que fosse, da garota. Há dias ela andava daquela maneira, não triste, mas completamente fechada para todos. Com os olhos fundos e sempre a mesma expressão de apreensão. Com toques irritantes no chão, a entrada da diretora foi praticamente anunciada pelo som de seu salto alto em atrito com o piso. Todos se endireitaram em suas cadeiras e passaram a prender o ar dentro dos pulmões.
- Bom dia. - ela iniciou com uma breve saudação, colocou a pilha de envelopes lacrados sobre a mesa e posicionou-se em frente à mesma. - Vejo rostos apreensivos por aqui. Finalmente acabou, é isso que estão pensando? O pesadelo do ensino médio, finalmente, acabou. Sem mais provas, professores chatos, trabalhos imensos. Sinto lhes dizer, mas o que vem agora é bem pior. A faculdade se tornará uma realidade para alguns alunos a partir de hoje. Suas aprovações finais estão dentro daqueles envelopes, junto com seus boletins finais. Sabemos que alguns já traçaram planos para o futuro, devo desejar boa sorte. Para aqueles que irão dedicar os próximos à graduação, mais sorte ainda. Apesar de alguns tropeços, posso dizer que me sinto feliz por todo o ano que fizeram. Foram uma boa turma e merecem méritos. Em poucos dias será a formatura e como sabem houve um acordo entre comissão e diretoria. O baile terá como tema máscaras e circo, tudo está indo muito bem e garanto que será uma bela festa. Quanto ao grande discurso da noite, a diretoria e corpo docente escolheram apenas um de vocês. A oradora da formatura será você, senhorita .
levantou o rosto lentamente e encontrou dezenas de rostos a encarando. fazia uma espécie de careta engraçada e a menina tentou pela primeira vez segurar seu riso. Assentiu ao que a diretora havia acabado de falar e se sentiu bem ferrada, era muito pouco tempo para escrever um discurso decente.
- Acho que tudo de importante já foi dito. Vamos às notas. Chamarei nome por nome, vocês viram até aqui pegarão seu envelope e assinaram essa pequena lista sobre a mesa. Alicia Dempsey, Universidade de Birmingham. Brooke Legans, Universidade de Bournemouth. - assim cada aluno que era chamado levantou-se e caminhou até a diretora. - , quem diria, Queen Mary. , Universidade de Liverpool. , Cambridge. - aqueles resultados assustaram um pouco, todos eles estavam completamente feitos para sempre. Aquelas eram as melhores universidades de todo o Reino Unido. A lista de nomes estava quase acabando. - Haylie, Royal Holloway. , nossa oradora, meus parabéns, Universidade de Oxford.
- OXFORD? Cara, quando eu dizia que você é um gênio eu estava brincando! - disse assim que todos deixaram a sala, completamente satisfeitos por estarem aprovados. - E ainda por cima será oradora, há, minha prima manda muito! – ele terminou com uma pose estranha, como se fosse um troféu.
- Como você é exagerado, cara! - a menina disse, dando um soco desajeitado no ombro do primo. - Você foi aprovado em Queen Mary! A Universidade da rainha. Não vai pra lá, não é? Não agora que a banda está se dando bem.
- É. Todos nós combinamos, a banda será nossa prioridade, vamos aproveitar que a sorte está do nosso lado. O concurso é nessa sexta, você vai, né? - ele perguntou enquanto ambos sentavam em frente à fonte. - Não tem nada pra fazer agora, tem?
- Agora não. E quanto ao concurso, é claro que vou, não perderei por nada. Sabemos que vocês sairão campeões dessa. - a menina piscou de um jeito engraçado. Aos poucos o pátio se esvaziava, todos iam embora, restavam apenas os papéis rasgados pelo chão e a zona feita em comemoração ao fim das aulas.
- Acho que podemos conversar então. Somos da mesma família, dividimos alguns problemas. Eu estou bem mal por saber do vovô, também por saber que sobrou pra você tomar conta de tudo, mas não é só isso que está te incomodando, não é? - ele perguntou, deixando o corpo de frente para o dela. - Eu posso não ser seu melhor amigo, mas sabe que pode me contar qualquer coisa, vou fazer o possível para te ajudar.
- Você é um dos meus melhores amigos, sim. - ela respondeu, bagunçando de leve os cabelos dele. - , se você soubesse a quantidade de problemas que eu tenho no momento não teria sentado aqui, se abrir minha boca, tenho certeza, vou tomar toda a sua tarde.
- Hoje não temos ensaio, pode ocupar todo meu tempo. - ele sorriu vencedor ao perceber que a menina contaria o que estava acontecendo.
- Eu acabei com qualquer chance de ter um futuro com o . Nós discutimos naquela noite em que encontramos com o Ethan na Funhouse. Depois tudo pareceu desandar, não sei, nada mais dava certo, era como se fosse impossível arrumar os defeitos.
- Você não discutiram por causa do Ethan, né?
- Não. Na verdade a gente tava no quarto e ele acabou passando um pouquinho dos limites. - a encarou com uma cara receosa. - Não sei, talvez eu tenha sido exagerada. Ele disse que não me pressionaria a nada, na semana seguinte estava jogando na minha cara que não podia se controlar. - o primeiro assentiu. - Podíamos ter conversado, mas eu estava nervosa demais pra isso. Acabei pedindo um tempo. Eu fiz mal com isso, ?
- Não. Do que adianta dar soco em ponta de faca. Se não estava bem, pedir um tempo foi bom, você tem tempo de esfriar a cabeça, pensar em como tudo pode se resolver. Aliás, por que não se resolveram depois do tal tempo? - ele indagou, um nó subiu a garganta de .
- Eu fiz uma merda tão grande, .
- O que?
- Eu estava magoada. Acabei aceitando ir a uma festa com e bebi um pouco demais, argh, eu acabei na casa dele e nós dois...
- Não precisa terminar. Isso complica um pouco as coisas. , sabe disso?
- Claro que não! Na verdade ele me viu chegar toda acabada no dia seguinte, depois disso eu passei quase dois dias dormindo, trancada no quarto. Quando voltei a me relacionar com o mundo tivemos um começo de conversa meio desagradável. Ele perguntou se não estávamos mais juntos.
- Você pediu um tempo, já era de se imaginar. Quando se pede um tempo, não se está junto.
- , você não percebe? Ele se preocupou em saber se algo estava mal resolvido entre nós, eu não. Estava bêbada demais pra isso, acabei dando pro meu melhor amigo. Não foi certo. - a voz dela já estava embargada e histérica. O nervoso e agonia que havia prendido enquanto não desabafava estavam se revelando.
- Você se arrepende? - aquela pergunta pegou a menina desprevenida. Não parara para pensar. Estava arrependida do que fez?
- Não.
- A vida é assim, . Está na hora de errar. Ninguém irá te condenar como uma assassina. Você cedeu. é um garoto, você é uma garota, ele gosta de você, você também gosta dele. Pode não ser da mesma maneira que gosta de , mas ainda assim, gosta. Não acho que o que fez é o fim do mundo, muito menos motivo para se punir como está fazendo. Você percebeu que não tem mais vida?
- Eu queria ajeitar toda essa confusão, mas parece impossível.
- Relaxa, pensa um pouco na vida. comentou que depois da formatura você vai visitar o vovô...
- É. Estou meio tensa com toda essa história de doença. Quero vê-lo logo, não sei em que pé estão as coisas, a vovó não quis dizer nada.
- Até onde eu sei você saiu do restaurante antes que ela pudesse falar.
- Como sabe?
- No dia seguinte foi minha vez. deixou o ensaio todo tenso pra ir te buscar, imaginei que vindo da vovó, você chorando, coisa boa não devia ser. Ela me chamou pra almoçar e me contou tudo. Minha mãe já tinha adiantado um pouco as coisas na última vez em que nos vimos, mas mesmo assim, não tinha certeza de nada.
- Que família nós temos, hein? - ela disse em um tom engraçado. O garoto concordou.
- Seria melhor que vida temos. – o garoto corrigiu e os dois caíram em risadas. Aos poucos o silêncio se instalou e voltou a falar. – Me diz uma coisa, Ethan ainda está aqui em Londres?
- Não sei. Não tive mais notícias dele depois da discussão. E nem quero ter, aquele menino me dá arrepios, e não são nada bons. – o primo apenas assentiu a resposta.
Distraída, analisou seu relógio e viu que passada das três. Queria passar no shopping e comer alguma coisa antes de voltar para casa, quem sabe procurar algum sapato para a noite de formatura. Esfriar a cabeça.
- Acho que vou nessa , eu queria passar no shopping, comer, comprar alguma coisa. – disse levantando e colocando a bolsa no ombro direito.
- Ah, claro. Vou passar na casa da minha mãe hoje, preciso em apressar também. – o menino também levantou e bateu as mãos pela calça. – Acho que é isso, sua cara está bem melhor agora.
- É, você tinha razão eu precisava conversar. – os dois já caminhavam em direção a saída do colégio. Ainda hesitante chamou por antes que ela tomasse a direção oposta.
- ... – a menina deixou de olhar o chão para olhar o rosto do primo. – Eu não sei se deveria te contar, mas vendo a sua situação e também sabendo como você se culpa por tudo, vou te falar. Não se arrependa do que fez, enquanto você estava com , eu e , mais alguns amigos saímos, e bem, ele acabou ficando com a Tess. Vocês dois não tem culpa de nada, lembre disso. Mais uma coisa. Te aconselho, deixe pra comer na sua casa, o coitado do até aprendeu a cozinhar só pra tentar conversar decentemente com você hoje.
precisou de alguns minutos até que todas aquelas informações se acomodassem em sua cabeça. Por incrível que pareça foi como se tirasse uma espécie de peso de suas costas.
- Obrigada por me contar. E pode deixar, vou comer em casa. – ainda deu um beijo no rosto do primo antes de caminhar até o ponto de táxi mais próximo.
