Troublemaker
Autora: Poliana Sepeda
Status: Em Andamento
Revisada por: Vê Inamonico
Categoria: McFly Fics
Sub-Categoria: Romance/Drama - LongFic
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ONE
Saltei do meu Audi TT Roadster e atravessei os portões do tradicional Rugby School sentindo o olhar de todas as pessoas presentes ali voltar-se a mim. Não me incomodei. Pelo contrário, gostava muito de toda aquela atenção. Era o rei do colégio e não havia ninguém que ousasse me desafiar. Os caras me invejavam, desejavam ser exatamente como eu, e as garotas almejavam ter, nem que fosse apenas uma, noite comigo. Jogo na posição de abertura no nosso time de rúgbi, o jogador que mais exerce influência no jogo, sou como o cérebro da equipe, o que me dá todo o status que um cara poderia querer.
Para o resto do mundo, o rúgbi pode parecer apenas mais um jogo estúpido, mas no condado de Warwickshire é uma coisa muito séria, principalmente aqui na cidade de Rugby, onde o jogo nasceu. Rugby é uma cidade pequena, não chegamos nem a sessenta e cinco mil habitantes, e acho impossível existir na Inglaterra uma cidade que seja mais tipicamente inglesa do que essa. As casas vitorianas, casais sem graça com seus casamentos tradicionais, a forma polida que as pessoas têm de tratar uma as outras. O que, é claro, não passa da mais pura falsidade. E isso nos trás de volta ao rúgbi, porque em uma cidade tão pequena e esquecida pelo mundo como esta, as pessoas precisam de alguma distração. Diz-se que o grande criador do rúgbi foi William Webb, ex-aluno do Rugby School, em 1823, o que só aumenta a importância do jogo para nós.
– Quer passar o fim de semana lá em casa? Meus pais vão passar alguns dias em Warwick. – Samantha, minha namorada, perguntou assim que cheguei perto o suficiente para ouvir. Não pense que ela perguntou baixo, de forma que apenas eu a ouvisse, porque não foi isso que ela fez. Pude ver o olhar mal humorado que as garotas ao redor nos mandaram ao ouvirem o que Sam dizia, nós dois rimos. Ri porque Samantha pode ter o título oficial e ser minha namorada, mas não é a única. Já Sam, imagino que tenha rido por causa da inveja direcionada a ela.
Nós não estávamos juntos por estarmos apaixonados, longe disso, estávamos juntos por nossa popularidade. Não que eu precisasse dela para ser popular, já tinha o todo o status que o rúgbi poderia me oferecer e, além disso, meu pai era o dono da maior imobiliária do condado. Eu estava com ela pela diversão, pelo sexo fácil.
– Pode ser. – Respondi sem me comprometer. Afinal, até o fim de semana, poderia aparecer algo melhor.
– Hey, cara! – , meu melhor amigo, me cumprimentou assim que entrou na sala, onde, até então, eu estava sozinho ouvindo música no meu iPod. Se minha vida fosse dividida por prioridades a primeira seria o rúgbi, a segunda música e, então, garotas. Porque se tem uma coisa que aprendi com meu pai é que, quando uma mulher começa a lhe dar problemas, você não deve aturá-la. Simplesmente troque-a. Afinal, existem muitas mulheres no mundo. Então, dessa forma, garotas nunca são um problema. Principalmente para um cara como eu.
Já música era uma coisa que ocupava quarenta por cento do meu tempo, os outros sessenta eram dedicados ao rúgbi, como você deve ter imaginado. e eu tínhamos um sonho antigo de criar uma banda, mas nunca dava certo. Toco e , , precisávamos de um e de um .
Certa vez, até conhecemos um cara chamado Toddy, e ele era, de fato, um ótimo . Porém, Toddy era mais velho, já estava na faculdade, e acho que, por isso, achava que podia mandar em nós, mal sabia ele como estava enganado. Ninguém manda em mim. A única pessoa que ainda ouço é , mas nem sempre.
– E então? – Ergui uma sobrancelha para ele e estiquei minhas pernas, colocando meus pés sobre o assento da cadeira da frente, sem me importar de estar sujando uma mochila azul ridícula com desenhos da Pucca. Quer dizer, estamos no colegial, meu Deus! Quem usaria uma coisa tão idiota?
– Então o quê? – rebateu, parecendo confuso. Esse era seu único problema, ele não era muito inteligente. Não que os outros caras do time fossem grandes gênios também.
– Por que toda essa animação? Hoje ainda é terça-feira.
– Ah, sim! – E então ele pareceu se lembrar de algo. – O treinador disse que nossos uniformes novos chegaram, temos que ir experimentá-los depois da aula.
Era só isso, pensei, enquanto revirava os olhos, por um momento quase me esquecera de que estávamos na cidade perdida de Rugby e que alguma coisa interessante pudesse ter acontecido. Mas é claro que eu estava enganado, nada interessante acontecia naquela cidade, nunca. Foi então que a vi entrando na sala e me perguntei como nunca havia reparado nela antes. Ela era diferente de todas as garotas que eu já havia visto na cidade, mas não um diferente legal e original. Ela deveria ser a coisa mais estranha e patética de toda a Rugby! Usava um suéter rosa choque por cima da blusa do uniforme, uma saia de pregas de veludo e, para completar seu show de horrores, sua unha estava pintada de um verde limão que poderia ser visto até a duzentos metros de distância.
– Céus, quem é essa? – Ouvi perguntar, talvez tão espantado quanto eu. Para nossa surpresa, ela vinha em nossa direção. Não pude deixar de reparar em suas pernas, ela não era feia, concluí. Apenas se vestia muito mal, o que já era o suficiente para torná-la uma grande perdedora. Para qualquer outro, se envolver com uma garota como aquela seria suicídio social, mas para mim não. Eu poderia fazer o que quisesse que apenas ficaria mais popular, acho que, no fundo, era por isso que as pessoas queriam tanto ser como eu. Eu não seguia as regras, eu apenas as criava. Fazia tudo do meu jeito e ninguém tinha coragem suficiente para se pôr em meu caminho. Porém, eu tinha várias garotas melhores do que ela aos meus pés, então não perderia meu tempo.
– Você pode, por favor, tirar seus pés da minha cadeira? – Apesar das palavras, seu tom era rude. Tive que rir. Ela, definitivamente, era nova ali. Não sabia com quem estava lidando, caso contrário, não teria falado daquele jeito.
– Não. – Respondi relaxando ainda mais sobre a cadeira e coloquei meus braços atrás da cabeça. Pude ouvir claramente a risada de ao meu lado, o que me fez rir de novo. Eu adorava fazer aquilo.
– Não me obrigue a obrigar você. – Ela me advertiu e só naquele momento percebi como o sotaque dela era diferente, talvez não fosse inglesa, até porque parecia ser muito bronzeada para isso. Em Rugby chovia duzentos e vinte dias ao ano, então não tínhamos muito contato com o Sol e, mesmo que não estivesse chovendo, o clima parecia sempre nublado. Sorri diante da ameaça dela. Tirei meus pés da cadeira e fiquei de pé, vendo-a lançar um olhar irritado à mochila que agora estava suja. É claro que aquela coisa ridícula seria dela. O azul cintilante da mochila combinaria perfeitamente com o verde limão de suas unhas, me vi obrigado a ironizar.
– E o que pensa em fazer comigo? – Perguntei ligeiramente curioso, ainda com o mesmo sorriso nos lábios. Agora que eu estava de pé, ficava evidente nossa diferença de altura. Eu deveria ser, no mínimo, um palmo e meio maior que ela. Me perguntei como uma garota tão pequena poderia achar que seria capaz de me machucar de alguma forma.
– Isso! – Ela exclamou antes de me acertar um soco certeiro no nariz e essa é última coisa de que me lembro antes acordar na enfermaria do colégio.
Abri os olhos vendo Josh, , Logan e Ethan formarem um círculo ao meu redor. Sentei rápido, fazendo com que minha vista rodasse um pouco, mas assim que melhorei, foquei meu olhar em Logan, que era o mais próximo de mim, e o puxei pela gola da camisa.
– Descubra tudo sobre ela! – Rosnei bem perto do seu rosto, vendo meu companheiro de time arregalar os olhos.
– , fica calmo, cara! – pediu, pondo uma mão em meu ombro e tentando fazer com que eu soltasse Logan.
poderia dizer o que quisesse, eu não o estava ouvindo. A única coisa em que poderia pensar era que aquela garota iria se arrepender do dia em que havia posto os pés em Rugby. Saí da enfermaria bufando, ainda pressionando um lenço contra meu nariz, o qual a enfermeira Dorethy havia me dado caso ele voltasse a sangrar. Eu ia sozinho na frente, atrás vinham e Josh e logo mais vinham Ethan e Logan. As pessoas iam abrindo passagem assim que avançávamos pelo corredor apinhado de alunos; eu estava tão furioso que seria capaz de quebrar o pescoço de qualquer um que se metesse em meu caminho e isso estava estampado em meu rosto, visto que ninguém ousava sequer me encarar. O mais legal de ser popular era que, ao mesmo tempo que as pessoas amavam você, elas também temiam. Teriam rido se meu nariz não estivesse tão dolorido. Pela agitação em que os corredores se encontravam, conclui que minha passagem pela enfermaria havia demorado mais do que o imaginado. Ao que parecia, havíamos perdido todos os quatro primeiros tempos de aula, não que eu ou os caras lamentássemos, longe disso até.
Continuei abrindo caminho entre os alunos, parando apenas quando alcançamos a entrada do refeitório; cerrei os olhos enquanto olhava ao redor. Não foi difícil achar uma garota de rosa choque no meio de todas aquelas pessoas usando somente a camiseta branca do Rugby School. Caminhei por entre as mesas sentindo que os caras não paravam de me seguir nem por um segundo, isso me fez rir um pouco. Eu era o líder deles e fariam qualquer coisa que eu mandasse.
– O que você quer? – Ela rosnou para mim assim que me viu parado a sua frente. Olhei bem para o rosto contorcido de raiva dela e levei o lenço da enfermeira Dorethy pela última vez ao nariz; pus ali todo catarro ainda misturado ao um pouco de sangue que consegui, depois, abri o sorriso que fazia com que qualquer garota suspirasse e joguei o lenço dentro do copo de suco em suas mãos.
– Quer levar outro soco, idiota? – Ela perguntou arremessando o copo no chão e, de repente, o refeitório barulhento e agitado de antes havia mergulhado em um profundo silêncio. Eu podia sentir os olhos de todos os estudantes cravados em mim, podia sentir a tensão que emanava deles. Eles sabiam. Todos sabiam. Ninguém falava comigo daquele jeito. Essa era a regra básica de sobrevivência do Rugby School.
– Como você é nova aqui, dessa vez vou deixar passar. – Eu disse da forma mais calma que pude. – Mas é bom que fique ciente das regras.
– Estou realmente comovida com a sua bondade. – Ela debochou. – E que diabos de regras são essas? Devo me curvar diante de vossa majestade? Até hoje de manhã a Inglaterra só tinha uma rainha.
Sorri. Era nesse ponto que eu queria chegar.
– Acho que começamos com o pé esquerdo... – Cruzei as mãos nas costas e comecei a andar em círculos ao redor dela. – Me chamo e, não sei se você entende de rúgbi, mas sou o que pode se chamar de capitão do time. Se você procurar saber, vai descobrir que o Rugby School não perde um campeonato há mais de vinte e cinco anos. Isso talvez lhe faça entender a importância do jogo para nós.
– Onde você quer chegar com toda essa baboseira? – Ela cruzou os braços parecendo entediada.
– Sou o melhor jogador do condado e, por mais arrogante que possa parecer dizer isso, é verdade. Pergunte pra qualquer um aqui e eles vão confirmar. – Continuei, controlando a raiva que crescia em meu peito. – Sem mim, eles perdem. O que me torna a pessoa mais importante desse lugar. – Parei ficando de frente a ela novamente. – Agora, deixe que eu diga quem você é. – Sorri debochado. – Você é só mais uma perdedora no meio de todos os outros que essa escola já tem, é apenas mais uma na multidão. E, caso queira sobreviver aqui, aconselho a pensar duas vezes antes de bater de frente comigo. Essa é a regra.
Sorri ao ver que, pela primeira vez, ela hesitava. Antes que ela pudesse se recuperar, lhe dei as costas e fui em direção à nossa mesa no meio do refeitório.
– Mandou bem, ! – Ethan me parabenizou dando dois tapas no meu ombro enquanto nos sentávamos.
– É, ensinou pra perdedora o lugar dela. – Josh disse imitando o gesto do outro.
– Algum plano em mente? – perguntou, erguendo uma sobrancelha para mim. Ele me conhecia melhor do que todos os caras do time e sabia que ninguém me desafiava, não sem haver consequências.
– Por enquanto não. – Respondi sincero, mas eu pensaria em alguma coisa. O vi cerrar os olhos para mim, já prevendo meus pensamentos. Tive que rir. era a única pessoa com quem eu sabia que podia contar para qualquer coisa. Nos conhecemos em um hospital, há oito anos, quando nossas mães ficaram doentes. A diferença era que a mãe dele havia só quebrado o braço, já a minha, acabava de morrer de câncer. Olhei ao redor parando meu olhar na mesa da garota de rosa e revirei os olhos ao ver quem estava sentado bem ao seu lado. É claro que ela seria amiga de , o maior otário de toda a Rugby! Ri diante de tamanha ironia. era o mascote do colégio, nosso faz-tudo. Era ele quem trocava nossas toalhas no vestiário, era ele quem catava as bolas depois dos nossos treinos e, sempre que tínhamos algum jogo, era ele quem se fantasiava de águia, que simbolizava o brasão do Rugby School. A verdade era que era um cara persistente. Todo o ano nosso treinador fazia testes atrás de novos jogadores e o era sempre o primeiro a se inscrever. Porém, é claro, ele nunca passou. Desviei meu olhar para os caras na nossa mesa, eles falavam sobre uma festa que aconteceria no fim de semana, a qual eu, até o momento, não estava interessado em ir. E se eu não fosse, a festa não seria boa. , que já estava na mesa quando nós chegamos, era o único que não participava da conversa. Quando nossos olhares se cruzaram, ele me olhou parecendo meio irritado e balançou a cabeça negativamente, voltando a atenção para o seu sanduíche. O fato era que era o defensor dos perdedores, então eu já podia prever o motivo de sua irritação. Não preciso nem dizer que não somos grandes amigos, mas ele faz parte do time e somos obrigados a conviver um com o outro. Olhei novamente para a mesa da garota de rosa e sorri me lembrando de sua hesitação. Medo. Respeito. Admiração. Era isso que ela deveria sentir por mim dali pra frente.
TWO
Esperei que os caras sumissem em direção ao vestiário e caminhei até o centro do campo, olhei ao redor, para me certificar de que realmente não havia mais ninguém por perto, e deitei sobre o gramado. Eu adorava fazer isso, era uma coisa que eu sempre fazia depois dos treinos. Gostava de simplesmente me deitar ali, olhar para o céu e sentir o vento frio bater contra meu rosto, geralmente suado após os treinos.
Gostava do silêncio, da tranquilidade, do sentimento de pertencer. Rúgbi era a minha vida, quando eu estava em campo, sentia que não havia no mundo lugar mais certo para estar. Sem falar que Rúgbi era minha chance de sair daquela cidade, eu poderia conseguir uma boa bolsa para a faculdade e, quem sabe, estaria jogando profissionalmente dali alguns anos. Fechei os olhos me agarrando ao máximo a este último pensamento, impedindo que qualquer sentimento ruim viesse à tona. Porque mesmo que eu sempre estivesse rodeado de pessoas e que todos quisessem uma chance de ser meus amigos, eu, às vezes, me sentia só. Até porque, eu sabia que não era na minha amizade em si que eles estavam interessados, mas sim, no que ela poderia significar. Popularidade.
Meu pai era um cara que só estava presente na minha vida cinco por cento do tempo, mas nós já havíamos sido mais próximos. Logo que minha mãe morreu, e que a imobiliária não exigia tanto de seu tempo, nós costumávamos ir ao Caldecott Park e treinar alguns arremessos, depois, nós íamos a uma sorveteria que havia ali perto e sentávamos no meio fio, apenas aproveitando o momento. Era divertido. Abri os olhos e passei as mãos pelo rosto enquanto me levantava e ia em direção ao vestiário, aqueles não eram bons pensamentos. Não era o tipo de coisa que eu gostaria de me lembrar.
Abri a porta do vestiário já vazio, ou assim pensei estar, quando me deparei com guardando as bolas e juntando as toalhas que meus companheiros de time faziam questão de jogar no chão, apenas para fazê-lo trabalhar mais.
– Ora, ora... Olhe só quem temos aqui! – eu disse, animado por poder atormentá-lo um pouco e provar, a mim mesmo, que minha vida não era tão ruim. – Se não é o perdedor número um de toda a Rugby!
Ele não disse nada, apenas continuou guardando as coisas como se eu sequer houvesse falado. Fechei as mãos em punhos, irritado com a falta de reação dele. Ninguém me ignorava, muito menos um perdedorzinho de merda como . Fechei a porta do armário, o qual ele arrumava, com violência, obrigando-o a olhar para mim.
– Seja mais educado, , e olhe quando eu falar com você. – praticamente cuspi para ele.
– Vá se ferrar, ! – Ele praguejou, me fazendo rir.
– Não precisa deixar de ser uma dama. – eu disse, ainda rindo, e escorei-me no armário ao seu lado. Eu estava relaxado agora, já não pensava em minha mãe ou em meu pai, ou no tempo em que éramos felizes. – Me diga, qual o nome da sua nova amiga?
– Fique longe da ! – Ele gritou, parecendo realmente irritado agora. – Ela não é para o seu bico!
– Ela não é para o seu bico. – fiz uma imitação malvada de sua voz e gargalhei. – Minha nossa, com quem você aprendeu essa expressão? Com a sua avó?
– Eu estou falando sério, – ele me advertiu; aquilo estava realmente engraçado. me advertindo! Onde o mundo iria parar?
– E se eu a quisesse? O que você faria? – O desafiei. – Aposto que ela gostaria que eu tentasse...
– Eu quebraria a sua cara – me ameaçou. Ora, agora ele estava sendo um tanto quanto absurdo, devo dizer. Será que todos os socos que lhe dei estavam começando a afetar seu cérebro? – Ou ela mesma faria isso. – ele acrescentou, erguendo uma sobrancelha. – Você soube, em primeira mão, como ela tem uma direita poderosa.
Cerrei meus olhos para ele, ficando irritado apenas com a lembrança. Porém, não era sempre que eu perdia o controle.
– Tem certeza disso? – Eu duvidei, mantendo minha expressão a mais calma possível. – Lembra-se de ? Você também duvidou dela, e olhe só o que aconteceu.
havia sido uma garota que surgira no Rugby School no início de nosso primeiro ano e, assim como , não passava de uma perdedora. Não que ela pudesse ter outro destino, afinal, eles eram namorados. Lembro de estar tendo com uma conversa parecida com esta que estávamos tendo agora, quando ele duvidara de mim. Praticamente me desafiou a dormir com a sua namorada quando disse que ela jamais ficaria interessada. E, bom, eu nunca desisto de um desafio. É claro que , assim como todas as outras garotas, estava interessada. E foi tão fácil levá-la para a cama! Ela foi tão boba, tão ingênua... Quase tive pena, quase desisti, mas então, me lembrei da forma feliz e presunçosa a qual havia dito que havia uma garota no colégio que jamais cairia em meus braços. O mais surpreendente de tudo não foi ela ter o traído tão facilmente, não foi a forma desesperada a qual ela se jogou em meus braços, mas sim, descobrir que ela era virgem.
Nunca havia dormido com uma garota virgem. Nunca. Não que eu tenha contado isso à alguém, mas admito que, depois que todos ficaram sabendo, me senti mal por ela. Imagine descobrir que havia entregado seu corpo e seu coração à alguém que não a queria de verdade e, pior, imagine que todos que você conhecia também ficariam sabendo. Eu, é claro, não gostava dela. Nem um pouco. Mas como eu poderia? Saímos duas vezes e, na vez seguinte, eu já estava em sua cama. Lembro-me de ter dito a ela que nunca havia me apaixonado, porque quando você queria levar uma garota para a cama tinha que dizer algo significativo ao seu respeito, tinha que fazê-la achar que era a única pessoa em quem você confiaria, isso, de alguma forma, a faria acreditar ser importante, especial. Mesmo que na verdade não fosse.
Hoje em dia, dois anos depois de todo o acontecido, é uma líder de torcida. Hoje ela é alguém. Eu, na verdade, lhe fiz um favor. Graças a mim, ela havia deixado o perdedor do , graças a mim ela havia se tornado popular. Talvez esse tenha sido seu único consolo, mas que, de qualquer forma, aliviava minha consciência.
Olhei para o e vi que seu rosto estava branco, completamente sem cor. Ergui uma sobrancelha e dei um sorrisinho de lado, não sabia que aquilo ainda o afetava tanto. Pela sua expressão, eu podia dizer que ele estava repassando toda a história em sua mente e, poderia até arriscar, que ele ainda era apaixonado por ela. Era uma perda de tempo, senti vontade de lhe dizer, agora estava completamente fora de seu alcance. Líderes de torcida não saíam com perdedores, apenas com jogadores de Rúgbi. Fiquei um instante imóvel tendo, pela primeira vez, aquele pensamento. Seria isso que o incentivava tanto a sempre participar dos testes? Seria por isso que ele nunca desistia do Rúgbi? Por um momento, por uma fração de segundo, tive pena dele. Deveria ser horrível ser tão apaixonado por alguém.
– jamais faria o que ela fez. – ele afirmou, incapaz de sequer pronunciar o nome da outra. Sorri. Estaria ele me desafiando novamente? – Além do mais, não é esse tipo de relação que nós temos.
– Oh, não? – Ergui uma sobrancelha. – Então você é só o amigo gay dela?
– Isso não é da sua conta! – Ele rosnou para mim e saiu do vestiário. Dei de ombros, eu descobriria. E, em outro dia, quando eu estivesse com e com os outros caras do time, pagaria por ter me dado as costas de forma tão pouco lisonjeira.
Andei pelos corredores quase vazios do colégio, já que os treinos costumavam acontecer sempre depois das aulas, e passei as mãos pelo meu cabelo, ainda molhado, tentando arrumá-lo da melhor forma possível. Não que eu fosse vaidoso, mas sendo o cara mais popular do Rugby School, eu deveria estar sempre com aquela aparência descolada de quem acabara de acordar. Soube que havia atingido meu objetivo quando cheguei ao pátio do colégio e vi que a maioria das garotas voltavam sua atenção a mim. Sorri, sabendo que aquilo as deixaria sem ar, e coloquei meu rayban.
Passei por um grupo de lideres de torcida e, ainda com a conversa com fresca em minha mente, olhei para . Ela me olhou rápido, sem saber se eu realmente a estava encarando ou não, por causa dos óculos, e voltou a atenção as amigas. Suspirei. É, ela ainda tinha raiva de mim, concluí. Nós sempre estávamos nas mesmas festas, com a mesma galera, mas nunca nos falávamos. Eu não podia culpá-la, mas, de certa forma, ela também não podia me culpar. Quando ficou comigo, ela sabia como eu era, por que achou que, justo com ela, seria diferente? O que a fez pensar que era mais especial do que as outras?
Mas as garotas eram assim, não importava quão ruim fosse a fama de um cara, elas sempre achavam que com elas seria diferente. Eu nunca disse que estava apaixonado por . Aliás, esse era um sentimento que eu abominava. O amor era uma coisa traiçoeira, ele chegava devagar, sorrateiramente e, quando você se dava conta, já eraum da vida que ficava ano após ano aguentando humilhações apenas na esperança de chamar a atenção de uma garota que, assim como todos ao seu redor, já o traíra e o humilhara. Por que eu iria querer um sentimento desse? Não, obrigado. Estava muito bem do jeito que estava.
Franzi a testa ao chegar no estacionamento do colégio e me deparar com escorado no meu carro.
– Em que posso ajudar? – brinquei assim que cheguei perto, vendo meu melhor amigo revirar os olhos.
– Preciso de uma carona. – ele respondeu.
– E cadê o seu carro? – perguntei erguendo uma sobrancelha.
– Eu bati no fim de semana passado quando estávamos saindo da casa do Josh, lembra? – A verdade era que eu não me lembrava de muita coisa daquela noite, mas tinha uma vaga lembrança de falando sobre isso no dia seguinte.
– Hm, certo. – resmunguei pensando que, por mais irresponsável que eu fosse, jamais dirigiria bêbedo. Não se fosse o meu carro. – Então vamos logo, eu estou exausto.
– Não, espere. – ele me segurou quando fiz menção de entrar no carro. – Logan está na diretoria.
O que não era estranho se você levasse em consideração que o pai dele era o diretor.
– Seja mais claro, por favor. – pedi impaciente.
– Ele está lendo a ficha dela. – apontou para uma garota sentada sozinha no lado mais distante do pátio. Hoje ela usava a saia do colégio com uma meia laranja que ia até abaixo de seus joelhos em conjunto com um par de tênis brancos que faziam com que seus pés parecessem duas vezes maiores do que o normal. Suas pernas estavam esticadas sobre o banco em que estava de forma que a saia só alcançasse metade de suas coxas, me fazendo prestar mais atenção a ela do que deveria. Por mais que me custasse admitir, ela era gostosa. Se já não tivéssemos nos enfrentado logo em seu primeiro dia, eu talvez investisse nela. Nem que fosse apenas para colocar minhas mãos naquelas pernas.
– , esse é o nome dela. – eu disse o vendo erguer as sobrancelhas, curioso. – Tive uma conversinha com o no vestiário.
E, então, pude ver abrir aquele sorrisinho maldoso que sempre dávamos quando se tratava de um perdedor.
– Alguma coisa interessante para me contar?
– Ele ainda é apaixonado pela . – respondi vendo a expressão de surpresa dele. – Acho que por isso não desiste do Rúgbi.
– Faz sentido. – maneou a cabeça. Escorei-me no carro e ficamos os dois olhando para até que vimos Logan vir com um copo em mãos; troquei um olhar com já sabendo o que vinha a seguir e cruzei os braços, esperando. Quando chegou perto de onde ela estava, Logan ainda teve a cara de pau de fingir ter tropeçado enquanto estava com os cabelos e rosto sujos de alguma coisa que supus ser suco. Tanto quanto eu gargalhamos alto chamando atenção de todos que estavam por ali e, assim que descobriram o motivo de nossas risadas, começaram a rir tão alto quanto nós. Ainda rindo, olhei para que nos encarava furiosa enquanto Logan vinha em nossa direção.
– Gostei de ver, cara! – Dei dois tapas nas suas costas, já parando de rir.
– Ela merecia isso, ainda mais depois do que descobri. – ele disse me deixando curioso. – Ela é prima do !
– Dois perdedores na mesma família? – debochou e, assim como Logan, olhou para mim, esperando minha reação. Mas eu não estava prestando atenção neles. Olhei para o outro lado do pátio, onde havia estado alguns minutos antes, e dei nosso famoso sorrisinho maldoso. Era isso, pensei, se eu queria saber o ponto fraco dela, havia acabado de descobrir.
– E o que mais você descobriu? – Perguntei e Logan me olhou parecendo meio decepcionado por eu não o ter parabenizado pela descoberta. Revirei os olhos impaciente. A verdade era que os caras do time estavam sempre querendo minha aprovação, eu não os culpava, afinal, eles me viam como um líder. Mas, por mais útil que isso fosse, às vezes me irritava. E era por isso que era o único quem eu considerava meu amigo, ele não era submisso. Pessoas submissas eram fracas e eu as odiava.
– Seu nome é , tem dezessete anos e é californiana. – Logan, enfim, disse. Bom, aquilo explicava seu sotaque estranho e seu bronzeado tentador. – E parece que foi expulsa da última escola em que esteve.
– Como assim parece? – Rosnei para ele. Também odiava as pessoas incompetentes. – Por que foi expulsa?
– Não consegui ler essa parte, papai me viu entrando na sala dos arquivos e me seguiu. – ele respondeu, me fazendo ficar irritado. Como alguém poderia ser tão estúpido? Como poderia ter deixado passar o detalhe mais importante? Era daí que vinha aquele ditado que dizia que, se você quer uma coisa bem feita, faça você mesmo. E, cedo ou tarde, eu descobriria.
THREE
Desviei meu olhar do teto do meu quarto e olhei para o relógio no criando mudo, constatando que ainda eram seis da manhã. Suspirei impaciente enquanto rolava na cama. Por algum motivo, eu havia acordado uma hora antes do que deveria, o que era frustrante. Agora, eu estava completamente desperto, mas eu sabia que o sono chegaria assim que o relógio marcasse sete horas, quando eu precisaria levantar. Eu precisava voltar a dormir, aquela hora de sono seria importante para mim. Afinal, sou um atleta e preciso de todas as horas de sono possíveis. Sentei na cama e liguei o abajur no criado mudo; olhei para a porta do quarto e encarei o pôster do The Strokes desistindo totalmente da idéia de voltar a dormir. Peguei meus tênis, que estavam bem embaixo da cama, e os calcei indo ao banheiro jogar uma água no rosto antes de sair.
Eu costumava fazer isso quando estava com uma insônia como aquela, ia até o Caldecott Park e dava algumas voltas antes de ir ao colégio. Antes de deixar o quarto, me olhei no espelho da porta do meu guarda-roupa e fiz uma careta ao imaginar que eu não deveria estar muito atraente vestido com o meu pijama de moletom cinza. Dei de ombros, não era como se eu fosse encontrar alguém interessante caminhando por Rugby às seis da manhã. Andei pelo corredor, já iluminado graças à luz do Sol que começava a entrar pelas janelas, e passei pela porta do quarto do meu pai que continha um sutiã pendurado na maçaneta. Bufei. Ele deveria estar com companhia e aquele era seu jeito de dizer não entre. Eu não me importava que ele fosse um canalha e que dormisse com a primeira que aparecia, mas me revoltava o fato de que ele trazia qualquer uma para dormir na mesma cama que um dia a minha mãe já esteve.
Passei direto pela sala e fui em direção à cozinha, apenas para pegar uma maçã, e saí pela porta dos fundos. Entrei no carro e dirigi pelas ruas quase desertas de Rugby me perguntando se eu sentiria falta de toda aquela tranqüilidade caso deixasse a cidade algum dia. Acho que não, pensei quando estacionei o carro próximo ao meio fio. Olhei-me no retrovisor vendo a confusão em que meu cabelo se encontrava, tirei um boné e meu já conhecido ray-ban do porta luvas, e saltei do carro me arrepiando um pouco ao sentir o vento frio da manhã soprar contra o meu corpo.
Comecei dando duas voltas no parque, apenas caminhando para aquecer, e então comecei a correr. Quando eu já deveria estar na quarta volta, uma garota deitada sobre a grama me chamou a atenção. Ela usava óculos Wayfarer branco com um pijama de moletom parecido com o meu, a diferença era que o dela era vermelho e não combinava nada com seus tênis azuis. Bufei me perguntando se era possível haver em Rugby duas pessoas com tão pouca noção de moda, mas é claro que não era possível. Era ela quem estava ali. Ignorei e continuei correndo enquanto pensava que hoje era um dos dias mais esperados do ano, ao menos para aqueles que tinham uma vaga esperança de entrar para o time.
tentaria mais uma vez? Bom, logo eu saberia, afinal, hoje nós teríamos os testes. Não resisti e, quando passei novamente pelo lugar onde a havia visto, olhei em sua direção, mas ela já não estava lá.
– Me procurando? – perguntou parada exatamente na minha frente, fazendo com que eu me assustasse e trombasse contra ela.
– Vai nessa... – Debochei depois de me recompor e voltei a correr, mas ela, novamente, se meteu em meu caminho. – O que você quer, garota?
Ela ergueu uma sobrancelha para mim e cruzou os braços. Eu já estava começando a ficar irritado, qual era o problema dela, afinal? E de onde diabos ela tirava coragem para vir falar comigo? Garota estúpida, não sabia onde estava se metendo.
– Pensei que você viesse falar comigo. – ela, enfim, se pronunciou colocando os óculos sobre a cabeça. Eu teria rido, gargalhado até, se não estivesse tão chocado. – Mas aí eu percebi que não teria graça humilhar alguém sem ter a sua plateia, não é mesmo?
– Você não sabe nada sobre mim. – eu disse entediado. A única coisa que me preocupava no momento era que ela havia me feito perder todo o pique da corrida.
– Oh, não se engane. – ela me avisou apontando um dedo para mim. – Eu conheço bem o seu tipo.
Revirei os olhos e cruzei os braços, esperando.
– Você é o típico capitão do time do colégio, o popular que consegue qualquer garota que quiser e ainda namora a chefe das líderes de torcida. – olhei para ela me lembrando a todo momento que era apenas uma garota e que eu não podia simplesmente enchê-la de socos, por mais que essa fosse a minha vontade. – Você é um verdadeiro clichê. Não fica entediado com uma vida dessas?
– Seja lá o que você esteja tentando fazer, não vai dar certo. – eu comecei. – Jogos psicológicos não funcionam comigo, não sou como os outros caras do time. Pelo o que ouvi dizer, você não é inglesa e, provavelmente, não entende nada de Rúgbi, mas pense em futebol americano. São esportes parecidos, são o tipo de esporte onde os jogadores não são medidos por suas genialidades, mas sim por sua força bruta. E é aí que eu entro, porque o abertura, o camisa 10, não só tem que ser forte e ágil como é o cérebro da equipe. Então não pense que pode me manipular, porque não pode. Não sou estúpido.
– Já reparou que a cada dez palavras que você fala, oito são sobre Rúgbi? – Ela perguntou distraída, fazendo parecer que não havia ouvido nada do que eu havia dito. – Você precisa ampliar o seu vocabulário.
Olhei para ela, agora verdadeiramente irritado. Eu sentia meu corpo vibrar, implorar para que eu fizesse alguma coisa, qualquer coisa, mas eu não podia. Ela era uma garota, me forcei a lembrar.
– Você realmente está debochando do Rúgbi? – Rosnei para ela dando um passo em sua direção. Ela, por sua vez, não se moveu, não hesitou. O que, é claro, só me deixava ainda mais irritado.
– Ué, qual o problema? – perguntou erguendo as sobrancelhas, parecendo ligeiramente surpresa, apesar de eu saber que ela só estava curtindo uma com a minha cara. – Rúgbi é um jogo primitivo, coisa de Neandertais. Não sei por que quer tanto fazer parte disso.
– Ele só quer o que todos querem. – declarei. – Mas tem um motivo extra, eu diria.
– O que você quer dizer com isso? – Ela exigiu e, pela primeira vez na conversa, pareceu se preocupar com algo. Ora, então ela não sabia? Eu ri. – Do que está rindo, idiota?
– Você se acha esperta – comecei a andar ao redor dela, circulando-a como se ela fosse a pressa e eu o caçador. – Mas deixa passar os detalhes mais explícitos. Isso é tão frustrante, não é?
– Diga de uma vez! – Ela bufou batendo os pés no chão.
– Você realmente fez isso? Bateu os pés no chão? – Eu debochei me sentindo, enfim, no controle da situação. Não gosto da forma como ela me faz sentir deslocado. Não mesmo. – Quantos anos você tem? Doze?
Ri um pouco mais e lhe dei as costas indo em direção ao meu carro, aquilo havia sido divertido.
– Tem a ver com aquela garota? – me segurou pelo braço, me fazendo erguer uma sobrancelha. – Aquela com quem você dormiu?
– Qual delas? – Eu tive que perguntar, mesmo sabendo a quem ela se referia. – Dormi com muitas, todas me quererem.
Ela largou meu braço e cerrou os olhos para mim.
– Nem todas. – disse firme e eu cruzei os braços, entediado. Quando as pessoas parariam de duvidar de mim?
– Diga um nome. – eu pedi. – Pode ser qualquer pessoa, menos a supervisora Laught, não gosto de mulheres com barba.
– Eu. – ela respondeu como se fosse óbvio. É claro que eu deveria esperar essa resposta, todas acham que podem resistir, até o momento em que são testadas. – Eu jamais ficaria com você.
Olhei para ela e analisei seu rosto inocente. Ela nem fazia idéia do que havia acabado de dizer. Gargalhei em alto e bom som, provavelmente estava pensando que eu era louco, mas eu precisava comemorar aquilo de alguma forma. Ela havia usado a palavra jamais. Aquilo era, com certeza, um desafio. E eu estava muito seguro sobre quem ganharia. Em poucas semanas, estaria nua na minha cama. Ela tentou me acertar, mas dessa vez, eu estava preparado e consegui segurar seu pulso antes que alcançasse o meu rosto. A puxei para perto e aproximei minha boca de sua orelha, já botando meu plano em prática. Seduzir e destruir.
– Você vai ser minha, . – sussurrei contra o seu pescoço. – Vou beijar cada pedacinho do seu corpo e você vai ofegar no meu ouvido implorando por mais.
Ela me empurrou e tentou me acertar com a outra mão, mas de novo eu havia sido mais rápido.
– Sou um jogador de Rúgbi, garota! – Exclamei rindo. – Acha mesmo que pode brigar comigo? Já derrubei caras muito maiores do que você.
– Quero que você e o seu joguinho de Rúgbi vão à merda! – Ela retrucou furiosa. Ergui uma sobrancelha, eu podia ver o motivo de sua irritação, e não era por algo que eu havia dito. Ela estava com raiva dela mesma, porque debaixo de toda aquela fachada raivosa, ela havia ficado perturbada com a minha aproximação.
– À merda, eu não sei, mas estou indo para casa. – Eu disse relaxado. – Já são quase sete horas, quer carona?
– Vá pro inferno! – praticamente cuspiu para mim, me fazendo rir enquanto eu caminhava em direção ao carro.
– O que está achando? – me perguntou se referindo aos testes. Nós estávamos na última arquibancada, onde tínhamos a visão do campo inteiro.
– Acho que nós vamos ganhar o Estadual. – eu respondi despreocupado.
– Já sei disso, imbecil! – Ele riu me dando um tapa na cabeça. – Quero saber se acha que os candidatos são bons.
– Melhores que os do ano passado. – ponderei e então nós ficamos em silêncio prestando atenção ao que acontecia no campo.
– Aí vem a melhor parte... – apontou para que ia na direção do nosso treinador.
– O que você acha da ? – Perguntei sem prestar muita atenção ao teste do , eu já sabia onde aquilo ia dar.
– Acho ela gostosa, facilmente ficaria popular se um de nós saísse com ela. – ele respondeu distraído, diferente de mim, estava prestando atenção ao campo. – Mas não se preocupe, nenhum dos caras vai se meter com ela. Ela já é sua.
– Não estou preocupado, não existe competição. – Foi a última coisa que eu disse antes de ficar em pé de um salto. O que era aquilo que estava acontecendo no campo? e eu nos entre olhamos e descemos a arquibancada quase que correndo.
– Vou lhe dar essa chance, filho. – O treinador deu dois tapas nos ombros do . – Seja bem-vindo ao time!
Fiquei parado, completamente chocado. Mas que merda era aquela, afinal? Ao que parecia, eu não era o único surpreso. Olhei para o lado esquerdo do campo, onde as líderes de torcida estavam praticando, e vi o rosto quase sem cor de . Se queria impressioná-la, havia conseguido. Eu podia sentir que todos os caras do time estavam com seus olhos voltados a mim, esperando minha reação. Em exceção, é claro, do que nesse exato momento estava dando os parabéns ao . Bufei diante de algo tão ridículo.
– Se ele ficar, eu estou fora. – ameacei quando o treinador passou ao nosso lado. Ele me olhou sério por alguns segundos e, então, balançou a cabeça.
– Você não vai sair. – ele disse continuando o seu caminho. – Você adora o seu reinado.
O mais irritante de tudo era que ele estava certo, eu dava valor demais ao Rúgbi para abandonar o time por causa de um idiota como o . Mas se eu não podia sair, faria com que ele desistisse. Olhei para o a apenas alguns metros, ele estava olhando para nós. Sorria vitorioso. Cerrei meus olhos e peguei uma das bolas que estavam no chão a arremessando em sua direção. É claro que ele não havia sido ágil o suficiente, nem forte o suficiente, para aguentar a força do meu arremesso. Olhei pra ele, que já não sorria, e ergui uma sobrancelha apontando para a bola no chão.
– Uma vez perdedor, sempre perdedor.
FOUR
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– Saiam da minha frente. – ele mandou com um tom firme que quase me fez rir. Estávamos no vestiário e a maioria do time já havia ido, com exceção de mim, , Ethan, Josh e, é claro, que estava prestes a pagar por ter tido coragem o suficiente para permanecer no time, mesmo contra a minha vontade.
– Ou o quê? – Eu o desafiei. – Vai gritar como a garotinha assustada que você é?
– Você é doente! – Ele gritou e, por mais audacioso que possa parecer, cuspiu no meu rosto. Me limpei e balancei a cabeça, sem me alterar.
– Vocês não acham que ele está de cabeça quente hoje? – Perguntei para os caras que não responderam, mas riram já sabendo onde eu queria chegar. – Que tal a gente dar um banho nele?
– Qual é o seu problema, afinal? – perguntou enquanto ainda tentava impedir que Ethan e Josh o carregassem em direção ao banheiro. – Qual o seu problema comigo?
– Eu só não vou com a sua cara – dei de ombros vendo abrir a porta de uma das cabines privadas. E aqui vai uma rápida explicação. Dar um banho, diferente do que você deve estar pensando, não tem nada haver com um chuveiro, mas sim, com um vaso sanitário. É quando você enfia a cabeça de alguém dentro da privada e puxa a descarga, muito divertido.
– Suas últimas palavras? – Perguntei a ele quando segurei sua cabeça pelo cabelo e Ethan e Josh o ajoelhavam diante do vaso.
– Você é um covarde! – se sacudiu. Me pergunto se ele realmente acreditava que podia se livrar dessa, éramos quatro contra um. Sem chance. – Por que não briga comigo de verdade? Só eu e você.
– Porque não teria tanta graça. – respondi e, quando eu já estava pronto para mergulhar o seu rosto, senti uma mão parar em meu ombro. Olhei para lado e franzi a testa para , sem entender o que ele queria.
– Você quer mesmo fazer isso? – Ele perguntou.
– Você tem alguma dúvida? – Retruquei revirando os olhos.
– Eu não sei, isso me parece errado. – ele hesitou. Olhei para o meu melhor amigo completamente chocado. Ele estava me contrariando? – Quer dizer, ele é do time agora, certo?
– Ele não é um nós, ! – Eu disse irritado. – Se você vai ficar com a consciência pesada, é melhor que saia. Mas lembre-se, essa não é a primeira vez. Faz mesmo alguma diferença?
Olhei pra ele esperando sua resposta. abaixou a cabeça e olhou para as próprias mãos, parecendo muito indeciso. Era só o que faltava.
– Desculpa, . – ele disse levantando a cabeça e me encarando. – Mas pra mim faz.
– Ótimo, sou amigo de um amarelão! – Ironizei olhando-o com raiva. – Cai fora daqui de uma vez!
Ele me lançou mais um olhar de desculpa e deixou o banheiro.
– Onde nós paramos? – Perguntei voltando minha atenção ao que, por mais incrível que pareça, estava rindo! – Do que está rindo, imbecil?
– Vejo que acabou de perder um seus mais fiéis seguidores. – ele debochou. – Você está decaindo.
Não me dei ao trabalho de responder, apenas mergulhei seu rosto no vaso e puxei a descarga de uma vez. Havia perdido a graça, havia estragado tudo. Quando achei que já havia se passado tempo o suficiente, deixei de fazer pressão na parte de trás de sua cabeça para que, assim, pudesse tirar o rosto da água.
– Soltem ele. – falei para Ethan e Josh que riam ao ver que mal podia se manter em pé de tanto que tossia. Abaixei-me até ele no chão e o segurei pela gola da camisa.
– Quem está perdendo o quê agora? – Perguntei antes de lhe acertar com um soco para, então, ficar em pé. Olhei pra ele e ri do seu estado deplorável. Ele estava molhado até a cintura, tossia e, agora, sangrava pelo nariz.
– O que está acontecendo aqui? – Ouvi uma voz dizer as nossas costas. Olhei para porta pensando ser nosso treinador, mas era apenas o . Ele tinha no rosto sua habitual expressão mal humorada e pareceu ficar nada feliz ao ver nosso novo companheiro de time no chão.
– Só estávamos dando as boas-vindas ao . – sorri quando passei por ele, deixando um furioso para trás.
Eu nem acreditava que tinha acabado de dar um fora em Samantha apenas para passar a noite naquela festa. A verdade era que eu não estava acostumado a dormir com mesma garota tantas vezes como já havia feito com ela, e isso estava começando a me entediar. [N/A: bote a música pra tocar!] Saltei do carro já podendo ouvir a música alta que vinha de dentro da casa e atravessei o jardim da frente apinhado de gente, todas pessoas de Rugby, pessoas que eu já conhecia. Por que tudo naquela cidade era tão repetitivo? Sorri quando entrei na casa e vi dançando no meio da sala.
Ela usava um short jeans desfiado com uma meia arrastão verde e uma bota de plataforma preta estranha que ia até seus joelhos e, por mais surpreendente que poderia ser, usava uma camiseta preta básica. Sem estampas ou qualquer coisa que pudesse ser classificado como chamativo. Perguntei-me o que ela estaria fazendo em uma festa como aquela, afinal, até onde eu sabia, aquela casa era de uma das líderes de torcida. Como uma perdedora como ainda não tinha sido expulsa? E foi aí que eu me lembrei, ela era prima do , novo membro do time do colégio, novo membro do meu time. Bufei pensando que eu precisava dar um jeito naquilo. Escorei-me no batente da porta e fiquei olhando a dançar. Ela mexia os quadris de acordo com a batida da música enquanto uma mão segurava seus cabelos os afastando do pescoço e, a outra, estava erguida no ar, sobre sua cabeça. Certo, pensei, dormir com ela não seria nenhum sacrifico. Andei em sua direção e, lentamente, sem chamar sua atenção, colei suas costas no meu peito enquanto a segurava firmemente pela cintura, assegurando-me de que ela não escaparia. parou de dançar e senti seu corpo ficar em alerta, completamente tenso.
– O que está fazendo aqui? – Sussurrei em seu ouvido respirando, propositadamente, pela boca para que ela sentisse meu hálito quente bater contra a sua pele.
– O que você acha? – Ela sussurrou de volta me olhando por sobre o ombro, fazendo com que nossos rostos ficassem perigosamente perto. Sorri. Quem estava correndo perigo era ela, não eu.
– Acho que você está me provocando. – respondi quando ela voltou a dançar e, inacreditavelmente, não se afastou de mim. Pelo contrário, ela grudou ainda mais nossos corpos, mas, na situação em que já nos encontrávamos, achei impossível que conseguíssemos ficar ainda mais próximos. Inclinei a cabeça, aproximando minha boca de seu pescoço e, quando começava a pensar em distribuir beijos por ali, se virou de frente para mim. Ela mordeu os lábios colando seu rosto ao meu, respirando pesadamente contra o meu ouvido. Eu conhecia aquele truque, ela estava me provocando. E, bom, havia conseguido. Encaixei uma de suas pernas entre as minhas e a apertei contra mim para que sentisse em que estado eu me encontrava. – Viu o que você fez? – soprei contra o seu ouvido e mordisquei o lóbulo de sua orelha.
– Céus, você é patético. – ela debochou no meu ouvido e passou os braços pelo meu pescoço, afundando seus dedos no meu cabelo e os puxando com um pouco de força. E, em seguida, escorregou as mãos para os meus ombros deslizando-as pelos meus braços em um pedido mudo para que eu a rodeasse com os braços.
– Isso é estranho vindo da garota que está colada em mim. – sussurrei aproximando meu rosto do seu, pronto para beijá-la. mordeu seu lábio inferior e espalmou as mão em meu peito para, então, me empurrar com força, fazendo com que eu caísse sentado sobre o sofá atrás de mim. Ela continuou dançando, provocativa, na minha frente e, sempre que tentava me aproximar, ela me empurrava de novo para me manter sentado. Até que, em certo momento, ela se inclinou sobre mim e, por um segundo, meu mundo se resumiu em admirar seus lábios. Eu precisava beijá-la. Mas, assim que avancei contra sua boca, ela virou o rosto.
– Eu disse, jamais ficarei com você. – sussurrou no meu ouvido levando uma das mãos até o volume em minhas calças e o apertando. Não consegui evitar, e soltei um baixo gemido, um gemido de prazer. – Arranje alguém pra cuidar disso.
Mordi meu lábio inferior enquanto admirava o movimento de seus quadris conforme ela andava e sumia entre a multidão. Olhei para frente e vi um furioso me encarar sentado do outro lado da sala. Ora, teria sido muito mais divertido se eu soubesse que ele estava assistindo desde o inicio.
– E então? – Perguntei alto o suficiente para que ele ouvisse. – Como anda esse nariz? Espero que tenha feito um bom curativo.
– Vá se ferrar, ! – Ele me mostrou o dedo do meio. Ergui uma sobrancelha e balancei a cabeça, não aprenderia nunca?
– Mas me conte, você já pegou a ? – Perguntei para provocá-lo.
– Claro que não! – Ele exclamou como se fosse óbvio. – Ela é minha prima seu doente.
– E daí? – Ergui uma sobrancelha.
– Por Deus, você é mesmo um cretino. – respondeu e se levantou fazendo o mesmo caminho que havia feito há alguns minutos. Ri da indignação dele e voltei meus pensamentos a ela. Eu estava ansioso, mal podia esperar para tê-la nua sob meu corpo.
Saí da cozinha irritado por saber que a única coisa que eu beberia naquela noite seria refrigerante, afinal, amanhã nós teríamos treino e, se existe duas coisas que não combinavam, eram treinos e ressaca. Eu estava atento aos outros caras do time e, até agora, ainda não havia visto nenhum deles com uma cerveja na mão. Eu odiava fazer papel de babá, mas se nós não treinássemos, isso poderia influenciar no nosso desempenho para o próximo jogo. E eu odiava perder. Atravessei a sala e revirei os olhos ao chegar no jardim dos fundos e ver Kevin com uma Guinness entre as mãos; andei até ele e sentei ao seu lado na borda da piscina.
– E aí, ? – Ele me cumprimentou parecendo mais animado do que o normal. – Quantas você já pegou? Aposto que um monte! Ah, ouvi dizer que a perdedora será sua próxima vítima. Ela é bem gostosa.
Passei uma das mãos pelo cabelo tentando controlar minha impaciência enquanto o ouvia tagarelar.
– O que você pensa que está fazendo? – Perguntei por fim, tirando a garrafa de suas mãos. – Quer ficar de fora do treino de amanhã?
– Ah, que isso, umazinha não vai fazer mal. – Kevin riu.
– Então essa é a primeira? – Ergui uma sobrancelha e cruzei os braços, esperando.
– Okay, é a terceira. – ele confessou. – Mas eu não pretendia pegar um porre.
– Nós nunca pretendemos. – dei dois tapas no seu joelho para que ele visse que eu não estava tão irritado quanto parecia. – Vá comer alguma coisa e tomar um café.
Ele revirou os olhos, mas obedeceu, mesmo parecendo contrariado. E, ao que me pareceu, em menos de dois segundos já estava sentado em seu lugar.
– Está curtindo? – Ele me perguntou.
– Eu deveria estar transando com a Sam agora, isso sim. – respondi ficando mal humorado. A verdade era que eu ainda não havia esquecido o acontecido do dia anterior, ainda não acreditava que havia mesmo tentado defender o . Mas eu não ia tocar nesse assunto. – Ao que parece, só estou aqui pra dar uma de babá.
Ficamos em silêncio durante alguns segundos e, então, me levantei resolvendo dar uma volta pela casa. me olhou como quem gostaria de dizer alguma coisa, mas no fim, não disse nada. Entrei na casa novamente começando a sentir uma leve dor de cabeça. Eu ainda não queria ir embora, mas precisava de alguns minutos em silêncio. Fui em direção a uma escada que ficava logo no hall de entrada e subi para o segundo andar vendo um corredor se estender a minha frente. Perguntei-me se eu daria a sorte de encontrar um quarto vazio àquela altura da noite. Tentei as duas primeiras portas e ambas estavam trancadas, quando já estava prestes a desistir, avistei uma terceira porta no fim do corredor. Andei até ela apostando todas as minhas esperanças. Tentei a maçaneta e esta girou suavemente, porém, fui incapaz de dar um único passo assim que a escancarei. Nós estávamos acostumados a ser maus, mas eu nunca havia sido tão cruel. Nunca precisei forçar uma garota a dormir comigo. E não gostei do que estava vendo.
FIVE
Após me recuperar do choque, adentrei o quarto e, sem pensar muito, avancei contra Tyler que tentava, a todo custo, manter a garota imóvel sob si. Mas é claro que ela não estava cooperando. Ela se debatia sob ele e, com a voz chorosa, implorava para que parasse. Juntei toda minha força e o puxei pelo ombro, fazendo com que ele caísse no chão e eu pudesse ver a sua vítima.
Quase não acreditei ao ver uma trêmula sobre a cama. Seu rosto estava lavado pelas lágrimas e manchado por algo que supus ser rímel, visto que escorria de seus olhos. Ao que parecia, eu havia chegado cedo. Ela já estava sem a blusa, é verdade, mas ainda estava de shorts, o que me garantia que nada muito sério havia chegado a acontecer.
– O que você pensa que está fazendo? – Gritei virando minha atenção a Tyler e o segurei pela gola da camisa.
– Ah, qual é, , será que você realmente precisa ter todas? – Ele me perguntou despreocupado. Bufei. Aquele filho da mãe estava bêbado! – Por que não deixa que eu me divirta um pouco com essa aí?
Eu não conseguia definir o que estava se passando na minha cabeça, não conhecia aquele sentimento. A única coisa que sabia era que eu estava confuso e, por algum motivo, queria socar Tyler até que ele ficasse inconsciente. Nunca havia sentido tanta raiva. Mas não era só isso, tinha alguma coisa a mais ali.
Olhei para vendo que ela já não tremia, mas tinha um olhar perturbado no rosto e estava com os braços ao redor do seu tronco. E, olhando para ela, eu soube o que estava sentindo. Soube que sentimento era aquele que estava me deixando louco, quase sem controle. Era indignação. Eu estava indignado. Ela era uma garota. Como Tyler pôde pensar em machucar uma garota? Cerrei meus olhos para ele e lhe aceitei um soco, repetindo o ato uma, duas, três vezes. Ele estava bêbado e, podia até ter força para segurar uma garota, mas não tinha força suficiente para me deter.
– Pare com isso! – gritou atrás de mim e não demorei a sentir suas mãos tentando fazer com que eu parasse. – Olhe o estado dele!
Olhei para ele e vi que seu rosto, assim como minhas mãos, estava coberto de sangue.
– Você, meu caro amigo, está fora. – eu disse a ele. – Não ouse aparecer no treino amanhã, nem no próximo jogo. Estou sendo claro?
– Você pode ser o capitão do time, mas não tem esse poder todo. – ele debochou. – Se tivesse, já teria expulsado o perdedor do .
– Mas quem aqui falou em expulsar? – Eu ergui as sobrancelhas enquanto finalmente o soltava. – Eu não o estou expulsando, é você quem está abandonando o time.
– Quero ver como você vai me forçar a isso, . – ele me desafiou, ficando de pé e me encarando.
Cruzei os braços e ri da confiança em suas palavras.
– Bom, você escolhe .– lancei um rápido olhar à ao meu lado e comecei a andar em círculos ao redor de Tyler. – Ou você deixa o time ou vai ser preso por tentativa de estupro. E então, o que você acha? Estou sendo generoso.
– Eu não fiz nada com ela, não deu tempo. – ele retrucou dando um risinho e vi estremecer.
– Bom, mas quem sabe disso além de nós três? – Eu perguntei. – E você sabe Tyler, meu pai é muito amigo do prefeito. Um pedido meu e você estaria atrás das grades, estupro é uma coisa muito séria.
Parei na frente dele e o vi ficar sem reação, sem resposta. Não que em algum momento eu houvesse tido dúvidas, mas eu havia ganhado aquela discussão. Como sempre.
– Cuidado, princesa, ele só está tentando impressioná-la. – Tyler disse à quando já ia em direção a porta e a abria. – No fim, ele só quer levar você pra cama.
