On Monday
Autora: Tati Castro
Status: Finalizada
Revisada por: Juh
Categoria: Free Fics
Sub-Categoria: Drama - MediumFic
Comentários:
Capitulo um
Era segunda feira às 06h15 da manhã do meu primeiro dia de aula. Eu estava no ônibus indo para o colégio e não, eu não estava animada. Também, como poderia? Depois de três ótimos meses na praia de férias com um carinha incrível, eu tive que voltar pra minha cidade e nunca mais falei com aquele loirinho lindo. Hm, meu ponto, melhor descer, apesar de tudo, não quero me atrasar pra primeira aula! Colégio novo, pessoas novas, professores novos... Não gosto de mudanças, mas enfim.
O colégio parecia ser legal, era grande, as pessoas pareciam animadas... Eu não sabia onde era minha sala, então, tinha que achar alguém que tivesse cara de legal pra perguntar.
- Com licença? Eu sou nova e bom, estou um pouco perdida.. – Disse a uma menina perto do portão de entrada.
- Novata? HAHAHAHA bem vinda! Você é de que turma? – Ela era simpática.
Peguei o papel e entreguei à ela.
- Ah! Você é da minha sala! Vem comigo, eu te mostro onde fica.
Como o colégio era grande e tinha, pelo o que eu consegui contar, quatro andares, fomos conversando no caminho. Aquela menina se chamava e estudava há quatro anos no colégio. Ótimo, alguém que conhece bem esse lugar era tudo que eu precisava no momento. Ela me levou até a sala e mostrou a carteira onde estavam as coisas dela, me ajudou a arrumar as minhas na carteira ao lado e disse que ia descer, porque estava esperando uma amiga. Concordei e me sentei, observando as pessoas ao meu redor. Um tempo depois ela voltou com outra menina, me apresentando à ela.
- , essa é a . , essa é a . – Apresentou .
- Oi , prazer. – Sorri, vendo a menina fazer o mesmo.
- Prazer . – Ela falou se ajeitando na carteira do lado.
Estávamos na terceira fileira de carteiras, era perto o suficiente pra poder prestar atenção nas aulas, mas mantendo uma boa distância dos professores.
Logo na primeira aula, uma pessoa me chamou atenção. Ele estava sentando na primeira fileira, então só o via de costas. O professor começou a aula.
- Bom dia! Meu nome é Oliveira, mas podem me chamar de Oli. Sou o professor de História. E bom, vamos começar logo essa aula.
Ele explicou algumas coisas e logo depois foi brincar com os alunos.
- Qual seu nome? – O professor perguntou ao menino da primeira fileira.
- . – Respondeu sério.
- O que você fez ontem?
- Trabalhei. – ele mantinha a seriedade. Trabalhou? Num domingo? Uau.
- Nossa, que bom! – Oli falou irônico e rindo.
O professor fez isso com mais dois ou três alunos e voltou a explicar qualquer coisa sobre o tempo. Não consegui mais prestar atenção na aula. Aquelas costas estavam chamando demais a minha atenção...
Aquela manhã passou rápido com e me apresentando o colégio, me explicando algumas coisas sobre professores e como funcionava a escola.
Cheguei em casa e fui fazer os deveres, mas era incrível a ineficácia em me concentrar. Aquele cara não saía da minha mente.
Capitulo dois
Já era quarta feira e estávamos na aula de literatura. Hoje ele estava com um amigo, ambos na primeira fileira. Os dois estavam de preto e não sei por que, começou a me passar na cabeça que eles eram skinheads. Tinham o estilo, pelo menos. Os dois eram bastante fortes, cabelos raspados, eram muitos sérios e tinham tatuagens. Pré-conceito sem fundamento, com certeza. Mas aí o professor me chamou atenção, ele estava falando com aqueles dois.
- Vejam essa revista essa semana! Vocês podem ler na viatura! – e riu.
Viatura? O sinal tocou e eu percebi que eles estavam com camisetas da RONE [N/a: Rondas Ostensivas de Natureza Especial. Subdivisão da Polícia de Choque da Polícia Militar do Paraná]. Eles eram policiais? Eles eram da RONE, cara! Os caras da RONE sempre me chamaram atenção, eles provocam medo por causa do tamanho e porque sempre andam com fuzil, mas também segurança, e eu, pessoalmente, sempre achei muito sexy aquelas fardas. Ok, pare de pensar besteira, .
