Homecoming II

Autora: Pamela Leão
Status: Em Andamento
Revisada por: Pamela Leão
Categoria: McFLY Fics
Sub-Categoria: Romance/Drama + LongFic
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Prólogo


Naquele momento não podia me sentir mais patética, isso era real, além de patética, estúpida e contraditória. Uma maldita nuvem pairava escura e pesada sobre minha cabeça, era formada por milhões de pensamentos embrenhados em lembranças; nada limpo e nada fácil. Aquela nuvem só me dificultava enxergar qualquer clareza em tudo aquilo. Se é que ainda podia existir alguma clareza. Lá estava eu, dirigindo para um encontro com aquele que eu mais queria distância.
Eu posso dizer com toda a certeza possível que minha vida sempre foi cheia de situações contrárias aos enredos de contos de fadas, mas nos últimos anos aquilo estava absurdamente perverso. O destino não se contentava mais em pregar peças, parecia que ele queria outra coisa, queria me ver no fundo.
Mais uma vez o semáforo ficou vermelho, pisei no freio enquanto tamborilava os dedos no volante. Aquela seqüência já havia repetido-se incontáveis vezes. Eu poderia me esforçar para encontrar uma solução, sei que sim. Poderia encontrar qualquer caminho que seguisse para uma direção oposta àquela, não podia? Os pingos que caíam e batiam contra a lataria do carro só me deixavam ainda mais nervosa. Meus pulmões se expandiram a ponto de não caberem dentro do meu peito, meu coração já estava descompassado, sofrendo de uma taquicardia bem séria, aquilo estava acontecendo desde o momento em que decidi me encontrar com ele. Meus pés arrastavam âncoras que apenas serviam para tentar me impedir de continuar com aquilo, junto com o pouco de sanidade que ainda queria o controle dos meus neurônios.
"Não se sinta à vontade para fazer nada por mim, eu não fiz nada por você"

01


O fim de tarde finalmente havia se estabelecido no céu de Roma. As pessoas - maioria turistas - passeavam descontraídas pela rua carregando suas sacolas cheia de presentes, e nas mãos seus sucos naturais. Era final de julho, o calor não era apenas superficial, era possível sentir os raios de sol penetrando por minha pele exposta. Ao virar o iPod nas mãos pude ver que sua bateria estava para acabar, sabe-se lá por quanto tempo eu estive sentada naquele banco. Era confortável e tranqüilo e isso só me dificultava saber quanto tempo havia se passado desde a hora em que decidi sentar e pensar na volta para casa. O céu já era laranja e roxo, uma mistura agradável que fazia meus olhos brilharem, uma das poucas que ainda conseguia esse feito. Estiquei uma das pernas já cansada de ficar flexionada, e apoiei meu braço sobre o joelho ainda dobrado. Poderia passar o dia ali, suspirando atrás de um bom motivo que fosse, realmente, convincente a respeito da minha volta para Londres. O tempo, no quesito anos, estava voando desde que deixei o colegial, minha faculdade estava concluída, eu tinha meu emprego. Quatro tortuosos anos. Apenas meu emocional se queixava, isso é a verdade, mas eu havia escolhido, não havia do que reclamar.
Primeiras férias desde o fim da faculdade e a efetivação na redação de uma conceituada revista de música. Estava em Roma apenas por pedido de meus avós, e também com um desejo secreto de descobrir uma nova possibilidade de vida. Uma vida longe de coisas que a todo segundo me remetiam ao passado. Essa sensação é péssima, diga-se de passagem, qualquer motivo é capaz de reviver uma memória que você escolheu deixar adormecida em um subconsciente que deveria ser inacessível.
Suspirei profundamente mais uma vez, fechei os olhos e deixei que meu pescoço pendesse para trás. Era desagradável pensar que aquela era minha última noite na cidade, na manhã seguinte eu estaria em um avião e logo que chegasse não teria mais paz. Voltei a abrir os olhos, convencida de que deveria levantar, encontrar um táxi e voltar para o jantar. Aquela foi uma das poucas vezes que saí sem o carro que meus avós deixaram a minha disposição. Pensei que seria bom conhecer a cidade como uma verdadeira turista, caminhar pelas ruas famosas, olhar cada monumento com calma, experimentar os famosos doces. Antes de tentar parar um táxi na movimentada Piazza del Colosseo, fui com passos curtos e rápidos até um vendedor de sorvetes. O dia estava quente e o fim de tarde absurdamente abafado.
- Per favore, un gelati al lampone - disse me referindo ao sorvete de framboesa. Naquelas semanas de descanso várias coisas entraram para minha lista de delícias indispensáveis, o gelati al lampone junto ao frizzante eram os melhores. Assim que o sorveteiro me estendeu o pequeno pote com gelati, agradeci e voltei a caminhar procurando por um táxi.
Não demorou muito para que eu achasse, e assim que o veículo começou a se movimentar ditei ao motorista o endereço para o qual deveria ser levada. A casa de meus avós estava numa região um pouco afastada do centro, de carro levava mais ou menos meia hora; durante todo o caminho acompanhei mais uma transformação nas cores que pintavam o céu. O conjunto de mansões, que formava um bairro seleto de Roma, já estava bem próximo, o céu já era roxo e o cansaço começava a tomar conta de minhas pernas.
A enorme porta da casa estava entreaberta, olhei em volta e vi Joanna, governanta da casa, instruindo um dos empregados. Empurrei a enorme porção de mogno e percebi que estava tudo muito quieto. Provavelmente meus avós descansavam, ou passeavam pelas redondezas. Subi as escadas e assim que entrei em meu quarto joguei a bolsa sobre a cama, tirando a blusa no trajeto até o banheiro. Não teria paciência para encher aquela banheira para tomar banho com vários daqueles sais coloridos que enfeitavam meu banheiro. Girei o registro e deixei que a água morna, na temperatura perfeita para o dia, caísse sobre minha cabeça. Cada gota que caía deixava meu corpo cada vez mais leve. A sensação de descanso não me fez demorar, como todos os dias, o jantar seria servido cedo.
Com a minha partida no dia seguinte, deixei para fora apenas o que seria necessário, uma roupa para jantar, minha camisola, coisas de higiene e uma roupa para a viagem. Acabei por colocar um vestido que minha avó havia me dado dias antes, mas somente com o propósito de agradá-la. O convite de passar as férias não era inocente, ela queria impor algumas coisas. Quatro anos passaram desde que descobri que deveria assumir os negócios, afinal meu avô não tinha mais condições. Há dois, minha vó estava à frente de tudo, e eu não me manifestei, terminei meus estudos e fiquei completamente calada. Pode ser que soe como "fugir da raia", entretanto é involuntário. Administrar tudo aquilo continuava fora dos meus planos.
Antes de descer ainda verifiquei minha aparência uma última vez. Lembro muito de quando minha mãe dizia que viver sob o mesmo teto que minha vó exigia rigor e cuidado, sem contar concentração e paciência, ações deviam ser calculadas. Estar bem vestido até dentro de casa era fundamental, o tipo de coisa que eu não estava acostumada. Deixei meu quarto, desci as escadas e encontrei meu avô sentado em frente à lareira apagada enquanto lia um livro qualquer.
- Que bom que está pronta, querida. Vamos, o jantar já está na mesa. - Ajudei-o a levantar e deixei que entrelaçasse seu antebraço ao meu. A sala de jantar estava arrumada de maneira impecável como sempre. Os três lugares habituais contavam com mais um. Apenas estranhei.
- E a vovó? - perguntei assim que meu avô tomou sua posição na cabeceira da mesa.
- Está vindo, querida. Creio que esteja terminando de resolver alguns assuntos com o nosso convidado. - Ele me disse com um sorriso no rosto. Desde que o vi pela primeira vez depois de saber de sua doença, percebi algumas mudanças. A fala cheia de pausas, a expressão sempre calma, a respiração em alguns momentos forçada. Limitei-me a não perguntar quem era o tal convidado, sabia muito bem que meu avô não gostava de muitas perguntas. Enquanto observava Joanna colocar um pouco de suco em meu copo, escutei passos se aproximarem da sala de jantar, uma conversa animada também estava cada vez mais perto. Minha mão, que levava meu copo à boca, não conseguiu terminar seu movimento, tudo ficou um pouco confuso assim que meu cérebro entrou em uma pane rápida e sucinta. Com lentidão voltei a colocar a taça sobre a mesa, à frente de meu prato, apertei meu olhar sobre a figura que entrava junto com minha vó.
- Ethan? - sussurrei somente para mim. Meu avô já estava de pé, mesmo que com dificuldade, para cumprimentar o rapaz. Minha vó, por sua vez, tentava ser discreta ao lançar olhares em minha direção. Ela provavelmente esperava que eu me levantasse para repetir os gestos de meu avô, mas eu simplesmente não conseguia. Eu apenas me perguntava o que ele fazia ali. O silêncio chegou aos meus ouvidos e de repente pude sentir todos os olhares da sala direcionadas para mim. Soltei o ar que estava preso nos pulmões, entretanto não me aliviei. Meus avós trocaram olhares que não passaram despercebidos por mim. Por diversas vezes desviei meu foco, até ver que Ethan tomaria o comando da situação.
- Boa noite, - sua voz estava diferente desde a última vez em que havia mantido um diálogo de menos de dois minutos com ele. Na verdade tudo em Ethan estava diferente. Sua forma física já não era mais de um adolescente, sua voz estava mais grossa, o corte de cabelo lhe caía bem, e as roupas também. Como se os traços franceses de seu sangue tivessem, finalmente, dado o ar da graça.
- Boa noite, Ethan - respondi com um tom de voz civilizado, apesar de estar tremendo por dentro. Meus avós não sabiam qual era o nível de antipatia que eu alimentava por aquele cara. Olhei mais uma vez para eles. - Vocês podiam ter me avisado que jantaríamos com mais alguém hoje. - Disse simplesmente, deixando a calma escorrer por meus músculos.
- Querida, imaginei que ficaria surpresa com a visita, mas realmente não podia contar. Uma surpresa é agradável de vez em quando. - Minha vó disse naturalmente. Tentei engolir junto com o líquido que tomava as palavras malcriadas que estava preste a soltar. - Então, sente-se, Ethan, vamos colocar todos nossos assuntos em dia.
O jantar já estava servido enquanto meus avós e Ethan estavam mergulhados em uma conversa sobre o desenvolvimento do banco, uma conversa que eu não fazia a mínima questão de participar. Cortava a carne em pedaços pequenos que eu demorava milênios para mastigar. Já fazia anos desde a última vez que tinha visto Ethan, meu rancor já devia estar curado. Ou pelo menos podia estar escondido de uma maneira que não o deixasse se manifestar.
- , por que está tão quieta? - escutei meu avô pronunciar meu nome, sorri enquanto pensava em alguma resposta.
- Apenas pensando - disse baixo.
- Querida, conte para nós o que pretende para essa volta a Londres. - Minha vó tentou incentivar com um tom extremamente falso, era visível de longe, a voz chegava a sair plastificada, tamanho fingimento. Que merda era aquela? Primeiro a visita de Ethan que eu preferia nem lembrar que existia, agora essa maneira de falar.
- Vou resolver os últimos detalhes do meu novo cargo, agora não viajarei mais, ficarei definitivamente em Londres - falei colocando na boca um pedaço de carne em uma velocidade anormal, tudo para me manter ocupada e longe de mais perguntas.
- Sua vó chegou a comentar que você conseguiu entrar para Oxford. Isso é bem importante para a carreira que eu imagino que queira construir. - Ethan disse tão calmamente que senti minhas pálpebras pesarem. Falando bonito e daquele jeito ele pretendia angariar a simpatia de alguém? - Estamos bem próximos, estou terminando algumas matérias da minha graduação em Economia, o trabalho no banco junto ao meu pai me fez dividir o tempo com os estudos.
- Isso é fabuloso. Fleur comentou comigo sobre sua bolsa na Echonomics, realmente, você puxou o talento e esforço de seu pai. - Minha vó estava realmente lambendo os pés daquele cara. Jantar deveria ser uma hora de paz, tranqüilidade, alegria, pelo menos foi isso que minha mãe me ensinou, e naquele momento tinha quase certeza de que ela não aprendeu os preceitos da felicidade da refeição com minha vó.
Se eu ainda pretendia acabar com aquela palhaçada teria que levantar assim que colocasse os talheres ao lado do prato. Puxei o ar e vi a empregada entrando com uma travessa que provavelmente guardava a sobremesa. Soltei o ar e aproveitei a deixa.
- Me desculpem, mas eu preciso subir - disse colocando o guardanapo que antes estava sobre meu colo na mesa e acelerando o passo antes de ouvir minha vó falar.
- , temos a sobremesa.
- Obrigada, aproveitem. - Por segundos pensei em lançar uns beijos e subir a escada correndo, mas aquilo seria absurdamente infantil. Infelizmente eu ainda tinha uma imagem para cuidar, uma imagem de menina crescida.

Fechei a porta e me encostei ali. Não foi cansativo subir as escadas, mas meu peito subia e descia em um ritmo mais rápido que o normal. Aos poucos desgrudei o corpo dali, caminhei até minha sacada e puxei as cortinas. Enquanto tirava os sapatos, pude ver que a noite caía estranha e fria, algo não estava normal e uma sensação de tempos difíceis como quatro anos atrás me invadiu. Com certeza não seria algo que pudesse mudar minha vida. Era apenas uma noite diferente. Joguei o peso contra o colchão e abri os braços, meus dedos quase chegavam às duas extremidades da cama. Cruzei os pés e continuei observando o teto. Branco e vazio, mas muito atrativo. Qualquer coisa poderia ser atrativa enquanto meus neurônios não se organizassem mais uma vez. Ethan.
Voltei do banheiro com dentes escovados e cabelos soltos, o vestido daquela noite já estava na mala e as únicas peças de roupa que restavam seriam aquelas que eu usaria na volta para casa. A pequena porção de pano que era minha camisola parecia não me proteger o suficiente no ar frio que entrava pela janela. As cortinas voando daquela maneira, com a lua como plano de fundo, deixavam as coisas um pouco sombrias. Engatinhei até chegar ao meu lugar certo na cama. Iria dormir naquele momento se não fossem as batidas na porta.
Já fazia mais de uma hora que eu havia largado aquele jantar. Minha vó seria a única que bateria na minha porta depois daquilo, com certeza pronta para me aplicar um sermão por não saber me comportar a mesa e esperar o convidado terminar sua sobremesa. Infelizmente minha porta não possuía um olho mágico.
- Ethan? Ainda aqui? - não poupei rispidez ao falar com ele sem que estivesse na frente de meus avós.
- Eu espero que sua rispidez não seja graças a mágoas do passado - ele disse tratando de entrar em meu quarto sem autorização. Quem sabe eu pudesse ter escolhido dormir de burca naquela noite. O olhar dele sobre minhas pernas não passou despercebido e ainda por cima me incomodou.
- Eu não sou do tipo de pessoa que guarda mágoas. Mas sou do tipo que pergunta que diabos alguém quer entrando no meu quarto sem nem pedir. - Voltei a encarnar minha falta de educação e esperei uma resposta de braços cruzados.
- Seus avós me convidaram pra jantar, acho que isso é um sinal.
- Sinal de quê?
- De que devemos nos aproximar, e esquecer o passado. Inclusive as pessoas que deixamos para trás. - Falando aquela última frase ele pareceu entrar dentro de minha mente e alegar que sabia muito mais do que eu imaginava. - Acho que só passei para te desejar boa noite.
- Se era só isso você já devia ter saído daqui. - A milímetros de mim senti seu hálito quente bater na pele do meu pescoço.
- E dizer que ainda nos veremos. - Sua mão soltou minha cintura, que segurava com uma certa força. Impulsionei o braço para frente batendo a porta com muito gosto. Para melhorar ainda dormiria com aquele perfume francês impregnando o ar de todo meu quarto.

Minhas coisas estavam prontas, eu estava acordada, mas não disposta. Talvez quando chegasse em casa sentiria os efeitos energizantes dos novos ares. Vesti a roupa que já estava separada desde o dia anterior e me despedi daquele quarto. Escutei o atrito das rodinhas das malas com o chão enquanto descia as escadas, tentando ser silenciosa. Provavelmente era bem mais cedo do que eu precisava acordar, mas se não acordasse naquele momento não levantaria mais. Segurei a pequena alça da mala para descer as escadas, não dava mais para fazer como eu costumava quando tinha sete anos, descia toda a escada puxando a mala de rodinhas a batendo em todos os degraus fazendo um barulho desgraçado. Assim que cheguei ao pé da escada pude ver minha vó abraçando o próprio corpo, seu roupão de seda arrastava no chão e pelo jeito estava bem entretida em observar a paisagem pela janela. O barulho dos meus sapatos e da minha mala a despertaram.
- Gostaria de ter falado com você ontem, mas achei melhor não - quem sabe ela também soubesse que na noite anterior eu não estaria de brincadeira. - Achei um pouco indelicado você sair da mesa daquela maneira.
- Eu achei indelicado você chamar o Delacoure para jantar e ainda por cima agir como se eu estivesse adorando aquilo. - Mordi a língua assim que percebi o quão ríspida eu tinha sido. - Desculpe.
- Tudo bem - o tom de elegância já estava em sua voz mais uma vez. -, acho que não teremos problemas para conversar logo mais.
- Logo mais? - A maneira como ela disse me fez pensar que ela não estava se referindo a uma simples ligação.
- Assim que chegar em Londres te ligarei e combinaremos de nos encontrar, teremos algumas coisas para conversar. - Ela descruzou os braços e colocou as mãos pequenas dentro dos bolsos do roupão. - Já está pronta?
- Sim - suspirei - A rotina volta ao normal.
- Eu e seu avô esperamos que você volte logo para nos visitar - sua mão repousou no meu ombro. - Voltaremos a nos falar, em breve.
Continuei estranhando aquela maneira de falar, a relação com minha vó tinha se tornado mais próxima depois da notícia da doença de vovô. Seu tom tinha sido diferente, algo como uma notícia que eu não gostaria de escutar. Mantive-me quieta.
- Tudo bem, deixe um beijo e um abraço para o vovô. - A abracei e me despedi. - Até mais.
A enorme porta da sala se abriu e bem ali na frente um carro me esperava, rolei os olhos e voltei a olhar para ela. Vovó apenas sorriu e apontou para o carro. Um homem de terno e gravata abriu a porta de trás para mim e se encarregou de pegar minha mala e colocar no bagageiro.
O aeroporto era próximo, agradeci pelo traslado da casa até ali, a bolsa que eu levava comigo estava cheia de coisas e bagunçada para variar, procurei pela agenda onde minha passagem estava guardada.
A poltrona da janela me ajudava a pensar, ou talvez só servisse para me fazer pensar em coisas que já deviam estar mais do que enterradas em minha memória. A viagem seria curta e se eu continuasse com os olhos fechados passaria ainda mais rápido, com certeza.

