Whoever She Is: Follow Me To Where I Go
Autora: Camila Carneiro
Status: Em Andamento
Revisada por: Gabi
Categoria: McFly Fics
Sub-Categoria: Romance/Suspense - LongFic
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Era definitivamente o melhor dia da minha vida. Era mais do que eu esperava, algo que não dava para descrever o que sentia. Ouvir eles ali, tocando na minha frente, não tinha palavra que seria o suficiente para descrever. Era meu sonho realizado e com certeza valeu à pena todas as horas na fila, todas as noites sem dormir, todas as brigas com meu pai, todo o dinheiro gasto. Poder estar no mesmo lugar que eles, poder ouvir as brincadeiras, as músicas, os instrumentos tocando, não tinha preço. É, eu estava no show do McFLY.
O show acabou e eu não conseguia parar de chorar. Um choro que misturava felicidade com um pouco da tristeza de ter acabado. Eu continuava a olhar para o palco na esperança de, quem sabe, eles voltassem, mas eu sabia que se eu não saísse logo eu acabaria perdendo o ônibus para voltar para casa e o próximo só Deus sabia quando iria passar, então era melhor eu ir logo para o ponto. Juntando o que restava da minha consciência, consegui sair da arena em meio a uma montoeira de pessoas que também saía do show e com sorte havia vários ônibus estacionados, preparados para pegar quem saía, facilitando para mim, já que não precisei esperar horas por um ônibus.
Em pouco tempo, todos os ônibus lotaram e cada um seguiu para seu destino. Sentar nunca me pareceu tão bom como naquele momento e aos poucos eu sentia todas as noites não dormidas, todas as horas em pé e o cansaço falando mais alto. Mas eu sabia que a viagem seria longa e talvez um cochilo não fizesse diferença, mas eu não podia perder de jeito nenhum o ponto, então usando a maior cara-de-pau que eu tinha no momento, comecei a conversar com a garota que estava sentada ao meu lado. Engatamos uma conversa empolgante sobre o show e acabei descobrindo que ela estava um pouco atrás de mim na pista e que também morava no mesmo bairro que eu. era o nome da garota. Ela era americana, mas veio para Londres quando criança com seus pais na esperança de conseguir um futuro melhor para ela e para seus irmãos. Um assunto puxava o outro e o tempo passava voando e eu realmente acreditava que em pouco tempo já estaria em casa. Era impressionante como uma boa conversa podia te animar, fazer o tempo voar. Pedi o telefone, MSN e Twitter, afinal, não é sempre que você conhece uma pessoa legal, que tem os mesmos gostos que você e mora no mesmo bairro! Ela me passou e quando ia pegar o meu, um alto e forte barulho de freada assustou todos. Assustados, todos começaram a olhar para os lados, tentando achar quem foi o responsável por aquele barulho na rua e então vimos. Ou melhor, sentimos. Medo. Desespero. Escuridão. E mais escuridão.
Minha cabeça latejava quando tentava me lembrar de algo, mas eu só conseguia me lembrar do acidente e depois de mais nada, e isso me assustava. Eu não conseguia me mexer, nem que fosse para abrir os olhos, mas eu sentia meu corpo. Eu sentia como se pudesse tocá-lo com só com o pensamento, como se eu estivesse em outro corpo, mas eu sentia que aquele era meu corpo. Era confuso. Muito confuso. Eu já tinha desmaiado apenas uma vez, mas foi bem diferente disso. Era algo novo, era algo que eu podia sentir que era grande, mas naquele momento eu só queria saber o que tinha acontecido. “Onde eu estava?” “O que aconteceu comigo depois do acidente?” “Será que eu estava em coma?” “Cadê meus pais?” “O que aconteceu com ?” Me bombardeava de perguntas que não sabia as respostas. Aos poucos, eu sentia meu corpo voltando, começando a responder meus comandos e a hipótese que eu havia desmaiado era a mais aceitável. Mas aí vieram outras dúvidas: “O que vou encontrar quando abrir os olhos?” “Vou estar no hospital ou no ônibus?” “Será que é tudo um sonho?” Balancei a cabeça com essas perguntas. Não poderia ter sido um sonho. Foi tão real. O show, o acidente, minha conversa com . Era real demais para ser um simples sonho. Era melhor eu parar de formular perguntas que nem eu sabia as respostas e começar a tentar trazer meus sentidos de volta. Com um pouco de concentração, pude sentir que estava deitada em algo duro, parecia o chão ou uma maca. É, uma maca, quem sabe eu não estava sendo levada ao hospital? Podia ser isso. Tinha que ser isso.
Tentei abrir os olhos e consegui, constatando que definitivamente ou aquilo que eu vivi foi um sonho e durante a madrugada pintei meu teto de preto, ou tudo foi verdade e eu estava em um lugar que eu não fazia a mínima idéia do que era. Uma luz começou a piscar muito sutilmente, e aos poucos também um ardor no rosto, causado por eu estar com o rosto no chão. Minha mente conseguia saber o motivo das dores, mas eu não sabia. Tentei me levantar, mas ao mesmo tempo tudo começou a girar e tive que apoiar as mãos no chão para não cair. Respirei fundo várias vezes, mas a tontura não passava, pelo contrário, aumentava. Levantei a cabeça tentando descobrir algo que pudesse dizer onde estava, mas eu só conseguia ver preto, preto, preto, preto e a luz que muito fraca piscava. Aquilo não estava me fazendo bem. Comecei a me sentir enjoada e meus olhos começaram a pesar, então deixei que eles se fechassem e deitei novamente no chão, apagando.
Quando acordei eu já sabia algumas coisas, como por exemplo: Eu estava num lugar desconhecido onde só dava para ver uma luz fraca. Não fazia idéia de como havia parado ali. Não sabia se isso era um pesadelo e muito menos se ia acabar. Mas eu me sentia melhor, as tonturas haviam passado junto com o enjoo, então pude me levantar sem o perigo de cair e me machucar mais. Ficar em pé não adiantou muita coisa, eu só conseguia enxergar a luz fraca, mas agora eu podia ter melhor uma noção de onde estava. Comecei primeiro vendo se o teto era mais alto que eu, e com certeza era porque nem me esticando eu consegui senti-lo; em seguida a tentar achar as paredes. Primeiro por trás, mas depois de alguns passos vi que ela não parecia estar perto, então me virei para o lado, sempre tentando não perder de vista a luz fraca. Mas eu não achei nada nesse lado e nem no outro. Aquilo parecia um grande galpão, mas era molhado, não de água, era de algo que tinha um cheiro forte, estranho, puxado mais para o carvão, mas eu não conseguia saber. A única saída que me restava era andar na direção da luz, quem sabe lá eu não encontraria a saída ou algo do tipo? Ok, eu não acreditava muito nessa hipótese, mas naquele momento, qualquer coisa que pudesse me servir de esperança, bastava. Meu corpo já não doía mais e enquanto eu andava na direção da luz, tentava criar na minha cabeça alguma história que pudesse explicar onde estava.
Eu já deveria ter feito todas as histórias possíveis na minha cabeça, passando desde um simples pesadelo até que eu estava morta, quando percebi que quanto mais andava, mas longe a luz parecia estar. Comecei a correr e agora estava claro que quanto mais eu andava mais longe a luz ficava de mim, mas eu continuava correndo. A respiração começou a ficar difícil de controlar e as pernas a fraquejar depois de um tempo correndo sem parar, então tudo começou a girar novamente, fazendo-me cair com tudo no chão. Dessa vez não deu tempo de amortecer a queda com as mãos, bati com tudo no chão, fazendo-me soltar um gemido involuntário de dor antes de apagar.
Ok, essa história de ficar apagando toda hora não é legal. Acordei novamente com duas vozes que falavam alto e sem parar, e me apoiando no chão, sentei-me. Pude sentir o gosto de sangue já seco no canto da minha boca, causado pelo tombo, e comecei a tentar juntar o que eu lembrava. Primeiro, sofri um acidente, mas incrivelmente eu não me machuquei; Segundo, estou num lugar que parece um túnel e que tem uma luz que foge de mim; Terceiro, tem duas pessoas falando na minha frente que eu não faço a mínima idéia de quem sejam. Sério, isso não fazia o menor sentido. E se isso fosse um sonho? Bem, uma hora eu teria que acordar, ou seja, eu só precisava esperar essa hora chegar. Ri com minha tolice de não ter percebido isso na hora e deitei, esperando acordar. Eu sentia os olhares das duas pessoas, mas não me incomodava, porque dali a algum tempo eu iria acordar e rir desse sonho louco. Esperei, esperei, esperei e nada de eu acordar, algo estava errado, então... Virei-me e apoiei a cabeça na mão, enquanto eu olhava na direção na qual as vozes estavam antes de eu deitar, mas não consegui ver nada. Continuei olhando numa forma de passar o tempo, então como se estivessem saindo da escuridão, eles vieram em minha direção e com ele, a claridade. Meus olhos se fecharam instantaneamente, mas mesmo assim a claridade era muita.
- Abaixa a luz, ela não está conseguindo ver nada – disse um deles, e como mágica a luz diminuiu, se tornando agradável aos meus olhos. Abri-os lentamente e deixei que me acostumasse com a luz, que mesmo sendo fraca, ofuscava meus olhos. Foi então que eu pude ouvir melhor as duas vozes e soltei um grito abafado quando percebi que eram e minha mãe. SIM, MINHA MÃE! Levantei-me e fui abraçá-la. Por Deus, eu sentia tanta saudade dela! Desde que ela morreu nunca mais sonhei com ela. Era estranho porque a maioria das pessoas, quando perde alguém querido, sonha sempre com ele, mas comigo não. E agora eu consegui, e era tão bom sentir o abraço dela de novo, fazia-me sentir protegida. As lágrimas começaram a vir e afundei o rosto no seu pescoço, enquanto ela me aninhava com seus braços e fazia carinho no meu cabelo. De repente, eu já não me importava mais se aquilo era um sonho. Para falar a verdade, até queria que fosse real, para poder ficar ali até quando pudesse, sem ter que acordar. Lembrei-me de , e com medo de minha mãe ir embora, abracei-a. No começo ela ficou sem reação, mas depois também correspondeu. Fazia horas que eu a tinha conhecido, mas era bom saber que ela também estava em segurança.
- Mãe, eu não quero acordar... - choraminguei assim que saí do abraço com , voltando para os braços de minha mãe.
- Isso é vida real, querida - falou enquanto passava a mão em meu rosto, como se estivesse querendo sentir as mudanças que o tempo fez. Fiz a mesma coisa e ela fechou os olhos, deixando uma lágrima solitária cair. Ela continuava a mesma, nem uma ruga a mais, nem uma pinta a menos. E então veio a confusão. Se aquilo era realidade, o que realmente estava acontecendo? O que aconteceu depois que bateram no ônibus? Por que estava discutindo antes com minha mãe? Como se ela pudesse ler meus pensamentos, minha mãe começou a explicar tudo:
- Filha, você foi mesmo ao show, você entrou mesmo no ônibus para ir embora pra casa, você conversou mesmo com e o ônibus bateu mesmo - ela respirou fundo, se preparando para dizer algo e aquilo me deixava cada vez mais nervosa. – Um outro ônibus, atrás do seu, perdeu o controle e acabou batendo com tudo na traseira do que você estava, fazendo com que ele tombasse. Como você estava em pé, você não conseguiu resistir – então ela me abraçou, mas eu não consegui responder. Como assim eu não consegui resistir?
- Você está morta, - falou , simplesmente.
COMO ASSIM, EU TINHA MORRIDO? EU NÃO PODIA MORRER, EU TINHA TANTA COISA PARA VIVER, PARA FAZER, PARA DESCOBRIR! EU NÃO PODIA MORRER.
Soltei-me bruscamente do abraço de minha mãe e comecei a andar pra trás.
- ONDE EU ESTOU? QUEM SÃO VOCÊS? POR QUE ISSO ESTÁ ACONTECENDO? POR QUE EU? – bombardeie-as de perguntas e minha mãe veio em minha direção, fazendo-me dar um passo para trás. – FICA LONGE DE MIM! – gritei olhando para sua mão que vinha em minha direção. Assim que ela se deu conta do que eu falei, ela a recuou.
- Se você se acalmar a gente pode explicar... – falou tentando se aproximar.
- EU JÁ FALEI PARA VOCÊ FICAR LONGE DE MIM, VOCÊ NÃO É MINHA MÃE, MINHA MÃE MORREU! – ela desistiu de respeitar minha decisão e me abraçou. Eu não a impedi, mas também não correspondi e deixei que as lágrimas viessem.
- Eu não queria que isso tivesse acontecido, mas aconteceu. Eu queria poder explicar mais, poder ficar para sempre com você aqui, mas agora não posso. Você tem uma missão aqui, você não está aqui por simplesmente estar. Você foi a escolhida – sorriu.
- Escolhida para quê? Eu nunca fui importante para ninguém, nunca fiz nada direito, por que eu? – ela sorriu novamente com o que eu disse. Eu não conseguia pensar direito. Eu havia morrido, ok, dá pra entender. Agora eu havia morrido por uma missão? Não, não dava para entender. Antes que eu pudesse perguntar alguma coisa, ela começou a andar, levando-me junto.
- Para onde você tá me levando?
- Você vai ver – sorriu olhando para mim e depois voltou a olhar para frente. Não me importava mais para onde estava indo, eu sabia que estaria segura. Eu sentia.
It's the time of our lives
- AI SENHOR, QUEM É VOCÊ? – gritou uma pessoa, acordando-me. Não se pode nem descansar depois de ficar horas numa fila e em um show?
Foi então que eu me lembrei de tudo da noite anterior. Tudo. Levantei-me num impulso e comecei a ver se estava inteira. Observei minhas mãos e braços e meus movimentos, tudo estava normal demais. Joguei para o lado o lençol que me cobria e vi que estava com as roupas de ontem, o jeans velho, mas confortável e a blusa preta escrita McFLY. Observei atentamente minhas pernas se mexendo e vi que tudo estava em ordem.
– COMO ASSIM, EU NÃO ME LEMBRO DE TER TRANSADO COM UMA FÃ ONTEM! – a voz fez com que eu desviasse meu olhar para ele. Então eu vi. Eu o vi.
- AI SENHOR, COMO ASSIM? – gritei ao mesmo tempo em que me empurrava para trás e chutava o lençol. Eu não sabia que eu estava tão perto da beirada da cama, então depois de um barulho eu percebi que tinha caído no chão. Estranho. Eu não tinha total consciência do que fazia, eu pensava e quando via, já tinha feito. Tentei me levantar mesmo embolada com o lençol e foi menos difícil do que achava. Então eu o vi novamente. Ele parecia estar tão confuso quanto eu. estava na minha frente.
- Meu. Deus. – dissemos em uníssono. – Você. – Completamos ao mesmo tempo, nos fazendo olharmos confusos.
- Você é a garota que morreu – completou.
- Como você me vê? Você morreu também? – perguntei, querendo entender como ele me via. Afinal, se eu vi minha mãe porque ela estava morta e também Mollie porque deveria estar morta. Meu coração apertou ao imaginá-lo morrendo. Eu podia morrer, só minha família e alguns poucos amigos que sentiriam saudades. Mas ele não. Ele se morresse, deixaria milhares de pessoas deprimidas.
- Não que eu saiba – e antes que eu pudesse responder alguma coisa, o celular dele começou a tocar, mas nós estávamos ocupados demais tentando entender o que estava acontecendo. Mas o celular continuava a tocar até que bufou e foi em direção ao aparelho.
- Se você falar alguma coisa...