Já havia passado uma semana. Depois daquela quarta feira eles não tinham aparecido mais na aula. Segunda feira de novo, argh. Resolvi sentar na primeira fileira, do lado deles, eu queria me aproximar daquele tal de .
Não demorou muito e ele chegou. Pulou uma carteira da minha e se sentou, colocando a mochila na carteira entre nós. Era inevitável ficar prestando atenção no que ele fazia. Então, ele tirou uma pistola da bermuda e colocou no meio do casaco, me olhou com uma cara de quem não gostou de alguém ter visto aquela cena, enfiou tudo na mochila e colocou-a entre as pernas dele, no chão. Tive vontade de dizer "hey, olha aqui, eu não vou mexer, beleza?", mas era melhor não falar nada.
Os dias iam passando e eu conseguia falar uma ou outra coisa com ele, nada de importante, sempre algo da matéria, como página de exercícios ou qual exercício o professor estava fazendo. Mas era alguma coisa, não?
Depois de um tempo, eu conversava com ele e ele era incrível. Droga, eu me apaixonei por ele. Ele era lindo, simpático, inteligente, engraçado, sério... Ele era tudo que um dia eu imaginei em um cara perfeito pra mim. Quer mais? Ele tinha um irmão gêmeo, , três minutos mais velho.
Cada dia que passava ele me surpreendia mais. Eu acordava todos os dias feliz e empolgada para chegar ao colégio. Minha mãe brincava "nossa, toda essa produção pra aula?", todo mundo já havia percebido a minha alegria em ir pra aula, eu falava muito dele pra minhas amigas, mas ninguém do colégio, óbvio.
Eu virei amiga também do outro “skinhead", o . Super simpático e gente boa! Eu adorava aqueles dois, eles eram minha alegria matinal! O sempre foi um amigo, o que era o cara dos meus sonhos... Até um dia as coisas começarem a mudar...
Capitulo três
Fazia duas semanas que nenhum dos dois aparecia pra aula. Eu estava preocupada. Eles eram policiais. E se alguma coisa tivesse acontecido com eles? Toda vez que eu pensava nisso me dava vontade de chorar. Sentia-me inútil naquele lugar sem o ao meu lado.
Então, o apareceu. Não sabia se ficava feliz ou mais preocupada ainda. No intervalo, como quem não queria nada, fui perguntar do .
- Oi, . Quanto tempo! – Disse, forçando meu melhor sorriso.
- Oi, ! – Ele sorriu e me deu um abraço apertado.
- Você e o sumiram, o que aconteceu? – Não pude deixar de demonstrar minha preocupação.
- Estava preocupada com a gente, é? – Ele riu e falou num tom brincalhão.
- É sério, , quando somem assim me assustam, poxa. – Respirei fundo e parei, antes que falasse algo que não devia.
- Haha, bonitinha. Eu tava cansado demais pra vir pra aula, sabe? Não sei se você sabe, mas eu trabalho 24x48 horas, é cansativo. E bom, o mudou.
- MUDOU? – Reparei meu tom de voz, respirei fundo e voltei a falar. – Como assim mudou? Mudou pra onde? Por quê? – Estava me esforçando ao máximo pra não parecer desesperada, mas eu estava. E muito.
- Ele saiu da RONE, agora tá no COE. – Falou calmamente, me deixando um pouco mais calma também. [N/a: Comando e Operações Especiais. Outra subdivisão da Polícia de Choque da Polícia Militar do Paraná]
- Ah! Que susto, ! – Dei um tapinha no braço dele e ri nervosa.
- Ele tá trabalhando bastante agora. Tá numa área mais complicada que eu, né?
- Tá fazendo o que agora? Você e ele.
- Eu continuo na RONE. Aquilo de sempre, multidão, confusão, traficantes de drogas... E ele tá na área de seqüestro, bombas, atiradores de elite, tráfico de armas...
- Sério? Eu admiro tanto o trabalho de vocês. É incrível, sabia? Você, ele... Uau, de verdade, eu admiro demais vocês.
