Vivendo outra vez
Autora: Gijoca Z. G.
Status: Finalizada
Revisada por: Tepy Loyola
Categoria:Free Fics
Sub-Categoria: Medium Fic
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Prólogo:
Assim é a vida. Os dias passam e nada nos acontece; é sempre o mesmo tédio, um atrás do outro. Você vê o tempo passar, esperando que algo excitante, que algo novo, aconteça em sua monótona existência... E nada: tudo o que ocorre é a passagem cada vez mais lenta, cada vez mais inútil, daquilo que se poderia chamar de “experiência mortal” ou “humana”.
Então, quando menos se espera, algo muda. Mas apesar do entusiasmo anterior, neste momento em específico você se vê disposta a dar tudo para nada acontecer.
Por que tem que ser assim? Por que a vida tem que nos pregar peças somente na hora em que agente já está morta?
Capítulo I:
Abri meus olhos, mas fui forçada a fechá-los novamente. Esperei que meus globos oculares se acostumassem à claridade exagerada do ambiente e fiz uma nova tentativa.
Branco. Era de um tom puro, porém, franzi o cenho ao reparar que era tudo o que se podia notar. Ali, só havia o vazio infinito do que pensara ser o céu. Nada mais, nada menos do que isso.
Levantei-me do lugar onde estava deitada há apenas alguns segundos atrás, constatando o quão macio o local era. Virei minha cabeça procurando por algo que provasse que não me encontrava sozinha: o estofado onde me sentava se estendia para ambos os lados, prologando-se em uma estrada sem fim com seu tom rosado e claro.
Olhei para mim mesma então. Arregalei os olhos ao perceber que não me encontrava com minhas calças jeans rasgadas, minha camiseta dos Rolling Stones e meus All Stars pretos: um vestido branco e de mesma pureza do que o “céu” revestia o meu corpo até os meus joelhos de uma forma que nem eu mesma poderia senti-lo.
“O que está acontecendo aqui?” meu intuito fora em perguntar em voz alta, mas me vi incapacitada de fazê-lo. Um desespero tomou conta de meu corpo enquanto meu coração se acelerava demasiadamente e, sem poder contar com a heroína para acalmá-lo, eu tentava fazê-lo em vão.
“Pensei que nunca perguntaria.” Fiquei em pé em um salto ao assustar-me com outra voz em meus pensamentos “Não se preocupe, no começo é sempre assim, estranho.” A voz riu como se achasse graça da situação.
“Quem é você? E o que está fazendo na minha cabeça?” rodei meu corpo no mesmo lugar à procura daquele com quem pensava estar falando comigo.
“Você não vai me encontrar, por mais que procure.” A voz disse risonha ao perceber a situação em que me encontrava “Eu não estou no plano físico.”
“Então eu estou louca, é isso o que você quer dizer?” pousei de forma zangada as mãos sob minha cintura.
“Não, minha querida.” Ele disse um pouco mais sério “Você está morta.”
Aquilo foi demais para mim.
“Acho que prefiro a minha teoria, muito obrigada.” Respondi enquanto buscava com os olhos algum tipo de saída.
“Não adianta negar, . Você sabe que estou dizendo a verdade.” A voz dizia de forma tão calma e convincente que me vi forçada a escutá-la “Procure em suas memórias. Qual é a última lembrança que você tem?”
Fechei meus olhos e inspirei fundo, tentando me lembrar do que ocorrera na noite passada...
- Vamos, , não seja fominha. – Marc disse de forma histérica enquanto eu acabava com a seringa em minhas mãos.
- A casa é minha, então devo ter certos privilégios. – ri alterada enquanto caía deitada no chão da sala de estar, já sentindo a droga alterar minha visão e pensamentos.
- Isso é uma festa, amiga. Privilégios não existem aqui. – Sabrina disse enquanto voltava a beijar Toni, que descabelava seu cabelo no processo.
Sorri largamente de olhos fechados, pois abertos só me dava ainda mais tontura. Logo, senti um corpo subir em cima de mim e começar um beijo lento em meu pescoço.
- Eu sei de um que você pode ter... – Marc sussurrou maliciosamente em meu ouvido e me vi incapacitada de resisti-lo.
- Faça com que eu não me arrependa. – respondi em um gemido enquanto sua boca colava na minha e nossas línguas se entrelaçavam já famintas.
Enrosquei minhas pernas em sua cintura, da qual já denotavam um grande volume. Sorri ao percebê-lo, iniciando movimentos sensuais com meu tronco para incentivá-lo ainda mais.
Marc se levantou do chão um tanto vacilante comigo dependurada em seu corpo. Não ousávamos interromper as carícias e meu acompanhante teve que seguir às cegas em direção às escadas que nos ligavam até meu quarto.
Quando chegamos a minha cama e apesar de estar naquele estado de quase inconsciência, não deixei de perguntar-lhe:
- Trouxe a camisinha?
Abri os olhos, por mais que este ato me trouxesse grande enxaqueca, e vi que ele já se encontrava com a calça na metade das pernas.
- Deve estar lá embaixo. – Marc respondeu um pouco culpado após apalpar as vestes caídas em busca do produto.
- Eu vou buscar. – bufei de irritação pela demora, empurrando-o para o lado e seguindo cambaleante em direção às escadas.
No topo delas, apoiei uma de minhas mãos na parede e pousei a outra sob meus olhos. A heroína estava chegando a seu ápice e não havia mais nada que eu pudesse fazer para impedi-la naquele momento.
E foi exatamente por isso que minhas pernas enfraqueceram e eu caí da escada.
“Morri porque caí da escada?” perguntei incrédula “Que motivo mais idiota!”
“Existem piores, acredite.” A voz constatou pensativa “Por exemplo, teve uma vez que...”
“Esse é o paraíso, então?” cortei sua fala com certa impaciência.
“Na verdade, você ainda tem que pegar a sua senha para descobrir se vai ficar por certo tempo no paraíso ou se já vai reencarnar de uma vez.”
“Mas que...” parei de falar, um pouco embasbacada ao virar minha cabeça mais uma vez e notar uma máquina de senhas ao meu lado.
“Sinistro, não?” ele disse divertido “Eu também agi assim na minha primeira vez.”
“Primeira vez?” perguntei enquanto pegava o papel que pendia da máquina, percebendo que o número 71 estava inserido ali.
“Bem, você sabe... Nós almas encarnamos diversas vezes até atingirmos um nível elevado de espiritualidade. Quando isso acontece, ficamos aqui no céu para o resto da eternidade, ajudando outras almas a seguirem seu rumo corretamente. Agora que já tirou seu número, temos que encontrar a fila de almas para a secretaria e...”
“Qual é seu nome?” perguntei em uma voz carinhosa.
“Eu já tive vários... Mas eu uso Gabriel.” Ele perguntou receosamente.
“Ok Gabriel, nós temos um pequeno problema... Eu não estou pronta para morrer ainda.” Sorri falsamente apesar de ninguém estar me vendo. Ou eu pensava não estar “Eu sou jovem, acabei de fazer 18 anos e tenho uma vida inteira pela frente.”
“Parece que não tem mais.” Ele riu fracamente, parecendo estar com medo de minha reação “Sei que é difícil, mas você tem que entender. Além do mais, daqui a pouco você vai ter todas as memórias desta vida apagadas e...”
“Eu não quero me esquecer! Eu quero voltar como eu mesma e ponto!” exclamei alterada “Onde fica a saída dessa joça?” procurei com o olhar mais uma vez na imensidão irritante daquele lugar.
“Boa sorte com isso.” Ele disse ironicamente e permaneceu em silêncio.
“Decidiu ficar quieto, é?” gritei para o nada e não recebi resposta. Abri meus braços e olhei para cima “Tudo o que quero é viver! Isso é tão errado assim?” a quietude já começava a me irritar “Pelo amor de Deus, me dê um sinal!”
Foi nesse exato momento que, a uns cinco passos de mim, surgiu um enorme portão ornado a ouro e figuras angelicais.
“Tudo que era necessário fazer era pedir?” incrédula, fitei mais uma vez para o que imaginava ser o céu “Que espécie de lugar doente é esse?”
“, é sério, você não pode ir!” Gabriel voltou a ocupar a minha mente e sorri sarcasticamente.
“Voltou a falar comigo agora?” ri com gosto enquanto me dirigia ao portão “E se eu não pudesse ir, porque a saída teria aparecido para mim do nada?”
“Porque tudo o que se pede aqui se realiza!” sua voz parecia amedrontada “Se você passar por esta porta, talvez nunca possa voltar!”
Parei abruptamente.
“Tipo um ser imortal?” ergui a sobrancelha.
“Sim.” Ele suspirou aliviado, talvez pensando que conseguira me convencer.
Sorri maliciosamente e mordi o lábio inferior.
“Então é melhor eu não me demorar mais, não é mesmo?” e foram essas as últimas palavras antes de eu abrir as portas e cair na inconsciência mais uma vez.
Capítulo II:
Desta vez, acordei rapidamente. Não ceguei ao abrir meus globos oculares e nem hesitei ao sentar-me no local gélido e duro onde me encontrava.
Percebi que estava em um necrotério, pela quantidade de vezes em que vi Law and Order SVU, e agradeci mentalmente por não ter sido feita autópsia em meu corpo ainda. Eu vestia uma camisola azulada e minhas roupas se encontravam em uma sacola na cadeira ao meu lado.
“O que você fez...” dei um salto ao escutar a voz de Gabriel ainda em minha mente.
“O que faz aqui?” perguntei incrédula, estática onde estava sentada “Você não deveria, tipo, ter desaparecido?”
“Estou preso aqui, graças a você.” Sua voz soava zangada e pouco angelical “Se tivesse me dado mais alguns segundos, eu já teria ido embora faz tempo...”
“Quer dizer que terei que passar a minha imortalidade com você na minha cabeça?” gemi em protesto “Agora sim estou arrependida de ter voltado.”
“O que iremos fazer agora?” ele reclamava enquanto me trocava “Quer dizer, tenho que levar você de volta e...”
“Pode esquecer fofo. Eu não vou voltar, por mais que você seja super irritante.” Verifiquei minha imagem no espelho e continuei “E quanto ao que iremos fazer... Você eu não sei, mas eu vou aproveitar a minha segunda chance.”
E foi com essa frase que saí daquele lugar sinistro.
“Mas isso é contra as regras!” bufei de frustração quando ele continuou a discursar “Se cada vez que alguém jovem morresse e pedisse para voltar por não ter aproveitado a vida, não haveria mais...”
“Blá blá blá... Você nunca para de falar?” o interrompi e fiz sinal para o táxi parar à minha frente “Tente aproveitar um pouco, meu bem. Quantas vezes mais você vai estar dentro de uma mente feminina? Não é isso o que todos os homens desejam?” eu ri com gosto.
“Hahaha, muito engraçado... Deveria ser comediante, sabia?” revirei os olhos.
“Se teremos que conviver no mesmo corpo, pelo menos um pouco de senso de humor você vai ter que desenvolver.” retruquei após falar em voz alta o nome da rua para o motorista.
“É que há certa diferença entre almas com vozes e formas masculinas e homens humanos.” Sua voz era puramente ofendida.
“Eu estou louca para ouvir a diferença...” pensei ironicamente enquanto olhava para fora da janela e tentava não escutar o monótono monólogo interno que viria a seguir.
Miami. Uma cidade boa de viver, se você gosta de movimento turístico 24h por dia em qualquer lugar que você vá e um clima exageradamente quente o ano inteiro. Fixei meu olhar na praia pela qual nós passávamos, observando seu mar aparentemente sem fim e pensando em o quanto a eternidade semelhava-se a essa imagem...
- U$30,00. – a voz do motorista ranzinza acordou-me de meus pensamentos e logo fui revistar meus bolsos à procura de qualquer indício do meu dinheiro.
“Legistas safados, levaram minha carteira!” os amaldiçoei antes de sorrir amarelo e dizer com voz dengosa:
-Moço, você não sabe o que me aconteceu... - abri ainda mais meus olhos para melhorar minha atuação - Minha mãe acabou de morrer e era por isso que estava no necrotério. Fiquei tão abalada que saí correndo de casa e esqueci minha carteira... Pedi para uma amiga me levar, mas ela não pôde ficar. - Tremi um pouco meu lábio inferior - Alivia essa para mim?
O escutei bufar e quando virou sua cabeça para me encarar, fitei profundamente seus olhos. Logo em seguida ele disse:
- Sai logo desse táxi e não me apareça mais por aqui.
Foi com surpresa que vi o táxi sumir no horizonte.
“Será que adquiri alguma espécie de poder ao ressuscitar?” fui sorrindo gradualmente.
“É claro...” eu estava prestes a pular de alegria quando Gabriel completou a frase “Que não! Pensa o que, que estamos no livro The Vampire Diaries para que você possa sair hipnotizando todo mundo? Você é uma bela de uma pilantra, isso sim! Onde já se viu...”
“Se está dizendo isso é porque você leu o livro...” olhei para o céu com um sorriso sapeca.
“Sim... Não... Quer dizer...” o senti confuso e gargalhei com aquilo “Entidades celestiais não leem, tá?”
“Como quiser...” balancei a cabeça enquanto terminava de rir e virava-me de costas para a rua.
“É aqui que quer começar sua segunda chance?” Gabriel perguntou com um pouco de incredulidade.
“Existe melhor jeito?” sorri largamente ao dar passos confiantes em direção à boate.
- Oi John. – ultrapassei a gigantesca fila de pessoas e cumprimentei o segurança que estava de guarda na porta principal. Nós éramos amigos de longa data, pelas tantas vezes em que me embebedei e me droguei nessa mesma boate.
- Fim da fila. – o tom neutro de sua voz fez-me acreditar que ele não estava de brincadeira.
- John, sou eu. . – o meu antes amigo fitou-me com o canto dos olhos.
- Não, você não é. E fazer piadas com a morte não é o melhor jeito de se conseguir passar. – arregalei os olhos ao assimilar suas palavras – Agora, fim da fila. Ou quer que eu linche você?
Praticamente rastejando, dirigi-me para o final daquele mar de pessoas desesperadas por álcool e diversão.
“Como ele soube?” perguntei-me inconformada com a situação.
“Pense no lado positivo. Agora podemos ir embora daqui e descobrir um meio de levar você de volta.” A esperança em sua voz era tanta que não tive coragem de rir da cara dele.
“Bela tentativa, mas eu tenho um plano.” Ele suspirou enquanto me dirigia furtivamente para a porta dos fundos, que sempre ficava vazia. Passei pelo lance de escadas sem ser notada e, olhando para os lados para ver se ninguém me via, entrei na boate.
Eu tive sorte ao entrar naquele horário. A pista já estava parcialmente lotada e se eu tivesse demorado mais alguns minutos, provavelmente me encontraria em uma lata de sardinha onde não conseguiria nem me mover.
- Bob, vê uma Ice para mim. – decidi começar pelo bar. Apoiei meus braços no balcão e sentei-me confortavelmente no assento estofado ao meu lado.
- Não sou Bob, mas pode me chamar de . – virei minha cabeça com o cenho franzido e não pude deixar de sorrir de lado com a cena à minha frente.
- O que aconteceu com ele? – fitei de cima a baixo o deus grego que se encontrava do outro lado do balcão.
- Perceberam que o barman é o que atrai o público e que contratando um mais bonito faria mais sucesso. – ele abriu os braços se vangloriando por sua beleza divina e sorriu largamente – Então, aqui estou.
“Eu não aconselharia a...” Gabriel começou com sua conversa fiada e o interrompi ao dizer em voz alta:
- Com certeza a clientela vai ficar satisfeita. – ri fracamente e complementei – , prazer.
- , ao seu dispor. – ele pegou minha mão e a beijou em um sinal de cavalheirismo.
