Story Of Us
Autora: Marcella Ribeiro
Status: Em Andamento
Revisada por: Juh Claro
Categoria: McFLY Fics
Sub-Categoria: Romance/Drama/Comédia - Long Fic
- Eu sei que o que eu to fazendo é errado e eu quero parar! Mas eu não consigo - falava com grande esforço, com os olhos vermelhos e o rosto molhado pelas lágrimas que se confundiam com o suor. - Me ajuda, por favor? - já era, tinha perdido, não conseguia vê-lo daquela forma. Por que diabos ele tinha esse poder sobre ela? - Por favor, ! Eu preciso de você!
Desistindo de se fazer de forte, passou a mão por aqueles lindos cabelos, agora embaraçados. Colocou um dedo em seus lábios para impedi-lo de falar novamente. Não precisava ouvir mais nada. Simplesmente não aguentava vê-lo daquela forma. Faria qualquer coisa para colocar de volta aquele lindo sorriso no rosto do garoto. Lentamente, se aproximou dele e passou os braços por cima de seus ombros, aproximando os corpos, em um primeiro abraço. Um primeiro abraço há muito tempo esperado. Sentiu as mãos do garoto na sua cintura, e se sentiu bem, de um jeito estranho, mas bom.
- Vai ficar tudo bem. - sussurrou em seu ouvido - eu vou te ajudar.
- Promete? - ouviu o garoto perguntando, sentindo a respiração quente dele em seu pescoço - Promete que não vai desistir de mim?
Riu de leve, sem humor nenhum.
- Prometo que vou te ajudar - respondeu - e não vou sair de perto de você. Só se você não me quiser. - deu um beijo na bochecha dele e se afastou. Pegou-o pela mão, do modo como sua mãe fazia com ela quando era pequena e o tirou dali em silêncio. Ninguém precisava saber o que havia acontecido. Não importa o que pensam nem o que dizem a respeito dele. O que importava era que ele estava ali, ao seu lado, segurando sua mão.
- Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai. - disse baixinho, mais para si mesma do que para aquele garoto alto andando ao seu lado.
Nunca pensei que fosse dizer isso, mas: finalmente de volta aos longos dias na escola! Não aguentava mais aquele hospital, muito menos meus pais que pareciam que iam morrer a cada vez que me viam. Uma coisa que eu não gosto: pessoas preocupadas comigo. Quer dizer, às vezes é bom, mas não em exagero, né? E também porque eu não morri, morri? Não! E bom... O ajudou um pouco nessa parte, mas eu não morri! Ah meu Deus, onde está a minha educação? Prazer, meu nome é , tenho 17 anos e estou no último ano da escola. E pra você não ficar aí viajando na maionese (alô, mãe, estou usando suas expressões tensas!) eu vou resumir o que aconteceu: quase morri. É. E, sim, foi ruim. Quer dizer, não é nada legal capotar com o meu carro lindo. Estava chovendo muito, e era bem tarde, e assim, eu estava muito cansada. Mesmo. Bom, foi nessa parte que apareceu o e me levou pro hospital. Se não fosse ele eu não sei o que teria acontecido. A rua estava vazia e, sinceramente, ainda não entendi o que ele estava fazendo lá. Acho que eu vou falar com ele quando vê-lo. Tenho que agradecer. Mas confesso que estou com um pouco de medo porque, bom, sempre que falam dele, não é com elogios.
O nome é . Estudo com ele desde a 8ª serie. Mas nunca tinha falado com ele. Nunca mesmo. Ele era do tipo de garoto isolado, que não queria a companhia de ninguém, e quando tinha companhia era aquela turminha da pesada e aquelas garotas atiradas que estão na listinha de todo mundo e bom, eu era filha do diretor e tinha um monte de gente falsa ao meu redor. E pelo o que falam dele, ele não deveria querer fazer alguma coisa além de beber, fumar e dormir então nunca cheguei muito perto. Bom, estou começando a achar que as pessoas possam estar enganadas.
Então aqui estou eu, no carro da ), minha melhor amiga, junto com o , meu primo e namorado da , porque eles estão me levando pra escola e me paparicando tipo, um monte. E eu, claro, estou fingindo que estou escutando o que eles dizem, e assentindo com a cabeça, porque afinal, a pode ser pior do que minha mãe quando quer. Eles não estudam comigo, já terminaram a escola há dois anos, mas disseram que iam me trazer no meu 1º dia de volta à escola, já que meu carro estava acabado, coitado. Depois de muitas recomendações de como pegar um ônibus (como se eu não soubesse) pra voltar pra casa, eu consegui me livrar deles. É nessas horas que eu agradeço o fato de que minha mãe mora em outra cidade e meu pai sempre está ocupado com os assuntos da escola e só volta pra casa pra dormir. E como eu moro com ele, vou ter a casa só pra mim e ninguém pra me perturbar perguntando se tem algo doendo. Não que não tivesse nada doendo, porque tinha, mas ninguém precisa saber disso.
As aulas se passaram rapidamente, com alguns "bem vinda de volta" de alguns "amiguinhos" e professores. Não tinha muitos amigos de verdade ali. No intervalo entre as aulas eu procurei pelo , não que eu estivesse muito ansiosa pra falar com ele, mas eu procurei, de verdade, mas não o vi em lugar nenhum. Existem uns boatos que na hora do intervalo ele saía pra fumar alguma coisa e sempre voltava chapado. Quando as aulas finalmente chegaram ao fim, dei mais uma olhada por ali e depois no estacionamento, nem sinal dele. Peguei um ônibus e fui pra casa. Essa rotina continuou pelo resto da semana.
Mas na sexta ele apareceu no fim das aulas. Estava parado no estacionamento, falando com um dos colegas. Ou discutindo com um dos colegas, pelo o que parecia. Esperei por ali e quando ele deu as costas ao amigo e foi em direção ao seu carro, corri atrás dele e segurei em seu braço.
- O que você quer agora? Já não falei... Ah, é você. - ele virou-se de volta ao carro logo que viu quem era. Sacudiu o braço me forçando a soltá-lo. - O que foi? - ele disse, continuando a andar ao seu carro.
- Só queria agradecer pela ajuda - disse, em uma voz fraquinha. - Obrigada.
- Ótimo, já agradeceu, pode ir agora.
Foi como levar um tapa na cara. "Ótimo, já agradeceu, pode ir agora." Que garoto estúpido!
- Precisa ser tão grosso? - não me contive, e falei mais alto do que deveria, chamando a atenção de algumas pessoas em volta. - Só vim agradecer.
Ele se virou lentamente, com o rosto vermelho de raiva e disse alguma coisa que eu não prestei atenção. Ele estava com o olho esquerdo inchado e um pouco de sangue escorrendo do canto da boca.
- Ah meu Deus, o que aconteceu com você? - falei surpresa, levantando uma mão para tocar em seu rosto. Ele empurrou minha mão para o lado oposto.
- Isso não é da sua conta. Cuide da sua vida.
Abriu a porta do carro, entrou, e simplesmente foi embora. E eu fiquei ali, que nem idiota, olhando até o carro desaparecer.
Queria dizer que não, mas passei o fim de semana inteiro criando um milhão de possibilidades pra ele estar naquele estado. É isso que dá ter uma vida social nula e nenhum namorado. Mas decidi que não iria falar com ele na segunda feira. Quer dizer, não nos conhecemos direito e quando eu vou agradecê-lo por salvar a minha vida, ele é grosso comigo daquele jeito e eu ainda vou atrás dele depois? De jeito nenhum! O problema seria a minha curiosidade, mas eu iria suportar.
Já havia se passado dois meses desde aquela conversa super amigável e eu estava muito ocupada com os preparativos pra uma 'exposição' que um dos professores inventou de fazer. E bom, eu sou vice-líder do grêmio estudantil da minha escola, então grande parte do trabalho ficou pra mim e pro William, o líder do grêmio. Na verdade só entrei pra esse grêmio porque meu pai praticamente me obrigou, ele acha, como todas as outras pessoas da escola, que só porque sou filha dele tenho que participar de tudo e conhecer todos. Mas o que eu menos quero são a atenção e a companhia daqueles idiotas que se acham o máximo.
Depois de alguns desentendimentos, estava caminhando para casa finalmente. Estava nervosa e não queria ter que pegar um ônibus e me estressar mais e muito menos pedir carona pra algum "coleguinha" naquela escola estúpida.
Já não bastava ter brigado com o idiota, estúpido do na hora da entrada, só porque esbarrei nele sem querer, ainda tive que ficar o dia todo na escola por causa daquela exposição idiota e tive que ouvir "gracinhas" do meu próprio pai, como se fosse minha obrigação fazer com que aquela exposição desse certo, como se só eu fosse responsável por ela.
Estava a mais ou menos quatro quadras longe dali quando vi se pegando com uma garota sei-lá-de-onde perto de seu carro. Rolei os olhos e continuei andando, tentando ao máximo não ser vista.
- Hey! Espera aí!
Pelo visto não adiantou.
- O que você quer agora? - usei as mesmas palavras que ele usou comigo uma vez. Claro que ele não ia perceber, mas sei lá.
Ele deu um sorrisinho sarcástico. Já disse que odeio quando as pessoas sorriem assim pra mim? Sinto-me burra e incapacitada. Não me pergunte o por quê.
- Vai voltar pra casa a pé? É meio longe, não acha?
- Se é longe ou não, isso não te interessa - eu sei, fui grossa, mas e daí? Ele era assim comigo também! E eu ainda estava decidindo se achava que ele sabia que a minha casa era longe ou se apenas imaginou que fosse.
- Uau, alguém está precisando de um calmante por aqui.
- E uau, alguém está precisando se tocar de que não tem nada a ver com a minha vida por aqui.
Virei e continuei o meu caminho, ignorando a cara de espanto dele. Mas não dei nem dois passos e senti um braço me segurando e me virando de volta.
- Ok, foi mal por hoje de manhã. Acho que fui um pouco grosso e...
- Ah, você acha? - o interrompi revoltada. - Na verdade você deveria ter certeza de que foi grosso. Aliás, você é assim sempre, já deve ser normal, não é? - ele me lançou um olhar tão diabólico que me dá medo só de lembrar.
- Você não devia falar assim com quem já salvou a sua vida de patricinha popular. Só ia oferecer uma carona.
