Me Ame Ou Me Odeie

Autora: Bia Oliveira
Status: Em Andamento
Revisada por: Kath Fletcher
Categoria: HotFics
Sub-Categoria: LongFic - Comédia Romântica
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Capitulo 1
Meu estranho mundinho insano.


Segundo a Wikipédia:
Adjetivo é uma palavra que caracteriza um substantivo atribuindo-lhe qualidade.


Mimada, chatinha, egoísta, rebelde, problemática, louca por atenção, teimosa, atormentada. Não eram exatamente qualidades, mas eu assumo que eram adjetivos verdadeiros e que me definiam bem.

Meu quarto estava completamente desarrumado, uma mala imensa estava sobre minha cama e dela saiam roupas que eu nem lembrava que tinha mais. Eu estava sentada sobre algumas toalhas de banho arrumando minha necessaire quando vi meu pai aparecendo na porta.
-, filha, não se esqueça dos casacos. - Meu pai era super protetor, mas tudo bem, eu também era com ele, por isso odiava quando qualquer mulher se aproximava dele, e foi assim durante toda minha vida.
- Tudo bem, pai, eu sei o frio infernal que faz lá. - Eu disse entortando a boca, enquanto caçava algumas meias na gaveta.
- Frio infernal, ? Nunca ouvi falar que algo frio possa ser comparado ao Inferno. - Meu pai permanecia parado em minha porta, observando a bagunça generalizada do meu antro.
- Pô, pai, pára! Deixa de ser velho, foi uma metáfora, e quem te disse que o Inferno é quente? - Fiz cara de mau e ele deu uma risadinha de lado.
A ideia de passar três meses viajando na Nova Zelândia não me agradava muito, pois, longe de mim, meu pai estaria “a solta”, disponível para as biscates interesseiras que ele teimava em me apresentar.
Lembro-me de cada uma delas, e de como me livrei delas também, não era difícil, elas eram bem estúpidas.
A primeira foi quando eu tinha sete anos, o nome dela... hum, Leda, eu acho. A coitada saiu da minha casa com o cabelo cheio de azeite de oliva, eu ouvi dizer muito que azeite de oliva é muito bom para saúde, mas acho que a Leda não concordou com isso, pois, depois do episodio fatídico, nunca mais voltou.
Samia... Acho que esse era o nome da segunda, eu tinha uns 12 anos, aquela me deu trabalho, um simples vidro de azeite não a impediria tentar conquistar meu pai e sua fortuna. Eu tive que fingir que tinha problemas mentais, gritava bastante à noite e um dia disse que o fantasma da mãe dela estava conosco na mesa de jantar. Ela finalmente se deu por vencida quando coloquei xixi do Angos, meu gato na época, dentro do anti-séptico dela.
Eu fui várias vezes ao psicólogo, claro, meu pai chegava a chorar de desgosto, mas eu não mudava, só fingia que tinha melhorado até a próxima vítima chegar.
Quando eu tinha 15 anos meu pai conheceu uma argentina que falava tudo enrolado, eu a odiava, argentina do cassete, eu vivia falando que o Maradona era um drogado de merda, ela me odiava também. Um dia, quando ela resolveu se mudar para a nossa casa, eu joguei todas as roupas dela na piscina, tinha umas blusinhas de seda italiana que eu adorei ver cheia de cloro. Ela continuou por mais algumas semanas até uma conseguir ajuda de um hacker e bloquear todos os cartões de crédito dela. Ela era extremamente consumista, depois disso desistiu e voltou para a Argentina.
“Garota do inferno” Foi a última coisa que eu a ouvi dizer enquanto batia seu saltinho Armani no mármore da sala.
Depois disso meu pai nunca mais trouxe ninguém aqui em casa, confesso que foi meio frustrante ter que guardar minhas maldades só para os meus professores do colégio.
Ah, a escola, eu adorava a escola, lugarzinho peculiar para extravasar meus atos perversos. Claro que não durava muito nelas, mas o colégio interno foi muito bom para mim, eu aprendi muitas coisas boas, me tornei uma pessoa melhor, mais astuta, saí de lá formada em arrombar cadeados, acionar alarmes de incêndio, entre outras coisas bem legais que eu podia usar na vida real.
Agora eu já tinha 18 anos, não costumava mais aprontar tanto, pelo mesmo não coisas tão infantis como antigamente, mas é claro que quando está no sangue, está no sangue, não tem para onde fugir.
Peguei-me voltando de minhas memórias com um sorriso satisfeito no rosto, quando ouvi meu pai me chamar na escada.
“Merda, meu vôo”.
Meu pai me aguardava na ponta da escada e se divertia enquanto via meus sapatos rolarem sincronizados pelos degraus.
- Pai, me ajuda. - Eu gritei, tentando pará-los com os pés.
- Eu sei que você consegue se virar sozinha. - Ele riu e abriu os braços para mim, eu sabia que já era uma despedida.
- Mas já? Você não vai mesmo me levar ao aeroporto? - Fiz bico.
- , nós já conversamos sobre isso, eu tenho muito trabalho, eu não vejo problema nenhum em você ir com o Emerson. - Ele permanecia com os braços aberto enquanto eu o encarava de cara fechada.