Jogou o molho de chaves sobre o sofá. A noite estava próxima e o céu já estava mais escuro. Segurava algumas sacolas e a bolsa. Ouviu apenas alguns barulhos na cozinha antes de deixar as compras ao lado do sofá. estava de costas e procurava por alguma coisa dentro da geladeira. Chamou o menino e esse levantou e fechou a geladeira.
- Precisa de uma ajuda? – perguntou enchendo um copo com suco gelado.
- Acho que não. Estou indo bem, quer dizer, é um desafio, aquelas coisas de vencer dificuldades. Garanto que não vai morrer engasgada, não deve estar tão ruim assim. – ele disse brincalhão e foi capaz de sorrir com aquilo.
- Tenho certeza que não. Vou tomar um banho, já volto pra te ajudar a colocar a mesa. – o menino assentiu e voltou a cortar a salsinha com o máximo de cuidado. caminhou até seu quarto e deixou a bolsa jogada por ali mesmo. As roupas ficaram espalhadas pelo caminho e com cuidado girou o registro, sentindo logo em seguida as gotas de água quente tocarem cada centímetro seu. Inclinou a cabeça e fechou os olhos. Com uma pequena porção de xampu em sua mão massageou os cabelos e voltou a deixar que a água escorresse por ali. Depois de passar um bom tempo debaixo do chuveiro, saiu, enrolou os cabelos em uma toalha e secou o corpo com outra. Passou a mão sobre o espelho embaçado graças à temperatura da água do banho. Ainda enrolada na toalha, desembaraçou os cabelos e voltou ao quarto procurando uma roupa confortável. Pegou um short jeans qualquer e uma camisa de flanela, calçou os chinelos de borracha e voltou a cozinha.
- Está quase pronto. – disse assim que viu a menina. assentiu e colocou dois pratos sobre a mesa de jantar, junto com talheres, guardanapos, copos e alguns suportes para as travessas que estavam no forno. Assim que terminou apoiou seu corpo na própria mesa e observou o menino lavar as mãos e algumas coisas que ainda estava espalhadas sobre a pia. – Acho que se eu tirar agora não vai acontecer nada, né?
- Pode tirar, o cheiro está bom, significa que está pronto, eu acho. – ele concordou e vestiu a grande luva térmica antes de tirar a travessa fumegante de dentro do forno. Caminhou com cuidado e colocou sobre a mesa. – Vamos comer lasanha com refrigerante, tudo bem?
- Isso não é um problema, . – ela respondeu rindo e percebeu o olhar curioso dele. – Que foi?
- Faz tempo que não me chama assim. – uma espécie de silêncio constrangedor tomou conta da mesa enquanto ambos sentavam. – Bom, acho que você está com uma cara melhor que nos últimos dias.
- Precisava pensar. Colocar minha cabeça no lugar. O ano vai acabar, estamos em Dezembro. Logo mais é natal. – disse enquanto se servia de um pedaço da lasanha que tinha uma cara ótima. Com cuidado cortou um pequeno pedaço e soprou antes de leva-lo a boca. Mastigou e logo depois tomou um pequeno gole da Coca. – , isso tá muito bom, de verdade!
- Que alívio, minha mãe anotou a receita em um papel, mas eu ferrei a massa umas duas vezes antes de acertar.
- Valeu a pena, ficou muito boa.
- Erm, obrigado. Mas e então, como é ser oradora da formatura? – ele perguntou.
- É estranho, achei que fossem escolher alguém da comissão. Eu não faço bem o perfil deles. – era realmente estranho para ela.
- Você sempre foi boa aluna, talvez seja isso.
- Espero. Tudo pronto para sexta? Será o grande dia do McFLY.
- Nem me fale... Eu estou uma pilha de nervos. Nós descobrimos que a banda vai tocar no final da tarde, então se ganharmos, acho que podemos chegar a formatura. – ele riu divertido. – Você vai ter um par para a valsa de qualquer maneira.
- Deixe pra se preocupar com a formatura no dia. É o último em que pisaremos naquele lugar mesmo. – ambos riram e voltaram a comer.
Os pratos já estavam vazios, a sobremesa havia sido um pacote de marshmellows em forma de vulcões com recheio ácido. Estranho, porém uma das poucas coisas doces que restava no armário. Os dois recolheram as coisas da mesa e foram para a sala.
- Pronta pra viajar, quer dizer, ir ver seu avô? – perguntou, jogando o corpo contra o sofá e suas almofadas.
- Acho que sim, fui ao shopping procurar um sapato para a formatura e acabei comprando algumas coisas também, lá deve estar frio também. – ela disse, apontando as várias sacolas que estavam ao lado do sofá.
- , nós estamos resolvidos, não estamos? – o menino voltou a perguntar e por alguns segundos ficou em silêncio.
- Se formos capazes de esquecer algumas coisas e guardar outras. Acho que estamos. – por mais que não quisesse sabia bem do que ela falava. não queria ser explícita, mas de certa forma deixava subliminar que escondia coisas que não poderia contar.
- Eu acho que somos.
- Chegou a hora. Nós queremos isso demais, vamos subir naquele palco e arrebentar. Metade daquela galera sabe cantar pelo menos uma das nossas músicas e vai tudo dar certo. – disse antes que subissem ao palco. Os barulhos ensurdecedores de uma platéia que ocupava grande parte do Hyde Park já chegavam aos seus ouvidos.
- Senhoras e senhores, recebam agora a última banda concorrente. Com vocês: McFLY! – o locutor anunciou e um a um eles subiram ao palco. Garotas passaram a fazer mais barulho que todos juntos. Os gritos femininos só cessaram quando os primeiros acordes de Five Colours In Her Hair soaram. Grande parte da platéia cantava os versos que tocaram no rádio durante quase um mês. Músicas passaram e a platéia não deixava de pular e cantarolar. Como só tinham direito a apenas cinco músicas, terminaram o pequeno show com uma música que muitos já sabiam também.
Os meninos deixaram o palco ofegantes, mais por ansiedade do que cansaço. Voltaram para os bastidores, mas especificamente atrás das caixas de som e esperaram o locutor voltar ao palco. e Haylie não estavam muito longe, acompanhavam Sue, mãe de e ainda outras mães como a de e , sem esquecer de Maria, que havia ido a pedido de .
- Muito bem. Os shows acabaram e cinco bandas mostraram o que sabem para vocês. Infelizmente agora só resta torcer. Os jurados já estão avaliando cada apresentação e já entregarão suas notas. Façam barulho porque chegou a hora. A banda vencedora vai realmente mudar de vida, tocar no Winter Festival na próxima sexta e ainda assinar um contrato com a Universal! – o locutor caminhou até a bancada de jurados e tirou o microfone de perto de sua boca. De longe via cada um dos amigos mais nervoso que outro. O representante da gravadora agarrou uma caneta piloto e escreveu em letras garrafais algo em um grande papel, guardou o mesmo em um envelope e levantou-se. Era a hora.
- Londres, estão prontos para assistir o nascimento de mais um fenômeno? – ele tentou agitar a platéia, que apesar de ansiosa, correspondeu. – Eu, Ian Donavan, representante da Universal estou com o resultado em mãos, saibam que a escolha foi difícil e todas essas bandas são ótimas. Porém, não basta ser ótimo, ser original conta muito, e o talento só nasce em alguns. Senhoras e senhoras a banda vencedora é... - por mais difícil que fosse o silêncio conseguiu dominar toda aquela gente, e Haylie seguravam uma a mão da outra e praticamente tremiam. Os quatro meninos fecharam os olhos e apenas esperaram acontecer. - McFLY! – a platéia foi a loucura, e Haylie se abraçaram e mal sabiam o que fazer, os meninos gritavam e falavam palavrões para que todos ouvissem. Antes de voltar ao palco e receber o prêmio, saiu correndo e abraçou a mãe e , dando um beijo no rosto de cada uma.
Aquela era a décima rodada de bebidas que Jason oferecia por conta da casa. Todos comemoravam o resultado do concurso e também o prêmio da banda. Naquele momento e cantavam um clássico brega no karaokê, enquanto Haylie batia fotos sem controlar a risada histérica. Restava a mesa , e . Um belo impasse. Um pouco perdida a menina tentava desviar o olhar entre os dois a todo tempo, por sua vez percebia uma tensão diferente do normal, apenas permanecia calado, não havia o que falar. Um chiado incômodo soou do microfone de .
- , vem cá, cara. Você precisa cantar essa com a gente. – ele disse, se levantou e levou sua garrafa de cerveja, deixando apenas e ali.
nunca havia se sentido tão estranha. Mantinha o silêncio constrangedor sobre a mesa e o olhar preso em suas unhas. Na única vez em que escolheu levantar o rosto e olhar para , se arrependeu. Ele fitava seu rosto de uma maneira diferente, concentrado. Assim que seus olhos caíram sobre os lábios dela, a ouviu dizer.
- ... – não era um chamado, era uma repreensão. Ela não ia iria repetir o erro, ele já havia prometido que não o faria de novo. Ele assentiu tão discretamente que foi difícil ver. Lentamente levantou-se da cadeira, hesitou em falar, mas assim que percebeu que ele iria embora, pronunciou-se. – Você não precisa ir.
Antes que ele deixasse o pub, sentiu novamente seu olhar. Não mais concentrado, agora derrotado.
29 – Parte I
- Deixaram isso aqui na portaria. Está com o seu nome. - entrou em casa empurrando a porta com o pé. Minutos atrás o porteiro havia ligado avisando que uma caixa endereçada a estava na portaria. A menina logo arrumou o corpo no sofá. - Aqui, abra.
Ele deixou a caixa sobre o sofá ao lado da menina e foi para a cozinha. A geladeira estava vazia, sinal de que compras precisavam ser feitas o mais rápido possível. Tirou um copo do armário e o encheu com água gelada. Encostou o corpo na pia enquanto sentia o líquido gelado descer garganta abaixo. Naquela noite se formaria. Comprimiu os lábios e voltou a pensar em como tinha pressa para que aquilo acontecesse. Não seria apenas uma formatura como aquela que teve na oitava série. Seria algo mais, dali pra frente não teria que acordar cedo para ouvir sermões ou explicações que demoravam mais de cinquenta minutos para acontecer. As faculdades não eram um problema futuro, não precisaria de faculdade. Não por enquanto. O contrato da banda estava assinado e metade de sua vida estava encaminhada. Sorriu assim que percebeu. Tinha uma banda com seus melhores amigos e não precisava de mais nada. Colocou o copo dentro da pia e voltou para a sala.