- Lar doce lar. - As duas malas que eu carregava passaram com dificuldade pela estreita porta de casa. Meus ombros caíram pesadamente, as mãos soltaram as malas, era bom voltar para casa. Minhas narinas detectaram o cheiro de lavanda que infestava toda a sala, tudo brilhava, os móveis e enfeites que ocupavam qualquer espaço daquela sala estavam brilhando, como se tivessem sido comprados naquele momento, recém tirados da caixa. Os retratos de vidro - vazios - que usavam o espaço da minha estante refletiram as luzes claras da sala assim que passei os dedos pelo interruptor e acendi as luzes. - Maria, se não fosse você.
Era óbvio que Maria havia passado por lá. Só ela poderia manter a casa tão limpa durante todo o tempo que fiquei fora. Há três anos a única pessoa conhecida que via era Maria, sempre presente em minha casa, fazia companhia em momentos que a solidão parecia maior do que nunca, o silêncio parecia mais barulhento que qualquer show de hardcore. Maria cuidava de mim, Maria era como uma mãe, não sabia o que faria se não a tivesse por perto. Já estava há quatro anos sem falar com ninguém, me mantinha informada de tudo por jornais e revistas - maioria de fofocas -, eu não queria saber, mas era impossível que tudo passasse despercebido. Ele estava fazendo sucesso, e pelo que eu via estava feliz. Todo momento uma nova namorada aparecia e aquilo já não me incomodava mais. Cada um seguiu seu caminho, eu escolhi assim, podia ter sido diferente, não precisava ser daquele jeito. Eu quis assim. Sacudi a cabeça afastando aqueles pensamentos.
Aproveitei que ainda estava de pé e arrastei as malas para perto do sofá. Joguei meu corpo contra aquelas almofadas e pude sentir o cheiro floral sair dali também. Naquele momento pude relaxar, eu só precisava relaxar, tirei os sapatos de salto que me mataram durante toda a viagem, coloquei os pés sobre a mesa de centro. Voltar para casa significava obrigações de volta, eu passaria a noite organizando minhas papeladas e me colocando a par de tudo que perdi naquele último mês. Durante anos de graduação, só uma pessoa havia realmente entrado em minha vida. April. Mais do que inteligente, carismática e acolhedora. Alguém que não se preocupava em saber do meu passado, interessada apenas em construir uma amizade, afinal ela também não tinha ninguém. Era minha companheira na revista, passou pelos quase dois anos tortuosos de estágio, e havia sido efetivada junto comigo. Respirei fundo, meu trabalho estaria oficialmente de volta assim que abrisse minha caixa de e-mails. Antes de fazê-lo apertei a secretária eletrônica, a espera de alguma mensagem.

01 de julho - 5h37 p.m
Querida, sei que agora você está longe, mas liguei para desejar boas férias, seja feliz nesse período de descanso, aproveite para se divertir e fazer coisas que não faz há muito tempo. Reflita e cure essas feridas que insistem em ficar na sua vida. Te espero na volta!
Maria.


Escutei toda a mensagem de Maria em silêncio. Era tão pequena, mas significava tanto. Eu sabia bem do que ela falava, sabia bem quais eram as feridas as quais ela se referia. Meu peito era esburacado, nem sempre as decisões tomadas com muita convicção garantem que sairemos ilesos de tudo. Apertei novamente o botão.

05 de julho - 4h57 p.m
, eu sei que você está aproveitando suas nano-férias, mas tenho notícias para você. As coisas vão começar a mudar de ritmo aqui na revista e você precisa estar a par de tudo. Fora que o Addam está louco sem você por aqui, nem mandar nisso ele consegue mais. Algumas ligações estão chegando aqui para você e cartas também, e-mails diretamente para a direção da revista. Você anda aprontando alguma coisa? Assim que chegar ligue pra cá. Ou melhor, ligue no meu celular. A gente se fala.
Matt.


Eu mal havia pisado em casa. Matt conseguia ser um estagiário mais estabanado que eu fora. Ele era bem fofo, companheiro, engraçado, mas ainda tinha muito o que aprender.

30 de julho - 02h56 a.m
Eu sei que esse não é o tipo de coisa que se deve fazer, mexer nas coisas dos outros e pegar coisas sem permissão, mas eu não consegui me segurar. Já faz quatro anos que eu luto por esse número de telefone e nada da Maria me dar, segundo ela os caminhos estavam feitos e nada podia mudar isso. Ontem ela veio aqui conversar com o , eles estavam tão distraídos, eu não agüentei. Ninguém pode descobrir isso em hipótese nenhuma, mas dane-se não estou preocupada com que os outros vão pensar. Eu só queria saber se você ainda está viva, como anda sua vida, sei que você está trabalhando numa revista. Terminou a faculdade, não? Você acabou fazendo o curso que queria? Há meses eu me pergunto como você está. Você sumiu, , desapareceu. Antes de discar esses malditos números eu tinha planejado me enfezar e ser exageradamente grossa, mas... Eu simplesmente não consigo. Não com você. Eu sinto tanto sua falta, sério, não imaginei que você fosse me fazer tanta falta. Perdi o sono desde que peguei esse número, fi
quei planejando minha fala, não deu em nada como a maioria das coisas que eu faço ou tento fazer, mas bem, você não é obrigada a voltar em suas decisões para falar comigo, se quiser continuar distante de mim eu posso até entender, mas se por um acaso você mudar de idéia e quiser conversar, anote meu número. Te amo.


Um nó já estava formado na minha garganta, meus olhos já ardiam sentindo as lágrimas que estavam por vir, eu reconheceria aquela voz de longe, tão fina e delicada, um tom que mostrava o jeito espevitado dela, um jeito para o qual eu tinha paciência sem fim. Na noite anterior a viagem eu sonhei com ela, na mesma noite em que chorei como não chorava há anos, a noite em que refletia sobre minha vida, a noite em que voltei a me lembrar de todos. Ela queria saber de mim, ela ainda gostava de mim. Levei a mão à boca sem saber ao certo o que fazer, o número já tinha sido dito e eu não tinha anotado, aquele não era o real problema, o dilema seria outro. As lágrimas já escorriam quentes por minhas bochechas. Ir ou não atrás, acreditar que ela ainda queria minha amizade ou não, manter as lembranças no fundo da memória ou trazê-las à tona?
Deixei meu corpo cair e as lágrimas dali pra frente molhariam o sofá.
Acordei com o toque do telefone, estridente quase estourando meus ouvidos, levantei lentamente sentindo meu corpo pesado, eu havia adormecido no sofá, na mesma posição que meu corpo assumiu depois que escutei a mensagem de Haylie. Passei as mãos pelo rosto enquanto o telefone continuava a tocar, me estiquei e tirei o aparelho sem fio da base.
- Alô? - perguntei com a voz arrastada.
- ? Querida, você chegou e nem me ligou! - a voz de Maria chegou aos meus ouvidos. Endireitei o corpo no sofá, sentando sobre as pernas.
- Desculpa, eu cheguei hoje cedo e acabei dormindo - disse esfregando os olhos, busquei o relógio com os olhos e me assustei ao ver o horário. - Acho que dormi demais.
- Estava preocupada quanto a sua volta, amanhã você volta ao trabalho, algumas pessoas da revista ligaram atrás de você - seu tom já era mais tranqüilo. Levantei e caminhei em direção a cozinha, precisava de um copo de água, minha garganta estava seca.
- É, estou sabendo. Ouvi minhas mensagens assim que cheguei. - Naquele instante me lembrei das palavras de Haylie, sobre pegar nas coisas de Maria. - Eu acho que podemos nos ver, o que acha de irmos ao Laplace hoje?
Sugeri aquele restaurante porque sabia que era o preferido de Maria, eu não planejava tocar no assunto que me incomodava naquele momento, apenas queria saber como tudo estava, queria estar relaxada para voltar ao trabalho na manhã seguinte.
- Acho uma ótima idéia! - Ela respondeu animada.
- Ótimo, passo aí às oito. - Desligamos e eu fui tomar um banho, trocar de roupa e desfazer as malas antes de pegar meu carro e passar na casa de Maria. A mesma casa de minha tia.

02


Depois de terminar a faculdade, me afastar das festas que duravam mais de duas noites e viajar por um bom tempo, algo estava diferente. Era certeza, com duas taças de Martini minha cabeça ainda latejava no dia seguinte, e isso só podia significar uma mínima resistência à ação do álcool. Porém meu problema poderia ir bem além da ingestão do álcool, a verdade era que eu não tinha a menor vontade de levantar da cama e ir trabalhar. Contudo ao colocar os prós e os contras na minha balança imaginária escolhi o certo: levantar e trabalhar. Primeiro, não se deve faltar ao primeiro dia de trabalho depois das férias e depois de uma promoção, e mais, minha vontade de ver April e Matt estava maior do que eu podia suportar.
Desliguei o despertador, lancei as pernas para fora da cama e os raios de sol atingiram meus olhos assim que abri as janelas. Passava das sete da manhã e demorei mais alguns minutos com meu banho e minha higiene matinal. Por fim, como sempre, o intervalo de tempo entre levantar da cama e sair da garagem não foi suficiente. Passei correndo pela cozinha para pegar uma fruta qualquer, me estiquei até o móvel mais próximo e peguei as chaves do carro. Olhei para o relógio e xinguei em um resmungo baixinho, já estava em cima da hora.
Alguns quarteirões antes do prédio da NME estava uma Starbucks, por segundos pensei em parar ali e pegar algo para comer, mas o relógio do painel marcava oito e dez da manhã. Deixei meu carro em uma vaga mais do que longe da entrada da garagem, castigo ao qual eu já estava acostumada, minha promoção não carregava privilégios como uma vaga quase dentro do saguão da revista.
Pessoas já cruzavam os corredores com passos acelerados, pilhas de papéis e aparelhos celulares barulhentos.
- Bom dia, Marcie - disse assim que passei pela secretária que comandava quase todo um andar, sozinha. Marcie acolhia os estagiários como filhos, ensinava cada truque dentro daquele prédio e o mais importante, dava importantes lições sobre a personalidade das pessoas que mais mereciam atenção de quem estava chegando.
- Vejam só quem voltou. Depois quero saber como foram esses dias de folga, você precisa se atualizar para ontem, minha querida! - Marcie disse, rolando os olhos ao ouvir o toque estridente de um dos aparelhos telefônicos.
Depois de alguns minutos dentro daquele lugar percebi como era bom estar de volta. Fechei a mão e dei alguns toques na porta de Addam, o editor-chefe.
- Eu estava pronto para ligar para o seu celular e te despedir, juro - essas foram as primeiras palavras que ouvi ao abrir sua porta.
- Cogitei a idéia de não aparecer, mas ficar desempregada não está nos meus planos, pelo menos não por enquanto. - Naquele momento ele já estava de pé e me abraçou, como uma colega de trabalho mesmo. E pensar que poucos meses antes ele praticamente me explorava como uma escrava, espantei os pensamentos e sentei na cadeira que ele mesmo fez questão de puxar para mim.
- Ficaria bem feliz em saber como foram suas férias, mas nós temos muito trabalho, e acho que você quer conhecer sua sala, estou certo? - ele me perguntou. Sorri, entregando que o principal motivo por estar ali não era cortesia, eu realmente queria conhecer minha sala.

Circular por aqueles corredores, especificamente naquele andar, fazia-me sentir diferente, era como uma nova etapa, além das muitas que eu sabia que estava pronta para começar. As enormes janelas de vidro temperado permitiam que quem estivesse andando por ali desse uma espiada no que acontecia dentro das grandes salas que eram divididas por muitos jornalistas. Caminhei por mais alguns centímetros até que Addam brecou, fazendo-me repetir sua ação. A porta era exatamente igual a todas as outras, uma das últimas do corredor, contudo só de saber que a partir daquele momento seria minha, isso fazia toda a diferença. Receosa, coloquei a mão esquerda sobre o trinco e ao empurrar a porta todo o barulho pareceu sumir, a ponto de eu ser capaz de ouvir a lingüeta da mesma. E era como nos filmes. Uma mesa de vidro e logo atrás, como um cenário proposital, uma grande janela de vidro com persianas, a vista para a grande avenida e todos os prédios ao redor. Telefone, computador desktop, um pequeno sofá de três lugares, cadeiras que faziam conjunto a mesa. Claro que ainda faltava algo realmente meu, como um toque especial, algo que tornasse a sala minha, mas fora aquilo, tudo estava lindo.
- A partir de hoje não será mais a menina que corre pelos corredores, ou tenta desesperadamente contatar fornecedores de papel, qualquer coisa desse tipo - Addam começou. Sabia que estava bem atrás de mim e, ao virar-me, sorri. Eu estava realmente feliz, como não estava sendo nos últimos minutos. - Espero que faça um bom proveito, e que continue trabalhando bem como estava fazendo. Nós estamos apostando em você.
- Recado entendido - respondi, levando a mão à cabeça em gesto de continência. - É estranho, mas não sei bem o que fazer agora.
- É sempre assim, não se preocupe. Você deve se instalar primeiro, colocar suas coisas por aqui, aprender quais são os ramais, os nomes que pode chamar quando precisar de ajuda, aprender a mexer no novo sistema, acho que até a hora do almoço você já estará com tudo em ordem. Depois disso o trabalho começa.
Assenti a tudo aquilo, olhando para todos os cantos, já pensando nas mudanças que faria e onde colocaria minhas coisas.
- O papo está muito bom, mas o dever me chama. Qualquer coisa basta bater lá na porta. Boa sorte.
Não tive tempo que agradecer ou despedir-me. Addam já havia saído e fechado a porta. Joguei minha bolsa sobre o sofá e caminhei até minha cadeira, atrás da mesa de vidro. Eu estava deslumbrada, larguei o corpo naquela cadeira e girei, levantando os pés, exatamente como uma criança que visita o pai em um dia de trabalho. Parei, já zonza.
Eu já sabia como fazer tudo, o sistema daquela revista era fácil, na verdade adaptado para leigos, já que a maioria dos jornalistas dali ainda estava deixando a era jurássica. E quando eu digo isso estou sendo gentil. Nos dois anos de estágio aprendi muito, mas não aprendi com quaisquer pessoas. Falar de música não é fácil, fazer parte desse mundo muito menos; eu lembro bem quando April insinuou que eu estava ali porque alguns sabiam quem eram meus avós. Grande merda. Meus avós não aprovavam em nada minha formação. Eu era a primeira a não seguir as diretrizes já planejadas. Eu era boa no que fazia e finalmente havia entendido isso.
Eu estava conseguindo tudo o que queria sozinha. Eu não dependia de mais ninguém, apenas de mim e, com toda a certeza, meus pais ficariam muito orgulhosos disso. A rebelde da família. Ri sozinha, já estava sem os sapatos de salto e mexia freneticamente no computador, o relógio mostrava-me que passava do meio-dia. Eu estava tão absorta que me esqueci de falar com April, ou Matt. Estiquei-me até o telefone e disquei o ramal da recepção do andar, Marcie poderia me dizer onde estava April.
- NME, redação. Marcie, com quem falo? - era engraçado ouvir a voz de Marcie naquele tom todo formal e cheio de si.
- Sou eu, Marcie. .
- Ah, querida! Diga, o que precisa?
- Eu queria saber se você tem notícias da April, sabe se ela está por aqui, ou onde ela se enfiou... - disse, voltando a calçar meus sapatos.
- April, claro, ela passou por mim agora pouco, acho que ela foi até a gráfica. Bom, ela estava com o rádio, chame por ela.
- Ah, tudo bem. Obrigada, Marcie.
Levantei e desliguei o monitor de meu computador. Deveria vasculhar minha bolsa atrás de meu Nextel, e naquela zona também deveria achar minha carteira, afinal já ouvia meu estômago protestar por comida. Saí da sala e ao cruzar os corredores pude ver uma parte das pessoas manifestando-se para a saída do almoço. Passei por Marcie e lancei um tímido aceno, ainda esperando que April respondesse meu chamado. "Um bip, . Um bip é o suficiente!" ouvi sua voz quase gritar do outro lado do pequeno aparelho.
"Se fosse suficiente você teria respondido, não acha?"
"Imaginei que a Itália tornaria a senhorita mais razoável e bem humorada. Estava errada?"
"Claro que não, mas meu humor está começando a mudar graças minha fome. Vai almoçar agora?"
"Só preciso voltar na sala e pegar minha bolsa. Kinni's?"
"Claro, estou saindo, vê se não demora."

Desliguei o rádio e o joguei dentro da bolsa, finalmente, chegando ao meu carro no estacionamento. Kinni's estava a poucos quarteirões de onde estava. Durante muito tempo era o lugar onde eu e April encontrávamo-nos quando era impossível cruzarmo-nos nos corredores graças ao número de tarefas do dia.

