I hate boys, but boys love me
Autora: Erikah Lima
Status: Em Andamento
Revisada por: Luiza Caminada
Categoria: McFly Fics
Sub-Categoria: Comédia Romântica / Longfic
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PREFÁCIO
- Ela tá comigo, ! – o empurrou.
- Parem com isso! – Eu berrava, mas acho que eu fiquei invisível e sem voz, porque esses dois não me escutam! Alguém me socorre, por favor?
- Com você? – deu um giro em torno de si. – Ela tá comigo, animal! Ela marcou comigo!
- Vocês tão falando da ? – se aproximou com aquele sorrisinho sarcástico na cara. Juro que se eu não estivesse tentando desesperadamente impedir uma briga – por minha causa inclusive – eu teria me derretido inteirinha! E claro, eu estava tentando impedir uma briga. Nesse caso, era a última pessoa que eu gostaria de ver agora.
- E o que você tem a ver com isso? – rosnou pra .
- Calma aí, amigão. Eu vou resolver esse probleminha de vocês. – apontou para e depois pra . Depois ele me puxou pelo pulso do meio dos outros dois, e passando o braço esquerdo por cima dos meus ombros, disse:
- Ela tá comigo.
Foi a gota d’água. Bastou dizer essa frase tão curtinha que de repente o bar virou um ringue de luta livre! Eu só via as cadeiras voando, os tacos de bilhar quebrando e os cacos de vidro se espalhando! SOCORRO! Ninguém além de mim, e uns bêbados que se juntaram a briga, parecia se importar com o fato dos três caras com os quais eu deveria sair, estavam acabando um com a cara lindinha do outro! Eu preciso fazer alguma coisa! Preciso pará-los de algum jeito! Pensa rápido, , tá pra meter uma cadeira nas costas de que, por sua vez, está socando .
Sem conseguir imaginar uma opção melhor, eu pulei nas costas do . A boa notícia é que parou de socar , e desistiu de jogar a cadeira em , já que eu estava em cima dele. A má notícia, é que justamente quando eu entrei na briga, a polícia chegou. Resultado: todo mundo em cana.
Com quatro palavras eu diria: mamãe vai me matar.
Mas se você está curiosa sobre como começou toda essa confusão, eu posso te explicar. Sério, sem o menor problema, até porque desse bar até a delegacia vai demorar a chegar, e eu ainda vou ter que esperar um tempo presa até mamãe arrumar um advogado... Não vai ser nada demais contar essa história pra você, se você quiser ouvir. Você quer? Então, ok. Here we go!
UM –
Tudo começou numa tarde ensolarada de setembro, quando minha mãe teve as contrações do parto, então ela soube que eu estava nascendo. Brincadeirinha! Eu não vou contar minha história desde o dia que eu nasc,i né? Aí também já é demais.
Eu vou começar essa história contando como foi o dia em que eu conheci o . Porque dentre ele, e , foi quem eu conheci primeiro. Eu nunca tinha passado por uma primavera tão quente quanto a daquele ano. Acho que estava fazendo pelo menos 60 °C. Na sombra! Em dia de calor, nada melhor que sorvete, certo? CERTO! Eu adoro sorvete. Mas outra coisa que eu adoro também é raspadinha. Pra quem não sabe o que é, raspadinha é um copinho cheio de gelo, que leva por cima um líquido cheio de corante “mancha pulmão” que tem um gostinho de fruta no final. E no calor nada melhor que gelo, né? Ainda mais com gosto de fruta.
Eu não saí de casa pensando em raspadinha, eu queria sorvete, mas quando vi o carrinho de raspadinha na praça que fica na esquina de casa, foi mais forte que eu! Eu quase corri em câmera lenta pra fazer aquele charme! Er, não. Corri feito uma desesperada, e o vendedor do carrinho me olhou como se eu fosse uma desesperada mesmo. Só que o carrinho de raspadinha estava do outro lado do gramado. Certo, tudo bem. Era bem simples, eu só precisava atravessar o gramado e chegar à Terra Prometida da Raspadinha, certo?
Errado.
Porque justamente no gramado entre mim e o carrinho, havia um grupo de garotos jogando futebol americano. Como eu ia atravessar em segurança, se os meninos pareciam mais uma manada de búfalos – não que eu já tenha visto uma pessoalmente, mas enfim – correndo atrás de uma bola? Sem chance. Eu teria que me conformar e voltar com o rabo entre as pernas pra casa? JAMAIS! Por isso respirei fundo, segurei a bolsinha com o dinheiro junto ao peito, e corri! Saí correndo pelo meio do jogo feito uma doida desvairada, desviando de alguns caras, pulando por cima de outros... Me senti tipo o Flecha dos Incríveis, juro! O fato é que consegui chegar ao carrinho de raspadinha! Ignorando os olhares de “tão jovem, tão doida” do vendedor eu comprei minha raspadinha feliz da vida. Foi só colocar o gelinho na boca, que eu senti o característico gostinho de xarope pra tosse saborizado com tuti-frutti. Delícia! Raspadinha comprada, só precisava atravessar o gramado de volta. Seria fácil não?
Eu passei sem colisões uma vez, podia passar a segunda!
O quão enganada eu estava...
Quando eu parti na minha corrida alucinante, na tentativa de chegar ao outro lado o mais rápido possível, eu pensei que conseguiria desviar dos caras, e consegui de fato. Mas não de todos eles. Um ficou no meu caminho. Um desgraçado, ficou bem no meio do meu caminho! Na verdade, ele praticamente correu na minha direção, então nós nos chocamos, comprovando uma das leis de Newton que diz que a força aplicada sobre um corpo volta com a mesma intensidade mas em sentido contrário. Trocando em miúdos: eu voei pra um lado e o pra o outro.
Ele estava sem camisa, e todo suado. Cara, tudo bem que ele é bem gostosinho, mas menino suado e sem camisa só é bom de ver, não de encostar! Sem falar que quando ele bateu em mim eu virei minha raspadinha na blusa. Que era branca. Digo era, porque a camiseta ficou com uma mancha vermelha enorme! Então eu estava lá no chão, com a camiseta manchada, e ele simplesmente se levantou gritando:
- VOCÊ É LOUCA OU O QUÊ, GAROTA?! Você não pode sair por aí correndo no meio de um jogo! Se não acontece isso! – Apontou pra mim, que ainda estava no chão.
Enquanto o gritava eu só fiquei lá sentada no chão, esperando-o acabar de falar, porque na boa, ele ficava mó lindinho todo nervosinho, e eu particularmente não estava com a menor vontade de brigar. Quando o percebeu que eu não ia dizer uma palavra, ele parou de falar e colocou as mãos nos quadris, umedeceu os lábios e perguntou:
- Você está bem?
Ora vejam, uma atitude gentil!
- Eu tô sim. – Eu respondi, porque eu realmente achei que estava.
O caso é que eu não tinha notado a dor no meu pulso até apoiar a mão no chão pra me levantar.
- Ai! – Eu gritei sentando no chão de novo.
- O quê? – Ele correu pra mim e se agachou ao meu lado, todo preocupado. Se ele não tivesse gritado comigo há um tempinho atrás, eu iria achar fofinho.
- Meu pulso. – Resmunguei.
- Será que quebrou, ou torceu?
- Não sei, mas eu acho que caí por cima dele. – Elevei o pulso e segurei o antebraço direito, com a mão esquerda.
Ele avaliou meu pulso um tempinho, notando que já estava meio inchado.
- Você precisa de um médico. – O falou, coçando a nuca.
- Não tem problema, minha casa é no fim da rua. Se você me ajudar a levantar, eu vou pra casa.
Ele me ajudou a levantar, prontamente. Eu bem notei que o estava fazendo cara de culpado, provavelmente por ter gritado comigo, quando meu pulso estava quebrado.
- Se você quiser eu te levo em casa. – Ele falou meio encabulado.
- Eu sei o caminho. – Desculpa, mas ele gritou comigo, e por mais lindinho que ele fosse, não dava pra perder a oportunidade.
Ele sorriu.
- Deve saber mesmo, já que você mora lá, não é?
- Pois é.
E pronto. Acabou o assunto. Cri-cri eterno pra nós dois.
Ele ficou lá olhando pro chão, e eu fingindo que estava interessadíssima no meu pulso.
- Desculpa. – Ele falou finalmente.
- Pelo quê? – Qual é, fazer um charminho não tira pedaço.
- Por ter gritado. Eu fui idiota.
- Concordo.
Ele sorriu de novo. Sorriso bonito, hein, ?
- Agora, será que eu posso levar você em casa? – Ele perguntou, segurando o cotovelo do meu braço bom.
- Não.
- Por que? Eu já te pedi desculpas.
- Eu não levo desconhecidos em casa – Sorri.
- Oh, certo. Eu sou o , e você?
- .
Ele me deu um beijo no rosto.
- Pronto, , agora a gente se conhece. Posso te levar em casa?
- Agora pode.
Eu sei que essa do ”não levo desconhecidos em casa” foi péssima, mas eu queria saber o nome dele, e meu pulso estava doendo, então eu não pensei em nada melhor. Eu percebi que não fala muito, porque ele me levou até em casa no mais completo silêncio. Eu estava começando a desanimar, porque achei que ele fosse pedir meu telefone ou algo, mas ele estava tão calado que eu baixei meu fogo, já pra não frustrar minhas expectativas.
- É aqui. – Falei parando na porta de casa.
- É perto mesmo. – Ele disse.
- Eu disse. – Sorri. – Agora eu vou entrar.
- Não, espera! – Ele puxou meu braço bom.
- O quê? – Já estava ansiosa.
- É... Eu queria seu telefone.
- Meu telefone? – Olha eu fazendo doce de novo!
- É, quer dizer, se você puder. Eu queria te ligar pra saber se ficou tudo bem. – Apontou pro meu pulso.
- Ah, sim. Eu te dou meu telefone, mas eu duvido que ligue mesmo.
- Por quê? – Ele fez uma cara confusa.
- Porque eu aposto que quando você dobrar aquela esquina ali, vai esquecer de mim fácil.
Terminei de salvar meu número, e o devolvi seu celular. Ele o colocou no bolso, chegou pertinho de mim, e segurou meus quadris. Muito perto, , muito perto.
- Você não deveria se subestimar tanto. – Ele tocou a ponta do meu nariz e saiu andando.
Eu fiquei na porta olhando-o voltar para o gramado.
Bem, talvez ele fosse ligar mesmo. Ou talvez não. Sabe como os meninos são, não é? A maior fonte de diversão deles é enrolar a nós, meninas. Esses desgraçados do inferno! Mas como diria minha mãe, ruim com eles, pior sem eles. Eu não precisei engessar o pulso, nem colocar tala nem nada disso. Só precisei por no gelo, e ficou tudo bem com ele. O tempo passou, e não, não me ligou. Assim como eu esperava. Mas enfim. Azar o dele, não é? Ele era gostosinho, e aquele corpinho podia fazer um grande estrago em mim, mas a escolha foi dele. Uma pena.
Então um dia mamãe saiu pra fazer compras no supermercado. Como somos só nós duas, já que ela e papai são separados, eu fiquei sozinha em casa. E deixa eu te contar o que eu faço quando fico sozinha. Eu ligo o som no máximo e fico dando uma de louca em casa, gritando com todo o fôlego dos meus pulmões as letras das músicas que eu gosto. Nesse dia não foi diferente. Coloquei 3OH!3 pra tocar, e saí dançando pela casa. Bem no refrão de 'My First Kiss', alguém tocou a campainha. Ainda dançando loucamente, eu fui atender. Abri a porta e dei de cara com quem? Com quem? Com quem? Se adivinhar ganha um doce. Sim, sim, ele mesmo.
O entregador de pizza em pessoa! A-há! Peguei você, né? Mas não, nesse dia não foi até a minha casa, e nem ligou. Mas eu me encontrei com ele, acidentalmente.
Só quando a pizza chegou, eu lembrei que estava sem coca em casa. E saiba, não há vida sem coca. Eu bem poderia esperar mamãe chegar do mercado com litros e litros de coca, mas a pizza esfriaria, e não há nada que eu odeie mais do que pizza fria. O jeito era ir à casa de lanches e comprar uma latinha. Eu fui caminhando mesmo, já que era pertinho. Na volta, quando eu estava super distraída ouvindo meu iPod, eu esbarrei num cara. E sim, dessa vez era o .
- Cuidado aí, garota! – Ele falou, me segurando pra eu não cair de bunda no chão.
- Menino, você tem que parar de esbarrar em mim, sabia?
gargalhou.
- Fui eu que esbarrei em você, então?
- Vai dizer que não?
Ele sorriu sem mostrar os dentes, e balançou a cabeça pros lados, negativamente.
- Tão inocente. Mas então, o que está fazendo aqui, ?
- Eu moro aqui! Brincadeira, eu fui comprar coca pra comer com pizza. Tá afim?
Impulsiva? Imagina!
- Oh! Eu quero sim. Tô morrendo de fome. – Topou de primeira? Ora, vejam!
- Ok, então a gente tem que voltar e comprar mais coca, porque eu só comprei uma latinha.
Fomos pra minha casa, comemos pizza, e tomamos coca. E conversamos também. Conversamos sobre tudo que se pode conversar. Era fácil gostar do . Ele era engraçado e tinha uma paciência incrível pra me escutar! Sério, eu tagarelava e tagarelava e ele ouvia tudo com um ar super interessado. Ria algumas vezes, outras me fazia rir.
- Sabe o que eu odeio? – Perguntei repentinamente, no momento em que as risadas cessaram, e as palavras acabaram.
Estávamos em cima da minha casa. Deitados de barriga pra cima, com os topos das nossas cabeças unidos, olhando pro céu estrelado.
- O quê? – perguntou.
- Esperar. – Respondi.
ficou em silêncio um tempo, e eu achei que ele tivesse entendido o recado que eu queria passar. Quer dizer, garotos são lerdos, eles nunca entendem o que nós queremos dizer, e numa palavrinha só ele entendeu que eu estava falando que eu tinha odiado ele ter dito que ia me ligar, quando ele nunca ligou? Será possível?
Se ele tivesse entendido, ficaria chateado, ou no mínimo se sentiria coagido, mas assim como eu esperava ele não entendeu. Como eu disse, meninos são lerdos. O motivo do silêncio foi que enquanto eu pensava se ele era lerdo ou não, se virou e colocou seu rosto em cima do meu. Depois ele afastou o meu cabelo, e me beijou. Menina, deixa eu te dizer, quando ele me beijou eu só lembrei daquela cena do homem aranha com a Mary Jane, quando ela o beija de cabeça pra baixo, sabe? É estranho.
Quer dizer, beija muuuuuuito bem, sem dúvidas, mas eu nunca tinha beijado ninguém ao contrário, por isso foi estranho, sacou? Seja como for, naquele momento eu me senti tão apaixonadinha, sabe? Incluindo o som de sinhinhos, cheiro de flores, e oco no estômago. Sem falar das pernas bambas, e o coração batendo forte.
Depois desse beijo em cima da minha casa, passou a me ligar, e a gente saiu por umas duas semanas. Tava tudo tão bom, que eu juro que comecei a gostar dele de verdade, com um pezinho no amor. Ok, talvez uma perna inteira. Não me culpe se ele era divertido, beijava bem, e realmente mexia comigo. Sentiu que vem o ‘mas’ aí? Porque ele está a caminho. era divertido, beijava bem, mexia comigo, mas ele guardava um segredo.
Desde o jogo em que nós nos esbarramos pela primeira vez, eu nunca tinha me perguntado o porquê de frequentar meu bairro, já que ele não mora lá. Eu sempre achei esquisito, mas não relevante. Ele podia ter algum amigo que morasse lá. Na verdade, conhecia alguém no meu bairro, mas não era um amigo.
Meu bairro é como se fosse divido em dois, e a linha divisória é a praça. Do lado de cá, onde eu moro, eu conheço todo mundo, mas do lado de lá eu não falo com ninguém. Eu nem frequento o outro lado do bairro. Ocorre que especificamente, naquela noite, eu fiquei com insônia. E quando eu fico com insônia, eu só consigo dormir quando caminho. Cada doido com sua mania, não é? Além disso, eu acredito muito em destino, então quando algo dentro de mim me mandou caminhar pelo lado desconhecido do bairro, eu sabia que havia algum propósito. Eu estava certa nos fim das contas.
De longe, eu ouvi um som de música, e sem querer acabei o seguindo. Era uma noite de sábado, noite em que eu tinha marcado de sair com o , mas ele cancelou dizendo que estava doente. Doente? Pois sim. A música foi ficando mais alta, e eu vi de onde ela vinha. Aparentemente estava tendo uma festa numa das casas da vizinhança. Sorri involuntariamente quando percebi isso. Uns garotos estavam no jardim da casa, rindo e bebendo, então eu me aproximei.
- De quem é a festa? – Perguntei.
- Hey, gatinha! – Um dos caras me cumprimentou. – A festa é da Vivian, mas se quiser pode entrar, eu te convido!
Pela voz enrolada, ele provavelmente estava bem bêbado. Agradeci, mas não queria entrar. Eu não conhecia essa tal de Vivian, não se pode sair por aí entrando em festas de gente desconhecida. Mas minha intuição quase gritou lá no fundo da minha consciência que eu devia entrar, nem que fosse por alguns instantes. Que mal faria?
Instantes.
Não foi preciso muito mais que isso. Eu mal coloquei o pé na casa, já vi engolindo uma garota no sofá da sala. Meu primeiro impulso era correr pra cima deles e arrancar a cabeça dos dois mas, o choque foi tamanho, que eu não tive presença de espírito de dar um soco na cara do e sair dali. Então eu só fiquei lá, parada na porta da sala, com os olhos arregalados, e uma bola na garganta.
