Pressure

Autora: Larissa P.
Status: Em Andamento
Revisada por: Juh
Categoria: McFLY Fics
Sub-Categoria: Romântica/Drama - LongFic
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Sentada numa cadeira de hospital, que não me trazia boas lembranças. Segurava a mão dele, do meu garoto, deitado ali ao meu lado, imóvel. Por dias essa era a minha rotina, de casa para o trabalho, do trabalho para o hospital. Não hesitava em deixá-lo ali sozinho por um dia se quer, era como se uma parte de mim estivesse ali deitada naquela cama.
Seus olhos estavam fechados e um sorriso fraco estampava seu rosto, devido aos carinhos que fazia na sua mão. Essa era a única maneira de fazê-lo esboçar algum tipo de reação. Seu peito subia e descia lentamente, o que me acalmava, ter a certeza de que o meu garoto respirava.
As noites mal dormidas, agora refletiam no meu rosto, grandes olheiras e uma pele pálida compunham a minha face. Meu desempenho no trabalho já não era o mesmo, a minha cabeça não se atrevia a pensar em nada, a não ser naquele garoto.
Eu não aguentava mais tantas perguntas, tantas incertezas, não aguentava mais aquela rotina que estava acabando comigo. Minha vontade era de sumir, fugir dali e não ter que tomar aquela decisão. Queria voltar à minha velha rotina, queria que nada daquilo tivesse acontecido.
Em poucos minutos, o médico entraria por aquela porta e eu teria que decidir, teria que escolher entre o amor da minha vida e a minha própria vida.

Capítulo 1

Acordei numa segunda-feira com uma dor de cabeça insuportável, sentei na cama e coloquei a mão na testa, sentia-a latejar. Olhei para a janela e alguns raios de sol invadiam o quarto através da cortina. Deduzi ser por volta de 6h30. Voltei a deitar, fechei os olhos, mas permaneci acordada, ainda teria 30 minutos até o despertador começar a apitar. Sentindo que a dor não passaria tão rápido, levantei e fui até a cozinha, precisava de um remédio. Procurei por dentro dos armários e achei uma cartela laranja, achei o que precisava. Me servi um copo d’água e tomei o comprimido. Assim que larguei o copo na pia, o telefone começou a tocar. Bufei e lentamente fui até a sala. Ao tirar o telefone do gancho, uma voz masculina desconhecida invadiu meus ouvidos.
- ? – a voz do outro lado da linha parecia nervosa e ansiosa ao mesmo tempo. Não o via, mas tinha a sensação que ele tremia.
- Sim, quem é? – tentei parecer fria, por mais que a minha vontade era de enchê-lo de perguntas.
- Acho que você não lembra de mim, éramos amigos quando crianças, - foi só ele voltar a falar que o meu coração disparou. Agora minha cabeça girava em meio a tantas dúvidas. Com quem eu estaria falando? Como tinha meu número? O que ele queria? – estudamos juntos, até você se mudar e perdermos completamente o contato. – Automaticamente minha cabeça começou a voltar no tempo e as lembranças da minha infância invadiram a minha mente.
Antes de me mudar para Londres, eu morava em Leicester com meus pais, mas quando eu tinha 12 anos, minha mãe descobriu uma grave doença e acabou não resistindo. Meu pai, então, me arrastou com ele para Londres e fui privada de qualquer contato com a minha cidade natal. Meu pai dizia que me traria lembranças ruins e seria melhor assim.
Até hoje desconfio que, com a morte da minha mãe, meu pai ficara louco, mas ele negava e resistia às minhas tentativas de levá-lo a um especialista.
- Desculpe, mas eu realmente não me lembro de você. Qual é o seu nome? – tentei, mais uma vez, parecer calma diante daquela situação e assim que terminei a pergunta, meu coração disparou. O garoto hesitou para responder, o que me deixou mais ansiosa. Sentia que a qualquer momento meu coração sairia pela boca. Respirei fundo, a fim de me acalmar, o que era impossível naquela hora, mas eu precisava tentar. Finalmente pude ouvir um sinal de vida no outro lado da linha.
- Hum... . – ao ouvir isso, meus olhos se arregalaram e a minha boca se abriu, típico sinal da minha surpresa. Ouvir aquele nome foi um grande choque pra mim, nem precisei ouvir o sobrenome para saber de quem se tratava. – , agora se lembra? – seu tom ainda era o mesmo, só que agora um pouco mais calmo. Me sentei no sofá e por várias vezes abri e fechei a boca. Não conseguia dizer nada, era como se naquele momento eu tivesse perdido a fala. Fazia muito tempo que eu não ouvia esse nome, que não tinha notícias, por vezes chegava a esquecê-lo. A única pessoa que me fazia lembrá-lo era meu pai, que diariamente me lembrava do meu melhor amigo em Leicester, mas agora ele deve estar pelo mundo, viajando com uma vadia qualquer, depois de ter me abandonado. – ? – depois de um tempo de silêncio, quebrou o gelo e eu já conseguia falar.
- Nossa, ... Quanto tempo! – mal conseguia pronunciar o seu nome, tamanha era a minha surpresa. Senti uma pontada de tristeza, já que a ligação de me fez lembrar da fase em que eu mais sofri na vida, a morte da minha mãe, junto com a partida de Leicester. Eu lutava para esquecê-la ou pelo menos não lembrar.
- É, eu sei. – percebeu a tristeza em minha voz e agora aparentava sentir o mesmo que eu. Sua frase saiu como um sussurro. Neste momento pude ouvir uma voz ao fundo, mas não consegui distinguir se era masculina ou feminina. logo voltou a falar e dispersou meus pensamentos. – Mas eu vou ser rápido. , eu preciso te encontrar. Eu sei que você está confusa e tudo mais, mas eu preciso te ver e te fazer um pedido, por favor, eu estou em Londres... – ele pareceu lembrar-se do propósito da ligação e agora falava rapidamente; acredito que, ansioso pela resposta. Franzi o cenho, parecia ser urgente e mais uma vez, minha cabeça mergulhava num mar de dúvidas. Aquilo já era demais para mim, sem pensar duas vezes, decidi aceitar e antes que ele continuasse, me pronunciei.
- Ok, me encontre na Starbucks, ao meio dia. – podia ser perigoso, mas não me importei, eu precisava responder a todas aquelas dúvidas dentro de mim.
Já me levantara para desligar o telefone, mas fui interrompida.
- Tudo bem. E, ? – murmurei algo para que ele prosseguisse e ele entendeu o recado. – Eu sinto sua falta.
Depois de ouvir a última frase, meus olhos se encheram de lágrimas e mais uma vez não consegui dizer nada. Ele disse num tom tão doce e sincero, realmente sentia a minha falta como eu sentia a falta dele.
sempre fora a minha paixão, desde criança, quando ele entrou na minha escola e éramos coleguinhas. Sempre nos demos muito bem, mas não passamos da amizade. Eu escondia a minha paixão secreta por ele e aceitava ser apenas sua amiga. Talvez era somente isso que eu significasse para ele, uma amiga.
Agradeci mentalmente ao ouvir que ele desligara o telefone e eu não precisei responder. Fiquei alguns segundos com o telefone no ouvido, apenas tentando lembrar a fisionomia do garoto. Deus, eu me lembrava. E como era bonito.
Coloquei o telefone no gancho e me sentei novamente. Tapei o rosto com as mãos e não contive as lágrimas, que agora rolavam no meu rosto. Há quanto tempo não ouvia aquela voz, há quanto tempo não o via, há quanto tempo meu coração sofria por não tê-lo por perto. E agora ele aparece e faz todo esse mistério, eu não sei o que pensar, não sei o que está por trás de tudo isso, só sei que a saudade está falando mais alto e agora, mais do que nunca, quero encontrá-lo. Encontrar o meu garoto, .

