Last of the American Girls

Autora: Kinha Camargo
Status: Em Andamento
Revisada por: Gabi Gleriani
Categoria: HotFics
Sub-Categoria: LongFic - Drama
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One This is goodbye

O quarto parecia muito maior com os móveis, mas tudo em caixas fica bem diferente e menor.
Los Angeles, para mim, já não é lá aquelas coisas, mas Oakland também não. Porém, o que eu posso fazer? Chorar para meus pais ficarem? Três motivos para não fazer isso. Primeiro, minhas lágrimas estão bem guardadas, seria desperdício. Segundo, como se fosse adiantar alguma coisa. E por ultimo, Los Angeles não vale tanto à pena assim.
Não é ódio, mas não gosto. Talvez não seja nem a cidade. Afinal, curto um shopping, fliperama, paz na praia ao entardecer. A cidade não tem se não sou uma pessoa muito, digamos, sociável e simpática. Digamos também que a minha escola não passa uma boa impressão.
Primeiramente, é uma escola. Não sou o tipo de pessoa que estuda e gosta da coisa, mas as pessoas se resumem em volúveis e sem personalidade. Todos beijam os pés de Jully, a anta patricinha, que se considera rainha da escola, e que eu por minha vez, tenho pena. Todos pagam um pau para ela, mas por trás, muito pelo contrário.
Se ela sabe da minha existência, não só na escola, como no planeta, deve pensar “que dó!”, mas prefiro ser invisível a ser como ela!
Até tenho uma amiga na escola, mesmo não se encaixando em meus requisitos de amiga. Ela é volúvel, para variar. Mary Jane é seu nome (irônico não?!). Por um lado, gosto dela porque quando a gente não está na escola, ela age como ela realmente é. Porém, quando estamos na escola ou com outra pessoa, ela muda, fica igual aos que estão ao seu redor.
Mas quem sou eu para falar dos outros? A vida continua e, no meu caso, em Oakland.

Peguei a ultima caixa que estava no chão, dei uma ultima olhada no meu antigo quarto; iria fazer falta. Fui à sala onde estavam meus pais a minha espera, com minha bolsa. Peguei-a com dificuldade. Minha cara não estava uma das melhores.
– Vamos? – disse.
, não fique triste! Oakland é uma boa cidade. – minha mãe disse para me animar, só que nem sei se era desanimo, acho que sou assim mesmo.
– E pequena. Mas eu estou bem, vamos? – eles balançaram a cabeça, saímos do apartamento e chamamos o elevador.
O curto um minuto parecia a eternidade. Queria aproveitar cada segundo, mas não estava um clima bom de se aproveitar. Tenso, eu diria. Meus pais conversavam sobre o novo emprego enquanto eu olhava para o além da luz do elevador com os braços cansados.
O elevador parou, deixamos o prédio, coloquei a caixa no caminhão que em seguida foi fechado por um homem. Segui até nosso carro e me joguei no banco de trás, acompanhando o prédio com os olhos até virar a esquina. Adeus Los Angeles.

“Bem vindo a Oakland”, dizia a placa na entrada da cidade. Horas de uma viagem cansativa. Consciente e inconsciente implorava por: CAMA!
Passamos por algumas fábricas e casas até chegar a uma residência bege, um sobrado médio, com jardim. Estacionamos o carro e o caminhão também. Desci do carro e entrei na casa. Nem notei nada, apenas subi a escada, me dirigi ao final do corredor onde ficava o quarto que já sabia que era meu e entrei. Deitei no colchão que estava no chão e desmaiei.


Two. This town, that don’t exist

Vou à escola depois de amanhã, nossa, uhuu! Estou soltando purpurinas de tanta felicidade! Queria minhas coisas consideradas “dispensáveis” (pela minha mãe) de volta! Não pude trazer certas coisas para cá, porque minha mãe precisava de mais espaço para suas coisas no caminhão de mudança. Bom, pelo menos meus all stars e meus sneakers estão aqui.
Até que o quarto está bom, só meio vazio. Preciso comprar coisas. Não é a mesma mobília conhecida durante anos, mas é bonita. Só que a parede é muito branca, depois vou dar um jeito nela.

– Mãe!
– Vem aqui falar. - Argh... Tenho que parar de preguiça! E parar de me arrastar em vez de andar.
– Estou aqui.
– Tá, diga. – ela disse, sem nem ao menos se virar ou parar de guardar alguma coisa no armário da cozinha.
– Eu vou sair andar pelo bairro. Ver as casas, a civilização.
– Está bem, mas volte antes da cinco para o jantar. – respondeu, sem se importar muito.

Dirigi-me até a porta da frente. Ar puro! Era isso o que eu precisava. Até que as casas são bonitinhas e é tudo tão quietinho. Está bom que são duas horas da tarde de sábado, ou seja, hora de dormir.
“O que será que tem de bom para fazer agora?” é a pergunta que não me saia da cabeça. Estava em um tédio mortal! Já estava andando fazia um tempo. Acho que já estava perto do centro da cidade, o que não era o que chamaria de “centro”.
Pelo jeito o povo daqui se diverte indo a barzinhos. O que eu estava vendo estava mais para um boteco, mas e daí, que queria beber alguma coisa, e onde tem estabelecimento aberto, tem gente. Não que eu estivesse a fim de conversar com alguém, mas não tinha visto ninguém ainda.

Entrei no ambiente, achei que ia ser um lugar um pouco mais feio, mas era até que jeitosinho. Dois caras bebendo cerveja em uma mesa, quer dizer, garotos. Impossível terem mais que vinte e um anos, além de que, se não tinham me mandado sair ainda, significava que vendiam para menor. Que bom. Queria uma Smirnoff. Sentei no banquinho do balcão do bar e um homem veio até mim.
– E ai, o que vai querer?
– Uma Smirnoff, lata.

O homem se virou para a geladeira e me entregou a latinha. Hum... Saí da seca. Virei-me para ver o “movimento” do lugar. Fora os dois garotos, tinha um homem velho quase caindo de bêbado, que não estava muito longe de mim.
Os garotos eram bonitos e parecia que só eles queriam ter olhos bonitos no mundo. Ambos com olhos claros, mas o de olhos , MEU DEUS! Os olhos mais lindos que eu já havia visto no mundo, os mais penetrantes, claros e maravilhosos... PUTAMERDA! Virei-me rapidamente para o balcão quando eles perceberam que eu estava olhando para eles. Saco! Tarde demais, pois quem me olhava agora eram eles, podia sentir os olhos maravilhosos sobre mim. Virei o resto da Smirnoff em minha boca, peguei o dinheiro do meu bolso, coloquei no balcão e fui embora. Se bebesse mais uma latinha, ia começar a dar umas risadas.

– Pai! Mãe! Cheguei!
– O jantar fica pronto em cinco minutos.
Resmunguei alguma coisa, subi para meu quarto e entrei no banheiro. Lavei minhas mãos e o rosto. Deitei-me na cama até minha mãe chamar. O jantar. Não é minha hora favorita. Clima tenso e quando eu abro a boca é só para falar algo como “Que legal” ou para quebrar o clima ruim com um “O que vocês fizeram hoje?”. Mas nesse jantar não fui eu quem fez essas perguntas:
– O que vocês fizeram hoje? – minha mãe perguntou.
– Eu fui ao hospital. Acho que vou me dar bem nesse novo emprego – meu pai disse; parecia animado.
– E você filha? – “Ah mãe, você sabe, fui a um barzinho, bebi uma Smirnoff, vi uns caras bonitos...”.
– Ah... Andei por ai. Tem umas casas bonitas por aqui – meus pais são ingênuos. “Andei por ai”. Se fosse eu, já desconfiaria, mas eles sorriram.
– Que bom que está gostando da cidade – “Sim” é o que digo para mim mesma, eles são ingênuos.


Three. first day of the rest of our lives

“Surrender, surrender. But don't give yourself away… E esse foi Cheap Trick com Surrender. Bom dia Oakland...”

Sete horas, CALA A BOCA RÁDIO. Banho. Água morna. Café da manhã: Xmiséria [n/a: KKKKKK pão com margarina]. A escola não era longe de minha casa, dez minutos a pé.
Armários azuis, bonita escola, muitas pessoas, civilização! Fui à secretaria pegar meu horário e o numero do armário.
– Oi, eu sou , aluna nova do segundo ano.
– Ah, sim. Vou pegar o seu horário.
A mulher me entregou e exclamou um “Bem vinda”. Balancei a cabeça com um sorrido esboçado no rosto. Saí de lá e me dirigi à sala 110, inglês, delícia! Carteira no fundo vazia? É minha. Algumas pessoas na sala, faltando cinco minutos para bater o sinal. Alguns alunos repararam a presença da aluna nova, com All Star ferrado, calça jeans rasgada, camiseta do Ramones, camadas e mais camadas de lápis e delineador. E pra completar, a mochila surrada.

O barulho ecoou nos corredores e em questão de segundos a renca entrou na sala, mas uma pessoa me chamou a atenção. Olhos penetrantes e cabelos escuros, o garoto do bar; sabia que era menor de idade. Era do tipo vagabundo, como eu diria, igual a mim. Deduzi por sua atitude de se jogar na ultima carteira do lado oposto que eu estava na sala.
Uma mulher entrou na sala junto com um homem, Sr. Green [n/a: JERICHO *---*], professor de inglês. Era o que dizia no horário. A mulher disse.
– Bom dia, alunos. Vim para desejar um bom ano letivo – era a diretora. – e queria dizer que temos uma aluna nova de Los Angeles. – NÃO, NÃO, NÃO! PUTA QUE PARIU - . Venha aqui na frente e se apresente.
Por que cidades pequenas são assim? Esses vínculos. Por que as pessoas fazem isso? Acho que definitivamente não sou uma pessoa sociável. Levantei-me e fui em direção a diretora.
– Bom... Eu sou ... Tenho dezesseis anos... Sou de Los Angeles... – disse em espaços de tempo. Pensei mais um pouco. Odeio quando todos olham para mim – Só. – dirigi- me novamente ao meu lugar e me sentei. Alguns ainda me olhavam.
– Tenham um bom dia e sejam educados com a aluna nova. – deixou a sala. Estava vendo que ira ser conhecida como “a aluna nova”.

As aulas se arrastaram e eu me arrastei pelos corredores, de uma sala a outra. Até que deu mais um sinal, almoço. Estava me dirigindo ao meu armário, olhando para meus All Stars pretos, quando bati em alguém e caímos no chão.
– Desculpa, eu não olhei – disse, me levantando; era uma garota que havia caído.
– Tudo bem, eu estava correndo. – ela se levantou e disse: – Você é nova aqui, certo? ?
– Sim. Eu tive alguma aula com você?
– Não, as notícias correm. – nossa, me senti famosa. , a aluna nova.
– Nossa. – arregalei os olhos, mas para mudar de assunto, disse, além de que precisava saber – Você sabe onde fica o armário 516?
– Claro! O meu é o 513, é pertinho. Eu estou indo lá, eu te levo. – balancei a cabeça e a segui. – À propósito, meu nome é April.
– Prazer – chegamos ao armário, guardei minhas coisas, quer dizer, joguei a mochila lá dentro. April fez o mesmo (guardou, não jogou... só eu não tinha jeito de gente).
– Tem alguém pra almoçar?
– Não, na verdade não.
– Então formou. Você vai almoçar comigo – tinha que admitir que comecei a gostar da escola. Atitude, pessoas de atitude. April tinha isso, não só no jeito de agir como no de se vestir. Camiseta azul, calça jeans, All star, básico com atitude.

Nós pegamos nosso prato, com comida, é claro, e sentamos em uma mesa. Começamos a comer e me lembrei do menino de olhos , que estava sentado não muito longe, com mais dois garotos. Entre eles, um estava no bar.
– Ow A, [n/a: A, com pronuncia em inglês “ei”, por favor] quem é aquele garoto ali? O de olhos .
– Ele é o . Bonito, mas como meus pais diriam, de má índole. Eu não tenho certeza, mas dizem que ele vende maconha por dois dólares. O que está logo ao lado dele é , melhor amigo do . O que esta na frente deles dando risada igual um louco, é conhecido como . Eles têm uma banda. Todos meio estranhos, mas gente boa.
– Pelo jeito, todos sabem de todos aqui.
– Mas por que você tinha tanto interesse? – mesmo não sabendo por quê, corei, nem sabia o motivo de ter perguntado.
– Ah, não sei. – April fez uma cara de que não acreditava.
– Pode falar, eu sei, eu vi ele te secando na fila do almoço.
– O quê? Ele estava olhando? – ela balançou a cabeça. - É que eu o vi em um bar, sábado.

Depois disso, as aulas se arrastaram novamente. Ao fim das aulas, fui embora para casa. Meus pais não estavam. Eles estavam trabalhando no hospital principal da cidade; meu pai é médico, minha mãe enfermeira, ou seja, nunca estão em casa.
Entrei no meu quarto, joguei minhas coisas na minha cama, abri a ultima gaveta de minha escrivaninha, peguei um isqueiro e um cigarro, abri minha janela, que dava a um pequeno telhado com vista para meu quintal, subi no mesmo e acendi o cigarro.


Four. St. Jimmy's comin' down across the alleyway
“Você esta convidado para minha festa!
Agamenon Street Nº 60
Sábado às 21h.
Stacy.”


– Começou o ano letivo – disse.
– AHA! Eu ia falar isso. Mas é verdade, a Stacy sempre dá uma festa no começo de cada semestre. – April disse.
– Acho que deve ser normal as rainhas das escolas darem as primeiras festas. – disse com desprezo jogando o “convite” da fez no lixo.
– Nossa, , quanto ódio no seu coração! – [n/a: Whatahell EMO] ela disse parando de andar e refletindo no que tinha dito – Finge que não ouviu. Foi gay demais, mas de qualquer forma, por que esse desprezo?
– Não é desprezo. – ela me olhou com uma cara estranha, dava até para ouvir o pensamento de “vou fingir que acredito” – Tá bom. É sempre a mesma coisa... Uma merda! Sempre acontece alguma bosta! Você vai?
– Talvez... Mas agora que você disse isso, eu vou – ai, não creio nessas coisas. O mundo está perdido – e você irá comigo. – arregalei os olhos e parei de andar. Só podia estar zoando – Ah, você vai. Nem precisa falar nada. Você vai e vai sem esse desanimo todo!
– Dude, tem tanto lugar para ir, por que tem que ser na festa da oxigenada da Stacy?! Além de que, parece nome de prostituta. Posso até imaginar ela daqui alguns anos rodando bolsinha na esquina, tendo como no “profissional” Stacy Hotlic – disse rápido e fazendo aspas no ar. Ela riu e demorou um pouco para se recuperar.
– Enfim, não quero saber, você vai.
– Não vou ter escolha mesmo e meus pais nem vão estar em casa para enche o saco na hora de volta.
– Qual é a dos seus pais hein?
– Eles não têm horário fixo. O hospital chama e eles vão.
– Ah, mas aposto que a festa nem vai ser ruim assim. A gente bebe um pouco, tira sarro da cara dos que não sabem dançar e das meninas bêbadas tentando se equilibrar nos saltos. E vai que você não acha alguém lá pra você lá?!
– Iiiii... Pode ir parando. Eu disse que eu vou, mas não vai empurrando cara pra mim não. – o sinal bateu e as pessoas iam rapidamente para suas respectivas salas. – A, você tem que aula agora?
– Matemática.
– Química. Não tive ainda.
– Boa sorte, é um saco.
Segui para minha sala e April para a dela. A minha já estava cheia, só tinha um lugar e do lado do marginal, . A sala era com mesas de dois (laboratório). Dirigi-me até lá e sentei em silencio, sem expressão alguma em minha face. Surpreendi-me quando ele quebrou o silêncio.
– Oi.
– Oi – disse com as sobrancelhas franzidas.
– Você é a , não é?! – Como ele sabia meu apelido? Eu só disse à April. – que curte um Cheap Trick. – O quê??? Ele sabe a minha ficha inteira agora?
– Que escola fofoqueira, meu Deus. – disse com o desprezo novamente em meu tom de voz.
– Não é tanto. Eu tenho minhas fontes. – nossa, estranho... Fiquei um pouco chocada e soltem um “hum” e o silêncio voltou, mas depois de um tempo ele continuou a dizer. - Mas aposto que não sou apenas eu que tenho minhas fontes. Você sabe mais que o meu nome, eu sei disso. – não me contive e ri, nem tinha graça, mas eu ri. Nossa, seus olhos eram realmente lindos.
– É eu sei, – ele deu um sorrisinho simpático. Ele não era tão mau caráter, mas como se eu fosse. Porém, desgrudando os olhos daquelas pedras preciosas em seus olhos e olhando para o sorriso, tinha uma leve malícia nele.
– Aposto que suas fontes falaram mais que isso. Mas não precisa falar, afinal, é de se esperar, você me viu a primeira vez em um bar. – então me lembrei: o bar. E o terrível, estranho, vazio e constrangedor silêncio voltou. Fiquei batendo meus pés um no outro, como distração, até que me veio à cabeça: o professor.
– O professor está demorando... – talvez não devesse ter dito isso, pois dava entender que queria sair de lá voando e sair de perto de . Não é uma coisa que se diz para uma pessoa. Como se eu me importasse com ele. Por outro lado ele estava sendo legal comigo. E ele não deve ter “gostado” pois ele parou de me olhar e virou para frente.
– Verdade. O Sr. Turpim não é de se atrasar. Espero que seja aula vaga. – ele disse se virando para mim e fazendo uma cara de criança que quer doce, com um enorme sorriso nos lábios. – Falando em química, professor e tudo mais, espero que seja boa nisso porque eu sou um desastre. Nossa química é uma porra! Nossa puta que pariu! Nisso você vai precisar me ajudar! – ele dizia rápido, mexendo as mãos e atropelando as palavras.
– Nossa, quanta informação! Respira... – eu disse, fazendo-o rir enquanto uma mulher entrava na sala, a da secretaria.
– Bom dia, alunos, queria informar que o Sr. Turpim não veio... – mas ela foi interrompida pelos alunos se levantando de seus lugares e saindo da sala, ela ainda tentava falar, mas depois de um tempo desistiu e saiu também.
? – disse se levantando da cadeira. Virei-me para ele – Vamos andar ai pela escola. – estranho, quer dizer, é uma coisa bem óbvia quando tem aula vaga, mas relevamos.
– Tá bom. – disse pegando minhas coisas.

Ficamos andando e conversando por um bom tempo. era gente boa e significantemente falante. Ele tinha uma banda, o Green Day, com o e o e comentou um pouco sobre eles. Aposto que fuma, pois dava para sentir o cheiro de cigarro. E bebia, porque eu já havia visto. Apesar de que isso eu também faço, mesmo sem ser frequentemente. Mas certa hora ele me disse uma coisa que não era tão significante, mas me comprovou. Ele vendia maconha.
– Você vai à festa da Stacy?
– Vou. – bufei – April vai me arrastar para lá.
– A April é gente boa. Mas vá sim, nessas festas acontecem muitas coisas.
– Você vai?
– Sim, tenho que fazer meu trabalho.


Five. And Mary Jane to keep me insane

Coca-cola, a única bebida decente e saborosa da casa. Precisávamos fazer compras, mas minha mãe e meu pai não tinham tempo e eu sou um animal preguiçoso que não faz nada. Abri a garrafa e despejei em um lindo copo da minha mão. Assim como ela, eu o adorava. Sim, ela amava um copo.
Faltavam umas duas horas para a tão esperada festa da oxigenada, futura prostituta. April ia passar em casa umas nove e meia. Meus pais estavam dormindo, pois iam trabalhar às dez horas. Os horários deles não são normais.

Já eram oito e meia, estava no meu quarto ouvindo música quando eu ouvi:
– MENINA!! – minha mãe gritando para mim. O que era? Odiava isso. Desci a escada com o copo na mão e fui à cozinha, onde minha mãe estava, sem a menor vontade de levar xingo sem sentido, de novo. E a me ver ela continuou – VOCÊ NÃO GUARDOU A COCA-COLA NA GELADEIRA! AGORA ESTÁ SEM GÁS! VOCÊ SABE QUE SEU PAI SÓ BEBE COCA! E AGORA NÃO TEM MAIS. – ela continuava gritando umas coisas sem sentido e cada vez mais aumentava a minha cara de merda. Era apenas uma Coca-cola!
– Mãe, é uma coca. - eu disse fazendo uma cara de “o-que-tem-de-mais-nisso?”. E não sei como, mas ela levando a mão com rapidez para gesticular alguma coisa enquanto ia falar alguma coisa, batendo em minha mão, na qual estava o copo. Agora nem precisa dizer que a merda estava feita assim que ouvi o barulho do vidro se quebrando no chão e ao sentir os cacos rasgando minha pele. Minha mãe fez a perfeita cara de ódio mortal para mim que estava olhando para meu braço cortado com dor.
– O MEU COPO! OLHA O QUE VOCÊ FEZ! VOCÊ É MUITO MORTA! O QUE É ISSO? TEM QUE PRESTAR MAIS ATENÇÃO NAS COISAS... - ela gritava cada vez mais alto enquanto eu tirava os cacos de vidro que estavam em meu braço. Depois de um tempo de fingir a mim mesma que não estava ouvindo e apenas tentava esquecer a dor de meu braço já sem cacos, não estava mais aguentando fingir que não ouvia. Estava me remoendo de raiva por ela dar mais atenção a porra do copo do que eu. A filha dela.
– CARALHO! DÁ PARA ME AJUDAR? TÁ DOENDO SE VOCÊ NÃO PERCEBEU! DESCULPA TÁ! EU COMPRO UM CAMINHÃO DE COCA-COLA E COPOS SE VOCÊ QUISER! - tá bom, eu fui estúpida, mas estava com raiva disso. Ela nunca me ajudava. Além de que, copos e Cocas-cola não são um bom motivo para fazer o que ela estava fazendo.
– ISSO NÃO É JEITO DE FALAR COM SUA MÃE! POR QUE VOCÊ É ASSIM? NÃO É A MINHA FILHA! – não podia ouvir mais. Puta merda! O ódio corroia por dentro e a frase “não é minha filha” ecoava em minha cabeça. Já deveria estar acostumada com isso mais não estava.
Subi para meu quarto peguei meu delineador, coloquei um tênis peguei um pouco de dinheiro e minhas chaves. Desci e minha mãe ainda berrava alguma coisa sobre eu ter a deixado falando sozinha. Entrei na cozinha e peguei uma caixinha de Band-Aids do armário. Não dei ouvido a nada que ela gritava, apenas abri a porta e saí do inferno.
As coisas estavam se estabilizando, estava surpreendida com a demora. Essa coisa de jantar todos juntos a mesa e contar o seu dia não tinham nada a vê com a gente. Era só reação pós-mudança. Podemos mudar de lugar, mas não as atitudes. Pelo menos não tão rápido.
Minha família não é o que se chama de unida. Meus pais só trabalham e eu fico por ai e eles não estão e nunca estiveram ligando para isso. Eles têm milhões de motivos para me encher e me xingar, mas sempre fazem pelo motivo errado. Quer um exemplo melhor que o da Coca-cola?! Eles não sabem nada da minha vida.

Andei, andei, andei. Tinha colocado os Band-aids nos cortes. Não sabia mais o que fazer, só queria esquecer tudo isso. Mas tinha a festa. Eram nove horas quando bati na porta da April.
, o que você está fazendo aqui? Eu ia te buscar. – ela disse um pouco surpresa.
– Eu decidi vir mais cedo pra te poupar o trabalho – dei uma desculpa.
– Tudo bem. Entra ai. Eu não estou pronta mais tudo bem – entramos, subimos ao seu quarto. Ela terminou de se arrumar, eu passei delineador e o resto de maquiagens, dela, afinal, nem peguei nada em casa e ficamos conversando coisas aleatórias e idiotas. Não disse nada sobre a briga da minha mãe, mesmo que eu brigue com ela era meio normal, dessa vez como muitas eu estava puta da vida, mas não falei nada. Sou do tipo que sofre em silêncio. Mas uma hora chegamos à um assunto.
– Sabe quinta, que eu tive aula de química?
– Sei sim.
– Eu falei com o tal . Ele é... Legal.
– Cuidado . Ele é do tipo vagabundo em dois sentidos. O tipo que não faz bosta nenhuma e não está nem aí com nada, e do tipo galinha. Dá em cima, te usa e joga fora.
– Já disse, pode parando. Não quero ficante, namorado, rolo ou sei lá o que. Isso só dá merda. Homens são todos iguais. – ela me olhou estranho. Arregalei os olhos ao entender o que ela havia imaginado – NÃO! Calma! Antes mesmo que você diga ou sei lá, eu não sou lésbica, bi, tri ou sei lá se já existem mais definições. Hetero com certeza! – disse rápido. Ela riu. Mas também, lésbica? NÃO! [n/a: oww... não tenho preconceito não tá! Cada um é o que quer! FELICIDADE EM PRIMEIRO LUGAR! EEEEEEEEE!]

Era por volta das dez horas quando chegamos na casa de Stacy. A música tomava toda a vizinhança. Umas pessoas já bêbadas tentavam dançar e não cair. Outras se pegavam pelos cantos. Típica festa. April e eu andávamos para lá e para cá tentando achar a pessoa mais estranha possível. Aquilo me distraia, mas eu ainda esta corroída de raiva por dentro.
Deu um tempo e April foi se pegar com um carinha e desapareceu. As pessoas têm razão, festas acontecem coisas surpreendentes, pessoas somem como se tivessem sido abduzidas. A raiva tomara conta de mim novamente, não tinha mico de patricinha que me distraísse. Fui à procura de . Estava torcendo para que estivesse com sua “carga”.
Depois de andar um pouco naquele mar de gente, achei os olhos no meio de algumas pessoas. Cheguei por trás (no bom sentido) e cutuquei suas costas fazendo-o virar e eu disse:
– Eu quero um pouco.
– Oi ! Quer dançar? – ele disse ignorando o meu pedido. Rolei os olhos, me virei, e saí andando, mas ele me pegou pelo braço, fazendo com que ficássemos incrivelmente próximos, o que não durou muito, pois lancei-lhe um olha fuminante, com raiva e desprezo. Ele deu um passo para trás e parou estático.

- Eu só quero um pouco da sua merda de mercadoria – eu disse firme e ele voltou à seus atos. Abriu sua mochila pegou um ”fumo” já enrolado, me entregando com certa brutalidade. Fiz o mesmo quando lhe entreguei os dois dólares, recebi um olhar assim como o meu, de desprezo. Não me importei e apenas me virei. A única coisa que estava clara em minha mente é que ele realmente era um cafajeste, dizendo para eu ir à festa e tudo mais. Garotos são ridículos.
Fui ao jardim, sentei em algum lugar qualquer, acendi o bagulho e traguei algumas vezes. A sensação me subiu à cabeça, mesmo não sendo permanente e estando ciente disso, meus músculos estavam relaxados, como se a preocupação e o estresse tivessem sumido. A única coisa que me lembro de toda aquela situação eram flashes de eu andando por algumas ruas até chegar em casa e apagar no chão da sala.


Six. even words of sympathy mean nothing

Não estava muito bem. Minha cabeça estava pesada. Ao abrir os olhos via apenas borrões. Levantei lentamente do chão da sala de estar, minha cabeça girava e tinha dores no corpo todo. Só não sabia se era por ter dormido toda torta ou pela noite anterior. Mas não importava.
Fui até a cozinha, meio morta, e ao pisar no piso gelado me assustei. O povo deste fim de mundo é estranho. April estava lá, sentada em uma das cadeiras da cozinha. A me ver parada na porta ela levantou rapidamente e saiu correndo em minha direção, abraçando, ou melhor, me esmagando. Estava tão fraca que nem me aguentava em pé. [n/a: momento Bárbara! Te amo menininha esmagadora! Hehe].
– NOSSA, GAROTA! EU FIQUEI PEROCUPADA! NÃO TE ACHEI MAIS! VOCÊ ESTÁ BEM? VOCÊ É MUITO LOUCA, MENINA. – ela ia dizendo e me abraçando cada vez mais forte.
– A, você está me machucando. – disse com a voz um pouco abafada.
– Desculpa. – ela disse com um sorrisinho de desculpa, me soltando – Eu fiquei preocupada. Não te achava daí eu fui atrás de . Alguma coisa me dizia que ele sabia de você. Ele me disse uns negócios, o que me deixou preocupada, e vim para cá. Você é louca viu!
– O que ele disse? Por que eu sou doida? – disse devagar esfregando os olhos.
– Ele disse “essa menina é bipolar ou o quê?” ou alguma coisa do gênero. Mas isso não importa! Por que você comprou maconha dele? - Quando ela fez essa pergunta, não sabia se contava a minha longa história de ódio que eu estava e que sempre acontecia ou se dava uma desculpa. Não era/sou do tipo de pessoa que se desabafa e sim do tipo que engole os sentimentos, guardando para mim mesma. Mas percebi que alguém, em muito tempo se preocupava. Isso me fez decidir falar.
– Senta que lá vem história. – depois disso a única coisa que ela fez foi sentar no sofá e me olhar curiosa e séria ao mesmo tempo.
Era difícil, muito difícil. Falar o que realmente acontecia e o que eu achava era mesmo o que eu devia fazer? Fui covarde mais uma vez e me escondi novamente. Contei apenas o acontecimento da noite anterior com meus pais e um pouco dizendo que eles não estavam muito aí pra mim, que o trabalho vinha primeiro antes de tudo, mas omiti quase tudo.
Ela ficou um pouco chocada e disse que não tinha reparado nos band-aids em meu braço.
Ai, amiga, pais são um porre mesmo, mas para se desligar disso você não precisava se drogar! Eu estou aqui, para o que você precisar está bem?! - e me deu um abraço apertado, aquilo realmente me confortou e a abracei forte também, mas depois, me senti mal. Eu nunca conseguia me abrir com ninguém mesmo. Nós nos soltamos e perguntei, mudando de assunto.
E aí? A noite foi boa? - nós rimos.
Foi! - ela fez uma carinha bobinha e eu ri - eu curto o Thomas, ele é um nerdzinho, mas e daí, pelo menos tem pegada. Isso porque ele era virgem. – nossa, não aguentei, chorei de rir mesmo, que dó. Ela fez uma carinha tão... Tocante.
Ai, desculpa tinha que rir. Mas continue April catadora que tira virgindade dos nerds.- tá, essa ela riu.
Foi demais! - ela sorriu meio boba, mas dessa vez eu não ri, também se risse mais, acho que ela iria me bater.

April ficou em casa até umas cinco, meus pais chegariam às cinco e meia. Estava percebendo que ter uma amiga não era assim tão ruim, mesmo sabendo que eu não era a melhor pessoa para isso. Quando eles chegaram, mesmo mortos de cansaço, disseram:
Filha, vamos comer uma pizza?
Tá bom, mas eu tenho que tomar banho.
A gente também. Umas seis e meia nós vamos.
Tá aí. Bipolar. A última vez que os vi, estavam brigando comigo e agora estavam me convidando para jantar. Subi tomei banho, coloquei meu all star vermelho rabiscado, jeans e uma t-shirt do Joker e passei os inseparáveis delineador, rímel e lápis.

Depois de pedirmos, começou o infortúnio:
O que você fez hoje, filha? - dessa vez foi meu pai.
A April foi lá em casa.
Quem é April? - minha mãe perguntou, eu achei que era zoeira, mas não era. Cara! Eles não prestam atenção no que eu falo.
?A menina que eu falei que conheci na escola - ela resmungou alguma coisa. O silêncio só se quebrou quando meus pais começaram a conversar alguma coisa.

Quando voltamos subi pro meu quarto, coloquei meu pijama, escovei o dente e me lembrei “escola”... Oh merda! Devíamos poder implantar um chip na nossa cabeça com tudo o que a gente quisesse saber. Mas não posso fazer nada à não ser ir até lá naquele antro de pessoas legais.


Seven. I wanna kiss a boy

Inglês, algumas pessoas na sala, entre elas, . Eu não sou do tipo de pessoas que se sente culpada depois de fazer as coisas, mas estava me sentindo culpada por ter sido idiota com ele no sábado. Acho que ele nem estava ligando, mas eu tinha que pedir desculpas. Sentei-me na carteira ao lado dele e disse:
Foi mal ter sido escrota com você na festa, não estava muito bem. - tá bom que eu dei uma desculpinha, mas não tava afim de dar o relatório.
Oi, estou bem e você? - eu ri e ele sorriu. Nossa que lindo! Não eram os dentes mais lindos do mundo, mas nossa, que lindo! - Tudo bem, não tem problema, todo mundo tem dias ruins.
O Sr. Green entrou na sala acompanhado da diretora, ela tinha um recado.
Alunos que tem Química com o Sr. Turpin, ele vai repor a aula em que ele faltou na 5ª aula. - ele saiu e o povo começou a conversar.
Eu vou precisar de ajuda, sou uma merda em química. - disse .
Eu até que vou bem, eu te ajudo. - nos silenciamos e depois de um tempo ele disse.
Suas fontes eram realmente boas.
Como assim?
Você sabia que eu estava vendendo erva - e não dissemos mais nada até o final da aula.
Nos vimos depois na aula de química. Sr. Turpin é do tipo de professor que se acha muito engraçado, mas na verdade, é um trouxa. Fica fazendo as piadinhas que não tem graça alguma e se alguém ri é porque quer puxar saco o do professor, ou porque foi tão sem graça que chega a ser engraçado.
era realmente péssimo em química. Pior que eu, e olha que a vagabundice anda ao meu lado. Mas sempre tem um jeito pra tudo.
Alunos, na sexta vou dar uma “avaliação”. Para quem não conhece minhas “avaliações” o esquema é: vou entregar uma folha à vocês com perguntas a respeito dos experimentos feitos em aula, mas, mesmo sendo em dupla, a nota é individual. Portanto, os dois membros da dupla devem fazer, eu vou estar olhando. - fez uma cara de assustado, típica cara de “fodeu”.
A gente estuda antes. – eu disse pra amenizar as coisas.

Quando o sinal bateu, saímos da sala conversando e indo distraidamente entretidos em uma de nossas conversas sem sentido ou importância, até meu armário. Não via April. Mas ao chegar ao nosso destino, interrompeu nosso assunto e disse:
- Achei ela! - e apontou para o outro lado do corredor, lá estava ela engolindo o Thomas. Eu chorei de rir e ele riu.
- Acho que não vou almoçar com ela hoje – fato.
- Almoça comigo, o e o . – disse animadinho
- Tá bom. - eu disse com uma cara estranha. Além de que dizer não seria chato, mas o era bem estranhinho a ponto de qualquer um ficar com receio.
- Calma, eles não são estranhos como falam. - eu sorri, só vendo. Pegamos as nossas bandejas, a comida não estava com uma cara muito boa, se não estivesse com tanta fome, não ia comer.
- Oi - disse me sentando, e estavam olhando com uma cara estranha e enojada para a comida.
- Dudes, essa é a . - eles levantaram a cabeça, esquecendo da comida nojenta e me encarando. Tá agora já podia olhar pra comida de novo.
- Você é de Los Angeles, não é? - colocou uma garfada na boca, fez uma cara de nojo e empurrou a bandeja. Nós rimos, menos o que parecia estar bem impressionado.
- Nossa, ficou traumatizado?! Deixa-me ver se está assim tão ruim. – comi e involuntariamente arregalei os olhos. - Puta que pariu! – única coisa a dizer.
- É, alguém deve ter parido mesmo. Puta merda de comida. - Essa o também riu.
- Acredito em vocês cobaias. - disse, colocando a bandeja de lado, enquanto cheirava seu prato e provava um pouco.
- Quem pariu foi a galinha. É ovo! - ele disse comendo mais. Não sou do tipo de pessoa enjoada e fresca que nem vocês, mas essa cena foi traumatizante, aquela comida era de outro planeta.
- , você é nojento - disse.
- É que eu não sou frescurento. - ele disse enquanto mastigava.
- Ow, , como a gente vai fazer para química?
- HAHAHAHAHAHA! Tá bom que você está se preocupando com a escola, HAHA! - disse irônico e deu um tapa na cabeça em sua cabeça [n/a : Uapa].
- Eu não sei. - eu disse sem tirar os olhos do comendo desesperadamente.
- Você pode ir lá em casa hoje depois da aula.
- Tá bom. – concordei mais uma vez sem pensar muito. O único pensamento que ocupava minha mente era da pessoa estranha na minha frente.