- Obrigado, pequena. – Sorriu e me beijou a testa. O sinal tocou e voltamos à aula.
O tempo ia passando, o ia pra aula vez sim, vez não, mas o suficiente pra eu saber que ele estava bem, e mais: estava vivo. A partir daquela conversa com o , eu senti que estava vivendo pra aproveitar cada minuto ao lado do meu soldado. Soldado . Eu queria fazer tudo por ele, ajudá-lo ao máximo. Apesar de ter ficado próxima dele, nunca o toquei. Nunca um abraço ou um beijo de "oi". Aquilo me matava cada vez que o via sorrir pra mim; eu queria, eu precisava demais abraçar aquele cara. Mas nunca senti que pudesse tocar nele.
Capitulo quatro
Mais o tempo passava e eu já estava acostumada com os sumiços dos dois. Lógico que eu ficava preocupada, mas não era mais como antes. Eu, agora, entendia que às vezes eles estavam trabalhando, outras, estavam cansados e só queriam saber de dormir.
Eu tentava ajudá-los no meu máximo. Explicava as matérias, repassava os exercícios, emprestava as minhas anotações... Eu queria que eles se dessem bem.
Já era dia 12 de Maio e o , depois de vários dias, voltou à aula. Quando o vi entrar, meu coração acelerou e eu senti minha boca se torcer num sorriso enorme e involuntário. Ele se sentou ao meu lado e com um sorriso incrível me deu bom dia.
As aulas foram passando e eu não agüentava mais, queria o intervalo. Eu queria poder olhar pra ele, falar com ele. Até que, finalmente, o sinal do intervalo tocou.
- Como está? – me virei pra ele e sorri.
- Cansado e você? – ele deu um sorriso e se virou pra mim.
- Cansada. – ri e aquele silêncio constrangedor tomou conta.
- Hm, me presta sua agenda? – ele finalmente havia quebrado o silêncio.
- Claro. – sorri e peguei-a de dentro da minha mochila, entregando a ele. Ele abriu na parte do calendário e ficou vendo algumas coisas. Depois de um tempo ele me devolveu.
- Obrigado. – sorriu e se ajeitou na carteira, fechando os olhos.
- De nada. – eu queria falar com ele, mas estava tão nervosa...
Abri a agenda, na mesma parte onde ele estava vendo e ele havia marcado o aniversário dele. Sorri, sentindo uma paz incrível, sem deixá-lo perceber nada. De repente, ele levantou e começou a arrumar as coisas.
- Tô indo nessa, preciso dormir. – sorriu, levantou e colocou a mochila nas costas.
- Ah! Tudo bem. Se quiser, eu te empresto as anotações das próximas aulas. – sorri fraco, não queria que ele fosse embora.
- Não precisa, obrigado. – ele sorriu e foi embora.
Aquele sorriso dele tinha sido diferente. Não tem como explicar. Parecia tão sincero. Naquele momento, ele estava olhando dentro dos meus olhos, deu um último sorriso e saiu. Fiquei um tempo naquele transe, até ser "acordada" por me perguntando se estava tudo bem e avisando que a aula estava começando.
No caminho casa-escola-casa, o ônibus passava na frente do Hospital da Polícia Militar, e toda vez que eu olhava aquele lugar, dava uma angústia, uma dor...
Depois de um mês, nem ele ou o apareceram na aula, resolvi ligar pro .
- Alô? Por favor, o ? – testando minha melhor educação ao telefone.
- É ele, pois não? – ele parecia fazer o mesmo.
- ? Oi! É a .
- ? Nossa, oi, pequena! – ele falou empolgado.
- Então, tudo bem? Você e o sumiram de novo, e dessa vez por muito tempo, fiquei preocupada, resolvi ligar...
- Ah, pequena... Aconteceu tanta coisa. – ele pareceu perder a empolgação.
- O que aconteceu? – dei meu melhor pra controlar aquele desespero de novo.
- Nós saímos, não deu mais. Digo, eu saí porque não deu mais. O teve uns problemas e saiu.
- Problemas? – aquilo estava me deixando tão mal.