Capítulo 2

Cheguei à empresa meia hora atrasada. Depois daquela ligação a minha dor de cabeça voltara e eu já não conseguia assimilar os fatos. Precisei de um tempo até organizar minha cabeça e lembrar que eu tenho um emprego e, principalmente, minha vida depende desse emprego.
Desci do carro e adentrei na empresa. Subi pelo elevador e me dirigi até o meu escritório. Abri a porta e me encontrei com uma completamente impaciente.
é a minha melhor amiga, ou a minha única amiga, como quiserem. Quando cheguei em Londres, não me dei muito bem na escola, em todos os sentidos. Minhas notas baixaram, meu comportamento era péssimo e meus novos colegas, conseqüentemente, tinham medo de se aproximar.
Depois que a minha mãe morreu, meu mundo se fechou e eu me isolei do mundo. A única que foi capaz de penetrar na bolha em que eu estava vivendo foi . Ela foi a única capaz de me fazer sentir melhor, e eu era muito grata à ela por isso. Mesmo quando eu a xingava, dizendo que eu não precisava dela, ela estava ali, ao meu lado. E foi assim que ela conquistou a minha confiança. E hoje eu devo tudo à ela, meu emprego, minha felicidade, minha vida.
tem uma vida perfeita e eu a invejo muito por isso. Tem o namorado mais fofo do mundo, uma estabilidade financeira muito boa e uma família, completa.
Ela e o estão juntos há pouco mais de um ano. E há três meses moram juntos. tem uma banda, o McFLY. Eles estão no começo ainda e procuram por um , mas isso não os impede de fazer shows pela região, os quais eu e sempre estávamos presente, sempre davam um jeito de arranjar um emprestado.
O pai de é o dono da empresa onde trabalhamos e foi graças a ele, que me conseguiu esse emprego, para que eu ajeitasse minha vida.
Assim que me viu, levantou rapidamente e cruzou os braços.