– Ao menos ele está fazendo do jeito certo. – ela cuspiu para ele. claramente já não parecia a garota frágil de alguns minutos atrás. Tyler nos lançou um último olhar de raiva e deixou o quarto, fechando a porta atrás de si. E, então, olhei para ela, mas desviei o olhar assim que vi que ainda não estava devidamente vestida. Eu sabia que iria me arrepender daquilo mais tarde, mas achei que talvez ela já estivesse se sentindo mal o suficiente para que eu ainda ficasse lhe olhando. A verdade era que eu precisava deixar aquele quarto, quase não estava me reconhecendo. Nunca havia brigado tão seriamente com um companheiro de time, ainda mais por causa de uma perdedora.
– Está esperando um pedido especial para se vestir? – Perguntei impaciente. – Se demorarmos muito vão achar que estou me divertido. Se é que você me entende.
– Ele rasgou a minha blusa seu idiota. – ela respondeu voltando a abraçar-se. Revirei os olhos. Certo, pensei, já estava começando a me arrepender. Tirei a jaqueta que eu usava, ficando apenas com a camiseta branca que estava por baixo, e joguei para ela saindo do quarto logo em seguida. Andei pelo corredor e, ao chegar ao andar de baixo, vi que algumas pessoas me encaravam. Olhei para mim mesmo só agora notando que minha camiseta tinha uma grande mancha vermelha. Bufei e entrei no primeiro banheiro que encontrei. Lavei as mãos e joguei um pouco de água no rosto sentindo minha cabeça latejar, comparado ao que eu estava sentindo agora, a dor de cabeça de antes não era nada.
– Hey, o que você ta fazendo aqui, garota? – Perguntei quando entrou no banheiro atrás de mim. Mas que droga, justo hoje eu havia esquecido de trancar a merda da porta!
– Eu... – Ela hesitou, parecendo nervosa. – Eu só queria dizer obrigada.
– Não me agradeça! Por sua culpa acabei de perder um dos meus melhores jogadores! – Dei um soco na pia. – Maldita hora que entrei naquele quarto.
– O quê? – Ela me olhou com os olhos cheios de lágrimas. – Você tem idéia do que teria acontecido comigo caso você não tivesse aparecido? Tem idéia do que estaria acontecendo comigo nesse exato momento se você não tivesse impedido? Você não tem nenhuma idéia, não é? Você está pouco se lixando! Só pensa na sua porcaria de Rúgbi!
Preciso admitir, eu estava um pouco assustado. Ela estava chorando e, ao mesmo tempo, gritando comigo. Eu não sabia como lidar com aquilo, não sabia o que fazer. Eu não estava pensando em Rúgbi, na verdade, eu não estava dando a mínima para Rúgbi naquele momento. Mas ela não entenderia o que eu estava sentindo. E como poderia se nem mesmo eu estava entendendo?
Enquanto eu a via chorar, eu sabia que aquele era o momento perfeito para me aproximar dela, mas alguma coisa dentro de mim me impedia de ir adiante. E era isso que estava me deixando irritado. Em outra situação, eu teria me aproveitado. Afinal, já tinha feito isso antes, mas as coisas nunca haviam sido tão sérias.
– Quer saber? – Ela disse de repente enquanto passava as mãos pelo rosto tentando limpar o caminho das lágrimas. – Não importa o que você diga, não importa que você seja um idiota completo. Você me salvou e, isso sim, é o que importa.
Ela olhou para mim e cruzou os braços como se esperasse que eu dissesse algo profundo e bonito. Ri sabendo que eu ainda não estava tão irreconhecível assim.
– Eu salvei você, é verdade. – concordei. – Mas eu ainda sou eu e você ainda é você. Então, nos faça um favor e não leve isso tão a sério, porque, no futuro, eu posso ser o causador das suas lágrimas.
me olhou parecendo um pouco chocada com minhas palavras, mas antes que ela pudesse retrucar e transformar aquilo em uma discussão ainda maior, deixei o banheiro sabendo que tudo que eu precisava era manter distância dela. Nem que fosse só por algumas horas. Afinal, não havia acontecido nada tão drástico para que eu desistisse de levá-la para a cama.
– Há alguns minutos o vi repreendendo Kevin, agora é você quem está bebendo? – Olhei para trás e vi o me encarar com a sua típica expressão de mal humor. – Você já se acha melhor do que todos, mas será que é mesmo o mais forte para bebida?
– Ora, não me venha com mais um dos seus sermões. Você não tem ideia de como minha noite tem sido uma droga. – dei um último gole na minha Guinness e virei a garrafa de cabeça para baixo. – Está vendo? Acabou, essa foi a primeira e a última. Eu precisava disso. Estou começando a achar que alguns jogadores de Rúgbi são tão idiotas quanto os caras do coral.
– Ou pior do que eles. – concordou e me lançou um olhar significativo. – Por que você está sempre envolvido em alguma coisa? Espero que esse sangue na sua blusa não seja do .
– Do ? – Ri da forma como ele havia dito aquilo. – Já estão íntimos pelo que posso ver.
– Não seja tão imbecil. – ele rosnou para mim mostrando que a conversa amigável havia chegado ao fim. – O que você fez com ele? Não vou admitir que fique se divertindo as custas dele, está entendendo? é do time agora, isso não faz nenhuma diferença para você?
– Não, não faz. – dei de ombros. – Para mim, ele sempre será um perdedor. Mas não se preocupe, hoje eu mal o vi. Sua namoradinha está a salvo.
– Quem foi a vítima da vez, então? – perguntou me olhando desconfiado. – Qual a história por trás desse sangue?
Como se eu lhe devesse alguma satisfação! Ai, esse cara ainda me mata de rir.
– Na verdade... – comecei. – Você vai adorar essa história, vai ficar até orgulhoso. Mas não sou eu quem vai contar, afinal, isso vai se espalhar do mesmo jeito, não é? Odeio ser o primeiro a relatar os fatos.
olhou para mim como quem queria acreditar, mas não conseguia. Dei de ombros, pouco me importava o que ele pensava. O que eu queria mesmo era que ele sumisse da minha frente, eu não estava muito pra conversa.
– E então? – Perguntei impaciente. – Já me interrogou o suficiente? Poderia, por gentileza, dar o fora daqui?
– Estou de olho em você, . – ele me advertiu antes de dar as costas. Qual o problema dessas pessoas? Acham mesmo que podem comigo? Por favor!
Quando já havia sumido da minha vista, me abaixei e peguei a garrafa de Guinness pensando que, esperançosamente, ela ainda estaria gelada e a pressionei contra minha testa. No fim, eu iria para casa antes do final da festa. Não suportava mais aquela dor infernal. Levantei-me do gramado e quase trombei com que estava parado logo atrás de mim. Sem lhe dizer uma palavra, desviei dele, mas este se colocou novamente em meu caminho. Bufei. Aquela não era mesmo a minha noite.
– Quer apanhar, infeliz? – Perguntei entredentes. – Tem sorte que eu não estou me sentindo muito bem hoje.
– Acho que você não é tão mau quanto faz parecer. – ele disse, do nada.
– Aposto que você não pensa isso quando enfio sua cabeça na privada. – retruquei rolando os olhos e, principalmente, sem paciência para manter uma conversa a base de sarcasmo.
– Quer saber o que eu acho? – ergueu as sobrancelhas. Ele estava realmente me perguntando aquilo?
– Definitivamente, não. – respondi no tom mais rude que consegui, mas, aparentemente, não foi o suficiente. – Quer parar de me seguir? Você está abusando da sorte, ! – Explodi quando ele fez menção de me acompanhar quando voltei a caminhar em direção ao interior da casa.
– Você só quer ser respeitado e que gostem de você, mas acha que o único jeito é intimidando as pessoas. – ele balançou a cabeça negativamente e sorriu fraco para mim. – Mas não é. Se você fosse um cara legal, as pessoas te admirariam, de verdade. Não acho que você pense que todo mundo gosta realmente de você, eles só querem a sua popularidade.
Olhei para o me perguntando o que ele estava querendo ao me dizer aquelas coisas. Quem ele pensava que era para achar que me conhecia? Ele não sabia nada sobre mim e aquela tentativa, frustrada, de me afetar havia me irritado. Profundamente.
– Por acaso isso tem funcionado para você? – Perguntei tentando controlar os meus nervos. – Acho que não.
Ele me olhou de uma forma cansada e suspirou, talvez, finalmente entendendo que seu falatório não levara à nada.
– Obrigado pelo que fez pela hoje, não deveria tê-la deixado sozinha. Foi um descuido. – tinha alguma coisa naquela história que me incomodava. Eu não estava acostumado a estar naquela posição, não na de quem defende. – Vou ficar te devendo. A partir de hoje, pode contar comigo para qualquer coisa.
– Não acho que você me seja de muita utilidade. – eu disse, ácido. – Mas, se quer mesmo me poupar de algo, comece sendo um pouco mais cuidadoso. Eu não vou salvá-la uma segunda vez.
– Você salvaria, sim. – ele afirmou e, antes que eu pudesse contestar, me deu as costas. Fiquei parado, no meio do gramado, me perguntando de onde ele tirava tanta certeza. E como ele, logo ele, poderia confiar tanto em mim?
SIX
Fui o último a sair da sala de história e, ao que parecia, era o único que ainda restava andando pelos corredores, visto que a maioria já deveria ter ido para casa ou estava conversando no pátio. Eu não estava com pressa, ainda tinha alguns minutos até o treino. Andei devagar parando na frente de um armário de vidro que havia no meio no corredor, era lá que ficavam os troféus do colégio e as fotos dos melhores times de Rúgbi que já haviam passado por ali.
Entre outras tantas, apenas duas me chamavam atenção. Eu sempre aproveitava para observá-las quando o corredor estava assim, vazio. Em uma, muito antiga, eu podia ver o meu pai. Feliz, alegre, parecendo estar realmente satisfeito com a vida. Na outra, mais recente, eu podia ver Peter, meu irmão. Assim como nosso pai, ele parecia feliz e, indo um pouco mais além do que a foto realmente poderia mostrar, eu diria que ele parecia alguém que tinha um futuro inteiro pela frente. No Rúgbi, quero dizer. Tanto meu pai quanto meu irmão foram os melhores jogadores da sua época, ambos tinham, assim como eu tenho, o sonho de jogar profissionalmente. E eles teriam conseguido se não tivesse sido por elas.
Meus pais, como é comum em cidades pequenas, se apaixonaram ainda no colegial. Esse, talvez, tenha sido o primeiro grande erro do meu pai. Ele se apaixonou, casou e teve filhos, fazendo com que não tivesse mais tempo para o Rúgbi. E aí estava o fim da sua carreira. Porém, minha mãe não estava satisfeita com a vida que levavam, ela não gostava da cidade e, hoje em dia, até suspeito de que tenha se casado com papai apenas por achar que ele a tiraria de Rugby. Grande engano. Diferente dela, papai, com o passar dos anos, foi perdendo suas ambições. Já não se importava com sua carreira como jogador, visto que estava fazendo sucesso com a imobiliária. Então, certo dia, eu e Peter estávamos brincando no quintal, ele estava tentando me ensinar Rúgbi quando mamãe nos chamou para dentro de casa e, sem se importar por estarmos sujos de lama, nos abraçou dizendo que nos amava. Até aquele momento, em minha ingenuidade de criança, acreditava que éramos felizes. Mas, a partir dali, nossas vidas se tornariam um verdadeiro caos. Mamãe havia nos abandonada e a próxima vez que nós a veríamos seria em dois anos, em um hospital.
Papai se tornara uma pessoa fria, distante. Eu não me importava, sempre pudera contar com Peter que, por ser meu irmão mais velho, cuidava de mim. Ele não era apenas meu irmão, era meu pai, quase como meu herói, por mais ridículo que isso possa soar. Hoje vejo como nós somos diferentes. Peter seria incapaz de menosprezar um perdedor, não era capaz sequer de classificar alguém como tal. E foi o seu bom caráter que o arrastou para o fundo do poço. Ele cometeu o grande erro de engravidar uma das líderes de torcida e se sentiu tão culpado por estragar a vida dela que achou que a única forma de recompensá-la seria com um casamento.
Papai ficou furioso e disse que se Peter abandonasse o Rúgbi para se casar, seria expulso de casa. Em menos de dois dias meu irmão já havia deixado a cidade e eu sequer tivera a chance de me despedir. Já não o via, ou tinha notícias suas, há seis anos. Então, eu me perguntava, por que iria querer me apaixonar? Como poderia gostar de alguém se as únicas pessoas as quais eu já havia me importado havia me abandonado? O amor é um sentimento perigoso, quase como um labirinto sem saída. E eu estava muito bem sem ele.
– Sempre achei você meio parecido com eles. – ouvi alguém dizer às minhas costas. Não precisei me virar para ver quem era, eu sabia que era o .
– Peter e Richard . – apontei as fotos. – Meu irmão e meu pai.
– Nunca ouvi falar que você tinha um irmão. – ele comentou, agora parado ao meu lado.
– E por que deveria? – Retruquei, sem paciência. Aquela estava sendo uma semana estranha, por algum motivo, achava que agora éramos velhos amigos. Por favor!
– Uau! – Ele exclamou olhando de uma foto para outra. – Eles também eram camisa 10! Como isso funciona? É uma coisa genética?
Genética? Me fez rir, admito. Eu chamaria de algo como carma, mas eu não precisava dizer isso a ele.
– Não se sente pressionado? – me perguntou. – Quero dizer, você tem que ser tão bom quanto eles.
– Nem um pouco. – e eu não me sentia mesmo. – Sou melhor.
– Hm, mas a sua foto ainda não está no mural. – ele observou erguendo uma sobrancelha.
– Essas fotos foram tiradas para competições nacionais e o Rugby School não participa mais desse tipo de torneio. – eu expliquei.
– Hey, vocês dois! – Ouvimos alguém gritar no início do corredor; me virei e vi um já vestido com nosso uniforme do time. – Será que vocês podem se apressar um pouco?
Parei um instante de correr para recuperar o fôlego e, no segundo seguinte, havia se jogado sobre mim, fazendo com que eu caísse de mal jeito e machucasse um dos ombros. No Rúgbi aquilo era chamado de tackle, uma tática comum de ataque. Porém, só é permitido usá-lo caso o jogador adversário esteja com a posse da bola. E eu não estava com porra de bola nenhuma!
– Qual o seu problema? – Rosnei pra ele enquanto tentava inutilmente massagear meu ombro esquerdo. – Não estou com a bola seu idiota!
– Foi mal, cara. Me enganei .– fechei minhas mãos em punhos, apesar das palavras, eu podia ver que ele claramente não havia se enganado. Tentei me controlar, tentei não agir por impulso, mas a raiva que eu senti foi mais forte. Olhei para as costas de , enquanto ele se distanciava, e corri em sua direção lhe dando um forte empurrão que o fez cair de joelhos. Antes que ele pudesse se recuperar, dei-lhe um chute no estômago e, dessa vez, ele caiu de costas no chão.
– Qual o seu problema? – Repeti quando o segurei pela gola da camisa. – Está tentando aparecer?
– Não, essa é a sua especialidade! – Ele retrucou e, então, cuspiu no meu rosto. Senti meu corpo vibrar de indignação e, ao mesmo tempo, estremecer de raiva. Ergui uma das mãos no ar, pronto para acertá-lo em cheio, mas algo em mim hesitava. Nunca havia brigado com daquela forma. – Estou esperando, ! Vai amarelar?
Olhei para a expressão raivosa e desafiadora no rosto do meu melhor amigo sem entender o que estava acontecendo. me conhecia melhor do que ninguém e sabia que não era preciso de muito para me tirar do sério, sabia o quanto eu poderia ser mau e vingativo. Então por que ele estava me provocando daquela forma? De onde vinha toda aquela raiva, afinal? Abaixei a mão e soltei a gola do seu uniforme. Ele queria brigar, mas eu não lhe daria motivos para isso. Levantei e olhei ao meu redor vendo os caras do time me olharem surpresos, para não dizer espantados. Era a primeira vez que viam alguém sair ileso após uma provocação. Dei as costas para , que ainda tinha a mesma expressão raivosa, e vi o rosto confuso de a apenas alguns metros. Certo, o treino havia chagado ao fim para mim. Mal pensei isso e senti uma bola se chocar contra as minhas costas.
– Você é um hipócrita, ! – Ouvi exclamar e, em seguida, me puxar pelo ombro e acertar um soco na minha boca. Imediatamente senti algo salgado em minha língua, era sangue. – É um manipulador! – Gritou me acertando novamente, agora no nariz.
– Não sei do que você está falando, cara! – Não que eu não fosse manipulador, porque eu era. Mas não sabia o por que dele estar trazendo aquilo à tona e, acredite você ou não, hipócrita ainda não estava na minha lista de defeitos. E, não importa o que ele fizesse ou o quanto doesse, eu não iria reagir.
– Você não sabe? – Ele rosnou me dando um soco ainda mais forte que os outros e, dessa vez, caí de cara no chão. Tentei virar de costas, mas antes que eu pudesse, senti um chute em minhas costelas, fazendo com que eu caísse de novo.
– Reaja, imbecil! – Gritou me dando outro chute.
A essa altura, até respirar doía. Sentia meus lábios latejarem, meu nariz sangrava e minhas costelas ardiam mais a cada esforço que eu fazia para inspirar ar.
– Sou seu amigo, . – eu disse com a voz fraca quando ele me ergueu pela gola do uniforme e se preparou para me acertar novamente. – Mas me bata se isso o fará sentir melhor.
– Nunca fui submisso a você, . – ele retrucou me vendo tossir e, então, cuspir um pouco de sangue.
– Eu sei .– respondi, após me recuperar. Tinha certeza de que mais um soco e eu ficaria inconsciente. Sabia disso graças a experiências passadas, eu já havia feito aquilo com muitos outros.
– Já chega, ! – Quase não acreditei ao ouvir a voz de dizer. Teria me virado para ver, mas meu pescoço doía. – Você vai se arrepender disso amanhã.
Será mesmo que ia? O grande problema era que e eu éramos muito parecidos e, como você já deve imaginar, eu não peço desculpas. Ou me arrependo das coisas que faço. Nunca. me soltou e, com a ajuda de , consegui ficar de pé. Olhei para o meu melhor amigo e, apesar de saber que o sangue em suas mãos era meu, não consegui ficar com raiva. Ele deveria ter um bom motivo para aquilo tudo. Ou, no mínimo, achava que tinha. Olhei mais uma vez para e, eu podia até estar enganado, mas eu achava que ele já estava se arrependendo.
– Devemos fazer alguma coisa? – Ouvi Ryan perguntar quando nos deu as costas e ia em direção a saída do campo. Só agora eu havia percebido que os caras do time haviam feito uma espécie de meio círculo ao meu redor e olhavam de mim para como se esperassem por uma ordem.
– Não. – eu respondi, firme. – Vamos apenas esquecer que isso aconteceu.
E era isso que eu faria.
Esquecer.
SEVEN
Entrei no pub sentindo aquele típico cheiro de cigarro e ouvi uma música qualquer tentar ultrapassar o murmúrio agitado das conversas. Era quase como estar no colégio, com exceção de alguns poucos adultos, grande parte dos meus conhecidos estavam ali. Fiz uma careta e desejei não ser como o resto dos habitantes daquela cidade. Eram todos tão previsíveis! Vestiam-se do mesmo modo, agiam do mesmo modo, falavam do mesmo modo e, na maioria das vezes, conversavam sobre o mesmo assunto. Porque se tinha uma coisa que noventa e nove por cento de Rugby adorava, era um bom escândalo. Acenei para alguns caras do time quando fizeram sinal para que eu fosse me sentar com eles, mas ignorei o chamado e fui em direção ao balcão do bar.
Como de costume, pedi uma Guinness e, então, escorei minhas costas no balcão e me virei para observar as pessoas ao meu redor. Imagino que não houvesse uma única alma em Rugby que não soubesse a história da minha família. Tudo começou com meu pai, o astro de Rúgbi da cidade que tinha tudo para ter tido uma carreira brilhante, mas que acabou por engravidar a namorada do colegial; alguns anos mais tarde, ela abandona o marido e os dois filhos pequenos. As pessoas daqui devem ter adorado isso, minha mãe lhes deu do que falar por meses! Como se isso tudo já não fosse o bastante, Peter cometia os mesmos erros de Richard e deixava o Rúgbi para trás. E aqui estava eu, bebendo uma cerveja no pub mais conhecido da cidade. Posso até ser popular na escola, mas não acho que os adultos me levem a sério. Afinal, sou apenas mais um .
Em uma mesa, perto de onde os caras do time estavam, eu podia ver conversando com uma das líderes de torcida; provavelmente sua companhia da noite. Bufei. Aquilo me lembrava duas coisas desagradáveis. A primeira era que, três dias após aquele treino fatídico, eu ainda não sabia o porquê de nada. A verdade era que não sabia ao certo como proceder. Se tivesse sido outro cara, qualquer outra pessoa, eu saberia exatamente o que fazer. E acredite, não seria eu a estar com hematomas. Mas havia sido , a porra do meu melhor amigo! Não pense que não estava com raiva, porque eu estava. E a segunda era a líder de torcida, ela me lembrava Samantha. Suspirei fazendo uma careta. Eu a estava evitando há dias, mas sabia que uma hora teria que lhe arranjar um pouco de tempo. Ela estava agindo de forma diferente, estava mais atenciosa e exigindo cada vez mais de mim. Eu temia que o pior tivesse acontecido, temia que ela tivesse se apaixonado. O que, para mim, estava completamente fora de questão.
Há algumas mesas de distância, perto da entrada do pub, vi e conversarem animados. concordava com a cabeça enquanto lhe mostrava alguns papéis, pareciam completamente absortos para se importarem com as coisas ao seu redor. Confesso que fiquei curioso, mas nós não éramos exatamente amigos, então eu não podia simplesmente ir lá e perguntar. Olhei bem para o e franzi a testa só agora lembrando que ele dissera não saber que eu tinha um irmão. Bem, então talvez houvesse em Rugby alguém que não soubesse de tudo sobre minha família. Mas não seria um bom ponto de referência, caso eu estivesse realmente procurando por um. Afinal, até onde eu sabia, sua família não era de Rugby, apesar de já morarem aqui há um bom tempo.
Voltei minha atenção para a entrada do pub ao ver que a porta havia sido aberta de forma quase violenta. Ergui uma sobrancelha ao ver uma ofegante, corada e molhada. Hoje, como na maior parte do tempo em Rugby, estava chovendo. Ela usava duas camisetas, uma por cima da outra, uma espécie de colete e um cachecol quadriculado vermelho que combinava com seu all star, porém eu não conseguia ver onde sua calça com estampa de oncinha se encaixava. Abri meu sorriso mais cínico ao vê-la caminhar furiosa em minha direção e ficar próxima o suficiente para que eu sentisse sua respiração descompassada. Muito sexy.
– Você é um tremendo de um imbecil, ! – Ela cuspiu as palavras, quase as sibilando. Olhei para erguendo as sobrancelhas, completamente surpreso. Mas não me deixei abalar. Ainda com o sorriso cínico nos lábios, levei as mãos ao seu rosto e olhei em seus olhos.
– Você fica extremamente adorável com as bochechas rosadas. – eu disse deslizando um polegar pela sua face. E era verdade. Por alguns segundos, vi sua expressão raivosa ceder um pouco e dar lugar a uma de surpresa, mas, então, ela cerrou os olhos e me olhou desconfiada enquanto dava um passo para trás, me impedindo de tocá-la. O que era uma pena.
– Hm, não posso dizer o mesmo de você. – retrucou, provavelmente se referindo à vermelhidão na minha bochecha esquerda. Vestígios de . – Será que finalmente encontrou alguém a sua altura?
Eu não diria isso, pensei, diria que havia encontrado alguém a quem eu não gostaria de machucar.
– Posso saber por que sou um imbecil? – Perguntei e a vi erguer uma das sobrancelhas de forma irônica.
– Além dos motivos mais óbvios?
– Sim, por favor. – revirei os olhos e, de relance, vi um cruzar os braços sobre a mesa e nos olhar, quase como se me vigiasse. Patético.
– Bom, pra início de conversa eu nem queria estar aqui, mas isso já não tem a ver com você... – começou. Eu achava gracioso como ela falava e gesticulava ao mesmo tempo, seu jeito de garota de cidade grande me deixava, de certa forma, deslumbrado. Ela não podia ser comparada com nenhuma garota de Rugby, nem com as mais atraentes, nem mesmo com Samantha. era diferente, mas eu não saberia dizer se isso era bom ou ruim. Até aquele momento, em meu mundo, ser diferente era sinônimo de perdedor. Olhei para ela me sentindo levemente entediado com seu falatório, só agora me dando conta de que não havia ouvido nada do que ela estava dizendo. – ....então como se já não fosse ruim o suficiente estar chovendo, você passa por uma poça com aquele seu carro idiota e me dá um banho de lama! Mas, é claro, você estava concentrado demais em si mesmo para notar o que havia feito!
Àquela altura, ela já havia voltado para a sua postura irritada.
– Foi divertido para mim. – menti. Afinal, por mais difícil que seja de acreditar, daquela vez eu era inocente. Mas não perderia a chance de irritá-la um pouco, seria interessante lhe ver perder o controle. E, como eu esperava, ergueu a mão direita, pronta para me dar um tapa, quando interceptei seu pulso no meio do caminho. Um pouco mais rápido do que pude prever, ela tentou de novo, agora com a esquerda, mas, novamente, lhe segurei em tempo. Ela cerrou os olhos para mim quando, de forma bruta, lhe puxei para mais perto, forçando sua mão direita a se espalmar em meu peito enquanto levava a esquerda ao meu rosto. Eu podia sentir nossa tensão, a minha e a dela. Era quase palpável.
– Me solte. – disse baixinho, entre dentes, e tentou libertar a mão que eu pressionava contra minha bochecha. Podia sentir todo seu corpo colado ao meu, o que despertava uma série de sensações que Samantha já não era capaz de provocar em mim.
– Não. – respondi, lhe dando um sorriso que pareceu apenas aumentar sua fúria. – Você tem se comportado muito mal, .
– Não sou um cavalo que você possa domar. – ela desdenhou e ergui uma das sobrancelhas.
– Será que não? – Perguntei e, em um movimento rápido, investi nossas posições e pressionei suas costas contra o balcão do bar. Rapidamente, sua respiração se tornou ofegante e pude sentir seu peito subir e descer de forma tentadora contra mim.
– Eu posso ver por que as garotas daqui gostam tanto de você. – ela disse, ainda naquele mesmo tom raivoso, mas eu quase não estava prestando atenção. A única coisa que eu conseguia fazer era sentir e pensar. Sentir o pequeno corpo dela colado ao meu e pensar no quanto eu gostaria de fazê-la minha naquele exato momento. – O seu jeito de garoto mau provavelmente as fascina. Além da sua popularidade, é claro.
– As garotas daqui? – Eu repeti, achando graça. Inclinei minha cabeça e passei meu nariz pela pele macia de sua bochecha. – Você está desesperada para provar isso, não é?
– Me solte. – ela se sacudiu tentando inutilmente se libertar, mas eu era claramente mais forte. Dei uma risadinha e deslizei meu nariz sobre o seu, lhe dando um beijinho de esquimó.
– Eu vou beijar você. – avisei, nossos lábios se esbarrando a cada sílaba.
– Não ouse! – Ela exclamou e, apenas talvez, eu tivesse obedecido-a caso não a tivesse sentido expirar uma grande quantidade de ar, arfando. – Você tem uma namorada!
– E daí? – Retruquei sentindo sua respiração bater contra minha boca.
– Você deveria gostar dela e respeitá-la. – respondeu, mas eu suspeitava que ela soubesse que era um protesto inútil. Afinal, estava completamente imobilizada. Não tinha escapatória. E em minha defesa, digo que depois que eu a beijasse, ela não teria do que reclamar. – Esqueci que você não gosta de ninguém além de si mesmo.
– O que posso fazer? – Disse divertido. – Odeio o amor e, além do mais, a única pessoa em que posso confiar sou eu mesmo.
– Ora, e o que é isso? Algum trauma de infância? Sua mãe te abandonou ou o quê? – debochou.
– Cala a boca! – Eu rosnei, sem querer chamando um pouco de atenção para nós, e apertei os seus pulsos até que ela fizesse uma careta de dor. Não tive tempo para me sentir culpado.
– Assunto delicado? – Ela ergueu uma das sobrancelhas. Meu coração acelerou, senti meu sangue ferver e meu rosto ficar vermelho de raiva. Como ela ousava debochar de algo assim? – Acho que sua mãe...
– Cala essa maldita boca! – A interrompi apertando seus pulsos de novo e recebi um olhar de indignação em troca. abriu a boca para protestar e eu soube que ela faria um escândalo, então antes que ela pudesse emitir algum som, colei minha boca contra a dela. Ela tentou se debater, mas com as mãos presas era difícil. Pressionei-lhe contra o balcão, talvez até um pouco forte demais, e cravou suas unhas no meu peito me fazendo soltar um gemido de protesto. Mas se ela achava que aquilo seria o suficiente para me parar, estava muito enganada. Beijei-lhe ainda mais ferozmente, forçando a passagem da minha língua por seus lábios e, dessa vez, foi ela quem soltou um baixo gemido. Suspeito que tenha sido de deleite, porque no momento seguinte ela estava parando de resistir e me beijando de volta. Nossas línguas se movimentaram juntas me causando arrepios, então, quando achei que já era seguro, soltei seus pulsos e senti suas mãos deslizarem por meus ombros, passarem por meu pescoço para, no fim, se entrelaçarem no meu cabelo.
Desci minhas mãos até sua cintura e lhe puxei para mais perto, moldando seu corpo ao meu. Mordisquei seu lábio inferior ao mesmo tempo em que ela arranhava de leve minha nuca. A essa altura, já não lembrava o porquê de eu ter estado tão irritado. Beijar a sua boca me fazia ansiar por mais a cada segundo. Fui descendo meus beijos até chegar ao seu pescoço, onde passei a ponta da língua e senti que havia se arrepiado. Eu ri por dentro. Quem era mesmo que nunca se derreteria em meus braços? não era tão diferente assim das outras garotas. E ia pagar muito caro por todas suas palavras, aquilo ainda não era nem o começo do que eu era capaz de fazer uma garota sentir.
Quando eu terminasse com ela, talvez até me agradecesse por lhe mostrar o verdadeiro significado de prazer. Subi os beijos novamente, já desejando sentir sua boca outra vez quando, sem aviso prévio, fui jogado ao chão. No processo, acabei batendo a cabeça, o que fez minha vista rodar um pouco.
– ! – Ouvi exclamar. – Você ficou maluco?
Assim que minha vista voltou ao normal, focalizei um irritado não muito distante de mim. Antes que eu ficasse de pé, Ethan e Josh já estavam ao meu lado me ajudando a levantar. Era obrigado a admitir que os treinos haviam tido alguns progressos no , seu empurrão havia me deixado tonto. Mas apenas por alguns segundos.
– Me soltem! – Disse impaciente para Ethan e Josh que insistiam em me segurar. - Então, , não vai responder a pergunta?
Olhei para ele, que ainda me encarava com a mesma expressão irritada de antes, e fui em sua direção.
– Mandei você ficar longe dela! – Ele rosnou.
– E eu não disse que obedeceria! – Retruquei ficando irritado com a sua coragem. – Vai mesmo querer brigar comigo? Olhe ao seu redor e veja em como está em desvantagem.
Todos o caras do time presentes já estavam a nossa volta. Dei um sorrisinho cínico.
– Ele não vai brigar sozinho. – Oh, é claro que se meteria!
– Isso não tem nada a ver com você, . – Eu disse, mesmo sabendo que era inútil.
– Não sejam ridículos! Estão falando como se fossem travar uma guerra! – se pôs no meio de nós. – Ninguém aqui vai brigar. Ouviu bem, ?
– Que patético. Precisa mesmo que uma garota defenda você, ? – Provoquei dando uma risada irônica no final. – Muito másculo da sua parte.
Nessa hora, não só os caras do time riram, mas sim, como todos os curiosos que nos assistiam.
– Você é um cretino! – se voltou para mim. – Acha que pode sair beijando a força todas que quiser?
– Se aquilo era beijar a força, estou ansioso para ser correspondido, . – Retruquei e ela, como sempre, levantou uma mão para me bater, mas eu fora mais rápido. – Está ficando previsível, meu bem.
Ela me olhou erguendo uma sobrancelha e, então, me deu uma joelhada na virilha. Fui obrigado a me curvar um pouco enquanto experimentava a pior dor que um cara poderia sentir.
– Acho que não vamos ter que brigar, afinal, você não dá conta nem de uma garota. – imitou minhas palavras em um tom debochado que era muito estranho para ele.
– Você quer apostar? – Fechei as mãos em punhos e avancei contra ele, pronto para lhe tirar aquela expressão presunçosa do rosto.
– Você não vai querer fazer isso, . – disse pondo-se na frente do . Eu sequer havia o visto se aproximar.
– Vai defender ele de novo, ? – Praticamente cuspi as palavras. Estava ficando mais irritado do que podia controlar.
– Não estou defendendo ele, imbecil! – exclamou e se aproximou de mim, falando baixo. – Não estamos na escola, se você criar confusão aqui, corre o risco de ser preso. É isso que você quer?
E era por isso que era meu melhor amigo. Às vezes eu precisava que alguém me parasse, mas não havia muitas pessoas naquela cidade que tivessem coragem para isso. O problema era que minhas costelas ainda doíam, o que, é claro, não me deixava esquecer que aquele idiota na minha frente havia me dado uma surra. Então, eu não estava muito inclinado a ouvi-lo.
– O que você tem em mente? – A não ser que ele tivesse uma sugestão interessante. abriu um sorriso maldoso e virou-se para os outros caras do time.
– Sabe, eu estive pensando... – Ele disse andando em círculos ao redor do . – Nosso companheiro não passou pelo ritual de boas-vindas.
– Não? – perguntou irônico, provavelmente lembrando do último banho que havíamos dado nele. Olhei para e a vi olhar aflita para . Eu sabia do que estava falando, mas para ser sincero, tinha lá as minhas dúvidas quanto o ritual. Provavelmente era besteira, mas eu, hm, não o achava seguro.
– Ele não é obrigado a fazer isso. – lembrou, podia ver que ele pensava o mesmo.
– É claro. – concordou revirando os olhos, entediado. – Mas se ele quiser o respeito do time, vai ter que fazer como todos nós.
Respeito? Quase explodi em gargalhadas. Aquele ritual não servia para nada, era só uma espécie de trote que os jogadores veteranos faziam com os novatos. Eu ainda me lembrava de como havia sido o meu e posso dizer que é muito mais divertido para quem assiste do que para quem faz.
– Do que diabos estão falando? – exigiu. – Seja lá o que for, ele não vai fazer.
– ! – a repreendeu, depois olhou decido para . – Eu vou fazer.
Boa sorte, senti vontade de lhe dizer. E esse foi meu último pensamento antes de sair do pub.
EIGHT
Nós estávamos na frente da casa abandonada dos Riordans. Eu observada de longe, recostado em meu Audi, enquanto dava as instruções ao . Não era nada de outro mundo. teria que entrar, acenar para nós de uma das janelas do segundo andar e nos trazer alguma coisa de lá de dentro. Bom, falando assim, parecia algo bem simples. Mas o fato era que a casa estava caindo aos pedaços! Algumas paredes haviam se desfeito, as janelas praticamente já não possuíam mais vidros e, o que um dia deveria ter sido um jardim, não passava de um grande matagal. E era por isso que eu não estava achando aquilo uma boa idéia.
e eu passamos por esse ritual há anos, a casa não estava em um estado tão alarmante como agora. A impressão que eu tinha era que se batesse sem querer na parede errada, correria o risco de fazer com que a casa ruísse sobre sua cabeça. Isso tudo sem falar do seu aspecto fantasmagórico. Aquele era um local afastado do centro da cidade, para ser mais exato, nós estávamos a meio caminho da estrada que levava a Kenilworth, cidade vizinha a Rugby.
Segundo meu relógio, já passava da uma da manhã, podíamos ouvir os grilos e a única iluminação era o do luar. Porque, inteligentemente, havia mandado que todos os caras do time desligassem seus faróis. E me mandou um olhar aborrecido quando fiz menção de resistir. Então, somando o aspecto deplorável da casa com a falta de iluminação, nós podíamos ter uma visão bem assustadora. Imagino como estaria se sentindo. Para ser franco, tive vontade lhe dizer para não fazer aquilo, mas depois pensei melhor e cheguei à conclusão de que eu não gostaria de me expor daquela forma na frente do time. Quer dizer, o quão estranho seria se eu começasse a defendê-lo? Até porque nós estávamos ali por minha causa.
– Você entendeu tudo? – Ouvi perguntar a ele.
– Não sou doente mental, . – bufou em resposta. Revirei os olhos me perguntando se ele nunca aprenderia a ficar de boca calada. Será que ainda não havia percebido que sua situação não era das melhores?
– Olha que você quase me enganou! – exclamou fingindo divertimento. Fui obrigado a abrir um sorrisinho maldoso ao ver a expressão de raiva estampada no rosto de . , que estava escorado em seu carro e era o mais próximo de mim, apenas balançou a cabeça negativamente quando pulou pelo cercado de segurança ao redor da propriedade e entrou na casa. Passaram-se alguns minutos e tudo o que ainda podíamos ouvir era o cantar dos grilos. Estar ali me lembrou outra época, quando Peter, eu e papai ainda éramos uma família, mesmo depois da partida de nossa mãe. É verdade que Richard havia ficado um tanto quanto amargurado pelo abandono dela, mas nós ainda conseguíamos ser uma família normal. O que acabou mesmo com ele foi a partida de Peter.
– Bom, eu estou ficando cansado. – declarou, de repente. – Que tal nós irmos embora?
Desencostei do carro em um pulo e olhei para ele com a testa franzida.
– Mas ainda está lá dentro! – protestou, lendo meus pensamentos. A diferença era que aquelas palavras jamais teriam passado pelos meus lábios.
– Vocês se importam? – perguntou virando-se para o time. Antes de responderem, vi os caras olharem para mim e esperarem por algum sinal. Entendem por que minha posição era difícil? Eu, de certa forma, estava preocupado com o . Afinal, não queria me meter em confusão, mas como lidar com toda a pressão que o time me impunha? Pela primeira vez, olhou para mim esperando minha decisão. Eu podia ver pelo seu olhar que ele estava implorando para que eu fizesse alguma coisa. Mas o que ele queria que eu fizesse? Eu não poderia simplesmente mandar o time ficar e cuidar do . O quão ridículo seria aquilo? Dando um suspiro irritado, andei até e o puxei para um canto onde não pudessem nos ouvir.
– O que diabos você está fazendo? – Perguntei e o vi erguer uma sobrancelha.
– Não sei do que você está falando. – Ele respondeu, cinicamente, e olhou por cima do ombro. – Acho melhor você tomar uma decisão logo. Eles estão esperando.
– O que está tentando provar, ? Está querendo colocar o time contra mim? – Havia chegado àquela conclusão. Eu só não sabia o motivo. Ainda.
– O quê? – Ele arregalou os olhos, parecendo sinceramente surpreso agora. – Você é o meu melhor amigo, ! Como pode dizer uma coisa dessas?
– Pois saiba que as costelas do seu melhor amigo ainda doem, . – Eu disse, sentindo um gosto amargo na boca.
desviou o olhar e soltou um suspiro resignado.
– Eu estava com... raiva. – Declarou, por fim. – Me desculpe cara.
Olhei para ele ficando seriamente irritado. Era só aquilo que ele tinha a me dizer?
– Com raiva de quê? – Exigi cruzando os braços.
– De você, é claro! – Ele exclamou, parecendo ficar irritado também. Mas eu não achava que ele tinha algum motivo para isso. – E por causa do .
– O que o tem a ver com isso? – Perguntei, ficando confuso.
– Não vê? – retrucou. – Você está indo para o lado dele! Expulsou Tyler do time só por causa daquela perdedora.
– Por Deus, ! – Exclamei irritado. – Tyler quase abusou dela! O que faria se fosse com Roselie?
Roselie era a irmã mais velha de , ela já estava na faculdade e não morava mais em Rugby. Nunca tive muito contato com ela, havia me proibido de chamá-la pra sair.
– Não faça comparações absurdas. – Ele balançou a cabeça negativamente. – Depois, você começou a ficar amiguinho dele, mas até aí tudo bem. O que me deixou com raiva mesmo foi aquela cena que você fez na frente do Josh e do Ethan. Tem noção de como me desmoralizou? Fiquei com raiva porque depois de me chamar de amarelão, você começou a ser mais tolerante ao . Me fez de idiota apenas por capricho. Não suporta ser contrariado!
Olhei para ele sem acreditar no que estava ouvindo. Eu não estava ficando amiguinho do ! Mas aquilo não importava, já sabia o que estava tentando fazer. E era patético.
– Então é isso? – Perguntei ainda meio perplexo. – Acha que estou colocando o time em segundo plano e está querendo me mostrar o que é mais importante? É por isso que está usando o time para me pressionar? Se sim, por favor, não seja tão ridículo! Você passou dos limites! Tem noção de como pode se machucar lá dentro?
– Ora, você está exagerando. Todos nós passamos por isso e estamos inteiros. – revirou os olhos. – E uma coisa dessas vindo de quem quase afogou o cara em uma privada é realmente irônico, não acha?
– A casa não era tão velha e decrépita antes! – Protestei, ignorando a segunda parte. Não tinha argumento para aquilo.
– De qualquer forma, você tem que decidir. – Ele deu de ombros e falou mais alto para chamar a atenção dos caras. – Se importa se formos embora?
– Não me importo. – Respondi, contrariado. Vi balançar a cabeça e me olhar com raiva. Provavelmente estaria me achando um covarde, mas eu também não me importava com a opinião dele. Rapidamente, todos os carros já estavam fazendo o caminho de volta a Rugby. Antes de dar partida em seu carro, olhou para mim e tive a impressão de que iria dizer alguma coisa. Mas, nesse exato momento, ouvimos um grande estrondo vindo da casa. Quando olhei, vi que toda a parede de um quarto no segundo andar havia desabado. , e eu ficamos paralisados. Eu sentia meu coração bater acelerado dentro do peito e um nervosismo crescer em mim.
– Isso é sua culpa! – apontou para que havia saído do carro e estava parado ao nosso lado.
– Não é hora para isso. – Adverti indo em direção ao cercado de segurança. – Temos que fazer alguma coisa!
Sem pensar muito, pulei para dentro da propriedade e corri para casa, mas fui bruscamente obrigado a parar, porque mais uma parede havia ruído quando eu estava perto de cruzar a porta da frente.
– O que fazemos? – Ouvi perguntar e, quando olhei, ele e estavam parados bem ao meu lado.
– Eu não sei. – Respondi vendo a porta da frente bloqueada pelos blocos de cimento que haviam acabado de cair. – Não temos como entrar por aqui.
– Talvez devêssemos tentar a porta dos fundos. – sugeriu e, no segundo seguinte, já estávamos rodeando a casa.
– , fique aqui! – Mandei quando eu e entravamos pela porta da cozinha. – Se algo acontecer, é melhor que tenha alguém consciente para chamar ajuda.
Fomos andando devagar, tentando chegar à sala sem esbarrar ou tropeçar nos destroços.
– Não consigo ver nada! – reclamou, e era verdade. Eu também não estava muito diferente. Conseguíamos distinguir o vulto de antigos moveis espalhados pelo cômodo, mas era só.
– Use o celular. – Aconselhei já tirando o meu do bolso e usando-o como lanterna. No meio tempo em que fiquei parado, apenas por alguns segundos, olhando ao redor e tentando me achar no meio daquela bagunça, continuou avançando pela sala escura até chegar a uma escada. Quando olhei para ele, era como se tudo estivesse acontecendo em câmera lenta. Ouvi um ruído baixo e, instintivamente, olhei para cima vendo a parte do teto sobre ele rachar. Corri a pequena distância que nos separava e o puxei bem a tempo, mas, mesmo assim, não havia sido o suficiente. De alguma forma, ainda conseguira ser atingido na cabeça. Me abaixei até ele, que estava caído inconsciente no chão, e fiquei alarmado ao ver que sua testa sangrava.
– ! – Gritei o mais alto que pude, ainda meio sem saber o que fazer. Em poucos segundos, já estava parado ao meu lado. Ele ofegava e tinha um olhar assustado no rosto, coisa que não me consolava muito. – Leve ele pra fora e fiquem longe da casa.
– , talvez seja melhor nós chamarmos alguém. – Ele disse nervoso.
– Não seja ridículo. – Revirei os olhos, obrigando a mim mesmo a ser um pouco mais corajoso. – Imagine o que diriam se soubessem que invadimos a casa dos Riordans.
Ele me lançou um olhar preocupado, mas saiu sem protestar. Agora que sabia que e estavam seguros do lado de fora, eu podia continuar. Subi cautelosamente pela escada e fiquei um tanto quanto surpreso de ver como o segundo andar estava mal conservado. Não que o andar de baixo estivesse bem, mas pelo menos ainda possuía paredes. A luz do celular era fraca, então eu não tinha uma visão muito boa do que estava a minha frente. Continuei, ainda cauteloso, e cheguei na entrada de algo que deveria ter sido um quarto. Foi ali que vi o vulto de , não o estava enxergando com muita nitidez, mas conseguia distinguir sua silhueta. Ao ver que ele estava de pé, o que me garantia que estava consciente, soltei um suspiro e senti um alivio invadir o meu corpo.
– Não se mova! – gritou pra mim quando avancei um passo em sua direção, mas já era tarde demais.
NINE
Abri os olhos, assustado, e me sentei de um pulo. Onde eu estava, era o que eu queria saber. Minha última lembrança era de estar na casa abandonada dos Riordans, mas, de uma forma estranha, isso parecia ter acontecido há dias. Eu sentia uma forte dor de cabeça, o que não me deixava pensar direito. Olhei ao redor me dando conta de que estava sozinho em um quarto verde e sentado em uma espécie de maca. Hm, eu já havia estado aqui antes, mas essas não eram boas lembranças. Quando eu estava prestes a por as pernas para fora da cama, Kattely, a enfermeira, adentrou o quarto. Era só o que faltava, pensei. Kattely não era conhecida como uma das pessoas mais simpáticas de Rugby, ela fazia parte daquela grande porcentagem de adultos que, quando jovens, tinham o sonho de deixar a cidade, mas, como você deve ter notado, não conseguiu.
– Oh, você acordou. – Ela disse, de forma entediada. – Faça o favor de não sair da cama. Dr. Beckett está analisando sua tomografia.
– Minha o quê? – Quase gritei. Kattely me mandou um olhar irritado, mas eu estava pouco ligando para o que ela pensava. – O que aconteceu? Onde estão os outros?
– Você levou uma pancada na cabeça, mas seus amigos foram vagos a respeito de como isso aconteceu. – Ela respondeu arqueando uma das sobrancelhas. – Dr. Beckett disse que você poderia ficar confuso sobre os últimos acontecimentos. – Ela continuou, voltando para o tom entediado de antes, mas ainda me olhando com desconfiança. – Me pergunto o que andou aprontando, garoto . Nada bom, suponho.
– Nada que seja da sua conta. – Corrigi, ácido. Eram por coisas desse tipo que eu odiava tanto Rugby. Odiava seus habitantes hipócritas que faziam questão de ir à igreja quando, na verdade, não passavam de adúlteros. Odiava aqueles que se orgulhavam de seus jardins bem cuidados e de seus trabalhos honestos, mas que ao mesmo tempo eram corruptos e mentirosos. E odiava, principalmente, pessoas como a enfermeira Kattely que se orgulhavam de suas vidinhas perfeitas quando não passavam de pessoas frustradas. Em Rugby tudo parecia perfeito, até que você olhasse uma segunda vez e visse como as coisas eram de verdade.
Kattely intensificou seu olhar sobre mim, como se esperasse uma confissão. Revirei os olhos e a olhei com desdém, começando a ficar impaciente.
– Seus amigos estão no corredor. – Ela disse, por fim. – Vou chamá-los para que lhe ponham a par das coisas.
Dando muito obrigado à sua saída, fiquei sozinho e tentei lembrar o que teria acontecido. Mas era simplesmente impossível. Eu sabia que estávamos na casa dos Riordans, sabia que havia se machucado e me lembrava vagamente de ter falado com o antes de apagar. E isso era tudo.
– Hey, como está se sentindo, cara? – foi o primeiro a passar pela porta. – Sabe quem eu sou? , seu melhor amigo, lembra?
– Bati a cabeça, ! Não fiquei retardado. – Resmunguei rindo de sua tentativa de fazer graça. – Ainda estou senil.
– Não foi bem o que a enfermeira disse. – riu, sendo o segundo a entrar.
– Ora, como se pudéssemos levar a sério o que Kattely diz! – retrucou enquanto fechava a porta.
Era estranho, mas eu podia sentir a atmosfera amigável que nos rondava. Só não sabia quanto tempo ela duraria.
– Hm, então... – Comecei, olhando sugestivo para eles. – O que aconteceu?
– Depois que fiquei inconsciente, você subiu atrás de que estava preso em um dos quartos. – contou, mas eu já sabia disso.
– Preso? – Repeti franzindo a testa.
– Não exatamente preso, mas quase isso. – respondeu. – Eu não podia me mexer.
– Sempre que ele se mexia, algo desmoronava. – explicou. – Então quando você tentou entrar no quarto, foi o fim. Mas, felizmente, conseguiu pegar você e sair a tempo.
Olhei para , que estava sentado ao pé da cama, e ele balançou a cabeça, confirmando.
– salvou você. – frisou arregalando os olhos para mim. Pelo seu tom e por sua expressão, eu podia dizer que ele achava aquilo tão assombroso quanto eu. Olhei para erguendo uma de minhas sobrancelhas e o vi ficar ligeiramente desconfortável.
– Você estava tentando fazer o mesmo por mim. – Ele deu de ombros.
– Era culpa dele você estar lá! – lembrou, seu tom indicava que ele já havia dito aquilo várias vezes antes.
– Não, dessa vez foi minha culpa. – assumiu. – Fui eu quem deu a idéia.
– Você podia ter impedido. – apontou um dedo para mim. – Mas é claro que preferiu não se comprometer.
Olhei para com raiva, eu sabia que cedo ou tarde ele diria algo assim. sempre fora do tipo politicamente correto. O que, é claro, não queria dizer que ele era um santo. Assim como eu, ou como qualquer cara normal, adorava um rabo de saia. Entretanto, ele parecia ter um tipo menos específico. Saía com qualquer garota, desde que não fosse líder de torcida. Por quê? Não faço idéia, mas acredito que isso fosse parte de seu posto de defensor dos perdedores.
– Você adora falar, não é mesmo? – Perguntei calmo, erguendo as sobrancelhas. – Mas é só isso, porque na hora de agir, você congela. Tanto que só tomou uma atitude depois de mim. Vire homem e, então, venha medir forças comigo.
Vi as narinas de inflarem e sua respiração ficar agitada. Por um momento surreal, pensei que ele fosse começar uma briga ali mesmo no hospital. Mas como eu havia dito, ele só gostava de falar.
– Quero ver o que vai fazer quando ele estiver dormindo com a sua prima. – Ele disse para , com raiva contida. Eu podia ver em seus olhos as intenções ocultas naquele simples comentário. Até sabia o quanto seu novo amigo era manipulável.
– Acho que, depois de hoje, aprendeu a lição. – respondeu, de forma inocente. – Não vai mais se meter com .
Ergui uma sobrancelha e, pela visão periférica, vi abrir um sorrisinho irônico. Balancei a cabeça com a risada presa na garganta.
– Desculpe, mas não sei de que lição está falando. – Foi o suficiente para lhe tirar a expressão satisfeita do rosto. – E não vejo o que tem a ver com isso.
– Você não pode estar falando sério! – Ele exclamou, fechando os punhos. – Você pode ter qualquer garota daquele colégio, por que insiste em querer machucar justo a ? Para me atingir? Faça qualquer coisa comigo, mas fique longe dela!
– Você está se dando importância de mais, não acha? – Perguntei. – Isso está fora do seu controle, .
– Ela nunca vai ficar com você. – Ele declarou, taxativo.
– Não seja ridículo! – Pedi divertido. – Você sabe que ela vai.
fez menção de avançar contra mim no exato momento em que o médico abriu a porta.
– Algum problema aqui? – Dr. Beckett perguntou, captando a tensão que preenchia o quarto. me mandou um último olhar de desdém e saiu batendo a porta, não demorou a segui-lo.
No caminho entre o hospital e minha casa, terminou de contar o resto da história, que não era muita. Ele apenas me contara que a casa dos Riordans finalmente desmoronara. Os formandos do ano que vem teriam que achar outra forma de atormentarem os novatos do time. E se de uma coisa eu estava certo, era de que eles encontrariam um jeito. Mas, para ser sincero, não estava ligando muito para aquilo. Não era mais problema meu. Àquela altura da madrugada, a única coisa que eu desejava era cair em minha cama. Aquele dia ainda não havia acabado e, pelos meus planos, prometia muito.
TEN
Olhei para o seu rosto magro e de expressão cansada me perguntando de onde a conhecia. Quando eu olhava para os seus olhos azuis, algo se remexia em meu interior. Apenas não conseguia definir se era por ansiedade ou por repulsa. Eu queria chegar mais perto, tocar sua pele e me aconchegar no carinho de seus braços, mas minha consciência continuava gritando para que eu me afastasse enquanto ainda havia tempo, enquanto uma parte de mim ainda estava intacta. Enquanto meu coração ainda estava a salvo.
– Em quê está pensando, meu filho? – Ela perguntou. Não pude deixar de notar como sua voz estava fraca e como ela me chamara. Filho. Ela podia me chamar do que quisesse, mas eu já não era seu e ela já não era minha mãe. Por mais que eu a amasse, agora ela não passava de uma estranha para mim. Se fosse minha mãe de verdade, não teria me abandonado.
– Não sou seu filho! – Me vi dizendo antes que pudesse controlar minha língua. Seus olhos se encheram de dor, provavelmente não era a coisa mais doce que se poderia esperar de um garoto de dez anos.
– ... – Ouvi Peter me repreender. Não sabia como estava sendo aquilo para ele, mas parecia estar indo bem. Com exceção do grande vazio em seus olhos, é claro. Ele colocou as mãos em meus ombros e me encorajou quando dei sinal de que iria recuar.
– Faça um esforço, . – Peter sussurrou para mim. – Ela já não tem muito tempo.
Aquela verdade me atingiu como um raio e, de repente, me vi cheio de raiva e ressentimento, mas, principalmente, de uma sensação terrível de tempo perdido.
– Por que você nos deixou? – gritei sentindo um aperto no peito. – O que fizemos de errado?
– Nada, meu amor! Você e seu irmão não fizeram nada. – Ela estava ficando cada vez mais distante. Era como se cada sílaba lhe levasse para mais e mais longe. Desejei de todo coração que, desta vez, ela ficasse. Mas eu era apenas uma criança e crianças nem sempre tinham o que queriam. – Não houve um dia em que eu não tenha pensado em vocês. Eu os amo.
– Mentirosa! – Exclamei, mas não pude evitar me debruçar e abraçá-la. Não demorei a sentir seus braços ao meu redor e, em pouco tempo, senti Peter se aproximar e rodear a nós dois. Quando ela deu seu último suspiro, prometi a mim mesmo que, com exceção de Peter, jamais amaria de novo. Mal eu sabia que ele também me abandonaria.
Abri os olhos, assustado, ouvindo a campainha tocar e senti um alívio se estender por meu corpo quando me dei conta de que estava no meu quarto. Fechei os olhos novamente e levei uma mão ao peito, sentindo meu coração bater acelerado. Dei um grande suspiro abrindo os olhos e sentei na cama. Fiz uma careta ao lembrar que fazia tempo desde que tivera um sonho, ou pesadelo, como aquele. No fim, dei de ombros e disse a mim mesmo que aquilo era besteira. Eu simplesmente não queria pensar naquilo, era perturbador demais.
Olhei para o relógio no criado mudo e me assustei com a hora. Já passava das três da tarde, mas concluí que, depois de todo o ocorrido na madrugada anterior, eu merecia uma boa noite de sono. A campainha soou novamente, me lembrando o motivo pelo qual eu havia acordado. Soltei um palavrão e levantei mal humorado. Quando saí, olhei para a porta do quarto de Richard, no outro extremo do corredor. Ela estava entreaberta, o que queria dizer que ele não estava. Quando fora a última vez que nós havíamos tido uma conversa? Eu não me lembrava, mas isso não me incomodava mais. A campainha tocou, dessa vez, várias vezes seguidas. Hm, alguém estava ficando impaciente. Desci a escada de dois em dois degraus e cheguei à sala correndo. Mas, quando abri a porta da frente, não encontrei ninguém.