- É. No trabalho. Ele foi baleado, estava no hospital. – ele parecia escolher as palavras com cuidado.
- C-c-como assim? – minha voz estava falhada e meus olhos cheios de lágrimas, não agüentei e me derramei em choro. Ele percebeu.
- Calma . Tá tudo bem agora. Ele está em casa já. Não chora, pequena. – eu sentia o nervosismo dele na voz, quase me implorando pra não chorar.
- COMO CALMA? O FOI BALEADO E VOCÊ ME PEDE CALMA? – eu estava realmente desesperada e não me importava que o percebesse isso.
- Ele está bem! Teve que fazer uma cirurgia, mas já está em casa. – ele tentava me acalmar.
- Vocês não voltam? – não conseguia segurar o choro.
- Não, pequena, desculpa. – ele falou chateado.
- Nem o ? – eu precisava vê-lo outra vez.
- Não. – ele respirou fundo e continuou. – Nenhum de nós.
- Ah, tá bem, então. Só liguei pra saber se estava tudo bem. Então, obrigada. – desliguei o telefone sem que ele tivesse tempo de me responder.
Fui para o meu quarto e agarrei com todas as minhas forças meu ursinho e chorei, chorei mais do que qualquer outra vez na vida. Nunca me senti tão desamparada, tão frágil, tão triste, tão desesperada, tão... insegura. Comecei a olhar a foto do em meu celular e me lembrei do que eu sentia quando passava na frente do Hospital da PM. Aquilo era um aviso. Meu coração, de alguma forma, sabia que ele estava lá e eu não soube entender.
Aquele sorriso, aquele último sorriso dele pra mim... se eu soubesse que era o último, se eu soubesse que era a última vez que eu estava vendo meu soldado... Eu queria poder mudar o que aconteceu, poder ter tido coragem e ter abraçado o meu , mas eu não tive, eu fui covarde, tive medo da reação dele. E agora? Agora, eu estou sem ele e talvez nunca mais o veja. Agora, eu rezo todas as noites por ele, pra que Deus o proteja, que nada de ruim aconteça com o meu anjinho, porque agora, eu não o tenho mais por perto.
"The world would be a lonely place without the one that puts a smile on your face…"
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Era segunda feira às 06h15 da manhã do meu primeiro dia de aula. Eu estava no ônibus indo para o colégio e não, eu não estava animada. Também, como poderia? Depois de três ótimos meses na praia de férias com um carinha incrível, eu tive que voltar pra minha cidade e nunca mais falei com aquele loirinho lindo. Hm, meu ponto, melhor descer, apesar de tudo, não quero me atrasar pra primeira aula! Colégio novo, pessoas novas, professores novos... Não gosto de mudanças, mas enfim.
O colégio parecia ser legal, era grande, as pessoas pareciam animadas... Eu não sabia onde era minha sala, então, tinha que achar alguém que tivesse cara de legal pra perguntar.
- Com licença? Eu sou nova e bom, estou um pouco perdida.. – Disse a uma menina perto do portão de entrada.
- Novata? HAHAHAHA bem vinda! Você é de que turma? – Ela era simpática.
Peguei o papel e entreguei à ela.
- Ah! Você é da minha sala! Vem comigo, eu te mostro onde fica.
Como o colégio era grande e tinha, pelo o que eu consegui contar, quatro andares, fomos conversando no caminho. Aquela menina se chamava e estudava há quatro anos no colégio. Ótimo, alguém que conhece bem esse lugar era tudo que eu precisava no momento. Ela me levou até a sala e mostrou a carteira onde estavam as coisas dela, me ajudou a arrumar as minhas na carteira ao lado e disse que ia descer, porque estava esperando uma amiga. Concordei e me sentei, observando as pessoas ao meu redor. Um tempo depois ela voltou com outra menina, me apresentando à ela.
- , essa é a . , essa é a . – Apresentou .
- Oi , prazer. – Sorri, vendo a menina fazer o mesmo.
- Prazer . – Ela falou se ajeitando na carteira do lado.
Estávamos na terceira fileira de carteiras, era perto o suficiente pra poder prestar atenção nas aulas, mas mantendo uma boa distância dos professores.
