She is Love
Autora: Nanda Sardinha
Status: Em Andamento
Revisada por: Luiza Caminada
Categoria: McFly Fics
Sub-Categoria: Romance / Medium Fic
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Capítulo 1 – A garota da sombrinha vermelha
Meu nome é . Sou casado com a e sou pai da e do . É pela que estou escrevendo isso. Ela tem um trabalho de escola em uma tal de semana romântica em que tem que contar uma história de amor real. Bom, eu me pergunto por que uma garota de nove anos tem que ficar pensando em romance quando na verdade os professores deviam estar ensinando gramática, geografia, matemática e essas coisas. Se bem que a falou que sonhava com o príncipe encantado desde que ganhou a primeira Barbie. Pois assim como a Barbie precisava do Ken (e não só de roupas) para ser feliz, ela também precisava de um Ken pra ela. E muito melhor que um Ken, ela ganhou um .
Voltando ao foco, a precisa fazer uma redação contando nossa história. E para ajudá-la, eu resolvi escrever um rascunho, contando alguns momentos meus ao lado da . Se eu realmente fosse contar tudo, escreveria vários livros. Apenas um dia ao lado da não cabe em uma redação. Então vou contar apenas alguns fatos.
O primeiro deles, é claro que vai ser a primeira vez que eu vi minha esposa. Foi no meu 2º ano de faculdade. Eu cursava direito.
14 de Agosto de 1993
Mais uma vez o professor passava do horário. Já eram dez e vinte da noite e caía uma chuva forte. Ajeitei o casaco e peguei o guarda-chuva. Teria que andar meia hora para atravessar o campus e chegar em minha casa. Eu caminhava com passos rápidos apertando o casaco contra o corpo e equilibrando o guarda-chuva, e sabia que meu nariz devia estar vermelho devido ao frio cortante que fazia. Eu resmungava o fato de que provavelmente ficaria resfriado mais uma vez, quando avistei uma garota com uma sobrinha vermelha fluorescente. Ela caminhava lentamente carregando a sombrinha de forma meio desajeitada, pois esta tombava às vezes permitindo que alguns pingos de chuva atingissem a garota.
No meio de tantas pessoas apressadas, ela andava despreocupada aproveitando a chuva e, para minha surpresa, ela começou a fazer passinhos de dança. As pessoas seguiam seus rumos e ninguém além de mim parecia prestar atenção naquela garota. Desacelerei o ritmo e pude reparar em suas roupas. Ela usava uma calça jeans, um moletom preto, All Stars que já deviam estar completamente encharcados e um cachecol vermelho, cuja ponta voava com o vento. Eu perdi a noção do tempo observando aquela garota que arriscava passinhos de dança. Quando ela girou em volta de um poste, percebi o que fazia. Ela estava tentando imitar Gene Kelly em “Cantando na chuva”. Sorri ao perceber isso.
Numa chuva forte como aquela, apenas dois tipos de pessoas fariam aquilo: malucos ou pessoas felizes. Preferi acreditar na segunda opção. Ela parou por um instante, tirando algo da bolsa, que logo percebi ser um celular. Depois de um tempo, ela o guardou de novo na bolsa e acelerou o ritmo. Tentei apertar o passo, mas já tinha perdido a menina de vista.
Pensei em andar um pouco mais rápido, mas desisti. O louco seria eu de simplesmente seguir aquela garota. A garota da sombrinha vermelha fluorescente.
É obvio que a garota da sombrinha vermelha era a . Ela sempre foi meio maluca, extremamente feliz e apaixonada por musicais. Também é obvio que eu a vi de novo. Lembro-me que ao voltar da aula no dia seguinte, eu ficava olhando entre as pessoas procurando por ela. Não estava chovendo e eu não poderia simplesmente procurar uma sombrinha vermelha. Seu rosto eu tinha visto rapidamente, quando ela tinha rodado em volta do poste. Eu já estava saindo do campus quando ouvi o barulho de uma manada de antílopes se aproximando. Quando me virei, era ela tentando equilibrar alguns livros enquanto corria. Ela passou rápida por mim e logo desapareceu entre as pessoas em minha frente.
Você deve estar pensando em como eu sou exagerado por dizer que o barulho dela correndo parecia uma manada de antílopes, mas essa é a verdade. A não anda, marcha. Principalmente quando está com pressa. Eu sempre falo que ela tem a delicadeza de um hipopótamo. Eu e as crianças sempre sabemos quando ela chega em casa, com passos fortes no chão, batendo portas, derrubando coisas...
Voltando à história, eu fiquei feliz de ver a garota da sombrinha vermelha. Mas eu realmente queria conhecer aquela maluca. E no dia seguinte eu tive essa oportunidade.
Capítulo 2 – Encontro na BBT
16 de Agosto de 1993
Depois do almoço, eu andava preguiçosamente em direção à biblioteca. Teria que tirar cópias de alguns textos pra aula do dia seguinte e uma chuvinha fina me desanimava. Subi as escadas em direção ao andar da copiadora e eu tinha certeza que estaria lotado. Dito e feito. Havia uma fila enorme, mas decidi esperar. Não havia passado nem três minutos que eu estava parado na fila e a garota na minha frente se virou rápido. Ela não devia ter notado a minha chegada, pois se virou caindo em cima de mim. Tenho sorte de ter bons reflexos e logo a segurei pela cintura e ela se apoiou em meus ombros. Quando nossos olhos se encontraram percebi que eu já tinha visto aquela menina.
Ela me olhava com os olhos arregalados. Parecia que ainda não estava muito certa do que tinha acontecido, mas logo despertou envergonhada e, pedindo desculpas, desceu as escadas correndo. Ouvi um barulho e vi uma sombrinha vermelha fluorescente caída no chão. Na pressa, ela tinha esquecido. Imediatamente me lembrei de onde a conhecia. Peguei a sombrinha e desci as escadas a fim de encontrá-la. Não foi difícil, pois ela estava sentada na escada da entrada principal dando tapas na testa e se chamando de idiota. Segurei o riso e cheguei perto.
- Oi?
- Oi – ela olhou pra mim e ficou vermelha – Me desculpa por ter caído em cima de você. Eu sou meio desastrada e sempre acontecem acidentes comigo.
- Está tudo bem – eu disse sorrindo – Você deixou cair – disse entregando a sombrinha.
- Obrigada.
- Você precisa dela para os seus números musicais – eu disse sorrindo, me lembrando da cena.
- Números musicais? – ela perguntou confusa.
- Anteontem eu te vi dançando.
- Você viu aquilo? – ela perguntou, e eu confirmei balançando a cabeça – Que vergonha! – ela tampou o rosto com a mão.
- Não precisa ficar envergonhada. Você dança bem e fez uns passinhos iguais aos do Gene Kelly. – eu disse rindo e ela deu uma risada.
- Isso que dá ficar de maluquices no campus. Agora já estou até sendo reconhecida como a louca da universidade.
- Nem foi tanta maluquice assim. Foi até bonitinho – eu disse e ela riu mais ainda. Ela tinha uma risada escandalosa e engraçada. – Meu nome é – eu disse estendendo a mão.
- – ela apertou minha mão, sorrindo.
Nossa primeira conversa. Lembro dela bastante envergonhada. Anos depois, ela confessou que o motivo de tanta vergonha nem era o fato de ter caído em cima de mim, mas principalmente por eu ser um gatão. Eu não sou convencido, estou apenas usando as palavras dela. Bom, eu e ficamos amigos depois desse episódio na biblioteca. Naquele mesmo dia, saímos pra lanchar no intervalo entre nossas aulas. Viramos grandes amigos e saíamos juntos, conversávamos bastante e nos divertíamos. Lembro da vez que eu comprei um bichinho de pelúcia pra ela.
A gente se conhecia há uns seis meses. Nós estávamos sentados no gramado do campus conversando e ela me pediu um bichinho de pelúcia, pois o dia dos namorados estava chegando e por ela não ter namorado, tinha que ganhar presente do amigo pra se sentir menos deprimida. Ela também é muito dramática. Eu comprei um bichinho de pelúcia, o único problema é que eu ainda não conhecia todas as fobias dela.
Capítulo 3 – Ovelhas
12 de Fevereiro de 1994
Era sábado e eu fui visitar pra entregar o presente. Toquei o interfone algumas vezes antes de ser atendido porque, provavelmente, estava ouvindo música no volume máximo. Rachel, amiga de , que morava com ela, foi quem abriu a porta pra mim. Tenho certeza que na época, a Rachel tinha uma queda pro mim, é que às vezes ela me olhava como um pedaço de carne na galedeira. Rachel me disse que a estava lavando o banheiro e eu devia ir lá pra ver uma cena muito cômica. Eu achei que a cena cômica seria simplesmente da lavando o banheiro, mas ao chegar na porta eu a vi usando o cabo da vassoura como microfone e cantando 'Jailhouse Rock' do Elvis. Depois ela começou a usar a vassoura como guitarra.
Ela gritava se achando a rainha do rock. Esqueci de mencionar o fato de que a não é muito afinada, mas adora cantar. Quando ela se virou e me viu...
- Ahhhh! – deu um grito e acabou escorregando, já que o chão estava cheio de sabão. Ela caiu de bunda no chão e começou a dar risada.
- , você está bem? – disse, indo levantá-la.
- Estou sim, . Você que não deve estar. - ela disse enquanto eu a puxava pela mão – Não ficou traumatizado com a minha cantoria? – Ela disse, me fazendo rir.