– Muito engraçado. – Resmunguei pensando que, provavelmente, alguém teria pensado que seria divertido tocar a campainha dos outros e depois sair correndo. Porém, quando estava prestes a fechar a porta, ouvi um fino latido e olhei para o chão. Arregalei os olhos enquanto fitava aquele pequeno bulldog olhar para mim de dentro de sua cesta. Meu primeiro impulso foi de fechar a porta e deixá-lo lá. Eu odiava cães. Mas, quando já fechava a porta, vi um bilhete perto dele.
xx
Muito esclarecedor, me vi obrigado a ironizar. Acabei por deixá-lo entrar, visto que começara a latir e arranhar a porta quando o deixei para o lado de fora. Qualquer coisa era melhor do que aquele barulho infernal. Analisei novamente o bilhete na esperança de ter deixado algo passar, mas não havia nada. Eu sequer reconhecia a caligrafia usada.
Senti meu estômago roncar, só agora me dando conta do quanto estava faminto. Fui em direção a cozinha sendo seguido por aquele filhote feioso. Bufei quando ouvi seu fino latido. O que eu faria com aquela coisa? Se ao menos ele fosse de uma raça legal, e bonita, eu até poderia cogitar a possibilidade de ficar com ele. Mas um bulldog? Eu não precisava de cachorro babão que só saberia dormir e lamber as bolas. Misturei algumas frutas no liquidificador e fiz uma vitamina, afinal, atletas precisavam de proteínas. Sentei em uma das cadeiras altas junto ao balcão da cozinha e quase me afoguei de susto quando aquela porra de cachorro voltou a latir e, dessa vez, insistentemente.
– Quer calar essa droga de boca seu feioso? – Eu disse, de forma estúpida, mas sem conseguir pensar em coisa melhor. Dei-lhe um pedaço de pão e, graças aos céus, ele se calou.
De repente, ouvi o som distante do toque do meu celular. Ele estava em cima do sofá, na sala, e eu aqui, na cozinha. Refleti se deveria me incomodar em atendê-lo. De fato, não havia muitas pessoas com as quais eu fazia questão de falar. Ao menos, naquele momento. Franzi a testa quando vi o feioso correr para fora da cozinha e bufei quando ele voltou com meu celular na boca. Ótimo, ironizei, agora iria precisar de um telefone novo. Limpei o aparelho na camisa e, quando li Samantha na tela, senti menos vontade ainda de atender.
– Oi. – Eu disse, entediado.
– Finalmente! – Ela gritou do outro lado, aparentemente furiosa. Maravilha, era tudo o que eu precisava. – Quem pensa que é para ficar me evitando? Sou sua namorada, ! E estou ficando de saco cheio de você. Já não basta todo esse falatório ridículo sobre você e aquela perdedora? Quer dar mais motivos para falarem de nós? E, afinal, por que não foi para a escola hoje? Você tinha treino, caso tenha esquecido.
Céus! Será que ela não iria se calar nunca?
– Samantha, qual o seu problema? – Perguntei, sendo rude. – Sou seu namorado, mas você não é minha dona! Sempre tive outras, não se faça de desentendida. Aliás, não existe esse nós, nunca fui seu e nunca vou ser. Não lhe devo satisfações. E, além do mais, duvido que esteja realmente de saco cheio de mim, mas sei que eu estou de saco cheio de você!
Estava sendo cruel com uma garota que, provavelmente, estava apaixonada por mim, mas não era como se a culpa fosse minha. Nesse ponto, sempre fui honesto com Sam. Ficar com ela era conveniente para mim, e isso era tudo. Eu não estava disposto a me apaixonar e, muito menos, havia pedido para que ela fizesse isso. Não era culpa minha se ela havia sido tola o bastante para fazê-lo mesmo assim. E, ademais, quem ela pensava que era para falar sobre minhas responsabilidades com o Rúgbi? Eu havia tido um bom motivo para faltar àquele treino.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos e, então, a ouvi fungar.
– ? – Ela chamou com um tom voz completamente diferente agora. Parecia abatida.
– O que quer, Samantha? – Perguntei impaciente.
– Estou com saudades. Você poderia vir me ver? – Sua voz parecia cada vez mais triste. – Acho que algo terrível aconteceu.
– Do que está falando? – Perguntei, preocupado com a primeira coisa que havia me passado pela cabeça. – Você não está grávida, está?
– Você sempre foi muito cuidadoso, amor. – Amor. Existia palavra mais vazia e sem significado do que aquela? – Não estou grávida. E pare de me chamar de Samantha, você parece frio quando faz isso.
E era assim mesmo que eu queria parecer.
– Ótimo. – Voltei a respirar, só agora me dando conta de que havia prendido a respiração. Eu simplesmente não podia cometer aquele erro. – O que é, então?
– Quando você chegar, eu conto. – Ela disse, ainda soando abatida.
– Samantha...
– , por favor... – Ela suplicou com a voz chorosa. – Venha me ver.
Revirei os olhos e soltei um suspiro impaciente.
– Certo. – Respondi, contrariado. – Chego em meia hora, vou só tomar um banho.
– Não precisa, venha do jeito que está.
– Mas eu acabei de acordar. – Protestei, sem entender sua súbita urgência.
– Não importa.
– Me espere. – Respondi, sem me comprometer.
– Não vou a lugar nenhum. – Agora eu tinha certeza de que ela estava chorando, mas antes que eu pudesse perguntar, Sam desligou.
A despeito do que Samantha havia dito, tomei um banho antes de sair de casa. Mas não pretendia perder muito tempo com ela. Tinha um plano para que caísse mais facilmente em meus braços. Mas, primeiro, precisava tirar Samantha do caminho. Desci por uma típica rua de Rugby, cheia de casinhas iguais, e estacionei meu Audi na frente da única casa que se diferenciava das outras, mas que continha o mesmo padrão vitoriano. Saltei do carro e subi, desanimado, uma escadinha que levava até a varanda da casa, e toquei a campainha.
– Você veio! – Samantha exclamou abrindo a porta e jogando seus braços ao meu redor. Fiz uma careta e tentei me desvencilhar dela. Sam parecia tão feliz em me ver que quase me senti mal pelo o que estava prestes a fazer, mas apenas quase.
– Eu disse que viria. – Falei, finalmente conseguindo me livrar de seu abraço. Quando ela se afastou pude ver como seus olhos estavam vermelhos. Hm, ela havia mesmo chorado. Que seja, não era problema meu. – O que era tão importante?
– Você não quer entrar? – Ela perguntou, aparentemente ignorando minha pergunta.
– Não. – Respondi impaciente. – O que você queria comigo?
– Meus pais não estão em casa... – Ela me ignorou novamente, mandando um sorrisinho safado para mim e me puxando para dentro. Suspirei, deixando que ela me levasse. Samantha certamente já não me excitava como antes, mas continuava sendo uma garota. Uma garota muito gostosa, apesar de eu estava tendo dificuldades em tirar de minha mente enquanto Sam me prensava contra a porta, já fechada, e começava a beijar o meu pescoço. Eu não havia ido ali para aquilo, mas já que ela estava insistindo, teria o que queria. Inverti as posições e colei nossos lábios enquanto Sam acariciava minhas costas sob a camisa e eu puxava suas pernas para cima para que ela me envolvesse os quadris. Cambaleei às cegas até o sofá e sentei com Samantha ainda em meu colo. Sentindo meu já avançado estado de animação, Sam rebolou sobre mim, me fazendo soltar um gemido abafado. Mas eu não fora o único, ela também queria aquilo. Talvez até mais do que eu. Coloquei minhas mãos sob sua regata e a tirei de uma vez, vendo seus seios nus. Sem sutiã. Hm, quais as chances dela ter planejado aquilo? Senti suas mãos descerem em direção a minha calça, me fazendo soltar outro gemido. Certo, eu tinha que admitir, Samantha era boa naquilo. Mas eu era melhor. Em um movimento rápido, a deitei no sofá e fiquei por cima.
– Isso é tão injusto. – Sam comentou, rindo, quando terminei de tirar seu short. – Você ainda está completamente vestido.
Sem que eu dissesse nada, ela me empurrou pelo peito, me fazendo sentar novamente, e sentou no meu colo. Mordiscou o lóbulo da minha orelha e começou a desabotoar minha camisa para, no fim, fazê-la escorregar pelos meus ombros. Mordi o lábio para conter um gemido quando Samantha deslizou as mãos para dentro da minha calça e me massageou por cima da boxer. Mais uma vez, agora com mais violência, lhe obriguei a deitar sobre o sofá. Beijei seus seios enquanto Sam empurrava minha calça com os pés e eu, com certa dificuldade, tirava os tênis e as meias. Ela abriu as pernas e me encaixei entre elas.
– Você é tão lindo... – Ela murmurou acariciando meu rosto e ficando repentinamente quieta enquanto eu terminava de eliminar minha última peça de roupa. – Aposto que muitas garotas matariam para estar no meu lugar.
Quase disse que muitas garotas já haviam estado no lugar dela, mas achei melhor não trazer o assunto à tona. Me inclinei selando nossos lábios enquanto deslizava minhas mãos por seus quadris e, quando começava a brincar com o elástico lateral de sua calcinha, senti algo molhado entre nossos rostos. Franzi a testa entre o beijo e, curioso, acabei me afastando.
– Você ta chorando? – Perguntei surpreso, e apoiei um braço de cada lado do seu corpo para poder olhá-la melhor.
– Não. – Ela respondeu com a voz chorosa e me puxando para outro beijo. – Me ignore, apenas continue.
– Como quer que eu continue com você chorando? – Perguntei me sentado e sentindo todo o tesão ir embora.
– Droga, ! Eu não estou chorando! – Sam exclamou, mas no segundo seguinte estava soluçando com o rosto entre as mãos. Revirei os olhos.
– Samantha. – Chamei para que ela olhasse pra mim. – O que era tão terrível que você precisava me falar?
Ela escorou as costas no encosto do sofá e abraçou as pernas contra o peito, como se quisesse esconder sua nudez, e olhou para o lado contrário ao meu.
– Samantha! – Exclamei, começando a ficar irritado com todo aquele suspense.
– Eu me apaixonei! – Ela explodiu, finalmente olhando para mim. Seu rosto estava molhado e a ponta de seu nariz começava a ficar vermelha, assim como seus olhos. O que antes era apenas uma suspeita, agora estava confirmado. E eu não podia mais ficar com ela. Não seria justo. Olhei para Sam por alguns segundos e, então, balancei a cabeça começando a vestir minhas roupas. – Aonde você vai?
– Não é óbvio? – Retruquei, ácido.
– Por favor, não vá. – Sam pediu, tentando me impedir de calçar os tênis. – Meus pais ainda vão demorar, temos tempo.
– Não, obrigado. – Respondi, no mesmo tom de antes. – Você me broxou.
– Por que você precisa ser tão cruel? – Ela perguntou, voltando a chorar. – Eu amo você, .
– Problema seu. – Eu disse já terminando de me vestir. – Não pedi para você se apaixonar por mim. Aliás, fui bem claro quando falei para você não fazer isso. Nós tínhamos um acordo.
– Sei que nós tínhamos, mas não pude evitar! – Ela exclamou chorosa. – Você acha que pedi por isso? Acha que eu queria me apaixonar justo por você?
– Acabou, Samantha. – Eu disse, lhe dando as costas.
– Um dia alguém também vai quebrar seu coração! – Ela gritou. – E quando isso acontecer, estarei lá para rir da sua cara.
O que Samantha não sabia, era que meu coração já estava quebrado. Eu só não queria que ele se partisse ainda mais. Portando, era bom que ela estivesse disposta a esperar, porque nunca iria se apaixonar.
ELEVEN
Eu estava oficialmente exausto. Como castigo por ter faltado no último treino, nosso treinador me havia mandado dar sete voltas ao redor do campo. E, bom, agora eu meio que podia sentir todos os músculos do meu corpo formigarem. Aquilo certamente iria me render uma ótima dor muscular. Sabia disso porque, como de costume, havia me deitado sobre o centro do campo e conforme meu corpo esfriava, mais dolorido eu ficava. Levantei e fui para o vestiário que, por exceção de e , estava vazio.
– Não se incomodem comigo. – Eu disse quando eles subitamente ficaram em silêncio. Como se eu estivesse minimamente interessado no que eles estavam falando. Por favor!
– Já estamos indo. – respondeu em tom de superioridade quando os dois passaram por mim. Ergui uma sobrancelha para .
– Olhe só quem é o homem da relação! Já esperava que não fosse você, . – Provoquei.
Ele revirou os olhos, mas não disse nada.
– Ótimo, melhor assim. – Tentei novamente. – Já ‘tava na hora de você aprender a se calar.
– Não quero brigar com você de novo. – Ele disse calmo. Franzi a testa.
– E por que não?
– Porque é isso que você quer, mas eu não sou assim. – respondeu. – Diferente de você, não acho que violência é o melhor jeito de impor respeito para as pessoas. Já lhe disse algo assim uma vez.
– Sim, mas achei que tivesse percebido que era perda de tempo. – Respondi, com frieza.
– É, provavelmente seja mesmo. – Ele retrucou, sem expressão.
– Vocês já não estavam indo? – Lembrei, começando a ficar irritado com aquela conversa sem sentido.
bufou, mas algo no ar dizia que não era comigo que ele estava irritado. Estava claro que ele também achava perda de tempo. Sem dizer nada, ele saiu. olhou para mim mais uma vez, balançou a cabeça e, quando achei que iria dizer mais alguma coisa, ele simplesmente se foi. Encarei a porta do vestiário tentando entender do que exatamente ele estava querendo me convencer. E, principalmente, porque não desistia. Era uma merda ter que admitir, mas era um cara legal. Não que eu estivesse começando a gostar dele. Para mim, ele seria eternamente um perdedor.
Passei a mão pela cabeça, bagunçando propositalmente o cabelo, e ergui uma sobrancelha surpreso pelo que estava vendo. O que ela ainda estava fazendo ali? Não a tinha visto por toda a manhã, chegara até a pensar que não tivesse vindo.
– Vejo que resolveu aderir à nossa moda. – Comentei quando cheguei perto e a vi, pela primeira vez, usando o uniforme completo do colégio. Ele basicamente era formado por uma camisa de linho branca, uma gravata azul com listras amarelas e, por cima disso, um suéter da mesma cor da gravata. E, é claro, por uma saia preta e meias brancas que iam até abaixo do joelho. Obviamente, seu uniforme era diferente do meu. Eu tinha calças de linho no lugar da saia e, por cima do suéter azul, um blazer preto. Em raros dias de calor, tínhamos permissão para deixar o suéter de lado, ficando apenas com a camisa de linho e gravata.
– Aparentemente, eu poderia ser suspensa caso continuasse a usar minhas próprias roupas. – retrucou, com o rosto escondido dentro de seu armário.
– Compreensível. – Deixei escapar.
– O que quer dizer? – Ela perguntou, na defensiva, finalmente me olhando. – Qual o problema com as minhas roupas?
– O que ainda está fazendo aqui? – Desconversei. – já foi embora.
– Não é da sua conta. – Respondeu, voltando a olhar dentro do armário.
– Outch! – Exclamei rindo, provocativo, e me escorando no armário ao seu lado. – Tão malcriada...
– Você também não é exatamente um gentleman.
– Mas você gosta. – Eu disse abrindo um sorriso cretino quando fechou a porta de seu armário e me lançou um olhar irônico.
– O que você quer de mim, ? – Ela perguntou, sem rodeios. Será que ela realmente queria saber? Porque a verdade era que eu vinha pensando naquilo já há algum tempo, mas me custaria tanto colocar em prática que eu acabara evitando ao máximo. Portanto, provavelmente não ia gostar do que eu tinha em mente. A partir daquele momento, nada do que eu lhe dissesse seria verdade. Levar uma garota para cama era uma arte, quase como um dom. Cada uma significava um desafio diferente. E seria o melhor deles.
– Eu queria pedir desculpas pelo beijo. – Eu disse, fingindo desconcerto. – Da próxima vez, será com o seu consentimento.
– Não haverá uma próxima vez. – Ela retrucou me dando as costas. Garotazinha irritante!
– Tudo bem. – Eu não iria insistir naquele ponto. talvez fosse um pouco mais difícil do que as outras, mas eu sabia que haveria sim uma próxima vez. – Então só diga que me desculpa.
Ela parou de andar e olhou para mim com os olhos cerrados.
– O que você está tramando? – Perguntou desconfiada.
– Nada! – Respondi erguendo as mãos no ar, inocente. – Só quero que me desculpe. Desde que nos conhecemos venho sendo um idiota com você.
– Só idiota? – Ela ergueu uma das sobrancelhas. Garota abusada. Eu já estava pedindo desculpas, o que mais ela queria que eu fizesse? Ficasse de joelhos e implorasse? Tive que me controlar e me lembrar a todo instante de que aquilo fazia parte de um plano, caso contrário, teria lhe dado uma resposta nada educada.
– Certo. – Forcei um suspiro derrotado, ainda controlando meus nervos. – Não apenas idiota como estúpido, grosso, presunçoso, arrogante, convencido... Gostaria de acrescentar alguma outra coisa?
– Não, você se definiu bem. – Ela respondeu achando graça. Pelo visto, eu estava fazendo papel de idiota e ela estava se divertindo com isso. Não acredito que alguns caras se comportem desse jeito sem estar realmente tentando conseguir sexo. Quero dizer, nunca tive que me comportar dessa forma antes, mas sempre consegui o que queria. Alguns têm sorte, outros não. É a vida.
– Esse sorrisinho é um sim? – Insisti tentando dar um ar inocente ao sorriso maldoso que se formava em meus lábios, mas eu simplesmente não conseguia evitar.
– Sim o quê? – Ela pareceu desnorteada por alguns segundos.
– Estou desculpado? – Repeti me perguntando o que a teria distraído.
– Ah, sim... – resmungou como se lembrasse de algo e, para minha surpresa total, corou.
Então, foi minha vez de me sentir perdido. Com as bochechas rosadas, parecia tão doce! Completamente diferente da garota forte e determinada que gostava de aparentar. Senti uma vontade quase insana de segurar seus ombros, lhe encurralar entre meu corpo e a parede mais próxima para poder beijá-la enquanto minhas mãos bagunçariam o seu cabelo e amassariam a sua roupa quando, na mesma intensidade, ela me desarrumaria. Eu queria, eu desejava, precisava, sentir suas mãos passearem por todo meu corpo e tocarem a parte mais sensível dele.
– Você está desculpado. – respondeu e, sem me dar tempo de dizer algo mais, recomeçou sua caminhada e me deu as costas de novo. Revirei os olhos ficando ligeiramente irritado, ninguém me dava às costas!
– Hey! – Exclamei correndo e lhe segurando pelo braço. – Eu ainda tenho uma pergunta a fazer.
– Desse jeito vou chegar atrasada na aula! – Disse impaciente. – Você não é o único que participa de atividades extracurriculares. Preciso chegar a tempo ao ensaio do grupo de teatro, portanto, nos faça um favor e fale de uma vez!
Era por aquele tipo de comportamento que eu achava que garotas deveriam ser mantidas à rédea. Assim que você demonstra qualquer tipo de fraqueza ou vulnerabilidade, elas se sentem no poder. Eu havia me humilhado e praticamente implorado por desculpas, e ela ainda tinha a audácia de me tratar com impaciência. Garotas não mereciam piedade. Elas poderiam ser muito mais cruéis do que um cara como eu. E estava certíssimo por não ser fiel a nenhuma delas.
– Eu queria saber se... – Hesitei. De propósito, é claro. – Se você não quer sair comigo um dia desses.
– Você tem namorada. – Ela ergueu uma das sobrancelhas.
– Nós terminamos.
– Ela é chefe das líderes de torcida. – me olhou duvidando.
– E eu o capitão do time. – Revirei os olhos.
– Cansado de ser um clichê? – Ela debochou me lançando um olhar de desprezo. Cerrei os olhos, irritado, e tentei me focar no fato de que quando estivesse humilhada, pensaria duas vezes antes de me olhar daquele jeito. Ela se achava tão esperta, tão inteligente! Iria pagar por cada palavra.
– Bom, talvez eu tenha cansado de ser, certo? – Dei de ombros tentando soar indiferente.
– E acha que o melhor jeito é começar a sair com alguém não popular? – Ela cruzou os braços e me olhou desafiadora.
– Se saísse comigo não seria mais uma perdedora. – Eu disse lhe dando um sorriso convencido. E, por um segundo, lhe vi estremecer. Ri por dentro. definitivamente não sabia onde estava se metendo e, principalmente, com quem estava lidando.
– Não sou uma perdedora! – Ela exclamou, após se recompor.
– Que seja. – Revirei os olhos.
– Você se acha melhor do que todos, acha que pode pisar em todo mundo e se sair bem! Por que não vai se ferrar? Aproveite e leve esse seu ego super inflado com você! – explodiu aproximando-se de mim e apontando o dedo no meu rosto. Trinquei os dentes. Ninguém apontava o dedo para mim! – E, caso não tenha entendido, não quero a droga da sua popularidade!
– Mas eu quero você! – Eu disse enquanto segurava a mão que ela me apontava e a empurrava com violência contra o armário mais próximo. Não me importei com o barulho causado pelo choque entre nossos corpos e o metal do armário naquele silencioso corredor, não me importei se estava sendo bruto e sequer dei a mínima para o olhar de raiva que ela me mandava.
– Vai continuar querendo! – Ela sibilou, tentando se soltar. – Você não é homem o bastante para mim!
– Isso é o que nós vamos ver! – Exclamei selando nossos lábios enquanto puxava seu corpo de encontro ao meu e voltava a pressioná-la, com força, contra o armário. Ela se remexeu na tentava de se libertar, mas, assim como tivera sido no pub há alguns dias, fora completamente inútil. Dessa vez, como estávamos sozinhos, me permiti ser mais ousado. Com uma das mãos, segurei seu pulso sobre a cabeça e deslizei a outra por seu corpo. – Pare com isso! – Rosnei contra sua boca quando, mais uma vez, tentou se libertar. – Pare de fingir que não me quer!
Deslizei a mão livre por sua perna, invadindo minimamente sua saia, para, então, lhe dar um leve aperto. A ouvi gemer e começar a ceder. Suguei seu lábio inferior e, logo em seguida, passei a língua de leve sobre ele e tomei sua boca por completo. Senti sua língua brincar gostosamente contra a minha. Quando finalmente soltei seu pulso, levou as mãos para dentro de meu blazer, por onde as deslizou e apertou meus ombros. Desci meus beijos por seu pescoço e odiei que nosso uniforme exigisse tanto pano. Levei minhas mãos para dentro de seu suéter e me afastei dela apenas o suficiente para puxá-lo para cima. Não que sua eliminação me fosse muito reveladora, visto que ela continuava com sua blusa de linho. Investi novamente contra seu pescoço enquanto a sentia arquear as costas e afundar os dedos em meu cabelo. Levei uma das mãos até seu colarinho, tirei sua gravata e desabotoei apenas os primeiros botões. O que já me dava uma vista parcial de seus seios e me permitia distribuir chupões por seu colo e pescoço. Senti suas mãos inquietas deslizarem mais uma vez por meus ombros, fazendo com que meu blazer caísse no chão.
– Você ainda vai se apaixonar por mim, . – Ela sussurrou quando voltei a selar nossos lábios.
– Ta foda. – Debochei levando ambas as mãos para suas coxas, a obrigando a dar impulso e, então, me rodear com as pernas. O gemido que deu em seguida fora quase doloroso. Sim, ela podia sentir o volume dentro de minhas calças roçar contra o fino tecido de sua roupa íntima.
– E então? – Murmurei mordiscando o lóbulo de sua orelha enquanto meus polegares brincavam com o elástico lateral de sua calcinha.
– E então o quê? – Ela arfou. Claramente estava tendo dificuldades para falar. Eu adorava ter esse efeito sobre elas.
– Ainda acha que não sou homem o bastante? – Perguntei baixinho, com a voz rouca, ao pé de seu ouvido e, apenas para lhe torturar um pouco mais, forcei meu quadril contra o seu, o movimentando ligeiramente. Sua reação foi imediata. apertou as pernas com mais força ao meu redor e fechou as mãos em meu cabelo, o puxando.
– Você sabe a resposta. Não me obrigue a dizer, imbecil!
– Ótimo! – Exclamei enquanto me afastava bruscamente. Ri de sua quase queda. – Pernas bambas?
– Você é um cretino! – Ela gritou, ainda arrumando sua saia. Hm, aparentemente eu me empolgara mais do que havia previsto. – Por que ainda se deu ao trabalho de vir pedir desculpas se planejava fazer pior do que na primeira vez?
– Você me provocou! Minhas desculpas foram sinceras. – Menti. Mas, de certa forma, até que estava falando a verdade. Não que minhas desculpas tivessem mesmo sido sinceras, mas eu não planejara beijá-la. Ela havia pedido por aquilo.
– Não provoquei porcaria nenhuma! – Ela protestou.
– Não! – Ironizei, revirando os olhos, e pegando meu blazer do chão. – Apenas duvidou de minha masculinidade. E não me olhe com essa cara, sei muito bem que você amou! Está é com raiva por eu ter parado.
– Cale a boca! – Ela explodiu, pela milésima vez. – Vamos apenas esquecer que isso aconteceu.
Ergui uma das sobrancelhas.
– Ora, seja sincera consigo mesma e admita que você não quer esquecer!
– Você é patético. – Ela disse, soando completamente fria. – Não comece a falar como se me conhecesse.
Ela estava começando a me irritar com toda aquela lamentação hipócrita. Fui em sua direção, e a puxei para mim, pressionado sua boca contra a minha. Revirei os olhos entre o beijo quando tentou escapar.
– Você me quer. Aceite este fato. – Me afastei. – Você não é diferente.
Vi uma expressão raivosa se formar em seu rosto, mas antes que ela pudesse dizer alguma outra coisa, lhe dei as costas. Iria fazê-la me desejar como jamais desejara outro alguém. Disso, eu tinha certeza.
TWELVE
Deixei a de lado e tentei me concentrar apenas no que já estava escrito no papel. Aquela música havia vindo do nada, mas agora eu simplesmente não conseguia terminá-la.
– You know that everybody likes to party on a Saturday Night… – Cantarolei escrevendo mais algumas linhas. – We'll have every girl in school in the deep end of the pool...
Fechei os olhos com força e, sem querer, quebrei a ponta do lápis quando fui pego de surpresa pelo latido de Monstro. Sim, eu tinha dado aquele nome a ele.
– Será que você pode ficar quieto? – Perguntei irritado.
Me estiquei até o criado mudo para pegar outro lápis e tentei não esquecer a frase que se formava em minha mente.
– We're waking everyone asleep when we start to party in the street… – Recitei enquanto escrevia. – We want the neighbors to complain, 'coz our music’s driving them insane…
Bufei quando ele latiu de novo.
– Certo, você venceu! – Exclamei ficando de pé e guardando o papel no bolso. Hoje nós teríamos o primeiro jogo da temporada, mas, antes, havia combinado de encontrar com os caras do time no Caldecott Park. Então, iria falar com dali a alguns minutos e lhe mostraria a letra. Olhei-me rapidamente no espelho, enquanto bagunçava meus cabelos, e saí do quarto com Monstro em meu encalço.
– Onde você pensa que vai? – Perguntei pegando-o no colo e recebendo um latido em resposta. Fiz uma careta ao me dar conta de que estava conversando com um cachorro. O botei novamente no chão e o vi correr escada a baixo. Franzi a testa ao olhar para a porta que levava ao quarto que, um dia, pertencera a Peter e a ver entre aberta. Andei em silêncio, empurrei a porta de leve e entrei. Estar naquele cômodo era como voltar seis anos no tempo.
Estava exatamente do mesmo jeito que Peter o havia deixado. As paredes eram cobertas com pôsteres de seus astros de Rúgbi preferidos, seu quadro de fotos, cheio das lembranças que ele havia deixado para trás. Se bem que eu poderia jurar que estavam faltando algumas. Dei mais um passo para dentro do quarto e tomei um susto ao finalmente notar meu pai sentado na cama. Bom, eu deveria ter suspeitado de que ele estaria ali. Afinal, aquela porta ficava sempre trancada e Richard era o único que possuía a chave. Mas é claro que, com toda a minha estupidez, eu pensaria primeiro na teoria mais absurda. Apesar de estar cansado de saber que Peter jamais colocaria os pés em Rugby de novo.
– Procurando alguma coisa, ? – Richard perguntou usando aquele seu típico tom irônico. Céus, eu odiava aquilo!
– Pergunto o mesmo. – Respondi, sem emoção. – O que está fazendo aqui?
– Nada que seja problema seu. – Ele se levantou. Franzi a testa e o olhei desconfiado. Eu sempre quisera saber o porquê dele nunca me deixar entrar naquele quarto.
– O que é isso em suas mãos? – Perguntei só agora notando o grande bolo de papel entre elas.
– Não é nada! – Ele respondeu, ácido, parecendo repentinamente irritado. Não que normalmente ele fosse uma pessoa muito dócil, se é que você me entende, mas, naquele momento, Richard estava soando exatamente como alguém na defensiva. O que, é claro, só me deixava ainda mais desconfiado. Ele estava escondendo alguma coisa. E eu iria descobrir. – Saia do quarto e me deixe trancar a porta.
– Como quiser. – Eu disse frio, e lhe dei as costas saindo apressado. Quase havia me esquecido de como sua presença era irritante, não era de se surpreender que minha mãe tivesse abandonado aquele cara. Mas isso não a deixava menos cheia de culpa. Afinal, ele nem sempre fora aquele cretino.
– Aonde você vai? – Ele perguntou, autoritário, ao ver que eu não parara ao chegar no andar de baixo. Calmamente, assobiei chamando por Monstro, que veio imediatamente ao meu encontro, e, então, olhei para Richard erguendo uma das sobrancelhas, dando um olhar irônico que era quase que exclusivamente dele.
– Você realmente se importa? – E saí pela porta o deixando, com toda a certeza do mundo, furioso. Entrei no carro, colocando Monstro no banco de passageiro, e dei partida.
– Se você mijar no meu banco, juro que te jogo pela janela. – Eu disse a ele, mas não estava falando sério. Na verdade, era legal o ter ali. Não que em certos momentos eu não desejasse simplesmente expulsá-lo de casa. Porque eu desejava.
– And if somebody’s feeling sick, get them in the garden quick… – Cantarolei ainda tentando achar o ritmo certo para a letra. – Coz we don’t want them to spoil the fun…
Às vezes, eu me perguntava por que, com todas as cidades da Inglaterra, eu havia nascido justamente em Rugby. Aquela cidade era tão tranqüila, tão quieta... Todos os dias pareciam domingo. Passei pela frente do Rugby School, que àquela hora estaria vazio, e continuei, na mesma velocidade, até alcançar a Torre do Relógio, onde aproveitei para me certificar de que não estava atrasado para encontrar com . E, como o esperado, eu não estava.
Estacionei perto do meio fio, saltei do carro e deixei a porta aberta, esperando que Monstro pulasse para fora. Não iria colocá-lo em uma coleira. Se eu tivesse sorte, ele poderia se perder de mim. Atravessei os portões do Caldecott Park e, logo de cara, avistei sob a sombra de uma daquelas cabanas, ou seja lá como se chamava aquilo, e andei em sua direção já pondo um sorriso convencido nos lábios. Hoje, ela estava me parecendo um tanto quanto hippie com aquela roupa, mas eu estava começando a me acostumar com seu estilo exótico. Ela não precisaria de roupas para fazer o que eu queria. Estava pronto para lhe cumprimentar com algo provocativo quando percebi o quanto estava pálida.
– Você ‘ta bem? – Perguntei a ela quando cheguei perto o suficiente para ser ouvido. A verdade era que, agora que eu estava pensando no assunto, conforme seu bronzeado californiano ia embora, começava a parecer cada vez mais sem cor. Ela me olhou surpresa, provavelmente não havia me visto chegar e, então, olhou para as próprias mãos. Elas tremiam. – , você me ouviu?
– Eu estou ótima. – Ela respondeu, ríspida, e fechou as mãos em punhos em uma tentativa de cessar a tremedeira. – E, a propósito, não lhe dei intimidade para me chamar pelo apelido.
– Desculpe, mas achei que, depois do episódio no corredor, poderíamos deixar as formalidades de lado. – Revirei os olhos, mas não sem antes vê-la tirar uma bala de menta de dentro da bolsa e colocá-la na boca. – Não vai me oferecer?
– Não, só tenho mais uma e posso precisar dela. – respondeu, ainda com aquele tom irritado. Franzi a testa, sem entender.
– O que quer dizer com isso? – Perguntei pegando Monstro no colo quando este fez menção de correr atrás de um pombo. Céus, aquele cachorro era realmente burro.
– Minha nossa, será que você pode parar com todas essas perguntas? – Ela explodiu, chamando atenção para nós.
– Vejo que alguém está um tanto quanto ácida hoje... – Ergui uma das sobrancelhas. – Posso lhe ajudar a melhorar seu humor, se quiser.
– Você sabe que eu não quero. – revirou os olhos. – Não cansa de levar foras?
Minha primeira reação foi arregalar os olhos e, depois, explodir em gargalhadas.
– Qual a graça, idiota? – Ela perguntou.
– Não seja patética. – Mandei, firme, e ficando sério. – Basta que eu me aproxime para que você se derreta.
– Que nome você deu a ele? – perguntou, ao invés de negar e me xingar de todos os nomes possíveis. A mudança de assunto fora tão drástica que cheguei a ficar ligeiramente confuso, a princípio.
– Monstro. – Respondi estranhando seu interesse.
– Não acredito que deu esse nome a ele! – Ela exclamou, indignada, o arrancando de minhas mãos.
– Ora, ele não é exatamente a coisa mais linda do mundo. – Ironizei.
– Você sequer está disposto a tentar, não é? – Ela perguntou me olhando.
– Tentar o quê? – Franzi a testa.
– Gostar dele.
– Foi você! – Exclamei genuinamente surpreso.
– E por que todo esse escândalo? – revirou os olhos e colocou Monstro no chão. É claro que ele saiu correndo, exatamente como eu prevera. – Você me disse aquelas coisas no pub. Você sabe, sobre o amor. Então achei que dá-lo a você seria uma boa forma de me desculpar.
– Se desculpar? – Repeti, desconfiado, e cruzei os braços.
– Eu, hm, não deveria ter dito aquilo sobre a sua mãe. – Quando suas palavras chegaram aos meus ouvidos, foi como se meu sangue congelasse. Pensei em lhe mandar ficar calada para não começar a falar coisas das quais não sabia, mas depois concluí que aquela trágica imagem de garoto abandonado poderia me ser útil. Garotas eram tão estúpidas!
– Tudo bem. – Eu disse, sem conseguir evitar a frieza em minha voz. deu de ombros, como se pouco lhe importasse, e isso fez minha irritação borbulhar. Mas, se eu queria que ela confiasse em mim, teria que me controlar. Por mais difícil que fosse. Conquistar e destruir. Essa era a minha meta.
– Sua cor voltou. – Comentei baixinho, me aproximando e lhe tocando o rosto de leve. Mordi meu lábio inferior para segurar o riso quando a vi prender a respiração. – O que foi? – Perguntei, tentando dissimular meu descaramento.
– Nada... – Respondeu me olhando estática. Ergui uma sobrancelha e prossegui. Lentamente, para que ela não se assustasse e recuasse, fui aproximando meus lábios de sua bochecha, onde comecei a depositar pequenos beijos e, então, dando uma leve mordida.
– Pare... – Ela murmurou espalmando uma das mãos em meu peito, mas sem realmente demonstrar alguma resistência.
– Parar com o quê? – Perguntei, ainda cínico, e mordisquei seu lábio inferior. respirou pesadamente e me puxou pela gola da camisa, mas desviei o rosto fazendo com que nossos lábios apenas se esbarrassem minimamente. Não resisti e soltei um riso abafado quando a ouvi bufar.
– Você é um idiota! – Ela me empurrou, irritada, mas eu logo a estava puxando de volta para mim pela cintura. Afundei o rosto em seu pescoço, dando uma leve mordida. É, eu gostava disso. Não demorei a sentir os dedos de mergulharem em meu cabelo.
– Então foi por essa perdedora que você me trocou? – Ouvi a voz ultrajada de Samantha às minhas costas. Infelizmente, também havia ouvido. Ela se afastou de mim e olhou para Sam com uma expressão irônica no rosto. E, então, deu um sorrisinho.
– Você foi traída, largada e humilhada. – enumerou nos dedos. – E depois eu é que sou a perdedora? Por favor!
Vi Samantha a fuzilar com olhos, mas se limitou a jogar os cabelos para trás e caminhar para longe de nós.
– Não vai dizer nada? – Sam perguntou após alguns segundos em silêncio.
– Você ouviu o que ela disse. – Dei de ombros. E, depois disso, não registrei nada do que ela começara a tagarelar. Vi correr em direção ao quando este chegou e se jogar em seus braços. Ele, por sua vez, a rodeou e abraçou forte o suficiente para lhe levantar alguns centímetros do chão. Mas o que diabos estava acontecendo ali? Fechei as mãos em punhos quando vi lhe dar um beijo bem no canto de seus lábios e dizer algo em seu ouvido. Senti uma irritação percorrer todo meu corpo. Ela era minha! E era muito bom que ele mantivesse uma distância considerável se não quisesse criar problemas comigo.
Eu não estava com ciúmes. Afinal, o ciúme consistia em dois princípios básicos. O primeiro, e talvez o mais relevante, vinha da insegurança. E, acredite, eu não possuía um único átomo inseguro no corpo. Insegurança era para os fracos e perdedores. E, em segundo, eu não tinha sentimentos por . Ela seria nada mais que um desafio para mim. Não, aquilo não era ciúme. Era posse. E eu não iria permitir que colocasse suas mãos cheias de dedos em algo que era meu.
THIRTEEN
Virei as costas para , apenas por alguns segundos, e o vi vindo em nossa direção. Assim que nossos olhares se cruzaram, abriu um sorriso de canto e ergueu uma das sobrancelhas. Manteve seu olhar preso em mim por todo o caminho e, quando achei que passaria reto, deu um esbarrão em que quase o levou ao chão.
– Hey! – Exclamei com raiva. – Qual o seu problema, garoto?
– Alguma coisa a dizer, ? – me ignorou e, antes que eu pudesse perceber, já haviam surgido três outros garotos às suas costas, que reconheci como parte do time da escola, para lhe servir de guarda costas. Ele era tão covarde! Vi mudar de rosa a vermelho vivo, tamanha era sua raiva. Reaja! soltou uma risadinha debochada e, então, olhou para mim.
– Fique longe dela! – finalmente se pronunciou. sequer piscou, apenas continuou me encarando fortemente. Tudo nele era intenso. E isso me dava arrepios.
– Mande ela ficar longe de mim e veja se obedece... – Ele provocou olhando para agora.
– Bom... O que estão dizendo é que, desta vez, quem está correndo atrás é você. – retrucou, dando um passo a frente. o fuzilou com o olhar, mas foi a vez de de não hesitar. Olharam-se com raiva por longos segundos, eu quase podia sentir a testosterona no ar. De repente, olhou para mim e abriu um sorriso doce, mas seus olhos continham aquele brilho dominador de sempre. Mesmo assim, fui obrigada a piscar fortemente e tentar desviar minha atenção do sorriso que me era tão sedutor.
– Você sabe que isso só vai deixar as coisas mais divertidas, não sabe? – Perguntou, falando baixo, para me impor uma sensação de intimidade. Intimidade que não tínhamos, aliás.
– Não sei do que está falando. – Mas é claro que eu sabia. Estava falando do nervosismo, daquele maldito frenesi e de todas aquelas sensações irritantes que eu sentia sempre que ele chegava perto. me alertara que isso aconteceria, mas, até aquele momento, me custava admitir. Eu odiava ser como todas as outras.
Mas se ele achava que eu seria boba o suficiente para me apaixonar, estava muito enganado. Ainda podia me lembrar da última vez, aquela que me rendera uma expulsão e uma vida inteira em meu país. Não, aquilo não iria se repetir. Tudo não passava de uma ligeira atração. Atração que eu superaria assim que o plano tivesse sido executado com sucesso. teria seu coração partido.
– Não mesmo? – Ele insistiu, agora erguendo uma das sobrancelhas e me olhando irônico.
– Meu Deus, , será que você não consegue ficar um segundo sem criar confusão? – Um garoto se aproximou e, por um momento, achei mesmo que ele o estivesse repreendo, mas logo vi seu sorriso debochado. E, então, o reconheci como , um dos súditos de .
– Confusão? – fez-se de desentendido, lançando um olhar divertido para . – Eu só estava aqui tendo uma conversa com o nosso amigo , mas aparentemente ele não tem nada a dizer.
ergueu uma das sobrancelhas, olhando de um furioso para um calmo. Aliás, mais calmo, impossível. Mas eu tinha certeza de que ele estava se remoendo por dentro e só estava tentando irritar . O que, de fato, estava conseguindo. Ele era tão manipulador! Imagino quantas vezes já havia feito aquilo comigo...
– Bem... – checou a hora no celular. – Temos que ir, vejo você depois do jogo.
Me deu um sorriso esperto e se foi.
– Limpe sua baba, está começando a escorrer. – disse assim que e os outros já estavam longe o suficiente. – é um escroto, não acredito que esteja mesmo dando mole para ele.
– O que é isso? Ciúmes? – Perguntei fingindo divertimento. Era horrível estar usando daquela maneira, mas, para que tudo desse certo, eu precisava dele. era competitivo demais.
– Vamos ver se achará divertido depois que ele acabar com você.
– Não fale de coisas que não sabe, ! – Falei começando a ficar irritada com sua insistência. – Não sou tão idiota quanto pensa.
– Não estou dizendo que...
– Esqueça. – O interrompi ríspida, mas voltei a me sentir culpada ao lembrar de que ele estava apenas preocupado comigo. – já deve estar nos esperando, que tal nós irmos logo?
me olhou sem expressão e deu de ombros já caminhando em direção ao estacionamento. É, eu era uma vaca.
Subi na arquibancada e sentei no lugar mais alto para assistir ao jogo. Nunca fui fã de futebol e, tão pouco, gostava de Rúgbi. Porém, confesso, assim que vi se posicionar no campo, tive dificuldade para controlar meu repentino entusiasmo. Eu havia ficado feliz por ele finalmente conseguir o que queria, mas temia que fosse pelos motivos errados. A verdade era que nunca fizera muito o tipo atlético. Desde criança, ele sempre preferira ficar em casa tocando. Sempre sonhara em ser um famoso e ter uma banda, mas nunca dera muito certo. Olhei para ele e acenei quando o vi olhar em minha direção, o que acabou chamando a atenção de outra pessoa. , que estava bem ao lado de , também olhou para mim, mas seu olhar não me pertencera por muito tempo. Afinal, o jogo acabara de começar e, se havia me explicado direito, era o que, em futebol, podíamos chamar de quarterback. Ele era o cérebro do time, responsável pela organização das jogadas, enfim, quem fazia os passes.
se posicionara no centro do campo e se preparava para dar o chute inicial enquanto cada um dos outros jogadores começava a assumir suas posições. Vi chamar por e indicar fazendo um gesto que não pude compreender, provavelmente algum tipo de código. concordou com a cabeça, mas não parecia totalmente satisfeito. Assim que chutou, saíu em disparada em direção ao campo do time adversário e, para o meu choque, conseguiu pegar a bola. Em poucos segundos, o alcançou e pude entender o desgosto de em relação a ordem de . Ele não queria fazer passe com !
Ao ver que hesitava, tentou correr até eles, mas já era tarde demais. já havia perdido a posse da bola. E, acredite, não parecia nada feliz com aquele começo. Como que usufruindo de sua raiva, avançou em direção ao jogador que possuía a bola e lhe aplicou um tackle, fazendo com que o garoto caísse de forma violenta sobre chão, mas recuperando a bola e logo a passando para outro jogador.
Eu podia ver que, apesar de tudo o que ele tinha contra , não estava disposto a pôr seu jogo em risco por causa de problemas pessoais. E, com um pensamento feliz, conclui que se confiava em para alguma coisa, então meu primo não era tão mau jogador quanto eu imaginara. Olhei para as líderes de torcida no canto do campo, mais especificamente para , mas ela parecia indiferente a tudo. Como sempre. Às vezes, tinha vontade de lhe perguntar como ela pudera trocar um garoto doce, atencioso e carinhoso como por um cretino como o . Mas nós não éramos exatamente amigas para que eu pudesse me dar tamanha liberdade. Não. O motivo que nos unia era outro.
Bons minutos, pontos e gritos depois, ainda me deslumbrava ao ver como melhorara e como parecia acompanhar com facilidade seus colegas de time, apesar destes ainda parecerem contrariados com sua presença. Não vou mentir e dizer que estava vibrando com o jogo porque, bem, eu não estava. Mas, admito, ele tivera seus pontos altos. Tal como o momento em que marcara seu primeiro drop kick, fazendo a bola passar por cima da trave e entre os postes do time adversário; e, por vários momentos, vi as verdadeiras habilidades de . Na verdade, por muitas vezes, me vi analisando-o. Ele era simplesmente deslumbrante. De todas as formas. Até sujo de lama, como estava agora. Olhar para ele chegava a ser perturbador. Quase nunca conseguia fitá-lo por muito tempo nos olhos. E, como se já não bastasse, ele também era absurdamente charmoso. Principalmente quando abria seu sorrisinho mal intencionado, aquele que avisava quando ele estava prestes a fazer algo terrível. Eu tinha que admitir, era sexy. Muito sexy, por sinal. Porém, a duras penas, eu já havia aprendido que beleza nem sempre era tudo. E deveria manter isso em mente caso quisesse que o plano de desse certo. Era incrível o que um pouco de mágoa e ressentimento poderia fazer ao coração de alguém, mas merecia. E ele iria pagar. Iria pagar muito caro por todas as lágrimas pelas quais já havia sido responsável.
Nós estávamos ganhando de vinte e nove a dezessete e o jogo começava a dar indícios de seu desfecho. O Rugby School já havia ganhado, a torcida ao meu redor apenas esperava o apito do juiz para que a vitória fosse oficial. Nos últimos instantes do jogo, , mais uma vez, estava com a posse da bola. Mas daquela vez era diferente, eu podia ver a determinação estampada em seu rosto quando ele simplesmente começou a correr em direção à trave adversária. Ele corria com uma rapidez incrível e se esquivava com uma facilidade absurda de todos os outros jogadores. Porém, aparentemente, tais habilidades não foram suficientes para livrá-lo de um tackle. Sua queda fora a mais violenta de todo o jogo, mas ele sequer largara a bola. Como se tudo começasse a acontecer em câmera lenta, o vi se levantar, levar uma das mãos ao nariz para, então, ver que ele sangrava. Isso tudo, é claro, acontecera em rápidos segundos e, quando achei que fosse desmaiar, ele começou a correr de novo e finalmente alcançou a última jarda.
– Touchdown! – Gritei, estupidamente, enquanto ele corria para comemorar com o time e, ao mesmo tempo, o juiz anunciava o fim da partida. Olhei para o garoto ao meu lado e vi que ele me olhava estranho. Só aí lembrei que, em Rúgbi, diferente de futebol, aquela jogada se chamava try. É, meu cérebro americano ainda me pregaria algumas peças. Desci a arquibancada, apressada, louca para dar um abraço em quando, então, o mundo parara de girar por alguns segundos. Todos os garotos do Rugby School haviam tirado suas camisas e ainda comemoravam no campo, onde estavam trocando apertos de mãos formais com o time perdedor, que se mantinha devidamente vestido. Logo, supus que aquilo deveria ser um tipo de ritual destinado apenas aos vencedores.
Normalmente, não teria ficado tão abalada, eu sequer teria piscado. Mas a visão de um nu da cintura para cima e com os cabelos ligeiramente úmidos, caídos sobre o rosto, havia me paralisado. Deleitei-me ao ver suas costas bem definidas e senti uma vontade quase insana de correr até ele e deslizar minhas mãos por elas. Foi como um balde de água fria ver uma das líderes de torcida correr ao seu encontro e fazer aquilo que eu tanto estava desejando. Mas, como se sentisse meu olhar, olhou em minha direção e rapidamente esquivou-se da garota, que logo reconheci como Samantha Miller. Dei um sorrisinho de canto, sem mostrar os dentes, ao ver sua indignação quando simplesmente lhe dera as costas e começara a caminhar até mim. Assim que meus olhos caíram sobre os seus e registraram sua expressão intensa e seu caminhar determinado, me senti novamente invadida de desejo por ele. E é com muito pesar que digo que fui totalmente incapaz de ignorar seu tronco nu. Céus, ele era muito gostoso!
Na tentativa de romper aquele transe, olhei para o lado e acabei por encontrar o olhar condenador de , mas, assim que voltei a olhar para frente, já havia me alcançado e sem dizer nada, ou me dar tempo para reagir, ele me segurara firmemente pela cintura e pressionara seus lábios contra os meus. Concluí que, após a vitória espetacular que ele tivera, eu não poderia negar-lhe aquele beijo. E, também, era o momento perfeito para começar a colocar o plano em prática. Depois de mim, jamais seria o mesmo.
Senti um arrepio me percorrer a espinha quando sua língua finalmente entrara em contato com a minha e, enquanto ele me beijava, fiz aquilo que tanto queria. Coloquei minhas mãos sobre seus antebraços e, muito lentamente, fui subindo até alcançar seu belo par de ombros. Depois, mergulhei uma das mãos em seu cabelo e, a outra, deslizei por seu tórax, arranhando-o de leve, e, então, fiz o mesmo em suas costas. , que ainda me segurava pela cintura, me puxara para mais perto, colando de vez nossos corpos. Franzi a testa ao sentir seus ombros ficarem tensos e, de repente, ele me erguera no ar, me obrigando a rodeá-lo com as pernas. O que ele estava pensando? Tínhamos pessoas em volta! Não que, àquela altura, eu me preocupasse muito com isso.
– O que está fazendo? – Conseguir dizer, apesar da respiração cortada.
– Nada comparado ao que eu gostaria. – respondeu, com a voz falha, e mordiscou meu lábio inferior, me fazendo esquecer de todo o resto. Quando ele partiu o beijo, passei os braços ao redor de seu pescoço e quase me afoguei ao fitar seus profundos olhos . E, então, abrira aquele sorrisinho mal intencionado que tanto me fascinava. Teria caído, mas seus braços fortes ainda me seguravam firmemente junto ao seu corpo.
– Você foi marcada. – Ele disse, ainda com o sorriso nos lábios.
– O que quer dizer? – Perguntei seduzida pelo tom rouco e baixo de sua voz.
– Que agora você é oficialmente minha. – Ele respondeu sério, e me apertou possessivamente contra o seu peito.
– Sou coisa nenhuma! – Protestei, finalmente saindo de seu colo, e ficando irritada com tamanha audácia. Ele não seria meu dono! E era por atitudes assim que eu estava tendo que agüentar toda aquela farsa.
– Nenhum cara deste lugar terá coragem de se meter com você. – disse assumindo uma expressão tão segura, tão firme, que deixaria qualquer um nervoso. Eu queria esbofeteá-lo! – E, aquele que tiver, é bom que esteja preparado para o pior.
– Fique longe dele! – Gritei, fechando as mãos em punhos, quando o vi olhar de relance para . No fim das contas, também era manipulável. Estava funcionando. Porém, minha raiva era verdadeira.
– Isso não depende só de mim. – Ele deu de ombros.
– Você não agüenta uma competição, não é? – Provoquei, mas fiquei frustrada ao vê-lo erguer uma das sobrancelhas, expressando uma ligeira surpresa.
– Não existe competição. – Disse, abrindo um sorrisinho de canto. – Você já me escolheu. Ele sequer teve chance.
– Ainda posso mudar de idéia. – Cruzei os braços, desafiadora.
– Muito dificilmente. – riu. – Seu desejo por mim está presente em cada gesto e em cada beijo que finge me negar, mas que corresponde assim que a envolvo em meus braços.
– Ora, seu... – Comecei a dizer enquanto levava uma das mãos até o seu rosto.
– Eu quero você... – Ele me interrompeu, interceptado meu tapa, e me puxando novamente de encontro ao seu corpo. – E eu vou conseguir.
Dito isso, deu as costas, me deixando furiosa e desejando, mais do que nunca, vê-lo acabado.
FOURTEEN
Olhei para o teto ainda tentando normalizar minha respiração e, então, encarei a garota ao meu lado na cama. Ao sentir meu olhar, ela me fitou sorrindo e se aproximou começando a distribuir beijos por todo o meu peito. Eu mal podia esperar para me livrar dela.
– Você foi incrível... – Ela sussurrou ao meu ouvido. Provavelmente tentando me conduzir a uma segunda transa. Mas ela não teria tanta sorte. Afinal, ainda havia outras garotas na festa as quais eu gostaria de conhecer melhor.
– Bem... Obrigado. – Eu disse enquanto tentava me desvencilhar de seus beijos e saltava para fora da cama. Se já não estivesse acostumado, talvez tivesse ficado desconfortável diante de seu olhar descarado sobre meu corpo nu. Mordi meu lábio inferior para conter uma risada enquanto começava a vestir minhas roupas.
– Aonde você vai? – Ela perguntou, parecendo alarmada.
– Não espera que eu passe a noite toda com você, certo? – Rebati vendo suas bochechas ganharem um tom avermelhado e ela desviar o olhar.
– Eu tinha esperanças. – Suspirei impaciente ao notar o tom choroso e melancólico de suas palavras. – Você foi tão cuidadoso, tão atencioso! Cheguei a pensar...
Ergui uma das sobrancelhas.
– O que você pensou? – Cruzei os braços sobre o peito e a olhei quase que divertido.
– Que você me queria. – Ela respondeu, se encolhendo e apertando o lençol contra o seu corpo. Como se eu já não tivesse visto tudo o que estava por baixo. Garotas!
Sendo um pouco mais generoso do que o costume, me sentei sobre a cama e me inclinei para dar-lhe um último beijo. Ela cravou seus olhos verdes em mim e deixou que eu a beijasse. Como poderia achar que eu a quisesse quando sequer a conhecia?
– Você está apaixonada? – Perguntei, apenas para me certificar.
– Sim. – Ela admitiu, dando um suspiro longo e doloroso. – Eu amo você, .
Eu não estava comovido, mas sim, intrigado. Como algumas pessoas conseguiam amar tão facilmente? Ainda mais a mim! Eu que detestava o amor! Eu só podia ter pena delas.
– Então você é uma tola. – Eu disse lhe mandando um olhar de lástima e sentindo nojo daquele sentimento ridículo que ela gerava por mim. A vi me olhar magoada, mas ao mesmo tempo com raiva, e saí do quarto antes que pudesse começar seu falatório de como eu era insensível. E, bem, talvez eu fosse mesmo. Entretanto, o grande 'X' da questão era que garotas não querem ser respeitadas. Elas poderiam até dizer isso, mas era mentira. Garotas não querem um cara que converse com elas, um cara que as ouça, que seja carinhoso e que ligue no dia seguinte. Não, não querem nada disso. Sou a prova viva de minha teoria. E sei que não era o único. Garotas gostam mesmo é de serem maltratadas, ignoradas e, se possível, magoadas. Se você for um cretino, elas farão de tudo para ter seu coração. Agora, se você for um cara passivo, elas sequer o notarão. Quando muito, lhe darão o posto de melhor amigo. Mas nenhum cara que se orgulhe do que tem nas calças quer ser apenas amigo de uma garota. Ainda mais se ela for atraente.
Andei pelo corredor tentando não esbarrar nos casais presentes ali e ouvi Bust A Move tocar em um volume quase ensurdecedor. Cumprimentei alguns caras enquanto ia escada a baixo e ri vendo o olhar malicioso que eles me mandavam, o que só indicava que sabiam que eu havia acabado de me dar bem. Abafei uma risada e fui em direção ao bar improvisado no balcão que dividia a sala da cozinha. Peguei uma Guinness e me sentei em uma das cadeiras altas próximas ao balcão e dei um leve acendo de cabeça para Scott, que estava sentado logo ao meu lado, e me virei para observar o movimento da sala.