- Olha que eu posso abusar disso, hein? – rimos enquanto entregava-me a bebida.
- Eu estou contando com isso. – ele piscou para mim e senti minhas bochechas formigarem – Mas afinal, o que uma bela dama como você faz aqui?
- Estou à procura de diversão. A vida é muito curta, sabe... – percebi a ironia em minha frase e sorri disfarçadamente.
- Tem que aproveitar enquanto pode, não? – me serviu mais um copo quando acabei o primeiro – Quer dizer, em um minuto pode se estar andando na rua e no outro... Bum! Um carro passa por cima de você.
- Nada trágico, hein? – ri com mais gosto ainda, sentindo o efeito do álcool em minha circulação sanguínea – Então... É permitido ao barman dançar? – mordi meu lábio inferior e o encarei maliciosamente.
- Não posso, tenho que trabalhar. – ele fez uma careta e ri mais um pouco.
- Bem... Quem sabe outra hora. – levantei-me do assento – Afinal, vou ficar aqui a noite toda.
E antes que ele dissesse mais alguma coisa, virei-me de costas e segui para a pista antes que ela ficasse cheia demais.
“Por que foi embora se estava interessada nele?” a voz de Gabriel soou confusa e insegura em minha mente.
“Estou me fazendo de difícil, chuchu.” Ri levemente, movimentando meu corpo de acordo com a batida da música “Os homens nos valorizam mais quando os ignoramos. Ou vai dizer que isso não é verdade?”
“Culpado.” Foi tudo o que recebi como resposta e aproveitei o momento para apenas fechar os olhos e sentir minha vida fluir por minhas veias mais uma vez.
Não sei por quanto tempo fiquei dançado, mas eu realmente não me importava. De vez em quando passava as mãos em meus próprios cabelos, os bagunçando mais do que já estava, e rebolava sensualmente sem me incomodar com os olhares sobre mim.
“Essa não...” o tom alertado da voz masculina fez com que eu arregalasse os olhos e entrasse em alerta.
“O que foi? Bob descobriu que estou aqui?” passei meu olhar sobre o recinto sem encontrar nenhum sinal de sua presença.
“Pior. Os anjos-da-guarda descobriram.” Ele engoliu em seco e eu automaticamente fiz o mesmo “E eles estão bem atrás de você.”
Antes que eu pudesse, ao menos, reagir, senti uma mão em meu ombro a pressionar fortemente e uma voz dizer em meu ouvido:
- É melhor vir conosco. – assenti rapidamente com a cabeça e segui em direção ao esconderijo pelo qual passara anteriormente.
“Obrigada por me avisar só agora.” Reclamei assustadiça.
“Pelo menos eu tentei.” Ele respondeu no mesmo tom e tive a impressão de que ele revirara os olhos.
“Pensei que anjos-da-guarda protegiam crianças indefesas e esse tipo de coisa...” senti um empurrão às minhas costas e me forcei a continuar andando.
“Mera interpretação humana. Na verdade, anjos-da-guarda servem para proteger a ordem natural do céu, terra e inferno. E eles podem ser bem agressivos quando se trata de seu trabalho.” Ele engoliu em seco mais uma vez.
“Que ótimo, era tudo o que eu queria: brutamontes na minha cola.” Revirei os olhos e bufei contrariada quando senti o vento em minha pele e percebi que já nos encontrávamos fora da boate.
- Não precisa ter medo. – outra voz acordou-me do diálogo interno – Nós só a machucaremos se for estritamente necessário.
“Sinto-me muito mais tranquila, obrigada.” Pensei sarcasticamente e mordi minha língua para não dizê-lo em voz alta.
- Olha, isso tudo realmente não é preciso. – sorri amarelo enquanto era pressionada contra a parede e encarava aos três anjos que se encontravam à minha frente. Todos eram incrivelmente belos, com cabelos loiros, olhos azuis e peles pálidas como a lua. Pareceriam gêmeos se não fossem pelos traços físicos – Que tal se somente me deixarem ir embora, viver minha eternidade em paz e todos formos felizes para sempre? – ri fracamente ao perceber o quão estúpida era a ideia.
- E por que faríamos isso? – o anjo do meio riu com gosto.
- Oras, porque não há como eu voltar atrás?
Os três se entreolharam por meros segundos antes de caírem na gargalhada.
- E quem foi que te disse essa besteira? – o do lado esquerdo perguntou em meio à falta de ar.
Espremi meus olhos internamente.
“Eu tinha dito que talvez você nunca conseguisse voltar, lembra?” Gabriel riu sem graça.
“Você me faz passar cada vergonha...” respondi entre dentes ao meu irritante guia espiritual.
- Espera, espera. É o Gabriel que está aí dentro? – o do lado direito perguntou cutucando a minha cabeça ao mesmo tempo.
- Er... E se fosse? – ergui a sobrancelha, decidida a não pagar mais mico do que já passara.
Os três gargalharam com gosto mais uma vez.
- Se fosse, então você estaria em maus lençóis, garota. – o do meio falou novamente – Ô Gabriel, em que situação você foi se meter desta vez?
Senti-o rígido em minha mente.
- Agora vamos voltar ao que interessa. – o do lado esquerdo limpou uma lágrima de sua bochecha – Olha menina, você está arranjando confusão por nada. Que tal pularmos para a parte em que você aceita voltar e se suicida?
- Como é que é? – escancarei a boca sem acreditar no que escutara.
- É simples. Tudo o que você tem que fazer é se matar. Ninguém pode fazer isso por você por causa do livre arbítrio. – o do lado direito discursou – Leis lá de cima. – ele terminou ao revirar os globos oculares.
- E se eu não quiser? – cruzei os braços, desafiadora – Afinal, ninguém pode me assassinar mesmo!
Eles se entreolharam mais uma vez, mas desta vez seriamente.
- Estamos tentando te ajudar. – o do meio voltou a falar – Uma hora ou outra, você vai perceber que tem que voltar. Você pensa que é a primeira humana a ressuscitar?
Desta vez eles tinham me pego.
- Quanto mais você ficar, mais difícil vai ser. – o do lado esquerdo disse – E não só fisicamente, mas sentimentalmente também.
- O que quer dizer com isso? – franzi o cenho, confusa.
O do lado direito se inclinou até meu ouvido e sussurrou:
- Você já vai entender.
- ? – virei minha cabeça para o lado e vi correr em minha direção – Você está bem?
Quando olhei para o outro lado, os anjos já haviam sumido.
- E-Eu não sei. – tremi dos pés à cabeça e senti seus braços me envolvendo confortavelmente.
- Você está gelada. – sua mão foi em direção à minha testa – Tem onde ficar?
Bem, voltar para casa eu não podia, meus pais estavam lá. Foi esse pensamento que me fez balançar a cabeça freneticamente e encher minhas pálpebras de lágrimas sufocadas.
- Vou te levar para minha casa, ok? – ele secou uma lágrima que havia percorrido minha bochecha – Hei, está tudo bem agora.
Não, não estava nada bem.
Capítulo III:
- Como você sabia onde eu estava? – sussurrei enquanto olhava janela afora, observando a paisagem passar diante de meus olhos rapidamente pela velocidade do carro de .
- Na verdade eu pensava que você ainda estava na pista de dança. – ele riu nasalado, ainda encarando a sua frente – Quando meu expediente acabou, pensei em procurá-la, mas não a encontrei em lugar algum. Saí da boate para pegar meu carro e ir para casa quando te vi apoiada na parede, sem ar e parecendo assustada. – no sinal vermelho, ele finalmente me encarou – Afinal, o que aconteceu?
Estremeci ao escutar sua pergunta. Nem eu mesma sabia o que havia ocorrido fora do bar: aconteceu tudo tão rápido e ao mesmo tempo... Eu até tentava me convencer de que aquilo havia sido uma ilusão, um sonho.
Ou pior, um pesadelo.
- Foi tudo tão confuso que duvido que algo tenha acontecido de verdade. – era minha vez de rir nasalado, sem humor. Cruzei meus braços e me encolhi no banco do passageiro, permanecendo em silêncio, o que não pareceu se incomodar.
Uns dez minutos depois e parávamos em frente a um prédio de cinco, dez andares no máximo. Depois de estacionar seu automóvel na garagem, o barman anteriormente desconhecido colocou as mãos nos bolsos e me guiou escada acima até o terceiro andar, onde ficava seu apartamento.
O lugar era agradável, admito. Havia quatro cômodos, pelo que pude notar: sala, com sofá e TV, cozinha, quarto e banheiro, isso sem contar a varanda com a belíssima imagem da praia. Era difícil acreditar que o local fosse tão arrumado, já que o dono era um homem solteiro que morava completamente sozinho.
- Sinta-se em casa. – acordei de meus devaneios com sua voz já um pouco mais animada – Vou arranjar algo para você vestir e já volto.
Sorri fraco em sua direção, mas seu corpo já havia sumido ao entrar no quarto. Sentei-me em seu sofá, sentindo-me culpada por fazê-lo sem permissão formal, e entrelacei meus dedos das mãos.
“Você os conhece?” mordi meu lábio inferior, esperando algum tipo de resposta de Gabriel. Fazia certo tempo que não ouvia sua voz e isso já começara a me preocupar.
“Infelizmente.” Exalei o ar ao, finalmente, escutá-lo. Ele parecia magoado e não pude deixar de me entristecer também.
“Eles são, tipo, bully’s?” franzi o cenho e esperei para ver se minha interpretação estava correta.
“De certa forma.” Gabriel riu fracamente “Quer dizer, eu sou praticamente novato por aqui, sabe? É lógico que eles iriam me infernizar...”
A quietude reinou por longos e torturantes segundos. Nenhum de nós dois sabíamos o que dizer: eu, por saber o quão ruim os bully’s podem ser e por nunca ter passado por algo parecido, e Gabriel, por ser desconcertante e incômodo falar sobre o assunto.
Suspirei, decidida a aliviar a tensão de minha cabeça.
“Eu não acho que estou em maus lençóis.” Percebi que atraíra sua atenção e prossegui “Aliás, eu não trocaria você por outro guia espiritual por nada nesse mundo.”
“Mesmo?” havia um toque de ceticismo em sua voz e isso me fez sorrir torto.
“Mesmo, apesar de você ser extremamente irritante, como disse anteriormente.” Ambos rimos levemente e senti minha cabeça relaxar com a ação.
“Obrigado, .” Senti minhas bochechas queimarem “Apesar de você ser terrivelmente desagradável também.”
“De nada, seu mal agradecido.” Revirei os olhos e paramos com o diálogo interno quando percebi retornando com a camiseta em mãos.
- Foi meio complicado de achar, mas creio que essa ficará menos gigante em você. – ele riu e eu sorri sincera.
- Obrigada, . – seus olhos se arregalaram com minha aproximação repentina – De verdade.
E mais uma vez, o silêncio. Seus olhos praticamente comiam os meus apenas com o contato visual e eu podia sentir sua respiração bater em minha pele, desregular como a minha. Pude ver sua mão começar a se esticar em minha direção, mas no segundo seguinte ela já estava em sua nuca, um sorriso quase descontraído aperfeiçoando seus lábios carnudos.
- O banheiro fica à esquerda. Os cobertores e travesseiros ficam abaixo da televisão. – ele deu um passo para traz, ansioso – Boa noite, .
Meu nome pronunciado em sua voz fez meu corpo estremecer mais uma vez. Minhas mãos se transformaram em punhos para que eu não fizesse algo com que eu pudesse me arrepender mais tarde.
- Boa noite. – sussurrei de volta e, com passos hesitantes, o dono da casa se afastou e entrou em seu próprio quarto.
E logo me encontrava deitada no sofá, com a camiseta do Kiss cobrindo meu corpo até as coxas e meus olhos encarando o teto, como se estivesse à procura de alguma resposta. Gabriel não dizia nada e eu não fazia questão de fazê-lo, já que tinha certas dúvidas quanto ao fato de anjos dormirem ou não. Tudo em que minha mente se fixava era em : em como sorria, coçava sua própria nuca, erguia a sobrancelha como se estivesse a me seduzir e me abrigara sem nem duvidar de minha índole.
Afinal, quem era esse homem?
E por que eu não conseguia deixar de pensar nele?
(...)
Cinco horas depois e eu já estava me espreguiçando no sofá, reclamando em gemidos pelas cortinas da janela não estarem devidamente fechadas.
-Bom dia, Bela Adormecida! – mostrei a língua ainda de olhos fechados, sem saber exatamente onde estava.
- Que horas são? – sentei-me, colocando a mão na boca ao bocejar e esfregando os olhos no intuito de acordar.
- O suficiente para tomarmos um belo de um almoço e não café-da-manhã. – ele sorria abertamente encostado na parede à minha frente, seus olhos brilhando e sua energia irritantemente contagiante. Suspirei apaixonadamente ao ter a visão do que parecia ser um Deus Grego, com suas calças jeans, jaqueta de couro acima da camiseta branca, All Stars negros e cabelos despojados – Onde a senhorita gostaria de almoçar?
- Em qualquer lugar que tenha comida. – fiz uma careta ao sentir minha barriga roncar e nós dois gargalhamos com gosto.
Coloquei a mesma roupa que usara no dia anterior, apesar dos protestos insistentes de que diziam que ele poderia muito bem correr até uma loja e comprar outra para mim. Como se homens soubessem sobre gosto feminino, há!
- Se o fizesse, eu nunca poderia devolver o dinheiro. – respondi entre risadas após escutar sua proposta, da qual admito ter sido na maior das intenções.
- Está fugindo de casa para não poder ir até lá e pegar, por acaso? – ele respondeu rindo e um nó se formou em minha garganta.
- De certa forma... – sorri amarelo, mas não foi o suficiente para que ele não se sentisse culpado.
- Desculpe-me. – sussurrou sem jeito e senti meu coração se espremer dentro do meu peito, causando-me dor.
- Não há do que se desculpar. – disse sincera – Não havia como saber.
Nós dois sorrimos cúmplices e seguimos nosso caminho.
Logo já estávamos no shopping, nossos braços entrelaçados sem percebermos enquanto andávamos em frente às vitrines e ríamos dos ridículos manequins como se fôssemos um casal apaixonado.
A palavra amor cruzou minha linha de pensamento e meu corpo se enrijeceu. Não, eu não poderia me apaixonar. Esse privilégio havia sido arrancado de mim com a minha morte.
Amar significaria querer ficar com a pessoa, casar e ter filhos. Porém, eu nunca iria poder fazer qualquer dessas coisas, por mais que eu desejasse, pois eu era imortal e nunca envelheceria.
“Nada é perfeito, não?” bufei e pude perceber certa ironia na frase de Gabriel.
“Cala a boca...” interrompi minha fala para arregalar os olhos e ver àqueles que nunca mais queria encontrar.
“?” perguntou ao mesmo tempo em que eu o arrastava até uma máquina daquelas que tiram várias fotos consecutivas, no intuito de fugir dos três anjos-da-guarda.
“Eles já foram?” Gabriel perguntou com a voz tremida e estiquei minha cabeça para fora do cubículo onde nos encontrávamos.
“Já.” Expirei aliviada “E eu acho que eles não nos viram.”
- O que há com você? – voltei a encarar com um misto de vergonha e desespero.
- É que eu amo essas máquinas! – fiz uma careta para a foto e voltei a encará-lo – Você simplesmente não ama ter suas fotos tiradas sem que você mesmo tenha que fazê-lo?
Para o meu alívio, logo ele estava gargalhando com gosto do que eu dissera. Expirei e esperei que o fato não ficasse tão aparente.
- Você é tão imprevisível. – engoli em seco – E eu adoro isso.
Tudo o que pude fazer foi sorrir enquanto sentia o calor tomar conta de meu rosto.
(...)
- Posso te fazer uma pergunta? – ele abocanhou o seu super-hiper-mega-exagerado-hambúrguer e ergui minha sobrancelha em sua direção.