Só que eu não faço o tipo que fica parada assistindo enquanto toma um par de chifres. Eu cheguei mias perto deles, e os separei empurrando-os pelos ombros. tomou um susto e a garota me xingou de alguma coisa. Algo como: “sua vadia”.
- Oi, ! Não vai me apresentar sua amiga? – Sorrindo por fora, morrendo por dentro.
Ele não falou nada. Abriu e fechou a boca várias vezes, mas não conseguiu falar.
- Não? – Disse irônica. – Então eu me apresento sozinha.
Me virei pra garota com o sorriso mais largo que consegui dar.
- Oi, eu sou a . Eu não sei se o te falou, mas ele está saindo comigo.
Inesperadamente a garota gargalhou. Depois com a sobrancelha arqueada e com uma cara estúpida de deboche disse:
- Impossível. Ele é meu namorado.
Fiquei de pé. Ou eu saía andando ou batia nos dois. E levando em consideração que a garota tinha uma cara de barraqueira dos infernos, era melhor sair andando. Eu não brigo por macho não! Tenho meu orgulho.
- Ok, entendi. Fique com seu namorado então. Eu vou indo. – Intentei sair andando, mas antes me virei pro - Foda-se. – Falei com um sorriso nos lábios, e só então saí andando.
Eu tive que engolir minha bílis muitas vezes naquela noite. mentiu pra mim, e pra garota. Não que eu tivesse muita pena dela, porque ela era bitch de marca maior. Mas mesmo assim não era justo. Não me deixei chorar, eu não quis chorar. Não por aquele desgraçado! Saí correndo pra fora daquela festa dos infernos, e continuei correndo pra casa. veio atrás de mim, eu o ouvi me chamar várias vezes, mas não parei. Infelizmente, ele corria mais que eu, por isso conseguiu me alcançar, e me puxou pelo braço, me forçando a parar.
- Eu posso explicar! – Ele gritou pra mim.
- Então faça! – Eu gritei de volta.
Mas ele ficou calado.
- Vamos, explique! – Gritei mais uma vez. – Você disse que pode explicar, . EU ESTOU ESPERANDO!
- OK! – Ele falou me soltando. engoliu, e respirou um pouco, colocando as mãos nos joelhos. Voltando a ficar de pé em seguida.
- Se você não falar, eu...
- Aquela é Vivian, e eu já a namorava quando te conheci. – Eu queria uma explicação, mas não tão direta. Quando ele disse aquilo, meu ar ficou na garganta e eu abri a boca involuntariamente.
Então eu não era a traída, e sim a menina responsável pela traição. Eu me senti tão suja e tão usada. Eu me senti horrível, e dessa vez não me segurei. Lembrando das aulas de defesa pessoal que mamãe tinha pago pra mim há um tempo atrás, eu enfiei um soco no queixo de , e saí correndo.
Eu passei o dia seguinte chorando, enquanto me ligava, mandava SMS, mensagem no Facebook e até sinal de fumaça! Ele insistiu por duas semanas sem parar. Mas eu estava triste demais pra falar com ele de novo. me magoou demais.
E foi aí, quando eu estava com o coração quebrado e a alma partida em duas, que entrou em cena.
DOIS –
Eu não tinha ideia do quanto gostava de , até ele fazer o que fez. Eu fiquei tão mal, mas tão mal, que cada vez que eu pensava nele, tinha que me apertar bem forte pra não me despedaçar. Mentira. Eu não sou a Bella Swan, né, gente? Mas eu fiquei mal mesmo. E desde que ele parou de tentar se desculpar, eu não sabia como reagiria caso o encontrasse de novo. Só que, conhece aquela expressão: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?”. Pois é. Mais cedo ou mais tarde eu iria me encontrar com o .
Eu, sinceramente, esperava que fosse mais tarde, mas as coisas nem sempre são como nós queremos.
Eu estava tendo um daqueles dias, em que o universo resolve conspirar contra você e tudo, simplesmente tudo, dá errado! Nesses dias, tudo que você quer é ficar em casa, enfiada na cama, e não sair de lá até que o dia acabe. Não sei como você o chama, mas eu chamo de TPM. Pior do que estar de TPM, é estar na fossa e de TPM. Ao mesmo tempo. Meu psicológico estava em frangalhos. Malditos hormônios!
De muito mau humor, eu saí pra comprar absorventes. Como eu disse, eu estava de TPM, e uma mulher prevenida vale por duas. Como o mercado do meu bairro não vende a marca que eu uso, eu fui dirigindo até o supermercado que tem a bendita marca. Ligando o som do carro, estava tocando “Cry” da Rihanna, e você, minha amiga, deve saber que mulher de TPM começa a ver sinal em tudo. Pelo menos comigo é assim! Foi só ouvir: “Now I’m in this condition, and I got all the symptoms that a girl with a broken heart, but don’t matter what you’ll never see me cry!”, que pronto, eu comecei a cantar loucamente, como se fosse o hino nacional! E eu segurava o volante, e batia no peito. Hoje eu me acabo de rir lembrando disso. Mulher de TPM apronta cada uma, que só Jesus!
Enfim, quando eu cheguei no supermercado estava de alma lavada, né? Depois da sessão “afogue suas mágoas com a música” eu até me senti melhor. Então caminhei mais leve pelo mercado procurando absorventes e chocolate. Eu precisava de muito chocolate. Só que antes eu resolvi, não sei por que motivo, passar na sessão de CD’s. Mentira, eu sei porque passei lá. Eu queria o CD da Rihanna que tinha a música. Você deve estar pensando: não era mais fácil baixar? Sim, era. Mas pra baixar eu ia ter que esperar chegar em casa, e eu queria ir pra casa ouvindo 'Cry' no repeat. Então, quando eu estava lá, concentrada em procurar o CD, ouço alguém dizer:
- Oh, meu Deus! , é você?
Eu reconheci a voz na mesma hora. Mas mesmo assim levantei a cabeça, em choque, só pra confirmar que realmente era o . Engoli em seco, e finalmente descobri como reagiria quando o encontrasse. Eu fiquei totalmente congelada, dos pés à cabeça. Estática e em silêncio. Diante disso, continuou falando:
- Que pergunta idiota, é claro que é você! – Ele tentou me abraçar, mas eu me afastei.
Ele ignorou isso.
- Eu tentei te ligar tanto, . Eu terminei tudo com a Vivian, eu quero ficar com você! – Dessa vez, tentou segurar minhas mãos, mas eu as puxei pra longe. – Não faz assim, por favor.
Continuei calada.
- Fala alguma coisa.
Eu não sabia o que falar. E mesmo que soubesse, não poderia. Tinha um nó na minha garganta, um dos grandes. Eu não queria falar com o . Eu não queria nem olhar pra ele, por isso eu precisava dar um jeito de sair dali, urgentemente! Olhei em volta tentando achar alguma solução, como se eu fosse encontrar nas prateleiras algum pacote etiquetado como: “solução para problemas instantânea: adicione água quente e espere três minutos.”
Respirei fundo. E então avistei a minha solução. Ela não estava num pacote, estava andando distraidamente na minha direção, e usava calças.
- Desculpa, , mas eu já te superei. Esse é meu namorado. – Eu puxei o garoto pelo braço, e o coloquei ao meu lado. Ele fez cara de confuso, e eu voltei a falar antes que ele pusesse tudo a perder.
- Amor, esse é o . O cara que eu te falei. Aquele que ficou comigo quando ainda tinha namorada, que me enrolou, me enganou e provavelmente estaria mentindo pra mim até hoje se eu não tivesse descoberto por conta própria.
Parecendo entender, o garoto entrou no jogo.
- Eu sou , cara. O namorado dela. – Ele disse sério. Bem esperto de sua parte dizer o nome. Tratei de memorizar rápido.
- É, , some daqui. O está comigo, e ele vai te bater. – Falei sem pensar. É bem óbvio que se partisse pra briga, não ia revidar. A gente nem se conhecia, como ele ia entrar numa briga por mim?
- Ele que tente! – zombou. – Esse cara nem tem músculos, !
- É, mas ele tem a mim. – Dito isso, eu fiquei de costas pro e de frente pra . Sem palavras eu disse: “desculpa”, e depois me pendurei em seu pescoço, beijando-o.
Beijar foi diferente. Eu senti uma corrente elétrica passar dele pra mim, através do contato de nossas línguas. Eu posso dizer que já beijei muitos desconhecidos mas, sob aquelas circunstâncias, era o primeiro. Pelo visto ele gostou do beijo tanto quanto eu, porque ele apertou minha cintura com força, e me empurrou contra a estante de CD's, fazendo barulho. Eu me forcei mais contra o peito dele, e por um momento quase esqueci que estava lá, assistindo tudo. Quase.
Quando me dei conta de que estava me pegando com um cara na sessão de CD's de um supermercado, na frente do meu ex, eu afastei o e, quando olhei, não estava mais lá. Ótimo.
- Desculpa por isso. – Falei me recompondo.
soltou uma risada.
- Desculpa? Pode fazer isso quando quiser, gatinha.
Sorri involuntariamente. Eu sempre sorrio quando me chamam de gatinha, vai entender! Eu acho meio engraçado, sei lá.
entendeu o sorriso como um incentivo e me beijou de novo. Foi um beijo, curto. Apenas um toque de lábios, mas a corrente elétrica estava lá mesmo assim. Senti vontade de beijá-lo mais, mas fiquei com medo. Eu não queria me envolver. Gostar de e me machucar de novo.
- Desculpa, eu preciso ir. – Falei me afastando.
- Ei, calma. – Ele falou me segurando.
- Eu preciso mesmo ir. – Falei me desvencilhando.
- Me dê seu telefone! Eu quero falar com você pra ver se está tudo bem. – Você teve um deja vu? Porque quando falou isso, eu tive.
- Olha, . – Falei depois de um suspiro. – Você foi muito legal me ajudando com esse mané do ... Mas sabe o que é? Esse rolo todo com ele começou exatamente assim. Ele me pedindo o telefone porque queria ligar pra saber como eu estava depois.
sorriu.
- Então, fique com o meu número. Você me liga.
- O quê?
- Eu sou um ótimo ombro pra você chorar, viu?! Se você precisar de mim, eu vou estar bem aqui. – Ele falou com um sorriso no rosto e tanta ternura na voz, que eu quase me derreti. TPM sucks! A gente fica muito carente. Eu sorri e lhe entreguei meu celular.
Quando nosso coração está quebrado, tudo que precisamos é alguém que nos coloque no colo e cuide da gente, que nos acalente e cole nosso coração de novo. Foi isso que o fez comigo. Aos poucos, eu fui deixando ele entrar na minha vida. Deixei que ele me guiasse por onde andar, o que fazer. Me envolvi com ele, e posso dizer que o amei. Muito. Mas , pra mim, talvez por ter me cuidado tanto, era só um amigo que eventualmente eu beijava. Ele me fazia bem, mas eu não o via como namorado. E me sentia culpada por isso, porque é doce, gentil e paciente. Ele me ouviu, me aconselhou. E me colocou de pé novamente. Por que eu simplesmente não o amava o suficiente pra namorá-lo? Pra ficar com ele de verdade, não só trocar uns beijinhos de vez em quando? Ninguém manda no coração, não é mesmo? conseguiu me fazer esquecer , mas não conseguiu me fazer amá-lo. Só que não iria me esperar pra sempre. Eu deveria saber disso.
Quando meu telefone tocou naquela tarde, eu estava terminando de pintar as unhas. Atendi com todo o cuidado pra não borrar. Era , dizendo que queria me apresentar à uns amigos. Me assustei no início. Quer dizer, apresentar aos amigos? Já? Quanto mais fofo era, mais culpada eu me sentia. Confesso que passou pela minha cabeça dar uma desculpa e não sair com eles, mas mesmo assim eu topei.
Decidirmos ir ao cinema todos juntos e eu lhe asseguro, não tem coisa mias divertida que sair com cinco garotos ao mesmo tempo. Meninos não são como as meninas, que te excluem ao máximo, eles integram você, te fazem sentir parte do grupo. O filme não era legal, mas foi muito engraçado com os cinco comigo. Eles ficaram fazendo bagunça na sala do cinema, tanto que chamaram o lanterninha pra tirar a gente da sala!
- Eu nunca fui expulsa de uma sessão! – Falei às gargalhadas.
parecia feliz por eu estar me dando bem com os amigos dele.
- Você está gostando mesmo? – Ele falou perto do meu ouvido, antes de beijar meu rosto.
- Muito! – Falei sinceramente.
sorriu e me beijou, mas fomos atingidos por uma chuva de pipocas.
- Procurem um quarto! – Um das caras falou.
- Não sejam chatos! – falou me abraçando por trás. – E vamos comer.
No fim do dia, eu me senti feliz por não ter recusado sair com os amigos de . Mesmo que pra mim parecesse um passo quase maior que a perna. Como eu disse, eu ainda via apenas como um amigo beijável. Mas decidi me esforçar pra gostar dele de verdade. Eu sentia que era o cara certo pra mim.
Quando os meninos foram embora, eu continuei no shopping. Mamãe me ligou dizendo pra eu esperar por ela, porque nós faríamos algumas comprinhas. se ofereceu pra esperar mamãe comigo, mas eu não deixei. Tudo ok eu conhecer os amigos dele, mas ainda não estava na hora de apresentar o novo namorado, né?
Olhei as vitrines, entrei em algumas lojas, mas como quem ia pagar era mamãe, não comprei nada. Cansada de andar de um lado pro outro, me sentei num dos banquinhos que ficam no meio do shopping. Um cara passou por mim, e então voltou. Sentou ao meu lado, e ficou me olhando. Meio incomodada, eu me virei pra ele.
- O quê? – Perguntei.
Ele só levantou os braços como se dissesse “não fui eu”, e eu voltei a olhar pra frente. Senti que ele ainda estava olhando pra mim e mordi o canto do lábio inferior por dentro.
- Eu tô suja? Quer dizer... Tem alguma coisa errada com o meu cabelo ou o quê?
O carinha sorriu de lado, levantou um pouco o queixo e disse:
- Você está perfeita.
Não sorrir foi impossível.
- Brigada. – Falei, olhando pra baixo.
- Não fique envergonhada. – Ele segurou meu queixo, e o ergueu me fazendo olhar pra ele. – Você tem que se orgulhar de ser tão linda, menina.
Sorri mais abertamente.
- Nossa, para de fazer isso comigo ou eu morro! – Ele levou a mão ao coração como se doesse.
Depois ele tocou meu rosto, e se inclinou pra frente. Ele ia me beijar? Assim, sem nem me dizer seu nome? Céus! O que eu tô dizendo?! Eu não poderia beijá-lo! Eu estava com , e eu não faria com ele o mesmo que fez comigo.
- Eu tenho que ir. – Falei tirando a mão do cara do meu rosto.
Ele sorriu de lado novamente.
- Tudo bem. Mas eu posso saber seu nome?
- . E o seu? – Respondi me levantando. Aguardei que ele me dissesse seu nome, mas o que ele disse foi:
- Se o destino fizer a gente se esbarrar de novo, você ganha um nome e um beijo.
Tive que me segurar pra não cair, e saí quase correndo de perto dele, sem conseguir evitar um sorriso.
Mamãe demorou mais do que avisou, e eu tive que ligar pra ela pra saber por onde a madame andava. Odeio esperar. Primeiro ela não atendia o celular de jeito nenhum. Depois quando eu finalmente consegui falar com ela, foi pra ouvi-la dizer que não dava pra falar porque apareceu uma reunião de emergência no trabalho. Custava ter avisado antes? Assim eu não teria esperado duas horas à toa. Maravilha. Com um shopping quase fechando eu teria que dar um jeito de voltar pra casa. Talvez de ônibus, mas aquela hora eu tinha medo, por isso fui pra frente do shopping pegar um táxi. Mas tinha tanta gente quase se matando pra pegar os que ficam lá na frente que eu resolvi chamar o pra me buscar. Só que, surpresa, assim que eu disquei, o celular descarregou. Ótimo. Muito bom mesmo!
- Droga. – Resmunguei pra mim mesma.
- Buh! – O cara de mais cedo falou no meu ouvido. E se a intenção dele era de me assustar, conseguiu. Eu dei um pulo pro lado, e ele gargalhou.
- HAHA, muito engraçado. – Reclamei, cruzando os braços.
- É incrível como você consegue ficar linda até quando está com raivinha.
- Escuta, sem elogios, ok? Eu estou aqui largada sem ter como voltar pra casa, tem essa fila enorme pros táxis, minha mãe está trabalhando, e eu não consegui falar com meu namorado. Então, sério, não é hora de fazer gracinha.
- Seu namorado é um imbecil de te deixar sozinha aqui, sabia?
Olhei pra ele sem responder.
- Os namorados têm que cuidar bem de namoradas lindas como você, ou coisas podem acontecer.
Estreitei os olhos.
- Coisas?
Ele sorriu de lado, daquele jeito que eu só vi ele sorrir.
- Aham. Tipo isso.
O garoto me beijou. E eu deixei. Era errado, mas ele estava muito cheiroso, e muito gostoso. E ele falava o tempo todo que eu sou linda. Não que o não fizesse isso, mas quando esse cara falava era diferente. Sem contar que quando ele sorria de lado, fazendo aquela carinha de mal, eu ficava com os joelhos bambos. E sabe a sensação de eletricidade que eu sentia com o ? Bom, com aquele garoto eu tive sensação de fogo. Fogo em brasa, pra ser mais precisa. Assim que a língua dele tocou a minha foi combustão instantânea. Me senti quente como se estivesse com uma febre de 40°c. Por Deus! Era muito bom!
