WORDS, HANDS, HEARTS
Autora: Bá G.
Status: Em Andamento
Revisada por: Gabi Gleriani
Categoria: McFly
Sub-Categoria: Romance/Comédia - LongFic
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O1.
E lá estava ele, de novo, falando e falando enquanto dirigia seu mais recente carro adquirido. Eu não fazia idéia que marca era, só sabia que era caro, assim como todos outros.
Estava sentada ao seu lado, esforçando-me para manter a atenção na música que saia dos meus fones de ouvido e ignorar cada palavra que saía da boca dele, afinal, não devia ser nada diferente do que ele já dissera para mim em várias outras ocasiões.
- Você tem noção do quanto você está me atrasando, ? Eu já estou cansado das suas atitudes para chamar a atenção. Três colégios em um ano, daqui a pouco nem com meus subornos vão te aceitar em algum lugar...
Ele continuava falando e eu continuava ignorando. Mantinha meus olhos fixos nas casas que passavam do lado de fora da janela, até que elas ficaram cada vez mais escassas e foi então que meu pai começou a diminuir a velocidade do carro.
- Eu tenho uma reunião super importante agora, mas ao invés de cuidar dos meus negócios, eu tenho que vir subornar um diretor para aceitar minha filha no colégio dele. Você percebeu o quanto você vive atrapalhando meus negócios, ?
Por que ele colocava meu nome ao final de cada frase? Eu já estava cansada daquele discurso de todos os dias, e eu já sabia que eu era a pedra no caminho do meu pai; ele não precisava ficar me lembrando disso a cada minuto.
Ele estacionou o carro e eu não esperei que ele parasse de falar para abrir a porta e pular para fora. Joguei a mochila nas costas e segui o caminho alguns metros à frente dele, indo até a secretaria daquele que seria meu novo colégio.
Não sei porquê o diretor queria me ver. Não podia simplesmente me deixar procurar o meu horário e dormir durante todas as aulas do dia, implorando para que a tortura acabasse logo?
Fomos até a secretaria e logo uma mulher estranha abriu um sorriso enorme para o meu pai. Claro, ele podia ser chato, ignorante, me odiar, mas ele era um cara bonito. Bonito, bem arrumado, rico... O que mais ela ia querer, não é?
- Bom dia, eu sou Marcus , pai da . Acho que o diretor está me esperando – ele disse, até com certa simpatia. Cadê o homem estressado que brigava comigo até dois minutos atrás?
- Ah, sim. Um minuto – ela disse prestativa e logo em seguida pegou o telefone, discando o ramal da sala do diretor, assim imaginei.
Eu estava com as costas apoiadas na parede, encarando fixamente minhas unhas descascadas e completamente entediada.
Ela disse ao telefone que estávamos esperando e assim que o devolveu à base, deu a volta no balcão e nos guiou até a sala do diretor, onde havia uma placa escrita ‘Sr. Tanner’.
A mulher abriu a porta para nós e então pudemos entrar em uma sala com um cheiro estranho. E lá estava o homem. O homem que me perseguiria pelos próximos meses, que não seriam muitos se eu tivesse sorte. Ele estava sentado em sua cadeira atrás de uma mesa abarrotada de papéis, com uma careca enorme e óculos tortos na ponta do nariz.
Ele se levantou e cumprimentou meu pai com um aperto de mão, repetindo o gesto comigo.
- Senhor , Senhorita – ele disse formalmente, nos indicando as cadeiras para nos sentar. Meu pai o fez, mas eu não queria, então recebi um olhar nada discreto dele, me obrigando a mudar de ideia. Joguei-me na cadeira ao lado, com uma expressão muito entediada.
- Imagino que essa seja – ele disse me encarando. – A causadora de confusões – ele disse com um sorriso irônico, e isso não foi uma piada. Contive-me em retribuir com um sorriso tão sarcástico quanto o dele.
- Garanto que ela não causará confusões aqui, Sr. Tanner – meu pai disse de maneira calma para o velho que, agora, desviara sua atenção dos meus olhos para o maço de dinheiro que meu pai retirava do seu bolso e colocava sobre a mesa em frente ao diretor. Ele encarou o dinheiro e depois olhou para meu pai quase com desprezo. Ele empurrou o dinheiro de volta ao meu pai, balançando a cabeça negativamente.
- Desculpe-me senhor , mas acho que o senhor não me entendeu muito bem quando nos falamos por telefone – o velho disse de forma calma. – Nossa instituição visa à educação do aluno, independente da sua conta bancária. Garanto ao senhor que apenas algumas notas de dinheiro não vão salvar a vida escolar da sua filha – ele terminou, e juro que tive que me segurar muito para não rir na cara do meu pai. Bem feito para ele. Sempre achando que o dinheiro dele compra qualquer coisa.
- Não... Não foi isso que eu – ele gaguejou um pouco, mas logo foi interrompido pelo diretor novamente.
- Ela será tratada como qualquer outro aluno da minha escola, receberá a educação e punições necessárias – ok, ele voltou a me encarar com aquela cara de psicopata que quase me deixou com medo. – Senhorita , pode pegar seu horário com Cassie na secretaria e se dirigir para sua primeira aula. Espero que não tenha ficado nenhuma dúvida a respeito do que eu disse.
- Não, senhor – respondi, proferindo minhas primeiras palavras do dia. - Certo.
Deixei a sala com meu pai lá dentro, provavelmente tomando uma lição de moral do meu diretor. É pai, por essa o senhor não esperava. Reprimi um sorriso e caminhei até o balcão onde Cassie me esperava, já com meus horários em mãos. Peguei o papel e vi que ainda tinha dez minutos até que começasse a primeira aula, mas não fazia idéia de onde ficava a sala de biologia. Decidi fazer um reconhecimento de território enquanto procurava a sala onde passaria a primeira de muitas aulas entediantes do dia.
Enquanto passava por milhares de rostos desconhecidos, dos quais a maioria deles me encarava - será que era a primeira vez que eles viam uma aluna nova nessa escola? -, eu observava cada canto do que seria minha mais nova instituição penitenciária. Estava distraída, olhando a cara de nojo com a qual as cheerleaders me olhavam, provavelmente falando mal do meu jeans surrado ou do meu tênis mais surrado ainda, ou dos dois. Elas estavam encostadas em um dos armários do corredor, quando senti alguém dando um encontrão em mim, fazendo com que eu derrubasse o papel com meus horários. Retirei meus fones de ouvido preparada para começar a derrubar inúmeros adjetivos nenhum pouco agradáveis em cima daquela pessoa, mas quando me virei para encarar quem havia feito aquilo, simplesmente me esqueci dos adjetivos. Por alguns segundos. Aqueles olhos eram os mais que eu já tinha visto em toda a minha vida e, por causa disso, talvez eu nem arrumasse confusão com o dono deles. Isso até antes de ele abrir a boca.
- Você é cega, garota? – ele gritou comigo. Ok, quem é ele pra gritar comigo? Sério, os olhos perderam o encanto.
- Melhor ser cega do que ser sem educação – retribuiu no mesmo tom, abaixando-me para pegar meu horário no chão.
- Não seria sem educação se você não ficasse parada que nem idiota no meio do corredor. – ele também pegava suas coisas que haviam caído.
- Pra sua informação eu não estava parada no corredor. Eu acho que o cego aqui é você – ok, será que dá pra ele parar de me encarar desse jeito?
- Olha aqui, garota...
- Eu tenho nome e não é ‘garota’.
- Eu acho que não perguntei seu nome – a gente continuava a discussão no meio do corredor e agora algumas pessoas prestavam atenção na nossa conversa nada amigável, mas eu realmente não me importava.
- Mas eu... – comecei, já preparada para falar umas poucas e boas para aquele garoto, mas fui interrompida pelo sinal da primeira aula. Quer saber, não valia a pena todo estresse. – Realmente, isso não é mesmo da sua conta, e quer saber?, tenho coisa mais importante para fazer do que ficar discutindo com um grosso que nem você! – concluí, dando as costas para ele, caminhando para minha sala de aula, que eu ainda nem sabia onde era. - Falou a rainha da educação – ele gritou às minhas costas, mas eu reuni toda a minha paciência e o ignorei, antes que perdesse a razão e matasse aquele idiota ali mesmo. E então eu seria acusada de homicídio, seria presa, porque teria várias testemunhas do crime e passaria o resto dos meus dias na cadeia sem ao menos uma visitinha aos domingos, porque nem mesmo meu pai perderia seu jogo de pólo aos domingos para me visitar na cadeia. Talvez o Harry me visitasse, talvez.
Ok, parei.
Mas quem aquele menino pensava que era para falar assim comigo? Tudo bem, eu posso não ser nada, e nem sou tão educadinha assim, mas ele não tinha o direito de falar comigo daquele jeito. É, eu sei... Eu estava prestes a xingá-lo se não fosse por aqueles olhos . Mas do que adianta aqueles olhos se ele não passa de um grosso e arrogante?
Saí bufando do corredor e eu nem sabia direito qual era a sala de biologia ainda. Droga, eu estava atrasada para a primeira aula no novo colégio. Eu merecia um prêmio por isso.
Caminhei rapidamente olhando pelas placas localizadas logo acima das portas das salas, procurando desesperadamente por uma que marcasse 'Biologia', infelizmente ela demorou quinze minutos para aparecer.
Quando finalmente encontrei a sala, a porta estava fechada e o professor já estava lá dentro. Ótimo. Respirei fundo e bati na porta. Abri-a receosa e pedi licença ao professor. Eu tinha que me mostrar educada pelo menos na primeira aula.
- Senhorita ? – um professor completamente estranho, com óculos de fundo de garrafa, encostado na mesa, me chamou.
- Posso entrar, professor? – pedi, implorando mentalmente para que ele deixasse. Não estava querendo visitar a sala daquele diretor psicopata tão cedo.
- Atrasada no seu primeiro dia, huh? – ele perguntou sarcástico.
É professor, o que eu posso fazer se um idiota que não sabe por onde anda esbarrou em mim e me fez perder vários minutos do meu dia.
É claro que eu não disse nada disso.
- Entre – ele disse por fim e eu segui sua ordem.
Procurei a carteira mais afastada de todos, a última do canto esquerdo. Perfeito. Joguei minha mochila em cima da mesa e prestei atenção em cinco minutos da aula. O suficiente para descobrir que o professor falava qualquer coisa sobre Epstasia Recessiva. Qual é? Eu não queria descobrir a cor dos ratinhos do meu livro. Cinco minutos e o sono me tomou, joguei minha cabeça sobre a mochila e dormi a próxima meia hora restante daquela aula.
O sinal tocou e finalmente me livrei do colégio, pelo menos durante aquele dia. Não via a hora de sair daquele lugar, não que minha casa fosse muito melhor.
Caminhei entre os alunos que se dirigiam para os portões do colégio, tentando me manter o mais discreta possível. Já estava cansada de receber olhares de reprovação de pessoas que nem me conheciam. Eu estava começando a me irritar com isso.
Eu tinha pedido para Lars me pegar há dois quarteirões do colégio. O quê? Era só o que me faltava, no meu primeiro dia de aula em um lugar em que todos já estavam me encarando, um motorista particular ainda me pegar na porta do colégio. 'Tá bom. Praticamente corri em direção a Lars, rezando para que ninguém me visse e entrei no carro, finalmente soltando meu corpo no banco do passageiro.
- Como foi a aula hoje, senhorita ? – Lars, meu motorista de meia idade, todo musculoso e com um cavanhaque horrível, me perguntou.
- Lars, se me chamar de novo de senhorita eu juro que você não dirige mais pra mim. Você sabe que eu odeio isso – o repreendi. Mas não de verdade. Eu gostava de Lars, ele era um cara legal.
- Desculpe-me, senhorita. – ele disse sorrindo da minha cara feia. Ligou o motor e eu coloquei o capuz da minha blusa, abaixando-me no banco. – Tudo isso é medo de a verem comigo? – ele perguntou rindo da minha atitude. Já estava acostumado com as minha maluquices.
- Não, isso é medo de ser vista com um motorista. É diferente – eu respondi, e assim que passamos pelo colégio e já não tinha mais perigo de ser vista, eu voltei à posição correta. – Me desculpe – pedi sinceramente, não queria que Lars pensasse que isso fosse por causa dele.
Eu me importava com ele. Era um dos únicos que não me repreendia por tudo que fazia. Ele era motorista da família há alguns anos, a gente sempre se deu bem e, depois que minha mãe foi pra Alemanha, ele só dirigia para mim, e muito raramente para meu pai, porque ele quase nunca estava em casa.
- Não se desculpe, querida. Mas então, como foi no colégio?
- Você sabe. Todo mundo me encarando como se eu fosse um alien. Não sei o que esse povo vê de tão interessante nos alunos novos – bufei cruzando meus braços. - Justamente isso, a novidade – ele respondeu, dando um sorriso. – Posso? – ele indicou o rádio do carro, e eu assenti com a cabeça.
Ele tocou alguns botões e logo em seguida uma música invadiu o carro. Reconheci como sendo Kansas.
Esse era um dos motivos pra eu gostar ainda mais de Lars. Ele tinha um ótimo gosto musical.
Fomos cantarolando a música, até que finalmente chegamos em casa.
O2.
Acordei com meu celular despertando na cabeceira da minha cama. Quinta-feira ainda e já não aguentava mais aquela escola, aquelas pessoas. Mas eu não tinha outra escolha.
Apertei o botão que fez com que a música parasse e, com muito esforço, me levantei da cama e fui em direção ao banheiro. Fiz minha higiene matinal e gastei vários minutos escovando meu cabelo, mas não obtive resultado com isso. Coloquei minha calça jeans, uma camiseta qualquer e meu tênis, companheiro de sempre. Como meu cabelo não teve solução, coloquei um boné cobrindo o verdadeiro desastre que ele estava. Joguei minha mochila nas costas e sai em direção às escadas.