Naquela tarde faria um show, queria poder se dividir e estar em dois lugares ao mesmo tempo. Queria ser o cara que entraria com o braço entrelaçado ao dela, que dançaria valsa com ela. As coisas não estavam como queria, mas poderia ao menos aproveitar com ela o dia que esperou tanto.
ainda não havia aberto a enorme caixa. Segurava nas mãos um pequeno papel que estava preenchido por uma caligrafia com cara arcaica, lia o que estava escrito com demasiada atenção. Seus olhos se movimentavam conforme as linhas iam sendo lidas. Assim que terminou sorriu e puxou a fita que envolvia a caixa branca de tom perolado. Levantou a tampa e ali estava repousada entre metros de tecido uma máscara veneziana. Os detalhes da máscara eram tão pequenos que quem quer que tenha feito teve um trabalho enorme. Todos sabiam que máscaras como aquelas não tinham uma réplica tamanha perfeição e autenticidade. A garota pegou a máscara com cuidado nas mãos a colocou sobre a mesa de centro, voltou a olhar a caixa e mordeu o lábio inferior. Aos poucos e com delicadeza puxou o tecido que preenchia todos os cantos da caixa. Lentamente um vestido começou a ser revelado. O tecido que fazia fundo para a máscara era parte de um lindo vestido, um degrade de branco e preto – algo que lembrava exatamente a cor do céu da cidade durante a madrugada, quando as nuvens o deixavam aparecer para os moradores. Uma fita sutil, coberta por flores passava por seu ombro, o cetim passava por seus dedos lentamente e levemente, a quantidade de pano parecia ideal, o tecido que ficava por cima do brilhante cetim parecia esvoaçar assim que fosse movimentado. Era o vestido perfeito para a cerimônia.
Com cuidado, voltou a guardar tudo na caixa. Naquela noite se formaria e estaria linda graças à sua vó. Finalmente percebeu a presença de na sala e sorriu.
- Presente? - ele perguntou baixo ainda encostado na parede.
- É, minha vó mandou. Disse que gostaria de me ver hoje à noite, mas como não poderia queria fazer parte disso que alguma maneira. - finalmente colocou a tampa sobre a caixa. - Um vestido e uma máscara. E você, já tem roupa?
- Tenho, minha mãe resolveu isso. Não me deixou escolher nem o terno, nem a máscara. Complicado esse negócio de black tie, não é pra mim. Eu mal sei se vou conseguir chegar a tempo. - disse rindo pelo nariz. Com passos curtos voltou ao sofá. - Finalmente chegou o grande dia. - disse olhando para a TV. Na realidade não estava prestando a mínima atenção no programa que passava, estava bem mais perdido esperando a resposta da menina.
- O grande dia. - sussurrou. - Está ansioso? - perguntou olhando fixamente para a fisionomia tranquila do garoto.
- Mais ou menos. Talvez quando chegar no final eu sinta falta de alguma coisa. - o diálogo não sairia tão fácil. Culpa dos dois lados. - Você vai mesmo para Oxford? - perguntou tentando manter nem que fosse um fio da conversa ali. Andava tão ocupado com essa história de banda que havia perdido coisas que prometera não perder.
- São os planos. - respondeu balançando o pé em sinal de nervosismo. Não tinha necessidade de ficar nervosa, nada estava pra acontecer, não havia expectativa no ar, nada podia deixá-la nervosa. Talvez um diálogo tenso sem continuidade nenhuma fosse um bom motivo.
- Eu fico feliz por você. - finalmente olhou nos olhos dela. Esperava achar ali algum resquício do passado, algo que lhe desse a certeza de que não havia terminado, não estava no final. - Te acho uma menina inteligente e talentosa, você sabe disso. - esticou a mão a fim de pegar a pequena mão dela que repousava quieta sobre uma almofada. - Quero que seja feliz.
- Você fala como se estivesse acabando. - na realidade estava e ela sabia bem disso. - Temos muitos anos de vida pela frente, cada um com o caminho que decidiu seguir, com as pessoas que decidiu acompanhar, com os problemas que vai precisar resolver. Quero que seja feliz, independente do que aconteça. Hoje e sempre.
Os dois continuavam observando um dentro do olhar do outro. A tensão poderia ser cortada com uma faca. Queriam colocar para fora as palavras que tentavam a todo custo sair de suas gargantas. Os dedos de seguraram firme a mão dela e a puxaram para perto.
- Me abraça. - disse baixo esperando que ela tivesse escutado e entendido. As pálpebras dela se fecharam por um segundo, mas logo depois se abriram revelando um brilho anormal. Ela se aproximou e colocou os braços em volta do pescoço dele. Um choque percorreu o corpo de assim que a pele dela entrou em contato com a sua. Precisava de um abraço, precisava dela perto por pelo menos alguns segundos. Apertou os braços em sua cintura e acabou com qualquer distância entre os dois. Afundou o rosto no pescoço que carregava o perfume de que tanto sentia falto durante o sono. - Me desculpe. Por...
- Shhh... - ela disse perto de seu ouvido, qualquer palavra dita naquele momento não passava de um sussurro. - Não fala nada. - o garoto apenas acatou as palavras dela e voltou a inspirar seu perfume favorito. Guardaria aquilo para si, seu segredo e sua única droga.
Passou a mão sobre o convite com letras em relevo, dali alguns minutos começaria a se arrumar. Perto de seu convite estava o papel que carregava o discurso de oradora. O colégio mesmo o tinha escrito com medo de que como em anos anteriores o discurso aparecesse com trechos nada acadêmicos para a situação. Quem diria, oradora da formatura. Por onde passava no colégio as pessoas a cumprimentavam, todos sabiam seu nome, todos queriam estar em seu lugar - até mesmo aqueles que menosprezaram sua presença um dia -, todos queriam ser um de seus poucos amigos.
As coisas mudaram como nunca imaginou que pudessem mudar. O mundo deu as voltas que nunca imaginou que ele fosse dar. Não crer em ditados comuns como esse era normal, principalmente para ela. Depois de passar por todas as provações que passou, esperando ainda a volta que faria tudo voltar aos eixos, deixou de acreditar que fosse possível um reviravolta. Naquele fim de tarde seu quarto parecia absurdamente vazio, como realmente estava fisicamente, ela estava indo para a faculdade, ele seguiria com a banda. Algo de bom deveria ser tirado dali. A distância não seria capaz de acabar com o amor que restou dentro de seu peito. Mas quem sabe palavras pudessem colocar tudo aquilo no final da queda de um enorme penhasco. Seu dilema foi interrompido pela campainha que soava insistentemente. Pegou a bolsa sabendo que quem estava em sua porta apertando freneticamente o botão da campainha era Haylie.
A mãe de Haylie já havia dito que não deixaria que as duas fossem para a formatura como bem entendessem. As duas garotas tinham hora marcada no salão, segundo Joanne as duas seriam as mais deslumbrantes do salão de festas. Apagou as luzes da sala que estavam acesas e saiu. saíra para o lugar onde aconteceria o show. Haylie sorria abertamente assim que fechou a porta e se virou para cumprimenta-la.
- Está pronta para uma pequena sessão de beleza? - perguntou segurando uma das mãos de com as duas. - Quero que você fique feliz, por favor. - o pedido de Haylie era um dos mais difíceis. Sorriu sem graça e assentiu.
- Eu vou ficar feliz. Hoje é um dia de mudanças. - as duas seguiram para frente do elevador e puxaram a porta daquele que já estava em seu andar. O carro da mãe de Haylie já as esperava do lado de fora do condomínio. Assim que saíram as trancas da porta puderam ser ouvidas e então puxou a porta de trás e entrou no grande SUV.
- Boa tarde, Joanne. - disse se esticando para retribuir o beijo no rosto que a mulher lhe deu.
- Boa tarde, querida. - a mãe de Haylie disse, logo depois deu partida no carro ligando alguma música. - Haylie já lhe disse aonde vamos, não é?
- Erm, na verdade não, até onde eu sei é ao salão de cabeleireiro, certo? - perguntou arriscando um palpite que até pouco tempo era certo. Pelo retrovisor pode ver Haylie assentindo de maneira frenética.
- Sim, sim, vamos ao salão. Vou levá-las ao MELHOR salão de Londres. Já disse, quero que vocês sejam as mais bonitas de toda a formatura. - a mãe de Haylie conseguia ser tão espevitada quanto a filha em certos momentos, as duas sempre estavam agindo na mesma sintonia, viviam pra cima, contagiavam os lugares, as roupas coloridas da mulher já falavam por si sós.
- Mamãe, a não gosta das mesmas extravagâncias que eu e você, vamos ter que ir com calma. - Haylie disse rindo alto. Ela mesma conseguia admitir que cores e adereços eram um problema enorme em sua mão e na mão da mãe.
- Falando em extravagâncias, como é seu vestido, querida? - Joanne perguntou, pisando no freio e parando em mais um semáforo.
- Hoje de manhã foi a primeira vez que vi meu vestido. - disse sorrindo. - Ele é branco e preto, tem cetim e um outro tecido que eu não dizer qual é, só sei que é lindo, daqueles que ficam esvoaçando quando o vento bate. Tem poucas pedrinhas de cristal no busto e é tomara-que-caia. - Haylie batia palminhas enquanto seus olhos brilhavam. - Eu realmente gostei, o problema é que ainda não experimentei.
- Menina, como assim? Você só viu o vestido hoje e ainda por cima não experimentou? Alô, a formatura é hoje à noite! - a amiga disse estalando o dedo bem na frente de seu rosto.
