Let There Be Love

Autora: Isabella Vieira
Status: Em Andamento
Revisada por: Káh
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: Long Fic - Drama
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Prólogo

Pouco se sabe sobre anjos. Seus formatos, seus cheiros, o tom de suas vozes. Isto é, se eles realmente existem.
Eu sei que existem.
Nós resumimos sua beleza e grandiosidade em uma palavra: angelical.
Ela me ensinou - do seu jeito confuso, porém convincente - o porque dela estar lá. O porque eu, e somente eu, conseguia vê-la, e porque não era todo mundo que tinha um anjo da guarda. Aquela garota, se é que eu podia chamá-la de garota, explicou tudo o que ela sabia para mim. O que não era muito, e também não saciava todas as perguntas da humanidade.
Para onde vamos? Onde estamos? Por que estamos aqui? Isso vai muito além da sabedoria angelical.
Agora que eu estava prestes a perdê-la, eu senti o peso do fardo que eu coloquei em suas costas.
Ela era só uma garota. Uma adolescente sem rumo, com seu futuro arruinado.
Me senti culpado; de certa forma, eu a fiz disperdiçar sua última chance.
Pensei em chorar, mas agora seus braços não me apertariam em conforto.
Pensei em gritar, mas iria parecer um lunático, gritando em meu quarto escuro.
Pensei em morrer, mas isso não me levaria até ela.
Eu teria que sofrer com as conseqüências. E a pior coisa que poderia me acontecer, é sofrer sem ela.

Capítulo 01

Eu nunca irei me esquecer da primeira vez em que a vi.
Tinha 9 anos e estava colando na prova de matemática. Era uma conta de divisão estúpida, mas ela estava se mostrando extremamente trabalhosa e difícil. O garoto na minha frente, parecia ter terminado a prova, e ele estava confiante com seu resultado. Eu via seus dedos dedilharem a prova, acompanhando cada passo de suas contas. E por um momento, pude ver a resposta. O resultado era 5.
Ergui minha cabeça para ver se a professora estava me observando. Se ela não estivesse, eu poderia copiar o resultado não só desta conta, como o de todas as outras. Mas o que eu vi não era alguém.
Uma menina parecia ter sido jogada no chão, e ninguém havia notado ou ouvido algum barulho. A sala de aula continuava silênciosa e, a garota, estava xingando baixo e massageando sua perna.
Eu nunca havia visto uma menina vestida daquele jeito para ir ao colégio. Vestido preto, agarrado ao corpo, e maquiagem pesada. Meus olhos percorreram toda a sua silhueta e eu me perguntava o motivo de ninguém ter percebido a presença dela, exceto eu. Talvez tivessem percebido, mas estavam tão confusos quanto um garotinho de 9 anos poderia estar. Um misto de admiração e medo invadiu meu estômago, e eu senti este revirar.
Ela olhou em volta, mas não demorou muito para me ver. Seus olhos mudaram de confusão para susto.
"Você consegue me ver? Você é o ?"
Eu não sabia o que responder. Eu não acreditava que ela estava falando comigo. Garotas de 15 anos não conversam com garotinhos de 9. E, quando conversam, apertam suas bochechas e os chamam de fofos.
"É, acho que não". Ela deu de ombros e continuou procurando por algo em sua volta. "Me falaram que ele está aqui. Cadê ele?"
A professora percebeu minha movimentação na cadeira. Minha cabeça seguia todos os passos que ela dava. A "garota perdida" parava de cadeira em cadeira, e encarava fervorosamente cada criança, por, no mínimo, cinco minutos. Meus olhos não conseguiam se desgrudar dela, mas por algum motivo, minha voz não conseguia proferir uma palavra.
", olhe para sua prova". A professora chamou e eu procurei obedecer.
Fingia prestar atenção nos números, mas meus olhos me traíam e voltavam a procurar por ela.
Agora, a menina não parecia mais procurar ninguém. Ela estava parada, exatamente ao meu lado, sorrindo de um jeito estranho. Se minha mãe visse isso, diria que não era púdico uma garota com aquela idade, sorrir daquele jeito para uma criança. Chegava a ser um pouco diabólico.
Eu sorri de volta, mas logo em seguia lembrei que meus dois dentes da frente haviam caído semana passada. Fechei minha boca rapidamente, e a ouvi rir alto.
Uma sensação ricocheteou sobre mim, assim que a risada dela não passava de uma lembrança. Eu olhei para seus olhos, e sorri da mesma maneira novamente; rápida e engraçada.
Não lembro por quanto tempo eu repeti esse movimento. Mas ouvir aquela risada era muito mais interessante do que dividir 10 por 5.
"Mais cinco minutos, crianças"
Ela deve ter percebido meu rosto de desespero e se aproximou mais. Agaixou-se ao meu lado e deu uma olhada em minha prova.
"Você consegue fazer isso, ?"
Eu neguei com a cabeça. Na minha última tentativa de conseguir a resposta, olhei novamente para a prova do menino em minha frente.
Repentinamente, eu senti uma dor na minha nuca. Era a mão gelada da garota, me dando um tapa.
"Não faça isso. Nunca mais." Quando seu olhar nervoso encontrou meus olhos lacrimejados, ela pareceu ter se arrependido de seu tom severo e punição corporal. "Desculpe."
E como se uma nuvem estivesse roçando em minha bochecha, eu senti seus lábios me darem um beijo de consolação.
"Se você tem 10 laranjas, e precisa dividí-las com 5 amigos, quantas laranjas você dará pra cada um?"
Inconscientemente, eu comecei a contar nos dedos.
"2" Ela concordou com a cabeça, e um sorriso de aprovação ocupou o lugar do diabólico.
Aquilo me motivou como nenhum chocolate havia feito. Terminei 4 questões em menos de cinco minutos, e alguns dias depois, descobri que havia tirado A+.