- Patricinha popular? - ri disso - Você pode até ter salvado a minha vida, mas isso não te dá o direito de falar dela como se soubesse como ela é. E não, muito obrigada, mas eu não quero uma carona com um ser tão desprezível como você. E acho melhor você voltar, a garota ali ta te esperando - apontei pra garota, impaciente, encostada na porta do carro dele, me virei e continuei o meu caminho sem olhar pra trás.
E era sempre assim. Nas poucas vezes que nos falávamos ele era um grosso e eu o tratava da mesma forma que ele me tratava. Até aquele dia.
Aquele dia eu acordei com uma sensação estranha. E quando eu digo estranha eu quero dizer estranha mesmo. Como se algo estivesse pra acontecer. Algo importante. Ignorei e levantei da minha cama linda e aconchegante porque meu pai estava lá embaixo me mandando descer. Não sei pra que isso. Ele iria viajar esse fim de semana com uma 'namoradinha' que ele arrumou e que tenho grandes suspeitas de que seja a nova professora de matemática lá da escola e queria que eu descesse pra ele me falar as mesmas coisas de sempre.
- Muito cuidado se você for sair, tranque a porta direitinho, não fique acordada até muito tarde, faça todas as suas lições, não esqueça nada no fogão, qualquer coisa tem dinheiro no armário da cozinha, mas use somente para emergências. E por favor, não faça uma festa na minha casa! - Viu? Era sempre isso que ele me falava. Mas espera, ainda falta uma coisa - Se cuida e vem aqui dar um abraço no papai.
Andei até ele, dei um abraço e um beijo e ele foi embora. Voltei pro meu quarto e me joguei na cama. Acordei três horas depois, com o telefone tocando.
- Alô? - atendi sem nem olhar quem era o que é bem perigoso, poderia ser aquele garoto... Como é mesmo o nome dele? Ah, Lucio, um que ficou mais ou menos três meses me ligando todos os dias me fazendo declarações de amor, até que um dia ele resolveu "tornar público" o "nosso" amor e falou na rádio da escola que queria namorar comigo de um jeito nem um pouco agradável. Eu mereço, não é? Bom, depois disso eu tive que dar um jeito nele, fazer o quê...
- Oi ! É a Anne. - Ouvi aquela voz irritante do outro lado da linha. É, eu deveria mesmo ter olhado antes de atender - Você vai à festa da Natalie com a gente, né?
- Não sei Anne, acho que eu vou ter umas coisas pra fazer e tal... - Respondi, sonolenta, querendo desligar na cara daquela vadia.
- Ah não , você tem que ir com a gente, a festa não vai ser nada sem...
Desliguei o telefone e levantei, caminhando até o banheiro. Gente falsa. Só se aproximam de mim quando querem algo. Aposto que quando eu chegasse nessa festa ela logo ia me pedir algum favor. Tomei um banho e me troquei.
Meus planos eram: ficar em casa e assistir as minhas comédias românticas favoritas e melosas. Eu sei, são grandes planos. Mas não estava com nem um pouco vontade de ficar em casa. Resolvi visitar o já que ele mora perto da minha casa. Provavelmente a ia estar lá, então poderia ser divertido.
Fiquei lá por volta de duas horas jogando vídeo game e comendo besteira. Só fui embora porque não gosto de ficar de vela atrapalhando eles. Mas por mim ficaria o dia todo lá. É engraçado, porque no começo eles não se suportavam, mas aí eu usei os meus poderes de persuasão e os obriguei a conversar por dez minutos. Não dizem que o ódio e o amor são sentimentos semelhantes, e que eles podem mudar de um pra outro facilmente ou alguma porcaria desse tipo? Então, foi o que aconteceu. E eu fiquei feliz de verdade, porque eles combinam muito mesmo.
Voltei pra casa, tomei um banho e comi alguma coisa. Mas quando me sentei no sofá pra assistir televisão aquela sensação estranha voltou. Ignorei ela e fui procurar algum filme pra assistir. Vi que ainda eram cinco horas. Decidi que não estava com vontade de assistir TV. Me levantei, tirei o meu pijama e coloquei uma roupa qualquer. Peguei o dinheiro que meu pai deixou "somente para emergências" e saí de casa.
Não sabia para onde estava indo, mas entrei em uma Starbucks e comprei um café. Fui para uma praça que havia em frente e me sentei em um dos bancos. Sempre gostei daquela praça, era um pouco longe da minha casa, mas meus pais e eu vínhamos aqui quando eu era criança. E mesmo depois, quando saía mais cedo da escola, sempre passava ali nos dias de sol, só pra olhar as árvores e as crianças correndo e brincando. E não, eu não gosto de crianças, mas até que elas são divertidas quando estão longe de mim.
Àquela hora não tinha muitas crianças por ali, mas mesmo assim ainda era um bom lugar.
Já tinha escurecido e eu ainda estava ali fazendo porcaria nenhuma até que notei uma certa agitação na rodinha de velhinhos jogando xadrez. É, eles ficam ali o dia todo, e se você quer saber, eles não são nem um pouco agitados. Então eu estranhei, claro, e comecei a prestar atenção ao que eles estavam falando. E se você, caro leitor, está pensando que eu sou uma pessoa curiosa, você está absolutamente certo. Não consegui ouvir muita coisa, porque não estava tão perto, mas o que eu ouvi foi algo parecido com isso:
- ...Lá no beco... Jogado.
- Sangrando?
- Não sei, não olhei.
- Isso é perigoso, pode ser um daqueles assaltos combinados.
- Ele parecia realmente mal. Usava um uniforme de escola.
- Qual escola?
- Aquela, perto da boate chique.
Ok, não me culpem, mas eu fiquei muito, muito curiosa depois disso. Quer dizer, mais do que eu já sou. Principalmente na parte que falaram da minha escola. Qual é, a cidade era pequena, não tinha outra escola perto da "boate chique" que nem é tão chique assim. E porque alguém estaria com o uniforme da escola em pleno sábado? E mais: por que alguém estaria com o uniforme da escola em pleno sábado e jogado em um beco?
Fiquei morrendo de vontade de ir ao tal beco, ver o que tinha acontecido, podia ser algo grave, mas como os velhinhos do xadrez disseram, podia mesmo ser um assalto daqueles combinados. Esses dias passou no jornal que tinha uma mulher caída lá no bosque e aí uns caras pararam pra ajudar e... Enfim, eu decidi que era melhor ir pra casa, já estava escurecendo, só que pra ir pra casa eu precisava passar na frente daquele beco. Pensei em dar a volta no quarteirão, mas não queria andar, e poxa, se fosse algo perigoso mesmo, seja lá o que tenha naquele beco, já teriam descoberto, não é? Decidi que ia passar por lá e não ia parar de jeito nenhum. Sou alguém que gosta de ajudar as pessoas que precisam e tudo o mais, mas a verdade é que eu sou uma medrosa nível dez mil e não queria arriscar.
Quando estava chegando perto do tal beco, ouvi uns gemidos. Parei por um instante. Não ouvi mais nada, mas fiquei com medo, estava escuro e eu era a única na rua. Decidi continuar andando o mais rápido possível. Já tinha passado do beco e os gemidos tinham parado, continuei andando, mas chutei alguma coisa que fez um barulho enorme. Olhei pra baixo e encontrei um relógio quebrado. Peguei o relógio e o analisei, era diferente, caro e eu tinha a sensação de que já tinha visto ele em algum lugar. Continuei andando e coloquei o relógio no bolso, talvez tivesse conserto. Então eu parei. Peguei o relógio de novo e lembrei onde tinha visto ele antes.
Era o relógio do .
Voltei correndo em direção ao beco e só parei quando caí por cima de algo. Ou alguém. É, como eu imaginei, era ele quem estava lá. Ele tossiu e gemeu quando caí em cima dele, mas logo levantei e peguei o celular, pra tentar clarear um pouco aquele lugar pavoroso de tão escuro. Ele estava mal. Muito mal mesmo. Tentava falar alguma coisa, mas não conseguia. Depois que eu me acalmei o suficiente pra pensar em alguma coisa, tentei levantá-lo, enquanto tentava ligar pra uma ambulância. Ele segurou a minha mão e fez que não com a cabeça.
- O que é? Você é idiota garoto? Vou chamar uma ambulância, fica quieto - empurrei a mão dele pra longe, mas ele segurou a minha mão de novo e conseguiu dizer:
- São só... Uns machucadinhos bobos...
Eu ri. É, eu ri! Daquela situação, da cara dele e do jeito que ele falou. Quer dizer, o garoto estava com o nariz sangrando, o olho roxo, a boca inchada e estava apertando com uma das mãos a barriga e me diz que eram só uns machucadinhos bobos.
Tudo bem, eu sabia que morrer ele não ia, mas eu estava realmente preocupada.
- Ei, você acha que quebrou alguma coisa? - perguntei, tentando me acalmar e iluminar com o celular o rosto e os braços dele. Ele negou com a cabeça. - Você devia ir pro hospital...
- Não devia não, me deixa em paz, eu me viro. - As palavras eram rudes, mas ele falou de um jeito tão fraquinho, como se pra falar cada palavra doesse, então nem me importei muito com a ignorância.
- Vem, vou dar um jeito de te levar pra casa... É muito longe?
- Não precisa - ele tentou levantar e quase caiu.
- Tô vendo que não - disse, sarcástica - Vem, te ajudo.
Ajudei-o a levantar mesmo que ele continuasse resmungando. Por algum milagre conseguimos sair daquele beco. Ele apontou o carro dele, estacionado no fim da rua, embaixo de uma árvore. Andei com dificuldade até lá, enquanto ele se apoiava em mim. Peguei a chave no bolso dele e o ajudei a se sentar no banco do carona. Dessa vez ele nem reclamou.
Sentei em frente ao volante e ainda estava tentando decidir se era melhor levá-lo pro hospital ou pra casa dele.
- Onde é a sua casa? - perguntei. Se fosse perto do hospital, eu parava lá e dane-se ele se não queria ir.
Ele tentou me explicar, mas pra falar a verdade eu não entendi nada. Ainda estava nervosa e ele estava falando com dificuldade, tentando me explicar.
- Ok, esquece - liguei o carro e tentei sair o mais rápido dali.