- Eu sei bem que a formatura é hoje. - respirou fundo e voltou a encostar as costas no banco. - Minha vó disse que queria escolher meu vestido, e eu jurava que ela tinha esquecido, demorou tanto, mas hoje de manhã pegou a caixa lá na portaria. É tão lindo.
- Provavelmente o vestido ficará lindo, afinal, você é linda. - Joanne voltou a dizer. - Lembro até hoje como foi o meu baile de formatura. Parecia realmente um sonho. Tinha um tema específico também, como o de vocês.
O baile de formatura daquele ano no King's Ford tinha um tema específico, na verdade o tema se misturava com um tema escolhido pela comissão de formatura. O debate de temas demorou meses e em nenhum momento prestou atenção na escolha. No final de tudo houve um acordo entre diretoria e comissão. O baile seria de máscaras como os alunos queriam, mas também teria o circo integrado a festa. Artistas sobre pernas-de-pau, pessoas soltando fogo, mulheres se enrolando em panos suspensos no ar, malabares, caras pintadas. Tudo seria elegante, no final da festa ninguém garantiria a integridade e lucidez.
- Qual era o tema, mãe? - Haylie perguntou. - Tipo, não quero te chamar de velha, óbvio, mas não podia ser nada de muito legal, você mesma dizia que meus avós eram um pé no saco com esse negócio de festa e bebidas.
- Haylie, coloque nessa sua cabecinha que festas não se resumem a bebida e adolescentes cometendo infrações a saúde pública. Festas podem ser divertidas sem tudo isso.
- Sinceramente, eu duvido. - interrompeu a mãe olhando para as unhas.
- Posso terminar, filha? Obrigada. O meu baile de formatura tinha como tema "Noites de Inverno", foi um sonho, seu pai estava tão lindo. - Joanne narrava tudo aquilo como uma adolescente apaixonada. - Ele parecia um príncipe, meu vestido também era lindo, seus avós me deram um anel de presente, foi realmente lindo. Não esperava. Naquele baile seu pai me pediu em namoro, antigamente o King's tinha uma fonte linda, e bom, foi lá, parecia um filme.
- Você só não contava que o príncipe fosse virar aquele velho com barriga de cerveja, não é? - Haylie suspirou. - Não consigo imaginar o papai bonito, mãe.
Além de importante o King's Ford era um colégio tradicional, grandes famílias eram educadas lá e seus filhos também, as vagas praticamente passavam de geração para geração. Os pais de e estudaram juntos e assim se conheceram, o grande e diferente círculo social de Londres estava também nas raízes do King's Ford.
- Seu pai já foi bonito. Pena que se transformou naquele ogro barrigudo. - Joanne disse rindo. O fato de ter se separado do pai de Haylie há poucos anos não a deixava constrangida na hora de falar sobre ele ou como foi todo seu relacionamento durante os longos anos que durou. - Seus pais também se conheceram no King's, não foi? - a mulher perguntou virando o pescoço e olhando diretamente para .
- Sim, pelo que minha mãe me contou, e pelo que a mãe de também contava, eles se conheceram no final da oitava série. Minha mãe era meio diferente do meu pai. Ok, eles eram totalmente diferentes. Ela era líder de torcida e ele cuidava do laboratório de química. - disse rindo.
Sue, mãe de , sempre fazia questão de lembrar como os pais de se conheceram, a forma como eram diferentes e encontraram juntos tudo o que precisavam para uma vida feliz e invejada por muitos.
- Seu pai era Edward , certo? - Joanne perguntou mais para ela mesma do que para a menina. - Seu sobrenome não é estranho para os meus ouvidos, posso não ter sido melhor amiga, mas acho que conheci seus pais. Sua mãe provavelmente trocou palavras comigo, eu fui líder de torcida por míseros meses, seu pai devia ser amigo do pai da Haylie, ele vivia enfurnado em laboratórios também.
Assim que terminou de falar, Joanne diminuiu a velocidade do carro parando em frente a uma enorme construção, aparentava uma casa clássica, deveria ter uns três andares, o que a diferenciava de uma casa normal era o letreiro em sua fachada, as letras finas e elegantes davam nome ao salão. As paredes brancas com detalhes dourados deixavam os olhos brilhantes e maravilhados.
- Finalmente chegamos meninas, se preparem para um dia de beleza infinita. - a mãe de Haylie disse pegando cada uma pelo pulso e as levando para dentro da luxuosa casa.
Ao passar pela porta o ar clássico mudou para algo completamente moderno, lá dentro tudo era moderno demais, espelhos refletiam mulheres completamente transformadas, elas deixavam de ser meras mulheres e se tornavam princesas, rainhas e títulos completamente extintos para pessoas normais.
- Freddie, que bom eu você pode atender meu pedido. - um homem magro e cheio de trejeitos se aproximou das três. - Essa é minha pequena Haylie e essa é sua amiga. Bom, vamos ao que interessa, hoje é a formatura das duas e eu quero que as deixe maravilhosas como fez comigo em meu casamento. Não poupe esforços, apesar de que não precisa muito, elas são bonitas por natureza. Enquanto você cuida das minhas pequenas vou atrás da Chelle, quero que ela faça minha unhas, nunca mais encontrei alguém que as fizesse decentemente.
- Jojo, querida, seu desejo é uma ordem, quando menos esperar não poderá reconhecer essas duas. Meu trabalho será divino como sempre, modestamente. Venham comigo meninas. - Freddie pegou as duas pelo pulso como Joanne tinha feito e as levou até duas cadeiras brancas de couro. - Vocês sentaram em um lugar especial, as meninas da Jojo são minhas meninas. - com um empurrão fez as duas cadeiras girarem e logo a frente estava um espelho enorme, ele refletia o corpo todo das duas por inteiro. - Frankie, Kimberly, tratem de cuidar das mãos e pés dessas duas, vou chamar o Ricco e o Steve para cuidarem dos cabelos.
Duas jovens apareceram com toalhas brancas e logo uma pequena caixa com milhões de instrumentos para mão e pé apareceu. Tudo parecia brotar do nada, os dois cabelereiros já estavam atrás das duas colocando seus cabelos para os lados, para cima, prendendo, soltando, testando. apenas fechou os olhos com medo do que podia estar por vir.
- Eu e vamos morar juntos. - Haylie disse assim que sentou na cadeira onde lavariam seu cabelo. que demorou dois segundos a mais com isso apenas abriu os olhos e pediu que a amiga repetisse. - É isso aí, eu fui aceita na faculdade e a banda está bem, os meninos já deixaram bem claro que não vão para a faculdade agora. Minha mãe já me disse que gostaria de viajar para alguns lugares do mundo, estava esperando eu me tornar mais independente para isso. Acho que essa é a hora.
- Uou, isso foi... Impactante. Sua mãe ainda não está sabendo, certo? - Haylie apenas negou. - está tão feliz com você, acho realmente lindo e digno vocês dois juntos. Pretende contar quando para sua mãe?
- Depois da formatura, amanhã mais especificamente. - disse aproveitando os movimentos que faziam em sua cabeça. - Tem alguma coisa estranha com você hoje. Percebi desde que saímos da sua casa, você está falando mais que o normal.
- Isso significa que eu não estou bem? - indagou olhando para o teto.
- Quando você fala mais que o normal significa que está nervosa. Pelos menos é o que eu percebi nesses meses em que te conheci. - respondeu, voltou a fechar os olhos e respirou fundo. Haylie percebia tudo a sua volta, sem deixar passar nada, qualquer reação diferente, quase imperceptível, era detectada por ela. Isso podia ser um problema em certas horas.
- Hoje é minha formatura, eu devia estar nervosa, não é? - tentou desconversar.
- , por favor. Você nunca gostou do colégio, vai dizer que a formatura não é um alívio para você? Eu sei bem que tem algo que você não quer falar. - disse com convicção, aquilo quase desarmou a menina.
- Besteira sua, sempre achando que tem algo errado. Mania de perseguição, é isso. Não tem nada de errado, está tudo na mais absoluta normalidade e eu acho que você deveria se concentrar na escolha da cor do seu esmalte ao invés de ficar reparando em quantas vezes eu pisco o olho. - respondeu soltando um sorrisinho vitorioso e logo depois um risinho pelo nariz.
- Você consegue ser mais chata que o certas vezes. - Haylie bufou deixando de lado toda sua desconfiança.
Freddie volta e meia estava cercando as duas perguntando sobre os cabelos e unhas. Segundo ele, divas não ficam caladas, divas expressam sua beleza em palavras. As escovas redondas e enormes puxavam seus cabelos com uma certa força, aquilo podia machucar, mas pelo que o cabeleireiro dizia seu cabelo estava ficando lindo. Deixou a mente aceitar o que o profissional dizia, se ele achava bonito deveria estar aceitável. Quando o barulho de secador sumiu de seus ouvidos, respirou fundo e balançou a cabeça achando que colocaria seus neurônios no lugar.
Antes de sair de casa tinha reparado em como suas unhas estavam grandes, a manicure as lixou mantendo quase o mesmo tamanho, o esmalte que tinha escolhido em um primeiro olhar parecia apenas preto, mas logo que era colocado contra luz revelava pequenos brilhantes. Constantemente olhava para Haylie que sempre sorria e falava alto o que queria que fizessem em seus cabelos. Um pente colocou todo seu cabelo para trás e logo depois sentiu seus pequenos dentes passarem por seu coro cabeludo, a franja estava em seu rosto, em poucos minutos ela sumiu de seu campo de visão e Ricco, o cabeleireiro, lhe mostrou várias presilhas cheias de brilhantes, levantou os ombros mostrando completa dúvida e apontou para uma das primeiras. Segundos depois deus olhos alcançaram a última das presilhas, várias pedrinhas encaixadas em um desenho de prata, as duas fileiras de entrelaçavam. Aquilo a atraiu de tal maneira que pegou a presilha nas mãos para olhar mais de perto. Esticou a presilha para Ricco que assentiu e voltou a mexer eu seu cabelo.