Aulas se arrastando. Ou preguiça, eu nem ia pra minha casa, mas tudo bem. Saí à procura de . Aposto que tinha matado aula. Ele estava parado na frente do portão da escola. Aproximei-me:
- Vamos?
- Vamos então. Minha casa fica a uns 15 minutos daqui, a gente vai andar. - balancei a cabeça afirmativamente. Andar faz bem. Certo?!

A casa era menor que a minha. Modesta. Jeitosinha. Entramos, não devia ter ninguém na casa.
- Desculpe a bagunça, – ele disse um pouco envergonhado.
- Como se eu me importasse com isso. – isso era verdade e nem estava bagunçada.

- Não entendi ainda.
- É a massa. Tá certo o que você fez.
- Ah, tá.
- Faz esse agora.
Ele fazia, estava... Concentrado. Era... Incrivelmente... Lindo. Não conseguia parar de olhar para ele, todo concentrado ao meu lado. Ele era lindo demais, não tinha reparado o quanto era.
Fui distraída de meus pensamentos quando ele percebeu que o encarava virando-se a mim. Quando um choque de dentro de mim, de uma parte bem reprimida me tomou conta por completo. Não pude resistir, puxei-o para mais perto pela camiseta e o beijei.
Ele correspondia perfeitamente. Tudo parecia às mil maravilhas, até que aquele meu choque me deixou sóbria novamente, fazendo perceber o que eu estava fazendo. Era realmente idiota da minha parte. Parti o beijo. Peguei a minha bolsa e sai correndo. Tudo rápido demais, beijo rápido, movimentos rápidos e pensamentos rápidos. Mil coisas passavam pela minha cabeça, mas eu só conseguia correr em direção a minha casa.


Eight. What's happening to me?

Por que eu era tão idiota? Não parava de pensar em . Como ele era lindo, aqueles olhos e... Aquele beijo. Eu tinha que parar com isso. Ele nem era tão bom assim. Ou era? Era apenas um fumante, bêbado, vendedor de maconha vagal. E eu? Como se não fosse, claro, tirando a parte do vendedor de maconha.
Andava pelos corredores da escola com aqueles mesmos pensamentos. Precisava de outra coisa para pensar, qualquer outra coisa. Eu, a idiota, não tinha nem dormido direito de tanto pensar nele, como se fosse importante, tudo por cauda da PORRA DE UM BEIJO, um simples beijo. Pensava nisso como se nunca tivesse beijado antes.
Se não me conhecesse tão bem, diria que estava apaixonada, mas não estava. Dois motivos que comprovam isso, primeiro, há quanto tempo eu o conhecia mesmo? Duas semanas e meia? Não acredito em amor à primeira vista ou coisa do gênero. Segundo, vai além dos meus princípios. Não preciso de um garoto para ocupar meus pensamentos.
Caminhava até meu armário concentrada em meus pensamentos, acompanhando meus pés com o olhar, até que parei de andar ao chegar a meu armário e encontrar mais um par de All Star pretos. Levantei minha cabeça para ver o dono dos tênis e deparei com o adorável par de olhos de em minha frente.
Eu abri a boca para falar alguma coisa bem insignificante só para não ficar em silêncio, mas ele colocou suas mãos em meu rosto puxando-me delicadamente para mais perto, juntando nossas bocas em um beijo.
Podia pensar em milhões de coisas naquele comento, como as que pensava antes, mas parecia que tudo estava bem e nada, nem ninguém existiam naquele momento além de nós dois. Nada me vinha à cabeça, a não ser o que fazíamos.
tirou as mãos de minha face e envolveu minha cintura em seus braços, e eu o seu pescoço. Ficamos assim durante longos minutos até eu romper o beijo por já estar ofegante e encontrei minha cabeça em seu peito. Não disse nada. Não sabia o que fazer, dizer ou pensar.
O sinal tocou, nós nos soltamos e ele me olhou com aqueles olhos maravilhosos.
- Até a terceira aul.a – ele me disse, seguido por um selinho.
Fiquei parada por um tempo, observando ele desaparecer no meio dos outros alunos. Puta que pariu, como eu era idiota. Toquei-me do que estava fazendo, peguei minhas coisas e fui até a aula de matemática.

Estava fazendo uma coisa que ia além de minhas regras, todos os meus princípios. Estava com a minha cabeça nas nuvens por causa de um garoto que eu mal conhecia. O que ele tinha demais afinal? Era diferente? Talvez, mas isso não é motivo.
Depois de duas aulas tediosas fui até a sala 110. Sr. Green estava parado na porta esperando os alunos entrarem. Entrei na sala e achei o par de olhos mais lindos do mundo que acompanhava cada movimento meu.
- Oi – ele disse sorrindo.
- Oi - disse me sentando na carteira ao seu lado.
Sinceramente queria sacar uma arma, colocá-la em minha cabeça e puxar o gatilho. Eu estava ridícula, dizendo “oi” simpática com um sorriso mais ridículo ainda, toda boba. Mas ao mesmo tempo em que agia como uma idiota, minha mente estava ciente de que tinha que parar, e ela gritava “PARE SUA IDIOTA” a cada segundo, e mesmo assim não parava.
Aproximei-me dele e dei-lhe um selinho. Ele parecia gostar disso tudo. Tá, e agora? As palavras haviam desaparecido. Merda. A única coisa que me vinha à cabeça era a pergunta “O que é tudo isso?” ou “Eu não queria ter te beijado”, mas a minha tão conhecida cara de pau havia sumido. Além disso, o que ele ia responder? Eu quem o havia beijado durante o produtivo e divertido “estudo”.
- Como foram suas aulas? - ele perguntou.
- Tediosas. – eu respondi depois de pensar um pouco. Ele sorriu, e meu Deus, ele me matava com isso.
- Nós não terminamos de estudar ontem, por que não estudamos hoje à tarde? - e seu sorriso se tornou em um típico de malícia.
- Hoje não dá, vou sair com meus pais. – disse logo. Eu não ia sair com eles, mas acho que eu levei um choque de realidade e vi que eu devia dar uma desculpa.
- Que tal amanhã? - persistente.
- Eu tenho que ver, daí te aviso. – devia ser um choque passageiro, nada é perfeito. Mas ainda era terça, podia arranjar mais desculpas, mas não era hora de pensar nisso.
- Ou me liga. – ele arrancou um pedaço de papel de seu caderno, anotou seu número e me entregou.
Silêncio. Quer dizer, não totalmente. Sr. Green explicava a matéria lá na frente, mas eu nem prestava atenção. Queria conhecer melhor , isso tudo já era ridículo, mas não podia deixar que fosse tão superficial, pelo menos precisava de um pouco de controle, ou tinha que acabar com tudo isso.
- Ow, . Quem mora com você também? - era uma pergunta bem básica, e talvez até irrelevante, mas cortava o silêncio e eu o conheceria melhor.
- Com a minha mãe e meus irmãos – ele repondeu duvidoso, também olha a pergunta – Por quê?
- Só para saber. – sorri de leve para não ficar um clima ruim.
- E você, garota de Los Angeles? - ele disse com uma das sobrancelhas levantadas.
- Com meus pais chatos, - rolei os olhos – mas eles sempre estão trabalhando, trabalhando e trabalhando.
Eu não precisava ter falado isso, apenas ter dito “com meus pais” e nada mais. Detalhes à parte. Mas tarde demais, já tinha falado.
- Seus pais são separados? - perguntei depois de um tempo.
- Não... Err... Meu pai morreu há alguns anos. – tá, eu não devia ter perguntado isso. Me sentia mais ridícula ainda.
- Desculpa, - eu abaixei os olhos – eu não sabia... Sinto muito.
- Não tem problema, não se incomode com isso. – ele sorriu sem graça.
Queria bater minha cabeça na parede. Por que eu fui puxar assunto? Já sou péssima nisso, mas essa superou todas! Ótimo para mim. Nem precisa dizer que depois dessa nem falamos mais nada. Logo que o sinal tocou, peguei minhas coisas e me dirigia até a porta, até que , que estava atrás de mim, disse:
- Me liga então – me puxou para mais perto e depositou um beijo em minha bochecha.


Nine. In the afternoon

Tinha despistado o dia todo, não queria dar outra desculpa sem noção de não “estudar” esta tarde, e muito menos ligaria para ele. Muito vergonhoso e eu odeio telefone. Tá bom, não era nem pelo fato de eu odiar telefone ou por dar uma desculpa ridícula, o que eu realmente não ligava, era mais pela vergonha mesmo.
Eu estava com um grande problema. Quem vê acha que eu estou me referindo ao telefonema para dar uma desculpa, mas não era. O real problema é uma garota idiota hipnotizada por um garoto lindo, drogado que conhece há TRÊS SEMANAS! Esse era mais um motivo pra o colapso.
- Mãe, cheguei! - gritei ao entrar em casa.
- , venha aqui. – ela disse seca. Subi para seu quarto, onde ela estava.
- O que foi?
- Você não tirou pó da casa ontem - do que ela estava falando?
- Não mesmo. Por quê? - perguntei.
- Como assim “por que”? Eu disse ontem para você tirar! - ela disse mais irritada.
Eu não estava ficando louca. Nem havia visto ela ontem, ela havia trabalhado o dia inteiro.
- O quê? Não pediu não. – para que eu fui falar isso?
- MENINA, VOCÊ É MUITO DESATENTA! NÃO OUVE NEM O QUE SEUS PAIS DIZEM! - ela disse gritando, entrando no closet e colocando uma roupa branca - “Não pediu não” HAHA! VOCÊ NÃO PRESTA ATENÇÃO E FICA ARRANJANDO DESCULPAS.
- Quando você me disse? - falei firme, em um tom normal, se eu gritasse, o que estava quase fazendo, ela iria dizer que eu era má educada e mais um monte de coisas sem sentido.
- COMO ASSIM? TE PEDI ONTEM DE MANHÃ, ANTES DE VOCÊ SAIR DE CASA! - HAHA que engraçado, mãe, pode parar agora.
- Pelo amor, mãe, você e o pai estavam dormindo quando eu saí de casa! - minha mãe estava ficando louca. Quero dizer, ela sempre foi.
- CLARO QUE NÃO! - não estava aguentando essa discução.
- Ah, você nem sabe a hora que eu entro na escola. – eu disse sem paciência.
- CLÁRO QUE SEI! É ÀS NOVE E MEIA! - ela disse continuando a pegar suas coisas enquanto eu estava parada e indignada, com uma perfeita cara de merda.
- Eu entro às oito e meia. – disse séria. Não tinha nem o que falar.
Ela parou de fazer o que estava fazendo, simplesmente deu de ombros e disse:
- Eu tenho que ir trabalhar. – esse é meu exemplo de mãe – Eu e seu pai só voltamos amanhã.
Eu a deixei em seu quarto e fui para o meu. Logo que entrei, bati a porta com força e me joguei em minha cama. Mal esperava fazer 18 anos e sumir da vida deles! Eu estava puta da vida! Peguei meu travesseiro, levei-o a meu rosto e gritei com todas as minhas forças.
Queria me distrair, não aguentava mais brigas com minha mãe. Foi então que me lembrei do meu tal problema chamado . Peguei o telefone no criado mudo e fui atrás do papel com o seu número de telefone. Disquei os números, aquele barulho me deixava nervosa.
- Alô? - ouvi uma voz máscula, era com certeza.
- ?
- Oi, .- é, era ele mesmo
- Ah... - deveria ter pensado no que falar antes – Você vai fazer alguma coisa hoje?
- Não, não vou.
- Bom... É, eu não vou fazer nada hoje e... Sei lá, você disse que veria quando a gente poderia “estudar”. - eu disse “estudar” em um tom diferente, ele entendeu que a minha intenção era a mesma que a dele.
- Claro! - ele exclamou mais animado. Expliquei onde eu morava, quer dizer, o nome da rua e o número da casa, porque eu não sabia dar pontos de referência.
Nessa hora percebi que não amava , ou nada perto disso, mas o mais próximo seria eu estar “hipnotizada” por ele, mas ainda sim, nem chegava a esse ponto. Percebi que eu gostava daquela situação em partes.

O barulho da campainha me despertou de meus pensamentos. Minha distração havia chegado. Ah, minha gostosa distração chamada . Desci correndo e abri a porta. Lá estava ele, lindo com uma camiseta do The Clash com uma calça escura, seu All Star preto, cabelo bagunçado e os olhos... Ah, os olhos e hipnotizantes. Ele havia me enfeitiçado.
Ele resmungou um “oi”, mas eu não me contive mais uma vez, coloquei minhas mãos em sua face puxando-o para um beijo. fechou a porta atrás de si e envolveu minha cintura em seus braços. Deslizei minhas mãos até sua nuca dando leves puxões em seu cabelo. O beijo se intensificava a cada segundo.
Minha perfeita e maravilhosa distração.


Ten.I Wanna be a Rock Star

Sim, eu realmente estava com um grande problema. Onde é que minha cabeça estava neste momento? Bem longe de mim, com certeza. Desde quando eu me distraía com amassos? Eu sei que não foi má coisa, mas não era para eu estar indo contra as minhas regras. Eu era uma idiota mesmo.
Estava em uma rotina infernal! Falava com April, pensava em durante a aula, e, como diz a April, “dava uns pegas nele”, mas quando voltava para casa me amaldiçoava em pensamento por pensar tanto nele. Meus companheiros de conflitos internos! Quer dizer, eu não queria isso, garotos são todos uns vagabundos e, afinal de contas, o que tem demais? Nem ao menos o conheço suficientemente, isso é doentio.
Por outro lado, bem diferente do último, que é um tanto raivoso, vou chamar o primeiro ponto de vista de O Ponto de vista de ódio. O meu segundo ponto de vista é o contrário, seria O Ponto de vista de Paixão, isso mesmo, paixão e não amor. me faz sentir de um jeito diferente, maravilhosamente bem, como se tudo no mundo fosse ótimo e os problemas se acabassem. Assim parece que eu só o quero como refugio, quando tudo está ruim, mas não, mesmo quando as coisas estão amenas e normais, eu quero ficar junto dele.
Já o terceiro ponto de vista eu diria que é o triste. Apesar de amar e odiar tudo isso, e ele? O que sente e pensa de toda essa situação? Realmente o que eu acreditava era difícil de admitir. Ele era apenas mais uma pessoa, talvez não ele e sim eu. Quer dizer, eu sou apenas mais uma garota com quem ele ficava e nada além disso.
Apesar de não gostar que os sentimentos me dominassem por preferir a realidade, não podia fingir que eles não existiam. Não queria apenas ficar com um garoto sem que ao menos não existisse o mínimo de sentimento de ambas as partes. É neste ponto que entra mais um problema. Se eu não tinha certeza do meu próprio sentimento, muito menos do dele. E já que era assim, deveria acabar com tudo isso, mas não conseguia. Merda.

Estava na aula de matemática, afogada em meus pensamentos. Não sabia nem o nome da professora, mas nem me importava, e matemática era uma matéria que eu ia bem sem esforço, mesmo estando com a mente perdida em outro planeta, como naquele momento. Porém, voltei à realidade ao levar uma bolinha de papel na cabeça.
- Ow! - eu disse passando a mão no lugar atingido, o que fez a professora se virar com aquela cara de eu-não-transo-há-sete-anos-e-vou-arrancar-sua-cabeça-por-isso, dei um sorrisinho só para amenizar a situação.
Logo ela se virou novamente para frente e me abaixei para pegar o papel, eu o abri e estava escrito “Oi, ! Quer ver o Green Day tocar hoje, em uma apresentação V.I.P só para você? PS: é o !” em uma letrinha linda e super legível. Virei-me para trás e lá estava ele com um sorriso de orelha a orelha. Virei-me para frente novamente e escrevi no mesmo papel “Tá bom, onde?” amassei novamente e joguei para ele. Em menos de um minuto já estava jogando para mim de volta, mas como ele é super discreto a professora percebeu e gritou:
- Os dois, FORA! - me levantei, peguei minhas coisas e fomos em direção a porta. Até que não faria diferença estar dentro ou fora da sala. A professora foi até a porta, escreveu em dois papéis, entregou um para mim e um para e deixamos a sala.
- Professora mal comida do caralho! - eu disse revirando os olhos – Onde fica a sala de detenção por aqui?
- É por aqui! - ele disse virando em um corredor me puxando pelo braço.
- E onde vocês vão tocar hoje? - eu perguntei me referindo a ver o Green Day tocar, afinal, não tinha dado para eu ver o bilhete.
- No porão do – ele respondeu com os olhos brilhando. Felicidade é pouco para esse menino, nem tenho o que dizer.
- Você realmente ama muito isso, hein?! - ele balançou a cabeça afirmando com um grande sorriso no rosto. Bom, pelo menos eles faziam alguma coisa além de fumar maconha.
A sala de detenção era aquela típica bagunça, onde colocam o professor mais ingênuo para ficar de olho justo nos alunos ruins. Nós dois sentamos em uma mesa que tinha duas cadeiras vazias e enquanto conversava com uns garotos e apenas observava o professor, coitado, o pior é que ele ainda tentava colocar ordem na sala enquanto ninguém nem o olhava e ainda pegavam a caneta dele, fazendo-o ir atrás para pega-la. Tá, essa parte admito que gostei.
Não deu nem quinze minutos que estávamos lá e apareceu na sala também e se juntou a nós. Incrível como até assim eles acabavam se encontrando, parecia até programado, como se tivesse um imã de... Como posso dizer? De Green Day, acho que é o correto a dizer. De qualquer forma assim como nós dois e entramos na detenção rápido, saímos também e logo fomos à procura de .
Ele tinha o dom de sumir, demoramos para achá-lo ao lado da escola, fumando. Ele parecia um pouco desolado, mas gritou alguma coisa do tipo “Ow, seu viado” e correu para abraçá-lo e sua expressão mudou totalmente, de tristeza para algo um pouco mais alegre.
Durante todo o caminho até a casa de , os três foram conversando alegremente coisas idiotas, enquanto eu ficava quieta, apenas pensando na bipolaridade no mínimo estranha do garoto ao meu lado. Ele conseguia me distrair até assim, com um simples gesto, o que me fazia ficar com pensamentos a mil. Mesmo ele conversando alegre, se você olhasse bem em seus olhos, podia-se ver que alguma coisas estava errada.
Isso foi assustador! Estou entrando em colapso obviamente, uso drogas ou penso coisas sem sentido, se bem que estas três opções estavam um pouco corretas. “e se você olhasse bem em seus olhos, podia-se ver que alguma coisa estava errada” como se eu entendesse muito sobre como lidar com pessoas, ou com , afinal, nossa relação era basicamente baseada em amassos, nada além disso.
Só despertei de meus pensamentos quando já estávamos no porão da casa de e eles testavam seus instrumentos, enquanto eu estava sentada em um sofá velho, observando-os “inconsciente”, foi quando pensei: o baixo do era foda.
- , liga para o Dunkin Donuts – disse , com os olhos faiscantes.
- Ligo – disse, revirando os olhos, colocando a correia da guitarra em seu ombro –, mas não me responsabilizo por seus atos – isso foi estranho.
- É, , por favor! Coma, cheire, ou sei lá o que você vai fazer com os donuts dessa vez, longe de mim! - disse.
- O quê? Eu sinto que estou perdida no assunto – eu disse, estranhando toda aquela situação. É isso que dá andar com pessoas estranhas.
- Ele cheira donuts – disse dando de ombros, assim bem normal, como se todos fizessem isso. Olhei para com meus olhos arregalados, mas quando vi os olhos dele ainda brilhando pelo donuts que ele nem havia comprado ainda, comecei a rir.

Eles tocaram alguma músicas e como me surpreendi com o talento deles, não é todo dia que se vê uma banda de porão boa, foi impressionante para mim, mas o que mais me impressionou no dia foi ver cheirando donuts, ele tossindo quando os granulados entraram por seu nariz, realmente hilário e bizarro. [n/a: Imaginem isso gente... eu ri :D]
No final da tarde, e foram embora e eu nem tive tempo de pensar, já me arrastou para seu quarto aos beijos. Realmente adorava a minha distração.


Eleven. Such a gentlemen

Estava desconfiando que matava a última aula, nada muito impressionante ou raro entre alunos, mas estava interessada em saber o que ele fazia nesse tempo. Estava ficando louca, queria saber tudo sobre ele, de um dia para o outro ele passou de apenas uma distração, para mais do que isso, queria me tornar perita nele.
Havia desistido de minha luta constante comigo mesma. O lado que era a favor dos meus conceitos e de minhas regras de realidade, onde acreditava que não precisava de nenhum garoto e que eles são uns idiotas e blá blá blá de sempre, adormeceu. O outro lado, que era o que de início eu não estava a favor, o do “amor”, que me deixaria cega para realidade, prevaleceu, e esse era meu demônio, do qual não queria que tomasse conta de mim, mas, nem tudo que a gente quer acontece.
De um dia para o outro meu demônio tomou conta de mim, fazendo, assim como disse antes, ficar cega as minhas razões, esquecendo do meu firme lado racional e real. Perdi minhas regras para enxergar apenas uma pessoa, .
Talvez eu tenha cedido pelo simples fato de não saber o que ele tinha de tão bom para pensar tanto nele como pensava. Isso me faria parar de ficar só em amassos e querer descobrir mais sobre ele, o que já era um avanço.
Assim que abri uma brecha para os conhecimentos sobre , infringi minha regra de que menino algum entraria mais em minha vida, essa brecha foi o suficiente para o meu tal “demônio” tomar conta de mim, perdi meu controle, o que eu mais temia aconteceu, fiquei cega por ele, só pensava nele, uma fraca, era o que eu diria.

Decidi matar a última aula, achar e ver o que ele fazia nesse tempo. Andei por vários minutos intermináveis pelos lugares mais prováveis e improváveis da escola que ele poderia estar, e depois de se passar mais uns longos dez minutos, eu o achei. Em um dos jardins da escola, até que bem cuidado, por falar nisso, em baixo de uma árvore - e a única daquele jardim - sentado, poluindo a natureza com mais um de seus baseados.
Aproximei-me dele para me sentar ao seu lado embaixo da árvore. Encostei minha cabeça em seu ombro e nenhuma palavra havia sido pronunciada ainda, ele apenas apagou o baseado no tronco da árvore. devia estar mais para lá do que para cá, conseguia até sentir seus músculos relaxados em baixo de sua pele que tocava a minha.
Em meu estado normal de realidade, gritaria com ele, ou ao mínimo faria uma bela cara de bosta e perguntaria se ele queria morrer mais rápido, mesmo não tendo muita moral pra falar alguma coisa, seria o sujo falando do mal lavado, mas na casa de ferreiro, espeto é de pau, certo? E para aumentar mais as evidências de que não estava em meu estado normal, passei meus braços por sua cintura, mesmo que no fundo uma vozinha me dissesse para parar.
Ficamos assim durante alguns minutos, até a pessoa do meu lado se manifestar e passar um de seus braços por cima de meus ombros, o que foi motivo de uma felicidade imensa tomar conta de mim. Uma simples correspondência vinda dele, para mim era um baú do tesouro. Com mais alguns segundos desfrutando de minha felicidade, disse:
- Você não deveria estar aqui - com uma voz que parecia estar mais sóbrio, mas mesmo assim, ele não podia falar nada de mim.
- E nem você – eu disse em um tom divertido, provocando um sorriso em sua face.
- Por que você veio aqui? - disse ele, ainda olhando para frente enquanto eu encarava suas pedras preciosas que eram insultadas de olhos, levemente avermelhadas devido ao que havia acabado de fumar.
- Porque queria saber onde você estava – ao terminar a minha simples e óbvia frase ele virou seu olhar para mim.
- Você é linda – ele disse, com um sorriso em seus lábios, o que me atingiu ainda mais forte. Involuntariamente, o abracei mais forte e ele se aproximou me dando um beijo.
Aproveitava aquele momento ao seu lado ao máximo, mesmo que em seus beijos eu sentisse até o gosto da maconha. Ficamos lá até o sinal tocar e mesmo assim não queria sair de lá nunca, mas eu tinha, além do mais eu iria na casa da April e precisava achá-la. Nós dois nos dirigimos até o portão de entrada da escola e não demorou muito para avistar April, que me viu também, mas ficou parada no lugar que estava para que eu me despedisse de .
- Eu tenho que ir – eu disse, levemente triste, ele nem ao menos respondeu, só colocou suas mãos em meu rosto e juntou nossos lábios e não demorou muito para que eu os abrisse deixando-o aprofundar o beijo.
Depois de um longo beijo, fui caminhando toda alegre até April, sem conseguir disfarçar minha felicidade.
- Vamos? - eu disse, ainda com o sorriso.
- Vamos. - ela disse séria, um tanto quanto estranho.
- O que foi? - perguntei curiosa, parecia que ela estava irritada com a situação, e revirou os olhos.
- Vamos andando que eu vou falando. - Balancei a cabeça positivamente e fomos andando, então ela começou a falar - Cuidado com ele, – ela disse séria.
- O quê? - nem estava entendendo o que ela estava falando.
- Com o ! - ela respondeu rolando os olhos – Eu sei que ele é super gente boa e tudo mais, mas não confie muito – é isso no fundo, no fundo eu sabia, mas nem estava ligando mais - Ele fuma maconha, bebe e, além disso, é meio galinha – a verdade é mesmo dura.
- Eu sei, mas... - minhas palavras não apareciam, eu não tinha explicação – Eu não sei o que eu tenho, ou melhor... O que ele tem. é tão... tão... - é, não tinha nada a dizer mesmo.
- Você está se apaixonando por ele mesmo? - April perguntou, meio indignada, então desviei o olhar, ela bufou.
- Eu não sei! Ele tem alguma coisa que... É diferente – eu disse, tentando explicar alguma coisa, April sorriu, como se estivesse compreendendo, acho que não o que eu disse, mas a situação. Foi quando ela perdeu os argumentos ou não tinha mais o que dizer e mudamos de assunto.
Talvez aquele tal demônio não fosse tão ruim quanto eu pensava, talvez desse certo. Estava confiante, só não sabia se era por mim mesma, ou se era pelo que tenha me dominado.


Twelve. Shaking inside

- Minha mãe e meus irmãos vão viajar nesse feriado – era o que me falava, enquanto caminhávamos pelos corredores da escola, ouvia aquela conversa com tanta atenção, que nada poderia pensar em existir.
- E você? – eu perguntei, apenas para continuar, afinal, por que ele estava falando isso para mim mesmo? Rude, eu sei, mas é meu ponto de vista.
- Não sou riquinho – é, realmente, só de olhá-lo dava para concluir a mesma coisa – Minha família não tem dinheiro para a prole inteira viajar.
- Então você fica? – acho que ele era mais estranho de que havia pensado e mais pobre também. Tenho que aprender a agradecer mais o que eu tenho.
- Alguém sempre fica em casa, essa é a minha vez – estava me sentindo mais ingrata ainda, mesmo achando meus pais um porre e, eles não parando em casa, ao menos ganhavam bem.
- Nossa! Isso é... triste. – foi um tanto exagerado, mas acho que realmente me senti mal em relação à vida que eu levava e a que levava.
- Não é triste – como eu havia pensado... – Nem estou a fim de viajar mesmo – ele disse, sem expressão de sentimento alguma ao falar, diferente de antes.
Fiquei sem assunto para conversar depois disso, queria perguntar o que é que eu tinha a ver com aquela conversa, mas era grosseiro demais. Sem saber o porquê, fiquei um pouco frustrada por não saber o que dizer. Ele era estranho, uma hora falava animadamente, atropelando palavras e, na outra, falava sério, sem uma expressão sequer.
- O que é que você está pensando? – perguntou ainda sério, olhando para minha face. Deve ter percebido que me distraía por alguns minutos.
- Nada... É só que agora que você disse, me senti um pouco ingrata, sabe? – tentei explicar, e alguma coisa surgiu em seu rosto, uma dúvida – Sabe, pelo que meus pais me dão e tudo mais, mesmo que isso não compre amor – ao fim dessa frase podia até ouvir sirenes de alerta em minha cabeça.
O que é que eu estava fazendo? Me abrindo com ele? Esse é o momento que o juízo me vem à cabeça, minhas regras aparecem, mas tarde demais. Geralmente dava uma desculpa, para não dizer a verdade. Sabia que se começasse sempre dizer coisas sobre minha vida pessoal, não ia parar, se tornaria um hábito. Odeio saber mentir mais para mim mesma do que para os outros. Só tinha que tomar conta da situação e omitir os fatos, afinal, isso não é mentir.
continuava visivelmente com uma dúvida, mas desviei o olhar. Era melhor parar, pensar qualquer bobagem, do que falar mais do que eu devia. Ficamos em silêncio por um momento, um breve momento, que quebrou, disparando:
- Quer ir em casa amanhã? Eles saem de casa hoje à noite – não deixei transparecer muita expressão, para me policiar, mas, por dentro estava um tanto espantada. Sabia o que isso significava e me esforçava para seguir meus instintos, manter o controle e dizer a resposta que tinha que dizer.
- Que horas? – mas acho que a ansiedade era maior. Nunca siga o seu coração, ele só te diz “faz, faz, faz, faz, faz”; use a consciência.
- Depois da escola. Sei lá? Você escolhe. – Ele disse e chegamos à frente da escola. Nos despedimos com um longo beijo e seguimos nossos caminhos.

Saí do banho, coloquei uma calça jeans comum entre tantas, uma camiseta qualquer que estava pendurada no guardarroupa e meu par de All-Star mais velho, que eu tanto amava. Sequei meus cabelos e, por último, delineei uma linha em minha pálpebra móvel, seguido de camadas de máscara.
Saí de meu quarto e me dirigi até o dos meus pais. Minha mãe estava no closet, fui até lá e perguntei:
- Que horas vocês vão trabalhar hoje?
- Daqui a pouco – ela respondeu, olhando interessada em uma pilha de roupas brancas, escolhendo uma em muitas praticamente iguais.
- Eu vou sair, tá?! – eu disse, me encostando ao batente da porta.
- Tá bom – ela respondeu, saindo do closet, olhando fixamente para uma camiseta.
- Fala para o pai que eu mandei um “tchau” – ele estava no banho, eu acho, ou o chuveiro estava ligado gastando água à toa.
Ela resmungou alguma coisa indefinida e saí de lá. Desci as escadas, peguei minhas chaves e saí de casa. Fui andando pelos quarteirões até a casa de . Ele morava relativamente longe de mim, umas dez quadras da minha, ou mais.
Era longe, mas em Los Angeles as pessoas sempre moravam mais longe uma das outras, mas não importava, gosto de andar.

Em alguns minutos - não apenas alguns - estava na frente da casa de . Subi os três pequenos degraus da varanda e apertei a campainha. O som ecoava dentro da casa e logo pude ouvir o som da chave destrancando a porta e ver aqueles olhos maravilhosos.
- Oi – ele disse simpático, em seguida me puxou para um beijo.
- Oi – eu disse sorrindo, depois de quebrar o beijo.
O que não durou muito tempo, pois voltamos a nos beijar e, a cada minuto, se intensificava mais. Ele ia me conduzindo até o sue quarto, sem quebrar o beijo. Depois de alguns minutos tentando adivinhar o caminho, senti ele me deitar no que diria ser sua cama.
Passei minhas mãos por de baixo de sua camiseta, empurrando a mesma para cima, o que fez com que, por um breve momento, ele desgrudasse nossas bocas para tirar a peça por completo. O físico dele era lindo, pelo menos para mim. Não era nada com músculos salientes e bem definidos, mas podia ver uma saliência no abdômen, mas eu gosto de garotos do tipo magro, sabe.
Sem eu nem ter tempo de perceber como, ele já havia tirado minha camiseta e tinha um sorriso safado nos lábios ao me ver apenas de sutiã, mas logo voltou a me beijar novamente. foi descendo duas mãos até o cós de minha calça e, depois de um tempo tentando, desabotoou os dois botões e a puxou para baixo. Distribuía beijos e leves (ou não tanto assim) chupões em seu pescoço, enquanto descia minhas mãos até o fecho de sua calça, que não demorou a estar longe.
Ele encaixou suas pernas nas minhas, o que me fez sentir seu volume por baixo da boxer. foi deslizando suas mãos até o fecho de meu sutiã e desabotoou o mesmo, jogando-o em algum canto do quarto. Depois de um curto tempo - de acordo com meus péssimos cálculos - ele começou a beijar meu pescoço, o que me fazia contorcer de arrepios, o que não ajudou muito, quando ele começou a descer os beijos até meu umbigo e em seguida tirando uma última peça de roupa que restava.
Senti as mãos dele em meus seios, o que aumentava mais e mais meus arrepios e voltou a me beijar intensamente. Coloquei minhas mãos no cós de sua boxer, brincando com o elástico por um tempo, mas logo me livrei da mesma. Ele rompeu o beijo e, rapidamente, abriu uma gaveta do criado-mudo, ao lado de sua cama, pegando um pacote de camisinha, que logo que abriu e colocou-a. Em poucos segundos, ele me penetrou, gemia, arranhando suas costa com minhas unhas compridas (coitado) em um tempo, ambos chegamos ao ponto máximo, fazendo que, com não apenas eu, gemesse alto. Recuperei meu fôlego, quando ele já estava deitado ao meu lado na cama, ele sorriu e foi correspondido por um sorriso de minha parte.

- Tem certeza que não está doendo? – perguntei, sentando ao lado de no sofá de sua sala de tv.
- Já disse que não - ele respondeu, passando os braços por meu ombro. E é claro que estava doendo, podia até ver os vergões que minhas unhas tinham deixado nas costas dele.
Passei uma de minhas mãos por suas costas nuas, além de ver, podia sentir a saliência do “machucado”, mas, enfim, se ele diz que não é nada, se eu não lembro, não fui eu. Meu lema.
- Você está linda com essa minha camiseta – ele disse, com um sorriso maroto nos lábios.
- E você está lindo com essa sua boxer vermelha – eu disse, o que fez ele sorrir, só que não maroto como antes.
- Dorme aqui hoje? – ele perguntou, ainda com um sorriso alegre nos lábios, me olhando com aqueles olhos maravilhosos que fariam qualquer um ficar feliz em vê-los.
- Hum... – fiz uma cara de pensativa e disse com uma voz divertida – Não. - o que o fez tirar o sorriso do rosto e me olhar indignado (ou não tão indignado assim).
- Por que não? Eu sei que seus pais vão trabalhar – ele disse com cara de cachorrinho sem dono, ele não podia fazer isso. Aqueles olhos! Se não estivesse apenas brincando com ele, e isso fosse realmente sério, seria impossível dizer não.
- Tá bom – disse, derrotada e ele sorriu triunfante, seguido por um beijo de tirar o fôlego. Seria uma longa noite.