- Não, eu não quero ir pro hospital - ele gritou de repente e eu dei um pulo. - Pode me deixar aqui, eu dirijo.
Encostei o carro de novo, olhei pra ele e falei:
- É o seguinte: você é um grosso e você merece levar mais porrada do que tu já levou. Já que você não quer ir pro hospital, beleza, vou te levar pra minha casa e cuidar desses machucados, porque não tô afim de deixar uma pessoa no estado que você está ir pra casa sozinho, mesmo que seja você. Então cala a sua boca.
Virei pra frente e liguei o carro, uns dois minutos depois ouvi uma risada, virei pro lado e ele estava rindo e fazendo caretas. Aparentemente, rir doía.
- O que? - perguntei
- Nada... - ele disse - Só... Só tenta não capotar com o meu carro também, ta? Dessa vez não vou poder te salvar.
- Vai à merda, .
Estacionei perto de casa. Ajudei ele a entrar e o deixei sentado no sofá da sala enquanto ia pegar a caixinha de primeiros socorros.
Quando voltei, ele estava exatamente do jeito que eu deixei, olhando ao redor. Me ajoelhei em frente a ele e comecei a limpar os machucados. Por incrível que pareça ele ficou quieto, só fazia umas caretas de vez em quando. Ele estava com um cheiro esquisito. Quer dizer, tudo bem que ele ficou sei lá quanto tempo jogado em um beco escuro e mal cheiroso, mas não era só isso.
- Então, vai me dizer o que aconteceu? - perguntei, já esperando que ele mandasse eu ir cuidar da minha vida. Típico dele.
- Fui... Assaltado.
- Sério? - falei, sem acreditar - Interessante, porque a chave do seu carro estava no seu bolso e o seu carro estacionado na esquina - falei irônica e ele revirou os olhos.
- Cuide da sua vida - ele disse e eu sacudi a cabeça, preferindo não insistir e continuei com meu trabalho.
- É melhor você tomar um banho - eu disse quando terminei - o banheiro é a segunda porta à direita, subindo a escada. Vou pegar umas roupas pra você. Acha que consegue subir?
- Não precisa, eu já to indo pra casa. - ele disse, se levantando. Entrei na frente dele.
- Para de ser teimoso, garoto. Não vou te deixar sair desse jeito. Você não tá bem.
Ele me olhou com raiva, pra variar um pouco.
- Você é uma patricinha idiota, sabe? Eu faço o que eu quiser, você não pode me prender aqui.
- ... - comecei, tentando controlar a raiva.
- Não, eu quero ir embora. Eu não gosto de você, eu não gosto da sua companhia, eu não gosto de ficar na sua casa e eu não preciso da sua ajuda. - Ele terminou de falar e ficou ali me encarando, esperando a minha reação.
Saí da frente dele, caminhei até a estante e peguei a chave do carro dele. Joguei a chave na direção dele, mas ele não pegou e a chave caiu no chão. Caminhei até a porta e abri.
- Tchau. - disse, apenas.
E aquele idiota, ao invés de sair da minha casa de uma vez ficou ali me encarando.
- Anda, pode ir. - apontei pra porta aberta e fui até a cozinha. Abri a geladeira e peguei um pote de sorvete pela metade. Peguei uma colher e voltei pra sala.
- Tá aí ainda? - disse - Sabe, você já pode ir se quiser.
Sentei no sofá, abri o pote calmamente e liguei a TV. E ele continuava ali parado. Tentei ignorar a presença dele, mas foi impossível porque ele andou até onde eu estava, arrancou o pote da minha mão, colocou ele na mesinha ao lado do sofá, segurou os meus braços e me fez levantar.
- Qual é o seu problema? - me perguntou. Empurrei ele pra longe e ele quase caiu. Fiquei me sentindo mal por isso, ele ainda estava fraco.
- Qual é o seu problema? - perguntei com raiva - Você não queria ir embora? A porta ta aberta, querido. Já que você é tão auto-suficiente e não precisa da minha ajuda - enquanto falava, fui até a chave que estava no chão e a peguei, caminhando de volta pra onde ele estava. - Então pega essa sua chave - coloquei a chave com violência na mão dele -, vai até o seu carro, liga ele e some.
Ficamos nos encarando por um tempo, então ele disse:
- Ótimo, é exatamente isso o que eu quero, ficar longe de você. Tchau. - ele foi caminhando até a porta com dificuldade, passou por ela e a fechou com força. Ouvi um barulho do lado de fora e logo depois ele praguejando.
Caminhei calmamente até a porta e a abri. Como eu imaginei, ele estava lá, jogado no chão porque escorregou nos degraus logo em frente à porta da minha casa.
- Tenha cuidado com os degraus na próxima vez - eu disse, com um ar superior, mas mesmo assim caminhei até ele, pra ajudar.
- Não, fica longe! - ele falou com raiva. Parei onde estava e fiquei observando enquanto ele levantava. Ou tentava levantar, porque ele não conseguiu.
- Tem certeza que não precisa da minha ajuda? - eu disse, chegando mais perto. Queria que soasse como se eu estivesse o esnobando, mas na verdade soei como uma idiota, preocupada e prestativa.
Ele não respondeu então presumi que ele precisava da minha ajuda sim, mas era orgulhoso demais pra admitir.
Depois que ele já estava de pé, peguei a chave do carro que tinha caído no chão de novo e entreguei pra ele.
- Tem certeza que consegue ir pra casa? - perguntei, como uma estúpida. Quer dizer, ele é um grosso e não merece nem o mínimo esforço vindo de mim e eu ali, preocupada com ele. Pra minha surpresa ele olhou pra baixo e falou baixinho:
- Não sei. - depois de um tempo em silencio ele olhou pra mim e continuou. - Eu não sei se consigo ir pra casa. - suspirou.
- Tudo bem. Anda logo, é melhor você entrar, tá frio aqui fora. Amanhã eu te levo, .
Talvez eu devesse ter trancado a porta. Talvez eu não devesse ter dormido tanto e talvez eu devesse ter escondido a chave do carro dele. O fato é que quando acordei, ele não estava mais lá. Quase pensei que tinha sonhado aquilo tudo, até olhar um bilhetinho na geladeira, escrito às pressas, com apenas duas palavras:
Arranquei o bilhete dali e o guardei. Queria procurá-lo, falar com ele, mas nem o número do celular dele eu tinha. Achei o relógio dele na mesinha da sala, no mesmo lugar em que o coloquei. Não percebi o tempo passar enquanto pensava em tudo o que tinha acontecido.
"Entrei em casa, ajudando a entrar e coloquei-o no sofá de novo. Subi e peguei umas roupas do meu pai que ele não usava mais. Quando desci, percebi que ele não estava mais no sofá. 'Ah, que droga! ' pensei, mas então o vi, no cantinho da sala, olhando uns retratos.
- Ei, ei, ei... Isso é particular. - afastei-o dali e o fiz sentar-se de volta no sofá. Ele não disse nada e isso me preocupou. Ele não é do tipo que fica calado. E eu, sinceramente, o preferia gritando comigo do que aquele silêncio incômodo. Ele foi até o banheiro tomar banho e eu fui preparar o jantar. Comemos em silêncio. Arrumei o sofá da sala do melhor jeito que pude, porque ele disse que não queria atrapalhar mais do que já tinha atrapalhado. Achei até um pouco gentil, mas como sempre, ele falou daquele jeito rude dele como se odiasse o mundo inteiro e fugiria pra Marte pra viver sozinho se pudesse. Depois que ele deitou, fiquei sem ter o que fazer. Por fim, depois de enrolar duas horas na cozinha, subi até o meu quarto. Não estava com sono nenhum, até deitar na minha cama quentinha. Fechei os olhos e dormi imediatamente."
Ficamos tanto tempo sem nos falar que teria me esquecido de como é seu rosto se não o visse quase todos os dias na escola. Vários desses dias, ele aparecia com um olho roxo ou com a boca inchada. Eu ficava intrigada e algumas vezes passei noites em claro com a , quando ela ia dormir na minha casa, conversando sobre as possibilidades do que acontecia com ele.
Eu sempre tinha vontade de me aproximar, talvez puxar uma conversa, mas tinha medo. Medo de acabar gostando daquele imbecil e me machucar depois, porque eu tenho o incrível dom de fazer coisas ruins se aproximarem de mim e me apaixonar por elas depois. Pois é, caro leitor, sou idiota assim mesmo.
Na última semana de aula cheguei atrasada na escola, corri pro meu armário pra pegar meus livros e encontrei o parado ao lado do bebedouro, encostado na parede, com fones de ouvido, fumando um cigarro.
- É proibido fumar nas dependências da escola, sabia? - Falei em um tom divertido.
- E a filha do diretor vai chamar o papai aqui pra me dar uma detenção? - ele falou, cínico.
- Não, porque o diretor não está na escola hoje, mas a filha do diretor poderia dar uma detenção pra você, se ela quisesse. - sorri, ainda falando em um tom divertido, como se nem ligasse pra ele.
- Duvido.
- Eu também - disse, me abaixando pra beber água. - Não abuso do meu poder - me endireitei, dei as costas a ele e fui em direção à sala de aula.
- Ei, espera - esperei ele chegar até onde eu estava e depois continuei andando - Aula de que agora? Com o Binns?
- É - confirmei - Por pque o interesse?
- Por nada. Só não acredito que você está mesmo indo ter aula com aquele velho caduco. - riu
- Sim, eu estou. Tem uma sugestão melhor?
- Se tenho?! Claro! E muitas - seu tom amigável estava me assustando, mas me assustei mesmo quando ele me puxou e me prendeu contra a parede, antes que eu pudesse bater na porta da sala de aula.
- O que você tá fazendo? - perguntei surpresa.
- Te salvando - ele disse, com um sorriso brincando nos lábios - Mas acho que você não quer ser salva... Quero dizer, a filha do diretor matar aula? Não, acho que não!
Ele me soltou, como se esperasse que eu fosse correndo pra sala, dizendo que fui atacada por uma péssima influência que não queria me deixar assistir à aula.
- Acha que só porque o diretor é meu pai eu não posso matar aula como todos os outros alunos? - sorri.
- Acho, mas se você quiser me provar o contrário...