- Não vou – me interrompeu antes que eu pudesse completar a frase. A frase ficou com um sentido pesado, como se eu fosse realmente fazer algo se ele falasse de mim. Óbvio que não iria. O máximo que poderia acontecer é ele ficar com fama de maluco, só isso. respondia impaciente ao telefone, e em momento algum deixou de olhar para mim. É difícil imaginar o que ele deveria estar pensando. “Está vendo essa mulher que apareceu na sua cama, que é sua fã? Então, ela morreu ontem depois que foi embora do show da sua banda, legal né?”
finalizou a ligação e continuou a me observar. Talvez era hora de explicar.
- Eu estou tão confusa nessa história quanto você – suspirei. Odiava não saber o que estava acontecendo, odiava ainda mais não fazer idéia de como terminaria isso. Isso se terminasse. – Sim, eu morri. E não, não sei por que você está me vendo se você está vivo – ele foi chegando mais perto, sem falar absolutamente nada, olhando nos meus olhos. Eu estava morta, mas eu podia jurar que senti meu coração batendo descompassadamente. Então ele me tocou. E eu senti o seu toque. me olhou assustado e sussurrou um “Meu Deus”, olhando-me como se fosse uma aberração. Mas era isso que eu era. Uma aberração a atormentar seu ídolo.
- Como? – perguntou.
- Não sei – respondi simplesmente e sentou na sua cama, ainda me olhando.
Era muita informação para ele. E pra mim também, mas alguém tinha que ser forte e não pirar ali. Ele ficou pensando por alguns minutos, com a cabeça apoiada nas mãos, então ele se levantou subitamente e foi em direção à janela. Ele abriu a cortina e ficou me olhando, esperando algo. Eu também fiquei esperando esse “algo”.
- Você achou que eu fosse virar cinza?
- Sim. – ri. passou por mim e saiu do quarto e eu também saí. Eu não saí, eu fui puxada pra fora.
- Que porra é essa? – falei assim que parei de ser puxada, esbarrando nele. Ele me olhou não entendendo. – Quando você saiu, eu fui puxada do quarto...
- Você vai ficar me assombrando para sempre?
- Não sei – começou a correr mas eu não fui puxada. Ele não tinha saído da sala, mas quando ele deu o primeiro passo na cozinha eu senti aquela sensação de novo e depois o encontrão com ele, que me olhou confuso.
- Acho que você não pode sair de um cômodo sem mim.
- Era só o que me faltava. – bufou indo em direção à geladeira. Comecei a observar a cozinha que era muito bem decorada e ampla. Os armários eram brancos com detalhes de metal, assim como a geladeira e o fogão que eram de inox, e tinha um balcão que ia desde a parede até metade da cozinha que servia de mesa. Então meu olhar se encontrou com o dele. Ele estava muito perto. E antes que eu pudesse falar algo, eu vi na sua mão o que ele ia fazer. estava com uma faca na mão e antes que eu pudesse impedir, ele a enfiou na minha barriga. Eu esperei que viesse a dor, o sangue e o ardor, mas eles não vieram. Olhei pra baixo e vi que ela estava lá, mas eu não sentia nada e nem sangrava. Eu a puxei e a vi sair sem nenhuma mancha de sangue, sem nenhuma dor. Ele olhava pasmo para a faca em minha mão e quando eu a deixei cair, ele se sobressaltou com o barulho do metal batendo no piso. Eu não acreditava que ele tinha tentado fazer isso, tentado me matar! Tudo bem que eu já estava morta, mas ele tentou me matar! Pude sentir o ódio começar a subir, como ele tinha tentado fazer isso? Quem ele achava que era?
- Eu não acredito que você tentou fazer isso – disse com os olhos fechados, tentando me acalmar. Pude senti-lo dar alguns passos pra trás antes de bater na bancada.
- Ei, se acalma, ok? Coloque-se no meu lugar... – tentava me acalmar. COLOCAR-ME NO LUGAR DELE? É ELE QUEM ESTÁ MORTO?
- Ok, me colocar no seu lugar – respirei fundo. – Você está sendo assombrado por uma fã que morreu. QUE TAL AGORA SE COLOCAR NO MEU LUGAR? – ele me olhou sem entender. – VOCÊ MORREU NO DIA MAIS FELIZ DA SUA VIDA, SEM PODER SE DESPEDIR DE NINGUÉM. VOCÊ ESTÁ ASSOMBRANDO SEU ÍDOLO E VOCÊ NÃO SABE O PORQUÊ. VOCÊ VIU SUA MÃE, QUE JÁ MORREU, E ELA FALOU QUE VOCÊ TEM UMA MISSÃO PARA CUMPRIR. Acho que é só isso, será que tem mais? – sorri amarelo. ficou estático, olhando para mim, e eu tentava me acalmar. Não podia chorar, não na frente dele. Em menos de um dia minha vida mudou completamente. Eu havia descoberto tantas coisas que eu ainda não conseguia assimilar, e agora, falando para ele, foi como se a ficha tivesse finalmente caído. Eu havia morrido. Eu nunca mais iria falar com meu pai, com minhas amigas. Eu nunca mais seria eu mesma. Eu nunca iria poder fazer as coisas que eu mais gostava e também as que eu mais odiava. Eu nunca mais iria viver. Senti minhas pernas fraquejarem e fui buscar apoio na ponta da bancada, que era a coisa mais perto de mim. Senti tudo rodar, que nem quando estava no túnel, e fui permitindo que o meu corpo escorregasse pelos azulejos da base da bancada. O chão estava gelado, mas eu não me importei. Eu fitava o vazio, mas eu sentia o olhar de em mim.
- Eu morri – afirmei ainda fitando o vazio. – Eu morri – afirmei novamente, mas dessa vez olhando para , que tinha o olhar confuso. – Eu estou morta – repeti, e senti as lágrimas vindo. Não era para eu conseguir chorar, não era pra eu estar onde estava, não era para nada disso estar acontecendo. Sentia minha blusa começar a molhar devido as minhas lágrimas, mas eu não me importei. Ele começou a andar de um lado para o outro e então sentou na minha frente me fitando. Ele não sabia o que dizer e eu muito menos. Eu era a culpada por isso estar acontecendo, por essa confusão toda.
- Desculpe – falou .
- Tudo isso é culpa minha... – senti as lágrimas começarem a cair com mais velocidade, então apoiei a cabeça nos meus joelhos, tentando me esconder.
Eu não queria, eu não podia chorar na frente dele, mas eu também não conseguia impedir que elas não viessem. não sabia o que fazer em meio ao meu desespero e eu não cobrava que fizesse algo. Eu queria poder ir embora dali, deixá-lo livre pra seguir sua vida, mas eu não conseguia. Não que eu o amasse tanto para querer continuar com aquela loucura, mas era mais forte que eu. Quando ele saia de um cômodo sem mim era como se uma força maior me puxasse para ele, força que fazia com que eu perdesse o controle dos meus movimentos. Mas eu não conseguia reverter essa loucura.
Queria pelo menos perguntar a alguém, pedir a alguém para me explicar o que realmente estava acontecendo e assim poder explicar a ele. Mas eu não sabia essas respostas, eu estava tão confusa quanto ele e isso me fazia ter medo do futuro. Eu queria minha mãe, eu queria que ela me desse aquele abraço, que sem nenhuma palavra conseguia me dar segurança, queria que ela estivesse aqui para me ajudar ou pelo menos para ficar ao meu lado. Ela falou que eu tinha uma missão. Minha missão era assombrá-lo? Eu me sentia como um brinquedo indesejado que você recebia pelos tios e que não tem manual de instruções, então você passava praticamente o ano todo tentado descobrir como funcionava, ou acabava quebrando antes. E eu era assim. Eu não vim com manual de instruções ou pelo menos alguma dica que pudesse me orientar, explicar o que estava acontecendo. Podia sentir do outro lado ainda me fitando, sem saber o que fazer nem o que falar. Eu conseguia sentir o que ele estava fazendo sem estar olhando para ele, conseguia saber como ele se sentia.
- Você não tem culpa nisso. Nenhum de nós tem culpa disso. Achar alguém para culpar agora não vai resolver essa confusão toda – quebrou o silêncio, tentando me confortar. Eu sabia que ele tinha razão, mas ao mesmo tempo eu não conseguia acreditar – Me conta o que você lembra.
- Eu estava voltando para casa de ônibus, depois de ir ao show de vocês, conversando com uma garota, quando a gente escutou um barulho muito alto de freada. A gente se levantou para ver de onde vinha o barulho, então a gente sentiu. Eu apaguei, e quando eu acordei estava numa espécie de túnel, sem conseguir saber direto onde estava. Então eu apaguei mais uma vez e quando acordei tinha a minha mãe e a , a garota com quem estava conversando no ônibus, na minha frente. Minha mãe me explicou algumas coisas, falou que eu havia morrido e falou que eu morri por uma missão, que nada disso era à toa então eu apaguei de novo e acordei já na sua cama – suspirei ao me lembrar de tudo. Parecia que tinha acontecido há tanto tempo, mas nem deveria ter passado 24 horas.
- Nossa.
- É, eu sei – então o silêncio se instalou de novo e permaneceu por um bom tempo. Ele não sabia o que falar, como agir e eu menos ainda. Abaixei a cabeça novamente e deixei que os meus olhos se fechassem.
Eu acabei pegando no sono ali mesmo no chão da cozinha e acordei apenas quando me cutucou. Aqueles olhos azuis me fizeram esquecer por segundos toda a confusão, mas então eu me lembrei de tudo, e o ardor em meu peito voltou. Ele possuía as feições estranhamente calmas, e seu cabelo estava molhado, assim como ele havia trocado a roupa.
- Como? – perguntei ainda sonolenta e acompanhando meu olhar ele conseguiu entender ao que eu me referia. Ele sorriu.
- Parece que quando você dorme, eu fico livre – ele riu e eu dei um sorriso sarcástico, levantando-me.
- Quer comer algo? – perguntou virando de costas, enquanto acendia o fogão.
- Qualquer coisa – dei de ombros e me sentei na cadeira, apoiando o cotovelo na bancada e o observando cozinhar. Ele era meu favorito e se a situação não fosse tão complicada e estranha até que eu acharia legal. Quantas fãs queriam ter a oportunidade de ficar o dia todo ao lado do seu favorito? Bom, se você estivesse viva e não morta para assombrá-lo. fazia calmamente o que me parecia ser omeletes e não me lembrava nenhum pouco o de horas trás que me olhava como uma aberração. Virou-se com a frigideira e colocou um ovo e bacons no meu prato, sorrindo. Sério, onde está o antigo ?
- O que houve com você? – perguntei.
- Como assim? – ele perguntou enquanto cortava um bacon e comia.
- Você não está me tratando mais como se eu fosse uma aberração.
- Porque você não é – falou ainda mastigando.
- Mas antes você me tratava como uma – ele parou de mastigar e abaixou o olhar, olhando para o prato. Mas era verdade, antes ele me tratou como se eu fosse uma aberração ou um monstro. Tudo bem que eu não era algo “normal”, mas me incomodava o jeito como ele me tratou.
- Desculpe – disse e voltou a comer.
- Por quê?
- Eu só percebi que estou tão ferrado nessa história quanto você e que não adianta culpar você por isso porque não vai adiantar nada.
- Que bom então – voltei a comer e ficamos em silêncio até terminarmos. No final, ajudei a lavar a louça e depois começamos a “treinar” passadas de cômodo, afinal, essa história de eu ficar sendo puxada não era legal para nenhum dos dois.
- Nós vamos começar primeiro com o quê? – perguntei.
- Acho que o mais útil é sair dos cômodos sem esbarrarmos – fomos para o máximo que podíamos chegar da cozinha, nos apertando para caber no vão da porta. , por ser bem maior do que eu, teve que levantar os braços para ter espaço para eu poder ficar. Mas era impossível não ficar perto. Não ficar perigosamente perto. Respirei fundo e voltei a me concentrar. Não era por um motivo bom que eu estava ali, que eu estava fazendo tudo aquilo. Ele estava com uma camisa branca, meio surrada, mas que não era do tamanho certo, pois quando ele levantou os braços, ela pareceu ser de criança. Senhor, por que o Senhor não podia sei lá, colocar uma pessoa menos gostosa e que não tivesse tanto poder sobre mim? Um feio aí da vida, ou até um arrumadinho, não importa. Mas não, você me bota justamente ele. E agora ele estava ali, tão longe e tão perto de mim.
- ? – perguntou, tirando-me dos meus pensamentos.
- Er, oi.
- Tenta passar primeiro – tentei dar um passo para frente, mas era impossível. Parecia que eu era um daqueles mímicos americanos, que parece que criam uma parede imaginaria. No caso essa parede realmente existia, mas só para mim. Não eram simplesmente só as pernas que podiam passar, eram os braços, era tudo! Toquei e era realmente como tocar uma parede. Dura, impossível de perfurar com os dedos e gelada. Passei a mão por toda sua superfície gelada, tentando achar alguma imperfeição, algum buraco para que pudesse aproveitar, mas tudo estava exatamente perfeito, sem nenhum desnível.
- É uma parede, não dá – conclui, olhando em seus olhos.
- Então, tento eu – nisso, ele deu um passo para frente e fui puxada novamente, esbarrando nele.
- Tenta me avisar quando for, talvez dê para fazer algo.
- Vamos tentar de novo – ele segurou a minha mão e me puxou para a cozinha. Dessa vez quem me puxou foi ele. Não teve uma força do além ou algo assim que me puxasse a não ser a mão dele. A mão dele. Nós já tínhamos conseguido voltar, mas ele continuava segurando minha mão, fazendo-me sentir choques por todo o meu corpo. Tirei vagarosamente, mesmo com vontade de ficar ali para sempre, minha mão tentando trazer de volta minha consciência. Aquela história já estava completamente errada e confusa, colocar meus sentimentos nela não iria ajudar nada. pareceu entender e sorriu sem mostrar os dentes. POR QUE ELE ESTAVA SORRINDO?
- Às vezes esqueço que você é nossa fã – sorri sarcasticamente enquanto ele passava a mão nos cabelos, tentando ajeitá-los, agora que já estavam secos. – Mas então, qual é o seu favorito? – olhou nos meus olhos, como se pudesse ler tudo através deles. MAS QUE PORRA, , SERÁ QUE VOCÊ PODE NÃO COMPLICAR MAIS? Tentava não parecer afetada com tudo aquilo, fingir era uma especialidade minha. Quando era viva, ninguém nunca sabia que estava mal e quando os outros notavam isso era porque eu já estava preste a explodir. Exclui o pouco espaço que restava entre nós, ficando na ponta do pé para poder olhar diretamente para ele. A minha vontade era simplesmente agarrar ali e ter meu sonho de fã realizado, mas as coisas não eram simples assim.
- Mas nem morta eu falo para você – respondi olhando nos seus olhos e voltei para onde estava.
- Mas você já está morta – riu e não pude deixar de acompanhá-lo. Nossa, essa resposta tinha sido terrível para uma pessoa que está no meu estado!
- Então vai ficar sem saber – dei de ombros e fui para o outro lado da cozinha, encostando-me a pia da cozinha. Quanto mais longe eu estiver dele, melhor para mim. Como se fosse possível! – Então, a gente conseguiu passar sem nos esbarramos e eu não senti aquela coisa que antes sentia. Acho que estamos no caminho certo – expliquei o que até agora eu havia conseguido entender.
- É, pode ser. Temos que treinar mais isso então...
- Estou com preguiça.
- Preguiçosa.