Cedo demais, ele parou de me beijar. E só então eu percebi que precisava respirar, e percebi também o que tinha acabado de fazer. Eu tinha traído e ele não merecia isso.
- Meu Deus! O que eu fiz? – Falei em choque colocando as mãos na boca.
- Você me beijou. – O cara falou. – E agora você tem direito a um nome: .
Eu não sabia o que fazer, se ia ou se ficava. Se corria pro ponto de ônibus ou continuava esperando o táxi. Eu estava arrependida de ter beijado o . Eu não queria magoar o . E agora eu estava pensando em mentir pra ele. Eu era horrível!
Afundei o rosto nas mãos, à beira do desespero.
- Calma, menina. Se você se preocupasse tanto com seu namorado, não teria deixado eu chegar perto de você.
- Cala a boca! – Minha voz saiu quase como uma súplica. Eu não queria ouvir o que eu já sabia.
- Ei – Ele tocou meu rosto de novo.
Olhar pra ele com aquele sorriso cínico no rosto me fez querer sorrir também. Se eu estava ferrada, do que ia adiantar ficar me martirizando? Afinal, bagaça pouca é besteira.
- Quer saber? – Falei já sorrindo – Me leva pra casa.
Naquela noite eu só beijei mais uma vez, na hora de me despedir. Eu sei que fui louca de pegar carona com um desconhecido, mas eu só pensei nisso quando já estava em casa deitada na cama, prestes a dormir. Mas como tudo acabou bem, sem problemas. Ou melhor, quase sem problemas, porque eu teria que ter uma conversa bem difícil com o no dia seguinte. Eu não consegui dormir, pensando em como eu fiquei com medo de apresentar à minha mãe. Como eu não queria que aquilo ficasse sério, enquanto ele me apresentava à seus amigos, e era tão paciente e gentil e doce e bom comigo.
A culpa veio com tudo pra cima de mim, e eu quase pensei em mentir pra ele e fingir que estava tudo bem. Quais eram as possibilidades de eu ver o de novo? Mas merecia saber que eu não era o anjo que ele pintava, e que eu era uma filha da mãe por ter feito aquilo com ele. Eu pensei em também, e me perguntei se ele tinha se sentido pelo menos um pouco como eu estava me sentindo naquele momento. Pensar em tudo me fez chorar, e chorar me trouxe o sono. E mesmo sem querer, acabei dormindo.
No dia seguinte eu acordei me sentindo uma covarde por não querer ver o , mas juntando uma coragem que eu não tinha, eu o pedi que viesse à minha casa. Quando chegou, tentou me beijar, mas eu desviei.
- O que houve? – Ele perguntou, preocupado.
- Eu preciso falar com você. – Respondi, incerta.
se sentou no sofá da sala, e colocou o celular na mesa de centro. Respirei fundo e comecei a contar o que aconteceu depois que ele deixou o shopping. Ele ouviu tudo silenciosamente, apenas se levantando pra ir olhar a janela, assim que eu acabei de falar. Meus olhos estavam marejados, e eu estava com o coração apertado. Enquanto permanecia em silêncio, o celular dele vibrou em cima da mesinha. Ele não se virou pra olhar, e eu o peguei. Havia uma nova mensagem de texto. De costas pra mim, finalmente falou.
- Você se orgulha disso, ? De ter feito comigo o mesmo que fez com você?
Eu abri a mensagem pra ler e continuou falando.
- Você acha justo? Depois de tudo que eu fiz por você? Você acha que você foi justa?
Quando li a mensagem, fiquei sem ação. Porque enquanto eu estava morrendo de culpa por ter traído , ele fazia apostas. No SMS lia-se:
“Hey, cara! E aí? Foi legal conhecer sua namorada ontem, ela é legal!” – Essa parte fez meu coração doer. Mas quando eu rolei a página pra ler o resto, eu quis matar o .
“Mas ó, quero só ver quando você vai pegar ela de jeito, hein! Se liga que faz parte da aposta, e tá valendo uma grana isso!”
- RESPONDA! – gritou pra mim, e eu continuei com os olhos na tela do celular dele.
- Na verdade, eu acho bem justo. – Falei calmamente.
se virou pra mim novamente, e veio andando na minha direção.
- Você não vale nada! – Ele cuspiu entre dentes.
Eu sorri e disse:
- Então nós combinamos, porque você vale menos ainda. – Fiquei de pé. – Isso aqui é o quê?
passou os olhos na tela, e se desarmou.
- , eu posso explicar!
- Frase clássica. Mas eu estou cheia dela. Então, , sai daqui!
- Mas eu...
- Sai! – Falei baixo e firme. E então ele se foi.
Eu me senti tão idiota... Mas eu estava apenas decepcionada com o . Eu não esperava essa atitude dele, só que eu não senti aquela dor que eu senti quando me deixou, por exemplo. Depois de um longo suspiro, eu subi as escadas, e estava me preparando pra passar um dia depressivo enfiada na minha cama, quando ouvi uma buzina de carro. Era tão chata e insistente, que me obrigou a olhar na janela pra ver quem era.
.
TRÊS –
Eu passei duas semanas apaixonadinha pelo , quase um mês sendo “curada” pelo , e um dia enlouquecendo com o . Enquanto era o amor e o equilíbrio, veio única e exclusivamente para me confundir. Na manhã em que ele parou na minha porta, eu não tive tempo de me sentir arrasada. não deixou.
- Eu sei que você está aí dentro, eu vi um cara sair daí! – Ele falou batendo na porta, enquanto eu tentava ignorá-lo. - Lindinha, se você não abrir, eu vou soprar, soprar...
Antes que ele acabasse a frase, eu abri a porta.
- Até sua casa derrubar. – falou rápido, com o mesmo sorrisinho cínico de ontem a noite.
- Não é uma boa hora, acho melhor você -
- Aquele que saiu daqui era seu namorado? – empurrou a porta e entrou em minha casa sem ser convidado. Eu teria pouco tempo pra me acostumar com o jeito expansivo dele.
Pendi a cabeça pro lado, sem a menor vontade de falar sobre o assunto.
- Ah, saquei, era ele sim! O que achou de ser corno? – O sorrisinho cínico diz 'oi' pra você.
- , é sério. Eu não sei o que você veio fazer aqui, mas eu preciso que vá embora.
- Mas eu vou embora, lindinha. Não se preocupe.
- Ótimo.
- Mas você vem também. – se jogou no meu sofá, como se nos conhecêssemos há anos. Como se fôssemos amigos íntimos.
Depois de um suspiro e uma negação de cabeça eu tentei prolongar a discussão, juro que tentei. Tentei também argumentar que eu não estava bem, que eu não queria sair, que como era sábado eu tinha que ficar em casa e almoçar com a minha mãe. Mas uma a uma, foi rebatendo as minhas desculpas com perfeição. Resultado: eu acabei cedendo. Entrei no carro dele, meio incerta, mas parece que percebeu isso porque, assim que eu fechei a porta, ele segurou meu pescoço e disse:
- Um coisinha pra você se animar. – E me beijou.
Não sei o que ele tem, nunca descobri, mas quando esse garoto me beija, é como se despertasse um vulcão em mim! Vai incendiando tudo, até meu último fio de cabelo! O pior – ou melhor, dependendo do ponto de vista – é que eu perco totalmente o controle. Quando eu senti aquele fogo todo dentro de mim, eu meio que esqueci que nós dois estávamos num carro, no meio da rua, no final da manhã e pulei em cima dele. Montei em seu colo, e passei as pernas uma de cada lado do seu corpo. Eu puxava a camisa dele com desespero, e conseguia ouvir ele rindo quando minha boca desviava da dele e descia pro pescoço. Eu teria continuado, teria ido mais adiante, se o próprio não tivesse me parado e dito.
- Calma, garota! Eu te dou o que você quer depois do passeio.
Só aí a ficha caiu. Eu me afastei dele rápido e voltei pro banco do carona tão envergonhada, mas tão envergonhada, que eu queria ter uma caverna pra me enfiar. Deus! Eu parecia uma vadia! Que impressão o teria de mim? Não das melhores, garanto. Quase fiz um buraco no estofado do banco tentando, em vão, ser engolida por ele.
- Não precisa ficar desse jeito também. – passou a mão no meu rosto. – Não gosto de você comportada, eu quero você no seu melhor estilo “girls just wanna have fun”.
Pronto, aí mesmo que eu quase furei o estofado, o piso do carro e até o chão, se brincar! E enquanto eu ficava vermelha, amarela, roxa – de todas as cores possíveis de tanta vergonha – arrancou com o carro, fazendo meu corpo ir um pouco pra trás. Como eu fiquei envergonhada demais até pra me mexer, imagine pra falar, ele ligou o som do carro e, ouvindo a música, eu comecei a me soltar um pouquinho. Mas foi só quando começou a tocar a trilha de Skins que eu me soltei mesmo! Graças ao Tony, toda vez que eu ouço 'Right Thurr' eu meio que danço involuntariamente. Meus quadris se mexem sozinhos e eu me sinto a própria garota from gueto! Ouvindo a batida, eu fechei os olhos e dancei sentada. Eu me mexi esquecendo de novo que tinha um mundo ao meu redor. E acredite, isso só acontece quando eu estou com o . Acho que ele fez alguma macumba em mim ou algo parecido!
Só quando a música acabou, eu percebi que o carro tinha parado de andar. Abri os olhos, e dei de cara com sorrindo de lado pra mim.
- Garota, eu achei que você ia ter um orgasmo a qualquer momento. – Pela segunda vez no dia, eu me senti envergonhada o bastante pra caçar uma caverna. Mas antes que eu entrasse no processo de me afundar no banco até sumir, me beijou. E vocês já sabem o que acontece quando ele me beija né? Puro fogo.
- O que é isso aqui? – Perguntei, enquanto andava ao lado de até a porta do lugar desconhecido.
- Isso aqui é o 'point' da minha galera e, garota, se você dançar aqui como dançou no carro, vai fazer sucesso!
- Certo, mas ainda não é nem uma da tarde! A gente vai beber?
gargalhou.
- Onde está escrito que não pode? Tem horário pra beber?
É verdade. Onde tem escrito?
- Tá, mas eu preciso comer antes. Eu não tô com nada no estômago. – Falei. Não queria ficar bêbada até com água, né? Se é pra pirar então vamos fazer direito.
A galera do , como ele mesmo disse, não era muito diferente dele. Os meninos eram tão gostosos quanto ele, e as meninas faziam eu me perguntar por que a genética foi tão injusta comigo. Eu dancei tanto, mas tanto, que minhas pernas quase caíram. Eu bebi mais do que em toda minha vida. Conheci gente que eu jamais conheceria caso não tivesse saído com o . Era tudo diferente, mas muito mais divertido do que minha vida normal. Só não sei se eu aguentaria fazer isso todos os dias, como eles faziam. Quando eu estava bêbada o suficiente pra dançar em cima das mesas, disse que nós estávamos indo pra um lugar mais legal. Desci da mesa, tropeçando nas próprias pernas e resolvi ir na garupa da moto de uma das meninas, ao invés de ir no carro. Só percebi que a noite já estava avançada quando saí do bar. Quanto tempo eu passei lá dentro?
Depois uns minutos chegamos a um lago, ou coisa assim. Não entendi em que aquele lugar poderia ser mais legal do que ficar lá bebendo e dançando, mas assim que as meninas e os meninos começaram a tirar suas roupas e entrar na água, eu captei a mensagem. Ainda meio zonza por causa do álcool ingerido, eu procurei com os olhos e vi que ele ainda estava estacionando o carro, mas sinalizou com as mãos pra mim, pra que eu fosse falar com ele. Aos tropeços, cheguei a seu lado e ele já estava fora do carro.
- Você vai nadar? – Ele me perguntou segurando minha cintura, assim que eu cheguei perto o suficiente, como se tivesse medo que eu caísse.
- Sei lá, você vai?
- Se você for...
- Ok, então vamos! Todo mundo está indo.
A água estava tão fria, que eu fiquei boa do porre assim que coloquei meus pés nela. Não tinha iluminação nenhuma no local, fora a luz da lua, e isso dava um clima de proibido. Ok, talvez não. Mas eu tinha a sensação de que não podíamos estar ali. Talvez a sensação fosse porque, quando viramos na estrada de terra que dava pro lago, houvesse uma placa avisando que era proibido entrar, mas eu estava bêbada demais pra discernir o que estava escrito. Eu nunca teria visto essa placa, se quando nós estávamos lá curtindo a água gelada e rindo alto de besteiras faladas uns pelos outros, um segurança não tivesse se materializado do nada do outro lado da margem do lago.
Não deu tempo de pensar muito, só de sair correndo pra fora da água, antes de ser pego. agarrou minha mão e foi me puxando até chegar ao carro dele, enquanto eu gargalhava loucamente, ainda por causa do efeito do álcool. Mesmo tendo bebido muito, nadado em uma água congelante com pessoas desconhecidas, e quase ter sido pega pela polícia, eu estava feliz. Eu estava muito feliz! E talvez por isso – além do álcool no sangue – eu não parasse de gargalhar um minuto. acabou sendo contagiado por minhas risadas e passou a rir tanto quanto eu. Dois loucos, isso sim.
- São quatro e meia da manhã, quer ver o sol nascer? – perguntou, quando eu consegui me controlar um pouco.
- QUERO! – Eu gritei, fazendo-o sorrir.
- Eu gosto de você assim, .
- Assim como?
- Solta, impulsiva! Você fica mais gostosa assim!
Não senti vergonha quando recebi esse elogio. Senti vontade de agarrar , mas eu não podia, afinal, ele estava dirigindo e eu não ia provocar um acidente, certo? se separou dos outros carros e tomou um caminho desconhecido pra mim. Passamos por uma estrada velha e deserta até chegar à beira do penhasco que ficava na curva dessa estrada.
- Agora é só esperar. – falou, desligando o motor.
Ele passou o braço pelos meus ombros e me puxou pra perto. Em silêncio, assistimos juntos o sol se erguer preguiçosamente no céu. Foi tão lindo! Quando o sol já brilhava fraquinho no alto do céu, beijou minha cabeça e depois puxou meu queixo virando meu rosto pra ele. Me olhou por um tempinho, e finalmente me beijou. Eu estava um pouco mais acostumada com a sensação quente que eu tinha toda vez que ele me beijava mas, mesmo assim, eu senti vontade de pular em cima dele. E foi o que eu fiz.
Com aquele sorrisinho cínico de sempre no rosto, puxou minha blusa meio molhada pra cima e disse:
- Por que você não tira essa roupa molhada? Você pode pegar um resfriado, garota!
Sei.
Sem responder, eu mesma puxei a blusa dele e, de repente, foi como se tivessem jogado gasolina em mim e tacado um fósforo em cima. Minha pele junto com a do foi explosão! Eu o beijei mais. O beijei até ficar sem ar! Eu queria ir além. Meu corpo pedia por isso, mas eu não consegui. Não consegui, porque quando estávamos prestes a fazer, veio à minha cabeça. Eu estive com ele por quase dois meses, e nós não passamos dos beijos. E ? Eu tenho certeza que o amei de verdade, ainda que nós tivéssemos ficado juntos por tão pouco tempo, mas com ele também eu não passei dos beijos. Por que eu tinha que fazer aquilo com o ? Ainda mais ali, no meio do nada, dentro de um carro.
Pensando nisso, eu forcei meu corpo a se afastar e voltar pra o banco do carona. Achei que ia me esculhambar, me derrubar do carro e me mandar ir embora, mas ele só sorriu e disse:
- A racionalidade voltou.
Depois ligou o carro, e saiu dirigindo.
- Pra onde você vai? – Perguntei apreensiva, vestindo minha blusa de novo.
- Te levar pra casa. – Ele respondeu, mas eu não senti nada rude em sua voz.
- Eu não quero ir pra lá. Quando eu chegar, mamãe vai me matar. Se for pra ouvir sermão, melhor ouvir quando essa dor de cabeça infernal passar.
sorriu.
- Ok, então vamos pra minha casa.
Eu ia dizer que não queria ir pra casa dele, que queria ir pra minha mesmo e não tinha problema ouvir a bronca que certamente levaria, mas sabe o que eu disse sobre minhas intuições? Bem naquela hora eu senti uma tão forte, mas tão forte, que meu estômago se contorceu. Tudo bem que talvez fosse fome, mas a intuição estava lá também, então eu não me opus.
Quando disse que ia me levar pra casa dele, eu achei que era uma casa, casa mesmo. Mas na verdade ele morava num prédio, que fica mais perto do centro da cidade. Ele entrou no estacionamento subterrâneo e parou o carro na sua devida vaga. Só que eu percebi que a distribuição das vagas era feita de acordo com a distribuição dos apartamentos, e do lado do carro do estava um carro que eu achei muito parecido com o do . Mas não seria possível eles morarem no mesmo prédio, seria? Não, não.
Só que aí minha cabeça que doía funcionou no tranco: “O que achou de ser corno?”
Ok, eu nunca disse o nome do meu namorado ao , disse? Eu não me lembro de ter dito. Céus! Eles se conheciam?
- Vamos subir, ? – Falei, ansiosa. Eu queria chegar no andar dele logo, e acabar com a dúvida que me corroía.
- A intenção é essa. – sorriu de lado, mas de repente eu perdi a paciência com os sorrisinhos dele.