Escolhi a mesa que ficava bem ao lado da janela. Minutos depois de sentar-me pude ver April entrando pela mesma porta que havia usado pouco tempo antes. Posso dizer que fiquei surpresa ao ver como suas roupas estavam diferentes. Por sorte nunca fomos obrigadas a trabalhar com roupas sociais, aquelas que mais apertam e nunca te deixam elegante como deveria. Eu ainda conseguia visualizar as roupas coloridas e com aquela cara de hippie atravessando a década errada que April usava. Naquele momento ela estava de sapatilhas, calça, camisa e um colete - claro que remetendo àquele estilo paz e amor -, mas bem melhor. Bem mais harmônico.
- Quando foi que decidiu escutar o que eu falo sobre as suas roupas? - perguntei antes mesmo de dizer "olá".
- É, para minha sorte minha mãe concordava com você. Agora só uso aquelas roupas dentro de casa, ou quem sabe para sair - ela retrucou logo de cara. - Estou aqui de pé, não vai levantar e me dar um abraço?
Não consegui controlar meu riso. Era sempre assim. April tinha toda a alegria do mundo, suficiente para ela e para mim, e para qualquer outra pessoa que estivesse por perto.
- Você é uma vaca sem coração. - Arregalei os olhos, mas no fundo não estava tão surpresa assim. Eu estava bem ciente de que nos últimos tempos havia mesmo tornado-me uma vaca sem coração. - Eu estou morrendo de fome, já pediu alguma coisa?
- Ainda não - disse, voltando ao meu lugar de antes.
- Eu preciso comentar, afinal agora nossas situações mudaram, meu bem. Addam veio falar comigo hoje de manhã. - Ela começou, folheando o cardápio como se não estivesse nem um pouco interessada no que estava falando. E tratando-se de Addam, óbvio que era uma mentira. - Eu juro para você. Eu tento ignorar, mas ele é muito bonito. Bonito demais, de um jeito que não é nem saudável, sabe? Chega a doer os olhos!
- Realmente, hoje ele estava bem bonitinho - concordei. - Mas quem sabe não é só porque hoje é o primeiro dia de trabalho depois das férias de grande parte da revista, quer dizer, ele podia estar fazendo aquela coisa toda de chamar a atenção.
- Cale a boca, mas cale a boca agora!
Levantei os ombros. Addam era realmente bonito, e não havia como negar isso. Contudo em alguns momentos ele era tão prepotente e certas vezes tão arrogante, e em alguns dias tão mandão.
- Bonitinho. Hoje. Não sei como você tem coragem de abrir essa boca maldita para o mundo. - April continuou resmungando. Voltei minha atenção para o garçom que passava pela mesa naquele momento, trazendo nossos pratos. - Ele é tão sexy.
Tentei socar uma boa quantidade de salada na boca para não responder aquilo.
- Você está insinuando que não concorda comigo, não é?
- April, eu não concordo com você.
- Tudo bem, dentro daquele lugar alguém tem que concordar comigo. No RH alguém deve concordar comigo, na limpeza alguém deve concordar comigo. - Esse era o único defeito de April. Ela falava pelos cotovelos. - De qualquer forma, como foi sua viagem?
Respirei bem fundo ao ouvir aquela pergunta, respirei fundo até demais. E isso não passou despercebido por April.
- Foi normal. Como eu já esperava.
- Porra, . Não dá pra conversar com você.
- April, o que eu poderia esperar? Me fala! Eu saí daqui promovida, mas cheguei lá e encontrei meu avô com um diagnóstico de câncer pior do que eu imaginava, ele não pode mais fazer radioterapia ou qualquer outra terapia que seja - as palavras saíram da minha boca como uma avalanche. - Minha vó continua com aqueles planos estúpidos de me colocar no lugar dela.
Deixei que meus ombros caíssem, toda a positividade que eu estava tentando construir pareceu sumir em alguns segundos. Não era proposital, mas também era impossível não acontecer. Meus problemas perseguiam-me não só quando eu pensava neles, mas em qualquer situação. Bastava eu iniciar uma conversa que em pouco tempo eles tornavam-se protagonistas, deixando qualquer tentativa de novidade ou uma perspectiva diferente morrer. Suspirei, mais do que cansada.
- Algo me diz que esses não são seus únicos problemas, . - April havia perdido o tom brincalhão de sempre. Era hora de conversa séria. E April era a única que sempre estava pronta para me ouvir, independente de qualquer coisa.
Ela estava certa.
A doença do meu avô e a insistência da minha vó não eram os únicos problemas. Eu ainda estava me sentindo incomodada com a visita de Ethan e suas insinuações sobre visitas futuras. Ele passou anos sem aparecer, e quando apareceu trouxe uma maré de problemas. Sumiu por mais alguns anos e voltou a aparecer. Eu não estava rezando, mas sim torcendo para que uma maré de problemas não estivesse por perto também.
- Minha vó aprontou uma bela surpresa para mim - disse, sem saber como explicar toda a situação. Minha ironia provavelmente havia falhado. Pelo menos meu cérebro entendeu o contrário do que tentei dizer.
- Algo relacionado ao ?
April sabia de tudo.
- Não. Mas não sei dizer se isso é bom ou ruim.
- Acho que é melhor você explicar, essas voltas estão me deixando confusa.
- Minha vó, com aquela péssima mania de tomar decisões achando que está agradando a Deus e o mundo, convidou uma pessoa que e não gosto para jantar conosco, na minha última noite por lá. - Comecei a explicar o que ainda me incomodava. - O nome dele é Ethan e eu nunca gostei dele.
- Ele já te fez alguma coisa? - ela perguntou, ainda interessada.
- Nasceu. - Disse sem pensar. - Eu sempre alimentei desconfiança por ele, e pelo resto da família também. Eu não sei se estou certa, mas eu nunca acreditei em uma palavra que saísse da boca dele. Ele me dá arrepios.
- Arrepios do mal, eu imagino.
- Claro. Só podem ser arrepios do mal, eu nunca nutriria qualquer outro sentimento por aquele cara. Eu juro, ele é abominável.
- Eu sinto muito que sua viagem tenha terminado assim - ela falou com um leve tom de pesar. Que eu também queria aplicar às minhas palavras.
- Realmente, isso é uma droga. Mas a viagem não foi totalmente ruim, ou desperdício de tempo. - Tentei acender a faísca de animação que ainda tentava se alastrar em mim. - Eu conheci um cara nos dias que estive por lá.
- Homem, é disso que o povo gosta!
- O nome dele é Tiziano - a cara de reprovação de April me fez gargalhar, mas só porque eu pensava exatamente o mesmo. - Tudo bem, o nome pode ser estranho, mas ele era realmente italiano, não turista como eu. Deve ser por isso.
- Continue, você conheceu esse cara onde? Num bar? Na rua? Na praia? No banheiro?
- Nós nos conhecemos em uma festa poucos dias depois de eu chegar.
- Você mal chegou e já estava badalando? - seu olhar de negação não me fez sentir culpa, apenas achar graça.
- Calada! Nos conhecemos na festa e depois fomos para a casa dele - naquele momento sim eu deveria sentir culpa. -, e você deve imaginar o resto.
- Ah, é claro que eu imagino! Imagino, não. Eu sei o final! - Ela disse alto e claro para que todo o restaurante ouvisse. Apenas abaixei a cabeça como se fosse realmente adiantar em alguma coisa.
Continuamos a falar enquanto comíamos, ela me contou sobre suas férias. E em pouco tempo já era hora de voltar ao trabalho mais uma vez.

Juntei mais uma pilha de papéis e separei com um pequeno marcador. Quase todas as matérias deveriam ser revisadas e não era minha função fazer isso. Bufei como já havia feito demais nas últimas horas e joguei o pescoço para trás. Eu estava exausta para um primeiro dia de trabalho. Olhei para o relógio e vi que passava das seis, comecei a colocar tudo na bolsa, calcei meus sapatos, desliguei o computador e apaguei a luz antes de deixar a sala.
Os corredores estavam bem mais vazios do que horas antes. A luz da sala de Addam estava acesa, então decidi passar por lá antes de ir embora.
Ele estava sentado de costas para a porta, lendo alguns papéis. Fechei minha mão e choquei-a contra a porta algumas vezes até chamar sua atenção. Addam apenas levantou as sobrancelhas e deixou os papéis que analisava sobre a mesa.
- Ainda por aqui, achei que já tivesse ido embora - ele disse. Seus dedos foram até o nó da gravata na tentativa de torná-lo mais folgado.
- Na verdade estou indo agora, só passei aqui para dar tchau - respondi um pouco sem graça, e sem saber o real motivo disso. Addam era meu chefe, e era muito bonito, mas algo nele era intimidador.
- Sempre educada, - seu sorriso aberto e amigável me confortou de alguma forma, assenti ao que disse e esperei em silêncio. - Não se esqueça de comprar algumas revistas, você precisa se atualizar.
- Sem problemas, até amanhã, Addam.
- Até amanhã - ele voltou aos papéis antes mesmo de me ver sair pela porta.
Já estava tudo escuro e o trânsito caótico como sempre. Só depois de trocar a marcha do carro algumas vezes e não conseguir pisar no acelerador constantemente percebi como estava desacostumada. E como não sentia falta daquilo.
No caminho de casa havia uma banca, ainda estava cedo e eu não pretendia sair de casa, então decidi comprar as revistas de que Addam havia falado. Deixei a faixa central e dirigi até o pequeno estacionamento da banca que tinha forma de quiosque. Desci do carro pensando em que revistas escolheria, as famosas, claro. E as concorrentes.
Estavam todas ali, expostas bem na frente do caixa. As revistas de música já estavam em minhas mãos, naquele momento cogitava a idéia de pegar todas as revistas de fofocas também. O mundo todo se preocupava com aquilo, com uma boa fofoca. E boatos sem sentido não eram combustível apenas para celebridades instantâneas.
Peguei o primeiro exemplar me arrependendo logo em seguida.
Você não foge de problemas. Isso é claro. E estava translúcido enquanto eu segurava aquela revista. Na capa uma enorme foto de e Haylie.
"A garota que conquistou o coração mais desejado da Inglaterra"
Um sorriso involuntário cresceu antes que pudesse evitar, e eu não queria evitar. Era bom ver os dois daquela maneira, depois de tanto tempo ainda juntos. Era melhor ainda saber que certas coisas do passado permaneciam intactas.
Eu estava decidida, mas não queria revirar coisas enterradas.
A verdade é que eu queria saber se minha amizade com Haylie ainda poderia ser a mesma.

03


Era a terceira vez que eu apagava o mesmo texto.
Enquanto minha cabeça estivesse cheia das minhas baboseiras sentimentais, eu não conseguiria trabalhar. Toda a claridade da tela de computador só fazia meus olhos doerem, por isso tirei os óculos e os joguei sobre a mesa. Pensei em desligar o monitor, mas apenas girar minha cadeira até estar de frente para a vista da minha janela foi suficiente.
Distração não era o melhor remédio para mim. Uma dor de cabeça latejante já estava me atormentando há dias, e eu sabia muito bem de onde vinha. Chorar me dava dor de cabeça, sempre. E nenhum médico precisou diagnosticar, cheguei a essa conclusão sozinha, depois de muitas noites em claro e manhãs de compras na farmácia.
A foto de e Haylie na capa de uma revista voltou a minha cabeça. Isso havia acontecido na semana anterior, mas ainda parecia recente. Os efeitos também. Bastava isso para me lembrar das palavras de Haylie gravadas na minha secretária eletrônica. Eu queria mudar as coisas, mas não dependeria só de mim.
Saber que em algum momento depois da minha partida alguém havia sentido minha falta, isso mudava muito a situação. Minha ideia de deixar coisas para trás era diferente, e com certeza o arrependimento não estava nos meus planos.
- Sem um número é impossível ligar - disse para mim, sozinha. Prendi os cabelos em um rabo de cavalo alto e esfreguei o rosto, tentando retomar a disposição. Eu não tinha o número de Haylie e isso poderia soar como o acaso interferindo no rumo que os meus sentimentos queriam dar à minha vida.
Mas ser tão racional poderia acabar comigo.
Calcei os sapatos que estavam jogados sob a mesa de vidro e saí quase que correndo da sala. Passei voando por Marcie; eu poderia perguntar a ela onde estava Matt, mas quando dei por mim já estava dentro do elevador. Eu estava me transformando em um enorme cubo de gelo, essa era a verdade. Controlar todas as minhas ações estava me desgastando mais do que o necessário. E eu poderia mudar isso.
Cheguei ao segundo andar e encontrei Matt em um raro momento, sentado em sua mesa, lendo algo no computador. Matt ainda era um estagiário, o que claramente acabava com sua vida. Eu já tinha passado por aquilo e sabia bem como era. April e ele conseguiram me fazer companhia e transformar toda a minha solidão em algo bem menor nos últimos anos.
- A realeza desceu de sua majestosa torre para entrar em contato com os plebeus trabalhadores? - ele perguntou enquanto ainda digitava algo freneticamente.
- Vou ignorar sua ironia e tomar tudo isso como um elogio. - Disse sorrindo, encostei-me em sua mesa e o vi deixar o teclado para me dar atenção.
Com as mãos atrás da cabeça, seu sorriso finalmente apareceu.
- Pode considerar um elogio. O que te trás aqui?
- Preciso de um enorme favor. Algo que só você pode fazer, sem que ninguém saiba - ao ouvir aquilo Matt ergueu a sobrancelha intrigado, como eu já esperava.
- Então o trabalho sujo fica para o estagiário, só porque eu não tenho uma sala com o meu nome na porta. - Ele assentia como e estivesse realmente ironicamente indignado.
- Preciso que consiga um número de telefone.
- Mas você pode...
- Não quero que saibam que sou eu quem pede pelo número. - Disse pontualmente. Ele respirou fundo e concordou.
- Manda aí, quem é?
- Haylie Harris Dean - disse, lembrando-me exatamente de como era ouvir o nome dela durante uma chamada na sala de aula. Não esperei para saber se Matt havia entendido, apenas voltei para minha sala sem o mesmo gás de minutos antes.

Não fiz questão de sair para almoçar. Apenas comi uma barrinha de cereais destruída que estava no fundo da bolsa, só para não passar pelo constrangimento de desmaiar pela falta de algo sólido no estômago.
O texto que não fluía e me incomodava já estava quase terminado. Eu estava dentro do prazo, segundo o relógio sobre a mesa, e ao desviar-me um pouco do foco, tudo já estava perdido. Afastei-me do teclado e voltei a bufar, sem um pingo de concentração para continuar.
No meu pulso estava uma fina pulseira de ouro branco, presente de meu avô. Lembro que ele havia me entregado em minha primeira noite de férias em Roma, segundo ele, exatamente igual a pulseira de minha vó e minha mãe. Tomei o pequeno pingente em forma de esfera nos dedos, tão leve que nem parecia estar em contato com minha pele. Em um volume baixo, e lentamente, a voz de minha vó voltou a ecoar dentro de minha cabeça. Apenas uma lembrança, estranha por sinal, afinal, mesmo depois de dormir e descansar, continuava sem entender o que ele quis dizer antes que eu partisse.
"Assim que chegar em Londres, te ligarei e combinaremos de nos encontrar, teremos algumas coisas para conversar."
Eu estive ao lado dela, na mesma casa, por mais de um mês! O que ele teria para falar comigo que não poderia ter sido dito durante minha estádia lá? Qualquer coisa, pensei. Mas não era só isso que me incomodava, eu sentia que a futura visita de minha vó estava diretamente relacionada à aparição surpresa, ainda assim desagradável, de Ethan. E relacioná-los na mesma frase fazia meu estômago revirar.

Flashback - 7 anos atrás

Como era irônica a data que estava tão próxima.
Aniversário de morte.
Durante toda a infância, aprendeu que aniversários em sua grande maioria eram dias felizes, para presentear e ser presenteado, abraçar e ser abraçado. Sentir-se amado. Na verdade, não só aprendeu essa teoria, também pode viver essa teoria. Em seus longos quatorze anos de vida, aquele não seria seu primeiro aniversário triste; essa data já estava fria desde a morte de seus pais. Aquele aniversário, os simbólicos quinze anos, seriam sem esperança alguma também, afinal, seu único ponto de equilíbrio, seu único refúgio estava em outro continente. Com mais de um oceano de distância.
Em alguns dias, iria até a mesma floricultura dos últimos quatro anos, escolheria as flores mais bonitas da loja e atravessaria a cidade até o cemitério onde seus pais estavam enterrados. Geralmente estaria lá, ela poderia afundar o rosto na curva de seu pescoço e chorar alto, como não aceitava fazer perto de mais ninguém.
Seus avós já estavam lá, o avião havia aterrissado na mesma manhã. O motivo da vinda era bem claro, o distanciamento da família de sua parte na administração do banco. Juliett e o marido já estavam prontos, assim como os Delacoure e os avós de .

O fim de tarde já estava visível.
Todos já haviam deixado a sala de reuniões e estavam conversando descontraidamente. andava pela casa , atrás de Maria ou qualquer companhia que fosse, quando parou em frente a grande porta mogno do escritório. Ligeiramente encostada, a enorme porção de madeira não isolava completamente a conversa de quem estava ali dentro.
- Você precisa descobrir um ponto fraco naquela família. A distância ainda não é o suficiente - o sotaque carregado da senhora Delacoure era a primeira voz evidente.
- Vou pensar em algo - seu marido respondeu.
- Não se esqueça, é apenas isso que ainda nos mantém longe do controle de tudo.
aos poucos se afastou da porta, a conversa tinha um tom de ponto final, e se fosse pega ali, estaria encrencada. Os Delacoure falavam dos , e falavam como se tudo fosse um esquematizado jogo. Pura estratégia.
De repente, a menina sentiu como se o acidente que matou seus pais não passasse de uma jogada, um primeiro xeque-mate.

Flashforward

Eu nem sabia dizer de onde todas aquelas lembranças vieram. Mas com toda a certeza eu poderia afirmar que ainda estava mexida e intrigada com a presença, indesejável, de Ethan na minha vida. Acenei para o vigia que estava logo na porta do pequeno saguão que daria acesso ao estacionamento e procurei pelas chaves do carro na bagunça que era minha bolsa.
Assim que apertei o pequeno botão e escutei as travas do meu carro sendo liberadas não muito longe dali, também pude ouvir passos acelerados. Virei meu pescoço e encontrei um Matt apressado e ofegante. Parei onde estava esperando que ele me alcançasse.
- Eu gritei seu nome umas dez vezes - ele disse assim que se aproximou, respirando rapidamente, abaixou-se e apoiou as mãos sobre os joelhos.
- Desculpa, eu não ouvi - e provavelmente por causa de todas aquelas lembranças desnecessárias. - O que você quer, afinal?
- Vim te entregar o que meu pediu. - Assim ele me entregou um pequeno post-it, com uma letra apressada, mas totalmente legível. Com o número de Haylie.