- É você que tem suas tripas puxadas por uma força do além? Ah tá, desculpa – falei sarcasticamente. Em parte aquilo era mentira, não era como se as minhas tripas fossem puxadas, estava mais para como se alguém colocasse a mão na minha cintura e me puxasse. Não chegava a doer nem nada, mas era cansativo.
- Então, o que vamos fazer? – disse vindo em minha direção, ficando ao meu lado.
- Você quem decide – virei o rosto e esperei sua resposta.
- Quer jogar algo?
- Algo o quê?
- Sei lá. Eu tenho de tudo aqui, desde jogos até Wii.
- Isso, mostra que pode – esperei alguma resposta dele, mas ele não respondeu. – Você escutou o que eu falei?
- Escutei, só não entendi.
É, essa bagunça só estava começando.
Why you pullin' me back just like gravity
Depois de explicar o que havia falado para , fomos jogar War. Eu não me lembrava muito das regras e , bem, ele não sabia de cor nem seu próprio endereço, imagine as regras. Criamos então algumas, cada uma mais sem sentindo do que a outra. Foi bem divertido, mas depois quis dormir então eu o segui, sem ser puxada forçadamente nenhuma vez. Parecia que quando ele passava para algum cômodo, eu tinha alguns segundos para segui-lo. Preferi dormir num sofá, que mais parecia uma cama de solteiro, mesmo com a insistência dele que argumentava que se eu quisesse, faria uma barreira de travesseiros. Poucos minutos depois que ele se deitou já podia perceber que ele já estava dormido. O sofá ficava encostado à parede, virado para a cama, ou seja, eu ficava bem de frente dele. Fiquei o observando dormir e pensando em como tudo isso era confuso, estranho, e o pior, sem data para acabar, até que o sono que estava acumulado resolveu aparecer novamente.
Acordei pelos raios de sol, que invadiam o quarto e que vinham diretamente na minha direção, e sentindo as costas doerem por ter dormido no sofá. Olhei para o lado e percebi que ainda estava dormindo, ocupando a cama toda. Ri baixo e me levantei, arrependendo-me de ter feito isso muito rápido e sentindo meus ossos estalarem. Sinceramente, já havia cansado de tentar entender o que eu era. Fantasma? Não, consegue me ver e eu me vejo no espelho. Espírito? Talvez, mas era para eu não sentir meu corpo. Tudo isso um sonho? Como queria que fosse. Caminhei sorrateiramente até a porta para ver se conseguia entrar no banheiro. ficava “livre” quando dormia, comigo também deveria ser a mesma coisa! Tentei abrir a porta com o máximo de cuidado possível para não fazer barulho e acordá-lo, mas ela parecia emperrada. Ah, legal, ele ficava livre e eu não! Pra piorar a situação, a vontade de usar o banheiro pareceu aumentar de propósito, se tornando insuportável. Caminhei lentamente até o lado da cama, abaixando-me para ficar na frente dele. “Que ele me perdoe, mas é por uma boa causa” pensei antes de cutucá-lo no ombro. Cutuquei uma vez e nada, outra vez e também nada de ele acordar. Lembrei-me de como minha mãe me acordava e apliquei a tática com ele: fechar a boca e o nariz. Não que ele fosse morrer ou que eu quisesse isso, de morto nessa história já bastava eu, ele iria acordar assustado e provavelmente muito puto, mas ia. Dito e feito!
- Ahn? – perguntou ainda ofegante.
- Eu preciso muito ir ao banheiro – respondi fazendo questão de ressaltar o muito.
- E eu com isso? – nisso, se deitou novamente e se virou, deixando suas costas à mostra. MEU. DEUS. ELE ESTAVA SEM CAMISA. Ok, não surte, você ainda está super apertada para usar o banheiro e você morreu, tire esses pensamentos da sua cabeça, AGORA! Respirei fundo tentando afastar esses pensamentos e me levantando. Como se fosse amiga íntima dele, puxei a coberta que ele estava enrolado e a taquei no chão.
- VOCÊ TEM A VER COM ISSO DESDE O DIA QUE EU NÃO POSSO MAIS FAZER NADA SEM VOCÊ POR PERTO. – gritei o assustando, que se sentou rapidamente.
- O QUE VOCÊ QUER?
- IR AO BANHEIRO.
- MAS EU QUERO DORMIR...
- E EU, IR AO BANHEIRO, PRONTO, VENCI. – o interrompi.
- É naquela porta ali – apontou para a porta que eu já tinha tentando abrir.
- Eu sei, eu só não consigo ir lá. – disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e ele pareceu finalmente entender.
- Como você não pode? Eu posso quando você dorme!
- Não sei, depois a gente pensa, mas agora eu estou muito apertada e a gente ainda tem que pensar num jeito pra isso.
- Eu não quero ir ao banheiro com você – falou como se tivesse cinco anos de idade.
- E você acha que eu quero?
- Como a gente vai fazer? – perguntou, ignorando minha pergunta.
- Vamos tentar assim: nós entramos e você sai e tranca a porta.
- Você vai conseguir andar lá?
- Não sei – as chances de esse plano dar certo eram mínimas, mas era melhor arriscar. finalmente se levantou da cama, acompanhando-me até o banheiro, onde entramos sem esforço algum. O olhei e meneei a cabeça, afirmando que já estava pronta. Ele sorriu sem mostrar os dentes e caminhou até a porta, fechando-a sem antes olhar para mim. Assim que ele a fechou, fui arrastada pela força, mesmo tentando me segurar na pia, sem sucesso. A força era muito mais forte do que qualquer outra que já havia sentido, vinha de dentro do meu corpo, mais precisamente do umbigo, e crescia como se fosse uma explosão interna, e que aumentava a cada tentativa de me segurar. Bati com tudo na porta só dando tempo apenas de virar o rosto, impedindo que me machucasse mais, mas provavelmente estava andando do outro lado da porta, já que eu não parava de ser puxada. A dor podia ser facilmente comparada com a de alguém que tivesse suas tripas torcidas ou algo assim, e aumentava a cada passo que ele dava. Gemi tamanha a dor que sentia e respirei fundo juntando o que me restava de sanidade mental para chamá-lo, mas acabou saindo como um suspiro. Senti as lágrimas começarem a molhar meu rosto e o desespero aumentar, tendo a certeza de que aquele era meu fim. Meu corpo começou a pesar, fazendo-me ficar de joelhos no chão e vendo minha vista embaçar mais.
- ... – e depois desmaiei. Não sei bem de onde eu tirei força pra chamá-lo e nem quando ele escutou, só sei que quando acordei, estava em sua cama e ele dormindo no sofá. Sentei-me, esticando meu braço como apoio, mas me arrependendo disso assim que minha barriga começou a doer. Apertei-a tentando fazer a dor parar, mas ela não parou, pelo contrário, aumentou. Levantei a blusa depois de sentir um calombo, e me deparei com uma enorme cicatriz. O mais estranho é que ela não estava aberta, estava igual a aquelas cicatrizes de anos, apenas com a grande marca. Soltei um grito de horror, esquecendo que estava dormindo. Foda-se ele, eu estava com uma cicatriz gigante que eu não tinha antes e que apareceu do nada. Ele que acordasse. Ele acordou ignorando a minha presença e foi direto para o banheiro, puxando-me e fazendo com que déssemos um esbarrão, que se eu não tivesse segurando na porta, teria caído.
- Você podia lembrar que eu existo, sabe, seria bem melhor – ironizei.
- Você não existe mais, você está é me assombrando – disse simplesmente. QUE FILHO DA MÃE, QUEM ELE PENSA QUE É PRA FALAR ISSO? PRECISA FICAR ME LEMBRANDO SEMPRE DISSO? Com ódio, comecei a socar suas costas, xingando-o de todos os palavrões possíveis enquanto ele continua a andar, sem se importar com os socos.
- Vai me ignorar, seu idiota? – perguntei parando de o socar.
- Vai parar de me socar, idiota? – virou-se e perguntando no mesmo tom.
- Vai me pedir desculpas pelo o que disse?
- Você por acaso vai me pedir desculpas por me bater?
- Não. Você que está errado.
- Em momento algum eu te soquei ou te xinguei, então quem está errada aqui é você – deu as costas novamente. Irritada e cansada dessa discussão besta, também me virei e comecei a observar os azulejos do banheiro. Talvez essa seja a pior parte de estarmos ligados desse jeito, usar o banheiro. É algo tão pessoal, tão íntimo que agora tínhamos que dividir esse momento espetacular. Não era legal pra ambas as partes. Comecei a pensar em outras coisas para esquecer o motivo que me levava ali, mas ele pareceu entender e começou a rir e por mais que estivesse puta com ele, era impossível não rir também.
- Nem fala nada – já o preveni de futuros comentários, ainda rindo da situação. terminou tudo que devia fazer e me avisou que ia tomar banho, jogando-me uma toalha.
- Pra que isso? – Perguntei.
- Você acha mesmo que eu vou deixar você ver esse lindo corpinho tomando banho? Não, não. Coloca a toalha na cabeça – olhei não acreditando no que ouvia. Nossa, o ego dele anda muito, mas muito alto, porque olha...
- Ah sim, óbvio que na situação que a gente está eu ia querer olhar você tomando banho.
- Você é uma fã.
- Ah é, esqueço desse detalhe, porque, afinal, já que sou fã de vocês, automaticamente eu tenho que morrer de tesão e querer aproveitar o máximo dessa experiência – Ironizei, dando ao final com um sorriso sarcástico. Tudo bem, se eu estivesse viva, colocar a toalha seria até decepcionante, mas agora, morta, eu vou ligar por que ele está tomando banho? Ah, faça-me o favor. Tanta coisa mais importante para entender e ele vem com essa? O que ele pensava que eu ia fazer? Filmar ele tomando banho e colocar no YouTube? Coloquei a toalha e me sentei de frente pra porta, ficando completamente de costas pro box. Ele tomou seu banho, e depois eu decidi tomar um também, mesmo achando que no estado que estava eu não suava nem nada do tipo. Ele me emprestou uma roupa da irmã para vestir depois do banho, que coube perfeitamente em mim, mesmo ela sendo alguns anos mais velha. Depois de arrumar as toalhas e o banheiro, que havia ficado todo molhado porque no banho começou a jogar água em mim, fomos para cozinha almoçar qualquer coisa que tinha na geladeira, que não era muita coisa.
Terminado o almoço e as louças já lavadas, resolvi arrumar a geladeira e o obriguei a me ajudar, pois havia vários itens fora da validade. Ele resmungou coisas do tipo “mal chegou e já tomou posse” ou “tinha que ser mulher”, mas eu não liguei para os comentários, e só depois de muita insistência começou a ajudar. Praticamente tudo que estava na geladeira foi jogado fora, só sobrando um saco de pão já aberto, duas caixas de leite, um pote de manteiga já aberto e macarrão. O resto foi tudo para o lixo. ficou se queixando quando eu joguei um pode intocado de algum patê ou coisa assim, porque de acordo com ele, era de estimação.
Por ser final de semana e o McFLY estar em processo de divulgação do novo CD, não havia nenhum evento programado para hoje, apenas na outra semana teria uma sessão de autógrafos numa livraria bem famosa em Londres. estava vendo algum jogo de futebol e eu tentava entender algo, mas futebol nunca foi o meu forte, quando o celular tocou, trazendo uma sensação de familiaridade com aquela situação. Ele se levantou e eu peguei rapidamente o controle, zapeando entre os canais até que encontrei na CW um festival de The Vampire Diaries. Eu não era muito fã da série, achava que séries em geral eram perda de tempo, mas pelo Ian e Paul eu fazia esse esforço. bufou assim que viu que eu havia mudado o canal e eu respondi com um sorriso triunfante. Ele balançou a cabeça em reprovação e rimos baixo, voltando a me concentrar na TV, agora muito mais agradável com as imagens do Damon e Stefan, e foi atender o celular, que estava na estante e ficou por lá.
Eu estava esparramada no sofá que ocupava uma parede da sala toda, apreensiva demais para notá-lo voltando, só percebi quando ele se jogou na poltrona que ficava bem ao lado da TV, assustando-me com o barulho.
- A gente vai ter que sair – falou e eu o olhei assustada, tanto pelo barulho quanto pela notícia. Como ele queria sair agora? Primeiro, eu estava muito concentrada admirando meus, agora impossíveis, futuros namorados, e segundo, eu não estava nem um pouco preparada para sair por aí. O que me consolava era ver que ele também estava na mesma situação, com essa dúvida martelando na cabeça. Era tão estranho quando caíamos na realidade do que realmente estava acontecendo. Em situações como essa ou como a do banheiro, quando víamos que aquilo realmente estava acontecendo, que eu não era alguém normal que estava passando um tempo na casa dele. Talvez seja por isso que quando ele falou aquilo no banheiro eu tenha ficado com tanta raiva dele. Eu sabia que eu não era mais como ele, que eu não estava viva para os outros, mas pra mim, nesse estado, eu estava viva. Então quando aconteciam essas coisas era como se me lembrassem que eu estou morta, que eu não posso fazer as mesmas coisas que ele, que eu não sou mais alguém. Agora eu sou uma coisa.
– Eu esqueci que tinha marcado de ir à casa do e eles já estão me esperando lá. Eu tenho que ir.
- Ok, vamos – respirei fundo e me levantei, tentando arrumar coragem. Com certeza não seria fácil, mas eu tinha que tentar. Mais cedo ou mais tarde isso teria que acontecer, não daria para ele se enclausurar em casa. Ele se levantou um pouco depois de mim e fomos pra o seu quarto, pois ele iria trocar de roupa. Assim que entramos, fui direto para janela, para poder dar mais privacidade a ele, já que o closet ficava exatamente em frente à janela, e ao lado dela tinha o sofá de dois lugares que dormi na noite passada. O sofá era pequeno em tamanho, mas o assento podia ser puxado para frente, formando quase um sofá-cama-de-casal. estava se arrumando, sabia isso pelo barulho das gavetas e portas batendo, e eu continuava a observar a rua calma que existia logo abaixo. Ela era movimentada apenas pelos moradores dela, já que não existia nenhum tipo de comércio lá. Observei passar do outro lado da calçada do prédio uma idosa que usava uma bengala para ajudar a se locomover, e fiquei pensando em como Deus, ou quem quer que seja aquele que comande tudo isso, era injusto. Injusto porque há tanta gente que não vale o prato que come e está ai, cheia de saúde, enquanto havia tantas crianças passando fome, tanta gente que não mereceu o fim que teve. Sorri.
#Flashback
Estava voltando da escola, que de alguns dias para cá havia se tornando um tormento frequentá-la, pensando em como eu pude deixar acontecer e o quão burra eu era. Primeiro amor, primeiras decepções. Entrei em casa e subi direto para o meu quarto, ignorando as perguntas que minha mãe sempre fazia assim que chegava em casa, jogando a mochila em qualquer canto logo depois que entrei no meu quarto, e me joguei na cama, sem me importar se o uniforme iria amassar. Enfiei a cabeça no travesseiro, deixando que as lágrimas que impedi durante a manhã toda caíssem, tentando fazer o menor barulho possível, mas era difícil. Escutei a porta se abrindo e tinha certeza que era minha mãe. Tudo que eu mais precisava no momento era do colo dela, do carinho dela pelos meus cabelos, dizendo que tudo iria passar. Ela se sentou na beirada da cama que estava disponível e, sem pensar duas vezes, encostei a cabeça em seu colo, abraçando suas pernas.
- O que houve, querida? – perguntou, e eu contei tudo.