Para uma festa de vitória, até que as coisas estavam bem controladas. O que não queria dizer que o dono da casa não teria que explicar para os pais o que a TV de plasma estava fazendo dentro da piscina. Podíamos ser todos considerados uns caipiras por morarmos em uma cidade tão pequena e subdesenvolvida como Rugby, mas ainda sabíamos fazer uma festa.
– Olhe só quem chegou... – Scott comentou, apontando para a porta da sala. Fiquei sem saber se estava referindo-se ao ou a . Para o seu bem, era melhor que fosse o . Nenhum cara daquele lugar tinha permissão de sequer ter fantasias com . , mesmo estando do outro lado do cômodo, captou meu olhar e me encarou com um desprezo que não lhe era característico. Ergui uma das sobrancelhas achando divertido e logo entendi o motivo. Não conseguia ler seus lábios, mas não precisaria ser nenhum gênio para saber que estava mandando ficar longe de mim. Dei uma risada irônica bem na hora em que os dois olharam em minha direção. pareceu se irritar, mas limitou-se a revirar os olhos.
– Ora, dê um tempo para o cara! – surgiu ao meu lado. – Não provoque tanto.
Ri mais um pouco e, então, dei as costas a e decidido a ser um bom garoto.
– Eu não estava fazendo nada. – Me defendi, fazendo rir. – Dessa vez.
– Sei... – Ele deu um gole na sua cerveja e logo indicou duas garotas que acabavam de sentar ao seu lado. Bem, talvez não tão bom garoto assim.
– A ruiva. – Eu disse olhando para a mais alta delas. Tinha o cabelo volumoso em um vermelho que a fazia parecer estar pegando fogo; sua pele translúcida em contraste com seu batom avermelhado só me fazia desejar ainda mais aquela boca e imaginar o que ela era capaz de fazer com ela. Se é que você me entende...
– Droga, eu estava de olho nessa! – se lamentou, me fazendo rir.
– Falei primeiro, essa é a regra. – Ergui as mãos no ar e ele me fuzilou com os olhos, mas se controlou quando as viu vir em nossa direção.
– Querem pegar uma bebida para nós? – A ruiva perguntou, sem fazer cerimônias.
– É claro. – Respondi cínico, sem desviar o olhar.
Algumas bebidas depois, e eu já tínhamos as duas nas mãos. Hillary, a ruiva, estava sentada no meu colo enquanto eu lhe beijava o pescoço e passava, discretamente, as mãos por suas coxas. estava quase que na mesma situação com Jennifer. Eram duas universitárias vindas de Warwick. O que estavam fazendo na menor cidade do condado? Não fazia idéia e sequer estava preocupado em descobrir. Invertendo um pouco as coisas, Hillary era quem beijava meu pescoço agora, o que me dava certo tempo para olhar pela sala. Meu olhar cruzou com o de que, em poucos segundos, já estava parada a minha frente.
– O que você pensa que está fazendo? – Ela perguntou furiosa.
– Essa pirralha 'tá falando com a gente? – Hillary debochou olhando para trás.
– Com 'a gente', não, sua piriguete de quinta. – a corrigiu, sem se deixar intimidar pelo fato de que Hillary talvez fosse trinta centímetros mais alta. – Estou falando com ele.
– O que quer, ? – Perguntei, olhando-a entediado.
– Você não pode ficar com ela! – exclamou.
– E quem disse? – Debochei passando um braço pela cintura de Hillary que me olhou com aprovação.
– Não sou como Samantha, não vou aceitar suas merdas! – gritou, mas a intensidade de suas palavras acabara sendo amortecida pela música que tocava. Na verdade, eu mal podia ouvi-la. Não que fizesse muita diferença. Hoje eu não estava com muita paciência para . Quero dizer, hoje eu queria mais que alguns amassos. Coisa que não me daria. Ainda.
– Nunca fui exclusivo e não vou começar a ser agora. – Pela visão periférica, vi balançar a cabeça negativamente, quase como se estivesse me repreendendo. Era só o que faltava! ficou estranhamente calada. Pela segunda vez na noite, fiquei intrigado. Agora ela sequer parecia irritada.
Olhou para Hillary de cima a baixo e deu um sorriso de canto e depois me encarou com uma intensidade nunca vista antes. Devolvi o olhar como se só a estivesse vendo verdadeiramente agora. Usava um gorro amarelo que combinava com sua blusa quadriculada e uma saia que deixaria suas pernas desprotegidas não fosse pela meia arrastão preta. Admito, queria colocar minhas mãos naquelas pernas.
– Aguarde as consequências. – Ela disse calma, e nos deu as costas. Ergui uma das sobrancelhas me perguntando o quê ela poderia fazer. Quando nada me veio à mente, dei de ombros e voltei minha atenção a Hillary.
– Onde estávamos? – Perguntou maliciosa, selando seus lábios contra os meus. Pouco tempo depois, senti alguém cutucar meu ombro esquerdo.
– ... – Reconheci a voz ofegante de Josh, mas continuei a não lhe dar importância. Ele me cutucou de novo. – É sério, cara!
Me afastei de Hillary a contra gosto. Era bom que fosse realmente importante!
– Tem uma coisa que você precisa ver. – Ele disse, fazendo mistério. Bufei.
– Fale de uma vez! – Mandei, começando a ficar irritado com todas aquelas interrupções. – Não vê que estou ocupado?
– É a ...
– O quê? – Certo, ele tinha conseguido minha atenção. – O que ela fez?
– Na verdade, é o que ela está fazendo. – Josh me olhou apreensivo, quase como se estivesse com medo de minha reação.
– Onde ela está? – Perguntei tirando Hillary bruscamente do meu colo e me levantando. Ela exclamara alguma coisa, mas eu já não lhe estava prestando atenção.
– Lá fora, no jardim. – Josh respondeu já abrindo espaço para nós entre as pessoas da sala. Assim que ultrapassamos os limites da porta dos fundos, vi dançando sobre uma mesa próxima a piscina. Em uma das mãos, segurando uma cerveja. Bufei. Ela queria dar uma de bêbeda, mas eu sabia muito bem que estava fingindo. Havíamos nos falado há menos de dez minutos! Logo que me viu, me lançou um sorrisinho de quem sabia que estava fazendo algo errado. Ela dançava alternando o ritmo de acordo com a música, às vezes lenta, às vezes rápida.
Em outra situação, provavelmente teria lhe achado a garota mais sexy que já vira, mas a raiva que eu sentia ao ver uma multidão de caras aplaudindo e assobiando para ela simplesmente não me permitia pensar isso. Ela era minha! Quantas vezes mais teria que dizer? Não podia permitir que aqueles babacas ficassem babando nela!
– Boa sorte com essa aí. – Samantha comentou e só agora me dava conta de que estava parada bem ao meu lado.
– Como se você nunca tivesse feito isso... – Me senti no dever de defender, não gostara da forma como olhava para a outra. Seu desprezo por era visível.
– A questão não é simplesmente fazer, mas fazer para desafiar você. – Ela me olhou e soltou aquela sua risadinha debochada que eu já havia cansado de ouvir. Não respondi, não queria dar brecha para uma conversa. A ignorei e, com certa dificuldade, consegui atravessar o jardim. Assim que me viram, grande parte dos aplausos cessou.
– Oi, . – disse ao me ver. Se havia ficado intimidada, não demonstrou. Continuou a dançar ainda mais animadamente. Isso, é claro, sem desviar seus olhos dos meus. O que era uma provocação óbvia. Me perguntei onde estaria aquele imbecil do que fazia de tudo para afastá-la de mim, mas que a deixava protagonizar uma cena como aquela.
– Desça daí agora. – Mandei, ríspido. apenas alargou o sorriso, levando as mãos aos botões da camiseta, os quais ela começou a desabotoar. – Pare com isso!
– Você não tem autoridade nenhuma sobre mim, idiota! – Ela gritou, irritada, e tirou a camisa revelando uma fina blusa de alcinha. Deixando a educação de lado, ergui as mãos para o alto e a puxei para baixo contra sua vontade. , como sempre, tentou lutar comigo. E, em meio a isso, acabou me acertando com a garrafa que ainda tinha em mãos. Não usou força suficiente para me desacordar, mas havia sido o bastante para me fazer cambalear e cair na piscina que estava bem próxima dali.
Senti meu corpo ferver de raiva, o que era apenas uma forma de dizer, visto que eu estava completamente encharcado. Assim que voltei à superfície, vi que Josh e Ethan já estavam a postos na beirada da piscina. Quando finalmente saí da água, senti um vento frio varrer o pouco de calor que meu corpo ainda possuía e levar consigo a música e os murmúrios. Ninguém sequer se mexia.
FIFTEEN
Olhei para e, pela primeira vez na noite, seu olhar deixava escapar sua verdadeira aflição. Era bom mesmo que ficasse preocupada. E se ainda não estava com medo, em pouco tempo estaria se debulhando em lágrimas.
– ! – Ouvi a voz de surgir em meio ao silêncio tenso. A música animada que tocava antes e que tanto estivera divertindo , já parara há minutos. Eu podia sentir os olhos de todos os presentes ali cravados em mim, esperando ansiosos por uma reação. – Minha nossa, cara, você ‘tá sangrando! O que aconteceu?
Hm, então a pancada havia sido mais séria do que eu achava. Porém, a adrenalina liberada pela raiva me impedia de sentir dor. Ignorei a pergunta de e andei calmamente até que me encarava imóvel.
– Pegue sua blusa. – Meu tom frio e visivelmente controlado deixava claro que eu não estava para brincadeira. Ainda sem tirar os olhos de mim, ela obedeceu. A peguei pelo braço, sem me importar se estava lhe infligindo alguma dor, e arrastei-a comigo pelo jardim. Não seria nem preciso dizer que ninguém tentara me impedir. Muito pelo contrário, abriam caminho para nós conforme passávamos. A maioria evitando contato visual. Não podia ver minha expressão, mas supunha que não era nada boa.
Ao chegarmos do lado de fora da casa, nos encaminhamos até o meu carro, onde praticamente empurrei para dentro. Podia ver que ela queria protestar, mas sua prudência a impedia. Deveria saber que eu estava prestes a perder o controle. Entrei pelo lado do motorista, sem dar muita importância ao fato de estar encharcado, e dei partida. Devido ao horário, as ruas de Rugby estavam desertas, o que me deixava livre para meter o pé no acelerador.
Mantive uma das mãos no volante e, a outra, deslizei pela nuca, não demorando a encontrar o majestoso ‘galo’ que se formava ali. Certamente me renderia uma bela dor de cabeça no dia seguinte. Passei a mão pela lateral do rosto e esfreguei tentando limpar o sangue já seco.
– Me desculpe. – pediu, notando meu gesto.
– Cale a boca. – Respondi, minha voz saindo ainda mais fria que antes. Ela me lançou um olhar que não pude decifrar, visto que era obrigado a manter a atenção na rua. Mas, apesar de não pode olhá-la diretamente, podia sentir sua inquietação crescer conforme nos distanciávamos do centro da cidade.
– Para onde estamos indo? – Perguntou quando saímos oficialmente dos limites de Rugby. Fiquei em silêncio por alguns minutos, aparentemente ignorando a pergunta. Fui diminuindo a velocidade conforme chegávamos ao meio do caminho entre Rugby e Kenilworth, até que finalmente estacionei na beira da estrada.
– Aqui. – Respondi, mas o rosto de demonstrava que ela sequer lembrava-se de ter perguntado algo, tamanha era sua confusão. Ela olhou ao redor, provavelmente tentando entender. Porém, não encontraria suas respostas daquele jeito. Não havia nada ao nosso redor. Nada além de vegetação e uma estrada deserta.
– Por que me trouxe aqui? – Perguntou, quase sussurrando, e senti as primeiras pontadas de medo em sua voz. Perfeito.
– Saia do carro. – Mandei, com o mesmo tom frio de antes, e a vi virar bruscamente em minha direção, me encarando espantada.
– O quê? – Conseguiu colocar para fora. – O que vai fazer comigo? Me matar e esconder os restos no mato?
Ergui uma das sobrancelhas vendo que recuperara um pouco de sua coragem.
– Saia do carro, . – Repeti, ácido. – Vamos testar sua capacidade de pedir carona.
– Mas você não pode me deixar aqui! – Ela gritou, começando realmente a perder o controle agora.
– É mesmo? E quem vai me impedir? Você? – Debochei me inclinando sobre ela e abrindo sua porta. – Saia!
– ... – começou, usando um tom mais ameno.
– Que merda, garota! – Gritei batendo no painel do carro. – Você é surda ou o quê?
Obviamente, não tinha a mais remota intenção de abandoná-la ali. Só o susto já valeria à pena. Na verdade, acreditava estar sendo muito generoso. Não estava fazendo uma cena na frente do colégio todo como ela fizera. Entretanto, estava ciente de que este pensamento não era totalmente inocente. Assim que finalmente aceitasse dormir comigo, e eu estava certo de que em algum momento ela faria isso, seria devidamente humilhada em público.
Ela levou as mãos, já um pouco trêmulas, ao rosto, colocando-as sobre a boca. Os olhos começando a ficar marejados.
– Você não pode estar falando sério... – Disse com a voz chorosa. – Podem me assaltar, abusar de mim e só Deus sabe o quê mais! Não se importa nem um pouco com o que venha a acontecer comigo?
Olhei para ela e me senti desconfortável pela pergunta inesperada. Desviei o olhar.
– Você tem celular, não tem? – Perguntei, usando um tom distante.
– Nem deve ter sinal aqui! – gritou, começando a chorar desconsoladamente.
– Saia do carro. – Mandei mais uma vez, ainda sem encará-la. Abafou um soluço e, então, obedeceu.
– Eu estou com medo... – Disse antes de fechar a porta. – Não me deixe aqui.
Suspirei. Por que eu estava me sentindo tão mal? Aquela palhaçada toda havia perdido totalmente a graça. Passei as mãos pelo rosto, saltei do carro e fui até ela.
– Nunca tive essa intenção. – Confessei, abrindo novamente a porta. – Entre.
– Como? – Perguntou, confusa. – Só queria me dar um susto?
Dei de ombros, confirmando.
– Tem noção de como estou me sentindo? – Gritou, me dando soquinhos no peito. – Você é um cretino mesmo!
– Depois de hoje, estou começando a achar que você não é muito melhor. – Disse com desdém. – Entre logo, antes que eu mude de idéia.
Passou uma mão por seu rosto, enxugando as lágrimas, e me mandou um olhar irritado antes de entrar e fechar a porta com força.
– Me leve para casa agora! – Exigiu. Dei um sorrisinho irônico ao ver como havia recuperado rápido sua coragem. Garotas adoram estar no comando. O problema era que, bem, eu também gostava.
– Ainda não. – Respondi enquanto fazia o retorno.
– O que pretende fazer comigo agora? – Perguntou, firme, mas eu podia ver que ainda temia por alguma coisa.
– Primeiro, veja se realmente temos sinal e mande uma mensagem para o tolo do seu primo dizendo que está comigo... – Mandei quando lhe passei meu celular.
– Ora, como se isso fosse mesmo o deixar mais tranquilo. – Me interrompeu, revirando os olhos.
– Segundo, não precisa ficar com medo de mim. Admito que não sou a melhor pessoa do mundo, mas nunca machuquei uma garota. – Não fisicamente, acrescentei mentalmente.
me olhou por alguns segundos, achei que fosse dizer algo, mas, no fim, desistiu. Melhor assim. Já tinha meus nervos sob controle, mas demoraria para esquecer a cena de hoje.
Permanecemos calados por todo o caminho, vi endireitar o corpo sobre o banco e me olhar desconfiada quando saí da estrada. Entrei em um estreito ramal de lama que qualquer um que não conhecesse o caminho jamais seria capaz de encontrar. Ainda mais com toda aquela vegetação em volta.
– Que lugar é esse? – Ela finalmente perguntou, não conseguindo refrear a curiosidade. Estacionei diante de uma antiga casa vitoriana, mas ainda de bom aspecto, e saltei do carro vendo fazer o mesmo. – Não vai responder?
– É só uma casa, . – Disse impaciente. – O que esperava?
– Então por que me trouxe aqui? – Quis saber quando já entravamos.
– Porque ainda estou molhado e este era o lugar mais perto. – Respondi enquanto me despia, ainda no hall, e jogava a roupa molhada em qualquer lugar por ali. Quando olhei para , ela tinha o rosto em chamas. Abafei um risinho perverso ao dar-me conta de que a única peça de roupa que eu vestia era uma boxer preta. Muito conveniente...
– Hmm... – Ela resmungou desconfortável. – Essa casa é sua?
– Não exatamente. – Respondi enquanto a guiava corredor adentro. – É da imobiliária do meu pai, mas ele não se importa. E eu adoro este lugar.
esboçou uma ligeira surpresa.
– Sei o que está pensando... – Continuei enquanto lhe guiava pela casa. – Não subestime, ainda não viu o melhor.
Parei diante da janela da cozinha, que dava para os fundos, e afastei a cortina, mostrando-lhe a vista. Da varanda, não muito longe dali, podíamos ver um antigo deque que dava acesso a um grandioso lago.
– Na verdade, Richard ainda não a vendeu só por minha causa. Já lhe ofereceram uns milhares de libras pela propriedade. – Contei.
– Bom, então ele não é tão horrível assim... – começou, mas a irritação que despertou em mim não permitiu que continuasse. Quem era ela para falar de algo assim?
– O que sabe sobre meu pai? Ou melhor, o que acha que sabe sobre a minha vida? – Perguntei, retoricamente. Já conhecia a resposta. – Acha que, só porque ouviu uma história triste em um pub, já pode criar um quadro completo sobre a vida das pessoas? Desculpe lhe desapontar, mas eles não sabem de tudo. Na verdade, eles sequer estão interessados em saber! A única coisa que querem é algo do que falar. Independente de ser verdade ou não.
– Desculpe, não tive a...
– Ora, me poupe! – Revirei olhos e lhe dei as costas, indo pegar uma toalha em um armário perto dali. Mas assim que ergui os braços para o alto e olhei para cima, minha vista escureceu e uma onda de tontura me atingiu, me fazendo cambalear desajeitadamente e quase perder o equilíbrio.
– ! – correu ao meu auxílio. – Você está bem?
– Tire as mãos de mim! – Disse desvencilhando-me bruscamente. Aquilo era culpa dela! – Você já ajudou bastante com aquela garrafada, não acha?
Tentei dar-lhe as costas novamente, mas suas pequenas mãos me impediram.
– Estou ficando cansada de você! – Ela gritou apontando um dedo para mim. – Se antes o achava um cretino arrogante, agora, além de tudo, é um mimado!
Mimado? Eu? Bem, não gostava de dramatizar, mas, se tinha uma coisa que eu acreditava não ser, era mimado. Não era sequer minha escolha. Nunca tive ninguém para me mimar. Talvez não fosse a coisa mais máscula a se dizer, mas era a realidade. Porém, não me sentia no dever de contar isso a .
– Ficou com aquela ruiva de farmácia na frente do colégio todo sem nem se importar de me estar fazendo parecer idiota! – Ela continuou. – E só porque eu estava dançando, começou a agir como se fosse o fim do mundo! Só liga para si mesmo! Não faz idéia de como me senti na merda daquela estrada! Agora, ainda tem a cara de pau de se fazer de vítima? Por favor!
Cruzei os braços e suspirei.
– Já acabou? – Perguntei fingindo tédio. A verdade era que eu estava irritado e queria discutir, mas não lhe daria aquele prazer. Sabia que a indiferença a atingiria mais do que qualquer coisa que eu dissesse. Ela revirou os olhos, me olhando com decepção. Com o que exatamente ela estava decepcionada, era o que eu não sabia. Mas podia imaginar. Garotas sempre têm altas expectativas, acreditam fielmente que algumas poucas palavras duras possam nos fazer mudar. Besteira.
Apesar de que, eu tinha que confessar, não gostava de vê-la me olhando daquele jeito. Era importante que ela gostasse de mim, era importante que se apaixonasse. Ela tinha que me amar. Talvez devesse mudar de estratégia e agir mais como um cara como agiria, mas simplesmente não conseguia aceitar o fato de parecer submisso a uma garota. Mesmo que fosse para dormir com ela.
Olhei para e vi que ainda mantinha a expressão irritada no rosto. Dei outro suspiro enquanto pegava mais algumas toalhas e ia em direção a porta dos fundos.
– Hey, aonde vai? – Perguntou alarmada.
– Vou dar uma olhada no lago. – Dei de ombros.
– Não vou ficar aqui sozinha! – Protestou. Ergui uma das sobrancelhas.
– Então venha. – Disse o óbvio. Na verdade, eu sabia que ela protestaria, por isso, havia pegado mais toalhas.
Não esperei que respondesse, apenas saí logo da casa, mas não demorei ao vê-la caminhando ao meu lado. Quando quase caiu devido à grama molhada pelo sereno, lhe segurei pelo braço e, por reflexo, a trouxe para mais perto de mim; nossos rostos apenas a centímetros um do outro.
– Hm... Obrigada. – Ela disse e, apesar de estar escuro ali, tinha quase certeza de que suas bochechas estavam vermelhas. Ri e escoreguei a mão que ainda a segurava e entrelacei nossos dedos.
– Só para o caso de você escorregar de novo. – Expliquei quando tentou se afastar.
– Ah, claro. – E, então, sua face ficou ainda mais vermelha. Não aguentei e explodi em gargalhadas. – O que é tão engraçado?
– Nada. – Respondi ainda rindo.
bufou soltando minha mão e apressou o passo, chegando ao deque antes que eu.
– Hey, não precisa ficar tão irritada. – Falei parando a sua frente e segurando-a pelos ombros. Deslizei uma das mãos até o seu rosto e sorri antes de lhe roubar um selinho.
– ! – Ela me empurrou.
– O quê? – Perguntei inocentemente, com o mesmo sorriso nos lábios.
– Nada. – Ela bufou, mas eu podia ver que já não estava tão arredia. Ainda rindo comigo mesmo, estendi duas das toalhas sobre a madeira antiga do deque e me deitei, fazendo sinal para fazer o mesmo. Franzi a testa quando a vi negar com a cabeça e erguer as sobrancelhas. Ela cravou os olhos em mim e, então, começou a desfazer-se de sua saia. Confesso que fiquei bastante surpreso ao vê-la apenas com sua fina blusa de alcinha e com uma calcinha cheia de pequenas estrelas.
– O que está fazendo? – Perguntei adorando a visão de suas pernas quando ela livrou-se de sua meia arrastão. não respondeu de imediato, apenas caminhou até a beirada do deque, me mandou um olhar desafiador, e mergulhou.
– Minha nossa, que água gelada! – Ela reclamou. Sentei para olhá-la.
– Estamos no Outono, esperava o quê? – Ri.
– Você não vem? – Perguntou me jogando um pouco de água.
– Não, obrigado. – Voltei a deitar. – Já tive minha cota de água essa noite.
– Você não vai mesmo esquecer isso, não é? – bufou. Não respondi, me concentrei em olhar para o céu e ver as estrelas da forma que não conseguia fazer quando estava em Rugby. A verdade era que aquela casa tinha um significado especial para os . Richard podia até não tocar no assunto, mas com certeza lembrava-se do último fim de semana em família que passamos aqui. Um dia antes daquela mulher nos deixar.
– Em que está pensando? – perguntou, arrastando-me de volta à realidade. Me escorei sobre os cotovelos e quase arfei pateticamente diante da visão que estava tendo. Lá estava ela parada, toda molhada, na minha frente. Sua blusa estava colada no corpo, o que me permitia ter uma boa idéia de sua silhueta. Além, é claro, de seus seios.
Soltou uma risadinha, provavelmente notando meu olhar, e mordeu o lábio.
– Estou com frio. – Disse se abraçando.
– Vem cá. – Fiz sinal para se deitar ao meu lado. Ela olhou para mim e deu um sorrisinho de canto vindo deitar-se sobre mim. Passei os braços ao redor de sua cintura e inverti as posições.
– Você adora ficar no controle. – revirou os olhos, me fazendo rir. Era verdade.
– teria um infarto se nos visse agora. – Comentei descendo uma mão até uma de suas pernas e a fazendo passá-la por meu quadril.
– Eu e você aqui sozinhos...
– Seminus...
– Sob apenas a luz do luar...
– Eu beijando você...
– Mas você não está me beijando. – franziu a testa.
– Me dê dois segundos... – Disse já me inclinando até seus lábios.
– Não vou ficar com você hoje. – Ela virou o rosto, me fazendo beijar sua bochecha. – Não depois de vê-lo com aquela sirigaita.
– Ciúmes? – Ri contra sua pele e distribui beijos por seu pescoço. Uma hora ela cederia.
– É um pouco mais sério que isso. – Ela fechou os olhos, deslizando uma mão sobre meu peito nu enquanto a outra se mantinha em meu ombro. – Já disse, não sou como Samantha. E, também, você não vale o sacrifício.
– Não valho o sacrifício? – Repeti me afastando apenas o suficiente para olhá-la. – Quer mesmo me fazer acreditar que ficar comigo é um sacrifício? Não vai funcionar.
Bufei voltando a deitar sobre minha toalha. Poderia estar com qualquer outra garota, mas havia escolhido justamente aquela que dizia estar fazendo um sacrifício!
– Sei que não é como Samantha. – Continuei decidido a levar meu plano de dormir com ela adiante. É claro que isso incluía não ser sincero e agir da forma mais manipuladora possível. – Se é você quem está aqui comigo, é unicamente porque eu quis assim. Não gostaria que fosse outra garota. Só você.
Lhe mandei um olhar intenso, o qual ela sustentou por alguns segundos, mas que fora incapaz de confiar.
– Me pergunto o quanto do que você diz é sincero... – suspirou e deitou-se completamente sobre sua toalha, olhando para o céu. – Deve ser cansativo manter tantas personalidades e nunca poder assumir a sua própria.
– Estou sendo eu mesmo agora. – Não era bem verdade, mas, de certa forma, estava mesmo. Na minha cabeça. Mas não precisava saber o que eu estava pensando.
Ela apoiou-se sobre os cotovelos e me olhou com uma sobrancelha levantada.
– É uma pena que seja um ótimo mentiroso. – Suspirou e voltou a se deitar. – Não sei se está mentindo agora. Suas palavras, seus gestos, sua voz, seu olhar... Tudo me diz que está sendo sincero, mas aí me lembro do seu histórico e acabo voltando à realidade.
– E qual seria ela?
– Que nunca diz nada sem um propósito. – Disse me olhando. – Para você, os fins justificam os meios.
Fiquei em silêncio. Não sabia se possuía uma resposta segura para aquilo.
– Acho melhor levá-la para casa. – Mudei de assunto, ficando de pé. – Já é tarde, seus pais podem ficar preocupados.
– Pais, não. Tios. – Ela me corrigiu enquanto se levantava. – Meus pais ainda vivem na Califórnia. Mas, de qualquer forma, não se importe com isso. A mãe de , que é escritora, está em uma sessão de autógrafos em Londres e meu tio Martin foi acompanhá-la.
– Nunca soube que Christine era escritora. – Confessei quando começamos a fazer o caminho de volta para a casa.
– Provavelmente nunca se interessou. – deu de ombros. – Mas ela é realmente boa, puxou para ela. Também gosta de escrever.
– Não me diga que escreve romances! – Exclamei, divertido, e imaginei como poderia usar aquela informação contra ele.
– Não, não são romances. – Ela balançou a cabeça. – São músicas.
– O quê? – Perguntei em choque, parando de andar. Agora que ela havia falado, podia lembrar vagamente de uma vez ter visto mostrar alguns papéis a , um pouco antes de irmos para a casa abandonada dos Riordans. Se aquilo era... Isso queria dizer que... Não era possível! Por que logo eles?
– Nossa, por que todo o espanto? – cruzou os braços, assumindo uma postura desafiadora. – Para a sua informação, eles são muito bons.
– Eles? – Repeti, apenas para me certificar.
– e .
– Hmm... – Resmunguei, meu cérebro trabalhando mais rápido que o normal.
– Querem ter uma banda. seria o e, , o . – continuou a tagarelar e recomeçou a caminhar para casa, ignorando o fato de que eu permanecia imóvel. – Mas ainda faltam integrantes. Alguém que toque baixo ou guitarra. Ou os dois, não sei bem.
Ela olhou ao redor, finalmente notando que eu não estava ao seu lado.
– O que houve? – Ela franziu a testa. – Você não vem?
Até poderia ter respondido, se não estivesse preocupado demais perguntando a mim mesmo o verdadeiro tamanho do meu sonho. Para isso, eu possuía uma resposta. Só não sabia se teria que me unir a eles, ou passar por cima deles.
SIXTEEN
Botei as mãos na cintura e olhei para o gramado, suspirando pesadamente. Senti aquele sentimento desprezível nascer no meu peito e, então, se espalhar por todo o meu corpo. Não existia qualquer outra coisa na vida que eu detestasse mais. Eu odiava perder. Principalmente quando se tratava de Rúgbi. E ainda não sabia como aquilo havia acontecido. Aquele era nosso terceiro jogo na temporada e, também, nossa primeira derrota. O Rugby School definitivamente não estava acostumado àquilo. Olhei para a arquibancada e vi nossa torcida calada, ainda meio perplexa, e, depois, olhei para os caras da Young Kings, que acabavam de jogar suas camisas para o alto. O que, de certa forma, era meio gay, visto que eles vinham de uma escola de garotos. Em outras palavras, não havia uma única menina na torcida deles.
Não muito longe de onde eu estava, Scott e Josh discutiam. O fato era que nós havíamos tido tudo para ganhar aquele jogo; faltavam apenas dois minutos para o juiz declarar o fim da partida e estávamos seis pontos na frente. Só tínhamos que manter a posse da bola. Porém, no último lance, Josh não havia conseguido ser rápido o suficiente, deixando a bola ser apanhada pelo cretino do Prince Harvey, capitão dos Young Kings. Harvey, é claro, tentou salvar seu time e correra como um condenado até chegar à última jarda do campo. Não preciso nem comentar que ele marcara um try de sete pontos, deixando a todos surpresos. Portanto, Scott gritava para Josh insistindo que nossa derrota havia sido culpa dele. Passei as mãos pelo rosto, bufando impaciente.
– Querem, pelo amor de Deus, calar a boca! – A verdade era que eu estava muito puto e vê-los discutindo por algo que estava feito só me irritava ainda mais. – Ninguém aqui teve culpa. – Mandei um olhar significativo para Scott. – Perdemos um jogo, não o campeonato. Além do mais, não vai fazer mal darmos um pouco de alegria para esses infelizes. Não foi preciso ser mais claro, sabia que eles entenderiam perfeitamente. Josh deu um sorriso maldoso, aquele que era tão típico de nós.
– Imaginem como deve ser difícil para eles conseguirem uma transa. – Scott debochou.
– Sem garotas de saia passeando pelos corredores. – Josh completou.
– Sem amassos debaixo da arquibancada... – Citei lembrando de uma vez com Sam.
– Você não sabe se eles realmente não se dão alguns amassos. – Ouvi dizer divertido às minhas costas. Nós rimos, mas aquela tensão pós-derrota ainda flutuava leve no ar. O bom era que já não estávamos brigando. Eu não incentivava esse tipo de comportamento. Não dentro do campo, pelo menos. Eles se afastaram, indo em direção ao vestiário, e olhou para trás com a testa franzida, como se perguntasse o que eu ainda estava esperando. Ignorei seu olhar e foquei em e que descansavam no banco de reservas.
Comecei a caminhar em direção a eles, mas Samantha subitamente surgiu a minha frente, me oferecendo uma toalha a qual peguei sem agradecer e continuei meu caminho. Quando éramos namorados, Sam costumava fazer isso em todos os jogos. Se ganhássemos, ela vinha até mim, passava a toalha pelo meu rosto delicadamente e me dava um beijo de parabéns. Se, em raros momentos como aquele, perdíamos, ela fazia exatamente o mesmo. Me dava um beijo e dizia ao pé do ouvido que da próxima vez seria diferente. O tipo de coisa que eu jamais deveria ter permitido; o tipo de coisa que a levou a se apaixonar. E o tipo de coisa sobre a qual eu não poderia fazer nada a respeito.
– ? – Ela chamou quando começava a ficar para trás. Parei de andar, ainda de costas, e fechei os olhos por alguns segundos dando um suspiro impaciente. Argh! Devia ter imaginado que aquele gesto não viria sozinho!
– Samantha? – Quando me virei, Sam estava a apenas cinco passos de mim.
– Sinto muito. Sei o quanto odeia perder. – Será que sabia mesmo? – Veja pelo lado bom, pelo menos não perdemos em casa.
– Que diferença isso faz? – Perguntei, soando mais rude do que o necessário. – Uma derrota é sempre uma derrota. Não importa que não estejamos no Rugby School.
– A diferença é que nós nunca perdemos um jogo em casa, pelo menos não neste século. – Ela sorriu revirando os olhos. – E você sabe que é o melhor. Uma derrota com diferença de um ponto não vai nos abalar.
– Obrigado pelo apoio. – Sorri, mesmo que me sentisse levemente desconfiado. – Por que está sendo tão legal comigo? Pensei que estivesse me odiando por causa...
– Você sabe muito bem o que sinto. – Samantha me interrompeu, me dando um olhar intenso. – Eu quero, mas não consigo odiá-lo.
Olhei para ela sem resposta e ficamos em um silêncio tenso. O bem da verdade, eu não estava desconfortável. Estava irritado por ela ter trazido o assunto à tona.
– Por que ela? – Sam exigiu de repente.
– O quê?
– O que ela tem que eu não tenho? – Samantha perguntou de forma clichê.
– Isso não é da sua conta. – Disse assumindo uma postura fria.
– O que ela tem de diferente? – Ela continuou. – Por que não pode ficar com nós duas?
Olhei para ela incrédulo. Não incrédulo por achar aquilo um absurdo, mas sim surpreso de ouvir aquilo sair da boca de uma garota. Até seria uma boa idéia, se eu não tivesse certeza de que poderia ficar um tanto quanto temperamental sobre o assunto. E, também, eu ainda não tinha certeza do que ela estava sentindo por mim, ou se estava realmente sentindo algo. A única coisa que eu sabia era que não queria arriscar a pouca confiança que havia conquistado. Precisava manter meu objetivo em foco.
– Lembra de quando nós tínhamos nove anos, do nosso primeiro beijo? – Sam perguntou abrindo um sorriso de canto. – Lembro da forma esperta com a qual você disse querer me ensinar uma brincadeira nova.
Suspirei. Sabia o que ela estava tentando fazer.
– Samantha...
– Lembra da nossa primeira vez? Lembra de como foi bom, de como sempre foi bom? – Ela insistiu. – Eu lembro. Eu me lembro de tudo. Mas o garoto que eu lembro quase não existe mais...
– Pare! – Mandei. Não gostava das lembranças e, muito menos, como Samantha estava tentando usá-las para me manipular.
– Seus pais... Peter... Eles nem fazem idéia do que fizeram com você.
– Sabe por que não quero ficar com você? – Perguntei rude, perdendo a paciência e me aproximando dela, nossos rostos a centímetros de distância. – Porque você é uma vadia. E sim, eu me lembro de algumas coisas, mas isso não muda nada. Não importa que você foi a primeira garota que eu beijei ou a primeira que vi nua... Nós não temos mais oito anos, Samantha! E não fique se achando tanto, porque você também mudou!
Movido pela pena, levei minhas mãos até seu rosto e sequei as lágrimas silenciosas que escorriam por ali.
– Se me conhecesse tão bem quanto pensa, saberia que chantagem emocional não funcionaria comigo.
– Desculpe, esqueci que você não tem coração. – Respondeu, magoada, e afastou minhas mãos com um tapa.
– E apesar disso, você ainda é apaixonada por mim. – Ergui uma das sobrancelhas e lhe apontei um dedo, debochando.
– Ainda bem que Peter não está aqui para ver o monstro que você se tornou! – Samantha sibilou, me fazendo olhá-la atônito.
– O que você disse? – Perguntei lentamente, sentindo a raiva se expandir para todo meu corpo novamente, raiva ainda maior do que a dor que aquela frase havia sido capaz de causar. Eu não devia me importar com Peter, ele era como ela, como aquela mulherzinha... Aquela que nos abandonou.
– Nossa, estão tão sérios! – Harvey exclamou, aparecendo de repente ao lado de Samantha. – Sobre o que estão falando?
Não dei ouvidos a Harvey, continuei a encarar Sam com raiva contida. Já ela, pareceu ficar tensa; olhando inquieta de mim para ele. Um silêncio quase gélido se instalou entre nós e, então, foi a vez de Harvey de olhar intrigado de mim para Samantha. Particularmente, eu não estava inclinado a sequer dirigir o olhar a alguém com um nome tão patético como Prince. O que, em minha opinião, soava muito como um trocadilho de mal gosto, levando em conta o nome da escola dele. Afinal, podíamos ouvir claramente ao fundo os caras da Young Kings comemorando. “Nós somos os reis, nós somos os reis!”, eles gritavam repetidas vezes.
– O que você quer, Harvey? – Perguntei, por fim.
– Com você? – Ele ergueu uma sobrancelha. – Nada.
– Sei o que quer dizer... – Digo lançando um olhar de desdém a Samantha. – Se veio até aqui atrás de uma transa fácil, fez a coisa certa. É exatamente isso que ela vai te dar. Divirta-se com as minhas migalhas.
Antes de dar as costas, com a intenção de sumir em direção ao vestiário, ainda pude ver o olhar magoado e choroso da garota a qual eu havia passado boa parte da minha infância e adolescência. E, apesar dela estar viva em muitas de minhas mais antigas lembranças, não consegui me arrepender de lhe ter sido tão cruel. Mas, também, não me sentia feliz com isso. Assim que foquei meu olhar para frente, vi parada do lado de fora do vestiário.
– Me esperando? – Provoquei.
– Por , na verdade.
– Outch! – Fingi ter levado um soco no estômago. – Você realmente não poupa meus sentimentos, não é?
– Como você fez com Samantha Miller? – Ela ergueu uma sobrancelha e, então, fez um gesto com a cabeça para que eu olhasse para trás e visse Sam chorar abraçada a Harvey. Revirei os olhos.
– Ela vai superar. – Dei de ombros.
– Sua sensibilidade explica porque as garotas gostam tanto de você. – ironizou.
– É, provavelmente. – Eu sorri. Ela não sorriu de volta. – Você ‘tá irritada. E muito pálida. – Disse só notando agora.
levou uma das mãos a testa e pareceu seriamente perto de desmaiar. Suas mãos tremiam. Aproximei-me para lhe dar algum apoio, mas ela imediatamente ergueu um braço no ar, impedindo minha aproximação.
– Eu estou bem. – Me assegurou, ficando pálida como papel.
– Estou vendo. – Revirei os olhos, agora ignorando seus protestos e a segurando. – O que você tem? Está suado frio!
– Eu... –
Olhei para ela erguendo as sobrancelhas.
– Não sei se é a melhor hora para isso.
– Céus, como você é estúpido! – Ela exclamou, voltando a ficar irritada.
– Hey! – Protestei. – Se não percebeu, estou tentando ajudar aqui!
– Chame . – Ela pediu. – Ele vai saber o que fazer.
A deixei encostada na parede e andei apressado para dentro do vestiário, não demorando a encontrar um já tomado banho e arrumado. Assim que pronunciei o nome de , ele correu para fora, sem esperar grandes explicações. Por mais que fosse a coisa certa a se fazer, sua atitude me deixara desconfiado. Era quase como se algo assim já houvesse acontecido antes...
– Para onde a está levando? – Perguntei ao vê-los ir em direção a saída.
– Para casa. – Ele respondeu sem parar para me olhar.
– O quê? Ela precisa ir a um hospital!
– Ela está bem, . – Ele disse ainda me ignorando.
– Ela não está bem! – Exclamei impaciente, pondo-me diante deles e obstruindo a passagem.
– Olha, estamos realmente comovidos, mas saia da frente! – exigiu.
– ... – me olhou, como se estivesse cansada demais para discutir. – Não insista. Eu estou bem, de verdade.
Mas estava tão pálida!
– Certo. – Disse com frieza, deixando o caminho livre. Se não queria minha ajuda, dane-se. Pouco importava. Eu não iria me preocupar. – Como quiser.
– Não fique chateado. – Ela pediu quando começavam a se distanciar, vi revirar os olhos.
– Por que eu ficaria? – Dei de ombros. Não esperei por resposta, lhe dei as costas indo para o vestiário. Lugar para qual deveria ter ido desde o inicio.
– Pensei sobre aquilo que você disse... Sobre nos candidatarmos à banda do . – disse enquanto sentávamos sobre uma pequena mureta no pátio do colégio.
– Não foi bem isso que eu disse. – Fiz uma careta. Ainda não me sentia totalmente confortável com aquilo.
– Eu sei. – Ele suspirou, provavelmente sentindo o mesmo. – Mas não vejo motivos para prejudicá-los. Se nos uníssemos, todos sairiam ganhando.
– Não me agrada a idéia de fazer parte de algo que o e estejam envolvidos. – Argumentei. – Já é insuportável o suficiente tê-los no time.
– Acha que não vale a pena tentar? – ergueu uma sobrancelha. – Sei o tamanho do meu sonho, qual é o do seu?
Bufei.
– Acredite, venho me perguntando isso há semanas.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
– O que seu pai vai dizer disso, afinal? Algo me diz que ele não vai gostar. – perguntou de repente.
– Richard nem vai se dar conta. – Dei de ombros. – Tem coisas mais importantes na cabeça.
– A propósito, minha mãe mandou te convidar para o jantar da Roselie. – lembrou, mudando de assunto. – Ela vai vir de Londres passar o aniversário com a gente.
Sra. era uma mulher de estatura média e tinha quase a mesma idade que minha mãe teria se ainda fosse viva. Como já dito antes, em Rugby as pessoas costumavam formar famílias cedo. O que, a longo prazo, também costumava não dar certo. Afinal, como ter certeza do que realmente se quer com dezoito anos apenas? Porém, a família era uma dessas raras exceções. Eles eram felizes. Lembro-me que quando e eu éramos crianças costumávamos acampar no seu quintal; o Sr. pegava um pequeno banquinho de madeira e, por ser grande demais, sentava-se do lado de fora da barraca para nos contar histórias de terror enquanto fingíamos não ter medo. Quando dava meia-noite, ele levantava e nos mandava dormir. e eu ficávamos lá, calados, apenas esperando para ver quem desistiria primeiro e sairia logo correndo para dentro da casa, onde nos sentiríamos mais seguros. Algumas vezes, o sono chegava antes que a coragem se esgotasse, mas, quando ficávamos com medo demais para dormir, sempre encontrávamos a Sra. nos esperando na sacada. Ela sorria de forma tranquilizadora, como se soubesse exatamente o que estávamos sentindo, nos levava para o quarto e nos mandava dormir dizendo que nada aconteceria naquela noite.
– É claro que não preciso mandá-lo ficar longe dela, certo? – continuou, me trazendo de volta ao presente. Demorei a entender que ainda falava de Roselie. – Não que você esteja representando uma grande ameaça nos últimos tempos.
– O que quer dizer com isso? – Franzi a testa.
– Ora, sejamos francos, nunca mais foi visto com nenhuma outra garota que não fosse a . – Ele me apontou um dedo. – As pessoas já estão comentando. Cuidado, , não vai se apaixonar.
Olhei bem para ele para ter certeza de que não estava sendo irônico. Aquilo só podia ser uma piada. sabia muito bem o que eu pensava sobre o amor e todas essas porcarias românticas.
– Não é porque não tenho sido visto com outra que, de fato, não tenha estado com outra. – Menti. Eu tinha uma boa desculpa para ter estado somente com naquela semana. Depois de nossa lamentável derrota, o técnico Walter estava fazendo treinos extras. Eu só andava cansado demais para ir a festas, conhecer novas garotas e passar por todo aquele processo que nos levaria a cama. Era só isso. Por Deus, eu não estava me apaixonando!
ergueu uma sobrancelha.
– Ótimo. Melhor assim. – Ele disse ficando em pé e fazendo um gesto com a cabeça, me mandando olhar para frente quando viu vir em nossa direção. – Mas fique esperto. Hey, .
– ... – Ela sorriu para ele e, depois que se foi, me olhou desconfiada. – O que ele quis dizer com ‘fique esperto’?
– não confia em você. – Respondi caminhando até ela e pondo as mãos nos bolsos da calça.
– O que ele acha? Que vou machucar você? – Ironizou, rindo de forma nervosa.
– Ele acha que estou me apegando.
– E você está? – ergueu uma sobrancelha, divertida, e sorriu de forma sugestiva.
– Talvez. – Não mesmo! – Só sei que desde aquela festa, não fiquei com nenhuma garota que não fosse você.
O sorriso provocador sumiu de seus lábios, restando apenas um olhar intenso e bochechas coradas. Era isso. Ela estava começando a acreditar. Perfeito.
Devolvi o olhar tentando passar a mesma intensidade e me aproximei mais dela. Levei uma de suas mãos ao meu pescoço enquanto levava a outra até meus lábios, beijando sua palma. sorriu e deslizou essa mesma mão por meu rosto, em um carinho calmo.
– Você não está doente, está? – Perguntei lembrando-me do último acontecimento. Ela tinha que achar que eu me importava. Inclinei o rosto, colando minha testa contra a dela. – Diga que não.
se afastou e me olhou, seus olhos ilegíveis. Sem aviso prévio, ela se jogou contra mim, selando seus lábios com os meus e me abraçou o mais forte que podia. Passei os braços por seu corpo, correspondendo ao beijo e dando passagem quando assim me foi pedido por sua língua. De repente, me vi notando coisas que jamais havia dado importância antes. Como a forma a qual ela parecia ficar confortável em meus braços, perfeitamente moldada ao meu corpo ou, então, o carinho gostoso que eu estava começando a perceber que ela sempre me fazia na nuca. A apertei mais contra mim, ouvindo um pequeno resmungo lhe fugir dos lábios e um sorriso se formar no mesmo. Nos beijamos por horas, ou assim me pareceu. Até que, em dado momento, chegamos à conclusão de que ainda precisávamos de ar para viver.
– Eu não estou doente. – finalmente respondeu, ainda abraçada a mim, quando ouvimos a campainha anunciar o fim do intervalo. Fiz uma careta.
– Que tal nos escondermos em algum almoxarifado e continuarmos o que estávamos fazendo? – Perguntei levando meu rosto ao seu pescoço.
– Hm, vejamos... – Fingiu ponderar. – Uma empolgante aula de física ou um momento entediante com no almoxarifado? É, acho que fico com física.
– Posso mostrar meu movimento vertical, se quiser. – Antes mesmo de terminar a frase, sabia que o trocadilho era péssimo. , porém, explodiu em gargalhadas e não pude resistir em acompanhá-la.
– Ai, acho que estou morrendo! – Disse ainda rindo, seus olhos começando a lagrimar. – Você é ótimo, .
– Sabia que uma hora ou outra você ia admitir. – Provoquei, a fazendo revirar os olhos e me dar um soquinho no ombro, mas eu podia ver que ela estava se divertindo.
Quando finalmente começamos a fazer o caminho de volta para dentro da escola e, no momento em que entrelaçava meus dedos aos de , vi nos observar de longe. Franzi a testa. Era impressão minha, ou ela estava mesmo sorrindo?
SEVENTEEN
– Não? – Arregalei os olhos, surpreso. – Como assim não?
Era oficial.
Eu odiava os .
Inclusive .
Porque eles tinham o péssimo habito de me dizer não.
E eu detestava essa palavra.
– Será que só eu não vejo essa banda dando certo? – perguntou. – Temos muitos conflitos de interesse, se já não percebeu.
– não gosta de vocês. Vocês não gostam da gente. – Ele fez uma pausa, mas continuou justo no momento em que eu estava prestes a perguntar se ele era o único que não tinha problemas com ninguém. – Apesar de todos esses anos, não odeio você. Só gostaria que deixasse a em paz.
– Não posso. – Eu disse dando de ombros. – Ela gosta de mim.
Apesar de ainda não poder afirmar com certeza.
– Eu também acho. E esse é o problema. – me olhou. – Talvez se você a deixar agora, o estrago seja menor do que depois.
Certo, seria mais difícil do que pensei. Tinha imaginado que diria sim, que e eu faríamos um teste e pronto. Estaríamos na banda. Tinha o sincero desejo de conseguir estabelecer alguma amizade com e , mas só no caso de entrarmos na banda. Qualquer coisa fora isso seria perda de tempo e esforço.
Abri a boca para comentar algo, mas me calei ao ver a expressão vidrada que tomava conta do rosto de . Franzi a testa e segui seu olhar para descobrir que ele olhava para ninguém menos que . Bufei. O que ele via nessa garota, afinal? Sim, ela era bonita. Mas só.
– Não seja tão descarado. – Revirei os olhos. – A olhando assim, você só está lhe dando o controle da situação.
– Não existe situação nenhuma. – Ele retrucou rabugento, voltando sua atenção a mim.
– Isso é verdade. – Concordei balançando a cabeça, quase me divertindo. – Mas você bem que gostaria.
– Fique fora disso! – Ele mandou. – Não é da sua conta.
Me poupe!
– Interessante ouvir isso vindo de alguém que adora se meter na minha vida. – Ergui uma sobrancelha.
– é minha prima, é minha família. – Ele bufou. – Logo, é da minha conta.
– Acho melhor se acostumar comigo, então. – Aconselhei e, quando estava prestes a protestar, continuei. – Posso conseguir para você.
– Perdão? – Me olhou como quem pensava ter ouvido errado.
– É, vai ser fácil. – Não me dei ao trabalho de repetir. Ele era idiota, mas não surdo. – Você só vai ter que fazer o que eu disser.
– Não vou obedecer você!
– Primeiro passo, pare de ser tão patético! Qualquer um poderia adivinhar que você ainda arrasta um caminhão por ela. – Ignorei seus protestos. – Segundo passo, seja mais indiferente. Quando ela passar, olhe para outra direção e converse com quem estiver do seu lado. Terceiro passo seja homem, por Deus! Fique com algumas garotas na frente dela. É clichê, mas sempre funciona.
– O que você vai ganhar com isso? – Me olhou desconfiado.
– Não é óbvio? – Revirei os olhos. – Entrar na banda. e eu.
– O quão irônico vai ser isso? – Ele questionou, mas, pelo seu tom de voz, eu sabia que era uma pergunta retórica. – Quer dizer, você nos separou.
– Eu? – Ergui as sobrancelhas. – Desculpe, mas acho que você está me dando crédito demais.
– Você dormiu com ela! – Ele exclamou, ficando irritado com a lembrança.
– Posso ter sido a maçã da discórdia, mas certamente não fiz isso sozinho. – Lembrei a ele. – Ela também estava lá. E era ela quem tinha algo a perder, não eu.
me olhou e deixou seus ombros caírem, parecendo realmente arrasado.
– Eu sinto muito. – Disse sentindo pena dele.
– O quê?
– Eu nunca me desculpei. – Expliquei. – Mas estou fazendo isso agora.
– Você não se importa de verdade. – Ele balançou a cabeça. Não discordei. Eu realmente queria entrar na banda e talvez essa tenha sido minha única motivação para o pedido, mas já era alguma coisa, certo?
– Quer realmente fazer isso? – Perguntei. – Quer de volta mesmo depois do que ela fez?
– Eu não sei.
– Você podia se vingar. – Sugeri, dando de ombros.
– ... – Ele bufou e me olhou como se não estivesse surpreso em ouvir aquilo. – Vingança é como veneno, te domina. E, antes que você perceba, você se transforma em algo horrível. Não quero fazer parte de algo assim.
– Não quero soar como sua melhor amiga nem nada... – Comecei usando o feminino propositalmente. – Mas ela não te merece, cara! é uma vadia.
– Você não a conhece!
– Sabia que ela tem um sinal de nascença na nádega esquerda? – ficou calado. – Pois é, e você ainda acha que a conhece melhor do que eu.
Eu estava mentindo, é claro. Não fazia idéia se tinha um sinal de nascença, ainda mais em uma área tão reservada. Na verdade, eu mal me lembrava daquela noite. Só queria mesmo era mostrar a como as pilastras de sua segurança eram frágeis.
Olhei para a cadeira vazia ao meu lado e me perguntei onde estaria. Era aula de literatura, uma das poucas que fazíamos juntos. E certamente não fazia o tipo de quem matava aulas. Mas, de certa forma, era reconfortante estar longe de sua companhia. Quando estava por perto, eu sentia que precisava ficar alerta a todo o momento e, bem, tinha outra coisa também. Uma coisa para a qual eu havia criado uma espécie de barreira mental, uma barreira que protegesse meus pensamentos.
Enquanto olhava ao redor achando que a palavra tédio não seria forte o suficiente para descrever o que eu sentia, meus olhos caíram sobre uma garota de cabelos negros que me encarava. Eu lembrava vagamente seu nome, era algo como Emma... Ou seria Emily? Bem, seja lá quem fosse ela, assim que viu que eu a olhava, desviou o olhar rapidamente. Ergui uma das sobrancelhas, me divertindo com seu embaraço. Lentamente, ela voltou sua atenção para mim de novo. Dei-lhe um aceno de cabeça e a vi ruborizar e sorrir como resposta. Depois disso, decidi que já havia sido simpático o bastante e, então, dobrei os braços sobre a mesa e abaixei a cabeça sobre eles, torcendo para que o tempo milagrosamente passasse rápido. Quando achei que não suportaria mais nenhum minuto dentro da sala, olhei para o relógio vendo que ainda faltavam vinte minutos de aula. Bufei. Aquilo certamente parecia uma eternidade. Muito calmamente, levantei-me de meu lugar e andei até a mesa da senhora Foster.
– Algum problema com o exercício, senhor ? – Algo na forma irônica a qual ela havia formado a frase me dizia que sequer acreditava que eu havia olhado para o quadro. Ela estava certa.
– Não estou me sentindo bem. – Respondi, sem nem ao menos fingir.
– Ora, não me diga? – Ela entrelaçou as mãos sobre a mesa e me olhou cética.
– Provavelmente foi aquela vitamina nova que o técnico Walker passou para o time. – Falei, apenas para lembrá-la de que, se eu quisesse sair, não poderia me impedir. Outra das vantagens de estar no time, era que eu simplesmente não poderia ser suspenso. Afinal, uma suspensão poderia atrapalhar significativamente nossos treinos. E, sem treinos, sem vitórias.
– Provavelmente. – Senhora Foster concordou baixinho, me dando um olhar ácido. – Pode sair.
– Obrigado. – Sorri com educação e, admito, com a maior cara de pau do mundo.
Minha vontade mesmo era sair do colégio naquele exato momento, mas nós teríamos treino hoje e, portanto, eu ainda seria obrigado a aturar longos cinquenta minutos de História da Arte. Pensei em dar uma volta pelo campus da escola, mas, como de costume, uma fina garoa caía do céu. Eu, com certeza, não gostaria de arriscar um resfriado e ficar fora do próximo jogo. Me dirigi até o ginásio pensando em assistir o treino de tênis feminino, o que seria um ótimo passa tempo, mas o ginásio estava vazio. Exceto por duas pessoas conhecidas. E elas estavam ocupadas demais para notar minha presença. Não sei o que senti primeiro; não sei se foi decepção, raiva, surpresa ou simplesmente nojo. Mas raiva foi definitivamente o sentimento predominante. Era como se eu pudesse ver tudo acontecer em câmera lenta. As mãos dela no peito dele, os dedos dele entrelaçados no cabelo dela. Seus lábios se encontrando seguidas vezes. Não sabia em quem gostaria de bater primeiro. Provavelmente nela, mas como eu não poderia fazer isso, seria nele.
Com passos largos, andei até e o puxei com força pelo ombro, dando-lhe um belo soco na bochecha, o que o fez cambalear e cair ao chão.
– ! – exclamou, levando as mãos a boca. Sua expressão surpresa era digna de quem acabara de ser pega no flagra.
– Você é uma vadia, ! – Gritei avançando para cima dela.
– Fique longe! – mandou, já se levantando. Sua bochecha ficando inchada.
– Cala essa maldita boca, ! – gritou para ele. Vi suas mãos começarem a tremer, mas eu pouco me importaria se ela desmaiasse ali. – Isso é culpa sua!
Bufei revirando os olhos e dei as costas a eles, saindo do ginásio.
– ! – Ela chamou e me puxou pelo braço.
– Não me toque! – Praticamente rosnei enquanto me desvencilhava bruscamente de seu contato. perdeu o equilíbrio e só não caiu por estar logo atrás dela.