Caminhei rapidamente até o elevador e me acompanhou. Subimos em silêncio até o andar dele, porque eu sabia que caso abrisse a boca, eu acabaria falando mais do que devia. Quando a porta do elevador finalmente abriu, e nós desembarcamos no andar do , eu notei que haviam quatro apartamentos por andar, e o apartamento ao qual pertencia o carro estacionado ao lado do de era vizinho dele! Parede com parede! Ao notar isso, eu fechei as mãos com tanta força, que minha unha fez minha palma doer. Ok, como eu iria checar? Eu tinha que dar um jeito.
- Eu vou tomar banho, você vai também? – perguntou, enquanto eu mantinha o olhar fixo na porta vizinha.
- Depois de você. – Respondi, tentando relaxar.
Entramos no apartamento, e me apontou a cozinha e foi até o quarto tomar banho. Melhor mesmo. Sozinha, talvez eu pensasse melhor num jeito de checar se quem morava no apartamento vizinho era o ou não. Mas eu não poderia demorar muito pensando, logo o sairia do banheiro. Então, uma ideia passou pela minha cabeça. Eu me senti uma criança de novo. Mas não tive ideia melhor, então resolvi colocá-la em prática de uma vez. Saí silenciosamente do apartamento do e apertei a campainha do vizinho, depois saí correndo pra dentro do apartamento de novo. Fechei a porta, e fiquei olhando pelo olho mágico, torcendo pra que a pessoa saísse pelo corredor tentando saber quem bateu na porta. A boa notícia: a pessoa saiu no corredor. A má notícia: sim, era o .
Tive vontade de gritar até os palavrões que eu não conhecia, porque é só juntar dois e dois e ver que dá quatro. É lógico que se o e o se conhecem, eles tinham falado sobre mim. Então no dia que o me viu no shopping, ele ficou comigo de propósito! Devia ser por causa de alguma richa entre ele e o . Ou talvez até tenha sido um planinho pra os dois ficarem comigo! Claro! faria o papel de homem traído compreensivo e depois me levaria pra cama. Então viria e ficaria comigo também, e eu seria a idiota na história toda! O que eu sabia, é que eu estava louca de ódio! Queria comer o fígado dos dois, assado na margarina com alho e cebola!
Lutando pra me controlar, eu me forcei a ir à sala do apartamento, e procurei algum papel e uma caneta também. Deixei um recado para o .
“Tive que ir. A gente se fala depois? Liga pra mim!”
Aqueles dois iam ver só uma coisa! Quem disse que eles podiam mexer comigo desse jeito? Quem eles pensam que são? E pensar que eu quase fiz aquilo com o ! Eu sou muito idiota! Saí pisando forte e fechei a porta atrás de mim com força. não estava mais no corredor. Melhor pra ele mesmo! Porque se eu o visse, ia ter sangue!
Apertei o botão do elevador, que pareceu demorar uma eternidade até chegar. Mas quando finalmente chegou, entrei soltando fogo pelas ventas! Apertei o botão do térreo mas, antes que as portas se fechassem, um cara saiu de um dos apartamentos do andar e gritou “Segura pra mim!”, mas eu não segurei. Por dois motivos: 1) Eu reconheci a voz. 2) Antes das portas estarem completamente fechadas, o cara se virou. Era o .
Que ótimo! Ótimo mesmo! Quer dizer que estavam os três no meio disso tudo? É claro que sim! É bem óbvio que sim!
Naquela hora, eu senti raiva dos três, mas senti mais raiva ainda de mim mesma. Porque se o e o poderiam ter rido de mim, imagine o e o ! Principalmente com aquela ceninha ridícula no supermercado, sabia desde o princípio que não era meu namorado. Ele sabia de tudo, mas mesmo assim me fez de palhaça!
RAIVA RAIVA RAIVA!
Juro que se alguém atravessasse meu caminho aquela hora, ia morrer. Porque, sério, tudo que eu mais queria era matar alguém!
Mas depois que minha raiva abrasou, eu tive um daqueles momentos na vida em que você sabe exatamente o que fazer. E eu sabia. Mesmo odiando frases de efeito, eu não sei como falar de um jeito melhor isso pra você, minha cara leitora, então lá vai:
Eu queria vingança!
QUATRO
Além de estar me sentindo o cocô do cavalo do bandido que morreu no fim do filme, eu percebi assim que deixei o prédio que estava totalmente perdida. Sequer fazia ideia de onde estava. Sabia o nome do bairro, porque me lembrava vagamente de ter falado algumas vezes do lugar onde morava enquanto namorávamos. Mas fora isso, nada mais. Caminhei pela rua até o cruzamento procurando por alguma placa qualquer que me informasse pelo menos o nome da rua, mas não havia nada. Pensei em voltar ao prédio e perguntar ao porteiro, mas desisti no momento em que me imaginei encontrando sem querer um dos três infelizes. Então simplesmente sentei na calçada mais alta da rua e fiquei lá rezando desesperadamente pra que um táxi tão perdido quanto eu passase miraculosamente por aquela rua desmovimentada.
Só que, depois de alguns minutos (algo em torno de 30, ou mais) eu notei que não haveria táxi perdido nenhum. Em momentos como esse que você deve ser uma garota madura e independente que sabe resolver os seus problemas sozinha. Exatamente por isso, eu fiz a única coisa que eu poderia fazer: liguei pra minha mãe.
Enquanto o telefone chamava, eu já ia me preparando pra ouvir um enorme sermão antes da minha querida mamãe finalmente dizer que viria me buscar, mas eu me surpreendi quando ela atendeu o telefone alegremente e sem implicância.
- Ei, filha, você não dormiu em casa hoje. Está com o ? - Ela perguntou, me fazendo engolir em seco.
Pensei que talvez fosse explicar tudo melhor quando chegasse em casa, por isso menti:
- É mãe, tô sim. - Pigarreei. - Aliás, não estou mais. A gente teve uma briguinha, e eu fui embora. Só que eu nem tenho ideia de onde estou. Será que dava pra você vir me apanhar?
- Claro, filha. Mas a briga foi séria? - Mamãe pareceu preocupada.
- Foi pior do que você pensa. - Respondi.
- Ah, filha, não fique triste. Eu tenho uma surpresa pra você! Eu acabei de pegá-la! Quando você chegar em casa, tenho certeza de que vai melhorar esse humor.
- Mãe, nem é por nada não, mas eu acho que não estou muito em clima de surpresas...
- Ah! Aposto que dessa suspresa você vai gostar! Agora diga-me pelo menos um ponto de referência pra eu ir pegar você, querida.
Disse a minha mãe onde era o bairro, e todas as informações que eu sabia, o que não era muita coisa, mas foi o suficiente pra minha mãe me achar. No carro, a caminho de casa, ela não quis me dizer do que se tratava a tal surpresa, mas eu nem insisti muito pra que ela me contasse. Estava sem curiosidade nenhuma. Só queria chegar em casa, tomar um banho, e quem sabe bolar um plano de vingança melhor e mais cruel do que simplesmente jogar uma granada no andar do prédio do trio de cafagestes.
Chegando em casa, minha mãe não parava de sorrir. Ela estava mais ansiosa com a minha reação à surpresa do que eu. Ela disse:
- Suba, ela está esperando no quarto.
Eu fiz que sim com a cabeça e finalmente subi. Estava exausta, esgotada e com raiva do mundo. Mas meu humor logo mudou quando eu abri a porta do meu quarto e dei de cara com uma silhueta muito conhecida, em minha cama. Uma garota que até se parecia comigo... Cabelos longos e escuros, caindo por sobre o ombro, enquanto ela estava deitada de barriga pra baixo em minha cama, foleando uma revista velha enquanto bocejava.
- ?! OH, MEU DEUS, É VOCÊ? - Mamãe tinha razão. A surpresa tinha realmente me animado!
Sem contar que foi MESMO uma tremenda surpresa. Porque, até onde eu sabia, , estava na Islândia junto com o tio Henry, pai dela, que é geólogo. Explicando: é minha prima, quase irmã. Nós duas somos filhas únicas, então já viu, né? Prima com a mesma idade é sempre cúmplice.
- Não, , imagina. Você tá vendo um clone aqui na sua frente! - Ela disse, pulando da cama, e me abraçando.
Devo avisar sobre o humor ácido e a intolerância da , mas que seja! Eu estava tão feliz por ela estar ali naquele momento, que vocês nem conseguem imaginar! Foi tanto que quando eu finalmente abracei minha prima, desabei no choro nos ombros dela. Toda raiva e frustração, junto com a alegria de vê-la, foi demais pra o meu sistema nervoso afetado. Tive que chorar pra dar vazão a tudo que estavava sentindo.
Logo, o humor de se tornou preocupação.
- O que aconteceu, ? Ei, eu sei que você está emocionada em me ver, mas chorar não é bem seu feitio. A não ser que você esteja vendo algum filme trágico. - sorriu, tentando aliviar o clima, e acabou me fazendo rir também.
- Ai, prima, você nem sabe o que aconteceu na sua ausência! Eu me enrolei tanto! E agora eu tenho certeza absoluta que eu tenho que amputar meus dedos indicadores o mais rápido possível!
arregalou os olhos.
- Por quê? Você tá doente?
- Tô sim. Meus dedos estão podres. Tão podres, que estão a ponto de cair.
- Sinto que você realmente se meteu em problemas. Caramba, prima, foi só eu passar um tempinho longe que você se desmantela toda, né?! Anda. Preciso de uma atualização. Desembucha.
E eu comecei a desembuchar. Contei a história pra , tintin por tintin, desde o esbarrão, assim como eu contei pra vocês. A maior parte do tempo, ela só ficou calada enquanto eu tomava banho, me trocava e tagaraleva. Contei todas as confusões, e depois passei meia hora só me lamuriando sobre o quanto eu tinha sido idota, o quanto eu tinha me deixado enganar fácil. Que eu estava me sentindo quase um muleque piranha que não pode ver mulher. No meu caso, que não pode ver um homem, porque né? Daí no meio da minha brisa, me cortou:
- Ok, sem lamentações porque isso não vai adiantar. - A cara da minha prima era de tédio, como se o que me aconteceu fosse a coisa mais normal do mundo.
- Você não tá nem aí, né? - Perguntei, emburrando.
- Na verdade, eu "tô bem aí", sim. Quem esses carinhas pensam que são, mexendo desse jeito com a minha priminha, hein? Tão malucos? Você vai dar o troco. - começou a lixar as unhas.
- Eu quero isso, mas não tenho a menor ideia de como. - Deitei ao lado dela, na minha cama. de barriga pra baixo lixando as unhas, e eu de barriga pra cima encarando o teto.
- É bem simples, . - Ela assoprou as unhas. - Você vai ficar com os três.
Eu até pensei que seria uma vingancinha mais básica. Tipo, eu realmente achei que seria algo menos trabalhoso, como por exemplo colocar fogo no carro deles ou algo assim. Mas a disse que seria muito mais doloroso se eu fizesse cada um se apaixonar, e depois chutá-los pra que os três sofressem e chorassem. Só que eu não imagino nenhum deles dando um de Beyoncé e cantando Bronken Hearted Girl, não. Primeiro, porque eles são meninos, e segundo porque, bom, eles têm mais cara de destuidores de coração do que destruídos. Mas enfim, tentar não custa nada, né?
Só que não tinha como as coisas funcionarem e darem certo, se eles soubessem que eu estava pegando os três ao mesmo tempo. Por isso eu fiquei pensando numa maneira de me assegurar que eles não se comunicassem entre si, mas não achei nenhuma.
- Isso é impossível. - Resmunguei, derrotista. Me arrependi de abrir a boca na hora! Porque a me deu uma borrifada de água na cara. Isso que dá ficar assistindo The Big Bang Thory demais! Ela agora tá querendo me adestrar como se eu fosse um cachorro. Toda vez que eu faço um comentário no mínimo mal humorado ela mete água na minha cara. Olha, vou te contar: eu mereço.
- É claro que é possível. Tudo é possível. - {N/A: acho horrível nota da autora no meio da fic, mas tive que colocar aqui, porque eu lembrei do programada da Anna Hickman. Ok, talvez não fosse necessário um nota no meio da fic, mas enfim, eu coloquei assim mesmo -qq}
- Tudo bem, então, . Só que assim que eu sair com o segundo, ele vai falar pro primeiro que vai com certeza falar pro terceiro e se eles comunicarem, vai tudo por água a baixo.
- Sério mesmo, viu, . Esses meninos tem que ser bem lindos e gostosos, pra valer a pena você ter ficado assim tão lesada por causa deles.
- O quê?
- É sim. Não faça essa cara, não, que você não era asssim burra quando eu me mudei. Você ficou assim depois deles!
- Olha, , eu devia te bater.
- É, eu ouço isso muito, mas você nunca me bate. E sabe por quê?
- Porque senão você vai colocar uma bomba na minha calcinha? - Pergunto casualmente, fazendo gargalhar.
- Tá doida, ? Você não me bate porque você precisa de mim. E essa sua pergunta idiota me fez pensar que a gente podia pôr uma bomba na cueca dos seus meninos, né?
- Eles não são meus meninos.
- Tanto faz. - deu de ombros - O que interessa é que eu sei um jeito dessa história toda dar certo.
- Como?
- Você faz assim...
Planejar é fácil. Quero ver colocar em prática.
Eu estava tremendo de nervoso, pensando em como me controlaria pra não enfiar a mão na cara do assim que ele aparecesse. Aliás, eu decidi com cada um na ordem em que os infelizes apareceram na minha vida. Então seria o primeiro.
- Oi. - disse meio incerto, parado de pé em frente a pequena mesa do café, onde eu tinha marcado de me encontrar com ele.
- Oi. - Sorri. Ok, ser falsa estava sendo mais fácil do que eu achei que seria. Isso é bom. - Senta.
- Eu não entendi por que você me ligou. - Ele disse, sentando-se assim como pedi.
- Você não gostou? - Cara de inocente. Nossa, me surpreendo comigo mesma.
- Não é isso! - apressou-se em dizer - Você só me pegou de surpresa.
- É que eu descobri umas coisas, . Coisas que me deixaram um pouco chateada. E triste. Mas eu achei que só valia mesmo a pena conversar com você. - Comecei a falar.
"Em primeiro lugar, garotos tem egos muito inflados. Use isso a seu favor" E conforme falava, eu me lembrava das instruções de . " Em segundo lugar, tente se lembrar que os homens tem duas cabeças, e eles geralmente pensam com a que não está acima do pescoço. Sendo assim, se você usar os estímulos corretos, sendo uma garota bonita como você é, ele vai fazer o que você quiser."
- Eu não consigo parar de pensar em você, e no que nós poderíamos ter feito juntos, se as coisas não tivessem acontecido como aconteceram entre nós. - Apoiei meus cotovelos na mesa, expondo meu decote um pouco mais.
Percebi o olhar de cair sobre o decote, e ele engoliu em seco, umedecendo os lábios logo depois.
- Tipo, o quê? - Ele perguntou, um pouco mais motivado.
- Não sei... - Falei manhosa, enrolando uma mecha de cabelo na ponta dos dedos. Eu estava usando o tipo de "sedução" mais barata que existe, e o pior - ou melhor - é que ele esteva caindo direitinho. - Eu só sei que, as vezes, eu fico solitária à noite, e sinto frio. Meu quarto, sabe, ele é bem frio as vezes...
- Eu podia te fazer companhia. - disse, parecendo animado. estava certa. Garotos pensam com a cabeça que ao invés de estar em cima do pescoço, está um pouco mais embaixo.
Patético.
- Podia mesmo. - Sorri. Nossa, eu sou suja. - Só que, como eu ia dizendo...
"O ítem número três, é dizer que você sabe de tudo. Não diga que tudo é, mas diga que sabe. Diga que está decepcionada, mas que está disposta a perdoá-lo. Garotos pensam que todas as garotas foram feitas pra eles brincarem com elas, então deixa ele achar que vai poder brincar com você de novo."
- O quê? - Ele perguntou, ainda com aquele olhar safado no rosto.
- Eu sei de tudo, . - Falei de uma vez, fazendo-o arregalar os olhos em choque.
- De tudo o quê? - Ele disse, com a voz falhando.
- De tudo. Mas eu acho que posso te aceitar de volta, se você me jurar que não vai contar aos outros.
- Como assim?
- É simples. Eu gosto de você, . Porque eu acho que o único que é homem suficiente pra ficar comigo, é você. Mas eu não quero nunca mais olhar pra cara daqueles outros dois. Nunca mais! - Minha encenação estava saindo um pouco do controle. Eu acho. Meus braços mais pareciam ter vida própria se movendo sozinhos, e involuntariamente.
- Calma, . - disse, pousando a mão no meu ombro.
Fiquei de pé.
- Eu estou calma. - Disse com uma voz aveludada, tentando imitar umas vagabundas que eu conheci aí pela vida. E, sentando-me novamente, só que dessa vez no colo dele. - Eu só preciso que você entenda que, se os outros souberem que eu te dei uma segunda chance, eles vão me procurar, ou rir de mim. Então se você me quer, - Me remexi um pouco, só pra provocar - vai ter que ficar bem, bem quietinho.
balançou a cabeça pra cima e pra baixo, devagar. Ele olhava pra minha boca, não pros meus olhos. Típico.
- Ótimo. - Sorri aprovando, e depois beijei . Já tinha até me esquecido de como ele beijava bem. E antes de querer me bater, você deveria considerar que é bem justo que eu tire uma casquinha antes de chutá-los. Afinal, eles bem que tiraram muitas, muitas casquinhas de mim!
- A gente pode ir pra um lugar mais reservado? - pediu, assim que nossas bocas desgrudaram.