A única janela que lhe permitia ver o lado de fora mostrava o céu ficando cada vez mais escuro, sentia sua bunda quadrada o que provava que estava há muito tempo sentada ali. Não viu as horas passarem o que dificultava tudo. Viu Haylie levantar a mão acenando para a mãe que sorriu e começou a caminhar em direção as meninas.
- Mãe, o Steve tá quase terminando, você deixa eu me trocar na casa da . Eu super queria isso. - a menina pestanejou e a mãe fez cara de derrotada.
- Tudo bem Haylie, você sempre com esses olhinhos. Vou sair daqui e passar em casa para pegar seu vestido. Trago aqui e já pego vocês e levo para a casa da , certo? - cochichou algo na orelha de Freddie e voltou a olhar para a filha. - Eu e seu pai estaremos esperando você no anfiteatro do colégio.
Joanne virou e saiu com passos apressados em direção a porta. Ricco bateu palmas chamando a atenção de . O cabeleireiro estava na sua frente passando sombras e mais coisas em seu rosto. Ficou apreensiva e comprimiu os lábios.
- NÃO! Vai estragar o batom. Vou virar você para o espelho no três. 1, 2... 3!
A cadeira deu meia volta e encarou o reflexo completamente sem reação. Com cuidado levou a mão até as pontas enroladas do cabelo, elas caiam na frente de um de seus ombros, na verdade o cabelo estava preso, não gostava muito, mas naquele momento ele não poderia estar mais bonito; a maquiagem era tão leve, mas tinha feito uma diferença absurda, quase não podia se reconhecer. Com cuidado levantou e Ricco segurou em seu braço.
- Eu teria orgulho de ser seu par. - disse para a menina.
- , vocês tá linda. - Haylie disse assim que levantou da cadeira e observou a amiga da cabeça aos pés. - Você está absoluta como diria minha mãe. - riu com o nariz e caminhou até mais perto do espelho. Estava feliz com o que via.
Continuou em frente ao espelho observando a imagem de seu rosto mudado. A voz de Haylie voltou a invadir seus ouvidos, virou e encontrou a amiga sacudindo as mãos e dando pulinhos curtos e empolgados, típico.
- Se você tirar esse All Star surrado e essa skinny vira uma pessoa apresentável. - disse caminhando de encontro a . As duas deram as mãos como patricinhas costumam fazer em um dia de compras no shopping. Os sorrisos eram tão grandes, tão verdadeiros, se olhasse aquilo de fora não diria que ela era mesma. Soltou as mãos da amiga e foi até Ricco agradece-lo pelo trabalho. - Minha mãe disse que já está voltando, vamos lá pra frente. - Haylie falou assim que colocou o celular de volta na bolsa.
- Queridas, fiquem lindas! E pelo amor de Deus, cheguem na hora! - Joanne disse se esticando sobre o banco assim que Haylie fechou a porta do passageiro. O vidro estava totalmente baixo, as duas meninas apenas abaixaram na altura do mesmo e acenaram de volta para a mãe. O Volvo arrancou, as duas suspiraram e olharam perdidas uma para a outra.
- , você pode me ajudar? - Haylie perguntou olhando para a quantidade de coisas que carregava nas mãos. O vestido estava dentro de uma capa preta acompanhada de um cabide, os sapatos numa caixa média.
- Claro, claro. - pegou com cuidado a capa preta e se virou para a entrada do residencial. - Nós ainda temos algum tempo, não é? - o caminho até o apartamento era curto, tirou o celular da bolsa e apenas tocou a tela para que essa se acendesse e mostrasse o relógio digital. Os números indicavam seis e meia da tarde.
- Eu preciso avisar o que não estou na casa da minha mãe. - a amiga disse afobada. - vai te levar a formatura, certo?
- Acho que sim. - respondeu relutante, não estava muito claro se a levaria para a formatura. - Eles devem estar no palco agora, não sei se dá tempo. - disse murchando completamente, não queria mostrar que estava incrivelmente decepcionada com o show bem no dia da formatura.
- Filha, hoje não é dia pra incertezas! vai te levar, tenho certeza, ele não seria louco de deixar você ir a formatura sozinha. - o elevador abriu as portas e revelou o hall do apartamento. - Vou deixar esses sapatos no seu quarto e volto aqui para ligar para o .
Haylie passou correndo com passos curtos e meio saltitantes, aquela mania de pular para tudo em todas as ocasiões podia ser extremamente irritante. Apenas riu sozinha e levou o vestido da amiga até seu quarto também. Haylie voltou a passar por ela como um furacão. Escutou a menina pular no sofá e logo em seguida um bipe do telefone sem fio.
Colocou o vestido da amiga sobre a cama bem ao lado da caixa onde estava seu vestido. O quarto tinha uma cara tão simples naquele momento, nada daqueles quadros de fotos coloridos, os pequenos papéis coloridos com recados e pedaços de músicas, bichinhos de pelúcia. Respirou fundo e voltou para a sala vendo Haylie desligar o telefone. - não atende. Ele disse que me ligaria depois da passagem de som, mas não ligou, eles saíram tão cedo. - a menina se jogou e sorriu olhando para o teto. - Eu já disse como estou feliz com tudo isso? Por Deus, eu estou me formando! Eu sou praticamente uma adulta, ano que vem terei dezoito anos, não vou estar morando com a minha mãe e vamos poder dar festas com amigos da faculdade. Eu disse faculdade. Já percebeu o tamanho disso tudo?
apenas riu e perdeu o olhar pelos móveis da casa. Não conseguia enxergar seu futuro sem antes concluir a bendita formatura. Tudo dependia daquela noite. Despertou com o toque do telefone.
- Alô? - perguntou com a voz um pouco baixa e, diga-se de passagem, arrastada.
- Querida, sou eu Sue. - a voz alegre da mãe de ecoou por seus ouvidos lhe dando uma ponta de alegria. - está no Hyde, né?
- Sim, Sue. - a menina se endireitou na poltrona e colocou as pernas no apoio de braço. - Eu saí relativamente cedo, depois disso nem tive notícias dele. Ele o os meninos vão tocar no Winter Festival hoje e não sei nem se vai dar tempo dele chegar na formatura.
- Ah, mas aquele menino vai estar na formatura ou eu não me chamo Sue. - a mãe respondeu enfezada do outro lado da linha. - Ai dele se não aparecer! O terno dele está aqui no carro e eu vou deixar aí na sua casa. Daqui a pouco ligo pra ele e aviso, ele deve achar que está comigo.
- Tudo bem, vamos ver se ele consegue se virar sozinho vestindo um terno. - as duas riram.
- pode nos surpreender. Bem querida, vou desligar daqui a pouco deixo a roupa na portaria, ok?
- Tudo bem, tia. - há muito tempo não a chamava daquela maneira, pode até sentir um calor diferente lhe atingir na região do peito.
- Ah, mas quanto tempo não te ouço dizer isso. Estava com saudades. - as duas estavam sorrindo, era possível perceber sem olhar. - Bom, vou desligar. Beijos.
desligou o telefone e o colocou de volta na base, olhou para Haylie que a encarava com o olhar típico de pergunta. Apenas incentivou a amiga com um aceno e esperou a bomba chegar.
- Por que você e não estão juntos? - a pergunta era tão simples e ao mesmo tempo tão complicada. Palavras simples e pouco articuladas não podiam explicar claramente o que acontecia, ou até podiam, só faltava aprender a usá-las. Podia sentir seu cérebro trabalhando atrás de uma resposta.
- Não era pra ser. - disse e logo depois completou num tom mais baixo. - Quem sabe.
- Não vou voltar a tocar nesse assunto, desculpe. - a amiga disse com um certo tom de dó. Não ficava feliz em saber que as pessoas podiam ter dó dela assim que viam sua expressão ao falar sobre . - Acho que essa é a hora em que eu vou lutar para colocar minha toquinha de banho para não estragar meu lindo cabelo. - Haylie levantou e caminhou. - Até daqui a pouco, e não sinta minha falta. - mandou beijos no ar e sumiu.
- Eu não vou! - gritou antes de levantar para ir a cozinha.
O piso gelado deu um choque em seus pés descalços, abriu a geladeira atrás de algo que pudesse enganar seu estomago. Não iria comer naquela noite, quem sabe beber, mas comer não. As últimas duas fatias de torta de morango estavam ali e foram as escolhidas. Tirou o doce da geladeira e aproveitou para pegar a jarra de suco de laranja. A mistura de sabores podia não ficar tão agradável, só saberia depois que colocasse na boca. Sentou à mesa com a torta a sua frente e o copo de suco, os pedaços eram pequenos e doces demais. O copo já estava suado graças à temperatura do suco.
Comeu aquilo com tanta calma que só terminou quando Haylie saiu do banho.
- Gente, adoro andar de roupão pela sua casa. Sorte que o não está aqui! - disse rindo com a cabeça para dentro da cozinha. - Agora eu super acho que é sua vez de levantar esse traseiro daí e ir tomar pelo menos uma ducha. - entrou de vez na cozinha e fez questão de empurrar a menina para fora dali. - E nem é tão difícil colocar a toquinha!
Entrou no banheiro e se olhou no espelho, com um papel tirou o brilho lábial que já estava estranho graças à refeição. Colocou a bendita touca e ligou o registro, a água quente já caia e suas costas relaxaram no mesmo instante que entrou ali. Os efeitos que aquela água podia causar eram indescritíveis.
- Hay, vem aqui! - gritou quase escutando o eco da própria voz. O cabelo estava no lugar e os cachos sobreviveram a toquinha, já havia posto outro brilho labial e conferido sua maquiagem. Haylie apareceu na porta com as sandálias na mão. - Vou precisar de ajuda com esse vestido.
- Calma, coloque devagar e eu te ajudo com o zíper. - ela disse entrando de vez no quarto e sentando na cama de para colocar os sapatos.
Aos poucos e com muita delicadeza subiu o vestido até a altura do busto.