04


Há dias eu chegava em casa e tudo parecia repetidamente igual. A noção do tempo que já havia passado nas folhas de calendário estava completamente perdida para mim. E para piorar eu sempre encontrava um lembretinho do passado que por culpa minha, claro, estava estrategicamente posicionado em minha cômoda. Aquele post-it com o número de Haylie, feito pela letra garranchada de Matt, estava me atormentando mais do que a carga horária do trabalho. Era como se somente aquilo pesasse sobre mim.
Por uma conspiração do universo, dessa vez ao meu favor, consegui terminar todas as tarefas do dia a tempo de voltar para casa e assistir a um episódio de One Tree Hill. O tipo de coisa que para mim só combina com o meu sofá, um bom edredom e algumas besteiras para comer, contudo, mesmo chegando eu estava cansada demais, cansada até para assistir televisão na sala, com o bom edredom e as besteiras para comer.
Apenas tomei minha ducha, vesti um pijama, me acomodei na enorme pilha de travesseiros que cobria minha cama e liguei no meu canal preferido.
Foi bem assim que me peguei perdida, pensando em como era estranho não enxergar a minha vida em nenhuma personagem, e olha que estamos falando de um caldeirão de dramas. Realmente eu não me encaixava em qualquer situação, boa ou ruim, feliz ou triste.
A verdade é que eu já estava entendendo, eu não fazia mais parte do grande grupo que se encaixa em perfis normais da adolescência, não só porque eu já passara da adolescência, mas porque meus problemas sempre foram complexos demais. Ou psicológicos demais.
Eu nunca planejei ou imaginei uma vida tão conflituosa em tão pouco tempo. Dez anos da minha vida estavam valendo por uns trinta de uma pessoa sem nenhuma emoção. Meus pais morreram e eu fui obrigada a amadurecer, mas com isso percebi que alimentava mais do que uma inocente amizade pelo meu melhor amigo. E nem tive tempo de entender ou colocar isso para fora, ele também foi embora. Mas voltou, como quem volta do mundo dos mortos. Agora eu me pergunto: por que tudo não ficou assim?
Porque eu tenho algum problema.
Quando voltei à realidade, o programa de TV já não fazia mais sentido e o frio da cidade já entrava pela janela do meu quarto. O seriado que assistia já havia acabado e outra atração envolvendo pessoas famosas dançando estava começando, coisa que não me agradava nem um pouco.
Estiquei o corpo, peguei o controle e desliguei a televisão. O silêncio que invadiu meu quarto amedrontou-me por alguns segundos, mas logo depois, eu mesma tomei a iniciativa de empurrar as cobertas e levantar dali. Abri o closet à procura de algumas caixas que estavam escondidas atrás de alguma coisa, aquelas caixas foram os primeiros objetos que descarreguei na nova casa. Uma maneira estranha de preservar o passado. Guardá-lo em algumas caixas plásticas.
Minutos depois, encontrei. Escondidas atrás de alguns casacos pesados, em um canto distante do closet. Sentei ali no chão mesmo, no meio das roupas e sapatos, com as caixas bem a minha frente. Era tão estranho. Eu mesma não consegui entender como tive a frieza de etiquetar aquelas caixas, como se fossem apenas papeladas de um cartório, por exemplo. Por mais idiota que fosse, eu me sentia ainda pior só por ter tratado um pedaço da minha vida daquela forma. Com algumas etiquetas, como se eu fosse precisar delas para lembrar-me de dias tão bons.
A primeira caixa guardava alguma coisa bem antigas, coisas da minha infância e da primeira casa que morei com meus pais. Empurrei aquela para um canto mais distante e parti para a próxima, uma grande caixa roxa. Eu havia dado outra função para a caixa de madeira que minha mãe deixara para mim, e que por muito tempo servira para guardar recordações. Logo de cara encontrei o cano forrado de veludo vermelho, aquele da minha formatura. Assim como o discurso de oradora, com milhões de rabiscos e uma letra mais do que garranchada.
Eu ainda guardava o envelope de cartas de aprovação de algumas universidades, assim como o meu último boletim, meio amassado, mas guardado. A quantidade de papel por ali era absurda, falando nisso. Encontrei bilhetinhos toscos trocados com e Haylie, assim como algumas cartas de , que eu preferi não abrir. Apenas a caligrafia inclinada do lado de fora me fazia ofegar e sentir o coração prensado.
Dentro de uma pequena embalagem plástica estava um anel. Meu anel. Aquele que fora de minha mãe e que de alguma forma havia encontrado. Bem perto daquele anel, um bilhete aberto, impossível de desviar. And even when we're miles and miles apart, you're still holding all of my heart.
Praticamente uma profecia.
Mas não tinha como ele saber dos meus planos estúpidos e egoístas. Até porque era um simples hábito dele, citar trechos de música o tempo inteiro. E eu também não tinha como saber se ele de algum jeito alimentava qualquer sentimento por mim. No fundo eu queria saber.
Agora, por que viver com incertezas quando eu tinha nas minhas mãos a oportunidade de me aproximar, um pouco que fosse, do que eu realmente sentia falta? O telefone de Haylie estava sobre a cômoda, não poderia ser assim tão difícil.

Larguei as lembranças no chão e caminhei até a cômoda, encontrando o post-it ali, no mesmo lugar.
Provavelmente eu segurava aquele telefone há minutos e minutos, mas encontrar coragem não é algo fácil. Basta esperar os toques, pensei. Assim comecei a digitar os números do papel. Para o meu alívio, era um número móvel, o que me livrara do risco de ligar na casa dela e atender.
Eu não sabia ao certo quantos toques eram necessários para a caixa-postal ser acionada, mas eu estava pronta para desligar quando ouvi algumas vozes do outro lado da linha. Logo olhei para o relógio para ver as horas, e acabava de passar das dez da noite.
- Alô? - A voz era exatamente igual a da gravação de dias atrás. Mas a minha voz, eu não conseguia encontrar. Era como se tivesse sido engolida, ou arrancada de mim. - Alô? Quem 'tá falando?
Por mais que eu tentasse emitir qualquer som parecia impossível, estava encolhida e assim que ergui meu rosto encontrei lágrimas escorrendo dos meus olhos, cada vez mais intensas. Eu funguei, e parece que foi o suficiente para entregar minha identidade.
- Oh, meu Deus. Eu não acredito, é você. Espera um minuto - e o som das outras vozes diminuiu. Provavelmente ela havia se afastado. - , é você? Eu não acredito que você ligou. Você retornou a minha ligação, você 'tá falando comigo.
Funguei mais uma vez e passei a mão sobre o nariz que já deveria estar vermelho.
- Sim, sou eu - respondi, sem acreditar que era minha voz, e que estava usando a mesma para falar com Haylie. - O que te fez ligar pra mim? Ou melhor, desde quando você fuça nas coisas dos outros? - Eu queria parecer séria, mas meu tom de voz entregava que no fundo eu estava começando a me sentir melhor.
- Eu estava quase desistindo disso tudo, achei que não fosse ligar. mesmo me disse milhões de vezes que você não retornaria se eu tentasse falar com você - era dolorido ouvir que até estava certo de que eu não era mais a mesma. - Mas sabe aquela coisinha que às vezes bate na gente, que nos impede de desistir de alguma coisa?
- Então você não mudou nada, não é? - perguntei, sentindo outra enxurrada de lágrimas chegando. - Você não desistiu de mim?
- Eu nunca me convenci de que você simplesmente havia partido. Muita gente desistiu, mas eu não - e eu já sabia que dentro daquele "muita gente" eu podia incluir todos os amigos que um dia eu tive.
- Bom, você foi mais longe do eu! Já estava quase desistindo de mim.
- Não sabia que você era tão dramática. Eu estou tão feliz, mas também estou tão nervosa, sério, quero te bater muito agora. Por que não ligou antes? Eu perdi minhas unhas esperando você ligar, acho que se bobear até desenvolvi uma gastrite com isso - ela disse de uma forma engraçada, que me colocou totalmente de volta a vida.
- Eu não sei o que te falar, tanto tempo passou.
- Sim, muito tempo. Quatro anos, . Você deve ter algo para me contar, não é possível.
- Assim como você - respondi, pensando automaticamente em uma mesa onde pudéssemos sentar, conversar e desenrolar todos os fatos emocionantes, ou nem tanto, de quatro anos que passaram.
- , eu levantei do nada da mesa e o não para de olhar - uma pequena pausa e eu já estava imaginando se junto a ela e também estavam , e . - Nós podemos nos ver? Ou isso foi só um lance de peso na consciência?
- Não, claro que não! Podemos nos ver sim, o que acha de sexta? Podemos ir ao Forty's... - sugeri.
- Para mim está perfeito, eu saio da agência às sete, então... Bom, vou direto pra lá, combinado?
- Te vejo sexta - eu disse e ainda a ouvi se despedir.
Assim que coloquei o telefone sobre a base me senti mais do que estranha. O que tinha acabado de acontecer?
Quero dizer, o que foi toda essa naturalidade?
Não era para ser tão normal assim, qualquer um pensaria como eu. Como pode? Eu passei quatro anos longe, eu fui embora sem dar satisfações, eu deixei uma carta para e sabe-se lá o que ele decidiu dizer para as outras pessoas, se é que ele disse alguma coisa. E é assim? Eu sou recebida com piadinhas e bom humor?
Não era paranoia minha, algo não estava se encaixando. Claramente. Bem ali.
Naquele momento eu só conseguia pensar: não poderia ser assim tão fácil.

Eu não esperava - e já sabia por motivos óbvios - que os ponteiros do relógio não fariam suas voltas na velocidade da luz, mas isso não torna nem um pouco digna a maneira como eles se moviam, fazendo o tempo passar naquela lentidão absurda. Eu insistia em batucar sobre o teclado com uma lapiseira qualquer, esperando que isso de qualquer forma acelerasse os minutos. Mas é óbvio que também não funcionou, pelo simples fato de ser impossível, e minha cabeça ter problemas em aceitar isso. Seis da tarde, finalmente. O fim do meu expediente. O fim do trabalho. O fim dos telefonas e do tectec de teclados.
O começo de um momento que eu não esperava tão cedo.

Flashback - 5 anos atrás

Eu estava bem mais acostumada com o Hyde Park, mas o Blue Tree Park já havia conquistado seu espaço em meus momentos livres. Com o final do ano, meu tempo livre estava quase chegando à linha do zero. E talvez, ou melhor, com certeza, era isso que me fazia querer aproveitar mil vezes mais um fim de tarde como aquele.
O movimento do parque se resumia as partes mais próximas aos portões e ao grande lago. A parte onde me encontrava naquele momento parecia abandonada. Nem mesmo as folhas que já haviam alcançado seu ponto e estavam caídas aos pés das árvores haviam sido recolhidas. Eu continuava a atirar pequenas pedras no pequeno lago afastado do centro do parque, as pequenas ondas pareciam o único movimento por ali, isso até os passos de Haylie amassarem as folhas secas me fazendo acordar.
- O carrinho de cachorro-quente está mais disputado do que eu imaginava - ela disse assim que sentou ao meu lado. Entregou meu lanche e começou a encher o dela de catchup e mostarda.
- Será que vai acontecer alguma coisa de importante hoje? - Perguntei antes de encher a boca.
Haylie apenas largou os ombros, ocupando-se em mastigar.
Era raro um momento em que Haylie não estivesse tagarelando ou gesticulando como uma maluca, se eu não tivesse me aproximado tanto dela, diria que era apenas exagero. Mas não, em alguns meses ficou bem claro que se tratava apenas do seu jeito de ser. E eu gostava daquilo. Enquanto para mim era difícil chamar a atenção e permanecer sem um rubor no rosto, para ela era normal, nem ao menos querer.
Qual é o nome daquela parada chinesa que se completa?
Dane-se. Essa era a nossa realidade, nós duas nascemos para sermos melhores amigas. Nunca havia passado pela minha cabeça ter uma melhor amiga, eu já havia dito por várias vezes, era muito mais fácil me relacionar com meninos; tão menos complicados que garotas, tão menos complicados comparados a mim.
- Obrigada. - Eu disse, sem pensar se deveria.
- Por quê? Pelo cachorro-quente? Imagina - ela respondeu despreocupada. Apenas ri. - Não, Haylie. Obrigada por vir aqui comigo, me fazer companhia e ser uma amiga tão boa pra mim - disse mais uma vez sem pensar, mas isso não era um problema, eu sentia que nunca havia sido tão sincera.

Flashforward

Pisei no freio e o carro começou a desacelerar. Voltei a olhar para o retrovisor, deveria entregar meu carro para o manobrista, mas decidi retocar a maquiagem antes disso. Para minha sorte, ou por algum fenômeno sobrenatural em Londres, eu tive a boa vantagem de ir para casa tomar uma ducha e trocar de roupas antes de me encontrar com Haylie. Eu estava dez minutos atrasada, mas já esperava, afinal, não pegar trânsito não significa que todos os outros agentes responsáveis pelo stress nessa cidade estejam de acordo com meus horários.
Desci do carro e deixei minhas chaves com o manobrista, apenas imaginando que aquilo estava me atrasando mais alguns segundos, o que de maneira alguma faria diferença, mas de certa forma me fazia pensar que eu tinha qualquer tempo que fosse a mais para me preparar. Eu poderia passar por uma pessoa controlada e apenas ansiosa para um encontro feliz com uma colega dos tempos de colégio. Mas não. Não era isso que estava preste a acontecer.
Eu não conseguia mais esconder meu nervosismo, por vezes tirei o celular de dentro da bolsa, olhei para os lados, esvaziei o copo com suco de maracujá. Era a terceira ou quarta vez que o garçom vinha gentilmente a minha mesa perguntar se eu não queria comer nada, ou se eu tinha certeza de que minha companhia apareceria. Apenas insistia para ele e para mim que alguém estava para chegar.
Minha cabeça já dava sinais de cansaço, caída e latejava discretamente. Eu já não fazia mais questão de olhar o relógio, mas nós sempre sentimos quando alguém nos observa, nos escara, de longe ou perto. Apertei os olhos pedindo a qualquer entidade divina, coisa nada típica da minha parte, que fosse quem eu tanto esperava. Um sorriso dominou meus lábios antes que pudesse pensar em sorrir. O corpo pode entregar as pessoas. Virei meu rosto e dei de cara com uma Haylie completamente mudada, de cabelos ruivos muito mais laranjas que antes, magra como nunca, vestida como uma verdadeira adulta, apenas provando que a adolescência era mesmo coisa do passado.
Queria saber o que ela estava pensando ao me ver, seus olhos permaneciam vidrados e era como se ela fosse apenas uma estátua. Aos poucos o canto direito de lábio curvou-se para cima e eu consegui soltar o ar que estava preso dentro de meus pulmões. Foi só quando ouvi sua voz que percebi que deveria abraçá-la e tentar diminuir toda aquela saudade que agora parecia esmagar meu peito, causando dor.
- Eu estou esperando um abraço - ela disse, fazendo-me levantar no mesmo momento e abraçá-la como deveria ter feito assim que a vi. - Sua desgraçada, agora não sinto nem um pouco de culpa por ter vontade de quebrar sua cara.
- Você não faria isso - disse, sentindo os olhos marejarem.
- Não me venha com choro, eu esperei a semana toda por hoje. Se eu pudesse contar para alguém sobre isso, apostaria alto que você me daria um bolo. Mas pelo jeito me enganei. Devo ter perdido o jeito para adivinhar o que você vai fazer, eu era boa nisso - ela concluiu, sentando na cadeira a minha frente.
- Minha imagem está no lixo, então.
- Há quem diga que você é a maior vadia dessa Inglaterra.
Em um dia normal, se fingíssemos que nada tive mudado, eu teria arregalado os olhos e xingado Haylie, mas não, apenas abaixei a cabeça, envergonhada. Eu sabia muito bem do que ela estava falando. Tomei um longo gole do sulco e decidi que era hora de ingerir algo mais forte, algo me dizia que a conversa a seguir não seria das mais agradáveis.
- Eu quis saber de você por tanto tempo - estava claro que o clima de reencontro feliz já estava sendo enterrado. - O que você fez para a Maria guardar tanto segredo?
- Eu pedi.
- Pediu o que? Pediu pra ser esquecida? Era esse mesmo seu objetivo?

O que eu iria responder? Tive milhões de motivos, mas nunca um tão claro, apenas uma bola de neve que me levou a tomar as decisões mais estúpidas e mais precipitadas.
- Nem sempre as coisas saem da forma como planejamos...
- Um, . Um motivo, pelo menos.
Eu queria dar motivos, todos eles, milhares, se possível. O problema era revirar lembranças, cutucar feridas. Essas coisas não passam despercebidas e eu seria aquela a sofrer com isso no momento em que encostasse minha cabeça no travesseiro.
Toda minha concentração foi tirada pelo toque estridente do celular de Haylie.
- É o - ela disse antes de atender a chamada.
Remexi o líquido do meu copo de forma desconfortável. Era estranho saber que meu primo estava do outro lado da linha e eu nem poderia mandar um beijo, afinal eu venho fugindo até dele. Haylie ainda não tinha desligado quando me olhou de uma forma estranha, eu diria urgente. Sustentei seu olhar e esperei que desligasse.
- Ele está estacionando o carro dele - no primeiro momento não entendi bem o que eu tinha a ver com aquilo, mas foi só no primeiro momento.
- Ele está aqui? - minha voz deveria estar uma oitava mais alta, mas não. Apenas meu coração batia como se eu estivesse em frente a um leão.
- Eu não disse sobre você, mas disse onde estaria... O estúdio é aqui perto então ele achou que não teria problema, quer dizer, ele nem sabe o que está acontecendo aqui - antes que ela pudesse terminar eu já estava tirando trinta libras da carteira e colocando bem na sua frente, apenas tive tempo de depositar um beijo em seu rosto e me dirigir com passos apressados para a saída, por sorte uma porta alternativa à entrada.
Parei bruscamente.
Haylie ainda me observava ir embora, mas dividia seu olhar com que atravessava a entrada naquele momento e parecia perdido, procurando por ela entre as mesas. Eu sentia minha vista turva, não por mal estar, apenas porque lágrimas que pertenciam a algum momento estavam a ponto de lavar meu rosto. Meus passos eram vacilantes, de costas para porta, tentando observar por mais alguns segundos.
Haylie acenou uma última vez para mim, e virou seu olhar em minha direção. Rápido demais. Meu olhar deveria parecer vidrado, o dele estava mais para estupefato. Eu queria voltar lá, mas parecia grudada ao chão.
- ... - pude ler em seus lábios, ele dizia aquilo apenas para acreditar no que estava vendo.

05


Era o quinto toque do telefone e eu apenas esperava cair na secretária eletrônica. Se parasse bem naquele ponto do trabalho para atender ao telefone, as probabilidades de conseguir seguir exatamente do mesmo ponto depois eram quase nulas. O bip bem baixinho veio antes da voz de Haylie soar através do aparelho.
"Estou ligando no seu celular desde de manhã, mas que merda, preciso muito falar com você. Sério. É uma quest..."
- Haylie? - perguntei, assim que peguei o aparelho, apressada. - Ainda está aí?
- Você 'tava aí? E eu 'tava falando igual idiota com o telefone? - quase consegui ouvi-la bufar do outro lado da linha.
- Desculpa, mas estava no meio de uma resenha e se atendesse iria me atrapalhar toda - na verdade eu já estava toda atrapalhada e sabia bem disso, mas fui obrigada a atender. - Tudo bem com você? Você ia dizer questão de vida ou morte, ou o quê?
- Eu ia ligar durante o fim de semana, mas os meninos estavam numa correria enorme, sem contar que o está quase declarando uma guerra civil desde que te viu no restaurante semana passada.
Pressionei os dedos contra a testa sentindo que em alguns segundos minha cabeça estaria latejando. Minha imprudência estava sempre a me pregar peças e, mesmo com tantos anos, eu parecia não ter aprendido ainda. Eu não queria que , ou qualquer outra pessoa, soubesse que eu estava de volta. Contudo fiquei lá, parada e plantada como uma idiota, apenas para vê-lo. Consequências bateriam a porta logo menos.
- O que você disse para ele?
- Eu estou enrolando o menino desde aquele dia. A verdade é que estou torcendo para que ele não comente com ninguém, acho que você até imagina de quem eu estou falando. De qualquer forma, ele quer saber desde quando eu sei que você está por aqui.
- Fala que eu te liguei na quinta e ponto. Minha vó está vindo pra cá logo mais, então acho que não vou mais poder fugir, pelo menos não dele.
- Ele é sua família e ainda sim você conseguiu fugir dele por todos esses quatro anos.
- Eu sei. Isso vai mudar, eu prometo. Só não posso fazer tudo como se não fosse haver milhares de consequências.
- Não se preocupa, não estou aqui pra te julgar mais do que você mesma. Não terminamos nossa conversa, não é? Você ainda tem muito que me contar sobre coisas aí. Tem alguma coisa para o fim de semana?
- Na verdade tenho, mas você pode ir comigo. É um show que precisa de resenha, então vou lá assistir e ver o que acontece. Fecha?
- Claro! Depois a gente senta e põe toda essa conversa em dia. E não se preocupe, os meninos estão indo para a Espanha amanhã e só voltam semana que vem. Nenhum susto para essa vez.