E com essa frase eu tive a certeza: 1 X 0 DIRTY LITTLE BOYS.
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- Ela tá comigo, ! – o empurrou.
- Parem com isso! – Eu berrava, mas acho que eu fiquei invisível e sem voz, porque esses dois não me escutam! Alguém me socorre, por favor?
- Com você? – deu um giro em torno de si. – Ela tá comigo, animal! Ela marcou comigo!
- Vocês tão falando da ? – se aproximou com aquele sorrisinho sarcástico na cara. Juro que se eu não estivesse tentando desesperadamente impedir uma briga – por minha causa inclusive – eu teria me derretido inteirinha! E claro, eu estava tentando impedir uma briga. Nesse caso, era a última pessoa que eu gostaria de ver agora.
- E o que você tem a ver com isso? – rosnou pra .
- Calma aí, amigão. Eu vou resolver esse probleminha de vocês. – apontou para e depois pra . Depois ele me puxou pelo pulso do meio dos outros dois, e passando o braço esquerdo por cima dos meus ombros, disse:
- Ela tá comigo.
Foi a gota d’água. Bastou dizer essa frase tão curtinha que de repente o bar virou um ringue de luta livre! Eu só via as cadeiras voando, os tacos de bilhar quebrando e os cacos de vidro se espalhando! SOCORRO! Ninguém além de mim, e uns bêbados que se juntaram a briga, parecia se importar com o fato dos três caras com os quais eu deveria sair, estavam acabando um com a cara lindinha do outro! Eu preciso fazer alguma coisa! Preciso pará-los de algum jeito! Pensa rápido, , tá pra meter uma cadeira nas costas de que, por sua vez, está socando .
Sem conseguir imaginar uma opção melhor, eu pulei nas costas do . A boa notícia é que parou de socar , e desistiu de jogar a cadeira em , já que eu estava em cima dele. A má notícia, é que justamente quando eu entrei na briga, a polícia chegou. Resultado: todo mundo em cana.
Com quatro palavras eu diria: mamãe vai me matar.
Mas se você está curiosa sobre como começou toda essa confusão, eu posso te explicar. Sério, sem o menor problema, até porque desse bar até a delegacia vai demorar a chegar, e eu ainda vou ter que esperar um tempo presa até mamãe arrumar um advogado... Não vai ser nada demais contar essa história pra você, se você quiser ouvir. Você quer? Então, ok. Here we go!
UM –
Tudo começou numa tarde ensolarada de setembro, quando minha mãe teve as contrações do parto, então ela soube que eu estava nascendo. Brincadeirinha! Eu não vou contar minha história desde o dia que eu nasc,i né? Aí também já é demais.
Eu vou começar essa história contando como foi o dia em que eu conheci o . Porque dentre ele, e , foi quem eu conheci primeiro. Eu nunca tinha passado por uma primavera tão quente quanto a daquele ano. Acho que estava fazendo pelo menos 60 °C. Na sombra! Em dia de calor, nada melhor que sorvete, certo? CERTO! Eu adoro sorvete. Mas outra coisa que eu adoro também é raspadinha. Pra quem não sabe o que é, raspadinha é um copinho cheio de gelo, que leva por cima um líquido cheio de corante “mancha pulmão” que tem um gostinho de fruta no final. E no calor nada melhor que gelo, né? Ainda mais com gosto de fruta.
Eu não saí de casa pensando em raspadinha, eu queria sorvete, mas quando vi o carrinho de raspadinha na praça que fica na esquina de casa, foi mais forte que eu! Eu quase corri em câmera lenta pra fazer aquele charme! Er, não. Corri feito uma desesperada, e o vendedor do carrinho me olhou como se eu fosse uma desesperada mesmo. Só que o carrinho de raspadinha estava do outro lado do gramado. Certo, tudo bem. Era bem simples, eu só precisava atravessar o gramado e chegar à Terra Prometida da Raspadinha, certo?
Errado.
Porque justamente no gramado entre mim e o carrinho, havia um grupo de garotos jogando futebol americano. Como eu ia atravessar em segurança, se os meninos pareciam mais uma manada de búfalos – não que eu já tenha visto uma pessoalmente, mas enfim – correndo atrás de uma bola? Sem chance. Eu teria que me conformar e voltar com o rabo entre as pernas pra casa? JAMAIS! Por isso respirei fundo, segurei a bolsinha com o dinheiro junto ao peito, e corri! Saí correndo pelo meio do jogo feito uma doida desvairada, desviando de alguns caras, pulando por cima de outros... Me senti tipo o Flecha dos Incríveis, juro! O fato é que consegui chegar ao carrinho de raspadinha! Ignorando os olhares de “tão jovem, tão doida” do vendedor eu comprei minha raspadinha feliz da vida. Foi só colocar o gelinho na boca, que eu senti o característico gostinho de xarope pra tosse saborizado com tuti-frutti. Delícia! Raspadinha comprada, só precisava atravessar o gramado de volta. Seria fácil não?
Eu passei sem colisões uma vez, podia passar a segunda!
O quão enganada eu estava...
Quando eu parti na minha corrida alucinante, na tentativa de chegar ao outro lado o mais rápido possível, eu pensei que conseguiria desviar dos caras, e consegui de fato. Mas não de todos eles. Um ficou no meu caminho. Um desgraçado, ficou bem no meio do meu caminho! Na verdade, ele praticamente correu na minha direção, então nós nos chocamos, comprovando uma das leis de Newton que diz que a força aplicada sobre um corpo volta com a mesma intensidade mas em sentido contrário. Trocando em miúdos: eu voei pra um lado e o pra o outro.
Ele estava sem camisa, e todo suado. Cara, tudo bem que ele é bem gostosinho, mas menino suado e sem camisa só é bom de ver, não de encostar! Sem falar que quando ele bateu em mim eu virei minha raspadinha na blusa. Que era branca. Digo era, porque a camiseta ficou com uma mancha vermelha enorme! Então eu estava lá no chão, com a camiseta manchada, e ele simplesmente se levantou gritando:
- VOCÊ É LOUCA OU O QUÊ, GAROTA?! Você não pode sair por aí correndo no meio de um jogo! Se não acontece isso! – Apontou pra mim, que ainda estava no chão.
Enquanto o gritava eu só fiquei lá sentada no chão, esperando-o acabar de falar, porque na boa, ele ficava mó lindinho todo nervosinho, e eu particularmente não estava com a menor vontade de brigar. Quando o percebeu que eu não ia dizer uma palavra, ele parou de falar e colocou as mãos nos quadris, umedeceu os lábios e perguntou:
- Você está bem?
Ora vejam, uma atitude gentil!
- Eu tô sim. – Eu respondi, porque eu realmente achei que estava.
O caso é que eu não tinha notado a dor no meu pulso até apoiar a mão no chão pra me levantar.
- Ai! – Eu gritei sentando no chão de novo.
- O quê? – Ele correu pra mim e se agachou ao meu lado, todo preocupado. Se ele não tivesse gritado comigo há um tempinho atrás, eu iria achar fofinho.
- Meu pulso. – Resmunguei.
- Será que quebrou, ou torceu?
- Não sei, mas eu acho que caí por cima dele. – Elevei o pulso e segurei o antebraço direito, com a mão esquerda.
Ele avaliou meu pulso um tempinho, notando que já estava meio inchado.
- Você precisa de um médico. – O falou, coçando a nuca.
- Não tem problema, minha casa é no fim da rua. Se você me ajudar a levantar, eu vou pra casa.
Ele me ajudou a levantar, prontamente. Eu bem notei que o estava fazendo cara de culpado, provavelmente por ter gritado comigo, quando meu pulso estava quebrado.
- Se você quiser eu te levo em casa. – Ele falou meio encabulado.
- Eu sei o caminho. – Desculpa, mas ele gritou comigo, e por mais lindinho que ele fosse, não dava pra perder a oportunidade.
Ele sorriu.
- Deve saber mesmo, já que você mora lá, não é?
- Pois é.
E pronto. Acabou o assunto. Cri-cri eterno pra nós dois.
Ele ficou lá olhando pro chão, e eu fingindo que estava interessadíssima no meu pulso.
- Desculpa. – Ele falou finalmente.
- Pelo quê? – Qual é, fazer um charminho não tira pedaço.
- Por ter gritado. Eu fui idiota.
- Concordo.
Ele sorriu de novo. Sorriso bonito, hein, ?
- Agora, será que eu posso levar você em casa? – Ele perguntou, segurando o cotovelo do meu braço bom.
- Não.
- Por que? Eu já te pedi desculpas.
- Eu não levo desconhecidos em casa – Sorri.
- Oh, certo. Eu sou o , e você?
- .
Ele me deu um beijo no rosto.
- Pronto, , agora a gente se conhece. Posso te levar em casa?
- Agora pode.
Eu sei que essa do ”não levo desconhecidos em casa” foi péssima, mas eu queria saber o nome dele, e meu pulso estava doendo, então eu não pensei em nada melhor. Eu percebi que não fala muito, porque ele me levou até em casa no mais completo silêncio. Eu estava começando a desanimar, porque achei que ele fosse pedir meu telefone ou algo, mas ele estava tão calado que eu baixei meu fogo, já pra não frustrar minhas expectativas.
- É aqui. – Falei parando na porta de casa.
- É perto mesmo. – Ele disse.
- Eu disse. – Sorri. – Agora eu vou entrar.
- Não, espera! – Ele puxou meu braço bom.
- O quê? – Já estava ansiosa.
- É... Eu queria seu telefone.
- Meu telefone? – Olha eu fazendo doce de novo!
- É, quer dizer, se você puder. Eu queria te ligar pra saber se ficou tudo bem. – Apontou pro meu pulso.
- Ah, sim. Eu te dou meu telefone, mas eu duvido que ligue mesmo.
- Por quê? – Ele fez uma cara confusa.
- Porque eu aposto que quando você dobrar aquela esquina ali, vai esquecer de mim fácil.
Terminei de salvar meu número, e o devolvi seu celular. Ele o colocou no bolso, chegou pertinho de mim, e segurou meus quadris. Muito perto, , muito perto.
- Você não deveria se subestimar tanto. – Ele tocou a ponta do meu nariz e saiu andando.
Eu fiquei na porta olhando-o voltar para o gramado.
Bem, talvez ele fosse ligar mesmo. Ou talvez não. Sabe como os meninos são, não é? A maior fonte de diversão deles é enrolar a nós, meninas. Esses desgraçados do inferno! Mas como diria minha mãe, ruim com eles, pior sem eles. Eu não precisei engessar o pulso, nem colocar tala nem nada disso. Só precisei por no gelo, e ficou tudo bem com ele. O tempo passou, e não, não me ligou. Assim como eu esperava. Mas enfim. Azar o dele, não é? Ele era gostosinho, e aquele corpinho podia fazer um grande estrago em mim, mas a escolha foi dele. Uma pena.
Então um dia mamãe saiu pra fazer compras no supermercado. Como somos só nós duas, já que ela e papai são separados, eu fiquei sozinha em casa. E deixa eu te contar o que eu faço quando fico sozinha. Eu ligo o som no máximo e fico dando uma de louca em casa, gritando com todo o fôlego dos meus pulmões as letras das músicas que eu gosto. Nesse dia não foi diferente. Coloquei 3OH!3 pra tocar, e saí dançando pela casa. Bem no refrão de 'My First Kiss', alguém tocou a campainha. Ainda dançando loucamente, eu fui atender. Abri a porta e dei de cara com quem? Com quem? Com quem? Se adivinhar ganha um doce. Sim, sim, ele mesmo.
O entregador de pizza em pessoa! A-há! Peguei você, né? Mas não, nesse dia não foi até a minha casa, e nem ligou. Mas eu me encontrei com ele, acidentalmente.
Só quando a pizza chegou, eu lembrei que estava sem coca em casa. E saiba, não há vida sem coca. Eu bem poderia esperar mamãe chegar do mercado com litros e litros de coca, mas a pizza esfriaria, e não há nada que eu odeie mais do que pizza fria. O jeito era ir à casa de lanches e comprar uma latinha. Eu fui caminhando mesmo, já que era pertinho. Na volta, quando eu estava super distraída ouvindo meu iPod, eu esbarrei num cara. E sim, dessa vez era o .
- Cuidado aí, garota! – Ele falou, me segurando pra eu não cair de bunda no chão.
- Menino, você tem que parar de esbarrar em mim, sabia?
gargalhou.
- Fui eu que esbarrei em você, então?
- Vai dizer que não?
Ele sorriu sem mostrar os dentes, e balançou a cabeça pros lados, negativamente.
- Tão inocente. Mas então, o que está fazendo aqui, ?
- Eu moro aqui! Brincadeira, eu fui comprar coca pra comer com pizza. Tá afim?
Impulsiva? Imagina!
- Oh! Eu quero sim. Tô morrendo de fome. – Topou de primeira? Ora, vejam!
- Ok, então a gente tem que voltar e comprar mais coca, porque eu só comprei uma latinha.
Fomos pra minha casa, comemos pizza, e tomamos coca. E conversamos também. Conversamos sobre tudo que se pode conversar. Era fácil gostar do . Ele era engraçado e tinha uma paciência incrível pra me escutar! Sério, eu tagarelava e tagarelava e ele ouvia tudo com um ar super interessado. Ria algumas vezes, outras me fazia rir.
- Sabe o que eu odeio? – Perguntei repentinamente, no momento em que as risadas cessaram, e as palavras acabaram.
Estávamos em cima da minha casa. Deitados de barriga pra cima, com os topos das nossas cabeças unidos, olhando pro céu estrelado.
- O quê? – perguntou.
- Esperar. – Respondi.
ficou em silêncio um tempo, e eu achei que ele tivesse entendido o recado que eu queria passar. Quer dizer, garotos são lerdos, eles nunca entendem o que nós queremos dizer, e numa palavrinha só ele entendeu que eu estava falando que eu tinha odiado ele ter dito que ia me ligar, quando ele nunca ligou? Será possível?
Se ele tivesse entendido, ficaria chateado, ou no mínimo se sentiria coagido, mas assim como eu esperava ele não entendeu. Como eu disse, meninos são lerdos. O motivo do silêncio foi que enquanto eu pensava se ele era lerdo ou não, se virou e colocou seu rosto em cima do meu. Depois ele afastou o meu cabelo, e me beijou. Menina, deixa eu te dizer, quando ele me beijou eu só lembrei daquela cena do homem aranha com a Mary Jane, quando ela o beija de cabeça pra baixo, sabe? É estranho.
Quer dizer, beija muuuuuuito bem, sem dúvidas, mas eu nunca tinha beijado ninguém ao contrário, por isso foi estranho, sacou? Seja como for, naquele momento eu me senti tão apaixonadinha, sabe? Incluindo o som de sinhinhos, cheiro de flores, e oco no estômago. Sem falar das pernas bambas, e o coração batendo forte.
Depois desse beijo em cima da minha casa, passou a me ligar, e a gente saiu por umas duas semanas. Tava tudo tão bom, que eu juro que comecei a gostar dele de verdade, com um pezinho no amor. Ok, talvez uma perna inteira. Não me culpe se ele era divertido, beijava bem, e realmente mexia comigo. Sentiu que vem o ‘mas’ aí? Porque ele está a caminho. era divertido, beijava bem, mexia comigo, mas ele guardava um segredo.
Desde o jogo em que nós nos esbarramos pela primeira vez, eu nunca tinha me perguntado o porquê de frequentar meu bairro, já que ele não mora lá. Eu sempre achei esquisito, mas não relevante. Ele podia ter algum amigo que morasse lá. Na verdade, conhecia alguém no meu bairro, mas não era um amigo.
Meu bairro é como se fosse divido em dois, e a linha divisória é a praça. Do lado de cá, onde eu moro, eu conheço todo mundo, mas do lado de lá eu não falo com ninguém. Eu nem frequento o outro lado do bairro. Ocorre que especificamente, naquela noite, eu fiquei com insônia. E quando eu fico com insônia, eu só consigo dormir quando caminho. Cada doido com sua mania, não é? Além disso, eu acredito muito em destino, então quando algo dentro de mim me mandou caminhar pelo lado desconhecido do bairro, eu sabia que havia algum propósito. Eu estava certa nos fim das contas.
De longe, eu ouvi um som de música, e sem querer acabei o seguindo. Era uma noite de sábado, noite em que eu tinha marcado de sair com o , mas ele cancelou dizendo que estava doente. Doente? Pois sim. A música foi ficando mais alta, e eu vi de onde ela vinha. Aparentemente estava tendo uma festa numa das casas da vizinhança. Sorri involuntariamente quando percebi isso. Uns garotos estavam no jardim da casa, rindo e bebendo, então eu me aproximei.
- De quem é a festa? – Perguntei.
- Hey, gatinha! – Um dos caras me cumprimentou. – A festa é da Vivian, mas se quiser pode entrar, eu te convido!
Pela voz enrolada, ele provavelmente estava bem bêbado. Agradeci, mas não queria entrar. Eu não conhecia essa tal de Vivian, não se pode sair por aí entrando em festas de gente desconhecida. Mas minha intuição quase gritou lá no fundo da minha consciência que eu devia entrar, nem que fosse por alguns instantes. Que mal faria?
Instantes.
Não foi preciso muito mais que isso. Eu mal coloquei o pé na casa, já vi engolindo uma garota no sofá da sala. Meu primeiro impulso era correr pra cima deles e arrancar a cabeça dos dois mas, o choque foi tamanho, que eu não tive presença de espírito de dar um soco na cara do e sair dali. Então eu só fiquei lá, parada na porta da sala, com os olhos arregalados, e uma bola na garganta.