Logo na primeira aula, uma pessoa me chamou atenção. Ele estava sentando na primeira fileira, então só o via de costas. O professor começou a aula.
- Bom dia! Meu nome é Oliveira, mas podem me chamar de Oli. Sou o professor de História. E bom, vamos começar logo essa aula.
Ele explicou algumas coisas e logo depois foi brincar com os alunos.
- Qual seu nome? – O professor perguntou ao menino da primeira fileira.
- . – Respondeu sério.
- O que você fez ontem?
- Trabalhei. – ele mantinha a seriedade. Trabalhou? Num domingo? Uau.
- Nossa, que bom! – Oli falou irônico e rindo.
O professor fez isso com mais dois ou três alunos e voltou a explicar qualquer coisa sobre o tempo. Não consegui mais prestar atenção na aula. Aquelas costas estavam chamando demais a minha atenção...
Aquela manhã passou rápido com e me apresentando o colégio, me explicando algumas coisas sobre professores e como funcionava a escola.
Cheguei em casa e fui fazer os deveres, mas era incrível a ineficácia em me concentrar. Aquele cara não saía da minha mente.
Capitulo dois
Já era quarta feira e estávamos na aula de literatura. Hoje ele estava com um amigo, ambos na primeira fileira. Os dois estavam de preto e não sei por que, começou a me passar na cabeça que eles eram skinheads. Tinham o estilo, pelo menos. Os dois eram bastante fortes, cabelos raspados, eram muitos sérios e tinham tatuagens. Pré-conceito sem fundamento, com certeza. Mas aí o professor me chamou atenção, ele estava falando com aqueles dois.
- Vejam essa revista essa semana! Vocês podem ler na viatura! – e riu.
Viatura? O sinal tocou e eu percebi que eles estavam com camisetas da RONE [N/a: Rondas Ostensivas de Natureza Especial. Subdivisão da Polícia de Choque da Polícia Militar do Paraná]. Eles eram policiais? Eles eram da RONE, cara! Os caras da RONE sempre me chamaram atenção, eles provocam medo por causa do tamanho e porque sempre andam com fuzil, mas também segurança, e eu, pessoalmente, sempre achei muito sexy aquelas fardas. Ok, pare de pensar besteira, .
Já havia passado uma semana. Depois daquela quarta feira eles não tinham aparecido mais na aula. Segunda feira de novo, argh. Resolvi sentar na primeira fileira, do lado deles, eu queria me aproximar daquele tal de .
Não demorou muito e ele chegou. Pulou uma carteira da minha e se sentou, colocando a mochila na carteira entre nós. Era inevitável ficar prestando atenção no que ele fazia. Então, ele tirou uma pistola da bermuda e colocou no meio do casaco, me olhou com uma cara de quem não gostou de alguém ter visto aquela cena, enfiou tudo na mochila e colocou-a entre as pernas dele, no chão. Tive vontade de dizer "hey, olha aqui, eu não vou mexer, beleza?", mas era melhor não falar nada.
Os dias iam passando e eu conseguia falar uma ou outra coisa com ele, nada de importante, sempre algo da matéria, como página de exercícios ou qual exercício o professor estava fazendo. Mas era alguma coisa, não?
Depois de um tempo, eu conversava com ele e ele era incrível. Droga, eu me apaixonei por ele. Ele era lindo, simpático, inteligente, engraçado, sério... Ele era tudo que um dia eu imaginei em um cara perfeito pra mim. Quer mais? Ele tinha um irmão gêmeo, , três minutos mais velho.
Cada dia que passava ele me surpreendia mais. Eu acordava todos os dias feliz e empolgada para chegar ao colégio. Minha mãe brincava "nossa, toda essa produção pra aula?", todo mundo já havia percebido a minha alegria em ir pra aula, eu falava muito dele pra minhas amigas, mas ninguém do colégio, óbvio.
Eu virei amiga também do outro “skinhead", o . Super simpático e gente boa! Eu adorava aqueles dois, eles eram minha alegria matinal! O sempre foi um amigo, o que era o cara dos meus sonhos... Até um dia as coisas começarem a mudar...