document.write(Larissa), você está atrasada! Você sabe que o meu pai não tolera atrasos, mais 10 minutos e você se ferra. – parou na minha frente e começou a disparar suas palavras. Sua voz parecia cada vez mais longe a cada sílaba que ela pronunciava. Já não prestava atenção, apenas me desviei do seu corpo e fui até minha mesa. Larguei minha bolsa sobre a mesma e me sentei. Voltei a encarar e ela fazia o mesmo em relação a mim. Estava com a sobrancelha arqueada e mantinha os braços cruzados.
odeia ser ignorada, isso a deixa extremamente irritada, mas não era minha culpa, minha cabeça estava girando, várias coisas passavam por ela ao mesmo tempo e eu não conseguia me concentrar.
fez menção de se pronunciar, mas eu fui mais rápida.
- Desculpa, ok? Acordei com dor de cabeça e não foi fácil fazê-la passar. E eu estou aqui, não estou? Seu pai não me viu e eu ainda tenho meu emprego. – relaxei na cadeira e consegui sorrir convincente, pelo menos pareceu acreditar.
- Mas e se ele tivesse aqui e...
- ! – lancei-lhe um olhar sério e sorri. Não estava com cabeça para discutir, muito menos para ouvir seus sermões. Sorri mais ainda ao vê-la sentar-se e dar trégua.
- Tá bom, tá bom. – fez biquinho e eu não me contive, comecei a rir. É muito difícil fazê-la desistir, é uma garota muito orgulhosa, normalmente teria que escutar por minutos seus discursos inacabáveis.
Levantei a cabeça e encontrei o olhar de , que me olhava séria, na mesma hora segurei a risada e procurei algo para que trocássemos de assunto o mais rápido possível, antes que ela começasse a discursar novamente. Felizmente notei que sobre a mesa havia papéis que não estavam ali na última vez que estive no meu escritório.
- E o que são esses papéis? – comecei a folhear os tais papéis. E isso não era fingimento, realmente precisava saber do que se tratava.
- Documentos, contratos, projetos, tudo o que você vai precisar. Os novos clientes estão sobre a sua responsabilidade. – ia me explicando, enquanto eu analisava o projeto. Tratava-se de uma loja de grife e a LDN faria o marketing.
- Ok. E a reunião já foi marcada? – deixei os papéis de lado e abri a gaveta. Tateei um pouco e alcancei minha agenda.
- Amanhã às nove horas e, por favor, não se atrase. – me lançou um olhar advertido e eu assenti. – E nada de sair com o cliente, não é nada profissional . – me advertiu mais uma vez e eu fingi indignacão.
- Eu, ?! Jamais! – me joguei para trás na cadeira e balançou a cabeça negativamente. Nós duas não nos contemos e começamos a rir.

Desde que eu havia começado a trabalhar ali, saí com alguns dos clientes e era obrigada a me acobertar para que seu pai não descobrisse. não gostava nem um pouco disso, por mais que meus relacionamentos não durassem mais do que um mês.
- É muito difícil esconder do meu pai e você sabe muito bem disso. – às vezes agia como minha mãe, sempre me advertindo, tudo bem que eu sou meio inconseqüente e ela a certinha, mas eu tenho 20 anos e posso me cuidar bem.
- Tudo bem, mamãe! – coloquei a mão sobre a testa, imitando um soldado e fiz uma voz manhosa, arrancando risadas de . – Agora sai, eu tenho que trabalhar. – fiz um gesto com a mão para que ela saísse, mas não foi que ela fez. A olhei mais uma vez e ela estava mais próxima, me encarava pensativa, como se tivesse algum assunto sério para tratar comigo e procurasse as palavras certas.
- Foi só dor de cabeça mesmo? – deu mais um passo à frente e me olhava diretamente nos olhos, com um olhar repreensivo. Fiquei sem reação ao ouvir aquela pergunta, automaticamente meus olhos arregalaram e eu não consegui dizer nada, mesmo porque eu não tinha resposta. É incrível como ela sabe quando algo não está certo, não só comigo, com todos que a rodeiam.
percebeu que eu não responderia e continuou.
- Eu liguei várias vezes para a sua casa hoje, antes de você chegar e o telefone estava ocupado. Alguém importante ligou? – continuava me encarando séria e eu ainda tinha uma expressão surpresa. O que dizer agora? Mentir para não é tarefa fácil. E eu não poderia mentir para ela, isso a deixaria muito brava, mas eu não queria contar sobre . Pela primeira vez queria resolver algo sozinha, sem a ajuda dela. Já cansei de contar quantas vezes ela me ajudou, quantas vezes ela tomou as minha dores e agora, mais uma vez eu estava com um problema, e não seria justo com ela, pedir sua ajuda. Optei por não contar, seria o melhor. Caso realmente precisasse, a procuraria, mas por enquanto, trataria disso sozinha.
- Não , tá tudo bem. – sorri sincera, mas não caiu.
- Olha , eu sei que alguma coisa está acontecendo, que você não quer me contar, mas uma hora ou outra você vai ter que desistir e me contar. – falou sinceramente e sorria de uma forma compreensiva. Sorri para ela.
- Eu prefiro que seja outra hora. – suspirei e ela assentiu, levantando-se e indo até a porta. Voltei minha atenção aos papéis à minha frente e ouvi me chamar mais uma vez.
- Almoco no McDonalds? – levantei a cabeça e vi parada na batente da porta. Lembrei do que havia marcado com e neguei.
- Desculpa , já marquei outra coisa. – terminei a frase e rezava mentalmente para que ela não perguntasse do que se tratava. apenas sorriu e fechou a porta.
Suspirei aliviada e mais uma vez voltei minha atenção ao trabalho, ou pelo menos tentei. Não conseguia tirar da minha cabeça, não conseguia parar de imaginar como seria o meu reencontro com ele, como seria revê-lo ou o que aconteceria a partir daquele encontro.