Assim que cheguei à cozinha, aquela mesa enorme de café da manhã estava me esperando. Somente a mim, já que meu querido pai estava viajando. Fiquei com pena de Dolores, nossa secretária. Ela tinha feito todo aquele banquete e eu não estava com um pingo de fome.
Para não chateá-la, acabei pegando uma torrada do prato, empurrando-a garganta a baixo com um pouco de suco de laranja.
Sai pela porta da sala e Lars já estava me esperando.
Pedi para me deixar a dois quarteirões do colégio, assim como ele vem fazendo desde que me mudei de colégio, e terminei de chegar caminhando.
Graças a Deus eu já não era tão encarada como nos primeiros dias e já podia circular normalmente pelos corredores sem ninguém me olhando com cara de nojo.
Tirei um papel amassado de dentro da bolsa e olhei meus horários. Ainda não tinha decorado as minhas aulas. Era literatura, duas por sinal. Eu ainda não havia tido nenhuma aula de literatura desde meu primeiro dia. ‘Tá aí, a única matéria que eu gostava. Amava ler, desde clássicos até os mais atuais. Meu pai dizia que a única esperança dele era que os livros botassem algum juízo na minha cabeça, já que ele não conseguiu isso.
Ainda não sabia exatamente onde ficava a sala de literatura, talvez no segundo andar. Parecia ter visto alguma coisa do tipo enquanto saía do laboratório outro dia, mas eu ainda tinha alguns minutos, então me sentei em um dos bancos em frente à escola e esperei até que o sinal batesse.
Fiquei observando as pessoas chegando e reparei como era fácil distingui-las. Patricinhas, todas de saia e salto alto, cabelos alisados e muita maquiagem. Nerds, com seus óculos - nem sei se todos realmente precisavam daquilo - e quilos e mais quilos de livros - que eu tinha certeza que eles não precisavam de todos. Os jogadores de futebol, que se achavam os melhores do colégio e viviam atormentando a vida dos isolados, que ficavam espalhados sozinhos pelos cantos, sempre com fones nos ouvidos ou algum livro em mãos.
E eu era uma isolada.
Não tinha feito nenhum amigo desde que chegara ao colégio. Aliás, acho que mal tinha me pronunciado naquele lugar. Ainda bem que ninguém me atormentava, pelo menos até agora.
Perdida observando as pessoas estranhas daquele lugar me esqueci do tempo e só percebi que já estava na hora de subir quando escutei o sinal.
Com pressa, me enfiei no meio dos outros estudantes e rumei para o segundo andar, tentando lembrar onde ficava a sala de literatura. Não demorou muito até que a encontrei e, para minha sorte, o professor ainda não estava lá. Corri logo para o fundo da sala, me jogando em uma das carteiras.
Logo em seguida o professor entrou e todos os outros lugares foram preenchidos, exceto um ao meu lado.
Será que eu tinha algum tipo de doença extremamente contagiosa e não estava sabendo ainda?
Poupei-me de pensamentos solitários e dramáticos e me voltei para o professor. E quer saber de uma coisa? Ele não parecia nem um pouco com um professor de literatura. Não mesmo. No máximo de educação física.
Qual é? Ele era lindo.
Nunca tive nenhum amor platônico por professores, mas acredite, por ele valeria à pena. Tinha no máximo 26 anos, loiro, olhos cor de mel, carinha de bebê, e professor de literatura. Agora sim essa escola estava começando a ficar interessante.
Eu estava babando pelo professor, assim como todas as meninas da sala de aula, e eu tinha plena noção disso, mas não me importava nem um pouco.
- Bom dia, pessoal – ele disse com aquela voz maravilhosa e um coro de vozes femininas o respondeu.
- Bom dia, professor.
Professor...? Eu não sabia o nome do professor. Peguei mais uma vez o papel amassado com meus horários e então vi no rodapé em meio às outras matérias e nomes dos outros professores.
Literatura – Armstrong, Nicholas.
Que nome lindo! Nick.
- Como passaram essa semana? Alguém já terminou a leitura de ‘O morro dos ventos uivantes’ que eu pedi na última aula? – ele perguntou enquanto separava uns papéis em sua mesa e pegava um exemplar do livro. Ele ia falar mais alguma coisa, mas foi interrompido por alguém que batia na porta.
- Posso entrar? – um garoto perguntou, mas eu não me dei ao trabalho de desviar meus olhos de Nick para ver quem era.
- Atrasado mais uma vez, ? – ele perguntou, mas ele não tinha o tom de reprovação que todos os outros professores tinham. – Entra logo, cara. E vê se não se atrasa mais.
Além de tudo ele ainda era um professor super flexível.
Só fui reparar no garoto que chegou atrasado quando ele se sentou ao meu lado, no último lugar disponível da sala de aula. Senti um perfume extremamente bom, e então me virei para ver de onde vinha. De início não reconheci, ele estava usando o capuz do moletom verde e estava de cabeça baixa, o que me impedia de ver quem era. Mas então ele também se virou para me encarar e eu vi mais uma vez aqueles olhos .
- Você? – sussurrei indignada. Não acredito. Era o garoto que havia esbarrado comigo na segunda-feira. Ele não respondeu nada, apenas deu um sorriso sarcástico, o que me irritou mais ainda.
- Bom, parece que já conhece a aluna nova. Por que você não me apresenta? – ok, professor, você acaba de perder muitos pontos comigo.
- Eu não a conheço – ele respondeu indiferente.
- Não? Eu pensei que... Bom, deixa ‘pra lá. Qual o seu nome, querida? – querida? Ele me chamou de querida? Recuperou seus pontos, professor.
- – respondi, tentando parecer amigável.
- Muito prazer, . Eu sou o professor Armstrong, mas todos me chamam de Nicholas mesmo.
Acenei com a cabeça em sinal de aprovação.
- Bom, você já leu ‘O morro dos ventos uivantes’?
- Sim, na verdade... É um dos meus livros favoritos – o quê? Eu não estava sendo puxa saco.
É verdade, já perdi as contas de quantas vezes li esse livro.
- Estão vendo? – ele se dirigiu para o restante da classe. – Vocês deveriam seguir o exemplo da – não faz isso de novo que você perde pontos mais uma vez, professor. Encolhi-me na cadeira, mas pude sentir os olhares de raiva na minha direção, inclusive o de . – Bom, então você não se importa de ler um trecho dele para nossa discussão, não é? Aqui, eu te empresto o meu livro.
Então o professor caminhou até a minha carteira e entregou o livro em minhas mãos. Estava aberto em algum ponto do capítulo sete, e um pequeno pedaço do texto estava marcado.
Olhei para os lados respirando fundo antes de começar.
- As gentes desta terra vivem de fato de uma forma mais autêntica, mais ensimesmada, e menos virada para as mudanças superficiais, para as coisas externas. Sinto-me capaz de acreditar que aqui seria possível acontecer um amor eterno. E logo eu, que não acreditava que o amor pudesse durar mais de um ano.
O restante da aula correu perfeitamente bem, até que o nosso lindo professor (e eu não estou sendo sarcástica agora) decidiu que deveríamos nos unir em pares para discutir sobre o tal trecho do livro. E adivinha só? A Lei de Murphy, que me acompanha desde que eu nasci, mais uma vez imperou na minha vida e o professor Nicholas mandou que nos juntássemos com a pessoa ao nosso lado para formar as duplas. Coincidência, não? Era o mal educado recentemente descoberto como que faria par comigo.
Eu tentei argumentar com qualquer coisa, dizendo que preferiria fazer meu trabalho sozinha e que não ligava, mas ele insistiu dizendo que seria uma ótima maneira de me enturmar com a classe. Puff, como se eu realmente quisesse isso. Ou pior, como se a classe realmente quisesse isso.
Eu sabia que o não queria, porque quando me aproximei, ele simplesmente continuou a desenhar um bonequinho idiota na lateral do caderno.
- Como vai, garota-estranha-que-fica-parada-no-meio-do-corredor? – ele perguntou depois de algum tempo, ainda mantendo seus olhos no caderno.
- Estava bem, até ser obrigada a me sentar com você – respondi, tentando manter meu melhor sorriso sarcástico no rosto.
- Claro, você devia estar muito bem mesmo, molhando seu caderno enquanto babava pelo professor – idiota.
- Escute aqui, eu não estou aqui por quê eu quero, então por que não guardamos os elogios para outra hora? – eu tentei argumentar, mas ele fingia não me escutar, cantarolando alguma música, ainda sem me encarar.
Ele tinha o dom de me deixar irritada, fato.
Bufei nervosa ao seu lado, cruzando meus braços. Minha única opção era tentar fingir ler qualquer coisa daquele livro (já que eu não conseguia nem me concentrar) e passar os últimos minutos daquela aula em total silêncio, apenas recebendo alguns sorrisos cínicos, vindos de .
Quando o sinal finalmente me libertou da companhia dele, joguei minha mochila nas costas com tanta força que quase acertei um garoto que passava do meu lado. Sai correndo, procurando o caminho da classe de geografia. Nunca amei tanto geografia. Mas isso se deu somente pelo fato de que, quando entrei na sala de aula, não dei de cara com nenhum .
A aula correu tranquilamente e por incrível que pareça eu até prestei alguma atenção em pelo menos meia hora da aula. O que é um grande feito para mim, já que em minha opinião carteiras escolares continham sonífero. O sinal para o tão esperado intervalo tocou e eu peguei minhas coisas e fui em direção ao refeitório. Não estava com muita fome, então peguei apenas um refrigerante. Passei os olhos procurando algum lugar para me sentar e as mesas estavam quase todas lotadas, exceto uma delas. Perguntei-me por que somente aquela mesa estava vazia, mas mesmo assim não pensei duas vezes antes de ir até lá.
Estava completamente distraída, me lembrando de como aquele tal de podia ser tão arrogante daquele jeito. O cara tinha me visto duas vezes e nas duas tinha sido tão grosso e mal educado (não que eu fosse um exemplo, mas mesmo assim). Logo comecei a ficar irritada, somente com a lembrança dele.
Algumas pessoas me encaravam no refeitório. Eu achei que essa coisa de ‘novidade’ já tinha acabado. Mas então eu percebi que eles olhavam de mim para um grupo de pessoas que estavam entrando no lugar agora.
Ah, claro. Os jogadores de futebol e as cheerleaders. Os ogros e as loiras sem cérebro. Dei de ombros e continuei tomando meu refrigerante.
Eles caminhavam quase em formação. O casal principal vinha no meio. As aspirantes a popular ao lado do casal e os outros brutamontes do time vinham na reta guarda.
Vi uma das meninas cutucar o ombro da loira principal e apontar para mim, com cara de nojo. Será que eu estava suja ou algo do tipo?
A garota parou alguns segundos, me encarando, e depois fez sinal para que as outras pessoas esperassem ali. Ela veio na minha direção, raspando a garganta ao meu lado, enquanto eu continuava sentada, observando o lacre da minha lata de refrigerante.
- Ei, querida – argh, que voz horrível -, talvez você não saiba porque é nova no colégio... – ela deu uma risadinha falsa, me observando da cabeça aos pés –, mas essa mesa aqui é nossa – ela disse por fim.
Olhei para ela com uma vontade imensa de rir.
- Sério? – respondi com uma risada mais falsa e mais forçada do que a dela. – Qual o seu nome?
- Jessica.
- Então, Jessica, acontece que eu não vi nenhum nome escrito nessa mesa, portanto, acho que ela não pertence a nenhum de vocês – me referi ao restante do bando. Os garotos que estavam com ela soltaram algumas risadas, e ela os fuzilou com os olhos.
Ela me encarou com incredulidade. Parecia pensar em algum argumento bom o suficiente para me dar, mas esse é um mal da maioria das líderes de torcida.
- Mas... Mas, escuta aqui, garota...
- . Meu nome é – eu interrompi.
- Que seja. Essa mesa é nossa, e a não ser que você não queira problemas, é melhor você sair daqui – ela ameaçou, apontando o dedo para mim. Como se eu realmente tivesse medo dela.
- Que tipo de problemas você poderia me causar? – perguntei, me levando e parando de frente para ela. – Me cortar do time de cheerleaders? – eu ri. Os amigos dela olhavam para gente assustados, do mesmo jeito que todo o refeitório analisava toda a situação.
- Garota, você chegou aqui essa semana... Quem você acha que é pra falar assim comigo?
- Eu já falei que meu nome é . ! É difícil entender? Ou será que você não tem capacidade suficiente pra isso? - e pronto, essa foi a gota d’água para ela. Ela me olhou com ódio e me senti satisfeita, consegui o que queria.
O que eu não esperava era que a patricinha teria coragem de vir para cima de mim, e foi o que ela fez. Voou em minha direção, tentando me acertar com um dor milhares de tapas que ela distribuía, mas eu consegui segurar suas mãos antes que algum deles me acertasse. Eu sabia que ficariam bons hematomas onde minhas mãos seguravam.
- Chega! Chega! O que está acontecendo aqui? – um homem que reconheci sendo o inspetor perguntou, segurando Jessica que se debatia, tentando me alcançar, enquanto eu me mantinha parada, olhando para ela.
- Essa... Essa... – Jessica gaguejou.
- . – respondi indiferente, arrumando o boné em minha cabeça.
- Essa garota, ela começou tudo! – ela tentava me acusar de algo que eu não fiz e agora já não se debatia nos braços do inspetor. – Você vai pagar, garota. Você vai pagar pelo que você fez!
- Não tenho medo de você – dei de ombros, e me virei para deixar o lugar.
- Ei, ei. Aonde você pensa que vai? – escutei uma voz atrás de mim. O inspetor havia me segurado pelo braço na minha tentativa de sair de lá.
- Vou para aula. O sinal já vai bater, não?
- Vai, mas a senhorita não vai para aula agora. – ele me puxava agora em direção à saída do refeitório. – Você vai fazer uma visitinha ao Sr. Tanner.
- E ela? – perguntei. Não sou desse tipo de pessoa, mas cara, foi ela quem começou! - Uma de cada vez.