Capitulo três
Fazia duas semanas que nenhum dos dois aparecia pra aula. Eu estava preocupada. Eles eram policiais. E se alguma coisa tivesse acontecido com eles? Toda vez que eu pensava nisso me dava vontade de chorar. Sentia-me inútil naquele lugar sem o ao meu lado.
Então, o apareceu. Não sabia se ficava feliz ou mais preocupada ainda. No intervalo, como quem não queria nada, fui perguntar do .
- Oi, . Quanto tempo! – Disse, forçando meu melhor sorriso.
- Oi, ! – Ele sorriu e me deu um abraço apertado.
- Você e o sumiram, o que aconteceu? – Não pude deixar de demonstrar minha preocupação.
- Estava preocupada com a gente, é? – Ele riu e falou num tom brincalhão.
- É sério, , quando somem assim me assustam, poxa. – Respirei fundo e parei, antes que falasse algo que não devia.
- Haha, bonitinha. Eu tava cansado demais pra vir pra aula, sabe? Não sei se você sabe, mas eu trabalho 24x48 horas, é cansativo. E bom, o mudou.
- MUDOU? – Reparei meu tom de voz, respirei fundo e voltei a falar. – Como assim mudou? Mudou pra onde? Por quê? – Estava me esforçando ao máximo pra não parecer desesperada, mas eu estava. E muito.
- Ele saiu da RONE, agora tá no COE. – Falou calmamente, me deixando um pouco mais calma também. [N/a: Comando e Operações Especiais. Outra subdivisão da Polícia de Choque da Polícia Militar do Paraná]
- Ah! Que susto, ! – Dei um tapinha no braço dele e ri nervosa.
- Ele tá trabalhando bastante agora. Tá numa área mais complicada que eu, né?
- Tá fazendo o que agora? Você e ele.
- Eu continuo na RONE. Aquilo de sempre, multidão, confusão, traficantes de drogas... E ele tá na área de seqüestro, bombas, atiradores de elite, tráfico de armas...
- Sério? Eu admiro tanto o trabalho de vocês. É incrível, sabia? Você, ele... Uau, de verdade, eu admiro demais vocês.
- Obrigado, pequena. – Sorriu e me beijou a testa. O sinal tocou e voltamos à aula.
O tempo ia passando, o ia pra aula vez sim, vez não, mas o suficiente pra eu saber que ele estava bem, e mais: estava vivo. A partir daquela conversa com o , eu senti que estava vivendo pra aproveitar cada minuto ao lado do meu soldado. Soldado . Eu queria fazer tudo por ele, ajudá-lo ao máximo. Apesar de ter ficado próxima dele, nunca o toquei. Nunca um abraço ou um beijo de "oi". Aquilo me matava cada vez que o via sorrir pra mim; eu queria, eu precisava demais abraçar aquele cara. Mas nunca senti que pudesse tocar nele.
Capitulo quatro
Mais o tempo passava e eu já estava acostumada com os sumiços dos dois. Lógico que eu ficava preocupada, mas não era mais como antes. Eu, agora, entendia que às vezes eles estavam trabalhando, outras, estavam cansados e só queriam saber de dormir.
Eu tentava ajudá-los no meu máximo. Explicava as matérias, repassava os exercícios, emprestava as minhas anotações... Eu queria que eles se dessem bem.
Já era dia 12 de Maio e o , depois de vários dias, voltou à aula. Quando o vi entrar, meu coração acelerou e eu senti minha boca se torcer num sorriso enorme e involuntário. Ele se sentou ao meu lado e com um sorriso incrível me deu bom dia.
As aulas foram passando e eu não agüentava mais, queria o intervalo. Eu queria poder olhar pra ele, falar com ele. Até que, finalmente, o sinal do intervalo tocou.
- Como está? – me virei pra ele e sorri.
- Cansado e você? – ele deu um sorriso e se virou pra mim.
- Cansada. – ri e aquele silêncio constrangedor tomou conta.
- Hm, me presta sua agenda? – ele finalmente havia quebrado o silêncio.
- Claro. – sorri e peguei-a de dentro da minha mochila, entregando a ele. Ele abriu na parte do calendário e ficou vendo algumas coisas. Depois de um tempo ele me devolveu.