Fiz o que consegui naquela manhã, o que a minha cabeça permitiu. Olhei para o relógio e este marcava 11h45. Ao assimilar o quão próximo estava do encontro com o , meu coração disparou, sentia borboletas no estômago e a minha ansiedade aumentava a cada segundo. Fechei o notebook e guardei minhas coisas na bolsa. Levantei-me e respirei fundo. Sai pela porta e chamei o elevador. Sentia minhas mãos suarem, batia levemente os pés no chão e mordia constantemente meu lábio inferior. A porta do elevador se abriu e rapidamente entrei e apertei o botão da portaria. Em segundos já estava no primeiro andar. Saí pela grande porta de entrada e senti o vento nos meus cabelos. Pude enxergar na minha frente, a Starbucks, onde me encontraria com ele. Caminhei um pouco e cheguei ao local. Pela porta de vidro, procurei o garoto que eu tanto queria. Não o encontrei. Abri a porta e sentei numa mesa próxima da entrada. Olhei no celular, faltavam cinco minutos para o meio dia, respirei fundo. Me ajeitei na cadeira e pude ver que a porta do estabelecimento estava se abrindo. Neste exato momento lágrimas se formaram no meu rosto e eu paralisei, sentia meu coração pulsar tão rápido e tão ferozmente que não demoraria muito para que ele saltasse pela minha boca. Reconheci a figura que se aproximava e apenas acompanhei-o com os olhos. Pude sentir as borboletas no meu estômago dando voltas dentro de mim. Respirei fundo e limpei as lágrimas ao vê-lo sentar-se à minha frente.