- Pai, o Emerson me odeia, é capaz dele me levar para o aeroporto errado, só para eu perder o voo.
- , ele não te odiaria se você não o atormentasse tanto, e outra coisa, ele nunca faria isso sabendo que perderia o emprego.
- Você acha mesmo? Porque eu tenho a impressão de que ele teria o maior gosto de perder o emprego só para ver eu me ferrando.
- Chega de papo, você vai perder o voo por conta própria se continuar batendo esse pézinho.
Eu fiz uma careta, peguei minhas malas, as que eu consegui, e fui em direção ao carro.
- Pode deixar que eu pego o restante de malas. - Emerson falou com a maior má vontade.
- Vai te catar, Emerson. - Entrei emburrada no carro e liguei meu iPod no último volume, All Time Low me relaxava.
- . - Meu pai apareceu na janela do carro.
- O quê? - Tirei os fones de mau humor.
- Filha, só queria te dizer que eu te amo e pedir encarecidamente que você não apronte nada na Nova Zelândia. - Meu pai franzia a testa preocupado.
- Falô, pode deixar. - Coloquei meus fones de ouvido de novo.
- Filha! - Ele permanecia parado na janela. - Não fique brava comigo, não vou poder ir mesmo.
- Tá, pai, tchau. Que saco! - Subi a janela e coloquei o fone pela décima vez.
- Tchau. - Só pude ver sua boca se mexendo, enquanto ele acenava com a mão.
- Toca para o aeroporto, Ederson. - Disse ao motorista com a intenção única de irritá-lo.
- Emerson, sua idiota. - Ele me corrigiu e voltou a atenção para o volante.
- Ham, petulante você, né, Everton? - Fiz cara de sarcástica e peguei uma revista para ler.
- Seu celular está tocando.
- O QUÊ? - Eu com o som no ultimo volume, perguntei ao motorista, que gesticulava pelo retrovisor.
- SEU C-E-L-U-L-A-R ESTÁ TOCANDO. - Ele berrou e eu tive vontade de ser o Cyclop, levantar meus óculos escuros e simplesmente fritar a imensa cabeça daquele idiota.
- Alô. - Atendi meu celular, mostrando o dedo para Emerson. - Gabriel, seu idiota, você nem foi na minha casa me dar tchau. - Disse bufando.
- Oh, meu amor, você sabe que eu estou viajando.
Gabriel era meu melhor amigo de infância, a gente se pega de vez enquanto, nós éramos a prova viva que depois de uma ficada a amizade podia continuar a mesma.
- Eu sei, seu tosco, mas três meses sem te ver me causa angustia.
- Nossa, que profundo, , não esquenta, vou te visitar, já falei com meu pai ele disse que tudo bem.
- JURA? Ah, não vai prestar, eu, você e as ovelhinhas em New Zeland. - Disse rindo, e ele soltou uma gargalhada no outro lado. - Tenho que desligar, amor, já cheguei ao aeroporto tenho que fazer a merda do check in.
- Tudo bem, gorda, vai lá, depois eu te ligo para combinar tudo.
Ai, Gabrielzito, ele era tão fofo, eu podia me casar com ele, mas acho que nossos filhos nasceriam com sérios problemas.
Desci do carro e fui até o saguão de embarque, Emerson carregava a bagagem.
- Emerson, já que só tem você na minha despedida, me dá um abraço aqui. - Ele estava com todas as minhas malas nos ombros e só fez uma careta quando abri meus braços.
- Acho que não, obrigado. - Emerson continuou com a cara de babaca.
- Poxa, Éderson, três meses sem mim e nem um abraço, quem você vai ficar espiando só de calcinha no quarto? - Eu disse sarcástica.
- Eu não faço isso, . - Ele retrucou sério.
- Emerson, Emerson, se meu pai souber disso, como você vai sustentar aqueles seus três cabeçudinhos?
- Por que você tem que ser assim o tempo todo hein? - Emerson disse e por um segundo me senti mal com sua expressão, mas passou rápido.
- Fico tristonho, Éderson? Eu não conto para o meu pai sobre suas escapadelas no meu quarto à noite, prometo, palavra de escoteiro. - Bati meus dedos na testa para selar o juramento.
Peguei minhas malas, com dificuldade, deixando meu motorista parado no meio do saguão de embarque com a famosa cara de tapado.
O Emerson tinha uns trinta anos, eu acho, ele não era feio nem nada, mas tinha aquela cara de gente comum, ele era meu motorista há uns cinco anos e meu passatempo preferido era infernizá-lo, mas ele ganhou meu respeito por não deixar-se se abalar tão fácil.
Medo, medo, medo, eu estava com muito medo daquele avião gigantesco, fui logo dando uma olhada para ver se tinham muitas crianças. É o que dizem, um avião com muitas crianças não cai.
Um, dois, três, quatro velhinhos? Tinha até um que eu podia jurar que estava acompanhado com uma enfermeira. Vou parar de contar, não tem uma criança sequer nessa merda de avião.
Fechei meus olhos tentando me lembrar de alguma oração, putz, acho que vou só pedir a Deus mesmo.
Doze longas horas depois e com três calmantes na cabeça acordei atordoada com as instruções da aeromoça, que mais parecia um aeromoço com aquele vozeirão, foi-se o tempo que as comissárias de bordo tinham que ser bonitas e femininas.