Ela era minha mãe, mas acima de tudo, ela era minha melhor amiga. Eu podia contar tudo para ela sem ficar constrangida pelo fato dela ser minha mãe. Ela me escutava pacientemente, afagando meus cabelos e limpando minhas lágrimas que ainda caiam. Logo que terminei de falar, eu já podia me sentir mais leve, o peso que eu carregava por esconder dela já não existia e eu sabia que eu teria que arcar com as consequências e aguentar o sermão que estaria por vir. Ela começou a dizer que eu não deveria ter escondido dela, e pontos que já sabia que havia errado, então ela pegou um travesseiro e se levantou, colocando o mesmo no lugar em que estava sentada, e se ajoelhou em minha frente, limpando com as costas da mão as últimas lágrimas que teimavam em cair.
- Nada acontece sem um porquê, lembre-se sempre disso – sorriu daquele jeito que só ela conseguia fazer e saiu do quarto, deixando-me sozinha para pensar em tudo que havia acontecido.
#Flashback’s End
“Nada acontece sem um porquê”. Sorri novamente, olhando para as nuvens que sempre parecem querer formar algo, e desci meu olhar até que, sem querer, foi até o reflexo no vidro que mostrava o quarto, mais exatamente que mostrava no outro lado do quarto, encostado na porta do closet, cruzando nossos olhares pelo reflexo. Envergonhada, desci o olhar para a calçada onde a mesma idosa continuava parada, olhando na minha direção. O apartamento era no segundo andar e o prédio, baixo. Assustei-me ainda mais quando nossos olhares se cruzaram, tendo a certeza que ela estava olhando pra mim. Não sei como ela conseguia, nem como eu sabia, mas aquilo com certeza iria para a lista das coisas que não eram normais.
- , vem cá – chamei-o baixinho, ainda com os olhos presos na idosa. Poucos segundos depois pude senti-lo ao meu lado e, seguindo o meu olhar, se espantou também. A idosa não sabia qual dos dois olhar, ficava vagando entre nós até que apontou para a nossa direção com a bengala que, de uma hora para outra, parecia não ter mais utilidade, e apenas movendo os lábios, sussurrou um “vocês”. Ele me puxou pelo braço e fechou as cortinas o mais rápido que podia, enquanto eu continuava com o olhar vago. Ele segurava a cortina fechada por trás, encostado na janela enquanto tentava se acalmar.
- Mas que porra foi essa? – perguntou ainda ofegante, olhando-me como se eu fosse culpada de algo.
- Eu não sei, eu... – respondi gaguejando, nervosa por isso. Foi algo estranho, não foi só uma idosa louca que apontou para alguém que ela, se fosse normal, não poderia estar vendo. Foi como se ela pudesse ler algo, pudesse entender. Como se ela pudesse ser como eu.
- Você sentiu isso? – interrompeu-me.
- Sim, você também?
- Também – não era preciso mais palavras para entender. Ele também tinha sentido. Não fui só eu. Não foi só para mim. Mas isso não tornava o que aconteceu menos pior. Ficamos em silêncio por um bom tempo, cada um com seu pensamento, tentando achar alguma resposta sensata para aquilo, até que nos lembramos do motivo pelo qual estávamos naquele quarto e trancamos tudo para sair. Uma coisa muito engraçada era, que mesmo com tudo isso, ainda continuávamos querendo acreditar apenas nas coisas sensatas, nas coisas que eram possíveis e nos esquecendo de que o que éramos agora não era nem um pouco sensato ou real para os outros, digamos.
Fomos em silêncio até a garagem e de lá seguimos rumo a casa de , que ficava um pouco distante do centro. O rádio tocava uma música qualquer e era, junto com o ronco do motor, a única coisa que ouvíamos. Nenhum dos dois tinha o que falar, não sabia o que falar depois daquela situação. Eu estava com a cabeça apoiada na janela, olhando a cidade que passava rapidamente pelo vidro, sem me importar com a velocidade que estava, mesmo ainda estando no centro de Londres. Poderia ficar ali, parada, o trajeto todo, mas meus dedos começaram a congelar lentamente, mesmo estando ensolarado lá fora. Busquei aquecê-los no bolso do moletom que havia me emprestado antes de sair de casa e que deveria ser uns dois ou três números maiores que o meu, mas que não durou muito tempo, porque a curiosidade falou mais alto. Havia um papel bem pequeno dobrado lá dentro, e não querendo perder a oportunidade de mais tarde poder o sacanear com o telefone de alguma garota que deveria estar ali escrito, peguei-o e olhei para , que retribuiu com um olhar desconfiado. Ah, coitado.
Mas antes que eu pudesse abrir o papel, ele o puxou rindo aproveitando que estava distraída, pensando em como mais tarde iria o sacanear. Virei-me e o olhei, descrente no que havia acabado de acontecer e recebi como resposta aquele sorriso de criança que acabou de fazer besteira, mas que não se arrepende nenhum pouco. Rolei os olhos e bufei, aproveitando logo depois que ele tinha voltado a se concentrar da rua e puxei novamente o papel, mas antes que eu pudesse comemorar algo, ele puxou novamente, levando sem querer o volante junto e fazendo com que o carro fosse com tudo para o lado. Não sei bem como, mas no segundo seguinte eu estava em cima dele tentando controlar a direção, e assim que consegui, parei o carro em cima da calçada e voltei pro meu lugar.
- Não sabia que você sabia dirigir – falou , logo depois que voltei ao meu assento, ainda um pouco perturbada com o pequeno incidente.
- Nem eu – respondi passando as mãos pelos meus cabelos, não para ajeitá-los porque isso era bem difícil, mas sim para tentar me acalmar. Ele respirou fundo e voltou a ligar o carro, redobrando o cuidado ao dirigir dessa vez. Eu já estava mais calma e ele olhava fixamente para a rua, com medo da cena se repetir novamente, quando um pedaço branco ao lado da caixa de marchas me tirou a atenção da janela. Peguei o papel, olhando-o, mas esse nem moveu o olhar. Era o mesmo papel de mais cedo e não querendo perder mais tempo o abri. Li rapidamente, mas tive que reler várias vezes para acreditar. Não era possível.
- De quem é o telefone? – perguntou.
- Não é telefone – respondi sem conseguir tirar os olhos do papel. Mais um pra lista das coisas impossíveis que agora eram possíveis.
- É o que então? – comecei a ler em voz alta, envergonhada pela minha voz que nem sempre conseguia sair decentemente como forma de resposta para a pergunta, e assim que acabei de ler o papel, olhei para ele. não fez nenhum movimento ou desviou seu olhar, continuou olhando fixamente para a rua enquanto eu começava a me preocupar pela falta de movimentos dele. O cutuquei e ele não me olhou, apenas disse:
- Espera, estou pensando – se o momento não fosse tão sério, daria para fazer uma boa piada com isso, mas o clima não estava para os melhores. Nunca estava. Voltei a minha posição inicial, olhando para a janela, e no silêncio permanecemos, cada um com o seu pensamento. – Quer dizer então que você é tipo meu anjo da guarda? Cara, eu nem sabia que isso realmente existia... – rompeu o silêncio, mas em momento algum desviou o olhar da direção.
- É, eu acho que sou.
É, eu acho que era o anjo da guarda dele.
Depois daquilo, nada mais foi dito. Era sempre assim. Nosso melhor amigo era o silêncio. Chegamos na casa de pouco tempo depois e deixou o carro bem na frente da casa, que me muito lembrava a minha. Dois andares, fachada pintada de creme, um jardim simples, mas bem cuidado. A casa tinha um ar caseiro e se não tivesse me avisado que essa era a casa, eu teria facilmente achado que era de algum casal com filhos. Saímos do carro e o trancou enquanto eu admirava a casa do outro lado. Era muito, mas muito, parecida com a minha e essa infeliz coincidência me deu um aperto no coração. Como será que meu pai estava agora? Como será que ele teria reagido? Eram tantas as perguntas, era tanta a saudade que nem parecia que a última vez que havia o visto foi há alguns dias. É, aconteceram tantas coisas nesses poucos dias que já parecia que vários dias haviam passado, mas a verdade era que nem eu sabia direito que dia era. Só acordei desses pensamentos quando senti parado ao meu lado, também olhando para a casa.
- É bonita, né? – perguntou, olhando para a casa.
- É sim – respondi. – Parece com a minha – respirei fundo tentando me controlar. Eu não tinha mais casa. Quando isso acabar, se acabar, eu não vou voltar para casa e ser recebida aos prantos pelo meu pai, ou muito menos voltar para o colégio e me matar de estudar. Nada disso iria acontecer. Agora eu era uma lembrança, eu era um passado para todos eles. Eu precisava vê-los. Eu tinha que vê-los.
- Ela era bonita então – constatou e virou-se para me olhar. Sorri o máximo que pude e ele sorriu também. – Vamos? – perguntou e eu confirmei com a cabeça.
Seguimos pelo caminho de pedras paralelas que levava até a pequena varanda que possuía um par de cadeiras em volta da mesinha redonda. Realmente, aquilo não parecia casa de um homem. andava um pouco mais a minha frente e em pouco tempo já estávamos tocando a campainha, que não demorou a ser atendida.
- O MALUCO CHEGOU!- gritou aos demais assim que a porta foi aberta, me assustando.
Danny riu e deu um rápido abraço nele, entrando na casa sendo seguido por mim, que observava cada detalhe que já havia visto na casa. Seguimos pelo pequeno corredor que daria acesso a sala e eu fiquei bem para trás, olhando as fotografias pregadas na parede. Elas estavam organizadas quase como uma linha do tempo, desde bebê até agora, contendo fotos com os demais meninos e outras apenas com sua família. Segui o corredor, sendo orientada pelas risadas, chegando à sala. Confesso que eu estava com certo medo. Medo de como poderia ser. Entrei na sala grande de paredes claras e ninguém pareceu notar, trazendo uma falsa sensação de alívio. estava sentado no sofá, ao lado de , e estavam jogados no chão em volta de vários pedaços de papel e na mesinha do centro, que estava encostada à parede, havia várias garrafas de cerveja. Olhei para , que respondeu com um sorriso rápido e voltou a conversar com os meninos. Caminhei lentamente, passando por trás do sofá que e estavam, fazendo com que se virasse e me encarasse, como se pudesse me ver. Senti tudo revirar dentro de mim e minhas pernas pareceram não querer fazer os movimentos que meu cérebro mandava. , percebendo para onde olhava, virou-se também e perguntou:
- O que houve, cara? – pareceu acordar de algum suposto transe e o encarou, com um sorriso no rosto.
- Nada – virou-se para os outros meninos, que o olhavam sem entender nada.
e se olharam e deram ombros, voltando a conversar animadamente. Só quando eu tive certeza que tudo tinha voltado à normalidade consegui soltar o ar que estava preso em meus pulmões. Caminhei, ainda com passos tortos, até a parede mais próxima na qual não havia nada encostado e me sentei. Aquilo havia sido realmente assustador. Parecia que ele tinha conseguido mesmo me ver. Impossível, eu sei, mas ainda assim, muito assustador. Joguei lentamente a cabeça para trás, batendo-a na parede e tentando colocar em ação os ensinamentos passados por minha mãe de respiração. É preciso dizer que foi em vão?
- Nossa, essa foi por pouco – disse uma voz, me fazendo sair de meus pensamentos. Virei-me rapidamente, assustada, olhando para a direção de onde a voz surgiu, mas não havia nada. Estranho.
– BÚ! – disse novamente a voz, no meu ouvindo, do lado oposto em que olhava. Assustada, virei-me rapidamente e congelei. Não poderia ser possível.
Parecia que havia entrado em algum estado vegetativo, pois não conseguia nem pensar direito. Na verdade, eram tantos pensamentos, tantas coisas que me deixavam confusa. Mais ainda. Ela sorriu, parecendo esperar por minha reação, e me abraçou. Não consegui retribuir o abraço, ficando com minhas mãos paradas no chão, mas ela pareceu não se importar. Partimos o abraço e ela me olhou por inteira, alargando o sorriso.
Não podia ser ela.
Não podia ser .
Sorri, sentindo uma paz indescritível. Eu não estava sozinha nessa. Mollie sorriu e eu a abracei.
- Você também é? – perguntei, não sabendo ao certo que termo usar. Anjo da guarda? Assombração? Mesmo com o bilhete, ainda tinha minhas dúvidas, porque o tal não deixou muito claro isso.
- Guardiã? – confirmei, mesmo não tendo plena certeza do que isso significava. – Aham, sou do – sorriu. - Eu sei de tudo e daqui a algum tempo você também vai saber.
- Tudo o quê? – perguntei, confusa.
- O porquê de estarmos aqui – sorriu.
- Você sabe?
- Só um pouco.
- Por que você sabe de coisas que eu não sei? – eu, provavelmente, aos olhos de estaria parecendo uma daquelas crianças de quatro anos, que estão entusiasmadas para conhecer o mundo e bombardeiam os que estão a sua volta com perguntas. Ela riu.
- Eu consigo ver o que você pensa, ... – explicou rindo e eu corei. – Bem, digamos que eu esteja um nível acima de você....
- Por quê?
- Porque eu nasci para isso, eu fui criada sabendo das crenças, aprendendo tudo. Você não. Você foi escolhida entre milhões – novamente esse papo de ser A escolhida. Pelo amor de Deus, quando eu era viva, nem para ser a representante de turma eu ganhava algo, vai dizer uma coisa dessas. – Você está pensando bobagem – disse, rolando os olhos. Que inconveniente isso! Não se pode nem ter mais privacidade! – Não quando você é uma de nós – falou uma voz, em minha mente. riu, confirmando que era ela.
- Como?
- Concentre-se. Tente entrar em minha mente, não é tão difícil quanto parece – Explicou e eu me concentrei, tentando entrar na sua mente. Era difícil sim! Tentei várias vezes e cada tentativa sem sucesso ela ia aprimorando mais as dicas. Talvez ela também não soubesse explicar muito bem. Ela riu e confirmou. Respirei fundo e tentei novamente, mas tentando por um novo ângulo.
E foi assim que eu consegui.
Era mágico. Era como se houvesse um novo mundo, paralelo ao que estávamos. Era possível ver outro lado de tudo, os objetos possuíam um efeito diferente, onde pareciam querer comunicar-se. Olhei para os meninos e era incrível. e possuíam algo diferente que deduzi que fosse por causa de mim e Mollie, e Harry e Tom possuíam um brilho diferente, bem parecido com de e , mas mais ofuscado. Olhei para Mollie e olhando mais a fundo, pude ler seus pensamentos. Não era bem ler, era como se fossem transferidos para a minha mente. Ela sorriu novamente e eu retribuí, comentando o quanto surreal era tudo isso por meio dessa ligação tão recente para mim. começou a me ensinar algumas coisas que ela já sabia, enquanto e os meninos continuavam conversando. Eles resolveram ir para cozinha e nós, como de hábito, fomos também. Confesso que fiquei um pouco perdida assim que saí da sala, que era o único cômodo que eu havia conhecido bem, mas já parecia estar bem habituada, me guiando. Passamos pelo mesmo corredor que havia visto no começo, mas por uma parte ainda não descoberta por mim. Entramos na cozinha ampla, composta por armários embutidos nas paredes de inox, bem parecida com a cozinha de , mas bem maior. Os meninos se acomodaram nas cadeiras da bancada, rindo de algo que eu não havia escutado por ainda estar ligada com , enquanto pegava ingredientes na geladeira para fazer o que eu achava que seria um sanduíche devido a quantidade de ingredientes. estava encostada na pia, olhando-me e assim que percebeu que eu também estava olhando para ela, sorriu. Fui até ela, ficando na mesma posição e observando os meninos rirem e prepararem seus sanduíches. Finalizei ou desliguei, ainda não sei os nomes certos para se dar a isso, a tal conexão que tinha com Mollie, com certo medo de não conseguir fazê-lo novamente, para ter um pouco de privacidade em meus pensamentos. Sorri, em uma forma de dizer que tudo estava bem e voltei a observá-los, agora já com seus sanduíches feitos.