Thirteen. What's the point of being in Love<

Durante as semanas que se passavam, não tirava um sorriso bobo do rosto. Agora já era tarde demais para contrariar ou voltar o tempo, eu estava apaixonada. Havia me entregado totalmente ao amor, a , mas, ao contrário de antes, isso não me incomodava nem um pouco. Mesmo não sabendo que tipo de relação tínhamos, só de estar ao seu lado, minha felicidade era imensa. Aos meus olhos, ele era perfeito, mesmo fumando, bêbado ou mesmo sendo grosso comigo às vezes.
Uma coisa eu sabia, ele era realmente estranho. Uma hora tudo estava as mil maravilhas, me tratava bem, mas, em outra hora, me tratava como um trapo velho, que esta no lixão e ninguém quer mais. Mesmo com tudo isso, lambia o chão que ele pisava. Meu príncipe encantado era um drogado bipolar. Quando no jardim de infância você ouve histórias, acha que vai descer de um cavalo, ou melhor, trazendo para os dias de hoje, descendo de um Porsche com os cabelos bagunçados, um tipo de galã que não é cafajeste e faz tudo para te ver feliz. Mas o meu príncipe encantado mal tinha bicicleta e os cabelos eram bagunçados pelo simples fato de não ligar para isso e me tratava, digamos, estranhamente de seu jeito que eu julgava perfeito.
- Oi, – eu disse, chegando ao lado de seu armário, no intervalo entre uma aula e outra.
- Oi – ele disse seco e ríspido, mexendo em seu armário como se eu nem estivesse ali. Passou adiante. Ignorei sua ignorada.
- Vai fazer alguma coisa hoje? – perguntei simpática sorridente, o que era difícil me ver fazendo isso.
- Não – ele disse e em seguida fechou o armário e saiu andando, provavelmente para próxima aula, me deixando sozinha uma cara de alface olhando ele desaparecer em um mar de pessoas.
Tudo que fazia me influenciava. Como o ato de ter me ignorado, me fazia pensar “o que eu havia feito?”. Fiquei apenas com isso em minha cabeça durante uma aula inteira, até ouvir o sinal, me tirando de um transe anunciando o almoço.
Senti um certo aperto no coração ao sentar ao lado de April na mesa do refeitório, procurando com os olhos sem obter sucesso. Abaixei os olhos mexendo minha comida com o garfo. Havia perdido o apetite.
- A comida da escola é ruim, mas a gente aprende a amar – April disse, o que me fez rir internamente e transparecer um sorriso sem graça. Eu sabia que ela só estava dizendo isso só pra me animar.
- Eu não estou como fome – eu disse, ainda com o mesmo sorriso sem graça nos lábios. April devia estar sem argumentos, pois não disse mais nada depois disso.
Fiquei pensando onde poderia estar, sem nem reparar no resto dos acontecimentos no refeitório barulhento. Cara, que problema! Era tão grave assim? Claro que não! Era irrelevante. Tá, não era irrelevante, mas não era tão importante assim. Estava ficando neurótica mesmo.
Por que eu tinha que gostar das pessoas estranhas? Ele podia ser um pouco normal para variar. Podia ser um cara que fala o que realmente quer dizer, que não tivesse variação de humor e que não me desprezasse. Eu sei que ninguém pode mudar o jeito de uma pessoa, mas isso estava tão longe da realidade? Não era impossível e nem difícil, mas não ia acontecer. Pena que eu ficar imaginando não ia fazer nada. Ele ainda continuaria sendo , o garoto bipolar e meio perturbado, que nem sabia se ligava para mim.
Ao pensar assim, senti um certo aperto em algum lugar dentro de mim. Sentia-me inútil. Esses flashes de realidade em minha cabeça deixavam parte de mim triste. Talvez eu também fosse um pouco perturbada, assim como ele. Suspirei, indo para minha última aula com passos de formiga. A última coisa que queria era aula.
Cheguei a minha sala em uns quinze minutos, atrasada e me joguei na última carteira e fiquei lá, afogada em meus pensamentos, até o já conhecido sinal me salvar. Desci as escadas da escola e atravessei o portão. Estava desolada, odiava quando permitia que as pessoas ao meu redor influenciassem meu humor.
Estava na metade do caminho de volta para minha casa, passava por um beco escuro quando senti uma mão puxando meu braço para dentro do corredor escuro. Quando me deparei caída/sentada no chão sujo com um cara a minha frente, cujo rosto não conseguia ver.
“Pronto, é agora! Vou morrer” era o que pensava, e mais alguma outras coisas negativas, como “vou ser estuprada, ficar grávida, com AIDS e ainda por cima na porra dessa cidade!”
Senti suas mãos em meu rosto, estremeci de medo, mas aquelas mãos? Conhecia aquelas mãos, ou melhor, o dono daquelas mãos. Meu sentimento mudou em um segundo de espanto para o de uma imensa felicidade que não conhecia. Ele estava ali e isso era o que importava, não estava nem aí se estávamos em um beco feio e sujo.
Ele agachou em minha frente e trouxe seu rosto mais perto do meu, grudando nossas testas. Fechei involuntariamente meus olhos enquanto nossas respirações se misturavam, aproveitando o momento, até que justamos nossos lábios em um beijo calmo. O mundo dá voltas e voltas e para em um beco escuro, nos últimos lugares que pensamos.
Ficamos na mesmo posição, na mesma situação por longos minutos, mas algo me falou mais alto. Parti o beijo. Queria falar com ele, perguntar o que havia acontecido, onde eles estava e por que ele estava em uma merda de um beco. Maconheiros são estranhos, a única coisa que posso dizer com certeza. Abri os olhos e encarei aquelas pedras preciosas, o que adorava fazer. Ele massageava uma de minhas bochechas com o polegar. Eu havia aberto a boca para falar algo, mas não disse nada e, em poucos segundos, quem falou foi ele.
- Eu te amo – aquilo me atingiu como uma bomba atômica, mas que traz nascimento ao invés de destruição, uma coisa irreal, que não esperaria em um bom tempo.
Meu mundo virou de cabeça para baixo, ou para o lado correto. Não saberia explicar minha felicidade e espanto tão bem quanto sentia. Abri o maior sorriso que pude e puxei-o para mais peto de mim e sussurrei em seu ouvido:
- Eu também te amo.
abriu um sorriso como resposta, o mais maravilhoso que poderia imaginar, vendo-o sorrir. Mesmo estando em um lugar deplorável, aquilo era um momento inesquecível e... Perfeito!


Fourteen. Break your little heart in two

As semanas foram passando e a fascinação me tomava conta por completo. dia após dia fazia parte de mim e de minha rotina, mesmo ele me tratando mal às vezes ou sumindo, para mim nada disso importava; o que importava era que eu o amava, e o resto era à parte.
Eu me sentia feliz e até conseguia prestar atenção nas aulas. Tá, às vezes não, por me pegar pensando nele. Ele tinha uma influência enorme sobre mim.
- , você poderia pegar um livro pra mim na biblioteca? – perguntou o Sr. McLaren, professor de literatura. Assenti com a cabeça. Levantei, ele escreveu o nome em um papelzinho e me entregou.
Andava pelos corredores, apenas olhando o papel. Inútil, eu sei, mas de qualquer forma andava estranha nos últimos dias. Não sei se essa influência que tinha sobre mim era boa assim, mas mesmo assim, não parava de me influenciar. Em minha mente, contava os minutos e segundos para vê-lo assim que o sinal tocasse.
Cheguei à biblioteca e perguntei para a bibliotecária sonsa em que prateleira o livro contido no papel estava. Ela apontou para uma delas, com pouca vontade, pior que a minha de todos os dias. Fui até lá e depois de pouco tempo a procurar, o encontrei.
Fiquei olhando a capa por alguns segundos. Era um livro bonito, do tipo que eu gosto. Capa de couro antiga, aqueles que mesmo em uma nova edição tem aquele ar de livro velho. Abri o mesmo e aproximei meu nariz da página, respirando fundo, deixando aquele cheiro de livro velho contagiar meu pulmão. Porém, ouvi gemidos vindos do “corredor” de prateleiras ao lado e claro que eu e minha pouca curiosidade deixamos o livro velho de lado e fomos olhar para ver o que era.
Bom, eu realmente preferiria continuar com a minha atenção voltada a uma droga de livro do que ver o que via. Minha boca caiu. E essa hora que mais uma vez o mundo desabou. Até meu reflexo falhou. Fiquei em choque. Não sabia o que fazia, se gritava, se saia dali, ou se continuava no mesmo lugar em que estava. A única coisa que fiz foi levar o livro para a bibliotecária registrar, tentando não pensar no que havia visto. O “aluguei” e voltei para a sala, incrédula.
A aula de literatura continuava e eu apenas comecei a juntar meus pensamentos. Não queria pensar nisso, mas era inevitável e o certo a fazer. A cena de se amassando com Ashley ficava se repetindo constantemente em minha cabeça. A tristeza em mim era completa. Em minutos atrás achava que tudo estava completamente, como sempre eu estava errada, e não seria a última vez.
E mais uma vez, de um minuto à outro, meu sentimento mudou totalmente. A raiva e o ódio tomaram conta de mim. Não sabia se tinha mais ódio do vadio do , desgraçado, filho da puta, ou de mim mesma por não aprender com meus próprios erros. Tá bom, era óbvio, O ME PAGAVA! Não ia levar isso igual uma cega, ou uma garota que gosta de ter chifres, mas ainda assim tinha raiva de mim mesma por não ter percebido.
Queria que ele ficasse queimando no fogo do inferno pela eternidade (ou isso seria o purgatório?). O desgraçado, filho da puta, que ódio! Mais uma vez o sinal anunciou o final de mais uma porra de sexta-feira, me tirando de meus pensamentos e perceber uma folha de papel que antes escrevi estava amassada em minhas mãos.
Juntei meu material, joguei tudo dentro da mochila e fui andando rapidamente para que saísse do prédio o mais rápido possível. Assim que saí, respirei fundo e fui ao jardim ao lado do prédio; não estava a fim de ficar perto da renda de gente na saída da escola, que via todos os dias, mesmo não falando com nenhuma daquelas pessoas.
Foi então que assim que sentei, pela segunda vez no dia, ouvi pessoas conversando atrás de duas árvores no jardim, nas quais estava sentada. Não resisti minha curiosidade novamente e fui ouvir.
- , talvez isso seja errado. – Era a voz de .
- Nossa, olha quem está falando, senhor certinho – disse , seguido por risos, mas ele continuou sério. – Mas você devia escolher uma.
Eu não estava aguentando ficar ali, assim que percebi quem estava atrás da maldita árvore. Aquele desgraçado...
- Por que ter uma se posso ter as duas? – Aquelas palavras saíram daquela boca com tanta normalidade. Eu estava pensando em sair dali e ir embora, mas depois que ele disse isso, não ia amolecer assim. Se é isso que ele pensa, ele esta muito enganado.
Saí de trás da árvore, fui à frente deles, nem me importando com as suas caras de merda. Puxei pela gola da camisa trazendo-o para mais perto. Fechei meus punhos e dei um soco naquele maldito nariz. Ele se afastou e levou a mão a área que em pouco sangrava. Depois disso, nem me dei ao trabalho de olhar para trás e saí de lá, sem para até chegar em casa.

Cheguei em casa e me joguei no sofá, fechando rapidamente os olhos. Por que eu sempre escolhia o cara errado? Eu já sabia que tinha algum problema, mas não tão grande assim. Isso era muita macumba. Deve ter alguma pessoa que me odeia e fica fazendo algum tipo de ritual ou sei lá o quê contra mim. Duas vezes em seguida e sem perceber nada? Como assim?
E mesmo assim, eu era muito burra mesmo. Por que fui deixar isso acontecer? Eu havia jurado a mim mesma que se ficasse com alguém, ia pensar mil vezes antes. Por que não aprendo com meus erros? Se alguém me pedisse um conselho, eu diria "aprenda com seus erros!" Mas isso não serve para mim; acho que eu sou realmente cega.
A única coisa que fiz depois de continuar pensando em quanto eu era burra foi apagar no sofá. Que bom que para dormir não preciso me preocupar com dar satisfação a alguém. Tá, nem sempre. E que bom que meus pais não estavam lá, para fechar o dia com chave de ouro.


Fifteen. I’d be your memory

Sábado chato. A casa é tão morta. Ou era eu que estava morta?
Estava jogada no sofá passando os canais da TV, programas chatos. Vida chata. Eu sou chata. A vida é uma desgraça. Não, quer dizer, não só ela, homens são! AH! EU OS ODEIO. vagabundo. Espero que ele fique com Ashley pro resto da vida e tenha filhinhos chatinhos e burrinhos que odeiam o pai que têm por sustentá-los vendendo maconha, ou odeiem a mãe também por ser uma loira de farmácia burra como uma porta.
Interrompi meus pensamentos a mil, levantei e sentei na ponta do sofá, sem expressão. Não podia lembrar daquilo, não queria e não me permitia. Não podia fazer isso comigo mesma, mas os malditos flashes cismavam em passar por minha cabeça. Agora tinha uma memória ruim para me lembrar.

flashback on

"Estava abraçada com Dylan na beira da praia. Ah, Los Angeles. Vi que a lua iluminava os olhos azuis da figura a minha frente, como se fossem estrelas. Seu perfume invadia meus pulmões.
- Eu te amo – ele sussurrou em meu ouvido, o que me fazia estremecer todas as vezes que ele pronunciava.
- Eu também te amo. Muito, muito, muito.
Ele apenas ficou me olhando e sorriu, enquanto eu devolvia outro sorriso e um olhar abobalhado. Abraçamo-nos mais forte e nos beijamos, sob o perfeito e lindo luar de uma bela noite de verão da agitada Los Angeles. Amava a sensação de ter um namorado que me amava ao meu lado."

flashback off


Mesmo em vão, não sorrir ao lembrar daquilo era impossível. Pensar nas idas à praia ou aos parques de diversão, mesmo sendo o maior programa de índio, estando ao lado dele, tudo se tornava perfeito. Não podia abrir meus pensamentos e me lembrar disso. Não das coisas boas. Ele não é uma pessoa boa. Não era. Não, ele ainda não deve ser uma boa pessoa. Lembrar do que ele fez. Ele não merece nem ao menos ser lembrado.

flashback on

"Ver a cena de Dylan, o meu Dylan beijando uma vadiazinha desconhecida na ex-melhor sorveteria do mundo era inexplicável. A vontade louca de surrar aquela vadia... mas quem merecia era ele. Quem ele achava que era pra acabar com os meus sentimentos?
Me aproximei do casalzinho ternura e o puxei pela camiseta, desgrudando suas bocas. Estava pronta para dar um tapa naquele rostinho bonito, mas ele me pegou de surpresa, segurando meu braço antes que atingisse meu objetivo.
- Tarde demais, está triste? Eu não estou. – Ele grunhiu olhando fundo em meus olhos e ainda conseguia olhá-los, como se não tivesse feito nada.
- Como você pôde? – Não podia falar, não ia conseguir conter o choro, pelo menos não por muito tempo.
- O quê? Acredita mesmo que eu te amo?"

flashback off


Palavras cruéis e inesquecíveis. Incrível como você pode aprender com um namorado. Tantas foram as lágrimas. Prometi que nunca mais choraria por um cara.
Sim, um ficante e um namorado são situações diferentes, mas traição é traição. Além de que, duas vezes? O mesmo erro duas vezes? Eu atraio macumba mesmo, só pode ser. Mas não choraria, não desta vez.
Respirei fundo olhando para o clipe que estava passando na TV. Atmosphere do Joy Division; era realmente macabro, aqueles.
Continuei passando os canais. Mesmo Dylan sendo a pessoa que eu mais odeio no mundo, aqueles foram bons tempos, tinha que admitir. Aprendi a amar, a odiar e saber que nem tudo é como nós esperamos. Mas continuo cometendo os mesmos erros.
Dylan foi um capítulo da minha vida que eu havia apagado para não ter rancor, mas uma pessoa “maravilhosa” chamada trouxe tudo de volta à minha cabeça.
Não conseguia assistir mais nada, então levantei e desliguei a TV. O que eu precisava mesmo era um banho, lavar a alma.


Sixteen. Things I Heard Today

Pra ver como eu sou bem diferente de meus pais... Pleno domingo às 19 horas, eles saem pra jantar. Super afetuosos e melosos estavam antes de sair. Enquanto eu fico jogada na cama olhando para o teto. Amor é uma coisa relativa.
Esse branco não tá muito legal! Um dia vou ter a felicidade de comprar spray e “pixar” tudo. ADOREI. Será que o Wall Mart tá aberto?
Levantei rápido, procurando uma roupa um pouco mais decente, e saí correndo pra pegar o ônibus. No final, acho que nem sou tão macumbada; cheguei ao ponto e o ônibus chegou. Se bem que não sou tão fracassada pra que tudo dê errado.
Agora era só acha uma tinta spray legal. O Wall Mart é realmente grande. Acho que deve ter até gerador de energia para vender, ou sei lá, caixão. Aê! Tinta em spray preta e vermelha. Já da pra usar.
Aquela fome repentina me pegou, e já que eu estava no supermercado mesmo, ia comprar alguma porcaria como Doritos e Gatorade pra comer.
Atravessei o supermercado para chegar no departamento de comida. Quanta marca de batata; é incrível como as pessoas só se lembram das batatas. Doritos, muito melhor. Peguei um daqueles sacos grandes e fui a busca do corredor de bebidas.
Duas figuras rosas e com vozinhas irritantes atrapalharam meu raciocínio de achar um ponto azul nos Gatorades. Stacy e Ashley, uns amores de pessoas. Passei pelas coisas de rosa e elas pararam um minuto de falar. Sentia seus olhares sobre mim. Ashley abriu a boca e falou alguma coisa referente à pessoa chifruda chamada Angélica, e as gralhas começaram a rir. Respira, 1, 2, 3. Gire o globo, corte ao meio, conte até dez, repita o processo. Peguei meu Gatorade de framboesa e saí daquele antro de gralhas vagabundas.

Depois de comer meu precioso Doritos, estava nos dois pequenos degraus que ficam a frente da porta de entrada da minha casa, sentada apoiando meu queixo em minhas mãos e meus cotovelos, olhando o movimento que não existia na rua. Só dava para ouvir algum grilo e as luzes acesas nas casas. Vizinhos, não conhecia nenhum deles. Mas se não me atrapalhassem, nem incomodassem, nem preciso conhecer, apesar de que é legal ter um vizinho estranho, tipo macumbeira, só pra ter historia pra contar.
Alguma coisa se manifestou. A porta do vizinho da frente se abriu, um menino de uns 17 anos, cabelo escuro, olhos castanhos claros (eu acho), cabelo bagunçado, estilozinho, saiu da casa de mãos dadas com uma menina loira de olhos azuis, bem azuis, uma beleza um tanto delicada. O amor me perseguia? Tá, não tava perseguindo não. Mas os dois rindo juntos e estavam tão lindos, realmente combinavam. Pareciam aqueles casais de Hollywood que são arranjados pra ficar junto só para fazer sucesso, já que ambos são bonitos.
Eles caminharam um pouco mais a frente, conversando alegremente, e se despediram com um beijo apaixonado (pelo menos era bem a mensagem que passava). Ela se distanciou e ele a fitava, sorrindo e alargando mais o sorriso quando ela se virava só para vê-lo.
Ela saiu do campo de visão e o garoto, já se virava para entrar na casa novamente, mas ele reparou na garota sentada na frente da porta da casa da frente, com os olhos pretos e uma roupa escura, olhando atentamente aquela cena.
Me toquei o quanto estava concentrada olhando, mas o menino pareceu não se incomodar. Disse um “oi” e acenou com a mão. Devolvi um aceno, ele sorriu e entrou novamente.
Ô vida parada e limitada, a minha. Puxei um maço de cigarros do bolso e um isqueiro. É isso que me restava: fumar. E admito, isso é pensamento de quem é limitado. E todo esse drama por um idiota. Um idiota fodido, que nem eu.


Seventeen. I don't need a reason

Andava pelos corredores como se ninguém existisse, como se não tivesse ninguém naquele lugar, mesmo que estivesse lotado. Fui ao meu armário pegar o livro de inglês e segui para a sala 110 para mais 50 minutos como um vegetal.
Me joguei na última carteira tão conhecida, esperando, inquietamente, para acabar a aula que nem havia começado. O ruim ia ser ver aquela porra de garoto no mesmo ambiente que eu.
O som do sinal contagiou toda a escola, então saí do meu mundo solitário, onde só existia eu. Passou a existir a pessoa que tomava meus pensamentos. entrou na sala com um pequeno corte no nariz e com o local um pouco roxo. Tinha um prazer imenso de ver ele assim, o que involuntariamente me fez sorrir por um breve momento. Eu o fitava sem nem ao menos piscar, com uma expressão vazia no rosto. Ele fazia exatamente a mesma coisa. O sequei com olhos até a última carteira do lado oposto da sala, ainda olhando em seus olhos. O professor não existia, os outros alunos não existiam; só existia. Passamos 50 minutos olhando um para o outro sem se manifestar, sem nenhuma emoção, sem nem ao menos pensar. Mesmo estando com raiva, era como se tivesse me desligado, como se não lembrasse. Mais uma vez o sinal tocou e me tirou totalmente daquele momento tenso, voltando ao mundo real. Puxei minha mochila rapidamente e saí, quase correndo, para a próxima aula. Agora era espanhol. Uma porra, mas era com a April e a gente só conversava. Mas ainda assim não conseguia pensar em alguma coisa sem ser . O que foi aquilo? O que ele estava pensando? Eu não pensava em nada, mas e ele? E essas horas que queria ser o professor do X-man para ler mentes, mas... Não é assim. Por que eu fiquei olhando para ele como idiota? O melhor a fazer seria nem ligar para ele, assim como ele não ligava pra mim. Mas aquilo foi sem explicação, nem se não houvesse acontecido nada entre nós, aquilo foi tão vazio e mesmo sem emoção alguma, era como se fosse sincero. Ainda estava com raiva, mas parecia que depois disso eu deixei o ódio de lado e vi o quanto triste isso era. Ao pensar nisso, parei no meio do corredor, nem ligando se estava atrapalhando a passagem ou não. A angústia me tomou por completo. Fui traída por uma pessoa que eu confiava. Namorado, ficante ou amigo traiu mais que a minha confiança; ele me trocou por uma garota, e que ainda por cima nem tinha conteúdo. Me toquei que ele não me deixou apenas com raiva como se tivesse brigado comigo. Ele me quebrou ao meio. Ele mexeu comigo duas vezes, e duas vezes contra minha vontade, ou quase.
O corredor estava vazio, comecei a correr. Qual era a sala mesmo? 310, eu acho. Por que tinha que ser relativamente longe da sala de inglês? Que cú. Cheguei à sala e pedi desculpa para a professora vagabunda que me fazia odiar espanhol. Fui sentar na carteira atrás de April, e logo ela me mandou um bilhete escrito:

“Onde você tava, menina?” – April.
“Só me atrasei um pouco na muvuca” – .
“Fiquei sabendo o que o fez. Como você tá?” – April.
“Tô com raiva, mas tô melhor do que pensava, não é a primeira vez” – .
“Eu disse para tomar cuidado com ele, mas não é uma boa hora para sermão” – April.
“Obrigada, mas devia ter te ouvido” – .
“Você pode ir em casa depois da aula?” – April.
“Posso, sim” – .

Paramos de escrever e continuamos a “prestar” atenção na aula, quer dizer, ela sim, eu não. Fiquei apensar pensando em novamente e tinha mentindo, não achei que ia ficar triste e angustiada.

Eu realmente gostava da casa de April. A mãe dela era um amor e sempre quando eu ia lá, ela fazia algum doce pra gente. Ela gostava de mim de acordo com April, e olha que nem sou simpática. Talvez fosse de família, já que April era minha amiga. Ah, sei lá.
Nós estávamos na cozinha comendo bolo de chocolate com nozes, que estava incrivelmente gostoso. A mãe de April tinha trazido uns álbuns de fotos antigas de April, mesmo ela tendo implorado para não me mostrar. Amava fotos e as dela eram bem cabulosas.
- Chega, chega, acabou – April disse, juntando os álbuns e colocando caixa de volta.
- Mas tem mais na sala – a mãe dela disse e eu comecei a rir.
- Não tem nada! Vamos subir, – ela disse, me puxando até as escadas.
- Amei suas fotos – disse, recebendo um tapa na cabeça.
Subimos até seu quarto. Eu, pouco folgada, me joguei na cama, o colchão de água dela era divino e senti-o mexer quando April sentou na ponta da cama.
- Folgadinha – ela disse. Me “levantei” e sentei na cama de pernas de indiozinho.
- Seu colchão é muito bom – disse, com cara de criança, fazendo-a rir. Ela parou de rir e nós ficamos em um breve silêncio.
- Você tá bem mesmo com esse negócio do ? - ela disse nos tirando do silêncio. Suspirei e respondi:
- Tô sim. Tô puta da vida, mas a vida continua...
- Continua, mas você não quer sorvete ou chocolate? Geralmente é o que a gente faz. – Nós rimos, o que descontraiu um pouco a conversa.
- Não vou ficar comendo e vendo filmes românticos; isso não é pra mim. Mas mesmo não fazendo isso, dá pra curtir a fossa – ela fez uma cara triste. – Mas eu tô bem, descontei um pouco da minha raiva no nariz dele – disse, com um sorriso solitário e ela riu novamente.
- Eu vi o nariz dele hoje mesmo – ela disse, ainda rindo.


Estava andando até a minha casa, já conseguia vê-la. Estava bem perto. Olhei para o outro lado da rua e vi o meu vizinho que havia visto na noite anterior, sentado na frente da porta.
Ele acenou e disse “oi”. Fiz o mesmo e ele ficou me olhando até eu abrir a porta e eu disse, quase gritei um “tchau”.
Menino estranho.

Eighteen. Sugar, ah honey, honey

Os dias iam se passando, e aquele menino idiota não saía de minha cabeça. Mesmo que não fosse às aulas de inglês, ou quando o via no almoço e intervalos, ele sempre estava ao meu lado, como se fosse um guarda-costas. Não, não um guarda-costas, um obsesso. Ele sempre estava em minha cabeça, às vezes podia até ter alucinações e vê-lo ao meu lado, ou enquanto eu dormia.
Havia chegado quinta-feira, sabe o que isso significa? Advinha, começa com “Q”. QUÍMICA. Isso significa que é meu parceiro na aula de química até o final do semestre. Que porra. Nem sabia o que falar pra ele. Ou melhor, nem queria falar com ele.
O sinal tocou e o corredor parecia até tremer pelo movimento das pessoas que queriam chegar em suas salas. Com uma breve dificuldade, cheguei a minha sala e logo vi uma pessoa desatenta, com um lugar vago ao seu lado, . A imagem dele se agarrando com a Ashley veio à minha cabeça. Impossível não se lembrar.
Tirei uma força de vontade de dentro de mim para caminhar até lá e sentar no lugar vago. Ele me fitava e eu “fingia” que não era comigo, continuando a olhar fixo para frente.
- Oi – ele disse, quase que em um sussurro, mas ainda continuei olhando para frente. Passaram alguns poucos minutos, 2 minutos para ser exata e ele voltou a falar: – Alguma hora você vai ter que falar comigo.
Ah, vá para puta que pariu, que raiva. Virei para ele com a maior cara de merda do mundo. Olhei bem pra ele durante alguns segundos e virei para frente novamente.
O professor entrou na sala, falou o que tinha que falar que eu nem prestei atenção, e falou para copiarmos o que estava passando no quadro-negro. Apenas peguei meu caderno e copiei até o final da aula. Algumas vezes ele me olhava, mas eu nem ligava. O sinal tocou, joguei meu caderno e estojo na mochila e saí, deixando-o sentado lá com cara de indignado.
Já estava no corredor, me sentindo livre dele, quando ouvi chamar meu nome e cada vez se aproximando mais. Era correndo atrás de mim. Aff, glória, o que ele queria falar? Ele ia ficar me enchendo mesmo, era melhor me livrar logo. Virei-me, fazendo ele para a minha frente.
- O que foi? – eu disse, com os olhos semicerrados.
- Erm... você vai ouvir mesmo? – Revirei os olhos. Se eu tinha parado, né.
Ele ainda estava enrolando, dei meia volta, já ia andando, mas me puxou pela costa.
- Olha, desculpa, tá... Foi mal... eu... – interrompi o que ele falava.
- É, foi mal, realmente mal. Muito mais que isso! Se for só isso... eu vou indo – me virei de novo e ele me puxou, bufei e fiz uma cara de merda de novo.
- O que eu faço pra você me perdoar? – Olhei bem fixo para ele e disse:
- Nada. Mas você poderia me deixar em paz e ir para minha sala. – já estava quase me perdendo dentro daqueles olhos , mas me virei pra ir rumo à sala e mais uma vez ele me puxou. – O que aconteceu com o “eu posso ter as duas”?
Ele tinha o cenho franzido, como se quisesse entender o que passava em minha cabeça, parado, apenas olhando. Desta vez não ia ser puxado por ele, isso eu sabia. Segui para minha aula sem interrupções.

ficou me olhando o dia inteiro, nos corredores, no almoço, e na saída, diferente do dia anterior. Se ele queria desculpas, ia ser mais difícil do que ele pensava. Isto é, se eu desculpasse. Não estava nem pensando nessa opção.
Estava deitada na cama olhando para o teto branco. Tudo parecia tão sem vida. Peguei a garrafa que estava ao lado da cama de cerveja já aberta, porém cheia, e dei o primeiro gole dando um pouco mais de vida àquele momento vazio.
Álcool. Era isso que eu tava precisando naquele momento. Era como se o preto e branco ficasse colorido. Mas o quarto não havia mudado de dor, obviamente. Levantei da cama com um pulo. Desci até a cozinha, abri o armário onde estavam os sprays de tinta, peguei os mesmos e peguei um bolo de jornal que estava ao lado da bancada da cozinha e subi ao meu quarto novamente.
Com dificuldade e um pouco de tempo, afastei os móveis da parede. Coloquei os jornais no chão, abri uma das latas de spray e parei na frente da parede, olhando e pensando.
Tá, o que fazer agora? Podia escrever uma letra de música. É isso mesmo. Comecei a escrever frases de musicas e depois comecei a escrever coisas aleatórias, pensamentos, falas, lembranças, desenhinhos estranhos sem sentido. Tudo em preto.
Parei um pouco e bebi mais um pouco de cerveja. Não era colorido, mas tava mais... cheio. Com individualidade, uma parede com personalidade.
Fiz mais uns desenhos, e ouvi a campainha tocando. Era a primeira vez que ouvia aquela capainha, que era um tanto feia. Saí correndo abrir a porta. Ótima hora, eu estava suja de tinta, de shorts e camiseta velha e com o cabelo mal preso em um coque.
Abri a porta e lá estava o vizinho com uma xícara nas mãos. Aposto que ia pedir açúcar. Aff, glória. Em Los Angeles ninguém faz isso. Fiquei pensando e me esquivei dele, só percebi quando vi que ele mudou para uma expressão de incompreensão.
- Oi? – eu disse, meio na dúvida.
- Oi, eu moro aqui na frente, meu nome é Daniel – ele estendeu uma de suas mãos para mim. Esperei alguns segundos analisando a situação e apertei sua mão.
- Eu sou a . – Soltamos nossas mãos e um silêncio desconfortante se instalou. Ele apenas me observava. Perdeu alguma coisa? Acho que não. – Ern...- digamos que rangi pra ver se ele falava o que queria.
Ele meio que saiu de um transe, sacudindo levemente a cabeça e começou a falar.
- Ah é, minha mãe queria um pouco de açúcar – ele disse, levantando a xícara, se referindo ao porque dele tê-la trazido – para cozinhar alguma coisa lá.
Din! Din! Din! Din! Din! Eu sabia que era açúcar! Acho que ninguém usa açúcar. Acho que a gente usa sal para fazer uma janta, que eu faço apenas para mim, que geralmente é miojo ou bolacha e para refeições de final de semana, que não foge muito de porcarias.
- Ah, tá, entra aí. Vou ver o que eu tenho aqui – disse, indo em direção à cozinha enquanto ele me seguia.
Dei uma breve revirada na cozinha, abrindo os armários em busca de um pote ou pacote de açúcar. Mas a única coisa que eu estava percebendo era que a gente precisava fazer compras. Havia achado o sal, então o açúcar devia estar per... aqui. Dois pacotes de açúcar. Ah, deixar um pacote era melhor.
Peguei um dos sacos de um quilo e estendi para ele.
- Não precisa, é muito – ele disse, balançando a cabeça em um modo negativo.
- Ah, eu não vou abrir um saco só para encher sua xícara – ele analisou as situações e concordou, pegando o saco.
Levei ele até a porta novamente.
- Obrigado, foi um prazer – ele disse, com um meio sorriso esboçado na face.
- O prazer foi meu – respondi com um sorriso amigável, pra não ser tão mal educada.
- A propósito, tá linda com essa tinta – ele virou e saiu andando em direção de sua casa, me deixando chocada, parada na porta.
Ah, vá se foder. Ainda acho e repito. Que menino estranho. Subi as escadas e entrei no meu quarto em busca da garrafa. Peguei-a e virei em minha boca em longos e rápidos goles, terminei. Sentia o álcool queimando em minha garganta. Recuperei minha respiração, puxando uma grande quantidade de ar dentro de meus pulmões e logo soltando novamente. Ah, doce álcool.


Nineteen. Kiss the demons out of my dreams

Sexta-feira havia passado sem nem ser percebida, deve ter sido pelo fato de eu estar só pensando em como eu queria sábado e não sexta, com aula.
Uma chuva teimava em cair naquela manhã de sábado. Aquele barulho das gotas de água batendo no telhado já estava quase me fazendo cair no sono novamente. Minhas pálpebras semi fechadas se juntavam contra minha vontade. Estava confundindo sonho com realidade.
Podia ver claramente em frente a minha cama. Via aquelas pedras preciosas brilhando direcionadas a meus olhos. Ele se aproximava de mim, deitando ao meu lado em minha cama. Sentia seus braços se entrelaçando em minha cintura, seu perfume invadia meus pulmões, sua respiração calma em meu pescoço.
Aquilo tudo me levava ao delírio. Contorcia-me por dentro, porém em alguns poucos segundos não me importava com mais nada. Estava em pura paz, desfrutando sua presença como se fossem os meus últimos minutos de vida.
E em poucos minutos sentia sendo puxado por um tipo de força do além. Ele resistia e segurava firme em minha cintura, mas em pouco tempo ele se soltou e se distanciava rapidamente, em um breu, até eu perdê-lo de vista.
Me sentia como se tivesse o perdido para sempre, ficando sozinha em uma escuridão, sem nada. Apenas eu, abraçada em minhas pernas, na solidão, quando comecei a sentir lágrimas molhando os meus braços.
Levantei rapidamente, sentando em minha cama. A chuva havia aumentado, se ouvia fortes pingos de chuva, como se fossem baldes com água seguidos de estrondosos sons de trovões.
Minha cabeça estava pesada. Sempre acordava assim quando sonhava com , se é que aquilo podia ser considerado sonho. Ele sempre invadia minha mente. Já estava me enchendo o saco. Tinha que esquecê-lo a qualquer custo.
Não queria, mas tinha que admitir; estava apaixonada por . Não podia enganar a mim mesma. Era por isso que ele estava em meus sonhos, em meus pensamentos. Ele havia entrado em minha vida, mas eu queria que ele saísse, eu acho. Ou não. Ai, meu deus. Eu nem ao menos sabia o que queria.
- Ahhh – suspirei, me jogando na cama novamente, puxando o edredom até a cabeça. “Inferno.” Nunca queria ter vindo a Oakland.
Olhei para o relógio pendurado na parede em frente a minha cama, dez e quinze. Fome. Levantei da cama com má vontade, caminhei até meu banheiro e olhei a figura de cara amassada na frente do espelho. Abri a torneira, pegando um pouco de água e jogando no rosto. Já me sentia melhor. Sequei-me e desci até a cozinha, pulando os degraus.
Parei na frente da geladeira ao notar o bilhete. “Vou trabalhar até às 18h. Seu pai vem às 12h para almoçar, faça almoço.” Era o que dizia. Ah, adoro cozinhar, devia largar a escola e ser cozinheira particular dos meus pais. Ganharia no máximo 100 dólares por mês com a pãodurice deles. O que aconteceu com o dellivery? Era isso eu ia fazer, ligar pro restaurante chinês e ser feliz.
Abri a nossa tentativa de geladeira, que não tinha nada. Havia apenas algumas cervejas, um resto de leite, e cereal no armário. Não cerveja, não fale comigo, apague essa luz! , não caia em tentação. É isso. Peguei o leite e fechei rapidamente a geladeira.
Hm, nutrição na frente da televisão. Estava passando Beetlejuice, eu amava esse filme. Tim Burton é meu ídolo, e esse filme me faz pensar: o que vai acontecer comigo quando eu morrer? Ah, de qualquer forma, prefiro não pensar nisso. Prefiro pensar em coisas mais úteis agora, como esse cereal, que é muito bom, ou em como eu podia estar dormindo agora, mas não, aquele demônio me fez perder tempo de sono, mais uma vez.
NÃO! Por que sempre acabava entrando em meus pensamentos de alguma forma? Tinha que parar com esse vício ridículo, não ia perdoar, não podia. Se bem que não seria uma má ideia. O que você esta pensando é claro que é!
Levantei-me e fui até a cozinha deixar o prato na pia. Suspirei e sentei em uma das cadeiras. No fundo, no fundo, eu queria desculpá-lo, mas não podia me desprezar tanto assim para desculpar uma pessoa que fez o que ele fez, não podia me deixar levar.
A chuva já havia passado e a campainha tocou. Affe, campainhas são meu problema, 10h30 da manhã de sábado, ninguém merece. Levantei e fui até a porta, devia ser meu pai que tinha esquecido a chave, ele sempre faz isso.
Abri a porta e vi a figura que via em todos ou meus sonhos, ou melhor, pesadelos, , parado em minha porta e eu com cara de idiota, de boca aberta e pijama, sem nem ao menos piscar.
- Oi - ele disse, parecendo um pouco envergonhado, me despertando.
- O que você está fazendo aqui? - eu disse, grossa, não demonstrando nenhum sentimento em minha voz, mesmo estando feliz por estar ali. O que eu podia fazer? A gente não escolhe de quem a gente gosta.
- Tudo bem comigo também - ele disse, sorrindo. Eu apenas continuei fitando-o com o mesmo olhar de antes, seriamente. - Olha, eu não sei exatamente como conversar e se entender...
- Se é para se desculpar, pode dar meia volta e ir embora - eu disse interrompendo sua fala.
Ele ficou quieto por um breve espaço de tempo, olhando para o chão, talvez pensando no que dizer, ou algo do tipo. Eu realmente não queria que ele fosse embora, queria mesmo era que ele ficasse e entrasse e só Deus sabe que horas ir embora, mesmo que ele tivesse quebra meu coração.
- Qual é o problema em conversar? Eu errei, sei que te machuquei, mas... eu não posso voltar. Se eu pudesse...
- Você pode voltar... para sua casa! - disse irritada e interrompendo sua fala novamente.
Ele me olhou, confuso, como se tentasse ler meus pensamentos olhando através de meus olhos. Mas isso eu não queria, e não aguento esconder a verdade por muito tempo. Peguei a porta, fechei e dei uma volta na chave.
O arrependimento veio à tona. Queria ele de volta para mim. Não estava ligando se ele iria para o puteiro à noite e comia todas, ou se catava qualquer menina fútil ou não. Queria para mim!
Não era forte perante a isso. Apesar de me esconder atrás da raiva, ou de um sentimento vazio, para me fazer de forte para que não admitisse que ele voltasse, eu o queria de volta e isso não é nem um pouco de força. Encarei bem a porta em minha frente, a fechadura gritava meu nome. Girei a chave novamente e abri a porta.
Vi andando com as mãos nos bolsos e de cabeça baixa, devagar, isso me deixou feliz de uma forma inexplicável.
Ele percebeu o barulho da porta e se virou. Tinha uma expressão ainda mais confusa do que antes, mas eu entendia aquilo muito bem, estava agindo sobre puro impulso. Dei uma breve corrida até onde consegui andar devagar e calma, me aproximando mais dele, olhando bem fundo em seus olhos. Ele passou seus braços em minha cintura enquanto eu colocava minhas mãos em seu pescoço, aproximando nossos lábios, iniciando um beijo calmo, e mesmo depois de tudo, podia-se dizer "e com sentimento". Acho que podíamos chamar aquilo de pedido de desculpas.