- Idiota.
- Vai lá pra sala que eu vou terminar aqui e já vou. – Ela disse, secando as lágrimas. Quando ria demais ela começava a chorar.
Fui pra sala e já me joguei no sofá. O sofá mais confortável. O melhor sofá de todos. Às vezes eu tinha vontade de roubar o sofá da . Fiquei assistindo qualquer coisa até que apareceu na sala.
- Montinho! – ela gritou, e pulou em cima de mim. Só que ela acabou caindo no chão e me puxou junto. Nós dois começamos a rir.
- Morri – Ela falou rindo.
- Culpa sua, – Eu já gargalhava.
- ...
- Oi?
- Você está me esmagando.
- Ah, desculpa – Me levantei puxando-a.
- Trouxe o meu presente? – disse, se sentando no sofá.
- Trouxe sim, sua chata. – disse entregando o embrulho pra ela. Quando viu o bichinho de pelúcia, ela fez uma cara assustada.
- , você me deu uma ovelha de pelúcia de presente? – Ela parecia não estar acreditando naquilo.
- Isso. Segundo a dona da loja, ela é fofinha principalmente com os olhinhos vesgos.
- , eu morro de medo de ovelhas.
- Eu pensei que você tivesse medo de gatos.
- E de ovelhas!
- Medo de ovelhas? O que as pobres ovelhas fizeram com você?
- Pobres ovelhas? Ovelhas são seres canibais que se matam e depois colocam a culpa nos lobos.
- Isso não faz sentido e você é maluca. Mas desculpa, se você tem medo eu vou lá trocar.
- Não! De jeito nenhum. – disse e pegou a ovelha guardando dentro do embrulho – Eu vou guardar pra te lembrar o resto da vida que o primeiro presente que me deu foi uma ovelha de pelúcia.
- , você é muito maquiavélica.
- Eu vou guardar e agora você vai ter que me comprar outro presente.
- Não era minha obrigação te dar presente.
- Mas vai ter que comprar outro. Você tem sorte de eu não te cobrar as sessões no psicólogo pra curar o meu trauma de ver uma ovelha vesga – Ela disse, e nós dois rimos.
Ela realmente guardou a ovelha. A ovelha de pelúcia agora é da . Quando a ela tinha uns cinco anos, achou a ovelha e se apossou dela. detestava o fato de ir ao quarto de e dar de cara com a ovelha, mas hoje acho que ela até se acostumou.
Vamos deixar a ovelha de lado. Voltemos à minha amizade com a .
Quando eu estava com ela, era ótimo e eu me sentia completamente feliz. Ela era divertida e estava lá por mim quando as coisas iam mal. se preocupava bastante comigo e demonstrava carinho por mim em cada pequena coisa e eu só queria cuidar dela, e protegê-la de qualquer mal. Quando não estava com ela eu pensava nela. Deveria ser óbvio pra nós que sentíamos algo mais. Eu nunca namorei ninguém desde que conheci a e a nunca tinha namorado. Éramos sempre só nós dois. Mas nós não enxergávamos isso.
Éramos apenas bons amigos, ou pelo menos pensávamos isso.
Então, uma má noticia mudou tudo.
Capítulo 4 – Auf Wiedersehen
Em 1996, me deu a má noticia.
Ela havia decidido ir para a Alemanha. Nossa formatura ia ser em alguns dias e logo depois das comemorações ela viajaria para passar um ano em Stuttgart. Eu estava detestando a ideia, eu não queria perdê-la. Mas eu queria que ela realizasse seus sonhos profissionais e a apoiei em todo o tempo. E eu tentei aproveitar cada segundo ao seu lado.
Então chegaram as comemorações de formatura. Depois da colação de grau fizemos um coquetel juntando as duas famílias e amigos. Foi engraçado ver tanto nossos pais quanto nossas mães virando grandes amigos tão rápido. E o irmão da estava descaradamente dando em cima da minha irmã. A sorte dele é que eu vou com a cara dele.
No sábado foi o baile de formatura e nossas famílias ficaram juntas. Eu e dançamos a madrugada inteira. Ela usava um vestido roxo e estava perfeita. Às quatro da manhã nossas famílias já estavam exaustas e foram pra casa. Eu e ficamos até as sete da manhã. E ela já estava meio hiperativa e insistiu que fossemos pra casa a pé e que no dia seguinte eu poderia buscar o carro. Fomos andando, mas no meio do caminho ela, que já estava bem cansada, se sentou em um banco em uma praça.
19 de Janeiro de 1997
- Eu estou cansada – ela disse, se sentando em um banco em uma pequena praça.
- Você que quis vir a pé – eu disse, me sentando ao lado dela.
- Ok, má escolha. Outra má escolha é andar com você com essa gravata amarrada na testa.
- Fim de festa é assim e não se preocupe que ninguém nem reparou. Afinal, você está chamando muito mais atenção, já que o penteado se desfez e você tá parecendo a noiva do Frankenstein.
- Idiota – deu um soco no meu braço e nós dois rimos.
- Belo lugar – eu disse olhando em volta.
- Aqui é lindo, as árvores, o canteiro de margaridas. E, além disso, daqui dá pra ver vários lugares importantes que sempre me trazem boas lembranças. Como a sorveteria do Joe bem ali na frente. – disse apontando pra sorveteria que tinha a fachada colorida e desenhos de frutas.
- Nossos maiores micos aconteceram lá.
- Bons tempos – disse rindo. – Quando estiver com saudades você pode vir aqui. - Ao dizer isso, ela deitou a cabeça no meu ombro e eu segurei sua mão.
- Então eu vou estar sempre aqui. – Ela sorriu e então ficamos em silêncio por um tempo.
- Na verdade você podia vir comigo. – Ela disse animada olhando pra mim.
- ...
- Seria legal nós dois na Alemanha.
- Você sabe que eu não posso. Vou começar o estágio no escritório em duas semanas. Você vai ficar bem.
- Vou ficar bem? , você sabe que eu sou péssima pra resolver crises. Eu entrei em pânico e comecei a chorar quando bloqueei meu cartão e você teve que ir me ajudar. Imagina se algo pior acontecer.
- Não se preocupa, depois de quase quatro anos convivendo comigo você se tornou uma pessoa normal – eu falei e fez careta. – Pare de arrumar desculpas. Você sempre sonhou com isso.
- Você está louco pra se livrar de mim, né?!
- Se dependesse apenas da minha vontade, eu não te deixaria ir. Mas você tem que ir atrás de seus sonhos profissionais. E eu vou estar bem aqui quando você voltar. – eu disse acariciando seu rosto.
- Mas durante esse ano, quem vai assistir filmes de zumbis comigo? Quem vai me proteger das ovelhas? Quem vai conversar sobre quadrinhos da Marvel e falar mal do capitão América só pra me irritar? – disse choramingando.
- Tem razão. Eu sou o único doido que aceita assistir filmes de baixo orçamento com zumbis querendo cérebros. O único que entende seu medo de ovelhas. Mas com certeza não sou o único que fala mal do Capitão América. Ele é patético. – eu disse, fingindo desprezo.
- Idiota. – me empurrou quase me derrubando do banco. De novo.
- Quando você voltar nós vamos dançar música cafona. Assistir filmes de zumbis e de faroeste. E vamos ficar pelo menos uma semana vivendo a base de sorvete. O que acha, Watson?
- Acho que é uma ótima proposta, Holmes. – Ela sorriu.
- Elementar, meu caro Watson. – Eu disse e nós dois rimos. Éramos dois fãs de Sherlock Holmes. – Vamos. – Eu me levantei puxando-a pela mão.
- Mas ainda nem deu tempo dos meus dedinhos descansarem. – Ela disse fazendo careta. Ela adorava fazer caretas.
- Você quis vir a pé. Agora não reclama.
- Chato. – Ela começou a andar rápido emburrada. Mas logo estava rindo das minhas piadas.
Andamos até a casa dela, mas ao chegar ao portão ela lembrou que estava sem chave. Ela tocou o interfone inutilmente, pois todos na casa estavam desmaiados de cansaço e nem ouviram. Resolvemos então que ela dormiria na minha casa. Eu pedi que ela fizesse o mínimo de barulho possível. Mas como eu já disse, ela tem a delicadeza de um hipopótamo e acabou chutando a mesinha da sala e fez o maior escândalo. Mas acho que todos na casa ignoraram os gritos às oito da manhã. Chegamos ao meu quarto e eu entreguei uma blusa e uma calça de moletom pra que ela pudesse dormir mais confortável. Enquanto ela foi se trocar no banheiro, eu arrumei a cama pra ela e um colchão ao lado pra mim. Quando apareceu no quarto com a calça e a blusa que ficaram gigantes nela eu comecei a rir.
- , eu tenho que ser sincero. Você está parecendo um quibe. – eu disse rindo sentado no colchão.
- O quibe mais bonito que você já viu – ela disse e se jogou na cama. – Não me acorda antes das 14h. – Ela se ajeitou na cama de costas pro colchão. Eu me deitei e apoiei a cabeça na mão apenas a observando. Ela se virou dando de cara comigo.
- Vai dormir, . - Ela disse com a voz arrastada.
- Não! Vou ficar te olhando, eu vou passar muito tempo longe de você. – então acariciou meu rosto.
- Obrigada.
- Pelo que? Ficar te olhando? Não se preocupe em agradecer. – Eu então me sentei no colchão.
- Não só por isso. É por tudo. Obrigada por tudo, . – Ela se sentou na cama, suspirou e continuou a falar.