Capítulo 2

A lua cheia havia tomado o lugar do Sol de verão, trazendo uma temperatura mais amena para dentro do meu quarto. Minha mãe me vestiu em meu macacão azul claro e felpudo, estampado com a imagem de Saturno.
Enquanto ela tentava colocar meu braço esquerdo na roupa, eu assistia a garota que era invisível para todos em minha volta, passar a mão pelos meus objetos pessoais. Minha escrivaninha e o abajur em cima dela; meu armário, minha coleção de naves espaciais em miniatura e, quando ela finalmente desistiu de segurar alguma coisa - já que sua mão literalmente ultrapassava tudo -, seu corpo estacionou em frente a janela aberta. Eu pude ouví-la chorando enquanto olhava para as estrelas. Mas esse som que cortou meu coração, foi rapidamente substituido pela voz da minha mãe.
"Amanhã é o aniversário do Oliver, . Tem certeza que Ralph não poderá vir?"
Eu concordei com a cabeça sem dizer uma palavra. Ralph não viria nunca. Ele não existia.
E mesmo se eu tivesse um amigo, nunca iria chamá-lo para a festa de aniversário do meu padrasto.
Nenhum dos garotos conversava comigo. Eles estavam muito mais interessados em parecerem adolescentes do que em acreditar em aliens ou em saber o nome de constelações e as estrelas existentes nelas.
Eu achava isso o máximo.
Mas seria humilhante dizer para meus pais que eu não tinha amigos. Que a maioria das pessoas me achavam um lunático.
Não demoraria muito para eles descobrirem sobre Ralph, mas eu gostava de adiar esta data.
"Boa noite, querido" Ela beijou minha testa e me deitou na cama, revestindo meu corpo com o cobertor logo em seguida.
Mamãe andou em direção a janela e por um segundo, a garota chorosa com vestido preto, foi engolida pela minha mãe acima do peso, com cabelos cor de fogo. A mão fofinha de minha mãe, fechou a janela, e a madeira da veneziana. Escondendo assim, a maravilhosa lua cheia de nosso raio de visão. Assim que a luz foi apagada e a porta fechada, a garota acendeu o abajur.
Imagens dos planetas do Sistema Solar, rodavam nas paredes do meu quarto. Ela secava discretamente suas lágrimas, e riu baixinho ao perceber que eu a encarava curioso.
"Como você conseguiu ligar o abajur? Eu achei que você atravessasse tudo"
Ela simplesmente deu de ombros.
"Você não tem uma pergunta mais fácil?"
"Onde você estava antes de vir pra cá?"
"Você é muito novo para saber"
"Mas eu quero saber agora" Insisti. Eu tinha tantas perguntas para fazer, e não me contentaria com uma resposta daquelas.
"Eu te conto no seu aniversário de 11 anos, se a sua próxima pergunta for algo que eu sei responder"
Agora que eu estava a observando de perto e meus olhos haviam se acostumado com a escuridão, eu reparei que ela não havia parado de chorar. Mas as lágrimas corriam rapidamente pela sua face, e quando tocavam o lençól, sumiam.
"Por que você está chorando?"
"Porque eu quero saber a resposta das suas perguntas"