- Ok, ok. Eu já entendi. – resmunguei enquanto chegávamos à diretoria. – Eu sei o caminho e eu sei andar! – disse, soltando finalmente meu braço das mãos do inspetor.
- Sr. Tanner precisa vê-la, Cass. – ele disse para Cassie, a secretária.
- Ele está ocupado, mas pode deixá-la aqui esperando.
O inspetor, que depois de algum tempo consegui ler no seu crachá, Sr. Humphrey, informou para Cassie o acontecido e eu escutei tediosamente ao seu lado. Parando para analisar agora toda a situação, até que foi bem engraçado.
- Tudo bem, pode esperar na ante-sala até que o diretor possa atendê-la. – ela me mostrou a sala, e eu, sem ter outra opção, caminhei para o lugar que ela havia me indicado.
Ainda bem que meu pai não estava em casa. Ele iria odiar receber uma ligação do Sr. Tanner na minha primeira semana no colégio.
Atravessei a porta que me levaria até a pequena sala onde eu deveria esperar o diretor. Para a minha surpresa, eu não era a única que faria uma visita a ele.
Sentado, ou melhor, jogado, em uma das poltronas, com seu moletom verde quase cobrindo o seu rosto, lá estava .
Ele não parecia apreensivo em estar ali, prestes a entrar na sala do diretor. Estava até tranquilo demais.
O observei por alguns instantes e tinha certeza de que ele tinha percebido minha presença, mas ele não moveu um músculo sequer.
Sério, se ele não fosse tão idiota e insuportável, ele até que seria bem bonitinho.
- A senhorita pode esperar aqui com o , logo o diretor falará com vocês. – Cassie disse atrás de mim. Eu nem tinha percebido que ela estava lá.
Terminando seu comunicado, ela voltou para seu lugar me deixando sozinha na sala com .
Ele finalmente ergueu os olhos e me encarou pelo o que pareceu milésimos de segundo, abaixando sua cabeça novamente logo em seguida.
Caminhei para a poltrona mais distante de onde ele se encontrava, e me joguei nela, assim como ele.
- Gostou tanto assim da minha companhia? – ele perguntou depois de algum tempo, com aquele sorriso cínico que eu tanto tinha visto esses dias. Rolei os olhos, será que esse garoto tinha algum tipo de problema mais sério ou era arrogante assim só por diversão?
- Além de mal educado ainda tem problemas com seu ego. Você devia buscar algum tipo de tratamento psicológico, sabia?
Ele soltou uma risada abafada, mas não me encarava. Ele sempre tinha mania de desviar o olhar. Bom para mim, porque assim eu não corria o perigo de me perder naqueles olhos tão bonitos e...
FOCO! Foco, . Ele é um idiota.
Fui tirada desse meu momento pseudo-encantamento-pelos-olhos- quando o diretor Tanner abriu a porta da sua sala, dando passagem para outro homem. E que homem. O professor Nicholas deixava a sala, e ao ver e eu sentados ali, soltou um sorriso debochado.
- Vejo que já se tornaram ótimos amigos, huh? – ele disse ao passar pela gente. Era impressão ou ele tava tirando onda comigo?
Nicholas saiu da sala, deixando o diretor nos encarando curioso, mas não disse nada e retornou para dentro da toca dos leões. Cassie entrou novamente pela sala e o único som que podíamos ouvir era o barulho do seu salto alto batendo no chão de madeira daquele lugar. Provavelmente estava indo informar ao diretor o porquê de estarmos ali. Durante todo aquele tempo, nenhum de nós pronunciou uma palavra sequer. Ele continuava batucando os dedos na sua perna e eu procurava tentar me concentrar para o sermão que viria logo a seguir.
- Podem entrar – Cassie nos avisou ao abrir a porta.
Levantamos ao mesmo tempo, e lentamente caminhamos até a porta, nos esbarrando ao tentarmos passar ao mesmo tempo. deu um passo para trás, fazendo quase uma reverência ao me indicar o caminho de forma dissimulada.
Entramos na sala e logo ocupamos as duas cadeiras que ficavam em frente à mesa do diretor. Ele nos encarava por cima dos óculos com uma expressão de reprovação.
- Não me surpreende vê-lo aqui de novo, senhor – ele dizia balançando a cabeça negativamente. – Mas a senhorita? – agora ele me encarava. – É sua primeira semana de aulas e já arruma confusão?
E então ele começou com aquele discurso de educação, responsabilidade e essa coisa toda. Eu já não fazia questão de prestar atenção no que aquele velho careca falava, apenas brincava com a barra da minha camiseta, rezando para que aquela cena passasse rápido. Não sabia há quanto tempo o Sr. Tanner estava falando, mas eu já estava começando a me cansar. Não sei por quê motivo, razão ou circunstância, olhei para o lado encarando . Ele pareceu perceber meu movimento e logo em seguida ele repetiu o meu gesto. Era impressão ou aquele era um olhar quase cúmplice?
, você precisa parar com isso.
Rapidamente, voltei meu olhar para o diretor e ele parecia estar concluindo seu discurso.
- ... e como o que vocês fizeram não pode passar impune, os dois cumprirão detenções com Sr. Humphrey. Certamente ele ficará muito feliz recebendo a ajuda de vocês com a biblioteca, sala dos troféus ou qualquer outra atividade que ele os mande fazer.
- O QUÊ? – foi tudo o que consegui pronunciar. Patético eu sei.
- Exatamente isso que a senhorita entendeu. Detenção, duas vezes por semana no período de um mês – ah, ele só podia estar brincando comigo. Olhei furiosa para , esperando que ele dissesse alguma coisa também, afinal, eu não seria a única a cumprir detenções. Ele pareceu entender meu recado e logo seguida tentou argumentar.
- Mas diretor, será que não tem a possibilidade... – ele foi interrompido.
- Não, . Não tem nenhuma outra possibilidade. E os senhores estão dispensados.
E sem conseguir falar nada em protesto, a única coisa que nos restou foi sair caminhando lado a lado da diretoria.
O3.
Ótimo, era tudo que eu precisava. Cumprir detenções com , recebendo ordens do Sr. Humphrey sabe-se lá para fazer o quê.
Saí pisando alto pelos corredores do colégio, ainda remoendo toda minha raiva pelo diretor. Por que ele não me expulsava logo de vez?
Nem me lembrava mais de caminhando ao meu lado, então mal percebi quando ele se separou de mim, tomando um caminho diferente.
Eu não sei quanto a ele, mas eu não iria assistir mais nenhuma aula hoje. Todos os alunos já haviam voltado para a sala de aula, os corredores estavam desertos e eu não pensei duas vezes antes de me enfiar no banheiro feminino. Estava vazio também, para o meu alívio. Entrei em uma das cabines, fechei a porta e tirei meu iPod da bolsa. Seriam vários minutos trancada ali, sozinha.
Abaixei a tampa do vaso sanitário e sentei sobre minhas pernas, apoiando a cabeça na parede atrás de mim.
Por que o Sr. Humpfrey só levou a mim ao diretor? Por que a patricinha possessiva ficou lá, com toda a certeza, rindo da minha cara. E o pior de tudo, eu ainda teria que cumprir detenções com . Com !
Aliás, nem sabia o porquê dele cumprir detenções. Fiquei tão nervosa com tudo aquilo que acabei me esquecendo de perguntar. Não que eu realmente me interessasse ou que ele fosse realmente me responder.
Tentando manter meus pensamentos longe dele, coloquei alguma música e apenas esperei.
Já haviam passado minutos, talvez horas, que eu estava naquele banheiro. Escutei algumas vezes garotas entrando, e então achei que precisava esticar minhas pernas e passar uma água no rosto.
Esperei uma última garota sair do banheiro, o deixando vazio novamente, exceto por mim. Faltavam quarenta minutos para a última aula acabar e eu finalmente poderia ir embora, mas eu sabia que esses quarenta minutos iriam demorar.
Deixei minha mochila no lugar em que estava sentada e abri a cabine, dando de cara com meu reflexo no espelho. Minha aparência não era das melhores, como era de se esperar. Tirei meu boné, o colocando sobre a pia e passei uma grande quantidade de água no meu rosto. Fiquei alguns segundos encarando minha imagem e meus cabelos ainda sem jeito quando uma pessoa entrou no banheiro chamando minha atenção. Ela tinha os cabelos castanhos, cacheados até o meio das costas e a mochila caindo do ombro. Estava ofegante, parecia estar correndo de alguma coisa, ou alguém.
- Hey! – ela me cumprimentou, enquanto colocava sua mochila em uma das cabines. Ela passou pela porta aberta, onde a minha bolsa estava. – Matando aula também? – me perguntou com naturalidade, caminhando até perto de mim. Deu um impulso e logo estava sentada sobre a pia.
- Hm, é – respondi meio temerosa.
- Relaxa, Sr. Humphrey nunca entra aqui, então estamos salvas até que a aula acabe – ela parecia tão acostumada com aquele tipo de coisa. Aí, essa era das minhas. – Mas então, sou , mas pode me chamar de . Você é?
- ... – respondi, devolvendo o boné a minha cabeça e, repetindo o gesto da garota, me sentei sobre a pia também.
- Espera aí, você é a tal ? A aluna nova que brigou com a Jessica-eu-me-acho-incrível hoje? – ela dizia com empolgação, seus olhos estavam quase brilhando. – Cara, sou sua fã! Há séculos que eu queria arrancar um punhado daqueles cabelos oxigenados, mas nunca tive oportunidade, e mesmo que tivesse não sei se o castigo que minha mãe me daria valeria à pena.
- Na verdade foi ela quem veio pra cima de mim – é, ela parecia ser mesmo uma menina legal, mas também muito estranha. – E se quer saber, nem estou preocupada com castigo, porque tenho certeza que meu pai não vai nem ficar sabendo disso, mas em compensação, vou cumprir detenções.
- Como assim seu pai não vai ficar sabendo? Se eu penso em fazer algo nessa escola, Sr. Tanner liga pro meus pais na hora!
- Digamos que ele não é muito presente na minha vida – respondi simplesmente. Aliás, por que eu estava respondendo?
- Hm, certo. Mas cara, detenção? Você merecia um prêmio de honra ao mérito por ter feito aquilo! – fazia cara de inconformada. – Que tipo de detenção?
- Não sei ao certo, mas acho que vamos ajudar o Sr. Humphrey em alguns trabalhos com na escola – ela me observou alguns segundos e ergueu uma sobrancelha. Sabe, eu sempre quis aprender fazer isso.
- Como assim vamos? Você vai cumprir detenções com a Jessica?
- Não! Nem brinca com isso. É que um tal de deve ter aprontado algo, ele também estava lá, esperando para falar com Sr. Tanner e acabou que vamos cumprir detenção juntos.
piscou algumas vezes antes de abrir a boca.
- Quando você diz , você quer dizer ? Alto, lindos olhos , um sorriso completamente encantador? – concordei com a cabeça enquanto ela enumerava as várias características dele. – Ai-meu-Deus, se fosse para cumprir detenções com ele, juro que nem ligava para o castigo da minha mãe!
- Calma, você esqueceu alguns adjetivos como arrogante, metido, sem educação, pretensioso...
- Ah, cala a boca! Ele é um dos garotos mais bonitos desse colégio.
Eu tinha visto pouco do colégio, mas eu até que concordava com , só não deixei que ela soubesse disso. Ao invés, rolei os olhos e ri da menina.
Uma garota que aparentava ser pelo menos três anos mais nova que nós duas entrou no banheiro e nos encarou. Descemos da pia e esperamos em silêncio, até que ela saísse do banheiro e nos deixasse sozinhas de novo, o que não demorou mais que cinco minutos. E então, retomamos nossa conversa.
- Mas sério, você deveria se sentir privilegiada. Acho que todas as garotas desse colégio fariam qualquer coisa para estar no seu lugar. Imagine, tardes inteiras ao lado de – escutar aquela frase revirou meu estômago. Como pessoas poderiam gostar de ficar na companhia dele?
- Inclusive você, pelo jeito – sorri, tentando tirar o foco da conversa dele.
- Bom, eu não me importaria... Mas se quer saber, eu prefiro cumprir detenções com – ela disse com um sorriso safado no rosto e me vi rindo mais uma vez daquela garota estranha.
- Quem é ? – perguntei, eu não conhecia ninguém naquele colégio.
- , amigo inseparável de – era quase possível ver coraçõezinhos girando em volta da cabeça da menina ao pronunciar aquele nome. – Eles vivem grudados, praticamente o tempo todo.
Esforcei-me buscando na memória se já teria visto esse tal de .
- Ahm, acho que sei quem é... Ele não é o garoto que estava andando de skate no refeitório?
- Esse mesmo... – ela suspirou. – Não acha ele lindo? – perguntou com uma expressão sonhadora.
- Ah, eu não vi...
- NÃO! Você não o acha bonito, ok? Já chega de concorrentes... – e ela não parava de falar. – Sem contar que você é muito mais bonita do que eu e ele me trocaria fácil por você, então por favor, não fica muito perto dele e...
- Ei, Ei! – interrompi. Ela estava sem fôlego de tanto falar e eu continuava rindo dela. – Relaxa, . Não vou chegar perto do seu , pode ficar tranquila – a vi dar um sorriso sem graça.
- Ok, me desculpe.
- Tudo bem – sorri para ela e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o sinal tocou e então finamente estávamos livres.
- Vejo você por aí? – ela perguntou assim que passamos pela porta do banheiro feminino.
- Claro – nos separamos e fui fazer meu caminho até o lugar onde Lars provavelmente estava me esperando.
Subi direto para meu quarto na esperança de esfriar minha cabeça e tentar aceitar o fato das detenções. Detenções com , o garoto mais convencido e arrogante de todo colégio, e talvez o mais bonito também.
Joguei minha mochila na poltrona ao lado da cama, imediatamente meus tênis foram lançados para algum lugar desconhecido do meu quarto e meu boné arremessado sobre a cama, assim como meu corpo, logo em seguida.