– Sabe, quando eu te conheci, eu era uma caloura perdida nessa cidade. Longe dos país, irmão e amigos. E aí eu te conheci. Você se tornou minha família aqui. Cuidou de mim e me ajudou a crescer. E sempre que eu entrava em pânico com problemas eu me acalmava por lembrar que você estaria lá por mim. E você sempre foi ótimo pra resolver crises. – Ela sorriu e depois suspirou. – Como eu vou viver sem você, ? – disse e começou a chorar.
Eu então me levantei, me sentei na beirada da cama e a abracei. encostou a cabeça no meu peito.
- Eu ainda estou tentando descobrir como viver sem você. Eu te amo, . – Eu nunca havia dito isso a ela. Na verdade, eu só havia falado eu te amo para duas mulheres: minha mãe e minha irmã. E foi algo completamente sincero.
- Eu te amo, . – ergueu a cabeça olhando nos meus olhos. Nossos rostos estavam bem próximos. E ao ouvir aquilo eu tive aquela sensação de borboletas no estômago e também senti uma enorme vontade de beijá-la. Mas beijei sua testa.
Assim que ela dormiu, eu me lembro de ficar na sala tocando violão esperando ela acordar e pensando no jeito que me senti quando a ouvi dizer que me amava. Então no dia seguinte ela viajou. Alguns dias depois, Rachel veio me visitar. Ela falou pra eu ir atrás da . Eu disse que não tinha motivo para isso. Rachel então disse que sabia o quanto eu amava . E me contou sobre o dia em que teve certeza disso. Foi o dia que resolveu tentar fazer um pudinvet e uma torta de maçã, pois no dia seguinte seu irmão faria uma visita e ela queria fazer as sobremesas preferidas dele. Isso aconteceu uns meses antes da viagem.
- Eu estou seguindo a receita perfeitamente. Então... POR QUE O CREME ESTÁ FICANDO MARROM? – ficava um pouco histérica quando cozinhava. Eu me aproximei do fogão e logo percebi o motivo.
- Talvez seja porque você está cozinhando no fogo alto. – Eu disse abaixando o fogo. E dei um beijo no topo de sua cabeça. Olhei a receita e fui bater as claras que ela logo iria precisar.
- Você é demais. – disse mandando um beijo pra mim.
Depois que ela colocou o pudinvet na geladeira e a torta no forno...
- Agora é só esperar 40 minutos.
- Ok. – A puxei pela mão – Dançamos enquanto esperamos. - E então comecei a cantar 'That’s amore' do Dean Martin com um sotaque italiano falsificado. Ela gargalhava enquanto eu a rodopiava pelos azulejos da cozinha.
Rachel disse que mais do que nunca ela havia nos visto como um casal apaixonado. E que eu precisava ir atrás de . E eu pensei nisso um milhão de vezes. Eu queria tanto estar com ela que meu coração doía. Meu coração e minha mente se voltaram pra com tanta intensidade que eu não conseguia pensar em mais nada. Tudo que eu pensava era que eu deveria ir para a Alemanha.
Capítulo 5 – Eu estaria perdido sem você, e acho que você deve saber disso.
Tudo que eu pensava era que eu devia ir pra Alemanha, mas não fui. Eu estava confuso, e não podia simplesmente ir atrás da . Durante o ano que ficou na Alemanha, eu passei todos os dias tentando me convencer que eu não sentia nada por ela e que éramos apenas amigos. O que era muito difícil, pois eu sentia tanto a falta dela... Era como se faltasse uma parte de mim. Então eu me afundei no trabalho e tentei manter minha mente ocupada.
Eu tentava não pensar nela, mas era inútil.
Eram tantas lembranças... Era como se eu pudesse ouvir sua risada em minha mente. Eu havia memorizado cada pedaço da e eu não conseguia não pensar nela.
Um ano se passou, e no dia 27 de janeiro de 1998 eu estava saindo do escritório.
Era uma tarde muito fria...
27 de janeiro de 1998
Assim que sai do prédio senti o vento gelado em meu rosto. Eu estava cansado e só queria ir para casa dormir. Ouvi meu celular e vi que tinha recebido uma mensagem da . Na mensagem, ela falava que eu estava lindo de terno. Imediatamente olhei em minha volta, procurando por ela, e meu coração batia acelerado. Foi então que eu a vi. Ela estava muita mais bonita do que eu me lembrava, e sorriu quando nossos olhos se encontraram. Ela correu até mim, segurando a boina em sua cabeça, e me abraçou envolvendo seus braços em meu pescoço. Eu segurei sua cintura e a levantei do chão.
- Eu senti tanto a sua falta. – eu falei colocando-a no chão, mas ainda segurando sua cintura.
- É tão bom te ver.
- Que dia chegou? Eu ia te buscar no aeroporto semana que vem.
- Eu cheguei ontem. – ela falou, e eu franzi a testa. – É que eu estava com meus pais, mas eu precisava te ver. Então entrei em um táxi e vim direto para cá.
- É tão bom te ter de volta. – eu a abracei de novo. - Você está linda, . – eu coloquei seu cabelo atrás da orelha.
- Você também está um gato. E gostei da barba por fazer – ela sorriu.
- Obrigado. Visual desleixado de trabalhador. – eu disse, fazendo cara de conquistador, e ela riu – , eu tive medo de que você não voltaria.
- Eu estou aqui porque eu não conseguiria viver sem você, . – ela segurou meu rosto e eu senti meu coração acelerar. – Agora vamos jantar porque eu estou faminta. – ela se afastou, indo em direção a um táxi.
Nós saímos para jantar e fomos até nosso restaurante preferido. Enquanto jantávamos, ficamos conversando e ela me contava animada sobre o ano na Alemanha. Ela falava dos amigos que fez lá e a cada nome masculino citado eu ficava desconfortável. Eu observava cada movimento dela, e percebi que ela estava tagarelando mais do que o normal. Me dei conta de que ela estava tão nervosa quanto eu.
Estávamos rindo quando começou a tocar Love me Tender, do Elvis.
- Vamos dançar – eu disse, já me levantando e a puxando pela mão.
- Mas, , não tem ninguém dançando. – ela dizia, enquanto eu a puxava pela mão até a pista de dança.
- Não importa. Eu quero dançar com você.
- E desde quando você dança Elvis comigo?
- Desde agora – disse, colocando uma mão em sua cintura e segurando sua mão.
- Tá legal. Se você quer tanto dançar, eu danço. Vai ser o meu ato de caridade do dia. – ela riu, e nós começamos a dançar.
Nós estávamos dançando ao som de Elvis e ela estava de olhos fechados.
- Está aproveitando a voz do Elvis? – sussurrei em seu ouvido, e ela abriu os olhos sorrindo pra mim.
- Também, mas principalmente aproveitando esse momento do seu lado.
Tê-la ao meu lado, dançar com ela, ver aquele sorriso e ouvi-la dizer aquelas palavras me fez ter essa sensação de que eu preferia estar ali com ela naquele momento a estar em qualquer outro lugar do universo. E eu tive que dizer isso a ela.
- , eu não queria estar em nenhum outro lugar do universo – eu disse. Ela sorriu mais ainda e abaixou a cabeça olhando para os pés. Eu levantei seu rosto e nós paramos de dançar.
- Eu passaria o resto da minha vida apenas dançando com você. – ela se aproximou, e era como se não existisse mais nada naquele restaurante além de , eu e a voz do Elvis.
Então eu a beijei.
Eu estava completamente apaixonado por ela, e queria que aquele beijo não acabasse. Mas ela partiu o beijo.
- ... – eu segurei suas mãos com carinho. – Eu estou completamente apaixonado por você. – eu disse, e ela ficou me olhando sem dizer nada. Eu senti medo. Medo de ter estragado nossa amizade, de que ela passasse a me odiar por isso. E então ela sorriu.
- De algum jeito ou de outro, eu sempre soube que era você o meu cavaleiro de armadura brilhante. – ela disse, acariciando meu rosto, e me beijou.
Capítulo 6 – O que eu devo fazer se a melhor parte de mim sempre foi você?
Lembro que depois de partir o beijo, ficamos dançando até que um garçom veio pedir educadamente para nos retirarmos. E foi assim que as coisas começaram a se acertar entre nós. Começamos a namorar e tudo ia muito bem...
Do inicio do namoro lembro de uma vez que ela me arrastou para um karaokê junto com Rachel e Nick (o namorado da Rachel na época). O mais engraçado é que era noite especial anos 80.
*Flashback
Maio de 1998
e Rachel subiram no palco e cantaram 'Girls Just Wanna Have Fun' da Cindy Lauper, e como as duas são muito desafinadas, mas cantavam empolgadas, a cena foi muito engraçada. Nick cantou uma música do Aerosmith e Rachel e ficaram gritando durante a apresentação.
Lógico que eu não consegui escapar.
Fui até o palco e cantei 'Take On Me' do A-há. Escolhi essa música porque segundo a essa era uma das músicas mais divertidas dos anos 80 e, além disso, ela tinha uma quedinha pelo Morten, vocalista do A-há. Eu estava lá cantando tentando imitar o Morten quando vejo com uma filmadora na mão. Ela havia levado só pra me filmar cantando. Quando a música terminou sentei ao lado dela, que estava tendo uma crise de riso.
- , você é um ótimo Morten. – ela falou e beijou meu rosto.
- Melhor apresentação da noite - Rachel falou, também rindo.
- Obrigada. Mas não precisava filmar.