- Pronto, pode fechar esse zíper. - segurando a frente do vestido observou Haylie com a cabeça um pouco inclinada enquanto subia o zíper do vestido.
- Prontinho. - disse aparecendo bem ao lado da amiga. - Sua vó arrasou escolhendo esse vestido. Devia ter me avisado que ela tinha bom gosto, eu pediria para ela escolher o meu. - terminou com um biquinho para o lado.
- Você está linda e eu posso dizer que tem muita sorte, sério. - não poderia deixar que algumas lágrimas caíssem de seus olhos naquele momento. - Me dá um abraço.
- Não.
- Idiota. - abraçou a amiga forte, eram como irmãs, seriam como irmãs, independente do que acontecesse. - Cuidado com o meu cabelo. - disse afetada antes de se separar dar amiga.
- Você conseguiu falar no maior estilo alta realeza de King's Ford. - Haylie disse rindo e apertando as mãos junto às de .
- Eu sempre fui a realeza daquele colégio. - as duas riram ainda mais alto, até serem interrompidas pelo toque estridente do celular de Haylie. A garota saiu correndo até a bolsa que estava no canto da cama. Levou o aparelho até orelha e sorriu ao ouvir a voz do outro lado da linha.
- Oi, meu amor. - era claro que era , rolou os olhos e sentou-se na cadeira de sua escrivaninha para colocar suas sandálias. - Como assim, ?
Ao ouvir a voz com um toque alarmado, deixou o que estava fazendo e fixou o olhar na amiga que agora estava sentada na cama.
- Você tinha me prometido. - disse manhosa e com a voz, claramente, embargada. - Tudo bem, tudo bem. - com delicadeza Haylie limpou uma lágrima que escorreu discreta por seu rosto. - Te vejo mais tarde. - o silêncio indicava que ela já havia desligado e agora estaria em estado de choque.
- Ele não chegará a tempo de te levar, acertei? - perguntou , já terminando de colocar as sandálias.
- Ele tinha prometido, . - caminhou até a beirada da cama e se ajoelhou, completamente despreocupada com o vestido. Segurou as mãos de Haylie e disse:
- Isso não significa nada. Conhecendo bem o , sei que ele fará o possível e ainda mais que o impossível pra estar lá com você. - enxugou as lágrimas finas teimosas que insistiam em cair. - Nós vamos sair daqui a pouco, chegar lá, aproveitar e depois aproveitar mais ainda quando todos, os quatro, estiverem lá.
- Vai ser muito bom, não vai?
- Vai ser a melhor noite das nossas vidas, eu garanto. - disse levantando e desamassando o vestido.
29 – Parte II
Coloque a música para tocar assim que a nota aparecer: One Man Drinking Games - Mayday Parade
A entrada do colégio não parecia mais a mesma. Luzes natalinas já enfeitavam a entrada no fim das aulas, mas outros pontos luminosos foram colocados de maneira estratégica deixando tudo muito brilhante. Vários alunos congestionavam a entrada do ginásio, alguns professores responsáveis pela organização das turmas riscavam nomes e mais nomes de enormes listas.
- ? - a menina ouviu uma voz estridente chamar por seu nome, ao virar deu de cara com a professora de História. - Querida, a coordenadora está atrás de você, preciso riscar seu nome da lista, entregar-lhe sua beca e você precisar correr para arrumar as últimas coisas do discurso. Vamos, vamos! - sentiu-se um pouco zonza com a velocidade com que a professora falou, mas logo começou a seguir as instruções. Deu seu nome completo ao professor de Biologia, pegou sua beca e entrou no ginásio, passando por trás do palco até onde a coordenadora a esperava.
- Aleluia, encontraram a senhorita. – a mulher disse em um tom esbaforido. – Você tem alguns minutos para passar o discurso. Enquanto isso vou checar o microfone e colocar todos os alunos em seus lugares.
apenas assentiu e encostou-se na parede, tirando o discurso de dentro da pequena bolsa. Passava os olhos correndo pelo papel seguidas e seguidas vezes, entretanto não conseguia se concentrar, sua mente estava lá fora, pensando se por acaso , , e já estavam sentados em seus lugares. O pânico de falar na frente de todos já não era mais uma preocupação.
Já havia passado mais de uma hora e tudo parecia bem menos barulhento. Colocou a beca sobre o vestido e esperou até a coordenadora voltasse e lhe desse um sinal positivo. Em um ímpeto de loucura resolveu trocar os discursos, abriu a pequena bolsa e tirou dali o discurso que escrevera antes de receber o texto feito pelo corpo docente da escola. Viu a cabeça da coordenadora aparecer do outro lado do palco, fazendo um sinal para que subisse ao palco.
Um holofote iluminava seu rosto, tornando quase impossível o que estava à frente. Caminhou até o centro do palco onde uma estrutura de vidro a esperava, colocou o microfone na altura de sua boca e pode finalmente enxergar tudo claramente. Cadeiras alinhadas em fileiras; alunas formandos ocupavam os primeiros lugares, enquanto suas famílias ficavam na parte de trás; um longo tapete bordô forrava toda aquela parte. Identificou bem a sua frente Haylie, curvou os lábios para cima em um pequeno sorriso antes de respirar fundo e começar o discurso.
“A noite que todos esperavam chegou, por isso devo fazer uma pergunta, alguns podem achá-la inapropriada ou até desnecessária. Na verdade não quero me arrepender por perguntar: Por que estamos aqui nessa noite?
Por que algumas líderes de torcida deixaram seus uniformes para vestir saltos altos? Que tal, por que o time de futebol trocou suas camisetas suadas por gravatas que apertam seus pescoços? Por que eu, meus amigos, vestimos essas roupas complicadas e sofisticadas demais, embora quiséssemos estar de calça jeans e All Star? Melhor, por que garotas deixaram de prestar atenção em lições de álgebra para discutir a cor dos vestidos que usariam hoje? E sobre o engarrafamento de todas as sextas no fim da tarde para chegar até aqui?
Esses foram nossos sacrifícios.
A partir de hoje somos responsáveis por nossas vidas, e quem sabe pela vida de outros. Alguns podem alimentar aqueles que passam fome, entregar água durante uma seca, agasalhar quem passa frio em um inverno rigoroso. Descobrir como plantar novos alimentos, tratar de algum animal. Quem sabe construir casas, pontes ou até estradas.
Acho melhor voltar um pouco. Quem garante que faremos isso? Sabemos realmente o que queremos fazer? Que tal esperar, deixar que o tempo e alguns obstáculos do caminho nos digam qual é nosso dom? A cada ano de vida eu quis ser algo diferente, e talvez seja por isso que hoje só tenha certeza de que a minha felicidade é a única coisa que importa. Se amanhã eu decidir que serei astronauta, por que não?
É por isso que não vejo futuro nessa turma. Com dezessete anos todos já sabem o que querem para o resto da vida. Lamentavelmente somos a geração que foi obrigada a tratar tudo com seriedade graças a falta de álcool em todas as festas protagonizadas nesse ginásio. Espero que a diretora se sinta comovida e ajude as próximas turmas, libere o consumo de álcool dentro dos muros do colégio. Meu Deus, somos adolescentes, não estamos em um templo. Para acabar, antes que a diretora suba e me arranque daqui, queria propor um brinde ao nosso futuro incerto e ao inventor dos destilados que estão liberados pelo resto da noite!".
Os aplausos e gritos soaram altos demais por todo o ginásio, várias alunos gargalhavam e alguns que antes nunca olharam nos olhos de cumprimentavam-na. Desceu do palco e foi recebido por Haylie de braços abertos. Sentou-se na cadeira ao lado da amiga e observou alguns funcionários do colégio arrumarem o palco para entrega dos diplomas.
- Cara, eu acho que os meninos se ferraram. – disse calmamente próxima do ouvido de Haylie. – Os diplomas estão fora de ordem.
- Como assim os alunos não serão chamados por ordem alfabética? - Haylie indagou próxima ao ouvido de em um tom quase desesperado.
- Calma, não é fim do mundo.
- É claro que é, você não percebeu? Podem chamar um dos três a qualquer momento e eles nem estão aqui. - por um lado Haylie tinha razão, aquilo poderia ser pavoroso e absurdamente catastrófico. Com o canto dos olhos observou Sue, mãe de conversando descontraidamente com uma outra conhecida.
- Alô... - a voz autoritária por natureza da diretora ecoou por todo o salão. Todos os formandos sentados enfileirados, ajeitaram suas batas pretas e vermelhas, cores oficiais do colégio, o momento finalmente havia chegado. - Boa noite, pais, acompanhantes, e principalmente formandos. Chegou a hora esperada por todos aqui presentes, agora entregaremos os diplomas de conclusão de curso para nossos alunos. Suas futuras residências, universidades, também serão ditas. Peço que prestigiem isso com todo o orgulho que estes jovens merecem.
Uma salva de palmas ecoou por ali e finalmente os nomes começaram a ser chamados.
- Kathylen Smith, Universidade de Goldsmiths. – só naquele momento a ansiedade começou a correr pelas veias de , não por receber o diploma, mas sim por não saber onde estavam seus amigos. Onde estaria ? Batia palma, sem vontade, para todos os alunos que subiam naquele palco. - Joe Staburch, London Metropolitan. - olhou aflita para Haylie que não só retribuiu seu olhar, como também deixou um palavrão escapar. - Haylie Harris, Royal Holloway. - por um momento pode esquecer a aflição e bateu palmas com vontade, escutou os gritos e incentivos dos pais de Haylie ao fundo. Levou a mão esquerda até o peito e inspirou todo o ar que podia.
- Espero que não tenham me chamado, eu não posso perder isso. - soltou numa velocidade assustadora todo o ar, ali do seu lado estava ele, completamente relaxado e tranquilo, arrumando com destreza o nó da gravata, os cabelos úmidos e emanando o cheiro de xampu infantil que ele usava.
- Por um momento eu achei que você não fosse chegar. - sussurrou para que ele não ouvisse. Fechou os olhos assim que o toque frio, mas aquecedor dele alcançou a mão que a pouco repousava em seu colo.