Capítulo 3

Abaixei a cabeça e conseguia sentir seu olhar sobre mim. Mirei minhas mãos e observei meus dedos brincarem uns com os outros. Um mundo de sentimentos me dominava naquele momento, era uma mistura de nervosismo, necessidade, medo, vontade. Não tive coragem de olhar em seus olhos, tinha medo de que todos os sentimentos por ele que eu tanto lutei para esquecer voltassem e com eles, a saudade. Sabia que se eu o encarasse não iria conter as lágrimas, toda a força que eu havia conquistado durante esses 8 anos, simplesmente me deixariam e mais uma vez meu mundo desabaria. Mas o que fazer quando ele, o único que é capaz de fazer o meu sofrimento voltar, estava ali, bem na minha frente? E o que fazer com a vontade de vê-lo, de abraçá-lo, de conversar com ele? Isso era muito mais forte que eu e eu precisava disso, precisava dessa droga viciante, precisava me sentir feliz, como eu me sentia com a sua presença, precisava lembrar como era linda a sua voz, seu sorriso, seu olhar, precisava sentir aquela alegria de fazer o coração pulsar rapidamente, que eu só sentia na sua presença.
Em meio aos meus pensamentos, criei coragem, respirei fundo e ergui minha cabeça. Senti um leve sorriso se abrir no meu rosto e pude ver que ele também sorria. Ver o seu sorriso, incrivelmente me acalmou, foi como injetar uma droga e subir aos céus. Meu coração estava disparado e uma felicidade inexplicável tomava conta de mim. Seus olhos miravam os meus e nenhum dos dois fez menção de quebrar o silêncio e eu confesso, não era nem um pouco constrangedor. Pelo contrário, eu me sentia mais confortável não ter que pronunciar nada naquele momento, talvez porque eu não tinha mesmo o que falar ou porque eu estava gostando e aproveitando somente a sua presença, guardando seus traços e comparando com a sua antiga imagem. não havia mudado muito, apenas seu corpo havia tomado uma forma mais definida e máscula. Seu rosto ainda tinha o mesmo desenho, somente mais maduro e o cabelo tinha um corte diferente, mas estava perfeitamente lindo. Seus olhos ainda possuíam um brilho marcante e sua boca ainda despertava o meu desejo. Observar sua face o deixou um pouco envergonhado, senti isso ao perceber que suas bochechas tomaram um tom mais avermelhado.
Chacoalhei a cabeça e sorri pra mim mesma, percebi que passei tempo demais observando seus detalhes e ainda não tínhamos trocado nenhuma palavra. Mais uma vez fitei minhas mãos e pensei no que poderia dizer. Deveria medir as palavras e não parecer feliz ou triste demais. Por mais que fosse meu melhor amigo, havia 8 anos que eu não o via e eu ainda não me sentia à vontade para agir como antigamente. Lembro como éramos apegados, fazíamos praticamente tudo juntos. Tínhamos uma amizade invejável e por mais que meus sentimentos por ele fossem além da amizade, eu conseguia me conter e aceitar. Eu tinha que aceitar, já que eu estava completamente apaixonada por ele e somente de pensar em ficar longe, um nó se formava no meu peito.
O silêncio não foi quebrado nem por mim, nem por ele, mas pelo seu celular. Meus pensamentos foram espantados pelo toque e eu o vi fazer um sinal para esperá-lo e eu o vi se afastar. Senti uma pontada de tristeza por vê-lo um tanto distante, mesmo sabendo que ele foi apenas atender à uma ligação, mas eu tinha um certo receio de perdê-lo novamente. Agora que eu o tinha ali, não queria deixá-lo mais uma vez.
Olhei no meu celular mais uma vez e nem notei o horário, o fiz apenas para disfarçar o nervosismo, já que o olhar de estava sobre mim. Assim que guardei meu aparelho dentro da bolsa, desligou o seu e voltou a se sentar, agora um pouco mais à vontade, o que me deixou mais confortável.
- Desculpe, era importante, tive que atender. – se acomodando na cadeira, fez suas palavras soarem como música em meus ouvidos. Sua voz estava incrivelmente linda, não havia notado tanta suavidade ao telefone. Tentei guardar seu tom de voz, fixei sua calma e paralisei, não consegui pronunciar absolutamente nada, sua voz havia me hipnotizado. Apenas lancei um sorriso sincero e ele assentiu. Olhei para os lados e novamente o silêncio tomou conta da mesa, mas dessa vez não era nada confortável, estava ficando um clima pesado e um tanto estranho. Suspirei ao ver que uma garçonete se aproximava. A moça nos alcançou o cardápio e rapidamente fizemos nossos pedidos. Coincidentemente, ou não, pedimos o mesmo e isso rendeu algumas risadas, o que descontraiu um pouco o ambiente. Novamente foi que se pronunciou primeiro, se bem que eu ainda não havia dito nada.
- É o meu preferido, peço sempre, desde a primeira vez que fomos juntos a Starbucks em Leicester, lembra? – e como esquecer? Lembro-me muito bem, foi no meu aniversário de 12 anos, alguns meses antes de tudo acontecer. Nós estávamos comemorando na cobertura de sua tia, já que as nossas famílias eram bastante unidas. Eu estava na sacada observando o movimento das ruas que era muito diferente da rua onde eu morava e um lugar em especial chamou minha atenção. Era um estabelecimento pequeno, mas muita gente circulava por ali. apareceu do meu lado e eu quis matar a minha dúvida. me explicou e depois acabou me levando ate lá. Pedi o meu Frappuccino de caramelo e pediu o mesmo, para me acompanhar. Foi o melhor café que eu já havia tomado, sem mentira. Depois desse dia, fomos mais uma vez a Starbucks e pedimos o mesmo da primeira vez e pelo jeito, continuou com esse hábito. Diferente de mim, que depois de mudar para Londres, havia ido apenas duas ou três vezes e aproveitei para experimentar novos cafés. Agora eu me pergunto, ele fazia isso apenas para lembrar de mim ou por que havia gostado mesmo? Deixei que um sorriso bobo se formasse em meus lábios e mais uma vez tive vontade de chorar, mas me contive e respondi, não seria nada educado deixá-lo sem uma resposta, de novo.
- Lembro. – continuei com o mesmo sorriso e fechei meus olhos. Deixei que os arrepios da lembrança tomassem conta de mim. – Foi um dos momentos mais felizes antes de tudo... aquilo.
continuou me olhando. Sorria, mas eu podia sentir um tanto de pena em seu olhar. Não gostava quando tinham pena de mim, eu não preciso, me faz sentir-me fraca e fraca é uma coisa que, hoje, eu não sou. Se eu sofri, foi passado e hoje eu sou outra pessoa, aprendi muito com a vida, aprendi do jeito que não deveria, que ninguém deveria, mas dou muito valor e agradeço por ainda ter uma vida e, mais do que isso, uma nova vida.
- Foi difícil, não foi? Admiro muito você por suportar isso. – enquanto falava, vi que suas mãos sobre a mesa se aproximavam das minhas. Senti uma tensão subir em meu peito e fiquei sem reação. Rapidamente tirei minhas mãos dali. Aguentar a pressão da sua presença já estava sendo difícil, sentir o seu toque seria perigoso. Eu sei que seria, sentir todos aqueles calafrios, arrepios, choques elétricos somente pelo toque da sua pele sobre a minha, me despertaria o pior dos sentimentos daquele dia, despertaria algo incontrolável, algo que eu venho necessitando há tempos, algo que só ele é capaz de me proporcionar. Seu toque despertaria meu desejo, o mais profundo dos desejos.
- Foi sim, mas eu não gosto de lembrar e eu não gosto que tenham pena de mim. – novamente fitando minhas mãos sobre o colo, falei num tom baixo. A tensão dentro de mim aumentava a cada segundo e eu me sentia sufocada.
- Desculpe , tá tudo bem? – sua voz estava tão calma, tão serena. Ouvi-la assim piorou minha situação e eu sentia que não conteria as lágrimas. Aquilo era demais pra mim, a falta que faz em minha vida estava me corroendo por dentro. Parecia que meu coração estava sendo esmagado e a minha cabeça iria explodir.
- Desculpa, isso não tá certo. Me liga... hm, daqui alguns dias. – dito isso, levantei-me rapidamente e corri ate a porta. Agora grandes lágrimas rolavam sobre o meu rosto e eu sentia meu corpo estremecer. Atravessei a rua correndo e não vi nada, apenas ouvi alguns gritos de motoristas que foram obrigados a frear bruscamente, antes que me atropelassem. Não me importei, continuei correndo. Cheguei ao prédio da empresa completamente arrasada. Não queria que ninguém me visse naquele estado, chamei o elevador e nada. Olhei para as escadas e correndo, subi os intermináveis degraus. Rapidamente avistei meu escritório e para minha sorte não estava por ali. Entrei na pequena sala e tranquei a porta atrás de mim. Deslizei ate o chão e deixei que toda a tensão, todo o nervosismo, fossem levados junto com as lágrimas. Altos soluços ecoavam pelo local, mas eu não me importava.