- Lógico que precisava. Esse vídeo eu vou mostrar para os nossos filhos e também pro nosso cachorro e depois pros nossos netos e pros netos do nosso cachorro. - ela falou, e todos riram.
- Na verdade são 13 filhos e 1 cachorro. E nenhum deles vai saber da existência desta fita.
- 13 filhos? Está maluco? Não dou conta desse tanto de criança. – falou, arregalando os olhos.
- Ok, então 11 é suficiente. - eu falei, rindo.
- Um filho é mais do que suficiente.
- Não. Nós vamos ter dois, um menino e uma menina. E nós cinco, incluindo nosso cachorro, vamos ser uma família feliz.
- Mais feliz que essas famílias de comercial de margarina? – perguntou, sorrindo. Eu então balancei a cabeça em afirmação e a beijei.
*End Flashback
Foi a primeira vez que falamos sobre nossa futura família, e nós acertamos.
Dois filhos, um cachorro e somos muito mais felizes que qualquer família de comercial de margarina.
E o vídeo em que eu canto 'Take On Me' foi assistido pelos meus filhos, os amigos deles e por outras pessoas desconhecidas já que a achou o vídeo engraçado e resolveu postar no youtube.
Bom, voltando à história; sabe quando tudo está ótimo e você sente que está onde deve estar? Era assim que eu me sentia todos os dias com a . Tudo estava ótimo, mas após sete meses de namoro a tempestade veio. E então as discussões que às vezes aconteciam se transformaram em uma briga feia. Tudo começou com uma visita de um amigo que ela conheceu na Alemanha. O cara estava claramente interessado nela. Acabamos discutindo e, no meio da discussão, ela citou a Izzy e a atenção que eu estava dando para ela. Pra entender melhor, Izzy foi minha primeira namorada. E não gostava especialmente dela, pois toda a minha família a adorava. Antes de eu começar a namorar a , minhas tias ficavam falando que eu ia acabar casando com a Izzy. Nós ainda éramos amigos e ela estava passando dificuldades no seu namoro e sempre que precisava me procurava pra conversar e pedir conselhos.
Então na discussão tudo veio à tona.
foi embora e não atendia minhas ligações e nem queria falar comigo. Fui até a casa dela, mas ela não quis me deixar entrar.
*Flashback
Dezembro 1998
Fui pra minha casa e Izzy estava me esperando na portaria. Ela tinha acabado de terminar com o namorado e estava muito mal. Subimos para o meu apartamento e ficamos conversando. Alguns minutos depois a campainha tocou e eu fui atender e vi que era a . Ela nem chegou a entrar no apartamento, quando viu Izzy sentada no sofá apenas se virou sem falar nada e foi em direção ao elevador. Eu corri atrás dela e segurei seu braço. Ela se virou e eu a soltei.
- Ela acabou de terminar com o namorado e precisava conversar. – eu falei para , que me olhava sem expressão.
- Sei o tipo de conversa que ela quer ter com você - ela falou, e se virou apertando o botão do elevador algumas vezes.
- Nós somos só amigos, . – eu me aproximei dela, mas ela continuou olhando para a porta do elevador.
- Claro. Porque tudo bem você e sua ex passarem um tempo juntos. Mas eu não posso ficar com meus amigos.. – ela falou sem olhar para mim e apertou o botão do elevador mais uma vez.
- Porque o Ben é apenas um cara legal que você conheceu na Alemanha, né? Ele estava dando em cima de você descaradamente! – falei, sarcástico (o que ela detestava), e a porta do elevador abriu.
- Você é um idiota. - ela entrou no elevador e eu entrei junto.
- Na verdade você está bancando a idiota achando que tudo que o Ben quer é conversar. - eu falei, e ela apenas me olhou brava e voltou o olhar pra porta. - Agora vai agir como se eu não estivesse aqui? - eu falei, e ela me ignorou e quando a porta abriu ela saiu apressada e eu a segui.
- , nós precisamos conversar e resolver isso. – eu falei quando já estávamos na calçada.
- Resolver o quê, ? - ela se virou, brava. - A Izzy é a boa moça e você é um ombro amigo, enquanto Ben é o vilão e eu sou a péssima namorada desconfiada. Acho que você já está resolvido com seus pensamentos. - ela falou, e voltou a andar. Quando eu fui segurar seu braço ela se virou pra mim - Essa conversa acabou.
- , tudo que você precisa entender é que eu e Izzy somos apenas amigos e o Ben não é exatamente o tipo de cara confiável.
- Eu não quero conversar agora. No momento eu estou muito estressada e estou querendo te jogar na frente de um carro. Depois conversamos. - ela falou e se afastou. Logo ela chamou um táxi e pude vê-la me olhar uma última vez antes de entrar no carro.
Voltei para o meu apartamento e Izzy estava preocupada com a . Ela foi embora afirmando que não queria atrapalhar.
À noite eu fui à casa da , decidido a resolver tudo. Eu toquei o interfone, ela atendeu e me mandou subir. Cheguei até a porta do seu apartamento e ela abriu. Ela estava linda com os cabelos soltos, mas tinha um olhar triste.
- Oi - falei, sorrindo sem mostrar os dentes.
- Oi - ela respondeu, sorrindo da mesma forma.
- Me desculpa, . Por tudo que falei, por ficar agindo como esse namorado ciumento... É que eu não quero te perder, e Ben ameaça o que nós temos. Vamos deixar isso tudo pra trás. - ela ficou me olhando calma e eu comecei a me aproximar, mas ela se afastou.
- Eu não acho que esse relacionamento esteja dando certo. Acho melhor terminarmos. – ela falou, e desviou o olhar.
- O que? - eu perguntei, atordoado.
- É isso, , acabou. Somos bons amigos, mas péssimos como namorados. – ela me olhou triste.
- Não. Você está errada. Somos ótimos namorados, você só está falando isso porque está brava. – eu segurei a mão dela e ela ficou olhando nossas mãos. - Está brava com o que falei e por ter visto a Izzy no meu apartamento e...
- Não, ! Não é só por isso. – ela tirou a mão da minha.
- Então o que é? - eu perguntei sem entender e ansioso pela resposta dela. Ela ficou em silêncio alguns segundos, o que pareceu uma eternidade.
- Eu não estou gostando de quem eu sou agora. Ser sua namorada tem me deixado tão insegura... Eu estou sempre brava e tenho vontade de esfregar a cara da Izzy no asfalto. E eu odeio isso. – ela falou, com os olhos marejados.
- Mas... - ela me interrompeu.
- Eu ainda não terminei. Olha, você sempre foi meu melhor amigo e devíamos ter continuado assim. Esse namoro foi um erro. Talvez a distância tenha feito a gente confundir nossos sentimentos.
- Eu não estou confuso, . Eu te amo, eu tomei essa decisão e essa é a maior verdade que conheço agora. - eu falei e segurei sua mão mais uma vez. Foi a primeira vez que eu falei que a amava depois que começamos a namorar.
- Eu não me sinto desse jeito. - ela tirou sua mão e eu senti vontade de chorar. Meus olhos já estavam marejados e eu só queria ouvir que aquilo era uma piada. - Me desculpe, . - ela falou sem olhar nos meus olhos e fechou a porta. Eu ainda fiquei ali parado algum tempo processando o que tinha acabado de acontecer. Eu soquei a parede e entrei no elevador, destruído por dentro.
Fui pra casa e me sentei no sofá pensando no que a tinha dito. Fiquei horas tentando entender como em um momento estávamos bem e em outro tudo desabava. Dormi ali mesmo.
Acordei no dia seguinte com a campainha, e ao abrir a porta vi Rachel.
- O que aconteceu? - ela perguntou, entrando, e se sentou no sofá.
- terminou comigo. – falei sem olhar pra ela, e me sentei na poltrona em frente ao sofá.
- Mas o que aconteceu para ela fazer isso?
- Ela disse que não me ama e que não gosta da pessoa que ela se tornou namorando comigo.
- Por que ela diria isso? Ela ama você e desde que começaram a namorar ela realmente se tornou outra pessoa. Mas uma pessoa melhor! Ela está sempre sorrindo e acorda de bom humor... Mas ontem quando cheguei em casa eu a ouvi chorando no quarto, eu bati na porta mas ela não me deixou entrar. E hoje de manhã encontrei isso na mesa da sala - Rachel tirou um papel do bolso da jaqueta e me entregou. Peguei o papel que estava escrito:
“Rachel, preciso fazer uma viagem. Não sei quando volto, mas não precisa se preocupar. ”
Eu fiquei olhando para o bilhete e despertei do transe quando ouvi a voz de Rachel.
- Eu não entendo o que deu na para fazer isso.
- Ela simplesmente foi embora. - eu falei, ainda olhando o papel, e meus olhos ficaram marejados.
- Amanhã ela vai perceber a burrada que fez e vai voltar. Tenho certeza.
- Eu não tenho tanta certeza. - eu falei, desviando o olhar do bilhete e olhando pra Rachel - Olha, eu realmente preciso ficar sozinho agora.
- Claro. - ela se levantou. - Se precisar me liga, ok? - ela caminhou até a porta.
- Pode deixar - fechei a porta e me afundei no sofá.
*End Flashback
Os dias passavam lentamente e eu decidi me concentrar no trabalho. Eu sentia falta dela, eu a amava. Mas ao mesmo tempo eu estava bravo por ela ter ido embora, por ter me deixado. Às vezes pensava que talvez fosse melhor que ela não tivesse voltado da Alemanha. Às vezes eu só queria apagar esse ano da minha vida para então seguir em frente sem ela.