- Jones, Cambridge. - aos gritos dos outros membros da banda subiu no palco, acenou para a mãe discretamente. Aos poucos todos os alunos já estavam com seus diplomas. – Leão, Universidade de Oxford.
A menina levantou envergonhada e subiu os poucos e pequenos degraus que a levariam, mais uma vez, ao palco. Não muito longe os amigos batiam palmas e gritavam coisas sem sentido a fazendo rir. Recebeu seu diploma das mãos da diretora e voltou ao seu lugar. A lista de alunos estava acabada, todos estavam de pé e em um anuncio discreto a diretora autorizou que tirassem suas batas e vestissem as máscaras para o baile. Antes que as luzes mudassem de intensidade e a música tomasse conta de todo o lugar, correu até Sue e recebeu seu abraço de parabéns. O grande círculo já estava organizado, era hora da valsa. Por um segundo sentiu seu corpo esfriar, aquela foi uma promessa de anos atrás. Será que ainda estava de pé? Assim que sentiu as mãos de em sua cintura a conduzindo para o centro da pista percebeu que sim.
A festa já estava cansativa, não viu mais depois da valsa e já não havia mais o que procurar.
Preferiu não se despedir de ninguém, apenas deixar a festa era o suficiente. A lua naquela noite estava cheia, parecia até mais próxima da terra que o normal, isso poderia ser interpretado de maneira irônica. Era um cenário digno de filme, as ruas já vazias, afinal passava das duas da manhã naquele momento. Com cuidado, tirou a presilha que mantinha seu cabelo preso, passou os dedos espaçados pelas mechas tentando deixa-las arrumadas.
Não era muito prudente fazer o que ela fazia no momento, voltar para casa a pé, de madrugada; a distância do colégio até o apartamento era pequena, mas de qualquer maneira, ninguém mais vagava pelas ruas. Nem por isso acelerou seus passos, apenas manteve a cabeça baixa por todo o percurso.
Ao olhar para cima viu que quase nenhuma luz da vizinha de prédios estava acesa. O elevador, frio como sempre, não demorou a entrega-la em seu andar. Com cuidado empurrou a porta do apartamento que estava entreaberta e notou luzes acesas, pelo visto havia trocado a festa de formatura por uma noite saudosista. fechou a porta e a trancou, como costumava fazer assim que entrava em casa. O salto alto ainda fazia um barulho irritante contra o assoalho, ela sentou sobre o braço do sofá e tirou os sapatos, deixando o par ali perto. Em silêncio decidiu ir até o quarto de , de onde a luminosidade vinha. Apoiou o corpo na moldura de madeira da porta, entretanto o quarto estava vazio. A sacada por sua vez estava aberta e a corrente de ar que invadiu a sala remexeu as cortinas, revelando a sombra de apoiado sobre o parapeito. Mais uma vez caminhou com passos silenciosos, esperando que ele não a visse.
Apoiou os braços no mesmo lugar e observou a mesma paisagem que o menino ainda olhava quieto. A cidade brilhava, os telhados habitados por gatos, alguns jovens deixando suas festas. Pela primeira vez em dias sorriu abertamente.
- Queria ter assistido o show. – ela disse baixo, quase sussurrando, com o olhar preso no horizonte escuro.
- Gostaria que estivesse lá. – ele respondeu quase no mesmo tom, fazendo o sorriso dela se alargar. – Me saí um bom dançarino essa noite? – perguntou juntando as mãos e entrelaçando os próprios dedos.
- Não poderia ter sido melhor. – o silêncio poderia se incômodo em outros dias, naquele momento não passava de uma ação natural.
- Eu deveria ter te entregado meu presente, mas não consegui. – deixou que a boca ficasse entreaberta em tom de surpresa, e também constrangimento. Ele havia se preocupado com um presente de formatura.
- ... – naquele momento ela apenas queria se socar mentalmente por não ter pensado naquilo. – Eu não comprei nada pra você. Não é justo.
- Pára com isso. Eu disse que comprei? – ele perguntou em um tom mais brincalhão do que antes, com um olhar mais brilhante atraindo as íris dela também. Sua mão segurou a dela forte, conduzindo-a de volta para o apartamento. Assim que entraram no quarto do menino, apoiou-se sobre a bancada que ele costumava estudar, abriu o armário e abaixou-se a procura de alguma coisa.
Depois de remexer um pouco em alguma gavetas, voltou a ficar de pé e fechou as portas. Seus pés já descalços moviam-se cuidadosamente, talvez calculadamente.
- Eu pensei por muito tempo em alguma coisa que fosse realmente importante pra você. Foi aí que achei isso, espero que goste. – estendeu timidamente a pequena caixa, veludo preto recobria o pequeno pedaço de madeira quadrado. Com cuidado ela tomou o presente nas mãos e o abriu. – Ele foi da sua mãe, ela ganhou do sue pai no dia da formatura dela.
A voz dele era apenas um sussurro, todos os sentidos de estavam focados no pequeno anel, singelo e brilhante. Com medo de estraga-lo, levou os dedos até a superfície da pedra solitária que roubava quase todo o brilho para si.
- Posso colocar em você? – perguntou. levou o olhar a mesma altura dele, podia sentir uma umidade maior que o normal antes de uma lágrima teimosa escorrer por sua pele. Apenas assentiu em resposta e lentamente estendeu a mão para que ele colocasse o pequeno anel.
Os dedos dele pareciam mais delicados que a própria pedra do anel tamanho cuidado que tomava. Com a pequena jóia em seu devido lugar, o menino levou a mão dela até seus lábios, a maneira terna e ainda assim intensa como sustentava o olhar era fascinante. comprimiu os lábios por poucos segundos antes de puxar a mão de para si e passar os braços por seu pescoço em um abraço apertado.
- Eu te amo. – ele sussurrou em seu ouvido. O tom de voz envolveu a mente dela, entretanto ao mesmo tempo algo apertou seu coração com muita força. Por quantas vezes teria que errar até entender que aquele era seu lugar?
Afrouxou os braços e aproximou o rosto para que sua testa encostasse-se à dele. Viu escorrer uma lágrima mais discreta que a sua por seu rosto. Deixou que o indicador passasse sobre seus lábios delicadamente, enquanto a mão dele deslizava até sua nuca. Daquela maneira era obrigada a olha-lo no fundo dos olhos e era capaz de contar cada diferente tom em sua íris. O ar que respiravam parecia diferente, e pela primeira vez não se sentia ousada por pensar no que seriam capazes de fazer juntos. Nunca havia sido tão espontâneo, as mentes funcionavam em sintonia naquele momento. A mão de foi gentil ao empurrar contra o móvel para que ela se sentasse, a boca a milímetros da dela, entreaberta, fazendo que seu hálito quente batesse diretamente contra os lábios dela.
Ela levou as mãos até a parte de trás da cabeça dele, enrolando os dedos nos macios fios de cabelo. Fechou os olhos assim que sentiu sua língua deslizar delicadamente sobre seu lábio inferior; soltou um suspiro alto antes de iniciar um beijo intenso, de saudades. Deixou que as mãos se encarregassem de deslizar sobre os ombros dele tirando seu terno, voltar a frente de seu pescoço e desfazerem o nó da gravata. Puxou a pequena tira de seda para si e deixou que caísse ao chão. A camisa já estava para fora de suas calças, botão a botão, cada movimento resultava em um contato leve entre suas peles. Fazer a camisa branca ir ao chão a fez tocar diretamente no tórax de .
Ela parou as mãos sobre o cós da calça e com isso ele percebeu que não poderia mais esperar. Os dedos que antes seguravam a nuca com delicadeza, mostraram-se firmes, e logo um beijo mais urgente começou. Completamente dopada, ao conseguiu responder a nenhum dos sussurros de a seu ouvido. A língua dele tocou a pele debaixo de sua orelha, os pequenos beijos seguiram um rastro molhado até a frente de seu pescoço; as mãos posicionadas com firmeza sobre sua cintura a tiraram dali, caminhando calmamente até a cama. Seus dedos deslizaram furtivamente pela lateral do corpo dela, provavelmente a procura do fecho daquele vestido.
jogou a cabeça para trás assim que sentiu os lábios dele deixarem uma trilha úmida por seu pescoço. Ele deslizou as mãos da maneira que pode, com calma, fazendo com que aos poucos a peça que cobria o corpo dela fosse ao chão. Sua boca desceu por seu colo deixando marcas, talvez descontrolada, segurou os cabelos dele fortemente. Foi quando os dois corpos deitaram delicadamente sobre a cama, algumas palavras ainda foram sussurradas, carinhos trocados, frio na barriga. Amor. Finalmente uma primeira vez.
A janela não havia sido fechada na noite anterior, os raios de sol invadiam o cômodo com vontade, quase que penetrando nas partes descobertas do corpo de . O perfume doce, com um toque floral, ainda entrava como veneno em seu sistema. Finalmente abriu os olhos, encontrando o quarto claro demais, e completamente vazio. Tentou esticar o corpo e realmente despertar do sono, o lado da cama onde ela havia deitado ainda estava bagunçado, jogou os pés para fora e levantou, sentindo o contato com o chão gelado. Esfregou os olhos e rumou para a cozinha, a geladeira não contava com muita coisa, e os armários também. Lembrou-se que no dia anterior havia feito as mesmas ações e tirado a mesma conclusão: precisava fazer compras.
O silêncio passou a incomodar seus ouvidos. Nunca que em um sábado de manhã a casa estaria quieta daquela maneira. Nenhum cd de rock tocando, nada de clipes na televisão. Voltou ao corredor de seu quarto, mas não para entrar em seu cômodo; a porta dela estava apenas encostada. Empurrou com cuidado encontrando tudo de maneira estranha. A cama feita, mas prateleiras vazias. Nenhuma roupa no cesto, nenhum papel sobre a escrivaninha. Entrou de uma vez no quarto, percebendo como o cheiro que tanto gostava estava concentrado ali. Nunca fora de seguir instintos, muito menos de pensar em segui-los, mas parecia certo. Colocou a mão sobre o pequeno trinco e puxou a porta do guarda-roupa para si. Vazio. Sentiu os ombros caírem e algo se formar em sua garganta. Fechou os olhos acreditando que ao abri-los mais uma vez veria tudo diferente. Errado. Apenas o papel dobrado fazia companhia a mesa. Segurou esperando que fosse apenas um recado. Abriu e deixou o ar escapar dos pulmões mais forte que antes.