Só que eu não faço o tipo que fica parada assistindo enquanto toma um par de chifres. Eu cheguei mias perto deles, e os separei empurrando-os pelos ombros. tomou um susto e a garota me xingou de alguma coisa. Algo como: “sua vadia”.
- Oi, ! Não vai me apresentar sua amiga? – Sorrindo por fora, morrendo por dentro.
Ele não falou nada. Abriu e fechou a boca várias vezes, mas não conseguiu falar.
- Não? – Disse irônica. – Então eu me apresento sozinha.
Me virei pra garota com o sorriso mais largo que consegui dar.
- Oi, eu sou a . Eu não sei se o te falou, mas ele está saindo comigo.
Inesperadamente a garota gargalhou. Depois com a sobrancelha arqueada e com uma cara estúpida de deboche disse:
- Impossível. Ele é meu namorado.
Fiquei de pé. Ou eu saía andando ou batia nos dois. E levando em consideração que a garota tinha uma cara de barraqueira dos infernos, era melhor sair andando. Eu não brigo por macho não! Tenho meu orgulho.
- Ok, entendi. Fique com seu namorado então. Eu vou indo. – Intentei sair andando, mas antes me virei pro - Foda-se. – Falei com um sorriso nos lábios, e só então saí andando.
Eu tive que engolir minha bílis muitas vezes naquela noite. mentiu pra mim, e pra garota. Não que eu tivesse muita pena dela, porque ela era bitch de marca maior. Mas mesmo assim não era justo. Não me deixei chorar, eu não quis chorar. Não por aquele desgraçado! Saí correndo pra fora daquela festa dos infernos, e continuei correndo pra casa. veio atrás de mim, eu o ouvi me chamar várias vezes, mas não parei. Infelizmente, ele corria mais que eu, por isso conseguiu me alcançar, e me puxou pelo braço, me forçando a parar.
- Eu posso explicar! – Ele gritou pra mim.
- Então faça! – Eu gritei de volta.
Mas ele ficou calado.
- Vamos, explique! – Gritei mais uma vez. – Você disse que pode explicar, . EU ESTOU ESPERANDO!
- OK! – Ele falou me soltando. engoliu, e respirou um pouco, colocando as mãos nos joelhos. Voltando a ficar de pé em seguida.
- Se você não falar, eu...
- Aquela é Vivian, e eu já a namorava quando te conheci. – Eu queria uma explicação, mas não tão direta. Quando ele disse aquilo, meu ar ficou na garganta e eu abri a boca involuntariamente.
Então eu não era a traída, e sim a menina responsável pela traição. Eu me senti tão suja e tão usada. Eu me senti horrível, e dessa vez não me segurei. Lembrando das aulas de defesa pessoal que mamãe tinha pago pra mim há um tempo atrás, eu enfiei um soco no queixo de , e saí correndo.
Eu passei o dia seguinte chorando, enquanto me ligava, mandava SMS, mensagem no Facebook e até sinal de fumaça! Ele insistiu por duas semanas sem parar. Mas eu estava triste demais pra falar com ele de novo. me magoou demais.
E foi aí, quando eu estava com o coração quebrado e a alma partida em duas, que entrou em cena.
DOIS –
Eu não tinha ideia do quanto gostava de , até ele fazer o que fez. Eu fiquei tão mal, mas tão mal, que cada vez que eu pensava nele, tinha que me apertar bem forte pra não me despedaçar. Mentira. Eu não sou a Bella Swan, né, gente? Mas eu fiquei mal mesmo. E desde que ele parou de tentar se desculpar, eu não sabia como reagiria caso o encontrasse de novo. Só que, conhece aquela expressão: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?”. Pois é. Mais cedo ou mais tarde eu iria me encontrar com o .
Eu, sinceramente, esperava que fosse mais tarde, mas as coisas nem sempre são como nós queremos.
Eu estava tendo um daqueles dias, em que o universo resolve conspirar contra você e tudo, simplesmente tudo, dá errado! Nesses dias, tudo que você quer é ficar em casa, enfiada na cama, e não sair de lá até que o dia acabe. Não sei como você o chama, mas eu chamo de TPM. Pior do que estar de TPM, é estar na fossa e de TPM. Ao mesmo tempo. Meu psicológico estava em frangalhos. Malditos hormônios!
De muito mau humor, eu saí pra comprar absorventes. Como eu disse, eu estava de TPM, e uma mulher prevenida vale por duas. Como o mercado do meu bairro não vende a marca que eu uso, eu fui dirigindo até o supermercado que tem a bendita marca. Ligando o som do carro, estava tocando “Cry” da Rihanna, e você, minha amiga, deve saber que mulher de TPM começa a ver sinal em tudo. Pelo menos comigo é assim! Foi só ouvir: “Now I’m in this condition, and I got all the symptoms that a girl with a broken heart, but don’t matter what you’ll never see me cry!”, que pronto, eu comecei a cantar loucamente, como se fosse o hino nacional! E eu segurava o volante, e batia no peito. Hoje eu me acabo de rir lembrando disso. Mulher de TPM apronta cada uma, que só Jesus!
Enfim, quando eu cheguei no supermercado estava de alma lavada, né? Depois da sessão “afogue suas mágoas com a música” eu até me senti melhor. Então caminhei mais leve pelo mercado procurando absorventes e chocolate. Eu precisava de muito chocolate. Só que antes eu resolvi, não sei por que motivo, passar na sessão de CD’s. Mentira, eu sei porque passei lá. Eu queria o CD da Rihanna que tinha a música. Você deve estar pensando: não era mais fácil baixar? Sim, era. Mas pra baixar eu ia ter que esperar chegar em casa, e eu queria ir pra casa ouvindo 'Cry' no repeat. Então, quando eu estava lá, concentrada em procurar o CD, ouço alguém dizer:
- Oh, meu Deus! , é você?
Eu reconheci a voz na mesma hora. Mas mesmo assim levantei a cabeça, em choque, só pra confirmar que realmente era o . Engoli em seco, e finalmente descobri como reagiria quando o encontrasse. Eu fiquei totalmente congelada, dos pés à cabeça. Estática e em silêncio. Diante disso, continuou falando:
- Que pergunta idiota, é claro que é você! – Ele tentou me abraçar, mas eu me afastei.
Ele ignorou isso.
- Eu tentei te ligar tanto, . Eu terminei tudo com a Vivian, eu quero ficar com você! – Dessa vez, tentou segurar minhas mãos, mas eu as puxei pra longe. – Não faz assim, por favor.
Continuei calada.
- Fala alguma coisa.
Eu não sabia o que falar. E mesmo que soubesse, não poderia. Tinha um nó na minha garganta, um dos grandes. Eu não queria falar com o . Eu não queria nem olhar pra ele, por isso eu precisava dar um jeito de sair dali, urgentemente! Olhei em volta tentando achar alguma solução, como se eu fosse encontrar nas prateleiras algum pacote etiquetado como: “solução para problemas instantânea: adicione água quente e espere três minutos.”
Respirei fundo. E então avistei a minha solução. Ela não estava num pacote, estava andando distraidamente na minha direção, e usava calças.
- Desculpa, , mas eu já te superei. Esse é meu namorado. – Eu puxei o garoto pelo braço, e o coloquei ao meu lado. Ele fez cara de confuso, e eu voltei a falar antes que ele pusesse tudo a perder.
- Amor, esse é o . O cara que eu te falei. Aquele que ficou comigo quando ainda tinha namorada, que me enrolou, me enganou e provavelmente estaria mentindo pra mim até hoje se eu não tivesse descoberto por conta própria.
Parecendo entender, o garoto entrou no jogo.
- Eu sou , cara. O namorado dela. – Ele disse sério. Bem esperto de sua parte dizer o nome. Tratei de memorizar rápido.
- É, , some daqui. O está comigo, e ele vai te bater. – Falei sem pensar. É bem óbvio que se partisse pra briga, não ia revidar. A gente nem se conhecia, como ele ia entrar numa briga por mim?
- Ele que tente! – zombou. – Esse cara nem tem músculos, !
- É, mas ele tem a mim. – Dito isso, eu fiquei de costas pro e de frente pra . Sem palavras eu disse: “desculpa”, e depois me pendurei em seu pescoço, beijando-o.
Beijar foi diferente. Eu senti uma corrente elétrica passar dele pra mim, através do contato de nossas línguas. Eu posso dizer que já beijei muitos desconhecidos mas, sob aquelas circunstâncias, era o primeiro. Pelo visto ele gostou do beijo tanto quanto eu, porque ele apertou minha cintura com força, e me empurrou contra a estante de CD's, fazendo barulho. Eu me forcei mais contra o peito dele, e por um momento quase esqueci que estava lá, assistindo tudo. Quase.
Quando me dei conta de que estava me pegando com um cara na sessão de CD's de um supermercado, na frente do meu ex, eu afastei o e, quando olhei, não estava mais lá. Ótimo.
- Desculpa por isso. – Falei me recompondo.
soltou uma risada.
- Desculpa? Pode fazer isso quando quiser, gatinha.
Sorri involuntariamente. Eu sempre sorrio quando me chamam de gatinha, vai entender! Eu acho meio engraçado, sei lá.
entendeu o sorriso como um incentivo e me beijou de novo. Foi um beijo, curto. Apenas um toque de lábios, mas a corrente elétrica estava lá mesmo assim. Senti vontade de beijá-lo mais, mas fiquei com medo. Eu não queria me envolver. Gostar de e me machucar de novo.
- Desculpa, eu preciso ir. – Falei me afastando.
- Ei, calma. – Ele falou me segurando.
- Eu preciso mesmo ir. – Falei me desvencilhando.
- Me dê seu telefone! Eu quero falar com você pra ver se está tudo bem. – Você teve um deja vu? Porque quando falou isso, eu tive.
- Olha, . – Falei depois de um suspiro. – Você foi muito legal me ajudando com esse mané do ... Mas sabe o que é? Esse rolo todo com ele começou exatamente assim. Ele me pedindo o telefone porque queria ligar pra saber como eu estava depois.
sorriu.
- Então, fique com o meu número. Você me liga.
- O quê?
- Eu sou um ótimo ombro pra você chorar, viu?! Se você precisar de mim, eu vou estar bem aqui. – Ele falou com um sorriso no rosto e tanta ternura na voz, que eu quase me derreti. TPM sucks! A gente fica muito carente. Eu sorri e lhe entreguei meu celular.
Quando nosso coração está quebrado, tudo que precisamos é alguém que nos coloque no colo e cuide da gente, que nos acalente e cole nosso coração de novo. Foi isso que o fez comigo. Aos poucos, eu fui deixando ele entrar na minha vida. Deixei que ele me guiasse por onde andar, o que fazer. Me envolvi com ele, e posso dizer que o amei. Muito. Mas , pra mim, talvez por ter me cuidado tanto, era só um amigo que eventualmente eu beijava. Ele me fazia bem, mas eu não o via como namorado. E me sentia culpada por isso, porque é doce, gentil e paciente. Ele me ouviu, me aconselhou. E me colocou de pé novamente. Por que eu simplesmente não o amava o suficiente pra namorá-lo? Pra ficar com ele de verdade, não só trocar uns beijinhos de vez em quando? Ninguém manda no coração, não é mesmo? conseguiu me fazer esquecer , mas não conseguiu me fazer amá-lo. Só que não iria me esperar pra sempre. Eu deveria saber disso.
Quando meu telefone tocou naquela tarde, eu estava terminando de pintar as unhas. Atendi com todo o cuidado pra não borrar. Era , dizendo que queria me apresentar à uns amigos. Me assustei no início. Quer dizer, apresentar aos amigos? Já? Quanto mais fofo era, mais culpada eu me sentia. Confesso que passou pela minha cabeça dar uma desculpa e não sair com eles, mas mesmo assim eu topei.
Decidirmos ir ao cinema todos juntos e eu lhe asseguro, não tem coisa mias divertida que sair com cinco garotos ao mesmo tempo. Meninos não são como as meninas, que te excluem ao máximo, eles integram você, te fazem sentir parte do grupo. O filme não era legal, mas foi muito engraçado com os cinco comigo. Eles ficaram fazendo bagunça na sala do cinema, tanto que chamaram o lanterninha pra tirar a gente da sala!
- Eu nunca fui expulsa de uma sessão! – Falei às gargalhadas.
parecia feliz por eu estar me dando bem com os amigos dele.
- Você está gostando mesmo? – Ele falou perto do meu ouvido, antes de beijar meu rosto.
- Muito! – Falei sinceramente.
sorriu e me beijou, mas fomos atingidos por uma chuva de pipocas.
- Procurem um quarto! – Um das caras falou.
- Não sejam chatos! – falou me abraçando por trás. – E vamos comer.
No fim do dia, eu me senti feliz por não ter recusado sair com os amigos de . Mesmo que pra mim parecesse um passo quase maior que a perna. Como eu disse, eu ainda via apenas como um amigo beijável. Mas decidi me esforçar pra gostar dele de verdade. Eu sentia que era o cara certo pra mim.
Quando os meninos foram embora, eu continuei no shopping. Mamãe me ligou dizendo pra eu esperar por ela, porque nós faríamos algumas comprinhas. se ofereceu pra esperar mamãe comigo, mas eu não deixei. Tudo ok eu conhecer os amigos dele, mas ainda não estava na hora de apresentar o novo namorado, né?
Olhei as vitrines, entrei em algumas lojas, mas como quem ia pagar era mamãe, não comprei nada. Cansada de andar de um lado pro outro, me sentei num dos banquinhos que ficam no meio do shopping. Um cara passou por mim, e então voltou. Sentou ao meu lado, e ficou me olhando. Meio incomodada, eu me virei pra ele.
- O quê? – Perguntei.
Ele só levantou os braços como se dissesse “não fui eu”, e eu voltei a olhar pra frente. Senti que ele ainda estava olhando pra mim e mordi o canto do lábio inferior por dentro.
- Eu tô suja? Quer dizer... Tem alguma coisa errada com o meu cabelo ou o quê?
O carinha sorriu de lado, levantou um pouco o queixo e disse:
- Você está perfeita.
Não sorrir foi impossível.
- Brigada. – Falei, olhando pra baixo.
- Não fique envergonhada. – Ele segurou meu queixo, e o ergueu me fazendo olhar pra ele. – Você tem que se orgulhar de ser tão linda, menina.
Sorri mais abertamente.
- Nossa, para de fazer isso comigo ou eu morro! – Ele levou a mão ao coração como se doesse.
Depois ele tocou meu rosto, e se inclinou pra frente. Ele ia me beijar? Assim, sem nem me dizer seu nome? Céus! O que eu tô dizendo?! Eu não poderia beijá-lo! Eu estava com , e eu não faria com ele o mesmo que fez comigo.
- Eu tenho que ir. – Falei tirando a mão do cara do meu rosto.
Ele sorriu de lado novamente.
- Tudo bem. Mas eu posso saber seu nome?
- . E o seu? – Respondi me levantando. Aguardei que ele me dissesse seu nome, mas o que ele disse foi:
- Se o destino fizer a gente se esbarrar de novo, você ganha um nome e um beijo.
Tive que me segurar pra não cair, e saí quase correndo de perto dele, sem conseguir evitar um sorriso.
Mamãe demorou mais do que avisou, e eu tive que ligar pra ela pra saber por onde a madame andava. Odeio esperar. Primeiro ela não atendia o celular de jeito nenhum. Depois quando eu finalmente consegui falar com ela, foi pra ouvi-la dizer que não dava pra falar porque apareceu uma reunião de emergência no trabalho. Custava ter avisado antes? Assim eu não teria esperado duas horas à toa. Maravilha. Com um shopping quase fechando eu teria que dar um jeito de voltar pra casa. Talvez de ônibus, mas aquela hora eu tinha medo, por isso fui pra frente do shopping pegar um táxi. Mas tinha tanta gente quase se matando pra pegar os que ficam lá na frente que eu resolvi chamar o pra me buscar. Só que, surpresa, assim que eu disquei, o celular descarregou. Ótimo. Muito bom mesmo!
- Droga. – Resmunguei pra mim mesma.
- Buh! – O cara de mais cedo falou no meu ouvido. E se a intenção dele era de me assustar, conseguiu. Eu dei um pulo pro lado, e ele gargalhou.
- HAHA, muito engraçado. – Reclamei, cruzando os braços.
- É incrível como você consegue ficar linda até quando está com raivinha.
- Escuta, sem elogios, ok? Eu estou aqui largada sem ter como voltar pra casa, tem essa fila enorme pros táxis, minha mãe está trabalhando, e eu não consegui falar com meu namorado. Então, sério, não é hora de fazer gracinha.
- Seu namorado é um imbecil de te deixar sozinha aqui, sabia?
Olhei pra ele sem responder.
- Os namorados têm que cuidar bem de namoradas lindas como você, ou coisas podem acontecer.
Estreitei os olhos.
- Coisas?
Ele sorriu de lado, daquele jeito que eu só vi ele sorrir.
- Aham. Tipo isso.
O garoto me beijou. E eu deixei. Era errado, mas ele estava muito cheiroso, e muito gostoso. E ele falava o tempo todo que eu sou linda. Não que o não fizesse isso, mas quando esse cara falava era diferente. Sem contar que quando ele sorria de lado, fazendo aquela carinha de mal, eu ficava com os joelhos bambos. E sabe a sensação de eletricidade que eu sentia com o ? Bom, com aquele garoto eu tive sensação de fogo. Fogo em brasa, pra ser mais precisa. Assim que a língua dele tocou a minha foi combustão instantânea. Me senti quente como se estivesse com uma febre de 40°c. Por Deus! Era muito bom!