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Meu nome é . Sou casado com a e sou pai da e do . É pela que estou escrevendo isso. Ela tem um trabalho de escola em uma tal de semana romântica em que tem que contar uma história de amor real. Bom, eu me pergunto por que uma garota de nove anos tem que ficar pensando em romance quando na verdade os professores deviam estar ensinando gramática, geografia, matemática e essas coisas. Se bem que a falou que sonhava com o príncipe encantado desde que ganhou a primeira Barbie. Pois assim como a Barbie precisava do Ken (e não só de roupas) para ser feliz, ela também precisava de um Ken pra ela. E muito melhor que um Ken, ela ganhou um .
Voltando ao foco, a precisa fazer uma redação contando nossa história. E para ajudá-la, eu resolvi escrever um rascunho, contando alguns momentos meus ao lado da . Se eu realmente fosse contar tudo, escreveria vários livros. Apenas um dia ao lado da não cabe em uma redação. Então vou contar apenas alguns fatos.
O primeiro deles, é claro que vai ser a primeira vez que eu vi minha esposa. Foi no meu 2º ano de faculdade. Eu cursava direito.
14 de Agosto de 1993
Mais uma vez o professor passava do horário. Já eram dez e vinte da noite e caía uma chuva forte. Ajeitei o casaco e peguei o guarda-chuva. Teria que andar meia hora para atravessar o campus e chegar em minha casa. Eu caminhava com passos rápidos apertando o casaco contra o corpo e equilibrando o guarda-chuva, e sabia que meu nariz devia estar vermelho devido ao frio cortante que fazia. Eu resmungava o fato de que provavelmente ficaria resfriado mais uma vez, quando avistei uma garota com uma sobrinha vermelha fluorescente. Ela caminhava lentamente carregando a sombrinha de forma meio desajeitada, pois esta tombava às vezes permitindo que alguns pingos de chuva atingissem a garota.
No meio de tantas pessoas apressadas, ela andava despreocupada aproveitando a chuva e, para minha surpresa, ela começou a fazer passinhos de dança. As pessoas seguiam seus rumos e ninguém além de mim parecia prestar atenção naquela garota. Desacelerei o ritmo e pude reparar em suas roupas. Ela usava uma calça jeans, um moletom preto, All Stars que já deviam estar completamente encharcados e um cachecol vermelho, cuja ponta voava com o vento. Eu perdi a noção do tempo observando aquela garota que arriscava passinhos de dança. Quando ela girou em volta de um poste, percebi o que fazia. Ela estava tentando imitar Gene Kelly em “Cantando na chuva”. Sorri ao perceber isso.
Numa chuva forte como aquela, apenas dois tipos de pessoas fariam aquilo: malucos ou pessoas felizes. Preferi acreditar na segunda opção. Ela parou por um instante, tirando algo da bolsa, que logo percebi ser um celular. Depois de um tempo, ela o guardou de novo na bolsa e acelerou o ritmo. Tentei apertar o passo, mas já tinha perdido a menina de vista.
Pensei em andar um pouco mais rápido, mas desisti. O louco seria eu de simplesmente seguir aquela garota. A garota da sombrinha vermelha fluorescente.
É obvio que a garota da sombrinha vermelha era a . Ela sempre foi meio maluca, extremamente feliz e apaixonada por musicais. Também é obvio que eu a vi de novo. Lembro-me que ao voltar da aula no dia seguinte, eu ficava olhando entre as pessoas procurando por ela. Não estava chovendo e eu não poderia simplesmente procurar uma sombrinha vermelha. Seu rosto eu tinha visto rapidamente, quando ela tinha rodado em volta do poste. Eu já estava saindo do campus quando ouvi o barulho de uma manada de antílopes se aproximando. Quando me virei, era ela tentando equilibrar alguns livros enquanto corria. Ela passou rápida por mim e logo desapareceu entre as pessoas em minha frente.
Você deve estar pensando em como eu sou exagerado por dizer que o barulho dela correndo parecia uma manada de antílopes, mas essa é a verdade. A não anda, marcha. Principalmente quando está com pressa. Eu sempre falo que ela tem a delicadeza de um hipopótamo. Eu e as crianças sempre sabemos quando ela chega em casa, com passos fortes no chão, batendo portas, derrubando coisas...
Voltando à história, eu fiquei feliz de ver a garota da sombrinha vermelha. Mas eu realmente queria conhecer aquela maluca. E no dia seguinte eu tive essa oportunidade.
Capítulo 2 – Encontro na BBT
16 de Agosto de 1993
Depois do almoço, eu andava preguiçosamente em direção à biblioteca. Teria que tirar cópias de alguns textos pra aula do dia seguinte e uma chuvinha fina me desanimava. Subi as escadas em direção ao andar da copiadora e eu tinha certeza que estaria lotado. Dito e feito. Havia uma fila enorme, mas decidi esperar. Não havia passado nem três minutos que eu estava parado na fila e a garota na minha frente se virou rápido. Ela não devia ter notado a minha chegada, pois se virou caindo em cima de mim. Tenho sorte de ter bons reflexos e logo a segurei pela cintura e ela se apoiou em meus ombros. Quando nossos olhos se encontraram percebi que eu já tinha visto aquela menina.
Ela me olhava com os olhos arregalados. Parecia que ainda não estava muito certa do que tinha acontecido, mas logo despertou envergonhada e, pedindo desculpas, desceu as escadas correndo. Ouvi um barulho e vi uma sombrinha vermelha fluorescente caída no chão. Na pressa, ela tinha esquecido. Imediatamente me lembrei de onde a conhecia. Peguei a sombrinha e desci as escadas a fim de encontrá-la. Não foi difícil, pois ela estava sentada na escada da entrada principal dando tapas na testa e se chamando de idiota. Segurei o riso e cheguei perto.
- Oi?
- Oi – ela olhou pra mim e ficou vermelha – Me desculpa por ter caído em cima de você. Eu sou meio desastrada e sempre acontecem acidentes comigo.
- Está tudo bem – eu disse sorrindo – Você deixou cair – disse entregando a sombrinha.
- Obrigada.
- Você precisa dela para os seus números musicais – eu disse sorrindo, me lembrando da cena.
- Números musicais? – ela perguntou confusa.
- Anteontem eu te vi dançando.
- Você viu aquilo? – ela perguntou, e eu confirmei balançando a cabeça – Que vergonha! – ela tampou o rosto com a mão.
- Não precisa ficar envergonhada. Você dança bem e fez uns passinhos iguais aos do Gene Kelly. – eu disse rindo e ela deu uma risada.
- Isso que dá ficar de maluquices no campus. Agora já estou até sendo reconhecida como a louca da universidade.
- Nem foi tanta maluquice assim. Foi até bonitinho – eu disse e ela riu mais ainda. Ela tinha uma risada escandalosa e engraçada. – Meu nome é – eu disse estendendo a mão.
- – ela apertou minha mão, sorrindo.
Nossa primeira conversa. Lembro dela bastante envergonhada. Anos depois, ela confessou que o motivo de tanta vergonha nem era o fato de ter caído em cima de mim, mas principalmente por eu ser um gatão. Eu não sou convencido, estou apenas usando as palavras dela. Bom, eu e ficamos amigos depois desse episódio na biblioteca. Naquele mesmo dia, saímos pra lanchar no intervalo entre nossas aulas. Viramos grandes amigos e saíamos juntos, conversávamos bastante e nos divertíamos. Lembro da vez que eu comprei um bichinho de pelúcia pra ela.
A gente se conhecia há uns seis meses. Nós estávamos sentados no gramado do campus conversando e ela me pediu um bichinho de pelúcia, pois o dia dos namorados estava chegando e por ela não ter namorado, tinha que ganhar presente do amigo pra se sentir menos deprimida. Ela também é muito dramática. Eu comprei um bichinho de pelúcia, o único problema é que eu ainda não conhecia todas as fobias dela.
Capítulo 3 – Ovelhas
12 de Fevereiro de 1994
Era sábado e eu fui visitar pra entregar o presente. Toquei o interfone algumas vezes antes de ser atendido porque, provavelmente, estava ouvindo música no volume máximo. Rachel, amiga de , que morava com ela, foi quem abriu a porta pra mim. Tenho certeza que na época, a Rachel tinha uma queda pro mim, é que às vezes ela me olhava como um pedaço de carne na galedeira. Rachel me disse que a estava lavando o banheiro e eu devia ir lá pra ver uma cena muito cômica. Eu achei que a cena cômica seria simplesmente da lavando o banheiro, mas ao chegar na porta eu a vi usando o cabo da vassoura como microfone e cantando 'Jailhouse Rock' do Elvis. Depois ela começou a usar a vassoura como guitarra.
Ela gritava se achando a rainha do rock. Esqueci de mencionar o fato de que a não é muito afinada, mas adora cantar. Quando ela se virou e me viu...
- Ahhhh! – deu um grito e acabou escorregando, já que o chão estava cheio de sabão. Ela caiu de bunda no chão e começou a dar risada.
- , você está bem? – disse, indo levantá-la.
- Estou sim, . Você que não deve estar. - ela disse enquanto eu a puxava pela mão – Não ficou traumatizado com a minha cantoria? – Ela disse, me fazendo rir.
- Idiota.
- Vai lá pra sala que eu vou terminar aqui e já vou. – Ela disse, secando as lágrimas. Quando ria demais ela começava a chorar.