Eles eram tão unidos, parecia que também tinham uma conexão entre si na qual ninguém de fora consegue entrar. Você, quando é fã, sabe que eles são amigos, que há essa cumplicidade, mas é tão mais intensa. É tão mais complexa e maior do que nós, simples fãs, imaginam. Não precisa ter nenhum tipo de poder, ou seja lá essa coisa que eu tenho, para enxergar isso.
, que estava de costas para mim, se levantou e veio em nossa direção. Instantaneamente, prendi a respiração, esperando pelo pior. Pior que eu nem sabia direito o que era. também pareceu um pouco conturbado por me ver ali e sem perceber, eu havia me encolhido para mais perto de . Ele continuou a andar, parando ao meu lado e pegando o prato que estava bem ao meu lado, sem romper o contato visual que havíamos criado. Foi bem estranho, na verdade. Mollie não sabia se conseguia me ver ou não, mas nós tínhamos fortes suspeitas. Também não sabíamos se conseguia vê-la porque ele não demonstrou nada. voltou ao seu lugar, puxando um novo assunto. Olhei para que sorriu e falou:
- Ele não é um bicho, ok? – rimos baixo. Olhei novamente para e depois para , fazendo com que nossos olhares se encontrassem. Ele sorriu, voltando a tomar seu café e eu apontei para , fazendo uma careta logo em seguida. riu baixo, não querendo chamar a atenção dos demais meninos e rolou os olhos. Sorri e ele voltou a conversar, fazendo com que eu também voltasse a conversar, mas pela nossa ligação secreta, sobre o incidente com .
Já era noite quando resolveu que já era hora de ir embora, fazendo-me levantar do chão da cozinha e o esperei se despedir de todos. Dei um breve abraço em , feliz por saber que agora eu teria alguém com quem poderia contar. A situação em que estava já era completamente complicada e sem sentido, e saber que tinha alguém para dividir minhas preocupações, me distrair e até mesmo me ensinar, era muito bom. Saímos da casa de Dougie em silêncio, sentindo apenas alguns finos pingos de chuva que caiam sem muito alarde e por um instante eu me senti em casa.
Flashback’s On
Eu havia acabado de sair de uma festa, mas minha mãe não pôde me buscar, então eu teria de ir sozinha. Eu não a culpo, afinal, a festa era apenas alguns quarteirões da minha casa e eu já era grandinha, como diz minha avó, para poder fazer esse pequeno trajeto a pé. Peter também foi embora comigo, aproveitando da companhia já que morávamos a algumas casas de distância. A habitual garoa com a qual Londres adorava presentear seus habitantes já estava surgindo, mostrando que talvez ela não seria apenas uma simples garoa, nos fazendo andar um pouco mais rápido. Conversávamos sobre a festa, das músicas que tocaram e até mesmo fofocando. Peter não tinha essa de coisa de menina e coisa de menino, e talvez por isso que eu mantinha algumas dúvidas sobre sua masculinidade. Não que isso fosse um problema, ele era meu amigo e isso realmente não me importava, eu estaria com ele para tudo. Sem que percebêssemos, eu já havia chegado em casa e Peter, como sempre, me acompanhou até a porta.
- Então boa noite – me despedi, dando um beijo em sua bochecha. Sorrimos e eu fui pegar a chave na pequena bolsa, tentando fazer o mínimo possível de barulho para não acordar meus pais que provavelmente deveriam estar dormindo.
Consegui colocar a chave na porta e lancei um último olhar antes de entrar, surpreendendo-me pela proximidade que estávamos. Eu nunca havia o olhado com outros olhos, ele sempre fora aquele amigo que aos seus olhos é um ser assexuado, mas naquele momento isso não importou. Era como se um novo sentimento tivesse aparecido. Mais tarde fui descobrir que não era bem assim, mas isso já é outra história. Peter parecia que também sentia esse novo sentimento descoberto e, sem que pudéssemos perceber, ele tomou conta de toda nossa racionalidade. Nossos lábios se colaram numa facilidade inexplicável, como se tivessem sido feitos para isso, e em pouco tempo senti a língua dele pedindo passagem. Mesmo sem saber direito o que fazer, permiti, esquecendo de todo mundo. Porque naquele momento era só eu e ele.
Flashback’s Off
Afastei esses pensamentos assim que me chamou para entrar no carro e assim o fiz, colocando o cinto de segurança, mesmo que no meu estado provavelmente não haveria alguma diferença. Foi mais pelo hábito em si do que por outra coisa. ligou o carro e em pouco tempo já estávamos em direção a sua casa.
- Qual é o problema do comigo? – perguntei, deixando de olhar para a janela para poder olhá-lo.
- Nenhum, ele só achou estranho eu também ter uma... – respondeu me olhando rapidamente e voltando a se concentrar na direção, meio sem jeito com as palavras.
- Então ele consegue me ver? – confirmou balançando a cabeça. – Você consegue ver a ? – ele confirmou novamente, olhando-me rapidamente. Sorri aliviada por saber que não parecia ter um problema comigo realmente, voltando a encostar a cabeça no vidro e deixar minha mente vagar. A ida à casa de foi no mínimo interessante. Um tanto conturbada, mas interessante. Senti certo orgulho de mim quando me dei conta que eu havia conhecido todos os meninos e não havia me portado como uma fã. Se bem que seria bem estranho se, na minha condição de semi-morta, eu surtasse porque eu os vi. Rolei os olhos, pensando nessa hipótese.
Enfim, foi bom saber que eu tinha . Não que eu estivesse feliz por ela ter morrido, mas feliz porque eu não estava sozinha nessa. Mas ao mesmo tempo era mais difícil, porque sempre que eu a visse, eu iria me lembrar da vida que deixei para trás. Talvez se eu estivesse sozinha seria mais simples de esquecer. Esquecer que um dia eu tive pai, que tive família, que tive amigos, que eu fui . Senti um aperto no coração quando me lembrei de tudo isso. Agora eu entedia porque diziam para viver cada dia como o último, porque quem sabe, ele seja mesmo o último. Quantas coisas eu deixei de falar, quantas coisas eu deixei de fazer por motivos bobos e agora eu não teria mais essa oportunidade. Era duro pensar nisso, mas era a realidade. Era a minha mais nova realidade.
estacionou o carro na vaga da garagem sem eu ao menos notar, me assustando quando ele bateu no meu vidro já no lado de fora. Tirei o sinto rapidamente e saí, o acompanhando em silêncio. Chegamos ao apartamento sem dizer nada e fomos até o quarto, onde me joguei sem cerimônia no sofá, me arrependendo logo em seguida quando minhas costas bateram com tudo no encosto para braço. Soltei um urro de dor e para piorar acabei caindo no chão, fazendo com que risse. Apoiei minha cabeça, tentando arrumar força e coragem para levantar novamente enquanto minhas costas ainda latejavam de dor. Ele continuava rindo e aquilo já estava me irritando seriamente. Quando levantei a cabeça para dar uma boa resposta, percebi que estava na minha frente com a mão estendida para me ajudar a levantar. Levantei os braços para ter o apoio das mãos dele, que ajudaram a levantar-me novamente. Sentei cuidadosamente no sofá ainda com as costas latejando e quando fui deitar, minha coluna estalou, fazendo com que risse do barulho. Ignorei e tirei o tênis com o próprio pé, ficando apenas de calça e blusa, virando para o outro lado, de frente ao acolchoado do sofá. Não fazia idéia que hora era, mas não deveria ser hora de dormir. Pouco me importava, de fato. Eu estava cansada e se fosse para ficar nesse silêncio mortal com , preferiria dormir. E assim fiz.
Se me perguntassem agora qual era meu nome, não saberia responder de tanto sono. Ainda deveria ser bem cedo se comparado aos meus padrões, por volta de oito da manhã, não sei ao certo. continuava a dormir mas eu não conseguia. Virei diversas vezes e então desisti, sentando-me e pensando no que fazer. Comecei a analisar todos os detalhes possíveis do quarto, até meu olhar parar no celular de . “Por que não?’’ pensei. Levantei-me lentamente, tentando fazer o mínimo de barulho possível e peguei o celular. Muita tecnologia para mim fez com que eu ficasse bem perdida no começo, mas depois eu me achei e pude entrar na Internet. E agora? O que fazer? Eu não podia simplesmente entrar no Twitter ou Facebook e dar um sinal de vida, simplesmente porque não tinha mais vida. Querendo ou não, agora eu era uma semi-morta. Mas esse pequeno detalhe não me convenceu totalmente, fazendo com que eu entrasse no Facebook. Minhas mãos tremiam enquanto eu esperava carregar, amaldiçoando todas as versões existentes e futuras do Iphone. A página inicial foi carregada e diversas notificações apareceram, fazendo com que um aperto no peito surgisse. Agradeci mentalmente quando vi que não estava conectada naquele chat, voltando a ler as notificações. Todas elas eram uma despedida, digamos. Lágrimas começaram a cair e eu tentei fazer o mínimo barulho possível para não acordar , que dormia tranquilamente do lado oposto ao que estava sentada. Mas uma mensagem em especial me chamou a atenção, feita por meu pai:
“Enterro nesta quinta-feira, às 13h30 no Cemitério de Highgate, Londres.”
Foi como se eu tivesse desaprendido a respirar. O ar entrava e saia de meus pulmões tão rapidamente que os movimentos chegavam a incomodar e as lágrimas caíram sem nenhum esforço. Era o meu enterro. Eu iria ser enterrada, iria virar só mais uma lembrança. Eu continuava a chorar, sem me importar com o mundo que continuava a girar, quando senti um peso no colchão ao meu lado e logo em seguida os braços de nos meus ombros, puxando-me para mais perto. Não protestei. pegou o celular e leu, abraçando-me mais. A camisa de já estava toda molhada com as minhas lágrimas que agora caiam como se eu fosse um bebê, mas ele pareceu não se importar. Por que eu não poderia ter simplesmente morrido? Agora, por exemplo, eu poderia estar na companhia de Deus ou em qualquer outro lugar que provavelmente vamos quando morremos, mas não. Eu estou aqui, tendo que viver como se eu ainda fosse digna de viver. Eu não era mais. Eu era algo que não havia palavra para descrever porque nem eu sabia o que eu era. Eu era uma aberração do bem, que tinha que ficar atormentando um homem até quando Deus quisesse. E quando isso iria acabar? E se isso não acabasse? Isso era um engano, cada vez que acordava era como se isso fosse um dos meus sonhos malucos e que daqui a algumas horas eu iria acordar com meu pai me chamando para ir para a escola.
Mas eu não iria mais acordar.
Eu não iria mais acordar e ir direito pro banheiro, não iria chegar à escola e ir comentar sobre bandas com minhas amigas, não iria entrar no computador assim que voltasse da escola, não iria mais escutar o sermão do meu pai por ficar o dia todo no computador. Agora eu era outra pessoa, eu teria que ser. Eu não era mais , eu era mais uma aberração.
- ... – chamei, ainda soluçando devido ao choro. – Podemos ir lá? – perguntei, não sabendo se isso seria o melhor. O melhor talvez não, mas era o mais sensato. Eu precisava acreditar que eu havia morrido. se ajeitou na cama, ainda pensando.
- Você tem certeza?
- Não, mas eu preciso – confirmou balançando a cabeça e eu, mesmo sem vontade, separei-me do abraço. retirou o braço de meu ombro e ficou me observando enquanto eu olhava pela janela, perdida em pensamentos. Aquilo talvez doesse mais por causa de meu pai do que por mim. Sempre fomos unidos, uma família verdadeiramente feliz, mas então minha mãe morreu. As coisas começaram a mudar e minha ligação com meu pai ficou muito mais forte. Ele passou a ser meu tudo, minha base. E agora eu o abandonei. Agora eu não poderia o abraçar e dizer que tudo iria ficar bem, não poderíamos tomar o café da manhã juntos, não poderíamos ser mais uma família.
ficou ao meu lado o tempo todo, até me lembrar de que hoje era quinta-feira. Meu choro voltou e , meio sem jeito, puxou-me para um abraço, perguntando se eu tinha certeza e eu confirmei meneando a cabeça. tomou banho e depois, eu. Já estávamos ficando mais experientes nesse assunto e eu já quase não me importava mais. Saímos do banho e já eram quase 13h, então nos apressamos e pegou algo para comer no caminho, já que eu não tinha fome.
Entramos no carro e eu comecei a me questionar se isso era realmente o que queria, se era realmente necessário. Como iria saber? Eu iria ver aqueles que mais amo e não poderia fazer nada? Seria capaz de ter esse auto-controle? pareceu ler meus pensamentos e me olhou, numa pergunta muda, se eu tinha certeza. Meneei a cabeça, confirmando tanto para quando para mim mesma, e ele deu partida no carro, indo em direção ao cemitério de Highgate. Durante o caminho, tentava me convencer de que aquilo era o certo, que era necessário. Talvez se eu visse com meus próprios olhos seria mais real.
O cemitério chegou mais rápido do que eu esperava e estacionou no canto na própria rua, olhando-me como se quisesse confirmar que aquilo era certo antes de sair. Confirmei, fechando os olhos como quem diz “obrigada” e sai do carro, fechando a porta atrás de mim.
Olhei o portão e foi como se eu voltasse há três anos. Foi ali que Kath, ou Katherine para os não íntimos, foi enterrada. Katherine , minha mãe. Respirei fundo, tentando não lembrar de tudo. Não precisava agora sofrer mais, não precisava me lembrar do quão duro foi perder minha mãe. Também não precisava lembrar que mesmo agora, depois da morte, só havia a visto uma vez em uma situação digamos que não muito agradável.
Por quê? Por que ela teve que partir? Por que eu tive que partir? Respirei fundo novamente, tentando em vão me acalmar e olhei para , que me esperava pacientemente.
E ? Também deveria estar sendo ruim para ele. Ter uma assombração seguindo você por qualquer lugar que você fosse não deveria ser muito agradável. Mas pelo menos estava vivo, poderia falar com aqueles que amava, que sentia saudades. E eu? Eu não era mais nada. Para ninguém.
Seguíamos pela instrução que o velho porteiro do cemitério nos deu assim que chegamos, vagando entre lápides e árvores. De fato era um bom cemitério para descansar na eternidade. As árvores, que eram várias, balançavam lentamente como se dançassem ao vento, e só os sons dos pássaros eram ouvidos. Cena de filme americano. Minhas pernas pareciam estar no automático, andavam sem ao menos eu comandar. Danny estava ao meu lado, sem saber o que fazer ou dizer enquanto tentava se lembrar das instruções passadas pelo velho porteiro, que em pouco tempo nos levou ao lugar certo. Não estávamos bem no lugar, pode-se dizer. Estávamos mais distantes, observando tudo de longe como dois intrusos.
Hold on!
(Segure-se!)
Hold on!
(Segure-se!)
Don't be scared
(Não tenha medo)
You'll never change what's been and gone
(Você nunca mudará o que aconteceu e passou)
apoiou o braço no meu ombro, como se quisesse mostrar que ele estava ali quando vimos o caixão pela primeira vez. Não consegui controlar as lágrimas, que agora caiam como se tivessem vontade própria e quando eu vi meu pai, teve que me segurar para que não caísse no chão.