Não era apenas uma mudança para a faculdade. Ela não estava mais lá. (n/a: coloque a música)
,
você mais que ninguém sabe da minha dificuldade com palavras, principalmente em entender o real significado de algumas delas.
O certo seria começar essa carta falando sobre o dia em que nos conhecemos, mas eu não lembro disso, e posso afirmar que não é por falta de memória. Devo dizer que nunca nos conhecemos, soa estranho, mas não deixa de ser verdade. Nunca fomos apresentados formalmente um ao outro, apenas nascemos sabendo de uma ligação. Eu deveria estar por perto e você deveria me acolher e proteger. Apenas isso foi dito e foi o suficiente, mas não me deixa esquecer como seria importante termos uma data especial.
Além do problema com palavras, desenvolvi uma incômoda dificuldade de olhar nos seus olhos e me manter firme, por isso não queria me explicar dessa maneira, mas acredite, foi a maneira mais fácil e menos dolorosa.
Felizmente são muitas as memórias que eu guardo dos dezessete anos que vivi, e um exemplo é a primeira vez em que seu rosto foi realmente incorporado as minhas lembranças, mas ainda não posso dizer que essa é a data especial que tanto procuro. Nesse dia estávamos com nossas mães no passeio que sempre fazíamos. Passamos o resto da vida frequentando esses lugares que as duas costumavam nos levar. Foi assim que vivi momentos felizes, que nunca consegui sentir ao lado de outra pessoa, ninguém nunca conseguiu me fazer sentir coisa parecida, e nunca consegui explicar porque. Na verdade ninguém nunca conseguiu explicar nosso vínculo.
Dias assim são difíceis de esquecer, talvez porque fiquem gravados na memória com um só propósito. Posso usar minha história como exemplo, minhas memórias serviram para alimentar minha mente nos momentos em que a tristeza simplesmente me dominava como se nada mais, a partir dali, fosse me fazer feliz outra vez. Memórias felizes são isso, persistirão nos momentos mais rudes que a vida colocar a sua frente. Assim, finalmente, posso responder sua pergunta: foram as felicidades que você me deu que me fizeram continuar.
Por muito tempo tive tudo o que mais precisava, uma bela família, amor vindo dela, e um melhor amigo. Era o suficiente e não, não poderia pedir mais, mas pedi. Queria que você me amasse de outra maneira, desde então esperei o dia em que a vida me daria a chance de me apaixonar. Essa chance esteve na minha frente por muito tempo e só percebi quando você foi embora.
Eu realmente precisava desejar que você me amasse mais? Parecia bem tarde para colocar tudo o que eu sentia para fora, você não estava mais aqui. Do que adiantaria gritar para os quatro ventos o que eu sentia?
Para o meu alívio você voltou, e eu nunca estive tão confusa. Durante os três anos em que esteve fora eu tentei voltar ao meu normal, ao normal de uma adolescente. Tentei esquecer a maldita felicidade que me preenchia só de estar ao seu lado. Tentei olhara para outros garotos, me apaixonar por eles, mas não aconteceu. Não era para acontecer.
Com a sua volta pude viver os melhores dias da minha vida, mais uma vez. Mas de que adianta se não podemos tirar disso o que mais queremos? Eu só percebi agora, tarde demais, nunca deveria ter mexido no que tínhamos de mais bonito, mais sincero, inocente e precioso. Não era para ser assim. Você não era obrigado a me amar como um homem ama sua mulher, bastava me amar, era só o que eu precisava. Infelizmente minha vontade de ser amada falou mais alto. Desculpe se não fui boa o suficiente para enxergar isso, muito menos respeitar, falhei.
Nunca será sua culpa o que acontecer comigo daqui para frente. Sei que longe de você minha vida não irá apenas se apagar, será muito pior. Será pior agora que experimentei a sensação que tanto almejei, não vejo como irei me livrar dela. Usava seu amor para me alimentar, o mesmo efeito de uma droga sobre mim, daquelas que a dependência se torna incontrolável e mais forte que qualquer instinto de sobrevivência.
Sobrevivência, mais uma palavra difícil para mim. Acredito que levarei você comigo para o resto da vida, não superestimo o que sinto por você. Tão presente, um porto-seguro. Minha confiança cega em você me faria entregar a vida nas suas mãos, e saiba, eu faria o mesmo por você. No fim da história sua única parcela de culpa é me mostrar como é bom ser amada.
Você sabe da minha tendência de desistir de tudo que não me parece fácil, principalmente quando não é da maneira que eu quero. Admito, nesse momento eu pareço estar desistindo de você, mas não é isso. Nossa vida era bem mais fácil quando éramos apenas crianças, e eu quero isso de volta, mas não posso. Vou ficar assim, tentando reconstruir tudo que tive um dia.
Por muito tempo seu cheiro vai permanecer nas minhas roupas, dentro dos meus pulmões. Esse tipo de coisa não aprendi a apagar, e também nem quero. Só não sinta raiva de mim, só entenda que você estava certo desde o começo, as coisas não eram como antigamente. Com erros aprendemos a seguir um caminho que pode não agradar, mas que com certeza tornará tudo mais fácil e certo. Quero muito que siga esse caminho.
, você foi o maior motivo para eu pensar que as coisas poderiam ser melhores. Sei que é forte o suficiente para passar por isso.
Me falta muito a aprender. Só não gostaria de confirmar que só aprendemos quando sofremos, é injusto, mas os obstáculos estão aí para isso, para ver se somos merecedores. Não posso dizer mais nada.
Dentro da terceira gaveta do seu armário vai encontrar a pasta com os documentos do apartamento, agora ele é seu.
Boa sorte com a banda, com a vida e tudo mais o que precisar.
Te amo,
Epílogo
Naquele momento não podia me sentir mais patética, isso era real, além de patética, estúpida e contraditória. Uma maldita nuvem pairava escura e pesada sobre minha cabeça, era formada de milhões de pensamentos embrenhados em lembranças, nada limpo, nada fácil. Aquela nuvem só me dificultava enxergar qualquer clareza em tudo aquilo. Se é que ainda podia existir alguma clareza. Lá estava eu, dirigindo para um encontro com aquele que eu mais queria distância. Aquele que me fez acreditar que largar tudo, e fingir nada havia acontecido, seria a melhor escolha.
Eu posso dizer com toda a certeza possível que minha vida sempre foi cheia de situações contrárias aos enredos de contos de fadas, mas nos últimos anos aquilo estava absurdamente perverso. O destino não se contentava mais em pregar peças, parecia que ele queria outra coisa, queria me ver no fundo.
Mais uma vez o semáforo ficava vermelho, eu pisava no frio e tamborilava os dedos no volante. Aquela sequência já havia se repetido incontáveis vezes. Eu poderia me esforçar para encontrar uma solução, sei que sim. Poderia encontrar qualquer caminho que seguisse para uma direção oposta aquela, não podia? Os pingos que caiam e batiam contra a lataria do carro só me deixavam ainda mais nervosa. Meus pulmões se expandiram a ponto de não caberem dentro do meu peito, meu coração já estava descompassado, sofrendo de uma taquicardia bem séria, aquilo estava acontecendo desde o momento em que decidi me encontrar com ele. Meus pés arrastavam âncoras que apenas serviam para tentar me impedir de continuar com aquilo, junto com o pouco de sanidade que ainda queria o controle dos meus neurônios.
“Não se sinta à vontade para fazer nada por mim, eu não fiz nada por você”.
FIM
n/a: Como começar uma n/a que acaba com tudo. É estranho afinal eu realmente me apeguei a essa história, cada linha e cada palavra que eu escrevi me exigiu muito. Nunca acreditei que essa fanfic fosse pra frente, só pelo simples fato de achar que não tinha capacidade pra isso. Aos olhos de alguns não ser fic do mês, ou autora do mês, signifique o mesmo que "oh, sua fic é anônima". Muito pelo contrário, eu sou muito feliz por tudo que essa fic me trouxe, desde leitoras até amigas de sair pra andar pela Paulista. Realmente, palavras tem o dom de aproximar pessoas.
Eu precisaria agradecer muita gente, e vou fazer, afinal é minha última n/a e eu mereço! Bom, em primeiro lugar a Paula, minha beta, que aceitou revisar Homecoming lá no ano passado. Cara, você é demais, sempre tão fofa, tão atenciosa, preocupada, não tenho nem como agradecer, muito obrigada por tudo, tudo mesmo. Erm, agora a primeira pessoa que divulgou Homecoming e escreveu até uma resenha, a Ray, muito obrigada! Bom, em seguida vem minhas melhores amigas, Nathália e Aline, que sempre me apoiam em absolutamente tudo! Amo vocês. A cada uma das leitoras, cada uma que perdeu alguns minutinhos comentando e elogiando toda a história, aquelas que criticaram e aquelas que defenderam a fic como se fosse delas. Muito obrigada. Tenho que agradecer minha mãe, meu irmão, meu pai, meus avós, meu cachorro e a Xuxa.
Sei que algumas devem estar querendo me matar. Oh, Deus, eles acabaram separados. Sinto dizer, mas não acabou. Sim, Homecoming tem uma continuação que por sinal eu já comecei a escrever e será bem diferente desse tom colegial que a fic teve. Só que como eu estou estudando muito para o vestibular não a postarei ainda, você precisam respirar também, me aguentar é dose.
Acho que é isso. Nunca vou conseguir agradecer o suficiente. Amo vocês!
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Indico:
Fair Play
Free Fallin'
The Gardener
Troublemaker