Segundo a Wikipedia:

Nova Zelândia é a capital mundial das ovelhas, pois existem mais ou menos quarenta e seis milhões de ovelhas no território, para os apenas três milhões e seiscentos habitantes, ou seja, são quase 13 ovelhas por pessoa.


Ou seja, ovelha para cassete. Oo

Eu ficaria hospedada num Hostel na cidade de Chistchurch, na Ilha do Sul da Nova Zelândia. Tinha lugar mais buraco para o meu pai me enfiar? Acho que não, mas pelo menos a paisagem era deslumbrante.
349.000 habitantes, muita neve, muitas ovelhas, e seria muito, mas muito tédio, se não tivesse esportes radicais como: Esqui, Sprint, Snowboard, Skeleton, claro que eu não tinha a menor habilidade em nenhum deles, e nem dava a mínima para essas merdas, nada que aulas particulares com um instrutor bem gostoso não resolvessem.








Capitulo 2
Ódio a primeira vista.


Resumo da minha viagem frustrada:
Primeiro mês: Um frio inimaginável, apesar de encapotada de blusas, toda vez que colocava o nariz para fora do hotel, meus cílios congelavam. Conheci a vida noturna na cidade logo na primeira semana, várias bebidas, algumas droguinhas "inocentes", pegação, muita ressaca e dor de cabeça nos dias seguintes.
Fiz amizade com alguns brasileiros e um Italiano bem gato, mas depois de dois dias eu já estava enjoada deles.
Segundo mês: viagem a lugares lindos, mas, tenho que admitir, entediantes. Conheci alguns nativos, que de tão brancos pareciam mármore, chegava dar vontade de lamber que nem estátua de gelo.
Agora dentro do avião, com alguns remedinhos na cabeça estava eu voltando para casa.
Você deve estar se perguntando, não seriam três meses de viagem? Seriam, se eu não tivesse quebrado a perna. Nunca faça Snowboard só por que o instrutor é gato, os danos posteriores não são compensados por um rostinho angelical, fica a dica!
Tudo bem, voltar para casa era o que eu queria mesmo, já que no fundo sabia que aquela viagem era uma tentativa frustrada do meu pai de me "acalmar" e me distanciar de algumas pessoas. Acho que ele queria me fazer esquecer de coisas que ele não conseguia esquecer.
Era incrível como meu pai se abalava fácil como algumas coisas, eu não via motivo de ter que atravessar o mundo só por uma briguinha à toa numa festa, mesmo porque eu saí ganhando, aquela biscatinha mirim voltou para casa com os dois olhinhos roxo, uma graça ela ficou.
Aí toda vez que eu "aprontava" algo, era isso, meu pai queria que eu fosse para outro país, queria que me distanciasse do tudo, era um saco.
Bom, voltando ao presente... Estava eu, dentro daquele avião, com nenhuma criancinha lá, morrendo de medo, e com raiva das promessas vazias do Gabriel, ele tinha prometido, mas, é claro que, não foi me ver, também que se dane, eu aproveitei melhor sem ele.
Emerson me aguardava quando desembarquei.
- CADÊ O MEU PAI?? - Eu gritei no saguão enquanto uma comissária de bordo empurrava minha cadeira de rodas.
- Calma, ele está te aguardando em casa, e tem uma surpresa para você. - Emerson me disse com satisfação no rosto.
- Que merda! Me ajuda aqui, Emerson, ou você pensa que eu vou para casa com essa cadeira de rodas? - Eu disse me levantando desengonçada.
Fui o caminho todo bufando no carro, ignorei três ligações do Gabriel e mais duas de outra amiga, que só me ligava quando queria alguma coisa, sai cu.
- Filhaaaaa! Eu não acreditei quando você me falou, mas é sério, você quebrou o pé. - Meu pai me esperava na porta da frente e ficou rindo ao me ver descer toda torta do carro.
- Não, pai, é uma miragem, dá para me ajudar, ou vai ficar me olhando? Estava irritada, completamente no auge da TPM.
- Filha, não fica assim, tenho uma super surpresa para você, eu ia te contar antes, mas como você chegou mais cedo, posso te contar pessoalmente. Meu pai estava anormalmente feliz, e tinha um brilho estranho nos olhos.
- Nem vem, pai, o que aconteceu? Vai falando. - Eu disse, desconfiada.