Capítulo 4

Ainda sentada no chão, senti minha bolsa vibrar. Rapidamente enxuguei algumas lágrimas e respirei fundo. No visor: . Ótimo, a última coisa que eu queria nesse momento era uma ligação de , mas eu conheço muito bem a minha amiga pra saber que se eu recusasse essa chamada ela me perseguiria até descobrir o motivo.
Atendi e tentei disfarçar a voz de choro. Mal disse “Alô” e disparou suas palavras:
- , o que aconteceu? Onde você está? falava rapidamente e mal dava pra entender suas palavras. Ela sabia o que havia acontecido. Mas como? Estou começando a duvidar da humanidade dessa mulher.
- , por favor, se acalma. Eu to bem, estou aqui no meu escritório, ok? – com a voz ainda um pouco rouca, disse calmamente tentando parecer o mais normal possível. O problema é que eu estava falando com a e é impossível esconder algo dela, se fosse qualquer outra pessoa, seria muito mais fácil.
- Me diz o que aconteceu. Meu pai disse que viu você entrar na empresa correndo e parecia estar chorando. Você sabe que eu me preocupo com você, pode me contar. parecia um pouco mais calma e transparecia preocupação em sua voz. Ouvir suas palavras confortantes me deixou um tanto mais feliz em saber que alguém ainda se importava comigo. Sabendo que não conseguiria esconder nem mais um dia a história de e precisando desabafar, apenas quatro palavras foram o suficiente.
- Vem pra cá agora.
Encostei minha cabeça na parede e novamente as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto. As lembranças da minha infância, meu pai, minha mãe, , tudo estava passando em rápidos flashes pela minha mente e era impossível conter qualquer tipo de tristeza.
A minha principal lembrança era de quando meu pai me abandonara. Até hoje eu não sei o motivo, eu e meu pai estávamos lidando bem com a morte da minha mãe, ela fazia muita falta, claro, mas nós conseguíamos viver tranquilamente. Meu pai estava se dando muito bem no papel de pai e mãe, me educou bem, foi um pai presente, tínhamos uma estabilidade financeira boa, eu realmente não entendo o porquê do abandono. Eu simplesmente acordei, cumpri toda a minha rotina matinal e na hora do café da manhã me deparo com um bilhete na geladeira.