- Contanto que não seja sobre qual lingerie estou usando neste exato momento... – senti-me um pouco culpada por fazê-lo engasgar com a risada que veio depois.
- Não se preocupe quanto a isso. – ele disse após se recuperar, um sorriso torto em seus lábios aparentemente apetitosos.
- Desembucha, então. – senti meu coração falho com essa cena divina e me dispus a sorrir amarelo para disfarçar meu nervosismo.
- Você é louca? – quando arregalei meus olhos, ele continuou – Quer dizer, só pode ser, já que aceitou ir até minha casa sem nem saber quem eu era ou quais eram as minhas intenções...
- Se eu sou louca, você também é, já que ofereceu a sua casa para alguém que não conhecia e que poderia ser alguém totalmente psicótica e sádica. – respondi com um sorriso de lado antes de dar mais alguns goles em meu milk-shake.
- Tuché... – seu olhar sobre mim era surpreso e totalmente despreparado – Você sempre tem resposta para tudo?
- E você sempre tem pergunta para tudo? – apoiei meus cotovelos em cima da mesa e fez o mesmo.
- Eu perguntei primeiro.
- E eu perguntei segundo. Parece que estamos em uma encruzilhada. – apoiei minhas costas no encosto e cruzei os braços, triunfante.
- Você é impossível. – ele riu balançando a cabeça e colocando o cartão de crédito na conta – São só perguntas. Não estou invadindo sua vida ou algo do gênero.
- Perguntas geram outras, meu caro. Daqui a pouco vai querer saber qual é o número do meu RG e meu CPF. Acredite, não vou deixar que chegue a tanto. – o garçom veio pegar o cartão e, tão rapidamente quanto chegou, ele se foi.
- Se não quer me deixar saber sobre você, ótimo. – nos levantamos após recuperar seu cartão de crédito – Pergunte qualquer coisa sobre mim.
- Por que acha que eu teria interesse na sua vida? – o fitei de esguelha e sua mão estava estrategicamente posicionada em cima do peito.
- Ouch. Essa doeu. – ele fez cara de dor e eu ri, dando um tapa leve em seu braço.
- Trágico. – balancei minha cabeça em descrença – Você não vai desistir, não é mesmo?
- Essa palavra não consta em meu vocabulário. – nós rimos e ele continuou – Que tal se fôssemos andar na praia? Aposto que vai ser mais fácil para você formular seu questionário. – ele riu mais uma vez.
- Não gosto muito de areia. – fiz uma careta e já estava quase dizendo para ficarmos quando vi os três anjos-da-guarda vindo em minha direção – Mas eu gosto de grama. Serve?
(...)
O sol já estava se ponto entre as nuvens do horizonte. Ambos caminhávamos descalços sobre a grama do parque, que estava praticamente deserto por causa do horário, e brincávamos um com o outro como se já fôssemos velhos amigos.
- Sua família é do mal, hein? – comentei entre risadas escandalosas – Em quantas confusões já se meteram!
- Se eu fosse te contar a lista inteira... – riu mais fracamente desta vez, olhando-me com aqueles olhos que poderiam causar um ataque cardíaco, se quisesse – Pena que não falo mais com nenhum deles.
Mordi o lábio inferior e me arrisquei a perguntar:
- Por quê?
Nós paramos de andar para somente encararmos um ao outro longamente.
- Eu queria viajar pelo mundo, me divertir, e meus pais sempre tentaram controlar esse meu lado... Selvagem. – voltamos a caminhar mais lentamente – Houve um momento em que tive que me decidir entre seguir meu sonho ou aceitar a autoridade de meus pais. – ele suspirou de olhos fechados – Minha saída de casa dividiu minha família. E há três anos que não temos mais contato.
- Sinto muito. – respondi após uma longa quietude – Pais nem sempre são fáceis de lidar. Acredite, eu sei.
Eu sabia que queria me respeitar e por isso não me incentivara a continuar. O admirei por esse gesto, mas sabia que, se não colocasse aquela dor para fora, nunca teria paz em meu subconsciente.
Sentamos no chão almofadado pelo gramado e fora minha vez de suspirar de olhos fechados, dispondo-me a desabafar até certo ponto:
- Quando saí de casa, minha família passava por tempos difíceis. – meus olhos já começavam a mergulhar em lágrimas, porém, não me atrevi a parar – Meus tios estavam trapaceando meu pai, minha mãe a todo o momento ameaçava se separar... Todos os dias era a mesma coisa, e logo começaram a se passar os meses sem nada mudar. Eu não aguentava mais e procurei distrair-me de outras formas: festas, bebidas, drogas... Mas por mais que procurasse, por mais que ansiasse pela fuga... – solucei emocionada – Eu sempre estaria presa naquele furacão de confusões. E nunca poderia escapar disso.
Finalmente me rendi ao sofrimento que há tanto me aprisionara. Soluçava até não ter mais fôlego para mais e meu rosto, já banhado em lágrimas, não se cansava em se distorcer em um choro desesperado, triste. Senti braços ao redor de meu corpo e não hesitei em aninhar-me no peito viril daquele que me abraçava, praticamente encharcando sua blusa e agindo como se tivesse cinco anos outra vez.
Ficamos certo tempo ali, apenas nos embraçando ternamente. Eu podia sentir seu odor adentrar minhas narinas, o que era extremamente confortador, e o seu calor conseguia fazer com que eu me sentisse amada, protegida. Enrijeci ao ter esse pensamento cruzando minha mente.
- Aposto que agora você se arrepende de ter me levado para sua casa. – sussurrei com vergonha de mim mesma. Afinal, quem iria querer dar uma de babá para uma garota de 18 anos?
levantou minha cabeça para cima com o dedo indicador em meu queixo.
- Você é uma garota fantástica, . – ele respondia tudo em sussurros, como se estivesse, de alguma forma, hipnotizado – Ao mesmo tempo em que sabe ser séria, também sabe como ser divertida. Não tem ninguém que não gostaria de sua companhia; você realmente sabe como agir e não tem medo de dizer o que pensa. E apesar de ser reservada, é quase possível enxergar a verdade apenas pelos seus olhos...
Foi nesse momento que tive um estalo. Nossos olhos se encaravam como se pudessem, de certa forma, se comunicar por si mesmos, ou até se tocar. O belo homem à minha frente passou a mão delicadamente pela extensão de meu rosto, o que me fez suspirar auditivamente e estremecer em seus braços. Eu estava tão perto de esticar meu braço e enlaçar sua nuca apenas com minha mão...
A sirene da ambulância que passava ali perto acordou-nos do momento quase mágico em que passávamos. Em um pulo, havíamos separado completamente nossos corpos, deixando-nos encabulados pelo que quase fizéramos há pouco.
- Acho melhor irmos, antes que nos tranquem aqui. – riu sem humor, levantando-se, limpando sua calça e esticando a mão para me ajudar a levantar, da qual aceitei apesar de um pouco relutante.
O silêncio foi excruciante no caminho para sua casa. Eu me concentrava em apenas olhar para fora, mas meus pensamentos não pareciam querer obedecer aos meus comandos. Por mais que eu fosse imortal e tivesse consciência de que eu nunca, mas nunca mesmo, poderia sequer pensar em me apaixonar, eu me peguei... Querendo fazê-lo. E ainda mais com .
Enxuguei os olhos que ameaçavam transbordar novamente, com o intuito de dispersar essas ideias de minha mente. Doía-me pensar que enquanto eu ficasse bela e imortal, ele ficaria velho e, em dado momento, morreria em meus braços, dando o seu último suspiro de vida e, assim, me abandonando para sempre.
Eu poderia esperar por sua reencarnação, é claro, mas como conseguiria encontrá-la? E como eu poderia passar por seus momentos finais de novo e de novo, repetidas vezes?
Eu não tinha estômago para tanto.
Acordei de meus devaneios quando estávamos entrando em seu apartamento. Sua expressão facial era tortuosa, agonizante. Como se quisesse me dizer algo e temesse fazê-lo...
Suspirei pesarosamente, preparando-me para despedir-me de e nunca mais vê-lo novamente.
Era melhor assim. Para nós dois.
- , eu... – comecei a dizer, porém, não consegui continuar:
Seus lábios já estavam inesperadamente grudados aos meus.
Não houve jeito de evitar. Por mais que meu subconsciente, provavelmente comandado por Gabriel, estivesse me alertando para separá-lo de mim, eu não conseguia obedecê-lo. Um choque térmico transpassava entre nossos corpos, fazendo os pelos de minha pele se arrepiar e meu corpo relaxar em seus braços.
Inconscientemente, enrosquei meus braços em volta de seu pescoço, entrelaçando meus dedos nos cabelos de sua nuca. Seus braços também se enroscaram, porém, em volta de minha cintura, colando ainda mais nossos corpos. Nossas línguas travavam uma luta sem perdedores; nossos corações pareciam prestes a estourarem a qualquer instante. Pausamos momentaneamente para respirarmos, a culpa já transmitindo informações ao meu cérebro, quando seu sussurro fraco soou próximo ao meu ouvido:
- Esperei tanto para fazer isso...
A mordida no lóbulo de minha orelha fez-me gemer auditivamente, transbordando de prazer e paixão. Invadi sua boca novamente, mas com mais fervor, do qual correspondeu de acordo. Senti seu corpo me guiar para trás, provavelmente em direção ao seu quarto, mas estava aérea demais para me importar com o fato.
Se amor era aquilo que eu estava sentindo, então não estava pronta para desistir dele ainda.
Sorri entre o beijo quando escutei a porta do quarto bater atrás de nós. Percebi naquele instante que aquele era o começo do que seria a melhor noite da minha vida e que eu nunca, mas nunca mesmo, eu me arrependeria de tê-la experenciado, pelo menos, uma única vez.
Ou até mais vezes... Quem sabe?
Capítulo IV:
’s POV ON
Eu ainda arfava extasiado, apesar de já ter se passado uma hora após nossa quinta vez. Eu fitava longamente, esta dormindo em posição fetal tranquilamente e com um sorriso tímido enfeitando seus lábios carnudos.
Por que havia sido tão impulsivo? Nem eu sabia. A única coisa da qual eu tinha certeza era de que, se eu não arriscasse, nunca mais teria essa chance.
Loucura, não? Pode parecer. Mas eu sabia, bem lá no fundo, que eu não poderia tê-la para sempre, apesar de me pegar querendo fazê-lo. Eu sentia que, em um dia próximo demais, ela iria embora e nunca mais nos veríamos.
Bem, pelo menos nesta vida.
Balancei a cabeça e me levantei da cama do jeito em que me encontrava. Havia enlouquecido? Algo dentro de mim dizia que não, mas julguei essa parte de meu subconsciente a louca e não dei ouvidos a ela.
Fui até o banheiro lavar o meu rosto e tentar dispersar os pensamentos confusos que tomavam conta de mim. Tudo o que eu conseguia ver em minha mente era : seu sorriso, seu modo presunçoso de responder até as mais inocentes perguntas... Até seu modo de chorar havia despertado algo em mim que eu não sentia há muito, muito tempo...
Sempre fui como uma espécie de lobo, solitário. Nunca namorei sério: geralmente usava as garotas por uma noite e nunca mais as via novamente. E elas não pareciam se importar com o fato.
Mas era diferente. Desde que ela havia se apoiado no bar e eu havia colocado os olhos nela... Eu não sei. Era algo inexplicável, como se ela fosse um ímã e me puxasse em sua direção a todo o momento.
Por isso que a levara para minha casa, a alimentara, passeara com ela... Eu me via impossibilitado de me separar de sua beleza estonteante e seu humor bipolar. E quer saber?
Eu nem queria fazê-lo.
Voltei para o quarto o mais silencioso possível. Coloquei um short de moletom e deitei na cama, abraçando-a por trás calorosamente. Fechei os olhos e inspirei o odor de seus cabelos, que era uma espécie de calmante para mim. Estava quase me rendendo ao sono que me dominava e ao seu mundo dos sonhos...
- Você não vai querer fazer isso. – escutei uma voz vinda de dizer, porém, não era a sua voz.
Era uma voz masculina.
Arregalei os olhos e saltei para fora da cama, meu coração batendo descontrolado dentro do peito.
O que estava acontecendo, afinal?
- Eu sei que parece estranho, . – o corpo feminino se levantou, me encarando de forma reconfortadora. Levantei-me de onde havia me encolhido e percebi que seus olhos estavam diferentes, como se a pessoa com quem eu conversava naquele momento não fosse aquela com quem havia conversado o dia inteiro...
- Estranho é apelido! – fiz sinal da cruz com os dedos em sua direção – Olha, eu não sou religioso, mas juro por Deus que eu vou ligar para um exorcista e...
- E o que? Ele vai me arrancar deste corpo que não me pertence? – ele (ou ela?) revirou os olhos – Faça-me o favor. Como se eu não estivesse querendo sair da cabeça dela há mais de 24h! – eu franzi o cenho, confuso – Escuta, acho que começamos com o pé esquerdo. Meu nome é Gabriel e você, evidentemente, é .
- Onde está ? – por mais que parecesse loucura o que eu estava fazendo, naquele instante tudo fazia sentido, de alguma forma.
- Continua aqui dentro, mas está dormindo. – relaxei meus ombros ao saber que ela estava bem.
- E se você não é ela... – eu não tirava os olhos dele (a) - O quê é você?
Um sorriso brotou de seus lábios, mas a face sorridente não alcançava seus olhos.
- Está disposto a ouvir uma história? – cruzei meus braços e ergui a sobrancelha – Acredite, o assunto é de seu interesse.
Um pouco hesitante, peguei a cadeira que estava ao meu lado e me sentei nela, apoiando os cotovelos em meus joelhos.
- Sou todo ouvidos. – respondi já mais interessado.
E logo senti que me arrependeria desta escolha.
’s POV OFF
Espreguicei-me gemendo auditivamente, um sorriso largo emoldurando meu rosto. A noite passada havia sido inesquecível, exatamente como havia previsto.
Porém, logo que as memórias começaram a voltar, a culpa também marcou presença. Meu sorriso se desfez e meu coração se remoeu dentro de meu peito; eu sabia o que eu deveria fazer, mas será que eu tinha fôlego para tanto?
Levantei-me e arregalei os olhos, surpresa por encontrar sentado em uma cadeira à minha frente, seu olhar fixo em mim. Ele se encontrava somente de short e sua expressão perigosa foi a que me impediu de babar com a sua imagem.
- Bom dia. – franzi o cenho, preocupada e com um mau pressentimento – Aconteceu alguma coisa?
Um sorriso maquiavélico brotou de seus lábios e escutei um riso sarcástico escapar de sua garganta. Aquilo, definitivamente, não era um bom sinal.
- Na verdade, sim. – ele se levantou, virando-se de costas para mim – Eu tive uma experiência um tanto quanto exótica ontem à noite. – meu coração começou a bombear cada vez mais rápido – Sabe, eu nunca fui muito religioso para acreditar nesse negócio de demônios, anjos, almas... Mas eu acho que estava enganado, afinal.
- ... – senti meus olhos começarem a transbordar, mais uma vez.
- O nome dele era Gabriel, mas acho que os dois já se conhecem. – ele continuou como se eu não estivesse mais ali – Ele me contou uma história muito interessante, sabe? Sobre morte, reencarnação... – ele voltou a me encarar, seus olhos vermelhos e indecifráveis sobre mim – Acho que eu não preciso dizer mais nada, não?
- Eu ia te contar... – sussurrei, mas sua exclamação de raiva e dor me impediu de continuar.
- Quando? Por cartão postal, depois que fosse embora? – ele gargalhou ironicamente – Não, . Nós dois sabemos que você iria partir sem nem se despedir, quanto mais me contar alguma coisa. – permaneci em silêncio e ele chegou até mim, agarrando meu braço com força e me colocando de pé – Você mentiu para mim... – ele disse entre dentes.