- Calma, eu preciso conversar com você antes, com cautela. - Ele disse, deixando eu me apoiar nele para entrar.
- Conversar sobre o quê, pai? Do que você está falando? - Continuei desconfiada e meu mau-humor só aumentava.
- Vamos entrar, quero que conheça alguém.
- Eu não quero conhecer ninguém, pai, pode ir parando. – Dei, com dificuldade, um passo para trás.
- , essa pessoa é muito importante para mim, eu quero que você goste dela, eu queria ter te preparado antes, mas tudo aconteceu tão rápido, eu não tive tempo de te organizar as ideias. - Ele disse cauteloso.
- Essa pessoa quem, pai? Me preparado antes para o quê? Tudo tá muito vago para mim, pode ir falando.
Ele foi me acompanhando até a hall de entrada e uma pessoa me aguardava lá.
- Quem é você? - Perguntei a mulher estranha que estava dentro da minha casa. Ela parecida tão feliz ao me receber como se fosse a anfitriã da casa, como se eu fosse a estranha lá.
- Filha, é sobre isso que eu quero falar, essa é a Verônica. - Ele apontou a mulher e me deu uma risadinha sem jeito.
- Verônica de onde? Verônica minha nova psicóloga? Verônica minha babá? Verônica diretora de alguma escola de etiqueta? - Perguntei realmente irritada já.
- Não, filha, Verônica... Minha esposa.
- SUA O QUÊ??? - Quase que caí, literalmente, para trás, me desequilibrei e meu pai me segurou. - Piada, fala para mim que isso é uma piada. - Eu dizia sarcástica, ainda sem reação.
- Não é uma piada, eu queria te falar antes, mas você voltou mais cedo. - Meu pai tropeçava nas palavras.
- Não, não, não, pai, QUE HISTÓRIA É ESSA? - Olhei para a mulher e ela estava com aquele expressão serena e calma, como se nada estivesse acontecendo, como se eu não estivesse berrando na cara dela.
- E você? Por que está com essa cara de idiota me olhando? - Perguntei pra ela, mas a mesma continuou pacifica, ridícula.
- Vamos para o seu quarto, filha, eu te conto tudo com calma. - Meu pai me puxou pelo braço e eu continuava boquiaberta.
Eu me sentei na cama, tentando me arrumar e ficar confortável com a merda do gesso no pé.
- Pai, me fala que isso é uma pegadinha, por favor.
- , eu acho que você já é uma adulta para entender, e, querendo ou não, terá que digerir isso.
Aquela palavra me dava nojo, digerir, parecia que tinha alguma coisa realmente nojenta na minha boca e eu teria que engoli-la, querendo ou não, contudo, a palavra definia bem o que eu estava sentindo.
- Como você pode ser assim, pai? Como você pode se casar e nem me consultar, nem me avisar? Isso não é coisa que se faça a uma filha. - Eu disse, realmente chateada.
- , mesmo se te consultasse, se te avisasse, você teria a mesma relação que está tendo agora, você tem que entender que eu preciso de uma companheira.
- Mas se casar em dois meses, pai, isso é muita imprudência da sua parte.
- Eu sei que para você pode parecer, mas eu já conhecia a Verônica, nós fomos namorados na escola e nos reencontramos agora, filha. Eu fiquei tão feliz em revê-la, por que você não pode ficar feliz por mim?
- Porque não dá, pai, uma reação tão impulsiva dessa não entra na minha cabeça, mas você só faz o que quer, não é mesmo?´
- Eu, ? Eu? Você tem certeza que só eu faço o que quero? Você é a pessoa mais impulsiva que eu conheço, vou ter que listar todas suas imprudências? Como sua última briguinha que me fez desembolsar um belo dinheiro para abafar o escândalo.
- Você não precisava fazer isso.
- Ela é filha de um senador, , imagine se alguém descobrir isso, sorte que o pai dela quis abafar a briga tanto quanto eu.
- Está bem, pai.
- Não, não está bem nada, e a tatuagem que você fez escondida? E o coma-alcoólico no ano passado? O carro batido? E o incêndio no quarto de hotel? Os cindo cartões de créditos estourados em duas semanas? Seu sumiço por dois dias, envolvendo a polícia, investigadores. Isso você não lembra, você acha que essas coisas não me fazem sofrer. Isso são coisas dos últimos dois anos, , e eu for listar tudo de errado que você já fez teria que ficar aqui o resto do dia.