Tweenty. Sit around and watch the tube

Desta vez não era sonho, tinha perto de mim de verdade e não ia haver nada do além que o tirasse de mim. Além disso, eu esperava que nenhuma loira fútil aparecesse também, mas nem estava muito preocupada com isso naquele momento; importava-me apenas com o fato de tê-lo ao meu lado.
Estávamos nós dois sentados no sofá e, por incrível que pareça, prestando atenção ao filme. Também se não fosse Beetlejuice e fosse qualquer outro, estaríamos ocupados em outra coisa. Mas mesmo assim não ocupava apenas o espaço ao meu lado no sofá, mas no pensamento também. Assistia ao filme, mas era inevitável pensar no braço que estava em cima de meus ombros, o peito onde tinha minha cabeça apoiada e, claro, aquele aroma de cigarro misturado com perfume. É uma coisa que você tem que disfarçar, mas ele valia o preço, pelo menos para mim, ou não.
Não, essa não é hora para dúvidas.
A música Jump in the Line começou a tocar. Adorava aquela música e aquela parte do filme também. Tá bom que é uma música bem idiota e aqueles jogadores de futebol, então! Comecei a rir, sem parar. me olhou, estranhando minha atitude, mas não demorou muito para que percebesse era pela música, então ele começou a cantar:
- Jump in the line, rock your body in time. - Eu levantei do sofá e comecei a cantar e dançar, o que não é boa coisa de se ver já que não sei fazer nenhum dos dois.
- OK, I believe you. - Ele levantou também e lá estavam os dois idiotas cantando e dançando Jump in the Line, a música de Beetlejuice. Bom, melhor que muitas coisas por aí.
É, até que a música acabou e nós nos jogamos no sofá, rindo. Aquilo havia sido realmente divertido, espontâneo, engraçado, e estranho, é claro.
- Fã de Beetlejuice, hein? - eu disse, seguido de risos.
- Um pouco. - Ele fez uma breve pausa e continuou: - E você só gosta de coisas bizarras.
- Nisso você tem razão; pelo menos um pouco. VIVA O DIFERENTE! - completei, animada, levantando os braços.
Os risos foram diminuindo, até que o silêncio se instalou entre nós. Era um pouco constrangedor. Ficávamos olhando para os cantos do cômodo, como se não tivesse acontecendo nada. Fizemos isso por um tempo, mas eu decidi acabar com o silêncio, falando algo que me estava incômodo, ou quase.
- Por que você veio aqui? - perguntei, séria, olhando no fundo de seus olhos, como procurando uma resposta nos olhos hipnotizantes.
Imediatamente, desviou o olhar do meu, dando certo tempo para responder.
- Eu queria me explicar... Dar ao mínimo uma satisfação. - Ele levantou a cabeça e voltou a me olhar. - Eu não sei direito... Só sei simplesmente que vim aqui, sem ter alguma coisa certa pra te falar.
Continuei fitando aqueles olhos, mesmo depois daquela... resposta. Uma merda de uma resposta. As pessoas podiam ser mais objetivas, qual é o problema disso? É, eu não podia falar muito disso, eu não era lá uma pessoa objetiva, mas ele podia ter sido mais específico, era por isso que eu continuava olhando em seus olhos, procurando a resposta específica que eu queria, ou se ele estava ali pra se explicar, me dar uma satisfação, estava esperando.
não captou a mensagem, apenas continuou olhando, querendo entender a minha "espera" que mesmo assim não certo. Foi então que ele pegou uma almofada que estava atrás de nós e jogou em minha cara, iniciando uma briga de travesseiros.
Parecíamos duas crianças sem infância, pulando, dando almofadadas um no outro. Aquilo tinha sido divertido, nós riamos sem parar, mesmo que as pancadas que ele me dava fossem quase fatais de tão fortes. De qualquer forma, não havia gostado do rumo de nossa conversa, mas não tinha nem clima para voltar. Apenas riamos e brincávamos.
Já estava ofegante e cansada, então me sentei no chão, apoiando minhas costas no sofá. fez o mesmo, mas ele parecia não estar tão ofegante quanto eu. Ainda riamos um pouco. Recuperávamos nossos fôlegos, as risadas diminuíam e faziam com que ficássemos em um clima mais constrangedor e quieto.
foi lentamente se aproximando de mim, colocando uma de suas mãos em meu rosto, trazendo-o para mais perto e encostando nossos lábios em um selinho demorado, até ele passas sua língua sobre meus lábios para que aprofundássemos o beijo. Já nos beijávamos calmamente há um tempo até começarmos a intensificar o beijo. Eu puxava seus cabelos enquanto uma vez ou outra ele deixava escapar um gemido rouco de sua garganta.
Como algumas pessoas dizem, as coisas estavam ficando mais quentes. Uma das mãos de se encontrava em um de meus glúteos e outra na barra da blusa do meu pijama, com o maior desejo de tirá-la. Já as minhas passeavam por duas costas enquanto o beijo continuava se intensificando. Não demorou muito para que quebrasse o beijo para tirar minha blusa, mas logo voltamos aos amassos, mesmo assim eu tive que quebrá-lo de novo para dizer:
- Na sala não... - enquanto recebia beijos em meu pescoço. - E no chão?!
sorriu e voltou a me beijar. De alguma forma ele me carregou, com uma breve dificuldade, ou não tão breve assim. Nós chegamos ao meu quarto, o que também não foi tão fácil assim, mas difícil mesmo foi achar a cama, pior que subir a escada. me colocou na cama quebrando o beijo novamente e eu aproveitei a deixa para tirar sua blusa. Nós deitamos na cama, voltamos a nos beijar e eu brigava com seu cinto. Consegui me livrar dele quando começou a distribui beijos e chupões em meu pescoço.
Santos arrepios, ele começou a descer os beijos até meu umbigo e puxou a barra o short do meu pijama para baixo junto com minha calcinha, voltou a me beijar intensamente enquanto tirava meu sutiã. Sentia suas mãos em meus seios; aquilo só aumentava meus arrepios. Comecei a desabotoar sua calça, e em pouco tempo ele mesmo se livrou dela. Continuamos nos beijando até que se levantou em busca de algo que antes estava no bolso de sua calça. Ele pegou um pacote de camisinha e, após tirar sua boxer, "vestiu" o conteúdo do pacote.
Ele voltou para a cama e me beijou. Em poucos segundos senti ele me penetrando. Não consegui conter um gemido alto que escapou de minha garganta. investiu mais força em seus movimentos. Ele soltava alguns gemidos. Não demorou muito para chegarmos ao clímax. Assim que saiu de dentro de mim, deitou ao meu lado, enquanto curtíamos o orgasmo.
Aproximei-me um pouco mais dele, apoiando minha cabeça em seu peito e uma mão em seu abdômen, com as pernas encolhidas.
- É assim que nossas brigas de travesseiro irão acabar? - disse , alisando meu cabelo com os dedos. Não pude deixar de soltar um riso baixo.

Estávamos sentados em minha cama, enrolados nos lençóis, conversando coisas aleatórias, mas eu, um pouco viciada, estava com vontade de fazer outra coisa. Abri a gaveta do criado mudo, peguei um maço de cigarros e um isqueiro, ascendi um deles e dei uma longa tragada.
- Bonito, menina - disse , sério, com um ar de sarcasmo. - Você não tem idade para isso, menininha - ele completou, pegando o cigarro de minha mão e dando uma tragada. Soltou a fumaça e tragou novamente, me devolvendo o cigarro.
- Olha o bom exemplo falando - eu respondi, tragando o cigarro novamente.
Foi então que ouvi um barulho de carro estacionando na garagem e me lembrei de uma coisa que havia esquecido...
- Meu pai - eu disse. - Puta que pariu, ele chegou. - Apaguei o cigarro e saí correndo até meu guarda-roupa, pegando a primeira roupa que eu vi na frente e vesti rápido, enquanto vestia suas peças de roupa espalhadas pelo chão. - Vamos descer - eu disse, correndo até lá embaixo e sendo seguida por ele.
Sentei rápido no sofá, mudando de canal e ele disse:
- Mas ele vai me ver aqui...
- Não dá tempo, melhor aqui do que em minha cama - eu disse, e então sentou rápido no sofá, seguido do barulho da porta abrindo.
- Oi, fi... - meu pai ia dizendo, mas parou ao ver ao meu lado no sofá.
- Oi, pai, esse é o - eu disse, apontando para ela ao meu lado, que acenou e soltou um grunhido indefinido, mesmo vendo o olhar irritado e desconfiado que meu pai me lançava, tinha vontade de rir da cara de "me fudi" do condenado ao meu lado.
- Bom... Eu acho que vou indo... - disse , se levantando, e eu vi a blusa de meu pijama. Coloquei rápido em baixo da almofada e meu pai foi em direção da cozinha.
- Eu te levo até a porta - eu disse, sorrindo. Levantei e nós fomos até a porta, que eu abri pra que saíssemos lá fora. - Agora não precisa mais ficar com essa cara. - Eu ri.
Ele me puxou pela cintura e me deu um beijo um tanto romântico, digamos assim.
- Tchau - disse , sorrindo depois de quebrar o beijo, recebendo outro sorriso meu como resposta.
Fiquei assistindo-o ir embora até onde minha vista alcançava. Quando já não o via mais, olhei para casa da frente em um relance, e lá estava Daniel, o menino estranho.


Twenty one. I am the son of a bitch and Edgar Allan Poe

Estava em meu quarto, deitada em minha cama, olhando para o teto, pensando nos últimos acontecimentos de minha vida. Já era lá pelas 06h30, minha mãe havia acabado de chegar em casa e estava conversando com meu pai no quarto.
Queria saber o que estava achando de tudo isso, e ainda, o que eu mais queria saber, qual era a satisfação que ele ia me dar. O que ele iria me dizer? Isso se ele tivesse falado alguma coisa, mas ainda havia tempo para explicações, mesmo duvidando que ele me daria uma, isso se é que ele tinha uma.
Nunca estava satisfeita mesmo, eu tinha novamente e mesmo assim pensava nas coisas ruins da situação. Mas a verdade era que eu realmente não estava satisfeita, estava com dúvida, mesmo depois de tudo. Não sabia se havia feito a coisa certa o desculpando. Sim eu o amava, mas ele me traiu! Talvez desculpá-lo não teria sido a escolha mais sábia.
Apenas esperava que tudo desse certo, só para variar, e que coisas assim não acontecessem mais em minha vida. Minha meta era atrair a menor quantidade de desgraça possível. É incrível o quanto eu atraio problemas, parece até macumba, rituais estranhos, ou coisa do tipo.
Despertei de meus pensamentos ao ouvir tons de voz alterados, que nem precisa dizer que vinham de minha mãe, com mais um de seus surtos desnecessários com meu pai. O que havia acontecido desta vez? Comecei a prestar atenção na conversa, que dava pra ouvir bem, já que a cozinha ficava bem embaixo do meu quarto:
- Com quem ela estava aqui? - essa foi a minha mãe se referindo a mim e bem irritada por sinal.
- Com um garoto... Não lembro o nome... - esse foi meu pai, que disse bem mais baixo, até mais difícil de entender o que ele dizia.
- E por isso ela não fez o almoço é? - é mãe, esse não é meu dever, principalmente se podemos ligar para o delivery - Fica se engraçando com os outros e não faz o que tem que fazer - uma grande cara merda pra ela, sem comentários.
- Acho que não foi só por isso - ele disse seguido de uma pausa -, acho que ela não gosta de cozinhar - com toda certeza meu pai me entende melhor que minha mãe.
- Ela não tem que achar nada... - hey, vai se fuder! Tenho que achar sim! Eu sou a filha e só o que eu tenho é fazer comida?
- Não é bem assim! - PONTO PRA MIM! Meu pai disse um pouco mais alto que antes, impondo uma autoridade maior na discussão.
- De qualquer forma ela não devia estar com ele aqui - minha mãe até mudou de assunto e abaixou o tom de voz. Meu pai grunhiu algo que não pude ouvir e em seguida a casa se silenciou, a não ser pelo barulho do meu estômago. Fome. Levantei preguiçosamente de minha cama e desci até a cozinha, para comer alguma coisa.
N-A-D-A! Só para variar, não tinha nada para se comer e nem para preparar, mesmo assim continuei olhando os armários vazios ou com coisas vencidas. Minha mãe entrou no ambiente, podia sentir o seu olhar queimando sobre mim, então me virei para vê-la e ouvir o xingamento que estava ela estava prestes a dizer, e a mesma começou abriu a boca para dizer, lá vem:
- Venha comigo na padaria! - disse se virando em direção a sala, em busca de suas chaves, enquanto eu ia lá fora esperá-la. Jurava que ela gritar comigo, mas as pessoas são realmente imprevisíveis.
Não demorou muito e minha mãe chegou, entramos no carro em silêncio, ouvíamos apenas a música que tocava no rádio, nada mais. Sempre que ficávamos sozinhas era assim, um momento tenso, pelos menos 90% das vezes. Sinceramente, acho que ela ficou grávida por acidente e só não abortou por achar desumano, ou algo do gênero, e vem me aguentando desde então. Minha mãe sempre teve "autoridade maior" dentro de casa, mesmo nossa sociedade sendo machista. Meu pai era quem me levava a parques, ao cinema, ao zoológico. Ele me fazia feliz. Minha mãe saia comigo quando ele trabalhava e eu insistia para sairmos e nem era tão divertido, ela não me deixava brincar, falava que tinha que ser uma garota comportada e não irritá-la.
Depois que minha mãe entrou na faculdade de medicina eu geralmente passava a maior parte do tempo com babás ou com minha avó, mas não gostava, a casa dela não tinha nada para eu fazer e cheirava coisa velha, e várias babás eram chatas, ou novas, que só ficavam assistindo TV e nem olhavam se eu ainda estava viva. Meu pai trabalhava mais nessa época, para pagar a faculdade da minha mãe e babás para mim, ele não perdeu esse hábito desde então.
E então, 12 anos e pouca ilusão. Não tinha mais babás e meus pais trabalhavam muito. Talvez pela ausência deles cresci um pouco revoltada, ou bem revoltada. Com 14 anos fumei a primeira vez, admito, achava horrível, mas como meus pais eram ocupados demais para se importarem, continuei para ver se eles percebiam ou se importavam. Não deu certo, mas já era tarde de mais para parar, mesmo não fumando altas quantidades, tinha que pelo menos fumar um cigarro em um ou dois dias, antes que arrancasse meus cabelos e subisse as paredes.
De qualquer forma, minha mãe levou meu pai para o lado negro da força. Ele era tão divertido antes. Queria saber o motivo de tudo isso, o porquê de ele não falar comigo como falava antes, apesar de que eu era pequena, talvez ele estivesse espontado comigo. Mas ainda sim, amo ele e sei que ele é uma boa pessoa.
Paramos em frente da padaria e ainda sem falarmos nada, entramos e pegamos alguns pães e frios, nada diferente, e fomos pagar. Tudo muito rápido, sim, e em poucos minutos estávamos chegando ao carro novamente. Estava quase entrando no carro quando ela jogou a chave em minhas mãos e disse:
- Você dirige - isso era uma coisa que eu ouvia pouco. Em Los Angeles eu pegava o carro escondido, mas aqui mal tem lugar para ir, nem avisando nem escondido.
Entrei, me sentei, arrumei os espelhos e o banco e dei a partida. Gostava de dirigir, mesmo com a prisão ao meu lado, me sentia livre. O vento que vinha da janela, batendo em minha face; sentia-me livre para ir a qualquer lugar sem depender de alguém, sem pedir permissão ou algo do gênero, apenas eu, mas ninguém.
- Quem é que você trouxe em casa hoje? - minha mãe perguntou. Realmente, já estava demorando. Sabia que isso uma hora ou outra aconteceria. Ela não podia ficar quieta, não por muito tempo.
- Erm... O ?! - já não dirijo muito, tinha que me concentrar.
- O que você tinha na cabeça? - ela disse aumentando o tom de sua voz. Péssima hora para brigar mãe, se bem que com ela, toda hora era uma boa hora para brigar.
Virei minha cabeça para ela, estava confusa, que merda ela quis dizer com "O que você tinha na cabeça?", como se fosse o fim do mundo. Nem ao menos deu tempo de eu virar de volta e ela já disse:
- Presta atenção no transito! - por que foi que ela me deixou dirigir mesmo? - Já entendi o que você tem na cabeça, nada!
A essa altura já passavam tantas coisas em minha cabeça que nem sabia o que responder. Essa hora nem precisava dizer nada, a raiva já havia subido a cabeça, o melhor a fazer seria manter o olho no trânsito, mas também não podia deixá-la apenas ficar me diminuindo enquanto eu ouço e abaixo a cabeça.
- Foi porque eu não fiz o almoço? Se for, não ia fazer de qualquer jeito! Estou cansada disso, e é sábado - disse como se fosse óbvio, e era mesmo, poxa, é sábado.
- Mas não passa do seu dever! E ainda fica se engraçando com o menino como uma prostituta! - essa não tem nem como fingir que não ouviu.
Tinha que ao menos lhe lançar um olhar semicerrado, estava indignada! Se me virasse para vê-la seria capaz de meter um soco na cara dela. Estava com vontade de enfiar o carro no poste, assim eu me fudia, fudia ela e a porra do carro. Enfim, ela ficou quieta e logo chegamos. Desliguei o carro deixei a chave nas mãos de minha ilustre mãe e fui ao meu quarto. Fome acabou! Felicidade acabou! Quando o dia era uma bosta ou normal ela não vinha falar nada, mas justo quando foi bom e eu estava feliz, ela vinha e acabava com a minha felicidade. Minha mãe estragava meus dias.


Twenty two. The worst is over and the sky is clear

Ainda gostava de ter como sei-lá-o-quê meu novamente. Ia vê-lo no dia seguinte e mesmo que fosse na escola, queria que chegasse logo.
Estava sozinha em casa, só para sair da rotina, vocês sabem. Onde estava meu amor/distração/ ? Amanhã demoraria a chegar e o dia custaria a passar. Varanda, isqueiro, cigarro. Fumar, era isso que eu ia fazer, não a tarde inteira, mas estava precisando de um cigarro. Precisava abrir meus horizontes... Eu quero dizer ter mais opções, fazer coisas diferentes, sair dessa vida limitada e inútil que eu vinha levando. Sentei-me nos degraus a frente da porta de entrada de minha casa, acendi um cigarro e traguei uma primeira vez. Ah, era disse que estava precisando.
Vi uma movimentação na casa da frente, um garoto de cabelos escuros... Daniel saiu pela porta e ao olhar para frente sorriu ao ver uma menina com uma camiseta velha do The Who, shorts jeans, de chinelo, com o cabelo mal preso, com olheiras que não se sabia mais o que era lápis e o que eram sinais de noites mal dormidas, e claro, fumando. Um tanto deplorável, eu acho. Como eu disse, precisava abrir meus horizontes.
Ele começou a andar em minha direção, chegou mais perto e se sentou ao meu lado.
- Me vê um? - ele disse se referindo ao maço de cigarros. Fiquei fitando-o até que voltou a falar - Se quiser eu pago - franzi minhas sobrancelhas, estava zoando com minha cara, impossível.
- Pagar?! Tá me achando algum tipo estranho de traficante? - Tá, se por um acaso eu fosse, venderia mais que simples cigarro para um menor de idade - Pode pegar - eu disse estendendo o maço para que pegasse.
Daniel puxou um dos cigarros e entreguei o isqueiro a ele, que acendeu e tragou uma vez. Desviei meu olhar para frente novamente, nem parecia que havia alguém ao meu lado. Santo silêncio, mas às vezes era bom. Desfrutava de minha espera.
-, né?! - Assenti com a cabeça - Você gosta de fumar aqui, hein? - ele disse e tragou o cigarro mais uma vez. Deixei alguns breves risos escaparem de minha boca.
- Pode-se dizer que sim - disse com um sorriso esboçado -, ver o movimento que não existe na rua - mas que merda de conversa era aquela? Apenas traguei meu cigarro.
Daniel riu com o comentário e voltou a colocar o cigarro na boca. Ele não tinha cara de quem fumava, tinha cara de "bom menino", filhinho da mamãe que vai bem na escola... Mas isso era o que eu estava pré-determinando, nem o conhecia. Ele podia ser aquele típico Tony (de Skins), que todo mundo acha fodão, que vai bem na escola, é bonito, pega todas as meninas, mas se droga, fuma, bebe e vive na orgia. As pessoas são imprevisíveis e as aparências enganam.

- Nossos vizinhos não são muito animados - Daniel disse. Eu continuei olhando para frente, sem nem ligar para o que ele acabara de dizer - Não é? - enfatizou a fala pra vez se eu prestava atenção ou respondia alguma coisa.
- Ah, foi mal - eu disse saindo de um transe.
- Mas então... Nossos vizinhos não vivem em uma festa - ele sorriu e continuou - Mas você não se importa com isso.
- Para ser sincera, não mesmo! Não conheço ninguém, nem sei quem mora nessas casas, só que você mora nessa - eu disse e apontei para casa da frente.
Dei uma ultima tragada e meu cigarro e o amassei na parte de cimento do degrau, para apagá-lo.
- Em casa eu moro com a minha mãe, meus pais são separados e meu pai foi morar em LA, ele trabalha lá.
- Los Angeles! Vim de lá! - eu disse animada, o que soa estranho dizer "vim de lá" como se a cidade tivesse me dado a luz, mas enfim - Mas continue...
- Tudo bem. De vez em quando eu vou lá, é bem mais... - ele parou um pouco, pensando em uma definição.
- Agitado - eu completei a frase.
- É bem legal, mas faz um tempo que não vou para lá - Daniel continuou.
- É eu queria ir e dizer um "oi", ver como estão às coisas, mas pode continuar...
- Posso mesmo? – fiz que com a cabeça - Então... Minha mãe é meio fofoqueira, ela e sua vizinha - eu olhei para casa a esquerda - não essa, a outra - e olhei para a da direita - o nome dela é Rose Smith. Ela mora com o marido dela e eles só brigam.
- Depois você diz que sua mãe e essa mulher aí são fofoqueiras, tá bom - disse sarcástica.
- Experimenta ficar, nem que seja por uma tarde, na mesma casa que as duas, berrando e fofocando o dia todo! Não tem paz! Dá para ouvir tudo do meu quarto, sei da vida de pessoas que eu nem conheço.
Para mim essas mulheres são as típicas mulheres que vão ficar velhas sozinhas e com muitos gatos. Pelo menos é o que parece muito em filmes, e pelo visto a mãe do Daniel já esta caminhando para isso, é divorciada.
- Esses dias elas estavam falando de você - se tem eu no meio eu quero saber.
- O que elas estavam falando? - eu disse com os olhos arregalados, transbordando de curiosidade.
- Minha mãe não gosta muito de você, desculpa - eu dei de ombros - e a Rose também não. Elas já viram você fumando e bebendo, acham que seus pais são muito largados e que eles deveriam ficar mais em casa. Ela ouve vocês brigando de vez em quando e acham você estranha. - Essa sou eu, fazer o quê?
- Você sabe bastantinho da minha vida, não acha? - nem por isso deveriam ficar fofocando por aí
. Ele sorriu, tragou o cigarro mais uma vez e pisou em cima. Observei atentamente e uma coisa me veio a cabeça:
- É, sua mãe acha ruim que eu fume, mas e você?- perguntei vitoriosa.
Daniel ficou sem resposta, sorriu sem graça, mas depois de um tempo formulou uma resposta:
- Para minha mãe, eu sou um santo! Ela me paparia, faz tudo o que eu quero - revirei os olhos, desculpa ai bonzão! – Ah, ela também não gosta de você porque a Rose já te viu sozinha com uma cara em sua casa - ele disse seguido de uma risada alta.
Dei uma tapa em sua nuca, mesmo não tendo intimidade com ele, que se foda. Essas pessoas enxeridas de merda, viu.
- Vai se fuder! Não sou santa, mas ela fica me espiando por um acaso?
- É, ela não tem o que fazer. E ainda esta lá em casa cozinhando com a minha mãe - ele fez uma pausa - e cuidando da vida dos outros, é claro.
Ouvimos duas vozes altas, seguido por um silêncio e depois:
- Daniel, hora do jantar! - duas mulheres paradas na porta da casa da frente.
A mãe dele devia ser a morena, a mais parecida com ele. A outra, loira, bonita e nova para ser uma fofoqueira de bairro, uns 30 anos. Ambas me olhavam torto. Ê beleza.
- Quer jantar com a gente? - perguntou simpático.
- Não. Acho que seria a sobremesa, elas estão quase me comendo com os olhos.
- Então tá - ele disse se levantando e em seguida depositou um beijo em minha bochecha. Virou-se para chegar até sua casa, mas se virou novamente e disse -, mas se você fosse a sobremesa ,te comeria de outro jeito. - Com um sorriso malicioso no rosto.
Lancei-lhe um olhar semicerrado e mostrei o dedo do meio. Daniel riu e entrou em sua casa, seguido pelas duas mulheres. Se elas eram estranhas ele não perdia muito. Que menino estranho do caralho.


Twenty three. at least we can say life has been alright

Mal ouvi o "Bom dia Oakland" vindo do rádio no criado mudo ao lado de minha cama. Já estava distante. Fui correndo para o banheiro de minha suíte para um banho rápido matinal, até cantarolava. Vesti-me, escovei os dentes e desci toda saltitante. Abri a geladeira, peguei uma maçã e mordi com a maior vontade do mundo, sem tirar o sorriso do lábio.
Já ia seguindo meu caminho de todas as manhãs quando fui interrompida por meu pai falando comigo ao descer a escada, abotoando os botões de seu jaleco branco:
- Eu te levo à escola - ele disse calmamente. Podia ser bom passar alguns minutos com meu pai, quem sabe talvez não ficássemos somente naquele silêncio desconfortante, afinal, eu estava feliz, nada podia estragar isso, nem minha mãe.
- Tá bom... - eu disse ainda sorrindo.
Fomos ao carro, amava aquele carro, uma BMW preta com bancos de couro também pretos. Ainda tinha o cheiro de carro novo, mesmo tendo sido comprada há mais de um ano. Era um tanto elegante, devo dizer. Ele deu a partida e eu continuei comer minha maçã.
- Amanhã não vou trabalhar - meu pai disse todo orgulhoso de si mesmo, afinal de contas, folga era uma palavra rara em casa.
- Isso é bom, dar uma folga para si mesmo - eu disse dando mais uma mordida em minha maçã.
- Quer sair amanhã?- quem é esse homem e o que ele fez com o meu pai? Lancei-lhe um olhar desconfiado, ele nunca falava isso, pelo menos há um bom tempo - Vai ter um musical, Sweeney Todd. Eu sei que você gosta - fiquei mais feliz ainda. Depois de anos que eu havia comentado sobre Sweeney Todd ele ainda lembrava e ainda me levaria para assistir? Que lindo! Acho que precisava sair mais com ele.
- Sério? - eu disse toda feliz com um sorriso no rosto.
- Não é Broadway, mas é bom. Pelo menos foi o que me falaram – ai, que lindo esse meu pai! Involuntariamente abracei sua cintura forte, enquanto ele continuava a dirigir. Meu pai sorriu, deu dois tapinhas em minhas costas e eu o soltei.
Não lembrava que sair com meu pai era tão bom assim, realmente, minha mãe estragava todo mundo.
- Ah, tem lixo? - eu perguntei apontando para o que há poucos minutos era uma maçã.
Ele apontou para uma sacola plástica que estava perto de meus pés, me curvei e coloquei a maçã ali dentro. Chegamos e paramos o carro bem em frente à escola. Podia ver encostado no portão da escola olhando para o céu. Meu pai reparou que eu o fitava e disse:
- Você pode gostar dele, mas cuidado - ele fez uma pausa, começou a olhá-lo. - O nome é , né? - voltei a olhar para meu pai e sorri com um olhar envergonhado, não sei o porquê.
- Pode deixar - fiz que sim com a cabeça.
Meu pai fitava com certo desgosto, afinal de contas, ele não aparentava ser a melhor pessoa do mundo, mas não era tão mau assim.
- Você não gosta dele, não é? - eu disse tirando o sorriso do rosto. Ele pensou um pouco antes de responder.
- Não preciso gostar dele - é pode até ser que sim, no meu ponto de vista. - Acho que não é ele, é só que... Você cresceu - ele disse com um sorriso triste nos lábios.
O que era aquilo? Ele realmente se importava comigo? Perguntas surgiam em minha cabeça assim como surgiu mais um sorriso em meu rosto aquela manhã.
- Eu tenho que ir - eu disse, então o abracei e dei um beijo em sua bochecha.
- Boa aula - ele disse sorrindo, porém mais alegre agora.
Sai do carro com o maior sorriso que meu rosto podia aguentar e segui em direção a . Ele estava meio detraído, ainda olhando para os ares, mas notou minha presença quando estava em sua frente.
- Bom dia - disse eu toda animada.
- Bom dia - ele disse com mais um sorriso para meu dia sorridente, então puxou meu queixo, juntando nossos lábios em um beijos calmo.
Quando nos separamos pude ver a BMW saindo do lugar que estava antes. Eu e seguimos para dentro para a aula de inglês. Conversamos a aula toda. Dessa vez minha relação com não era apenas algo físico, nós tínhamos mais diálogos, ráamos um do outro, as coisas estavam fluindo muito melhor e isso só me fazia mais feliz.
- Qual sua próxima aula? - ele me perguntou enquanto caminhávamos de mãos dadas até o armário 516.
- Acho que é história - eu respondi. me lançou um olhar safado, não disse nada. Ele queria que eu adivinhasse que cara era aquela que ele fazia e eu sabia perfeitamente o que ele queria. - Matar aula de novo? Você sempre mata a última aula! Sou uma pessoa certa, não mato aula - disse fingindo ser uma boa garota, com o nariz empinado, soltando sua mão e continuando a andar.
Ele chegou mais perto de mim, me abraçou pela cintura, por trás de mim, e disse com o lábio perto de minha orelha:
- A bela dama não quer me dar a honra? - ele disse tentando fazer que tinha pose.
- Não, ela não quer - eu disse firme. Quer dizer, quase, já que eu mantinha um sorriso nos lábios.
Paramos em frente ao armário, ambos sorrindo feito idiotas. me soltou, se posicionou em minha frente e disse?
- Adianta pedir por favor? - ele perguntou manhoso com um típico olhar de quem quer alguma coisa.
- Hum... Não - me virei, abri o armário e coloquei minhas coisas lá dentro -, mas odiar história adianta - me virei de frente para novamente e depositei um beijo em seus lábios.

Me diverti muito rindo com , mas 50 minutos passam relativamente rápido e logo já estávamos cada um em suas respectivas salas de aula.
As aulas se seguiram rapidamente, estava detraída demais com minha felicidade para prestar atenção à aula. A April não havia ido à escola então passei a hora do almoço com , e , ou seja, mais e mais risadas.
Nada poderia estragar meu dia, estava tudo tão bom que nem minha mãe estaria em casa. Meu dia poderia se resumir a sorrisos e beijos. Não conseguia nem lembrar qual havia sido a ultima vez que havia ficado tão feliz quanto no momento.


Twenty four. 'cause we all fall down

Terça-feira era um dia neutro, mas não dessa vez, pelo menos não para mim. Eu ia ver e ia assistir Sweeney Todd com meu pai, que me buscaria hoje na escola.
Quando cheguei à escola fui puxada pelo braço por alguém, para dentro da escola, em um lugar sem muitas pessoas. Era April. Encostei-me em uma mureta e ela logo disse:
- Voltou com ele e nem me falou?- ela fez cara de indignada. - E mesmo depois do que ele fez? Vai falando.
- Calma mulher! Eu sei, eu sei... Não foi o mais certo a se fazer... Ele é agora meu ponto fraco. - Fiz uma breve pausa, respirei fundo e continuei - Não pude resistir, eu acho que o amo. - Disse meio distraída e sorrindo.
April amoleceu e sorriu, digamos que ela compreendeu o meu motivo e meus sentimentos.
- Mas você deveria ter me ligado - ela fez uma breve pausa. - Vai falando o que aconteceu aí... Eu quero saber! Não omita os detalhes.
- Alguns eu vou ter que omitir sim. - Contei tudo que havia acontecido no sábado e um pouco do domingo, sobre a vizinha fofoqueira.
- Feche as cortinas antes que ela comece a ver o que você está fazendo dentro de casa, principalmente se você estiver com . - April disse e em seguida riu.
- Trouxa! - eu disse revirando os olhos.
Seguimos para nossas aulas. Eu tinha aula com o , aposto que iríamos para detenção. Não conseguia ficar quieta ouvindo suas idiotices.
Já havia chegado à sala de matemática e me sentei na frente de , resmunguei um “oi” e comecei a copiar a matéria da lousa. Depois de um tempinho o professor começou a explicar o que estávamos copiando e por incrível que pareça eu estava prestando atenção.
- ... – me chamou baixinho, que mal dava para ouvir, mas ignorei. – - ouvi um pouco mais alto, mas por estar copiando não virei, ia esperar terminar – Ow, ! – ele gritou o que fez o professor parar de falar e todos olharem para a gente.
Ele sorriu em vergonha, mas logo o professor voltou a falar.
- O que foi? Não dá pra esperar não? - Eu disse um pouco baixo.
- Ah, mas então, vou contar a piada... – ele disse todo eufórico.
- Você berrou só por causa de... –
- Como se fala intestino de boi em castelhano? – Eu fiz que não sabia. – Intestino Del gado. – Comecei a rir, era tão ruim que ficava bom [n/a: vocês entenderam?!].
- Amei! – disse ainda rindo.
- Sou demais! – ele disse todo orgulhoso de si mesmo por me fazer rir de sua piada idiota.