Fui pra sala e já me joguei no sofá. O sofá mais confortável. O melhor sofá de todos. Às vezes eu tinha vontade de roubar o sofá da . Fiquei assistindo qualquer coisa até que apareceu na sala.
- Montinho! – ela gritou, e pulou em cima de mim. Só que ela acabou caindo no chão e me puxou junto. Nós dois começamos a rir.
- Morri – Ela falou rindo.
- Culpa sua, – Eu já gargalhava.
- ...
- Oi?
- Você está me esmagando.
- Ah, desculpa – Me levantei puxando-a.
- Trouxe o meu presente? – disse, se sentando no sofá.
- Trouxe sim, sua chata. – disse entregando o embrulho pra ela. Quando viu o bichinho de pelúcia, ela fez uma cara assustada.
- , você me deu uma ovelha de pelúcia de presente? – Ela parecia não estar acreditando naquilo.
- Isso. Segundo a dona da loja, ela é fofinha principalmente com os olhinhos vesgos.
- , eu morro de medo de ovelhas.
- Eu pensei que você tivesse medo de gatos.
- E de ovelhas!
- Medo de ovelhas? O que as pobres ovelhas fizeram com você?
- Pobres ovelhas? Ovelhas são seres canibais que se matam e depois colocam a culpa nos lobos.
- Isso não faz sentido e você é maluca. Mas desculpa, se você tem medo eu vou lá trocar.
- Não! De jeito nenhum. – disse e pegou a ovelha guardando dentro do embrulho – Eu vou guardar pra te lembrar o resto da vida que o primeiro presente que me deu foi uma ovelha de pelúcia.
- , você é muito maquiavélica.
- Eu vou guardar e agora você vai ter que me comprar outro presente.
- Não era minha obrigação te dar presente.
- Mas vai ter que comprar outro. Você tem sorte de eu não te cobrar as sessões no psicólogo pra curar o meu trauma de ver uma ovelha vesga – Ela disse, e nós dois rimos.
Ela realmente guardou a ovelha. A ovelha de pelúcia agora é da . Quando a ela tinha uns cinco anos, achou a ovelha e se apossou dela. detestava o fato de ir ao quarto de e dar de cara com a ovelha, mas hoje acho que ela até se acostumou.
Vamos deixar a ovelha de lado. Voltemos à minha amizade com a .
Quando eu estava com ela, era ótimo e eu me sentia completamente feliz. Ela era divertida e estava lá por mim quando as coisas iam mal. se preocupava bastante comigo e demonstrava carinho por mim em cada pequena coisa e eu só queria cuidar dela, e protegê-la de qualquer mal. Quando não estava com ela eu pensava nela. Deveria ser óbvio pra nós que sentíamos algo mais. Eu nunca namorei ninguém desde que conheci a e a nunca tinha namorado. Éramos sempre só nós dois. Mas nós não enxergávamos isso.
Éramos apenas bons amigos, ou pelo menos pensávamos isso.
Então, uma má noticia mudou tudo.
Capítulo 4 – Auf Wiedersehen
Em 1996, me deu a má noticia.
Ela havia decidido ir para a Alemanha. Nossa formatura ia ser em alguns dias e logo depois das comemorações ela viajaria para passar um ano em Stuttgart. Eu estava detestando a ideia, eu não queria perdê-la. Mas eu queria que ela realizasse seus sonhos profissionais e a apoiei em todo o tempo. E eu tentei aproveitar cada segundo ao seu lado.
Então chegaram as comemorações de formatura. Depois da colação de grau fizemos um coquetel juntando as duas famílias e amigos. Foi engraçado ver tanto nossos pais quanto nossas mães virando grandes amigos tão rápido. E o irmão da estava descaradamente dando em cima da minha irmã. A sorte dele é que eu vou com a cara dele.
No sábado foi o baile de formatura e nossas famílias ficaram juntas. Eu e dançamos a madrugada inteira. Ela usava um vestido roxo e estava perfeita. Às quatro da manhã nossas famílias já estavam exaustas e foram pra casa. Eu e ficamos até as sete da manhã. E ela já estava meio hiperativa e insistiu que fossemos pra casa a pé e que no dia seguinte eu poderia buscar o carro. Fomos andando, mas no meio do caminho ela, que já estava bem cansada, se sentou em um banco em uma praça.
19 de Janeiro de 1997
- Eu estou cansada – ela disse, se sentando em um banco em uma pequena praça.
- Você que quis vir a pé – eu disse, me sentando ao lado dela.
- Ok, má escolha. Outra má escolha é andar com você com essa gravata amarrada na testa.
- Fim de festa é assim e não se preocupe que ninguém nem reparou. Afinal, você está chamando muito mais atenção, já que o penteado se desfez e você tá parecendo a noiva do Frankenstein.
- Idiota – deu um soco no meu braço e nós dois rimos.
- Belo lugar – eu disse olhando em volta.
- Aqui é lindo, as árvores, o canteiro de margaridas. E, além disso, daqui dá pra ver vários lugares importantes que sempre me trazem boas lembranças. Como a sorveteria do Joe bem ali na frente. – disse apontando pra sorveteria que tinha a fachada colorida e desenhos de frutas.
- Nossos maiores micos aconteceram lá.
- Bons tempos – disse rindo. – Quando estiver com saudades você pode vir aqui. - Ao dizer isso, ela deitou a cabeça no meu ombro e eu segurei sua mão.
- Então eu vou estar sempre aqui. – Ela sorriu e então ficamos em silêncio por um tempo.
- Na verdade você podia vir comigo. – Ela disse animada olhando pra mim.
- ...
- Seria legal nós dois na Alemanha.
- Você sabe que eu não posso. Vou começar o estágio no escritório em duas semanas. Você vai ficar bem.
- Vou ficar bem? , você sabe que eu sou péssima pra resolver crises. Eu entrei em pânico e comecei a chorar quando bloqueei meu cartão e você teve que ir me ajudar. Imagina se algo pior acontecer.
- Não se preocupa, depois de quase quatro anos convivendo comigo você se tornou uma pessoa normal – eu falei e fez careta. – Pare de arrumar desculpas. Você sempre sonhou com isso.
- Você está louco pra se livrar de mim, né?!
- Se dependesse apenas da minha vontade, eu não te deixaria ir. Mas você tem que ir atrás de seus sonhos profissionais. E eu vou estar bem aqui quando você voltar. – eu disse acariciando seu rosto.
- Mas durante esse ano, quem vai assistir filmes de zumbis comigo? Quem vai me proteger das ovelhas? Quem vai conversar sobre quadrinhos da Marvel e falar mal do capitão América só pra me irritar? – disse choramingando.
- Tem razão. Eu sou o único doido que aceita assistir filmes de baixo orçamento com zumbis querendo cérebros. O único que entende seu medo de ovelhas. Mas com certeza não sou o único que fala mal do Capitão América. Ele é patético. – eu disse, fingindo desprezo.
- Idiota. – me empurrou quase me derrubando do banco. De novo.
- Quando você voltar nós vamos dançar música cafona. Assistir filmes de zumbis e de faroeste. E vamos ficar pelo menos uma semana vivendo a base de sorvete. O que acha, Watson?
- Acho que é uma ótima proposta, Holmes. – Ela sorriu.
- Elementar, meu caro Watson. – Eu disse e nós dois rimos. Éramos dois fãs de Sherlock Holmes. – Vamos. – Eu me levantei puxando-a pela mão.
- Mas ainda nem deu tempo dos meus dedinhos descansarem. – Ela disse fazendo careta. Ela adorava fazer caretas.
- Você quis vir a pé. Agora não reclama.
- Chato. – Ela começou a andar rápido emburrada. Mas logo estava rindo das minhas piadas.
Andamos até a casa dela, mas ao chegar ao portão ela lembrou que estava sem chave. Ela tocou o interfone inutilmente, pois todos na casa estavam desmaiados de cansaço e nem ouviram. Resolvemos então que ela dormiria na minha casa. Eu pedi que ela fizesse o mínimo de barulho possível. Mas como eu já disse, ela tem a delicadeza de um hipopótamo e acabou chutando a mesinha da sala e fez o maior escândalo. Mas acho que todos na casa ignoraram os gritos às oito da manhã. Chegamos ao meu quarto e eu entreguei uma blusa e uma calça de moletom pra que ela pudesse dormir mais confortável. Enquanto ela foi se trocar no banheiro, eu arrumei a cama pra ela e um colchão ao lado pra mim. Quando apareceu no quarto com a calça e a blusa que ficaram gigantes nela eu comecei a rir.
- , eu tenho que ser sincero. Você está parecendo um quibe. – eu disse rindo sentado no colchão.
- O quibe mais bonito que você já viu – ela disse e se jogou na cama. – Não me acorda antes das 14h. – Ela se ajeitou na cama de costas pro colchão. Eu me deitei e apoiei a cabeça na mão apenas a observando. Ela se virou dando de cara comigo.
- Vai dormir, . - Ela disse com a voz arrastada.
- Não! Vou ficar te olhando, eu vou passar muito tempo longe de você. – então acariciou meu rosto.
- Obrigada.
- Pelo que? Ficar te olhando? Não se preocupe em agradecer. – Eu então me sentei no colchão.
- Não só por isso. É por tudo. Obrigada por tudo, . – Ela se sentou na cama, suspirou e continuou a falar.