– Me deixa em paz! – Ela o empurrou, já vindo em minha direção de novo. – , por favor, me ouça.
Quando chegamos a um corredor vazio, olhei para trás e vi que já não nos seguia. Estávamos sozinhos. Fiquei parado olhando para enquanto a via começar a mostrar aqueles mesmos sintomas que sempre apareciam quando ela ficava nervosa. Palidez excessiva e mãos trêmulas. Muito lentamente, ela andou em minha direção e fez menção de me beijar.
– Ficou louca? Não seja tão nojenta! – Eu a afastei, nada delicadamente. – Estou com nojo de você.
– Eu não tive culpa! – exclamou. – Ele me beijou!
– E eu vi como você estava resistindo bravamente! – Retruquei e a vi me olhar envergonhada.
– Fiquei surpresa demais para ter uma reação. – Disse enquanto eu lhe lançava um olhar cético. Não sabia que possuía algum respeito por ela até que o perdi. No fim, não era diferente de nenhuma garota das quais eu já havia ficado. Talvez até pior, porque ela fingia ser algo que não era. É claro que eu não era a melhor pessoa para julgá-la, mas não podia negar que estava decepcionado. Era irônico que a primeira vez que eu estivesse sendo traído, era também a primeira vez que eu estivera sendo fiel. Primeira e última vez. Uma garota jamais faria aquilo comigo de novo. Eu havia sido precipitado ao pensar que já estivesse sentindo algo por mim. Seria mais cuidadoso dali para frente.
– Hey, ! – Ouvi uma voz feminina chamar quando pensei em dizer algo que provavelmente arrancaria lágrimas de . Virei para olhar e não acreditei na conveniência daquilo.
– Ele está ocupado. – disse e notei pequenas pontadas de irritação em sua voz.
– Emma? – Chutei o nome da garota de cabelos negros.
– Emily. – Ela corrigiu e sorriu para mim, ignorando completamente a outra. – Está realmente ocupado?
– Não, já terminei aqui. – Respondi, sorrindo também, e dei às costas para .
– ! – Olhei para por sobre o ombro. – O que você está fazendo?
– Não é da sua conta. – Eu disse friamente.
– Não acredito que...
– Garota, não ouviu ele dizer que terminou? – Emily a interrompeu, fazendo me olhar magoada. Tentei não me importar, mas seria mentira dizer que nada ali me incomodou.
– Esqueça. – Eu disse quando Emily fez menção de falar novamente com . – Vamos embora.
Emily deu de ombros e entrelaçou seus dedos nos meus, sorrindo sugestiva enquanto íamos até o pátio da escola. Vi alguns dos caras do time matando aula e fiz uma careta lembrando que teríamos treino.
– O que foi? – Emily perguntou na mesma hora.
– Nada. – Respondi decidindo que não ficaria ali nem por mais um minuto, mas, antes de ir, pensei que ainda havia algo a ser feito. – Me dê um minuto.
Andei até Logan e Scott, que eram os mais próximos.
– Não vou estar no treino, mas quero que acabem com o por mim. – Eu disse a eles. Logan e Scott trocaram um olhar maldoso e, então, sorriram para mim.
– Será um prazer. – Logan respondeu.
– Divirta-se! – Scott gritou quando me viu caminhar em direção a Emily, que me esperava não muito longe dali. E, enquanto entrávamos no meu carro, quase lamentei perder o treino ao pensar o quanto sofreria nele.
EIGHTEEN
Peguei mais uma Guinness na geladeira, minha terceira da noite, e me virei para sair da cozinha. Porém, sem aviso prévio, uma garota obstruiu minha passagem. Ela era baixinha, seu cabelo extremamente loiro ia até sua cintura e ela tinha um sorriso envergonhado nos lábios.
– Oi, . – Ela me cumprimentou, parecendo ligeiramente nervosa. – Sou Kristen, nós fazemos química juntos.
Me escorrei no batente da porta e olhei para ela em silêncio. Eu já podia prever o que estava por vir. E, digo uma coisa, essa era a pior forma que uma garota poderia abordar um cara. Pelo menos, para mim era.
– Tenho quase certeza de que você não faz idéia de quem eu seja... – Kristen recomeçou quando viu que eu não tinha a intenção de falar. – Algumas garotas dizem coisas horríveis sobre você, e outras dizem coisas maravilhosas...
Ergui uma das sobrancelhas de forma irônica na parte sobre ‘coisas horríveis’ e isso a fez ficar ainda mais nervosa ao ver que não estava me agradando.
– A questão é que, apesar do que todos dizem, eu queria que você soubesse que... – Ela fechou os olhos com força e, quando olhou de novo para mim, parecia vulnerável, mas, ao mesmo tempo, decidida. –... Eu estou apaixonada por você.
Não expressei nenhum tipo de surpresa e eu podia ver pelo seu rosto que ela estava claramente decepciona. Bem, azar o seu Kristen.
– Não vai dizer nada? – Ela perguntou depois de alguns segundos, começando a torcer as mãos nervosamente.
– Aqui vai uma coisa que você já deveria saber. – apareceu, aparentemente vinda do nada. – Ele é meu.
– Não, ele terminou com você. – Kristen disse friamente.
– Sim, eu terminei com você. – Concordei, olhando para da mesma forma que olharia para um verme. Ela havia beijado !
– Acho que isso foi um convite para você se retirar. – Kristen sorriu debochada.
– Você não me conhece, garotinha. E, pelo que posso ver, tão pouco conhece . – disse, como se eu ou ninguém houvesse dito nada. – Mas tudo bem, posso te ensinar algumas coisas.
– Não quero ouvir nada que você tenha a dizer! – Kristen exclamou para ela e me olhou com raiva. Ora, o que ela queria que eu fizesse? Eu definitivamente estava me divertindo e, caso Kristen não tivesse percebido, eu não pretendia interromper.
– não fica com garotas apaixonadas, suponho que seja porque ele acha que elas possam exigir mais do que ele gostaria de dar. – continuou e revirou os olhos, o que me fez bufar. – E, mesmo que ele ficasse com você hoje, seria para mim que ele viria correndo amanhã. Portanto, recomendo que dê meia volta e salve o que restou de sua dignidade. Se é que você tem alguma.
Eu não sabia se odiava a forma como estava me fazendo parecer seu cachorrinho ou se adorava a forma sexy e possessiva com a qual ela estava agindo.
– Talvez devesse ter levado em conta as coisas horríveis. – Eu disse quando Kristen me olhou com os olhos cheios de lágrimas. – Mas sinta-se livre para espalhar que é uma vadia, porque é verdade.
– Vocês são doentes. – Ela nos olhou com nojo e depois deu as costas.
– Você podia muito bem não ter dito a última parte. – comentou, calma, como se nada estivesse errado.
– Suma da minha frente antes que eu mande alguém botar você para fora daqui. – Mandei, irritado com sua tranquilidade.
– A festa não é sua. – Ela deu de ombros.
– Isso não quer dizer nada. – Eu disse ácido.
– Preste bastante atenção no que vou dizer, garoto, porque não vou repetir. – deixou de lado sua falsa calma e avançou em minha direção, me fazendo dar alguns passos para trás e bater minhas costas contra a parede. Eu não a queria perto de mim. Não sabia se poderia me controlar. Eu queria abraçá-la, beijá-la e pressioná-la contra a parede atrás de mim.
– Não ouse ficar com outra garota. – Ela disse lentamente, mas eu podia sentir a firmeza de suas palavras. Eu não estava com medo; eu não estava sequer preocupado com sua ameaça. Eu estava era irritado com sua pretensão. Ela era só uma garota, não podia mandar em mim. Por mais que eu a desejasse.
– Saia da minha frente. – Mandei, já a empurrando para o lado.
– Você é um bruto! – Ela exclamou. – Não sei por que ainda perco meu tempo.
– Você provavelmente não pode resistir. – Dei de ombros enquanto andava pela sala. Não muito longe dali, vi sentado sozinho em um sofá, parecendo pateticamente deslocado. Revirei os olhos e fui até ele.
– Bem que você gostaria disso! – bufou logo atrás de mim.
– Meu Deus, você ainda está me seguindo? – Perguntei, já parado em frente a ; minha irritação chegando ao auge.
– Estão brigando? – pareceu indisfarçadamente feliz com aquilo.
– Ele está sendo estúpido comigo! – reclamou. Revirei os olhos, mas fiquei calado.
– ...? – me olhou como se pedisse alguma explicação.
– . . Ginásio. Amassos. – Recitei de má vontade enquanto olhava ao redor a procura de uma garota que me agradasse, mas a única coisa que vi foi se dando bem em um cantinho escuro. Quando voltei minha atenção a eles, estava olhando genuinamente chocado para .
– Como isso aconteceu? – Perguntou, e até eu podia ver que ele estava desgostoso com o que havia ouvido. deixou seus ombros caírem e sentou-se na pequena mesinha de centro a nossa frente, suspirando pesadamente.
– já vinha mostrando que, bem, você sabe... – Ela enrolou. – Ele estava interessado.
– É, eu sei. – bufou.
– Então, quando estávamos no ginásio, nós discutimos de novo. Ele começou a dizer como eu estava sendo idiota ao ficar com o ...
– Só posso imaginar que você ficou tão irritada que resolveu beijar ele! – Debochei.
– Não, não foi isso o que aconteceu. Mas estava certo, você é mesmo um imbecil. – Ela retrucou, irritada e se levantou, sumindo entre as pessoas da sala.
– Não gosto de você e juntos... – começou. – Mas você deve saber que ela não é do tipo que traí.
– Não seja idiota. Todos são do tipo que traem. – Eu disse, sentindo um gosto amargo na boca. – É só questão de oportunidade. Você já deveria saber disso, .
– Está me dando conselhos de novo? – Ele ergueu uma das sobrancelhas, me olhando irônico.
– Quero ser seu amigo, . – Respondi, tentando parecer o mais sincero possível.
– Não, você quer me usar. – Ele me corrigiu. – Como faz com todo mundo. E, a propósito, amizade não é algo que se consegue apenas com um aperto de mão.
– Certo, então eu não sou seu fã número um, mas gostaria de fazer parte disso. – Não precisei explicar, ele sabia que eu estava falando da banda.
– Agora que está sendo sincero, podemos considerar a idéia. – Ele deu um gole em sua Guinness. – Talvez ninguém nunca lhe tenha dito isso, mas nem sempre é preciso mentir ou manipular alguém para conseguir o que queremos. Às vezes, basta pedir.
Qual era o problema desse cara? Eu pedi! E ele disse não! Argh!
– Isso é um sim? – Perguntei impaciente.
– Por mim, tudo bem. – deu de ombros. – Mas vai ser bem desagradável com esse seu problema com o .
– Ele sempre vai poder sair da banda. – Eu disse, mas acabei me distraindo ao ver e conversando debaixo do vão da escada, quase como se não quisessem ser vistas.
– Elas se conhecem? – Perguntei estranhando.
– Pelo visto, sim. – franziu a testa enquanto seguia meu olhar.
– Não estou gostando disso. – Balancei a cabeça. – Não quero perto dela.
– É, definitivamente pode queimar o seu filme. – comentou, entendendo meu ponto. Olhei para elas com mais atenção... Eu obviamente não as podia ouvir, mas pelos seus gestos, poderia jurar que estavam discutindo. Eu só queria saber por quê.
– Bem, lembre do que eu disse... – Desviei o olhar, mas não esqueceria daquilo tão cedo. Na hora certa, eu descobriria. – Não fique encarando.
– Não fique me dando ordens. – resmungou, mas obedeceu.
– Você, por acaso, já falou com ela? – Eu poderia apostar cem libras que não.
– Ainda não estou bêbado o suficiente para isso. – Ele bufou.
– Aonde vai? – Perguntei, inocentemente, quando se levantou.
– Para qualquer lugar. – Ele retrucou. – Você está me deixando nervoso!
– Olha, se cruzar com Josh ou Ethan, peça para eles conseguirem uma garota para você. – Aconselhei. – Diga que eu mandei.
– Posso fazer isso sozinho!
– Ótimo... – Eu disse, incerto. – Só não se esqueça de fazer na frente de .
Ele deu um bufo irritado e se foi.
Suspirei longamente e, então, afundei no lugar enquanto recostava minha cabeça no encosto do sofá e colocava os pés sobre a mesinha de centro, fechando os olhos por alguns segundos. Aquela provavelmente era a festa mais morta que eu já vira.
– Tem que acreditar em mim. – Uma voz feminina disse ao meu lado.
– Você voltou. – Encarei .
– , você já está me castigando há uma semana! – Ela se lamentou.
– Castigando? – Perguntei perplexo. – Ainda não fiz nada!
– Eu estou com... saudades.
– Sei... – Eu disse, não acreditando em uma só palavra.
– Você não me quer mais?
Não. Talvez. Droga, sim! Eu a queria. Argh!
– Devo assumir que agora posso ficar com qualquer um, então? – continuou, e cruzou os braços sobre o peito. Não, ela não podia. E sabia muito bem disso, mas não perderia a chance de me provocar. – Você sabe, não sou sua namorada nem nada...
Fiquei calado.
– Ótimo, seu silêncio me diz muito. – Ela disse enquanto se levantava.
– Cuidado. – Avisei. – Lembre-se que suas ações não trazem conseqüências apenas para você.
– O que diabos quer dizer com isso? – Olhou para mim irritada. – Está me ameaçando, ?
Fiquei um instante em silêncio me perguntando se ela havia visto nesses últimos dias, eu estava certo de que ele não havia aparecido no colégio. Teria sido o primeiro a saber se ele tivesse.
– Entenda como quiser. – Dei de ombros e olhei para o outro lado, indiferente. Ouvi bufar e só voltei minha atenção a ela novamente quando se distanciou. Sentei ereto assim que percebi o que ela estava planejando. E então estava olhando diretamente para mim. Eu quase podia ouvir sua voz em minha mente perguntar ‘O que vai fazer?’ quando ela abriu um sorrisinho de canto e começou a dançar com o primeiro cara que encontrou. Minhas narinas inflaram e meu sangue ferveu. Sem nunca tirar os olhos de mim, recostou-se contra o peito do sujeito enquanto ele segurava seus quadris por trás, dançando ora lentamente, ora acelerando o ritmo. Ele começou a sussurrar em seu ouvido fazendo virar a cabeça e rir, deixando seu pescoço exposto. Parecendo pensar que era seu dia de sorte, o vi dar um maldito sorriso antes de escorregar os lábios para lá. Fiquei de pé de um salto e, com um tremor de raiva, um sentimento até então desconhecido por mim me invadiu, quando descobri o que era, senti nojo de mim mesmo por tamanha fraqueza. Eu estava com... ciúmes! Rangi os dentes. Quando encarou-o de frente, o vi deslizar uma mão atrevida por suas costas. Fechei as mãos em punhos. Não podia mais assistir aquilo passivamente.
Andei decido até eles e puxei violentamente pelo braço e, inclusive, ia adorar deixar algumas marcas, mas me controlei. Assim que viu quem eu era, o cara com quem ela estivera dançando aparentemente perdera a coragem de protestar. O que era bom, porque eu estava focado demais nela para querer lidar com uma briga.
– Você está me machucando! – reclamou enquanto eu a arrastava.
– Cale a boca. – Mandei ao mesmo tempo em que a obrigava a entrar em uma espécie de armário para casacos. – Não perguntei sua opinião.
Fechei a porta atrás de mim e não lhe dei tempo suficiente para saber o que estava acontecendo; simplesmente pressionei seu corpo contra a porta fechada e grudei nossos lábios. Em poucos segundos, toda nossa raiva havia se transformado em desejo. Uma semana que não beijava aqueles lábios, uma semana que meus dedos não mergulhavam em seu cabelo. Ela intensificou o beijo e puxou-me para mais perto pela nuca. Deslizei minhas mãos pelas laterais de seu corpo, colocando uma no bolso traseiro de seus jeans enquanto a outra invadia minimamente sua blusa e acariciava sua pele com o polegar. arfou e deu um impulso para cima, rodeando minha cintura com as pernas e meu pescoço com os braços. Posicionei minhas mãos sobre seu quadril e a pressionei com mais força contra a porta, quase nos fundindo. Tive que abafar um gemido. Separei nossos lábios e desci os beijos para o seu pescoço enquanto a ouvia respirar pesadamente em meu ouvido. Uma nova onda de raiva me atingiu quando lembrei que, poucos minutos antes, havia visto outro cara beijar aquela mesma área. Continuei beijando sua pele gentilmente, mordiscando aos poucos até que finalmente lhe dei um forte chupão, desejando que minha marca permanecesse ali por dias.
– ... – Ela arfou puxando meu cabelo enquanto entrelaçava os dedos nele. Voltei minha boca para a sua novamente, beijando-a intensamente pelo que me pareceram horas. E então, precisando desesperadamente de ar, diminui a pressão entre nós, colocando suas pernas de volta ao chão e me afastei. Assim que nossos olhares se cruzaram, um silêncio tenso se espalhou pelo pequeno armário enquanto fingíamos ignorar nossas bocas vermelhas, respirações descompassadas e cabelos bagunçados. Eu queria voltar a agarrá-la. E podia sentir que ela também. Mas éramos orgulhosos demais.
– Fiquei com você várias vezes. Dei-lhe atenção especial... – Disse, quebrando o silêncio. – Era óbvio que era minha namorada.
– Não, não era óbvio. – retrucou balançando a cabeça. – Não sou uma boa advinha.
Bufei irritado e olhei para a direção oposta a ela, deixando que o silêncio reinasse novamente.
– Você então, hm, quer namorar comigo? – Perguntei de má vontade, quando vi que ela realmente não pretendia se pronunciar.
– Não! – exclamou, cruzando os braços sobre o peito, emburrada e evitando me olhar.
– Não fique me fazendo de idiota! – Avisei. – Deveria se sentir lisonjeada. Nunca tive que pedir isso a ninguém.
– Ora, me desculpe, Vossa Majestade. – Ela debochou, fazendo uma falsa reverência; olhando para mim agora. – Mas tente demonstrar um pouco mais de ânimo da próxima vez! Você não está sendo obrigado a isso.
– Não estou?
– Ah, então você está? – Ela ergueu uma das sobrancelhas e cruzou os braços de novo.
– Olha, quer ficar comigo ou não? – Não tinha mais paciência para seus joguinhos. Não sabia mais nem o que estávamos discutindo. Garotas!
– Você é mesmo patético, ! – Ela exclamou, saindo do armário. Eu a teria seguido, se Samantha não houvesse aparecido no caminho assim que saí.
– Interessante. Você estava no armário com uma garota, mas não parece feliz. – olhou imediatamente para trás ao ouvir a voz de Sam. – Ela provavelmente não é tão boa como eu.
– Provavelmente não sou tão vadia quanto você, isso sim. – Ela corrigiu.
– Não foi o que ouvi. – Sam retrucou calmamente. cerrou os dentes.
– Samantha, o que você quer? – Perguntei, ficando entre as duas.
– Falar com você. – Ela deu de ombros.
– Então fale logo. – mandou.
– A sós. – Sam sorriu para ela docemente.
– Você não vai! – me apontou um dedo.
– Não sou seu namorado, lembra? – Sam deu uma risadinha enquanto me fuzilava com o olhar.
– Sabe o que estão dizendo? – Samantha perguntou assim que chegamos ao jardim.
– Não, mas algo me diz que você vai me contar. – Respondi dando um suspiro cansado.
– Estão dizendo que a sua queridinha deu uma escapada com . – Ela ergueu uma sobrancelha. Fiquei em silêncio dizendo a mim mesmo que já sabia que cedo ou tarde isso aconteceria.
– E sabe o que mais? – Sam continuou. – Agora tem uma bochecha vermelha, um olho roxo e um adesivo engraçado no nariz. O que diz sobre isso?
– Treino difícil. – Dei de ombros. – Eu sequer estava lá.
– O que, você sabe, não quer dizer nada.
– Onde quer chegar com tudo isso? – Perguntei de uma vez. – Você também dava suas escapadas.
– Sim, mas você nunca se deu ao trabalho de mandar dar uma surra em nenhum dos garotos com quem fiquei. – Ela respondeu.
– Está mesmo reclamando por eu nunca ter dado porrada nos seus ficantes? – A olhei perplexo.
– Não, . Estou dizendo que você se importa com ela. – Samantha suspirou. – E só se expõe agindo desse modo.
– Não me importo com ela! – Exclamei. – Só não suporto ver outro cara pegando a mesma garota que eu. E, também, nunca peguei você no flagra. Se eu tivesse visto você com outro, ele provavelmente ficaria no mesmo estado que o .
E minha relação com era diferente, eu tinha sido... fiel. Mas eu obviamente não iria dizer isso a ela.
– Quem explica demais, algo deve. E você nunca foi de dar explicações. – Sam ponderou e olhou por sobre meu ombro, olhando para onde eu sabia que nos observava. – Ela vai machucar você, .
– Como pode dizer uma coisa dessas logo para mim, Sam? – Perguntei e a vi sorrir ao ouvir o apelido. – Isso não tem nem a mais remota chance de acontecer.
Samantha olhou para mim por alguns segundos e então me abraçou. Sentindo que ali não havia segundas intenções, me deixei relaxar na familiaridade de seu abraço e correspondi.
– Preciso que você saiba que nunca te traí realmente, mas fazia parecer que sim porque não queria que você achasse que eu me importava. – Sam sussurrou. – Não a deixe chegar muito perto.
– Não se preocupe com isso. – Quebrei o abraço.
– Me desculpe pela cena depois daquele jogo. – Ela pediu, de repente. – Eu simplesmente não devia ter falado nada sobre Peter.
– Sim, não deveria. – Concordei. – Mas tudo bem.
Samantha me deu um sorriso triste e olhou por sobre meu ombro de novo.
– Ela está esperando.
– Eu sei. – Respondi e, em um excesso de boa vontade, me inclinei e depositei um beijo em sua testa sabendo que isso não melhoraria o humor de . Depois de dar as costas a Samantha, caminhei calmamente até ela e, quando a alcancei, tentei pegar uma de suas mãos, mas se afastou.
– ? – Ergui as sobrancelhas.
– Por que tenho a impressão de que essa garota sempre vai estar entre nós? – Ela bufou. – Quer dizer, uma hora você a faz chorar e, no minuto seguinte, está todo dócil e compreensivo. E olha que isso definitivamente não faz o seu gênero.
– Você realmente acha que sou dócil? – Olhei para ela surpreso e, por algum motivo, corou. Mas não só pequenos pontos vermelhos em sua bochecha. Seu rosto virava um pimentão. Eu sorri e me aproximei. – Não, você não pensa isso de verdade.
– ... – Ela ergue uma mão no ar quando continuei a avançar, mas eu a ignorei.
– Aliás, você adora que eu seja o contrário de dócil. – Apenas uma rajada de ar separava nossos corpos. No momento em que dei mais um passo em sua direção, ela recuou, mas acabou batendo com as costas contra uma das colunas da varanda. – Você pensou em mim a semana toda. – Eu disse baixinho, me inclinando. – E eu sei que você quer me tocar. – Sussurrei e peguei suas mãos. A esquerda, coloquei em minha nuca e, a direita, levei até meu peito e a deslizei por todo meu tórax, parando no cós da calça. Quis poder continuar descendo sua mão, mas não podia esquecer que nós estávamos em público. Olhei em seus olhos e vi desejo estampado neles, o que era apenas um reflexo do meu próprio. Estávamos perto o suficiente para que sua barriga roçasse gostosamente na minha. Olhei para sua boca rosada e, lentamente, mordi meu lábio inferior. Quase ri ao ver como seus olhos acompanhavam, ávidos, aquela minha pequena ação. Ainda disposto a lhe provocar, inclinei meu rosto para ainda mais perto do seu e arfei contra sua boca. levou as duas mãos ao meu cabelo, puxando-o de leve, e entre abriu os lábios.
– O que você está fazendo? – Perguntei, alto, lhe lançando um olhar inocente.
– Hãn? – Ela me olhou confusa, como se acabasse de acordar de um transe.
– Você estava me agarrando? – Ergui as sobrancelhas e olhei para suas mãos. A essa altura, sua face estava pegando fogo de novo.
– Não estava te agarrando! – Ela exclamou e me deu um empurrão para que eu me afastasse.
– Não precisa ficar vermelha, isso acontece. – Provoquei, cínico. me olhou com raiva e seu rosto ganhou um tom ainda mais forte. – Com muita frequência, na verdade.
Quando pensei que ela finalmente explodiria, sua expressão mudou drasticamente. Passando rapidamente de raivosa para surpresa e, então, parando em preocupação. Franzi a testa e, seguindo seu olhar, olhei por sobre o ombro. Mal podendo acreditar em meus olhos e em tamanha audácia.
– O que ele pensa que está fazendo aqui?
NINETEEN
Assim que ameacei dar um passo em sua direção, senti se apressar e me segurar pelo braço. Como se ela realmente pudesse me impedir.
– , por favor... – Ela pediu enquanto eu me desvencilhava bruscamente de seu aperto. Quando voltei minha atenção a ele, , Ethan e Logan já estavam ao seu lado; atentos a qualquer movimento inesperado.
– Você tem mesmo muita coragem, . – Eu disse, andando calmamente em sua direção. Não sabia onde Samantha o havia visto, mas ela estava certa. Ele parecia bastante machucado. Havia uma vermelhidão em sua bochecha esquerda e seu olho direito tinha uma cor indecifrável. Alguma coisa entre verde e amarelado, daquele jeito que hematomas ficam quando começam a curar. Isso tudo, é claro, sem mencionar o patético curativo em seu nariz. Sim, os caras haviam feito um ótimo trabalho. Perguntei-me se agora entedia o que eu havia dito sobre ela não ser a única a sofrer por seus atos.
– O que prova que tenho algo que falta em você, seu covarde! – Ele retrucou e tentou avançar, mas imediatamente e Logan o seguraram.
– Eu? Covarde? – Perguntei inocentemente, mas incapaz de conter um sorriso cínico. – Não faço idéia do que está falando. Agora, você, por outro lado, não foi nada nobre beijando uma garota contra a vontade dela. Disso, ninguém poderia me acusar.
Algo mudou em sua expressão quando ele finamente notou a minhas costas.
– Aproveite a vista. – Debochei. – Porque isso é tudo o que você pode fazer.
– Se realmente acreditou nela, é mais estúpido do que pensei. – disse, voltando sua atenção a mim.
– , não! – o advertiu vindo ficar ao meu lado. – Não desconte em mim.
– Cale a boca. – Eu disse a ela. – Quero ouvir o que ele tem a dizer.
fechou os punhos e me olhou com raiva.
– Ora, então agora quer me ouvir? Não parece mais tão confiante, . – Ele riu. – Você realmente prefere a ele?
Rangi os dentes e, mais rápido do que qualquer um ali pudesse prever, acertei-lhe um soco no estômago, fazendo-o urrar. Pela primeira vez, me perguntei se ele possuía hematomas que não pudéssemos ver. Eu esperava que sim.
– Eu disse que podia olhar, não falar com ela. – Rosnei próximo ao seu rosto.
– Então é melhor você nem saber sobre as outras coisas que fizemos quando não estava por perto. – Ele provocou. E, dessa vez, antes que eu pudesse reagir, o acertou no nariz já machucado. olhou para ela chocado e, aparentemente, ignorando o fato de que sangrava.
– Não seja mentiroso! – Ela gritou, sua voz ficando chorosa. – Não fale de mim desse jeito!
– Faça isso. Negue! – Ele retrucou e então olhou para mim. – Não sei por que, mas ela está usando você. E eu não a beijei.
Sentindo meu autocontrole se esvair, dei mais um passo em sua direção enquanto soltava uma risada. Segurei seu rosto ensanguentado com uma mão e, olhando bem em seus olhos, dei-lhe uma joelhada que o fez cair de joelhos.
– Acho bem difícil de acreditar nisso, . – Eu disse enquanto e Logan o soltavam para que ele pudesse se apoiar no chão. Eu não precisaria fazer mais nada, havia chegado ao auge da humilhação sozinho.
– ! – exclamou se pondo em meu caminho quando fiz menção de ir até ele de novo. O rosto dela estava manchado de lágrimas e estava mais pálida do que eu jamais a vira. Suas mãos tremiam e ela parecia fraca. – Já chega.
– Você está bem? – Perguntei a ela, usando a mão que não estava suja de sangue para segurar seu rosto. Além de parecer a ponto de um desmaio, sua pele estava fria.
– É claro que ela não está! Como se você não soubesse que ela... – , que acabava de se levantar, interrompera-se ao ver o olhar de aviso que lhe mandava. – Então não contou a ele? Interessante.
– Do quê ele está falando? – Olhei para ela, ávido por respostas e irritado pela falta delas.
– Ele está blefando! – respondeu, mas eu já não confiava nela.
– É, e você também não me agarrou no ginásio. – revirou os olhos e, depois, olhou para mim, mas seja lá o que ele fosse dizer, morreu em sua garganta. Porque, no segundo seguinte, ele já estava de volta ao chão enquanto eu o segurava pela camisa.
– Fale de uma vez! – Gritei.
– Me diga, . Sua vida ainda seria tão divertida se você parasse de tentar manipular todos à sua volta? Eu acho que não! – debochou, jogando seu peso contra mim e dando-me um soco nos lábios. Imediatamente senti o gosto salgado de sangue invadir minha boca. – Não é porque vem de uma família de delinquentes que deve ser um também. Mas você não pode evitar. É um legitimo , afinal.
– Não ouse falar da minha família, seu perdedor! – Segurei-o pelas orelhas e bati sua cabeça no chão para, depois, acerta-lhe um soco na boca. Mas ele rapidamente revidou, levantando-se e se jogando contra mim novamente, fazendo-me cair sobre algumas cadeiras e machucar minhas costas. De volta ao chão, dei-lhe uma joelhada no nariz enquanto acertava minhas costelas.
– Mas o que diabos está acontecendo aqui? – Ouvi alguém perguntar, era como se a voz estivesse a quilômetros de distância. Porém, não demorou que o rosto de surgisse em minha frente enquanto ele tentava inutilmente separar de mim. Mas nós não queríamos ser separados. estava mal. Ele cuspia sangue, seu rosto e roupas completamente ensanguentados. Tirando o fato de não estar cuspindo sangue, não achava estar muito diferente dele. Mas isso não queria dizer que eu estava satisfeito. Muito pelo contrário. Eu ainda queria acabar com ele!
– Me ajudem, seus imbecis! – exclamou, claramente não dando conta de nós dois, mas não olhei para ver com quem ele falava.
– ! – Assim que Ethan e Josh puseram as mãos em mim, ouvi gritar e passar correndo por nós; sustentando-a antes que atingisse o chão. Ela não estava desmaiada, mas mal podia manter-se em pé.
– Merda. – praguejou, imediatamente desistindo de segurar e indo com urgência para perto dela, pegando-a dos braços de . – Há quanto tempo ela está assim?
Desvencilhei-me bruscamente de Ethan e Josh, quase desesperado para vê-la.
– Não sei. – Respondi, sem saber ao certo como deveria me sentir. – Uns cinco ou dez minutos, talvez.
– , você pode nos ouvir? – surgiu ao meu lado.
– Saia daqui! – Mandei, sentindo a irritação voltar ao meu corpo. Felizmente, com a raiva eu sabia lidar. Não queria sentir nada além disso. – Fique longe dela.
– Você nem sabe o que ela tem! – Ele debochou.
– Então me diga o que é! – Retruquei.
– Pelo amor de Deus, vocês não vão começar com isso de novo! – exclamou e, por um segundo, todos nós congelamos. Principalmente . Mas ele logo se recompôs. – , é melhor levar ela para um dos quartos.
Ele nada disse, mas obedeceu, levando no colo.
– Vocês ficam! – disse a mim e a quando fizemos menção de segui-los.
– Estou enjoada. – Ouvi murmurar de olhos fechados quando passou por nós. – Acho que vou vomitar...
– . – Olhei para o meu melhor amigo. – Vá com eles.
Ele se limitou a dar um aceno de cabeça e então os seguiu.
– Ethan e Logan, acompanhem o para fora da festa. – pareceu prestes a protestar. – Qualquer coisa, se precisarem de ajuda, chamem Josh e Scott também. Acho que os vi por aí.
me fuzilou com os olhos, mas se deixou levar. Sabia que para ficar teria que enfrentar, no mínimo, cinco caras. E ele não era tão otimista assim.
Subi os degraus e ao chegar ao andar superior me deparei com uma pequena salinha, onde e estavam sentados lado a lado em um sofá; cada um olhando para uma direção. Revirei os olhos e fui direto até que estava encostado ao lado de uma porta no fim do corredor.
– Cadê o ? – Ele franziu a testa ao me ver e olhou por sobre meu ombro como se esperasse que fosse aparecer a qualquer momento.
– Ele teve uma chamada de emergência e precisou ir. – Dei de ombros, recebendo um olhar duvidoso de .
– A cada dia que passa tenho mais certeza de que você deveria ficar longe dessa garota, . – Ele disse, me olhando sério. – Ela só atrai mais confusão para sua vida. E já está começando a interferir no nosso time.
– Nunca nos demos bem com o . – Lembrei a ele.
– Mas também nunca precisamos dar uma surra nele. – retrucou.
– Bem, obrigado por dizer o que pensa. – Respondi friamente. Ele apenas balançou a cabeça em sinal de desgosto. Ficamos alguns segundos em silêncio; nós não costumávamos discordar.
– Vou levá-la comigo no Domingo. – Avisei.
– Boa sorte com isso. – riu. – Você já conhece Roselie.
– Hum. – Foi tudo o que fui capaz de dizer. A verdade era que eu não conhecia Roselie tão bem quanto gostaria. Como se lesse meus pensamentos, parou de rir e me olhou sério.
– Minha irmã, . – Ele me lembrou. Revirei os olhos. Já havíamos tido aquela conversa muitas vezes antes. Balancei a cabeça concordando, mas não me dando ao trabalho de responder verbalmente enquanto me dirigia para porta do quarto e girava a maçaneta.
– Você está bem? – Perguntei assim que entrei. estava sentada bem no meio de uma cama de casal, com as pernas esticadas e com as costas apoiadas na cabeceira. – Você ainda está pálida.
– Mas estou melhor. – Ela me assegurou enquanto terminava de comer uma barra de chocolate e tomar um copo de leite. Caminhei para perto dela e sentei na beirada da cama. – Você, por outro lado, parece acabado.
– O sangue nas minhas roupas não é meu. – Dei de ombros, sentindo uma pontada de dor logo em seguida. – Já estive pior, acredite.
– Estou vendo. – ergueu uma das sobrancelhas e levantou-se, indo ao banheiro; de onde voltou com uma toalhinha nas mãos. Ela se aproximou, parando bem em frente a mim e começou a limpar o sangue do meu rosto. Levei minhas mãos ao seu quadril e a puxei para mais perto, encaixando-a entre minhas pernas. ignorou nossa proximidade, ou apenas fingiu muito bem, enquanto segurava meu rosto com a mão esquerda e, com a outra, passava a toalha umedecida sobre minha pele. Fechei os olhos para aproveitar melhor o carinho e invadi sua blusa com as mãos, me limitando a acariciar as laterais de sua cintura.
– Você é tão lindo. – Ela disse, de repente, agora deslizando a toalha ao redor de meus lábios. Abri os olhos e olhei fixamente para seu rosto até que ele ganhasse um tom avermelhado. fez uma careta. – Não fique me encarando.
Dei um sorriso convencido.
– Tente me impedir.
Ela ergueu uma sobrancelha enquanto olhava para mim em silêncio, mas isso durou apenas alguns segundos. Porque no momento seguinte, ela estava inclinando-se para me beijar. Porém, assim que seus lábios pressionaram os meus, soltei um grunhido de dor.
– Oh, desculpe! – Pediu ao se afastar, me olhando preocupada. Ironicamente, aquilo apenas havia me dado ainda mais vontade de beijá-la. Levantei alguns centímetros de sua blusa e distribui beijos pela pele de sua barriga, mas não sem ficar tentado a tirar a blusa por completo. pôs as mãos sobre meus ombros e me afastou para que eu a olhasse enquanto colocava uma perna de cada lado de minha cintura e então espalmou as mãos em meu peito, fazendo pressão para que eu deitasse.
– O que vai fazer na noite de Domingo? – Perguntei enquanto inclinava-se para beijar meu pescoço. Ninguém jamais diria que ela estava perto de um desmaio há apenas uma hora.
– Sair com você. – Sussurrou ao meu ouvido.
– Quem disse?
– E não era isso que você ia pedir? – Perguntou apoiando uma mão de cada lada de minha cabeça, sua boca na direção da minha.
– Vai ser aniversário da irmã do . – Não conseguia parar de fitar seus lábios.
– Tipo uma festa? – Ela murmurou inclinando-se um pouco mais para perto de mim.
– Não, é mais algo como um jantar em família. – Respondi levantando a cabeça, pronto para eliminar aquela pequena distância entre nós.
– Mas então o que nós vamos fazer lá? – Ela se afastou no exato momento em que meus lábios tocariam os seus. Soltei um suspiro frustrado.
– é meu melhor amigo há anos. Seus pais me viram crescer. – Respondi vendo morder o lábio inferior enquanto lutava bravamente contra uma risada. – Está se divertindo?
– Você não faz idéia! – Ela explodiu em gargalhadas. Olhei para ela de forma irônica. – Ok, desculpe.
E então ela riu mais um pouco.
Bufei irritado e a vi me lançar um olhar de desejo quando a segurei fortemente pela cintura, mas eu não estava indo beijá-la. Estava tirando-a de cima de mim. Passei uma das mãos pelo cabelo, tentando conter meu próprio desejo.
– ... – sussurrou próxima de mim novamente. – Não vou machucá-lo dessa vez.
Virei completamente em sua direção enquanto ela inclinava-se lentamente. Quando já estava ficando impaciente, senti um leve rosar de lábios. Fiquei alerta aos sintomas, mas seria difícil negar que meu coração havia acelerado minimamente com seu toque. Por mais inocente que ele tivesse sido. levou uma mão até a parte de trás de minha nuca enquanto me dava um selinho delicado. Depois, passou a língua provocantemente por meus lábios e se afastou. Estava tão insatisfeito que não pude evitar que minha língua percorresse o mesmo caminho, arrancado um sorrisinho convencido dela.
Mas, então, um pensamento cruzou minha mente. Algo que provavelmente estivera ali o tempo todo, mas que esforçara-se para me distrair.
– O que você tem? – Perguntei sério e vi sua expressão divertida sumir em um piscar de olhos.
– Nada. Nunca estive melhor. – Ela respondeu olhando para as mãos, para a porta, para a macha no lençol, olhando para praticamente tudo, menos para mim.
– Não minta. – Mandei já sentindo as primeiras pontadas de raiva. – Não é a primeira vez que a vejo prestes a desmaiar.
– O que incrivelmente só acontece quando você está por perto! – Ela retrucou indo sentar-se no lado oposto ao meu. – E sabe por quê? Porque você insiste em me tirar do sério!
– Agora a culpa é minha? – Debochei. – Me poupe.
– Não, me poupe você, ! – exclamou se levantando, claramente agitada demais para ficar sentada. – Me poupe você e essa sua mania estúpida de achar que tudo deve estar sob seu controle! Porque deixa eu te contar uma coisa, você não pode! Você não pode ter tudo sob seu controle!
– Você contou a ele! – Finalmente disse o que vinha se repetindo em minha mente desde que debochara de mim. – Por que eu não posso saber?
– Porque eu não quero! – Ela explodiu. – Simples assim!
– Então você admite que está doente? – Fiquei imediatamente em pé quando vi que suas mãos haviam voltado a tremer.
– Droga, não! – Ela gritou. – Não estou doente!
– Não seja tão cínica. Olhe para as suas mãos! – deu um passo para trás quando fiz menção de ir até ela.
– A culpa é sua! – Foi até uma mesa no canto do quarto e pegou uma barra de chocolate. – Você está me deixando nervosa.
– Aposto que não ficou nervosa enquanto beijava ! – Acusei.
– O quê? – Ela me olhou confusa. – Pensei que já tivesse esquecido isso.
– Com o tempo você vai aprender que nunca me esqueço das coisas. – Assegurei. – Portanto, vou perguntar de novo e, dessa vez, quero a verdade. O que você tem?
– O que eu tenho é um caso muito grave de saco cheio! – Ela gritou vindo em minha direção e me empurrando para a porta. – Saia daqui! Não vê que estou cansada de discutir com você, ?
– Você deveria parar com isso, sua ingrata! Eu estou preocupado com você! Sabe quantas vezes já fiz isso antes? – Parei, assustado comigo mesmo. E, inesperadamente, o rosto de encheu-se de cor. Senti meu corpo enrijecer.
– ...
– Você venceu. Estou indo embora. – Disse baixo, o que, eu percebi, fazia minha voz soar convincentemente ameaçadora. Apesar de eu não estar me sentindo exatamente uma grande ameaça, no momento. – Já estou farto de você por uma semana.
Ou por um mês! Mas morando em Rugby seria difícil evitá-la por tanto tempo. Só precisava de alguns dias longe dela para voltar ao meu... normal? Eu não tinha certeza do que eu estava fazendo, por que eu estava fazendo ou o que isso significava. E eu sinceramente não queria saber. e seus segredos que se explodissem! Eu não me importava. Ela era só mais uma na lista. Só mais uma garota. Só isso!
– Não. – Ela disse, impedindo meu caminho.
– Qual o seu problema? – Perguntei com a irritação chegando ao limite. – Não era isso que estava pedindo há um segundo?
– Que horas devo esperar você no Domingo? – Ignorou minha pergunta e aproximou-se, me oferecendo um dedo sujo de chocolate. Ergui uma das sobrancelhas e olhei-a desconfiado enquanto levava sua mão à boca e sentia o gosto doce em minha língua. A tensão que nos rondava era quase palpável.
– Oito da noite. – Respondi a vendo dar sugestivamente mais um passo em minha direção, mas mantendo um olhar inocente no rosto. Sabia que ela estava me provocando, porém, ainda estava muito irritado para me deixar levar. Portanto, aproveitei sua distração e saí do quarto antes que pudesse me impedir. Durante todo aquele tempo, havia sempre julgado por não saber com quem estava lidando. Mas, no final das contas, era eu quem estava entrando em uma enrascada. Só esperava que os danos fossem reversíveis.
TWENTY
Terminei de passar o rímel, apressada. Maldita pontualidade britânica! Andei até a janela e me escondi atrás da cortina, tentando ter uma boa visão da rua. estava recostado em seu carro e parado a sua frente. Meu coração acelerou, minhas mãos suaram e senti meu corpo ficar mais quente. era mesmo um abusado por ter a coragem de invadir minha mente e me fazer sentir tudo o que eu não deveria. Franzi a testa ao vê-los rindo. Eu não gostava nada daquela coisa que estava nascendo entre eles. Seria extremamente inconveniente no futuro, mas eu deixaria que lidasse com aquilo. Fui até o espelho e estudei meu reflexo, me perguntando se ela aprovaria minha escolha. Eu usava um vestido colorido curto e botas. Não que eu me importasse muito com sua opinião, mas aparentemente nada do que eu fazia era bom o suficiente. Ela estava sempre criticando. Antigamente costumava questionar o por que de ter trocado por . Hoje, no entanto, já me perguntava o quê havia visto nela. Talvez fosse diferente, na época. Mas eu achava difícil imaginar.
Saí do quarto tendo o cuidado de passar o mais rápido possível pela sala, onde meus tios assistiam TV. Eles não estavam exatamente satisfeitos por eu estar saindo com um . E, apesar de os não serem nativos de Rugby, eles não eram imunes aos falatórios. A verdade era que eu já havia percebido como aquela cidade poderia ser preconceituosa. Entretanto, no fundo, sabia que merecia aquela desconfiança. Não pelo que as pessoas pensavam, mas merecia.
Assim que fechei a porta atrás de mim, a conversa cessou. me olhou sério, já , manteve o sorriso relaxado no rosto e ergueu uma das sobrancelhas para mim, cruzando os braços sobre o peito largo. Ele vestia uma camiseta branca de algodão sob uma jaqueta de couro preta e jeans desbotados, sem mencionar seus tênis de skatista incrivelmente brancos. Ele era deslumbrante, mas eu provavelmente já mencionara isso. E a repetição só provava como eu estava sendo patética.
Quando cheguei perto o suficiente para ouvir, iniciara sua lista de recomendações. Mas eu estava ocupada demais afogando-me nos olhos de . Ele deslizou os olhos por mim, deixando um rastro quente por onde seu olhar passava.
– Esquece. – Ouvi bufar ao dar-se conta de que estava falando sozinho. Sem dizer nem mais uma palavra, ele nos deu as costas e foi em direção a casa. Mantive meu olhar preso em , que ainda me analisava, e esperei pelo elogio. Mas ele não veio.
– Prático. – Ele se limitou a dizer, dando de ombros e entrando no carro. Por alguns segundos fui incapaz de me mover. Fiquei parada na calçada, tentando controlar minha frustração. Tudo bem, disse a mim mesma enquanto entrava pelo lado do carona, eu não era tão vaidosa assim. Não precisava da aprovação de um garoto idiota como o .
manteve-se imerso em pensamentos durante todo o caminho. Cheguei até a questionar se ainda se lembrava de não estar sozinho no carro. Me mexi, inquieta, e lhe mandei mais um olhar irritado. Mordi o lábio inferior ao ver seu perfil todo sério e intenso, suas mãos firmes seguras no volante, seu antebraço musculoso e suas coxas fortes. Balancei a cabeça e cobri o rosto com as mãos, me perguntando o que diabos estava acontecendo comigo.
– Você está bem? – perguntou, envolvendo uma das mãos em meu pulso, obrigando-me a olhar para ele e só agora me dando conta de que já estávamos parados na frente de uma grande casa vitoriana azul. Como demorei a responder, ele repetiu a pergunta.
– Estou ótima. – Eu disse. E era verdade. Meu nível de açúcar estava perfeitamente equilibrado, no momento. Mas ele estar perguntando não queria dizer que estivesse interessado. Não confie nele, ouvi a voz de dizer em minha mente. me olhou e, por fim, deu de ombros, saindo do carro. Suspirei e o segui até a calçada. Antes mesmo que chegássemos à entrada, a porta da frente se abriu e uma mulher de estatura mediana, que aparentava ter quase cinquenta anos, saiu e foi imediatamente em direção a .
– Oh, veja que rapaz bonito você se tornou! – Ela exclamou o abraçando.
– Nem faz tanto tempo assim que a senhora não me vê. – Ele sorriu. Um sorriso diferente do habitual. olhava para ela quase com adoração.
– Ora, dê um tempo para o garoto, mulher. Ele acabou de chegar. – Disse um homem alto, que supus ser o senhor , juntando-se a nós.
A palavra nós empregada aqui, era meramente uma força de expressão. Visto que ninguém aparentava notar minha presença. Eu queria desesperadamente entrar na casa, estava congelando.
– Mas você tem mesmo que nos visitar com mais frequência, filho. – Senhor continuou, pondo uma mão no ombro direito de .
– E por que ele faria isso? – perguntou ao surgir de dentro da casa. – Todos sabemos que ele só veio por causa de seu assado.
revirou os olhos e foi cumprimentar o amigo. Comecei a sentir-me cada vez mais excluída e esquecida.
– Bem, acho melhor entrarmos. – Senhora disse. – Roselie deve estar quase pronta.
Enquanto seguiam para a porta, olhei para na esperança de captar um olhar, um sinal ou qualquer coisa que me conectasse ao grupo. Mas fora em vão. Perguntei-me se alguém notaria caso eu simplesmente virasse as costas e fosse embora. Eu já não queria entrar na casa, queria sair dali correndo. Imediatamente, de preferência. Fechei os olhos por dois segundos e suspirei, tentando controlar meu gênio irritadiço. passara dias dizendo-me que aquela seria uma noite importante para nós, que eu deveria observar e aprender o máximo que pudesse. Disse que os eram a verdadeira família de e, se ele pretendia me apresentar, era porque havíamos feito algo certo. Eu já não concordava muito com aquilo. Ele não me trouxera porque eu era especial, por mais que eu gostasse de fantasiar com isso, mas sim porque queria me torturar.
Fui a última a passar pela porta e, em um ato de distração, acabara por fechá-la com muita força, causando um estrondo pela casa silenciosa. Quando me virei, todos olhavam para mim. Quase desejei que voltassem a me ignorar, tamanho era meu constrangimento.
– ? – Senhora o chamou, sorrindo para mim. – Não vai nos apresentar?
– Jasmine, essa é , uma amiga do colégio. – Ele disse, dando de ombros.
Amiga? Eu estava enganada. não estava me torturando, estava me castigando por ter tido a audácia de recusar seu pedido de namoro. Senhora olhou para ele franzindo a testa, como se estranhasse seu comportamento. Bem, ela não era a única.
– Prazer. – Eu disse, indo até ela e estendendo a mão direita.
– Não precisa ser tão formal, querida. – Ela sorriu e balançou a cabeça, já me abraçando. E completou para que apenas eu a ouvisse. – nunca nos apresentou uma amiga antes.
Quando se afastou, piscou um olho para mim, como se aquele fosse nosso segredo. Olhei para e, assim que nossos olhares se cruzaram, ele virou o rosto. O que aquilo significava?
– Seja bem vinda, filha. – Senhor disse, dando dois tapinhas de leve em minhas costas. E então olhou para . – Espero que não apronte com essa moça, rapaz.
– Não se preocupe. – sorriu para ele, prendia uma risada. Revirei os olhos. Imbecis. Senti vontade de esbofetear os dois.
Jasmine nos encaminhou para a sala de jantar, onde uma garota alta, dona das pernas mais longas que já vi, nos esperava.
– Roselie, querida! – Ela exclamou. – Por que não nos chamou? Teríamos nos apressado.
– Tudo bem, mamãe. – Roselie sorriu, mostrando seus dentes perfeitos. Seu cabelo longo era de um castanho claro, quase loiro, e seus olhos, diferente dos de , eram verdes e iguais aos da mãe. Sua voz era rouca, sexy de uma forma que eu provavelmente jamais seria. Não gostei dela e nem do ar de superioridade inalcançável que ela exalava. – Valeu à pena esperar. Os anos podem fazer muito bem a algumas pessoas, não é mesmo ?
Ele sorriu, aquele sorriso maldoso e provocativo que eu estava acostumada a ver ser direcionado apenas a mim.
– Eles fizeram bem a você. – respondeu. Cretino. Eles olhavam-se como se fossem os únicos na sala. Senti minha irritação aflorar novamente. Olhei para , que mandava um olhar de aviso a , mas este estava ocupado demais bajulando Roselie.
– Sentem-se, vou buscar o jantar. – Jasmine disse, parecendo ignorar o clima tenso que nos envolvia.
Havíamos tido um jantar tipicamente inglês. Ao que parecia, havia deixado escapar que eu era americana. Comemos Steak and Kidney, uma torta de carne com rim. Sim, eu disse rim. Argh! E Yorkshire Pudding, que para mim tinha gosto de ovos e farinha de trigo. Porém, o assado estava realmente bom. Mas, no geral, eu odiava a comida inglesa.
Olhei para o prato vazio de , que estava sentado ao meu lado, e depois olhei para o meu que parecia estar cheio de restos de comida. Fiz uma careta desejando que passássemos logo para a sobremesa. Dei um suspiro desanimado, me dando conta do que eu realmente desejava. Eu queria sair dali! O jantar todo havia sido uma tortura total. continuava a ignorar-me e, aliás, não fizera questão de sequer sentar ao meu lado. Pelo contrário, parecia muito feliz sentado ao lado dela, com quem trocara olhares e risinhos a noite toda. Eu estava me sentindo humilhada e deprimida.
me alertara de que eu sempre deveria esperar qualquer coisa de , mas não conseguia parar de me perguntar por que ele estava fazendo aquilo comigo!
– Então, querida, gostou do jantar? – Jasmine perguntou, me trazendo de volta ao presente.
– Sim, estava tudo ótimo. – Sorri, tentando parecer o mais sincera possível.
– Espere até provar a sobremesa. – O pai de disse, mandando um olhar carinhoso para a senhora . – É a especialidade de Jasmine.
– E falando nisso, estou indo lá buscar. – Roselie anunciou, se levantando. – Gostaria de me dar uma mãozinha na cozinha, ? Mamãe já fez muita coisa hoje.
– É claro. – Respondi, quase entre dentes, mas esperava que não tivessem notado.
– Então, vai me contar seu segredo? – Ela perguntou, assim que chegamos à cozinha, e fez sinal para que eu seguisse para a geladeira.
– Segredo? – Repeti enquanto Roselie mexia nos armários.
– Você não é a responsável por ter saído de mercado? – Ela perguntou. Eu podia sentir o sarcasmo em sua voz. E odiei seu jeito vulgar.
– Eu não diria isso. – Resmunguei, tirando o pirex de Zuppa Inglese da geladeira. Não sabia do que era feito, mas parecia bom.
– Ora, não seja modesta, garota! – Ela exclamou. Eu odiava ser chamada de garota, ainda mais naquele tom debochado que Roselie possuía. – Sorte a sua eu não estar interessada.
– O que você disse? – Olhei para ela, sem acreditar em meus ouvidos.
– Não se faça de boba. – Ela revirou os olhos verdes. – Viu como ele me olha. Sabe que o tenho em minhas mãos.
– Oh, é mesmo? E por que não fica com ele, então? – Sibilei, sentindo a raiva e a frustração da noite inteira chegar ao auge. Roselie olhou para mim e riu. Trinquei os dentes e segurei as bordas do pirex com mais força do que seria necessário.
– Porque não gosto de crianças, apesar de ser muito tentador. – Ela deu mais um risinho. – Aliás, não sei o que ele está fazendo com você, uma garota tão... comum!
Como aquilo poderia ser possível? Será que era ao menos real? Como aquela garota, que mal me conhecia, poderia sentir tanto prazer ao dizer tais coisas? estava certa. Eu era muito ingênua. Mas eu não suportaria aquilo.
Em meio a um impulso insano, joguei o pirex no chão, sem sequer me importar de ver a sobremesa de Jasmine espatifar-se. Eu querida dar uns bons tapas naquela patricinha esnobe. Porém, infelizmente, assim que dei um passo em sua direção, Jasmine surgiu pela porta, provavelmente atraída pelo barulho causado pelo impacto do pirex ao encontrar o chão.
– Oh, Deus! – Ela exclamou, dramaticamente levando a mão ao peito. Por mais que Jasmine e o senhor tivessem sido simpáticos durante todo o jantar, eu estava de saco cheio daquela família. Entretanto, não podia deixar de me sentir mortificada pela situação. Para piorar, e acabavam de juntar-se a nós.
– Eu sinto muito, Jasmine. – Eu estava morrendo de vergonha. – Não sei o que houve, escorregou de meus dedos.
– Como se atreve a mentir tão descaradamente? – Roselie perguntou. – Você simplesmente jogou no chão!
– Tive de ir até Kenilworth para conseguir algumas cerejas descentes. – Senhora balançou a cabeça, ainda lamentando-se.
E me sentindo mais impotente do que havia sentido a noite toda, sai as pressas pela porta da cozinha e ignorei a presença do senhor ao passar pela sala. Não suportava o olhar acusador deles. Quando cheguei à calçada, já estava correndo. Não importava que eu não conhecesse aquela parte da cidade, eu só precisava sair dali.
– ! – Ouvi uma voz chamar as minhas costas. E não precisei olhar para saber que era . Acelerei o passo, já sentindo as primeiras pontadas de cansaço.
– ! – Ele chamou novamente, sua voz mais próxima agora. Tentei ir mais rápido de novo, mas meu pulmão queimava em protesto, precisava desesperadamente de ar. Não demorou muito para que finalmente me alcançasse e segurasse pelo braço.
– Por que saiu correndo assim? Era só uma maldita torta! – Ele exclamou, olhando atônito para mim.
– Não me toque! – Gritei, libertando meu braço com um puxão. – Você queria me enlouquecer e conseguiu! Agora volte para lá e me deixe em paz!
– Pode explicar o que está acontecendo aqui? – Ele perguntou, dando um passo a frente, mas parando ao ver que eu recuava. – Estava tentando me envergonhar?
O quê? Por que tudo tinha que girar em torno dele? Eu fora ignorada e negligenciada desde o início, eu que tivera que aguentar as constantes provocações dela, eu que fora humilhada! Por que tudo sempre tinha que ser sobre ele? Não pude me controlar e lhe dei um tapa tão forte quanto lhe dera no dia em que nos conhecemos. Infelizmente, ele não desmaiou.