Com um pouquinho de dificuldade, consegui colocar a chave no lugar certo e abrir a porta. Eu bebi o suficiente para conseguir dirigir até minha casa, sem contar que Haylie estava comigo, não estava entre as minhas pretensões matar uma amiga.
- Fique a vontade! - disse para Haylie assim que ela passou pela porta e parou analisando minha sala. - Bom, meu gosto para decoração mudou um pouquinho desde o colegial.
- É linda, mas não parece nem um pouco com aquele seu apartamento - ela disse rindo e logo foi se sentar na poltrona mais aconchegante de toda a casa. - Sério, eu adorei!
- Quer beber alguma coisa? - perguntei voltando da cozinha com duas garrafinhas de cerveja.
- Não é como se eu pudesse negar! - abri a garrafa antes de entregá-la e aproveitei para me jogar sobre o sofá. - Vamos, agora não vamos precisar dirigir, temos cerveja e muita coisa para conversar! - joguei a cabeça para trás esperando a primeira pergunta.
- Manda.
- Primeiro, quando você comprou essa casa? É tão linda - comecei a rir e tentei me lembrar do dia em que fechei o negócio.
- Foi no último ano de faculdade, eu já estava de saco cheio de morar no campus e já estava trabalhando, então achei que se tirasse o dinheiro do fundo que meus pais tinham deixado, não teria problema.
- Você escolheu muito bem, sério! - Haylie aproveitou a pequena pausa para deixar a garrafa de cerveja sobre a mesa de centro. - Vamos lá, madame. Ou você acha que eu não percebi sua leve tendência a me enrolar?
Rolei os olhos como se minha mãe estivesse falando comigo.
- Você voltou, eu estou feliz, mas as coisas ainda não estão como antes, não é? Eu juro que não estou aqui pra te julgar, já disse isso uma vez. Só quero saber o que aconteceu, nem o sabe e ele se aproximou tanto de você antes de ir embora. Por mais que eu tente não ficar criando possibilidades e teorias para o que aconteceu, algo me diz que não é bem o problema dessa história toda... E por mais que você não queira, outras pessoas mudaram muito quando você foi embora.
Eu sabia muito bem que ela estava falando de , mas preferia manter aquilo guardado, por enquanto. Antes mesmo da ideia de ir embora, passou pela minha cabeça que a minha relação com já havia assumido um tom de estranhamento que eu nunca desejaria. Ele era o cara que eu deveria levar pro resto da vida, não necessariamente como namorado, marido ou qualquer coisa do tipo, mas um cara que é como um irmão.
- Eu nem sei como as coisas ficaram depois que sumi, Haylie. E pode acreditar que por muito tempo, o que eu mais quis, foi saber como tudo estava, como vocês estavam, se eu poderia voltar atrás e rasgar ou queimar as besteiras, deixar tudo do jeito que era.
- Você tinha a opção de voltar.
- Eu não queria me sentir como uma manipuladora de marionetes. Seria como admitir para os outros que machucá-los não fez diferença alguma na minha vida, mas foi muito pelo contrário - desabei. Eu não estava chorando e também não iria chorar. Eu apenas sentia que uma avalanche estava me sufocando.
- O que você fez?
- O que eu fiz? Ou para quem eu fiz? - A bola de neve era tão grande que uma simples pergunta poderia tomar milhares de rumos diferentes.
- O que você fez ao ?
Meu olhar, que até poucos segundos estava perdido bem ali na minha estante, tornou-se duro. Severo. Eu esperava escutar uma pergunta relacionada a , mas ouvir uma pergunta tão direta e sobre me fez pensar qual o tamanho do estrago daquele último momento pesado que tivemos.

Flashback - 4 anos atrás

Aquela era a décima rodada de bebidas que Jason oferecia por conta da casa. Todos comemoravam o resultado do concurso e também o prêmio da banda. Naquele momento, e cantavam um clássico brega no karaokê, enquanto Haylie batia fotos, sem controlar a risada histérica. Restava à mesa , e . Um belo impasse. Um pouco perdida, a menina tentava desviar o olhar entre os dois a todo tempo, , por sua vez, percebia uma tensão diferente do normal, apenas permanecia calado, não havia o que falar. Um chiado incômodo soou do microfone de .
- , vem cá, cara. Você precisa cantar essa com a gente - ele disse, se levantou e levou sua garrafa de cerveja, deixando apenas e ali.
nunca havia se sentido tão estranha. Mantinha o silêncio constrangedor sobre a mesa e o olhar preso em suas unhas. Na única vez em que escolheu levantar o rosto e olhar para , se arrependeu. Ele fitava seu rosto de uma maneira diferente, concentrado. Assim que seus olhos caíram sobre os lábios dela, ouviu-a dizer.
- ... - não era um chamado, era uma repreensão. Ela não ia iria repetir o erro, ele já havia prometido que não o faria de novo. Ele assentiu tão discretamente que foi difícil ver. Lentamente levantou-se da cadeira, hesitou em falar, mas assim que percebeu que ele iria embora, pronunciou-se. - Você não precisa ir.
Antes que ele deixasse o pub, sentiu novamente seu olhar. Não mais concentrado, agora derrotado.

Flashforward

- Eu poderia apostar alto que aconteceu algo entre vocês que nós não sabemos - por mais que eu quisesse manter meu silêncio, não poderia. Eu queria perguntar como ele esteve, como a vida dele estava, queria saber tudo sobre ele. E ao mesmo tempo me peguei com uma maldita saudade dos tempos de colegial, o tempo em que ainda não estava de volta para transformar minha vida. Apenas o tempo em que eu e éramos amigos inseparáveis, peculiares, mas inseparáveis.
- Na verdade, sabe o que aconteceu entre e eu, mas acabo de ver que ele guardou segredo por todo esse tempo.
- Eu cheguei a tocar no assunto uma vez ou duas, quando a sua partida ainda era recente e ele não me deu sinais de que sabia de alguma coisa, por isso não insisti.
- Eu contei a ele antes que ficasse maluca tentando encontrar uma solução para a besteira que eu tinha feito.
- Sem rodeios, . O que aconteceu?
Titubeei por um tempo antes de falar. A verdade é que eu não sabia como abordar aquilo.
- Eu fiquei com pouco tempo antes de ir embora.
A sobrancelha direita de Haylie se ergueu e sua expressão intrigada me fez pensar que ela ainda procurava o sentido certo daquela frase.
- , nós tínhamos uns 17 ou 18 anos. Eu não entendi qual o grande problema disso... Ou talvez eu não tenha entendido a frase do jeito certo.
- Era como se eu estivesse tentando superar toda a dor de não saber o que o meu futuro com me causava. E, no fundo, algo me dizia que para o , não era bem isso que estava acontecendo.
- gostava de você. E de verdade. Eu estou de falando de amor. Mas mesmo assim, vocês ficaram, não acredito que um beijo possa ter acabado dessa forma com ele. Ele vivia fazendo isso com as garotas pela cidade toda.
- Isso se tivesse sido apenas um beijo.
Pronto. Estava na mesa. Parte da minha encrenca pessoal.
- Puta merda, você 'tá brincando... sabe disso?
- Eu não contei nada.
- também não deve ter contado, caso contrário, duvido que a banda estivesse inteira até hoje. Isso é realmente difícil, .
Obrigada, essa última frase não é uma descoberta para mim.
- Algo me diz que tem mais...
- No dia da formatura, eu já sabia que ia embora. E naquela mesma noite, eu acabei dormindo com o . Fui embora logo antes de amanhecer e deixei uma carta com ele.
O silêncio de Haylie doía mais do que ela poderia imaginar.
Eu, definitivamente, era uma desgraçada. E teria uma longa noite para contar todas as minhas burrices...

- Matt, depois que terminarmos isso, passa por favor na sala de revisão e pergunta se a matéria sobre aquele festival que vai acontecer no Hyde mês que vem já saiu de lá? - eu remexia em vários papéis espalhados sobre a mesa enquanto Matt conferia alguns tópicos do que tínhamos separado para aquele dia. Ele era o melhor assistente que alguém poderia ter. Vi sua cabeça acenar em resposta ao que eu tinha dito segundos atrás, concentrado demais em procurar deixar apenas o que fosse muito necessário, porque pelo andar da carruagem, não terminaríamos aquilo até o fim do expediente nunca.
Minha caixa de e-mails nunca esteve tão movimentada, e tudo por culpa do patrocínio que a revista estava dando para um novo festival de música que pretendia competir com os famosos festivais da Inglaterra. Fotos, bandas, entrevistas e nem tempo para o almoço estava me sobrando. Ainda escolhia qual e-mail responder quando percebi que Matt me olhava insistentemente, indeciso, confuso, não sei. Apenas senti que seu olhar não desgrudava de mim havia alguns minutos.
Devo frisar que um olhar insistente sobre mim é algo que incomoda.
Minimizei a tela e virei a cadeira até estar completamente de frente para a mesa, e assim, de frente para Matt. Olha-lo nos olhos não o fez desviar, pelo contrário, seu olhar agora parecia travado por ter sido pego. Eu não sabia bem se deveria perguntar por qual motivo ele estava me olhando, eu tinha a impressão de que ele estava curioso. E curiosidade é outra coisa que me incomoda.
Deixei os ombros caírem cansados e coloquei as mãos sobre a mesa. Finalmente ele bufou e decidiu que era hora de falar.
- Você é minha chefe e eu sou um estagiário que não está afim de perder uma enorme chance de trabalho, mas eu não consigo segurar a minha curiosidade - eu disse, aí está ela, a maldita curiosidade.
- Matt, você é bem sortudo, por algum motivo que eu ainda não sei eu simpatizo muito com esse seu jeitinho atrapalhado. Vamos, o que você quer saber?
- Por que me pediu pra conseguir o telefone da Haylie Harris?
Eu fui pega de surpresa, definitivamente. Esperava qualquer outra pergunta, menos aquela. Já havia se passado quase um mês desde que ele achara o telefone. Esse assunto já deveria estar morto e enterrado dentro daquela cabecinha.
- Eu não quero me meter na sua vida, mas imaginei que teria algo a ver com a revista. Ela está trabalhando em uma ótima empresa de publicidade que é responsável pela propaganda do festival, foi assim que consegui o telefone dela. Só que por acaso ela também é namorada de um dos caras do McFLY, que dizem as más línguas, vão estar na capa do mês que vem.
Eu desenvolvi um raciocínio até certa parte. Eu já havia esquecido como odeio que me perguntem coisas que não sei responder rapidamente. Que más línguas eram essas que falavam sobre McFLY na capa da próxima edição? Isso era uma bela pedra no meu caminho. Não que eu não quisesse isso. Estar na capa da NME era o mesmo que estar na boca de toda a Inglaterra, mas estar na capa da NME também significa passar pelas minhas mãos no quesito trabalho braçal naquela revista.
- Onde você ouviu isso, Matt? - perguntei, me esquecendo de explicar o porquê da necessidade do telefone da Haylie.
- O Addam me chamou na sala dele hoje de manhã e quando entrei, por acaso, ele estava falando com o empresário dos caras.
Arrumei minha postura na cadeira e afundei o rosto nas mãos. Aquilo era um problema, um belo problema.
Interrompendo totalmente meu drama particular, April entrou na sala com Addam em seu encalço. Matt parou o que estava fazendo e me mandou um olhar do tipo: finja que nunca falamos sobre eu andar escutando a conversa do chefe. Tentei colocar uma cara bem mais ou menos no rosto, antes de perguntar por que diabos April estava animada daquele jeito.
- Eu precisava estar aqui para ver esse momento - ela disse empolgada ocupando um lugar no pequeno sofá da sala. Addam também parecia bem feliz, mas não me fez pensar que era um feliz muito bom.
- Hoje é seu grande dia - ele disse animado antes de colocar o envelope pardo sobre minha mesa. - Você ganhou a próxima matéria da capa!
Não consegui conter o sorriso, mas, ao mesmo tempo, eu estava sentindo um tipo de tontura, porque se minha conversa com Matt tivesse fundamento, em alguns segundos eu já não teria motivos para sorrir.
- Você vai trabalhar com o McFLY!

06


Qualquer sala que não fosse a minha nunca pareceu tão longe. Se eu pudesse chutar diria que já estava andando por aqueles corredores por pelo menos vinte minutos. Mas não, eu sabia muito bem que não era nada disso. Havia apenas saído como uma louca, atordoada, quase trombando com os funcionários nos corredores. Mas que droga era aquela?
Assim que vi a porta do banheiro feminino apressei ainda mais os passos e joguei o corpo contra a porta, fechando logo em seguida e me encostando. Meu peito subia e descia num ritmo pesado, minha respiração era como a de um maratonista em fim de prova. Aquela merda de porta não tinha uma tranca, se tivesse eu talvez me sentisse um pouco melhor, realmente sozinha. A qualquer momento alguém poderia entrar e me pegar naquele momento de epifania.
Molhei as mãos e aos poucos deixei que o choque contra minha pele me distraísse.
Qual era o problema em ter um plano B? Eu nunca pensava em alternativas que me tirassem de enrascadas como naquele momento. Óbvio que eu pensava no dia em que seria obrigada a encontrar com , , e , mas seria essencial planejar com uma certa antecedência. E não existia a possibilidade de voltar para aquela sala onde deixei todos com cara de idiota e dizer que passaria aquele trabalho para frente. Eu estudei quatro anos para ter um emprego como esse, e por sorte consegui de primeira. Não fazia parte dos planos abandonar isso tudo.
Há dias eu vinha pensando em como faria para resolver minhas pendências, agora, nunca tente me fazer resolver problemas sob pressão. Muito menos colocando meu emprego em jogo. Addam não era nem de longe obrigado a saber dos meus problemas com aquela banda em especial, mas ainda assim... Existem pessoas com um certo faro para assuntos delicados.
Eu queria que fumaça saísse da minha cabeça, assim uma solução poderia simplesmente aparecer e resolver tudo. Estava pronta para deixar aquele banheiro quando April passou pela porta fazendo um barulho desnecessário.
- Que merda foi essa? Como você deixa o Addam falando sozinho? - eu respirava rapidamente, como se tivesse corrido por todo prédio atrás de mim. Não duvidava dessa alternativa. - Você me assustou, achei que estivesse passando mal ou qualquer coisa assim. Você 'tá grávida por acaso?
- Cala essa boca, April - provavelmente eu já havia voltado a minha cor normal, já não tremia mais ou apresentava qualquer sinal de desespero. - Eu não sei como fazer isso.
- Como assim? - ela indagou firmemente. - Você foi promovida exatamente por isso, porque era a melhor estagiária desse lugar em anos. Você sabe muito bem como fazer isso.
- Vai além do trabalho, não sei se posso fazer essa matéria.
- Claro que pode, ou poderia, não sei. Quero saber o que o Addam achou dessa sua saída perturbada da sala. Como você deixa o chefe falando sozinho, sua doente?
- ... - sussurrei mais para mim do que para April, mas ela acabou ouvindo.
- Que ? Desculpa, mas seus problemas não podem afetar seu trabalho, não dessa forma. - ela disse encostando-se a pia ao meu lado. Meu coração agora estava espremido, e algo me dizia que isso era medo.
- . - Repeti como uma gravação.
- O que tem esse cara agora? Sério, , ele faz parte do passado, esqueça o que você fez ou deixou de fazer, não pode estragar tudo por causa disso.
Quando fiz menção de abrir a boca e explicar quem era em toda aquela situação, April colocou a mão em sinal de calma bem a minha frente.
- Esse é o nome de um dos integrantes da banda, não é? Espera! Não vai me dizer que... Eu não acredito nisso.
- Eu vou passar essa matéria para frente, só preciso conversar com Addam.
- O destino é a vadia da sua vida, . De verdade - procurei pelo papel toalha para secar as mãos e resolver aquilo de uma vez, afinal tudo já estava confuso até demais. - Espera aí, não passe a matéria para frente. Eu posso te ajudar.
Assim que me aproximei da sala vi Matt com um rosto aflito. Logo ele se aproximou para saber se eu estava bem, se estava passando mal ou qualquer coisa do tipo. Apenas garanti que não era nada demais e no tempo certo explicaria. Ele pareceu se convencer, mas alertou que Addam queria conversar o quanto antes.
Já estava preparada para enfrentar Addam quando Matt puxou minha mão e avisou de uma forma estranha.
- Vá depois. Tem uma visita para você na sua sala - estranhei porque não estava esperando ninguém, principalmente no fim do expediente. Esperei que Matt fosse embora para abrir a porta da minha sala.
Dei de cara com uma silhueta masculina de costas. Que infelizmente eu conhecia.
Ethan.

Minha surpresa deveria ser maior que a capacidade de me mover.
Ao perceber minha presença, Ethan fez questão de virar-se e encarar minha cara de idiota por longos e tortuosos segundos. O tempo parecia acinzentado de uma hora para outra, meu ar-condicionado poderia estar em dez graus a menos que o normal. Tudo sempre parecia maior quando ele estava por perto. Mas não adiantava tentar persuadir a própria mente na tentativa de acreditar que sua presença trazia qualquer sentimento bom. Minha percepção para coisas desagradáveis apenas triplicava e me tornava muito mais atenta a tudo e todos.
Assim que percebi sua intenção de caminhar em minha direção, de forma firme fechei a porta, dei a volta na mesa e fiz questão de me posicionar bem atrás daquela enorme placa de vidro onde meus papéis estavam espalhados.
Minha sala nunca havia parecido tão pequena.
- O que veio fazer aqui? - perguntei desejando que minha vó saísse forte e autoritária, afinal ele estava onde não foi chamado, mas pelo contrário, poderia ler em seus olhos que minha voz parecia de uma criança bem vulnerável.
- Vim te ver - ele respondeu, apenas. Como se realmente tivéssemos aquele grau de proximidade. Como se eu realmente esperasse sua visita em uma tarde agradável para uma xícara de chá.
- Como descobriu onde trabalho? - aos poucos conseguia instalar minha confiança em minha voz. Eu só o queria fora da minha sala. Não era pedir demais.
- Sua vó gentilmente me deu o endereço e o telefone também.
Ali estava uma coisa que deveria ser anotada com destaque na minha agenda. Proibir minha vó de falar sobre mim quando não estou por perto.
- Não nos vemos desde aquele jantar na casa dos seus avós durante as férias. Devo dizer que senti sua falta. - Minha falta? Minha? De verdade? Por favor, eu precisava mais do que nunca saber se o alarme de incêndio estava ao meu alcance ou não.
- Infelizmente eu não posso dizer o mesmo, mas fiquei muito curiosa sobre o motivo de estar lá. - Isso sim era uma verdade. E eu estava me coçando para que ele respondesse.
- Sua vó está vindo para cá, não? - Alerta vermelho piscando. Como ele sabia disso? Minha vó também estava entregando o plano de vôo do avião para ele? Esqueça os motivos da visitinha desagradável dele a casa dos meus avós ou ao meu trabalho. - Será bom a por perto.
- Sem joguinhos, Ethan. O que você sabe sobre isso? O que minha vó tem de tão importante para me falar? - provavelmente meu nervosismo já estava comandando meu de voz mais uma vez.
- As coisas vão mudar, .
Antes mesmo que eu pudesse protestar sobre aquela resposta ridícula, Ethan se aproximou e depositou um beijo demorado em minha bochecha. Apenas esperei que cruzasse a porta para jogar o corpo sobre minha cadeira. Quem ele pensava que era para me deixar cheia de perguntas sem resposta?