May your smile
(que seu sorriso)
Shine on
(brilhe)
Don't be scared
(não tenha medo)
Your destiny may keep you warm
(Seu destino pode mantê-lo aquecido)
Por que tudo teve que acontecer desse jeito? Por causa de uma maldita missão? Era isso justo? Eu sacrificar minha vida, magoar os que eu amava por uma missão que nem eu sabia qual era? E depois que ela acabasse, eu não iria poder voltar. Isso não era justo comigo. Não era justo com meu pai. Ele não merecia mais uma perda. As lágrimas caíram rapidamente quando reconheci os rostos das pessoas. Lembranças. Era isso que agora elas eram. Ou era o que elas deveriam ser para mim.
'Cause all of the stars
(Porque todas as estrelas)
Are fading away
(Estão desaparecendo)
Just try not to worry
(Apenas tente não se preocupar)
You'll see them some day
(Você as verá algum dia)
Take what you need
(Pegue o que você precisa)
And be on your way
(E siga seu caminho)
And stop crying your heart out
(E faça seu coração parar de chorar)
E o que aconteceria agora? Eu já não pertencia mais a este mundo, eu já não era mais eu. me abraçou, fazendo com que eu virasse o rosto para continuar vendo. Eu poderia fechar os olhos e fingir que nada disso era real, que eu iria acordar de mais um pesadelo. Levei a mão na boca, tentando abafar meu urro de dor quando vi meu pai indo ao caixão que descia lentamente e jogar uma flor, sendo amparado por meus tios e amigos. Como eu queria poder abraçá-lo e dizer que tudo estava bem, que tudo iria passar.
Get up
(Levante)
Come on
(Venha)
Why you scared? (I'm not scared)
(Por que você está assustado?) (Não estou assustado)
You'll never change what's been and gone
(Você nunca mudará o que aconteceu e passou)
me abraçava fortemente, como se quisesse diminuir a dor que sentia. Era horrível esse sentimento, o da perda. Às vezes, eu pensava em querer morrer só para ver quem iria chorar por mim e agora eu via. Eu havia morrido. Não só para mim. Várias pessoas com as quais juravam que poderiam contar comigo para tudo estavam ali dando um adeus. Isso era um adeus.
'Cause all of the stars
(Porque todas as estrelas)
Are fading away
(Estão desaparecendo)
Just try not to worry
(Apenas tente não se preocupar)
You'll see them some day
(Você as verá algum dia)
Take what you need
(Pegue o que você precisa)
And be on your way
(E siga seu caminho)
And stop crying your heart out
(E faça seu coração parar de chorar)
'Cause all of the stars
(Porque todas as estrelas)
Are fading away
(Estão desaparecendo)
Just try not to worry
(Apenas tente não se preocupar)
You'll see them some day
(Você as verá algum dia)
Take what you need
(Pegue o que você precisa)
And be on your way
(E siga seu caminho)
And stop crying your heart out
(E faça seu coração parar de chorar)
E quantas palavras ficaram para ser ditas? Quantos momentos deixaram de ser vividos? Você sabe que um dia sua hora vai chegar, a hora que você tem que dar adeus a tudo, mas você nunca imagina que ela pode estar bem próxima de você. Então, de um dia para o outro, você não pertence mais aquele mundo, você tem que dar adeus, querendo ou não.
Where all us stars
(Onde todos nós, estrelas)
We're fading away
(Nós estamos desaparecendo)
Just try not to worry
(Apenas tente não se preocupar)
You'll see us some day
(Você nos verá algum dia)
Just take what you need
(Apenas pegue o necessário)
And be on your way
(E siga seu caminho)
And stop crying your heart out
(E faça seu coração parar de chorar)
Esse era o fim. Era o fim da garota que, a cada dia, ia virando uma mulher. Era o fim daquela que possuía sonhos, gostos e desejos. Era o fim daquela que possuía um único desejo: ser feliz. E agora como ela seria se ela já não era mais ela? Se ela era algo que a perturbava, que despertava medo de si mesma? O que fazer quando você sente que continua sendo , mas você não pode mais ser ela porque ela morreu!
Abracei fortemente , tentando me acalmar e ele retribuiu o abraço. Aos poucos, as pessoas iam embora. Iam embora da minha vida. Mas elas continuavam com as delas, algumas com mudanças, algumas permanecendo as mesmas. Mas meu pai continuava ali, olhando para a lápide recém posta. Ele não merecia isso. Separei-me do abraço e, com passos um tanto apressados, fui em direção ao homem abatido sentado na grama. me deixou ir, permanecendo onde estava, e a cada passo que eu dava, mais lágrimas insistiam em cair. Agora só tinha eu, meu pai e eu morta. Três pessoas e um único sentimento. Aproximei-me lentamente, tentando não fazer barulho, já que não sabia o que fazer, nem se ele seria capaz de me ver. Sentei ao seu lado e ele não moveu um músculo, continuando a olhar fixamente para a lápide com meu nome. Toquei em seu ombro, mas ele não sentiu nada. Mas que merda! Concentrei-me, achando que se eu fosse para a recém descoberta realidade paralela talvez eu conseguisse algum sucesso. Demorei algum tempo, não estava psicologicamente preparada, e toquei novamente em seu ombro. Passei a mão pelo seu braço, do jeito que ele costumava fazer para me acordar e que era só nosso. Como um código. Ele olhou para o braço esticado assustado e começou a olhar ao redor. Ele havia sentido!
- ? Você está aí? – perguntou, baixinho. Toquei novamente o braço dele, confirmando. Ele sentiu novamente e lágrimas começaram a cair, fazendo com que eu chorasse também. – Eu te amo muito, eu queria poder trocar de lugar com você, queria que nada disso estivesse acontecido....- o abracei, fazendo com que ele, de uma maneira desengonçada, retribui-se o abraço. Eu sentia que eu estava ficando cada vez mais fraca, como se minha mente estivesse entrando em um quarto escuro. Não era um bom sinal.
- Pai, você me ouve? – perguntei cautelosamente, com a mão sobre o rosto dele. Ele balançou a cabeça. – Pai, eu te amo muito, queria poder ter sido melhor, para poder te dar mais orgulho. Pai, não se culpe por isso, ninguém tem culpa nessa história. Eu não vou aguentar isso por mais algum tempo, por isso saiba que eu te amo muito e que eu estou bem. Por favor, vá viver sua vida e lembre-se de mim não com a tristeza a perda, mas com alegria. Eu não quero te ver triste, nunca. Promete pra mim que vai se cuidar? – disse, em meio ao choro. Eu já não conseguia enxergar com muita nitidez, mas eu pude ouvir a resposta.
- Eu prometo.
It keeps me holding on
Queria poder dizer que eu acordei reclamando mentalmente sobre o sofá, que mandaria , com toda calma, comprar um melhor para mim, mesmo gostando do não tão pequeno sofá e, por fim, iniciar a terceira guerra mundial para usar o banheiro, tendo como habitual resposta ele me mandando para um lugar que muitos já me recomendaram, mas nunca tive interesse em descobri-lo. Mas o que realmente aconteceu foi uma descontrolada me sacudindo, tendo que escutar meus resmungos sem nexo, enquanto tentava acordar.
Mas que porra era aquela logo tão cedo? Tentei me soltar, forçando meu corpo para baixo e voltei a dormir, mas ela parecia bastante empenhada em não deixar. Bufei, me sentando, constatando que havia dormido na cama de e estranhei. Ele não me deixaria dormir na cama – ou seu reino particular, como ele mesmo já havia me dito – tão facilmente. Puxei as cobertas para mim, mesmo não tendo necessidade, enquanto se sentava de joelhos no colchão, que reclamava pelos movimentos.
As cortinas estavam abertas, iluminando naturalmente todo o amplo quarto e ao sentir uma aguda dor de cabeça, fechei os olhos como se isso pudesse diminuí-la. Tentei, mesmo com a dor, encontrar no meio das minhas memórias o motivo para que ela estivesse ali, me perturbando. Forcei os olhos ao senti-la novamente e me joguei na cama sem me importar com o ranger das molas devido ao movimento brusco, massageando minhas têmporas como se isso pudesse diminuir a dor. Desde quando almas sofriam de enxaqueca? observava tudo sem dizer uma palavra, mas eu estava mais ocupada tentando fazer a dor diminuir do que perguntar o motivo do escândalo que me acordou. Peguei o travesseiro que estava jogado de lado e forcei contra minha cara, abafando um urro de dor. riu e eu dei o dedo do meio, fazendo-a rir novamente. Bufei me arrependendo de ter feito isso assim que senti novamente uma pontada, e ela se levantou. Quanto mais movimentos eu fazia, mais a dor aumentava. Talvez eu devesse entrar num estado vegetativo, seria bem melhor. Ou não, porque ficaria preso num quarto enquanto eu vegetava. É, melhor não. Respirei fundo e nenhum sinal de . Estranho.
Quando era criança, aprendi que quando chega nossa hora vamos para um lugar e vivemos em paz, mas bem, não é isso que está acontecendo comigo. Sinceramente, já não bastava eu estar nessa situação de morta/viva? Mas não, alguém lá em cima quer que eu sofra ainda mais. Eu devo estar pagando todos os pecados das minhas vidas passadas, se é que isso existe. No caso, minha vida passada deve ter sido Hitler. Relaxei meu corpo, tentado voltar a dormir agora que já não estava mais presente para perturbar meus sonhos. Já podia sentir o sono me levando a um outro lugar quando alguém puxa minhas cobertas.
- Eu não me lembro de ter deixado você voltar a dormir... – disse e eu murmurei um “hum” um tanto que incompreensível. Virei-me para o outro lado em busca de uma posição confortável para dormir, percebendo que seria impossível com ela ali me atrapalhando. Sentei-me tentando não fazer movimentos bruscos para, quem sabe, a dor não aumentar e sentou na minha frente, me dando um copo de água. Neguei, não estava com sede, mas ela insistiu, fazendo com que eu acabasse aceitando por consideração. Bebi todo o líquido e coloquei na cabeceira o copo, pronta para levar sermão de algo que eu nem sabia.
- Você tem merda na cabeça? – Ela perguntou.
- O que eu fiz? – Perguntei descrente, fazendo cara de poucos amigos. Quem ela pensava que era para falar assim comigo? Tudo bem que em poucos dias já ficamos bastante amigas, mas isso era falta de respeito comigo!
- O que você fez ontem? – Não entendi a ligação que isso tinha, mas atendi seu pedido, forçando minha mente, que parecia não querer colaborar, a lembrar o que fiz.
- Eu acordei...
- Logicamente, né? – A olhei, repreendendo.
- Eu acordei, e como ainda estava dormindo, precisava fazer algo para passar o tempo. Peguei o celular dele, só que era muita modernidade para mim e me enrolei toda, mas depois de um tempo eu consegui desbloqueá-lo... - Iria continuar, mas fui interrompida por , que já estava impaciente com minha demora. Mas ora, ela não havia pedido para saber o que eu havia feito ontem? Pois bem.
- Ai, assim fica difícil... Vamos tentar outra coisa. Qual é a última coisa que você lembra?
- Ah, essa é fácil. – Senti dificuldade ao lembrar o que havia feito, mostrando a mim mesma que não seria tão fácil assim. Forcei mais um pouco, tentando não me importar com a dor que reaparecia.
- ? Você está aí?
- Promete pra mim que vai se cuidar?
- Eu prometo.
As imagens vieram em flashs em minha mente causando um aperto no meu coração. Havia sido um sonho? Foi tão real... Eu ainda podia sentir os braços de me segurando, o vento que soprava, o balançar das arvores, o cenário tão clichê de filme americano. O caixão descendo, as pessoas chorando, homenagens sendo feitas, mentiras sendo contadas, verdades sendo declaradas, o choro de meu pai, a terra sendo jogada por cima...
MEU PAI? Assim que me dei conta, tudo começou a se encaixar, como um quebra cabeça. Meus olhos começaram a arder, indicando que lágrimas estariam por vir e eu não liguei. Um ardor em meus olhos e algumas lágrimas não seriam o suficiente, não seriam maior que a dor que eu sentia no meu coração, dentro de mim. Era um vazio. Um vazio que eu prometi a mim mesma não sentir quando minha mãe faleceu, um vazio que desde sempre esteve comigo, mas que agora havia tomado proporções gigantescas.
Era um vazio tão grande que eu poderia tentar descrever por horas, mas, mesmo assim, seria incomparável. Não há palavra com capacidade suficiente para isso. A dor da perda... Ah, ela que todos sabemos que um dia a teremos como nossa companhia, que um dia entrará em nossa vida e nunca sairá. Mas quem se importa com ela quando está tudo bem? Quem se importa com o frio do inverno quando estamos no calor no verão? Quem faz todos os dias valerem à pena, tanto para si mesmo quanto para os outros? Ninguém. Sabe por quê? Porque todos nós achamos que somos imortais, que somos os donos da verdade. Então vem a dor da perda, nos lembrando que somos apenas simples personagens de uma história já escrita, como um balde de água fria sobre nós, sobre nosso ego.
E ela não vai embora.
Nunca.
Você sempre terá aquela parte perdida, lhe lembrando de todos os dias que você desperdiçou, de todas as palavras que você não falou, de quantas coisas você não fez. Ela começa a fazer parte de você, sem nenhuma autorização, e você não consegue expulsá-la, porque simplesmente é impossível. Depois de um tempo, você se acostuma com a presença dela ali, como um fantasma indesejado. Eu me sentia assim. Também por tê-la comigo, mas por ser algo parecido para . Eu estava fazendo-o desperdiçar os dias, fazendo-o negar convites para sair, porque nós tínhamos medo de alguém poder me ver – agora que já sabíamos que também possuía essa “habilidade”, o medo aumentou.
estava me tratando bem, me respeitando, e eu gostava disso. Não queria que isso fosse mais difícil. Mas eu era um peso para ele, eu era completamente dependente dele. Que nem um filho. Não, um filho cresce e um dia ganha assas, vai criar a própria vida, a própria família. Mas e eu? Eu não tinha um selo de validade, não havia nada que dissesse quando eu iria embora – se um dia iria – e deixá-lo em paz. Esse era o pior, não saber se um dia poderia o deixar livre. As lágrimas já molhavam toda minha camisa e o cobertor, provocando frio. Aconcheguei-me mais nas cobertas e ainda sentada, descansei as costas nos travesseiros. Olhei para Mollie, que me olhava com ternura.
- Foi real? – Perguntei com a voz embriagada e funguei, limpando um pouco das lágrimas que estavam em meu rosto. Ela veio até mim, entrando nas cobertas e ficando ao meu lado, passando o braço no meu ombro. Deixei que ela me confortasse em seus braços.
- Foi. – Respondeu, com o queixo posto em minha cabeça enquanto afagava meus braços. Havia sido real! Mas e agora, como meu pai estaria? Provavelmente se achando um maluco, já que nunca acreditou nessas coisas. Quem acreditava era minha mãe. Abracei-a como se isso pudesse diminuir minha dor e ela retribuiu.
- E agora?
- , eu entendo o que você fez, de verdade. Eu também sinto isso, acredite. Mas o que você fez não foi certo para eles. Você falou com ele. Ok, você precisava disso, mas isso continua não sendo certo. Você não pode fazer isso de novo, ok? – explicou, tendo cuidado nas palavras.
- Vou tentar. – Eu sabia que uma hora as consequências desse ato iriam aparecer, que eu levaria alguma bronca. entrou no quarto com atrás, me fazendo perceber pela primeira vez que, por algum motivo, estávamos separados. Franzi o cenho e olhei para , que ainda me afagava. Ela, como se pudesse ler minha mente, sorriu e respondeu:
- Segredos de , quem sabe um dia eu conte a você... – Riu da própria frase, me deixando sem entender. Mais um item para minha lista das coisas sem sentido. Senti meu corpo pesar e julguei que fosse causado pelo comprimido dado por fazendo efeito, permitindo mais esse descanso ao meu corpo e fechei os olhos. Voltei a dormir sem que percebesse.