- Isso foi um convite? - perguntei - Sério, você tá começando a me assustar!
Ele riu e quando olhei em seus olhos vi que era um riso de verdade, diferente de todos os outros que já tinha visto. Percebi que ele era realmente lindo quando não estava coberto por aquela máscara impenetrável de frieza.
- É um convite sim. Não estou com vontade de ficar na escola e...
- Você nunca está! - cortei ele e ele riu de novo.
- Ok, nunca estou. Mas é a última semana de aula. Tipo... É tão desnecessário assistir aulas de matemática.
- Verdade. Pra onde nós vamos? - soltei sem querer. O ânimo dele estava me contagiando e eu percebi que queria mesmo passar mais tempo com ele.
- Não sei - ele respondeu, sorrindo - Que tal ir lá pro pátio? Não vamos sair da escola, então se nos pegarem, não podem dizer que não viemos na última semana.
Eu ri e fomos andando. O corredor estava vazio àquela hora e enquanto conversávamos sobre como a inspetora era chata, velha e enrugada, uma vozinha chata dentro da minha cabeça me dizia: "Como você é idiota... Vai cair nas garras de outro imbecil que só quer se divertir um pouquinho com você". "Quem disse que ele é assim? E quem disse que eu quero algo com ele?", respondi. "Você quer sim e...", "Cala a boca" Mandei.
Passamos tanto tempo nos fundos da escola que só percebemos quando começou a escurecer.
- Caramba, que horas são? - perguntei.
Ele fez menção de olhar no relógio, mas não havia relógio nenhum pra olhar.
- Deve ser umas seis horas...
- Esqueci de falar, o seu relógio ainda está lá em casa.
- Eu sei - ele disse, me olhando de lado.
- Por que não foi buscar?
- E por que você não me entregou? - rebateu e eu ri.
- Porque... - comecei
- Porque todo mundo tem medo de mim e de falar comigo nessa escola. Inclusive você - ele disse sorrindo sarcástico, mas parecia haver um tom de tristeza em sua voz que ele tentou esconder.
- Quem disse que eu tenho medo de você? - desafiei e virei de lado pra encará-lo. - você não me dá nem um pouco de medo, se quer saber.
Ele me olhou como se quisesse encontrar em mim palavras que não disse a ele, me perfurando com aqueles olhos profundos, que pareciam tirar um raio-X de mim.
- Não, você não tem - ele concordou - Você é diferente.
Encarei-o tentando entender o que ele quis dizer, mas ele olhou para o lado oposto e eu olhei também.
- Quem fez aquilo com você? - perguntei e ele me olhou com cara de dúvida. - você sabe... Aquele dia lá no beco...
Percebi que fiz a coisa errada, porque ele se levantou na mesma hora e andou pra longe de mim.
- Talvez não seja da sua conta. - disse, se afastando ainda mais.
Suspirei e voltei a olhar pra frente depois que o vi virar o corredor em direção às salas de aula. Queria muito ajudar, mas ele não queria ajuda. E depois de conhecer esse outro lado dele, um lado quase sensível, quis conhecer mais. Quis estar perto dele e quis decifrar cada parte dele, aos poucos. Quis que ele fosse meu amigo.
"Você é diferente", ele me disse. E eu queria poder ser "diferente" ao lado dele.
"Eu sabia que você se apaixonaria...", ouvi aquela vozinha irritante, e respondi, brigando comigo mesma: "Não estou apaixonada!".
Não ainda.
No último dia de aula, cheguei na escola com um peso a mais no bolso e logo detectei o cara alto, encostado na parede ao lado do bebedouro. Caminhei até ele e quando me viu, pareceu surpreso.
- Oi - disse cordialmente - acho que você esqueceu isso comigo - tirei o bonito relógio do bolso e dei a ele.
Percebi que muitas pessoas nos olhavam, enquanto ele pegava o relógio da minha mão e colocava no pulso.
- Hmm... Obrigado. - ele disse, me olhando de um jeito estranho.
- Qual é a sua próxima aula? - perguntei, meio desconfortável com toda a atenção voltada pra mim, mas decidida a ignorar tudo aquilo.
- Sei lá - deu de ombros. Soltei uma risadinha.
- Qualquer que seja, duvido que você esteja com vontade de ir - disse calmamente - Quer matar algumas aulas com a filha do diretor? - perguntei com uma sobrancelha erguida. Ele sorriu e o sinal das aulas bateu. Os alunos foram se encaminhando para suas salas e ele continuou me encarando, como se quisesse ter certeza de que ouviu direito e não estava ficando louco.
- Você está querendo arrumar problemas - disse, por fim - Vamos pro pátio de novo? - perguntou, com um sorrisinho fofo. Apenas confirmei e fomos caminhando até lá, rindo do fato de que dessa vez, a filha do diretor era quem estava salvando o garoto-problema das aulas.
Contei tanta coisa sobre mim... Como eu era quando era criança, o que gostava de fazer, que livros gostava de ler, como conheci a e como a juntei ao . Como sempre quis fugir dessa escola e como odiava todas aquelas pessoas. No começo ele parecia meio retraído, como se tivesse medo de que eu perguntasse sobre a vida dele, mas com o tempo, ele pareceu querer ouvir mais sobre mim. Fazia comentários irônicos e até engraçados. Há muito tempo não me sentia tão bem.
- E os seus pais? - perguntei - São casados? - ele demorou um tempo pra responder e achei que iria mudar de assunto como fez quando perguntei diretamente algo sobre ele ou a vida dele.
- Meu pai morreu quando eu tinha três anos, mas não cheguei a conviver muito com ele porque ele se separou da minha mãe logo depois que eu nasci.
- Ah... Sinto muito, não devia ter perguntado. Desculpa. - falei, sem graça.
- Tudo bem... Não me faz tanta falta, sabe? A minha mãe dá conta de tudo. Mas às vezes é ruim não ter um pai.
Ficamos um tempo em silêncio. Mas não era um silêncio desconfortável, de certa forma, era bom.
Fiz mais perguntas sobre ele e ele pareceu disposto a responder todas. Ficamos tanto tempo ali que quase esqueci que tinha uma casa, até que fomos interrompidos pela minha barriga roncando.
- Nossa, tem um leão aí dentro? - ele perguntou rindo, apontando pra minha barriga e eu bati nele, mas ri também.
Fomos até uma lanchonete ali perto e comemos uns pãezinhos.
- Você não é tão ruim quanto as pessoas pensam - disse, com uma cara pensativa - até que você é legal.
- Hmm... obrigado, eu acho - ele disse e riu.
Fomos caminhando até a escola, onde estava o carro dele.
- Você não vai me contar, não é? - perguntei logo depois que ele me ofereceu uma carona.
- Contar o que? - perguntou.
- Quem fez aquilo com você. - falei.
- Já disse que não é da sua conta - ele falou um pouco bravo, enquanto entrava no carro. - Vai ficar aí? - perguntou, apontando pra mim, que ainda estava parada ao lado da porta.
- Não.
- Então entra.
- Não, vou andando pra casa, obrigada por oferecer a carona, mas não precisa. Boa noite - saí andando, mas ouvi a porta do carro batendo e passos atrás de mim.
- Para de ser teimosa... - começou
- Para você de ser teimoso! - falei, me virando pra encará-lo - Eu só queria te ajudar, só isso. Porque já deu pra perceber que a pessoa que fez aquilo com você continua fazendo, você aparece na escola com alguma parte do corpo roxa ou quebrada toda semana! Mas você é sempre tão grosso comigo... - percebi que havia um pouco de mágoa na minha voz e me forcei a fazê-la voltar ao normal - Se você não quer a minha ajuda, tudo bem, também não preciso da sua ajuda pra nada, portanto, obrigada pela carona, mas não quero! - me virei e continuei meu caminho.
- Você não pode me ajudar - ainda o ouvi dizer, antes do som da porta do carro batendo chegar aos meus ouvidos e antes de saber que meu mais novo quase-amigo estava indo embora.
Estava de pijama, sentada no sofá da sala lendo um pouco. O som da chuva lá fora me reconfortava. Aquele era um idiota e eu não deveria mais falar com ele.
Fechei o livro com um estrondo quando percebi que já havia lido o mesmo parágrafo 5 vezes e não tinha absorvido nada daquilo. Quando levantei pra ligar a TV, ouvi a campainha tocar. Será que era meu pai, à essa hora? Ele havia dito que voltaria somente na outra semana...
Abri a porta e levei um susto. Era ele. . Todo molhado, com um olhar meio desesperado.
- Desculpa, desculpa... Eu não estou acostumado com tanta atenção de alguém, sabe? Você só quer me ajudar e eu só te trato mal... Você até foi falar comigo na escola - riu, sem graça - ninguém faz isso, nunca. E eu já estou tão acostumado a guardar as coisas pra mim, a ser sozinho, que eu não sei como agir com você - sacudiu os braços, exasperado - Você me entende, não entende?
Fiquei encarando-o um tempo, tentando absorver tudo o que ouvi e tentando saber se eu não estava sonhando com tudo aquilo.
- Fala alguma coisa! - ele disse, batendo o pé e eu achei tão engraçado que comecei a rir. - Sabia que não devia ter vindo - ele disse, com um tom de raiva misturado com mais alguma coisa que não consegui identificar. Decepção talvez - sabia que não devia ter vindo aqui essa hora, sou um idiota mesmo. Boa noite - ele virou as costas e saiu andando.
- Ei, espera - sai correndo atrás dele e só o alcancei quando ele já estava entrando no carro - espera, espera! Eu não queria rir de você, juro. Desculpa. - Ele já havia ligado o carro, mas desligou e saiu de dentro, se apoiando na porta, me encarando frustrado.
- Por que mesmo eu achei que você deveria ser diferente? Que você se importasse? - colocou as mãos na cabeça, enquanto me olhava - eu não devia ter vindo, desculpa te atrapalhar.
Eu tremia por causa da chuva que já havia me encharcado. Afastei o cabelo molhado do rosto e reuni coragem pra responder.
- Quem te disse que não me importo? Se não me importasse, não teria ido atrás de você, mesmo depois de você ser um grosso comigo, pra tentar te ajudar. Não teria te trazido pra minha casa, pra cuidar de você quando você precisou. Não estaria tentando ser sua amiga... - comecei a falar mais alto, me alterando - e não sei se você percebeu, mas por sua causa, eu estou na rua, de pijama e toda molhada então, por favor, não diga que eu não me importo! - encarei-o e esperei que ele dissesse algo.