Acho que desde que comecei a trabalhar nunca tive um dia tão turbulento e inacreditável. A rotina lá dentro era cansativa e maluca, mas ainda assim suportável, afinal foi o que escolhi fazer. Agora ver seus problemas pessoais aos poucos se misturarem com suas tarefas profissionais, isso poderia me deixar louca.
Assim que desci do carro percebi o quanto estava tensa, com músculos retesados e uma constante impressão de que algo ainda estava por vir.
Bem na soleira da porta estava algo completamente estranho. Inesperado. Pelo menos para mim.
Um buquê.

Eu ainda não havia descoberto de onde surgira o buquê da semana passada, e também aos poucos deixava isso cair no esquecimento, até as rosas já estavam murchas. O trabalho mais do que nunca começava a tomar conta da minha cabeça e corpo.
April e eu decidimos que passar o trabalho com a banda não seria prudente, muito menos profissional, por isso depois de muito insistir e conversar com Addam e mais alguns chefes de outros departamentos conseguimos convence-los de que juntas faríamos um trabalho espetacularmente melhor. E eu ainda contaria com o bônus de ficar cuidado apenas da parte a ser publicada, o contato com a banda ficaria por conta da April. Uma verdadeira mão na roda.
Em poucos minutos estaria pronta para almoçar e como sempre faria isso com April e Matt. Ao ouvir meu celular tocar e vibrar sobre a mesa de vidro levei um pequeno susto, mas aproveitei para fechar todas as mil janelas abertas área de trabalho e pegar a bolsa. Apenas o nome de minha vó piscando na tela me fez pesar se deveria deixar a sala antes de falar com ela.
- Vó... - não era como uma saudação, era mais como um alerta. - Que surpresa.
- Imaginei que estaria livre na hora do almoço, não estou atrapalhando, não é? - na verdade estava. Atrapalhando minha paz de espírito para ser mais sincera. Contudo a certa pressa em sua voz me fez estranhar aquilo e voltar a sentar.
- Imagina, não está atrapalhando em nada. Como está?
- Estou bem, querida. Na verdade liguei para falar sobre seu avô e aquela minha visita que comentei enquanto passava as férias aqui. - O tal dia estava chegando e eu podia sentir cheiro de problemas.
- Aconteceu alguma coisa com o vovô? - agora o sentimento expresso em minha voz era completamente sincero. Eu sabia do estado debilitado que cada vez mais dominava meu avô e tinha medo de saber que tudo estava ainda pior.
- Fomos ao médico no começo da semana para saber dos resultados de alguns exames e as notícias dadas pelo médico acabaram implicando na minha visita a Londres.
- Vó, o que está acontecendo?
- Eu explicarei quando chegar. Queria saber se pode me buscar no aeroporto sexta-feira à tarde? - naquele momento descobri exatamente qual era o som da voz de minha vó. Pesar.
- Claro, você já tem um hotel para ficar?
- Sim, já resolvi essas coisas, apenas escolha um bom restaurante para almoçarmos e conversarmos quando chegar.
- Tudo bem. Qualquer coisa me ligue.
- Até sexta, querida - e assim terminou. E minha fome não existia mais.
Um frio estranho desceu pela minha nuca e meu mais famoso sinal de nervosismo estava ali. Mãos suando. Levantei da cadeira e tentei acelerar o passo para sair dali. Os corredores daquele andar estavam agitados, pelo menos metade dos funcionários sairia para almoçar naquele intervalo. Addam caminhava apressado e na minha direção.
- Quem bom que te encontrei. Terminou aquelas coisas sobre o Les Festival? - me perguntou folheando alguns papeis.
- Sim, pensei em adiantar algumas coisas depois do almoço.
- Então pode fazer isso em casa, está dispensada por hoje. Procure descansar também! - e antes que pudesse agradecer ele já estava virando na leve curva do corredor.

Não passava das quatro da tarde quando estacionei o carro em frente a minha casa.
Eram raros os dias em que eu tinha a oportunidade de sair mais cedo e chegar mais cedo. Nesses dias eu sempre aproveitava para comprar algumas besteiras de comer no caminho e assim o trabalho que eu sempre levava para casa não ficava tão chato.
Sempre abria a porta e colocava a bolsa sobre um pequeno móvel que estava lá perto, mas um envelope pardo chamou minha atenção. Bem ali no chão, como se tivesse sido passado por baixo da minha porta. Abaixei e analisei procurando um remetente ou qualquer informação. Por não ouvir nenhum tique-taque imaginei não ter risco abrir.
Tirei de lá apenas uma longa tira de papel que mais parecia um ingresso.
E realmente era. Um ingresso para o próximo show do McFLY.

07


Aeroportos.
Eu odiava aeroportos e só conseguia me lembrar disso quando era obrigada a ir a um deles como acontecia naquele exato momento. O vôo que traria minha vó estava marcado para as duas e meia da tarde, e como Addam já havia autorizado eu passaria o resto do dia fora. Todos aquelas pessoas com pressa, carregando malas com rodinhas. O cheiro de café expresso tomando o ar. Eu poderia garantir que o que eu sentia estava próximo a náusea. Estava sentada há um tempo razoável, principalmente para alguém que se encontrava naquela situação desconfortável.
Escutei o anúncio do pouso vindo de Roma e levantei torcendo para ser um vôo vazio, ter que vasculhar o grupo de passageiros atrás de minha vó seria mais uma coisa que não estava na minha lista de preferências para aquele dia. Por sorte não foi necessário esperar muito, logo avistei minha vó andando com aquela postura tão correta que me fazia pensar o quanto esculachada eu parecia quando andava.
- Dessa vez não posso dizer como você cresceu, nos vemos há pouco tempo, não é? - ela e seu baixo e extremamente cordial também. - Me dê um abraço ou me deixará com a impressão de que não está feliz em me ver.
- Eu estou feliz, vó - me encaixei em seus braços abertos prontos para um abraço, mas não tão radiante como ela esperava, ou como eu gostaria. A verdade é que aquela situação com a minha vó me incomodava. Eu queria me sentir bem com ela como me sentia sempre que estava perto de meu avô, mas algo me diz que soaria artificial. Estamos falando de uma incompatibilidade de gênios que vem caminhando lado a lado há anos, mas apenas caminhando, nunca se misturando.
Já ouvi pessoas próximas dizerem que minha semelhança com a minha mãe - em todos os sentidos possíveis - incomodava minha vó. As rédeas que ela tentou lançar sobre minha mãe durante toda a vida nunca se moldaram a aquele espírito forte que só queria liberdade o tempo todo. Uma liberdade que eu nunca tive, mas que sempre pareceu viver dentro de mim.
Escolhi um restaurante que tinha certeza de que estava dentro do gosto da minha vó, isso porque minha memória não falhava e eu lembrava muito bem das vezes que meu avô nos levou até lá. O caminho foi mais silencioso do que eu imaginava, grande parte disso por culpa minha. As poucas palavras que me atrevi a soltar se referiam a viagem e como estava a vida em Roma. O tipo de assunto que sempre é neutro.
Ao chegar aquele mesmo ritual de sempre aconteceu, pedimos nossas bebidas, escolhemos uma entrada e um silêncio sepulcral voltou a pairar entre nós. Queria olhar pela janela e tentar absorver mais ar que o normal, vê-la umedecer os lábios, endireitar-se sobre a cadeira e respirar fundo me fez imaginar que aquela era a hora.
- Eu venho pensando em uma forma menos difícil de ter essa conversa, esse encontro, não queria que fosse algo pesado, complicado, mas não consigo. Garanto que despejar coisas sobre você não é o que quero, contudo não vejo mais nenhuma opção - toda aquela introdução tornou meu semblante estático. Eu não estava séria. Estava temerosa, porque um céu particular havia tornado-se escuro sobre minha cabeça.
- Antes de qualquer coisa quero que me fale o que está acontecendo com meu avô.
- Ele não está nada bem, . Creio que não seja uma novidade para você já que quando esteve em Roma percebeu seu estado debilitado, a dificuldade para se locomover, a dificuldade para comer, até para respirar. Aquela quantidade exaustiva de cuidados, de enfermeiros sempre prontos, em estado de alerta, esperando, por pior que seja, o pior. Como se não bastasse lutar uma vez, ele vem lutando por anos contra um inimigo que parece invencível por mais que aquele bando de médicos tente nos convencer do contrário. - Nunca vi minha vó falar daquela forma, apesar de sua firmeza eu podia sentir lágrimas presas no fundo de sua garganta, um choro que ela não podia se dar ao luxo de ter. um choro que a tornaria fraca perante os outros. - Sinto que essa batalha tornou-se minha, seu avô já jogou a toalha, ele não quer mais lutar, ele não quer mais receber cargas que ele não pode suportar. Fomos ao médico alguns dias atrás para saber sobre alguns resultados, exames que ele fez para saber a quantas andava a eficácia d e seu tratamento em casa e eu preferia ter ido sozinha. Ter agüentado aquilo sozinha, no lugar dele. Apenas poupa-lo de mais uma decepção.
Meus olhos estavam úmidos, minha garganta fechada. Eu observava minha vó respirar de cabeça baixa esperando uma força maior terminar aquele discurso.
- Foi diagnosticada a metástase do câncer. Em um nível que não poderíamos imaginar, por mais monitorado que ele seja. Não posso assegurar que ele viverá para vê-la mais uma vez.
- O que você quer dizer com isso, vó? - e mais uma vez me vi perdendo. Não era material. Era meu. Tratava-se de perder uma parte de mim, mais uma vez. Como se o destino ou qualquer outro agente estúpido responsável por aquilo não estivesse satisfeito com todo meu sofrimento. A lágrima que eu estava segurando desde o começo daquela conversa finalmente caiu, carregando mais algumas com ela.
- Eu não sou jovem. Seu avô está no limite da luta. Pela primeira vez sinto que estou de mãos atadas e que não vou conseguir solucionar os problemas. Tratar de negócios nesse momento pode parecer frio, mas é necessário. - Sua pausa sugeriu que o pior ainda não havia chegado. - Eu não quero que Julliet assuma os negócios da família. Eu sei bem da imagem que você carrega de mim, posso apostar que no fundo da sua cabeça existe uma voz dizendo que não sou a favor dessa posse por sua tia ser adotada, mas eu não sou assim. Posso parecer fria até meu último fio de cabelo, contudo não a esse ponto, eu amo Julliet, uma filha, parte de mim, só que não posso negar que ela sempre foi mais ambiciosa do que deveria. O que é uma qualidade para alguns se torna um veneno nas mãos dela. Não posso esperar mais, há anos atrás quando sua mãe faleceu as coisas mudaram de figura, tudo o que seria seu, herdado da sua mãe, deveria ser mantido nas mãos do seu tutor, que foi sua tia. Você tornou-se maior de idade e isso mudou no âmbito familiar, todos sabemos que você tem seu direito em tudo que nós construímos ao longo de uma vida. Seu avô não quer, mas ele mesmo já admitiu, não podemos entregar tudo nas mãos de Julliet. Caso seu avô morra, tudo passa a ser administrado por ela. Eu não terei mais nenhum valor, durante anos apenas represento seu avô por suas dificuldades.
Sua mão esticou-se sobre a mesa e tocou a minha, envolveu meus dedos.
- Eu preciso que tome esse direito para você. - Ela poderia ter terminado ali. Eu já estava sem chão. - também poderia, mas sabemos que sua vida já tomou um rumo diferente da família há muito tempo.
Sim, estava vivendo seu sonho. E o que eu faria? O que valia a minha vontade no meio daquilo tudo? Eu não tinha um sonho para seguir também? Eu estudei durante quatro anos, ralei num estágio sacrificado, estava finalmente construindo meu sonho, para o que? Para perceber que quanto mais eu tentasse nunca conseguiria sair daquele ninho?
- E o que te faz pensar que minha vida não tomou um rumo diferente também?
Por mais que eu quisesse soar cordial eu não poderia. Uma raiva maior que meu próprio corpo já tomava conta de mim e saia em forma de palavras. Desvencilhei meus dedos dos dela e sequei meu rosto ainda molhado de lágrimas. O rosto de minha vó então pareceu pálido, era mármore bem a minha frente.
- Você sempre soube que seria você. Não quero que largue seu trabalho, não quero que largue sua vida, eu sei como se sacrificou para começar isso tudo. Sei o que significa por mais que ache que não. Sei que é boa no que faz, que é competente, é exatamente por isso que preciso de você, . Preciso de você para não deixar o trabalho de uma vida cair em mãos gananciosas.
- O que eu preciso fazer? - seu olhar era bem firme sobre mim.
- É preciso que se case.
- O QUE? MAIS QUE MERDA É ESSA? - Eu não me importava mais com as pessoas em volta, eu não me preocupava nem com a reação da minha vó. Eu só queria voltar ao normal, a um dia de trabalho cansativo, a uma bebida no fim do dia com os meus amigos. Só queria sair dali.
- Na partilha das ações sua parte será maior, ainda assim não será uma vantagem contra as pessoas que querem arruinar o trabalho do seu avô. Seria bom que conseguisse mais uma parte...
- Você não está sugerindo que eu me case com alguém que também faz parte disso tudo, não é? Alguém como Ethan que misteriosamente vem aparecendo na minha vida como se sempre tivéssemos cultivado uma ligação ou uma amizade. Por favor, me diga que esse não é o motivo pelo qual aquele cara apareceu naquele jantar?
- , você não é mais uma criança...
- Chega! Chega, você me ouviu? Você realmente quer me dizer que não sou mais uma criança, mas quando viro as costas você e meu avô estão resolvendo a minha vida sem ao menos me consultar, sem ao menos saber no que isso pode resultar? Que droga eu valho nesse negócio todo? Um símbolo idiota, uma gaveta onde vocês todos podem depositar a esperança de continuarem podres de ricos? Me diz! É isso?
- Você não é mais uma criança e não vou tolerar qualquer tipo de infantilidade, nós estamos falando do seu futuro que, querendo ou não, está totalmente relacionado com o do seu avô, com o meu, com o de milhares de pessoas. Se realmente dá algum valor ao esforço que outros fizeram para tornar tudo isso possível, pense a respeito. Meu objetivo não é destruir sua vida como está pensando agora. - Aquilo era demais. Levantei e alinhei meu olhar ao dela.
- Nunca mais tente forçar as coisas como você estava fazendo. Nunca mais ache que você está tratando com uma idiota que não sabe nada da vida. Eu vou encontrar uma solução e já te adianto que Ethan não está entre as opções. Você nunca mais vai interferir na minha vida desse jeito.
Me afastei sentindo que nem uma mínima parcela do peso havia sido tirada das minhas costas. Minha visão estava turva e ainda assim eu iria dirigir para minha casa. Dirigir para um lugar onde eu poderia encontrar minha vida como ela realmente era.

Flashback - 12 anos atrás

Aquele era nosso natal. Uma sala de jantar confortável e quente, neve do lado de fora da janela, comidas que davam água na boca, conversas em alto tom, barulho de talheres e risadas. Era como nas estórias. O laço que prendia meu cabelo naquele momento estava nas mãos de e eu não me incomodava com aquilo, apenas achava graça. Minha mãe voltava da cozinha com uma travessa de doce e minha vó trazia mais uma taça de vinho para meu avô.
- Obrigada, querida. - Sua voz era alta sem ele querer, chamava atenção sem ele querer. - Mais um natal e estamos aqui, unidos e juntos como eu sempre quis e como sempre cuidei para que fosse. Não sei se devo repetir o sermão de todos os anos, mas vê-los aqui só me faz querer lembrar como devem cultivar isso. Sua avó sabe que nem sempre a vida foi assim, passamos por tempos difíceis antes de nos tornarmos uma família estável como somos. Apenas o que peço a vocês, principalmente você crianças, é que se lembrem de sempre estar por perto um do outro. A união é o que pode levar vocês longe, só ela pode torna-los o que somos hoje. Um dia experimentarão na pele o que digo agora, por enquanto podes apenas ser palavras divertidas e emotivas de um avô que bebeu boas taças de vinho, mas saibam, logo será a vez de vocês. E eu quero estar aqui para ver isso.
Minha vontade naquele momento era de envolver meu avô em um abraço com meus braços ainda curtos. Queria dizer a ele que se meu futuro tivesse um natal como aquele, bom, ele poderia considerar sua missão cumprida. Senti meu pai puxar meu rabo-de-cavalo e dei risada. Sua mão pegou meu queixo e aproximou meu rosto.
- Seu futuro deve ser assim, repleto de felicidade, mas não se esqueça de que ele é apenas seu. Deve ser feito por você.
Sorri e joguei meu tronco sobre suas pernas agarrando-as em um abraço desajeitado. Ainda escutando sua risada e sentindo sua mão bagunçar meu cabelo impecavelmente arrumado.

Flashforward

Meus olhos estavam mais uma vez marejados. Eu queria impedir essa facilidade estúpida para chorar, mas parecia impossível. Naquele momento eu revirava alguns papéis que recebi quando completei dezessete anos e me livrei da tutela da minha tia. Eu era tão nova que nunca me atentei a detalhes como aqueles, sabia que meus avós estavam cuidando de tudo, sabia que eles eram responsáveis por toda aquela papelada e meus direitos. Encontrei entre aquela bagunça a pasta que procurava.

Famílias relacionadas à partilha de ações:
- Família (Associada majoritária)
- Família Pittburg (Associada)
- Família Delacoure (Conselheira do associado)
- Família


Engoli de maneira firme todo o meu ódio. Minha família era realmente majoritária. A família Pittburg era a família de por parte de pai, Julliet realmente se achou muito esperta quando casou com um dos herdeiros, apenas não contava com a separação de bens em seu casamento. Família Delacoure era a família de Ethan. E a última família era a que eu menos gostaria de me aproximar.
Estava tudo acontecendo. De verdade.