- Eu não menti. – só omiti, completei mentalmente – E, aliás, o que esperava que eu fizesse, ? Que eu te contasse toda a verdade e esperasse que você não me considerasse uma louca? – diminui minha voz para continuar – Por acaso você acreditaria em mim? – ele permaneceu em silêncio e seu aperto afrouxou – Foi o que pensei. – arranquei meu braço de suas mãos e me virei de costas, vestindo-me rapidamente.
Quando terminei, dirigi-me para a porta com passos decididos e lágrimas percorrendo pela extensão de meu rosto sem que eu pudesse contê-las. Antes que saísse, virei-me de volta, onde pude encontrar ainda com os olhos sobre mim, e disse:
- Eu tive medo. – ele pareceu prestar atenção no que eu dizia – Medo de estragar aquilo que nós temos. Ou tínhamos, sei lá. – ri fracamente – Com você, eu podia, pelo menos por alguns instantes, me sentir viva outra vez. Como se eu nunca tivesse morrido. – abri a porta e pus metade de meu corpo para fora – Sinto muito se criei esperanças de algum futuro. Sinto muito se acha que eu o usei. – fechei meus olhos e solucei – Minha intenção nunca foi essa. Eu planejava passar uma única noite aqui e, depois, esquecer... Mas me vi incapacitada de fazê-lo. Vi-me incapacitada de partir, como se algo me prendesse a você: algo que eu não sabia o que era... Até agora.
Virei-me de costas para ele, disposta a colocar para fora todos os meus sentimentos, sem ter medo de quais seriam as consequências se eu o fizesse.
- Eu te amo, . – sussurrei, esperando que ele me escutasse ao mesmo tempo em que queria que ele não o fizesse – E espero que possamos compartilhar disso juntos algum dia.
Então, bati a por atrás de mim e corri em direção as escadas, sem olhar para trás.
(...)
“Eu te odeio.” pensei enquanto encarava o horizonte e sentava-me no banco da praça.
“Eu sei.” Gabriel respondeu em um suspiro “Desculpe-me por isso.”
“Eu ia contar, sabe?” comentei após certo tempo sem dizermos nada um ao outro.
“Não ia não. E você sabe disso.” Fechei os olhos e expirei profundamente.
“Você me acha ridícula, não?” ri sem humor algum.
“A maioria dos humanos são.” Ele também riu fracamente “Mas no seu caso acho que posso chamar de bom senso.”
“Mesmo?” ergui a sobrancelha, sentindo-me um pouco melhor com suas palavras.
“Poucos teriam a coragem que você teve para lutar contra a morte.” Um sorriso torto brotou de meus lábios “E ainda mais para ficar com a pessoa que ama.”
“Eu só conheci depois de ressuscitar...” comentei confusa.
“Nesta vida, talvez.” Sua voz era serena, certa do que dizia “Mas sua alma já conhecia a dele.”
“Essa conversa está cada vez mais doida, sabia?” balancei a cabeça enquanto ria fracamente.
“O que sentiu ao vê-lo pela primeira vez? Uma atração? Como se não conseguisse se afastar dele por muito tempo?” minha respiração ficou escassa com suas palavras “Cada alma nasce com uma espécie de rachadura no meio. Quando essa divisória se parte, duas almas gêmeas são formadas, convivendo entre si pelo resto da eternidade.” Ele parou para, a meu ver, recuperar o fôlego “É um modo para que nenhum ser, ao reencarnar, tenha que viver sozinho. é a sua cara metade, , e isso não é coincidência. Ambos estão destinados a se encontrarem em dado momento de cada reencarnação e estavam prontos para fazê-lo nesta também, até que...”
“Eu morri.” Completei fitando à minha frente sem enxergar a nada, realmente “E estraguei tudo. É isso?”
Um suspiro agonizante escapou de Gabriel.
“Não acredito que vou fazer isso...” ele sussurrou para si mesmo “Levante-se e siga às minhas instruções. E com cautela, pois isso é extremamente proibido e eu posso me dar muito mal se alguém descobrir o que estou fazendo.”
Levantando-me com a curiosidade me invadindo, não hesitei ao obedecer aos seus comandos e seguir pelas ruas sem nem saber aonde meus passos iriam dar.
(...)
“Isso é algum tipo de piada?” reclamei ao perceber que nos encontrávamos em frente a um hospital “Se for, é uma piada de muito mau gosto.”
“Só escuta, ok?” ele exclamou, o que me fez ficar surpresa e prestar atenção no que dizia “Está vendo aquele casal na terceira janela de baixo para cima?”
Levantei minha cabeça para visualizar melhor. Lá estavam eles: um homem andando pela sala parecendo preocupado e uma mulher deitada na cama acariciando sua barriga exageradamente grande com certo receio.
“O quê que tem?” balancei os ombros em descaso.
“Já era para o bebê ter nascido. Esse é o problema.” Ele dizia como se estivesse falando com uma criança de cinco anos de idade.
“E por que não nasceu?” franzi o cenho, levemente preocupada.
“Porque o bebê é você, .” Arregalei os olhos em sinal de espanto “A sua alma seria aquela que iniciaria a família pela qual o casal tanto anseia. Mas se você não nascer nas próximas 48h, o feto morre e o casal vai ter que tentar de novo, porém, com a diferença de que desta vez eles terão um grande peso em seus corações.”
“Como se eu já não estivesse me sentindo culpada o bastante!” virei-me de costas e marchei para longe daquele lugar com os olhos vermelhos de tanto chorar.
“O que estou tentando dizer é que nem tudo está perdido.” Fui parando de andar à medida que ouvia suas palavras “Você ainda pode fazer a escolha certa. Dê alegria àquela família, . Nós dois sabemos que é o melhor a se fazer.”
“E ?” perguntei com a voz tremida e chorosa.
“Vocês dois vão se encontrar de novo. É o seu destino.” Gabriel disse com a voz serena, como se soubesse qual seria a minha decisão.
Ficar com até que este morresse, sabendo o quão arrasado o casal ficaria, ou partir com a esperança de reencontrar minha alma gêmea novamente? Parecia uma escolha complicada; quase impossível de se fazer. Mordi meu lábio inferior, minhas mãos tomando formas de dois punhos, meus olhos apertando-se em meio ao desespero que meu coração sentia. Eu sabia qual era a escolha correta a se fazer, mas será que tinha coragem o suficiente para me entregar a ela?
Você realmente sabe como agir... Foram essas palavras que havia me dito naquele momento de revelações do parque. Foi quando percebi uma coisa que não havia percebido naquela hora: se ele confiava tanto em mim para dizer tal coisa, por que eu não poderia confiar em mim mesma?
Por que eu não poderia me arriscar e vencer esse medo que me assolava?
“Se você fosse se matar, aonde o faria?” sorri torto e sabia que, neste exato segundo, Gabriel estava com o maior sorriso que já conseguira formar.
“Creio que tenho o local perfeito para você.”
Capítulo V:
“Esse é o seu local perfeito?” ironizei ao posicionar-me na beirada da ponte “Uma arma seria ainda mais prático...”
“Por acaso tem dinheiro para comprar uma?” diante de meu silêncio, Gabriel continuou “Foi o que pensei.” Ele sussurrou a última frase mais para si mesmo do que para me contrariar.
Expirei e fitei longamente ao horizonte. O sol quase sumia, parecendo que mergulhava gradualmente sob o oceano que nos cercava. Não havia ninguém por lá, o que tornaria este momento ainda mais fácil.
Olhei, então, para baixo. Sua água pouco cristalina parecia me encarar de volta, pronta para me engolir no mesmo instante em que meu corpo afundasse em sua imensidão azul. Fechei meus olhos, meu corpo tremendo pelo que viria a seguir.
“Tem certeza que não quer se despedir de antes?” era a terceira vez que Gabriel fazia esta mesma pergunta e bufei de irritação por ele fazê-lo.
“ não vai querer nem olhar para minha cara, Gabriel. Para quê vou aumentar ainda mais meu sofrimento?” engoli em seco, abrindo meus globos oculares novamente.
“Pronta?” sorri fracamente de volta.
“Mais do que nunca.” Respondi, inspirando fundo e preparando-me para dar o primeiro passo em direção ao meu futuro incerto e inseguro...
- ! – escutei meu nome sendo chamado e virei minha cabeça em direção àquela voz tão conhecida.
- , o que está fazendo aqui? – franzi o cenho e logo ele me embraçava com seu corpo esguio e seu forte cheiro masculino.
- Eu senti que alguma coisa estava errada e sabia que era com você. – respondeu após me soltar – Não sei, foi como se estivesse com uma sensação ruim, ou um mau presságio.
“É o...” Gabriel começou a dizer quando eu o interrompi agressivamente.
“Se falar sobre destino outra vez, eu juro que te mato de novo e faço questão de fazê-lo lentamente.” O escutei engolir em seco e soube, então, que minha ameaça funcionara, enfim.
- E como me encontrou aqui? – perguntei tentando manter o foco na conversa e não nas águas profundas que me esperavam lá em baixo.
- Bem, eu te procurei em tudo quanto é canto, em algum lugar você tinha que estar, não é mesmo? – ele riu sem humor e pegou em minha mão calorosamente – Agora esqueça essa besteira e vamos embora, sim?
- Eu... Eu não posso. – forcei minha mão para trás quando seu corpo tentou puxar o meu – Tenho que fazer isso. É para o bem de todos.
- Para quem, ? Não é para o meu. Não é para o seu. – o tom de sua voz aumentava gradativamente – Quem se beneficiaria com a sua morte e, consequentemente, com meu sofrimento?
Meu coração se contorceu com suas palavras.
- A família calorosa que está esperando por um filho ou filha, . Ou uma geração inteira que está esperando para eu continuá-la. – acariciei seu rosto ternamente – Milhares e milhares de almas dependem de minha decisão para continuarem com suas funções. Não posso simplesmente apertar o botão “foda-se” e continuar aqui nesta reencarnação. Eu tenho que voltar.
Virei-me de costas, mas fui impedida de continuar mais uma vez.
- Mas eu te amo. – o sussurro de soou tão sincero que não pude deixar de encará-lo de volta e sorrir.
- Então me ame. – me surpreendia o fato de eu estar tão serena em um momento como esse. Porém, meu coração e minha respiração ficaram, de alguma forma, tão calmos que não tive coragem de tirá-los deste estado de paz.
Até parecia que meu corpo sabia da decisão que eu havia tomado...
E ele não estava triste por eu fazê-lo.
- Mas eu vou sentir sua falta. – os olhos de meu único e verdadeiro amor estavam vermelhos de tanta dor e sofrimento que sentia. Voltei a me aproximar, envolvendo seu pescoço com meus braços e acariciando sua nuca.
- Então sinta. – aproximei-me lentamente de seu rosto e colei nossos lábios. Os movimentos eram calmos, certos. Naquele instante, tudo o que existia éramos nós dois: não havia futuro, passado ou nada do gênero. Só aquele pequeno espaço de tempo.
E nada pareceu mais certo do que aquilo.
Separamo-nos, talvez, cedo demais. Mas eu sabia que já era hora de partir.
De costas, eu dava passos tranquilos em direção à beirada, quase não sentindo mais o chão aos meus pés. Sorri largamente, abrindo meus braços como se estivesse, de alguma forma, libertando-me.
- E quando sentir saudade... – recomecei a falar, fitando ao meu amado com sentimento e devoção nunca sentidos por minha pessoa – Mande todo o amor e carinho que conseguir transmitir às minhas memórias, para, então... – parei de andar por um segundo para finalizar e lhe transmitir toda a segurança que sentia e que queria que ele sentisse também – Me esquecer.
Vazio. Por alguns segundos, era tudo o que se encontrava ao meu redor. A força da gravidade me puxava para baixo, mas aqueles instantes no ar foram o suficiente para sentir-me bem comigo mesma.
Com a sensação de missão cumprida.
Não existia céu, terra ou inferno. Não existia mais destino, imortalidade ou paraíso. Eu estava livre. Voando sem direção, sem objetivo. Deixei meu corpo continuar a cair em um caminho sem fim, meus braços abertos para receber o futuro sem nenhum tipo de arrependimento.
Olhei para cima. Pude ver ajoelhado na beirada da ponte, uma de suas mãos esticadas para mim como se ele ainda pudesse me salvar, seu rosto já encharcado pelas cascatas que seus olhos deixavam escapar sem parar. Sorri. Queria poder lhe dizer, infinitamente, tudo o que sentira nos momentos preciosos que passara com ele, o que sentia naquele instante e o que sempre sentiria por sua pessoa. Queria poder lhe dizer que nos encontraríamos novamente, que lágrimas não eram necessárias. Queria poder lhe dizer que eu não estava triste por morrer. Eu estava feliz.
Mas meu tempo havia acabado muito antes de termos nos encontrado pela primeira vez nesta vida. E estava em paz com o fato.
Logicamente que eu daria tudo para ter um pouco mais de tempo em seus braços, fechando os olhos para sentir seu cheiro masculino adentrar minhas narinas e seu calor penetrar em meu corpo. E sei também que deveria me culpar por pensar desta maneira em meus momentos finais: só eu sabia o quão ruim fora a minha decisão de ressuscitar e tentar viver outra vez. Porém, apesar de ter passado quase todo o tempo de minha ressuscitação fugindo de anjos-da-guarda brutamontes e tentando me decidir entre ficar com ou voltar... Eu não me arrependia de nada.
Pois se não o tivesse feito, nunca poderia ter conhecido o amor de toda a minha eternidade.
O baque logo veio. Meu corpo ficou encharcado, meus pulmões rapidamente se enchiam d’água. Agradeci a D’us por não estar sentindo nenhuma espécie de dor. Harmonia, felicidade, tranquilidade? Sim. Mas não dor. Fui fechando meus olhos devagar, deixando-me afundar em sua imensidão silenciosa. Lembro-me de ter como última imagem , com seu sorriso torto e risada gostosa de escutar. Na miragem, ele esticava a mão em minha direção, em gesto de parceria e companhia. Sorri e aceitei seu convite de amor eterno e imortal, esticando também minha mão e entrelaçando seus dedos nos meus.
E, então, o nada. Eu já estava morta.
Algumas décadas depois...
- ! –a mãe gritava em sua direção, mas a garota não queria parar. Ela ria com gosto, às vezes olhando para trás para ver se a mais velha ainda estava em sua perseguição pelo parque.
A menina realmente era uma criança de 12 anos muito levada.
Só parou quando trombou com outra pessoa. Sacudiu a cabeça desorientada, a saia toda suja por ter caído no chão. Levantou-se rapidamente e estava pronta para xingar aquele com quem havia trombado quando foi interrompida:
- Não vi você aí, desculpa. – fitou o garoto à sua frente. Ele era de mesma estatura do que ela, com cabelos rebeldes e roupas sujas, provavelmente, de tanto brincar. Seus olhos a encaravam com certo brilho e a garota franziu o cenho com isso.
- Você tá se desculpando? – ela cruzou os braços, erguendo uma das sobrancelhas e o encarando com seus olhos e curiosos – Essa é boa. Nunca vi um garoto se desculpar por algo.
- Fui educado por meus pais o suficiente para reconhecer meus erros. – ele abriu um sorriso torto e a menina sentiu as bochechas queimarem levemente – Qual é o seu nome?
- . – ela engoliu em seco, coçando o braço com certo nervosismo – E o seu?
- Pode me chamar de . – seu riso fez as pernas femininas tremerem ligeiramente – Então... Posso me desculpar com um sorvete? – ele sorriu travesso.
- Creio que esse é o início de uma longa e bela amizade, . – a garota envolveu os ombros do garoto com um dos braços e ambos seguiram em direção à sorveteria, seus risos ecoando pelo parque como se fossem os únicos residentes do local.