Fiquei ali deitada, encarando o teto alguns segundos em silêncio. Rumei então para o banheiro; precisava de um banho.
Já não sabia ao certo há quanto tempo estava ali quando decidi que era hora de sair e parar de gastar a água que irá fazer falta um dia.
Enrolei-me na toalha e voltei para o meu quarto.
Peguei na gaveta um short jeans e uma camiseta que costumava ser de Aaron, meu atual-ex-quase namorado. A verdade é que eu já não sabia mais como definir a nossa relação. Mas de qualquer jeito, eu gostava daquela camiseta que me cobria até a metade das coxas, deixando meu short escondido.
Em um dia normal, eu passaria a tarde toda dormindo, ou então iria para rua com Harry, mas esse não era um dia normal e eu não tinha paciência para isso. A única coisa que poderia me acalmar agora era ler.
Joguei-me novamente sobre a minha cama, esticando a mão para o criado-mudo ao lado, abrindo sua gaveta; retirei de lá um exemplar surrado de O Pequeno Príncipe. Aquele livro costumava ser da minha mãe, mas ela me deu antes de ir embora. Abri em uma página marcada, e comecei ler aquele trecho que tão conhecido para mim.
- Tu, porém, terás estrelas como ninguém nunca as teve...
- Que queres dizer?
- Quando olhares o céu de noite, estarei habitando uma delas, e de lá estarei rindo; então será, para ti, como se todas as estrelas rissem! Dessa forma, tu, e somente tu, terás estrelas que sabem rir.
Fui retirada da minha leitura, por um Harry adentrando meu quarto, sem bater na porta.
- Ei, já te ensinaram a bater antes de entrar? – perguntei fingindo estar brava com ele.
- E já te ensinaram a atender o celular? – ele caminhou até a poltrona, pegando meu celular que estava jogado em cima da minha bolsa. – Sete ligações não atendidas. Isso não é nada legal – ele sacudiu a cabeça negativamente antes de devolver o celular para o lugar onde estava.
Harry era meu melhor amigo, desde que vim ao mundo. Ok, exagero meu. Ele era meu melhor amigo desde o jardim de infância, talvez. O tempo não importa, eu amava aquele garoto e costumava dizer que ele era o irmão que meus pais não me deram.
Ele caminhou até a cama com aquele sorriso tão conhecido e que eu tanto havia sentido falta nos últimos dias, se sentou ao meu lado e observou o livro em minhas mãos.
- O Pequeno Príncipe, de novo? Sério, ? – ele perguntou rindo. Apenas dei de ombros, ele nunca entendeu meu amor por livros, não ia ser agora que iria acontecer isso.
- Você não deveria estar com Sabrina, ou seja lá qual é a garota dessa semana? – perguntei desconfiada.
- Você é a minha garota dessa semana – ele piscou para mim e eu sorri. Logo ele estava observando as fotos do mural do meu quarto.
- Hm, bom saber – respondi, sorrindo simplesmente. – Então me conta, como estão as coisas? No colégio e na sua casa?
Ele se levantou caminhando até o mural e observando mais de perto uma foto, de um dos acampamentos que fizemos em alguma escola que passamos.
- Nós aprontamos um monte naquele ano, lembra? – ele ignorou minha pergunta, e apontou para a foto. – Eu gostava daquela escola.
- Por que a gente saiu de lá mesmo? – perguntei sarcástica. Eu já sabia a resposta.
- Porque você inventou de passar cola super forte na carteira daquela menina – ele ria escandalosamente, agora. Na verdade, a idéia havia sido dele, e não minha. Fomos convidados a nos retirar da escola.
- É claro, a culpa é sempre minha – disse rindo dele, que não sorriu comigo quando disse essa frase.
- Você precisa para com isso, sabia? – ele disse sério.
- Com o quê? – perguntei surpresa com a mudança de humor dele.
- Aprontar todas só para chamar a atenção do seu pai. O cara é um idiota, !... Desculpa, só estou dizendo. – ele disse depois que lancei um olhar reprovador. Só eu podia dizer aquilo do meu pai.
Harry sabia de todos os meus sentimentos, problemas, vontades... Me conhecia tão bem a ponto de saber quando eu aprontava por diversão ou por atenção.
- Não vamos começar com isso de novo, ok? - pedi sinceramente. Ele apenas assentiu com a cabeça. -- E então, como estão as coisas no colégio? – perguntei mais uma vez.
- Você já não é mais o assunto principal, se quer saber – respondeu. - E você? Como está se saindo sem mim? – perguntou convencido.
- Muito bem! – brinquei. – Já tenho até que cumprir detenções – fingi me orgulhar daquilo. Não que eu realmente orgulhasse.
- Achei que você fosse esperar pelo menos completar uma semana! – ele sacudia a cabeça, sorrindo. – O que você aprontou? – Harry me perguntou curioso, e eu logo comecei a contar, desde o primeiro dia de aula, o acidente com , a aula de Literatura, o incidente com Jessica e as detenções. E ele me ouvia desabafar como ninguém mais fazia.
O4.
Cheguei ao colégio com vinte minutos de atraso, graças a minha mania de dormir ‘só mais cinco minutinhos’. Andava apressada por um dos corredores, forçando minhas pernas se movimentarem tão rápido quanto nunca haviam feito em busca da sala de aula.
Diz a Lei de Murphy: Se uma coisa está ruim, ela pode ficar pior ainda. Pois é, as coisas tinham que piorar ainda mais, porque enquanto estava no meu caminho desesperado, esbarrei em alguém, derrubando os meus livros e os da outra pessoa também.
Por incrível que pareça, eu mal prestei atenção em quem atravessou meu caminho. Eu precisa apenas pegar meus livros e sair dali.
- Ei, me desculpe – escutei alguém dizer ao mesmo tempo em que me abaixava para pegar minhas coisas. Aquela voz me parecia familiar ou era só impressão?
- Tudo bem – fui respondendo enquanto me levantava já com meus livros em mãos, e então eu tive uma surpresa ao encarar aqueles olhos. – Espera aí, você pedindo desculpas? – Sim, era mais uma vez. Sério, eu já estou ficando com medo dessa coisa de me encontrar com ele a todo o momento e com consequências catastróficas.
Ele não me respondeu nada, também recolhia suas coisas do chão. Quando ele finalmente terminou, eu ainda estava parada o observando. Ele deu de ombros e seguiu seu caminho apressado e era provavelmente isso o que eu deveria fazer.
Não posso negar que fiquei um tanto quanto confusa com a reação de . Qual é?, ele NUNCA me tratava bem. Não ia ser agora que ele ia começar.
Finalmente entrei na sala de aula e mais uma vez o professor estranho de biologia chamou minha atenção por chegar atrasada.
- Você está vinte e sete minutos atrasada, – ele disse após encarar seu relógio de pulso. Como se eu não soubesse.
Enquanto ia pelo corredor a caminho da minha próxima aula, encontrei com , a garota estranha do banheiro feminino e descobri teríamos a próxima aula juntas.
- E aí, conseguiu se livrar das detenções? – Ela perguntou, caminhando ao meu lado.
- Quem me dera – respondi desanimada.
- Pense pelo lado positivo...
- Qual é o lado positivo de detenções, ? – perguntei rolando os olhos.
Ela sorriu de lado - eu podia jurar que aquele sorriso era um tanto quanto safado - e olhou em direção aos armários do lado direito. Imediatamente busquei o que ela estava tentando me mostrar e dei de cara com encostado em um dos armários. Ele parecia distraído conversando com um amigo, acho que era o tal de que havia falado.
Sem saber explicar o porquê, não consegui desviar meu olhar dele. O que estava acontecendo comigo? Aqueles olhos tão, tão...
- Cuidado! – Foi só o que escutei de , milésimos antes de acertar minha cabeça na porta de um dos armários que estava aberto. Droga! Tinha que fazer tanto barulho assim?
Eu tinha certeza que todos no corredor estavam agora olhando para mim, e , ao invés de me ajudar, entrou em uma crise de risos que só piorava a situação.
E como se já não bastasse, por que eu tinha que olhar para o ? Ele estava na mesma posição, encostado no armário e ele ria. Ria de mim, que sou uma idiota, cega e que não sei nem mesmo andar pelos corredores do colégio sem trombar com algo ou alguém.
Fui praticamente correndo para a próxima aula. Sentia minhas bochechas queimarem de vergonha e só conseguiu parar de rir quando a professora entrou na sala de aula.
Não sei se foi por causa da vergonha de ter trombado no armário na frente de todo mundo, mas uma simples aula nunca demorou tanto para passar. E para ajudar, eu tinha a impressão de que todos em um raio de vinte quilômetros estavam falando de mim. Ótimo.
E aquela droga de hematoma tinha que crescer bem na minha testa? Ele não podia esperar eu chegar em casa, pelo menos?
Saí com correndo nos meus calcanhares em direção ao banheiro; eu precisava desesperadamente dar um jeito naquela coisa que deformava meu rosto.
- Passa pó, . – disse enquanto eu olhava apavorada para o espelho, vendo as consequencias da pancada. Tudo porque eu fui olhar para o . Ele consegue me ferrar até inconscientemente.
- Olha para minha cara de quem carrega pó pra escola, ? – respondi grossa.
- O que seria de você sem mim? – ela disse suspirando e logo em seguida retirou um pó compacto de dentro da bolsa e me entregou. - Passei o pó desajeitadamente, tentando disfarçar o hematoma que se formava na minha testa.
- Vem aqui – se aproximou de mim e puxou minha franja para o lado, o escondendo. – Sempre que se lembrar puxa sua franja, isso vai disfarçar bem - agradeci e me sentei na pia a encarando.
- Você não ‘tá chateada comigo, não é? Por que eu ri de você? – ela perguntou sem graça, mas eu percebi que ela ainda lutava mais uma vez com sua vontade de rir.
- Claro que não, . Eu ‘tô puta, comigo. Não tem nada a ver com você.
- Relaxa, . Aposto que metade do colégio já fez isso um dia.
- Não na frente de . – respondi automaticamente.
me olhou de um modo estranho e um sorriso pervertido se instalou em seu rosto.
- Huuuuum, quer dizer então que você está mudando seus conceitos sobre ele? – rolei os olhos e quando fui abrir minha boca para mandá-la se calar, um grupo de meninas adentrou no banheiro.
- Não vou nem perder tempo respondendo sua pergunta – disse descendo da pia e puxando-a pelo braço. – Vamos, eu ainda quero comer algo - ainda rindo de mim, saiu arrastada do banheiro e nos dirigimos ao refeitório.
Ok, aquela estranha sensação de que todos naquele lugar estavam me olhando voltou a me perseguir. Deve ser porque, realmente, todos naquele lugar estavam me encarando. Agora eu havia voltado a ser o assunto principal do colégio, mas não mais como “, a aluna nova e rebelde enfrentou Jessica”, mas sim como “, a garota cega que não enxerga um palmo a sua frente”. O que me consola, é que ninguém sabe o real motivo pelo qual o incidente aconteceu.
Logo chegamos à cantina do colégio. Comprei um refrigerante e uma Springles, enquanto se enchia de quase todas as porcarias que eram vendidas naquele lugar.
- Como você ainda consegue ser magra depois de tudo isso? – perguntei enquanto ela mordia um pedaço da barra de chocolate que havia comprado.
- Não sei. Minha mãe diz que eu herdei os bons genes dela. – ela respondeu com a boca um pouco suja de chocolate. Rolei os olhos. Preciso me lembrar de procurar um bom motivo para continuar andando com essa garota estranha.
- ! – escutei então uma voz chamá-la do outro lado do refeitório. Três pessoas acenavam loucamente para , percebi então que deviam ser seus amigos.
- Vamos lá? Eles assustam, mas são legais. – ela perguntou sem jeito.
- Hm, outro dia. Vou passar na biblioteca. Vejo você na aula – respondi e então ela saiu saltitante e se juntou aos amigos tão estranhos quanto ela.
Cansada e com um pouco de dor de cabeça - obrigada mais uma vez, ! -, sai em busca de um lugar para me sentar, o mais longe das pessoas daquela escola se possível. Eu não iria para biblioteca, foi só uma desculpa para não ter que me sentar com os amigos de . E sim, sou anti-social.
Caminhei então para o gramado central e consegui encontrar um banco vazio. Observei algumas pessoas sentadas na grama, outras jogadas mesmo, mas todas aproveitando o sol fraco – mas mesmo assim, raridade naquela cidade – que fazia aquele dia. Então me rendi aos fracos raios de sol. Abracei meus joelhos e, de olhos fechados, deixei minha cabeça apoiada ao encosto do banco. Apesar da dor de cabeça, senti uma sensação boa. Coisa que há tempo que não sentia. Respirei fundo e tentei absorver cada partícula de calor que conseguia. E estava indo muito bem com isso tudo, até que alguém chegou para me atrapalhar.
- HEY, ACHEI VOCÊ! – uma pessoa estúpida o suficiente para gritar enquanto estava bem ao meu lado me fez despertar dos meus pensamentos bons, leves e reconfortantes e em questão de segundos, fez todos eles irem embora quando derrubei metade do refrigerante nas minhas pernas. Agora tenta adivinhar quem era aquela pessoa? É, você acertou.
- ... – disse tentando me controlar ao máximo para não perder a paciência com ele, mais uma vez. – Sabia que eu fico impressionada com toda essa sua sutileza?
- Muito obrigada – ele respondeu com aquele sorriso. O sorriso que me falava que coisa boa não viria a seguir. – Mas eu também fico muito impressionado com você, principalmente com essa sua capacidade de derrubar e trombar nas coisas E pessoas. Aliás, até que sua testa não está tão feia. Juro que pensei que iria ficar bem pior.
Ah, claro que ele viu aquilo e claro que ele não perderia a oportunidade de jogar isso na minha cara. Contei até dez mais de dez vezes, respirei fundo e tentei me lembrar dos exercícios de yoga que minha mãe me ensinou uma vez para manter a calma. Não funcionou muito bem.