08


Há dias eu acordava sentindo um peso a mais sobre mim. Era como ter uma âncora bem em cima de mim, dificultando minha respiração, exigindo mais esforço do que eu era capaz de fazer. Isso porque minha cabeça estava ruim. Eu era a pessoa mais confusa naquela cidade, minha vida havia virado de ponta cabeça em questão de dias e eu me sentia completamente impotente sobre isso.
Era apenas assistir de camarote.
Ou quem sabe lutar para mudar tudo aquilo e colocar as coisas no eixo.
Já era sexta-feira outra vez. Os dias estavam voando e eu não conseguia acompanha-los sem parecer um zumbi. Estiquei o braço para desligar o despertador e lancei as pernas para fora da cama. Espreguiçar e ouvir todos os ossos estalando já não era tão prazeroso como antes. Apenas me contentei em arrastar o corpo com preguiça para baixo de um longo banho antes de escolher uma roupa para trabalhar.
Enrolei-me na toalha e caminhei até o armário imaginando uma boa roupa e decidi me vestir como normalmente me vestiria, nada de vestidinhos retos e quase sociais, saias de cintura alta ou camisas sociais. Tirei o primeiro jeans de lavagem azul já desbotada que encontrei, uma regata azul marinho, uma blusa simples e mais larguinha, meu Vans preferido. Escovei os cabelos e deixei soltos, parei em frente ao espelho de corpo inteiro que ficava próximo à porta e me analisei lentamente.
Era como ter dezenove anos outra vez. Para piorar era ótimo. Era muito mais parecida comigo. Balancei a cabeça tentando esquecer daquelas coisas. Joguei algumas coisas que estavam espalhadas sobre a cômoda dentro da bolsa e saí correndo. Já na sala peguei o cardigan que estava perdurado perto da porta e tranquei a casa.
Para uma sexta-feira o trânsito estava tranquilo demais. Cheguei ao trabalho um pouco adiantada e passei pelos corredores calmamente, não correndo como era o costume. Acenei para alguns conhecidos e entrei na minha encontrando tudo como havia deixado na noite anterior.
Horas depois tudo já corria como sempre, meu telefone já havia tocado diversas vezes e o trabalho apenas se acumulava sobre minha mesa. Ouvi uma leve batida na porta e gritei algo do tipo "entre" para quem estivesse do outro lado. Ao abrir a porta vi Addam impecavelmente arrumado, mas também sem sua roupa social de costume. Ao olhar para meus pés balançando abaixo da mesa, apenas de meia pude ver um sorriso engraçado em seu rosto.
- Pelo jeito todos decidiram abandonar o visual sério hoje - ele disse carregando algumas fotos nas mãos. Sentou-se e eu deixei o que fazia de lado por alguns minutos.
- A que devo a honra da visita? - Perguntei relaxando um pouco e deixando os braços se cruzarem sobre a mesa.
- Queria saber se está tudo bem, essa semana quase não te vi fora dessa sala e sempre que via você estava correndo - sua voz carregava um certo tom de preocupação, o que me espantou em um primeiro momento. Eu já estava acostumada com a figura de Addam muito mais amigável de agora, ele era um bom companheiro de trabalho, mas em alguns momentos eu me esquecia que ele não era mais o carrasco do meu período de estagiaria.
- Está tudo bem, Addam. Só um pouco cansada. - Sorri da maneira mais convincente possível.
- Se tiver algum problema, me avise - ele deixou sua postura e colocou as fotos que carregava sobre minha mesa. - Os fotógrafos do Lês Festival começaram a mandar as fotos que pediu, trouxe algumas amostras para decidir se quer algo diferente.
- Obrigada, assim que terminar aqui dou uma olhada - vi Addam deixar minha sala e lançar um último olhar atento.

Naquela sexta decidi não descer para almoçar. Não estava com a mínima vontade de comer e ainda tinha muitas coisas para fazer. Estiquei o braço até minha bolsa que estava no chão perto da cadeira, comecei a revira-la procurando o telefone de Haylie. Há semanas não conseguia falar com ela e sentia falta disso. Ao pegar o celular acabei pegando a agenda também, até onde me lembrava não tinha nenhum compromisso importante para mais tarde.
Enquanto ouvia o celular de Haylie chamar me distrai com um papel que estava esquecido entre as datas da minha agenda. Retirei com cuidado o pequeno ingresso. Eu há havia desistido de esgotar energias que eu não tinha para descobrir como aquilo havia parado na porta da minha casa. Era como assistir tudo voltar de volta a estaca zero. Finalmente Haylie atendeu.
- Pronto - era engraçado ouvir alguém atender e falar "pronto".
- Sou eu, Hay - disse na esperança de ela não ter esquecido minha voz já que meu número ela não tinha reconhecido. - Ou você não lembra mais de mim?
- ! Desculpa, eu estava um pouco enrolada, não esqueci de você!
- Que bom, pensei em ligar porque já faz uns dias que não nos falamos...
- Dias? Faz semanas! Eu queria ter ligado, mas tudo está fora do lugar. Os meninos vão começar uma turnê por aqui e as coisas estão de pernas pro ar. - Ela explicou.
- Sim, eu estou sabendo. Liguei para falar disso também - ouvi um "hum" do outro lado da linha. Ela apenas soltou um ruído por falta de palavras, sabia que Haylie ficaria surpresa em me ver ligando para fala sobre isso. - Na semana passada eu recebi uma coisa e queria saber se você sabe alguma coisa sobre...
- Uma coisa? Vocês está sendo meio vaga. Do que você está falando especificamente?
- Estou falando de um ingresso pro show de hoje a noite.
Poderia jurar que eu ouvi um suspiro do outro lado da linha, mas no momento tudo era silêncio. Aos pouco um frio descia pela minha espinha e eu preferia pensar que Haylie não sabia sobre o que eu estava falando. Poderia ser apenas uma cortesia mal esclarecida, era rotina recebermos ingressos para shows.
- Não fui eu quem mandou, - ela disse simplesmente. - Se tivesse que mandar apenas me encontraria com você e pronto. Posso te garantir que ninguém daqui, além de mim e , sabe sobre você.
Eu queria poder respirar aliviada, mas precisava. Não conseguiria de qualquer forma.
- Você poderia ir ao show de hoje - ela pediu, não sugeriu. E existia uma coisinha lá no fundo que não me deixava pensar, se dependesse disso eu já estaria dizendo a Haylie que iria com certeza. Um resto de juízo tentava me puxar e dizer que não, não deveria ir. Ainda assim eu queria saber o que estava acontecendo. -, me fazer companhia.
- Eu chego lá às nove.

Flashback - 5 anos atrás

Aquele era um pub pequeno, mas muito conhecido na região em que morávamos. As paredes de madeira tornavam tudo mais escuro e as lâmpadas amarelas deixavam o lugar aconchegante. Poucas eram as mesas redondas, o bar estava repleto de mesas quadradas para pequenos grupos de amigos, o que não era nosso caso. Além de toda a banda - recentemente batizada -, Johnny, Haylie e eu estávamos presentes para ver àquilo pela primeira vez.
O combinado era um pocket com algumas músicas da banda e covers clássicos e conhecidos, os meninos realmente não contavam com um arsenal de músicas próprias, mas o repertório de covers era de tirar o fôlego, e Peter, dono do pub, já estava sabendo disso.
Bem no cantinho do palco estava uma lousa onde Peter havia escrito o nome da banda: McFLY.
Os quatro banquinhos estavam posicionados, vi Johnny sair detrás das cortinas e fazer um pequeno sinal de "ok" antes de se sentar conosco. A garçonete deixou mais três canecas de cerveja sobre nossa mesa e colocou o rosto para fora das cortinas. Aos poucos o pub parecia mais cheio, a maioria era de alunos do colégio, mas alguns universitários que apenas gostavam de música se acomodavam também.
Realmente parecia ser o único com coragem de sair das pequenas cochias, afinal era ele que agora colocava os instrumentos sobre o palco e em seus respectivos lugares e acenava para alguns conhecidos. Já passava das nove quando Peter subiu ao palco para anunciar a banda daquela noite. Um atrás do outro, como naquelas filas da escola, eles entraram no palco. , , e . Soaram palmas e assovios, além de algumas zoações e apelidos do colegial, mas mais tímidos do que era possível imaginar eles testarem os primeiros acordes da música escolhida para o começo. Era a música que havia nos mostrado há algum tempo atrás, a letra já estava na minha cabeça porque eu apenas cantarolava onde estivesse, e sabia mais do que qualquer um que logo menos todas aquelas letras estariam na boca de todos.

Flashforward

Eu não me lembrava por qual escada havia subido, mas naquele momento, todas aquelas meninas estéricas, aquela confusão, me parecia que qualquer das duas escadas serviria. Meu caminho para saída estava quase completo quando fui abordada por alguém três vezes maior que eu, sua mão grande demais envolveu meu braço e me deparei com um dos seguranças do lugar. Estranhei nos primeiros segundos, eu queria saber o que ele queria, mas o barulho daquelas pessoas impedia que eu ouvisse o que ele queria dizer.
- O quê? - perguntei com uma clara cara de duvida. Ele se aproximou e voltou a falar o que já havia dito.
- Você é ? - acenei positivamente com a cabeça e ele decidiu continuar. - Você é a moça da NME? - acenei novamente e me senti um pouco mais tranquila ao saber que se tratava de trabalho. - Me pediram para leva-la até o backstage, seu chefe está te esperando lá.
Meu chefe? Ele estava falando de Addam? Que diabos Addam estaria fazendo aqui?
Senti o aperto em meu braço afrouxar e passei a seguir o enorme segurança, indo contra o fluxo de jovens que deixavam a casa de shows. Os corredores eram típicos, como em todo show. Repletos de cases, containeres, cabos e homens para lá e para cá.
Vi uma porta abrir bem a minha frente e uma sala apareceu. Nada demais, apenas um sofá, uma cortina preta, uma mesa com instrumentos e mais caixas pretas com o logo da banda. Porém o mais importante não estava lá, Addam.
- Onde ele está? - o segurança estava distraído e só voltou a prestar atenção em mim quando ouviu minha voz.
- Vou avisar que consegui te achar - assim ele me deixou ali, sozinha.
Sozinha com um frio descendo pela nuca, um reboliço no estômago, as palmas das mãos suando e a sensação de que algo poderia dar errado. Lembrei que estava com a minha bolsa bem ali e comecei a vasculha-la atrás do meu celular. Por falta disso encontrei o Nextel. Eu odiava rádios, mas a sensação de coisas fora do lugar era pior, apertei o botão esperando que Addam estivesse carregando seu rádio e pudesse me dizer o que eu estava fazendo ali.
- Addam? - perguntei esperando uma resposta.
- ? Aconteceu alguma coisa? - eu deveria estar perguntando aquilo. Eu sabia que algo não estava certo.
- Eu que pergunto, eu estava assistindo o show da banda que estamos fazendo a matéria e de repente um segurança me arrastou pra uma sala dizendo que você queria falar comigo.
- Eu estou na redação, .
Merda. Chutei o sofá que estava próximo e pensei no que dizer.
- Tudo bem, acho que foi um engano, eu vou procurar quem fez essa confusão.
Sem esperar uma resposta dele desliguei e me joguei sobre o sofá quando, na verdade, eu deveria ter saído daquela sala e procurado o segurança estúpido que havia me deixado ali sozinha. Contudo eu estava nervosa demais para sequer levantar. Coloquei a cabeça entre as mãos e me segurei para não soltar um palavrão em alto e bom som. Antes que eu pudesse sair dali ouvi a porta abrir e já estava pronta para xingar quem quer que tivesse feito aquela palhaçada.
Já era tarde.
A verdade é que eu evitava ao máximo qualquer forma de me aproximar de uma imagem de . Os clipes de vez em quando estavam passando na redação e eu apenas desviava meu olhar. Revistas concorrentes eram entregues em casa para que fizéssemos a avaliação mensal e sempre que sua foto estava lá eu passava o trabalho para frente. Tudo isso para evitar algo que atormentava minhas noites de sono, pelo simples fato de estar presente em meu subconsciente. Ele estava bem na minha frente e eu não podia correr.
Seus cabelos estavam maiores e conseqüentemente mais bagunçados, seus olhos pareciam mais azuis e mais profundos, sua boca vermelha e entreaberta, como sempre ficava quando estava distraído. Coisas que construí inúmeras vezes em minha cabeça com medo de constata-las na realidade. Ele parecia mais alto e com um corpo mais bem cuidado que anos atrás, e com "bem cuidado" quero atentar para seus músculos que apareciam naturalmente e ainda assim discretamente. Já não usava a mesma camiseta do show, contudo seu cabelo ainda estava úmido.
Eu permaneci parada, em pé como se duas âncoras estivessem presas a mim, uma em casa pé. Minhas mãos suavam frio e meus pulmões estavam vazios, como se uma pancada tivesse colocado todos o ar que os preenchia para fora. A secura em minha boca tornava impossível qualquer fala. Mais difícil ainda era me desligar de seus olhos, que me correspondiam de uma forma que eu não queria pela probabilidade de permanecer presa.
Lentamente ele fechou a porta e encostou seu corpo ali, com as mãos dentro dos bolsos, observei seus lábios se juntarem antes de dizer alguma coisa.
- Eu estava curioso tentando imaginar se viria ou não.
Até o som de sua voz estava diferente e o leve tom de sarcasmo enrustido nela me fez imaginar se aquele ingresso em minha porta não havia sido ideia dele. Fazia tanto sentido.
- Você está diferente - dessa vez sua voz não estava tão carregada de piadas particulares. Eu não sabia no que estava diferente, apenas podia afirmar que aquele comentário me afetou de uma forma estranha. - Te chamei aqui porque minha mãe me contou sobre os problemas dos seus avós e eu queria conversar sobre isso, mas não hoje.
Não assenti, permaneci quieta, esperando que terminasse pois sabia que havia mais.
- Vou viajar na sexta de manhã então tenho a quinta a noite livre, às nove no Brandy's?
Pressionei meus lábios inclinada a recusar, mas aquele formigamento que atormentava meu estômago não me deixaria. Apenas balancei a cabeça afirmativa.
Vi deixar a sala sem mais nenhuma palavra, enquanto meu corpo apenas pesava e caia sobre o sofá.

09


Flashback - 7 anos atrás

Eu estava trancafiada em meu quarto a duas semanas. O tempo aos poucos estacionou e para mim tudo se resumia a passar horas observando o relógio e completando minhas obrigações. O colégio havia se tornado outro problema, manter meu desempenho era impossível quando em grande parte do tempo eu estava escondida, cabulando aulas ou apenas sentada no telhado, evitando encontrar com . No fim das contas eu poderia dizer com todas as letras que minha vida se concentrava nele, e sempre fora assim.
A todo o momento de distração meu olhar direcionava-se ao telefone. Eu queria ligar, eu queria saber, eu queria afirmar que toda aquela situação me incomodava de uma forma estúpida. Infelizmente eu não havia desenvolvido uma parte do ego que deveria se recolher e aceitar que pedir desculpas não é o fim do mundo, que pedir desculpas naquele caso me traria tudo o que eu mais queria. Repentinamente um estridente toque me acordou e meu coração, como todas as vezes em que aquilo acontecia, disparou. Levei a mão ao telefone e o tirei do ganho com um falso desinteresse.
- Alô - disse simplesmente. Eu não era adepta de observar o identificador de chamadas antes de atender, se isso fosse um hábito eu não teria a melhor surpresa, que superficialmente eu tentava evitar.
- Estou aqui fora, será que você podia descer - a voz dele era calma e muito baixa. Baixa o suficiente para me fazer colar o telefone à orelha e quase suplicar por mais um pouco. Era falta o que eu sentia.
Cautelosa. Na verdade amedrontada. Deixei meu quarto na casa de Juliett e saí pela porta dos fundos. Todos sabiam que minha tia não era fã de ou de sua família, por isso, sempre que ele dizia estar me esperando do lado de fora ele na verdade queria dizer que me esperava na parte de trás da casa, onde minha tia não teria chance de vê-lo. Ele realmente estava lá, de costas, encostado em uma árvore da calçada. Agarrei as mangas do meu agasalho como costumava fazer quando minhas mãos pareciam inúteis e esperei que ele notasse minha presença. Respirei fundo apenas para me certificar de que não me apoiaria em nada por medo de cair, era como preencher um buraco, seus olhos estavam mais escuros que o normal e isso o tornava mais bonito, coisa que eu não repararia antes.
pressionou os lábios como costumava fazer antes de falar alguma coisa e então desencostou seu corpo, antes apoiado na árvore, e aproximou-se de mim com um passo.
- Você está fugindo de mim há dias. Não me atende, não me responde. Você me deixou sozinho na última vez que nos vimos e desde então eu só tento me aproximar e não consigo - seu tom era de desabafo. Como se realmente tivesse guardado isso por dias até estar em frente a mim para despejar todo o necessário. - Eu só quero te explicar, te dizer que nada disso é minha culpa e que se eu pudesse ficaria aqui, até você se cansar de mim.
Eu estava cansada de fugir dele, meus olhos apenas se fecharam e um nó em minha garganta tornou tudo mais difícil. Meu esforço naquele momento era para não derramar nenhuma lágrima, eu só queria dizer que a verdade é que eu nunca me cansaria dele. Sabia muito bem que a culpa não era dele, mas tudo era tão difícil com ele... Eu mal poderia imaginar como seria sem.
- ... - ao ouvir sua voz me chamar não pude me controlar. Agarrei sua blusa com força, mas logo tudo se esvaiu, fechei o punho e acertei seu peito sem força alguma. Eu só queria bater em mim mesma por ter perdido todo o tempo restante para nós dois por uma birra idiota. - Me escutou?
- Eu sempre te escutei, - respondi de cabeça baixa, envergonhada por ser tão infantil. - Eu sempre soube que isso não é culpa sua, mas eu não consigo aceitar que você vai embora. É a única pessoa que não pode me deixar, por que é tão difícil de entender? Eu preciso de você por perto. Eu preciso de você pra continuar assim, inteira.
Suas mãos seguravam meus braços. Sua testa estava encostada na minha. Sua respiração era quase que a mesma que a minha. Tudo poderia continuar daquele jeito, mas nós dois sabíamos que não seria assim.
- Eu vou continuar por perto - ele disse se esforçando para que aquilo soasse verdadeiro, mas não era. Neguei sentindo mais lágrimas quentes escorrendo por meu rosto.
- Você sabe que não vai ser assim - coloquei seu rosto entre as minhas mãos e me estiquei só um pouco para alcança-lo. Encostei nossos lábios de uma maneira quase imperceptível. Eu não iria me despedir, eu não ligaria e também não ansiaria por uma ligação. Eu não alimentaria esperanças para aquilo.