E este sim é o final perfeito que a história merece.
Ou será apenas o começo?
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Assim é a vida. Os dias passam e nada nos acontece; é sempre o mesmo tédio, um atrás do outro. Você vê o tempo passar, esperando que algo excitante, que algo novo, aconteça em sua monótona existência... E nada: tudo o que ocorre é a passagem cada vez mais lenta, cada vez mais inútil, daquilo que se poderia chamar de “experiência mortal” ou “humana”.
Então, quando menos se espera, algo muda. Mas apesar do entusiasmo anterior, neste momento em específico você se vê disposta a dar tudo para nada acontecer.
Por que tem que ser assim? Por que a vida tem que nos pregar peças somente na hora em que agente já está morta?
Capítulo I:
Abri meus olhos, mas fui forçada a fechá-los novamente. Esperei que meus globos oculares se acostumassem à claridade exagerada do ambiente e fiz uma nova tentativa.
Branco. Era de um tom puro, porém, franzi o cenho ao reparar que era tudo o que se podia notar. Ali, só havia o vazio infinito do que pensara ser o céu. Nada mais, nada menos do que isso.
Levantei-me do lugar onde estava deitada há apenas alguns segundos atrás, constatando o quão macio o local era. Virei minha cabeça procurando por algo que provasse que não me encontrava sozinha: o estofado onde me sentava se estendia para ambos os lados, prologando-se em uma estrada sem fim com seu tom rosado e claro.
Olhei para mim mesma então. Arregalei os olhos ao perceber que não me encontrava com minhas calças jeans rasgadas, minha camiseta dos Rolling Stones e meus All Stars pretos: um vestido branco e de mesma pureza do que o “céu” revestia o meu corpo até os meus joelhos de uma forma que nem eu mesma poderia senti-lo.
“O que está acontecendo aqui?” meu intuito fora em perguntar em voz alta, mas me vi incapacitada de fazê-lo. Um desespero tomou conta de meu corpo enquanto meu coração se acelerava demasiadamente e, sem poder contar com a heroína para acalmá-lo, eu tentava fazê-lo em vão.
“Pensei que nunca perguntaria.” Fiquei em pé em um salto ao assustar-me com outra voz em meus pensamentos “Não se preocupe, no começo é sempre assim, estranho.” A voz riu como se achasse graça da situação.
“Quem é você? E o que está fazendo na minha cabeça?” rodei meu corpo no mesmo lugar à procura daquele com quem pensava estar falando comigo.
“Você não vai me encontrar, por mais que procure.” A voz disse risonha ao perceber a situação em que me encontrava “Eu não estou no plano físico.”
“Então eu estou louca, é isso o que você quer dizer?” pousei de forma zangada as mãos sob minha cintura.
“Não, minha querida.” Ele disse um pouco mais sério “Você está morta.”
Aquilo foi demais para mim.
“Acho que prefiro a minha teoria, muito obrigada.” Respondi enquanto buscava com os olhos algum tipo de saída.
“Não adianta negar, . Você sabe que estou dizendo a verdade.” A voz dizia de forma tão calma e convincente que me vi forçada a escutá-la “Procure em suas memórias. Qual é a última lembrança que você tem?”
Fechei meus olhos e inspirei fundo, tentando me lembrar do que ocorrera na noite passada...
- Vamos, , não seja fominha. – Marc disse de forma histérica enquanto eu acabava com a seringa em minhas mãos.
- A casa é minha, então devo ter certos privilégios. – ri alterada enquanto caía deitada no chão da sala de estar, já sentindo a droga alterar minha visão e pensamentos.
- Isso é uma festa, amiga. Privilégios não existem aqui. – Sabrina disse enquanto voltava a beijar Toni, que descabelava seu cabelo no processo.
Sorri largamente de olhos fechados, pois abertos só me dava ainda mais tontura. Logo, senti um corpo subir em cima de mim e começar um beijo lento em meu pescoço.
- Eu sei de um que você pode ter... – Marc sussurrou maliciosamente em meu ouvido e me vi incapacitada de resisti-lo.
- Faça com que eu não me arrependa. – respondi em um gemido enquanto sua boca colava na minha e nossas línguas se entrelaçavam já famintas.
Enrosquei minhas pernas em sua cintura, da qual já denotavam um grande volume. Sorri ao percebê-lo, iniciando movimentos sensuais com meu tronco para incentivá-lo ainda mais.
Marc se levantou do chão um tanto vacilante comigo dependurada em seu corpo. Não ousávamos interromper as carícias e meu acompanhante teve que seguir às cegas em direção às escadas que nos ligavam até meu quarto.
Quando chegamos a minha cama e apesar de estar naquele estado de quase inconsciência, não deixei de perguntar-lhe:
- Trouxe a camisinha?
Abri os olhos, por mais que este ato me trouxesse grande enxaqueca, e vi que ele já se encontrava com a calça na metade das pernas.
- Deve estar lá embaixo. – Marc respondeu um pouco culpado após apalpar as vestes caídas em busca do produto.
- Eu vou buscar. – bufei de irritação pela demora, empurrando-o para o lado e seguindo cambaleante em direção às escadas.
No topo delas, apoiei uma de minhas mãos na parede e pousei a outra sob meus olhos. A heroína estava chegando a seu ápice e não havia mais nada que eu pudesse fazer para impedi-la naquele momento.
E foi exatamente por isso que minhas pernas enfraqueceram e eu caí da escada.
“Morri porque caí da escada?” perguntei incrédula “Que motivo mais idiota!”
“Existem piores, acredite.” A voz constatou pensativa “Por exemplo, teve uma vez que...”
“Esse é o paraíso, então?” cortei sua fala com certa impaciência.
“Na verdade, você ainda tem que pegar a sua senha para descobrir se vai ficar por certo tempo no paraíso ou se já vai reencarnar de uma vez.”
“Mas que...” parei de falar, um pouco embasbacada ao virar minha cabeça mais uma vez e notar uma máquina de senhas ao meu lado.
“Sinistro, não?” ele disse divertido “Eu também agi assim na minha primeira vez.”
“Primeira vez?” perguntei enquanto pegava o papel que pendia da máquina, percebendo que o número 71 estava inserido ali.
“Bem, você sabe... Nós almas encarnamos diversas vezes até atingirmos um nível elevado de espiritualidade. Quando isso acontece, ficamos aqui no céu para o resto da eternidade, ajudando outras almas a seguirem seu rumo corretamente. Agora que já tirou seu número, temos que encontrar a fila de almas para a secretaria e...”
“Qual é seu nome?” perguntei em uma voz carinhosa.
“Eu já tive vários... Mas eu uso Gabriel.” Ele perguntou receosamente.
“Ok Gabriel, nós temos um pequeno problema... Eu não estou pronta para morrer ainda.” Sorri falsamente apesar de ninguém estar me vendo. Ou eu pensava não estar “Eu sou jovem, acabei de fazer 18 anos e tenho uma vida inteira pela frente.”
“Parece que não tem mais.” Ele riu fracamente, parecendo estar com medo de minha reação “Sei que é difícil, mas você tem que entender. Além do mais, daqui a pouco você vai ter todas as memórias desta vida apagadas e...”
“Eu não quero me esquecer! Eu quero voltar como eu mesma e ponto!” exclamei alterada “Onde fica a saída dessa joça?” procurei com o olhar mais uma vez na imensidão irritante daquele lugar.
“Boa sorte com isso.” Ele disse ironicamente e permaneceu em silêncio.
“Decidiu ficar quieto, é?” gritei para o nada e não recebi resposta. Abri meus braços e olhei para cima “Tudo o que quero é viver! Isso é tão errado assim?” a quietude já começava a me irritar “Pelo amor de Deus, me dê um sinal!”
Foi nesse exato momento que, a uns cinco passos de mim, surgiu um enorme portão ornado a ouro e figuras angelicais.
“Tudo que era necessário fazer era pedir?” incrédula, fitei mais uma vez para o que imaginava ser o céu “Que espécie de lugar doente é esse?”
“, é sério, você não pode ir!” Gabriel voltou a ocupar a minha mente e sorri sarcasticamente.
“Voltou a falar comigo agora?” ri com gosto enquanto me dirigia ao portão “E se eu não pudesse ir, porque a saída teria aparecido para mim do nada?”
“Porque tudo o que se pede aqui se realiza!” sua voz parecia amedrontada “Se você passar por esta porta, talvez nunca possa voltar!”
Parei abruptamente.
“Tipo um ser imortal?” ergui a sobrancelha.
“Sim.” Ele suspirou aliviado, talvez pensando que conseguira me convencer.
Sorri maliciosamente e mordi o lábio inferior.
“Então é melhor eu não me demorar mais, não é mesmo?” e foram essas as últimas palavras antes de eu abrir as portas e cair na inconsciência mais uma vez.
Capítulo II:
Desta vez, acordei rapidamente. Não ceguei ao abrir meus globos oculares e nem hesitei ao sentar-me no local gélido e duro onde me encontrava.
Percebi que estava em um necrotério, pela quantidade de vezes em que vi Law and Order SVU, e agradeci mentalmente por não ter sido feita autópsia em meu corpo ainda. Eu vestia uma camisola azulada e minhas roupas se encontravam em uma sacola na cadeira ao meu lado.
“O que você fez...” dei um salto ao escutar a voz de Gabriel ainda em minha mente.
“O que faz aqui?” perguntei incrédula, estática onde estava sentada “Você não deveria, tipo, ter desaparecido?”
“Estou preso aqui, graças a você.” Sua voz soava zangada e pouco angelical “Se tivesse me dado mais alguns segundos, eu já teria ido embora faz tempo...”
“Quer dizer que terei que passar a minha imortalidade com você na minha cabeça?” gemi em protesto “Agora sim estou arrependida de ter voltado.”
“O que iremos fazer agora?” ele reclamava enquanto me trocava “Quer dizer, tenho que levar você de volta e...”
“Pode esquecer fofo. Eu não vou voltar, por mais que você seja super irritante.” Verifiquei minha imagem no espelho e continuei “E quanto ao que iremos fazer... Você eu não sei, mas eu vou aproveitar a minha segunda chance.”
E foi com essa frase que saí daquele lugar sinistro.
“Mas isso é contra as regras!” bufei de frustração quando ele continuou a discursar “Se cada vez que alguém jovem morresse e pedisse para voltar por não ter aproveitado a vida, não haveria mais...”
“Blá blá blá... Você nunca para de falar?” o interrompi e fiz sinal para o táxi parar à minha frente “Tente aproveitar um pouco, meu bem. Quantas vezes mais você vai estar dentro de uma mente feminina? Não é isso o que todos os homens desejam?” eu ri com gosto.
“Hahaha, muito engraçado... Deveria ser comediante, sabia?” revirei os olhos.
“Se teremos que conviver no mesmo corpo, pelo menos um pouco de senso de humor você vai ter que desenvolver.” retruquei após falar em voz alta o nome da rua para o motorista.
“É que há certa diferença entre almas com vozes e formas masculinas e homens humanos.” Sua voz era puramente ofendida.
“Eu estou louca para ouvir a diferença...” pensei ironicamente enquanto olhava para fora da janela e tentava não escutar o monótono monólogo interno que viria a seguir.
Miami. Uma cidade boa de viver, se você gosta de movimento turístico 24h por dia em qualquer lugar que você vá e um clima exageradamente quente o ano inteiro. Fixei meu olhar na praia pela qual nós passávamos, observando seu mar aparentemente sem fim e pensando em o quanto a eternidade semelhava-se a essa imagem...
- U$30,00. – a voz do motorista ranzinza acordou-me de meus pensamentos e logo fui revistar meus bolsos à procura de qualquer indício do meu dinheiro.
“Legistas safados, levaram minha carteira!” os amaldiçoei antes de sorrir amarelo e dizer com voz dengosa:
-Moço, você não sabe o que me aconteceu... - abri ainda mais meus olhos para melhorar minha atuação - Minha mãe acabou de morrer e era por isso que estava no necrotério. Fiquei tão abalada que saí correndo de casa e esqueci minha carteira... Pedi para uma amiga me levar, mas ela não pôde ficar. - Tremi um pouco meu lábio inferior - Alivia essa para mim?
O escutei bufar e quando virou sua cabeça para me encarar, fitei profundamente seus olhos. Logo em seguida ele disse:
- Sai logo desse táxi e não me apareça mais por aqui.
Foi com surpresa que vi o táxi sumir no horizonte.
“Será que adquiri alguma espécie de poder ao ressuscitar?” fui sorrindo gradualmente.
“É claro...” eu estava prestes a pular de alegria quando Gabriel completou a frase “Que não! Pensa o que, que estamos no livro The Vampire Diaries para que você possa sair hipnotizando todo mundo? Você é uma bela de uma pilantra, isso sim! Onde já se viu...”
“Se está dizendo isso é porque você leu o livro...” olhei para o céu com um sorriso sapeca.
“Sim... Não... Quer dizer...” o senti confuso e gargalhei com aquilo “Entidades celestiais não leem, tá?”
“Como quiser...” balancei a cabeça enquanto terminava de rir e virava-me de costas para a rua.
“É aqui que quer começar sua segunda chance?” Gabriel perguntou com um pouco de incredulidade.
“Existe melhor jeito?” sorri largamente ao dar passos confiantes em direção à boate.
- Oi John. – ultrapassei a gigantesca fila de pessoas e cumprimentei o segurança que estava de guarda na porta principal. Nós éramos amigos de longa data, pelas tantas vezes em que me embebedei e me droguei nessa mesma boate.
- Fim da fila. – o tom neutro de sua voz fez-me acreditar que ele não estava de brincadeira.
- John, sou eu. . – o meu antes amigo fitou-me com o canto dos olhos.
- Não, você não é. E fazer piadas com a morte não é o melhor jeito de se conseguir passar. – arregalei os olhos ao assimilar suas palavras – Agora, fim da fila. Ou quer que eu linche você?
Praticamente rastejando, dirigi-me para o final daquele mar de pessoas desesperadas por álcool e diversão.
“Como ele soube?” perguntei-me inconformada com a situação.
“Pense no lado positivo. Agora podemos ir embora daqui e descobrir um meio de levar você de volta.” A esperança em sua voz era tanta que não tive coragem de rir da cara dele.
“Bela tentativa, mas eu tenho um plano.” Ele suspirou enquanto me dirigia furtivamente para a porta dos fundos, que sempre ficava vazia. Passei pelo lance de escadas sem ser notada e, olhando para os lados para ver se ninguém me via, entrei na boate.
Eu tive sorte ao entrar naquele horário. A pista já estava parcialmente lotada e se eu tivesse demorado mais alguns minutos, provavelmente me encontraria em uma lata de sardinha onde não conseguiria nem me mover.
- Bob, vê uma Ice para mim. – decidi começar pelo bar. Apoiei meus braços no balcão e sentei-me confortavelmente no assento estofado ao meu lado.
- Não sou Bob, mas pode me chamar de . – virei minha cabeça com o cenho franzido e não pude deixar de sorrir de lado com a cena à minha frente.
- O que aconteceu com ele? – fitei de cima a baixo o deus grego que se encontrava do outro lado do balcão.
- Perceberam que o barman é o que atrai o público e que contratando um mais bonito faria mais sucesso. – ele abriu os braços se vangloriando por sua beleza divina e sorriu largamente – Então, aqui estou.
“Eu não aconselharia a...” Gabriel começou com sua conversa fiada e o interrompi ao dizer em voz alta:
- Com certeza a clientela vai ficar satisfeita. – ri fracamente e complementei – , prazer.
- , ao seu dispor. – ele pegou minha mão e a beijou em um sinal de cavalheirismo.
- Olha que eu posso abusar disso, hein? – rimos enquanto entregava-me a bebida.