Ele fechou a porta do carro e andou em minha direção, com um olhar decidido. Achei que ele fosse brigar comigo, ser grosso, como ele sempre é, mas para a minha surpresa, ele colocou as mãos em meu rosto e me beijou.
Preciso dizer que foi o melhor beijo da minha vida? Acho que não... Mas digo mesmo assim: foi o melhor beijo da minha vida. E eu nunca pensei que um beijo fosse capaz de me fazer sentir todas as coisas que senti àquela hora. Eu tremia e, dessa vez, não era por causa do frio.
Quando ele me soltou, continuei de olhos fechados, como se pudesse, de alguma forma, prolongar o momento.
- Desculpa, ah... Droga, eu não devia ter feito isso! - ele começou, e instantaneamente abri os olhos, sentindo as palavras me ferirem como facas recém afiadas. - Agi por impulso, não devia ter feito isso e...
- É melhor a gente entrar - respondi, com a voz mais fria que consegui, tentando não deixar transparecer a revolução que acontecia dentro de mim - A chuva está aumentando...
Puxei-o comigo e entrei em casa, indo buscar toalhas pra nós dois, enquanto pensava no quão idiota eu era. Ele pediu desculpa. Pediu desculpa por ter me beijado e disse que não deveria ter feito aquilo. Talvez a vozinha dentro da minha cabeça estivesse certa. Talvez eu fosse tão idiota que acabei tendo esperanças de novo e quando o que eu vinha negando há tanto tempo que queria aconteceu, eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. Mas agora eu percebia que era a mais imbecil do mundo. Ele pediu desculpas. Ele só queria uma amiga, agiu por impulso. Ele não me queria. Mas eu queria tanto ele. E agora eu queria voltar pra sala e beijá-lo outra vez, mas depois do que ouvi me sentia tão infeliz que nem sabia se queria olhar nos olhos dele outra vez.
Quando voltei pra sala, entreguei a toalha a ele e subi pro meu quarto pra trocar de roupa. A chuva lá fora havia aumentado muito e eu me senti pior. Desci as escadas e entreguei a mesma muda de roupas que havia emprestado a ele da última vez. Ele pegou da minha mão, mas continuou parado.
- A chuva aumentou... - disse, e ouvir a voz dele de novo me fez reviver a cena que eu sabia que iria ficar por muito tempo na minha cabeça. - Mas eu posso tentar ir embora, se você quiser... - me olhou nos olhos pela primeira vez e nada do que eu pensei conseguiu me obrigar a dizer que ele podia ir.
- Não, é melhor você ficar, daqui a pouco essa chuva passa. - respondi aliviada, por perceber que a minha voz estava normal.
- Olha, sobre o que aconteceu...
- Deixa pra lá - eu disse, antes que ele pedisse desculpa novamente - é melhor você ir se trocar - apontei pras roupas encharcadas dele e ele concordou.
Sentei no sofá e tentei me controlar. Era isso que a esperança sempre fazia comigo: me decepcionava. Por que mesmo eu me permiti ter esperanças? Quis que a vozinha voltasse pra me falar tudo o que eu merecia ouvir, mas até mesmo ela me abandonou. Ouvi os passos dele se aproximando e me levantei, indo até a cozinha. Ele me seguiu até lá.
- Você quer comer alguma coisa? - perguntei.
- Não, não estou com fome - disse. Ele ainda me olhava como se quisesse explicar o que havia acontecido, mas eu não daria oportunidade pra ele fazer isso.
- Você está horrível - disse, rindo, quando reparei que ele ficava realmente mal com as roupas do meu pai.
Ele riu também e um ar de naturalidade apareceu entre nós e eu soube o que devia fazer. Ele não me queria do jeito que eu o queria. Mas eu não sabia se conseguiria ficar longe dele depois de tudo. Decidi que seríamos amigos, assim como eu era amiga do e da , somente amigos. Prometi a mim mesma que iria esquecer qualquer outro tipo de sentimento por ele. Talvez eu estivesse apenas confundindo as coisas.
Voltamos pra sala e me lembrei que da última vez que o veio aqui, ele deixou um baralho que usamos pra nos distrair, perguntei ao se ele queria jogar e ele aceitou.
Ficamos muito tempo jogando e conversando, até percebermos que a chuva havia diminuído e ele poderia ir pra casa.
Estávamos olhando pra janela quando percebi seu olhar voltado pra mim. Me virei e o vi levantar uma das mãos, como se fosse acariciar o meu rosto, mas logo a abaixou.
- Acho que eu tenho que ir - disse. Sorriu aquele sorriso lindo e eu me senti enjoada. Como eu podia sentir tantas coisas em um dia só?
- Tudo bem - disse - eu te levo até a porta.
Fui com ele até lá e esperei ele ir até o carro. No meio do caminho ele virou e voltou até a minha porta, me deu um beijo no rosto e disse, com um sorriso:
- Até amanhã.
- Amanhã é sábado e as aulas já acabaram - eu disse, em um tom de dúvida.
- Eu sei... - ele falou, aumentando o sorriso.
- Então... - comecei - Como vamos nos ver?
- Achei que você queria ser minha amiga... - ele disse, em um tom muito meigo pra ele - Já desistiu? - perguntou, sorrindo de novo.
- Bom... Não. - respondi.
- Ótimo - disse - passo aqui às 2 horas pra gente dar uma volta.
Fiquei tanto tempo parada na soleira da porta que só percebi quando o telefone tocou. Atendi e falei um pouco com a . Tive o cuidado de não mencionar nada sobre hoje, contaria à ela outro dia. Depois que desliguei, deitei no sofá e tentei não pensar, mas era impossível.
"Achei que você queria ser minha amiga... Já desistiu?" o sorriso dele voltava à minha mente o tempo todo e me obriguei a falar pra mim mesma que seríamos amigos. Apenas amigos.
Acordei às nove horas, tomei um banho e fiquei umas duas horas pensando no que vestir. Depois que percebi o que estava fazendo, me senti tão idiota que desci as escadas correndo e fui preparar o almoço, quando acabei de comer, tomei outro banho e voltei pro quarto. Não havia deixado nada separado e não sabia o que usar. Coloquei uma calça jeans, uma blusa preta simples e um tênis. Me olhei no espelho e não sabia o que fazer com o meu cabelo. Deixei-o solto, liso e sem graça como ele sempre foi e desci pra assistir um pouco de TV.
Uma e meia. Eu estava tentando pensar em qualquer outra coisa que não fosse o fato de que ele passaria ali às duas horas. Uma e quarenta e cinco. Estava tentando colocar na minha cabeça que somos apenas amigos, aquele beijo foi um erro que não se repetiria mais e tudo o que eu queria era ajudá-lo, não importa o que ele tivesse. Olhei no relógio. Duas e cinco. Será que ele não viria? Me senti enjoada de novo e me perguntei o que foi que aquele garoto fez comigo. Fui até o banheiro me olhar no espelho e escovar os dentes. De novo. Duas e quinze. Devia ter acontecido alguma coisa, talvez ele esqueceu algo em casa e voltou pra buscar... Ou talvez ele esqueceu que marcou de dar uma volta comigo, pensei com amargura. Duas e vinte e cinco. É, ele não viria mais. Sentei-me no sofá e tirei o tênis. Fui procurar um filme pra assistir e escolhi um que sempre me fazia chorar e refletir: Sociedade dos Poetas Mortos. O tema do filme ficava vindo à minha cabeça "Carpe Diem", "aproveite o dia". Que belo jeito o meu de aproveitar o dia. Desisti de ver o filme e sentei no sofá, olhando pro relógio o tempo todo, como se quisesse que ele voltasse a me dizer que ainda era uma e meia, portanto, ele ainda poderia vir. A campainha tocou e eu dei um pulo. Duas e quarenta e dois. Será que era ele? Abri a porta e sorri ao vê-lo, com uma bermuda cinza e uma blusa azul, os cabelos jogados pra qualquer lado.
- Desculpa a demora - ele disse, olhando pra mim e me avaliando. - você já está pronta? - Perguntou e então olhou pros meus pés. - Acho que não - disse rindo.
Deixei-o entrar e fui colocar meu tênis. Perguntei se ele queria algo e ele negou.
Fomos até a praça que eu adoro e nos sentamos lá, olhando as poucas crianças que brincavam. Começou a chover e as crianças foram embora. Corremos pra debaixo de um toldo de uma lojinha que tinha ali perto e começamos a rir de nada, parecíamos dois idiotas. Ficamos ali até a chuva diminuir e depois voltamos pra minha casa. Fomos até o mercado perto de casa e compramos salgadinho e refrigerante, quando voltamos, peguei um velho jogo de tabuleiro que eu tinha em casa e jogamos até a madrugada. Quando ele foi embora, não consegui tirar o sorriso dos lábios. Fui dormir tão bem que nem percebi que naquele dia não tinha sentido vontade de fazer o que eu fazia todas as noites, depois de viver um dia normal como todos os outros e saber que não teria ninguém ao meu lado.
Os dias se seguiram e quase entramos em uma rotina. Dois dias na semana íamos ao cinema, nos outros dias ficávamos na minha casa ou na dele, conversando, assistindo filme, comendo besteira e rindo das nossas histórias.
Depois de umas três semanas dessa rotina, em uma sexta feira, esperei ele chegar às duas horas, como ele sempre fazia. Mas ele não chegou. Quando percebi que ele não viria fui até a casa da e passamos o dia juntas. Contei à ela sobre tudo o que aconteceu na semana.
- E como você se sente a respeito dele? - ela perguntou.
- Ele é meu amigo, só isso. É como você e o - Falei, mas sabia que ela conseguiu detectar a decepção na minha voz.
- ... - ela começou cautelosa e eu sabia sobre o que ela ia perguntar - Você não está fazendo aquilo de novo, está?