- Você não veio até aqui só para me lembrar que estou com um galo na testa, veio?
- Infelizmente não. Aqui, o diretor pediu para que eu te entregasse isso – ele estendeu um pedaço de papel dobrado.
Peguei o bilhete, mas não sem antes do engraçadinho tentar retirá-lo do meu alcance. Ainda bem que fui mais rápida. Esperei que ele se retirasse, porém tudo o que consegui foi um me encarando feito um idiota, esperando que eu abrisse o bilhete.
- Você não vai ler? – ele perguntou depois de perceber que eu não tinha a intenção de abri-lo enquanto ele estivesse ao meu lado.
- Não com você aqui – respondi grossa.
- Não faz mal, então. Aí diz que suas detenções começam hoje às duas e meia – ele mantinha aquele sorriso.
- Espera aí, você leu meu bilhete? – perguntei inconformada com a capacidade dele de ser irritante. Um irritante com belos olhos e sorriso. Ok, abstraia o último comentário.
- Como se tivesse alguma coisa realmente relevante aí... mas não, eu não li o seu bilhete. Eu recebi um desses também. Caso tenha se esquecido, nós passaremos longas horas juntos cumprindo detenções – ele parecia achar graça. Obrigada por me lembrar disso, . - Bom, vou indo, então. Até mais tarde, .
Ok, agora alguém me explica a ênfase no meu apelido? Aliás, quem deu a liberdade para ele me chamar pelo apelido? Ou melhor, como ele consegue me tirar tanto do sério? Com dor de cabeça, nervosa, sem meu refrigerante e com minhas pernas molhadas, abri o papel dobrado em minhas mãos.
Srta. ,
Suas detenções terão início no dia de hoje Às 14h30min na biblioteca.
Atrasos não serão tolerados.
Diretor Tanner.
Bufei ao terminar de ler o bilhete. O que mais de péssimo poderia acontecer comigo naquele dia? Ah, claro. O fato das minhas detenções serem ao lado de -eu-me-acho-o-maioral-.
Escutei o sinal bater ao fundo e não tive outra opção se não caminhar para minha próxima aula do dia, mas não sem antes ligar para Lars e avisá-lo de que não almoçaria em casa.
As aulas depois do intervalo passaram mais tediosas e irritantes do que as primeiras. Talvez fosse pelo fato de que eu estava dez vezes mais nervosa do que no início do dia.
Quando bateu o sinal da última aula, pensei duas vezes em me misturar com os outros alunos e sair daquela escola, mas eu sabia que se fizesse isso, estaria mais ferrada ainda, se é que isso era possível. Ferrada com o diretor, e duas vezes mais ferrada com meu pai. Então me conformei e sem ter nada para fazer me dirigi à biblioteca para esperar dar a hora das detenções. Tudo bem que ainda faltava muito tempo, mas eu ia aproveitar esse tempo para dar uma olhada nos livros e no lugar. Impressionante, mas eu ainda não tinha visitado a biblioteca do colégio, lugar que sempre foi meu favorito, por todas as escolas que passei.
O lugar estava completamente vazio, exceto por uma mulher baixinha e carrancuda que estava escondida atrás do balcão com algumas pilhas de livros. Passei reto por ela e fui em direção às prateleiras. Corria levemente meus dedos pelas lombadas dos livros. De Tolstoi e Voltaire à J.K. Rowling, os livros sempre me fascinaram e meus olhos passavam calmamente pelos títulos em busca de algum livro para ocupar minha mente durante aqueles longos minutos que custariam a passar. Depois de algum tempo, me decidi por uma edição de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. O retirei da estante e me sentei no chão mesmo, no meio do corredor, encostada em uma das estantes de livros e comecei a folhear o exemplar que tinha em minhas mãos, antes de começar a ler – mania velha que carregava comigo desde sempre.
- O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde você quer ir - respondeu o Gato.
- Não me importo muito para onde… - retrucou Alice.
- Então não importa o caminho que você escolha - disse o Gato.
- O que você está fazendo aí? – minha atenção foi desviada da leitura, e não foi nenhuma novidade ao ver em pé ao meu lado.
- Você tem sempre que aparecer dessa forma? – perguntei enquanto me levantava do chão.
- Dessa forma como? – ele retrucou. – E você ainda não respondeu a minha pergunta.
- Me assustando toda vez – respondi sem paciência. – E eu acho que estou lendo? – falei dando a ele a resposta óbvia. – Mas acho que esse tipo de coisa não te interessa, não é?
- Não queria assustar você, é que você que é estranha e parece que está com a cabeça sempre em qualquer lugar, menos onde deveria estar. Que coisa você está falando? – ele perguntou confuso.
- E depois eu que sou a estranha. Livros! Eu estou de falando de livros! – dei as costas para o garoto e fui até o balcão para que a bibliotecária pudesse marcar a retirada do livro. - Ah, claro – ele respondeu, indo atrás de mim, mas antes mesmo de chegarmos ao balcão, Sr. Humphrey atravessou as portas de biblioteca.
- Que bom que já estão aqui! Temos muito trabalho a fazer hoje. , você vem comigo, vamos carregar as caixas dos novos livros que chegaram hoje e depois guardá-los, enquanto você, , ficará com a Srta. Susan catalogando os novos livros.
O5.
– Expecto patronum!
Da ponta se sua varinha irrompeu a corça prateada: ela pousou, correu pelo soalho do gabinete e saiu voando pela janela. Dumbledore observou-a se afastando pelos ares e, quando seu brilho prateado se dissipou, ele se dirigiu a Snape e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Depois de todo esse tempo?
- Sempre – respondeu Snape.
Fechei o livro em minhas mãos. Eu sentia meus olhos arderem porque eu reprimia qualquer lágrima que estava querendo cair. Eu era realmente muito emotiva se tratando de livros. Era uma das poucas coisas que tinha esse efeito sobre mim.
Olhei para o relógio que ficava na mesinha de cabeceira e vi que ainda tinha muito tempo até que Harry chegasse. Havia combinado com ele de irmos até um pub legal da cidade, mas não sabia se estava realmente com vontade de sair. Opinião que mudou rapidamente assim que ouvi o carro do meu pai estacionando na garagem.
Não demorou muito até que pude escutar seus passos no corredor. Ele passou pelo meu quarto; a porta estava aberta, porém ele passou direto, sem ao menos dizer um ‘oi’. O que já era de se esperar, já que ele falava alto ao telefone, aparentemente nervoso. Como sempre.
Bufei e me levantei da cama indo fechar a porta do quarto. Fui até o aparelho de som e coloquei uma música qualquer e fui para o banho.
Deixei a água quente bater em meu corpo durante muito tempo, bem mais do que o necessário.
Achei que já havia ficado muito tempo debaixo d’água; minha pele começava a enrugar, então desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha indo ao meu quarto.
Ainda eram 7h e Harry só iria passar em casa às 9h30. Ou seja, eu ainda tinha uns bons minutos pela frente, mas não ia conseguir ficar parada por mais tempo. Decidi começar a me arrumar, mesmo sabendo que ainda era cedo, uma vez que nunca fui como as outras garotas que demoram séculos para se vestir.
Coloquei uma camiseta qualquer e fui secar meu cabelo, mas antes de começar fui até a mesinha de cabeceira e peguei meu celular. Procurei um número na agenda e esperei pacientemente até que alguém atendeu.
- Alô? – reconheci a voz do outro lado da linha.
- Oi, . É a , tudo bem?
- OOOI, – ela respondeu parecendo feliz em falar comigo. Garota estranha. – Tudo bem, e aí?
- Uhun, também – murmurei. – Então, queria saber se você não queria ir comigo e com um amigo meu àquele pub, The Half Moon... – eu não sabia mesmo por que eu estava fazendo aquilo. Ok, eu sabia. Ela estava sendo ótima comigo desde que cheguei ao colégio. A única a fazer isso, por sinal.
- Sério? Ah, quero sim! – ela mantinha a empolgação na voz. – Me passa seu endereço que eu vou até sua casa pra irmos juntas e...
- NÃO! Quer dizer, não... Erm, pode deixar que eu passo aí pra te pegar. Qual seu endereço.
- Tem certeza?
- Tenho, pode falar – ela me passou o endereço que anotei na última página da minha agenda; primeira coisa que encontrei em minha escrivaninha. Despedi-me dela falando que lá pelas 10h passava em sua casa.
Desliguei o celular e o arremessei em cima da minha cama. Voltei ao banheiro, dessa vez para começar a secar meu cabelo.
Eu dava os últimos retoques na maquiagem, nada demais. Eu nunca tive muita paciência para ficar me maquiando, embora sempre ouvi de minha mãe que eu ficava muito mais bonita quando me cuidava. Pena que isso não ocorria com muita frequência.
Encarei-me no espelho e vi o reflexo da pessoa mais desanimada do mundo. Se eu não tivesse combinado com , eu pensaria em dar um bolo no Harry. Ele já estava acostumado com isso.
Ouvi alguém bater a porta do meu quarto.
- , minha querida, Harry está te esperando lá em baixo – Dolores me disse, abrindo uma fresta na porta.
- Ok, já estou descendo – respondi. Dolores já estava fechando a porta quando a chamei de volta. – Dolores, como estou? – perguntei envergonhada.
- Você está linda, .
- Obrigada – respondi. Ela estava sempre querendo me agradar. – Ahm, Dolores, você tem notícias do meu pai? – perguntei, já sabendo a resposta.
- Ah, querida, ele saiu. Disse que tinha um jantar importantíssimo hoje – apenas acenei com a cabeça. Ela, mais do que ninguém, sabia da mágoa que eu cultivava pelo meu pai. - O que acha de descer, agora? Não é legal deixar seu namorado esperando – ela disse me arrancando um sorriso.
- Eu já disse mil vezes que ele é só meu amigo, Dolores – rolei os olhos rindo da insistência dela. Peguei minha bolsa e celular quanto Dolores ainda ria de mim. Passei meu braço em seus ombros e fomos em direção às escadas.
Cheguei à sala de estar e pude ver Harry mexendo nas porcelanas que enfeitavam uma das cômodas da sala. Elas eram vestígios de que um dia minha mãe havia passado por ali.
- Às vezes eu me pergunto se um dia eu vou ver você usando salto alto, . – Harry brincou comigo ao ver a roupa que eu usava.
- Qual é? Por que você pode ir de jeans e tênis e eu não? – dei língua e andei até ele, praticamente me pendurando em seu pescoço. Ele me fazia tão bem.
- Porque eu sou homem e você é uma garota – ele beijou o topo da minha cabeça.
- Pelo menos é isso que a gente espera, né? – brinquei.
Ele ergueu uma sobrancelha daquele jeito que só ele sabia fazer. Sorri e ele fez o mesmo.
- E aí, vamos? – ele chamou por fim.
- Uhun – respondi conferindo se estava com meu celular e dinheiro. – Mas nós vamos levar uma amiga minha, tudo bem?
- fazendo novos amigos, quem diria... – ele fingiu admiração e eu apenas sorri. – Quer saber, esqueça o salto alto, uma amizade é um passo muito maior na sua vida – caçoou de mim, e dessa maneira, fomos em direção ao carro de Harry.
Como sempre, o som alto invadia nossos ouvidos dentro do carro. Estávamos em busca da casa de e Harry já havia feito milhares de perguntas sobre a garota. Se ela era bonita, se tinha namorado, quantos anos, como a conheci e esse tipo de coisa. Quando contei que havia a conhecido no banheiro feminino, matando aula, ele soltou um: “Essa é das nossas!” me fazendo rir.
Finalmente encontramos a casa da garota. Até que não era tão longe da minha. Fui até a campainha e esperei que ela atendesse, o que não aconteceu. Um garoto que aparentava ter mais ou menos a nossa idade abriu a porta com um sorriso no rosto e alguns fios de cabelo caindo nos olhos.
- Erm, oi. A está? – soltei depois de algum tempo observando o garoto.
- Está sim, só um minuto que eu já vou chamar – ele respondeu ainda sorrindo. Parecia ser simpático, pelo menos.
Ele deu as costas e saiu gritando por , deixando a porta da casa aberta. Pude ver uma garota sentada no sofá, enquanto assistia alguma coisa na televisão. Será que eram amigos de e eu estava atrapalhando algo?
Olhei para o carro, e vi Harry todo empolgado enquanto escutava alguma música.
- Então, vamos? – me assustou. Ela estava parada na porta e eu espiei para dentro da casa, tentando ver o garoto novamente. Tudo que eu vi ele se sentando ao lado da menina que ainda assistia TV.
- , dá para parar de olhar meu irmão, fazendo favor? Eu quero ir logo! – ela estalou os dedos na frente do meu rosto.
- Você tem irmão? – perguntei perplexa.
- Não! Aquele ali é meu vizinho que costuma vir com a namorada aqui na minha casa só para assistir televisão – respondeu rolando os olhos com uma ironia que me lembrou o Harry. Em seguida ela fechou a porta. – E só para avisar, ele não está disponível. Como eu disse, aquela é a namorada dele.
- Ei, quem disse que eu estava interessada?
- Eu vi que você estava olhando para ele – ela deu língua me fazendo rir. – Aliás, provavelmente encontraremos com eles no pub mais tarde.
De repente um barulho nos assustou. Barulho da buzina do carro de Harry.
- Será que tem como as duas moças andarem logo? – ele perguntou, nos observando pela janela do carro.
- Ui, quem é esse? Não sabia que você gostava do tipo manda-que-eu-obedeço – me perguntou com cara de safada.
- Não tenha idéias erradas, ele é só meu melhor amigo.
- Ok, eu nem disse nada. - e ainda sorrindo, entramos no carro.
Apresentei e Harry e não demorou a que engatássemos uma conversa durante o caminho até o pub.