– Você enlouqueceu de vez? – gritou, com raiva e, por um segundo, acreditei que revidaria. Mas ele não o fez, apenas olhou-me furioso. – Se sente melhor agora?
– Sim, você não pode imaginar o quanto! – Respondi, passando por ele e batendo em seu ombro de propósito. Não que tivesse conseguido realmente perturbar seu equilíbrio. – Me deixe em paz, estou indo para casa.
– Se quer tanto ir, eu levo você. – Ele disse, de má vontade, as minhas costas.
– Eu não preciso da sua ajuda! – Respondi, virando para olhá-lo. – Volte para lá e seja o cachorrinho dela!
deu um sorriso sem humor e balançou a cabeça.
– Você é uma idiota. – Disse simplesmente e foi embora em direção a casa.
– Imbecil. – Resmunguei, voltando a andar. Eu não sabia onde estava, mas andaria até a rua da Torre do Relógio e de lá acharia o caminho de casa.
Não demorei a ver um carro surgir ao meu lado na rua.
– Eu não vou com você. – Disse entre dentes.
– Não lhe perguntei nada. – retrucou, rude, dirigindo lento o suficiente para acompanhar meus passos.
– Por acaso pretende me seguir? – Perguntei, meio impaciente, mas ele não respondeu. – Isso, ignore.
olhou para mim e gargalhou. Fechei as mãos em punhos, ficando ainda mais irritada, mas resistindo a tentação de dizer algo mais.
Alguns bons minutos depois, já estávamos diante da Torre do Relógio. Eu estava parada, ponderando qual seria o caminho certo. Estava quase certa de que rua deveria seguir.
– É uma pena que estejamos indo na direção errada. – comentou de dentro do carro.
– E só agora resolveu falar isso? – Perguntei, irritada.
– Achei que sua falta de direção serviria de incentivo para aceitar logo a carona. – Ele deu de ombros. Claro, não havia sido ele que estivera andando pelos últimos quarenta minutos. – Seria muito mais conveniente para nós dois.
– Como se você realmente se importasse com o que é conveniente para mim. – Resmunguei, recomeçando a andar.
– Tem certeza de que está no caminho certo? – Ele perguntou e qualquer um poderia ver que estava se divertindo.
– Tenho. – Respondi, firme, apesar de no fundo não ter tanta certeza.
Quando finalmente avistei a frente da casa dos , levei uma das mãos ao peito e senti uma onda de alivio invadir meu corpo cansado. Não me dei ao trabalho de me despedir de , simplesmente caminhei até a porta. Claro que as coisas não seriam assim tão fáceis.
– Aonde pensa que vai? – Ele perguntou, rapidamente saltando do carro e segurando-me pelo braço. – Quero uma explicação.
O que eu lhe diria? A verdade? Que não gostei do modo como ele olhava para ela? Que não estava acostumada a vê-lo dar tanta atenção a outra garota? Que não havia gostado de ser ignorada? Que queria desesperadamente beijá-lo, mesmo que não devesse sentir nada daquilo? Não, não nesta vida.
– Não lhe devo nada. – Respondi, tentando me libertar de seu aperto, mas apenas conseguindo chegar mais perto dele.
abriu um sorrisinho de canto.
– Me diga, , você sentiu alguma coisa? – Ele arqueou uma das sobrancelhas.
– Você é mesmo um convencido, ! – Maldito. Estivera me testando a noite inteira. Enquanto que para mim havia sido uma tortura, para não havia passado de diversão.
– Realista. – Ele deu de ombros, fingindo indiferença.
– Imbecil! – Dei-lhe um empurrão no peito.
– Gostosa. – Disse, calmo, segurando a mão que eu usara para empurrá-lo.
– Vulgar. – Sibilei, livrando-me de seu toque. – Eu odeio você!
– Quanto mais você fala que me odeia, mais demonstra que se importa.
Minhas narinas inflaram e fechei as mãos em punhos, lhe acertando um tapa ainda mais forte que o anterior. Não fiquei para ver sua reação, virei de costas e me dirigi até a casa. Ouvi passos apresados e, de repente, estava sendo carregada de cabeça para baixo por .
– Seu estúpido! Ponha-me no chão! – Exclamei, distribuindo socos por seu ombro enquanto ele andava em direção a um grande carvalho, que ficava em um canto escuro logo ao lado da casa. – O que pensa que está fazendo?
Quando meus pés finalmente voltaram ao chão, pressionou-me contra a árvore e senti os cascos do tronco arranharem minha pele sob o tecido fino do vestido. Ele mantinha minhas mãos presas sobre minha cabeça e me imobilizara posicionando uma de suas pernas entre as minhas. Seus olhos fixos nos meus, sua boca quase se encostando à minha. Me contorci, tentando afastá-lo, mas apenas consegui com que me pressionasse ainda mais. Eu podia sentir todo seu corpo colado ao meu, sua barriga bem cuidada, suas entradas, aquelas que levavam a um lugar que eu jamais deveria conhecer. As coisas nunca poderiam ir tão longe.
– Me solte. – Pedi. Entretanto, não sabia se realmente queria ser obedecida. levou uma das mão ao meu rosto, deslizando-a lentamente até chegar ao pescoço. Eu quase podia sentir meu pulso acelerar.
– O ciúme é uma coisa fascinante, desde que não seja você sentindo. – Ele disse, seu hálito quente indo ao encontro dos meus lábios. desceu a mão pela lateral do meu corpo, ainda lentamente, chegando próximo ao meu seio esquerdo, onde se demorou por alguns segundos, como se resistindo a tentação de tocá-lo, mas chegando a conclusão que talvez já fosse muito abuso, pois logo havia voltado a deslizá-la para baixo.
– Você nunca gostou de ninguém o suficiente para sentir alguma coisa. – Retruquei, fazendo uma última tentativa de afastá-lo quando senti seus dedos deslizarem por minha coxa e invadirem minimamente o vestido.
– Até conhecer você, eu nem sabia o que era isso. – Ele sussurrou em meu ouvido, sua voz rouca arrepiando até meu último fio de cabelo. era muito bom naquilo. Em fazer você acreditar nele, confiar nele, mesmo que você tivesse todos os motivos para não o fazer.
– Mentiroso. – Murmurei de volta e senti finalmente libertar meus pulsos. Idiota. Deveria saber que eu já não pretendia fugir. Ele deslizou o nariz pela minha bochecha, me provocando.
– ... – Sussurrou novamente, levando as mãos à minha cintura e apertando-a. Quando fechei os olhos, ansiosa por seu beijo, uma claridade nos atingiu. Abri os olhos assustada e, por impulso, o empurrei para longe. Alguém havia acendido a luz da sala.
– É melhor você ir embora. – Eu disse olhando para , que tinha os braços cruzados.
– Você ‘tá de brincadeira comigo? – Ele perguntou, impaciente, parecendo irritado.
– Dá para você ir logo? A última coisa que quero é que meu tio nos pegue aqui! – Falei, ficando irritada também. – Droga, , você nunca faz o que eu peço.
Ele olhou para mim arqueando as sobrancelhas, depois, olhou para o chão e balançou a cabeça.
– Tá, tanto faz. – Disse, por fim, dando de ombros e indo embora. Olhei-o enquanto entrava no carro e me perguntei o que havia acabado de acontecer. Ele parecia quase chateado. estava tendo... sentimentos?
TWENTY ONE
– Da onde você pegou isso? – Perguntei a Jason, tirando de suas mãos o que parecia ser uma simples apostila, mas nós sabíamos que era muito mais do que isso. Os caras olharam para mim assustados, talvez até surpresos com minha reação.
– Logan conseguiu roubar da secretária. – Ele explicou, dando de ombros.
– Tem idéia do que pode acontecer com qualquer um de vocês se forem pegos com isso? – Perguntei, folheando o gabarito, e terminando de me trocar. Estávamos no vestiário, acabávamos de sair do treino.
– Nós estamos no time, ninguém nos expulsaria. – Josh revirou os olhos.
– Se somente o colégio ficasse sabendo, é provável que não mesmo. – Concordei. – Mas se algum aluno fizesse o alarme, o colégio teria que tomar providências. O Rugby School não iria querer que parecesse que estava nos acobertando. Nós nem precisamos disso! Os professores já são obrigados a nos passar, afinal, não ficaria bem para o colégio ter jogadores repetentes.
Eles ficaram calados e, mesmo que alguém discordasse, não discutiria.
– Vou me livrar disso. – Eu disse guardando na mochila. – E espero que tenham entendido.
Despedi-me deles e saí passando uma mão pelo cabelo ainda úmido. Assim que dobrei em um corredor, vi um cara pôr uma garota contra a parede. Ergui uma das sobrancelhas. Eu estava muito longe para conseguir distingui-lo, mas sabia que era do time, pois ele ainda vestia nosso uniforme. Quando cheguei um pouco mais perto, vi que se tratava de uma líder de torcida. Até aí nenhuma surpresa. Mas fiquei espantado ao finalmente identificá-los. e . Diferente de como imaginara quando os vi pela primeira vez, eles não estavam ficando. Estavam brigando. Ou melhor, estava brigando com ela. Franzi a testa. estava de braços cruzados no peito e estava a sua frente, com uma mão espalmada na parede enquanto a outra apontava e gesticulava furiosamente perto do rosto dela.
Parei de andar e me escondi ao lado de um dos armários. Eu não estava bisbilhotando, não conseguia nem ouvi-los. Mas estava intrigado e gostaria de ver até onde aquilo iria. Era a primeira vez que eu via e juntos em anos. Quando olhei para eles novamente, já estava indo embora e gritava para que ele voltasse. Ele não voltou. Incrível.
Tentei lembrar de algum boato, rumor ou qualquer outra coisa que eu pudesse ter ouvido que explicasse aquela cena. Depois, repassei tudo o que me dissera sobre ela. Não encontrei nada.
Quando saí de meu esconderijo, ainda estava parada no mesmo lugar onde a deixara. Andei calmamente até ela.
– Você não cansa de torturá-lo? – Perguntei às suas costas. virou-se imediatamente, parecendo quase espantada ao me ver.
– E quem é você? O melhor amigo dele? – Ela rebateu, após recuperar-se do susto.
Fiquei calado, ponderando. O que eu era? Fazia séculos desde que brigara de verdade com . Ou com qualquer outro perdedor, percebi. Claro, havia tido aquele caso isolado com , mas era só. Senti meu estômago embrulhar e meu coração acelerar. Quem era o de agora? Eu não sabia. E fiquei irritado por ser sido a trazer a pergunta à tona.
– Sou qualquer coisa melhor do que você. – Respondi frio.
– E quem disse isso? Sua mãe? Oh, não, ela te abandonou, não foi? – zombou. – Nem ela te aguentou. Nem ela te quis. Nem ela te amava. Você pode achar que é alguma coisa nesse colégio, mas nem a sua própria mãe gostava de você. Aceite os fatos, , você não é ninguém. Quando o colegial acabar, o que vai restar do seu reinado? Nada.
Naquele momento, não importava que ela fosse uma garota, não importava que eu fosse mais forte. Avancei contra ela, pegando-a pelo braço e empurrando-a com toda a força contra o armário mais próximo. Minhas mãos deixariam marcas e eu podia sentir minhas unhas cravarem em sua pele. Tentei me controlar dizendo a mim mesmo que não sabia do que estava falando, que aquilo era só o que estivera entalado em sua garganta por todos aqueles anos.
– O que vai fazer, ? Vai me bater? – Ela continuou zombando. – Já foi o tempo em que você me intimidava. Já não sou tão idiota. Na verdade, eu adoraria que você tentasse triscar um dedo em mim. Me dê apenas um motivo para dar queixa. Sei que seu pai tem contatos e que você não passaria nem uma noite na delegacia, mas adoraria ver mais um escândalo ser posto na conta dos . Afinal, o que seria mais um?
– Engraçado você dizer isso agora. – Comecei. – Mas já que estamos falando do passado, lembra de como você gemia o meu nome? Lembra de como você morria por mim? Você foi tão fácil! Deveria estar louca para ir para cama com alguém, uma pena que eu tenha percebido antes que .
ficou vermelha e tentou libertar-se, mas eu não deixei.
– Se você é tão boa e eu sou tão ruim, por que fez aquilo, ? – Perguntei. – Nós dois sabemos que não merecia. Ele era apaixonado por você, ele esperaria o tempo que fosse. Mas quem estava com pressa era você.
– Você me enganou! – Ela gritou.
– Eu? – Ergui as sobrancelhas, fingindo surpresa. – Deve ser reconfortante poder pôr a culpa em alguém, mas você se enganou sozinha. Entretanto, não mude de assunto. Estamos falando de . Será que você realmente gostava dele? Se sim, como pôde cair tão facilmente nos meus braços? E não vale dizer que foi o meu charme.
– Eu não tenho que discutir nada com você, seu cretino! – me empurrou e deixei que se soltasse. Seus olhos começavam a ficar marejados.
– Fique longe dele. – Eu disse, querendo dar um fim a discussão. – Não frite ainda mais a cabeça dele. merece coisa melhor do que você.
ficou calada, olhando-me de forma amargurada e com um olhar firme, apesar das lágrimas.
– Você vai se arrepender de tudo o que fez. E não só do que fez a mim, mas do que fez com todas as garotas que passaram por suas mãos. – Ela profetizou. – Você ainda vai sofrer, .
– Ah, é? – Eu sorri irônico. – E quem será responsável por tanto sofrimento? Você?
– Eu? – Ela sorriu também, um sorriso venenoso, e balançou a cabeça negativamente. – Espere e verá.
Dito isso, deu-me as costas e se foi. Ainda fiquei parado, perguntando-me o que ela poderia fazer para me prejudicar. Nada. Essa era a resposta. Ela estava blefando.
Ainda parecia meio irreal. Eu não conseguia acreditar que estivéssemos mesmo na garagem dos . Nosso primeiro ensaio oficial. Olhei para e ele parecia tão desconfiado quanto eu. Ainda não estávamos nos sentindo a vontade. Mas estávamos progredindo. e eu havíamos tocado algumas músicas de nossa própria autoria e nos havia mostrado melodias que poderíamos acrescentar a elas. estava calado, parecendo irritado, lá no seu lugar de . Falava apenas quando era estritamente necessário. E nunca se dirigindo a mim diretamente. A parte mais emocionante do dia foi quando finalmente tocamos a primeira música juntos. A batida da bateria junto ao som agudo do baixo, as duas guitarras trabalhando juntas. Claro, ainda estávamos a alguns ensaios de distância da perfeição, mas nós tínhamos tempo. Aos poucos chegaríamos lá.
Quando me sentei para descansar em um velho sofá que os mantinham ali, entrou pela porta que ligava o interior da casa a garagem. Olhei para um ponto fixo e fingi que não a estava vendo, mas ela logo sentou ao meu lado, o que tornava difícil ignorar sua presença.
Não estava fazendo isso por querer provocá-la, por mais divertido que fosse. A verdade era que estava me sentindo confortável demais perto dela, e isso me incomodava. Se é que era possível sentir as duas coisas ao mesmo tempo, porém, o fato era: eu não deveria sentir nada.
– We’ll have every girl in school in deep end of the pool? – Ela recitou para nós e, pela visão periférica, podia ver que olhava de mim para . – Isso é tão vocês, mas eu gostei.
– Você visivelmente nos subestima, . – disse, brincando, e jogou nosso caderno de letras para mim. – Mostre para ela, .
Olhei para ele, surpreso, talvez até um pouco irritado. Eu não queria que ela lesse nossas letras. Uma coisa era ouvir a música em seu estágio final, outra completamente diferente era ler meus rabiscos, pensamentos fragmentados e tentar interpretá-los. Eu não queria dentro da minha cabeça. Já bastava o que ela andava fazendo com o resto do meu corpo.
– Talvez outra hora. – Respondi, me levantando, quando ela fez menção de tentar pegar o caderno à força. Por favor, como se ela realmente pudesse brigar comigo!
– E por que não agora? – Ela questionou, com a testa franzida.
– Porque eu não quero. – Dei de ombros, querendo parecer mais indiferente do que me sentia. bufou, mas não contestou, apesar dos olhares confusos e frustrados que me lançava.
Já era noite e estava ficando tarde, portanto, não demorou para que os outros começassem a se despedir. Ou melhor, não demorou para que se despedisse de e me chamasse para ir embora. Olhei para ele tentando pensar em uma boa desculpa para ficar, mas nada me veio à mente.
– Pode ir, cara, ainda vou demorar um pouco. – Eu disse, sem dar maiores explicações. deu um sorrisinho maldoso e deu as costas, já não pôde deixar de me olhar desconfiado, mas acabou saindo também.
– Você e provavelmente ainda têm muito que discutir, então boa noite, . – disse em tom de voz neutro enquanto se levantava e ia calmamente até a porta.
– Sabe muito bem que não fiquei por causa do . – Retruquei, também me levantando e puxando-a pelo braço. Não de forma bruta, como faria normalmente, mas delicadamente, sem usar muita força. Eu queria que ela escolhesse ficar comigo.
– Será que sei? Você nunca faz o que eu espero que faça. – cruzou os braços, na defensiva, deixando claro, ao menos para mim, que não queria que eu a tocasse. Bufei.
– Se é o que quer, pode ir. – Eu disse, voltando a sentar-me no sofá. Olhei para minhas mãos por alguns segundos tentando controlar a irritação, aparentemente sem motivo, que surgia. Fechei os olhos e afundei mais no sofá, descansando minha cabeça no encosto macio. Ouvi suspirar e não demorou para que eu sentisse o lugar ao meu lado afundar. Quando abri os olhos, vi que ela me encarava.
– Por que você ficou? – Perguntou, me olhando séria. – Ainda não me esqueci do que me fez passar naquele maldito jantar.
Para mim, parecia que aquilo havia acontecido há séculos, apesar de na verdade ter sido há apenas alguns dias. Quase sorri, lembrando dos ciúmes óbvio de . Entretanto, a noite não havia sido tão divertida quanto eu planejara. Continuava a achar Roselie estonteante, difícil acreditar que fosse mesmo irmã do , mas algo nela estava diferente. Já não a achava tão interessante, já não me sentia atraído por ela. Eu revira em minha mente todos os aspectos que me fizera desejá-la tanto no passado e, ao que parecia, eles permaneciam intactos. Então o que estava tão diferente a ponto de eu já não estar interessado?
Sentei-me ereto e virei para a garota ao meu lado, olhando bem para o seu rosto. Ela não estava maquiada, mas seus lábios estavam rosados e convidativos. Aproximei-me mais, não apenas inclinando meu rosto, mas levando todo o meu corpo para perto dela.
– ? – Ela chamou, me olhando confusa. Ignorei e levei uma mão ao seu cabelo, que ela havia tentado domar com uma trança lateral mal feita, e o soltei.
– Bem melhor assim. – Eu disse, ao ver os fios caírem em cascata ao redor de seu rosto. franziu a testa.
– O que você... – Levei o indicador aos seus lábios e a calei. Nós estávamos próximos, mas ainda não o suficiente. Colei meu rosto no seu e a vi fechar os olhos, entreabrindo os lábios. Uma onda de divertimento me atingiu.
– Abra os olhos, . – Mandei, sorrindo, me controlando para não soltar uma risada. – Por mais que você queria, eu não vou te beijar.
A primeira coisa que vi em seus olhos foi surpresa, depois, irritação.
– Eu deveria saber que só estava brincando comigo, . – Ela disse e a frieza em sua voz quase me fez desistir. espalmou as mãos em meu peito e tentou empurrar-me enquanto se levantava. Segurei suas mãos com força e não permiti que fizesse nenhum dos dois.
– Quer mesmo saber por que fiquei? – Perguntei, com tom de voz firme. Ela não respondeu, mas parou de tentar se soltar. – Antes de perguntar o que quero, preciso ter certeza de que sabe quem eu sou. Já bati em garotos inocentes, já dormi com muitas garotas e fiz quase todas elas chorarem. Sou um ótimo mentiroso, raramente me arrependo das coisas que faço e as pessoas em geral não confiam em mim. Agora, , esse mesmo cara está na sua frente pedindo para que seja sua namorada. Preciso que saiba que sou egoísta, que não quero vê-la com mais ninguém, preciso que seja minha. E não porque eu estou dizendo, mas pelo simples fato de você querer ser.
Ela me olhou chocada, com os olhos ligeiramente arregalados, mas nada disse. Meu cérebro sabia porque eu a estava pedindo, sabia que tudo fazia parte de um plano, sabia que eu não tinha boas intenções e que talvez em pouco tempo essa mesma garota estivesse chorando por minha causa. Então por que meu coração temia tanto seu silêncio? Por que ele insistia em bater tão rápido? Aquilo não tinha nada a ver com ele!
Levei as duas mãos ao seu rosto e o segurei com firmeza, queria que olhasse para mim e mais nada.
– Se a resposta for não, apenas me deixe sozinho. – Eu disse, olhando sério para ela. Meu maxilar travado. – Mas se por algum motivo insensato sua resposta for sim, me beije como nunca beijou antes.
Um segundo depois, sua boca estava colada na minha, seus braços enlaçando meu pescoço e suas pernas envolvendo meu quadril. Levei ambas as mãos para sua cintura e a trouxe para mais perto de mim. Eu podia sentir seus seios comprimidos contra o meu peito, seus cabelos fazendo cócegas no meu rosto, sua língua movendo-se com a minha. Deslizei uma das mãos até sua perna direita e a deixei lá, apenas acariciando a pele da sua coxa com o polegar. mordiscou meu lábio inferior e afastou-se somente o suficiente para que pudesse passar as mãos por meu peito, obrigando-me a tirar o casaco e logo encontrando a barra da camiseta. Sorri entre o beijo quando sua mão invadiu a roupa e tocou minha barriga. Precisando de ar, parti o beijo, mas nunca afastando meus lábios de sua pele. Beijei seu pescoço gentilmente, para logo dar-lhe um chupão. levou a mão livre a minha nuca e entrelaçou seus dedos em meu cabelo.
– Sou namorada de , quem diria? – Ela arfou baixinho no meu ouvido, soltando um risinho logo depois. Ri junto e me afastei para olhá-la no rosto. Quando estava a ponto de dar-lhe uma resposta provocativa, a porta da garagem se abriu. mal teve tempo de tirar a mão de dentro de minha camiseta e sentar ao meu lado. Por sorte, era apenas .
– Por Deus, o que vocês estão fazendo? – Ele perguntou, irritado, não se deixando enganar por nossas expressões inocentes. – Você perdeu o juízo, ? E se fosse um dos meus pais? Esqueceu por que está aqui, garota?
Eu nunca, jamais, havia visto falar com a prima daquele jeito. Ele não só estava irritado, como estava furioso. Olhei para e, apesar dos lábios inchados e dos cabelos bagunçados que denunciavam o que estávamos fazendo antes, a cor de seu rosto havia desaparecido. De repente, ela parecia quase doente.
– Não, , não esqueci, mas obrigada por deixar claro que ninguém nunca vai esquecer. – Ela respondeu, com uma frieza ainda maior do que eu estava acostumado a vê-la usar comigo. Do que diabos eles estavam falando?
– Não seja idiota, , você sabe que não tem nada...
– , o imbecil aqui está sendo você. – O interrompi quando continuou a usar aquele tom rude que era tão incomum para ele. E virando-me para , perguntei: – Do que ele está falando? Do que vocês estão falando?
Ambos ficaram calados, mudos. Em um instante, estavam prontos para começar uma briga e, de repente, não tinham mais nada a dizer. Fechei os punhos, começando a ficar irritado. O que era tão grave que eu não poderia saber, afinal?
– Isso tem alguma coisa a ver com o fato de você ter sido expulsa de seu último colégio? – Perguntei para , buscando na memória algo que Logan dissera-me há muito tempo.
– O quê? – Disseram em uníssono. Tanto quanto parecendo completamente surpresos.
– Como você soube disso? – exigiu saber. – Como soube disso, ?
Cruzei os braços no peito.
– Eu perguntei primeiro. E quero respostas. – Eu disse firme. Ela me encarou com tamanha raiva que ninguém jamais adivinharia que estávamos nos beijando apenas um momento antes. Quando olhei para de novo, seu rosto já não estava contorcido de raiva, mas seus olhos pareciam cheios de lágrimas.
– , por favor, leve o até a porta por mim. – Ela pediu, soando distante e controlada.
O quê?
– Eu não vou a lugar nenhum antes de saber o que está acontecendo. – Balancei a cabeça e olhei para o . – Do que você estava falando? Por que ela veio para cá?
– Porra, ! Eu não quero olhar para você, vai embora! – Ela gritou, de repente, apontando para a porta. Meu estômago revirou, e eu não soube bem por qual motivo.
– Você está repensando sua resposta? – Perguntei sério. sabia do que eu estava falando.
– Não... – Ela respondeu, com tom de voz fraco. – Eu... Eu ainda quero ser sua namorada, . Só quero que você vá embora agora, por favor.
E então, começou a chorar e passou correndo por mim e , batendo a porta atrás de si.
– Ela disse namorada? – perguntou.
– ... – Olhei para ele, ignorando sua pergunta e só notando agora como ele parecia chateado. Talvez arrependido? – Eu sei que você não gosta de mim, mas...
– Não, , eu gosto de você. – Ele me interrompeu e suspirou, passando uma mão pelo cabelo. – Só não sei se posso confiar em você com ela.
Se eu sabia que ele estava certo, então por que me sentia tão incomodado?
– Você não vai me contar nada hoje. – Eu disse, entre dentes.
– Não. – Ele respondeu, apesar de não ter sido uma pergunta.
– Ótimo. – Concordei, irritado. E tive o bom senso de sair da casa dos antes que pudesse começar uma briga.
Quando cheguei em casa, ainda me sentia abalado pelos acontecimentos do dia. Por muito tempo eu deixara que a pergunta ficasse adormecida, mas agora eu queria saber. Por que havia sido expulsa? E por que fazia questão de esconder o motivo? Vindo dela, não conseguia imaginar nada muito sórdido, mas se não era grave, por que esconder? E eu ainda me sentia enjoado apenas de lembrar a discussão que tivera com . Ela estava blefando, eu tinha certeza.
Como em muitas outras noites, Richard não estava em casa. Mas eu não estava reclamando. A última coisa que queria era sua companhia mal-humorada. Fui para meu quarto, tomei um banho e deitei na esperança de assistir algum filme e me distrair. Meus pensamentos não saíam de . Eu queria ligar, mas estava resistindo.
Já estava prestes a cair no sono quando a campainha me despertou. Ignorei. Não estava em clima para visitas. Mas quem quer que fosse era insistente e começou a tocar ininterruptamente. Bufei e fechei os olhos com força. E não podendo mais ignorar o barulho, me levantei.
– Já estou indo! – Gritei, pateticamente, ao chegar ao primeiro andar. Quando finalmente abri a porta, não pude acreditar no que via. Lá estava ele. Depois de todos aqueles anos, seus olhos continuavam idênticos aos meus. Na verdade, eu quase havia me esquecido de como eram parecidos. Nós tínhamos a mesma altura agora, apesar dele ser visivelmente mais velho. E, aparentemente vinda do nada, uma onda de raiva e mágoa me atingiu. – O que você está fazendo aqui?
TWENTY TWO
– Não está feliz em me ver? – Peter perguntou. Fiquei calado, não possuía uma resposta bonita para aquilo. Continuei olhando para ele, querendo me certificar de que não era apenas uma alucinação. Eu imaginara aquela cena tantas vezes! – Não vai me convidar para entrar?
Não, eu não ia. Mas ele já devia saber disso.
– O que você quer aqui? Por que voltou? – Perguntei, quando finalmente reencontrei minha voz. Uma parte de mim queria saber de tudo a seu respeito, mas a outra parte, a mais forte, queria que ele desaparecesse. Eu não queria de volta as lembranças que ele estava trazendo. – Aqui não é o seu lugar, vá embora.
– Essa casa também é minha, . – Ele disse, colocando uma mão na porta, impedindo-me de fechá-la.
– Não mais. – Retruquei, entre dentes. – Estamos muito bem sem você.
– Nós precisamos conversar. – Ele disse, muito sério agora.
– Pois eu não quero ouvir! – Exclamei, irritado com seu tom autoritário. Quem ele pensava que era?
– Mas você precisa. – Ele afirmou, seu tom de voz calmo e firme, como se quisesse me ensinar que não era preciso gritar para se impor.
– Quando foi embora, você deixou tudo para trás. Sequer se despediu. – Eu disse, lembrando a ele e ficando enjoado no processo. Eu não queria lembrar. Eu não queria lembrar!
– , por favor... – Ele suspirou, seu olhar quase suplicante. – Tente entender.
– Você nunca mandou notícias. Você destruiu nosso pai. Eu não sabia na época, mas você devia saber que ele não suportaria mais uma perda. Você me deixou para trás, Peter. – Eu disse, apontando um dedo para o peito dele. – Você não viu necessidade de conversar por seis anos, por que eu deveria ouvi-lo agora? Eu cresci, não preciso mais de você.
– Não, , você ainda é só um garoto. Você está seguro aqui na sua bolha de Rúgbi e popularidade, mas não faz ideia de como o mundo é. – Ele retrucou, voltando para seu tom firme. – Não espero que me perdoe agora, sei que errei e sinto muito, mas espero que me ouça e que tente ver o meu lado. Não fique me acusando se não sabe pelo que passei. E eu não destruí nosso pai, caso você não lembre, foi ele que me mandou embora.
– Eu só lembro que você não pensou duas vezes antes de ir. – Eu disse e um silêncio gelado caiu sobre nós. – Vá embora. Peter me lançou um olhar triste e suspirou. Eu não me importava com o que ele estava sentindo, da mesma forma como ele não havia se importado comigo há seis anos.
– O nome dele é Seth, caso você esteja curioso. – Peter disse, já começando a se afastar. Ele ainda parecia triste.
– Não sei do que está falando. – Respondi, dando um passo para fora da casa e sentindo o frio gélido de fim de ano atingir minha pele descoberta. Eu vestia apenas uma boxer e camiseta. Estava certo de que em poucos dias começaria a nevar.
– Estou falando do meu filho, do seu sobrinho. – Ele disse do meio fio, prestes a entrar em um carro, que eu supus ser alugado. – Ah, ? – Peter chamou quando eu começava a dar-lhe as costas. – Eu escrevi, mas ninguém nunca respondeu.
– O quê? – Perguntei, minha voz saindo em um sussurro. Peter não respondeu, apenas deu um sorriso fraco, sem mostrar os dentes, e se foi. Com um estalo, lembrei de, há meses, ter visto Richard no quarto de Peter; suas mãos lotadas de algo que ele não me deixou ver.
Voltei correndo para dentro da casa, subindo a escada de dois em dois degraus até que parei em frente a porta do antigo quarto de Peter. Levei uma das mãos até a maçaneta, mas como era de se esperar, ela estava trancada. Tudo bem, aquilo não era realmente um obstáculo. Afastei-me alguns metros da porta e depois corri em sua direção, atingindo-a com meu ombro esquerdo. Nada. Repeti o processo uma, duas, três vezes. Meu ombro já latejava, mas eu podia ver que a porta não aguentaria muito mais. Respirei fundo, juntando toda a minha força e atingi a porta novamente. Dessa vez, porém, ela se abriu para mim. A maçaneta visivelmente quebrada. Não me importei. Eu não pretendia fingir que não havia estado ali.
Uma vez lá dentro, procurei em todos os lugares. Na mesa perto da janela, nas gavetas do armário, uma caixa debaixo da cama, mas não achei nada que comprovasse que Peter estivesse falando a verdade. De repente, meu olhar caiu sobre o único lugar que ainda não havia olhado. Andei até a cama e me sentei bem ao lado do criado mudo; puxei a primeira gaveta e lá estava. Cartas e mais cartas. Algumas abertas, outras ainda lacradas. Peguei quantas pude e as espalhei sobre a cama. Eu não queria lê-las, talvez um dia, mas não agora. No momento, o mais importante era saber que elas existiam, que ele não havia ido embora de todo, que de alguma forma ele ainda pertencia aqui.
Comecei a organizar as cartas conforme a data em seu remetente. A primeira era datada de seis meses depois de Peter ter deixado Rugby e, para minha surpresa, a última era de apenas duas semanas atrás. E ela ainda estava lacrada. Peter nunca parou de escrever. Perguntei-me se Richard sabia que ele estava voltando. Eu achava que não. Ele já estaria aqui se soubesse. Peguei uma carta antiga, uma que estava aberta, e tirei uma foto de dentro do envelope. Era a foto de um bebê. Seth. Na foto, ele não poderia ter mais que um ano e alguns meses. Seu cabelo loiro e olhos tão quanto os meus e os de Peter. Olhei para a carta mais recente, criando coragem para abri-la. Depois de muito hesitar, rasguei o envelope, retirando um pequeno pedaço de papel e uma foto.
Pai,
A esta altura, já sei que ignora minhas cartas, mas e ? O que ele sabe? Tem o deixado no escuro, esperando que tenha tanta raiva de mim quanto o senhor? Ainda lembra-se da última coisa que me disse? O senhor disse que eu jamais seria alguma coisa sem o Rúgby e que nunca me perdoaria por estar abandonando o meu sonho. Mas você estava errado, pai. Como em muitas outras coisas. Com o tempo, percebi que Rúgbi nunca foi o meu sonho. Era o seu. Eu gostava de jogar, é verdade, mas era apenas um jogo e só. Obriguei-me a ficar longe até que pudesse provar que você estava errado. Hoje eu sou alguém, hoje sou um pai. Sei que não concorda com minhas escolhas, mas já não me importo com o que o senhor pensa de mim, você nunca nos deu muito apoio mesmo, não é? Sei que depois que mamãe nos deixou, você passou por coisas que só posso imaginar. Eu gostaria de ter entendido melhor a situação na época, gostaria de ter ajudado de alguma forma, mas não posso me culpar por ter sido criança. Você não pode culpar a mim e nem a por isso. Nós não tivemos culpa. Ninguém teve. Nem mesmo mamãe. Não podemos culpá-la se não sabemos o que a levou a tomar a decisão que tomou. Esta é minha última carta. Eu estou voltando.
Peter xx
Li a carta mais vezes do que era necessário. Meu coração acelerando. Não sabia o que aquilo significava. Não sabia se deveria ter raiva de Richard, de Peter ou de minha mãe. Ou dos três. Olhei para foto, vendo um garotinho de quase seis anos nela. Surpreendentemente, seu cabelo estava castanho agora, mas os olhos continuavam os mesmos. Seth. Eu precisava sair daquela casa.
As lembranças estavam presentes em cada parede, impregnadas de uma forma difícil de ignorar. Amassei a carta em minha mão e levantei, dando de cara com Richard parado na porta. Ele estava pálido e parecendo assustado. Ele já sabia.
– Alguém disse ter visto Peter... – Ele disse baixo. – Mas eu não pude acreditar.
– Ele esteve aqui. – Respondi frio. – Eu o mandei embora.
– Você fez certo. – Richard concordou, começando a recuperar-se e a voltar a si. – Ele nos deixou.
Balancei a cabeça, dando uma risada irônica, sem um pingo de humor.
– Foi antes de ver isso! – Exclamei apontando para as cartas na cama. – O que o senhor pretendia com isso? Mentiu para mim por todos esses anos! O que o fez achar que eu não tinha o direito de saber? Eu queria saber!
– Achei que seria melhor assim. – Ele respondeu sério. – Você era muito novo, . Achei que com o tempo você o esqueceria.
– O quê? – Olhei para ele, chocado. – Como pode dizer isso? Ele é meu irmão. Como pôde achar que eu o esqueceria? Você o esqueceu?
– Não, óbvio que não! – Richard explodiu. – Mas também não posso desculpá-lo.
– Pelo o quê? – Retruquei. – Por ter feito escolhas diferentes das suas?
– Peter abandonou tudo por uma garota. – Ele respondeu. – Eu não podia permitir que cometesse os mesmos erros que eu.
– Mas não precisava ser um erro! Era a vida dele e era o que ele queria! – Gritei. – Não é porque deu errado para você, que ia dar errado para ele.
– Você é só um garoto, . – Richard disse. – Você não pode entender.
Olhei para o meu pai com raiva. Eu estava cansado de ouvir aquilo. Sem mais uma palavra, saí do quarto de Peter indo em direção ao meu. Vesti a primeira calça que vi e peguei meu casaco Vans, rapidamente calçando um par de tênis.
– Aonde você pensa que vai? – Richard perguntou ao me ver sair vestido do quarto e me dirigir a escada. – Está muito frio lá fora e já é tarde.
– Qualquer lugar que não me lembre você. – Respondi, tentando manter a calma. – E não comesse a bancar o pai preocupado agora. Você só está com medo de que eu vá atrás dele.
– E você vai? – Ele perguntou, por fim, enquanto me seguia até o primeiro andar. Sua voz visivelmente controlada.
– Não é da sua conta. – Eu disse, ácido, batendo a porta da casa as minhas costas. Mais uma vez, senti o vento frio vir ao meu encontro, percebendo que meu casaco não seria o suficiente para me manter aquecido. Entrei no carro e permaneci imóvel por alguns segundos, talvez minutos, enquanto pensava em que caminho seguir. Para onde eu iria?
Peguei o celular, pensando em ligar para , mas logo mudei de idéia. Ela também estava me escondendo alguma coisa. Suspirei e fechei os olhos, recostando a cabeça no banco. De repente, eu soube, mas não tinha certeza de que seria recebido. Eu não merecia. Liguei o carro e dirigi pelas ruas desertas da cidade. Não ficava muito longe dali. Quando cheguei, estacionei próximo ao meio fio, na frente de uma conhecida casa vitoriana, e saltei do carro. Olhei para os dois lados da rua antes de atravessar sorrateiramente até a frente da casa, coisa que eu já havia feito um milhão de vezes em outros tempos.
Peguei algumas pedrinhas no jardim e, ao chegar aos fundos, avistei a janela de Samantha. Arremessei algumas em sua janela, tendo o cuidado de não usar muita força e quebrar a vidraça. Quando eu já começava a ficar sem pedrinhas, Sam finalmente apareceu na janela.
– ? – Ela gritou, ao mesmo tempo em que tentava não chamar atenção. Sua expressão deixava claro que eu era a última pessoa que ela esperava encontrar ali. – O que você está fazendo?
– Eu quero entrar. – Respondi. Ela ficou calada, me olhando quase que desconfiada.
– Tudo bem. – Sam suspirou, após muito pensar, sumindo da janela em seguida. Não demorou para que a porta dos fundo fosse aberta.
– Você ainda não respondeu minha pergunta. – Samantha disse séria. – O que você quer aqui? Por que não está com a ? Não é dela que você realmente gosta, afinal?
– Esqueça. – Suspirei impaciente. – Estou indo embora. Mal dei meia volta e Sam já estava a minha frente, espalmando as mãos em meu peito, impedindo minha passagem.
– Desculpe. – Ela disse, deixando que seus braços caíssem ao lado do corpo. Olhando para todas as direções, menos para mim. – Eu só não consigo ver você como amigo.
– Sam... – Eu comecei, me arrependendo de ter ido até ali. Ficamos calados por alguns segundos, juntos em um silêncio desconfortável. Por que ela sempre tinha que tornar as coisas mais difíceis? Suspirei, me dando conta de que ainda segurava a carta de Peter.
– O que é isso? – Ela quis saber, olhando-me com a testa franzida.
– Será que nós podemos entrar? – Perguntei impaciente. – Estou congelando aqui. Sam olhou para mim, seu olhar indecifrável.
– Okay. – Ela respondeu séria. – Só tente não fazer barulho. Meus pais não vão gostar de ver você aqui.
E qual a novidade?
Fomos direto para o quarto de Samantha. Sentei em sua cama e ela ficou em pé diante de mim, seus olhos pedindo respostas.
– Isso é porquê não quero estar em casa. – Entreguei a carta a ela.
– Não posso acreditar. – Sam disse surpresa. – Quando ele vem?
– Ele já está aqui. Em algum lugar. – Respondi, olhando para minhas mãos. – Nós nos falamos.
– Conhecendo você e conhecendo Peter, não deve ter sido uma boa conversa. – Sam se sentou ao meu lado. – Você não sabia dessas cartas, não é?
– Não.
– O que seu pai disse? – Ela perguntou, muito próxima de mim agora.
– O mesmo de sempre. – Deitei sobre a cama, mantendo somente as pernas no lado de fora. Cobri meu rosto com as mãos. Estava sentindo uma ardência incomoda nos olhos.
– Eu sinto muito, . – Sam disse em meu ouvindo, deitando logo ao meu lado. – Você não está feliz por Peter finalmente ter aparecido?
– Eu não sei. – Respondi, deixando meus braços caírem sobre a cama.
Quando olhei para Samantha, seu rosto estava apenas a alguns centímetros sobre o meu. Olhei para o lado oposto, quase prevendo o que estava para acontecer. E não era como se eu estivesse muito empenhado em impedir. Eu estava com raiva de . E estava odiando-me por causa daquele pedido de namoro precipitado. Eu nem sequer havia pensado sobre isso. Aquilo nunca devia ter acontecido. Porém, eu sabia que não atrapalharia meus planos. Eu não podia permitir que mexesse com minha cabeça o suficiente para me fazer desistir deles. Eu ainda a queria na minha cama. Só temia que uma vez não fosse suficiente. Eu não podia, eu não iria sentir sua falta quando tudo estivesse acabado. Eu sabia que estava em meu limite, sabia que já estava muito mais envolvido do que deveria, sabia que adiar o fim só tornaria as coisas mais perigosas para mim.
Entretanto, era muito fácil racionalizar isso quando não estava por perto para me distrair com seu sorriso irônico, com seu cheiro, com seu toque, com os lábios que eu adorava sentir contra os meus. Fechei os olhos com força. Não. Eu não podia permitir que aqueles impulsos tomassem conta de minha mente.
– ? – Samantha chamou meu nome, trazendo-me de volta a realidade. Sua mão pousada delicadamente sobre meu peito. – Por que você está aqui? Justo aqui?
– Porque é aqui que quero estar agora. – Respondi, colocando uma mão sobre a dela em meu peito.
– O que significa que amanhã você pode não estar. – Ela sorriu para mim, um sorriso que reconheci como triste.
– Eu posso ir embora. – Eu disse, mas Sam me impediu quando tentei levantar.
– Não. – Ela sussurrou, colando seus lábios nos meus. Um ato que havia sido sempre muito natural para nós, mas que agora me parecia inadequado e sem propósito. Entretanto, não impedi que Sam intensificasse o beijo ou protestei quando ela começara a livrar-se de nossas roupas.
Abri os olhos e olhei para a janela. O céu ainda estava escuro, mas logo amanheceria. Sentei-me sobre a cama, tentando ter o cuidado de não acordar Samantha. Eu não queria conversar com ela agora. Nem nos próximos dias, de preferência. Bufei passando as mãos com força pelo meu rosto. Não podia acreditar que aquilo houvesse mesmo acontecido. Levantei da cama, me vestindo o mais rápido possível. Eu não iria perder tempo me culpando sobre aquilo. Estava feito. Agora era só esperar pelas consequências. Samantha não ousaria mencionar aquilo a ninguém.
– Então é assim? – Ouvi a voz de Sam dizer quando eu já caminhava em direção à porta. Fechei os olhos e suspirei, virando para encará-la. – Você vem, dorme comigo e depois vai embora sem dizer uma palavra? Isso é muito baixo, até mesmo para você, .
– Eu não lhe prometi nada. – Eu disse, com raiva de seu tom acusatório. – Eu quis ir embora, mas você não deixou.
– Conheço você há anos, , portanto, sejamos francos aqui. – Ela se levantou, enrolando o lençol ao redor de seu corpo. – Você só estava atuando. Uma coisa que você faz para aliviar sua consciência. Você não pretendia realmente ir embora, pretendia?
Fiquei calado. Seja lá o que eu dissesse, Samantha continuaria me achando um cretino. E eu era mesmo. Então qual era o ponto em discutir? Eu estava cansado demais para isso. O sol começava a nascer lá fora, os passarinhos cantavam, dando bom dia a claridade. Eu precisava ir para casa. Precisava sair dali.
– O que você vai fazer depois daqui, ? – Sam continuou. – Vai voltar para ela? Vai fingir que nada aconteceu? O que ela realmente é para você?
– Ela é minha namorada. – Respondi, entre dentes. – E acho bom que você fique longe dela.
Samantha me olhou surpresa. A expressão firme e desafiadora que lutara para manter em seu rosto aos poucos dava lugar à outra, a mesma que tivera na noite anterior. Os mesmos olhos tristes e magoados. Mas eu estava irritado demais para me importar com seus sentimentos, no momento.
– Samantha, eu estou falando sério. – Eu disse, olhando para ela com a mandíbula travada. – Fique longe. E não ouse mencionar essa noite a ninguém!
– Você nunca se importou em esconder de mim que dormia com outras! – Ela explodiu. – Por que se preocupa tanto com ela?
Olhei para Sam e disse a coisa mais cruel que eu poderia dizer:
– Porque ela não é você. – Fiz uma pausa. – E porque isso foi um erro.
Não esperei para ver sua reação. Saí do quarto e tive a sorte de não cruzar com os pais de Samantha no caminho.
Quando cheguei em casa e abri a porta da frente, a primeira coisa que me atingiu foi o cheiro forte de álcool. Depois, não demorou para que eu encontrasse Richard deitado sobre o sofá da sala. Uma garrafa vazia de vodka jazia ao seu lado, junto às cartas de Peter. Não pude deixar de notar que estavam todas abertas agora. Passei reto por ele, indo direto ao meu quarto. Olhei para meu celular, a primeira vez em horas, e vi que possuía sete chamadas perdidas. Três de e quatro de Richard. Suspirei e fui para o banheiro. Tinha menos de uma hora para me arrumar e ir para o colégio. Cogitei a idéia de faltar, mas eu não queria ficar sozinho com meus pensamentos. E uma parte de minha mente, parte que eu lutava para não ouvir, dizia que eu queria vê-la.
Saí de casa, deixando Richard da mesma forma como o havia encontrado. Infantilmente desejando que ele acordasse com uma terrível dor de cabeça. Estacionei na frente do colégio, sentindo o olhar de todos voltar-se a mim. Ao menos uma parte de minha vida ainda estava no lugar, mas eu sabia que era questão de tempo até que todos ali ouvissem falar de Peter.
Recostei-me em uma das muretas do pátio do colégio, esperando que o tempo passasse rápido. Não demorou para que eu visse e , que acabavam de chegar. apenas me deu um aceno de cabeça e seguiu em outra direção, já ficou parada por alguns segundos, como se ponderasse se deveria vir até mim ou não. Por fim, deve ter decidido que sim, pois logo ela estava andando em minha direção. Sobre o uniforme do colégio, vestia uma jaqueta minha, uma que eu não via há muito tempo. Franzi a testa.
– Onde você conseguiu isso? – Perguntei quando ela finalmente chegou perto.
– Bom dia para você também, . – revirou os olhos. Fui até ela e a segurei pela cintura.
– Bom dia, namorada. – Eu disse, antes de depositar um beijo em seus lábios. Algo naquela palavra fazia meu estômago revirar. sorriu, ignorando os murmúrios ao nosso redor.
– Você me deu isso. – Ela tirou a jaqueta e entregou-a a mim. – Naquela festa em que me salvou.
– Faz tanto tempo, por que está me devolvendo agora? – Perguntei.
– Porque perdeu o seu cheiro. – Ela respondeu, séria, olhando intensamente para mim. Senti um calor gostoso nascer em meu peito e subitamente subir para o meu rosto. deu mais um passo em minha direção e me beijou. Correspondi quase que imediatamente, sentindo a pressão de sua boca contra a minha enquanto suas mãos deslizavam por meus ombros. Mordisquei seu lábio inferior e parti o beijo, mantendo-a ainda perto. E foi aí que um alarme soou em minha mente, forçando-me a me afastar, tentando manter um limite. Ela não podia me controlar, eu tinha que manter isso em foco.
– O que houve? – perguntou, notando minha mudança de atitude.
– Nada. – Respondi dando de ombros. – Só estava pensando que isso fica melhor em você. – Eu disse, colocando a jaqueta em seus ombros.
– Ah, obrigada. – Ela sorriu. – Quem disse que não pode ser fofo?
Fiz uma careta.
– Isso é uma afronta a minha masculinidade. – Eu disse e gargalhou. Meu sorriso sumiu assim que meus olhos encontraram Samantha. Ela estava fazendo exatamente o que eu a havia mandado não fazer. Fechei os punhos. franziu a testa ao ver minha expressão e seguiu meu olhar.
– Você contou para ela? – Sam ergueu as sobrancelhas.
– Contou o quê? – perguntou, voltando seu olhar para mim e depois olhando para Samantha novamente. – O que você quer?
– E então, , contou? – Sam continuou, ainda encarando somente a mim e ignorando . Eu queria matá-la.
– ? – chamou. – Do que ela está falando?
– Peter. – Eu disse, pensando rápido e mandando um olhar de aviso a Sam. – O meu irmão, ele voltou ontem.
– Voltou? – me olhou surpresa, mas ainda assim eu podia ver a desconfiança em seus olhos. Eu não podia encará-la. – E o que ela tem a ver com isso?
– Nada. – Eu respondi a . – E é isso o que você não entende, Samantha. Você não tem nada a ver com a minha vida.
– Ora, , como se...
– Vá embora. – Eu disse baixo, entre dentes, e dei um passo em sua direção. Algo em minha expressão deve ter alertado-a de que eu não estava brincando, pois Sam calou-se quase que imediatamente, mas continuou a encarar-me, seus olhos ficando cheios de lágrimas. Eu não queria fazê-la chorar, mas também não podia permitir que me ameaçasse da forma como estava fazendo.
surgiu, aparentemente vinda do nada, e segurou Samantha pelo braço, dizendo algo em seu ouvido. Sam concordou com a cabeça, olhando para o chão enquanto passava um braço ao seu redor.
– Aproveite enquanto pode. – disse, ao passar por mim. Argh. Aquela garota realmente me odiava.
– Senão o quê? – Debochei. – Vai continuar jogando frases de efeito para cima de mim?
– Eu não estava falando com você. – Ela retrucou e, então, deu um sorriso mórbido para , que ficou pálida diante de nossos olhos. Franzi a testa, mas antes que eu pudesse pensar mais sobre aquilo, o fato de estar sendo tão amigável com Sam finalmente chamou minha atenção. Samantha era chefe das líderes de torcida, mas eu nunca esperaria ver uma cena como aquela. Não era como se e Sam tivessem alguma coisa em comum além do uniforme que vestiam. Eu quase podia sentir que algo muito errado estava acontecendo ali.
TWENTY THREE
He can't understand these feelings
Why life is getting him down
He used to smile now he frowns
And cries inside
It’s been this way for a while
And he can't seem to put things right
Don't know why but somehow
The ones you love, you hate now
You feel down and blue
Look at what you've thrown away
They stood beside you all the way
Now it's too late, it's too late for you
Assim que avistei Peter na entrada do pub, dobrei o papel de qualquer jeito e guardei-o no bolso do casaco. O assisti entrar e olhar ao redor à minha procura. Fiquei de pé, a fim de ajudá-lo a se localizar. Assim que me viu, Peter deu um pequeno sorriso sem mostrar os dentes e veio em minha direção. Voltei a sentar-me. Esfreguei as mãos em meus jeans, livrando-me do suor nelas. Eu não estava nervoso, eu estava apenas… Desconfortável.
– Desculpe o atraso. – Ele pediu assim que chegou perto. – Seth queria vir, tive que sair escondido.
– Você o trouxe para Rugby? – Perguntei, um pouco surpreso, vendo Peter se desfazer de seu sobretudo e se sentar à minha frente.
– O que esperava? Que eu o deixasse sozinho? – Ele retrucou, divertido a princípio, mas seu sorriso morreu assim que percebeu o que havia dito. Um silêncio incômodo instalou-se entre nós. – Hm, , eu sinto muito, eu...
– Pare de ficar repetindo isso. – Eu disse, bruscamente, e então voltei ao assunto. – Você e Kim ainda estão juntos?
Kimberly era a mãe de Seth, a garota por quem Peter havia abandonado tudo.
– Por incrível que pareça, sim. – Na verdade, eu não sabia o que ele queria dizer com aquilo. Eu mal me lembrava dela. – Se você me perguntasse há alguns anos, ela não seria o tipo de garota que eu escolheria.
– Hm. – Resmunguei, sem ter muito o que acrescentar. – Ela também está aqui?
– Sim. – Ele ficou calado por alguns segundos. – Ela tem tentado fazer as pazes com os pais.
– Hm. – Resmunguei novamente. Peter olhou para mim com a testa franzida.
– Você não se sente confortável falando sobre isso? – Ele perguntou, me olhando.
– Eu só estava imaginando quando você pretendia falar com Richard. – Respondi. Peter afundou em sua cadeira e suspirou, desviando o olhar.
– Para falar a verdade, eu não estou muito animado quanto a isso. – Admitiu, balançando a cabeça. – Ele não entende. – E então olhou para mim. – Sabe quantas vezes Seth já pegou em uma bola de Rúgbi?
Fiquei calado, eu já podia imaginar.
– Nenhuma. – Peter continuou. – Isso tem passado por nossa família como uma tradição, mas hoje me parece muito mais como uma maldição. A maioria de nós adora, mas por algum motivo não conseguimos ir além do colegial. É muito triste. E é só um maldito jogo!
Mais uma vez, fiquei calado. Não concordava com ele. Eu amava Rúgbi. Quando jogava, era como se estivesse vivendo em outro mundo. Uma sensação tão boa que eu só conseguia sentir quando corria pelo campo ou quando tocava guitarra. Surtaria se nunca mais pudesse jogar ou tocar.
– O que você fez depois de deixar o condado? – Mudei de assunto. – Você saiu daqui sem nada.
– Não, nós tínhamos economias. – Ele revirou os olhos. – Quero dizer, consegue imaginar quanto duas pessoas de dezessete anos conseguem juntar? Não era muito levando a situação em consideração, mas foi o suficiente para chegarmos a Londres e nos mantermos por alguns dias.
– Mas isso mudou. – Eu supus, erguendo uma das sobrancelhas, já que ele estava muito bem vestido e, ao que parecia, tinha o suficiente para alugar um carro e pagar o hotel no qual estava hospedado.
– Os primeiros dois anos foram muito difíceis. – Contou. – Tive todo o tipo de emprego que você poderia imaginar, mas aí conheci esse cara, o Matt, que me ajudou muito. Na época, ele estava para assumir as empresas do pai, então precisava contratar pessoal novo. – Peter fez uma pausa. – Ele me contratou como assistente pessoal.
– Tipo secretária? – Perguntei, meio rindo.
– Assistente pessoal, . – Meu irmão revirou os olhos para mim. – Enfim, o dinheiro era muito bom. Tão bom que consegui me formar em Relações Públicas. Hoje em dia, eu cuido da imagem da empresa.
Perguntei-me que tipo de empresa era, e quão grande deveria ser, que precisava de um departamento de RP, mas não perguntei. Não queria parecer muito interessado.
– Então... – Peter recomeçou, após alguns segundos em silêncio. – Quais as suas novidades?
– Nada de muito emocionante. – Dei de ombros. – Colégio e Rúgbi.
Não quis mencionar nossa banda. Ainda me sentia um tanto inseguro quanto a isso, não queria começar a espalhar a notícia sem saber se conseguiríamos mesmo levar aquilo adiante.
– Hm. – Peter resmungou, sério. – Em qual posição joga?
– Se pensar um pouquinho, você consegue adivinhar. – Os sempre jogavam na mesma posição.
Ele abriu a boca para comentar, mas foi interrompido pelo toque de meu celular. Vi o nome de brilhar na tela antes de recusar a ligação. Ela estava no colégio, alguma coisa a ver com seu grupo de teatro. Havia marcado de encontrá-la aqui quando terminasse, mas não esperava que Peter se atrasasse. Havia imaginado que, a essa altura, já tivéssemos terminado nossa conversa.
– Samantha? – Ele chutou. – Sempre achei que vocês acabariam juntos de alguma forma.
– Samantha é um... Problema. – Suspirei. – Mas não, não era ela.
– Problema? – Franziu o cenho. – Quer dizer que acertei?
– Não somos nada, Peter. – Respondi, impaciente com sua insistência no assunto. – Suspeito que nem amigos.