- Não , juro que não - disse, quando ela me olhou desconfiada. - No dia que ele me beijou, sim, mas não foi por causa dele, entende? - eu comecei a falar muito rápido, como sempre fazia quando falava sobre isso, como se prolongar o assunto prolongasse a dor - Foi por minha causa, como sempre é. Eu me senti, sei lá, mal com aquilo. Senti como se ninguém me quisesse... - ela me olhou com pena, e eu senti um pouco de raiva. Odiava quando ela me olhava assim - Mas eu não tenho feito mais isso - falei - ele me faz bem. Passar o dia com ele me faz bem. - Olhei nos olhos dela, querendo que ela visse que o que eu dizia era verdade. - Eu não senti mais necessidade de fazer isso. - terminei. Ela pegou meu braço, e eu já estava preparada para aquilo. Sabia que ela ia querer checar. Não afastei. Apenas a deixei puxar a manga da blusa pra cima e ver que os cortes mais recentes estavam se cicatrizando.
- Continua assim, por favor - ela disse, com lágrimas nos olhos. - Por favor.
- Eu vou continuar. Não vou fazer mais. - Prometi, pela milésima vez, e a abracei forte.
No fundo eu sabia que a vontade era mais forte que eu. No fundo eu sabia que só iria quebrar outra promessa. Mas eu odiava vê-la daquele jeito. E de qualquer forma, os cortes estavam sumindo. Talvez eu diminuísse a frequência com que os fazia. E quem sabe um dia eu pararia com isso.
Mas eu sabia que ia demorar. E eu não disse nada pra ela.
Ele também não apareceu no sábado nem no domingo. Liguei na casa dele na segunda, mas ninguém me atendeu. Comecei a ficar preocupada que algo tivesse acontecido com ele e igualmente preocupada com o fato de que, talvez, ele já estivesse cansado de ter uma amiga.
Quando ele chegou na quarta, às duas horas, eu entendi porque ele não tinha aparecido. Ele tinha um olho um pouco roxo. Já estava sumindo, mas ainda conseguia ver. Quando eu perguntei a ele o que tinha acontecido, ele disse que se envolveu em uma briga em uma boate, mas não entrou em detalhes. Alguma coisa me dizia que ele estava mentindo, mas preferi deixá-lo me contar por vontade própria.
Saímos em direção ao carro dele e ele dirigiu até a cidade vizinha, onde as praias eram mais limpas enquanto conversávamos.
Saímos do carro e a praia estava vazia. Ninguém gostava de ir à praia em pleno inverno. Caminhamos até a areia e nos sentamos. Percebi que ele estava com uma sacola nas mãos, e quando começou a tirar as coisas de lá de dentro, entendi o que ele queria fazer.
- Piquenique! - disse feliz, quase pulando no lugar em que estava. Nunca havia feito um piquenique. Ele riu e continuou tirando as coisas de dentro da sacola. Sanduíches naturais, suco de laranja, bolachas e salgadinhos.
- Quase pensei que íamos fazer um lanche saudável até ver isso - apontei pro salgadinho.
- Se não tivesse um pouquinho de besteiras não seria um piquenique perfeito - ele falou com um sorriso.
Comemos enquanto olhávamos pro mar. Quando acabamos, começamos a conversar sobre as pessoas da escola e relembrar o que acontecia lá. Ele também não gostava dos alunos, e só falava mal. Eu ri muito.
- E aquela vez que aquele menino que eu não lembro o nome pediu pra namorar com você na rádio da escola? - ele disse, gargalhando. Eu ri também.
- Ah, o Lúcio, aquele idiota.
- Pior mesmo foi a música que ele dedicou a você - ele riu mais ainda e eu o acompanhei, lembrando da música velha, cheia de saxofones e outros instrumentos que eu não sei o nome. A música era horrível.
- Ele até fez um poema pra mim - eu disse e coloquei a mão no rosto, como se estivesse com vergonha. Ele riu e puxou a minha mão.
- , flor do meu jardim, meu gramado sem capim, minha rosa sem espinhos... Meu coração palpita por você - ele disse, imitando o poema exatamente como ele foi feito, ainda segurando a minha mão - Diga que também me ama e te ensinarei tudo o que sei - ele continuou, tentando conter o riso. - Me dê seu coração, que eu te darei o meu...
- Ok, chega, chega! - eu gritei, interrompendo ele e rindo muito. Ele ria tanto, que estava ficando vermelho. Mas uma de suas mãos ainda segurava a minha. Quando percebi, puxei a mão e ele me olhou surpreso, parando de rir.
- Desculpa...
- Não, tudo bem - falei, tentando rir um pouco, mas até para os meus ouvidos aquela risada soou falsa.
Começamos a conversar novamente e contei a ele mais sobre o e a . Combinamos de passar na casa do qualquer dia pra jogar vídeo game. Ficamos um tempo em silêncio, observando o sol se por.
- Eu e minha mãe vínhamos aqui quando eu era mais novo - ele disse de repente, e o tom de tristeza em sua voz me assustou. Olhei pra ele enquanto ele continuava a falar. - Gostávamos de vir aqui no inverno... Não tinha muita gente e sempre fazíamos um piquenique. Eu contava a ela como estava indo na escola, ela me falava sobre o trabalho... Era bom. - ele terminou, me olhando nos olhos.
- E por que vocês não vêm mais? - perguntei.
- Eu... Eu comecei a andar com uma turma que não era, digamos, uma boa influência. - Ele disse, voltando a olhar o mar. - Então comecei a achar uma idiotice perder meu tempo vindo aqui com ela nas férias de inverno se eu podia estar com eles, entende? - ele ainda não me olhava, esperei que ele falasse mais alguma coisa. - É impressionante o que as "amizades" erradas podem fazer com as pessoas. - ele falou, e pareceu esperar que eu falasse algo.
- E você continua hmm... Andando com essa turma? - perguntei receosa.
- Não. - ele disse - Mas você queria saber quem fez aquilo comigo, lembra? - olhou pra mim pela primeira vez desde que começou a contar e então eu entendi.
- Por que eles estão fazendo isso com você? - eu perguntei de forma autoritária, um pouco brava por achar isso tão errado.
Ele me olhou como se estivesse ponderando se deveria continuar me contando ou não. Percebi que ele não havia contado isso pra mais ninguém e que tinha sido por isso que ele havia me trazido até ali.
- Eu estou devendo um dinheiro pra eles... - ele começou - Muito dinheiro. E eu não tenho como pagar tudo. Eu já paguei uma parte - ele falou - mas ainda falta muito pra minha dívida acabar.
- E por isso eles batem em você? - eu perguntei.
- Eles batem em mim porque a minha dívida esta aumentando ainda mais. - ele me olhou nos olhos. - Um deles ameaçou a minha mãe e, bom... Eu bati nele. Aquele dia no beco foi a "vingança" deles - ele disse com raiva e quando olhou pra frente de novo, consegui ver nitidamente o roxo no olho dele e fiquei com muita raiva também - e eles disseram que se eu não arrumar o dinheiro até o mês que vem, eles vão cobrar dela. Você entende o que isso quer dizer? - perguntou.
- Acho que sim - falei. - eu quero te ajudar. A gente pode conseguir esse dinheiro! - falei.
- Eu vou conseguir. - ele disse, apontando pro carro. - está quase vendido - falou.
- O que foi que você comprou deles pra estar devendo tanto? - perguntei, já sabendo qual deveria ser a resposta.
Ele colocou as mãos no cabelo e se balançava pra frente e pra trás, suas mãos tremiam e eu não tive dúvida do que ele tinha.
- Eu não quero te envolver nisso, não quero. Eu tenho medo de que se eles descobrirem sobre você, te usem pra me ameaçar. E eu não posso deixar nada acontecer com você - ele falou desesperado - mas eu não consigo parar, eu não consigo parar - ele repetia, olhando pra mim, e eu não sabia o que fazer. - Eu sei que o que eu estou fazendo é errado, eu sei, e eu quero parar! Mas eu não consigo - ele disse, com grande esforço, com os olhos vermelhos e o rosto molhado pelas lágrimas que ele agora deixava cair. - Você disse que queria me ajudar - ele disse, pegando a minha mão. - Então me ajuda, por favor? - eu sabia que não tinha como dizer não, mesmo que eu quisesse. Meu Deus, como era horrível vê-lo daquela forma! Por que ele tinha tanto poder sobre mim? - Por favor, ! Eu não aguento mais decepcionar a minha mãe, eu não aguento mais essa situação e eu preciso de ajuda, mas eu não sei a quem pedir. Eu preciso de você!
Desistindo de me fazer de forte, passei a mão por aqueles lindos cabelos, agora embaraçados e comecei a chorar junto com ele. Coloquei um dedo em seus lábios para impedi-lo de falar novamente. Não precisava ouvir mais nada. Simplesmente não aguentava vê-lo daquela forma. Faria qualquer coisa para colocar de volta aquele lindo sorriso no rosto dele. Lentamente, me aproximei dele e passei os braços por cima de seus ombros, aproximando os corpos, em um primeiro abraço. Um primeiro abraço há muito tempo esperado. Senti as mãos dele em minha cintura, e me senti bem, de um jeito estranho, mas bom.
- Vai ficar tudo bem, . - sussurrei em seu ouvido - Eu vou te ajudar.
- Promete? - o ouvi perguntando, sentindo a respiração quente dele em meu pescoço - Promete que não vai desistir de mim? - Ri de leve, sem humor nenhum.
- Prometo que vou te ajudar - respondi - e não vou sair de perto de você. Só se você não me quiser por perto. - dei um beijo na bochecha dele e me afastei. Peguei-o pela mão, do modo como minha mãe fazia comigo quando era pequena e o tirei dali em silêncio. Ninguém precisava saber o que havia acontecido. Não importa o que pensam nem o que dizem a respeito dele. O que importa era que ele estava ali, ao meu lado, segurando minha mão e querendo a minha ajuda. - Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai. - disse baixinho, mais para mim mesma do que para ele.
É realmente incrível o que amizades erradas podem fazer com as pessoas. Era realmente incrível o poder das más influências, das pessoas que só queriam o mal dos outros e, mais incrível ainda, era o poder que as drogas tinham sobre uma pessoa. Mas eu não as deixaria destruir a vida dele, como já havia destruído tantas vidas. Não, eu cuidaria dele. Ainda não sabia como, mas cuidaria. Eu o tiraria dessa.