Alguns minutos depois já nos encontrávamos em frente ao lugar, também conhecido como The Half Moon. Mais alguns minutos e conseguimos uma vaga para estacionar o carro de Harry.
Uma última conferida no meu reflexo no vidro do carro e finalmente nos dirigimos para a entrada do pub.
Uma fila enorme se formava. Muitas pessoas bonitas e animadas estavam esperando para poder entrar. Coisa que não aconteceu conosco, uma vez que quando o segurança que estava na portaria me viu, indicou que passássemos na frente de todo mundo, deixando muitas pessoas, antes animadas, agora muito irritadas. Mas não era minha culpa, às vezes me dava ao luxo das mordomias resultantes da influência de meu pai. Além do mais, levaríamos no mínimo uma meia hora para entrarmos e talvez, se tivéssemos sorte, conseguiríamos uma mesa.
Harry já estava acostumado a esse tipo de tratamento, mas não.
- Uow, não temos que entrar nessa fila? – ela perguntou com os olhos brilhando. – Aposto que o Harry tem muitos amigos influentes nesse meio – completou com uma cotovelada nas costelas de Harry, aparentemente forte demais. Olhei para ele tentando segurar o riso.
- Na verdade, é que...
- É mesmo, Harry tem muitos contatos – o interrompi quando percebi o que ele iria dizer.
Ele me olhou feio, porém eu mantive meu melhor olhar de cachorrinho perdido. Depois de alguns segundos ele assentiu com a cabeça e seguimos nosso trajeto.
Como era de se esperar o lugar estava abarrotado de gente. Uma música eletrônica saia das caixas de som espalhadas pelo lugar enquanto algumas pessoas dançavam na pista.
Escolhemos uma mesa um pouco distante do aglomerado e nos sentamos.
- Esse lugar é incrível! – soltou. Seu olhar estava super animado por trás daquelas muitas camadas de máscara para cílios.
A verdade é que o lugar não tinha nada demais. Apenas música boa com gente bonita. É, isso bastava para mim.
- É bem legal mesmo – tentei disfarçar a minha falta de empolgação, quando comparada à .
- Meninas, vou pegar algo para beber, querem alguma coisa? – Harry perguntou já se levantando da cadeira.
- O de sempre – respondi.
- Hum, acho que quero um... Ah, a mesma coisa que a – pediu sem saber o que exatamente.
Harry deu um aceno com a cabeça e saiu em direção ao bar, se espremendo entre as muitas pessoas presentes no lugar.
- Então – começou na esperança de que eu dissesse algo. Não aconteceu, apenas esperei que ela recomeçasse a frase. não suportava o silêncio. -, esse seu amigo Harry é bem legal.
- Ele é ótimo – respondi sinceramente.
- Vocês se conhecem há muito tempo?
- Desde a barriga de nossas mães – dei um sorriso. – Elas eram muito amigas, sabe? Crescemos juntos.
Era verdade. Harry sempre foi como um irmão mais velho para mim, mesmo que só por alguns meses.
Ela me encarou com uma expressão que eu conhecia muito bem, mesmo nesse pouco tempo de convivência.
- Mas me diga a verdade, já rolou alguma coisa entre vocês, não foi? – por que essa pergunta não me surpreendeu?
- Não, . Nunca rolou nada.
- Você está mentindo – ela afirmou. – Não pode ser, ele é todo bonitão e charmoso e vocês são tão bonitinhos juntos e...
- , ele é como meu irmão. Nada mais do que isso. – respondi com firmeza.
- Como isso é possível? – ela parecia decepcionada com a minha resposta. Abri minha boca para responder, quando fui interrompida.
- Como o que é possível? – Harry apareceu carregando três garrafas de cerveja.
- Nunca ter rolado nada entre a gente – respondi dando de ombros. Não era como se esse fosse um assunto proibido entre nós. Todo mundo perguntava isso. Ele sorriu e entregou a bebida de , logo em seguida, abriu uma das cervejas para mim.
- Você tem irmãos, ? – ele perguntou.
- Sim, mais velho do que eu.
- Então, você consegue imaginá-lo com a língua dentro da sua boca? – ele perguntou calmamente.
- ECA! Seu nojento, é claro que não! – ela estava abismada com a pergunta de Harry e eu apenas ria da reação dela.
- Entendeu agora como isso é possível? - perguntou rindo da cara de vômito que ela fazia.
- Ok, ok! Eu entendi – disse colocando um ponto final no assunto. Essa técnica de Harry sempre funcionava.
Engatamos uma conversa sobre qualquer assunto. Talvez sobre o cara estranho que dançava descontroladamente no meio da pista de dança, mas logo fomos interrompidos por um casal que se aproximou de nossa mesa. se levantou prontamente assim que os viu e se atirou em cima deles, distribuindo abraços. Reconheci o garoto.
- ! – disse pendurada no pescoço do irmão. – Ei, esses são e Harry – ela nos apresentou. – esse é , meu irmão, e , sua namorada.
Cumprimentamo-nos e mais uma vez cheguei à conclusão de que o irmão de , recentemente descoberto como , era bem simpático. A namorada também, mas exagerava um pouco com os sorrisos.
- Por que não se sentam com a gente? – convidei, após mais um gole em minha cerveja. Acho que seriam uma boa companhia.
- Ah, valeu. Depois da fila gigante que enfrentamos acho que vai ser impossível encontrarmos outra mesa – ele respondeu, ocupando uma cadeira vazia entre e .
começou então a contar para como entramos no pub e passamos na frente de todo mundo, enquanto Harry e descobriam alguns amigos em comum, logo eu sobrei.
- , não é? – alguém me tirou do transe profundo que estava ao apostar corrida com as gotas de água que desciam pela minha cerveja. Era puxando assunto.
- Sim – respondi tentando parecer simpática.
- Nós temos física juntas.
- Claro! Sabia que os conhecia de algum lugar – respondi, batendo a palma de minha mão na testa. Os dois estavam no nosso colégio e eu sempre os via se agarrando perto dos armários. É claro que eu não disse essa segunda parte.
- Ei, meninas – nos interrompeu -, alguma de vocês sabe quem é que toca aqui hoje? – nos encaramos por alguns segundos antes de responder ao mesmo tempo:
- Não, por quê? – eles riram da nossa sincronia.
- Algumas pessoas estavam comentando no bar, parece que ele é muito bom – Harry respondeu.
Perguntei-me por um momento se não o conhecia, mas sem um nome era difícil saber.
- Hey, vou ao banheiro – disse para mim e .
- Vou com você – ela respondeu logo em seguida, levantando-se e parando ao lado da cunhada.
- O grande segredo da vida: por que mulheres vão ao banheiro em bando – Harry soltou, recebendo a aprovação de .
- Só para constar, não andamos em bando. E não estou indo ao banheiro, mas sim ao bar. Alguém quer mais alguma coisa? – perguntei e eles negaram.
Caminhei com as outras meninas até que as deixei na entrada dos banheiros e fui em direção ao bar, costurando no meio daquelas pessoas. Pessoas de mais para o meu gosto.
Depois de alguns empurrões consegui chegar ao balcão do bar. Apoiei-me, batucando minhas unhas no balcão, ainda limpo, esperando que algum dos rapazes me atendesse.
- Se eu ganhasse uma libra para cada vez que nos encontramos acidentalmente... – escutei uma voz dizendo atrás de mim. Não tinha certeza se era comigo mesmo que estavam falando, mas a consegui quando apareceu no meu campo de visão, apoiando-se ao meu lado no balcão.
- Com certeza ficaria rico – respondi indiferentemente, completando a sua frase.
Depois de uma tarde toda trabalhando juntos na biblioteca, eu estava aprendendo a controlar minhas reações perto dele. Ele soltou um pequeno sorriso.
Um rapaz que se encontrava do outro lado do balcão se aproximou e perguntou o que queríamos.
- Uma cerveja – pedi.
- Duas, então – aproveitou. Depois que o barman se afastou, ele se virou para me encarar. – Então, sabe quem vai tocar hoje? – por que ele estava tentando ser simpático mesmo? E por que todo mundo estava perguntando isso?
- Não – respondi -, mas também queria saber.
- Ah, é? Por quê? – ele mantinha uma de suas sobrancelhas erguida.
Droga, mais um que conseguia fazer isso.
- Porque me disseram que ele é ótimo.
- É sim, ele é mesmo muito bom!
- Você o conhece?
- Uhun. – ele respondeu.
O barman voltou com nossas cervejas e entregou uma para cada um de nós. Despedi-me de com um aceno de cabeça e comecei meu caminho de volta à nossa mesa, encontrando as outras meninas no mesmo lugar em que nos separamos minutos atrás.
- Você não sabe quem eu acabei de encontrar! – disse com os olhos brilhando.
- Quem? – respondi imitando a empolgação de sua voz.
- ! – um imenso sorriso surgiu em seu rosto.
- Era de se esperar... Acabei de encontrar no bar – disse tentando parecer indiferente.
- E aí, como falou com ele? Como foi?
- Um idiota, como sempre.
Já estávamos de volta à nossa mesa. Harry e pareciam estar se dando muito bem pelo tom animado da conversa.
deu um selinho no namorado antes de se sentar novamente ao lado dele.
Retomei meu lugar, me jogando ao lado de Harry que passou seu braço pelos meus ombros.
- Vai começar! – disse animada, batendo palmas e indicando um pequeno palco onde um homem aparecera com um microfone em mãos.
- Boa noite – disse ele. – Como estão se sentindo? Bom, não quero fazê-los esperarem mais, então espero que aproveitem o show. Agora, para vocês, !
O6.
- Tchau, Lars. Valeu pela carona! – disse assim que botei os pés para fora do carro.
Por algum milagre eu não estava atrasada, e até teria ido ao colégio caminhando, se não fosse por Lars que já me esperava na garagem. Como precisava passar na biblioteca para devolver alguns livros, aproveitei da boa vontade dele.
Um vento frio atingiu meu rosto assim que dei meu primeiro passo. Cruzei os braços, apertando forte, e coloquei o capuz do moletom, tentando reprimir o frio.
Eu atravessava o estacionamento do colégio e estava apenas a alguns metros da escadaria quando escutei, por cima da música que saía de meus fones, uma freada de carro. Minha audição funcionou melhor do que minha visão ou reflexo dessa vez. Um borrão vermelho passou a centímetros de mim. Meu cabelo se agitando com a rajada de vento que ele produziu ao passar ao meu lado. Tudo o que eu consegui fazer foi dar um passo assustado e completamente desajeitado para minha direita.
- Idiota! – isso não soou tão alto quanto esperava que minha voz fizesse.
O carro deslizou pelo asfalto do estacionamento e ocupou uma das vagas bem na frente da entrada do colégio enquanto eu tentava fazer minhas pernas reagirem aos estímulos. Eu mal conseguia sair do lugar.
Enquanto elas não me obedeciam, forcei meus olhos a observarem atentamente quem seria a pessoa a sair de dentro do Pontiac 1969, mesmo já tendo uma vaga ideia de quem seria essa pessoa.
desceu do carro, bateu a porta e jogou a mochila no ombro direito. Os cabelos arrumados naquele jeito desarrumado e uma camiseta cinza de mangas longas e gola em vê. Ele estava deslumbrante.
Mas isso não mudava o fato de ele quase ter me atropelado dois minutos atrás.
Ele girou o corpo em minha direção e ao me ver ali, no meio do estacionamento feito retardada, acenou e deu um sorriso em minha direção. Como se ele não tivesse quase tirado a minha vida!
Mesmo com o sorriso, apenas ignorei seu cumprimento e aproveitando o fato de já estar sentindo minhas pernas novamente, fiz meu caminho até a entrada do colégio, enquanto ele teve seu bloqueado por alguma garota do primeiro ano.
Uma rápida passagem na biblioteca para devolver os livros da semana passada, um copo d’água para ajudar a me recuperar completamente e já podia me dirigir para a primeira aula do dia.
Só que algo me dizia que aquele dia iria ser longo.
- , minha amiga! – disse ao se juntar comigo no corredor. Nossa primeira aula do dia era a mesma. Só não tinha conseguido decifrar se isso seria uma coisa boa ou ruim, já que ela parecia não fechar a boca ou parar de me mandar bilhetinhos por um minuto sequer.
- Hey, e aí, como está? – perguntei, me lembrando de uma alcoolizada e rindo que nem palhaça saindo do pub no final de semana.
- Digamos que a ressaca já não me afeta tanto quanto antes – ela respondeu com um sorriso vitorioso no rosto.
- E isso é algo para se orgulhar? – a repreendi, mesmo tentando conter uma risada. - Desculpa, mãe. Prometo que nunca mais vou beber de novo – ela começou tagarelar. – Ah, só um detalhe, você não é minha mãe...
Rolei os olhos e deixei que meu cotovelo a acertasse nas costelas, ainda rindo.
Fomos para sala de aula e sentamos nas nossas carteiras, estrategicamente posicionadas uma do lado da outra.
A professora que apelidamos de McGonnagall, pela grande semelhança física com a atriz, adentrou a sala e se posicionou em frente aos alunos. Nem um bom dia, nem um sorriso. Ah, como eu amava física!
Dez minutos de aula. Dez minutos foi o tempo que demorou até que o primeiro bilhetinho de chegasse a minha mesa por meio de um arremesso desajeitado enquanto a professora estava de costas para a sala. Os professores inteligentes nunca davam as costas para a sala.
“Fiz papel de idiota ontem, não fiz? Sabia que não devia querer acompanhar seu amigo na bebida. .”
Encarei o papel alguns segundos e peguei uma caneta em meu estojo para responder a pergunta desnecessária de .
“Acho que sua própria pergunta responde sua dúvida. .”
“É, tem razão, acho que exagerei. Mas é que estava tão divertido, e vamos confessar, o manda muito bem. .”
A verdade é que eu havia tentado evitar a todo custo pensar sobre aquela noite. Sobre como me fez de idiota mais uma vez, me escutando elogiá-lo mesmo quando eu não tinha ideia de que era ele quem tocaria naquela noite. O sorriso de vencedor no rosto dele assim que ele desceu do pequeno palco improvisado e o olhar na minha direção. Aquilo foi estranho.