- Tá bom, pai, eu já entendi, você quer me fazer sentir culpa para aliviar a sua.
- Essa conversa está encerrada e eu estou mandando você tratar bem minha esposa.
- Há, era só o que me faltava.
- Já chega, não vou discutir mais com você. - Meu pai disse, e saiu fechando a porta com força.
Eu me corroía de raiva, como assim, uma mulher, morando na minha casa? E ainda por cima ela era a mulher do meu pai, que ódio.
Comecei a ouvir a chuva batendo na janela do meu quarto, tentei me virar na cama, até me lembrar que meu pé doía terrivelmente, abri devagar meus olhos e olhei meu celular, 20:32.
- , o jantar está servido, seu pai a aguarda na mesa.
- Hum? - Vi a silhueta de alguém a minha porta, e pela voz constatei que era minha governanta.
- Não vou descer, traga meu jantar aqui. – Mandei, permanecendo estirada na cama.
- Desculpe, , não será possível, seu pai solicitou que descesse, agora. - Ela foi enfática e fechou a porta.
Desci cambaleando pelas escadas e, de lá, pude ver meu pai sentado à mesa com a mocreia, eu tinha que admitir, minha maior raiva era, porque, além de tudo, ela era muito bonita, linda, diria contrariada, claro. Não que eu não quisesse que meu pai fosse feliz nem nada, mas essas mulheres são sempre interesseiras e manipuladoras, e já bastava uma pessoa assim dentro daquela casa, eu.
- Boa noite, . - Ela disse com um sorriso encantador.
- Só se por para você. - Cuspi as palavras em sua cara.
- ! - Meu pai me repreendeu com o olhar. - Eu tenho outra coisa para te contar. - Me pai disse, enquanto contava um pedaço de carne.
- Lá vem, o que foi agora? - Eu disse, entortando a boca.
- Bom, vou ser rápido. - Ele parou de comer e me encarou.
Eu por vez apenas bufei, completamente entediada com o assunto.
- Nossa festa de casamento acontecerá esse final de semana. - Ele disse, ainda me encarando preocupado.
- Como assim? Eu pensei que vocês já estivessem casados. - Fiquei boquiaberta.
- Nós já estamos, , mas eu e seu pai resolvemos fazer uma festa de casamento quando você voltasse. - Verônica disse gentilmente, para variar.
- Eu não perguntei para você. - Fui áspera.
- ! Por favor, nós estamos tentando, mas você tem que colaborar, filha.
- Pai, que coisa mais ridícula, festa de casamento nessa idade, vocês não se enxergam?
- , não existe idade para ser feliz. Verônica e sua gentileza sufocante.
- E-u-n-ã-o-e-s-t-o-u-f-a-l-a-n-d-o-c-o-m-v-o-c-ê.
- , eu não me importo de você ser rude comigo, é claro que isso é uma defesa sua contra minha pessoa, eu admiro sua personalidade forte, na verdade, não me deixo abater por alguns insultos, eu tenho uma cópia sua na minha vida, sei bem lidar com pessoas como você. - Ela disse e permaneceu com o ar de superioridade.
- Você tem uma cópia minha na sua vida? – Disse, debochando.
- Tenho, e convivo com essa cópia há 22 anos, tempo suficiente para aprender todas suas artimanhas.
- Não vejo a hora de conhecê-la. – Disse, entortando a boca e continuando com a cara de deboche.
- A festa é na sexta, será aqui em casa mesmo e eu espero que você compareça, e já que não vai tocar na comida, pode se retirar da mesa e ir para seu quarto. - Meu pai foi rude me encarou e depois voltou a atenção para o prato de comida.
- Como quiser, senhor, com licença.
- Ah, , e se sua cabecinha já estiver tramando alguma coisa maléfica para minha festa, é bom você parar de pensar agora mesmo.
- Ou o quê, pai? - Eu já tinha me levando da mesa e já me encontrava de costas para os dois, apenas me virei e o encarei séria como os braços cruzados.
- Ou você se comporta, ou será internada numa clínica para adolescentes com problemas em se adaptar com a sociedade.
- Nossa, você acabou de inventar essa instituição, né, pai? – Ri, sarcástica, e continuei em direção a escada.