Capítulo 3

"Qual o seu nome?"
Essa era uma pergunta que parecia ser tão natural a se fazer, mas assim que minha voz a pronunciou, seu rosto se fechou. Como se ela não tivesse a resposta.
Ela estava mergulhada em seus próprios pensamentos, completamente alheia ao fato que eu bocejava e meus olhos estavam ficando cansados da espera. Eu poderia dormir a qualquer momento.
" é um nome estranho?"
"Não. É um nome bonito." Ela sorriu pra mim, como se agradecesse por alguma coisa. "Esse é o seu nome?"
"Eu acho que sim"
Com o tempo, suas lágrimas cessaram. Ela viu que eu estava quase dormindo e ficou nervosa.
"Não tem mais nenhuma pergunta?"
"Você não quer dormir?" Apoiei minha cabeça no travesseiro, e fechei os olhos. Suas mãos encostaram em minha testa, e pentearam meu cabelo para trás.
"Eu não sinto sono. Ou fome."
"O que você é?"
Sua mão se distanciou da minha testa e eu não ouvi sua resposta. Como num reflexo, eu abri meus olhos e só consegui fazer minha respiração voltar ao normal, quando constatei que ela ainda estava lá.
"Me disseram que eu sou uma espécie de anjo" Seu rosto se contorceu numa careta.
"Uma espécie de anjo?"
Existia mais de uma?
"É, anjos são como celulares, sabe? Existem vários modelos, alguns mais modernos, outros já ultrapassados e que não são mais úteis. Você pode trocar de anjo quando ele não funcionar mais. Todos eles tem uma função um pouco diferente do outro, mas no final, fazem a mesma coisa: te ajudam a se comunicar com outra pessoa. A única diferença é que quando seu anjo vai embora, você não consegue outro tão fácil"
Meu cérebro sonolento demorou à processar a informação. A metáfora que ela fez foi bem engraçada, mas era extremamente plausível.
"Qual modelo você é?"
"Não sei, não me disseram"
Seus lábios começaram a assoviar uma canção. Não estava certo se era uma canção de ninar, mas era gostosa de ouvir. Assim que as notas musicais atingiram meu ouvido, não demorou muito para minha pálpebra pesar, fazendo meus olhos fecharem; eles permaneceram assim até a manhã seguinte.

O sábado não estava tão quente como os dias da semana. Era um calor gostoso e fazia a grama do nosso enorme jardim ficar mais verde e bonita.
Era o aniversário do meu padrasto, e ele estava bêbado outra vez. Eu não sabia exatamente o que era ficar bêbado - não sabia que era prejudicial a saúde, e que, no caso de meu padrasto, era uma doença. Mas eu entendia que era algo ruim. Porque sempre que isso acontecia, eu ouvia os gritos de mamãe no andar de baixo, enquanto tentava ignorá-los e dormir no meu quarto escuro.
Todos os adultos me observavam de longe, com olhares tristes. Eu estava sentado na borda da piscina, com as minhas duas pernas dentro da água. " estava brincando de pular na piscina e sair dela sem se molhar.
Eu tentava segurar o riso, mas às vezes era impossível. No começo os convidados pareciam me achar estranho. Uma criança sozinha, rindo para o nada, não deve parecer muito normal.
Mas de qualquer forma, eu estava acostumado com esse tipo de reação das pessoas. Estranheza.
De repente, parou de fazer seu show, e sentou-se ao meu lado.
"Você está com fome" Falou de repente. Eu estava tão entretido com o cheiro que o vento trazia para mim. Era o cheiro dela - do cabelo dela para ser mais preciso. Era a terceira ou quarta vez que eu sentia o cheiro de seus cabelos aquele dia. E cada vez, era um aroma diferente. "Vá pedir um pedaço de carne para seu padrasto"
Eu não sabia que estava com fome, até ela falar. Meu estômago roncou instântaneamente depois que ela concluiu sua frase.
"Você lê mentes?"
"Não"
"Como você sabia que..."
"Eu te conto depois que você comer alguma coisa"
Eu não gostava de falar com Oliver quando ele estava bêbado. De sua boca só saiam palavras que me assustavam, e ofensas para a minha mãe. Sem contar do mau hálito.
"Não se preocupe, eu estarei com você"
Quando eu me aproximei de sua mesa, a mais próxima da churrasqueira de todo o jardim, me arrependi de ter feito. Seus olhos passaram por mim, como se passasse por um prêmio.
"Venha aqui, garoto!" Ele gritou, desnecessáriamente alto, já que eu estava praticamente ao seu lado. "Gravem esse nome: !" Seus amigos riam, e as pessoas das outras mesas, olhavam para nós, tentando entender o que estava acontecendo. "Ele vai ser o astro do futebol, não é mesmo filho?"
Eu odiava quando ele me chamava de filho, ou inventava essas histórias malucas para se exibir aos amigos.
"Vou sim, Oliver"
"Esse é o meu garoto!" Ele me colocou no seu colo, e eu fiquei numa posição desconfortável entre seu peito e um copo de whisky.
Olhei em volta, procurando para me tirar desta situação. Eu vi o formato de seu corpo, uma luz fraca emanando dele, como se pudesse ser apagada a qualquer momento. Ela sorria tristemente para mim, como se entendesse o motivo de eu não gostar de Oliver, ou não gostar de nada que estava a minha volta.
"Estou com fome"
Eu queria me livrar de seu colo o mais rápido possível. Queria comer a primeira coisa que visse pela frente e depois colocar meu plano em prática. Plano este, que passei a madrugada toda preparando-o.
Eu queria saber qual tipo de anjo era, e para mim, só existia um padrão onde ela se encaixava.
"Nancy, arranje algo pro seu filho comer" E então, eu fui rapidamente despejado das mãos do meu padastro.
O cheiro de whisky foi rapidamente substituído pelo do prato de carne que minha mãe já tinha em mãos.
"Quer comer lá dentro, ?"
Balancei a cabeça afirmando e corri em direção ao meu quarto, sem aparentemente me preocupar com o prato de vidro em minhas mãos.




CONTINUA

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