- Eu estou contando com isso. – ele piscou para mim e senti minhas bochechas formigarem – Mas afinal, o que uma bela dama como você faz aqui?
- Estou à procura de diversão. A vida é muito curta, sabe... – percebi a ironia em minha frase e sorri disfarçadamente.
- Tem que aproveitar enquanto pode, não? – me serviu mais um copo quando acabei o primeiro – Quer dizer, em um minuto pode se estar andando na rua e no outro... Bum! Um carro passa por cima de você.
- Nada trágico, hein? – ri com mais gosto ainda, sentindo o efeito do álcool em minha circulação sanguínea – Então... É permitido ao barman dançar? – mordi meu lábio inferior e o encarei maliciosamente.
- Não posso, tenho que trabalhar. – ele fez uma careta e ri mais um pouco.
- Bem... Quem sabe outra hora. – levantei-me do assento – Afinal, vou ficar aqui a noite toda.
E antes que ele dissesse mais alguma coisa, virei-me de costas e segui para a pista antes que ela ficasse cheia demais.
“Por que foi embora se estava interessada nele?” a voz de Gabriel soou confusa e insegura em minha mente.
“Estou me fazendo de difícil, chuchu.” Ri levemente, movimentando meu corpo de acordo com a batida da música “Os homens nos valorizam mais quando os ignoramos. Ou vai dizer que isso não é verdade?”
“Culpado.” Foi tudo o que recebi como resposta e aproveitei o momento para apenas fechar os olhos e sentir minha vida fluir por minhas veias mais uma vez.
Não sei por quanto tempo fiquei dançado, mas eu realmente não me importava. De vez em quando passava as mãos em meus próprios cabelos, os bagunçando mais do que já estava, e rebolava sensualmente sem me incomodar com os olhares sobre mim.
“Essa não...” o tom alertado da voz masculina fez com que eu arregalasse os olhos e entrasse em alerta.
“O que foi? Bob descobriu que estou aqui?” passei meu olhar sobre o recinto sem encontrar nenhum sinal de sua presença.
“Pior. Os anjos-da-guarda descobriram.” Ele engoliu em seco e eu automaticamente fiz o mesmo “E eles estão bem atrás de você.”
Antes que eu pudesse, ao menos, reagir, senti uma mão em meu ombro a pressionar fortemente e uma voz dizer em meu ouvido:
- É melhor vir conosco. – assenti rapidamente com a cabeça e segui em direção ao esconderijo pelo qual passara anteriormente.
“Obrigada por me avisar só agora.” Reclamei assustadiça.
“Pelo menos eu tentei.” Ele respondeu no mesmo tom e tive a impressão de que ele revirara os olhos.
“Pensei que anjos-da-guarda protegiam crianças indefesas e esse tipo de coisa...” senti um empurrão às minhas costas e me forcei a continuar andando.
“Mera interpretação humana. Na verdade, anjos-da-guarda servem para proteger a ordem natural do céu, terra e inferno. E eles podem ser bem agressivos quando se trata de seu trabalho.” Ele engoliu em seco mais uma vez.
“Que ótimo, era tudo o que eu queria: brutamontes na minha cola.” Revirei os olhos e bufei contrariada quando senti o vento em minha pele e percebi que já nos encontrávamos fora da boate.
- Não precisa ter medo. – outra voz acordou-me do diálogo interno – Nós só a machucaremos se for estritamente necessário.
“Sinto-me muito mais tranquila, obrigada.” Pensei sarcasticamente e mordi minha língua para não dizê-lo em voz alta.
- Olha, isso tudo realmente não é preciso. – sorri amarelo enquanto era pressionada contra a parede e encarava aos três anjos que se encontravam à minha frente. Todos eram incrivelmente belos, com cabelos loiros, olhos azuis e peles pálidas como a lua. Pareceriam gêmeos se não fossem pelos traços físicos – Que tal se somente me deixarem ir embora, viver minha eternidade em paz e todos formos felizes para sempre? – ri fracamente ao perceber o quão estúpida era a ideia.
- E por que faríamos isso? – o anjo do meio riu com gosto.
- Oras, porque não há como eu voltar atrás?
Os três se entreolharam por meros segundos antes de caírem na gargalhada.
- E quem foi que te disse essa besteira? – o do lado esquerdo perguntou em meio à falta de ar.
Espremi meus olhos internamente.
“Eu tinha dito que talvez você nunca conseguisse voltar, lembra?” Gabriel riu sem graça.
“Você me faz passar cada vergonha...” respondi entre dentes ao meu irritante guia espiritual.
- Espera, espera. É o Gabriel que está aí dentro? – o do lado direito perguntou cutucando a minha cabeça ao mesmo tempo.
- Er... E se fosse? – ergui a sobrancelha, decidida a não pagar mais mico do que já passara.
Os três gargalharam com gosto mais uma vez.
- Se fosse, então você estaria em maus lençóis, garota. – o do meio falou novamente – Ô Gabriel, em que situação você foi se meter desta vez?
Senti-o rígido em minha mente.
- Agora vamos voltar ao que interessa. – o do lado esquerdo limpou uma lágrima de sua bochecha – Olha menina, você está arranjando confusão por nada. Que tal pularmos para a parte em que você aceita voltar e se suicida?
- Como é que é? – escancarei a boca sem acreditar no que escutara.
- É simples. Tudo o que você tem que fazer é se matar. Ninguém pode fazer isso por você por causa do livre arbítrio. – o do lado direito discursou – Leis lá de cima. – ele terminou ao revirar os globos oculares.
- E se eu não quiser? – cruzei os braços, desafiadora – Afinal, ninguém pode me assassinar mesmo!
Eles se entreolharam mais uma vez, mas desta vez seriamente.
- Estamos tentando te ajudar. – o do meio voltou a falar – Uma hora ou outra, você vai perceber que tem que voltar. Você pensa que é a primeira humana a ressuscitar?
Desta vez eles tinham me pego.
- Quanto mais você ficar, mais difícil vai ser. – o do lado esquerdo disse – E não só fisicamente, mas sentimentalmente também.
- O que quer dizer com isso? – franzi o cenho, confusa.
O do lado direito se inclinou até meu ouvido e sussurrou:
- Você já vai entender.
- ? – virei minha cabeça para o lado e vi correr em minha direção – Você está bem?
Quando olhei para o outro lado, os anjos já haviam sumido.
- E-Eu não sei. – tremi dos pés à cabeça e senti seus braços me envolvendo confortavelmente.
- Você está gelada. – sua mão foi em direção à minha testa – Tem onde ficar?
Bem, voltar para casa eu não podia, meus pais estavam lá. Foi esse pensamento que me fez balançar a cabeça freneticamente e encher minhas pálpebras de lágrimas sufocadas.
- Vou te levar para minha casa, ok? – ele secou uma lágrima que havia percorrido minha bochecha – Hei, está tudo bem agora.
Não, não estava nada bem.
Capítulo III:
- Como você sabia onde eu estava? – sussurrei enquanto olhava janela afora, observando a paisagem passar diante de meus olhos rapidamente pela velocidade do carro de .
- Na verdade eu pensava que você ainda estava na pista de dança. – ele riu nasalado, ainda encarando a sua frente – Quando meu expediente acabou, pensei em procurá-la, mas não a encontrei em lugar algum. Saí da boate para pegar meu carro e ir para casa quando te vi apoiada na parede, sem ar e parecendo assustada. – no sinal vermelho, ele finalmente me encarou – Afinal, o que aconteceu?
Estremeci ao escutar sua pergunta. Nem eu mesma sabia o que havia ocorrido fora do bar: aconteceu tudo tão rápido e ao mesmo tempo... Eu até tentava me convencer de que aquilo havia sido uma ilusão, um sonho.
Ou pior, um pesadelo.
- Foi tudo tão confuso que duvido que algo tenha acontecido de verdade. – era minha vez de rir nasalado, sem humor. Cruzei meus braços e me encolhi no banco do passageiro, permanecendo em silêncio, o que não pareceu se incomodar.
Uns dez minutos depois e parávamos em frente a um prédio de cinco, dez andares no máximo. Depois de estacionar seu automóvel na garagem, o barman anteriormente desconhecido colocou as mãos nos bolsos e me guiou escada acima até o terceiro andar, onde ficava seu apartamento.
O lugar era agradável, admito. Havia quatro cômodos, pelo que pude notar: sala, com sofá e TV, cozinha, quarto e banheiro, isso sem contar a varanda com a belíssima imagem da praia. Era difícil acreditar que o local fosse tão arrumado, já que o dono era um homem solteiro que morava completamente sozinho.
- Sinta-se em casa. – acordei de meus devaneios com sua voz já um pouco mais animada – Vou arranjar algo para você vestir e já volto.
Sorri fraco em sua direção, mas seu corpo já havia sumido ao entrar no quarto. Sentei-me em seu sofá, sentindo-me culpada por fazê-lo sem permissão formal, e entrelacei meus dedos das mãos.
“Você os conhece?” mordi meu lábio inferior, esperando algum tipo de resposta de Gabriel. Fazia certo tempo que não ouvia sua voz e isso já começara a me preocupar.
“Infelizmente.” Exalei o ar ao, finalmente, escutá-lo. Ele parecia magoado e não pude deixar de me entristecer também.
“Eles são, tipo, bully’s?” franzi o cenho e esperei para ver se minha interpretação estava correta.
“De certa forma.” Gabriel riu fracamente “Quer dizer, eu sou praticamente novato por aqui, sabe? É lógico que eles iriam me infernizar...”
A quietude reinou por longos e torturantes segundos. Nenhum de nós dois sabíamos o que dizer: eu, por saber o quão ruim os bully’s podem ser e por nunca ter passado por algo parecido, e Gabriel, por ser desconcertante e incômodo falar sobre o assunto.
Suspirei, decidida a aliviar a tensão de minha cabeça.
“Eu não acho que estou em maus lençóis.” Percebi que atraíra sua atenção e prossegui “Aliás, eu não trocaria você por outro guia espiritual por nada nesse mundo.”
“Mesmo?” havia um toque de ceticismo em sua voz e isso me fez sorrir torto.
“Mesmo, apesar de você ser extremamente irritante, como disse anteriormente.” Ambos rimos levemente e senti minha cabeça relaxar com a ação.
“Obrigado, .” Senti minhas bochechas queimarem “Apesar de você ser terrivelmente desagradável também.”
“De nada, seu mal agradecido.” Revirei os olhos e paramos com o diálogo interno quando percebi retornando com a camiseta em mãos.
- Foi meio complicado de achar, mas creio que essa ficará menos gigante em você. – ele riu e eu sorri sincera.
- Obrigada, . – seus olhos se arregalaram com minha aproximação repentina – De verdade.
E mais uma vez, o silêncio. Seus olhos praticamente comiam os meus apenas com o contato visual e eu podia sentir sua respiração bater em minha pele, desregular como a minha. Pude ver sua mão começar a se esticar em minha direção, mas no segundo seguinte ela já estava em sua nuca, um sorriso quase descontraído aperfeiçoando seus lábios carnudos.
- O banheiro fica à esquerda. Os cobertores e travesseiros ficam abaixo da televisão. – ele deu um passo para traz, ansioso – Boa noite, .
Meu nome pronunciado em sua voz fez meu corpo estremecer mais uma vez. Minhas mãos se transformaram em punhos para que eu não fizesse algo com que eu pudesse me arrepender mais tarde.
- Boa noite. – sussurrei de volta e, com passos hesitantes, o dono da casa se afastou e entrou em seu próprio quarto.
E logo me encontrava deitada no sofá, com a camiseta do Kiss cobrindo meu corpo até as coxas e meus olhos encarando o teto, como se estivesse à procura de alguma resposta. Gabriel não dizia nada e eu não fazia questão de fazê-lo, já que tinha certas dúvidas quanto ao fato de anjos dormirem ou não. Tudo em que minha mente se fixava era em : em como sorria, coçava sua própria nuca, erguia a sobrancelha como se estivesse a me seduzir e me abrigara sem nem duvidar de minha índole.
Afinal, quem era esse homem?
E por que eu não conseguia deixar de pensar nele?
(...)
Cinco horas depois e eu já estava me espreguiçando no sofá, reclamando em gemidos pelas cortinas da janela não estarem devidamente fechadas.
-Bom dia, Bela Adormecida! – mostrei a língua ainda de olhos fechados, sem saber exatamente onde estava.
- Que horas são? – sentei-me, colocando a mão na boca ao bocejar e esfregando os olhos no intuito de acordar.
- O suficiente para tomarmos um belo de um almoço e não café-da-manhã. – ele sorria abertamente encostado na parede à minha frente, seus olhos brilhando e sua energia irritantemente contagiante. Suspirei apaixonadamente ao ter a visão do que parecia ser um Deus Grego, com suas calças jeans, jaqueta de couro acima da camiseta branca, All Stars negros e cabelos despojados – Onde a senhorita gostaria de almoçar?
- Em qualquer lugar que tenha comida. – fiz uma careta ao sentir minha barriga roncar e nós dois gargalhamos com gosto.
Coloquei a mesma roupa que usara no dia anterior, apesar dos protestos insistentes de que diziam que ele poderia muito bem correr até uma loja e comprar outra para mim. Como se homens soubessem sobre gosto feminino, há!
- Se o fizesse, eu nunca poderia devolver o dinheiro. – respondi entre risadas após escutar sua proposta, da qual admito ter sido na maior das intenções.
- Está fugindo de casa para não poder ir até lá e pegar, por acaso? – ele respondeu rindo e um nó se formou em minha garganta.
- De certa forma... – sorri amarelo, mas não foi o suficiente para que ele não se sentisse culpado.
- Desculpe-me. – sussurrou sem jeito e senti meu coração se espremer dentro do meu peito, causando-me dor.
- Não há do que se desculpar. – disse sincera – Não havia como saber.
Nós dois sorrimos cúmplices e seguimos nosso caminho.
Logo já estávamos no shopping, nossos braços entrelaçados sem percebermos enquanto andávamos em frente às vitrines e ríamos dos ridículos manequins como se fôssemos um casal apaixonado.
A palavra amor cruzou minha linha de pensamento e meu corpo se enrijeceu. Não, eu não poderia me apaixonar. Esse privilégio havia sido arrancado de mim com a minha morte.
Amar significaria querer ficar com a pessoa, casar e ter filhos. Porém, eu nunca iria poder fazer qualquer dessas coisas, por mais que eu desejasse, pois eu era imortal e nunca envelheceria.
“Nada é perfeito, não?” bufei e pude perceber certa ironia na frase de Gabriel.
“Cala a boca...” interrompi minha fala para arregalar os olhos e ver àqueles que nunca mais queria encontrar.
“?” perguntou ao mesmo tempo em que eu o arrastava até uma máquina daquelas que tiram várias fotos consecutivas, no intuito de fugir dos três anjos-da-guarda.
“Eles já foram?” Gabriel perguntou com a voz tremida e estiquei minha cabeça para fora do cubículo onde nos encontrávamos.
“Já.” Expirei aliviada “E eu acho que eles não nos viram.”
- O que há com você? – voltei a encarar com um misto de vergonha e desespero.
- É que eu amo essas máquinas! – fiz uma careta para a foto e voltei a encará-lo – Você simplesmente não ama ter suas fotos tiradas sem que você mesmo tenha que fazê-lo?
Para o meu alívio, logo ele estava gargalhando com gosto do que eu dissera. Expirei e esperei que o fato não ficasse tão aparente.
- Você é tão imprevisível. – engoli em seco – E eu adoro isso.
Tudo o que pude fazer foi sorrir enquanto sentia o calor tomar conta de meu rosto.
(...)
- Posso te fazer uma pergunta? – ele abocanhou o seu super-hiper-mega-exagerado-hambúrguer e ergui minha sobrancelha em sua direção.