Decidi que o melhor que podia fazer por seria distraí-lo, pelo máximo de tempo que conseguisse, pra evitar que ele sentisse vontade de se drogar novamente. Ele me prometeu que continuaríamos nos vendo e que ele não me abandonaria, assim como eu não pretendia abandoná-lo. Aquela noite, deitada em minha cama pensando em algo que fosse suficientemente bom para distraí-lo, relembrei grande parte da nossa conversa durante a tarde, enquanto o meu sono não vinha.
"Eu dirigia o carro dele e ainda não tínhamos trocado sequer uma palavra, enquanto ele tentava se controlar e parar de chorar. Percebi como deveria ter sido difícil pra ele se mostrar daquele jeito pra mim e soube quase de imediato que ele se sentiria com vergonha depois, por isso prometi a mim mesma que não o deixaria se sentir assim. Quando chegamos à minha casa, mandei-o subir até o meu quarto e fui à cozinha buscar um copo de água pra ele e tentar achar o que falar.
Quando me viu entrar no quarto, ele sorriu e estendeu a mão pra pegar o copo. Percebi que ele parecia bem melhor.
Sem nenhum motivo aparente, pensei no meu pai e no que ele diria se soubesse que eu e o garoto-problema estávamos sozinhos no meu quarto. Afastei esse pensamento e me sentei na cama, dei umas batidinhas no lugar a minha frente, sinalizando que queria que ele se sentasse ali. Ele se sentou e, confirmando o que eu havia pensado que ele faria, disse:
- Me desculpa, não devia ter desabado daquele jeito, eu não costumo fazer isso...
- Tudo bem - falei, acariciando a mão dele que estava próxima a mim - Você não tem que aguentar tudo sozinho. E eu fico feliz em saber que você me escolheu pra compartilhar isso - fui o mais sincera que pude, falei o tempo todo olhando em seus olhos e ele assentiu, sorrindo. Como alguém podia ser tão lindo?
- Você é linda, sabia? - ele disse, me assustando e rindo depois de ver a minha cara de espanto - É serio! - percebi que ele estava corando um pouco e tentei ignorar esse fato, mas achei bonitinho - E se você não quiser - ele continuou, parecendo reunir toda a força que tinha -, não precisa me ajudar, não é sua obrigação fazer isso.
Suspirei e me levantei. Caminhei até a janela e pude sentir seu olhar em mim.
- Eu não preciso te ajudar e não, não é minha obrigação fazer isso - comecei e me virei lentamente pra ele - mas eu quero te ajudar.
Ele sorriu triste e se levantou também. Olhou pela janela lá fora e apontou pra uma casa em frente à minha.
- Eu morava ali, sabia?
Olhei pra ele, incrédula.
- Quando?
- Morei ali até os 10 anos. Morava com o meu avô e com a minha mãe, mas depois que ele morreu, ela não quis mais morar aqui - ele fez uma pausa e voltou a olhar pra mim - eu me lembro de quando você se mudou pra cá - ele falou sorrindo - era inverno e eu tinha uns 8 anos. Estava fazendo um boneco de neve na frente de casa quando vi você chegando com o seu pai.
Sorri, me lembrando vagamente daquele dia. Ele deu uma risada e continuou.
- Você estava brava, e muito fofa, devo dizer, com as bochechas vermelhas e a carinha de irritada - ele riu mais uma vez.
- Eu me lembro - falei - eu não queria vir pra cá - senti uma nostalgia enorme se apossando de mim.
- É, e você bateu o pé e disse que a casa era feia e que não ia entrar nela. Detalhe: a sua casa é a mais bonita da rua. - ele me olhou sorrindo e balançando a cabeça negativamente, como se não aprovasse a birra que eu havia feito aquele dia - Você ficou bem uns dez minutos brigando com o seu pai dizendo que não ia entrar...
- Não sabia que você se lembrava disso - disse, rindo - E por que está me falando isso agora?
- Porque naquela época eu achava as garotas chatas e sem graça. Na escola, eu fugia delas - ele disse, com um sorrisinho sapeca - Mas quando te vi, não sei por quê, mas quis ficar perto de você. Acho que porque mesmo quando você era mais nova, você era uma menininha decidida - ele riu - eu gosto de pessoas decididas.
Eu ri também, sentindo algo se remexendo loucamente no meu peito.
- Me diz o que eu posso fazer pra te ajudar - falei, de repente.
- Você já me ajuda - ele riu da minha cara de dúvida - Você me distrai, me faz querer passar mais tempo conversando com você do que... Fazendo outras coisas - percebi que ele ainda se sentia incomodado por falar naquele assunto - E eu parei um pouco... Diminuí a frequência, entende? - ele me olhou nos olhos e entendi que estávamos na mesma situação, que eu também havia diminuído a frequência com que me machucava porque ele me fazia bem. Sorri com o pensamento de que eu fazia bem a ele. - Não sei... Mas acho que se você me deixar ficar mais tempo com você - ele começou, constrangido - já ajuda.
- Claro - falei rápido demais e ri -, por mim tudo bem.
- Se eu soubesse que ser seu amigo ia me fazer tão bem, teria começado nossa amizade antes - ele falou rindo e bagunçando o meu cabelo.
Ri junto com ele, enquanto sentia um aperto no peito."
Soube o que devia fazer pra ajudá-lo. Precisava mantê-lo distraído por tempo suficiente... Não poderia deixar brechas. "Você pode fazer isso... Não vai ser nenhum sacrifício", sorri com meus pensamentos, até ouvir uma vozinha chata me dizer "Ele só quer a sua amizade, idiota". O sorriso se desmanchou e senti vontade de chorar. "Quer saber?", respondi "Estou muito satisfeita em ter a amizade dele". Percebi que já estava adormecendo e me entreguei ao sono, mas ainda pude ouvir a vozinha dizer: "Porque isso é tudo o que você pode ter... Amizade."
Os dias se passaram e eu e fizemos tantas coisas que eu me sentia exausta. Falei com o meu pai sobre ele, porque agora ele nos veria muitas vezes juntos. Já havíamos limpado a minha garagem em um dia e tinha tanta tralha lá dentro que até agora não consigo entender como aquilo tudo cabia lá. Outro dia limpamos os fundos da minha casa e no outro ajudamos a mãe dele com a mudança. O aluguel do apartamento deles havia aumentado e o dinheiro que ela usava pra pagar era o dinheiro do aluguel da casa do avô de . Como a casa não era alugada pra ninguém há meses e eles não tinham como manter duas casas, se mudaram de volta pra minha rua. Agora éramos vizinhos e eu estava tentando não me empolgar demais com isso, mas admito que as coisas ficaram bem mais fáceis.
Ficamos entretidos com a mudança durante uns bons três dias, revezando entre trazer as coisas e arrumá-las na casa. Divertíamos-nos muito, por mais incrível que pareça, falando besteiras e rindo das fotos de quando era bebê que a mãe dele ainda guardava.
vendeu o carro e pagaria a dívida no sábado. Ainda não sabia o que ele disse pra mãe dele sobre o carro, porque ele não comentou nada comigo. Insisti em ir com ele entregar o dinheiro, mas ele não deixou e todas as vezes que eu tocava no assunto ele fugia.
Já era sexta feira e eu acordei um pouco tarde demais. Me troquei e comi alguma coisa. Quando terminei dei um beijo no meu pai e disse que ia ver o .
Toquei a campainha, mas ninguém me atendeu. Toquei de novo e nada. A mãe dele devia estar trabalhando e o provavelmente dormindo. Tentei abrir a porta e estranhei o fato dela estar aberta.
- ? - chamei. Ninguém me respondeu.
Subi as escadas e parei na frente do quarto dele. Achei que não devia entrar, porque ele poderia estar de cueca e tudo o mais e seria constrangedor. Meu coração estava acelerado e eu ainda não sabia o por quê. Abri a porta devagar, tentando olhar lá dentro.
- , a porta estava aberta e...
Parei quando o vi jogado no chão, com as mesmas roupas que ele usava quando saiu ontem da minha casa.
Corri até ele e percebi que ele não estava machucado. Tentei acordá-lo, mas ele não se mexia. Estava entrando em pânico quando percebi o cheiro estranho que eu havia ignorado até então e que emanava dele.
- Ah não... - disse, sacudindo-o desesperada, querendo que ele acordasse e dissesse que estava bem. Coloquei os dedos em seu pescoço, tentando sentir pulsação. Lenta. Muito lenta. Ele respirava pesadamente e eu fiquei com medo, não sabia o que fazer. Estava começando a me sentir enjoada, sentei ao lado dele e coloquei a cabeça entre os joelhos, tentando acabar com o enjôo e pensar no que fazer.
- ? - o ouvi sussurrar e dei um pulo.
- Graças a Deus - disse desesperada, olhando pra ele que parecia se esforçar pra manter os olhos abertos. - Você consegue levantar? - perguntei infeliz, lembrando que já havia feito a ele essa pergunta.
Ele não respondeu e tentei levantá-lo. Levei-o até o banheiro e o coloquei embaixo do chuveiro, rezando pra que a água gelada o fizesse melhorar. Liguei o chuveiro e o deixei lá, de roupa e tudo e ele pareceu acordar. Encostei-me na parede oposta, tentando me acalmar. Ele me encarava com uma expressão triste que me fez sair dali.
Peguei uma toalha e entreguei a ele enquanto separava algumas roupas. Depois que lhe entreguei as roupas e recebi um olhar tristonho, saí do banheiro, fechando a porta, pra esperar ele se trocar. Voltei para o quarto e abri as janelas, querendo que aquele cheiro fosse embora quando o ouvi entrar no quarto e se deitar de bruços na cama, com os cabelos molhados. Ele olhou pra mim e eu me ajoelhei ao lado dele.
- Desculpa - sussurrou - eu não consegui.
Levantou a mão e tocou o meu rosto, secando uma lágrima que eu não percebi que havia deixado cair.
- Eu não consegui - repetiu, como uma criança.
- Tudo bem - eu disse. Fiz um carinho rápido nos cabelos dele e o vi fechar os olhos - descanse. Vou preparar algo pra você comer - disse, me levantando.
- Não! - ele quase gritou e agarrou a minha mão. - Fica aqui comigo, por favor.