“É, ok, até que ele foi bom. .”
Deixei que o papel amassado no formato de uma bola “caísse” no chão entre nossas carteiras para que pudesse pegá-lo. O que ela fez incrivelmente rápido quando percebeu um mero interesse da professora naquele pequeno, porém valioso, pedaço de papel.
Ela esperou um minuto, até que a atenção da Sra. Price se voltasse para outra coisa e mais uma vez arremessou a bolinha de papel na minha mesa.
“Pode confessar, você tem uma queda por ele... .”
Ok, essa me fez engasgar, chamando mais uma vez a atenção da professora. Droga! Amassei o papel e enfiei no bolso do moletom, tentando acabar com aquele conversa idiota e sem fundamento algum.
Encarei esperando que ela entendesse que aquele não era o lugar e nem a hora apropriada para esse tipo de conversa de banheiro feminino. Não que eu ache um banheiro feminino um bom lugar para conversar.
Ela estava olhando fixamente para a frente, ereta em sua carteira, mal piscando. Devagar, já sabendo o que me aguardava, voltei meu olhar na mesma direção do dela.
- Alguma coisa que queira compartilhar com a turma, ?
- Erm, não, professora. Tudo bem... – claro, porque como sempre que a começa com esses bilhetinhos é para mim que sobra.
Evitei minha amiga pelo restante da aula. Não queria mais amolações sobre como meus olhos brilham quando eu o vejo e muito menos os olhares tortos da professora mal amada.
Eu sabia que fazia aquilo só pra me provocar, então a minha reação era apenas ignorar. Nada funciona melhor para esse tipo de provocação.
O sinal marcando o final da aula tocou e eu me senti extremamente aliviada.
Joguei meu caderno e livro dentro da mochila e a joguei nas costas, ouvindo uma tagarelar atrás de mim dizendo o quão sem graça eu havia sido em guardar o bilhete e que aquela era uma reação que provava o quanto ela estava certa na sua teoria.
- Srta. , preciso que espere um minuto – a professora Price disse quando eu estava já atravessando a porta. Encarei confusa e depois observei em a mesma expressão que eu deveria estar usando.
- Vejo você lá fora – deu de ombros e saiu corredor a fora. Se fosse por causa dos bilhetes, ela iria me pagar.
- Sim?
- Tenho um recado do diretor para você. Você tem mais um dia de detenção hoje, começando logo depois das suas aulas e deverá encontrar Sr. Humphrey no bloco B. Você tem meia hora de almoço e, por favor, avise .
Por que diabos EU tinha que avisá-lo? E se eu simplesmente não fizesse isso? Não é minha responsabilidade informar os horários das detenções. Resolvi não piorar ainda mais minha situação e apenas afirmei com a cabeça e segui meu caminho.
Sim, aquele seria um longo dia.
Encontrei apoiada nos armários do corredor que nos levaria ao refeitório. Ela estava conversando com e quando me viram, praticamente pulou em cima de mim.
- Diz que ela não fez você entregar nossa conversa?
- O quê? Claro que não, ! – respondi. – Hey, .
- Hey, .
- Então o que ela queria?
- Mais um dia de suspensão – caminhávamos em meio a multidão de pessoas em direção ao refeitório. – E tenho que avisar o .
- ? ? – perguntou. Por que todo mundo tinha a mesma reação quando eu falava dele?
- É, ele mesmo. – dei de ombros.
- Você é sortuda! – ela disse.
- , você namora meu irmão! – repreendeu a cunhada, dando um tapa na cabeça de . – Mas ok, eu tenho que concordar com você. Aliás, todo mundo concorda, menos a menina do coração de gelo, aqui.
Coração de gelo? Outch, essa doeu.
- Você não me chamaria de coração de gelo se soubesse que ele quase tirou minha vida quando cheguei aqui hoje.
- Só se ele te fez perder o fôlego com tanta beleza – Deus, como eu fui arrumar duas amigas tão exageradas desse jeito?
- Um atropelamento seria o termo mais correto. E quer saber, por que vocês simplesmente não me ajudam a encontrá-lo, ao invés de falaram coisas sem fundamento.
- Desculpa, , mas o está me esperando... – deu de ombros, como quem pedia desculpa e se separou de nós na entrada do refeitório.
- Ok, vamos começar pela busca do garoto dos belos olhos e linda voz – soltou.
- Você precisa se decidir, amiga – disse enquanto caminhávamos em direção à lanchonete. Eu daria o recado ao , mas nem por isso teria que passar fome. – ou ? Porque, ao que parece, você é meio que obcecada nos dois.
me encarou como se eu estivesse dizendo a coisa mais absurda do mundo.
- Só para sua informação, é e sempre será o amor da minha vida – exagerada, ? Quase nada. – E o é o amor da sua vida, eu só estou tentando dar um empurrãozinho.
- Ok, então pega mais leve nesse seu empurrãozinho – disse a última palavra simbolizando aspas com meus dedos. – ‘Tá começando a me irritar...
- Alguém já te disse que você é muito sem graça? – falou emburrada. – Sem contar na sua ironia...
- Quem é irônica aqui, garota? – respondi, rolando os olhos enquanto me lançava mais um de seus olhares mortais.
O que aconteceu a seguir foi que depois de comprarmos refrigerantes, rodamos todos os lugares possíveis e impossíveis atrás de e simplesmente não o encontramos em lugar algum. O sinal para que voltássemos para as aulas tinha acabado de tocar e eu ainda não tinha conseguido passar o recado do Sr. Tanner para o garoto.
A dúvida era: onde ele poderia ter se enfiado naquele colégio?
- Deve estar se pegando com alguma garota... – deu de ombros. – Você fica aí se fazendo de difícil então ele tem que procurar outra, né?
- Vou fingir não escutei nenhuma das suas palavras.
Eu já estava cansada e precisava voltar para a sala e ainda não havia encontrado . Já caminhávamos para a quadra do colégio, lugar onde teríamos nossa próxima aula, Educação Física.
No meio do caminho senti enrijecer ao meu lado. Ela puxou a manga da minha blusa e se virou de costas para o corredor que deveríamos seguir, me encarando.
- O que foi? ‘Tá doida, garota? – perguntei sem entender.
- Não olha agora! Mas no bebedouro... EU DISSE NÃO OLHA AGORA, !
- AAAh, o . Precisa de tanto drama assim, rainha da encenação?
- E precisa ser tão grossa assim? Credo, ein. Me falaram uma vez que falta de sexo também causa mau humor – ignorei mais uma vez a frase de . Uma ideia começava se formar em minha cabeça.
- Vem aqui! – falei passando por e agarrando seu braço. Eu a arrastava na direção de enquanto ela fazia uma inesquecível cara de desespero. – É a sua chance, amiga. – sussurrei quando já estávamos paradas em frente a um que nos observava sério, sem entender o que acontecia.
- Erm, oi. – disse tentando parecer legal, afinal, precisava de um favor dele.
Cutuquei a costela de para que ela o cumprimentasse também e tudo que conseguiu foi soltar um oi em forma de gemido. apenas acenou com a cabeça e eu percebi que ele tentava reprimir o riso ao ver a situação de . Ele parecia estar gostando.
- Por acaso você sabe onde eu posso encontrar o ? – ele me encarou ainda sério por um tempo, mas logo em seguida sua expressão mudou. Eu conhecia aquela expressão muito bem.
- Huh, acho que agora não vai dar – ele respondeu com um sorriso se formando em seu rosto, e eu percebi derretendo ao meu lado. – Mas se quiser, eu posso colocar seu nome da lista das meninas que correm atrás dele e...
- O quê? – perguntei perplexa. Tão petulante quanto o amigo. – Olha aqui, eu só quero saber onde ele está porque eu tenho um recado do diretor para ele, agora se você não quer me dizer onde ele...
- Então você é a tal da – ele me cortou. – Relaxa, só estava querendo confirmar minhas suspeitas. Esse seu ataque meu ajudou bastante – ele sorriu debochado. Eu não estava gostando daquela situação. – Exatamente como o falou.
Quer dizer que ele tinha falado de mim?
- Eu não dei ataque nenhum! E ele falou alguma coisa de mim? – perguntei curiosa. Ele não respondeu, apenas sorriu e dessa vez também com os olhos, que ficaram apertados. suspirou.
- Então, você quer saber do , não é? Digamos que ele não se encontra no momento – ele disse tentando parecer sério -, mas a próxima aula dele é Geografia, talvez você o encontre lá.
- Hm, obrigada, eu acho. – não queria estender a conversa que já havia sido estranha o suficiente para me fazer querer sair de lá.
- Até mais, moças – mais um sorriso e uma pequena reverência. Quando ele voltou a postura normal, percebi um olhar de soslaio para minha amiga . Mais uma vez tive que arrastá-la, antes que a baba começasse a escorrer pelo seu rosto e ela passasse mais vergonha na frente do garoto.
- Me explica o que foi aquilo? – conseguiu falar alguma coisa só quando já estávamos atravessando as portas de metal que nos levaria a quadra.
- Eu precisava saber onde estava – dei de ombros.
- E qual a necessidade de me arrastar junto, fazendo com que eu passasse os minutos mais constrangedores de toda minha vida?
- Já te disseram que você é muito exagerada? – repeti a frase de .
- Sim, você. Milhares de vezes por sinal.
- Pense pelo lado positivo, agora sabe que você existe – tentei animá-la enquanto caminhávamos para o lugar onde o restante da turma estava reunido. O professor entregava alguns coletes de cores diferentes para os times de basquete.
- Sim, e acha que eu sou uma demente. – fez cara de choro e eu não consegui evitar o riso. Ela realmente havia feito papel de boba, mas não seria eu quem iria falar.
A sorte de ter um professor nas aulas de Educação Física é que ele nunca sabe até que ponto você está tendo uma cólica dos infernos, ou simplesmente fingindo uma para poder ficar apenas nas arquibancadas ouvindo música.
Todo mundo sabe que esportes nunca foram o meu forte. Era pelo bem dos outros alunos que eu fazia isso e ficava de fora em todas as aulas que eu conseguisse. Nessa não seria diferente. Além de toda essa minha dificuldade em arremessar uma simples bola na cesta sem acertar ou ferir alguém por perto, eu ainda tinha que procurar por .
Avisei que sairia da aula e logo em seguida fui fazer minha melhor cara de dor para o professor.
Pelo visto, ele já está pegando esse esquema feminino.
- Vá para um time, se ainda assim você não conseguir jogar eu chamo Sr. Humprhey para levá-la a enfermaria.
Droga! Xinguei mentalmente. Eu precisava sair dali. Aproximei-me mais dele, para poder falar mais baixo. Já era humilhação demais falar aquilo para um professor, imagina se mais alguém escutasse?
- Sabe o que é, professor... Minha calça meio que man...
- OK, OK! Faça o que precisar então. – ele disse assustado, passando a mão pela testa suada. Era impressionante como homens não conseguiam lidar com esse tipo de situação.
Dei as costas para o professor e passei sorrindo pelas portas de metal. Agora, precisava ir até a sala de Geografia e terminar a primeira parte de minha missão. Missão essa que foi designada a mim indevidamente, só para constar.
Não tinha pressa para voltar para aula então subi os degraus para o segundo andar tão paciente quanto pude, apenas me mantendo alerta caso Sr. Humphrey me encontrasse perambulando pela escola em horário de aula. Mesmo com a autorização do professor, não queria arrumar mais complicações.
Durante o caminho permiti minha mente voltar até aquela noite no pub e eu sei, eu não deveria assumir isso, mas apenas de me lembrar da voz de cantando eu sentia arrepios correndo pelo meu corpo.
Por mais idiota e egocêntrico que ele fosse, ele tinha uma boa voz. Isso, nem que eu quisesse, eu poderia negar.
Sem contar nas várias vezes que peguei nossos olhares se cruzando durante aqueles muitos minutos em que permaneceu no palco. Era engraçado que ele ignorasse as três garotas desesperadas coladas em frente ao palco e mantinha seu olhar nas mesas ao fundo. Lugar onde estávamos todos sentados.
Seria muita pretensão da minha parte pensar que ele estava olhando para mim. Isso era impossível. Ele me odiava, assim como seu sentimento por mim era recíproco. E era assim que ia continuar.
Bati duas vezes na porta antes de abrir e encarar uma professora apavorada, tentando de todas as maneiras controlar uma classe em fúria. Ela gritava e fazia ameaças. Nada que impedisse que a baderna e a desorganização se instalasse no lugar.
- Com licença – pedi, sabendo que ninguém me ouvira. – Er, por favor eu... – continuei inutilmente e depois me forcei a desistir.
Passei meus olhos pela sala, tentando encontrar no meio daquela zona. Tentativa frustrada.
A professora, que antes tentava controlar a sala, passou por mim com uma expressão que denunciava que ela estava prestes a chorar. Senti empatia por ela por alguns segundos. Mas logo percebi que ela deveria ter ido buscar reforço na direção.
Olhei para dentro da sala mais uma vez sem saber o que fazer. não estava lá, e as chances de que eu não o encontrasse até o final do dia eram grandes. Quem sairia mais prejudicado caso eu não repassasse o recado, ele ou eu?
- Desculpe te informar, mas a sessão se autógrafos acontece só mais tarde – ouvi a voz daquele que procurava atrás de mim.
Um arrepio desceu pela minha espinha, mas fui forte o bastante para evitar qualquer tipo de evidência. Coloquei mais um daqueles sorrisos que estava me habituando a usar desde que entrou em minha vida e me virei para encará-lo.
- Bom, me diga a que horas o Paul McCartney aparece por aqui que eu volto para sessão de autógrafos então – respondi, mantendo o sorriso cínico que aprendi usar com ele. – Ah, espera, você não estava falando sobre ele, estava? – fingi inocência.