- Contanto que não seja sobre qual lingerie estou usando neste exato momento... – senti-me um pouco culpada por fazê-lo engasgar com a risada que veio depois.
- Não se preocupe quanto a isso. – ele disse após se recuperar, um sorriso torto em seus lábios aparentemente apetitosos.
- Desembucha, então. – senti meu coração falho com essa cena divina e me dispus a sorrir amarelo para disfarçar meu nervosismo.
- Você é louca? – quando arregalei meus olhos, ele continuou – Quer dizer, só pode ser, já que aceitou ir até minha casa sem nem saber quem eu era ou quais eram as minhas intenções...
- Se eu sou louca, você também é, já que ofereceu a sua casa para alguém que não conhecia e que poderia ser alguém totalmente psicótica e sádica. – respondi com um sorriso de lado antes de dar mais alguns goles em meu milk-shake.
- Tuché... – seu olhar sobre mim era surpreso e totalmente despreparado – Você sempre tem resposta para tudo?
- E você sempre tem pergunta para tudo? – apoiei meus cotovelos em cima da mesa e fez o mesmo.
- Eu perguntei primeiro.
- E eu perguntei segundo. Parece que estamos em uma encruzilhada. – apoiei minhas costas no encosto e cruzei os braços, triunfante.
- Você é impossível. – ele riu balançando a cabeça e colocando o cartão de crédito na conta – São só perguntas. Não estou invadindo sua vida ou algo do gênero.
- Perguntas geram outras, meu caro. Daqui a pouco vai querer saber qual é o número do meu RG e meu CPF. Acredite, não vou deixar que chegue a tanto. – o garçom veio pegar o cartão e, tão rapidamente quanto chegou, ele se foi.
- Se não quer me deixar saber sobre você, ótimo. – nos levantamos após recuperar seu cartão de crédito – Pergunte qualquer coisa sobre mim.
- Por que acha que eu teria interesse na sua vida? – o fitei de esguelha e sua mão estava estrategicamente posicionada em cima do peito.
- Ouch. Essa doeu. – ele fez cara de dor e eu ri, dando um tapa leve em seu braço.
- Trágico. – balancei minha cabeça em descrença – Você não vai desistir, não é mesmo?
- Essa palavra não consta em meu vocabulário. – nós rimos e ele continuou – Que tal se fôssemos andar na praia? Aposto que vai ser mais fácil para você formular seu questionário. – ele riu mais uma vez.
- Não gosto muito de areia. – fiz uma careta e já estava quase dizendo para ficarmos quando vi os três anjos-da-guarda vindo em minha direção – Mas eu gosto de grama. Serve?
(...)
O sol já estava se ponto entre as nuvens do horizonte. Ambos caminhávamos descalços sobre a grama do parque, que estava praticamente deserto por causa do horário, e brincávamos um com o outro como se já fôssemos velhos amigos.
- Sua família é do mal, hein? – comentei entre risadas escandalosas – Em quantas confusões já se meteram!
- Se eu fosse te contar a lista inteira... – riu mais fracamente desta vez, olhando-me com aqueles olhos que poderiam causar um ataque cardíaco, se quisesse – Pena que não falo mais com nenhum deles.
Mordi o lábio inferior e me arrisquei a perguntar:
- Por quê?
Nós paramos de andar para somente encararmos um ao outro longamente.
- Eu queria viajar pelo mundo, me divertir, e meus pais sempre tentaram controlar esse meu lado... Selvagem. – voltamos a caminhar mais lentamente – Houve um momento em que tive que me decidir entre seguir meu sonho ou aceitar a autoridade de meus pais. – ele suspirou de olhos fechados – Minha saída de casa dividiu minha família. E há três anos que não temos mais contato.
- Sinto muito. – respondi após uma longa quietude – Pais nem sempre são fáceis de lidar. Acredite, eu sei.
Eu sabia que queria me respeitar e por isso não me incentivara a continuar. O admirei por esse gesto, mas sabia que, se não colocasse aquela dor para fora, nunca teria paz em meu subconsciente.
Sentamos no chão almofadado pelo gramado e fora minha vez de suspirar de olhos fechados, dispondo-me a desabafar até certo ponto:
- Quando saí de casa, minha família passava por tempos difíceis. – meus olhos já começavam a mergulhar em lágrimas, porém, não me atrevi a parar – Meus tios estavam trapaceando meu pai, minha mãe a todo o momento ameaçava se separar... Todos os dias era a mesma coisa, e logo começaram a se passar os meses sem nada mudar. Eu não aguentava mais e procurei distrair-me de outras formas: festas, bebidas, drogas... Mas por mais que procurasse, por mais que ansiasse pela fuga... – solucei emocionada – Eu sempre estaria presa naquele furacão de confusões. E nunca poderia escapar disso.
Finalmente me rendi ao sofrimento que há tanto me aprisionara. Soluçava até não ter mais fôlego para mais e meu rosto, já banhado em lágrimas, não se cansava em se distorcer em um choro desesperado, triste. Senti braços ao redor de meu corpo e não hesitei em aninhar-me no peito viril daquele que me abraçava, praticamente encharcando sua blusa e agindo como se tivesse cinco anos outra vez.
Ficamos certo tempo ali, apenas nos embraçando ternamente. Eu podia sentir seu odor adentrar minhas narinas, o que era extremamente confortador, e o seu calor conseguia fazer com que eu me sentisse amada, protegida. Enrijeci ao ter esse pensamento cruzando minha mente.
- Aposto que agora você se arrepende de ter me levado para sua casa. – sussurrei com vergonha de mim mesma. Afinal, quem iria querer dar uma de babá para uma garota de 18 anos?
levantou minha cabeça para cima com o dedo indicador em meu queixo.
- Você é uma garota fantástica, . – ele respondia tudo em sussurros, como se estivesse, de alguma forma, hipnotizado – Ao mesmo tempo em que sabe ser séria, também sabe como ser divertida. Não tem ninguém que não gostaria de sua companhia; você realmente sabe como agir e não tem medo de dizer o que pensa. E apesar de ser reservada, é quase possível enxergar a verdade apenas pelos seus olhos...
Foi nesse momento que tive um estalo. Nossos olhos se encaravam como se pudessem, de certa forma, se comunicar por si mesmos, ou até se tocar. O belo homem à minha frente passou a mão delicadamente pela extensão de meu rosto, o que me fez suspirar auditivamente e estremecer em seus braços. Eu estava tão perto de esticar meu braço e enlaçar sua nuca apenas com minha mão...
A sirene da ambulância que passava ali perto acordou-nos do momento quase mágico em que passávamos. Em um pulo, havíamos separado completamente nossos corpos, deixando-nos encabulados pelo que quase fizéramos há pouco.
- Acho melhor irmos, antes que nos tranquem aqui. – riu sem humor, levantando-se, limpando sua calça e esticando a mão para me ajudar a levantar, da qual aceitei apesar de um pouco relutante.
O silêncio foi excruciante no caminho para sua casa. Eu me concentrava em apenas olhar para fora, mas meus pensamentos não pareciam querer obedecer aos meus comandos. Por mais que eu fosse imortal e tivesse consciência de que eu nunca, mas nunca mesmo, poderia sequer pensar em me apaixonar, eu me peguei... Querendo fazê-lo. E ainda mais com .
Enxuguei os olhos que ameaçavam transbordar novamente, com o intuito de dispersar essas ideias de minha mente. Doía-me pensar que enquanto eu ficasse bela e imortal, ele ficaria velho e, em dado momento, morreria em meus braços, dando o seu último suspiro de vida e, assim, me abandonando para sempre.
Eu poderia esperar por sua reencarnação, é claro, mas como conseguiria encontrá-la? E como eu poderia passar por seus momentos finais de novo e de novo, repetidas vezes?
Eu não tinha estômago para tanto.
Acordei de meus devaneios quando estávamos entrando em seu apartamento. Sua expressão facial era tortuosa, agonizante. Como se quisesse me dizer algo e temesse fazê-lo...
Suspirei pesarosamente, preparando-me para despedir-me de e nunca mais vê-lo novamente.
Era melhor assim. Para nós dois.
- , eu... – comecei a dizer, porém, não consegui continuar:
Seus lábios já estavam inesperadamente grudados aos meus.
Não houve jeito de evitar. Por mais que meu subconsciente, provavelmente comandado por Gabriel, estivesse me alertando para separá-lo de mim, eu não conseguia obedecê-lo. Um choque térmico transpassava entre nossos corpos, fazendo os pelos de minha pele se arrepiar e meu corpo relaxar em seus braços.
Inconscientemente, enrosquei meus braços em volta de seu pescoço, entrelaçando meus dedos nos cabelos de sua nuca. Seus braços também se enroscaram, porém, em volta de minha cintura, colando ainda mais nossos corpos. Nossas línguas travavam uma luta sem perdedores; nossos corações pareciam prestes a estourarem a qualquer instante. Pausamos momentaneamente para respirarmos, a culpa já transmitindo informações ao meu cérebro, quando seu sussurro fraco soou próximo ao meu ouvido:
- Esperei tanto para fazer isso...
A mordida no lóbulo de minha orelha fez-me gemer auditivamente, transbordando de prazer e paixão. Invadi sua boca novamente, mas com mais fervor, do qual correspondeu de acordo. Senti seu corpo me guiar para trás, provavelmente em direção ao seu quarto, mas estava aérea demais para me importar com o fato.
Se amor era aquilo que eu estava sentindo, então não estava pronta para desistir dele ainda.
Sorri entre o beijo quando escutei a porta do quarto bater atrás de nós. Percebi naquele instante que aquele era o começo do que seria a melhor noite da minha vida e que eu nunca, mas nunca mesmo, eu me arrependeria de tê-la experenciado, pelo menos, uma única vez.
Ou até mais vezes... Quem sabe?
Capítulo IV:
’s POV ON
Eu ainda arfava extasiado, apesar de já ter se passado uma hora após nossa quinta vez. Eu fitava longamente, esta dormindo em posição fetal tranquilamente e com um sorriso tímido enfeitando seus lábios carnudos.
Por que havia sido tão impulsivo? Nem eu sabia. A única coisa da qual eu tinha certeza era de que, se eu não arriscasse, nunca mais teria essa chance.
Loucura, não? Pode parecer. Mas eu sabia, bem lá no fundo, que eu não poderia tê-la para sempre, apesar de me pegar querendo fazê-lo. Eu sentia que, em um dia próximo demais, ela iria embora e nunca mais nos veríamos.
Bem, pelo menos nesta vida.
Balancei a cabeça e me levantei da cama do jeito em que me encontrava. Havia enlouquecido? Algo dentro de mim dizia que não, mas julguei essa parte de meu subconsciente a louca e não dei ouvidos a ela.
Fui até o banheiro lavar o meu rosto e tentar dispersar os pensamentos confusos que tomavam conta de mim. Tudo o que eu conseguia ver em minha mente era : seu sorriso, seu modo presunçoso de responder até as mais inocentes perguntas... Até seu modo de chorar havia despertado algo em mim que eu não sentia há muito, muito tempo...
Sempre fui como uma espécie de lobo, solitário. Nunca namorei sério: geralmente usava as garotas por uma noite e nunca mais as via novamente. E elas não pareciam se importar com o fato.
Mas era diferente. Desde que ela havia se apoiado no bar e eu havia colocado os olhos nela... Eu não sei. Era algo inexplicável, como se ela fosse um ímã e me puxasse em sua direção a todo o momento.
Por isso que a levara para minha casa, a alimentara, passeara com ela... Eu me via impossibilitado de me separar de sua beleza estonteante e seu humor bipolar. E quer saber?
Eu nem queria fazê-lo.
Voltei para o quarto o mais silencioso possível. Coloquei um short de moletom e deitei na cama, abraçando-a por trás calorosamente. Fechei os olhos e inspirei o odor de seus cabelos, que era uma espécie de calmante para mim. Estava quase me rendendo ao sono que me dominava e ao seu mundo dos sonhos...
- Você não vai querer fazer isso. – escutei uma voz vinda de dizer, porém, não era a sua voz.
Era uma voz masculina.
Arregalei os olhos e saltei para fora da cama, meu coração batendo descontrolado dentro do peito.
O que estava acontecendo, afinal?
- Eu sei que parece estranho, . – o corpo feminino se levantou, me encarando de forma reconfortadora. Levantei-me de onde havia me encolhido e percebi que seus olhos estavam diferentes, como se a pessoa com quem eu conversava naquele momento não fosse aquela com quem havia conversado o dia inteiro...
- Estranho é apelido! – fiz sinal da cruz com os dedos em sua direção – Olha, eu não sou religioso, mas juro por Deus que eu vou ligar para um exorcista e...
- E o que? Ele vai me arrancar deste corpo que não me pertence? – ele (ou ela?) revirou os olhos – Faça-me o favor. Como se eu não estivesse querendo sair da cabeça dela há mais de 24h! – eu franzi o cenho, confuso – Escuta, acho que começamos com o pé esquerdo. Meu nome é Gabriel e você, evidentemente, é .
- Onde está ? – por mais que parecesse loucura o que eu estava fazendo, naquele instante tudo fazia sentido, de alguma forma.
- Continua aqui dentro, mas está dormindo. – relaxei meus ombros ao saber que ela estava bem.
- E se você não é ela... – eu não tirava os olhos dele (a) - O quê é você?
Um sorriso brotou de seus lábios, mas a face sorridente não alcançava seus olhos.
- Está disposto a ouvir uma história? – cruzei meus braços e ergui a sobrancelha – Acredite, o assunto é de seu interesse.
Um pouco hesitante, peguei a cadeira que estava ao meu lado e me sentei nela, apoiando os cotovelos em meus joelhos.
- Sou todo ouvidos. – respondi já mais interessado.
E logo senti que me arrependeria desta escolha.
’s POV OFF
Espreguicei-me gemendo auditivamente, um sorriso largo emoldurando meu rosto. A noite passada havia sido inesquecível, exatamente como havia previsto.
Porém, logo que as memórias começaram a voltar, a culpa também marcou presença. Meu sorriso se desfez e meu coração se remoeu dentro de meu peito; eu sabia o que eu deveria fazer, mas será que eu tinha fôlego para tanto?
Levantei-me e arregalei os olhos, surpresa por encontrar sentado em uma cadeira à minha frente, seu olhar fixo em mim. Ele se encontrava somente de short e sua expressão perigosa foi a que me impediu de babar com a sua imagem.
- Bom dia. – franzi o cenho, preocupada e com um mau pressentimento – Aconteceu alguma coisa?
Um sorriso maquiavélico brotou de seus lábios e escutei um riso sarcástico escapar de sua garganta. Aquilo, definitivamente, não era um bom sinal.
- Na verdade, sim. – ele se levantou, virando-se de costas para mim – Eu tive uma experiência um tanto quanto exótica ontem à noite. – meu coração começou a bombear cada vez mais rápido – Sabe, eu nunca fui muito religioso para acreditar nesse negócio de demônios, anjos, almas... Mas eu acho que estava enganado, afinal.
- ... – senti meus olhos começarem a transbordar, mais uma vez.
- O nome dele era Gabriel, mas acho que os dois já se conhecem. – ele continuou como se eu não estivesse mais ali – Ele me contou uma história muito interessante, sabe? Sobre morte, reencarnação... – ele voltou a me encarar, seus olhos vermelhos e indecifráveis sobre mim – Acho que eu não preciso dizer mais nada, não?
- Eu ia te contar... – sussurrei, mas sua exclamação de raiva e dor me impediu de continuar.
- Quando? Por cartão postal, depois que fosse embora? – ele gargalhou ironicamente – Não, . Nós dois sabemos que você iria partir sem nem se despedir, quanto mais me contar alguma coisa. – permaneci em silêncio e ele chegou até mim, agarrando meu braço com força e me colocando de pé – Você mentiu para mim... – ele disse entre dentes.