Cedo demais, ele parou de me beijar. E só então eu percebi que precisava respirar, e percebi também o que tinha acabado de fazer. Eu tinha traído e ele não merecia isso.
- Meu Deus! O que eu fiz? – Falei em choque colocando as mãos na boca.
- Você me beijou. – O cara falou. – E agora você tem direito a um nome: .
Eu não sabia o que fazer, se ia ou se ficava. Se corria pro ponto de ônibus ou continuava esperando o táxi. Eu estava arrependida de ter beijado o . Eu não queria magoar o . E agora eu estava pensando em mentir pra ele. Eu era horrível!
Afundei o rosto nas mãos, à beira do desespero.
- Calma, menina. Se você se preocupasse tanto com seu namorado, não teria deixado eu chegar perto de você.
- Cala a boca! – Minha voz saiu quase como uma súplica. Eu não queria ouvir o que eu já sabia.
- Ei – Ele tocou meu rosto de novo.
Olhar pra ele com aquele sorriso cínico no rosto me fez querer sorrir também. Se eu estava ferrada, do que ia adiantar ficar me martirizando? Afinal, bagaça pouca é besteira.
- Quer saber? – Falei já sorrindo – Me leva pra casa.
Naquela noite eu só beijei mais uma vez, na hora de me despedir. Eu sei que fui louca de pegar carona com um desconhecido, mas eu só pensei nisso quando já estava em casa deitada na cama, prestes a dormir. Mas como tudo acabou bem, sem problemas. Ou melhor, quase sem problemas, porque eu teria que ter uma conversa bem difícil com o no dia seguinte. Eu não consegui dormir, pensando em como eu fiquei com medo de apresentar à minha mãe. Como eu não queria que aquilo ficasse sério, enquanto ele me apresentava à seus amigos, e era tão paciente e gentil e doce e bom comigo.
A culpa veio com tudo pra cima de mim, e eu quase pensei em mentir pra ele e fingir que estava tudo bem. Quais eram as possibilidades de eu ver o de novo? Mas merecia saber que eu não era o anjo que ele pintava, e que eu era uma filha da mãe por ter feito aquilo com ele. Eu pensei em também, e me perguntei se ele tinha se sentido pelo menos um pouco como eu estava me sentindo naquele momento. Pensar em tudo me fez chorar, e chorar me trouxe o sono. E mesmo sem querer, acabei dormindo.
No dia seguinte eu acordei me sentindo uma covarde por não querer ver o , mas juntando uma coragem que eu não tinha, eu o pedi que viesse à minha casa. Quando chegou, tentou me beijar, mas eu desviei.
- O que houve? – Ele perguntou, preocupado.
- Eu preciso falar com você. – Respondi, incerta.
se sentou no sofá da sala, e colocou o celular na mesa de centro. Respirei fundo e comecei a contar o que aconteceu depois que ele deixou o shopping. Ele ouviu tudo silenciosamente, apenas se levantando pra ir olhar a janela, assim que eu acabei de falar. Meus olhos estavam marejados, e eu estava com o coração apertado. Enquanto permanecia em silêncio, o celular dele vibrou em cima da mesinha. Ele não se virou pra olhar, e eu o peguei. Havia uma nova mensagem de texto. De costas pra mim, finalmente falou.
- Você se orgulha disso, ? De ter feito comigo o mesmo que fez com você?
Eu abri a mensagem pra ler e continuou falando.
- Você acha justo? Depois de tudo que eu fiz por você? Você acha que você foi justa?
Quando li a mensagem, fiquei sem ação. Porque enquanto eu estava morrendo de culpa por ter traído , ele fazia apostas. No SMS lia-se:
“Hey, cara! E aí? Foi legal conhecer sua namorada ontem, ela é legal!” – Essa parte fez meu coração doer. Mas quando eu rolei a página pra ler o resto, eu quis matar o .
“Mas ó, quero só ver quando você vai pegar ela de jeito, hein! Se liga que faz parte da aposta, e tá valendo uma grana isso!”
- RESPONDA! – gritou pra mim, e eu continuei com os olhos na tela do celular dele.
- Na verdade, eu acho bem justo. – Falei calmamente.
se virou pra mim novamente, e veio andando na minha direção.
- Você não vale nada! – Ele cuspiu entre dentes.
Eu sorri e disse:
- Então nós combinamos, porque você vale menos ainda. – Fiquei de pé. – Isso aqui é o quê?
passou os olhos na tela, e se desarmou.
- , eu posso explicar!
- Frase clássica. Mas eu estou cheia dela. Então, , sai daqui!
- Mas eu...
- Sai! – Falei baixo e firme. E então ele se foi.
Eu me senti tão idiota... Mas eu estava apenas decepcionada com o . Eu não esperava essa atitude dele, só que eu não senti aquela dor que eu senti quando me deixou, por exemplo. Depois de um longo suspiro, eu subi as escadas, e estava me preparando pra passar um dia depressivo enfiada na minha cama, quando ouvi uma buzina de carro. Era tão chata e insistente, que me obrigou a olhar na janela pra ver quem era.
.
TRÊS –
Eu passei duas semanas apaixonadinha pelo , quase um mês sendo “curada” pelo , e um dia enlouquecendo com o . Enquanto era o amor e o equilíbrio, veio única e exclusivamente para me confundir. Na manhã em que ele parou na minha porta, eu não tive tempo de me sentir arrasada. não deixou.
- Eu sei que você está aí dentro, eu vi um cara sair daí! – Ele falou batendo na porta, enquanto eu tentava ignorá-lo. - Lindinha, se você não abrir, eu vou soprar, soprar...
Antes que ele acabasse a frase, eu abri a porta.
- Até sua casa derrubar. – falou rápido, com o mesmo sorrisinho cínico de ontem a noite.
- Não é uma boa hora, acho melhor você -
- Aquele que saiu daqui era seu namorado? – empurrou a porta e entrou em minha casa sem ser convidado. Eu teria pouco tempo pra me acostumar com o jeito expansivo dele.
Pendi a cabeça pro lado, sem a menor vontade de falar sobre o assunto.
- Ah, saquei, era ele sim! O que achou de ser corno? – O sorrisinho cínico diz 'oi' pra você.
- , é sério. Eu não sei o que você veio fazer aqui, mas eu preciso que vá embora.
- Mas eu vou embora, lindinha. Não se preocupe.
- Ótimo.
- Mas você vem também. – se jogou no meu sofá, como se nos conhecêssemos há anos. Como se fôssemos amigos íntimos.
Depois de um suspiro e uma negação de cabeça eu tentei prolongar a discussão, juro que tentei. Tentei também argumentar que eu não estava bem, que eu não queria sair, que como era sábado eu tinha que ficar em casa e almoçar com a minha mãe. Mas uma a uma, foi rebatendo as minhas desculpas com perfeição. Resultado: eu acabei cedendo. Entrei no carro dele, meio incerta, mas parece que percebeu isso porque, assim que eu fechei a porta, ele segurou meu pescoço e disse:
- Um coisinha pra você se animar. – E me beijou.
Não sei o que ele tem, nunca descobri, mas quando esse garoto me beija, é como se despertasse um vulcão em mim! Vai incendiando tudo, até meu último fio de cabelo! O pior – ou melhor, dependendo do ponto de vista – é que eu perco totalmente o controle. Quando eu senti aquele fogo todo dentro de mim, eu meio que esqueci que nós dois estávamos num carro, no meio da rua, no final da manhã e pulei em cima dele. Montei em seu colo, e passei as pernas uma de cada lado do seu corpo. Eu puxava a camisa dele com desespero, e conseguia ouvir ele rindo quando minha boca desviava da dele e descia pro pescoço. Eu teria continuado, teria ido mais adiante, se o próprio não tivesse me parado e dito.
- Calma, garota! Eu te dou o que você quer depois do passeio.
Só aí a ficha caiu. Eu me afastei dele rápido e voltei pro banco do carona tão envergonhada, mas tão envergonhada, que eu queria ter uma caverna pra me enfiar. Deus! Eu parecia uma vadia! Que impressão o teria de mim? Não das melhores, garanto. Quase fiz um buraco no estofado do banco tentando, em vão, ser engolida por ele.
- Não precisa ficar desse jeito também. – passou a mão no meu rosto. – Não gosto de você comportada, eu quero você no seu melhor estilo “girls just wanna have fun”.
Pronto, aí mesmo que eu quase furei o estofado, o piso do carro e até o chão, se brincar! E enquanto eu ficava vermelha, amarela, roxa – de todas as cores possíveis de tanta vergonha – arrancou com o carro, fazendo meu corpo ir um pouco pra trás. Como eu fiquei envergonhada demais até pra me mexer, imagine pra falar, ele ligou o som do carro e, ouvindo a música, eu comecei a me soltar um pouquinho. Mas foi só quando começou a tocar a trilha de Skins que eu me soltei mesmo! Graças ao Tony, toda vez que eu ouço 'Right Thurr' eu meio que danço involuntariamente. Meus quadris se mexem sozinhos e eu me sinto a própria garota from gueto! Ouvindo a batida, eu fechei os olhos e dancei sentada. Eu me mexi esquecendo de novo que tinha um mundo ao meu redor. E acredite, isso só acontece quando eu estou com o . Acho que ele fez alguma macumba em mim ou algo parecido!
Só quando a música acabou, eu percebi que o carro tinha parado de andar. Abri os olhos, e dei de cara com sorrindo de lado pra mim.
- Garota, eu achei que você ia ter um orgasmo a qualquer momento. – Pela segunda vez no dia, eu me senti envergonhada o bastante pra caçar uma caverna. Mas antes que eu entrasse no processo de me afundar no banco até sumir, me beijou. E vocês já sabem o que acontece quando ele me beija né? Puro fogo.
- O que é isso aqui? – Perguntei, enquanto andava ao lado de até a porta do lugar desconhecido.
- Isso aqui é o 'point' da minha galera e, garota, se você dançar aqui como dançou no carro, vai fazer sucesso!
- Certo, mas ainda não é nem uma da tarde! A gente vai beber?
gargalhou.
- Onde está escrito que não pode? Tem horário pra beber?
É verdade. Onde tem escrito?
- Tá, mas eu preciso comer antes. Eu não tô com nada no estômago. – Falei. Não queria ficar bêbada até com água, né? Se é pra pirar então vamos fazer direito.
A galera do , como ele mesmo disse, não era muito diferente dele. Os meninos eram tão gostosos quanto ele, e as meninas faziam eu me perguntar por que a genética foi tão injusta comigo. Eu dancei tanto, mas tanto, que minhas pernas quase caíram. Eu bebi mais do que em toda minha vida. Conheci gente que eu jamais conheceria caso não tivesse saído com o . Era tudo diferente, mas muito mais divertido do que minha vida normal. Só não sei se eu aguentaria fazer isso todos os dias, como eles faziam. Quando eu estava bêbada o suficiente pra dançar em cima das mesas, disse que nós estávamos indo pra um lugar mais legal. Desci da mesa, tropeçando nas próprias pernas e resolvi ir na garupa da moto de uma das meninas, ao invés de ir no carro. Só percebi que a noite já estava avançada quando saí do bar. Quanto tempo eu passei lá dentro?
Depois uns minutos chegamos a um lago, ou coisa assim. Não entendi em que aquele lugar poderia ser mais legal do que ficar lá bebendo e dançando, mas assim que as meninas e os meninos começaram a tirar suas roupas e entrar na água, eu captei a mensagem. Ainda meio zonza por causa do álcool ingerido, eu procurei com os olhos e vi que ele ainda estava estacionando o carro, mas sinalizou com as mãos pra mim, pra que eu fosse falar com ele. Aos tropeços, cheguei a seu lado e ele já estava fora do carro.
- Você vai nadar? – Ele me perguntou segurando minha cintura, assim que eu cheguei perto o suficiente, como se tivesse medo que eu caísse.
- Sei lá, você vai?
- Se você for...
- Ok, então vamos! Todo mundo está indo.
A água estava tão fria, que eu fiquei boa do porre assim que coloquei meus pés nela. Não tinha iluminação nenhuma no local, fora a luz da lua, e isso dava um clima de proibido. Ok, talvez não. Mas eu tinha a sensação de que não podíamos estar ali. Talvez a sensação fosse porque, quando viramos na estrada de terra que dava pro lago, houvesse uma placa avisando que era proibido entrar, mas eu estava bêbada demais pra discernir o que estava escrito. Eu nunca teria visto essa placa, se quando nós estávamos lá curtindo a água gelada e rindo alto de besteiras faladas uns pelos outros, um segurança não tivesse se materializado do nada do outro lado da margem do lago.
Não deu tempo de pensar muito, só de sair correndo pra fora da água, antes de ser pego. agarrou minha mão e foi me puxando até chegar ao carro dele, enquanto eu gargalhava loucamente, ainda por causa do efeito do álcool. Mesmo tendo bebido muito, nadado em uma água congelante com pessoas desconhecidas, e quase ter sido pega pela polícia, eu estava feliz. Eu estava muito feliz! E talvez por isso – além do álcool no sangue – eu não parasse de gargalhar um minuto. acabou sendo contagiado por minhas risadas e passou a rir tanto quanto eu. Dois loucos, isso sim.
- São quatro e meia da manhã, quer ver o sol nascer? – perguntou, quando eu consegui me controlar um pouco.
- QUERO! – Eu gritei, fazendo-o sorrir.
- Eu gosto de você assim, .
- Assim como?
- Solta, impulsiva! Você fica mais gostosa assim!
Não senti vergonha quando recebi esse elogio. Senti vontade de agarrar , mas eu não podia, afinal, ele estava dirigindo e eu não ia provocar um acidente, certo? se separou dos outros carros e tomou um caminho desconhecido pra mim. Passamos por uma estrada velha e deserta até chegar à beira do penhasco que ficava na curva dessa estrada.
- Agora é só esperar. – falou, desligando o motor.
Ele passou o braço pelos meus ombros e me puxou pra perto. Em silêncio, assistimos juntos o sol se erguer preguiçosamente no céu. Foi tão lindo! Quando o sol já brilhava fraquinho no alto do céu, beijou minha cabeça e depois puxou meu queixo virando meu rosto pra ele. Me olhou por um tempinho, e finalmente me beijou. Eu estava um pouco mais acostumada com a sensação quente que eu tinha toda vez que ele me beijava mas, mesmo assim, eu senti vontade de pular em cima dele. E foi o que eu fiz.
Com aquele sorrisinho cínico de sempre no rosto, puxou minha blusa meio molhada pra cima e disse:
- Por que você não tira essa roupa molhada? Você pode pegar um resfriado, garota!
Sei.
Sem responder, eu mesma puxei a blusa dele e, de repente, foi como se tivessem jogado gasolina em mim e tacado um fósforo em cima. Minha pele junto com a do foi explosão! Eu o beijei mais. O beijei até ficar sem ar! Eu queria ir além. Meu corpo pedia por isso, mas eu não consegui. Não consegui, porque quando estávamos prestes a fazer, veio à minha cabeça. Eu estive com ele por quase dois meses, e nós não passamos dos beijos. E ? Eu tenho certeza que o amei de verdade, ainda que nós tivéssemos ficado juntos por tão pouco tempo, mas com ele também eu não passei dos beijos. Por que eu tinha que fazer aquilo com o ? Ainda mais ali, no meio do nada, dentro de um carro.
Pensando nisso, eu forcei meu corpo a se afastar e voltar pra o banco do carona. Achei que ia me esculhambar, me derrubar do carro e me mandar ir embora, mas ele só sorriu e disse:
- A racionalidade voltou.
Depois ligou o carro, e saiu dirigindo.
- Pra onde você vai? – Perguntei apreensiva, vestindo minha blusa de novo.
- Te levar pra casa. – Ele respondeu, mas eu não senti nada rude em sua voz.
- Eu não quero ir pra lá. Quando eu chegar, mamãe vai me matar. Se for pra ouvir sermão, melhor ouvir quando essa dor de cabeça infernal passar.
sorriu.
- Ok, então vamos pra minha casa.
Eu ia dizer que não queria ir pra casa dele, que queria ir pra minha mesmo e não tinha problema ouvir a bronca que certamente levaria, mas sabe o que eu disse sobre minhas intuições? Bem naquela hora eu senti uma tão forte, mas tão forte, que meu estômago se contorceu. Tudo bem que talvez fosse fome, mas a intuição estava lá também, então eu não me opus.
Quando disse que ia me levar pra casa dele, eu achei que era uma casa, casa mesmo. Mas na verdade ele morava num prédio, que fica mais perto do centro da cidade. Ele entrou no estacionamento subterrâneo e parou o carro na sua devida vaga. Só que eu percebi que a distribuição das vagas era feita de acordo com a distribuição dos apartamentos, e do lado do carro do estava um carro que eu achei muito parecido com o do . Mas não seria possível eles morarem no mesmo prédio, seria? Não, não.
Só que aí minha cabeça que doía funcionou no tranco: “O que achou de ser corno?”
Ok, eu nunca disse o nome do meu namorado ao , disse? Eu não me lembro de ter dito. Céus! Eles se conheciam?
- Vamos subir, ? – Falei, ansiosa. Eu queria chegar no andar dele logo, e acabar com a dúvida que me corroía.
- A intenção é essa. – sorriu de lado, mas de repente eu perdi a paciência com os sorrisinhos dele.