Quando as aulas acabaram, fui até a frente da escola para esperar meu pai. Alguns minutos se passaram, quando senti dois braços envolvendo minha cintura. . Eu conhecia aquele cheiro.
- Oi – ele disse apoiando o queixo em meu ombro.
- Oi - eu disse sorrindo.
Virei-me para ficar de frente para ele e o beijei, um longo beijo, nem calmo nem desesperado, na medida e velocidade certa.
- Não vai embora? – perguntou quando partimos o beijo.
- Meu pai vem me buscar – eu disse.
- Então eu espero – ele disse sorridente.
Ficamos nessa mesma por mais alguns minutos, e por mais alguns, e mais alguns, logo já estávamos ali há meia hora e depois há uma hora e meia. Decidi parar de esperar e ir para casa, ele não chegaria. Fui para minha casa e para a dele. Eu estava, digamos que decepcionada, mas tudo bem, em casa era assim mesmo. Em poucos minutos estava em casa.
Logo que entrei em casa me assustei ao encontrar minha mãe, eufórica e aos prantos.
- O que está acontecendo? – eu perguntei confusa, isso tudo era muito estranho.
- Onde você estava? – ela me perguntou entre soluços. Por que ela me perguntava isso? Eu queria saber o que estava acontecendo.
- Eu estava esperando o pai na escola, mas ele não veio então vim embora – eu disse ainda assustada com o estado de minha mãe.
- Seu pai bateu o carro! Ele morreu! Ele não está mais aqui! – ela disse não aguentando mais ficar em pé, sentando no sofá, chorando mais e mais.
Como? Não! Meu coração acelerou. Sentei no outro sofá, incrédula. Não podia ser verdade, isso não podia estar acontecendo! Não conseguia acreditar. Minha mãe chorava enquanto eu olhava para um ponto fixo na parede, apenas tentando absorver a notícia que havia acabado de ouvir. Até que comecei a senti um aperto meu coração, era verdade.

Vultos pretos, soluços e lágrimas, faces tristes. Odiava velórios. Não podia acreditar que meu pai havia ido e nunca mais voltaria, nem mesmo olhando para sua cara pálida, com os olhos fechados, com as mãos no peito, dentro de um caixão. Era como se aquele momento não estivesse acontecendo.
Ele tinha um corte na testa, coberto por maquiagem, mas os maiores cortes e ferimentos estavam cobertos por um terno preto.
Minha avó e minha mãe se acabavam de tanto chorar, alguns parentes choravam ou tinham um olhar triste. Alguns parceiros de trabalho e alguns amigos de Los Angeles. e April estavam lá ao meu lado, dando um apoio, mas em minha face não havia nada esboçado, apenas observava tentando racionar algum sentimento.
Depois de um tempo homens carregaram o caixão até o cemitério, ao lado da igreja onde o corpo era velado. Não gostava daquela sensação que aquele lugar me fazia sentir. Olhava a lápide atentamente enquanto já cobriam a cova com terra e as pessoas iam embora.
Ficamos lá até todos irem embora, eu, minha avó e minha mãe. Fomos embora com um silêncio absoluto no carro. Abri a janela e coloquei cabeça para fora, sentindo o vento em minha face, aquilo era libertador. Ao chegar em casa, sentia um vazio em mim, no lugar, a falta de meu pai. Subi para meu quarto e me joguei em minha cama, olhando fixamente para o teto. Logo quando tudo parecia estar feliz, algo acontece e acaba com tudo.


Twenty five. Gotta live it up, while life goes on

Acordei na manhã de quinta-feira, o dia estava nublado, mas nem ao menos uma gota de água caia do céu. Levantei de minha cama e me dirigi até o banheiro para um banho. Tirei minha camisola, entrei no box e abri o chuveiro, deixando que a água fria molhasse minha face. Fechei os olhos, apenas curtindo o momento, deixando a água me molhar por inteira. Soltei um suspiro pesado; sentia um breve vazio, mas eu nunca o via, então era como se ele estivesse longe, trabalhando.
Encostei-me na parede, atrás de mim e deslizei até sentir o chão a baixo de meu corpo, levei minhas mãos até meu rosto e fiquei assim, sem nem saber o que pensar, até eu ouvir batidas na porta, seguidas pela voz ardida de minha mãe:
- Anda logo! - ela bateu de novo – Se demorar muito vamos sem você. – Nós íamos levar minha avó até a casa dela em Los Angeles.
Apressei-me no banho, afinal de contas eu queria ver LA. Em rápidos dez minutos estava no andar de baixo pronta para a viagem.

Mesmo ao ver a placa escrito LAX eu me animei, reação que eu não imaginava. Na verdade imaginava o contrário, mas não aconteceu. Assim foi com o píer e todo o resto. Podia ver as nuvens cinza se aproximando da cidade, mas do outro lado, ensolarado, pessoas na praia, crianças e cachorros correndo, tudo normal, como em um típico dia de Los Angeles.
Saímos da avenida que beirava a praia e depois de longos minutos no transito caótico de Los Angeles pude ver a simpática casinha de minha avó.
- Querem entrar? - Ela perguntou simpática, mas ainda sim com um ar triste, com alguma coisa errada, mas afinal, nós três estávamos assim.
- Não, temos um longo caminho de volta – minha mãe respondeu sem nem desgrudar as mãos do volante.
- Tudo bem – minha avó saiu do carro, assim como eu, que iria no banco da frente, além de que queria ao menos dar um abraço nela e foi o que eu fiz, aqueles típicos abraços de avós.
- Vou sentir saudade de meu filhinho – ela disse, soltando uma lágrima de seus olhos, mas eu rezava para que não dissesse mais nada, não sobre meu pai, e não fez, apenas pegou a chave dentro de sua bolsa, disse um “tchau, querida” e entrou.
Fiquei fitando a porta de sua casa até ouvir minha mãe grunhir alguma coisa que nem me dei ao trabalho de ouvir e entrei no carro. Minha mãe era mesmo um saco, nem minha avó gostava dela. Não posso dizer que a odeio, afinal de contas, ela é minha mãe, mas sem brincadeira, preferiria outra. Era incrível como não tínhamos assunto. Só falávamos o básico e só quando paramos na estrada, continuamos a viagem no tão conhecido silêncio de minha vida.
O dia passou rápido, quando dei por mim já estava deitada em minha casa, lá pelas sete da noite, quando o telefone tocou. Nunca atendo o telefone quando tem outra pessoa em casa, porém o telefone continuou tocando e tocando então levantei correndo em busca do telefone. Estava na mesinha do corredor; rapidamente peguei o mesmo, antes que parasse de tocar.
- Alô – eu disse desanimada enquanto voltava vagarosamente para meu quarto, com o telefone em meu ouvido.
- ?! - estava tão desanima e com a cabeça nas nuvens que mal prestava atenção.
- Oi – foi o que eu disse apenas deitando em minha cama novamente, fitando o teto sem o menor interesse.
- É o . – Ele disse um pouco envergonhado, eu acho. Claro, como não havia reparado? - Tudo bem?
- É... Sim, eu acho – eu disse pausadamente. Na verdade não tinha certeza, mas o que é que isso importava?
- Mesmo? - Ele disse um pouco confuso. Como eu disse anteriormente, o que isso importava?
- É, como eu geralmente estou – eu disse.
- Então não está tudo bem... - disse com um certo receio do que estava falando. Ele deveria estar pensando que eu iria xingá-lo por estar insinuando que meu humor quase nunca está bom.
Um breve silêncio se instalou. Por mais que eu odiasse admitir, meu humor era realmente um bosta. Acho até que ele se surpreendeu que eu ficasse quieta, mostrando que ele tinha toda a razão. Mas o que eu não estava mais aguentando era o silêncio.
- Por favor, fala alguma coisa – foi a única coisa que eu disse, afinal, não tinha nada de bom para dizer e nem sabia o que falar, só queria ouvir, e ouvi um suspiro. Acho que também não sabia o que dizer.
- ... - ele disse quase que em um suspiro.
- Oi.
- O que eu posso fazer para te animar? - perguntou. Parecia até que meu desânimo contagiava.
Ouvi um barulho no andar de baixo seguido por um alto “puta que pariu” vindo de minha mãe. Isso me fez lembrar do quanto eu não queria ficar em casa olhando para o teto enquanto ouvia minha mãe xingar ou lamentar a morte de meu pai.
- Vamos sair? - Eu disse, até que animada, comparando com o meu humor de anteriormente.
- Vamos – ele disse bem mais animado. – Agora?
- É – fiz uma breve pausa. – Em quanto tempo você se arruma?
- Acho que em um vinte minutos – ele respondeu com dúvida do que acabara de dizer –, mas aonde nós vamos?
- Não sei – eu realmente não tinha pensado nisso, mas nem conhecia muito da cidade para saber um lugar decente.
- Gosta de sorvete? - ele perguntou divertido – Tem uma ótima sorveteria na Fleet Street, quer ir lá?
- Pode ser. Encontro você lá em meia hora.
Nos despedimos, tomei um banho de cinco minutos; mais cinco minutos para colocar um roupa e mais algum tempinho para o delineador e tudo mais. Desci até a sala, onde eu via a imagem de minha mãe esparramada no sofá, deplorável. Ela estava horrível.
- Mãe, eu vou sair, tá? - eu disse com certo medo de sua reação, nunca a vi daquele jeito.
- Tá. – ela resmungou sem nem se importar. Então tá, certo?
- Posso pegar o carro? - ela apenas apontou para onde estavam às chaves e me deixou ir.

Em uns quinze minutos estava lá, na frente da sorveteria. Estacionei o carro bem na frente e pude ver que já me esperava na porta. Desci do carro e acionei o alarme.
- De carro? - ele disse surpreso, erguendo as sobrancelhas.
- É da minha mãe – disse me aproximando dele, que me puxou pela cintura para mais perto e me deu um beijo. Levei minhas mãos até seu pescoço. Ficamos assim por alguns minutos, em um beijo calmo, até separamos nossas bocas e dizer:
- Vamos entrar?- ele disse com um sorriso nos lábios.
- Ah, claro – nós demos nossas mãos e entramos na sorveteria. Um lugar bonitinho, branco com os detalhes em verde água e rosa. Os confeitos para sorvetes em potes de vidro, piso quadriculado preto e branco, típico. Sentamos em uma das mesas e logo uma garçonete nos entregou os cardápios.
- Quer pedir alguma coisa pra gente dividir? - me perguntou, enquanto nós dois olhávamos atentamente para o cardápio.
- Pode ser – eu disse deixando o cardápio na mesa. – Pode escolher, confio em seu bom gosto.
Ele sorriu, grato. Chamou a garçonete e lhe disse o pedido com um nome bem nada a ver que eu sinceramente nem prestei atenção.
Desviei meus olhos para a janela, não tinha muito movimento na rua. Passavam alguns carros e poucas pessoas caminhavam na calçada. Alguns pingos de água começaram a cair e uma chuva forte, barulhenta e com clarões surgiu.
- Acho que vou precisar de uma carona – ouvi dizer, o que me fez voltar a olhá-lo. Esbocei um sorriso no canto do lábio como resposta.
Ele suspirou e começou a bater os dedos na mesa enquanto meus olhos vasculhavam o local e os dele meu rosto, provavelmente pensando no que dizer.
- O Josh vai dar uma festa no sábado – disse parando de bater os dedos e colocou os cotovelos em cima da mesa.
- Quem é Josh, mesmo? - eu perguntei voltando meu olhar para ele.
- É aquele garoto loiro, atacante do time de futebol da escola... - fiz um cara de desentendida – Que namora Asheley... - fez uma breve pausa para pensar.
- Vagabunda – murmurei. sorriu com o comentário, pensou um pouco e continuou.
- Ou a Stacy... Não sei qual delas tem namorado – ele disse apoiando suas costas na cadeira.
- Isso porque você pegou a Asheley e nem sabe – ele revirou os olhos. – Vagabunda, mas acho que sei quem é. Aquele com dentes tortos?
- Esse mesmo. Se ele pode ser popular com aqueles dentes eu também posso. - ele completou se achando. Eu soltei um riso baixo.
- Mas então, você ia falar da festa? - lembrei-o.
- Ah sim, então, vai ser sábado e eu queria saber se você queria ir... – disse meio envergonhado.
- Se for para te ver vendendo seu baseado, não obrigada. – eu respondi mal deixando com que ele terminasse. Fui rude, mas era a verdade.
Desviei meu olhar para o ambiente novamente. Ele soltou um suspiro pesado. Odiava isso, por que ele tinha que ficar vendendo maconha por aí? A vida é incrivelmente desgraçada.
- Eu tenho que fazer... - ele disse cabisbaixo.
- Por quê? - eu disse voltando a encará-lo - “Ter” é relativo, você não tem que fazer isso, você não é obrigado! Você quer fazer isso! - eu o olhava com desprezo, não era muito legal da minha parte, mas era automático.
- Por quê? Já parou para pensar na merda que minha mãe ganha? Eu não tenho dinheiro para quase nada! É a única coisa que eu sei fazer, pelo menos é a única coisa que eu consigo fazer sem ser demitido. – disse um tanto que irritado.
E pensando bem, a vida não é fácil. Meus pais ganhavam bem e mesmo sem meu pai nós continuaríamos com uma boa vida. Às vezes eu esquecia que não tinha a mesma vida que eu. Tá bom que vender maconha é muito baixo, mas eu não sei o que se passa na casa dele.
- Desculpe... - eu disse bem baixo e abaixei meu olhar para minhas mãos. Essa conversa podia ser resumida em suspiros separados por silêncio.
- Tudo bem - ele esboçou um leve sorriso no rosto. – Não... Não tem problema. Não é uma... Uma coisa boa de fazer – ele continuou meio desapontado com si mesmo.
estendeu sua mão sobre a mesa e eu fiz o mesmo segurando sua mão.
- Eu sei como é perder um pai. Nada que os outros façam pode animar - ele disse e apertou minha mão com uma pouco mais de força.
- Eu estou bem – eu disse um pouco calma, mas ele me olhou desconfiado. – Sabe, já aconteceu, não posso fazer nada, o melhor é seguir em frente, chorar as pitangas não vai trazê-lo de volta.
Ouvi uma gargalhada gostosa sair de sua garganta. Olhei-o bem, como ele é lindo. Mas não sabia bem o porquê de ele estar rindo.
- Chorar as pitangas? Essa é nova para mim. – disse ainda rindo um pouco – Sua razão vem acima de tudo, hein – ele continuou um pouco mais sério do que antes.
- Melhor do que deixar o sentimentos subirem à cabeça – com certeza minha doutrina. – Minha mãe, por exemplo, está deplorável, jogada no sofá e mal ouve o que os outros dizem.
Fomos interrompidos pela garçonete com uma taça gigantesca de sorvete com caldas e pedaços de frutas. Com certeza meus olhos brilharam ao ver aquela maravilha. Ela colocou em cima da mesa, assim como duas colheres e deixou no local.
- Gostei de seu “bom gosto”! - eu disse sorrindo e logo peguei uma das colheres e afundei a mesma naquele sorvete lindo, levando até minha boca.
- Sabia que você ia gostar, sorvete anima qualquer um – ele disse e logo fez o mesmo que eu.
Ficamos distraídos por alguns minutos com o sorvete. Também, impossível não ficar, mas se “lembrou” de nosso assunto que a garçonete havia interrompido anteriormente.
- Sua mãe deve estar mal mesmo, quer dizer, a minha ficou.
- Eu sei que faz pouco tempo, mas ela não fala quase nada – disse meio indiferente enquanto eu brincava com a colher. – Às vezes é até melhor, ela até me deixou pegar o carro, mas dá dó.
Ele deu um sorriso torto, sem graça e continuamos a comer. Voltei a olhar pela janela; amava a chuva, o cheiro, a sensação, é maravilhosa. Respirei fundo, deixando aquele cheiro de chuva invadir meus pulmões.
Fitei o poste que estava lá fora e pude ver um dos cartazes colado no mesmo; era uma propaganda, devia ser, apertei os olhos para ver o que estava escrito, então entendi as palavras maiores da propaganda e senti um breve aperto no coração. “Musical: Sweeney Todd”. Até havia esquecido que meu pai me levaria para assistir.
Virei-me novamente para o sorvete. Tinha uma expressão mais triste no meu rosto, não tinha como esconder. Eu não tentava nem pensar muito em meu pai nos últimos dias.
- Está tudo bem? - disse confuso.
- Sabe, acabei de me lembrar que no dia do acidente meu pai ia me levar para assistir Sweeney Todd. – soltei um suspiro pesado - Sabe, ele nem saia muito comigo, mas quando ele ia sair para um lugar que eu realmente queria, ele morre? - eu disse indignada.
se levantou e dirigiu-se até mim, abaixou-se um pouco à minha frente para ficar do mesmo tamanho que eu e me abraçou forte.


Twenty six. PS: I love you

Assim que terminamos nosso sorvete, conversamos mais um pouco e decidimos ir embora, afinal de contas, não sei se estava muito animada para conversar. Seguimos para casa de , já que ainda chovia eu não deixaria que ele fosse a pé. Continuávamos conversando sobre coisas aleatórias; na verdade, ele quem puxava assunto, acho que para me distrair, e isso realmente estava funcionado.
Já havia parado o carro na frente da casa, porém ainda conversávamos.
- Acho que é melhor eu ir agora – ele disse depois de um tempo. se aproximou de meu rosto e depositou um beijo em meus lábios. Ele já se virava para abrir a porta o carro quando disse: – Mãe?
Assim que disse isso ele saiu correndo do carro para fora na chuva, então pude ver que a Sra. estava jogada no que podia se chamar jardim da frente, com uma garrafa de vodka vazia ao seu lado, toda molhada devido à chuva. Não sabia o que fazer então sai do carro, assim como ele, e fui até eles. a tinha no colo e me disse:
- Abre a porta para mim – ele não parecia tão desesperado, pelo menos não tanto como eu. Nem sabia ao menos o que fazer, só observar aquela cena enquanto a chuva nos molhava já era desesperador.
Dei uma corrida até a porta para abri-la e entrou na casa com sua mãe em seus braços e eu os segui. Fechei a porta e fiquei meio perdida, já que não tinha ninguém por perto. Segui a luz que vinha do corredor, a luz do banheiro estava acesa já que eles estavam no cômodo.
colocou sua mãe em baixo do chuveiro, enquanto a água fria molhava seu corpo ela se debatia para sair dali, mas ele era mais forte e conseguia controlá-la. Depois de um tempinho ela parou com os movimentos bruscos, apenas resmungava coisas sem sentido e piscava calmamente.
- ... – disse me tirando de um transe – pegue ali naquele quarto – ele apontou para uma porta – uma camisola, dentro do armário? – apenas assenti com a cabeça e fui para o quarto rapidamente.
Abri o guardarroupa, nem olhei ao redor, peguei uma camisola e roupas de baixo e levei correndo até o banheiro. Ajudei a tirar as roupas molhadas dela e colocar as secas enquanto ela nem ao menos reclamava.
Ele levou-a para seu quarto e deitou-a na cama enquanto eu assistia do batente da porta do quarto.
- Durma, mãe – disse calmo, passando a mão em seus cabelos.
- Tá bom, tá bom – ela repetiu com a voz mole, totalmente embriagada.
depositou um beijo em sua testa e veio em minha direção, fechando a porta a trás de si. Abri a boca para falar algo, mas nada saiu, não sabia o que dizer, principalmente quando ele levou as mãos á cabeça, encostou-se em uma das paredes e escorregou até se sentar no chão.
- Desculpa – ele disse baixo, me fitando com os olhos tristes e frustrados, provavelmente com vergonha do que acabara de acontecer.
- Não precisa se desculpar... – eu disse sorrindo sem graça. – Não tem problema, erm... Quer dizer...
- Claro que tem, – ele desviou o olhar para baixo. – Minha mãe é uma alcoólatra! – eu realmente nem sabia o que dizer, até demorei a absorver a informação.
- Pelo menos ela está melhor agora – eu disse ainda com o mesmo sorriso no rosto e me abaixei a sua frente.

voltou me encarar só que desta vez com os olhos muito mais tristes do que antes, que começaram a juntar lágrimas e que não demoraram muito a começarem a rolar sobre seu rosto. Seus braços envolveram minha cintura e encostou a cabeça em meu ombro.
Ele chorava enquanto eu passava a mão em seus cabelos. Acho que tinha mais problemas do que eu pensava mesmo. A família dele era fodida e ele não era uma exceção disso, e isso nem era sua culpa já que ele cresceu assim. Eu só queria que ele se sentisse melhor no momento.
- Você quer dormir? – eu perguntei. – Talvez isso faça você se sentir melhor – pelo menos isso sempre me ajuda.
- Dorme comigo? – ele perguntou com a voz abafada.
- Não sei se eu posso – desencostou sua cabeça de meu ombro e pude ver aqueles olhos , levemente avermelhados e cheios de lágrimas, não podia dizer não. – Tá, eu durmo – eu disse sorrindo com um ar triste.
Nós nos levantamos e fomos até o quarto de . Ele tirou o tênis, sua camiseta e sua calça, em seguida se deitou em sua cama. Fiz o mesmo, tirei meu All Star, meu cinto e minha calça jeans e deitei ao seu lado. Ele me abraçou e juntou nossas bocas em um beijo calmo e cheio de sentimento, um beijo como nunca tivemos antes.
- Eu te amo! – disse assim que encerramos o beijo. – Muito! – ele completou sua frase.
Abri um sorriso de orelha a orelha. Essa frase me estremeceu toda, uma sensação muito rara, era o “eu te amo” mais sincero que tinha ouvido em toda minha vida. Involuntariamente selei nossos lábios novamente.
- Eu também te amo muito, meu amor.


Twenty seven. I just need a little time

Sexta-feira de manhã, depois de acordar, saí da casa de e voltei para a minha, afinal de contas, eu tinha aula. Acho que até poderia ficar em casa, mas não queria ficar olhando para o teto sem nada para fazer e ainda tinha que deixar o carro de minha mãe em casa, já que ela ia trabalhar.
Logo que cheguei tomei um banho um banho rápido, joguei meus livros, estojo e material escolar dentro da mochila e desci para cozinha, pegar alguma coisa para suprir meu corpo e encontrei minha mãe:
- , depois da escola eu quero que você passe para pegar o carro do seu pai na oficina – ela disse me entregando um cheque.
Assenti com a cabeça e peguei o cheque. Tomei meu café da manhã em silêncio e minha mãe ao meu lado e assim como eu, quieta. Depois de uns 15 minutos peguei minha mochila, disse um “tchau” para minha mãe, que não me respondeu, e segui meu caminho até a escola. Diálogo com minha mãe era realmente zero!
Depois de uma caminhada cheguei a escola. Acho que essa não era uma das coisas que eu mais queria ver. O céu chuvoso e aquela que não é lá tão bonita com pessoas estranhas ao meu olhar, talvez isso me distraísse. Talvez. Logo vi April, correndo em minha direção toda animada.
- Tá sabendo da festa do Josh? - Ela disse pulando em minha frente. Fiz que sim com a cabeça. –Você vai? - Perguntou, parando de pular, mas ainda sim com os olhos brilhando.
- Você é muito festeira, sabia? - Eu disse revirando os olhos. Nós conversávamos enquanto andávamos pelos corredores.
- Que seja – ela deu de ombros –, mas você não respondeu minha pergunta.
- É, acho que sim. queria que eu fosse com ele – e essa foi a vez de April revirar os olhos.
- , – ela disse como se fosse um fardo. – Saiu com ele ontem?
- Sai – abaixei o olhar um pouco mais triste que antes. – Coitado.
- O que aconteceu? - ela parou em minha frente, curiosa para saber o que tinha acontecido na noite passada.
Contei tudo o que havia acontecido a April, tentei não omitir os detalhes, mas não consegui. Tive que omitir aquelas partes que eu estava aborrecida. Ela ficou um pouco surpresa com tudo.
- Coitado mesmo – ela disse, então avistamos parado, mexendo em seu armário. – Falando nele... - Tive que abrir um sorriso, era inevitável – Te vejo mais tarde.
April disse e foi andando, seguindo seu rumo. Caminhei até ele e parei ao seu lado até que reparasse minha presença.
- Oi de novo – me disse sorrindo e em seguida selou nossos lábios.
- Está melhor?- Eu disse um pouco preocupada.
- É, estou sim... - Ele disse tirando o sorriso da face, talvez não estivesse tão bem assim. – Ela só estava com dor de cabeça agora de manhã. E você? Está melhor?
Sorri sem graça, não esperava que ele perguntasse sobre mim, e na verdade nem estava pensando sobre minha situação, pelo menos não quando tinha alguém conversando comigo, distraindo-me, o que ajudava bastante.
Felizmente o sinal tocou e não precisei responder a pergunta já que nós dois seguimos nossos caminhos até nossas respectivas aulas. Não parava de pensar na noite passada. A vida de era uma porra e eu nunca havia reparado no quanto minha vida era boa. A não ser o fato de meu pai.
Meu pai. Não, ! Está tudo bem com você, não pense nisso. Ele está em um lugar melhor agora. Pelo menos é o que eu espero. Ou talvez ele esteja em um lugar ruim, apenas sei que não está aqui agora. Não está. Mas ele mal esteve. Não ao meu lado.
O que eu estou pensando? Era meu pai. Dei um tapa em minha cabeça. Não poso pensar nele, não posso pensar nele, não posso, não posso.
- Srta. , está tudo bem? - O professor de Biologia perguntou.
Foi aí que reparei que minhas mãos estavam na cabeça e eu acabava de repetir “não posso” algumas vezes em um tom de voz relativamente alto. Acho que eu sou louca mesmo. Tirei as mãos da cabeça e disse:
- Está tudo bem sim – percebendo que a maioria das pessoas da sala me olhando.
O sinal tocou anunciando o almoço, o que foi ótimo já que a atenção de todos mudou de foco.

Estava com a bandeja de meu almoço em mãos, indo em direção a mesa em que , , e April estavam, até que dois caras idiotas que nem sei o nome, me fizeram parar.
- ”Não posso, não poso” - eles disseram juntos.
Olhei os com desprezo e mostrei o dedo do meio a eles. Odeio essas pessoas que acham que podem tirar uma com todo mundo.
- Mas como você é educada, – um deles disse com sarcasmo.
- Obrigada – eu disse com o maior sorriso falso no rosto.
Eles saíram e eu me sentei à mesa, irritada. Eles, que já estavam na mesa, nem ligaram, pessoas chatas são pessoas chatas em todos os lugares. Logo esqueci isso.
Adorava almoçar com , e , sempre me divertia, falando coisas engraçadas e sem sentido, a vida parecia ser muito melhor.
- , a gente vai à sua casa hoje para ensaiar, não é? - perguntou um tanto eufórico.
murmurou alguma coisa, acho que era pela mãe dele e tudo mais, ou sei lá.
- É acho que sim – ele respondeu um pouco na duvida. Até eu estava na dúvida, afinal de contas, achei que a mãe dele estava mal. Olhei-o com o mesmo olhar de dúvida, perguntando com os olhos se isso incomodaria sua mãe. – Ela está trabalhando – respondeu calmo.
- Vocês vão, meninas? - disse a mim e a April, nos convidando, mesmo que a casa não fosse dele.
- Tá bom – April disse toda alegrinha.
- Por mim tudo bem – eu disse –, mas primeiro eu tenho que passar na oficina pegar o carro do meu pai.
Eles não falaram mais nada, ficaram em silêncio, olhando para os cantos. Isso só porque eu falei de meu pai, mas que porra! Grunhi alguma coisa e revirei os olhos.
- Está tudo bem, ok ! - eu disse irritada e comecei a comer meu almoço.

Depois que peguei o carro na oficina, segui o caminho até a casa de . Quando eu cheguei, eles já estavam tocando e como eu já havia dito antes, eles eram realmente bons, não mereciam tocar apenas em alguns pubs em sábados, mereciam muito mais que isso.
Passamos a tarde bebendo cerveja e comendo porcarias, enquanto fazíamos piadas, principalmente , que além de já ser naturalmente retardado, já estava um pouco bêbado. Aliás, todos nós estávamos no mínimo mais alegres devido ao álcool.
De qualquer forma, a tarde passou voando, acho que isso ajudava bastante. A companhia dos amigos ajudava a me distrair dos problemas, o que estava virando uma frequência para eu pensar nos problemas.
Perdi a noção do tempo, até acabei me esquecendo da hora do jantar, se bem que acho que minha mãe nem ligaria para isso. Despedi-me de todos eles e fui para casa, na verdade já eram umas 20h e todos já estavam indo embora.
O carro de minha mãe não estava na garagem. Estranhei, talvez ela ainda estivesse no trabalho, quer dizer, com certeza, isso é típico dela. Parei o carro, sai do mesmo e entrei em casa.
- Mãe, cheguei! - Eu gritei, pare ter certeza se ela estava ou não em casa.
Bom, ela não respondeu, então ela não estava lá mesmo. Fui até a cozinha e pude ver que o jantar estava em cima do fogão. Olhei em volta e vi em cima da mesa um bilhete, junto de um envelope.
, meu chefe me ofereceu uma viagem a um congresso em outra cidade, não pude recusar. Estou deixando dinheiro.”
Abri o envelope que continha 2000 dólares. Dinheiro, que bom! Aquilo era estranho, mas aposto que ela aceitou porque não aguenta mais ficar em casa daquele jeito que estava. Não fazia questão que ela viajasse.


Twenty eight. Get me the fuck right out of here

Estava em meu quarto, me arrumando para a tal festa de Josh. Ah, aquele povo puto. Não queria ir, mas iria para me distrair. Acho que a única coisa que iria fazer lá era beber um pouco e me divertir a custa dos outros, vendo as garotas bêbadas que sempre fingem ter classe, mas revelam que não têm nenhuma, virando drinques como homens em bares e até quebrando o salto. Idiotas, era isso que eram, assim como eu que estava indo a aquela festa.
Não demorei muito e estava pronta, uma roupa sem nada demais. Uma saia, com tênis e uma t-shirt, e óbvio: camadas de lápis e delineador. Desci as escadas, peguei a chave da BMW e comecei a dirigir até a casa do garoto chato.
O carro tinha o cheiro de meu pai, mesmo com o cheiro de carro novo, no fundo podia se sentir seu cheiro característico. Involuntariamente lembranças da última vez que estive com ele naquele carro me vieram à cabeça. Não queria lembrar, não podia, isso tinha que parar. Liguei o rádio para que me distraísse o que não adiantou muito.
Enfim, alguns minutos depois, cheguei à casa que era um tanto luxuosa, com o som alto fazia a rua tremer. Estacionei o carro bem próximo a casa e entrei naquele antro de perdição, a procura de um par de olhos , cujo o dono deles estava vendendo maconha.
Como alguém conseguia pensar com aquela música estourando os tímpanos? Decidi pegar uma garrafa de cerveja. Andei desviando das pessoas pelo caminho até à cozinha, peguei uma das garrafas geladas que restavam em cima de um balcão, abri e tomei um longo gole, sentindo o álcool descer pela minha garganta, tão adorado álcool.
Sai daquele cômodo e continuei minha procura por , não demorou muito até que finalmente o achei. Lindo, com uma camisa preta, calça jeans e All Star, nada de mais, mas mesmo assim, estava lindo. Aproximei-me e cutuquei seu ombro, me lembrei da festa da Stacy. se virou sério, mas logo um sorriso surgiu em sua face. Ele me segurou pela cintura e me levantou, selando nossos lábios em um selinho demorado.
- Você veio – ele disso sorrindo, um pouco mais surpreso do que eu imaginava.
- Eu disse que vinha – eu disse como se fosse óbvio, o que na verdade, para mim era óbvio.
- Eu sei, é só que você é imprevisível – disse olhando para cima.
- E aí, ! - ouvi Tré berrando atrás de .
- Oi – eu disse enquanto ele vinha até mim para me dar um abraço, que já estava me esmagando. Afeto demais para minha pessoa. – Tá bom, tá bom, me solta agora.
Ele me soltou e nós três começamos a conversar. Como sempre, aquela boa conversa sem sentido. Assuntos iam e vinham e aquela tão conhecida vontade tomava conta de mim, aquela merda de sensação.
- , você tem um cigarro ai? - perguntei.
Ele tirou do bolso da calça um maço e um isqueiro, que em seguida me entregou. Puxei rapidamente um dos cigarros, acendi e dei uma longa tragada. Alívio. Isso não era bom, cigarro em uma mão cerveja na outra.
A festa continuava e eu continuava a assistir vender sua “mercadoria”, o que me deixava cada vez mais irritada , não aguentava mais vê-lo naquela merda de situação e ao mesmo tempo não queria falar nada. Mas minutos se passavam, não ficaria mais ali, apenas me levantei, procurando um lugar que não alcançasse minha vista.
Não deu cinco minutos que me distanciei e lá estava ele do meu lado, me perguntando por que eu havia saído de lá; nem precisei abrir a boca para que entendesse, apenas fiz um olhar, até que involuntário. Aquele olhar que até faz a pessoa ficar sem graça, pelo menos ele ficou, mas entendeu ao mesmo tempo.
- Quer dançar? - perguntou sem graça, não estava feliz com a situação, mas não tinha nada para fazer e ao menos tinha tirado ele de seu posto.
Assenti com a cabeça e fomos para uma pista de dança improvisada na sala da casa do garoto. Tocava uma música calma, levei minhas mãos até seu pescoço e ele colocou a suas em minha cintura. Nós dançávamos calmamente. Não sabia dançar direito, mas música calma é musica calma. Eu olhava seus olhos envergonhados de si mesmo, mas apesar de saber que encará-lo talvez fizesse se sentir mais mal, não conseguia tirar meus olhos dele. Sem saber o que fazer, apenas encostei minha cabeça em seu ombro, foi quando eu percebi que nem dançávamos mais.
Apenas ficamos assim, sem nem prestar atenção para ver se alguém nos olhava. Porém a música parou e alguma pessoa gritou “POLÍCIA!”. Todos começaram a correr para portas e janelas, já obstruídas de pessoas, mas continuamos parados, olhando. Pelo menos foi o que eu fiz, então me disse:
- Corre, ! Corre! - Ele gritou, me empurrando.
Corri rápido até o lado de fora, direto para o carro, que entrei o mais rápido que pude. Não dei partida, apenas fiquei parada olhando a situação, foi então que pude ver dois oficiais de polícia levando até uma das viaturas, assim como alguns outros, que estavam bêbados ou sei lá. Mas fodam-se os outros, estava sendo levado pela polícia, e ele estava com aquela porra daquela maconha.
Dei a partida no carro e dirigi loucamente até minha casa. Eu tinha que fazer alguma coisa sobre tudo isso. Foi por isso que dirigia feito uma louca até minha casa, para pegar aqueles 2 mil dólares. Entrei em casa como um furacão e assim que peguei o dinheiro sai correndo até o carro, que nem havia desligado e dirigi rumo a delegacia. Só esperava que tudo desse certo e que desse para pagar.
O toque chato de meu celular me despertou de meus pensamentos a mil:
- Alô? - eu disse um pouco desesperada.
- , desculpa te ligar, mas se eu ligasse no trabalho de minha mãe ela ia ter um colapso. – Era , que tinha uma voz calma, mas com um certo receio.
- Eu tô chegando – eu disse assim como antes, desesperada.
- Calma! - ele disse.
- Não tenho calma! Você... Você foi pego pela polícia! - Eu disse rápido desviando minha atenção do trânsito.
- Você tá dirigindo?
- Tô! Já disse que tô chegando – disse e desliguei antes que batesse o carro e encontrasse meu pai.
Vi a delegacia e estacionei o carro, acho até que bem torto, não prestei muita atenção. Corri até lá dentro sem nada na cabeça, até fiquei perdida ao entrar ofegante no lugar cheio de pessoas esquisitas. Procurei algum tipo de balcão de atendimento desesperadamente com os olhos e assim que o achei dei uma corridinha até ele.
- Quanto é a fiança de ? - Eu disse para o oficial, tentando ao máximo manter a calma diante daquela situação, e claro, para não me acharem uma louca, assim nunca liberariam .
- Hum... - ela folheou alguns papéis e depois de demorados segundos ela disse – 1.500 dólares, geralmente é mais, mas ele é só mais um daqueles adolescente portando droga.
Abri o envelope que estava em minhas mãos, tirei a quantia de dentro dele, mas antes de entregar o dinheiro eu disse a ela:
- Bom, eu vim pagar – disse forçando um pequeno sorriso para amenizar as coisas.
- Preciso de seu documento – ela disse amigável.
Dei minha identidade junto com a quantia em dinheiro. Ela escrevia algumas coisas em alguns papéis e eu mexia minhas pernas constantemente, ansiosa e sem um pingo de paciência. Até tremia quando fui assinar um documento declarando que eu havia pagado a fiança.
- Podem pegar o garoto – ela gritou para um dos oficiais. Meu coração apertou. Bom, ao menos ele estava livre agora, deixou uma marca, mas estava livre.
Então pude ver chegando ao lado de um oficial que falava algumas coisas para ele, meu coração disparou, ele estava bem! Finalmente, ele estava bem! Fui correndo em sua direção e o abracei o mais forte que podia. Sentia alguns olhares sobre nós, mas não importava, o que importava é que tudo ficaria bem.
Depois de alguns segundos fomos até o carro, sem pronunciar uma palavra, apenas falou quando entramos no carro.
- Não sei como agradecer – ele disse sem nem ao menos olhar para mim, com vergonha de si mesmo.
- Você não precisa – eu disse dando a partida no carro.
- Claro que preciso! Quer dizer, eu nem ao menos tinha o dinheiro para pagar – ele disse irritado e como antes, sem nem olhar para mim.
- Eu tinha que fazer isso. Quando te vi ali, com os policias te levando, tinha que tirá-lo dali! - Eu disse rápido desviando o olhar para olhá-lo. – Aquilo foi... Foi... Horrível!
- Você fez por pena? - Não acreditava no que tinha acabado de ouvir, aposto que fiz uma grande cara de merda.
- O quê? Claro que não! Não podia deixar alguém que eu amo naquela situação! - abaixou a cabeça, acho que arrependido do que havia dito.
- Desculpa, é que... - Ele levou uma das mãos a cabeça. – Nada. – ele me olhou com um certo desprezo.
Não disse nada, nem sabia o que dizer. era estranho e bipolar, não sabia o que esperar dele. Ficamos em silêncio, e eu não sabia para aonde estava dirigindo. Quer dizer, eu sabia sim, para minha casa, mas não sabia se ele queria que o levasse para minha casa.
- Para onde você quer ir? - Disse baixo, dizendo mais para mim mesma do que para ele.
tirou a mão da cabeça, resmungou alguma coisa, isso me deduz que ele também não sabia. estava com uma cara de merda que dava quase para sentir o cheiro ruim. Eu sei que ele tinha acabado de ser pego pela policia, mas se não fosse por mim ele ainda estaria na delegacia.
- Só não quero ir para a minha casa – ele disse desviando o olhar para a janela.
- Tá, então vamos para minha – ingrato.
Tá bom que ele disse que não sabia como agradecer, e eu acredito nisso, mas mesmo assim, podia ser um pouquinho mais legal comigo, com pessoa que o tirou da cadeia e o ama, mas não.
O resto do caminho não falamos mais nada. Chegamos, eu coloquei o carro na garagem e entramos em casa.
- Sua mãe não está? - perguntou.
- Não, ela está viajando.. - disse sem me importar já indo em direção ao sofá.
- Para onde? - então eu parei de andar e comecei a pensar.
Foi ai que eu reparei, não sabia de nada, onde exatamente ela estava, o porquê de ter ido, aquilo era tudo muito esquisito. E o principal, desde quando minha mãe vai a um congresso sem meu pai? E no estado que ela estava.
Sai correndo até o quarto de minha mãe, tinha que checar uma coisa. Entrei no closet e me deparei com o que temia, ele estava completamente vazio.
Comecei a abrir desesperadamente todas as gavetas, portas de armários, tudo que eu pudesse abrir, em busca de alguma coisa. Não obtive sucesso, só havia algumas poucas roupas de meu pai. Fui muito burra, devia ter pensado nisso antes.
Ela havia ido embora.