Ele sorriu de lado e mais uma vez me segurei para não demonstrar nada que não devia.
- Não fui eu quem apareceu na porta da sua sala procurando por você – ele rebateu.
Mesmo que não fosse por minha vontade, ele estava certo.
- Ok, certo – rolei os olhos. - Estava procurando por você, mas apenas para avisar que temos detenção hoje de novo, depois das aulas no bloco B. – joguei as informações, querendo sair o mais rápido possível daquele lugar, mesmo que meu corpo me dissesse o contrário.
- Quem me garante que isso não é uma armação sua para ficar a sós comigo depois que todos forem embora? – ele se aproximou de mim e colocou uma mecha de meus cabelos para trás da orelha. Que diabos ele estava tentando fazer?
- Quem me garante que você não vai aproveitar disso para terminar de fazer o que começou essa manhã? – não me movi, apenas o encarava. Ele me olhou confuso, e dessa vez sua expressão não era forçada. - Vai falar que não se lembra da sua tentativa de me atropelar?
Ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada que logo se misturou com o barulho vindo ainda da incontrolável sala de aula.
- Aquilo? – ele ainda ria, e eu não achava graça nas suas palavras. – Bom, eu acho que você ainda não aprendeu que não se deve colocar os fones e se esquecer do mundo ao seu redor. Você acaba perdendo muita coisa desse jeito, sabe? – ele completou e percebi que ele não estava zombando de mim, pelo menos não agora.
Não respondi, apenas encarei seus olhos, agora tão perto de mim quanto nunca estiveram.
Fui tirada daquele momento extremamente constrangedor, entendendo que era que estava apenas a centímetros de distância de mim, quando ouvimos uma movimentação vinda do começo do corredor.
- Er, eu acho melhor você entrar... – disse sem graça, ainda tentando me recuperar do que tinha acabado de acontecer. – A Ms. Hammer deve estar voltando.
Ele encarou a sala de aula mais uma vez e depois o corredor. Parecia estar se decidindo sobre o que fazer.
Antes de sair correndo em direção ao terceiro andar, ele olhou para mim e sorriu. E antes que eu pudesse reagir de qualquer forma, ele já havia desaparecido escada acima.
- ? O que você está fazendo aqui? – Sr. Humphrey que acompanhava a professora Hammer, agora aparentemente um pouco mais calma, me perguntou.
- Hm, nada. Só vim dar um recado que a professroa Price pediu. – Respondi dizendo a verdade.
Ele mal escutou a minha resposta, atravessando a porta da sala e colocando alguma ordem naquele lugar e eu apenas saí dali o mais rápido que pude, lançando um último olhar na direção daquelas escadas.
O7.
Despedi-me de e na escadaria da escola. Eles haviam me oferecido uma carona, mas fui obrigada a recusar graças à detenção. Não tinha outra opção se não me dirigir ao refeitório em busca de algo para comer nessa meia hora de intervalo que eu teria, mesmo estando sem fome. Foi o que eu fiz.
Vinte e cinco minutos depois e eu já me dirigia ao bloco B onde deveríamos, supostamente, encontrar o Sr. Tanner.
Ao chegar lá, tudo o que eu encontrei foi sentado na sarjeta de um dos canteiros que rodeavam aquele prédio. Sua mochila estava jogada ao seu lado e ele mantinha a cabeça baixa e os cotovelos apoiados em seus joelhos. Ele não se moveu quando me aproximei, e pensei que ele estivesse realmente me ignorando, mas foi quando encostei-me a um dos pilares da entrada do prédio que ele virou seu olhar na minha direção e... sorriu. Isso mesmo, ele sorriu. E não era aquele sorriso irônico de sempre, era um simples sorriso.
- Então, o que será que nos aguada hoje? – ele perguntou, puxando assunto, o que eu realmente achei muito estranho.
- Não faço ideia. – respondi sincera.
Ele permaneceu calado depois da minha resposta, e não demorou muito até que o Sr. Tanner aparecesse em nosso campo de visão, fazendo com que se levantasse e se posicionasse ao meu lado.
- , , preciso que vocês me sigam. – foi tudo o que ele disse e não tivemos outra escolha senão o seguir, atravessando praticamente toda a extensão do colégio. Ele só voltou a se pronunciar quando estávamos nos aproximando do bloco A.
- Não sei se vocês sabem, mas nós temos um projeto aqui no colégio que atende a crianças carentes que não têm lugar para ficar durante a tarde, seja porque os pais trabalham ou qualquer outro motivo – ele começou, e eu já temia o que ele ainda tinha a dizer. Nós já havíamos entrado no prédio e caminhávamos pelo corredor. – Hoje, a professora da turma dois não estava se sentindo bem e não pôde vir, então precisamos que vocês dois tomem conta da turma – ele abriu a porta da sala de aula que tinha uma placa com o número 02.
Ok, isso não era possível. Eu, , não tenho o que se pode chamar de paciência com crianças. Nunca tive. E sério, tomar conta de uma sala de aula com aproximadamente vinte crianças não era algo promissor para mim. Queria sair dali o quanto antes, mas sabia que não podia fazer isso.
Olhei para , procurando ver se a reação dele era a mesma ou pior do que a minha, porém ele parecia tranquilo. Não parecia em pânico ou prestes a sair correndo como eu estava.
- Não irá demorar até que a professora substituta chegue e assuma a classe, então qualquer coisa que precisem durante esse tempo, podem me procurar.
E foi com essas palavras que ele nos deixou encarando vinte crianças que estavam correndo, chorando e gritando por todos os lados.
- Qual a sua experiência com crianças? – me perguntou assim que atravessamos a porta. Eu ainda estava em estado de choque.
- Filha única, sem primos ou qualquer coisa que seja – respondi, enquanto encarava duas meninas de aproximadamente cinco anos puxando os cabelos uma da outra, gritando algo sobre quem iria ficar com a Barbie durante a brincadeira.
- Ok, entendi. É fácil, você apenas tem que mostrar que é você quem manda. Veja. – ele disse calmamente, se posicionando em frente às crianças. – Hey! – ele fez uma primeira tentativa, mas ninguém pareceu notá-lo lá na frente. – HEY, ESTOU FALANDO COM VOCÊS! – elevou a voz, mas nenhuma mudança ocorreu na sala.
- Você só tem que mostrar quem manda – repeti o que ele havia dito a pouco, ironicamente. Ele me encarou por algum tempo como se dissesse: “espere e veja”.
- E AÍ, QUEM ‘TÁ AFIM DE BRINCAR DE PEGAR O LENÇO? – ele disse todo empolgado para as crianças.
- Tio, acorda! Minha mãe brincava disso quando era criança – uma das poucas crianças que havia escutado respondeu. Ela era uma linda menininha com seus cabelos loiros caindo sobre os olhos, mas a sua beleza não disfarçava de todo a sua personalidade agitada e sem vergonha.
- Outch, essa doeu, tio – caçoei, parando ao seu lado.
- Pelo menos estou tentando fazer algo... – sussurrou para mim, sem me encarar. – Ok, então o que vocês querem fazer? – perguntou. Um terço da classe já havia, pelo menos, notado a nossa presença e alguns tentavam prestar atenção no que dizíamos.
- Eu quero usar o computador, tio.
- Tio, posso brincar lá fora?
- TIO, O DAVE ME BATEU!
- Tive um ideia – disse a em meio ao bombardeio das crianças. – Consegue ficar sozinho com elas por cinco minutos? – ele me encarou assustado, mas eu não dei tempo para que ele respondesse, e saí da sala.
Trazia um cachecol vermelho de lã enrolado no pescoço. Sua pele também era meio avermelhada. A cara era estranha, mas simpática, com uma barbicha pontuda e cabelos frisados, de onde lhe saíam dois chifres, um de cada lado da testa. Na outra mão carregava vários embrulhos de papel pardo. Com todos aqueles pacotes e coberto de neve, parecia que acabava de fazer suas compras de Natal.
Era um fauno. Quando viu Lúcia, ficou tão espantado que deixou cair os embrulhos.
- Ora bolas! - exclamou o fauno.
Por algum milagre, as crianças haviam se comportado durante a leitura que e eu nos revezamos para fazer do livro As Crônicas de Nárnia. Optamos por ler “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupas” por já ser uma história conhecida das crianças. Acontece que quando estávamos chegando ao final do primeiro capítulo, as crianças já se sentiam entediadas e a conversa e a bagunça voltavam a reinar no lugar.
Já não sabia mais o que fazer. Estava cansada de eles me chamando de tia toda hora, e mais cansada ainda das perguntas inconvenientes do tipo: “Ele é seu namorado?”, “Por que não?”, “Mas, tia, ele é tão bonito!”, “Ok, então isso quer dizer que você é encalhada?”.
Eles estavam um pouco mais comportados do que no começo, mas ainda falavam sem parar. Não que eu esperava que um bando de crianças fosse ficar em silêncio durante uma aula com dois idiotas que nem professores substitutos eram. E por falar nisso, cadê a professora que ia chegar?
Estava sentada sobre a mesa do professor, balançando meus pés e folheando algumas páginas do livro ainda em minhas mãos quando ouvi , que estava sentado no chão, conversando com um garotinho. Ele era o mais quieto da turma e não tirava os olhos do desenho que estava colorindo, mesmo enquanto falava com . Esforcei-me para ouvir a conversa.
- Eu sei que é difícil, cara, mas você tem que acreditar que ele vai ficar bom logo... Você pode fazer visitas? – o garotinho negou com um aceno de cabeça.
- Eles dizem que eu ainda sou criança pra isso – respondeu com um bico.
- E eles estão certos... – mas o rapazinho lançou um olhar fulminante na direção de , que me fez rir. – Quer dizer, não é muito bom para uma... pessoa como você ficar andando pelos corredores do hospital.
Eu estava impressionada com . E não, não estava sendo irônica. Ele parecia se dar tão bem com as crianças, e isso era uma coisa que eu jamais esperaria dele.
- Quer saber, por que você não pede para alguém entregar esse seu desenho para ele? É seu pai, não é? Esse aqui? – apontou para o papel que o menino coloria.
- Uhun, é a primeira vez que ele me levou para um jogo de baseball, antes de ficar doente. – um sorriso triste apareceu no rosto do garoto e ele levantou a folha para mostrar melhor o desenho a , fazendo com que eu também pudesse ver de onde estava.
Era uma criança e um homem, de mãos dadas sobre a grama verdinha recém pintada. Uma bola de baseball estava na mão do menino do desenho, e bonés azuis estavam em suas cabeças.
Eu sentia meus olhos arderem. Embora não como aquele garotinho, eu sabia o quanto era ruim “perder” um pai.
Eu já não prestava mais atenção na conversa dos dois, e só me dei conta da presença de perto de mim quando ele disse que era a minha vez de ficar com eles, prometendo ser rápido. Não perguntei nada, apenas permiti que ele saísse correndo da sala e minutos depois ele voltou com um violão em suas mãos.
Imediatamente as crianças começaram a pular e gritar de alegria. Parecia que elas gostavam de música. Levou alguns minutos até que conseguíssemos arrastar as carteiras e posicionar todos em um círculo no meio da sala.
começou a tocar e imediatamente todos começaram a cantar junto com ele. Todos estavam se divertindo. Inclusive . E eu.
Ele me olhou, como se me convidasse a cantar com eles. A verdade é que, apesar do trabalho do meu pai, eu nunca fui muito boa nisso, mas me rendi e acompanhei o coral de crianças, e em troca recebi um sorriso de .
Acontece que professora substituta que deveria aparecer, nunca chegou, e depois de quatro horas e meia com aquelas crianças eu já havia separado brigas, corrido atrás de um garoto que saiu da sala sem permissão, lido um capítulo do livro as Crônicas de Nárnia, e cantado umas vinte músicas ao lado de . Mas também havia recebido muitos abraços, algumas cartinhas, um pedido de namoro do tal de Dave e agora Ginny dormia no meu colo depois da farra toda.
Eu continuava sentada no chão e organizava as carteiras com a ajuda das crianças. Ele parecia tão à vontade no meio deles, e isso era... bonito.
Sr. Humphrey finalmente deu as caras na sala de aula, mas apenas para dizer que as aulas haviam acabado e que os pais das crianças já estavam aguardando do lado de fora. Organizamos as crianças em duas filas, meninas e meninos, e as levamos para o lado de fora do colégio. Esperamos que todas tivessem ido embora, recebendo um abraço de cada uma antes, para então podermos ir também.
- Quer uma carona? – ele me ofereceu enquanto atravessávamos o estacionamento e ele ia em direção ao seu carro. Apesar de a visão ter me lembrado do incidente daquela manhã, ali mesmo, naquele estacionamento, eu tive muita vontade de aceitar. Porém, já havia ligado para Lars e ele devia estar me esperando em algum lugar no quarteirão da frente.
- Não, tudo bem... Vou andando mesmo. – respondi. Não queria dizer que meu motorista estava vinha me buscar.
- Certeza? Eu posso levar você na sua casa, não tem problema – ele insistiu. Jogou sua mochila no banco de trás e parou com a porta do motorista aberta, apenas esperando a minha resposta.
- Eu agradeço, mas vou andando mesmo... – respondi sem graça. O que estava acontecendo comigo?
- Tudo bem, então. Mas saiba que as crianças iriam ficar muito felizes se nos vissem saindo juntos daqui – ele disse com um sorriso no rosto antes de entrar no carro e deixar o estacionamento.
CONTINUA
N/a: Olha quem está de volta! :O Depois de séculos, aqui estou. Nem vou me desculpar de novo, porque toda vez que apareço por aqui eu faço isso. E também nem vou dizer que a faculdade consome 90% da minha vida, o que me deixa muito pouco para dividir entre vida social, família, trabalhos E fanfics.
Gostaria de agradecer, de verdade, àqueles que não abandonaram WHH
Bom, é isso. Espero que gostem e comentem e opinem e me digam o que estão achando. :)
xx báa.