Sentei ao lado dele na cama e ele apoiou a cabeça no meu colo. Enquanto eu mexia em seus cabelos, o vi suspirar e fechar os olhos. "Droga" pensei triste, desejando que se eu fechasse os olhos e os abrisse novamente, percebesse que ainda estava deitada na minha cama, preparada pra um dia feliz com um diferente daquele que, obviamente, não teria voltado a se drogar.
Ele acordou três horas depois, parecendo melhor e quando disse que ia pra minha casa, ele pediu que o esperasse.
Tomou outro banho e comeu alguma coisa. O silêncio entre nós estava me consumindo e eu não sabia o que dizer. Muito menos o que sentir.
- Desculpa - ele disse quando nos sentamos no sofá da sala. - eu não queria fazer isso, mas eu estava nervoso, achei que podia me acalmar um pouco... Desculpa!
- Não me peça desculpas - falei irritada - você não fez nada pra mim.
- Te decepcionei. - ele falou com a cabeça baixa.
- Decepção não é nada comparada com o que você fez com você mesmo! - falei friamente.
O silêncio se prolongou e eu queria ir embora. Sentia-me decepcionada, frustrada, um lixo.
- Não quero te levar porque não sei o que eles podem fazer com você. - falou, de repente, sentado no sofá em frente ao que eu estava e passando as mãos pelos cabelos, se referindo aos traficantes que estavam cobrando ele.
- Você acha que eles podem fazer algo? - perguntei receosa, me esquecendo de ser fria.
- Não sei, mas não vou arriscar - ele respondeu decidido.
- Não quero que você vá - disse, deixando de lado a idéia de me fazer de indiferente. Não daria certo mesmo. - não sozinho. - completei, quando ele me lançou um olhar estranho.
- Eu não vou te levar, nem adianta, já conversamos sobre isso. - ele disse, como se colocasse um ponto final na conversa.
- E se acontecer algo com você? - perguntei, me levantando - e se eles te baterem de novo ou fizerem algo pior? Eu quero ir! - ele ia protestar, mas eu gritei, fazendo ele se calar - Você me deve isso, ! Eu tentei esse tempo todo te ajudar e no fim você simplesmente esqueceu tudo, foi lá e se drogou de novo! - ele fez uma cara tão triste que quase me arrependi do que disse. Quase. - Não pense que se você mudar de assunto, eu vou esquecer isso. - fiz uma pausa, esperando que ele protestasse, mas ele não o fez. - E se acontecer algo com você? - repeti, em um tom de voz mais baixo, que demonstrava a minha insegurança.
- Se acontecer algo comigo - ele me olhou nos olhos, também se levantando - não quero que aconteça com você também.
- Então pode mesmo acontecer algo? - falei irritada, apontando um dedo na cara dele - você me disse, me garantiu que eles não fariam nada!
- Eu sei - ele gritou - eu sei o que eu falei, mas eu não tenho mais tanta certeza!
- Então você devia ter me dito antes! - gritei também - Eu tinha o direito de saber, não acha?
- Saber do que? - com a nossa gritaria, nem ouvi a mãe dele chegar em casa e agora ela nos olhava curiosa.
- Nada mãe! - disse, com raiva. Virando-se de costas pra mim.
- É, não é nada! - eu falei, ainda olhando pra ele. - Nada com o que eu ou a senhora devêssemos nos preocupar - completei com amargura.
- ... - ele chamou.
- Já está tarde - eu disse, embora não fosse nem oito horas - Tenho que ir pra casa. Boa noite.
Dei um beijinho na senhora e tentei sorrir, mas tenho certeza que tudo o que consegui foi fazer uma careta.
Fechei a porta e atravessei a rua, sentindo o ar frio do início da noite bater em meu rosto.
Entrei em casa e meu pai estava jogado no sofá, assistindo TV.
- Mas já...? - perguntou. Sem responder, subi em direção ao meu quarto e bati a porta.
Senti-me horrível. Joguei-me na cama e tentei não pensar. Sabia onde aquilo acabaria e eu não queria. Que acabasse dessa forma.
"Não pense!", dizia pra mim mesma, mas não adiantava.
Eu estava me sentindo forte, tão forte com ele do meu lado aquele tempo todo. Fazia muito tempo que eu não cedia àquela minha vontade idiota, doentia... Por causa dele.
Sentei-me, tentando secar as lágrimas e corri para o banheiro. Encostei-me na parede e ainda tentei resistir. Já havia resistido por tanto tempo. Nós havíamos resistido por tanto tempo! Mas depois de saber que ele não aguentou, me senti encurralada, como se segurasse a ponta de uma corda onde ele havia soltado o outro lado. Foi quando percebi que estava o usando como apoio, me agarrando ao fato de que ele havia resistido às drogas por tanto tempo que o mínimo que eu deveria fazer seria resistir àquela mania doentia de me mutilar constantemente, vezes e vezes seguidas.
Mas ele se rendeu, pensei, por que tenho que permanecer forte? Por que tenho que resistir?
Me abaixei e vasculhei o fundo do armário, procurando a minha velha amiga-inimiga que eu escondia em uma caixinha. Quando achei, me encostei de volta na parede e levantei a manga da minha blusa. Olhei para as cicatrizes dos cortes antigos friamente. Posicionei a lâmina em um ponto sem cicatrizes e, depois de respirar fundo, afundei ela na minha própria carne e puxei com força.
A dor me invadiu e eu senti aquele pequeno alívio antigo. "Doentio", pensei, posicionando a lâmina novamente, tentando enxergar através das lágrimas.
Havia conseguido. Não pensava em mais nada, só na dor e no que eu acabara de fazer. Parei depois que fiz o terceiro corte, quando ouvi meu pai gritar de lá de baixo que estava saindo. Pensei ter ouvido vozes lá, mas logo depois ouvi o barulho da porta. Comecei a chorar mais ainda e tentei me controlar. Sequei o rosto depois de largar a lâmina no chão, indo lavar os cortes. Ardeu tanto que quase gritei. Estava observando meu sangue correr pelo ralo misturado com a água...
- O que você fez? - ouvi e dei um pulo, assustada. Virei-me e não acreditei que estava vendo parado na porta do meu banheiro, olhando da lâmina no chão para o meu braço ensanguentado.
- O que você está fazendo aqui? - gritei e tentei fechar a porta, meio desesperada.
segurou a porta e a empurrou, pra poder entrar no pequeno banheiro do meu quarto.
Ele me encarou, por alguns segundos e a vergonha que senti foi a maior de toda a minha vida. me segurou pelos ombros, parecendo tentar evitar olhar ou tocar no meu braço, e me sacudiu um pouco.
- ... O que foi que você fez? - ele me olhava incrédulo, mas ainda consegui ver a decepção nos olhos dele, o que me cortou por dentro, mais fundo do que qualquer lâmina poderia ter feito.
Tentar explicar foi a pior parte. Achei que tinha sido difícil quando a descobriu, mas foi um milhão de vezes pior contar pra ele. Ver a decepção nos olhos dele a cada palavra que eu dizia. Tentar explicar pra ele o que eu estava fazendo parecia me corroer por dentro.
Comecei a andar de um lado para o outro, tentando me acalmar e querendo que ele falasse alguma coisa. Não aguentava mais aquele silêncio. Comecei a pensar que ele sentiria nojo de mim, agora que sabia o que eu fazia comigo mesma. Ou talvez ele sentisse raiva, já que ele foi corajoso e verdadeiro o suficiente pra me contar que usava drogas e eu, idiota como era, além de não ter contado a ele o que eu costumava fazer, tinha feito de novo.
Ele se mexeu na cama e eu olhei pra ele. Vi ele se levantar, ágil, e caminhar até a porta, fechando depois de sair. Sem reação, com a boca ligeiramente aberta, entendi o que tinha acontecido. Ele não seria como a , afinal, que ficara do meu lado, mesmo sabendo que eu não fazia o menor esforço pra deixar de fazer o que eu fazia. Senti um nó enorme na garganta: estava tudo acabado. Qualquer coisa que estivesse acontecendo entre mim e havia acabado. Não teria nem a amizade dele.
Fiquei parada lá, sozinha, me sentindo menos que um nada, até ouvir um barulho na porta e vê-lo entrar de novo.
- Você não pode mais fazer isso! - ele esbravejou, indo em minha direção e não liguei quando ele agarrou os meus braços e me sacudiu rudemente, de tão aliviada que eu estava por ele ter voltado. - Está me entendendo? Não pode! - ele gritava como um louco e o rosto dele estava de uma cor que eu nem sabia que um rosto poderia ter - Isso é insano, é doentio! Já imaginou que você pode se cortar de um jeito sério? Pegar em alguma veia importante? Você tem que parar com isso! É doentio, é perigoso! - ele repetia, insistente, mas quando o meu alívio por ele ter voltado passou, me permiti pensar com um pouco de clareza.
- Olha quem fala! - eu ri, me livrando dele - Tem noção do que você faz? - o encarei, a raiva explodindo no meu peito. - Eu sei que o que eu faço não é certo, mas quem é você pra me falar que o que eu estou fazendo é perigoso? Acha que se drogar é saudável? - gritei e joguei um travesseiro nele - Eu pelo menos não dependo de ninguém, não apanho de ninguém e não fico devendo pra ninguém! - esbravejei e joguei outro travesseiro na direção dele, mas dessa vez ele saiu do caminho, fazendo o travesseiro bater contra a parede oposta e percebi, com certa satisfação, que ele parecia assustado - Eu não corro o risco de ter um ataque e morrer! - joguei o edredom e já estava pensando quanto tempo levaria até conseguir jogar o colchão naquele rosto bonitinho, sem parar de gritar - O que eu faço é errado, eu sei disso! Sei disso e não me orgulho! E você? O que você pode falar de mim? Você é um hipócrita! - terminei e percebi que lágrimas cobriam meu rosto. Minha respiração estava acelerada e eu tentei me recompor. Abaixei a cabeça e, para a minha surpresa, senti braços me envolvendo, em um abraço desajeitado, mas definitivamente um abraço.
Eu estava nos braços dele.
CONTINUA
N/A: Bom... Primeira fic no site, não sei o que dizer AHSUHAUS' Só que espero que quem ler goste de Story of Us! Obrigado por lerem! Beijos.
N/R: Qualquer erro, favor enviar um email para juhclaro@popfics.com.