Twenty nine. Kids are all fucked up

- Fudeu! - foi a palavra que eu cuspi de minha boca antes que pudesse ocupar minha cabeça com algum pensamento.
Como assim?
Milhões de perguntas ecoavam em minha cabeça, todas sem respostas, mais e mais para minha coleção. Apenas perguntas vazias. Já bastava meu pai ter... ido, e me deixado a mercê de minha mãe, e nós sozinhas, talvez um pouco assustadas, mas acima de tudo despreparadas e confusas, com muitas perguntas, pelo menos isso se encaixa a mim, meu namorado vai preso e para completar minha mãe me deixa?!
Burra! É isso que eu sou! Como não havia percebido antes? Esse era o mínimo que eu poderia fazer, pensar. E agora? O que seria de mim? Como viveria? Arranjaria um emprego meia boca para sobreviver? Malditos 1500 dólares! Maconha dos infernos! Se bem que no momento o que eu estava mesmo precisando era dela.
Olhei para trás e vi parado, confuso. Era de se esperar, aposto que ele estava só esperando eu dizer alguma coisa. Eu ia falar, abri a boca, mas nada saiu. Não queria falar, apenas continuei olhando em seus olhos, com a cabeça no mínimo em outro país, com os pensamentos a mil.
Onde ela poderia ter ido? E que bom que ela pensou no resto. Se bem que eu não podia falar nada, afinal de contas eu nunca pensava nas consequências, pelo menos não com frequência, se fodia os outros o problema não era meu, aprendi com ela. Eu podia ir ao hospital perguntar por ela, procurá-la, mas não faria isso. Se o que ela queria era sumir e não me ver, ela veria.
- ? - disse. Ele estava bem mais próximo do que antes – O que aconteceu?
Não respondi, apenas desfrutava da angustia, raiva e tristeza que me tomavam. Não poderia pensar nisso, não naquele momento, eu não queria. Precisava me distrair rápido antes que enlouquecesse.
Levei minhas mãos até o rosto de puxando-o em minha direção, para mais perto, juntando nossos lábios iniciando um beijo rápido, sem nem um pingo de compaixão, mas ainda sim ele correspondia. Enquanto nos beijávamos, eu o conduzia até a cama de meus pais.
Empurrei-o na cama, cortando o beijo, aproveitando para tirar minha blusa, mas logo voltando a beijá-lo ferozmente. Não estava sendo eu mesma, que dizer, sexo selvagem não era bem a minha cara, principalmente para distrair meus sentimentos, porém nem estava ligando, continuava o beijando como uma descontrolada.
Coloquei minhas mãos por dentro de sua blusa puxando-a para cima com pressa. Enquanto ele se desfazia dela eu desabotoava minha calça, por um breve momento quando tirava a peça, apenas me olhava, me estranhando, ignorei e voltei a beijá-lo como antes.
Eu sabia o porquê de ele me olhar assim, mas eu precisava, não podia continuar pensando na merda de situação em que me encontrava.
Intensifiquei ainda mais o beijo, sem o mínimo de amor ou sentimento, beijava-o desesperadamente, com necessidade. A angustia subia a minha cabeça.
realmente percebeu a mudança e parou de me corresponder, mesmo assim eu insistia, até que ele levou suas mãos até meu rosto, puxando-o para trás, afastando nossas bocas. “Por que ele está fazendo isso?” era o que passava em minha cabeça, mesmo sabendo a resposta.
Ele me olhava confuso tentando entender o que estava acontecendo, enquanto eu ficava indignada e a cada segundo mais angustiada por estar sendo rejeitada.
- O que está acontecendo, ? - foi o que disse enquanto alisava meu rosto com o polegar.
Não estava aguentando tudo aquilo, comecei a sentir minhas bochechas quentes e os olhos se encherem de lágrimas, que não conseguia mais segurar. Não demoraram a rolarem sobre meu rosto, foi quando puxei e o abracei desesperadamente.
- Por que ela me deixou? - eu disse entre soluços.
Chorava em seus ombros enquanto alisava meus cabelos. Aquilo eram anos de sentimentos reprimidos sendo colocados para fora. Realmente, não havia como não pensar em minha situação, era inevitável e ilógico. Odiava ter que admitir, mas tinha que dizer estava fudida, e nada iria me distrair.
Em alguns minutos os soluços se cessaram e as lágrimas pararam de cair. não havia dito nada, acho que só pensava no que dizer, então se aproximou e depositou um beijo em minha testa.
- A culpa não é sua – ele disse calmo e em seguida depositando um beijo em meus lábios.
Suspirei pesadamente, levando uma de minhas mãos a meus olhos, enxugando-os.
- O que eu vou fazer nessa porra agora? - eu disse com a voz chorosa.
- Realmente... eu não sei – fez uma breve pausa –, mas você é forte, você... consegue! - ele concluiu, mas não sentia muita firmeza no que dizia, acho que ele só queria que eu me animasse. - Eu só atraio merda, as pessoas só me desapontam – eu disse me sentando na cama. – Vou pegar um cigarro! - disse pronta para levantar, porém fui interrompida por me puxando pelo braço.
- Eu não vou te desapontar! - Ele firme olhando em meus olhos. – Não de novo! Eu sempre vou estar do seu lado! Eu amo você! - Fiquei hipnotizada por um certo tempo, apenas olhando no fundo de seus olhos .
Podia estar iludida, ou não, mas estava crente nas palavras que ele acabara de me dizer. Havia sido tão real e verdadeiro, e eu tinha que ter esperança em alguém. Aproximei-me dele e o beijei, com o maior amor que tinha dentro de mim, tentando ao máximo demonstrar que o que eu sentia por era o mesmo. Pelo menos não estava sozinha.


Thirty. Here We Go Again

Estávamos nós dois deitados na cama de meus pais, olhando para o teto, sem pronunciar nenhuma palavra se quer. Havíamos ficado assim por pouco mais de quinze minutos, o que é bastante, mas para mim passou em um piscar de olhos. Eu só pensava no que eu faria depois de tudo que aconteceu. provavelmente pensava nisso também, afinal de contas ele também estava na merda.
Infelizmente, pesar naquilo não estava ajudando muito, me fazia sentir que estava mais sozinha. Eu sei que não me dava bem com meus pais, mas eles não deixavam de ser meus pais. Me sentia realmente sozinha, nem parecia que estava do meu lado.
Precisava pensar no que seria minha vida daqui para frente, no que iria fazer. Arrumar um emprego e continuar em Oakland ou talvez ir morar com a minha avó em Los Angeles? Não poderia deixar aqui. Não queria! Provavelmente ficaria aqui. E pensando nele, o mesmo interrompeu meus pensamentos.
- ... Não aquento mais esse silêncio... Me diga alguma coisa... O que você está pensando? – E eu virei meu rosto para vê-lo.
- Eu tô pensando no que eu vou fazer daqui em diante... – disse sem expressar muita coisa.
- E quais são seus planos? – perguntou, me encarando com aqueles olhos e grandes.
- Eu não sei... Eu podia arranjar um emprego ou sei lá... – respondi desviando o olhar.
- É, pode ser uma boa idéia – ele fez uma breve pausa e continuou –, mas você sabe que eu estou aqui para qualquer coisa, não é? – E estendeu seus braços para me abraçar.
Aquilo realmente me animava, ao menos tinha alguém que se importava. Não estava completamente sozinha nessa, afinal de contas eu não era a única que estava na pior, então acho que podíamos nos ajudar.
Eu o olhei nos olhos e não pude deixar de sorrir, correspondendo o abraço. Assim as coisas até pareciam estar melhores, apesar da dura realidade em que as coisas continuavam uma merda mesmo, foi quando meu sorriso desapareceu. não deixou de reparar, mas não era nada inesperado, ele também sabia que nada havia melhorado, e um sorriso triste surgiu em sua face.
Definitivamente a vida não é cor-de-rosa, as pessoas são más, o mundo gira e não se importa se você está acompanhando o ritmo, é cada um por si. Mas isso não era o que queria pensar naquela hora.
- Vamos comer? – Eu disse de repente quebrando o silêncio entre nós. abriu um grande sorriso novamente, só que dessa vez divertido, que até animava.
- Vamos ! – Ele respondeu levantando da cama num pulo e me puxou pelo braço, me tirando da cama, fazendo com que corrêssemos até o andar de baixo, na cozinha.
- O que você quer comer? – Eu perguntei abrindo os armários em busca de algo comestível.
- Ah, se lá. O que tem? – perguntou encostando a cabeça em meu ombro pra ver o que tinha dento do armário.
- Dá para fazer bolo – eu disse como se fosse a nossa última opção, que na verdade provavelmente era a nossa única mesmo, isso excluindo algo como ovo frito.
esticou o braço, pegou a massa de bolo de dentro do armário e começou a ler as informações, ou apenas observá-la, sei lá.
- É, serve! – Ele disse dando de ombros se dirigindo até a pia, enquanto eu apensas continuava parada vendo-o abrir os armários.
- Você vai ficar parada aí? – advertiu. – Nós precisamos de ovos, leite, batedeira... – ele continuou, porém mais divertido.
Se aproximou de mim e depositou um beijo em minha testa, seguido por um abraço. Acho que isso era para me estimular ou alguma coisa do gênero. Logo ele se afastou um pouco e colocou as mãos em meu rosto, eu sorri com um leve ar de tristeza, não estava nada bem. massageava minha bochecha com o polegar enquanto eu me perdia no fundo de seus olhos .
- Vamos fazer, ? – Foi o que me despertou.
Assenti com a cabeça e fui pegar as coisas para fazer o bolo. Cozinhar ajudou a me distrair, e se você tem curiosidade, o bolo havia ficado uma bela porcaria, mas comemos mesmo assim. A sujeira foi enorme, só não me importei, pois ajudou a limpar tudo depois.
Parece que os momentos mais felizes duram pouco demais, pois logo tudo passou e a tristeza que tentava esquecer, voltou.



Thirty one. A thought burst in my head and I need to tell you

Havia me decidido que iria arranjar um emprego, mesmo que fosse um meia boca. Precisava viver, e não pretendia morar às custas da minha avó assim tão fácil, afinal de contas, liberdade sempre foi meu maior sonho, só esperava que tudo desse certo.
Estava sentada na última cadeira da sala de aula, olhando fixamente para o relógio, contando os segundos para que desse o sinal, anunciando o final de mais um dia de aula. Eu ia com até um lugar qualquer, na verdade eu sabia onde queria ir.
O sinal tocou e imediatamente sai correndo pela porta da sala, correndo pelos corredores e escadas a fim de sair daquele lugar o quanto antes.
Logo que sai pela porta principal vi algo que queria que fosse diferente. As pessoas nunca aprendem, parece até que fazem de propósito. Lá estava o filho da puta do , vendendo aquela porra daquela erva. Respirei fundo, não iria até lá, segui para o estacionamento, porém, ele já havia me visto e percebido que mudara a rota do meu trajeto.
- Oi, meu amor – foi o que eu ouvi quando já estávamos lado a lado.
Apenas fazia a melhor cara cínica que conseguia, e isso é uma coisa que sei fazer muito bem. Nem precisava dizer mais nada, já dava pra entender o recado.
- O que foi? - ele me perguntou desentendido. O que dizer para uma pessoa que é presa por um motivo e, depois de solta, faz a mesma coisa que fazia antes?
Desviei meu olhar para sua mochila, só que desta vez olhando com o maior desprezo que havia em mim. abaixou o olhar. Sim, o bonitão percebeu. Continuei a andar.
- Não me julgue assim - ele disse irritado, mas no fundo, sua voz soava triste. – Eu preciso deste dinheiro. – continuou, abaixando sua voz.
- Arrume um trabalho! - disse firme. – Você foi preso por vender maconha! Aprenda com seu erro! - dei um grande suspiro. – Não vou pagar sua fiança de novo. – conclui com o mesmo desprezo do começo.
Já havíamos alcançado o carro e logo entramos no mesmo.
- Eu sei que você está certa... mas – fez uma pausa, sabia que ele também odiava esta situação – eu não sei. – concluiu cabisbaixo.
Preferi não dizer nada, se o consolasse e dissesse que estava tudo bem, estaria mentido e já havia dito a verdade, então o silêncio foi a melhor opção. Dei a partida no carro para sairmos logo dali.
As últimas vezes que havíamos andado de carro juntos o clima estava tenso.
- Aonde você quer ir? - perguntei a , que pareceu nem escutar o que eu disse. – Olha, eu sei que você não gostou do que eu disse, mas por favor, me responde. – disse mais mansa.
- Qualquer um, desde que seja calmo – ele disse baixo, abrindo a janela.
Amaldiçoava-o em pensamento. Passei a manhã em um lugar que não gostava, com pessoas que eu odiava, esperando que no final tudo desse certo, mas parecia até carma ou um tipo de azar.
- Vou passar em um lugar antes, tá? – afirmou com a cabeça.
Em poucos minutos parei o carro na frente de um bar. Aquele tal bar que ia às vezes, o tal lugar errado que vende bebidas para menores, e eu agradecia pelo fora da lei do dono do estabelecimento.
- Quer alguma coisa? – perguntei a , que ergueu a cabeça, para ver onde havíamos chegado.
- Uma cerveja – respondeu voltando seu olhar a mim. Assenti com a cabeça e sai do carro.
Eu adorava ver aquelas garrafas de bebidas na parede atrás do balcão, todas tão boas. Que mente de bêbada a minha, isso porque ainda por cima ia dirigir. Sentei-me em um dos bancos do balcão e um homem veio até mim.
- Duas garrafas de cerveja – eu disse olhando para as garrafas de whisky como um vampiro com desejo de sangue. Parei de olhá-las apenas quando o barman colocou as bebidas, que havia pedido, na minha frente. Contentaria-me com isso.
Tirei a carteira do bolso e peguei a nota correspondente ao valor a ser pago e deixei em cima do balcão. Tinha pouco dinheiro na minha carteira e percebi que em pouco tempo estaria falida. Sai de lá.
Logo que entrei no carro entreguei uma das garrafas a e dei um longo gole na minha. Coloquei a mesma no porta copos e dei a partida. Tá, agora não sabia aonde ir.
- , não sei aonde vou, estou apenas dirigindo sem rumo – disse continuando a entrar em uma rua que nem conhecia.
- Vire aqui, à esquerda – ele disse –, e agora a esquerda de novo. – e continuou me guiando por um caminho que desconhecia, até um lugar mais desconhecido ainda.
Em uns quinze ou vinte minutos de “direita e esquerda”, ele me disse que havíamos chegado, se é que aquilo era um lugar onde alguém chega. Parecia apenas um bosque sem nada, mas continuei observando, e pude ver uma trilha, alguns bancos e uma placa “Parque...” e alguma coisa desconhecida. A placa era velha, devia ser um parque abandonado.
Quando reparei, vi que já estava lá fora, na frente do que seria a entrada do tal parque, bebendo sua cerveja. Sai do carro e me dirigi até ele.
- O que é aqui, exatamente? – perguntei curiosa e um pouco com medo.
- É só um parque abandonado – AHÁ eu sabia! –, mas eu gosto daqui, são muito poucos os que aparecem por aqui. – em seguida, ele passou por baixo da placa, andando pela “trilha”.
Andávamos em silêncio pelos caminhos. Até que ali era bonito, um lugar sozinho, o que era estranho, mesmo porque não estava tão velho assim, precisava apenas de um verniz nos bancos, aparar as plantas, nada muito difícil.
Depois de algum tempinho andando, sentou na grama, na frente de um lago, que assim como resto, até que era bonito. Era o lugar que havia mais luz, pela ausência de árvores, comparado com o resto do local.
- Por que ninguém vem aqui? – perguntei me sentando do lado dele, que olhava para o lago como se eu não tivesse dito nenhuma palavra. Quando estava pronta para perguntar novamente, ele começou a falar.
- Teve pessoas que morreram aqui – estremeci –, na verdade foram três. – ok, essa era uma ótima razão, mas preferia quando não sabia de nada – E mais duas foram estupradas. As pessoas não gostam daqui, elas têm medo. E então aqui começou a ficar perigoso, pelo menos era o que todos falavam, mas quase ninguém vem mais aqui mesmo. – ele disse sem muita expressão, ainda olhando fixo para lago.
- Que medo! – eu disparei, olhando para os lados, com receio. – Se é perigoso, por que você vem aqui?
- Isso já foi há muito tempo. Ninguém vem aqui para assaltar ninguém porque nunca tem pessoas, não tem quem assaltar.
- Você vem – eu disse divertida para descontrair a situação e um sorriso surgiu em seu rosto.
- É, eu venho! – disse e seu sorriso desapareceu. – Os únicos que vem aqui são alguns grupos, para se drogar ou prostitutas, eu acho... Pelo menos é o que você imagina ao ver camisinhas jogadas por aí. – eu ri baixo e encostei a cabeça em seu ombro.
- Então a única que tem que temer aqui sou eu, que você não venha aqui. – disse o olhando de baixo para cima.
- Por quê? – perguntou confuso, voltando seu olhar a mim.
- Prostitutas, hein? – eu disse arqueando uma das sobrancelhas.
Como eu amava o jeito que aquela gargalhada gostosa soava. Depois de algum tempo rindo, ele parou e passou o braço por trás de minha cintura.
- Ah, ... – ouvi, seguido de um suspiro.
- O que foi? – perguntei tirando a cabeça de seu ombro, o olhando confusa.
- A vida é difícil... – disse, seguido de outro suspiro longo, e eu fiz o mesmo.
- Eu sei. – disse abaixando o olhar. Realmente, nós dois sabíamos que a vida era difícil, e parecia que a gente só fazia piorar.
levou suas mãos até meu rosto e ficou olhando em meus olhos, ele parecia triste mesmo e isso não me surpreendia.
- Você me ama, não é, ? – aquela pergunta fez meu coração saltar. Parecia que ele havia ficado mais triste ainda.
- É claro que eu amo você. – eu disse na maior sinceridade do mundo. Rapidamente tirou as mãos de minha face e me envolveu em um abraço, um abraço que palavras não podem descrevem, e que nem precisavam ser ditas, era apenas algo que se sente; era bom, um dos melhores que uma pessoas pode imaginar, mas era triste.
Depois de alguns minutos naquele aconchego, nós nos separamos, mas ele continuou olhando fundo em meus olhos, e aquelas pedras preciosas que eu olhava fixamente, pareciam ficar mais e mais molhadas.
- Desculpe-me pelas coisas que faço, mas lembre-se que eu te amo muito! – foram as doces palavras que saíram de sua boca.
Então pude ver uma lágrima escorrer em seu rosto. Não consegui me conter em fazer o mesmo e, em seguida, juntar nossos lábios em um beijo calmo. Como eu o amava.


Thirty two. point of view

's POV: on

Sabia que, assim como , eu deveria arrumar um emprego. Empregos são uma porra, nunca me dava bem com eles, sempre era despedido. O que até era divertido. Ou quase. Mas não podia vender erva. A me fez mudar, de uma forma estranha, mas fez, e ia parar. Parar por ela.
Eu a amava, nem me lembro mais quando foi que me perdi. Acho que foi quando eu percebi que não estava mais perto de mim. Nenhuma menina foi tão importante, nunca.
Sabe, ela me entende. Acho que já que estamos na merda, sabemos o que o outro sente. sabe pelo que eu estou passando. Eu já estava fazendo algumas coisas por ela e ia parar de vender maconha.
Ia à escola só para vê-la, mas estava mesmo é não querendo ir mais. Ano que vem seria o último, mais uma merda de ano naquela porra de escola. Não só por odiar escola, mas nós, o Green Day, tínhamos sido convidados para gravar um álbum e sairíamos em uma turnê pelo país, não uma turnê como as que já tínhamos feito, essa ia ser maior, tínhamos conquistado alguns poucos fãs. E com toda certeza, escolas não estavam incluídas no nosso plano. E a nem sabia disso.
Em algumas horas tocaríamos em um pub e então contaria a ela. Não estava nem querendo pensar nisso, mas era difícil pra cacete. Ela iria ficar feliz, pelo menos com álbum, mas com a turnê, acho que não, já até podia ver a cara que ela ia fazer e isso me matava.
Levantei de minha cama e fui para o banheiro do corredor. Com uma toalha no meu ombro, comecei a bater na porta para meu irmão sair dali. Ser caçula é uma droga.
- Sai daí, cara! É a minha vez – eu disse e continuei a bater, até que depois de um minuto ou mais ele saiu, e me deu um tapa na cabeça. Mostrei o dedo do meio como resposta; ele riu. Essa era minha rotina.
Liguei o chuveiro e deixei a água cair enquanto eu tirava minhas roupas naquele banheiro nojento, assim como a minha mãe, que bebia mais do que aguentava. Só pensava nas coisas ruins, não conseguia pensar em coisas boas. Bom, pelo menos não quando estava sozinho. Quando estava com a e com os caras isso não acontecia. Precisava era mesmo de um baseado. Merda, isso só piora tudo.
Entrei debaixo do chuveiro e quanto mais a água quente escorria pelo meu corpo, mais relaxado eu ficava. Pelo menos alguma coisa, fora a maconha, me acalmava, mas claro que isso nem chegava aos pés.
“O que eu faria da minha vida?” era o que eu pensava. Se eu arrumasse um emprego seria por pouco tempo, porque a gente ia fazer a turnê. Mas não ia aguentar vender maconha, melhor dizendo, não queria ver triste, indignada, desapontada e com raiva. E também não era nada certo. Também não sabia se largava a escola, se continuava até gravar o álbum. Se continuava fazendo shows por aqui... Isso era difícil.
Terminei de tomar banho e fui até meu quarto para terminar de me arrumar, logo e passariam para me pegar com a Kombi do pai do .

Estávamos arrumando nossos instrumentos e falando merda, só pra variar. Enquanto isso, fumava um baseado e falava sobre quantas gostosas ele ia pegar naquela noite. Pagava pra ver.
- Vou pegar mais de dez! - ele disse tragando o baseado mais uma vez.
- Se não tiver só tribufu... Claro que sim. – disse, arrumando seu baixo.
- Só se você for mais rápido que eu – disse, e soltou uma risada sem fim, que aliás, eu tive que rir da cara de bosta que o fez. – Do que você tá rindo, aí? Você já tem a sua. – continuou, e eu ri mais.
- Falando nela... – disse olhando por trás de mim.
Me virei e lá estava ela, linda de morrer! Vestia uma saia preta, uma blusa vermelha meio decotada, com um colar de palheta, minha palheta, por falar nisso, com um coturno preto. Ah, aquelas pernas me deixavam doido.
- Oi. – Eu disse sem tirar os olhos daquele corpo que me levaria para o inferno, ou melhor, para o paraíso.
- Tira uma foto que dura mais. – Ela disse com uma das sobrancelhas arqueadas.
- Mas não poderia fazer o que eu quero com uma foto - eu disse com um sorriso malicioso nos lábios, então ela me puxou pela camiseta e juntou nossos lábios.
Amava aquele beijo, amava aquela língua, amava seu jeito estanho, amava aquela garota por completo. Esperava que tudo desse certo, apenas isso.
- Vocês começam em cinco minutos. – Ouvi uma voz dizer, e não fui o único. partiu o beijo e sorriu.
- Eu vou lá na frente – ela disse, dei um beijo em sua bochecha. – Boa sorte. – E saiu de lá.
Sentia-me um pouco melhor agora. Como uma pessoa podia mudar tanto as coisas? Era impressionante o quanto ela era diferente, pelo menos pra mim.
Assim que a saiu, eu fui terminar de arrumar as coisas, os fios e afins. Aquela era a hora de ficar nervoso pelo que ia acontecer, mas que se foda, essa era a coisa que eu mais gostava de fazer no mundo, tocar, qualquer coisa, apenas tocar, e principalmente, tocar minhas músicas.
- Prontos ? - perguntou para mim e pra . Balançamos a cabeça, afirmando.
Em mais ou menos um minuto o tal cara que organizava o lugar nos anunciou e começamos a tocar. Aquilo era maravilhoso, podia até me fazer ter orgasmos, não precisava nem que alguém estivesse nos assistindo, claro que era ótimo ser reconhecido.
Então eu vi e um sorriso involuntário surgiu em meu rosto. Ela não estava na frente, estava lá atrás, sentada, bebendo algo, mas olhava pra mim. Na frente havia várias garotas, que não podia deixar de ver que algumas eram gostosas.
Depois de quase uma hora tocando, com pausa apenas para água, nós paramos. Já era quase meia noite, mas é claro que a noite não acabava ali. Arrumamos nossos instrumentos e descemos, eu indo ao encontro de .
- Eles são rápidos, hein? - ela disse, se referindo a e , que falavam com algumas garotas.
-Sim, eles são – eu disse sentando ao lado dela e passando meu braço por trás de sua cintura.
- Vocês estavam ótimos! - ela disse sorrindo, o que fez o meu próprio sorriso aumentar. Puxei-a para mais perto, procurando sua boca e iniciamos um beijo calmo, que não continuou assim por muito tempo.
Intensificávamos os beijos cada vez mais. Ela sabia o que eu queria, obviamente. Deslizei minha mão até suas coxas nuas e ela envolveu meu pescoço em seus braços, puxando meus cabelos levemente. Aquela garota me levava ao delírio. Comecei a deslizar minha mão mais para cima, foi quando quebrou o beijo e disse:
- Na minha casa ou na sua?

's POV: off

Lá estávamos nós dois, de novo, deitados na cama de meus pais, olhando para o teto. Mas dessa vez, ofegantes, recuperando nossos fôlegos de minutos atrás. me levava ao delírio.
Assim que recuperei meu fôlego, cheguei mais perto dele e aconcheguei minha cabeça em seu peito, e ele começou a passar o seu polegar em meu rosto, massageando-o . Amava aquele momento, se é que me entende, digo, depois do sexo, sei lá, depois de tanta afobação nós ficamos calmos, conversamos e chega até ser... Romântico.
Acho que realmente despertou algo que estava quase morto dentro de mim, a estranha sensação de amar. Não amar como um namorado, amar as pessoas, seja um amigo, algum familiar, amar alguém e querer recompensa-lá sem que ela tenha feito ao menos uma coisa por você, pelo simples fato de se importar com a pessoa. É como se o céu cinza se tornasse azul. A água tivesse gosto. O ar, aroma. A esperança surgia.
Esperança, uma coisa que eu achei que realmente havia morrido há um tempo, estava lá, bem ao meu lado, mesmo que as coisas não andassem muito boas, ela estava lá. Sentia que podia ser feliz com alguém e para não me entenderem mal, eu quero dizer com qualquer pessoa. Era o coração amolecendo.
Eu sei isso parecia estranho e talvez até ruim pela minha atual situação, mas me sentia feliz e viva, isso era bom até que algo ou alguém me provasse o contrário. O que eu esperava não acontecer, mas do jeito que minha vida andava, achava que algo podia acontecer.
- disse em um sussurro. – Nós conseguimos um contrato com uma gravadora. – Havia perdido alguma coisa. Como assim? Isso era demais! Mas ele de um jeito um tanto bruto e inesperado.
- Sério?! - Eu disse em espanto, sorrindo, ele confirmou balançando a cabeça. – Isso é ótimo! - Abracei sua cintura fortemente e um lindo sorriso apareceu em seu rosto. – Parabéns!
Não disse da boca para fora, isso era realmente ótimo! Eles eram bons e agora teriam um álbum, esperava um grande sucesso. Virei-me para olhá-lo e dizer algo empolgante e:
- Vocês vão ser um sucesso e... - Eu comecei a falar animadamente, mas em seu rosto havia uma expressão triste, o que me fez diminuir a animação imediatamente e perder a fala. – O que foi, ? Era para você estar feliz. – Voltei a dizer e logo me sentei em seu colo, envolvendo suas pernas emboladas em lençóis entre minhas coxas, ficando frente a frente com ele.
- Feliz eu estou - disse com um sorriso sem graça no rosto -, mas... - Mas o quê? Ele desviou o rosto do meu, estava começando a ficar irritada pela ansiedade. Coloquei uma de minhas mãos em seu queixo, virando seu rosto para frente novamente.
- É que quando a gente terminar de gravar o CD, vamos fazer uma turnê pelo país. – disse com os olhos tristes. Sem nem pensar, comecei a falar o que pensava.
- Isso é meio óbvio, mas por que isso seria ru... - Nem continuei, pois foi quando juntei os fatos, entendi a que ele se referia. Longe de mim por meses.
Dessa vez, quem desviou o olhar fui eu. Tá, eu queria o sucesso deles, mas não queria ele longe de mim. Eu só tinha a ele e April, até porque amigos e namorados são diferentes, afinal de contas. Acima de tudo, era meu amigo, então por que estava pensando assim? Quem gosta de alguém quer o bem desta pessoa; não podia ficar com esse pensamento mesquinho. Eu o amava e sabia que esse era seu maior sonho.
- Está tudo bem, . – Eu disse voltando meu olhar a ele. Acho que com uma expressão triste.
Logo que terminei de dizer, Billie me pegou de surpresa com um abraço apertado, ou melhor, esmagado. Eu não queria isso, mas não falaria para ele. Eu confiava nele, que tudo daria certo.
- Não vai acontecer nada, são apenas alguns meses. – disse ainda me abraçando fortemente.
Afundei minha cabeça na curva de seu pescoço. Mas que desgraça, realmente, tudo tem um preço e para mim não tinha escolha, ou ele ia, ou ele ia mesmo e pronto. Ou meu pai morria, ou morria. Ou minha mãe não voltava, ou ela não voltava de qualquer jeito. Simples opções.
- Vai dar tudo certo, não vai ser nada para sempre, eu vou voltar. – continuou a falar, e depositou um beijo em minha cabeça.
- Eu sei. – Eu disse, e em seguida deitei minha cabeça em seu pescoço, sorri um pouco triste.
Acho que estava com medo. Medo de alguma coisa não acontecer como esperado, e as groupies, acho que era a parte que eu mais temia. já havia me traído uma vez, mesmo que não tivéssemos nada sério, por que não faria de novo? Droga, não queria pensar nisso. Desviei o olhar.
- O que foi? - Ele perguntou enquanto procurava pelo meu olhar, acho que me conhecia bem o suficiente.
- Promete que não vai me trair? - Perguntei diretamente, voltando a encará-lo. Ele tinha as sobrancelhas franzidas, enquanto eu mantinha o olhar desanimado e triste.
- O quê? - perguntou surpreso, depois de alguns segundos. – Mas é claro que não! Você é a minha garota! Não vou deixar você ir de novo!
Não pude deixar de sorrir, mesmo ainda estando triste. Aquilo aumentava minha confiança. Coloquei minhas mãos em seu rosto, alisando suas bochechas com meus polegares por alguns segundos. Até que ele aproximou seu rosto ao meu e encostou nossos lábios, iniciando um beijo calmo. Só esperava o que ia acontecer.