- , acorda. – Disse calmamente, afagando meu braço enquanto acostumava meus olhos a pouca, mais intensa, luz solar. Olhei para ele, ainda me forçando a acostumar com a iluminação, recebendo como resposta um sorriso. Alguma vez disse o quanto amava aquele sorriso? Suspirei, tentando me controlar. Fã. Sentia como se minhas costas estivessem mais leves, como se um peso houvesse sumido e a sensação não era ruim. Era agradável, para falar a verdade. Agradável de uma maneira que não me lembrava da ultima vez em que a senti. se levantou, tirando-me desses pensamentos e abriu as cortinas, fazendo com que um murmuro de reprovação saísse de minha garganta sem que houvesse consciência. Ele riu, comentando com si mesmo o quanto eu era preguiçosa e se jogou no sofá, me esperando acordar. Sentei encostada na cama, puxando as cobertas em uma quantidade desnecessária, que fez com que meus pés ficassem descobertos.
- Como você consegue dormir aqui? – Perguntou, me tirando da analise que fazia sobre meus pés agora descobertos. O olhei, sem entender. O sofá não era confortável como uma cama de casal, mas era confortável se você dormisse na posição correta, caso contrário... Experiência própria.
- Já estou me acostumando. – Sorri e reuni coragem para sair da cama que me parecia tão acolhedora, me arrependendo quando meus pés tocaram o chão gelado. Arrumei a cama rapidamente, um pouco incomodada com o olhar de , que seguia cada movimento que fazia, e sentei-me nela de novo, tentando não desfazer a cama. – Planos para hoje?
- Hum, o que você acha de uma cama nova? – Sorri.
- Danny, estamos perdidos! Era para você ter virado à esquerda, não à direita! – Expliquei preocupada, já que estávamos perdidos numa zona de Londres que não conhecia muito bem. escutava todas minhas reclamações em silêncio, pensando em como voltar para a avenida principal e seguir até a loja de móveis.
- Você não é anjo da guarda? Então, você tinha que saber como voltar! – Reclamou.
- Eu sou anjo, não GPS.
- Grossa. – Falou baixo, pensando que não iria escutar. Ignorei o comentário infame.
- Por que você não pede informação na rua? – Perguntei e ele sorriu, se aproximando da calçada. Abaixou o vidro ao meu lado e procurou alguém que estivesse perto suficiente, me usando como apoio. Prendi a respiração, tentando não inalar o perfume adocicado que ele usava e o ajudei a procurar alguém que pudesse ter informações. Por que Deus não podia ter me colocado com alguém menos bonito, sem uma voz tão intensa, sem um corpo que parecia esculpido meticulosamente pelos deuses do Olímpio, sem ser . Suspirei derrotada, era impossível mesmo em toda essa confusão não pensar nisso. chamou a atenção de uma idosa que andava tranquilamente com seu cachorro e perguntou sobre o retorno mais próximo, que respondeu pacientemente. Seguindo as instruções passadas, chegamos à loja em pouco tempo. Ela era bem grande e dividida em diversas seções. Seguimos para a dos móveis para procurar uma cama ou algo mais confortável para mim, mesmo achando que não era tão necessário assim. Um funcionário foi nos atender, mentira, atender já que eu estava na capa de invisibilidade do Harry Potter. Brincadeiras a parte, era estranho ser ignorada e não poder fazer nada. Se a pessoa te ignora, finge que você não existe, você vai tirar satisfação, não? Não quando você realmente não existe mais. andava na frente, junto com o vendedor, dando explicações de como queria, do tamanho e etc. até que sabia ser bastante inteligente quando queria.
- Que tal esse? – Perguntou em voz alta, chamando minha atenção. O vendedor olhou não entendendo, com razão, afinal, para ele, estava falando sozinho. Parecia ser um bom sofá cama, mesmo que não lembrasse um. Se ele não estivesse na seção, nunca que iria achar que aquilo era um. Sentei, ficando de frente para e o vendedor, que olhava para o sofá e ia detalhando as coisas. Era uma situação bem estranha, mas o sofá era bem confortável. Optamos por levar esse mesmo, mesmo não tendo visto outros, mas sabíamos que havia sido uma boa compra. pagou rapidamente e, idiotamente, resolveu sem minha opinião levar no carro o sofá. Tudo bem que não era muito grande, mas era pesado!
Nota mental: Não deixar decidir as coisas sozinho.
- Você tem algum problema? – Perguntei, sem me importar se ele poderia ou não me responder, assim que ele apareceu ajudando dois vendedores a levar o sofá dele. – Sério, , posso saber por que você não pediu para entregar em casa? Agora como vamos subir isso? Hein, me fala como?! Muito boa essa sua idéia, parabéns. Espero que você esteja ouvindo e entendendo tudo, porque não vou repetir! Dá próxima vez, você vai me escutar pra evitar que você faça essas besteiras de novo! Eu posso estar morta, estar invisível para o resto da humanidade, mas eu ainda tenho neurônios em pleno funcionamento, coisa que você parece não ter. Pra dispensar a entrega você pensa, agora pra pensar em como vamos levar até o apartamento no seu carro, você não pensa! Espero que você tenha uma idéia muito boa, porque não vou ficar me sacrificando levando um sofá pra você. – Reclamei ao seu lado, andando acompanhando seus passos tortos, já que ajudava a levar o sofá com os outros dois rapazes. Eu sabia que ele estava escutando pela cara de fazia a cada palavra pronunciada, dispensando qualquer resposta. Eles conseguiram um jeito de colocar o sofá no banco traseiro do carro e eu agradeci mentalmente a conta bancária de que o permitia ter um carro grande. Ele agradeceu aos rapazes, dando alguma quantia, que não consegui ver, a eles pela ajuda e entrou no carro, o ligando logo em seguida.
- Será que agora você pode me responder ou vai fazer greve? – Perguntei, o olhando, já com o cinto colocado. Já era habito, não conseguiria parar tão facilmente.
- Você vai parar de agir como se eu tivesse cinco anos? – Rebateu, me olhando por cima dos óculos escuros recém colocados.
- Você vai parar de agir como se tivesse cinco anos? – Perguntei de novo, com o mesmo sorriso debochado que ele tinha pouco antes de eu perguntar, já que assim que perguntei seu sorriso desmanchou. Ele ficou sério por alguns minutos, ainda me olhando até que bufou e voltou a se concentrar em dirigir. Não falamos nada durante o caminho até sua casa que, dessa vez, não tivemos a graça de nos perdemos. Onde estava aquele Danny que me amparou um dia atrás, o mesmo que me acordou hoje preocupado comigo? Esse com certeza não era.
Com certeza essa era a pior sensação de se apegar rápido nas pessoas: quando você vê que não é recíproco. Não que eu esperasse que caísse de amores por mim e vivêssemos uma vida feliz que nem nas fanfictions, ou que me tratasse como uma irmã. Longe disso, mesmo porque ele não significava isso para mim.
, do McFLY, quem sabe significasse.
Mas , não.
Quando diziam para mim, na minha época de fã (que não faz tanto tempo assim), que nós não os conhecíamos, eu achava um absurdo. Ora, eu sabia tudo sobre a vida deles, a história por trás das músicas, dos álbuns e até de algumas fotos, o que mais faltava? Mas agora era diferente, agora eu podia ver que éramos duas pessoas diferentes em vários pontos, mas iguais em muitos outros. Não era só com , mas sim também com , e , mesmo que nunca houvesse falado com algum deles e nem que um dia conseguirei, mas eu podia ver. Os quatro juntos ou cada um na sua casa, eles eram diferentes. Eles eram normais.
era normal.
Ele era acostumado a viver sem alguém do sexo oposto com ele, por isso possuía várias e chatas manias que eu, mesmo em pouco tempo, tentava arduamente mudar. Mas quem eu era para fazer isso? Eu era uma hóspede indesejada que ficava palpitando em tudo. É, talvez nesse caso sou eu quem está errada. Ele me deu um novo lugar para dormir e eu estava reclamando? Isso com certeza não era uma atitude de dar orgulho a ninguém.
- ? – O chamei, mas ele não disse nada nem desgrudou o olhar da rua. – Desculpa. – Falei, sem enrolar. Ele continuou em silêncio até que eu pousasse minha mão sobre seu ombro, fazendo com que ele se remexesse no banco e eu recuasse rapidamente. Merda. Já estávamos na rua do prédio e só me dei conta disso quando teve que olhar na minha direção para entrar na garagem, fazendo com que nossos olhares se cruzassem mesmo ele estando de óculos. Infelizmente não deu para enxergar muita coisa dentro deles, já que o preto da lente não permitia. Será que eu tinha feito a coisa certa? Eu apenas me desculpei, o que havia sido verdadeiro, pois eu realmente estava com o peso na consciência por ter começado essa discussão, o que havia de mau nisso?
Sinceramente, depois as mulheres que são difíceis de compreender.
passou pelo portão e chamou um dos porteiros para o ajudar com o sofá, já que seria uma cena muito inusitada se alguém me visse levando o sofá. Ou melhor, se alguém não me visse. estacionou e antes que eu pudesse falar algo, ele bateu a porta, abrindo a traseira e tentando puxar para fora o sofá enquanto aguardava o porteiro. Saí também e dei a volta no carro, ficando ao seu lado para ajudá-lo a puxar o sofá. Segurei o outro pé do móvel que estava virado para a porta aberta e fiz força, tentando não pensar muito na pessoa que estava ao meu lado, observando tudo sem dizer nada. Respirei fundo e puxei com tudo, mas parecia que havia algo que o prendia no carro. Ou talvez fosse apenas falta de concentração, pensei. Respirei fundo, inalando o dobro de ar da última vez e puxei com toda a força possível, sem me importar se quebraria ou não o pé do sofá.
Segunda nota mental: Lembrar de pedir para me dizer do que era capaz.
Só percebi que havia conseguido tirar o sofá quando meu corpo encontrou o chão, trazendo , como brinde. Caímos no chão da garagem, com o sofá em cima de nós. estava ao meu lado e eu sentia meu corpo doer. O olhei, tentando encontrar alguma explicação ou solução, mas ele parecia estar na mesma situação que eu, ou seja, perdido. Nos encaramos durante alguns segundos até que começamos a rir sem parar. Ele tirou os óculos, colocando ao lado de sua cabeça e passou a mão pelo rosto, tentando se acalmar. Aquilo foi extremamente sexy.
Mas que porra era aquela? Por que eu estava tão sensível assim? Será que eu era masoquista e não sabia? Será que cada vez que brigávamos, eu encontrava uma beleza diferente nele? Não podia ser. Afastei esses pensamentos o mais rápido possível assim que me dei conta deles, como se pudesse lê-los. Minha barriga começou a doer, tanto pelas gargalhadas quanto pelo sofá que depois de tanto tempo sobre mim começava a machucar.
- Sério, ‘tá machucando. – Falei.
- Eu sei, aqui também ‘tá.
- Como vamos tirar? – Perguntei, sem nenhuma idéia em mente.
- Tenta puxar pra cima e rolar pro lado... – Demorei um tempo para visualizar o que ele estava propondo e não era tão ruim. Podia sim dar certo. até que estava bem inteligente hoje, tirando o fato de ter dispensado a entrega.
- Ok, não é ruim a idéia. Vamos tentar. – Disse, apoiando as mãos na parte de baixo do sofá que não entrava em contato com minha barriga e esperei fazer o mesmo. Senti sua mão ao lado da minha e isso dificultou, e muito, minha concentração. Respirei fundo, tentando ignorá-lo e fiz força para levantar o sofá, escorregando para o lado logo em seguida. Escutei apenas o barulho da madeira que constituía internamente o sofá ao bater no chão e conclui que tudo tinha dado certo, pelo menos para mim, já que agora respirava sem um peso. Levantei-me e fui ao outro lado do sofá, vendo se também havia conseguido sair e se estava tudo bem com ele. Graças a Deus ele havia conseguido e sorriu para mim como quem diz que está tudo bem, me tranquilizando. Sentei no sofá, jogando a cabeça para trás tentando buscar mais ar para atender ao pedido dos meus pulmões, que ainda não haviam normalizado a respiração. Senti algo afundar ao meu lado e deduzi que era , que também deveria estar buscando mais ar. Aquilo havia nos cansado.
- Deixa um pouco de ar para mim também, . – Brincou ao meu lado, se referindo a minha respiração descompassada, e por ainda estarmos na garagem, que era fechada e subterrânea, o que naturalmente já dificultava a respiração ali. Respirei fundo pela última vez e tratei de normalizá-la, voltando a sentar normalmente para esperar se recuperar também. Depois de muito tempo o porteiro apareceu para ajudar e eu me levantei, mesmo achando que não faria diferença e nem poderia ajudar. se levantou e, junto com Andy, levantaram o sofá, cada um segurando em uma ponta. chutou a porta, trancando o carro ao pressionar um botão na chave, e andou com o sofá até a portaria, onde esperaram o elevador com muito esforço. Sem que percebesse, já estávamos na porta do apartamento e tentava, sem sucesso, fazer a chave entrar enquanto equilibrava o outro lado do sofá, tentando não forçar muito o de Andy. Talvez eu pudesse ajudar. Coloquei minha mão sobre a dele, o orientando a achar o buraco da fechadura e virando a chave para a esquerda, abrindo a porta. a chutou com força, fazendo com que batesse na parede e antes que ela fechasse de novo, entrou. Subimos a escada e os dois soltaram o sofá ao mesmo tempo assim que chegaram ao quarto, fazendo um barulho alto que parecia que haviam quebrado. Já querem quebrar o sofá antes mesmo de ser usado, pode isso? deu algumas notas para Andy que, depois de muita insistência, aceitou. Andy parecia ser uma boa pessoa, deveria ter uns quarenta anos e um sotaque puxado para o espanhol mostrava que ele não era inglês.
- Vamos colocar no mesmo lugar? – Perguntou, depois de levarmos Andy até a porta.
- Pode ser, as medidas são as mesmas e é um bom lugar, mas você que sabe... - Comentei e confirmou balançando a cabeça. Ajudei a tirar os plásticos que envolviam o sofá e a empurrá-lo até a parede, colocando o antigo de lado para dar espaço ao novo. – Onde vamos colocá-lo? – Apontei para o sofá antigo.
- Não sei. O que você acha melhor? – Perguntou, passando a mão nos cabelos e mordendo o lábio. Tortura.
- Er, não sei também. – Disse nervosa. Porcaria de . Ele riu baixo e empurrou o sofá antigo para a parede ao lado. Abri o sofá para ver se ele também era confortável aberto ou era só quando estava fechado e deitei. Era realmente confortável, não era daqueles que você podia sentir a madeira porque só tinha uma fina camada de estofado, era realmente um sofá bem feito. Fechei os olhos para aproveitar o conforto e senti o meu lado afundar e deduzi que era também querendo experimentar sua mais nova aquisição.
- Acho que você vai ter que dormir na cama. – Brincou.
É, talvez as coisas melhorem nessa vida confusa.
Mas só enquanto eu tiver ao meu lado, mesmo que isso soe estranho.