Flashback

Lembro muito bem do dia, era uma terça-feira e o dia estava lindo, o sol estava brilhando e nenhuma nuvem se encontrava no céu, o que era difícil no clima de Londres. Tudo para ser um dia perfeito.
No bilhete escrito rapidamente, creio eu a julgar pela letra, poucas palavras, que fizeram o meu mundo desmoronar, mais uma vez.

“Espero que um dia venha a me desculpar, eu sei que você vai ficar bem, confio em você. Eu sei que seu futuro promete, você é talentosa. Mil perdões. Adeus, Papai Xx”

“O quê?” foi a única coisa que eu consegui pronunciar. Joguei o bilhete no chão e com as minhas pernas bambas e o resto do corpo tremendo, corri pela casa gritando pelo meu pai, mas não obtive resposta. Subi as escadas, olhei quarto por quarto, nos banheiros, armários, embaixo da cama... Não queria acreditar naquilo, não queria imaginar a minha vida depois daquilo. Eu só queria meu pai, queria que tudo fosse uma brincadeira, que segundos depois, as câmeras e o apresentador adentrassem a minha casa e anunciassem que eu havia sido pega, que eu iria ganhar uma bolada em dinheiro, sei lá, só queria que nada daquilo fosse verdade. Novamente desci as escadas, sentei no sofá e comecei a pensar na minha vida a partir de então. O que eu faria? Como sobreviveria? Eu tinha apenas 16 anos, era dependente, precisava dos meus pais, mas infelizmente não podia contar com nenhum dos dois.
Eu não conseguia controlar os soluços e as lágrimas, eu não tinha mais controle sobre mim. Abracei uma almofada e deitei ali mesmo. Deixei que as lágrimas inundassem o meu rosto, minhas roupas, o sofá... Não me importava. Passei a manhã inteira naquele estado, meu rosto já devia estar num estado deplorável, levantei e novamente andei pela casa inteira. Por mais que meu pai trabalhasse bastante e eu passasse a maior parte do dia sozinha, aquela casa estava vazia demais, mais do que o normal.
A cada cômodo que eu passava, eu lembrava de algum momento com meu pai, as brincadeiras, as risadas, os carinhos e mesmo triste, eu não deixava de sorrir, meu pai era minha maior alegria.
Entrei no meu quarto e deitei na minha cama, fiquei estática olhando para o teto, pensando em nada. Eu estava serena e fria, é... fria.
Depois do desespero, da tristeza, o sentimento que me dominava agora era a raiva. Por que ele havia feito isso, por que havia me deixado, e como quer que eu o perdoe? Senti minha mão cerrar involuntariamente. Naquele momento eu poderia destruir tudo o que aparecesse, tamanha era minha força e raiva, mas eu permaneci no mesmo lugar, respirei fundo e tentei me acalmar. Seja qual for o motivo do abandono, eu não iria acabar mais ainda com a minha vida. Fechei os olhos e me levantei, sentei na minha cama e passei as mãos sobre o meu rosto. Eu precisava dar um jeito nessa situação.
Para a minha sorte eu tinha uma melhor amiga e tanto, que não importava para o que, ela estaria pronta pra ajudar. E ela sempre sabe o momento exato. O telefone começou a tocar e eu senti que era , não esperei muito pra atender.
- ? Por que não foi na aula? – eu pensei que eu poderia ser forte, mas eu me enganei. Me senti fraca novamente e não consegui responder nada. Eu não conseguia pronunciar o motivo da minha falta à escola, não conseguia pronunciar qualquer palavra. Tentei conter o choro, mas não fui capaz. – ?
Sentindo que toda a minha tristeza voltaria, desliguei o telefone e me joguei na cama. Chorei mais uma vez e nisso, cai no sono.

Acordei com a campainha tocando loucamente, pulei da cama. Chacoalhei a cabeça e lembrei do que havia acontecido anteriormente. Busquei forças para poder caminhar, só então que eu desci as escadas e cheguei à porta. Pelo olho mágico pude ver . Ela estava ansiosa, nervosa, talvez até mais tensa que eu.
Abri a porta e ela praticamente pulou em mim.
- , como você tá? Tá inteira? – ia tateando meus ombros, rosto e braços. – Oh! Que bom. O que aconteceu? – depois de conferir cada parte do meu corpo e concluir que eu estava inteira, se afastou e me olhou de baixo a cima, tenho que admitir, meu estado era deplorável. – Menina! Você tá um lixo! – a cara da minha amiga, agora, era de espanto.
Mais uma vez não disse nada, fui até a cozinha e juntei o bilhete jogado no chão, o entreguei para , que no mesmo instante começou a ler e a mudar sua expressão para algo confuso.
Depois de algum tempo em silêncio, pareceu entender e me abraçou. Me abraçou forte e carinhosamente. Fora tudo o que eu precisava naquele momento, um sincero abraço.