Flashforward

Meus dedos envolviam com força o volante como se minha vida dependesse daquilo para continuar. Em alguns sinais vermelhos escutei buzinas a minha volta, mas o barulho era abafado demais para penetrar no meu cérebro que mais parecia entorpecido. Meu medo de deixar qualquer coisa escorregar de minhas mãos graças ao suor frio que se acumulava nelas me fazia demorar o dobro do tempo na execução de qualquer tarefa como uma simples manobra com o carro que eu já estava mais do que acostumada. Aos poucos eu sentia minhas pernas tremerem e tentava, em vão, deter qualquer espasmo causado pelo nervosismo. caros e famosos restaurantes da cidade. Vasculhava pelas memórias atrás de um momento em que esse gosto refinado de se destacasse. Talvez fosse apenas uma coisa nova, além das muitas que eu perdi. Abaixei o quebra-sol e verifiquei se meu rosto ainda estava em ordem, meu vestido de repente parecia colado demais ao corpo e meu salto muito alto. Como se eu quisesse chamar a atenção dele. Errado.
Levemente levei meu pé ao acelerador e coloquei o carro na faixa lateral da grande avenida, freando assim que o Valet estava a minha vista. Respirei fundo e peguei a bolsa do banco do passageiro, entreguei a chave ao manobrista e caminhei devagar até a porta do restaurante, com a visão cada vez mais turva e a respiração mais acelerada. Discretos pingos de chuva começaram a cair e por sorte eu já estava sob o toldo que carregava o nome do restaurante.
- Que merda eu estou fazendo aqui? - tentei sussurrar apenas para mim para que passasse despercebida pelos clientes que aos poucos me ultrapassavam e garantiam suas mesas. Ergui meu pulso e constatei nos ponteiros que estava quinze minutos atrasada. Queria eu não estar atrasada. Queria eu nem estar lá.
Me aproximei tímida do pequeno balcão onde estava uma recepcionista talvez mais bem vestida e mais bem maquiada que eu. Perguntei pelo nome de e recebi um aceno positivo e rapidamente já estava caminhando em direção a sua mesa.
Ele já estava lá.
Arrumado e concentrado em algum ponto distante. Os cabelos desgrenhados como sempre, os olhos quase cerrados, como se pensasse muito, os lábios pressionados e as mãos espalmadas sobre a mesa. Sua camiseta branca e lisa estava impecável sob um blazer tão escuro que parecia preto. Apenas isso eu vi já que quando percebeu minha presença não fez questão de levantar, acenou minimamente para a cadeira a sua frente que me esperava.
Afastei a cadeira e deixei que um garçom se aproximasse com um pequeno banquinho para que colocasse minha bolsa. Imaginei que pudesse pigarrear a fim de encontrar minha voz que passou o dia todo escondida. Aquele silêncio era tão assustador quanto um pesadelo, assim como ver com o olhar baixo e fixo sobre as mãos.
Um formigamento estranho tomava conta do meu estômago e eu tinha a impressão de estar mais corajosa sem motivo algum. Eu poderia começar a falar, eu poderia explicar meus motivos, explicar o que estava passando na minha cabeça por mais que isso já estivesse registrado em um papel que deixei para ele. Umedeci os lábios pronta para soltar uma primeira palavra para quebrar aquele silêncio e aquela tensão palpável. Eu não poderia.
- Eu não vim aqui para falar disso.
Sua voz reverberou por todo o ambiente, ele havia sido discreto, óbvio, mas aos meus ouvidos soava como um grito, um volume ensurdecedor. Ondas aos poucos acordavam partes adormecidas de mim que me traziam, mais lentamente ainda, para a realidade. Observei puxar o ar para dentro dos pulmões e se esforçar para isso. Estávamos em uma situação estranha, estávamos em uma situação horrível.
- O que eu tenho para falar é bem simples, na verdade é uma proposta. - Meu coração, que até então não havia dado sinais claros que sintonia com o meu nervosismo, disparou. - Eu sei o que a sua vó quer que você faça, não sei se já pensou sobre isso ou se alguma coisa já veio a sua mente, mas sabemos que não pode se casar com . Ele é seu primo, não de sangue, mas foi criado como seu primo, sem contar que é namorado da Haylie que até anos atrás era sua melhor amiga.
Meus olhos estavam presos as mãos de que estavam entrelaçadas desde que ele começara a falar. Apenas verdades saiam de sua boca e isso me deixava ainda pior. Era como se ele quisesse colocar tudo bem a minha frente com o único objetivo de cutucar minhas feridas.
- Sua outra opção seria o Ethan, mas eu sinceramente não consigo imaginar isso acontecendo. Não quando você tem todas as suas suspeitas sobre isso.
estava olhando diretamente nos meus olhos. Um frio estava instalado na minha espinha e eu não podia fazer nada quanto a isso. Seu corpo aos poucos de aproximou da mesa e se inclinou sobre a mesa que não era muito grande já que era apenas para nós dois. Desde a primeira vez que o vi naquele show ele nunca esteve tão perto.
- , isso... - eu queria dizer que não fazia sentido aquela conversa. Não fazia sentido me dizer coisas que eu já sabia. Não fazia sentido me fazer sentar a sua frente, sentir seu perfume, observar seu rosto tão perto do meu eu e não poder fazer nada quanto aquilo.
- Nós seriamos casados apenas no papel - ele disse sem rodeios, fazendo seu hálito quente bater em meu rosto e me derrubar como se um soco tivesse me atingido. Ele não poderia propor aquilo. Não para mim. Não depois de tudo. Um nó surgiu em minha garganta e minha visão ficou completamente embaçada por lágrimas e escura por uma súbita queda de pressão. Agarrei os braços da cadeira e me afastei dele. Como se o repugnasse. Como se ele não pudesse ter proferido ofensa pior. - Não é como se você estivesse em posição de negar.
Ouvi sua última frase e me levantei com uma dificuldade que não deve ter passado despercebida. Eu podia ouvir e sentir chuva caindo e ainda assim estava parada sob ela, sem acreditar no que havia acabado de acontecer.

10


Minhas ações tornaram-se automáticas. Eu mal percebi qual foi o momento em que me levantei da cadeira e cruzei todo o salão iluminado, barulhento e abarrotado de pessoas daquele restaurante. Estava em transe. Sentia uma espécie de eletricidade percorrer todo meu corpo, formigar minhas pernas e distribuir pequenos choques por minhas mãos. As palmas não suavam frio como sempre acontecia quando me via em uma situação de nervosismo. Eu já havia passado aquela barreira chamada nervosismo. Eu estava em estado de choque. Não poderia responder a nada.
O pequeno e magrelo manobrista já estava parado na minha frente esperando por uma posição sobre meu carro. Entendi algumas poucas palavras como "devo" e "trazer". Apenas assenti e não fiz questão de me proteger da chuva sob o enorme toldo que cobria a entrada do restaurante. Caminhei com passos travados e robóticos até meu carro e bati a porta sentindo um ar frio me envolver. Minha respiração condensava o ar, transformando-o em uma pequena nuvem que logo desaparecia a minha frente. Aproveitei que o carro já estava ligado e engatei a primeira marcha, imaginando que quilômetros de distância pudessem aliviar minha situação, mas não era bem assim.
De forma brusca freei o carro e senti meu corpo ser impulsionado para frente até colidir com o volante e acidentalmente acionar a buzina, eu ainda estava sem cinto e permaneci daquela forma, quase que abraçada ao volante sentindo os soluços daquele choro contido dificultarem minha respiração.
Voltei a encostar as costas no banco de motorista e respirar fundo. Tudo isso numa tentativa falha de tranqüilizar meus batimentos e deixar o ar chegar com normalidade aos meus pulmões. Meu rosto ainda estava molhado e meus olhos embaçados quando estiquei a mão até minha bolsa para vasculha-la e encontrar meu telefone celular.
Ouvir os toques sem resposta era como sentir todo aquele desespero voltando ao meu corpo.
- Alô? - ouvi a voz de Haylie do outro lado da linha. Soltei o ar preso no peito e tentei juntar algumas palavras com minha voz embargada.
- Haylie?
- Mel, é você? - seu tom de preocupação deixou claro que minha tentativa de disfarce não fora bem sucedida. - Aconteceu alguma coisa?
- Você 'tá em casa? - perguntei com um fundinho de esperança que a resposta fosse sim. Assim quem sabe eu poderia chorar no colo de alguém.
- Mel, dirija até a Abday Road e entre na segunda rua à direita. O número é 256D.
- Obrigada - e assim senti meu pé fazer pressão sobre os pedais e minhas mãos controlarem a direção. Todas as luzes que iluminavam as ruas passavam de maneira embaçada por meus olhos, tentava me focar na direção já que lágrimas se acumulavam prontas para cair, mas sempre fechava os olhos por períodos mais longos do que o recomendado.
Brequei de maneira mais forte do que deveria e mal me lembro de como cheguei na porta de Haylie.
- , o que houve? - ao abrir a porta Haylie estava claramente assustada. Eu queria tranquiliza-la e dizer que não havia feito nenhuma besteira, mas a verdade é que eu sabia que o erro estava lá no início, quando aceitei me encontrar com . - Vem cá! - seus braços abertos eram o convite que eu mais precisava receber. Deixei que aquelas lágrimas contidas brotassem sem trégua e quase desabei ao ser abraçada por quem mais poderia me entender. - está dormindo, não se preocupe. Na verdade você precisa primeiro se acalmar e me explicar o que aconteceu.
Eu tentava enxugar meus olhos e respirar fundo para iniciar a narrativa de toda aquela história extremamente confusa e sentimental, assistia minha maquiagem se desfazer em minhas mãos e preferia não imaginar o estado no qual se encontrava meu rosto.
- Haylie, eu... - ao começar a falar vi que suas mãos envolveram as minhas em uma tentativa clara de me confortar e tornar tudo aquilo mais fácil, contudo posso afirmar que até ela sentiu todos os meus músculos se retesarem e meus olhos se abrirem de forma assustada.
- Você. - Foi a única palavra dita por , que naquele momento se encontrava parado na soleira da porta. O cabelo bagunçado, a bermuda e uma velha camiseta Nirvana. Era realmente , e quão estúpida eu podia ser por estar assustada ao encontrar em sua própria casa.
- . - Essa parecia ser a única resposta ao meu alcance. Apenas um nome, mas soava como um pedaço esquecido dentro de mim.
- Vem cá - parecia tão injusto escutar aquilo. O mínimo que eu esperava era uma cara questionadora, mil perguntas ou quem sabe um educado pedido para que me retirasse. Ao invés de permanecer estática me vi levantando rápido demais e me aninhando em seus braços tão receptivos quanto os de Haylie. Minha cabeça agora estava deitada em seu peito e senti seu queixo encostar-se ao topo da mesma. Meus soluços poderiam ser ouvidos a quilômetros, mas eu não ligava, essa era minha última preocupação. Nos últimos anos esse era o abraço que eu mais esperava, um abraço de família. Um abraço que me acolhesse e me desse calma no exato momento de agonia. - Foi tão injusto você não me contar que estava de volta, foi quase imperdoável. Mel, nós crescemos juntos e eu nunca imaginei que um dia poderíamos nos falar, quem dirá ser amigos... Mas você sabe que somos mais do que isso, não sabe? Você é minha família e espero que não se esqueça disso nunca mais.
Deixei seu abraço para ver seu rosto e afirmar com toda a certeza do mundo de que nunca me esqueceria de que era a melhor família que eu poderia ter. Os olhos dele estavam brilhantes, cheios de água e prontos para se derramar como os meus. Tomei seu rosto em minhas mãos e me estiquei o suficiente para deixar um beijo em sua testa.
- Nunca vou me esquecer disso - acabei rindo logo depois disso. Não existia nenhuma graça naquela situação, mas funcionava dessa forma quando estava por perto. Um sorriso discreto também tomou seus lábios e logo estávamos fazendo um esforço enorme para apagar todas as marcas do choro. - Você sabe o que está acontecendo?
- Mel, senta aqui e conta o que houve, por favor.
Voltei para o sofá dessa vez com apoiado em meus ombros.
- Logo depois da formatura na univerdade recebi uma ligação da vovó me convidando para passar algumas semanas de férias junto com ela e vovô em Roma. Acabei aceitando porque realmente precisava de férias nos estudos e no trabalho, algumas coisas estavam acontecendo e a tendência de tudo dar errado era muito maior do que eu gostaria, sem contar que a situação frágil e instável do vovô me fez pensar em passar um tempo com ele. - Naquele momento eu recebia mais atenção do que gostaria, e Haylie escutavam atentos a tudo o que eu dizia. - Eu já estava quase pronta para voltar, era nossa última noite em família e vovó decidiu fazer um jantar todo elaborado e cheio daquelas frescuras que ela gosta. Bom, eu acabei concordando e recebi a primeira bomba dos últimos dias. Você consegue adivinhar quem era o convidado de honra? Ethan. Sim, Ethan. , ela convidou Ethan para sentar na mesma mesa que nós.
"Aquele imbecil ainda teve a coragem de invadir meu quarto com aqueles papos estranhos e cheios de entrelinhas que ele sempre teve. Quando eu já em Londres ele voltou a me procurar, dessa vez insinuando que minha vó teria assuntos pendentes comigo por isso estava vindo para cá. Bem, eu já sabia que a vovó estava vindo para cá, mas adivinha quem aparece dias depois da visita daquele estorvo? Sim, a vovó, claro, com toda aquela desgraça que virou a vida do vovô."
Respirei fundo depois de contar aquilo em uma velocidade incrível.
- Ela decidiu contar que vovô não tem mais chances e cinco minutos depois despejar toda aquela merda sobre o banco e a herança da família.
- , o que ela te disse sobre isso? - carregava uma certa cautela na voz, como se já soubesse que aquele assunto ainda era um terreno bem instável, um terreno quase proibido.
- Tudo, . Ela me disse tudo - pressionei as têmporas, tentando afastar a dor de cabeça que aquele assunto me trazia. -, e por mais que eu deteste, ela tem razão. Vovó me colocou em uma sinuca de bico e eu não tenho escolha.
- Eu disse que tem que haver outro jeito - ele insistiu.
- Realmente, é muita coisa para aguentar - Haylie adicionou, seus olhos carregavam algo que me lembrava pena, e em outro tempos eu ficaria revoltada ao perceber. -, mas você fez o certo. Nós somos seus amigos e sua família, nós vamos encontrar uma solução.
Aquelas palavras tiveram o poder de retirar mais da metade do peso das minhas costas. Eu já me sentia mais leve e podia garantir que tinha um pouco mais de força do que antes para passar por todos esses problemas.
- Tem mais alguma coisa acontecendo, não tem? - perguntou olhando bem fundo em meus olhos.
- ... - disse esse nome com uma nota de pesar. - Ele já sabia de tudo isso.
- Como assim? - continuou me questionando - Sobre a situação do vovô? É claro, a mãe dele ainda é uma acionista importante, ela deve ter contado para ele...
Eu não queria interrompê-lo, mas foi mais forte do que eu.
- Ele me chamou para uma conversa, nós nos encontramos hoje, eu estava com ele antes de chegar aqui - meu coração aos poucos se acelerou e minha fala seguiu o mesmo ritmo. - Ele sabe sobre a ideia do casamento, ele...
- Quando ele falou com você pela primeira vez? - o tom de voz de havia deixado de ser neutro, agora era mais tenso e claramente alarmado.
- No show da semana passada. - Disse sabendo que aquilo o irritaria ainda mais, afinal parecia que toda a cidade já havia me encontrado menos ele.
- Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa, eu sabia! - sua fala veio acompanhada de um soco no estofado do sofá. - O que ele queria com você, ?
- Ele me fez uma proposta... Um casamento.
- O que? - o espanto atravessou todas as barreiras, estava estampado em seus olhos e refletido no rosto de Haylie. Eu mesma ainda não acreditava no que havia escutado naquela jantar.
- Um casamento de fachada, apenas para atender as necessidades do banco, pra...
- Sem vingar! - Haylie disse de forma alta e clara. - Isso soa como vingança, como você não percebe, ?
- Isso é insano - foi a primeira resposta de . - Ele não pode continuar com isso. E você vai fazer o que?
Eu ainda não sabia, eu não tinha ideia, eu nem havia começado a pensar. A verdade era que a confusão daquele encontro e daquela conversa tornava toda a ideia uma nuvem nebulosa sobre minha cabeça. Também não podia negar que havia mexido comigo, apenas a presença de era capaz de mexer comigo.
- Eu não sei, para mim é uma ideia sem cabimento, eu só preciso de uma alternativa - deixei meu olhar perdido encerrar aquele assunto. A verdade era que naquele momento nem eu, nem ninguém conseguiria encontrar uma solução. - Acho que devíamos deixar esses meus problemas de lado, pelo menos por agora - me joguei sobre o colo de e terminei -, amanhã o senhor viaja cedo e ainda precisa descansar.
Levantei e vi e Haylie fazerem o mesmo. Eu não estava mais o caco que estava quando cheguei, mas aposto que se encostasse na minha cama dormiria por dois dias.
- Amiga, amanhã mesmo eu te ligo e saímos para esfriar a cabeça - Haylie disse me puxando para um abraço apertado. Me despedi e estendi a mão para .
- Eu te levo lá fora - e assim saímos pela porta encarando a noite gelada demais para uma garota de vestido e um garoto de pijama. Antes que pudesse alcançar minhas chaves no fundo da bolsa me abraçou mais uma vez, como antigamente, como dois melhores amigos, irmãos. - Você voltou, juro, como é bom te ver aqui! - Eu já estava espremida, mas não ligava. - Eu e Haylie precisávamos de você aqui.
- Eu também precisava, e preciso, de vocês, e nunca mais vou embora. Prometo.
- Daqui duas semanas estamos de volta - ele me avisou, mas eu já estava a par de tudo, eu era responsável pela primeira grande matéria da carreira deles.
- Eu sei - ele estranhou de início, provavelmente disse aquilo com muita convicção -, e nos veremos. Lembra aquela entrevista para a NME? - estava claro em seu rosto de que ele sabia e estava empolgado com isso. - Pois é, é minha matéria da capa.
Disse isso antes de entrar no carro. Seu sorriso era muito mais cumplice do que surpreso, a partir dali ele teria um bom segredo para guardar durante duas semanas.




CONTINUA



N/a: A única coisa que eu posso pedir é desculpas. Esse começo de ano foi super corrido e cheio de coisas para fazer, eu simplesmente me perdi na hora de conciliar tudo e acabei deixando a fic um pouquinho de lado. Só agora que as coisas começaram a acalmar que consegui botar os dedinhos para funcionar. Então, o que acharam? Atualização dupla com o encontro fatídico. Eu imagino essa cena na minha cabeça desde sempre, mas não consigo passar para o papel da mesma forma. Espero que tenham gostado e espero não demorar muito para a próxima atualização! Beijos xx

Se encontrou algum erro, seja ele qual for, envie um e-mail diretamente para mim (pamelalleao@gmail.com), ou um tweet, indicando-o e o nome da fic. Obrigada!

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