Thirty three. Are you leaving soon? I just need a little time

Havia passado um mês desde a notícia da tal turnê do Green Day. Estava aproveitando o máximo possível com , mesmo tendo que trabalhar seis horas por dia. Mas enquanto eu trabalhava, ele estava no estúdio, portanto, dava na mesma. Ou quase, não gostava de trabalhar, mas não tinha escolha.
O álbum já estava pronto e realmente era muito bom. Já havia ouvido algumas fitas com demos, mas não se comparava a um CD. Isso era ótimo para eles, mas procurava não pensar muito nisso, pois logo me lembrava de shows já agendados... E que amanhã já iriam partir.
Estava dirigindo a caminho de casa, depois do trabalho, o que era um tanto estranho. Uma garota que trabalha em uma locadora dirigir uma BMW. Mas não venderia meu carro assim tão fácil, era uma das únicas coisas que eu tinha que pertenciam a ele.
Quando estava a poucos metros de minha casa, pude ver sentado nos degraus da frente da porta. Fiquei feliz, mas mal deu tempo de parar o carro que já me lembrei de que seria a última vez que o veria em meses. Estacionei o veículo na garagem e saí do mesmo olhando para o chão. Ele, por sua vez, caminhou em minha direção e paramos quando estávamos frente a frente.
Billie passou os braços pela minha cintura e então juntamos nossas testas, eu fechei meus olhos, sentindo seu perfume. Sim, o perfume. Sem nenhum tipo de aroma misturado, principalmente, nenhum cheiro de cigarro. Depois de algum tempo, senti seus lábios em minha testa, depositando um beijo no local. Abri meus olhos enquanto caminhávamos até à porta. Destranquei-a, entramos e fomos direto para o sofá.
Assim que me sentei, encostei minha cabeça em um de seus ombros. Amaldiçoava a todos no mundo por aquilo ter que acontecer. Justo quando as coisas começam a melhorar, volta tudo à estaca zero. Se bem que, tinha que aproveitar meu último dia em meses com ele e sem lamentar.
Levantei minha cabeça e permaneci olhando para aquelas pedras preciosas que pareciam mais brilhantes do que nunca. Aproximei meu rosto do dele e juntei nossos lábios. Permanecemos assim por algum tempo até que aprofundamos o beijo. Nada veloz, leve, com sentimento, calmo e romântico. Mesmo assim, em minha cabeça só passavam malditos pensamentos injustos e mesquinhos que não deveria pensar, nem naquela hora, nem nunca. Já havia passado por outras situações ruins, aguentava essa.
Quando parei de pensar concentradamente no futuro a partir de amanhã, percebi que estava sendo carregada por , subindo as escadas, enquanto ainda nos beijávamos. Coloquei meus braços em volta de seu pescoço, foi quando senti ser deitada em uma superfície macia. Ele interrompeu o beijo, abri meus olhos, estávamos em meu quarto.
havia tirado sua camiseta sem pressa e eu assistia a cena com mais calma ainda, como se estivesse vendo em câmera lenta, vendo todos os detalhes do momento. Em seguida tirou o tênis e o cinto, porém, mais rápido do que sua camiseta, o que não me importava muito. Qual a graça de ver alguém tirando os sapatos? Depois disso veio a cama e voltou a me beijar calmamente.
Não ficamos muito tempo assim, logo colocou suas mãos por debaixo de minha blusa, subindo-a cada vez mais, até que quebramos o beijo novamente para que eu pudesse tirá-la por completo, voltamos a nos beijar. Por que ele tinha que ir? Ou melhor, por que não era o último ano do colégio? Assim eu iria junto! Mas não adiantava sonhar naquela hora.
Levei minhas mãos até seus cabelos, puxando-os levemente, enquanto ele, por sua vez, tinha seus polegares nos passadores de cinto de minha calça e logo foram para o fecho da mesma, brigando para abri-la sem olhar o que estava fazendo. Que demorasse. Quanto mais lento melhor. Queria aproveitar cada milésimo de tempo daquele momento. Mas infelizmente, ou felizmente rapidamente se desfez da calça.
Não precisei me preocupar com a sua calça, já que logo se desfez da sua também. Ele levou suas mãos ao meu rosto fazendo com que me deitasse por completo. Em seguida deitou-se em por cima de mim, levemente, sem me prensar contra o colchão, envolvendo suas pernas nas minhas. Rompi o beijo e curvei minha cabeça até seu pescoço, depositando beijos e alguns chupões no local, como uma sanguessuga, sem tirar os lábios dali, até que procurou minha boca novamente, para mais um beijo.
Desta vez intensificamos o beijo, deixando de ser um ato leve e calmo, mas sim ágil. Agarrava seus cabelos com muito mais força, me puxava pela cintura contra seu corpo com maior intensidade. Neste momento, não queria mais prestar atenção em todos os detalhes, queria era alcançar o ponto máximo de uma vez por todas.
Passei minhas pernas sobre as dele, fazendo com que ele ficasse por baixo de mim. Em sua face, via que estava um pouco surpreendido, sorri um pouco safada e voltei a beijá-lo. Logo percebi que ele já havia tirado meu sutiã e jogado em algum lugar. Não demorou a que me desfizesse do resto de minhas roupas de baixo.
quebrou o beijo e apontou para sua carteira que estava ao lado da cama, me estiquei e peguei a mesma, achando um pacote de preservativo dentro. Peguei o pacote e joguei a carteira em algum lugar, sem me preocupar. Tirei sua boxer, vesti a camisinha nele e fiz com que penetrasse em mim. Investi com mais força em meus movimentos, até chegar ao ponto máximo e ver aquele expressão de prazer que ele fazia até se deitar ao meu lado ofegante.
Segundos depois, senti seus braços envolvendo meu corpo, seguido de um beijo em minha testa. roçava seu nariz em meu pescoço enquanto eu mantinha um sorriso bobo no rosto.
- Eu te amo! -Eele disse em meu ouvido, me abraçando ainda mais apertado, carinhoso. Aquilo me explodia de tristeza, mas acima de tudo de felicidade. Envolvi seu pescoço em meus braços e selei nossos lábios.
- Eu também te amo! - Eu disse olhando em seus olhos. – Muito! Muito mesmo. – Acariciando seu rosto com meu polegar.

Ficamos lá, conversando por um bom tempo, e digamos que nos divertindo mais algumas vezes, afinal de contas, não sabia quando nós faríamos isso de novo. Estávamos deitados na cama ainda, conversando sobre coisas aleatórias, mas principalmente sobre a viagem e o que cada um de nós faria enquanto estivéssemos longe, em nossos devidos lugares. Mas quando eu nem esperava, ele se levantou e começou a vestir suas roupas que estavam espalhadas pelo chão. Observava sem entender direito.
- O que aconteceu? - Perguntei. Havia feito alguma coisa sem perceber? Achava que não.
- Já são dez horas! – respondeu enquanto vestia sua camiseta. – Eu tenho que ir. Amanhã será um longo dia. – Senti meu coração apertar no momento em que aquelas palavras saíram de sua boca. Ele estava partindo.
Levantei rapidamente, toda enrolada nos lençóis, parei em sua frente enquanto ele colocava seu cinto, o que fez com que parasse de fazer. Olhava-o triste, não queria que ele fosse, mas não tinha nada a fazer. Apoiava-o, mas também não conseguia conter minha tristeza e aparentemente ele não estava tão feliz assim.
colocou as mãos em minha face e continuou olhando em meus olhos, acho que não era doloroso apenas para mim. Ele puxou meu rosto para frente vagarosamente, em direção ao seu, e juntou nossas bocas, iniciando mais um de nossos beijos calmos, com sentimento. Triste na verdade, mas nada importava, só eu e .
Em pouco tempo ele interrompeu o beijo e voltou a colocar suas peças de roupa. Eu me dirigi ao meu guarda-roupa. Vesti minhas roupas de baixo e peguei uma maxi camiseta, quase que um vestido, e a vesti.
Descemos até o andar de baixo, em silêncio, abria a porta e voltei a olhá-lo, esperando que algum milagre impossível e improvável acontecesse. Nem precisei dizer nada, ele sabia o que eu pensava, era óbvio. Apoiei minhas costas ao batente da porta e, inevitavelmente, desviei meu olhar para o chão.
- Vem aqui, vai. – disse me puxando pela cintura para um abraço apertado. Tinha meus braços em seu pescoço, com o rosto apoiado em seu ombro.
O tempo parou. Nem o vento se manifestava; nenhum ser saia do lugar, nem um fio de cabelo. Infelizmente, não podíamos ficar assim pelo resto de nossas vidas. Depois de não sei quanto tempo, nós nos separamos um pouco, sem nos soltarmos, apenas o suficiente para olhar um nos olhos do outro.
- Você vai me mandar cartas, não é? - Eu disse um pouco manhosa. Ele sorriu pela minha atitude.
- Sim. – respondeu ainda sorrindo. – E vou te ligar, pode deixar.
E eu o beijei, da maneira mais verdadeira que pude. Era isso, ele estava indo, apenas um beijo a mais e meses de diferença. Acho que aquele foi o beijo mais demorado de minha vida, mas para mim, o mais rápido. Quando me dei conta, o via indo embora sobre as luzes da rua.


Thirty four. You're wasting all your time

Dois meses havia se passado, um tédio. Vazio, sozinha, não fazia quase nada, às vezes saia com April, geralmente depois da escola. Outras vezes falava com Daniel, mas era difícil. Trabalhava na maior parte do tempo. Era escola e trabalho. Porém, há uma semana meu ano letivo havia chegado ao fim e as férias de verão haviam começado. Mesmo assim não teria férias do trabalho, e nem queria. Trabalhar ocupava meu tempo, me fazia pensar em coisas diferentes, ocupava minha mente com algo que não fosse saudades.
Pensava em o tempo todo, ele sempre estava em minha cabeça. Checava minha caixa de correio mesmo sem a lança vermelha estar levantada, só para ter certeza que um postal de não estava lá. Ele me ligava, porém, no começo, me ligava muito mais do que no momento. Ele dizia que não tinha muito tempo e mesmo sabendo disso, ficava irritada.
Eles estavam há uma semana em Nova Iorque, do outro lado do país e, em no máximo uma semana e meia, estariam de volta. Havia visto uma matéria no jornal sobre o Green Day e uma reportagem no noticiário local, isso era muito bom para eles. Mas queria e necessitava de de volta, queria saber como ele estava.
Estava saindo de meu trabalho, minha merda de emprego, que ao menos pagava minhas contas e também assistia filmes novos só para informar os clientes, o que me distraía. Dirigia a caminho de casa, naquele calor do inferno de verão californiano com uma sacola de filmes. Ao chegar em casa, vi um ser em pé, em frente a minha porta. Cabelos escuros, olhos claros, e que não era . Era Daniel. Estacionei o carro e fui até ele.
- Oi? – Perguntei, como se quisesse saber o que ele queria, ali parado.
- Oi, tudo bom? - Ele disse alegre. Realmente, ele era simpático, uma coisa que eu não era.
Abri a porta e disse:
- O que você quer?
- Se não me quer aqui, eu vou embora. – Ele disse com um sorriso sem graça e deu meia volta. Deveria ter sido menos grossa.
- Não! - Eu disse fazendo com que virasse para mim novamente. – Desculpa, às vezes eu sou grossa mesmo. – Continuei a olhar para o chão.
- Às vezes? - Ele disse irônico. Ri baixo, é eu sempre era grossa, ou pelo menos na maior parte do tempo.
- Entra aí – eu disse dando passagem para ele entrar. Fui direto ao sofá, estava cansada, enquanto ele permaneceu parado na frente da porta, no hall de entrada. – Fique à vontade.
Daniel saiu do lugar e foi até o sofá e sentou ao meu lado. Peguei três filmes que tinha na sacola e entregue a ele.
- Escolhe um, vou fazer pipoca. – Eu disse, me levantando e indo até a cozinha. Depois de um tempo procurando, achei o último pacote de pipoca e coloquei no micro-ondas. Em poucos minutos voltei à sala com um pote de pipoca e duas garrafas de cerveja.
- Quero este – ele me disse apontando um filme de comédia.
- Você bebe? - Perguntei, me referindo a cerveja que tinha em minhas mãos.
- Ah, claro. – Daniel disse pegando uma garrafa e dando um longo gole, seguido de uma expressão de desgosto. Ri de sua atitude e ele tentou se explicar. - Só não frequentemente.
Coloquei o filme e começamos a comer a pipoca. Nem precisa dizer que em pouco tempo Daniel já estava bem alegre, ria bastante de coisas que nem graça tinha. Ele realmente não tinha resistência ao álcool. Afinal de contas, o filme era engraçado, mas nem tanto. Ok, não sei se era meu humor que andava ótimo ou se o filme não era muito divertido mesmo. Pensava mais em do que no filme.
- Por que você não está rindo? Isso é hilário! – Daniel disse e soltou uma risada de bêbado. ISSO era engraçado, ele não estava bêbado, mas alegre o suficiente para que eu desse risada sem que percebesse que ria dele.
- Ah, não sei. – Eu disse meio que sem graça, não devia contar toda minha história de vida, até porque ele não ia nem prestar atenção. Quem se importa? Eu sou mesmo patética.
Me levantei e subi até meu quarto. Queria tirar aqueles jeans e colocar um short. Daniel nem percebeu que sai dali. Verão é uma droga, não importa o que faça o calor não passa. Troquei de roupa e lavei meu rosto. Demorei um pouco, dei uma arrumada no meu ninho de bagunça. Decidi descer, havia deixado um pseudo bêbado na sala.
Que bom que eu desci, ele estava deitado no sofá com uma garrafa de vodca na mão, pela metade. Por que é que meus pais deixavam bebida na sala? Revirei os olhos e me dirigi até ele. Olhei para sua face e ele riu, infinitamente. De repente seus olhos arregalaram e ele disse:
- Cadê o banheiro?
- Ali, à direita. – Eu disse meio assustada, vai que ele não chegasse até lá a tempo.
Daniel saiu correndo até o cômodo, fui atrás. Odiava cuidar de bêbado, quem gosta? Mas qual era minha escolha? Aquele barulho e aquele cheiro me deixavam revirada, segurei firme. Ele parou e se jogou para trás.
- Você está melhor? – Eu perguntei, mas que pergunta a minha.
- Acho que um pouco – respondeu com a voz embolada. Sua barriga fez um barulho alto, ele levou as mãos à barriga e deitou no chão. Ri baixinho e fui até a cozinha pegar um remédio que, apesar de provavelmente ser um mito, não ajudava em nada. Ao menos o mito ajudava. E uma balinha, né.
Voltei ao banheiro e ele estava na mesma posição de antes. Daniel tomou o remédio sem questionar. Depois de um tempinho mínimo de dois ou três minutos ele até parecia estar melhor, porém levantou-se rapidamente. Debruçado no vaso sanitário, vomitando sem parar, percebi que isso ia demorar. Odiava, odiava aquele barulho! Aquilo era o primeiro porre dele ou o que? Para vomitar assim, só se ele tivesse comido algo antes. Não é nada legal participar desse momento marcante de uma pessoa, nem gosto de me lembrar do meu primeiro.
- Acho que o remédio já foi embora. - Eu disse mais para mim mesma do que para ele.
Me abaixei e sentei perto dele no chão. Aquele cheiro horrível me dava até vontade de vomitar junto, mas não o deixaria sozinho. Dei dois tapinhas de consolo em suas costa, mas ele vomitou mais.
Peguei um grande papel higiênico e entreguei em sua mão para que ele se limpasse. Foi o que Daniel fez, mas em seguida o vi encostar-se à parede atrás de si e... Dormir? De foder essas coisas. Como já havia dito antes, eu só atraio merda.


Thirty five. You say: "Good morning!" when it's midnight

Com muito esforço, depois de Daniel desmaiar ou sei lá o quê, levei-o para cima e o deitei na cama de meus pais. Com certeza, foi uma das coisas mais difíceis que meu corpo de pessoa sedentária já havia feito. Depois disso, caí em minha cama, cansada de mais um dia.
Acordei no dia seguinte sendo chacoalhada por algum infeliz, e ao abrir meus olhos sonolentos me deparei com Daniel, com os olhos arregalados e assustados. O que era agora?, ele já havia me dado trabalho o suficiente.
- O que foi que aconteceu? - ele perguntou assustado.
- Como assim, o que aconteceu? - eu disse me sentando preguiçosamente na cama.
- Bom, eu lembro que eu bebi, e que eu vomitei... mas o que eu estou fazendo aqui ainda, não lembro mais – ele perguntando mais para si mesmo do que para mim. – Minha barriga dói – fez uma cara de desgosto.
- Depois de você vomitar, você apagou – eu disse coçando a cabeça com sono. Com toda certeza eu não havia dormido o suficiente. – Daí eu te trouxe para cima e foi bem difícil, viu...
Ele pareceu pensar por um breve momento. Tentando se lembrar do que havia acontecido. Daniel se levantou e se sentou ao meu lado na cama.
- Minha mãe deve estar quase tendo um filho em casa querendo saber onde eu estou – ele disse preocupado. Ah, esses pais preocupados, não sabem como estragam seus filhos. Mas não posso falar nada, já que atualmente não tenho pais.
- Imagine só quando ela te ver ainda na minha casa, nem quero saber o que ela vai fazer – eu disse. Se aquela mulher já não gostava de mim, depois dessa, ela vai querer me matar. – Ela vai achar que te fiz alguma coisa.
-Er... - ele resmungou. – Mas vocês fez... - Daniel disse com receio do que estava falando.
- O quê? - eu disse irritada. – Eu perguntei se você bebia – menino da porra, bebeu porque quis.
- É... - ele deu de ombros. É sim, eu estou certa! Han!
Ficamos em silêncio, aquele silêncio com o qual já estava bem acostumada. Nem ligava, apenas pensava nos dias que faltavam para voltar. O que ele estaria fazendo naquele momento?
Eu “tinha um garoto em minha cama”, o que não era nada, mas soa estranho quando se fala assim. Há um tempo atrás, isso seria um desaforo, uma garota de dezesseis anos com um garoto, ao menos sentado, em sua cama. Era o que a mãe de Daniel possivelmente achava.
Já estava sem sono, mas bem que podia dormir mais, culpa desse menino infeliz. Daniel, Daniel, Daniel. Era engraçado o fato de que havia vomitado por causa de tão pouca bebida e ainda diz que não é santo como a mãe dele pensa. Para mim, é o que ele quer que pensem. Mas pouco me importa. O que realmente estava me importando era , sem que ao menos fosse uma companhia para tomar cerveja direito.
Ainda assim, continuava sentada na cama ao lado de Daniel. Nem ao menos o via, apenas pensava. Queria e deixava a saudade me consumir, aquele sentimento que raramente sentia. Podia até enxergá-lo no lugar de Daniel ao meu lado, olhando-me esquisito. , com os olhos me engolindo, aproximando-se de mim, encostando nossas bocas. Sentia-o aprofundando o beijo, o que estava louca para fazer, mas era diferente, não era como um dos beijos de . Não sentia aquele conhecido hálito forjado de menta com cigarro, que ele fingia para não parecer tão ruim assim. Isto estava errado! Abri meus olhos e ao ver Daniel ao em vez de , quebrei o beijo desesperadamente.
Olhava-o com espanto, sem esconder nem um pouco. Não sabia se era mais espanto por minha imaginação fértil ou pelo que Daniel havia acabado de fazer. Isso era estranho, o que estava acontecendo?
- Desculpa – ele disse, então desviei meu olhos, o melhor era fingir que nada havia acontecido. Sim, respirei fundo, nada aconteceu, um beijo não muda nada, certo? Principalmente se não foi intencional. Pronto, sem discussões, mas não iria ficar olhando para ele parado na minha frente, não mais.
- Acho melhor você ir – eu disse voltando a olhá-lo.
Ele assentiu com a cabeça e se levantou, assim como eu. Meu corpo estava todo dolorido, continuava com a roupa do dia anterior. Dormir de calça jeans não é legal. Descemos as escadas, Daniel não tirava a mão da cabeça, e a essa altura não há remédio que pague o preço por beber.
Ao abrir a porta, olhei para a casa da frente e pude ver a mãe de Daniel ao telefone, gesticulando desesperadamente. Ele tinha razão ela tava quase parindo um filho na sala.
- Acho melhor você ir até lá logo, antes que ela tenha um treco – eu disse para Daniel que logo já estava dentro de sua casa.
Mais uma manhã chata de sábado.

Já eram lá pelas sete da noite em plenas férias, jogada no sofá comendo Doritos, e mesmo só comendo porcarias desde que minha mãe havia ido embora, eu tinha emagrecido, e acho que depois que foi embora, também. Há tempos não comia direito, tomava café e as vezes não comia mais nada. O cigarro tirava meu apetite ou às vezes comia uma porcaria à noite, ou sei lá.
Assistia algum seriado, do estilo de Um Maluco no Pedaço, e às vezes ria de alguma coisa, até que o telefone começou a tocar. Meu coração disparou, devia ser , tinha que ser ele. Corri até o telefone e soltei um “alô” mais empolgado que podia imaginar.
- Oi, ! - uma voz feminina disse, logo desanimei.
-Oi, April – disse um tanto desanimada e me sentei no sofá de novo.
- O que aconteceu? - ela perguntou preocupada.
- Não é nada, quer dizer – fiz uma pausa. – Não me leve a mal, mas achei que fosse – disse sem graça.
- Ah, tudo bem, não tem problema – ela disse. Que bom que April me compreendia. – Mas queria saber se você quer vir dormir aqui.
- 'Tá bom – eu disse amigavelmente. Era bom ter alguma coisa para fazer. Então comecei a ouvir aquele barulho de outra chamada em espera. – April, tem outra chamada em espera.
- Deve ser ele - ela disse, o que me fez ficar mais alegre. - Então vou desligar, se não vou gastar um monte nessa espera. Quando terminar, venha aqui em casa.
- Ok, tchau – e desligamos. – Alô? - perguntei. Vai que era outra pessoa de novo.
- Oi, – dessa vez era mesmo, o que me deixava aliviada e feliz.
- Oi, ! Como está aí? - disse enquanto me deitava no sofá.
- 'Tá bem, na verdade. Ontem a gente fez um show maravilhoso, acho que foi o melhor até agora – ele falava alegremente e rápido, era sempre assim quando ele me ligava, ficava feliz por ele. – Mas o que você está fazendo?
- Vendo TV e comendo Doritos – eu disse pegando mais um do pacote.
- Folga!- ele riu.
- Folga nada, segunda eu trabalho – revirei os olhos. – Bem que você podia estar aqui.... - eu disse manhosa. No começo, quando ele havia ido, nós fazíamos joguinhos, mas agora só contava os dias para que voltasse. – O que você vai fazer hoje?
- Daqui a uma hora tem um show, mas eu 'tô com sono – ele disse e bocejou, o que me deixou com vontade de fazer o mesmo. - Mas deve ser porque eu acordei há pouco tempo – isso que é folga. – Mas tenho uma boa notícia – disse animado.
Levantei rapidamente, sentando no sofá. Santa curiosidade.
- Qual? - eu disse toda animada e afobada.
- Bem que você podia estar aqui também, Washington é bem legal – ele adorava desviar o assunto quando eu ficava curiosa. – Se eu não te ver nas próximas semanas, não vou aguentar essa abstinência.
- A culpa não é minha. Como se eu estivesse melhor que você – então me lembrei de Daniel essa manhã, não . – Mas diga a novidade.
- Eu 'tô precisando beijar alguém, se não tenho um treco, e isso não inclui o ou o – ô menino.
- Caralho, você 'tá me irritando – eu disse que estava curiosa.
- 'Tá, mentira, não quero o beijo de qualquer uma...
- Pelo menos uma coisa boa, obrigada – tinha que admitir que por estar carente aquilo aumentava meu ego. – Mas não me diga isso, você não está aqui e eu passo vontade.
- Nem me fale... Só de te imaginar com uma de suas lingeries desenhadas... ah.. - ele gemeu e nós rimos.
- Guarde seus orgasmos - nós rimos mais um pouco, mas logo paramos, ficamos um pouco em silêncio e eu voltei a pensar na tal novidade. – Qual é a novidade ? - perguntei mais preocupada que curiosa.
- Não queria te contar assim tão rápido, mas tudo bem... - meu coração disparou pela curiosidade. – Nós voltamos em quatro dias! – se é que possível, meu coração batia ainda mais forte, nem acreditava no que havia ouvido.
- Sério? VOCÊS VOLTAM TERÇA? - eu quase berrei enquanto ele dava uma risada gostosa de se ouvir.
- É - ele disse alegre, e se estivesse em minha frente, aposto que estaria o vendo sorrir.
- Então aguentamos a abstinência mais um pouco – e nós rimos.
E depois de um longa despedia, que durou mais do que o comum por estarmos mais ansiosos, desligamos e eu fui toda feliz até a casa de April e compartilhei minha felicidade com ela. Na terça-feira iria até o aeroporto.


Thirty six. I'm not sure exactly what you're thinking

Arrumava-me feito um furacão, teria que dirigir até a outra cidade, o que não era uma boa coisa para quem não dirige tão bem assim, mas, se era para , acho que não havia tanto problema. Tão lindo isso! Com certeza estava em crise de abstinência.
Desta vez, me arrumei rápido, mas não com qualquer roupa, quer dizer, coloquei uma boa calça skinny e uma das minhas t-shirts favoritas. Perfume: ok. Maquiagem: ok. Carro: ok.
Já dirigia há uma hora, com dificuldade de achar o caminho por um mapa, até que pude ver o letreiro da cidade, e em uns dez ou vinte minutos seguindo placas, cheguei ao aeroporto. Claro que só fui entrar no prédio depois de um milagre acontecer no estacionamento para que eu achasse uma boa vaga, mas logo estava lá dentro.
Eram 18h30, o avião já havia pousado, mas não haviam desembarcado. Estava impaciente olhando as pessoas saindo pela porta de desembarque de outros voos, e encontrando suas famílias e amigos. Não conseguia ficar parada, hora mexia minha mão, hora minha perna. Quinze minutos que pareciam mais uma eternidade. Olhava atentamente para as pessoas que saíram dali, quando me deparei com três garotos conhecidos, conversando com um ar de cansaço. olhou para frente e me viu ali, parada com cara de paisagem. Ele estava com os cabelos crescidos e os olhos pareciam estar até mais claros. Meu coração disparou.
Estava um pouco longe da porta de desembarque, para não ficar no meio de um monte de gente. Assim que saiu de perto da concentração de pessoas, dei uma corridinha até ele, que largou o carrinho com sua mala de lado. Envolvi seu pescoço em meus braços e ele, minha cintura. Juntamos nossos lábios e logo aprofundou o beijo, e diminuímos a distância entre nossos corpos. Como tinha saudade daquilo. Aquele sim era meu , com o mesmo jeito de sempre com o mesmo hálito de sempre.
Quando interrompemos o beijo, continuamos abraçados, e afundei minha cabeça em seu pescoço. Seu perfume invadia meus pulmões, refrescando minha memória. Não queria soltá-lo nunca mais.
- Sinto a abstinência indo embora – disse em minha orelha, abri um sorriso de orelha a orelha.
Nós apenas nos separamos quando fez alguma piadinha infame, que nem me dei ao trabalho de ouvir. Além de que não nos soltamos, apenas desfizemos o abraço. com um dos braços por trás de minha cintura, e eu com a cabeça em seu ombro. Eles decidiram como iriam voltar, já que um homem iria voltar com eles para Oakland, e um outro havia pegado um avião para Los Angeles. Não estava entendendo direito, nem fazia esforço, só sabia que haviam decidido ir comigo mesmo.
- Então eu vou lá pegar o carro – eu disse já me soltando de .
- Cuidem das minhas coisas aí, eu vou com ela – ele disso para os garotos e foi até onde eu estava.
Caminhávamos pelo estacionamento com as mãos entrelaçadas, como se fossemos crianças que acabaram de encontrar o primeiro amor e passeiam de mãos dadas, balançando os braços. Mas não tinha importância. Chegando onde estava o carro, comecei a procurar as chaves na minha bolsa, mas fui surpreendida pelas mãos de me empurrando levemente contra o veículo, deixando minha bolsa cair no chão.
- Eles não vão sair de lá – ele disse com um sorriso malicioso nos lábios, o que me fez tirar a expressão assustada de meu rosto e colocar o mesmo sorriso de malícia em minha face.
colocou suas mãos em meu quadril, enquanto eu colocava minhas mãos em seu pescoço, puxando seu rosto em direção do meu, juntando nossos lábios em um beijo agitado. Ah, como tinha saudade disso, de tê-lo envolvido em meus braços, de puxar seus cabelos enquanto ele tinha as mãos em meus glúteos. Sei que era um lugar impróprio, mas não ligávamos, quer dizer eu não havia nem me dado conta, estávamos entre dois carros, alguns passavam e comentavam.
- Acho que temos que sair daqui – eu disse em sua orelha, depois de quebrar o beijo. Apoiava minha cabeça em seu ombro. resmungou fazendo manha, apertando minha cintura contra seu corpo.
- Dorme comigo hoje? - ele disse manhoso, como se não soubesse minha resposta.
- Mas você não vai estar cansado da viagem? - eu disse tirando minha cabeça de seu ombro.
- É por isso que eu disse dormir, safada – ele riu baixo e eu dei um tapinha em seu braço.
Depois disso não demoramos a entrar no carro e pegar os outros com suas malas, e em pouco tempo já estávamos na estrada. Todos conversavam e riam escandalosamente das histórias da viagem. contava vantagens, como sempre, mas houve uma hora que os risos cessaram e foi quando percebi que estavam dormindo. Ótimo. Mas tudo bem, estava de volta, isso era o que importava.

Depois de deixar cada um em sua respectiva casa, eu estava realmente cansada, iria mesmo dormir com . Tive que acordá-lo para avisar que tínhamos chegado e o ajudei com as malas. A mãe dele estava super feliz em vê-lo, enquanto ele apenas estava sonolento. Era uma vez que a via sóbria. Nós nos sentamos na sala e abriu uma mala na qual havia presentes, desde vinil que ele havia comprado para mim, até uma samba canção de estátua da liberdade que dera para um de seus irmãos.
continuava a contar os acontecimentos, até quando jantávamos.
Alguma coisa ali me fazia sentir diferente. Era alegria e inveja. Ficava feliz não apenas por vê-lo, mas a situação era bonita de se ver. em sua casa, com sua família, todos interessados e com amor nos olhos. Alguém esperava por ele em casa. Podiam ser problemáticos, mas estavam ali. Senti um aperto involuntário em meu coração. Quando eu chegasse em casa estaria sozinha. Esse não era o preço queria pela liberdade.
Brigava com minha família, pois não sabia o que eu queria, achava que tudo era o fim do mundo, mas mesmo assim eles estavam ali. Agora não, estava em outra cidade, longe de minha infância, longe de minha única figura paterna, que nem ao menos existia, não mais, longe da figura materna, tão importante como qualquer membro da família. Longe de tudo que conhecia.
Sabia o que era. Sentia-me mal, mas ficava feliz por ele. Devia ter pensado nisso antes, agora já era tarde demais para me lembrar da morte de meu pai ou da fuga de minha mãe. Mesmo estando tão perto das pessoas, me sentia sozinha. Eu sabia que e April estavam ao meu lado, mas alguma coisa estava faltando.
A mãe dele gostava de mim, até onde eu sabia, mas não gostou quando ele disse que eu iria dormir lá. Ela não falava muito comigo, acho que era por vergonha de quando ajudei a trazê-la para dentro enquanto ela estava desacordada. Acho que ela só me deixou ficar lá pelo fato de querer agradá-lo, porque havia acabado de chegar. Geralmente quando eu dormia lá, ela nem ao menos ficava sabendo. Sentia-me mais para baixo por não ser desejada ali.
Enquanto tomava um banho, eu estava deitada em sua cama com minhas pernas e meus braços encolhidos, sentindo aquele mesmo vazio dentro de mim. Encolhida de tanto tentar preencher o espaço psicológico. Sentia vontade de chorar. Nunca pensava em meus pais para evitar essa mesma sensação. Saudade daqueles jantares em silêncio, ou até mesmo das brigas, de alguns poucos bons momentos em família. Senti uma gota rolando em meu rosto. Não queria isso, mas era tarde demais para conter os soluços.
Ouvi abrir a porta, enxugava minhas lágrimas e fazia força para parar o choro, mas não obtinha sucesso, então apenas mantive os olhos fechados, pois não queria olhá-lo. Mas por que estava chorando mesmo? Era por meus pais? Já havia aprendido a não chorar por eles. Era por me sentir sozinha? Talvez, acho que chorava não apenas por isso, mas pela carência de dois meses. Mas talvez não tivesse aprendido a não chorar por eles, apenas enganava a mim mesma.
Senti uma de suas mãos e seus olhos sobre mim. Senti-me ainda mais diminuída, mas entendia o que passava em sua cabeça. Obviamente, se você visse uma pessoa chorando em sua cama, sem nada aparente ter acontecido, era de se estranhar. Abri os olhos levemente, com poucos soluços, mas as lágrimas ainda rolavam. Ele tinha a expressão que imaginava em sua face, mas procurava a resposta de seus pensamentos em meus olhos.
- Não aconteceu nada – eu disse me encolhendo ainda mais na cama ao vê-lo com os olhos tristes.
- Como não? - disse se abaixando em minha frente. Sentei na cama, abraçando minhas pernas, o vendo se sentar ao meu lado.
- Eu só... estou lembrando – eu disse ainda enxugando meus olhos com as costas das mãos.
Não era uma resposta concreta. Ele continuava com a mesma expressão, sem entender ainda o porquê de eu estar assim, mas não queria falar, apenas abaixei a cabeça. encostou uma de suas mãos em meu joelho, com um ar de consolo, mas as lágrimas ainda rolavam.
- Quer uma camiseta? Parece estar desconfortável – ele disse. Fiz que sim com a cabeça. Ele não apenas disse isso para desviar o assunto, visivelmente eu não queria falar, respeitou isso.
se levantou e voltou ao meu lado com uma camiseta em suas mãos, soltei minhas pernas. Tirei minha calça jeans. Ele chegou mais perto e tirou minha camiseta apertada e vestiu-me com sua mais larga. Voltei a abraçar minhas pernas. parecia perdido, mas ficou quieto, deitou na cama e estendeu o braço a mim.
- Vem aqui – continuava com a mesma expressão nos olhos. Eu obedeci e deitei ao seu lado. Ele por sua vez me envolveu em seus braços. Encolhi-me em seu abdome. Devia uma explicação a ele.
- Me desculpe... - eu disse quando não havia quase lágrimas, e recebi um beijo na testa como resposta. – É que estando aqui me fez lembrar meus pais... - continuei a dizer, afundando-me ainda mais em seu corpo e me abraçou forte. – Vendo vocês juntos... felizes – lutava para as lágrimas não voltarem. – Eu sinto falta – disse baixinho.
Ele me puxou um pouco mais para cima, o que permitiu que ficássemos frente a frente, podendo olhar nos olhos um do outro. Meus olhos vermelhos, com olheiras de maquiagem levada pelas lágrimas. tinha um sorriso amigável e compreensivo, isso era o pior, não ter nada a fazer.
- Eu sei que é difícil, mas a única coisa que pode ajudar é o tempo – ele disse baixinho. Realmente só iria ajudar, eu não iria esquecer. Sorri sem graça, aceitando o que dissera. – Tudo passa.
Realmente, tudo passa, mas para mim isso não era uma coisa boa. Coisas ruins passam, e isso é bom, mas os bons momentos, as boas coisas também passam.


Thirty seven. Tell me when is time to say “I love you”

No dia que seguiu, fui embora assim que acordamos. Eu tinha tido folga na terça, mas não na quarta-feira. Passei em casa antes de ir para o trabalho, e além de tomar um banho, cobri minhas olheiras saltadas por tanto chorar. Aparentemente, eu estava um lixo, mas estava melhor do que antes. Foi bom chorar para variar.
Cheguei à locadora dez minutos atrasada, o Sr. Parker não ficou muito feliz, mas às dez da manhã, nas férias, não era movimentado assim. Na verdade não era nada movimentado, por isso pedi para trabalhar de manhã nesse período. Dirigi-me até o balcão, deixei minha bolsa de lado e comecei a dar baixa nos filmes que já haviam entrado.
Geralmente era assim, ficava no balcão dando baixa nos filmes e ajudava quando clientes pediam alguma opinião sobre algum filme; geralmente indicava um que eu gostava. Sr. Parker me chamava a atenção, por isso ele sempre me emprestava filmes diferentes do meu gosto, assim eu usava meu senso crítico, o qual eu julgo ser bom. Mesmo não gostando de algumas coisas, tinha que admitir se era bom para seus padrões. Estava evoluindo.
No começo era meio lesada para isso, mas estava aprendendo. Digo isso como se fosse uma coisa boa, não que não fosse, afinal de contas é sempre bom aprender coisas novas, mas não era uma carreira ou um bom trabalho, era simplesmente o ganha pão de uma garota de dezessete anos que ainda tinha um ano de escola, e isso não era bom. Às vezes, achava que o mais certo a fazer seria morar com minha avó em LA.
Essas eram minhas manhãs de metade de minhas férias. Logo iriam voltar as aulas e minha rotina de escola, trabalho e pouco tempo para o resto ira voltar. Pelo menos seria apenas mais um ano. Uma coisa que eu matutava, sentada naquela cadeira desconfortável era se iria voltar à escola em setembro. Provavelmente não voltaria à escola nunca mais. April iria me aguentar.