- Obrigado. – sorriu e se ajeitou na carteira, fechando os olhos.
- De nada. – eu queria falar com ele, mas estava tão nervosa...
Abri a agenda, na mesma parte onde ele estava vendo e ele havia marcado o aniversário dele. Sorri, sentindo uma paz incrível, sem deixá-lo perceber nada. De repente, ele levantou e começou a arrumar as coisas.
- Tô indo nessa, preciso dormir. – sorriu, levantou e colocou a mochila nas costas.
- Ah! Tudo bem. Se quiser, eu te empresto as anotações das próximas aulas. – sorri fraco, não queria que ele fosse embora.
- Não precisa, obrigado. – ele sorriu e foi embora.
Aquele sorriso dele tinha sido diferente. Não tem como explicar. Parecia tão sincero. Naquele momento, ele estava olhando dentro dos meus olhos, deu um último sorriso e saiu. Fiquei um tempo naquele transe, até ser "acordada" por me perguntando se estava tudo bem e avisando que a aula estava começando.
No caminho casa-escola-casa, o ônibus passava na frente do Hospital da Polícia Militar, e toda vez que eu olhava aquele lugar, dava uma angústia, uma dor...
Depois de um mês, nem ele ou o apareceram na aula, resolvi ligar pro .
- Alô? Por favor, o ? – testando minha melhor educação ao telefone.
- É ele, pois não? – ele parecia fazer o mesmo.
- ? Oi! É a .
- ? Nossa, oi, pequena! – ele falou empolgado.
- Então, tudo bem? Você e o sumiram de novo, e dessa vez por muito tempo, fiquei preocupada, resolvi ligar...
- Ah, pequena... Aconteceu tanta coisa. – ele pareceu perder a empolgação.
- O que aconteceu? – dei meu melhor pra controlar aquele desespero de novo.
- Nós saímos, não deu mais. Digo, eu saí porque não deu mais. O teve uns problemas e saiu.
- Problemas? – aquilo estava me deixando tão mal.
- É. No trabalho. Ele foi baleado, estava no hospital. – ele parecia escolher as palavras com cuidado.
- C-c-como assim? – minha voz estava falhada e meus olhos cheios de lágrimas, não agüentei e me derramei em choro. Ele percebeu.
- Calma . Tá tudo bem agora. Ele está em casa já. Não chora, pequena. – eu sentia o nervosismo dele na voz, quase me implorando pra não chorar.
- COMO CALMA? O FOI BALEADO E VOCÊ ME PEDE CALMA? – eu estava realmente desesperada e não me importava que o percebesse isso.
- Ele está bem! Teve que fazer uma cirurgia, mas já está em casa. – ele tentava me acalmar.
- Vocês não voltam? – não conseguia segurar o choro.
- Não, pequena, desculpa. – ele falou chateado.
- Nem o ? – eu precisava vê-lo outra vez.
- Não. – ele respirou fundo e continuou. – Nenhum de nós.
- Ah, tá bem, então. Só liguei pra saber se estava tudo bem. Então, obrigada. – desliguei o telefone sem que ele tivesse tempo de me responder.
Fui para o meu quarto e agarrei com todas as minhas forças meu ursinho e chorei, chorei mais do que qualquer outra vez na vida. Nunca me senti tão desamparada, tão frágil, tão triste, tão desesperada, tão... insegura. Comecei a olhar a foto do em meu celular e me lembrei do que eu sentia quando passava na frente do Hospital da PM. Aquilo era um aviso. Meu coração, de alguma forma, sabia que ele estava lá e eu não soube entender.
Aquele sorriso, aquele último sorriso dele pra mim... se eu soubesse que era o último, se eu soubesse que era a última vez que eu estava vendo meu soldado... Eu queria poder mudar o que aconteceu, poder ter tido coragem e ter abraçado o meu , mas eu não tive, eu fui covarde, tive medo da reação dele. E agora? Agora, eu estou sem ele e talvez nunca mais o veja. Agora, eu rezo todas as noites por ele, pra que Deus o proteja, que nada de ruim aconteça com o meu anjinho, porque agora, eu não o tenho mais por perto.
"The world would be a lonely place without the one that puts a smile on your face…"