Subi para o meu quarto e liguei o computador com a esperança de ter alguém online no msn, minha cabeça já borbulhava de ideias para destruir aquela maldita festa.

Depois de muito pensar, resolvi que não iria fazer nada com aquela festa, claro que minhas ideias vagavam entre colocar laxante nas bebidas dos convidados ou cortar os pézinhos do bolo, porém resolvi apenas sair de balada naquela noite, você deve estar se perguntado por que eu, como sou, faria algo tão "amistoso", mas logo te digo, para o meu pai seria muito pior não me ter naquela festa do que me ver surtando entre seus amigos, e, claro, eu tinha o objetivo de finalmente dirigir a lamborghini prata, novinha em folha, que meu pai nunca, eu friso, nunca me deixaria dirigir.
Arrumei-me e da janela do meu quarto podia ver os empregados organizando a festa na piscina, patético.
Liguei para o Gabriel e combinei tudo, alguns convidados já estavam chegando e eu resolvi descer e fumar um cigarrinho escondida no jardim lateral.
Desci sorrateira com a merda do gesso ainda no pé, meu vestido era lindo, de seda preta, tomara que caia.
Ascendi o cigarro e a primeira tragada me relaxou completamente, quando ouvi uma voz vindo do meu lado esquerdo, estava escuro e eu me virei assustada.
- Ei, pode me arrumar um desses? - Um cara vinha em minha direção, cabelos bagunçados, calças jeans escuras, uma camisa azul clara com as mangas dobradas e tênis branco.
- Quem é você? - Fui áspera.
- Nossa, que recepção. - Ele riu e pude ver seus dentes perfeitamente brancos.
- Sou convidado da festa, só estou dando um tempo aqui, estou me escondendo de uma pessoa. - Ele continuou se aproximando.
- Você não é bem vindo aqui, foi mal, pode dar meia volta e se esconder em outro lugar. - Dei uma risadinha sarcástica e voltei minha atenção para meu cigarro.
- Poxa, você é chata, heim, nem me conhece e já me trata assim.
- Não te conheço, posso te tratar como quiser, tchauzinho. - Fiz um aceno com a mão.
- Desculpa te decepcionar, mas eu preciso ficar aqui mais um pouco, você não precisa falar comigo se não quiser. - Ele se sentou ao meu lado e eu olhei para ele como se tivesse alguma doença contagiosa, ele riu da minha cara.
- Mas, me conta, o que faz aqui? Se escondendo também? - Ele continuou.
- Pensei que não precisasse falar com você.
- Chata. - Ele riu e balançou a cabeça.
- Eu estou tentando fugir dessa festa ridícula e sem cabimento do meu pai.
- Ele vai se casar, né?
- Vai, e você já deveria saber disso, já que foi convidado.
- Você é sempre insuportável assim ou é só comigo?
- Não, eu sempre sou chata, mas com pessoas como você eu costumo ser insuportável. Meu pai é inacreditável, é só eu virar as costas que ele se casa com a primeira biscate interesseira que encontra.
- Nossa, como você fala isso da noiva sem saber se eu sou convidado dela?
- Você acha que eu me importo se você é convidado dela ou o garçom da festa?
- Bom, pelo o que eu sei a noiva tem muito dinheiro também, acho que ela não é interesseira.
- Que se dane se é ou não, vaca, olha já cansei do nosso papinho, vô nessa, pode ficar com meu maço de cigarros, vai saber quanto tempo você ainda não vai ficar se escondendo. - Joguei o maço em seu colo e sai andando.
- Ei. - Ele gritou e eu me virei.
- Bonito gesso.
Eu apenas lhe mostrei o dedo e saí andando.