– Olha, , devo confessar que não o procurei no meu primeiro dia aqui. – Ele disse, me olhando muito sério agora. – Aproveitei que as pessoas não me reconheceram de imediato e tentei descobrir o máximo que podia sobre você e Richard. – Ele fez uma pausa. – Não ouvi muitas coisas boas a seu respeito. Principalmente vindo de garotas.
– Você saiu por aí me investigando? – Perguntei, ficando de pé, irritado demais para continuar sentado. Peter também se levantou.
– O que quero dizer, é que talvez você seja o problema. – Ele finalizou. Balancei a cabeça negativamente.
– Não me venha com essa merda, você não me conhece. – Eu disse entre dentes. – Eu preciso ir.
Não esperei por sua resposta, mas era óbvio que ele estava me seguindo. Quando cheguei ao lado de fora, esbarrei com na porta.
– Hey, pensei que ainda não tinha chegado. – Ela me olhou surpresa. – Por que não me atendeu? me ligou pedindo que nós fossemos para casa, está lá também. Parece que ele tem uma letra nova e... – parou de tagarelar assim que seu olhar caiu sobre Peter, que agora estava parado bem ao meu lado.
– , esse é o meu irmão, Peter. – Sem ter outra escolha, os apresentei. – Peter, essa é .
Ele sorriu para ela e estendeu a mão direita, a qual segurou imediatamente lançando um sorriso bobo para ele. Vejam isso, era só o que faltava.
– Será que você pode segurá-lo aqui para mim? – Peter perguntou a ela, referindo-se a mim como se eu não estive presente. Imbecil. – Só preciso ir ali buscar um cartão.
– Claro. – respondeu, ainda com o mesmo sorriso nervoso no rosto. Assim que ouviu sua garantia, ele nos deu as costas, indo em direção ao seu carro. virou-se para mim, uma mão dramaticamente sobre seu coração. – Meu Deus, , seu irmão é um gato!
– O quê? – Perguntei, incapaz de acreditar em meus ouvidos. Fechei as mãos em punhos. Era absurdo demais!
– E eu achando que você era o cara bonito da família. – Ela continuou, olhando para a direção que Peter havia seguido.
– O quê? – Repeti, esperando que captasse meu tom ofendido, mas ela estava ocupada sonhando com Peter. Bufei irritado. – Ele é muito velho para você.
– E daí? – Ela me olhou erguendo uma sobrancelha. – É sexy.
– Minha nossa, você está se ouvindo?
– Impressão minha ou você realmente ficou um pouco alterado agora, ? – cruzou os braços sobre o peito.
– Hãn? – Olhei para ela. – Estou pouco me fodendo. Pode ficar aí esperando por ele. Eu estou indo embora.
– Estou vendo toda essa sua indiferença! – Ela disse, revirando os olhos. – Não ouse me deixar aqui sozinha, !
– Então é bom se apressar. – Lhe dei as costas.
– Não mesmo. – Ela me segurou pelo braço, mas continuei a andar, o que apenas resultou em sendo arrastada comigo para o carro. – Vamos esperá-lo! Qual o seu problema? Não pode agir como uma pessoa normal?
– Meu problema? – Repeti, descrente. – Você ‘tá me gozando, garota? , como seu irmão é lindo. , eu quero dar para ele. Não quero cortar o seu clima, mas você é pirralha demais para Peter.
estava vermelha como um pimentão.
– Você já disse isso, idiota. – Ela retrucou enquanto entrávamos no carro, estava tão irritada quanto eu agora. Hm, então realmente ferira seu ego? Ótimo. – E, fala sério, não acredito que ficou com ciúmes! Logo você, senhor Todas-Me-Querem-Sou-Irresistível.
– Quê? – Olhei surpreso para ela, já dando partida. – Ciúmes? Você está ficando convencida, .
bufou e olhou para a direção oposta a minha, mantendo apenas a janela em foco.
Fizemos todo o caminho até a casa dos em silêncio e, assim que estacionei próximo ao meio fio, ela virou-se novamente para mim. Sua expressão era uma mistura de raiva e frieza.
– Quantos anos Peter tem? – Ela perguntou, de repente, enquanto saltávamos e íamos até a porta.
– Ainda está pensando nisso? – Fechei as mãos em punhos e a vi tocar a campainha, o que era estranho considerando que também morava ali. – Ele tem vinte e quatro.
– Para sua informação, já fiquei com um cara mais velho. – Ela disse, sem olhar para mim.
– O quê?
– Você quer parar de ficar repetindo isso? – Ela explodiu, me olhando furiosa. – Ninguém precisa saber que você é tão mentalmente limitado que não consegue articular uma frase com mais de duas palavras.
– Quem era o cara? – Perguntei, possesso, ignorando sua ofensa. Eu morreria antes de admitir aquilo, mas estava me corroendo de ciúmes. Ela era minha! Estava ficando louco imaginando um velho nojento pondo as mãos em . Tocando sua pele, sentindo seu perfume, beijando seus lábios... E aqueles seios que eu morria de vontade de provar. Fechei os olhos com força por rápidos segundos. Eu não precisava daqueles pensamentos. Mal havia percebido que havia aberto a porta e que assistia nossa discussão. – Agora você vai ficar calada?
– Ah, então você acredita em mim? – Ela ergueu uma das sobrancelhas. – Por um segundo, pensei ser apenas uma piralha idiota que não vale nada. Mas como você pode ver, sou totalmente capaz de conquistar um cara mais velho.
olhou chocado para ela, mas não estávamos prestando atenção nele.
– Não fique colocando palavras na minha boca. – Revirei os olhos, cruzando os braços na defensiva. – E se quer tanto um cara mais velho, o que está fazendo comigo? Deveria ter ficado lá com ele.
– É, eu deveria mesmo! – Ela disse, cruzando os braços também.
– Ótimo! – Exclamei.
– Ótimo! – concordou.
– Quando pararem de criancice, façam o favor de entrar. – Sem dizer mais uma só palavra, voltou a fechar a porta.
– Olha só o que você fez! – Ela me acusou. – Agora vai ficar pensando que...
– Ah, cale a boca! – Mandei, entrando na casa em seguida. Assim que entramos, segurou-me pela gola da camisa e empurrou-me contra a porta fechada.
– Muito cuidado com o que você diz, . – Me advertiu. – Você pode se arrepender.
Olhei para ela irritado com seu tom e, em um movimento rápido, investi as posições, prensando-a contra meu corpo.
– Não ouse me intimidar, . – Eu disse, capturando suas mãos e mantendo-as contra a porta quando tentou me agredir. – Você ainda tem muito o que aprender.
– Aprender? – Ela debochou. – Por que eu iria querer ser uma cretina filha da mãe como você?
– Um cretino que você namora. – Eu disse, inclinando meu rosto até o seu e deslizando meu nariz por sua bochecha. Não podia ficar tão próximo e simplesmente não fazer nada. – Um cretino que você beija. – Sussurrei em seu ouvido, liberando uma de minhas mãos para deslizar lentamente por seu pescoço; passando entre seus seios, os quais eu realmente queria tocar, mas obriguei-me a seguir em frente, chegando à barra de sua saia e invadindo-a sem cerimônia.
– Não seja por isso. – Ela finalmente disse, ofegando. – Eu estou terminando com você.
Soltei uma gargalhada.
– Você não quer terminar comigo. – Apertei sua coxa. – Na verdade, não há na vida coisa que você queira menos.
– Nossa, quem está sendo convencido agora? – Ela retrucou, mas logo em seguida estava deslizando a mão livre por meu peito e puxando-me para mais perto pelo cós da calça.
– Não deixo de estar certo. – Aproximei meu rosto ainda mais do seu e mordisquei seu lábio inferior. Ouvimos um barulho e rapidamente espalmou as mãos em meu peito, afastando-me.
– Um dos meus tios pode aparecer a qualquer minuto, . – Ela me olhou, preocupada, quando voltei a me aproximar.
– E daí? – A segurei pela cintura, levantando-a e a fazendo rodear meu quadril com as pernas. – É excitante.
– Estou falando sério, ! – me deu um tapa no ombro e bufou, voltando a pôr os pés no chão.
– Eu também. – Eu disse, antes de pressionar meus lábios contra os seus, ou permitir que conseguisse escapar de meus braços. Infelizmente, não tivemos tempo para intensificar o beijo.
– Sexo no hall! – anunciou, parecendo estar bem próximo de nós. – E você achando que eles estavam tendo uma briga, hein, ? Está me devendo quinze pratas.
gritou alguma coisa em resposta, mas o som de sua voz foi abafado por , que se libertara de meus braços e fora até .
– Fale baixo, imbecil! – Ela lhe deu um soco no braço.
– Pode voltar para o seu sexo, seus tios não estão em casa. – zombou, tranquilizando-a. Claro que isso o rendeu outro soco. – Outch! – reclamou, massageando o local duplamente atingido. – Independente do que o goste, isso não é atraente, .
limitou-se a ignorá-lo. Passou direto pela sala, indo para a cozinha; onde ouvimos começar uma conversa com .
– Você é mesmo um idiota. – Eu disse, lentamente, como se acabasse de chegar àquela conclusão.
– Sua garota é selvagem. – debochou enquanto nos acomodávamos na sala e juntava-se a nós.
– Eu posso ouvi-los daqui! – nos advertiu. De repente, caímos na risada. Olhei para e enquanto riamos e me perguntei quando tínhamos ficado tão amigos, quando as coisas tinham mudado tanto? Parei de rir imediatamente, assustado com aquele pensamento. As coisas estavam saindo de controle.
– Deve ser o . – disse, juntando-se a nós na sala quando a campainha tocou.
– Hm, talvez. – resmungou, parecendo ligeiramente desconfortável. Olhei com a testa franzida para enquanto ela vinha sentar-se ao meu lado, mas ela apenas deu de ombros. Vi arregalar os olhos e logo entendi o motivo do desconforto de . Ali, bem no meio da sala, estava e a sua esquerda, .
– Acho que não preciso apresentar ninguém? – Não era para ser uma pergunta, mas seu tom era tão incerto que soara como uma. Revirei os olhos. nunca aprenderia.
– Não é necessário. Eu conheço todos. – respondeu, sorrindo, muito mais segura de si do que . – Ou sei exatamente quem são.
Ela estava olhando para que, por acaso ou não, havia assumido uma postura tensa, quase... Nervosa. Já não era coisa da minha mente. Havia mesmo algo de muito errado acontecendo entre elas. Eu só não sabia o quê. Ainda. Peguei uma de suas mãos e entrelacei nossos dedos. deu um sorrisinho debochado. Ou talvez fosse apenas minha imaginação, já que ninguém mais pareceu notar. ¬
– Vocês vieram juntos? – Perguntei a , visto que tanto ele quanto vestiam o uniforme do Rugby School. provavelmente viera de uma detenção ou algo assim, visivelmente estivera treinando com as outras líderes de torcida.
– Com certeza. – Ele ironizou, sentando-se no sofá oposto ao nosso.
– Ela vai assistir ao ensaio? – perguntou a . ergueu uma das sobrancelhas.
– Eu estou bem aqui, . – Ela disse. – Pergunte a mim.
Vi bufar e revirar os olhos. Nunca achei que concordaríamos em alguma coisa.
– ? – Olhei significativamente para ele. E se você tivesse visto o caderno de letras de , também entenderia. Mais uma desilusão amorosa e teríamos um álbum. De repente, sentimos um cheiro engraçado, como se algo estivesse queimando.
– Os brownies! – levantou assustada, correndo para a cozinha. Hm, não estávamos lá nem há vinte minutos, não havia tido tempo para fazer alguma coisa.
– Você estava cozinhando? – perguntou a , seu tom de voz completamente diferente agora. estava sendo... Carinhosa. Argh. Ele ficou vermelho imediatamente. Troquei um olhar de gozação com .
– É, , você esteve cozinhando? – Debochei. Na verdade, minha vontade era de dizer “, seu merdinha, o que estava pensando?”, mas me controlei.
– Uma perfeita dona de casa. – completou enquanto fingia ler uma revista de fofoca que havia estado sobre a mesa de centro. e eu rimos, sem conseguir nos controlar. limitou-se a dar um sorrisinho irônico. olhou para nós com cara de morte.
– Vou ver se precisa de ajuda. – sorriu para ele, após nos lançar um olhar de desdém, e seguiu em direção à cozinha, mas não sem dar um rápido selinho em . O quê? e pareciam tão surpresos como eu.
– Você não merece o que tem no meio das pernas. – Olhei para ele, enojado.
– Nossa, obrigado, . – Ele respondeu, ofendido. – Você é mesmo um doce.
Dei de ombros.
– Enfim, acho que poderíamos começar o ensaio logo. – se levantou, sendo seguido por .
– Ouvi dizer que alguém tem uma letra nova? – Perguntei, olhando para eles. tirou um pedaço de papel do bolso e me entregou.
– Ainda não está completa. – Ele disse, enquanto eu lia. – Na verdade, não faço idéia de como terminar.
He doesn't like to mention
Applying for his pension
So his children don't know he's heading
Into a mid-life crisis
He can't afford the prices for
The new kitchen floor he's buying
He's been a drunk of his life
Two kids, a dog and a wife
He doesn't know
And in the daytime he just sits
And watches television shows
When life has been unkind
And you're losing your mind
Look in the mirror afraid of what you'll find
It feels like times not on your side
Tirei meu rabisco do bolso e mostrei a eles.
– Talvez combine. – Dei de ombros, tentando não parecer tão incerto como me sentia. Nunca gostara de compartilhar meus rabiscos, sentia como se fossem meus pensamentos...
Por fim, decidimos ir para a garagem tentar compor uma melodia para a letra. Quando já me encaminhava para seguir os outros, lembrei-me de sozinha com na cozinha. Aquilo definitivamente não me agradava. Voltei, decidido a checar como as coisas estavam indo.
– Nós precisamos disso, . – Pude ouvir dizer assim que cheguei à porta. – Você tem que ir lá buscar!
– Eu não posso...
– Estou interrompendo? – Perguntei, desconfiado, vendo que se calara ao me ver.
– Claro que não. – Ela sorriu, mas seu sorriso era tenso e eu sabia que estava mentindo. deu um suspiro frustrado pouco discreto e passou por mim sem dizer uma só palavra.
– O que está acontecendo? – Perguntei de uma vez.
– Não sei do que está falando. – virou-se para a pia. Andei decidido até ela e a segurei pelos ombros, obrigando-a a virar-se novamente para mim.
– Não pense que sou idiota. – Olhei sério para ela. – sabe do seu segredo?
– O quê? – parecia genuinamente surpresa. – , ela não estava me ameaçando. Só estávamos... Conversando.
Olhei cético para ela.
– Não me diga que está preocupado comigo. – cruzou os braços, olhando convencida para mim. E aqui, exatamente nessa parte da história, eu talvez tenha cometido o meu primeiro erro. Se tivesse insistido, se não tivesse deixado que me distraísse tão facilmente... Pergunto-me o que teria conseguido evitar, ou se tudo terminaria do mesmo modo.
– Por favor... – Bufei, revirando os olhos, pronto para deixar a cozinha quando me puxou pelo braço.
– Tenho péssimas notícias. – Ela disse, se aproximando, ficando próxima o suficiente para que eu apenas precisasse inclinar meu rosto para baixo, caso quisesse beijá-la. E eu queria. Muito. – Acho que me apaixonei.
Abri a boca para falar, mas me interrompeu, pressionando um dedo sobre meus lábios.
– Não precisa dizer nada. – Ela disse. – Só queria que soubesse que conseguiu o queria.
E, sem que me desse conta, estava sozinho. Chocado demais para me mover. Sim, ela estava certa. Aquilo era o que eu estivera esperando, o que eu estava certo de que cedo ou tarde aconteceria. Eu sabia o que deveria fazer em seguida e, principalmente, sabia exatamente o que aquilo significaria. Talvez fosse por isso que me sentisse tão infeliz.
TWENTY FOUR
Acho que me apaixonei.
Acho. Que. Me. Apaixonei.
Me apaixonei.
As palavras de ecoavam repetidamente em minha cabeça. Eu sentia como se estivesse perdendo algum detalhe, alguma coisa que eu não estava conseguindo ver. E, ao mesmo tempo, me perguntava se eu só não estava procurando uma desculpa para desconfiar de sua declaração.
Não era a primeira garota a dizer-me aquilo, mas era a primeira em quem eu não acreditava. Em outros momentos, minha mente simplesmente ficava repetindo coisas como “ está apaixonada por mim. Pronto, eu venci. Ela é minha”. Mas, por mais que tentasse, não conseguia me sentir vitorioso. Eu não acreditava. O problema era: Eu queria acreditar.
E talvez fosse por isso mesmo que não conseguisse. Eu já não era imparcial; já não era indiferente. Eu queria aquilo. Desejava que fosse verdade de uma forma tão intensa que... Não! Balancei a cabeça com força. Era exatamente isso que queria. Eu quase podia vê-la divertindo-se às minhas custas, me manipulando. Eu não permitiria que invadisse minha mente, confundisse meus pensamentos, ou até mesmo que tocasse meu... coração.
não era diferente de nenhuma outra garota. Ela havia se apaixonado por mim. Fim.
Então por que eu estava tão desapontado? Era porque não acreditava? Ou porque ela havia se mostrado igual a todas as outras? Era porque eu sabia que aquilo significava que o fim estava próximo? Sim, porque eu não mantinha garotas apaixonadas por muito tempo. Elas eram sempre ansiosas, pegajosas, insistentes e carentes. Garotas apaixonadas significavam dependência.
Alguém espirrara ao meu lado, trazendo-me de volta a realidade. Olhei para a origem do espirro e encontrei Seth encarando-me com seus grandes olhos . Estávamos sentados lado a lado em um banco em frente à minha casa. Richard havia viajado para Kenilworth e dissera que só voltaria em alguns dias, então Peter achou que seria muito bom, palavras dele, que eu conhecesse Seth.
Mas quando uma coisa podia dar errado, acredite, ela daria. Em outras palavras, Richard havia voltado antes que o previsto. Ainda estava fresco em minha mente a forma como Peter empalidecera ao ver nosso pai. Porém, ele me surpreendera ao conseguir manter sua postura firme.
Agora, Seth e eu esperávamos do lado de fora enquanto Peter e Richard conversavam. Claro que eu não me oferecera para ficar de babá, mas Peter também não perguntara.
Eu odiava crianças.
E aquela não era uma exceção.
Confesso que, no início havia alimentado uma vaga curiosidade, e nada mais que isso, em conhecer Seth. Entretanto, uma vez que minha curiosidade havia sido satisfeita, eu estava mais do que pronto para esquecer-me do assunto. Porém, no momento, aquilo não era uma opção.
Seth espirrou novamente, dessa vez limpando o nariz na manga da camisa. Argh. O que Peter estava pensando? Um cachorro seria muito mais fácil de educar. Não que Monstro, meu bulldog, fosse exatamente um gentleman. Eu o havia trazido para fora, em uma vã tentativa de distrair Seth, mas não estava funcionado. Monstro já era um pouco maior do que um filhote e só obedecia aos próprios gostos. E, no momento, ele queria estar dentro de casa, no calor do meu quarto, não deitado em um chão frio, congelando seu traseiro. Isso fazia dois de nós.
– Hm, oi. – Eu disse, começando a ficar nervoso sob o olhar de Seth. Ergui uma das sobrancelhas. – Está me achando bonito?
– Não. – Ele respondeu desviando o olhar e, então, cruzou os braços. – Mamãe estava certa.
– Que seja. – Resmunguei revirando os olhos, sem paciência. Ficamos em silêncio por alguns minutos, mas acabei perguntando. – Sobre o quê?
– Sobre você não ser legal.
– Quando ela me conheceu, eu tinha 12 anos. – Contei, revirando os olhos de novo. – Como pode achar que sabe quem eu sou hoje?
– É o que as pessoas dizem de você. – Seth deu de ombros.
– Bom, deixa eu te contar uma coisa, garoto. – Olhei irritado para ele. – As pessoas daqui também não falam muito bem da sua mãe. Gravidez na adolescência, fugir da casa dos pais, sair da escola antes da formatura. Isso definitivamente não atrai fãs. Portanto, não a deixe ficar tão convencida.
– Não fale assim dela! – Ele me deu um pseudo-soco na barriga.
– Belo golpe. – Eu ri de sua tentativa frustrada de me machucar. – Se passar algum tempo comigo, talvez aprenda como fazer isso direito.
– Não, obrigado. – Ele cruzou os braços novamente, emburrado.
– Qual de vocês dois tem cinco anos e meio? – Ouvimos alguém dizer às nossas costas. – Porque, de repente, parece que estou vendo duas crianças.
Olhei para trás e vi olhar divertida para mim. Deveria saber que crianças não estavam na minha lista de coisas preferidas. Ela usava um gorro colorido, casaco, calça jeans escura, luvas e cachecol vermelho. Estava frio, mas não tanto assim. Tanto eu quanto Seth só vestíamos um casaco. provavelmente não era acostumada ao inverno inglês. Bom, esperasse até começar a nevar.
– O que você está fazendo aqui? – Ela não poderia ter escolhido pior hora para uma visita. Eu não estava com humor para lidar com ela ou com aqueles sentimentos... conflitantes.
– Uma delas é muito mal educada, inclusive. – continuou, arrancando um risinho de Seth.
– Muito engraçado. – Revirei os olhos. – Agora responda à minha pergunta.
– Hum. – Ela me olhou franzindo a testa, provavelmente não entendendo minha atitude. Eu estava irritado e precisava provar a mim mesmo que sua presença não me afetava. Precisava provar que eu ainda era o mesmo , mas eu mal me reconhecia. Ela não podia me manipular daquele jeito. Ninguém podia.
– Por acaso meu namorado mora por aqui? – perguntou, erguendo uma das sobrancelhas.
– Talvez ele esteja muito ocupado para receber visitas hoje. – Eu disse, sério. – Talvez você devesse ter ligado para ele ter a chance de não atender.
– Se for assim, talvez eu já não queira ter um namorado. – Ela retrucou, começando a irritar-se com meu tom. – Se for assim, por favor, diga a ele para esquecer o que eu disse na última vez em que nos vimos. Apesar de estar me evitando há dias, acho que ele ainda se lembra.
Meu coração bateu rápido e, então, pareceu parar de funcionar. Eu sabia muito bem o que queria dizer. Não havia jeito de eu esquecer uma coisa como aquela. Eu havia tentado e falhado.
– Não se preocupe, ele nem sequer acreditou. – Eu disse, mas assim que as palavras escapuliram de meus lábios, desejei poder puxá-las de volta. Surpresa passou por seu rosto, depois raiva e, por fim, um olhar que só pude classificar como triste. repousou seus olhos sobre Seth e deu um passou em sua direção.
– Pelos olhos, você só pode ser o filho de Peter. – Ela sorriu fraco, ficando de joelhos e olhando nos olhos dele, aqueles que eram idênticos aos meus. – Muito prazer em conhecer você. – Deu um beijo em sua bochecha esquerda. – Pode fazer um favor para mim?
Ele apenas balançou a cabeça concordando.
– Não deixe que as coisas ruins que acontecerem na sua vida sejam uma desculpa para você se transformar em uma pessoa fria e sem consideração. Não afaste as pessoas que gostam de você. Não tenha medo do amor, nem de se apaixonar. – deslizou uma mão pelos cabelos dele; tinha um olhar intenso no rosto. Não me dei ao trabalho de dizer que Seth provavelmente não estava entendo nada. – Você é muito bonito, igualzinho ao seu pai.
Ela se levantou e me encarou.
– Eu não estou apaixonado. – Aquelas palavras precisavam ser ditas em voz alta. Mas, enquanto eu ouvia, parecia que estavam vindo da boca de outra pessoa.
riu sem humor.
– Obrigada por me deixar saber, . – Ela disse. E eu podia ver que não estava nada agradecida. – Mas eu certamente poderia ter descoberto isso sem a sua ajuda.
Dito isso, simplesmente virou e se foi. Seth olhou para mim, confuso.
– Quem é o namorado dela? – Ele quis saber. A pergunta me pegou de surpresa. Olhei para ele e encarei a inocência em seus olhos. Será que eu também já fora assim? Quando mudara tanto?
– Um idiota. – Respondi, por fim. Antes que eu sequer pudesse pensar em tirar de meus pensamentos, ouvi o barulho de algo quebrando dentro de casa e corri para saber o que estava acontecendo. Quando cheguei à porta, disse a mim mesmo para não ficar surpreso com a cena a minha frente. Peter estava caído sobre a mesinha de vidro da sala, a qual agora estava em pedaços. Olhei para Richard furioso.
– Você ficou maluco? – Gritei e, quando estava pronto para entrar e fazer alguma coisa estúpida, percebi que Seth estava parado ao meu lado, abraçado a minha perna e escondendo o rosto. Suspirei e abaixe-me para passar um braço ao seu redor. – Hey. – Eu chamei baixinho, tentando convencê-lo a olhar para mim. – Não vá chorar e me dar um motivo para rir de você.
Quando Seth finalmente ergueu os olhos, eles estavam marejados. Pela visão periférica, eu podia ver que Peter estava se levantando.
– Vovô não gosta de mim? – Seth perguntou, falando tão baixo que eu mal podia ouvi-lo. Lancei um rápido olhar a Richard que, por acaso, estava imóvel nos assistindo do outro lado da sala. Era a primeira vez que ele via o neto. Eu não conseguia ler sua expressão, jamais seria capaz de adivinhar seus sentimentos.
– Não é pessoal. – Respondi, optando pelo que parecia mais provável. Eu esperava estar errado. Esperava que ver Seth trouxesse de volta alguma coisa há muito tempo morta nele. – Ele não gosta de ninguém.
– Peter... – Virei ao ouvir a voz de meu pai chamar. Meu irmão já havia se recomposto e vinha em direção a Seth. – Eu não tive a intenção de lhe machucar.
Peter parou e encarou nosso pai pelo que me pareceu uma eternidade.
– Eu também não, mas isso não faz a menor diferença para você. – Alguma coisa me dizia que eles já não falavam do pequeno incidente ocorrido ali. Peter pegou Seth no colo, me mandou um rápido olhar e saiu. Quis correr atrás deles, mas controlei o impulso. Entrei em casa e fechei a porta às minhas costas.
– Você está destruindo as nossas vidas. – Eu disse sério, encarando o rosto cansado de Richard.
– Eu não quero mais falar sobre isso hoje. – Ele começou a dar-me as costas, mas eu não permitiria aquilo.
– Não! – Segurei-lhe pelo braço. – Você não pode simplesmente ficar feliz por ele estar de volta?
– Eu nem deveria estar aqui. Só voltei mais cedo porque esqueci um documento importante, vou voltar para Kenilworth ainda esta noite. – Ele foi contando, me ignorando totalmente.
– Isso, faça o que é mais fácil. – Eu disse com desdém. – Fuja. Se mantenha a distância. Vá embora!
– Fácil? – Richard finalmente explodiu. – Acha mesmo que foi fácil ver o meu filho desistir de todos os seus sonhos por uma vagabundazinha qualquer? Ficar todos esses anos sem Peter? Criar você sozinho?
– Rúgbi nunca representou para Peter o que representava para você. – Retruquei, sem conseguir parar de sentir certa amargura pelo meu pai. – Se tivesse sido tão difícil ficar sem ele, você teria respondido suas cartas. – Balancei a cabeça. – Mas não. Você queria castigá-lo por ter desacatado à sua ordem. Você não se importou o suficiente para impedir que ele e Kimberly, ou até mesmo Seth, passassem por necessidades.
– Peter escrevia. Eu sabia que ele não estava passando por nada disso. – Ele respondeu.
– Será que não era nisso que você queria acreditar? – Provoquei dando um passo em sua direção. – E se ele não tivesse escrito para você? Teria ido atrás dele? Teria se dado todo esse trabalho?
Raiva e irritação queimavam em seus olhos.
– Você é um moleque. – Ele retrucou, vindo para cima de mim. – Não fale comigo como se você pudesse ter feito algo diferente.
– O que vai fazer? Vai me bater? – Perguntei, vendo que ele não estava recuando. – Lembre-se que não sou Peter. Eu não vou lhe perdoar.
Richard suspirou e afastou-se, mais cansado do que nunca.
– Você é muito parecido comigo, .
– Não me ofenda. – Eu disse, frio. Já me encaminhava para fora quando me lembrei de acrescentar. – Não fique se fazendo de vítima, não fale de como foi difícil me criar sozinho quando você nem sequer estava por perto. E eu, com certeza, teria feito algo diferente.
Saí de casa querendo poder ter a mesma coragem que Peter havia tido anos atrás ao deixar esta maldita cidade.
– acuado no sofá bem no meio de uma festa? – Perguntou uma garota bonita de cabelos ruivos e encaracolados sentando-se ao meu lado. Quis dizer a ela que festas no meio da semana não eram as mais animadas do mundo, mas fiquei calado. – Uma coisa que não se vê todo dia.
– Não quero ficar com ninguém hoje. – Eu avisei, esperando deixá-la constrangida o suficiente para ir embora.
– Que bom, porque até onde sei, você já tem namorada. – Ela disse, afundando ainda mais no sofá. Bufei.
– Engraçado você saber coisas sobre mim quando não faço idéia de quem você seja. – Retruquei, soando azedo até para mim mesmo.
– Brittany McDermott. – Ela estendeu a mão direita para mim, a qual ignorei.
– Não lembro de ter perguntado. – Eu disse frio.
– Tudo bem, eu costumo ser legal até com pessoas mal educadas como você. – Brittany deu de ombros, como se estivéssemos tendo a conversa mais normal do mundo.
– Você sempre tem aquela tentadora opção de ir embora e me deixar em paz! – Exclamei, começando a ficar irritado com sua presença. Eu não estava precisando de muito para perder o controle.
– E deixar você feliz? Não, obrigada. – Ficou alguns deliciosos minutos em silêncio. – Nossa, como você é convencido!
– O quê?
– Só porque uma garota ruiva e sensual sentou ao seu lado em uma festa, você automaticamente pensou que ela estaria afim de você? – Ela ergueu uma das sobrancelhas.
– Sensual?
A tal de Brittany bufou.
– Sabia que você só registraria essa parte. – Ela revirou os olhos.
– Por que está falando comigo, afinal? – Perguntei de uma vez, entediado.
– Não sei, acho que bebi demais. – Disse e riu, como se para confirmar seu estado de embriaguez. Ótimo, uma bêbada. Isso explicava tudo. – Mas não se preocupe, eu não estou bêbada. – Ela continuou, respondendo aos meus pensamentos. Hanham.
– Não, eu é que estou. – Ironizei, deslizando pelo sofá e tentando me sentar o mais distante possível dela.
– Sério? – Brittany se aproximou de mim novamente e estudou meu rosto por alguns segundos. – Você parece bem para mim, nem parece estar bebendo.
É porque eu não estava! Mas não me dei ao trabalho de dizer.
– Por que não vai atrás dos seus amigos? – Resmunguei, mais para mim mesmo do que para Brittany.
– Porque não tenho nenhum. – Ela deu de ombros. – É difícil fazer amizade quando as pessoas estão ocupadas demais fingindo que você não existe. Não que já tenha sentindo algo parecido. – Ela revirou os olhos.
– Deve existir ao menos uma pessoa... – Tentei, porém parei assim que vi Brittany negar com a cabeça. – Bem, eu sinto muito, mas não posso fazer nada.
– Ah, eu sei, não se culpe. – Ela disse, divertida, mas fazendo parecer que eu deveria sim me culpar. – Nem você tem amigos. Não de verdade.
– Claro que você diz isso baseado no seu grande conhecimento sobre a minha vida. – Olhei bem para ela, começando a duvidar que estivesse mesmo bêbada. – É só a minha imaginação, ou eu realmente acabei de te conhecer?
– Espertinho. – Ela riu e deu um tapa no meu braço. Hm, não entendi. A palavra louca simplesmente surgiu na minha mente. – Acha que se você não fosse um bom jogador de Rúgbi as pessoas ainda prestariam atenção em você?
– Rúgbi é só uma parte de quem eu sou. – Respondi, na defensiva. Não sabia por que estava perdendo tempo argumentando com uma desconhecida, mas de repente me achei desejando sua aprovação. Eu só queria estar certo, só queria que ela concordasse, que entendesse.
– Ah, é? – Brittany me lançou um olhar duvidoso. – E o que mais tem a oferecer? Porque, me desculpe por dizer isso, mas, fora o Rúgbi, não ouso mais nada sobre você. Não coisas boas, pelo menos.
Por que todos pareciam dizer-me sempre as mesmas coisas? Será que eu era tão ruim assim? Fiquei calado por alguns segundos, pensando. A quem estava querendo enganar? É claro que eu era. Até pior, talvez. Mas eu gostava disso, não gostava? Não era bom que me respeitassem? Exceto que eu não sabia que não se tratava de respeito e, sim, de medo. Mas não acabava sendo a mesma coisa?
– Por que devo me importar com os outros quando eu tenho tudo o que quero? – Dei de ombros. – E, acredite ou não, eu tenho amigos.
– No plural? – Ela ergueu uma sobrancelha.
– Sim. – revirei os olhos. – , e . Deve saber quem são, também estão no time.
– é um idiota, assim como você, todos o conhecem. – Sua vez de revirar os olhos. – Agora, por e você quer dizer e ? – Ela me olhou surpresa. – não é aquele pobre garoto que você perseguiu por anos? E o menos querido do seu time? Aliás, não era ele que dava em cima da sua namorada?
– é um idiota, assim como eu? Ou todos o conhecem, assim como eu? – Ergui as sobrancelhas.
– Ambiguidade. – Ela riu, balançando os ombros. – Entenda como quiser, os dois servem. – Ficou séria de novo. – Não sei o que e estão fazendo com você e , eles eram... legais. Não que eu já tenha falado com eles, mas vocês são diferentes. Simplesmente não funciona.
Bufei, novamente irritado com sua presunção. Brittany falava como se nos conhecesse. O que, é claro, não era o caso.
– Em dez minutos você já se fez de bêbeda, de vitima, de sabe-tudo, mas quer saber? – Perguntei, me inclinando em direção a ela. – Você é uma grande fofoqueira. Não tem amigos porque está ocupada demais tomando conta da vida dos outros. Vá embora e pare de falar do que não sabe.
Ela me olhou surpresa, mas não surpresa do tipo chocada, como eu teria gostado. Apenas surpresa, uma pequena curiosidade cruzando seus olhos.
– Eu gosto de você, . – Ela declarou, por fim. Bufei de novo, dessa vez de frustração. Eu sabia o que Brittany queria dizer, porque, de alguma forma, o mesmo acontecia comigo. Eu também gostava dela, não de uma forma romântica, é óbvio, era mais como uma simpatia.
Porém, eu ainda queria que ela me deixasse em paz. E estava prestes a fazer uma nova tentativa de mandá-la embora quando avistei . Meu coração retumbou, mas me esforcei para focar meu olhar na garota a minha frente.
– Me beije. – Eu disse de repente, chegando mais perto de Brittany, já a envolvendo em meus braços.
– O quê? – Ela arregalou os olhos, parecendo mais sã do que esteve a conversa toda. – Ok, esqueça o que eu disse. Não gosto de você tanto assim.
– Não seja idiota. – Eu revirei os olhos. – Eu não quero te beijar.
E realmente não queria, mas era justamente por isso que eu precisava. ainda não estava tão impregnada em mim que eu não fosse mais capaz disso. Eu precisava beijar outra garota.
– Então o que é isso? – Brittany perguntou, um pingo de ultraje passando por sua voz enquanto eu a puxava para mais perto, ao mesmo tempo que ela espalmava as mãos em meu peito em protesto. estava avançando pela casa, a qualquer momento ela estaria perto o suficiente para nos ver. Não me importava.
– Você não pode ficar quieta e aproveitar a sua sorte? – Retruquei, conseguido imobilizar Brittany. Hm, certo, isso não havia soado muito bem.
– Sorte? Não sei se isso sempre funciona com as outras, mas eu... – Finalmente colei sua boca contra a minha, calando-a de vez. Esperei por aquela velha sensação de urgência que sempre me invadia quando os lábios de estavam contra os meus, esperei que meu coração acelerasse, esperei que meu corpo sentisse alguma coisa, qualquer coisa, mas nada veio. Só uma sensação de vazio. Parti o beijo e deixei que Brittany se afastasse de mim, eu podia ver que ela estava prestes a dizer alguma coisa quando seus olhos encontraram parada bem diante de nós.
– Eu estou ocupado. – Eu disse, sendo propositalmente frio e distante, do mesmo modo como a havia tratado mais cedo.
– Comigo? – Brittany perguntou, chocada, pondo uma mão sobre o peito de forma dramática.
– Eu estou vendo. – me respondeu, olhando de Brittany para mim com nojo. – É nisso que esteve ocupado nos últimos dias?
– Não com ela em específico. – Dei de ombros, esperando que pegasse a deixa. Claro que eu estava mentido.
– Bem, então é meio que um costume seu atacar as pessoas desse jeito? – Brittany perguntou de novo. Cale a boca!, senti vontade de gritar. franziu a testa e olhou para mim, questionando. Ela não parecia tão triste quanto eu gostaria de ver.
– Você já pode ir. – Eu disse a Brittany, esperando que meu olhar fosse o bastante para fazê-la entender que eu não estava brincando. – Agora.
Ela me olhou irritada, cruzou os braços e, o mais importante, não moveu um músculo do lugar. Ótimo.
– Ele me beijou. – Contou a , apontando para mim. – Foi, tipo, do nada. Juro. Ele simplesmente me agarrou.
– provavelmente não resistiu ao seu charme. – disse entre dentes, olhando com raiva para mim.
– Ou talvez ele apenas tenha percebido que não quer um relacionamento. – Eu disse, me levantando e encarando-a de frente. – Não com uma garota só, pelo menos.
Não importava a imagem que estava tentado passar ou o quanto estivesse se controlando, agora eu podia ver que seus olhos começavam a ficar brilhantes e que ela estava lutando para não piscar, para não deixar que as lágrimas escapassem. Ótimo, era o que eu queria ver. Irracional, eu sei.
– Eu vou, hm, deixá-los. – Brittany finalmente se levantou, mas, antes de ir, virou-se para . – Lembre-se, ele é um idiota. E, cá entre nós, nem beija tão bem assim.
Ignorei seu último comentário. deu-lhe um pequeno, quase imperceptível, sorriso e concordou com a cabeça.
– O que está acontecendo? – Ela exigiu saber assim que Brittany sumiu de nossas vistas.
– É o que não está acontecendo. – Eu disse, indiferente. – Eu não estou apaixonado.
Pude sentir alguns olhares curiosos serem direcionados a nós.
– Você está ficando repetitivo, não acha? – Ela retrucou, mas era possível ouvir a mágoa disfarçada em sua voz. – Me diga algo que eu não saiba.
Você pode fazer isso, ! Uma voz gritou em minha mente. Ainda há tempo!
Não, era tarde demais, mas precisava ser feito do mesmo modo. Talvez, e apenas talvez, ainda houvesse esperanças.
– Eu estou terminando com você. – Eu disse, lentamente, esperando que entendesse claramente.
– O quê? – Sua voz não passava de um sussurro. E, como sempre acontecia quando ficava nervosa, seu rosto começava a empalidecer. Outro motivo para acabar com aquela farsa. nunca me contara sobre sua doença. Ou o motivo pelo qual havia vindo parar em Rugby.
– Não me faça repetir. Por favor. – Pedi, balançando a cabeça. Eu estava certo que já tínhamos uma platéia ao nosso redor. – Você me ouviu.
– Mas por quê? – Desviei o olhar quando lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.
– Eu não fico com garotas apaixonadas. – Respondi, frio, apesar de me sentir mais vivo do que nunca. Felicidade e tristeza eram sentimentos opostos, mas que podiam ser de igual intensidade. Uma intensidade que o fazia sentir vivo, pelo simples fato de sentir.
Não fiquei para ver sua reação. Não conseguia encarar seus olhos. Eu precisava ficar bêbado e me esquecer de tudo o que havia acontecido naquele dia.
Eu estava sozinho em casa e já passava das três da manhã quando ouvi a campainha tocar insistentemente. Amaldiçoei quem quer que fosse por tocá-la daquele jeito. Cada toque era como uma martelada em minha cabeça. Resmunguei mais uma vez e esperei que a pessoa finalmente desistisse. Estava frio e chovendo lá fora, não ficaria surpreso por encontrar neve na calçada pela manhã. Mas, para o meu pesar, ou a pessoa era muito insistente, ou muito corajosa por vir me perturbar no estado em que eu me encontrava. Levantei-me, me dando conta de que não estava deitado na cama, com era de se esperar, e sim, ao lado dela. No chão. Bufei.
Que decadência. Quando eu havia ido parar tão baixo? Sem trocadilhos.
Peguei a garrafa de vodka quase vazia em cima da cama, sem deixar de sentir uma leve tonteira no processo, e jogando-a no lixeiro do corredor. Enquanto eu andava, notava como o estupor inicial da bebida havia passado e me deixado com uma dor de cabeça dilacerante.
– Já estou indo! – Gritei, irritado com a falta de espaço entre os toques. Por Deus, era quase quatro da manhã! Era bom que alguém tivesse morrido.
Quando abri a porta da frente, meu coração parou e, então, começou a bater desesperadamente. Aquilo estava ficando frequente.
E eu precisava de mais bebida.
– Como pôde fazer aquilo comigo? – gritou ao me ver. Ela estava uma bagunça. Cabelos para todas as direções, maquiagem borrada, com direito a rímel escorrido e tudo. Porém, o que mais me preocupou foram seus olhos. Eles estão vermelhos quase sangue, como se estivesse chorando sem parar há horas. Suas roupas por alguma razão estavam sujas e amassadas. Mesmo com sua aparência desastrosa, senti vontade de beijá-la.
– Meu Deus, o que aconteceu com você? – Perguntei, tendo o cuidado de parecer apenas ligeiramente surpreso. – Você foi assaltada?
– Não venha dar uma de cínico para cima de mim, . – Ela me advertiu. – E não fuja do assunto!
– Não temos nada para discutir, . – Eu disse frio, vendo mágoa chegar aos seus olhos. – Você não é bem-vinda na minha casa.
E, com isso, fechei a porta na sua cara.
Ela precisava ir embora.
Eu não podia ser tentado.
Sentei-me no chão, com as costas encostadas na porta, e fechei os olhos quando recomeçou a tocar a campainha.
– Você fez tudo de propósito! – Ela gritou, socando a porta. E provavelmente acordando todos da rua. – Beijou aquela garota para que todos vissem! Fez aquela cena toda para que todos soubessem como você não está apaixonado por mim! Para que soubessem que ainda é o mesmo cretino de sempre! É assim que você quer ser lembrado?
A essa altura, ela já havia parado de bater os pulsos contra a porta, mas continuava a gritar. estava chorando de novo, eu podia ouvir a sua voz falhando aqui e ali.
– Quem você queria convencer? – Ela prosseguiu. – Eu? Os idiotas dos seus amigos? Ou você mesmo?
Apoiei a cabeça contra a porta e suspirei fundo, sentindo uma sensação fria nascer em meu peito e se espalhar pelo resto de meu corpo. Abri os olhos e senti uma ardência incômoda neles.
– Você é um covarde, ! – deu um fraco soco na porta, começando a ficar sem forças. Ela fez uma pausa; eu podia ouvir seus soluços vindo do lado de fora e chegando em mim como um soco no estômago. O que eu estava fazendo com ela? – Você não consegue encarar os próprios sentimentos! – Ela continuou. – Eu odeio você. – disse, sussurrando, sua voz tão baixa que talvez eu não houvesse ouvido caso não estivesse tão próximo de onde ela estava. A forma simples e desprendida a qual pronunciou as palavras, como se acabasse de fazer uma descoberta, me fizeram pensar que poderia sim me odiar. Ela tinha todos os motivos. Eu não sabia se poderia conviver com isso.
– Então o que você está fazendo aqui? – Perguntei abrindo a porta tão de repente que deu um passo para trás, em surpresa. – Por que está gritando na frente da minha casa em plenas quatro horas da manhã? – A cada pergunta, eu dava um passo em sua direção. – Por que está chorando desse jeito? Por que não me deixa em paz?
Já não havia espaço entre nós. Sua barriga roçava perigosamente contra a minha, sua respiração pesada batendo em meu rosto de leve.
– Não consegue ficar sem mim? – Inclinei meu rosto contra o seu, deslizando meu nariz por sua bochecha. – Não consegue ficar sem o meu toque?
Passei as mãos por seus braços, tocando-a apenas com a ponta dos dedos, subindo até que chegasse ao seu cabelo e a segurasse com firmeza, trazendo para mais perto, praticamente colando nossos corpos. inclinou a cabeça ligeiramente para trás e entreabriu os lábios, olhando-me nos olhos.
Devolvi o olhar com toda a intensidade de que fui capaz.
– Se é isso, é melhor você se acostumar. – Eu disse, tirando minhas mãos dela, mas ainda ficando muito próximo. Vi a realização de minhas palavras chegar até ela. me empurrou para longe, me acertando um tapa logo em seguida. Quando sua palma atingiu o meu rosto, senti uma fúria tão grande que temi não ser capaz de domá-la.
E, sem conseguir me controlar, trouxe-a para perto de mim novamente. Dessa vez, colocando sua boca contra a minha de uma vez; sem paciência para continuar com aquele jogo.
– Eu tenho nojo de você! – Ela disse entre meus lábios, debatendo-se apenas por alguns segundos antes de render-se ao beijo, sentindo tanto desejo quanto eu.
Puxei-a para dentro de casa, já não suportando o vento frio que passava por ali.
Nos beijamos pelo o que me pareceram horas. Minhas mãos deslizando por todo seu corpo enquanto pressionava-me contra ela. Eu podia sentir seus seios subindo e descendo rapidamente graças à respiração pesada, podia sentir seus dedos entrelaçados em meu cabelo, sua boca movimentando-se harmoniosamente com a minha. Com um impulso, rodeou as pernas em volta de minha cintura, começando a distribuir beijos por meu pescoço. Fechei os olhos por alguns segundos enquanto pensava no próximo passo.
Aquela era a oportunidade perfeita. Não era exatamente isso que eu vinha querendo por meses? Não era esse o objetivo?
Abri os olhos, encaminhando-me para a escada, tendo certa dificuldade em concentrar-me nos degraus. Quando chegamos ao meu quarto, voltou a pôr os pés no chão, me lançando um olhar cheio de significados enquanto entrava e puxava-me pela mão.
Diferente de como as pessoas deveriam imaginar, eu não trazia garotas para casa. Sempre achara... pessoal demais. era a segunda garota a vir aqui, sendo a primeira Samantha. Mas levando-se em conta que Sam costumava morar na casa ao lado e que nos conhecíamos desde sempre, ela não contava. E eu nunca dormira com ela. Não aqui, pelo menos.
olhava ao redor com curiosidade, notando a pequena bagunça sobre a mesa junto a janela. Papéis que eu já nem sabia do que se tratavam.
– Você provavelmente deveria ir embora. – Eu disse, apenas para ganhar sua atenção.
– Provavelmente. – Ela concordou, vindo em minha direção e recomeçando o beijo. Passei a língua por seus lábios, obtendo passagem quase que imediatamente. Dei alguns passos, sem nunca deixar de tocar sua boca com a minha, e sente-me sobre a cama, fazendo com que ela entrelaçasse suas pernas pela minha cintura novamente e se sentasse sobre o meu colo. arfou ao sentir meu já avançado estado de, hm, empolgação. Desci meus lábios por seu pescoço, enquanto minhas mãos deslizavam pelas suas pernas lentamente e invadiam seu vestido. Meus dedos brincaram com o elástico de sua calcinha, mas apenas por alguns segundos, e então continuei a subir o vestido até que finalmente conseguisse tirá-lo de todo. Segurei pelos pulsos, afastando suas mãos de meu corpo ao mesmo tempo em que parava de beijá-la.
– O quê? – Ela sussurrou confusa. Limitei-me a dar um sorriso mal intencionado enquanto encarava seus seios, cobertos apenas pelo fino tecido do sutiã. deu uma risada rouca, divertindo-se com alguma coisa em minha expressão, mas sua risada morreu assim que libertei seus braços e ela movimentou ligeiramente seu quadril contra o meu; arrancando um gemido de nós dois.
Eu a desejava, o que não teria sido segredo para ninguém naquele momento, mas estava a um passo de desistir de tudo. Enquanto as mãos de se ocupavam em livrar-se de minha camisa, me perguntei o que eu faria no dia seguinte. Sabia o que supostamente deveria fazer, mas eu seria realmente capaz?
Suas mãos frias deslizaram pelo meu peito já nu, causando um arrepio pela minha pele. Com um movimento rápido, coloquei sobre a cama e me deitei sobre ela, tendo o cuidado de não sufocá-la com o meu peso. Repousei meu rosto no espaço entre seu ombro e pescoço, enquanto encaixava nossos corpos e movimentava repetidamente meu quadril contra o seu. Ela levou uma das mãos aos meus cabelos, puxando-os com urgência. Levantei o rosto para encará-la, ainda em tempo de ver a expressão de êxtase em seu rosto.
– ? – Chamei, incerto, ao encontrar seu olhar. – Eu deveria saber de alguma coisa? Eu não quero lhe machucar. – Eu disse e, de repente, senti como se meu rosto estivesse ficando quente. O que, é claro, era um momento muito raro para mim. – Você é, hm, virgem?
mordeu seu lábio inferior e eu podia ver que estava esforçando-se para não rir. Mas, ao invés de responder, ela deslizou as mãos pelo meu corpo até chegar a minha boxer, única peça de roupa restante em mim, e invadi-la da mesma forma como eu havia feito com seu vestido. Fechei os olhos sentindo seus dedos massagearem-me levemente. Sem saber se poderia aguentar por muito mais tempo, afastei suas mãos e livrei-me daquela última peça de roupa, concentrando-me em fazer o mesmo com ela. Quando já começava a achar que aquela seria a única resposta que conseguiria de , ela disse:
– Eu não sou. Você não tem que se preocupar com nada. – Ela tinha um olhar triste em seus olhos, quase como se pudesse chorar a qualquer momento. – Mas eu adoraria poder voltar no tempo e fazer de você o meu primeiro cara.
Eu também, percebi. Eu também gostaria de ter sido o primeiro. Gostaria de saber que, não importaria quantos viessem depois de mim (não muitos, eu esperava), eu sempre seria o primeiro.
Quis fazer fazer mais perguntas, mas alguma coisa me dizia que aquela não era a melhor hora.
– Não dizem que quem realmente importa é o último? – Brinquei, fazendo-a sorrir. Inclinei o rosto e voltei a beijá-la.
Enquanto nos tornávamos um, esqueci de todos os segredos entre nós. Aquele momento se sustentava por si só. Lembro de refletir sobre o quanto havia sido ingênuo ao pensar que poderia evitar que aquilo viesse a acontecer. Algumas coisas você simplesmente não podia controlar. Lembro-me de pensar que eu estava errado. podia estar apaixonada por mim, mas isso não a fazia igual a todas as outras. Podia não ser a primeira garota a dizer-me aquilo, mas, certamente, era a primeira a ser correspondida. Eu estava desistindo; já não havia mais por que continuar a negar aquilo. Eu estava apaixonado.
TWENTY FIVE
(Aconselho ir botando pra carregar: Broken do Lifehouse. Vão precisar no capítulo vinte e seis)
6:20 A.M
Acordei, mas não abri os olhos imediatamente. Sentia um dos braços de ao redor de meu corpo, minhas costas pressionadas contra o seu peito e seu cheiro intoxicante exalando dos lençóis. Sem falar do carinho gostoso que sua respiração fazia em meu pescoço. Céus, eu estava encrencada. me mataria assim que descobrisse.
Lentamente, desvencilhei-me de seus braços e sentei sobre a cama. Passei as mãos pelo meu rosto e suspirei, tentando organizar meus pensamentos. O que eu diria aos meus tios? Com todos os acontecimentos da noite passada, eu esquecera completamente que deveria voltar para casa. Já não podia sequer dizer que havia dormido na casa de , visto que era muito provável que havia estado com ela ontem. Ótimo, sem álibi.
Olhei para , que agora dormia de peito para cima, e mordi meu lábio inferior. Enquanto o encarava, o pensamento frenético de “Meu Deus, eu dormi com ele!” era a única coisa que rondava minha mente. Ao me levantar, eu acidentalmente o havia descoberto; deixando a mostra sua boxer preta, junto com seus ombros largos e seu peitoral bem cuidado. Não pude evitar o impulso de passar meus dedos por seu cabelo bagunçado e deslizar uma de minhas mãos por seu corpo, uma parte de mim desejando que ele acordasse e a outra desejando que eu saísse dali o mais rápido possível.
fora tão carinhoso, tão fofo ao perguntar se deveria ser cuidadoso e tão atencioso, me dando total atenção e fazendo de tudo para que eu aproveitasse o momento tanto quando ele que eu não conseguia me arrepender. Mesmo que as coisas não dessem certo, eu nunca me arrependeria daquilo. Céus, agora eu entendia porque todas o queriam! sempre me alertara para que eu jamais deixasse que as coisas chegassem àquele ponto, sempre me dissera ser um caminho sem volta. E agora eu entendia o que ela queria dizer.
Só de olhar para ele, só de lembrar a maneira como suas mãos grandes e determinadas haviam explorado meu corpo, aquelas que sabiam exatamente onde me tocar, eu já sentia um frio gostoso na barriga e uma vontade de rir incontrolável. Era aquilo que chamavam de felicidade? Era aquilo que chamavam de amor? Mas eu não estava apaixonada por , havia passado por muitas coisas para deixar que aquilo acontecesse. Certo?
Muito cuidadosamente, levantei-me da cama. Olhei ao meu redor e, sem fazer barulho, vasculhei o quarto a procura do que havia estado me pedindo há semanas. Não conseguia deixar de sentir-me uma traidora enquanto remexia nas coisas de . Ele iria me odiar tanto! Mas esse era o objetivo, não era? Verdade seja dita, eu já não sabia o que estava fazendo.
Como eu poderia fazer o que pedia se apenas olhar para ele fazia meu corpo todo ficar quente? A noite de ontem havia sido tão confusa! Vê-lo com outra havia doído mais do que eu gostaria de admitir. estivera tão focado em dizer e demonstrar que não estava apaixonado, me tratara como sempre dissera que ele faria, mas depois... Não importava o quanto ele negasse, eu não acreditava que não estivesse emocionalmente envolvido. De novo, aquela era apenas mais uma parte do plano.
Eu não tinha tempo para conflitos internos, de uma forma ou de outra, procuraria o que dizia ser essencial para nosso plano e pensaria nos riscos mais tarde.
Quando começava a desejar falhar em minha missão de busca, de forma que estaria livre da escolha entre fazer ou não fazer aquilo, eu finalmente achei. No lugar mais óbvio possível, mas que eu idiotamente havia deixado para olhar por último. Quando começasse a me julgar por ter dormido com , eu ao menos teria aquele pedaço de papel como desculpa. Afinal, de que outro jeito eu entraria na casa dele? Invasão de propriedade privada era muito para mim.
Enquanto me vestia (sim, eu havia estado todo esse tempo apenas de calcinha e sutiã, mas quem liga?), não pude deixar de pensar novamente o quanto me detestaria pelo o que eu estava prestes a fazer. Balancei a cabeça dizendo a mim mesma que eu tinha preocupações mais urgentes que aquela. Tal como o que eu diria aos meus tios. Não era como se eu tivesse muitos amigos a quem recorrer. e estavam fora de questão. Deus, morreria do coração antes mesmo que eu pudesse terminar de falar. há muito tempo já não era um grande fã meu. E mesmo que fosse, eu simplesmente não o via encobertando-me por ter dormido com .
O único que restava era , mas eu não via como ele poderia me ajudar. E, apesar de gostar dele, nós não éramos tão próximos assim. Foi aí que lembrei-me da garota ruiva de ontem. Sei que deveria odiá-la por ter estado beijando o meu namorado, mas, conhecendo , era muito provável que ela fosse mais vítima do que culpada. Ela definitivamente não era minha primeira opção, mas situações desesperadas pediam medidas desesperadas. O problema era: eu não sabia o seu nome. Ela estava na minha turma de educação física e eu só lembrava-me dela por ser a garota que sempre dizia estar naqueles dias para escapar dos exercícios. Bernardet? Não, era algo muito mais como Brianna, Bridget... Brittany! Isso. Seu nome era Brittany McDermott, atualmente conhecida como meu álibi.