Oh take me back to the start
acabou dormindo lá mesmo, no sofá, depois de passarmos o resto do dia conversando e comendo besteiras. Já deveria ser madrugada quando caímos no sono e se não fosse o celular dele tocando, só acordaríamos à tarde. Ele se esticou para pegá-lo no chão e atendeu, ainda sonolento. Enquanto ele respondia com monossílabas para a pessoa no outro lado da linha, me virei para tentar voltar a dormir, sem sucesso já que minutos depois me cutucou avisando que teríamos que sair. Perfeito, pensei antes de me levantar. Sentia-me cansada, tanto fisicamente quanto mentalmente, o que era estranho. Meu cérebro parecia não querer aceitar meus comandos como uma criança teimosa. foi até o outro lado do quarto e abriu o armário, pegando qualquer peça usável e se trocando, enquanto fechava o sofá-cama. Fui até o seu lado, pegando alguma blusa na parte destinada às roupas de sua irmã e troquei ali mesmo. Ele pareceu ter se assustado e eu o olhei. - Que houve? – Perguntei.
- Eu continuo sendo homem, okay? – O olhei estranho. Qual foi, ?
- Ficou excitado, foi? – Ri. Não podia perder a oportunidade de zoar dele. – Quer ajuda aí? – Complementei, olhando para suas calças de um modo safado e ri. Mas o que estava acontecendo comigo? Tudo bem que ele poderia até ser meu protegido e essas baboseiras que já cansei de tentar entender, mas fazer piadinhas desse jeito não era agradável para ninguém.
Joguei a blusa que antes estava no meu corpo sobre seu ombro e o deixei, caminhando até meus tênis que, por algum motivo, estavam do outro lado do quarto. Realmente, aquilo estava uma bagunça. Havia sapatos espalhados pelo chão, perto das paredes e havia roupas penduradas em qualquer coisa que poderia servir de móvel. Fora os copos e pratos de ontem, que ainda estavam sobre a não utilizada escrivaninha que apoiava uma TV, que dissera que não funcionava mais. Parecia até um quarto de adolescente e não um de um homem de 25 anos.
- Você é tão engraçada que deveria trabalhar na TV, faria sucesso. – Respondeu as minhas provocações, se virando e me olhando com os braços cruzados, ainda com a blusa no ombro. Desviei minha atenção dos cadarços para ele, que queria parecer sério, mas suas feições mostravam o contrário. Rolei os olhos, com um sorriso divertido no rosto e voltei a amarrar o tênis. também se calçou e em poucos minutos estávamos prontos.
- Para onde vamos? – Perguntei já na garagem, constatando que ainda não sabia para onde iríamos. estava um pouco a minha frente, pois estávamos atrasados e eu tentava acelerar o passo, mas minha má condição física não permitia.
- Vamos para a gravadora, fazer o quê não sei. Acho que esqueci algo importante... – Respondeu pensativo.
- Novidade você se esquecer de algo. – Brinquei e ele se virou, me olhando divertido. Rolou os olhos e abriu o carro, que estava ao nosso e lado, mas eu não havia percebido. Acho que lerdeza era passada de pessoa para pessoa e não sabia. entrou no carro e eu fiz o mesmo, esperando alguma resposta à pequena provocação. Saímos da garagem subterrânea e os raios solares nos atingiram em cheio, fazendo com que os olhos ardessem, por ainda estarem acostumados com a iluminação artificial e baixa da garagem. pediu seus óculos e eu o entreguei depois de ele me dizer que estavam no porta-luvas. Agradeceu e não disse mais nada.
- Você está chateado comigo? – Perguntei, o olhando nos olhos. Ele desviou a atenção do trânsito por alguns segundos e retribuiu o olhar, me olhando como se pudesse ler minha alma.
- Não, por que estaria? – Disse, voltando a se concentrar no trânsito.
- Porque eu brinquei com você e você não respondeu nada... – Expliquei, olhando para minhas mãos apoiadas na minha perna. – Se você não gostou dela, desculpa. Não quero ficar brigada com você. – Disse, sentindo um alívio em minhas costas. Era só o que faltava, com toda essa confusão, ficar brigada com alguém a quem tenho que ficar 24 horas por dia. Ele me olhou confuso e disse:
- Você ‘tá falando do quê?
- Na garagem, , eu disse que não era novidade você esquecer algo e depois disso você não me respondeu mais nada... – Expliquei.
- , eu nem ouvi você dizendo isso. – Disse, parando o carro. – Bom, já que é assim: vai se fuder. – Sorriu e eu ri, sendo acompanhada logo em seguida por ele. Rimos e depois de algum tempo ficamos em silêncio, que pela primeira vez não foi incômodo para nós. desligou o carro e saímos do mesmo, ficando um ao lado do outro enquanto esperávamos para poder atravessar. Atravessamos e entramos na gravadora, que estava calma. foi saudado por todos que passavam pelo caminho e ele, gentilmente, respondia. Mal sabem elas que ele é um ogro sem educação na maior parte do tempo. Pelo menos comigo.
Entramos no estúdio, que era uma grande sala com paredes revestidas por espumas pretas contra o som, vários instrumentos e parafernálias eletrônicas que demoraria minha vida toda para saber mexer, e todos já estavam presentes. Um silêncio reinou na sala assim que entramos e não sabia o que fazer ou o que falar.
- Desculpa pela demora. – Ele disse, quebrando o silêncio e exatamente todos na sala bufaram rindo, jogando algumas bolas de papel nele. Estava ao lado dele e pude ver as feições de seu rosto mudando de um semblante preocupado para calmo. Era engraçado ver preocupado com uma coisa tão simples assim, mas isso mostrava o quanto a banda era importante para ele. E para todos os outros, isso também era claro. Eles eram como power-rangers, cada um possui seu poder próprio, mas juntos formam o megazord. Comparação um tanto infantil, mas real. Depois de várias risadas, bolas de papéis e xingamentos, todos se concentraram em dar o melhor de si naquele ensaio. Sentei ali mesmo no chão, encostada à parede que me dava uma visão privilegiada da outra parte do estúdio, onde no momento eles ensaiavam. Senti alguém ao meu lado e me virei para ver quem era, dando de cara com . Sorri e a abracei, sendo correspondida.
- Não pensei que te encontraria aqui, mesmo com tudo. – Confessei e ela riu.
- Se está aqui, eu também estou, não é? – Rimos. estava diferente, havia algo novo nela, não que eu a conhecesse muito para poder ter certeza disso, mas algo havia mudado. Minha vida, a partir daquele show, ficou toda estranha, isso era fato. O hábito de querer achar um sentido nas coisas continuava a me perturbar, mesmo sem razão. havia se tornado muito especial para mim de uma maneira rápida, mas ainda sim verdadeira. Quando eu a vi no ônibus, senti algo diferente, mas nunca imaginei que iria tomar proporções desse jeito. Nem minha amizade com ela, nem minha vida. e , de maneiras diferentes, me ajudavam a lidar com tudo isso de uma maneira fácil, com eles perto de mim era como se não houvesse problemas. Talvez não houvesse, talvez fosse só meu hábito de arrumar problemas em toda parte, mas talvez realmente houvesse. Isso era um grande dilema.
- Pois é. – Concordei e ficamos em silêncio por algum tempo. – E você, como ‘tá? Parece diferente. – Sorri e ela me acompanhou.
- Ah, nada demais. – Riu sem graça e eu tive que rir também. Agora não era mais hipótese, era certeza: havia acontecido algo.
- Ok, você finge que não tem nada acontecendo e eu finjo que acredito, certo? – Rimos e eu rolei os olhos, ainda rindo. Realmente, até que ter acordado relativamente cedo após quase madrugar estava se saindo bem mais divertido que o esperado. Ficamos alguns minutos em silêncio e logo depois engatamos uma conversa animada sobre alguma banalidade que só foi interrompida quando os meninos cruzaram a porta completamente cansados e suados. e se jogaram no pequeno sofá ao nosso lado e e se sentaram no chão, também ao lado do sofá, mas do lado oposto ao nosso. Sorri para ao notar seu olhar sobre mim e ele sorriu rapidamente de volta, rindo logo em seguida de alguma bobagem dita por . Olhei para a fim de começar alguma conversa, aquele silêncio da nossa parte já estava ficando tedioso, quando notei uma coisa muito peculiar, podemos dizer.
olhava fixamente para , que olhava fixamente para ela.
Ou as coisas estavam muito ruins entre os dois ou as coisas estavam boas demais... Assim que sorriu, a sentença foi comprovada.
As coisas andavam boas demais entre os dois.
Como? Eu não sei. E talvez nem queria saber.
Talvez até queira, mas só um pouco.
Depois de um dia de ensaio árduo por parte dos meninos, a incrível hora de ir embora finalmente chegou. Meu corpo implorava por qualquer tipo de descanso, nem que fosse um banho ou um cochilo. parecia desejar o mesmo e até um pouco mais, já que foi ele quem realmente se cansou ali. Eu apenas fiquei praticamente o dia todo sentada, conversando com e tentando arrancar – sem sucesso - algo dela sobre . Porque era claro que tinha algo acontecendo.
Estávamos em roda em frente à gravadora que já se preparava para fechar, os meninos terminando de acertar os últimos detalhes da turnê que já estava por vir e e eu ainda conversávamos sobre música, aproveitando o clima musical que pairava sobre nós. Depois de quase uma hora, os quatro decidiram que era hora de ir para casa e se despediram com rápidos e tipicamente masculinos abraços, enquanto e eu apenas com um aceno, pois já tínhamos nos despedidos lá dentro. Parei ao lado de , que terminava de combinar algo com e o esperei.
- Ok, então amanhã quando estiver chegando lá te ligo, pode ser? – Perguntou e confirmou, finalmente se despedindo e seguindo rumo ao carro. Caminhei junto a ele, esperando já entrar no carro para poder contar a ‘’novidade’’ para ele. Afinal, não são só as mulheres que gostam de fofoca.
- !
- ! – Nos chamamos ao mesmo tempo, o que nos fez rir.
- Pode falar. – Disse.
- Não, você fala primeiro.
- Não, , pode falar, eu não me importo. – Insisti.
- Não, primeiro você.
- . Fala. – Disse já um pouco irritada. Ele riu e começou:
- Você não sabe da última. – Começou a falar e ligou o carro, continuando logo que o carro ligou. – ‘tá de quatro pela . – Arregalei os olhos assustada. Tudo bem que isso eu já suspeitava, mas suspeitava da parte dela... Agora dele? Estranho, estranho, estranho.
- Ela também está, eu acho. – Confessei, apoiando o braço na janela enquanto minha mão segurava minha cabeça, como se pudesse ajudar a entender a confusão que minha amiga tinha se metido.
- Cara, isso é muito estranho. – disse em tom baixo, apoiando os braços nas pernas enquanto esperava o sinal abrir, que eu nem havia notado que estava fechado.
- É surreal.
- Ainda mais surreal, você quis dizer. – Ele riu, mas eu não o acompanhei. Ao imaginar a cena de e juntos, involuntariamente meu cérebro projetou a minha imagem e a de juntos. Agitei a cabeça freneticamente, como se quisesse tirar esses pensamentos conturbados da minha cabeça e voltei a encostar a cabeça da janela, me vigiando para que não voltasse à imagem.
- O que houve? – Perguntou.
- Nada. – Menti, mas ele não pareceu ter se convencido.
- Nada. – Imitou meu tom de voz de uma maneira forçada. – O que houve, sério?
- Isso é tão surreal, sabe? e devem estar realmente necessitados ou coisa assim. Tudo que nós vivemos eles também devem viver, eu acho, e arrumar mais problemas? Porque isso é um problema! Isso é um grande problema. Será que vale à pena? Quero dizer, se isso não der certo? Eu também gosto da , mesmo com pouco tempo, me apeguei muito rápido a ela. É muito estranho, é surreal, inimaginável, é como imaginar nós dois juntos, sabe? Não é como se isso fosse acontecer... – Não pude completar a frase que saia de minha boca sem vigilância porque um barulho de freada cortou o carro. Olhei rapidamente para , que olhava estático para frente e o chamei, mas ele não me respondeu. O chamei novamente, mas não obtive resposta de novo.
- ? – Perguntei preocupada, encarando o vulto pálido ao meu lado que continuava a olhar estático para frente enquanto sua mão agarrava com força o volante. me olhou de relance e voltou a normalidade, respirando fundo e voltando a estacionar o carro na garagem do prédio. Voltei ao meu lugar, sem saber direito o que havia acontecido. E nem saberia, porque não parecia estar muito afim de dizer. Ele desligou o carro e saímos, indo em direção ao elevador em silêncio.
- O que houve? – Perguntei sem conseguir mais aguentar.
- O quê? – Perguntou confuso.
- Eu perguntei o que houve.
- Eu entendi isso, eu só não entendi o motivo de haver algo errado. – Disse calmamente e eu rolei os olhos.
- Sério, , você quase bateu com seu precioso carro na parede da garagem e você me diz que não tem nada errado?
- Se tivesse algo errado, eu com certeza estaria falando. – Respondeu secamente e entrou no elevador, que havia chegado. Entrei logo em seguida e parei ao seu lado, observando a porta se fechar e o painel eletrônico em cima da mesma subir gradativamente junto ao elevador. O único barulho que podia ser ouvido era o das chaves de que batiam intensamente entre seus dedos, já que nenhum dos dois se atreveu a dizer algo. Como dizia minha avó, nada como fechar o dia com chave de ouro.
Entramos no apartamento e eu subi rapidamente para o quarto, esquecendo do pequeno detalhe que não podia fazer isso. Bati com tudo em , fazendo com que nós dois caíssemos no chão, um em cima do outro. Bruce latia sem parar, mas tanto eu como estávamos ocupados demais para notar seus latidos. Não entendia, mas de uma hora para outra os lábios de me pareceram extremamente convidativos e provavelmente os meus também, já que ele não conseguia desgrudar os olhos dos mesmos.
Ah, pelo amor de Deus! Um minuto antes o cara estava te tratando como uma qualquer, agora isso? Vamos , acorde para a vida! Mil pensamentos passavam por minha cabeça, como vozes em uma multidão, mas nenhuma me parecia forte e convincente suficiente. se aproximou mais e eu podia sentir sua respiração descompassada batendo no meu rosto. Oh céus , não faça isso. fechou os olhos e eu fiz o mesmo, ansiosa pelo o que ia acontecer.
Ia, se telefones celulares não existissem.
Sério, quem foi que criou aquela maldita engenhoca inútil?
O telefone de começou a tocar e vibrar no bolso dele, nos assustado e acordando para a realidade. Saí, com um pouco de dificuldade, de cima dele e ele atendeu o celular, com uma voz nada agradável. Usei todos os xingamentos que sabia em diversas línguas e se existissem mais, com certeza usaria. Xinguei o celular, me xinguei e, principalmente, xinguei aquele homem que começava a mexer comigo de uma maneira diferente, popularmente conhecida como .
CONTINUA
N/a: Errrrr, como começar isso? Primeiro: a quem acompanha a fic e gosta dela, desculpem pela demora na att. Segundo: mil perdões, mas eu vou tirar essa fic dos 4 sites.
Não me matem, sério! Eu vou reescrevê-la, só isso! Eu nunca gostei muito da história dessa fanfic e nem da forma de como eu a escrevia, então eu resolvi reescrevê-la agora, quando ela ainda está relativamente pequena. Por isso eu vou mudar algumas coisas no enredo, algumas cenas podem deixar de existir, outras surgirem. Não sei ainda, não tenho nem uma história decente pra essa nova ''whoever she is''. Eu realmente não sei se tem alguém que acompanha essa fanfic, mas se tiver, mil perdões.
Ah, como eu sou uma pessoa legal, eu só vou pedir pra retirar essa fic mesmo quando eu já tiver rescrito, ou seja, vocês podem sempre entrar aqui e ler a fic eba. o/
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