Não sei por que era assim com desconhecidos, nem com conhecidos, mas é tão natural tratar as pessoas mal que sai com facilidade, ainda mais tratar mal um cara como aquele, admito, lindo de morrer, só a ideia de maltratá-lo me revigorava, eu realmente não me importava com ninguém.
Subi para passar maquiagem e, no caminho, peguei a chave da lamborghini que estava sobre a mesa.
A festa já estava lotada lá em baixo, e eu teria que ser ninja para passar entre os convidados sem ser vista, já que só conseguiria sair com o carro pela garagem principal.
Fui andando sorrateira pela beirada da piscina e de longe avistei meu pai todo feliz cumprimentando os convidados. Continuei andando furtiva com a bolsa e a chave do carro na mão, quando senti uma mão pesando no meu ombro esquerdo e um segundo depois eu estava dentro da piscina. Tive dificuldade para voltar à superfície por causa do gesso, e assim que emergi da água, a festa toda estava em volta da piscina me olhando com cara de assustados. Alguém me ajudou a sair da água, mas minha raiva era tanta que estava cega. Meu vestido novo, meu cabelo, meu celular, meu iPod na bolsa, minhas maquiagens, minha bolsa da Gucci, QUE ÓDIO.
Meu pai veio em minha direção com cara de desapontado e puxou com força a chave da lamborghini que eu ainda segurava em uma das mãos.
- Parabéns, , já deu seu showzinho da noite, está de castigo, pode ir para o seu quarto. - Meu pai berrou na frente de todo mundo.
- Castigo? Quantos anos você acha que eu tenho? – Disse, tentando parar em pé com meu gesso pesando uma tonelada.
- Chega, . - Meu pai deu sinal para um dos seguranças da festa me levar.
Fui andando de vagar pingando, passando entre as pessoas que cochichavam e riam baixo, quando pude avistar de longe o cara de mais cedo com os braços cruzados e um sorrisinho maroto no rosto, sorriso aquele de satisfação, infeliz.
Passei por ele esbarrando em seu braço e sussurrei em seu ouvido:
- Você não sabe com quem se meteu, agora eu vou até o Inferno para te encontrar, meu caro.
Ele apenas riu e esperou até eu me afastar para me chamar.
- Ei, garota, vocês esqueceu seu maço de cigarros. - Ele arremessou o maço e eu fiquei paralisada, meu pai ia me matar, deixei o maço cair no chão e virei as costas. Meu Deus, o ódio me consumia.
Quem ele pensava que era? Minha vontade era voltar para aquela festa e acabar com aquele miserável, mas não podia, tinha um segurança na porta do meu quarto.
Eu olhava minha expressão de raiva contra o espelho enquanto permanecia sentada na pia, tentando secar meu gesso com o secador de cabelo. Minhas coisas estavam todas jogadas no chão, molhadas, e eu soltava berros de segundo em segundo toda vez que me lembrava do papelão que tinha passado, minha língua já estava sangrando, toda vez que sentia muita raiva de algo eu ficava mordendo a língua sem perceber, só notava quando vinha a boca o gosto do sangue.


CONTINUA


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