– Sabe, quando eu te conheci, eu era uma caloura perdida nessa cidade. Longe dos país, irmão e amigos. E aí eu te conheci. Você se tornou minha família aqui. Cuidou de mim e me ajudou a crescer. E sempre que eu entrava em pânico com problemas eu me acalmava por lembrar que você estaria lá por mim. E você sempre foi ótimo pra resolver crises. – Ela sorriu e depois suspirou. – Como eu vou viver sem você, ? – disse e começou a chorar.
Eu então me levantei, me sentei na beirada da cama e a abracei. encostou a cabeça no meu peito.
- Eu ainda estou tentando descobrir como viver sem você. Eu te amo, . – Eu nunca havia dito isso a ela. Na verdade, eu só havia falado eu te amo para duas mulheres: minha mãe e minha irmã. E foi algo completamente sincero.
- Eu te amo, . – ergueu a cabeça olhando nos meus olhos. Nossos rostos estavam bem próximos. E ao ouvir aquilo eu tive aquela sensação de borboletas no estômago e também senti uma enorme vontade de beijá-la. Mas beijei sua testa.
Assim que ela dormiu, eu me lembro de ficar na sala tocando violão esperando ela acordar e pensando no jeito que me senti quando a ouvi dizer que me amava. Então no dia seguinte ela viajou. Alguns dias depois, Rachel veio me visitar. Ela falou pra eu ir atrás da . Eu disse que não tinha motivo para isso. Rachel então disse que sabia o quanto eu amava . E me contou sobre o dia em que teve certeza disso. Foi o dia que resolveu tentar fazer um pudinvet e uma torta de maçã, pois no dia seguinte seu irmão faria uma visita e ela queria fazer as sobremesas preferidas dele. Isso aconteceu uns meses antes da viagem.
- Eu estou seguindo a receita perfeitamente. Então... POR QUE O CREME ESTÁ FICANDO MARROM? – ficava um pouco histérica quando cozinhava. Eu me aproximei do fogão e logo percebi o motivo.
- Talvez seja porque você está cozinhando no fogo alto. – Eu disse abaixando o fogo. E dei um beijo no topo de sua cabeça. Olhei a receita e fui bater as claras que ela logo iria precisar.
- Você é demais. – disse mandando um beijo pra mim.
Depois que ela colocou o pudinvet na geladeira e a torta no forno...
- Agora é só esperar 40 minutos.
- Ok. – A puxei pela mão – Dançamos enquanto esperamos. - E então comecei a cantar 'That’s amore' do Dean Martin com um sotaque italiano falsificado. Ela gargalhava enquanto eu a rodopiava pelos azulejos da cozinha.
Rachel disse que mais do que nunca ela havia nos visto como um casal apaixonado. E que eu precisava ir atrás de . E eu pensei nisso um milhão de vezes. Eu queria tanto estar com ela que meu coração doía. Meu coração e minha mente se voltaram pra com tanta intensidade que eu não conseguia pensar em mais nada. Tudo que eu pensava era que eu deveria ir para a Alemanha.
Capítulo 5 – Eu estaria perdido sem você, e acho que você deve saber disso.
Tudo que eu pensava era que eu devia ir pra Alemanha, mas não fui. Eu estava confuso, e não podia simplesmente ir atrás da . Durante o ano que ficou na Alemanha, eu passei todos os dias tentando me convencer que eu não sentia nada por ela e que éramos apenas amigos. O que era muito difícil, pois eu sentia tanto a falta dela... Era como se faltasse uma parte de mim. Então eu me afundei no trabalho e tentei manter minha mente ocupada.
Eu tentava não pensar nela, mas era inútil.
Eram tantas lembranças... Era como se eu pudesse ouvir sua risada em minha mente. Eu havia memorizado cada pedaço da e eu não conseguia não pensar nela.
Um ano se passou, e no dia 27 de janeiro de 1998 eu estava saindo do escritório.
Era uma tarde muito fria...
27 de janeiro de 1998
Assim que sai do prédio senti o vento gelado em meu rosto. Eu estava cansado e só queria ir para casa dormir. Ouvi meu celular e vi que tinha recebido uma mensagem da . Na mensagem, ela falava que eu estava lindo de terno. Imediatamente olhei em minha volta, procurando por ela, e meu coração batia acelerado. Foi então que eu a vi. Ela estava muita mais bonita do que eu me lembrava, e sorriu quando nossos olhos se encontraram. Ela correu até mim, segurando a boina em sua cabeça, e me abraçou envolvendo seus braços em meu pescoço. Eu segurei sua cintura e a levantei do chão.
- Eu senti tanto a sua falta. – eu falei colocando-a no chão, mas ainda segurando sua cintura.
- É tão bom te ver.
- Que dia chegou? Eu ia te buscar no aeroporto semana que vem.
- Eu cheguei ontem. – ela falou, e eu franzi a testa. – É que eu estava com meus pais, mas eu precisava te ver. Então entrei em um táxi e vim direto para cá.
- É tão bom te ter de volta. – eu a abracei de novo. - Você está linda, . – eu coloquei seu cabelo atrás da orelha.
- Você também está um gato. E gostei da barba por fazer – ela sorriu.
- Obrigado. Visual desleixado de trabalhador. – eu disse, fazendo cara de conquistador, e ela riu – , eu tive medo de que você não voltaria.
- Eu estou aqui porque eu não conseguiria viver sem você, . – ela segurou meu rosto e eu senti meu coração acelerar. – Agora vamos jantar porque eu estou faminta. – ela se afastou, indo em direção a um táxi.
Nós saímos para jantar e fomos até nosso restaurante preferido. Enquanto jantávamos, ficamos conversando e ela me contava animada sobre o ano na Alemanha. Ela falava dos amigos que fez lá e a cada nome masculino citado eu ficava desconfortável. Eu observava cada movimento dela, e percebi que ela estava tagarelando mais do que o normal. Me dei conta de que ela estava tão nervosa quanto eu.
Estávamos rindo quando começou a tocar Love me Tender, do Elvis.
- Vamos dançar – eu disse, já me levantando e a puxando pela mão.
- Mas, , não tem ninguém dançando. – ela dizia, enquanto eu a puxava pela mão até a pista de dança.
- Não importa. Eu quero dançar com você.
- E desde quando você dança Elvis comigo?
- Desde agora – disse, colocando uma mão em sua cintura e segurando sua mão.
- Tá legal. Se você quer tanto dançar, eu danço. Vai ser o meu ato de caridade do dia. – ela riu, e nós começamos a dançar.
Nós estávamos dançando ao som de Elvis e ela estava de olhos fechados.
- Está aproveitando a voz do Elvis? – sussurrei em seu ouvido, e ela abriu os olhos sorrindo pra mim.
- Também, mas principalmente aproveitando esse momento do seu lado.
Tê-la ao meu lado, dançar com ela, ver aquele sorriso e ouvi-la dizer aquelas palavras me fez ter essa sensação de que eu preferia estar ali com ela naquele momento a estar em qualquer outro lugar do universo. E eu tive que dizer isso a ela.
- , eu não queria estar em nenhum outro lugar do universo – eu disse. Ela sorriu mais ainda e abaixou a cabeça olhando para os pés. Eu levantei seu rosto e nós paramos de dançar.
- Eu passaria o resto da minha vida apenas dançando com você. – ela se aproximou, e era como se não existisse mais nada naquele restaurante além de , eu e a voz do Elvis.
Então eu a beijei.
Eu estava completamente apaixonado por ela, e queria que aquele beijo não acabasse. Mas ela partiu o beijo.
- ... – eu segurei suas mãos com carinho. – Eu estou completamente apaixonado por você. – eu disse, e ela ficou me olhando sem dizer nada. Eu senti medo. Medo de ter estragado nossa amizade, de que ela passasse a me odiar por isso. E então ela sorriu.
- De algum jeito ou de outro, eu sempre soube que era você o meu cavaleiro de armadura brilhante. – ela disse, acariciando meu rosto, e me beijou.
Capítulo 6 – O que eu devo fazer se a melhor parte de mim sempre foi você?
Lembro que depois de partir o beijo, ficamos dançando até que um garçom veio pedir educadamente para nos retirarmos. E foi assim que as coisas começaram a se acertar entre nós. Começamos a namorar e tudo ia muito bem...
Do inicio do namoro lembro de uma vez que ela me arrastou para um karaokê junto com Rachel e Nick (o namorado da Rachel na época). O mais engraçado é que era noite especial anos 80.
*Flashback
Maio de 1998
e Rachel subiram no palco e cantaram 'Girls Just Wanna Have Fun' da Cindy Lauper, e como as duas são muito desafinadas, mas cantavam empolgadas, a cena foi muito engraçada. Nick cantou uma música do Aerosmith e Rachel e ficaram gritando durante a apresentação.
Lógico que eu não consegui escapar.
Fui até o palco e cantei 'Take On Me' do A-há. Escolhi essa música porque segundo a essa era uma das músicas mais divertidas dos anos 80 e, além disso, ela tinha uma quedinha pelo Morten, vocalista do A-há. Eu estava lá cantando tentando imitar o Morten quando vejo com uma filmadora na mão. Ela havia levado só pra me filmar cantando. Quando a música terminou sentei ao lado dela, que estava tendo uma crise de riso.
- , você é um ótimo Morten. – ela falou e beijou meu rosto.
- Melhor apresentação da noite - Rachel falou, também rindo.
- Obrigada. Mas não precisava filmar.
- Lógico que precisava. Esse vídeo eu vou mostrar para os nossos filhos e também pro nosso cachorro e depois pros nossos netos e pros netos do nosso cachorro. - ela falou, e todos riram.