Caminhei rapidamente até o elevador e me acompanhou. Subimos em silêncio até o andar dele, porque eu sabia que caso abrisse a boca, eu acabaria falando mais do que devia. Quando a porta do elevador finalmente abriu, e nós desembarcamos no andar do , eu notei que haviam quatro apartamentos por andar, e o apartamento ao qual pertencia o carro estacionado ao lado do de era vizinho dele! Parede com parede! Ao notar isso, eu fechei as mãos com tanta força, que minha unha fez minha palma doer. Ok, como eu iria checar? Eu tinha que dar um jeito.
- Eu vou tomar banho, você vai também? – perguntou, enquanto eu mantinha o olhar fixo na porta vizinha.
- Depois de você. – Respondi, tentando relaxar.
Entramos no apartamento, e me apontou a cozinha e foi até o quarto tomar banho. Melhor mesmo. Sozinha, talvez eu pensasse melhor num jeito de checar se quem morava no apartamento vizinho era o ou não. Mas eu não poderia demorar muito pensando, logo o sairia do banheiro. Então, uma ideia passou pela minha cabeça. Eu me senti uma criança de novo. Mas não tive ideia melhor, então resolvi colocá-la em prática de uma vez. Saí silenciosamente do apartamento do e apertei a campainha do vizinho, depois saí correndo pra dentro do apartamento de novo. Fechei a porta, e fiquei olhando pelo olho mágico, torcendo pra que a pessoa saísse pelo corredor tentando saber quem bateu na porta. A boa notícia: a pessoa saiu no corredor. A má notícia: sim, era o .
Tive vontade de gritar até os palavrões que eu não conhecia, porque é só juntar dois e dois e ver que dá quatro. É lógico que se o e o se conhecem, eles tinham falado sobre mim. Então no dia que o me viu no shopping, ele ficou comigo de propósito! Devia ser por causa de alguma richa entre ele e o . Ou talvez até tenha sido um planinho pra os dois ficarem comigo! Claro! faria o papel de homem traído compreensivo e depois me levaria pra cama. Então viria e ficaria comigo também, e eu seria a idiota na história toda! O que eu sabia, é que eu estava louca de ódio! Queria comer o fígado dos dois, assado na margarina com alho e cebola!
Lutando pra me controlar, eu me forcei a ir à sala do apartamento, e procurei algum papel e uma caneta também. Deixei um recado para o .
“Tive que ir. A gente se fala depois? Liga pra mim!”
Aqueles dois iam ver só uma coisa! Quem disse que eles podiam mexer comigo desse jeito? Quem eles pensam que são? E pensar que eu quase fiz aquilo com o ! Eu sou muito idiota! Saí pisando forte e fechei a porta atrás de mim com força. não estava mais no corredor. Melhor pra ele mesmo! Porque se eu o visse, ia ter sangue!
Apertei o botão do elevador, que pareceu demorar uma eternidade até chegar. Mas quando finalmente chegou, entrei soltando fogo pelas ventas! Apertei o botão do térreo mas, antes que as portas se fechassem, um cara saiu de um dos apartamentos do andar e gritou “Segura pra mim!”, mas eu não segurei. Por dois motivos: 1) Eu reconheci a voz. 2) Antes das portas estarem completamente fechadas, o cara se virou. Era o .
Que ótimo! Ótimo mesmo! Quer dizer que estavam os três no meio disso tudo? É claro que sim! É bem óbvio que sim!
Naquela hora, eu senti raiva dos três, mas senti mais raiva ainda de mim mesma. Porque se o e o poderiam ter rido de mim, imagine o e o ! Principalmente com aquela ceninha ridícula no supermercado, sabia desde o princípio que não era meu namorado. Ele sabia de tudo, mas mesmo assim me fez de palhaça!
RAIVA RAIVA RAIVA!
Juro que se alguém atravessasse meu caminho aquela hora, ia morrer. Porque, sério, tudo que eu mais queria era matar alguém!
Mas depois que minha raiva abrasou, eu tive um daqueles momentos na vida em que você sabe exatamente o que fazer. E eu sabia. Mesmo odiando frases de efeito, eu não sei como falar de um jeito melhor isso pra você, minha cara leitora, então lá vai:
Eu queria vingança!
QUATRO
Além de estar me sentindo o cocô do cavalo do bandido que morreu no fim do filme, eu percebi assim que deixei o prédio que estava totalmente perdida. Sequer fazia ideia de onde estava. Sabia o nome do bairro, porque me lembrava vagamente de ter falado algumas vezes do lugar onde morava enquanto namorávamos. Mas fora isso, nada mais. Caminhei pela rua até o cruzamento procurando por alguma placa qualquer que me informasse pelo menos o nome da rua, mas não havia nada. Pensei em voltar ao prédio e perguntar ao porteiro, mas desisti no momento em que me imaginei encontrando sem querer um dos três infelizes. Então simplesmente sentei na calçada mais alta da rua e fiquei lá rezando desesperadamente pra que um táxi tão perdido quanto eu passase miraculosamente por aquela rua desmovimentada.
Só que, depois de alguns minutos (algo em torno de 30, ou mais) eu notei que não haveria táxi perdido nenhum. Em momentos como esse que você deve ser uma garota madura e independente que sabe resolver os seus problemas sozinha. Exatamente por isso, eu fiz a única coisa que eu poderia fazer: liguei pra minha mãe.
Enquanto o telefone chamava, eu já ia me preparando pra ouvir um enorme sermão antes da minha querida mamãe finalmente dizer que viria me buscar, mas eu me surpreendi quando ela atendeu o telefone alegremente e sem implicância.
- Ei, filha, você não dormiu em casa hoje. Está com o ? - Ela perguntou, me fazendo engolir em seco.
Pensei que talvez fosse explicar tudo melhor quando chegasse em casa, por isso menti:
- É mãe, tô sim. - Pigarreei. - Aliás, não estou mais. A gente teve uma briguinha, e eu fui embora. Só que eu nem tenho ideia de onde estou. Será que dava pra você vir me apanhar?
- Claro, filha. Mas a briga foi séria? - Mamãe pareceu preocupada.
- Foi pior do que você pensa. - Respondi.
- Ah, filha, não fique triste. Eu tenho uma surpresa pra você! Eu acabei de pegá-la! Quando você chegar em casa, tenho certeza de que vai melhorar esse humor.
- Mãe, nem é por nada não, mas eu acho que não estou muito em clima de surpresas...
- Ah! Aposto que dessa suspresa você vai gostar! Agora diga-me pelo menos um ponto de referência pra eu ir pegar você, querida.
Disse a minha mãe onde era o bairro, e todas as informações que eu sabia, o que não era muita coisa, mas foi o suficiente pra minha mãe me achar. No carro, a caminho de casa, ela não quis me dizer do que se tratava a tal surpresa, mas eu nem insisti muito pra que ela me contasse. Estava sem curiosidade nenhuma. Só queria chegar em casa, tomar um banho, e quem sabe bolar um plano de vingança melhor e mais cruel do que simplesmente jogar uma granada no andar do prédio do trio de cafagestes.
Chegando em casa, minha mãe não parava de sorrir. Ela estava mais ansiosa com a minha reação à surpresa do que eu. Ela disse:
- Suba, ela está esperando no quarto.
Eu fiz que sim com a cabeça e finalmente subi. Estava exausta, esgotada e com raiva do mundo. Mas meu humor logo mudou quando eu abri a porta do meu quarto e dei de cara com uma silhueta muito conhecida, em minha cama. Uma garota que até se parecia comigo... Cabelos longos e escuros, caindo por sobre o ombro, enquanto ela estava deitada de barriga pra baixo em minha cama, foleando uma revista velha enquanto bocejava.
- ?! OH, MEU DEUS, É VOCÊ? - Mamãe tinha razão. A surpresa tinha realmente me animado!
Sem contar que foi MESMO uma tremenda surpresa. Porque, até onde eu sabia, , estava na Islândia junto com o tio Henry, pai dela, que é geólogo. Explicando: é minha prima, quase irmã. Nós duas somos filhas únicas, então já viu, né? Prima com a mesma idade é sempre cúmplice.
- Não, , imagina. Você tá vendo um clone aqui na sua frente! - Ela disse, pulando da cama, e me abraçando.
Devo avisar sobre o humor ácido e a intolerância da , mas que seja! Eu estava tão feliz por ela estar ali naquele momento, que vocês nem conseguem imaginar! Foi tanto que quando eu finalmente abracei minha prima, desabei no choro nos ombros dela. Toda raiva e frustração, junto com a alegria de vê-la, foi demais pra o meu sistema nervoso afetado. Tive que chorar pra dar vazão a tudo que estavava sentindo.
Logo, o humor de se tornou preocupação.
- O que aconteceu, ? Ei, eu sei que você está emocionada em me ver, mas chorar não é bem seu feitio. A não ser que você esteja vendo algum filme trágico. - sorriu, tentando aliviar o clima, e acabou me fazendo rir também.
- Ai, prima, você nem sabe o que aconteceu na sua ausência! Eu me enrolei tanto! E agora eu tenho certeza absoluta que eu tenho que amputar meus dedos indicadores o mais rápido possível!
arregalou os olhos.
- Por quê? Você tá doente?
- Tô sim. Meus dedos estão podres. Tão podres, que estão a ponto de cair.
- Sinto que você realmente se meteu em problemas. Caramba, prima, foi só eu passar um tempinho longe que você se desmantela toda, né?! Anda. Preciso de uma atualização. Desembucha.
E eu comecei a desembuchar. Contei a história pra , tintin por tintin, desde o esbarrão, assim como eu contei pra vocês. A maior parte do tempo, ela só ficou calada enquanto eu tomava banho, me trocava e tagaraleva. Contei todas as confusões, e depois passei meia hora só me lamuriando sobre o quanto eu tinha sido idota, o quanto eu tinha me deixado enganar fácil. Que eu estava me sentindo quase um muleque piranha que não pode ver mulher. No meu caso, que não pode ver um homem, porque né? Daí no meio da minha brisa, me cortou:
- Ok, sem lamentações porque isso não vai adiantar. - A cara da minha prima era de tédio, como se o que me aconteceu fosse a coisa mais normal do mundo.
- Você não tá nem aí, né? - Perguntei, emburrando.
- Na verdade, eu "tô bem aí", sim. Quem esses carinhas pensam que são, mexendo desse jeito com a minha priminha, hein? Tão malucos? Você vai dar o troco. - começou a lixar as unhas.
- Eu quero isso, mas não tenho a menor ideia de como. - Deitei ao lado dela, na minha cama. de barriga pra baixo lixando as unhas, e eu de barriga pra cima encarando o teto.
- É bem simples, . - Ela assoprou as unhas. - Você vai ficar com os três.
Eu até pensei que seria uma vingancinha mais básica. Tipo, eu realmente achei que seria algo menos trabalhoso, como por exemplo colocar fogo no carro deles ou algo assim. Mas a disse que seria muito mais doloroso se eu fizesse cada um se apaixonar, e depois chutá-los pra que os três sofressem e chorassem. Só que eu não imagino nenhum deles dando um de Beyoncé e cantando Bronken Hearted Girl, não. Primeiro, porque eles são meninos, e segundo porque, bom, eles têm mais cara de destuidores de coração do que destruídos. Mas enfim, tentar não custa nada, né?
Só que não tinha como as coisas funcionarem e darem certo, se eles soubessem que eu estava pegando os três ao mesmo tempo. Por isso eu fiquei pensando numa maneira de me assegurar que eles não se comunicassem entre si, mas não achei nenhuma.
- Isso é impossível. - Resmunguei, derrotista. Me arrependi de abrir a boca na hora! Porque a me deu uma borrifada de água na cara. Isso que dá ficar assistindo The Big Bang Thory demais! Ela agora tá querendo me adestrar como se eu fosse um cachorro. Toda vez que eu faço um comentário no mínimo mal humorado ela mete água na minha cara. Olha, vou te contar: eu mereço.
- É claro que é possível. Tudo é possível. - {N/A: acho horrível nota da autora no meio da fic, mas tive que colocar aqui, porque eu lembrei do programada da Anna Hickman. Ok, talvez não fosse necessário um nota no meio da fic, mas enfim, eu coloquei assim mesmo -qq}
- Tudo bem, então, . Só que assim que eu sair com o segundo, ele vai falar pro primeiro que vai com certeza falar pro terceiro e se eles comunicarem, vai tudo por água a baixo.
- Sério mesmo, viu, . Esses meninos tem que ser bem lindos e gostosos, pra valer a pena você ter ficado assim tão lesada por causa deles.
- O quê?
- É sim. Não faça essa cara, não, que você não era asssim burra quando eu me mudei. Você ficou assim depois deles!
- Olha, , eu devia te bater.
- É, eu ouço isso muito, mas você nunca me bate. E sabe por quê?
- Porque senão você vai colocar uma bomba na minha calcinha? - Pergunto casualmente, fazendo gargalhar.
- Tá doida, ? Você não me bate porque você precisa de mim. E essa sua pergunta idiota me fez pensar que a gente podia pôr uma bomba na cueca dos seus meninos, né?
- Eles não são meus meninos.
- Tanto faz. - deu de ombros - O que interessa é que eu sei um jeito dessa história toda dar certo.
- Como?
- Você faz assim...
Planejar é fácil. Quero ver colocar em prática.
Eu estava tremendo de nervoso, pensando em como me controlaria pra não enfiar a mão na cara do assim que ele aparecesse. Aliás, eu decidi com cada um na ordem em que os infelizes apareceram na minha vida. Então seria o primeiro.
- Oi. - disse meio incerto, parado de pé em frente a pequena mesa do café, onde eu tinha marcado de me encontrar com ele.
- Oi. - Sorri. Ok, ser falsa estava sendo mais fácil do que eu achei que seria. Isso é bom. - Senta.
- Eu não entendi por que você me ligou. - Ele disse, sentando-se assim como pedi.
- Você não gostou? - Cara de inocente. Nossa, me surpreendo comigo mesma.
- Não é isso! - apressou-se em dizer - Você só me pegou de surpresa.
- É que eu descobri umas coisas, . Coisas que me deixaram um pouco chateada. E triste. Mas eu achei que só valia mesmo a pena conversar com você. - Comecei a falar.
"Em primeiro lugar, garotos tem egos muito inflados. Use isso a seu favor" E conforme falava, eu me lembrava das instruções de . " Em segundo lugar, tente se lembrar que os homens tem duas cabeças, e eles geralmente pensam com a que não está acima do pescoço. Sendo assim, se você usar os estímulos corretos, sendo uma garota bonita como você é, ele vai fazer o que você quiser."
- Eu não consigo parar de pensar em você, e no que nós poderíamos ter feito juntos, se as coisas não tivessem acontecido como aconteceram entre nós. - Apoiei meus cotovelos na mesa, expondo meu decote um pouco mais.
Percebi o olhar de cair sobre o decote, e ele engoliu em seco, umedecendo os lábios logo depois.
- Tipo, o quê? - Ele perguntou, um pouco mais motivado.
- Não sei... - Falei manhosa, enrolando uma mecha de cabelo na ponta dos dedos. Eu estava usando o tipo de "sedução" mais barata que existe, e o pior - ou melhor - é que ele esteva caindo direitinho. - Eu só sei que, as vezes, eu fico solitária à noite, e sinto frio. Meu quarto, sabe, ele é bem frio as vezes...
- Eu podia te fazer companhia. - disse, parecendo animado. estava certa. Garotos pensam com a cabeça que ao invés de estar em cima do pescoço, está um pouco mais embaixo.
Patético.
- Podia mesmo. - Sorri. Nossa, eu sou suja. - Só que, como eu ia dizendo...
"O ítem número três, é dizer que você sabe de tudo. Não diga que tudo é, mas diga que sabe. Diga que está decepcionada, mas que está disposta a perdoá-lo. Garotos pensam que todas as garotas foram feitas pra eles brincarem com elas, então deixa ele achar que vai poder brincar com você de novo."
- O quê? - Ele perguntou, ainda com aquele olhar safado no rosto.
- Eu sei de tudo, . - Falei de uma vez, fazendo-o arregalar os olhos em choque.
- De tudo o quê? - Ele disse, com a voz falhando.
- De tudo. Mas eu acho que posso te aceitar de volta, se você me jurar que não vai contar aos outros.
- Como assim?
- É simples. Eu gosto de você, . Porque eu acho que o único que é homem suficiente pra ficar comigo, é você. Mas eu não quero nunca mais olhar pra cara daqueles outros dois. Nunca mais! - Minha encenação estava saindo um pouco do controle. Eu acho. Meus braços mais pareciam ter vida própria se movendo sozinhos, e involuntariamente.
- Calma, . - disse, pousando a mão no meu ombro.
Fiquei de pé.
- Eu estou calma. - Disse com uma voz aveludada, tentando imitar umas vagabundas que eu conheci aí pela vida. E, sentando-me novamente, só que dessa vez no colo dele. - Eu só preciso que você entenda que, se os outros souberem que eu te dei uma segunda chance, eles vão me procurar, ou rir de mim. Então se você me quer, - Me remexi um pouco, só pra provocar - vai ter que ficar bem, bem quietinho.
balançou a cabeça pra cima e pra baixo, devagar. Ele olhava pra minha boca, não pros meus olhos. Típico.
- Ótimo. - Sorri aprovando, e depois beijei . Já tinha até me esquecido de como ele beijava bem. E antes de querer me bater, você deveria considerar que é bem justo que eu tire uma casquinha antes de chutá-los. Afinal, eles bem que tiraram muitas, muitas casquinhas de mim!
- A gente pode ir pra um lugar mais reservado? - pediu, assim que nossas bocas desgrudaram.
E com essa frase eu tive a certeza: 1 X 0 DIRTY LITTLE BOYS.