- Eu não menti. – só omiti, completei mentalmente – E, aliás, o que esperava que eu fizesse, ? Que eu te contasse toda a verdade e esperasse que você não me considerasse uma louca? – diminui minha voz para continuar – Por acaso você acreditaria em mim? – ele permaneceu em silêncio e seu aperto afrouxou – Foi o que pensei. – arranquei meu braço de suas mãos e me virei de costas, vestindo-me rapidamente.
Quando terminei, dirigi-me para a porta com passos decididos e lágrimas percorrendo pela extensão de meu rosto sem que eu pudesse contê-las. Antes que saísse, virei-me de volta, onde pude encontrar ainda com os olhos sobre mim, e disse:
- Eu tive medo. – ele pareceu prestar atenção no que eu dizia – Medo de estragar aquilo que nós temos. Ou tínhamos, sei lá. – ri fracamente – Com você, eu podia, pelo menos por alguns instantes, me sentir viva outra vez. Como se eu nunca tivesse morrido. – abri a porta e pus metade de meu corpo para fora – Sinto muito se criei esperanças de algum futuro. Sinto muito se acha que eu o usei. – fechei meus olhos e solucei – Minha intenção nunca foi essa. Eu planejava passar uma única noite aqui e, depois, esquecer... Mas me vi incapacitada de fazê-lo. Vi-me incapacitada de partir, como se algo me prendesse a você: algo que eu não sabia o que era... Até agora.
Virei-me de costas para ele, disposta a colocar para fora todos os meus sentimentos, sem ter medo de quais seriam as consequências se eu o fizesse.
- Eu te amo, . – sussurrei, esperando que ele me escutasse ao mesmo tempo em que queria que ele não o fizesse – E espero que possamos compartilhar disso juntos algum dia.
Então, bati a por atrás de mim e corri em direção as escadas, sem olhar para trás.
(...)
“Eu te odeio.” pensei enquanto encarava o horizonte e sentava-me no banco da praça.
“Eu sei.” Gabriel respondeu em um suspiro “Desculpe-me por isso.”
“Eu ia contar, sabe?” comentei após certo tempo sem dizermos nada um ao outro.
“Não ia não. E você sabe disso.” Fechei os olhos e expirei profundamente.
“Você me acha ridícula, não?” ri sem humor algum.
“A maioria dos humanos são.” Ele também riu fracamente “Mas no seu caso acho que posso chamar de bom senso.”
“Mesmo?” ergui a sobrancelha, sentindo-me um pouco melhor com suas palavras.
“Poucos teriam a coragem que você teve para lutar contra a morte.” Um sorriso torto brotou de meus lábios “E ainda mais para ficar com a pessoa que ama.”
“Eu só conheci depois de ressuscitar...” comentei confusa.
“Nesta vida, talvez.” Sua voz era serena, certa do que dizia “Mas sua alma já conhecia a dele.”
“Essa conversa está cada vez mais doida, sabia?” balancei a cabeça enquanto ria fracamente.
“O que sentiu ao vê-lo pela primeira vez? Uma atração? Como se não conseguisse se afastar dele por muito tempo?” minha respiração ficou escassa com suas palavras “Cada alma nasce com uma espécie de rachadura no meio. Quando essa divisória se parte, duas almas gêmeas são formadas, convivendo entre si pelo resto da eternidade.” Ele parou para, a meu ver, recuperar o fôlego “É um modo para que nenhum ser, ao reencarnar, tenha que viver sozinho. é a sua cara metade, , e isso não é coincidência. Ambos estão destinados a se encontrarem em dado momento de cada reencarnação e estavam prontos para fazê-lo nesta também, até que...”
“Eu morri.” Completei fitando à minha frente sem enxergar a nada, realmente “E estraguei tudo. É isso?”
Um suspiro agonizante escapou de Gabriel.
“Não acredito que vou fazer isso...” ele sussurrou para si mesmo “Levante-se e siga às minhas instruções. E com cautela, pois isso é extremamente proibido e eu posso me dar muito mal se alguém descobrir o que estou fazendo.”
Levantando-me com a curiosidade me invadindo, não hesitei ao obedecer aos seus comandos e seguir pelas ruas sem nem saber aonde meus passos iriam dar.
(...)
“Isso é algum tipo de piada?” reclamei ao perceber que nos encontrávamos em frente a um hospital “Se for, é uma piada de muito mau gosto.”
“Só escuta, ok?” ele exclamou, o que me fez ficar surpresa e prestar atenção no que dizia “Está vendo aquele casal na terceira janela de baixo para cima?”
Levantei minha cabeça para visualizar melhor. Lá estavam eles: um homem andando pela sala parecendo preocupado e uma mulher deitada na cama acariciando sua barriga exageradamente grande com certo receio.
“O quê que tem?” balancei os ombros em descaso.
“Já era para o bebê ter nascido. Esse é o problema.” Ele dizia como se estivesse falando com uma criança de cinco anos de idade.
“E por que não nasceu?” franzi o cenho, levemente preocupada.
“Porque o bebê é você, .” Arregalei os olhos em sinal de espanto “A sua alma seria aquela que iniciaria a família pela qual o casal tanto anseia. Mas se você não nascer nas próximas 48h, o feto morre e o casal vai ter que tentar de novo, porém, com a diferença de que desta vez eles terão um grande peso em seus corações.”
“Como se eu já não estivesse me sentindo culpada o bastante!” virei-me de costas e marchei para longe daquele lugar com os olhos vermelhos de tanto chorar.
“O que estou tentando dizer é que nem tudo está perdido.” Fui parando de andar à medida que ouvia suas palavras “Você ainda pode fazer a escolha certa. Dê alegria àquela família, . Nós dois sabemos que é o melhor a se fazer.”
“E ?” perguntei com a voz tremida e chorosa.
“Vocês dois vão se encontrar de novo. É o seu destino.” Gabriel disse com a voz serena, como se soubesse qual seria a minha decisão.
Ficar com até que este morresse, sabendo o quão arrasado o casal ficaria, ou partir com a esperança de reencontrar minha alma gêmea novamente? Parecia uma escolha complicada; quase impossível de se fazer. Mordi meu lábio inferior, minhas mãos tomando formas de dois punhos, meus olhos apertando-se em meio ao desespero que meu coração sentia. Eu sabia qual era a escolha correta a se fazer, mas será que tinha coragem o suficiente para me entregar a ela?
Você realmente sabe como agir... Foram essas palavras que havia me dito naquele momento de revelações do parque. Foi quando percebi uma coisa que não havia percebido naquela hora: se ele confiava tanto em mim para dizer tal coisa, por que eu não poderia confiar em mim mesma?
Por que eu não poderia me arriscar e vencer esse medo que me assolava?
“Se você fosse se matar, aonde o faria?” sorri torto e sabia que, neste exato segundo, Gabriel estava com o maior sorriso que já conseguira formar.
“Creio que tenho o local perfeito para você.”
Capítulo V:
“Esse é o seu local perfeito?” ironizei ao posicionar-me na beirada da ponte “Uma arma seria ainda mais prático...”
“Por acaso tem dinheiro para comprar uma?” diante de meu silêncio, Gabriel continuou “Foi o que pensei.” Ele sussurrou a última frase mais para si mesmo do que para me contrariar.
Expirei e fitei longamente ao horizonte. O sol quase sumia, parecendo que mergulhava gradualmente sob o oceano que nos cercava. Não havia ninguém por lá, o que tornaria este momento ainda mais fácil.
Olhei, então, para baixo. Sua água pouco cristalina parecia me encarar de volta, pronta para me engolir no mesmo instante em que meu corpo afundasse em sua imensidão azul. Fechei meus olhos, meu corpo tremendo pelo que viria a seguir.
“Tem certeza que não quer se despedir de antes?” era a terceira vez que Gabriel fazia esta mesma pergunta e bufei de irritação por ele fazê-lo.
“ não vai querer nem olhar para minha cara, Gabriel. Para quê vou aumentar ainda mais meu sofrimento?” engoli em seco, abrindo meus globos oculares novamente.
“Pronta?” sorri fracamente de volta.
“Mais do que nunca.” Respondi, inspirando fundo e preparando-me para dar o primeiro passo em direção ao meu futuro incerto e inseguro...
- ! – escutei meu nome sendo chamado e virei minha cabeça em direção àquela voz tão conhecida.
- , o que está fazendo aqui? – franzi o cenho e logo ele me embraçava com seu corpo esguio e seu forte cheiro masculino.
- Eu senti que alguma coisa estava errada e sabia que era com você. – respondeu após me soltar – Não sei, foi como se estivesse com uma sensação ruim, ou um mau presságio.
“É o...” Gabriel começou a dizer quando eu o interrompi agressivamente.
“Se falar sobre destino outra vez, eu juro que te mato de novo e faço questão de fazê-lo lentamente.” O escutei engolir em seco e soube, então, que minha ameaça funcionara, enfim.
- E como me encontrou aqui? – perguntei tentando manter o foco na conversa e não nas águas profundas que me esperavam lá em baixo.
- Bem, eu te procurei em tudo quanto é canto, em algum lugar você tinha que estar, não é mesmo? – ele riu sem humor e pegou em minha mão calorosamente – Agora esqueça essa besteira e vamos embora, sim?
- Eu... Eu não posso. – forcei minha mão para trás quando seu corpo tentou puxar o meu – Tenho que fazer isso. É para o bem de todos.
- Para quem, ? Não é para o meu. Não é para o seu. – o tom de sua voz aumentava gradativamente – Quem se beneficiaria com a sua morte e, consequentemente, com meu sofrimento?
Meu coração se contorceu com suas palavras.
- A família calorosa que está esperando por um filho ou filha, . Ou uma geração inteira que está esperando para eu continuá-la. – acariciei seu rosto ternamente – Milhares e milhares de almas dependem de minha decisão para continuarem com suas funções. Não posso simplesmente apertar o botão “foda-se” e continuar aqui nesta reencarnação. Eu tenho que voltar.
Virei-me de costas, mas fui impedida de continuar mais uma vez.
- Mas eu te amo. – o sussurro de soou tão sincero que não pude deixar de encará-lo de volta e sorrir.
- Então me ame. – me surpreendia o fato de eu estar tão serena em um momento como esse. Porém, meu coração e minha respiração ficaram, de alguma forma, tão calmos que não tive coragem de tirá-los deste estado de paz.
Até parecia que meu corpo sabia da decisão que eu havia tomado...
E ele não estava triste por eu fazê-lo.
- Mas eu vou sentir sua falta. – os olhos de meu único e verdadeiro amor estavam vermelhos de tanta dor e sofrimento que sentia. Voltei a me aproximar, envolvendo seu pescoço com meus braços e acariciando sua nuca.
- Então sinta. – aproximei-me lentamente de seu rosto e colei nossos lábios. Os movimentos eram calmos, certos. Naquele instante, tudo o que existia éramos nós dois: não havia futuro, passado ou nada do gênero. Só aquele pequeno espaço de tempo.
E nada pareceu mais certo do que aquilo.
Separamo-nos, talvez, cedo demais. Mas eu sabia que já era hora de partir.
De costas, eu dava passos tranquilos em direção à beirada, quase não sentindo mais o chão aos meus pés. Sorri largamente, abrindo meus braços como se estivesse, de alguma forma, libertando-me.
- E quando sentir saudade... – recomecei a falar, fitando ao meu amado com sentimento e devoção nunca sentidos por minha pessoa – Mande todo o amor e carinho que conseguir transmitir às minhas memórias, para, então... – parei de andar por um segundo para finalizar e lhe transmitir toda a segurança que sentia e que queria que ele sentisse também – Me esquecer.
Vazio. Por alguns segundos, era tudo o que se encontrava ao meu redor. A força da gravidade me puxava para baixo, mas aqueles instantes no ar foram o suficiente para sentir-me bem comigo mesma.
Com a sensação de missão cumprida.
Não existia céu, terra ou inferno. Não existia mais destino, imortalidade ou paraíso. Eu estava livre. Voando sem direção, sem objetivo. Deixei meu corpo continuar a cair em um caminho sem fim, meus braços abertos para receber o futuro sem nenhum tipo de arrependimento.
Olhei para cima. Pude ver ajoelhado na beirada da ponte, uma de suas mãos esticadas para mim como se ele ainda pudesse me salvar, seu rosto já encharcado pelas cascatas que seus olhos deixavam escapar sem parar. Sorri. Queria poder lhe dizer, infinitamente, tudo o que sentira nos momentos preciosos que passara com ele, o que sentia naquele instante e o que sempre sentiria por sua pessoa. Queria poder lhe dizer que nos encontraríamos novamente, que lágrimas não eram necessárias. Queria poder lhe dizer que eu não estava triste por morrer. Eu estava feliz.
Mas meu tempo havia acabado muito antes de termos nos encontrado pela primeira vez nesta vida. E estava em paz com o fato.
Logicamente que eu daria tudo para ter um pouco mais de tempo em seus braços, fechando os olhos para sentir seu cheiro masculino adentrar minhas narinas e seu calor penetrar em meu corpo. E sei também que deveria me culpar por pensar desta maneira em meus momentos finais: só eu sabia o quão ruim fora a minha decisão de ressuscitar e tentar viver outra vez. Porém, apesar de ter passado quase todo o tempo de minha ressuscitação fugindo de anjos-da-guarda brutamontes e tentando me decidir entre ficar com ou voltar... Eu não me arrependia de nada.
Pois se não o tivesse feito, nunca poderia ter conhecido o amor de toda a minha eternidade.
O baque logo veio. Meu corpo ficou encharcado, meus pulmões rapidamente se enchiam d’água. Agradeci a D’us por não estar sentindo nenhuma espécie de dor. Harmonia, felicidade, tranquilidade? Sim. Mas não dor. Fui fechando meus olhos devagar, deixando-me afundar em sua imensidão silenciosa. Lembro-me de ter como última imagem , com seu sorriso torto e risada gostosa de escutar. Na miragem, ele esticava a mão em minha direção, em gesto de parceria e companhia. Sorri e aceitei seu convite de amor eterno e imortal, esticando também minha mão e entrelaçando seus dedos nos meus.
E, então, o nada. Eu já estava morta.
Algumas décadas depois...
- ! –a mãe gritava em sua direção, mas a garota não queria parar. Ela ria com gosto, às vezes olhando para trás para ver se a mais velha ainda estava em sua perseguição pelo parque.
A menina realmente era uma criança de 12 anos muito levada.
Só parou quando trombou com outra pessoa. Sacudiu a cabeça desorientada, a saia toda suja por ter caído no chão. Levantou-se rapidamente e estava pronta para xingar aquele com quem havia trombado quando foi interrompida:
- Não vi você aí, desculpa. – fitou o garoto à sua frente. Ele era de mesma estatura do que ela, com cabelos rebeldes e roupas sujas, provavelmente, de tanto brincar. Seus olhos a encaravam com certo brilho e a garota franziu o cenho com isso.
- Você tá se desculpando? – ela cruzou os braços, erguendo uma das sobrancelhas e o encarando com seus olhos e curiosos – Essa é boa. Nunca vi um garoto se desculpar por algo.
- Fui educado por meus pais o suficiente para reconhecer meus erros. – ele abriu um sorriso torto e a menina sentiu as bochechas queimarem levemente – Qual é o seu nome?
- . – ela engoliu em seco, coçando o braço com certo nervosismo – E o seu?
- Pode me chamar de . – seu riso fez as pernas femininas tremerem ligeiramente – Então... Posso me desculpar com um sorvete? – ele sorriu travesso.
- Creio que esse é o início de uma longa e bela amizade, . – a garota envolveu os ombros do garoto com um dos braços e ambos seguiram em direção à sorveteria, seus risos ecoando pelo parque como se fossem os únicos residentes do local.
E este sim é o final perfeito que a história merece.
Ou será apenas o começo?