- Na verdade são 13 filhos e 1 cachorro. E nenhum deles vai saber da existência desta fita.
- 13 filhos? Está maluco? Não dou conta desse tanto de criança. – falou, arregalando os olhos.
- Ok, então 11 é suficiente. - eu falei, rindo.
- Um filho é mais do que suficiente.
- Não. Nós vamos ter dois, um menino e uma menina. E nós cinco, incluindo nosso cachorro, vamos ser uma família feliz.
- Mais feliz que essas famílias de comercial de margarina? – perguntou, sorrindo. Eu então balancei a cabeça em afirmação e a beijei.
*End Flashback
Foi a primeira vez que falamos sobre nossa futura família, e nós acertamos.
Dois filhos, um cachorro e somos muito mais felizes que qualquer família de comercial de margarina.
E o vídeo em que eu canto 'Take On Me' foi assistido pelos meus filhos, os amigos deles e por outras pessoas desconhecidas já que a achou o vídeo engraçado e resolveu postar no youtube.
Bom, voltando à história; sabe quando tudo está ótimo e você sente que está onde deve estar? Era assim que eu me sentia todos os dias com a . Tudo estava ótimo, mas após sete meses de namoro a tempestade veio. E então as discussões que às vezes aconteciam se transformaram em uma briga feia. Tudo começou com uma visita de um amigo que ela conheceu na Alemanha. O cara estava claramente interessado nela. Acabamos discutindo e, no meio da discussão, ela citou a Izzy e a atenção que eu estava dando para ela. Pra entender melhor, Izzy foi minha primeira namorada. E não gostava especialmente dela, pois toda a minha família a adorava. Antes de eu começar a namorar a , minhas tias ficavam falando que eu ia acabar casando com a Izzy. Nós ainda éramos amigos e ela estava passando dificuldades no seu namoro e sempre que precisava me procurava pra conversar e pedir conselhos.
Então na discussão tudo veio à tona.
foi embora e não atendia minhas ligações e nem queria falar comigo. Fui até a casa dela, mas ela não quis me deixar entrar.
*Flashback
Dezembro 1998
Fui pra minha casa e Izzy estava me esperando na portaria. Ela tinha acabado de terminar com o namorado e estava muito mal. Subimos para o meu apartamento e ficamos conversando. Alguns minutos depois a campainha tocou e eu fui atender e vi que era a . Ela nem chegou a entrar no apartamento, quando viu Izzy sentada no sofá apenas se virou sem falar nada e foi em direção ao elevador. Eu corri atrás dela e segurei seu braço. Ela se virou e eu a soltei.
- Ela acabou de terminar com o namorado e precisava conversar. – eu falei para , que me olhava sem expressão.
- Sei o tipo de conversa que ela quer ter com você - ela falou, e se virou apertando o botão do elevador algumas vezes.
- Nós somos só amigos, . – eu me aproximei dela, mas ela continuou olhando para a porta do elevador.
- Claro. Porque tudo bem você e sua ex passarem um tempo juntos. Mas eu não posso ficar com meus amigos.. – ela falou sem olhar para mim e apertou o botão do elevador mais uma vez.
- Porque o Ben é apenas um cara legal que você conheceu na Alemanha, né? Ele estava dando em cima de você descaradamente! – falei, sarcástico (o que ela detestava), e a porta do elevador abriu.
- Você é um idiota. - ela entrou no elevador e eu entrei junto.
- Na verdade você está bancando a idiota achando que tudo que o Ben quer é conversar. - eu falei, e ela apenas me olhou brava e voltou o olhar pra porta. - Agora vai agir como se eu não estivesse aqui? - eu falei, e ela me ignorou e quando a porta abriu ela saiu apressada e eu a segui.
- , nós precisamos conversar e resolver isso. – eu falei quando já estávamos na calçada.
- Resolver o quê, ? - ela se virou, brava. - A Izzy é a boa moça e você é um ombro amigo, enquanto Ben é o vilão e eu sou a péssima namorada desconfiada. Acho que você já está resolvido com seus pensamentos. - ela falou, e voltou a andar. Quando eu fui segurar seu braço ela se virou pra mim - Essa conversa acabou.
- , tudo que você precisa entender é que eu e Izzy somos apenas amigos e o Ben não é exatamente o tipo de cara confiável.
- Eu não quero conversar agora. No momento eu estou muito estressada e estou querendo te jogar na frente de um carro. Depois conversamos. - ela falou e se afastou. Logo ela chamou um táxi e pude vê-la me olhar uma última vez antes de entrar no carro.
Voltei para o meu apartamento e Izzy estava preocupada com a . Ela foi embora afirmando que não queria atrapalhar.
À noite eu fui à casa da , decidido a resolver tudo. Eu toquei o interfone, ela atendeu e me mandou subir. Cheguei até a porta do seu apartamento e ela abriu. Ela estava linda com os cabelos soltos, mas tinha um olhar triste.
- Oi - falei, sorrindo sem mostrar os dentes.
- Oi - ela respondeu, sorrindo da mesma forma.
- Me desculpa, . Por tudo que falei, por ficar agindo como esse namorado ciumento... É que eu não quero te perder, e Ben ameaça o que nós temos. Vamos deixar isso tudo pra trás. - ela ficou me olhando calma e eu comecei a me aproximar, mas ela se afastou.
- Eu não acho que esse relacionamento esteja dando certo. Acho melhor terminarmos. – ela falou, e desviou o olhar.
- O que? - eu perguntei, atordoado.
- É isso, , acabou. Somos bons amigos, mas péssimos como namorados. – ela me olhou triste.
- Não. Você está errada. Somos ótimos namorados, você só está falando isso porque está brava. – eu segurei a mão dela e ela ficou olhando nossas mãos. - Está brava com o que falei e por ter visto a Izzy no meu apartamento e...
- Não, ! Não é só por isso. – ela tirou a mão da minha.
- Então o que é? - eu perguntei sem entender e ansioso pela resposta dela. Ela ficou em silêncio alguns segundos, o que pareceu uma eternidade.
- Eu não estou gostando de quem eu sou agora. Ser sua namorada tem me deixado tão insegura... Eu estou sempre brava e tenho vontade de esfregar a cara da Izzy no asfalto. E eu odeio isso. – ela falou, com os olhos marejados.
- Mas... - ela me interrompeu.
- Eu ainda não terminei. Olha, você sempre foi meu melhor amigo e devíamos ter continuado assim. Esse namoro foi um erro. Talvez a distância tenha feito a gente confundir nossos sentimentos.
- Eu não estou confuso, . Eu te amo, eu tomei essa decisão e essa é a maior verdade que conheço agora. - eu falei e segurei sua mão mais uma vez. Foi a primeira vez que eu falei que a amava depois que começamos a namorar.
- Eu não me sinto desse jeito. - ela tirou sua mão e eu senti vontade de chorar. Meus olhos já estavam marejados e eu só queria ouvir que aquilo era uma piada. - Me desculpe, . - ela falou sem olhar nos meus olhos e fechou a porta. Eu ainda fiquei ali parado algum tempo processando o que tinha acabado de acontecer. Eu soquei a parede e entrei no elevador, destruído por dentro.
Fui pra casa e me sentei no sofá pensando no que a tinha dito. Fiquei horas tentando entender como em um momento estávamos bem e em outro tudo desabava. Dormi ali mesmo.
Acordei no dia seguinte com a campainha, e ao abrir a porta vi Rachel.
- O que aconteceu? - ela perguntou, entrando, e se sentou no sofá.
- terminou comigo. – falei sem olhar pra ela, e me sentei na poltrona em frente ao sofá.
- Mas o que aconteceu para ela fazer isso?
- Ela disse que não me ama e que não gosta da pessoa que ela se tornou namorando comigo.
- Por que ela diria isso? Ela ama você e desde que começaram a namorar ela realmente se tornou outra pessoa. Mas uma pessoa melhor! Ela está sempre sorrindo e acorda de bom humor... Mas ontem quando cheguei em casa eu a ouvi chorando no quarto, eu bati na porta mas ela não me deixou entrar. E hoje de manhã encontrei isso na mesa da sala - Rachel tirou um papel do bolso da jaqueta e me entregou. Peguei o papel que estava escrito:
“Rachel, preciso fazer uma viagem. Não sei quando volto, mas não precisa se preocupar. ”
Eu fiquei olhando para o bilhete e despertei do transe quando ouvi a voz de Rachel.
- Eu não entendo o que deu na para fazer isso.
- Ela simplesmente foi embora. - eu falei, ainda olhando o papel, e meus olhos ficaram marejados.
- Amanhã ela vai perceber a burrada que fez e vai voltar. Tenho certeza.
- Eu não tenho tanta certeza. - eu falei, desviando o olhar do bilhete e olhando pra Rachel - Olha, eu realmente preciso ficar sozinho agora.
- Claro. - ela se levantou. - Se precisar me liga, ok? - ela caminhou até a porta.
- Pode deixar - fechei a porta e me afundei no sofá.
*End Flashback
Os dias passavam lentamente e eu decidi me concentrar no trabalho. Eu sentia falta dela, eu a amava. Mas ao mesmo tempo eu estava bravo por ela ter ido embora, por ter me deixado. Às vezes pensava que talvez fosse melhor que ela não tivesse voltado da Alemanha. Às vezes eu só queria apagar esse ano da minha vida para então seguir em frente sem ela.