Era por volta de meio dia e meia quando vi entrando pela porta em minha frente. Sei lá o que ele tinha vindo fazer, se a gente se encontraria quando saísse de lá, mas isso não me impedia de ter um sorriso no rosto. Ele se esticou sobre a bancada e depositou um beijo em meus lábios.
- O que você está fazendo aqui? - eu disse ainda sorrindo. Sr. Parker olhava com reprovação, mas estaria irritado mesmo se tivesse mais alguém na loja.
- Daqui a pouco é seu horário de almoço – disse –, a gente poderia almoçar juntos.
- Mas faltam uns vinte minutos...
- Mas nem tem ninguém aqui – ele disse olhando em volta. Realmente, não havia ninguém.
Olhei para o Sr. Parker, que já me fitava antes. Eu, com um sorriso envergonhado no rosto, tentando pedir sem o emprego de palavras, para que me liberasse para o almoço.
- Pode ir, vai – ele disse voltando colocar alguns filmes na prateleira. Peguei minha bolsa e saí dali com .

- Não considero Wopper um almoço, mas eu adoro – disse dando uma mordida em seu lanche. Eu que havia escolhido comer no Burger King.
- Ah, muitas vezes eu nem almoço – dei de ombros.
- Bem que percebi que você está mais magra – ele disse enrugando o cenho.
- Nem tanto assim – eu disse olhando para minha barriga – Dois meses é muito tempo. Eu ‘tô mais magra, você com o cabelo mais comprido...
- É – disse mexendo nos cabelos. – A gente escreveu várias músicas nesse tempo. Na verdade a gente até vai gravar mais um CD, tenho até que te mostrar uma música hoje.
Aquilo me chamou a atenção, odiava quando ele fazia isso, falar que ia fazer alguma coisa, porque para mim demorava uma eternidade.
- Vai ir em casa hoje depois que eu sair do trabalho? - assim ele me mostrava a música.
- Não sei – ele disse pensativo. – Por que você não vai à minha? Estou com vontade de ficar em casa.
Até entendo que ele queria ficar em sua casa, porque havia ficado muito tempo fora, mas não queria ir até lá. Sei que era idiota de minha parte, mas me sentiria mal sabendo que a mãe dele não me queria lá. Involuntariamente fiz uma cara de desgosto.
- Ah, minha mãe nem liga – ele disse um pouco irritado. – E eu sempre vou na sua casa...
- Não foi o que deu a entender ontem – eu disse virando meu rosto para o lado.
- Aff, ela nem vai estar lá – ele disse meio inconformado.
- ‘Tá bom – eu disse derrotada. Bom, não era ruim assim.
Em um piscar de olhos, já estava naquela maldita cadeira desconfortável naquela locadora que, desta vez, estava com mais movimento. Queria férias de minha vida de garota sem pais. De qualquer forma o que realmente ocupava minha mente era a música de .
Sobre o que deveria ser? Poderia estar errada, mas se ele queria me mostrar, deveria ser para mim. Certo? Ok, ou não. Aquilo me irritava ainda mais por ter que ser simpática com as pessoas enquanto eu queria estar longe dali.
“Só alguns minutos, .” eu repetia a mim mesma quando faltava menos de uma hora. Não parava de mexer meus dedos em cima do balcão, olhando de cinco em cinco minutos no relógio. Odeio ter que esperar, as pessoas são umas filhas da puta mesmo, elas fazem a gente ficar na expectativa, parece que gostam de nos verem sofrer. “Se a música for uma bosta, vou ficar puta.” eu pensei, mas logo me arrependi. Que desprezo era esse?
Deram quatro horas, arrumei todas as minhas coisas, lê se: joguei tudo em minha bolsa, dei uma ajeitada na bancada, e assim que Sr. Parker entrou em meu campo de visão eu disse que estava indo, pois tinha dado meu horário. Sai de lá quase levantando voo.
Quando me dei conta, já estava na frente da casa de , esperando que abrisse a porta. Ao abrir a mesma vi seu sorriso, já me senti melhor, e percebia que a saudade estava indo embora, cada segundo mais e mais. Dois meses é muito tempo. Depositei um beijo em seus lábios e o abracei, com minha cabeça em seu ombro, deixando seu aroma invadir meus pulmões. Suspirei fundo, aliviada por estar ao seu lado. mantinha um sorriso nos lábios.
Fomos para dentro, até a sua sala e sentamos no sofá, enquanto eu não o largava. Não de um modo ruim, quer dizer, era o que eu achava, afinal, não estava o sufocando estava apenas com a cabeça acomodada em seu ombro, com as pernas passadas por cima das suas, estando praticamente em seu colo, enquanto ele tinha os braços envolvendo minha cintura.
- Você vai me mostrar a música? - eu disse perto de seu ouvido, baixinho e ele depositou um beijo em minha testa.
- Vou, mas você tem que me deixar pegar o violão – disse sorrindo.
Tirei minhas pernas de cima dele e deixei que ele se levantasse. Foi até seu quarto, eu acho, era o que pensei quando vi que estava no corredor. Em pouco tempo voltou com um violão nas mãos e se sentou ao meu lado novamente. Começou a afinar o mesmo, calmamente, enquanto eu explodia de ansiedade.
- Espero que você goste – ele disse envergonhado e começou a dedilhar algo e eu prestava atenção em todos os detalhes, sem tirar os olhos dele. Então começou a cantar.

(n/a: sugiro colocar “When it's time” para tocar, clicando aqui)

Words get trapped in my mind
Sorry I don't take the time to feel the way I do
'Cause the first day you came into my life
My time ticks around you
But then I need your voice
As the key to unlock all the love that's trapped in me
So tell me when it's time to say I love you
All I want is you to understand
That when I take your hand
It's 'cause I want to
We are all born in a world of doubt
But there's no doubt
I figured out
I love you

All I want is you to understand
That when I take your hand
It's 'cause I want to
We are all born in a world of doubt
And there's no doubt
I figured out
I love you

And I feel lonely for
All the losers that will never take the time to say
What was really on their mind instead
They just hide away
Yet they'll never have
Someone like you to guard them
And help along the way
Or tell them when it's time to say I love you
So tell me when it's time to say I love you


Mantinha um sorriso no rosto, ainda observando as palavras cantadas que havia acabado de ouvir. De longe aquilo era a coisa mais linda que alguém havia feito para mim. Fiquei sem palavras, Não sabia o que lhe dizer. O que eu havia feito por ele? Acho que a coisa mais próxima daquilo que fiz a ele foi tê-lo tirado da prisão.
- O que você achou? – perguntou mais envergonhado que antes, afinal, ainda não havia dito nada, apenas sorria.
- Eu amei – disse do jeito mais convincente e verdadeiro, demonstrando minha compaixão da melhor maneira possível. Cheguei mais perto dele, tirei o violão de suas mãos e o abracei forte, tentando transmitir toda a felicidade que sentia. Acho que ele havia entendido e percebido, pois correspondia o abraço do mesmo jeito que eu. Não era boa em me expressar com palavras.
- Que bom que você gostou – disse em meu ouvido.
- Eu te amo – disse abraçando-o mais forte e ele depositou um beijo em minha cabeça. Ficamos abraçados por mais um tempo, mas menos apertado que antes. – Eu não fiz nada para você – eu disse depois de um tempo, um pouco cabisbaixa. Ele levantou meu queixo e disse:
- Claro que fez! - disse como se fosse óbvio. – Você entrou em minha vida! Me ajudou, me deu valor! - ele dizia empolgado. – E até me diz umas verdade que preciso ouvir – continuou um pouco mais divertido.
Eu sorri, não tinha mais como denominar o que sentia, mas uma tremenda felicidade havia me tomado conta. Realmente, nem a mãe dele ligava muito para o que ele fazia ou aonde iria, mesmo o amando. Sentia-me bem, e mesmo que uma hora tivesse que ir para minha casa, não me sentiria sozinha mais, uma parte dele iria comigo.


Thirty eight. Take me away to paradise

Os dias foram passando bem, assim como os meses. Minhas aulas haviam voltado, não voltou para a escola, o que me deixava um pouco entediada, mas ainda sim eu falava com April. Ia à escola, trabalhava e ao chegar em casa, estava lá e se não estava nós nos víamos de algum jeito.
Enquanto eu estava no trabalho, ele estava no estúdio. Há algumas semanas o Green Day havia começado a gravar um novo álbum. Ia demorar a ficar pronto, daria mais uns meses. Agradeci por isso, pois depois de pronto os shows de divulgação começariam pela região e em pouco tempo outra turnê, mas como estávamos quase nas férias de inverno, sabia que ao menos passariam as férias aqui.
Meu primeiro Natal em Oakland, nem sabia o que faria, mas sabia que minha avó ligaria. Não havia falado com ela desde o enterro, ou seja, ela não sabia da minha mãe. Só esperava que ela não dissesse que passaria o Natal aqui, mas sabia que me convidaria para ir até Los Angeles, ao menos no ano novo, para vez os fogos. Mas tinha alguns dias.
Nessas horas eu chegava até a ter inveja de . Teve a coragem de largar essa escola e agora estava lá, na casa dele, fazendo qualquer coisa enquanto eu estava esperando loucamente pelo sinal anunciando o fim das aulas.
Quando finalmente acabou, guardei meu material rapidamente e saí de lá rumo ao trabalho, e digamos que não era tão perto assim. Tinha que pegar duas conduções e andar mais dois quarteirões. Ficar sem carro é uma bosta.
O dia custou a passar. Acho que a expectativa por amanhã ser sábado fez com que os ponteiros se arrastassem vagarosamente.
Minha vida continuava meio monótona, até mais do que antes, estava em uma rotina chata. Escola e trabalho, ao menos no final do dia eu colocava um sorriso no rosto ao ver . Vê-lo depois do trabalho era praticamente uma rotina, mas era sempre diferente. Ele salvava meus dias.
Ao dar 18h, estava para ir embora. Esperava encontrar na porta de casa. Mal esperava para chegar em casa, apenas de imaginar meu coração já disparava, pensando em chegar em casa.
Não sei porquê tinha vezes que eu pegava o ônibus. Pegava para variar a rotina, mas às vezes me esquecia de quanto tempo levaria a mais do que de carro. Droga. Amaldiçoava-me ao subir no veículo, não entendia certas coisas que eu mesma fazia.
Quem sabe em uma hora eu não estivesse em casa. Agora era só esperar... Esperando enquanto a imagem da rua passava rápido... e passava.... e eu esperava.... esperava... esperava.
Abri os olhos rapidamente, havia caído no sono, droga. Mas a verdade era que estava bem cansada. Foi uma semana bem demorada e cansativa. Mesmo querendo ver eu também queria dormir. Olhei pela janela e estava bem perto de minha casa, que bom, não dormi tanto assim.
Espreguicei-me preguiçosamente, levantei-me e apertei o botão para que motorista parasse. E outra coisa que sentia era fome, eu sabia que provavelmente não haveria nada para comer em casa. Acho que a única coisa que tinha era uma louça para lavar. Suspirei pesadamente enquanto descia do ônibus, a última coisa que queria era limpar alguma coisa.
Olhei em meu relógio, já eram 19h30.
Depois de andar um pouco avistei minha casa. Fiquei aliviada, o final de semana havia começado. Chegando mais perto vi uma pessoa sentada na frente da porta, de cabeça baixa, encolhido, provavelmente pelo frio que estava fazendo, e o vento que entrava pelos poros. Aproximei-me dele e me abaixei em sua frente, logo cutucando sua cabeça, o que fez levantar o rosto meio sonolento.
- Você demorou – ele disse esfregando os olhos com a mão, enquanto eu levantava para abrir a porta. – Comecei até a achar que você não vinha.
- É que vim de ônibus, para variar um pouco – eu disse destrancando a porta, quando senti seus braços envolvendo minha cintura.
- E nem me disse oi – disse se fazendo de vítima, virei-me, ficando de frente para ele, depositei um beijo em seus lábios, que estendi por mais alguns segundos.
- Coitadinho... - disse fazendo biquinho. – Mas agora vamos entrar, porque eu estou com frio – eu continuei e bati os pés no chão para ver se esquentava.
Então entramos. Estava aliviada, pois estava mais quentinho lá dentro, mas também me lembrei de que precisava dar uma limpada na casa. Droga. Estava cansada disso. Fui direto ao sofá e me sentei, aliviada por não estar mais no trabalho, mesmo não do jeito que queria. se sentou ao meu lado, já passando o braço por meu ombro.
Às vezes, queria voltar no tempo e fazer as coisas diferentes, diferentes do que já havia feito, fazer escolhas alternativas, assim, quem sabe, meus pais não estariam aqui. Talvez meu pai não, mas quem sabe minha mãe. Nós sentimos falta quando perdemos...
- Às vezes queria que tudo fosse um sonho esquisito – eu disse encostando minha cabeça em seu ombro.
- Por quê? - perguntou, acho que indignado, soltando seu braço do meu ombro fazendo com que minha cabeça batesse no sofá. Ele me olhava como se tivesse o ofendido.
- É só que.... – suspirei. –Não me entenda mal, mas vendo por um certo ponto de vista, as coisa não estão boas... - comecei até perder a vontade de falar. – Eu estou morando sozinha, tendo que trabalhar e estudar, limpar a casa, pagar as contas, estou precisando arranjar um tempo e vontade para arrumar essa casa, e tem vezes que o final do dia chega e eu não tenho nada para fazer... Estou cansa e entediada e... e...
Abracei minhas pernas e abaixei minha cabeça. Não queria viver uma vida de merda para sempre, o presente às vezes parecia assustador, mas o que eu mais temia era o futuro, o que podia acontecer. colocou uma de suas mãos em minha cabeça, alisando meus cabelos.
- Pelo menos você largou a escola, às vezes eu penso em fazer o mesmo... - eu disse erguendo minha cabeça, mas ainda com um ar triste.
- Escola é a prática para o futuro e a prática leva a perfeição – ele disse todo cheio de si, o que fez um sorriso triste surgir em minha face –, mas ninguém é perfeito, então por que praticar?
- ‘Tá vendo! - eu disse com um sorriso nos lábios. – Por que não largar? - eu achei que depois disso ele não falaria nada, mas falou.
- Claro que não! - era a única coisa que eu achei que não falaria. – Se você quer uma vida, um futuro de verdade, vá para a escola, termine, estude!
Eu estava sem palavras, havia me surpreendido de verdade. Achei que ele me encorajaria nessa. Sabia que era o certo, mas estava cansada de ter que, além de estudar, trabalhar. E afinal, por que ele não seguia o próprio conselho? Mas de qualquer forma, mantinha uma incógnita em minha face.
- Mas então por que você largou? – perguntei depois de algum tempo e como previa, ele não respondeu de imediato.
- Porque... - pareceu pensar por um tempo. – Já é tarde demais! - continuou ele, mas desta vez com a cabeça baixa. – Minha ficha escolar era manchada, além disso, só ia mal, eu uso drogas - ele disse e então parou. Levantou a cabeça e me olhava com os olhos tristes. Então me lembrei de quando ele foi pego pela polícia, aquilo me dava um aperto no coração. – E eu tenho ficha na polícia – ele disse depois de um tempo. – Minha família toda é assim, como eu. Sou um caso perdido.
- Você não é um caso perdido! - eu disse me aproximando mais de , envolvendo-o em meus braços. – Você é uma boa pessoa.
- Acho que você é uma das poucas pessoas que acham isso – disse passando os braços por minha cintura. Encostei minha cabeça em seu ombro, respirando profundamente.
Minha barriga roncou alto, estava com minhas necessidades básicas chamando.
- Vou ver se tem alguma coisa para comer – eu disse me levantando e indo até a cozinha.
Abri os armários, não havia quase nada neles. Um armário estava lotado de temperos velhos, ou gelatina, aquelas bem sem gosto, fora pacotes de arroz e coisas do gênero. Na geladeira, coisas fora da validade, nem tinha minhas porcarias de sempre.
- ‘Tô precisando dar um cata nessa cozinha e jogar essas coisas velhas fora, além de limpar tudo. O que você quer pedir?
- Comida chinesa – ele disse feliz.
- Então liga aí que eu vou tomar um banho – eu disse já subindo a escada, não deixando tempo para ouvir sua resposta.

Quando desci, depois de tomar banho, a comida já havia chegado. estava sentado no sofá com a TV ligada, assistindo um desses programas infames de auditório. Coisas que minha avó deveria estar fazendo. Minha avó, logo ligaria.
Sentei-me ao seu lado e ele me olhou. Olhei para ele.
- Ainda ‘tá com fome – perguntou passando o braço por meu ombro e me abraçando novamente.
- Se eu ‘tô com fome? Vamos comer AGORA – eu disse.
Comemos em silêncio. A conversa que havíamos tido a pouco ocupava minha cabeça conforme a fome me deixava. Realmente, poucas pessoas me surpreendiam, e sempre fazia isso. Talvez ele fosse a última pessoa de quem eu esperava ouvir um conselho de “não largue a escola”. Todos esses devaneios me faziam pensar em uma pergunta.
- Você já pensou em voltar à escola? E começar de novo? - perguntei olhando fixo para minha caixinha de yakisoba.
Ele me olhou como se a pergunta o tivesse pegado de surpresa. Permaneceu olhando por um tempo, provavelmente sem saber o que responder.
- Como eu disse, já não tem mais jeito... - suspirou e olhou para frente, encarando a TV. – Eu estraguei qualquer chance de recuperação – e voltou a olhar para mim. – Não repita o mesmo erro que eu, estude e seja alguém.
- Mas você largou a escola e está no Green Day, fazendo sucesso, e até vai para o estrangeiro! - eu disse. – Você é alguém!
- Mas você é teimosa, hein! - riu sem humor nenhum. – Apenas escute o que eu digo.
Fingi que concordava e depositou um beijo demorado em minha bochecha. Voltamos a comer e a assistir TV.


Thirty nine. Too much too soon, too late and now it sucks to be you too

Sábado, dia de acordar tarde. Mas como tudo que é bom, dura pouco, fui despertada de meu sono por aquele barulho insuportável do telefone. Levantei com os olhos ainda fechados e desci até o primeiro andar e atendi.
- Alô – me joguei no sofá com preguiça.
- ?
Despertei completamente. Minha avó, é claro! Ela ia ligar.
- Vó? Oi... - disse com um certo receio, não queria dar as notícias quando ela perguntasse.
- E então, minha linda... Quanto tempo? - ela iria começar a disparar as palavras como um míssil – Me desculpe não ter ligado antes, você sabe, eu estava com a cabeça nas nuvens, aposto que vocês também, mas já estou me acostumando. Ah, parabéns! Me desculpe não ligar no seu aniversário.
- Imagina, vó, eu estou bem... - acho que eu não tinha muito o que falar, quer dizer, eu tinha bastante, mas não queria, além disso, odeio telefone.
- Mas liguei mesmo para falar do Natal e do Ano Novo, como já havia dito, eu já comprei seu presente e vocês sempre vêm ver o fogos da praia... E como está a sua mãe? - droga.
- Bom, eu realmente não sei... - foi o que veio de imediato em minha cabeça, mesmo sabendo que era enrolação era um tipo de verdade.
- Que é isso, ! Eu sei que vocês não se dão super bem, mas me diga... Ela está trabalhando? - respirei fundo, procurando forças par
a falar, na vida temos que fazer coisas que não queremos e isso é um saco. - Eu realmente não sei. Não sei como ela está e nem por aonde anda – eu disse sério, então minha avó não disse nada, acho que ela percebeu que não estava brincando.
Depois de um tempo de silêncio em que ambas pensavam, ela disse:
- , o que você está querendo dizer? - soltei o ar que ocupava meu pulmão.
- Eu não faço ideia de onde ela esteja, ela simplesmente.... sumiu – eu disse com os olhos fortemente fechados, achando que se abrisse, veria minha avó em minha frente.
Não ouvi nada além da respiração do outro lado da linha, nem queria saber o que ela iria achar, já estava me acostumando com minha nova vida e uma mulher de 65 anos – desculpa, vó - não mudaria isso. Mas depois de passado dois minutos ela falou.
- Desde quando? - ela disse séria.
- Pouco depois que de meu pai... ir – eu disse abrindo os olhos.
- Eu vou pegar o ônibus agora mesmo e vou aí! - arregalei os olhos. WTF? No way!
- O quê, vó? Por que isso? Eu estou bem! - eu disse, mesmo sendo totalmente estúpido uma adolescente falar isso enquanto ela mora sozinha, mas tudo bem.
- Como uma menina pode morar sozinha? Como pagar as contas? Precisa de um adulto aí – ela disse, mas mal ela sabia que as coisas até iam bem, pelo menos eu trabalhava e pagava as contas, e não havia largado a escola, mesmo que estivesse prestes a largar, ela não sabia disso.
- Vó, eu estou trabalhando e logo vou ter dezoito – ‘tá, tinha mais de seis meses pela frente, mas era só para dizer que estava perto.
- ‘Tá bom, mas vou aí te visitar semana que vem, no Natal... Ah, a sua mãe é louca, onde ela estava com a cabeça? - e então minha avó começou a falar mal de minha mãe, soltando palavras como balas, atingindo seu alvo em cheio.
Depois disso não falamos muito mais. Ela iria me buscar para passar o Ano Novo com ela. Ela queria o Natal, mas eu prefiro o Ano Novo, porque em Los Angeles os fogos são lindos, e eu iria passar o Natal com . Só esperava que a mãe dele fosse legal comigo, mas ela já estava mais familiarizada comigo por perto.
Mas o que eu mais queria naquele momento era voltar para minha cama e fui.

Estava indo para casa de . Eles iriam “ensaiar” no porão, como faziam antes, porque agora iam à gravadora, que era pequena e independente, mas já era bem melhor. De qualquer forma, iriam tocar hoje só por diversão e eu e April iríamos assistir.
Era bom que April fosse, assim não ficaria lá com um bando de meninos. Era bom uma companhia feminina para fugir das piadinhas idiotas.
Quando cheguei, todos já estavam lá, mas só estavam conversando, enquanto dava em cima de April e ela ria de sua cara.
- Oi! - eu disse descendo as escadas recebendo um coro de “oi” como resposta. Sorri porque adorava aquilo. Logo se levantou e selou nossos lábios em um beijo rápido de boas vindas, e nos juntamos aos outros.
- Acho que eu também deveria arranjar uma namorada... - disse olhando para April que tinha os olhos semi serrados, o que até chagava a ser engraçado.
- É, mas eu acho que você devia arranjar uma namorada sem namorado – eu disse para ele.
- Você tem namorado? - ele perguntou para ela, que fez que sim com a cabeça. – Por que ninguém me disse antes? Mas você tem alguma amiga, certo? - ele disse com um sorrisinho nos lábios, enquanto ela continuava com uma cara de merda. Nós rimos.
- O que vocês vão fazer no Ano Novo? - alguém perguntou. Todos disseram que não sabiam, eu sabia, mas não respondi. – A gente podia passar juntos, ir à praia, sem pais... – disse.
- Eu não posso – eu disse, o que para eles soava estranho, porque tecnicamente eu fazia o que queria.
- Mas você não tem que pedir para ninguém, não leva a mal não, mas seus pais não estão aqui para te dar permissão – April disse.
- Minha avó me ligou, eu contei pra ela, eu vou ir até Los Angeles no Ano Novo – eu disse meio, sei lá... triste. Não, desanimada, não gostava da minha situação.
- É, você acabou com nosso plano mixuruca, você vai ver os fogos em L.A. enquanto a gente fica aqui na merda de cidade – disse fazendo todos rirem, como sempre.
Depois disso conversamos um pouco mais e eles foram tocar algumas músicas, enquanto eu e April mais conversávamos do que assistíamos, mas eles nem ligavam já que era uma diversão. Depois de tudo, bebemos algumas cervejas e rimos de nossas próprias piadas. Quer dizer, ríamos sem motivo mesmo, só por estarmos embriagados. De qualquer forma, acabamos dormindo por lá mesmo.
Todos acordaram com dores de cabeça, mas esse é o preço que se paga. Mas de qualquer jeito, não gosto de ficar bêbada. Gosto de beber até onde eu sinto o sabor e sei o que estou fazendo, depois disso é só vergonha. Mas uma vez ou outra não tem problema e à altura que minha vida estava, isso não era nenhum tipo de problema.
Depois que todos foram embora fiquei conversando com . Gostava de tê-lo em minha vida, porque ele realmente se importava.



Forty. forget all the disappointments you have faced

Estava arrumando minha mala e coisas em geral, logo minha avó chegaria e não tinha feito nada sobre isso ainda. Arrumei minha mochila rapidamente e fui tomar banho para que pudéssemos sair assim que ela chegasse. Não estava animada em esperar.
Esperei por ela na sala com a casa toda trancada, no mesmo marasmo de sempre. Estava torcendo para que ela não entrasse em casa, mas obviamente ela entraria, porque, caso contrário, minha avó, que já tem uma certa idade, não viria de ônibus para me “buscar” e então eu dirigiria de volta com ela. Era óbvio que ela queria saber a situação em que tudo estava, o que era uma porra, vamos falar a verdade, mas por mais que odiasse isso, sabia que era o certo.
Já quase adormecia no sofá quando ouvi a campainha, me arrepiei toda ao ouvir aquele som, era hora de enfrentar a realidade. Levantei-me vagarosamente. Sentia saudade, mas tinha mais era medo da reação dela sobre tudo. Abri a porta e lá estava minha avó, ela tinha uma expressão de felicidade no rosto, mas em seus olhos, lá no fundo, tinha pena. Eu a abracei forte, era bom vê-la, agora sim pensava apenas na saudade que sentia.
- Oi, vó! - eu disse e nos soltamos. – Tudo bom?
- Oi, minha lindinha – ela disse e pegou minha bochecha. – Claro que estou bem! E estou feliz em te ver! Deixa eu entrar, descansar um pouco da viagem – continuou ela, já entrando em casa e sentando no sofá, dando uma boa olhada em sua volta, eu fechei a porta. – Nossa, , você não abre a casa não? Está mal arejado aqui.
- Ah, é que nós já iríamos sair, então nem abri nada... - a casa não estava tão ruim assim, mas os quartos no andar de cima, tirando o meu, não haviam sido limpos, nunca. A casa era meio que grande demais pra minha força de vontade.
- Você quer ir indo? - perguntou ela ainda olhando em sua volta, reparando em cada detalhe do cômodo.
- Sinceramente, sim. Não quero que se apresse, nem nada, mas também não quero pegar a estrada à noite.
- Então vamos – ela disse, suspirou forte e se levantou do sofá. – A casa já está trancada? - sinalizei que sim com a cabeça. – Então pegue suas coisas.
Peguei tudo o que precisava, em outras palavras: minha malinha, já que já havia deixado tudo lá dentro, apenas peguei minhas chaves e fomos. Eu estava com saudades de Los Angeles, seria bom voltar lá. Já seguíamos a estrada, uma viagem até que tranquila, porém cansativa. O ruim mesmo era o clima e as conversas, porque como minha avó ficou muito tempo por fora da minha vida, não que ela soubesse absolutamente tudo sobre mim, mas de qualquer forma ela queria se informar do que estava acontecendo no momento, o que era normal, mas extremamente irritante, devo dizer, até porque é uma história um tanto desagradável.
- Por que você não me contou, ? - e lá vamos nós de novo... - Você podia ter me ligado pedindo ajuda... No que você está trabalhando? Você não parou de estudar, não é? - e ainda sim, tinha que prestar atenção na estrada.
- Bom... eu demorei um pouco para perceber... e eu fiquei... não sei, foi um choque e você já estava triste, preferi... ficar assim – estremeci, só de lembrar de sentimentos adormecidos e suspirei. – Eu não parei de estudar, mas às vezes fico de saco cheio de ir até a escola. Eu estou trabalhando em uma locadora de filmes, não é grande coisa, mas está pagando as contas.
- Você trabalha e estuda? Meu Deus é muita coisa para uma garota! E trabalhar de balconista não é quase nada! Você merece mais que isso, querida, por que você não vem morar comigo? - essa não, vai começar! Eu não queria morar em LA de novo, quer dizer, queria sim, mas não queria deixar Oakland, provavelmente por causa de e afinal de contas o que eu tinha em LA? Fora minha avó, é claro. Mas não tinha nada! Eu mal tinha em Oakland.
- Eu não quero ir para LA, vó, estou gostando de Oakland... - e estava, ao menos tinha amigos, finalmente, não eram colegas, mas sim amigos, mas minha avó insistiu e continuou a metralhar palavras.
- Você fez amigos? - ela olhou toda feliz para mim e eu revirei os olhos sem desviar minha face da “estrada”. - Mas que ótimo! Sabe, você nunca teve muitos amigos e isso me preocupava, todos precisam de amigos... – não disse nada, não gostava de enfrentar a realidade e pensar no meu problema, meu problema de ser anti-social, mas isso fez minha avó parar de falar por um breve momento, mas logo continuou: – E as paqueras? Tem algum garoto te dando mole?
Avós tem o dom de deixar os netos sem graça. Claro que sempre tem aquele cara que você sente ao menos uma atração, mas não, elas fazem uma coisa tão tonta se tornar constrangedora. Provavelmente fiquei vermelha, cheguei a essa conclusão quando ouvi:
- Ah! Você tem! - ela disse, seguido de risadas. Mas que porra viu, é tinha mesmo ué!
- É vó, eu tenho um namorado – eu disse meio sem graça. – O nome dele é , não sei se a senhora percebeu, mas ele estava no enterro do pai.
- Não me lembro... mas então é por isso que você não quer deixar Oakland? – talvez. – Ah, como é bom ser jovem... - e então ela começou a falar dela e de meu avô. Foi uma viagem cansativa, pelo menos para mim, já que dirigia.
Quando chegamos na casa dela, descarreguei minhas coisas e apaguei no sofá, não propositalmente, mas quando me deitei no mesmo, acabei dormindo. Estava realmente muito cansada e fui acordar umas duas horas depois, e fui bem recebida por um cheiro maravilhoso de lasanha. Adoro lasanha, a da minha avó então... é eu estava com fome. Levantei-me e fui até a cozinha onde lá estava ela, lavando a louça.
- Você fez lasanha! - eu disse tirando o papel laminado da travessa em cima do fogão.
- Ah sim! Eu sei que você adora! E é por porque daí eu cozinho de verdade, bom de vez em quando eu cozinho para meu vizinho – generosa ela, eu não faria isso. – E você esta aqui, então... - ela disse enquanto pegava dois pratos e os talheres, em seguida colocando os na mesa.
- Você faz comida pro vizinho, vó? Por que? - eu perguntei enquanto eu colocava a travessa de lasanha no centro da mesa e então sentamos.
- Eu gosto de cozinhar, mas não tenho para quem fazer, e o homem que mora na minha frente, ele come tão mal, que então eu cozinho pra ele – que bom para o moço, né. – P coitadinho é separado, de vez em nunca o filho dele aparece aí... – Ela continuou enquanto eu já colocava um pedaço de lasanha em meu prato. – Ele nos convidou para uma festa de ano novo e nós vamos - ok, então, e em seguida supri meu estômago com aquela lasanha deliciosa! Nem lembrava como minha avó cozinhava bem, acho que pelo fato de eu comer apenas porcaria todos os dias.
- E trate de comer bem! - ela disse alto de repente. – Você esta muito magrinha, a última vez que eu te vi você estava mais... saudável – eu tinha emagrecido mesmo. - E pare de fumar! Só te deixa mais magra!
Depois dessa não disse mais nada, pois ela tinha razão e eu odiava admitir isso. Apenas comi minha lasanha, na verdade eu comi mais do que deveria porque fiquei meio mal depois. Umas 20h minha avó já havia ido dormir enquanto eu perambulava pela casa, sono era uma coisa distante naquele momento. Decidi então levar tudo para o antigo quarto de meu pai, que era onde eu dormia quando ia para lá.
Logo ao entrar no cômodo me senti um tanto diferente. O quarto, como sempre, estava com a decoração intacta, coisas de quando ele estava no colegial estavam todas lá, e ainda alguns brinquedos de infância. Quando eu era menor, gostava de alguns brinquedos de meu pai, como os carinhos, afinal de contas, eu não comprava carrinhos e sim bonequinhas, minha mãe não gostava, pra variar. Não que não gostasse de bonecas, eu adorava. Era bonitinho o quarto. Havia algumas fotos mais antigas em um mural, meu pai mais novo, no colegial, brincando com uns cinco anos, uma com minha mãe, quando ainda eram jovens.
Aquilo tudo era estranho, era uma das poucas coisas ele havia deixado para trás. Joguei-me na cama, cansada, não fisicamente, mas mentalmente. Como as coisas eram complicadas, a vida não te dá descanso nunca. Levantei-me em direção de minha mala para pegar um cigarro e um isqueiro, me dirigi até o quintal, para que não deixasse a casa de minha avó com cheiro de cigarro empregado, acendi o mesmo dando uma boa tragada, sentindo a nicotina fazer efeito em meu sistema. Era mal, mas me fazia sentir melhor. O som irritante de meu celular atrapalhou meus pensamentos, olhei no visor, era .
- Oi, ! - eu disse dando mais uma tragada em meu cigarro e em seguida soltando a fumaça, antes presa em meus pulmões.
- Oi, ! - ele disse alegre. – Você tá fumando, né! - afirmou com um tom um pouco mais sério e preocupado. – Você não deveria.
- Nem você – eu retruquei. Afinal de contas, era verdade, até porque ele fumava coisas piores. - Mas então... diga.
- Só liguei para ver se estava tudo bem... - disse voltando para seu tom normal de voz. – Ah, e para conversar, né.
- Eu tô bem – eu disse. – Só estou sem nada pra fazer. Mas você devia ver as luzes de natal... – e traguei o cigarro mais uma vez.
- Só fui para Los Angeles duas vezes, é bem bonito... - ele disse mais animado. – E onde você vai passar o natal e o ano novo? Já sabe?
- O Natal acho que vamos ir na casa da irmã da minha avó, que todo ano sempre vai bastante gente lá – apaguei meu cigarro no chão. – E o ano novo em uma tal de festa que o vizinho de minha avó vai dar e convidou a gente, espero que não tenha apenas gente velha.
- Você não me parece estar bem... o que aconteceu? – disse sério, parecia que ele sempre sabia que algo acontecia.
- É só que... - cocei minha cabeça e soltei um longo suspiro. – Não sei se gosto de vir aqui, isso lembra muito meu pai e... - suspirei novamente.
- Eu sei como é, ... É difícil e sei que seja lá o que eu te disser não vai melhorar muito, mas só o tempo vai fazer melhorar – ele disse tentando me confortar. - No funeral de meu pai eu fui correndo para casa, me tranquei lá e quando minha mãe chegou, a única coisa que eu disse foi “me acorde quando setembro acabar”. Eu não estava pronto, mas sabe, com os anos passando... - parou de dizer, acho que pensando no que dizer, achei que ele iria falar que com o tempo tudo passa. Mas analisando a situação, não havia superado a morte de seu pai totalmente.
- Talvez você precise de mais tempo – eu disse, o que, pensando bem, não foi uma coisa boa de se dizer, mas não sabia ao certo o que dizer, mas geralmente o tempo ajudaria.
- É... Mas de qualquer forma, o tempo que passou já me ajudou bastante, talvez a gente nunca esqueça, mas deixamos a mágoa de lado – ele podia estar certo.
- Acho que você está certo, eu só espero que as coisas melhorem – suspirei pesadamente. - É a única coisa que espero – eu disse levando uma das minhas mãos até a cabeça.
A conversa ficou meio parada depois disso, acho que a minha tristeza e lembranças de ambos nos contagiaram um pouco demais. Apenas conversamos sobre alguns fatos do passado, principalmente os que envolviam nossos pais. Chegava até ser bom dividir esse sentimento com , pois ele me compreendia.
Fui para dentro e depois de mais uns rápidos vinte minutos de conversa, acabamos desligando, iria ajudar o seu irmão com algo. Acabei ligando a TV e m menos de uma hora adormeci. Minha avó não gostaria nem um pouco de me ver dormido no sofá e não na cama, mas não sei o que vocês fariam, mas preferia dormir no sofá ao invés de um quarto com fantasmas do passado.




CONTINUA

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N/a: FINALMENTEEE ! Eu voltei heheheh
Gente desculpa a demora, mas, como disse, tô na Inglaterra e fica meio difícil de fazer tudo. E aqui é muito lindo!
Mas enfim... espero que gostem do capítulo, e antes que falem “faz att maior”, calma, estou indo nesse exato momento digitar mais.
Comentem, espero que gostem e é isso :)
xx
Kinha

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