7:01 A.M
Quando saltei do táxi e entrei em casa, ainda eram sete horas. Bem a tempo para me arrumar para ir ao colégio. Não que eu estivesse muito ansiosa para isso. Com muita sorte, consegui chegar ao meu quarto sem cruzar com ninguém pelo caminho. Tomei um banho rápido, vesti o uniforme do Rugby School e passei pela cozinha apenas para dar bom dia aos meus tios, visto que já estava quase atrasada. Não sei se foi por não perceberem que eu não havia passado a noite em casa ou se foi por falta de tempo, mas nem a mãe ou o pai de questionaram meu comportamento.
– Onde você esteve? – perguntou assim que entramos no seu carro. – Meus pais podem não ter percebido, mas sei que não dormiu em casa.
Argh! Claro que seria quem falaria alguma coisa, por que eu ainda estava surpresa?
– e eu brigamos ontem. – Contei, o que não era mentira. – E eu meio que bebi demais depois disso. – Isso também não era mentira. – Então, acabei indo para a casa da Brittany.
– Brittany? – franziu a testa, não duvidando, apenas estranhando. Eu nunca havia falado nela antes.
– Não somos exatamente amigas. – Um pouco de verdade nisso tudo não faria mal. – Mas ela é legal e me ajudou.
Eu precisava encontrar um jeito de fazer Brittany mentir por mim, caso quisesse checar minha história. provavelmente cuidaria disso melhor do que eu, mas eu não queria pedir sua ajuda. Isso apenas lhe daria mais motivos para achar que tinha direito de me dizer o que fazer. Ela podia ser tão irritante às vezes!
– ? – chamou quando saltamos no estacionamento do colégio. Ele havia estado sério e calado o caminho todo. Quando olhei para ele, eu soube que seja lá o que ele tinha para dizer, ele estava preocupado comigo. Quando cheguei a Rugby, eu estava com raiva e revoltada com todos. E, apesar de ser meu primo, nós nunca tínhamos sido próximos. Afinal, morávamos em continentes diferentes. Mas agora... com certeza era uma das pessoas mais importantes da minha vida.
– O que está preocupando você? – Perguntei, de uma vez.
– me ligou e contou os... rumores. – Ele respondeu.
– Que rumores? – Senti meu coração descompassar e meu sangue gelar.
– Vocês não só brigaram, . – disse, visivelmente desconfortável. – Quando termina com alguém, ele não volta atrás.
Um grande aílivio passou por todo o meu corpo. Por um momento... Por alguns segundos... Pensei que diria que havia espalhado e contado para todos o que fizemos. Era o que sempre dizia que ele fazia, era o que ele havia feito com ela.
– Só não fique muito surpresa caso ele estiver com outra garota hoje. – continuou, mas eu já não o estava ouvindo, porque, naquele momento, nos acabávamos de cruzar os portões e, logo ali na entrada, estava em todo o seu charme e esplendor. Seu cabelo sendo bagunçado pelo vento, o blazer preto do uniforme definindo perfeitamente seus braços e ombros. Meu Deus, eu dormi com ele! O pensamento veio, mas dessa vez com um tom de orgulho que não havia feito presença antes. E, assim que me viu, um sorriso mal intencionado e cheio de significados se abriu em seu rosto, como se ele estivesse pensando em todas as coisas que fizemos ontem.
Mesmo sabendo que era patético e que estava fazendo uma cena, não contive o impulso de correr diretamente para os seus braços. me abraçou forte, escondendo o rosto em meus cabelos e depois olhou bem nos meus olhos, naquele seu jeito intenso e misterioso que me fazia desejar poder ouvir seus pensamentos. Sem dizer uma só palavra, ele me beijou.
Correspondi assim que seus lábios tocaram os meus. E só pela forma com a qual me beijava, eu sabia que a noite passada também havia mudado alguma coisa nele. Ele jamais espalharia, jamais arruinaria o que vivemos. E o mesmo poderia ser dito de mim, percebi. Que Deus me ajudasse, porque eu estava completamente apaixonada por ! poderia dizer o que quisesse, mas, a partir daquele momento, eu nunca mais faria nada que pudesse vir a prejudicá-lo. deslizou uma mão por minhas costas e mordiscou meu lábio inferior, quebrando o beijo. Olhei no fundo de seus olhos ; ele sorriu novamente, agora passando uma das mãos por meu cabelo.
– Não sorria para mim desse jeito, seu idiota. – Eu disse, dando um soquinho em seu braço e tentando disfarçar minha falta de ar. É claro que não perderia a chance de rir de mim. Murmúrios e cochichos borbulhavam ao nosso redor, e eu podia sentir a atenção de grande parte das pessoas ali voltada para nós. Argh, perdedores!
– Você não me deixou nenhum bilhete. – Ele comentou, ainda com o mesmo sorrisinho charmoso nos lábios. Ignorando totalmente os olhares que estávamos chamando.
– Desculpe. – Pedi, jogando-me novamente em seus braços e entrelaçando seus dedos nos meus. Eu lhes daria um motivo para olhar. – Eu estava com pressa.
Aquela era uma meia verdade e uma meia mentira, mas não tinha como saber.
– Se você tivesse me acordado, ainda estaríamos na cama. – Ele provocou, falando baixinho no meu ouvido. – Eu adorei aquela coisa que você fez com suas costas.
– ! – Exclamei, morrendo de vergonha, e fazendo-o explodir em uma gargalhada. Podia sentir meu rosto ficando quente. – Vamos mudar de assunto.
– Tarde demais para começar a ter vergonha de mim, . – Ele brincou, roubando-me um selinho logo em seguida. Revirei os olhos, mas sem conseguir conter um sorriso.
– Vocês têm problemas. – Viramos ao ouvir um totalmente confuso dizer. – As pessoas estão dizendo todo o tipo de coisa. O que vocês não estão me contando?
– Talvez você queira cuidar da sua própria vida, . – retrucou, repentinamente de mau humor, e olhando para além de . acabava de chegar e vinha em nossa direção.
– Você não tem motivos para não gostar dela. – resmungou, na defensiva.
– Sim, claro. é um doce. – ironizou, revirando os olhos. – Ela te tem pelas bolas, cara. Minha vez de revirar os olhos.
– Eu ainda estou aqui, . – Eu disse, cruzando os braços. olhou para mim, fazendo uma careta.
– Desculpe. – Ele pediu, e me deu um selinho, sorrindo para mim.
– Mas o que foi isso? – olhou chocado para nós. – Quem tem quem pelas bolas, afinal?
não teve tempo para responder, foi em direção a antes que ela chegasse até nós. Eu mal estava conseguindo conter uma risada quando resmungou:
– Isso não é engraçado. – Ele disse, e eu soube que ele não estava brincando. Para o bem ou para o mal, foi exatamente esse o momento que escolheu para pegar de guarda baixa e pular em suas costas. – , seu idiota!
– Não seja tão diva, ! – brincou, rindo, e provavelmente não notando o risco de vida que estava correndo. Mas gostava demais dele para começar uma briga, por isso, apenas bufou. – Eu tenho boas notícias!
– Estou ansioso para ouvir. – retrucou, usando uma expressão entediada que dizia exatamente o contrário.
– Estou vendo. – ironizou, começando a ficar irritado com o descaso do amigo. Estava ficando cansada só de assisti-los. – Enfim, só vou contar quando estivermos todos juntos. Eu, você, e . É uma coisa da banda.
– Hey, eu estou indo para minha aula. – Eu disse a quando vi e virem em nossa direção. – Nos vemos mais tarde.
Ele apenas concordou e me deu um beijo demorado nos lábios. Lancei um rápido sorriso para e fui embora.
7:29 A.M
A despeito do que havia dito a , não fui direto para minha sala, como eu gostaria. Conforme eu andava pelos corredores, mais atenção eu ganhava. Se fosse em outros tempos... Deus, como eu havia sido fútil! Eu sabia muito bem como era ser popular, como era ter todos aos seus pés fazendo tudo o que você desejasse. Mas sempre odiei a parte em que as pessoas acham que podiam falar da sua vida, como se você fosse uma espécie de propriedade pública. De qualquer forma, popularidade nunca me fizera nenhum bem. Apesar de que, pensando melhor, não poderia culpar ninguém a não ser eu mesma por tudo o que acontecera na Califórnia.
Portanto, acabei entrando no primeiro banheiro que encontrei pelo caminho. Precisava ficar alguns minutos longe da vista curiosa dos outros. Agora que eu sabia como era ser anônima, não havia nada no mundo que me fizesse querer mudar o meu status. Claro que estando com seria difícil manter-me à margem, mas este era nosso último ano e em poucos meses estaríamos fora daqui. Olhe para mim, fazendo planos para o futuro. Que patética você, .
Enfim, o que estava querendo dizer é que não existia nada melhor do que a liberdade que o anonimato lhe proporcionava. Era bom ter aquela sensação uma vez na vida, mas levando em conta todos os olhares que recebi hoje, achava que minha paz não duraria muito. Eu já deveria estar acostumada; desde que me envolvi com , venho recebendo mais atenção do que gostaria, porém, alguns dias sempre pareciam piores que outros.
Olhei-me no espelho do banheiro e quase morri de susto quando Samantha surgiu repentinamente de uma das cabines.
– Então você dormiu com ele. – Ela disse, sem fazer rodeios.
– O quê? – Como ousava perguntar-me aquilo e naquele tom? Como se soubesse de tudo e, pior, como se conhecesse melhor do que eu.
– Não se faça de idiota. – Ela mandou, entre dentes. – Eu estava lá, vi como ele terminou com você. Só uma coisa o faria ficar de tão bom humor hoje.
– Você não sabe de nada. – Respondi, sendo o mais vaga possível. – e eu estamos juntos. Quando vai superar isso? Não importa que você o conheça há mais tempo do que eu, você é passado.
Samantha bufou.
– Por favor, não seja hipócrita. – Ela debochou. – Não venha falar de amor próprio quando você foi correndo dar para ele assim que viu não ter outro jeito de mantê-lo entretido. Acredite, eu sei como isso funciona. Estive jogando esse jogo há anos.
– Eu não duvido. – Retruquei, olhando-a com nojo. – Mas não pense que sou igual a você.
– Claro que você não é! – Samantha exclamou, parecendo surpresa por eu ter sequer considerado isso. – Você é pior. Você acha que ele gosta de você, mas, querida, isso está fora do seu alcance. O mundo que conhecemos acabará no dia em que estiver apaixonado por mais alguém além de si mesmo.
– Não seja tão dramática. – Revirei os olhos. – E se o acha tão ruim assim, por que simplesmente não nos deixa em paz?
– Porque eu o amo com todos os seus defeitos e qualidades! – Ela explodiu. E pela primeira vez, vi uma sombra de tristeza passar por seus olhos.
– Eu sinto muito. – Eu disse sincera. Como seria ter por todos aqueles anos, apenas para ver uma garota estranha chegar e tomar o seu lugar? Mas, como a própria Samantha dissera, não gostava dela. Era de se esperar que cedo ou tarde aquilo acontecesse.
– Não ouse sentir pena de mim! – Ela gritou. – Porque eu não terei de você. Agora que já teve o que queria, é apenas questão de tempo até que lhe descarte.
– E acha que ele vai voltar com você? – Perguntei, rindo daquela possibilidade.
– Eu tenho certeza.
– Você não passava de sexo fácil para ele. – Eu disse. E realmente acreditava naquilo. Ficar com Samantha era cômodo para . Tanto Samantha quanto eu viramos ao ouvir uma descarga soar e uma garota alta e ruiva sair de dentro da última cabine.
– Não sabem como é difícil me concentrar no meu serviço com vocês duas discutindo aí. – Brittany disse, descontraída, enquanto lavava as mãos. Ótimo, eu precisava mesmo falar com ela.
– Não seja nojenta, sua perdedora. – Samantha desdenhou.
– Bem, não sou eu que está sofrendo de um grave caso de dor de cotovelo, sou? – Brittany respondeu, seu jeito naturalmente cômico me divertindo.
– Certo. Era sua irmã gêmea o beijando ontem? – Samantha perguntou, erguendo uma sobrancelha.
– Quando vão esquecer isso? – Brittany bufou, como se já tivesse respondido aquela pergunta um milhão de vezes. – Ele me beijou. E suspeito que apenas para fazer ciúmes a ela. – Apontou para mim. – Só Deus sabe que outros problemas aquele garoto tem.
Lembrei que havia dito a mesma coisa mais cedo, mas referindo-se a mim também. Não pude evitar e soltei uma gargalhada.
– Isso ainda não acabou! – Samantha avisou, antes de sair do banheiro bufando.
– Como ela é teatral! – Brittany revirou os olhos.
– Eu preferiria que você não tivesse presenciado isso. – Eu disse, dando um sorriso sem mostrar os dentes a ela. – Mas foi bom você ter aparecido. Não sei do que ela é capaz.
– Samantha Miller não é do tipo que sujas as mãos. – Brittany contou. – Mas, se fosse você, teria cuidado com as amigas dela.
– Bem, obrigada pelo conselho. – Agradeci, recebendo um sorriso rápido e um aceno de cabeça enquanto ela já se encaminhava para a porta. – Espere! Eu... Preciso da sua ajuda.
10:05 A.M
– Eu não posso fazer isso. – Brittany disse, e juro que ela estava ficando um pouco verde.
– Por que não? – Perguntei, tentando puxá-la pelo braço até a mesa onde , , e estavam. Olhei ao redor à procura de , mas, sendo nosso intervalo, não fiquei surpresa ao vê-lo sentado em outra mesa, junto com seus companheiros de time. Ele estava sério e tinha uma pasta em mãos, parecia discutir algo muito importante com os garotos ao seu redor. Ele tinha uma postura tensa, como se estivesse discutindo, mas não quisesse chamar a atenção. O vi apontar para Logan, que estava sentando bem a sua frente, e depois para a pasta sobre a mesa. Logan era filho do diretor. O que diabos estava acontecendo?
– Esqueça. Eu não vou fazer isso. – Brittany repetiu, trazendo-me de volta a realidade. Olhei para ela, frustrada, e vi como estava olhando para , que nesse momento ria e passava uma das mãos pelo cabelo. Simplesmente não dava para acreditar.
– Você gosta do ? – Perguntei impaciente. Claro, ele era lindo, engraçado e popular, mas ainda assim, não pude deixar de ficar um pouco desapontada por Brittany ter uma queda por ele. – Pensei que você estivesse fora do sistema.
– Por favor, é um idiota. – Ela revirou olhos. Eles eram verdes, percebi. – E você não vai encontrar ninguém mais fora do sistema do que eu. É tão clichê se apaixonar por um cara popular e esperar que, do nada, ele perceba que você é o amor da vida dele!
– Se eu apresentá-los, não será do nada. – Brinquei, mas me arrependi assim que vi o olhar desesperado em seus olhos. Ela estava voltando a ficar verde. Hunf! – Enfim, faça de conta que ele não está lá.
Com muita dificuldade, consegui arrastá-la para a mesa comigo.
– Vai nos apresentar? – perguntou quando nos sentamos. Brittany me lançou um olhar apreensivo. estava certo, era mesmo um doce.
– Essa é Brittany, de quem falei para você mais cedo. – Respondi, olhando para .
– Oi. – Ela disse, timidamente, sorrindo para todos, menos para .
– Eu te conheço de algum lugar? – Ele perguntou, sem pegar a deixa de que ela o estava ignorando.
– Por que deveria? – Brittany revirou os olhos, daquele seu jeito irônico de ser. – Você estava bêbado quando dormiu comigo.
– O quê? – praticamente gritou enquanto e engasgavam-se com seus respectivos refrigerantes. Aí vamos nós.
– Por que todo esse choque? – Ela ergueu uma sobrancelha. – Acaba de perceber como seu gosto fica duvidoso quando bebe?
– Não é isso... Eu só... – gaguejou, ficando vermelho. Nem sabia que ele era capaz disso. – Eu, erm, dormi com você?
– Não. – Ela deu de ombros. – Mas até onde sei, você poderia e nem saberia.
ficou ainda mais vermelho. explodiu em gargalhadas enquanto dava tapinhas em suas costas, também rindo.
– Eu gostei dessa garota. – declarou, sorrindo para Brit, mas assim que seu olhar encontrou com o meu, seu sorriso desapareceu.
– Você me conhece da sua aula de álgebra. – Brittany comentou, descontraída como sempre, enquanto parecia querer procurar o buraco mais próximo.
Quando a campainha soou anunciando o fim de nosso tempo livre, os garotos saíram apressados em direção ao campo de Rúgbi, onde teriam treino. Brittany despediu-se de mim e de e foi para a sua aula, deixando-nos sozinhas. Deus, eu estava encrencada.
– Não pense que me enganou, . – disse assim que chegamos a um corredor vazio. – Sei muito bem que passou a noite com o ! Como pôde fazer isso? Você enlouqueceu, garota?
– Como você pode ter tanta certeza? – Perguntei, tentando escapar do interrogatório, mas segurou-me pelo braço e me forçou a encará-la.
– Eu os vi na hora da entrada. – Respondeu impaciente. – Achou mesmo que eu não ia perceber? Não sou idiota, .
– Bem, que se dane. Eu dormi com ele. – Eu disse, cansada do seu tom e de como ela sempre estava me repreendendo. – E gostei. Na verdade, eu amei. Mal posso esperar para fazer de novo.
– Claro que você gostou! – Ela revirou os olhos. – Você sabe, ele tem muita prática. De qualquer forma, faça o que quiser, não me importa com quem você está transando. Desde que isso não atrapalhe nossos planos
Vadia. Eu podia ver o que ela estava tentando fazer ao falar daquele jeito, queria transformar minha noite com em uma coisa banal, sem importância. Mas ela não estava lá, não viu o olhar nos olhos dele. jamais entenderia.
– Eu consegui o que você queria. – Eu disse, e sua irritação pareceu dissipar um pouco, mas eu ainda não havia terminado. – Mas não vou deixar que faça aquilo. Não vou deixar que o prejudique desse jeito. não merece isso.
– Ele não merece isso? – Ela explodiu. – Como você pode dizer uma coisa dessas? Não vou deixar você arruinar tudo depois de todo o trabalho que eu tive!
– Trabalho que você teve? – Gritei furiosa. Como ela ousava? – Fui eu quem tive que sair com ele! Fui eu que me expus! Fui eu que me arrisquei!
– Acha que foi fácil fazê-lo prestar atenção em você? – Ela retrucou. – Sem mim você não teria conseguido nada! Faz idéia de quanto tempo venho querendo me vingar daquele cretino?
– Não me importo com isso. Você sabia como ele era, dormiu com ele porque quis. – Respondi. – Não quero mais discutir esse assunto.
– Não vou deixá-la fazer isso. – Ela me advertiu. – Vou contar como nós planejamos tudo, vou dizer como nós rimos dele, de como ensinei a você tudo o que deveria fazer. Vou contar como nós queríamos que ele se apaixonasse e de como queríamos quebrar o coração dele, do mesmo modo como ele vem fazendo há anos!
– E deixar saber que você é uma víbora? – Debochei. Eu tinha que parecer firme, mesmo que no fundo estivesse com medo de suas ameaças. Só de imaginar o que poderia fazer ao ouvir aquilo... Me fazia ficar enjoada. Eu não suportaria perdê-lo. – E não me dê tantos créditos. Ele não se apaixonou, afinal.
balançou a cabeça, dando aquele sorriso sem humor e, ao mesmo tempo, irônico que era a sua cara.
– Você está tão cega assim? – Ela perguntou, a repulsa transbordando de sua voz. Apesar de tudo, eu sabia que não era de mim que ela estava com nojo, mas sim da situação. – Ele está louco por você.
Meu coração acelerou, esperançoso. Isso seria possível?
– E você por ele. – completou.
– O quê? – Dei um sorriso forçado e revirei os olhos. – Você enlouqueceu de vez. é egoísta e arrogante. Só se importa com ele mesmo. Como acha que eu poderia sequer simpatizar com alguém assim? Eu o odeio. Isso não mudou.
– Faça isso. Continue a enganar a si mesma. – Ela bufou. – Mas vou lhe dar um conselho. – me olhou séria. – Não fique surpresa quando seu conto de fadas chegar ao fim. E guarde aquela prova, porque muito em breve você vai querer usá-la contra ele.
– Está me ameaçando? – Perguntei, entre dentes. – O que vai fazer?
– Eu? – arregalou os olhos, genuinamente surpresa. Argh, por favor! – Não vou fazer nada. não precisa de minha ajudar para ferrar com alguém. Essa é a especialidade dele. E você será a próxima.
Dito isso, ela virou as costas e se foi, deixando-me apenas com uma certeza: eu precisava contar tudo a ele.
TWENTY SIX
9:58 A.M
– O que é isso? – Foi a primeira coisa que saiu de meus lábios quando Logan surgiu em minha frete, junto com alguns caras do time, e me entregou uma pasta que claramente era da diretoria.
– É o que você vem querendo há meses. – Ele disse, não exatamente respondendo à minha pergunta, enquanto entrávamos no refeitório e caminhávamos para nossa mesa no centro. – Hoje eu finalmente tive a chance de ficar sozinho na sala de arquivos.
Sentei em meu lugar e o encarei, ouvindo suas palavras, mas sem realmente entendê-las.
– Arquivos? – Repeti lentamente. Eu não era idiota, sabia do que ele estava falando, mas não conseguia acreditar.
– Sim, . – Ele respondeu, começando a ficar impaciente, e jogou a pasta sobre a mesa. – Leia você mesmo. Tudo o que você queria saber sobre ela está aí. Não precisamos sequer devolver, essa é apenas uma cópia que eu fiz dos documentos originais.
Olhei ao redor da mesa e vi como todos me encaravam com expressões ansiosas.
– Eu estou sendo o último a ler isso? – Perguntei, um tom de irritação passando por minha voz. Aquele era o arquivo de , não uma revista que eles haviam comprado na banca. Aquilo não estava ali para satisfazer a curiosidade deles, apenas a minha.
– Não! Claro que não! – Logan respondeu, lançando-me um olhar nervoso, quase assustado. – Nós, hm, eu queria você fosse o primeiro.
– Acho bom que esteja falando a verdade. – Eu o adverti, e ele balançou a cabeça concordando e sentou-se à minha frente. Suspirei e encarei a pasta. Eu não deveria lê-la, deveria? Seja lá o que estivesse ali, me contraria quando fosse o momento certo, não contaria?
Dane-se. Eu precisava saber o que tinha ali dentro.
Abri a pasta e, de início, não vi nada de excepcional. Notas, gráficos sobre rendimento escolar, nome completo, data nascimento... Até que vi uma foto. Nela, vestia um uniforme de cheerleader. Halloween? Era a única coisa que me ocorria, visto que a idéia de algum dia ter existido uma líder de torcida era absurda demais. E hipócrita. Depois de todos os seus discursos moralistas e de dizer como odiava nosso estilo de vida! Mas aquilo não era nada. Porque, para minha total surpresa, um dos documentos mais longos tratava-se de um relatório psiquiátrico. Deveria ter, pelo menos, dez páginas, mas o que realmente chamou minha atenção foi o seu último parágrafo.
“Srta. é, sem dúvida, uma jovem forte e com grande inclinação a liderança, considerando como a maioria de seus colegas seguem seus passos. Mas receio que essa atenção tenha lhe causado alguns transtornos de personalidade. Segundo alguns de seus colegas mais próximos, Srta. vem sendo responsável por casos de bullying desde o início de seu colegial. E, como dito acima, tem influenciado alguns jovens a seguirem pelo mesmo caminho. Conversando com a Srta. em nossas sessões semanais, foi possível notar como esta jovem é dotada de notável inteligência, sempre tendo uma boa resposta (nem sempre educada) na ponta da língua.
Tal inteligência com certeza é fonte de tamanha autoconfiança e sentimento de superioridade. Apesar de ter tido relações sexuais com um professor atuante no corpo docente do colégio, não podemos deixar de vê-la como uma adolescente que faz decisões no calor do momento com base em suas imaturas experiências de vida. Sendo assim, meu melhor conselho seria que a Srta. fosse afastada do colégio; deixando para trás a grande hostilidade de alguns colegas e que, dessa forma, pudesse recomeçar em um novo lugar.”
A maioria de seus colegas seguiam seus passos? Tudo aquilo para dizer que era popular?
Bullying?
Sessões semanas?
Relações sexuais com um professor?
Levantei os olhos da pasta por alguns segundos e olhei ao redor do refeitório, procurando-a com o olhar. Se fosse um dia normal, se fosse apenas alguns minutos antes, eu talvez tivesse ficado preocupado ao vê-la andar com Brittany ao seu lado. Vi como ela sorriu ao chegar à mesa em que e os outros estavam. Como aquela pessoa poderia ser a mesma a qual aquele relatório dirigia-se? Eu não podia imaginá-la fazendo nada daquilo. Não era de se espantar que nunca me contara nada. Aquilo era... repulsivo.
– , nós precisamos ir. – A voz de Logan trouxe-me de volta a realidade.
– O quê? Você disse que eu não precisaria devolver. – Eu disse, segurando a pasta com mais força, só para o caso de Logan tentar pegá-la de mim a força.
– Eu quis dizer que nós precisamos ir para o treino. – Ele me olhou com a testa franzida, como se eu tivesse ficado louco. De certa forma, era assim que eu me sentia.
– Hm, certo. – Concordei, levantando-me e os seguindo para fora do refeitório.
Mais a frente, vi caminhar ao lado de . Olhei para a pasta em minhas mãos. Aquilo realmente importava? não estava mais na América. Aquele era seu passado. Eu também já havia feito coisas ruins. E muito provavelmente ainda faria, então por que me importar?
Sem que me desse conta, havia parado de andar e agora estava sozinho no meio de um corredor vazio. Eu precisava falar com ela. Mudei de direção e segui para onde eu supunha que havia ido. Só esperava que ela já tivesse se livrado de .
Não foi difícil encontrá-las.
– Trabalho que você teve? – Ouvi gritar, enraivecida. Pressionei-me contra o canto da parede, bem onde se fazia a curva, para que continuasse fora de vista, mas que ainda pudesse ouvi-las. – Fui eu quem tive que sair com ele! Fui eu que me expus! Fui eu que me arrisquei!
O quê?
– Acha que foi fácil fazê-lo prestar atenção em você? – perguntou, usando o mesmo tom que . Mas o que diabos estava acontecendo? – Sem mim você não teria conseguido nada! Faz idéia de quanto tempo venho querendo me vingar daquele cretino?
Se restava alguma dúvida de que falavam de mim, elas acabaram quando disse cretino.
– Não me importo com isso. Você sabia como ele era, dormiu com ele porque quis. – retrucou. E nisso nós concordávamos. – Não quero mais discutir esse assunto.
– Não vou deixá-la fazer isso. – avisou, falando de uma forma que eu quase não pude ouvi-la. Deixar fazer o quê? – Vou contar como nós planejamos tudo, vou dizer como nós rimos dele, de como ensinei a você tudo o que deveria fazer. Vou contar como nós queríamos que ele se apaixonasse e de como queríamos quebrar o coração dele, do mesmo modo como ele vem fazendo há anos!
Que porra era aquela? Eu não conseguia acreditar no que estava ouvido.
– Vadia. – Sussurrei para mim mesmo, sem saber se me referia a ou .
– E deixar saber que você é uma víbora? – riu, e eu quase não a reconheci. Olhei para a pasta em minhas mãos e a segurei com mais força. Aquelas duas versões de não eram assim tão diferentes. – E não me dê tantos créditos. Ele não se apaixonou, afinal.
Fechei os olhos e encostei a cabeça na parede, suspirando. Como eu queria que ela estivesse certa. Como eu queria acreditar que tudo aquilo não passava de uma vingançazinha planejada por . Mas a realidade era aquela e não havia como escapar dela.
disse alguma coisa que não fui capaz de ouvir, mas ela logo completou:
– Ele está louco por você. E você por ele. – Era evidente em sua voz como essa possibilidade a enjoava. Garota desprezível. Em uma coisa estava certa, jamais ficaria com ela caso visse aquele seu lado. Entretanto, não era que me preocupava no momento, mas sim a resposta de . Ela podia consertar aquilo, ela podia... concordar.
– O quê? – Ela perguntou, surpresa, e eu podia imaginá-la revirando os olhos. – Você enlouqueceu de vez. é egoísta e arrogante. Só se importa com ele mesmo. Como acha que eu poderia sequer simpatizar com alguém assim? Eu o odeio. Isso não mudou.
Eu o odeio. Isso não mudou.
Eu não precisava ouvir mais. Esperava que elas houvessem aproveitado a diversão, porque estavam prestes a sofrer as consequências. iria pagar muito caro por aquela palhaçada.
11:50 A.M
Joguei-me contra com toda a minha força, quase esquecendo que deveria focar-me na bola, e não nele.
– Porra, ! – Ele gritou quando caímos no chão. Levantei-me o mais rápido que pude e arremessei a bola para Scott. Aparentemente usando mais força que o necessário, visto que ele não fora capaz de pegá-la no ar. Se você não pegasse a bola antes que ela chegasse ao seu destino, ela te acertava. E foi exatamente isso o que aconteceu. No nariz de Scott. – O que está acontecendo com você hoje, ? Deixe para tentar matar os caras do outro time!
Olhei para e, embora tenha se levantado, permanecia no mesmo lugar, massageando seu ombro.
– Ora, cale a boca, . – Bufei, irritado. – Você deixou sua defesa fraca e por isso não aguentou quando lhe apliquei um tackle. E Scott foi idiota o suficiente para não conseguir pegar a bola. Estou fazendo a minha parte, que tal começar a fazer a sua?
– E que tal você ir esfriar a cabeça enquanto bebe água no banco – Ele retrucou, usando o mesmo tom que eu.
– Não se esqueça de quem manda aqui. – Eu o adverti, fechando as mãos em punhos e dando um passo em sua direção.
– E quem é? Porque eu sei que não é você. – Ele disse calmo, com um quê de desafio em sua voz. Olhei para e acho que nunca senti tanta raiva. Avancei para ele, mas antes que minhas mãos pudessem alcançá-lo, e estavam ao meu lado, segurando-me pelos braços.
– O que há de errado com você, ? – perguntou, enquanto ele e arrastavam-me para trás, ao mesmo tempo em que eu tentava me libertar. Em alguns poucos segundos, Scott e alguns outros caras do time que estavam mais próximos já estavam ao nosso lado, prontos para afastarem e a força.
– Não! Parem com isso! – Mandei, ao vê-los apelarem para a violência quando e resistiram. Mas fui ignorando; eles provavelmente pensavam que eu estava falando com e . Agora que eu estava livre novamente, corri para o meio da confusão e os empurrei para longe de e .
– O que vocês pensam que estão fazendo? – Paramos, em choque. Olhei para o treinador e ele não parecia nada feliz com o que acabava de acontecer. – Se essa droga de time não significa nada para vocês, vão embora! Não vou perder meu tempo com um bando de moleques!
Ele virou as costas e começou a caminhar para fora do campo. O treino havia acabado. Ficamos em silêncio por alguns segundos.
– Pensei que estávamos te ajudando. – Ethan finalmente disse, fazendo seu caminho até o vestiário. Não demorou para que os outros fizessem o mesmo. Restando apenas eu, , e... .
[N/A: ponha a música para tocar!]
– Você realmente ia partir para cima de mim? – Ele perguntou, me olhando com a testa franzida. Não era dele que eu estava com raiva, percebi. Mas, naquele momento, ele havia sido o escolhido para ser minha válvula de escape, visto que eu não poderia bater em minha verdadeira fonte de raiva.
Eu estava prestes a pedir desculpa a eles quando meu olhar caiu sobre ela. estava do lado oposto do campo e parecia tão frágil e pequena ali. De repente, senti que havia levado um soco no estômago. Preferia estar em uma briga, preferia estar sendo torturado a ter que vê-la daquele jeito. Tão inocente, tão desejável, tão falsa.
Eu a amava e odiava. Tudo ao mesmo tempo.
Não deveria estar tão surpreso. Ela era a versão feminina de mim. E o que havia dito? Que eu só gostava de mim mesmo? Que eu era egoísta? Que eu era um lixo? Talvez não com essas palavras, mas não fazia diferença.
Alguma coisa deve ter aparecido em meu rosto, porque perguntou:
– O que aconteceu? – E tentou chegar perto de mim, mas não deixei. Eu precisava chegar até ela. Comecei a andar, e antes que pudesse me conter, estava correndo. Quando a alcancei, me abraçou forte. E, não sei por que, mas de repente ela estava chorando em meus braços.
– Eu te amo, . – Ela sussurrou em meu ouvido.
Mentirosa!
Mas eu queria acreditar. Eu quase disse o mesmo. Apenas quase. Eu não me permitiria cair tão fundo no poço. Ela não teria o queria. não ganharia.
Segurei seu rosto em minhas mãos e a afastei apenas o necessário para ver o seu rosto.
– Diga de novo. – Eu pedi, mesmo sabendo que era inútil. As palavras não tinham poder nenhum.
– Eu te amo, . – Ela repetiu, dessa vez olhando em meus olhos. Sua voz carregada com alguma coisa que fui incapaz de identificar. Seus olhos úmidos me olhavam com tanta adoração que, por meros segundos, me permiti acreditar. Ela parecia tão sincera.
Mentirosa!
Eu merecia passar por aquilo, decidi. Mas eu nunca fora tão cruel, nunca enganara ninguém daquele jeito, eu nunca dissera... aquelas palavras.
ficou na ponta dos pés e colou seus lábios contra os meus. Eu não me afastei. Depois de tantos beijos de mentira, que mal faria mais um? Eu não poderia me sentir pior.
Levei as duas mãos a sua cintura e a puxei para ainda mais perto de mim, sentindo todo o seu corpo pressionado ao meu. entrelaçou seus dedos no meu cabelo, mordiscando meu lábio inferior. Intensifiquei o beijo, esquecendo-me completamente de que , e continuavam ali. Flashs da noite passada voltavam a minha mente, vívidos, apaixonados e dolorosos.
Lembrava-me perfeitamente da forma como entrelaçara seu corpo com o meu, como sussurrara meu nome e a expressão de seu rosto no auge de sua satisfação. Mas todas aquelas lembranças não passavam de mentiras. desejava tanto ter poder sobre mim que sacrificara o seu corpo para isso. Vadia.
– ... – Ela murmurou, quando comecei a beijá-la com ainda mais paixão, segurando seu cabelo com firmeza enquanto ela me puxava pelo pescoço. – Você me ama?
Parti o beijo, abruptamente, e dei um passo para trás. Era como se um balde de água fria acabasse de pousar sobre minha cabeça e gelasse todo o meu sangue.
Olhei para ela, parada ali com os cabelos bagunçados e com os lábios avermelhados.
– Acabou. – Eu disse, frio, sem deixar que minha voz transmitisse qualquer tipo de emoção.
– O quê? – me olhou, confusa. – ... Você não pode estar falando sério.
– Acostume-se com isso. As coisas nem sempre saem de acordo com o plano. – Eu não sabia se ela havia entendido a ironia em minhas palavras, mas não fiquei para descobrir. teria o que merecia. Caminhei apressado pelo campo, passando por , e sem dirigi-los um único olhar. Eu não poderia encarar o agora. Ele também me odiaria amanhã.
Quando cheguei ao vestiário, a maioria dos caras já havia trocado de roupa e estavam prestes a sair. Mas eu ainda tinha uma boa plateia. E não precisaria de muitos para que os boatos se espalhassem pelo colégio.
– Sabem quem esteve na minha cama na noite passada?
TWENTY SEVEN
Passei pelos portões do colégio e tudo parecia calmo. Alguns estudantes encontravam-se espalhados pelo gramado, outros sentados à beira da escada no pátio principal e outros conversando sob as sombras das árvores. Pela forma como olhavam para mim, eu deveria ter percebido que algo estava errado. Mas assumi que não passava de ligeira curiosidade. Olhei para , que caminhava ao meu lado, perguntando-me se ele havia notado algo diferente, mas parecia absorto em pensamentos. Quando nos separamos, cada um seguindo para sua respectiva aula, ele apenas deu-me um sorriso ainda sonolento e um desejo de boa sorte.
Enquanto atravessava o gramado, em direção ao campus de artes, passei por um grupo de garotas. A conversa cessou assim que cheguei perto o suficiente para ouvir. Todas possuíam a mesma expressão maliciosa, quase mesmo até maldosa, no rosto. Ao longe, quando já me afastava, tudo o que pude distinguir foram suas gargalhadas.
E foi aí que eu o vi.
Seus cabelos estavam em completo desalinho, mas não da forma charmosa na qual estava acostumada a vê-lo. Pelo estado de seu uniforme, parecia que ele havia dormido com aquela roupa. O nó de sua gravata estava mal feito, a blusa de linho branca e o suéter azul do colégio fugiam de qualquer definição de harmonia. Ele estava sentado no chão, com as costas contra a parede, uma perna dobrada e outra esticada a sua frente. Imóvel, sua expressão livre de emoções. Aquele era ? Não podia ser. Ele nunca me pareceu tão solitário.
– Você está bem? – Perguntei parando a sua frente, só agora notando como seus olhos, geralmente tão azuis, estavam vermelhos e quase cinzentos.
– Vá embora. – Ele disse, sua voz baixa e fria como gelo.
– Não tente me intimidar. – Eu o adverti, enquanto o via se levantar. – Sabe que não funciona comigo.
– Eu sei? – Ele perguntou, finalmente olhando para mim, agora sua voz carregada de deboche, dando uma risada sem humor no final. – Eu não te conheço, .
– ...
– Me deixe em paz! – Ele disse, entre dentes, ao se levantar. – Tudo o que você diz para mim não significa nada. – Ele continuou, seus olhos raivosos; suas palavras afiadas, prontas para me ferir. Eu só queria saber o porquê. – Não venha falar comigo. Eu odeio a sua voz. Odeio o som do nada, porque é isso que você é para mim agora. Não pergunte se estou bem, sequer olhe em minha direção sem que eu dê algum motivo para isso. Nada do que você diga agora vai mudar o que você fez. – ofegava, suas narinas dilatadas, seu rosto ganhando um tom avermelhado.
– O que eu fiz? – Repeti, perdendo a calma. – Dormimos juntos e, nas vinte e quatro horas seguintes, você termina comigo. Não me condene antes de eu saber o meu crime. Eu não fiz nada para merecer isso.
me encarou em silêncio. Por alguns segundos, sua expressão raivosa deu lugar a outra completamente diferente. Seus olhos tão azuis, tão intensos, tão... tristes. Ele passou uma das mãos pelo cabelo, o bagunçando ainda mais, e suspirou derrotado. Seus braços caíram desanimados ao lado de seu corpo enquanto ele finalmente abria um pequeno sorriso.
– Você consegue fazer isso ainda melhor do que eu. – Ele disse, com um tom de voz baixo, desviando o olhar apenas alguns segundos antes de voltar a encarar-me.
– O que está acontecendo, ? Do quê está falando? – Perguntei, tentando chegar perto, mas vendo-o frustrar minha tentativa ao afastar-se. Ele balançou a cabeça e o olhar irritado, magoado, voltava aos seus olhos.
– Você conseguiu o que queria, mas isso lhe custará muito caro. – disse, já caminhando para o lado oposto ao meu. Fechei as mãos em punhos e, após juntar toda a coragem que tinha, corri até ele, forçando-o a me encarar.
– Não fale comigo com meias palavras! – Sussurrei, resistindo bravamente ao impulso de gritar ou de fazer qualquer outra coisa que aliviasse minha frustração. – Se quer dizer algo, diga de uma vez. E não me ameace. Você não faz idéia do que sou capaz.
olhou para mim e deu um sorriso amargo. Quando me dei conta, ele já havia entrelaçado seus dedos em meus cabelos e me puxado para perto. Pus uma mão em seu peito, dizendo a mim mesma que teria força de vontade suficiente para afastá-lo. Que tolice a minha.
Antes mesmo que sua boca chegasse ao meu rosto, meu corpo já estava totalmente entregue ao calor de seu abraço.
– Eu sei exatamente o que você pode fazer. – Ele murmurou, seus lábios roçando minha pele a cada palavra. – Ainda assim, eu não... – Interrompeu-se, fechando os olhos com força ao repousar sua testa contra a minha. – Eu não consigo evitar... Não consigo parar isso.
– , por favor... – Eu pedi, levando minhas mãos ao seu rosto. – De uma vez por todas, do que você está falando?
Ele abriu os olhos, dando um passo para trás e afastando minhas mãos com um tapa.
– Não se torture, a resposta virá mais rápida do que você pensa. – E dito isso, ele se foi.
Respire, sorria e disfarce. Era o que eu ficava repetindo a mim mesma. Se a atenção que eu recebera no dia anterior parecia exagerada, nem sabia como classificar todos os olhares que estava recebendo hoje. A essa altura, já estava mais do que claro que eu não estava sendo foco apenas de curiosidade. Por onde passava, eu recebia olhares de cima a baixo, risadinhas das garotas e sorrisos maliciosos dos garotos. Sem falar das inúmeras vezes que alguém sussurrava "vadia" e depois fingia não estar falando comigo. Claro, a notícia de que havia me dispensado já corria pelos corredores.
– ... – chamou quando acabávamos de chegar à entrada do refeitório. Ela tinha uma expressão tensa no rosto e seus olhos me encaravam com pena. – Talvez você não deva entrar aí hoje.
Ela falava com tanta calma e preocupação. Aquilo definitivamente não era do seu feitio. Eu podia jurar que ainda estaria me odiando por nossa última conversa.
– E por que não? – Perguntei, com a testa franzida. – Não posso me esconder para sempre. Não quero dar esse gostinho a essa gente. Acham que fui apenas mais uma para ele? Por que ele não pode ter sido apenas mais um para mim?
– Porque ele é . – Samantha respondeu, esbarrando propositalmente em meu ombro ao passar por nós.
– E você é ninguém. – Completei, vendo-a abrir um sorriso debochado.
– Você deveria ter mantido suas pernas fechadas. – Ela sorriu e quem visse a cena de longe jamais imaginaria o que estava sendo dito. Engoli em seco e assisti Samantha se distanciar em meio as gargalhas. Ela não tinha como...
– Era isso que eu estava tentando lhe dizer. – sussurrou, exasperada, e acho que nunca a vi tão agitada. Pensei em sair correndo, mas já era tarde demais para recuar.
Foi instantâneo. Assim que ficamos a vista, o refeitório inteiro caiu em silêncio. Restando apenas alguns murmúrios. Olhei ao redor, de repente sentindo meus pés colados ao chão. Era como se tudo estivesse acontecendo em câmera lenta. Os olhares. Os sussurros. As risadas. Era como se tudo estivesse acontecendo de novo. Era como se eu estivesse de volta àquele dia. Aquele pesadelo.
E então o vi pela segunda vez no dia. Diferente dos outros, não estava me olhando com expectativa. Ele estava sorrindo. Aquele seu sorriso maldoso que já arrancara tantos suspiros de mim, mas que hoje me fazia gelar o coração. Pela expressão de , que hoje estava sentado junto a com o resto do time de Rugby, eu podia ver como ele estava contrariado. tinha a mesma aparência tensa que demonstrara só alguns segundos antes.
Olhei ao redor e meus olhos encontraram e sentados mais adiante, na mesa mais distante. Eles sabiam. Olhei para os meus pés, sentindo meu rosto ficar quente de vergonha. Quando finalmente ergui os olhos, estava parado na minha frente. Seu aspecto mais impecável do que nunca.
– O que você quer, ? – perguntou, vindo para o meu lado.
– Só queria dizer que você esqueceu uma coisa na minha casa. – disse, olhando para mim e ignorando totalmente.
– Não seja cretino. Não acha que já fez demais? – continuou, entre dentes, começando a avançar em direção a ele.
– Você nunca sabe quando vai precisar disso de novo. – completou, ainda a ignorando, e tirou um paninho vermelho do bolso interno do blazer. Não! Não! Não!
Era uma calcinha. Mas não qualquer uma. Era um fio dental vermelho. Transparente.
De repente, senti minha vista ficar turva e, por dois segundos, o mundo inteiro pareceu girar em minha volta. Eu não podia ter uma crise agora! Respirei fundo, fechando as mãos em punhos para disfarçar a tremedeira e o encarei diretamente nos olhos.
– Isso não é meu. – Eu disse soando mais firme do que realmente estava.
– Claro. – Ele respondeu, sorrindo ainda mais. Levou a calcinha ao nariz e suspirou, arrancando risadas de todos seus colegas de time. – Acho que vou guardar como lembrança. – E colocou de volta no bolso.
Minha visão estava ficando embaçada e eu sabia que possuía apenas alguns minutos antes que as lágrimas escorressem pelo meu rosto, por isso, dei rápidos passos em sua direção, mas interceptou meu pulso antes que minha palma pudesse acertar o seu rosto.
– Não ouse tocar em mim, sua vagabunda. – Ele avisou, me empurrando para longe, não com violência, mas o suficiente para me fazer perder o equilíbrio. Teria caído se não fosse por , que me segurou a tempo. – Já consegui o que queria. Não preciso mais aturar isso.
– Não faça nada do que vá se arrepender. – Eu o avisei, olhando para os seus olhos azuis que, no momento, pareciam tão frios quanto gelo. Era como se ele estivesse vendo através de mim, era como se eu nem sequer estivesse ali.
– Acredite, está um pouco tarde para isso. – Ele retrucou, dando uma risada amargurada.
– Você me ama. – Não era uma pergunta. Queria me tratar como uma vadia? Então eu seria a pior de todas.
– ... – chamou, seu tom era alerta. Ela segurou um dos meus braços, puxando-me gentilmente.
– Eu te amo? – repetiu, debochando. Eu podia ouvir algumas pessoas rindo ao fundo, mas não me dei ao trabalho de checar. – Não vou negar, você é gostosa, . Mas não tenha expectativas.
Estava usando aquela linguagem suja apenas para tentar me machucar. Bom trabalho.
– Eu não te amo, . – Menti, sendo o mais fria possível.
– Eu sei. – Ele respondeu, com aquele olhar misterioso em seus olhos, como se soubesse de algo que não estava dizendo. Ficamos em silêncio, apenas o suficiente para eu olhar na direção de e ver como estava praticamente o segurando. Aquilo estava prestes a ficar pior.
– Por que você está fazendo isso? – Perguntei rápido.
– É o que eu faço. – Ele deu de ombros, indiferente. Resposta errada.
– Você vai pagar por isso. – Eu o adverti. Independentemente de meus sentimentos, ninguém pisava em mim daquele jeito. Pela visão periférica, vi começar a sorrir. Vaca.
– Você não sabe? Eu já estou pagando. – Ele retrucou, dessa vez falando baixo, para que somente eu o ouvisse.
Franzi a testa, sem entender o significado de suas palavras.
– Li o seu histórico. – Ele contou.
Senti que eu estava ficando pálida. Minha visão embaçou novamente, dessa vez não por causa das lágrimas, mas disse a mim mesma para ser forte. Meu corpo não poderia me trair naquele momento, não importava o quanto eu precisasse de açúcar, eu não me permitiria desmaiar ali.
– Nós temos ótimos professores aqui, caso você esteja se perguntando. – continuou, então o refeitório encheu-se de risadinhas. Foi o suficiente para saber que todos ali entendiam muito bem a piada. Ele não podia ter feito aquilo. Dizer que nós havíamos dormido juntos? Sim, aquilo havia sido horrível, mas aquelas memórias também pertenciam a ele. Falar de minha vida na Califórnia? Aquilo era um pesadelo. E não pertencia a . Eu não havia vindo para a Inglaterra por nada. Eu já havia sofrido o suficiente pelas minhas ações no passado. Não era justo me fazer pagar duas vezes pela mesma coisa. – Mas eu ficaria longe do Sr. Mackenzie. Ele é casado.
Minhas mãos estavam geladas.
– Então é por isso que você está fazendo tudo isso? – Perguntei, indignada. – Leu algo que não gostou?
ficou calado e desviou o olhar. Ele estava olhando para , que agora vinha em nossa direção. O refeitório inteiro nos assistindo. Deus, aquilo estava para ficar muito pior.
Sem dizer uma só palavra, acertou um soco tão forte em que o fez cair no chão imediatamente.
– Seu desgraçado! – gritou, ficando por cima de e continuando a acertá-lo. – Pensei que você tinha mudado, mas continua o mesmo cretino de sempre!
– Sai de cima de mim! – gritou de volta, sem reagir ou revidar o ataque. De certa forma, aquilo só me fez ficar mais triste. gostava de , e por isso não o machucaria. O problema era eu. Era comigo que ele não se importava. – Você não sabe nem da metade, .
foi o primeiro a se pôr entre eles, os outros estavam chocados demais para fazer alguma coisa. A essa altura, já tinha o lábio inferior inchado e sangue escorria de sua narina esquerda.
– Porra, façam alguma coisa! – mandou, quando viu que não conseguiria separá-los sozinho. Ele não precisou repetir.
– Não machuquem ele! – mandou, assim que se viu livre de novo.
Se vê-lo daquele jeito, descabelado, sangrando e completamente descontrolado me fazia desejá-lo ainda mais, então talvez eu realmente merecesse passar por aquilo. O sentimento era mais forte que eu.
– Você fingiu ser nosso amigo. – o acusou, indignado, enquanto e o seguravam.
– Eu souseu amigo, . – respondeu, pela primeira vez parecendo sentir alguma coisa. O quê exatamente, eu já não poderia dizer. – Mas você precisa ficar fora disso.
– Vá para o inferno. – balançou a cabeça e soltou-se de e , se virando para sair do refeitório, parando apenas alguns segundos para olhar em meus olhos. – Está feliz agora?
– ... – Eu chamei, mas ele não quis ouvir.
– Aposto que isso não estava no seu plano. – disse, dando aquele sorrisinho perverso que lhe era tão característico.
E aí eu entendi. Ele sabia.
"As coisas nem sempre saem de acordo com o plano"
Suas palavras finalmente faziam sentido para mim.
– Você! – Virei para , abruptamente, e puxei meu braço para longe de seu toque. – Você contou a ele! Como pôde fazer isso?
– Quê? – Ela me olhou surpresa. – , eu juro que não fiz isso.
– Ela não precisou. – disse, deixando ainda mais perguntas no ar. Então como ele... – Achou mesmo que eu não ficaria sabendo?
– , você precisa me ouvir...
– Não! – Ele gritou, com um olhar selvagem nos olhos. – Seja lá o que você tenha a dizer, não vai mudar nada. Era assim que isso deveria terminar. Foi assim que eu planejei. Você não é a única que faz planos, . – fez uma pausa e suspirou.
Ele estava blefando. Só não queria que sua plateia soubesse que, dessa vez, ele havia sido a vítima. estava apaixonado, disso eu estava certa. O que apenas tornava tudo mais difícil, porque... eu também estava. Mas eu havia aprendido minha lição. Não permitiria que meu coração se envolvesse em assuntos que não lhe diziam respeito. iria ter o que merecia.
– Você me desafiou, disse que nunca cairia nos meus braços e olhe só aonde viemos parar. – concluiu, dando um último sorriso para mim.
– Me aguarde. – Eu disse sem mais e dei as costas para o refeitório. veio correndo atrás de mim. Ela mal podia disfarçar seu entusiasmo.
– Você fez a escolha certa. – começou, apressando-se para acompanhar os meus passos. – Por favor, apenas me diga que você não fez algo estúpido como destruir a prova para protegê-lo.
– Não tive tempo de fazer isso. – Respondi, pensando no quanto era burra por ter considerado aquela ideia. Quando já estávamos longe o suficiente do refeitório, e da maioria dos outros estudantes, parei e a encarei. – Você precisa saber que não é apenas atrás de mim que ele virá. É melhor deixar que eu cuide de tudo daqui para frente.
– Do que está falando? Não vou desistir agora. – Ela disse, contrariada. Suspirei.
– Eu sou da família, então ele não pode me ignorar para o resto da vida, mas vai odiar você quando souber exatamente o que aconteceu. – Olhei para o chão, não querendo ver sua expressão ao ouvir aquilo. – Eu... Sinto muito.
– Eu o amo. – disse, não como uma declaração emocionada, mas como algo alguém que relata um fato certo. – Você pode achar difícil de acreditar, mas é verdade. Entretanto, preciso fazer isso por mim. Você não faz idéia do que passei por causa do . E eu sei que isso é errado, que eu não deveria tanto querer me vingar, mas agora que tenho a chance não consigo simplesmente deixar para lá. Se no final não me quiser, então só posso achar que nós não deveríamos realmente ficar juntos.
Abri a boca para confessar o que sentia por e para dizer que sim, que graças as minhas experiências na Califórnia, eu sabia o que era ser humilhada, mas foi aí que apareceu. Sendo seguido de perto por .
– Depois de tudo o que eu disse! Como você pôde fazer isso? – gritou, furioso, parando a poucos centímetros de mim. – Como pôde ser tão burra? Será que não podia se controlar? Você tinha mesmo que dormir com ele?
– ! – o segurou quando pareceu assustadoramente fora de controle. tinha a expressão limpa. Ela estava se preparando para o pior, para o momento que chegasse a sua vez. Agora que a conhecia melhor, sabia que sua aparente falta de emoções significava exatamente o contrário.
– Não encoste em mim! – revidou, empurrando para longe. – Você é como ele. Deveria saber disso o tempo todo!
– O quê? – empalideceu. – , eu juro que não. Claro, nunca achei que se importasse muito, apesar de às vezes ele fazer parecer outra coisa, mas ele sempre foi assim. – Ele desviou o olhar. – Não estou surpreso que ele tenha feito isso, mas eu não sabia de seus planos. – E agora olhando para mim. – Em alguns poucos momentos, eu realmente achei que ele gostasse de você. Eu não sei por que ele fez isso, não faz algo desse tipo desde... .
Ficamos em silêncio, sentindo a tensão que aquela última memória trouxe ao ar.
– Eu quero ficar sozinha. – Eu disse por fim, sem conseguir mais aguentar aquilo. Levei uma mão à testa e recostei-me na parede, fechando os olhos; ainda me sentia fraca.
– Você não vai escapar de...
– O que você quer que eu diga, ? – Gritei o interrompendo. – Já sei que fui burra, já sei que deveria tê-lo ouvido! Mas o que você tem a dizer não vai mudar o que já foi feito e, pelo que posso ver, também não vai me fazer sentir melhor. E se está tão enojado, vá embora!
Nos encaramos por longos segundos. Apesar de ter se calado, era claro que ele ainda estava irritado. Eu já estava me sentindo ruim o suficiente por mim mesma, não poderia me dar ao luxo de me importar com agora. Especialmente por saber que sua raiva só iria aumentar; aquilo não seria nada depois que ele ouvisse a história toda.
Quando pensei em lhe dar as costas, remexeu no bolso interno de seu blazer e tirou uma barra de chocolate.
– Você está pálida. – Ele disse friamente ao me entregar, indo embora sem esperar agradecimentos.
– Você já pode ir agora, . – comentou, com seu habitual ar de superioridade.
– Não porque você está mandando, mas estou indo. – Ele respondeu, olhando para ela exatamente como sempre fazia e então desviando o olhar para mim. – Você pode odiá-lo, mas... não é tão ruim quanto você deve estar pensando agora.
Eu sei, quis dizer a ele, mas isso não o livrará das consequências.
– Esqueça, . Você não precisa falar nada. – Comecei. – Gosto de você, mas não somos amigos. Ele é seu amigo. E não sou tão vítima ou ingênua quanto pareço. Logo você entenderá o que quero dizer.
me estudou com cuidado, semicerrando os olhos e então logo balançou a cabeça, rindo fraco.
– Só não cometa o mesmo erro duas vezes. – Ele disse, já seguindo pelo mesmo caminho que .
– Qual deles? – Perguntei, mais por curiosidade do que qualquer outra coisa.
– Não o subestime.
– Pois diga o mesmo a ele. – Adverti, vendo abrir um pequeno sorriso ao meu lado.
CONTINUA
N/A: Por favor, sem pedras! Eu juro que essa demora em atualizar não foi opcional! Espero que possam entender que vou fazer vestibular em dois meses e não posso me dar ao luxo de gastar muito do meu tempo com fanfics. Por outro lado, tenho que ser honesta com vocês. Troublemaker já não é o amor da minha vida, se é que me entendem. Podem ficar calmas, não vou abandonar a fic, só estou dizendo que já não gosto tanto de escrevê-la como antes. Tem muitas coisas na estória que hoje eu gostaria de mudar. Sei que esse capítulo não foi dos melhores, mas era necessário. Enfim. Por favor, comentem! Afinal, preciso saber se alguém ainda lê isso aqui.
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