Flashback off

Desde então eu fui morar com e sua família. No início me senti uma intrusa, mas com o tempo fui me adaptando e a cada dia que passava, me considerava mais um membro da família . Desde o primeiro dia eles tiveram a intenção de que eu me sentisse assim, mas a minha cabeça não permitia. Logo que me mudei, o Sr. me conseguiu um estágio na sua empresa e mais uma vez, recomecei minha vida. Eu cheguei a cogitar a idéia de voltar a Liecester, mas além de , que me impediu, eu já tinha reconstruído toda a minha vida em Londres, ali eu já tinha uma base, por mais que eu estivesse sendo obrigada a me reconstruir, em Liecester seria muito mais difícil.
E a minha casa? Bom, ela está intacta, a deixei exatamente como estava no meu último dia lá dentro, tudo no devido lugar e trancada. Não queria que ninguém “invadisse” o lugar onde eu e meu pai reconstruímos nossa vida, não queria que ninguém de certa forma apagasse as lembranças marcadas em cada parede, por isso a minha primeira decisão de mulher independente foi não alugar a casa e sim, trancá-la. Às vezes, na volta do trabalho eu faço uma rápida visita ao meu antigo lar, rápida pra não cair no mar de lembranças e jogar fora toda a força que eu conquistei, apenas vou até lá pra matar a saudade.
Então quando eu fiz 18 anos e a minha independência já era oficial, eu me mudei para o meu próprio apartamento, foi a realização de um sonho, na verdade, um novo sonho. Era um apartamento pequeno, lembro muito bem dele, mas era perfeito pra mim, era a minha cara. Simples e confortável, era o meu lar. A minha maior realização foi tê-lo comprado com meu próprio dinheiro, claro que o Sr. me ajudou com um empréstimo, mas eu fiz questão, mesmo contra a sua vontade de pagar cada centavo.
E essa é minha memória mais recente, é essa memória que sempre me atormenta nos meus momentos de tristeza.

Batidas rápidas na porta me tiraram do transe, comecei a enxugar com pressa as lágrimas e me levantei. Assim que abri a porta, me abraçou, não disse nada, apenas jogou seus braços sobre mim e ficamos assim por um tempo. E mais uma vez não pude controlar minhas lágrimas.
- Como você está? – se afastou e me encarou. Eu podia sentir a preocupação em sua voz. Respirei fundo e não respondi a sua pergunta, apenas comecei a narrar os fatos.
- Foi assim, eu nunca entrei em detalhes sobre o meu passado, mas agora eu sou obrigada, a minha maior lembrança acabou de voltar... – eu ia contando tudo, desde que me apaixonei por até o ocorrido mais cedo. apenas me encarava e assentia, mas eu sabia que ela estava me entendendo e principalmente, pronta pra me ajudar. Assim que eu terminei, foi sua vez de se pronunciar.
- Liga pra ele. – me assustei com as palavras de , foram firmes e decididas. Não esperava essa reação, esperava que ela desse um de seus famosos discursos de como eu fui burra de ter saído correndo da Starbucks e tudo mais. Não disse nada, apenas a encarei assustada e ela complementou. – , eu sei que é isso que você quer, você só ficou confusa. Eu pude sentir nas suas palavras que você ainda o ama, dê uma chance pra si mesma.
- Mas eu nem sei o número dele. – ri irônica e permaneceu séria. Voltei à seriedade.
- O seu telefone tem identificador de chamada, não tem? Pega o número dele e liga, simples. Vamos na sua casa agora e resolvemos isso.
- Mas e o trabalho?
- Eu falo com meu pai depois, agora vem. – Por fim, saí do meu escritório praticamente arrastada por . Ela dirigiu até o meu prédio e em pouco tempo eu já estava na frente do telefone, observada por .
Disquei o número e meu coração disparou, pensei em desligar, mas não o fiz, me encarava séria e eu tenho certeza que ela me mataria se eu o fizesse.
Quando eu ouvi que do outro lado da linha alguém atendera o telefone, todo meu corpo estremeceu. Busquei forças pra continuar ali e me sentei rapidamente.
- Alô? – uma voz feminina invadiu os meus ouvidos e automaticamente, coloquei o telefone de volta no gancho. Foi tudo muito rápido, nem ao menos deu tempo de medir meus atos. Olhei para apavorada e me joguei em seus braços.
Então é isso, ele tem outra. Ele só veio até mim, pela minha amizade mesmo, como eu fui burra em pensar que teria uma chance. Como eu fui burra por me deixar levar por esse sentimento.
, sem entender, apenas retribuiu o abraço e deixava que eu molhasse sua blusa com as minhas grossas lágrimas.



CONTINUA


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